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Estruturas de Concreto – Projeto estrutural de sapatas 23

4. EXEMPLOS

Exemplo 1: Sapata Isolada

Neste exemplo, deseja-se projetar uma sapata isolada rígida para um pilar de
seção retangular 25cm x 40cm, cujas armaduras e esforços solicitantes junto à
fundação já foram determinados previamente.

M
N

Figura 4.1: Sapata isolada com carregamento centrado

Dados para o projeto estrutural da sapata:

Esforços solicitantes no pilar junto à fundação:

Esforços nominais Esforços do ELU (combinação mais crítica)


NK = 920 kN NSd = 1288 kN
MK = 74,0 kN.m MSd = 100,0 kN.m
(em torno do eixo de maior inércia) (em torno do eixo de maior inércia)

Armaduras longitudinais do pilar: As,pilar = 10φ12,5

Tensão admissível do solo: σsolo,adm = 200kN/m2

Concreto da sapata: C20


Aço das armaduras da sapata: CA-50
Cobrimento das armaduras da sapata: 4,5 cm

Determinação das dimensões da sapata em planta:

Será adotado um acréscimo de 10% sobre a ação vertical atuante, para levar em
conta o peso próprio da sapata. Com base na pressão admissível do solo, pode-se
fazer uma estimativa da área da sapata supondo a mesma sob carga centrada:

1,10 × Nk 1,05 × 920


A= = = 5,06 Portanto, A = 5,06 m2.
σ solo,adm 200

Sempre que for possível, opta-se pelo critério de dimensionamento econômico.


Para tal, consideram-se iguais os balanços nas duas direções ortogonais, propiciando
áreas de armaduras aproximadamente iguais nessas direções (figura 4.2).
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Ly = x
ap
b bp

Lx = x

a
Figura 4.2: Dimensões da sapata em planta

L x = L y = x (balanços iguais)
(a − bp ) (a − bp )
2
(0,40 − 0,25 ) (0,40 − 0,25 )
2
a= + +A = + + 5,06
p p

2 4 2 4
a = 2,326m
A 5,06
b= = = 2,176m
a 2,326

Entretanto, as dimensões da sapata devem ser um pouco maiores, a fim de levar em


conta o efeito do momento fletor. Escolhendo dimensões múltiplas de 5cm, serão
testadas as seguintes dimensões:

a = 2,55m e b = 2,40m ⇒ A = 6,12 m2

Para verificar se a força normal se encontra dentro do núcleo central, basta verificar a
excentricidade:

74 2,55
e= = 0,084m < = 0,425m ⇒ não há tensões de tração na sapata
920 6

O módulo de resistência à flexão é calculado por:

2,55 2 × 2,40
W= = 2,601m 3
6

A tensão máxima de compressão sobre a sapata é calculada por:

1,10 × Nk Mk 1,10 × 920 74


σ máx = + = + = 193,8kN / m 2 < 200kN / m 2
A W 6,12 2,601

Portanto, a tensão admissível do solo está sendo respeitada.

Os balanços são determinados por geometria:


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a = a p + 2x
b = b p + 2x

Substituindo valores, encontra-se x = 1,075m (nas duas direções)

Determinação da altura da sapata

Para projetar a sapata como rígida, a mesma deve ter altura mínima de:

(a − a ) (2,55 − 0,40)
h≥ = = 0,717m
p

3 3
(a − ap ) (2,40 − 0,25 ) = 0,717m
h≥ =
3 3

A altura da sapata deve ser suficiente para permitir a correta ancoragem da


armadura longitudinal do pilar. O comprimento de ancoragem reto de barras
comprimidas, em zona de boa aderência, para concreto C20 e aço CA 50A (vide tabela
3.2), vale:

lb = 44φ = 44 × 1,25 = 55 cm

lb h

Figura 4.3: Ancoragem das armaduras de arranque do pilar

Portanto, a altura h da sapata deve assumir um valor que cubra os 55cm de


comprimento de ancoragem das barras do pilar, além do cobrimento das armaduras do
pilar e das armaduras da sapata.

h ≥ 55 + 4,5 = 59,5cm

Das restrições do comprimento de ancoragem e da rigidez escolhida para a sapata:

h ≥ 71,7cm

Será adotado inicialmente h = 75cm. Nos cálculos, será adotada uma altura útil média
nas duas direções igual a d = 69cm. Para a altura da extremidade da sapata, será
adotado h0 = 25cm

Dimensionamento das armaduras na sapata


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• Armaduras longitudinais:

i) Determinação dos momentos fletores nas seções de referência S1:

Direção x:
S1x
Lx
0,15ap

a
La

p a,mín
pa,S1
pa,máx

Figura 4.4: Seção de referência para cálculo do momento fletor

Segundo a direção x (paralela ao lado “a”):

L a = L x + 0,15 ⋅ a p = 1,075 + 0,15 ⋅ 0,40 = 1,135 m


1,10 × NSd MSd 1,10 × 1288 100
σ máx = + = + = 270,0kN / m 2
A W 6,12 2,601
1,10 × NSd MSd 1,10 × 1288 100
σ mín = − = − = 193,1kN / m 2
A W 6,12 2,601
p a,máx = 270,0kN / m × 2,40 = 648kN / m
2

p a,mín = 193,1kN / m 2 × 2,40 = 463kN / m

Por geometria, encontra-se que

p a,S1 = 566kN / m
566 × 1,135 2 (648 − 566 ) 2
MSda = + × 1,135 × × 1,135 = 399,80kN.m
2 2 3

Da mesma forma, segundo a direção paralela ao lado “b”:

L b = L y + 0,15 ⋅ bp = 1,075 + 0,15 ⋅ 0,25 = 1,113 m


270,0 + 193,1
σ máx = σ mín = = 231,55kN / m 2
2
p a,máx = p a,mín = 231,55 × 2,55 = 590 kN/m
590 × 1,113 2
MSdb = = 365,44 kN.m
2
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ii) Determinação da área total das armaduras inferiores:

Será utilizada a expressão simplificada no cálculo armaduras longitudinais:

Md
As =
0,8 ⋅ d ⋅ fyd

Na direção paralela ao lado “a” tem-se:

39980
A sa = = 16,65 cm 2
0,8 ⋅ 69 ⋅ 43,5
A sa,min = 0,0015 × b w h = 0,0015 × 240 × 75 = 27,00 cm 2 > As,a

Será adotada, como base, a área da armadura mínima, pois seu valor excede ao da
armadura calculada. Utilizando barras de 12,5mm de diâmetro:

22 φ 12,5 (Asef = 26,99 cm2)

Avaliando o espaçamento entre as barras:

240 − 6 − 6
s= = 10,86cm
22 − 1

O valor encontrado é menor que o espaçamento máximo permitido pela NBR 6118:

⎧20cm
s máx = maior valor entre ⎨ portanto smáx = 20cm (ok!)
⎩2h = 150cm

Na direção paralela ao lado “b” tem-se:

36540
A s,b = = 15,22 cm 2
0,8 ⋅ 69 ⋅ 43,5
A s,b,min = 0,0015 × b w h = 0,0015 × 255 × 75 = 28,69 cm 2 > As,b

Portanto, prevalece a área da armadura mínima. Assim, utilizando barras de 12,5mm


de diâmetro:

24 φ 12,5 (Asef = 29,45 cm2)

Avaliando o espaçamento entre as barras:

255 − 6 − 6
s= = 10,57cm < smáx = 20cm (ok!)
24 − 1
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Dimensionamento ao cisalhamento:

• Verificação da ruptura por compressão diagonal:

A tensão resistente é calculada por:

τ Rd2 = 0,27.α v .fcd


fck 20 fck 2,0
α v = 1− = 1− = 0,92 fcd = = = 1,429kN / cm 2
250 250 γ c 1,4
τ Rd2 = 0,27 × 0,92 × 1,429 = 0,355kN / cm 2

A tensão solicitante é obtida a partir de:

u = 2 × (25 + 40) = 130cm


Fsd
τSd = com Fsd = 1,1× 1288 = 1417kN
u×d
1417
τ Sd = = 0,158kN / cm 2
130 × 69

Como τ Sd ≤ τ Rd2 ⇒ (ok!)

• Armadura transversal (Força cortante):

A verificação do esforço cortante é feita numa seção de referência S2, distante


d/2 da face do pilar.

S2
S2 d/2 L2

ap
bp

75
h=?
25cm

Planta Elevação

i) Direção paralela à maior dimensão “a”:

Por semelhança de triângulos, calcula-se a altura útil média na seção de referência S2:

69 − 19 dS 2 − 19
=
69 107,5 107,5 − 34,5
dS2
19
Resolvendo a equação, obtém-se
34,5
107,5 dS2 = 52,95cm
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a − ap d
L2 = − = 1,075 − 0,345 = 0,73 m
2 2
bS2 = 2,40m

Direção x:
Lx
d/2

S2

a
L2

p a,mín
pa,S2
pa,máx

p a,máx = 648kN / m
p a,mín = 463kN / m
p a,S 2 = 595kN / m (por geometria)

⎛ 595 + 648 ⎞
VSd = ⎜ ⎟ × 0,73 = 453 ,70 kN
⎝ 2 ⎠

A dispensa de armadura transversal para a força cortante é permitida, segundo a


NBR 6118:2003, se a força cortante solicitante de cálculo VSd for menor que a
resistência de projeto ao cisalhamento VRd1:

VSd ≤ VRd1 com VRd1 = τRd.k.(1,2 + 40ρ1 ).bS2 .dS2

τRd = 0,0375.fck = 0,0375 × (20 ) = 0,276MPa


2/3 2/3

k = 1,6 − dS 2 = 1,6 − 0,5295 = 1,075


As 26,99
ρ1 = = = 0,0199
b S2 dS2 240 × 52,95

Retornando ao cálculo da cortante resistente que dispensa a armadura transversal:

VRd1 = 0,0276 × 1,075 × (1,2 + 40 × 0,00199 ) × 240 × 52,95 =


VRd1 = 484,49kN > VSd = 453,70kN(ok! )

∴ Não há necessidade de armadura transversal para a força cortante


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ii) Na direção paralela à menor dimensão “b”:

Realizando as verificações no eixo de menor dimensão

p a,máx = p a,mín = 590kN / m


VSd = 590 × 0,73 = 430 ,70 kN
dS2 = 52,95cm
bS2 = 255cm
As 29,45
ρ1 = = = 0,0218
b S2 dS2 255 × 52,95
VRd1 = 0,0276 × 1,075 × (1,2 + 40 × 0,00218 ) × 255 × 52,95
VRd1 = 515,7N > VSd = 430,70kN(ok! )

⇒ não há necessidade de armadura transversal para a força cortante.


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• Verificação das tensões de aderência

Considera-se, para a verificação da aderência, a armadura paralela ao lado “a”, na


seção S1 definida para o cálculo das armaduras longitudinais da sapata:

⎛ 648 + 566 ⎞
VSd,1 = ⎜ ⎟ × 1,135 = 689kN
⎝ 2 ⎠
VSd,1 689
τ bd = = = 0,128kN / cm 2 = 1,28 MPa
0,9.d.(n.πφ) 0,9 × 69 × (22 × π × 1,25 )

Conforme mencionado no item 3.6 deste texto, a tensão de aderência atuante não deve
ultrapassar a resistência de aderência de cálculo fbd, prescrita pela NBR 6118:2003:

fbd = η1η2 η3 fctd


com
fctd = 0,15.fck
2/3
(MPa)

Neste caso, as barras longitudinais da sapata são nervuradas, com situação de boa
aderência e diâmetro menor que 32mm. Logo:

η1 = 2,25 (barras nervuradas)


η2 = 1,0 (situação de boa aderência)
η3 = 1,0 (φb < 32mm);

Substituindo valores:

fbd = 2,25 × 1,0 × 1,0 × 0,15 × (20 ) = 2,49MPa > τ bd = 1,28MPa(ok! )


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DETALHAMENTO DA SAPATA – EXEMPLO 1

Dimensões gerais:
255

A A
240

PLANTA

75

25
5
Lastro de concreto magro

ELEVAÇÃO

Armaduras da sapata:

CORTE AA

N2 N1

16 N1 - 22Ø12,5 c/11 (275) 16


243

CORTE BB

N2

N1
16 N2 - 24Ø12,5 c/10,5 (260) 16
228