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L’OSSERVATORE ROMANO
EDIÇÃO SEMANAL EM PORTUGUÊS
Unicuique suum Non praevalebunt
Ano LI, número 16 (2.613) Cidade do Vaticano terça-feira 21 de abril de 2020

Missa do Pontífice na igreja de Santo Espírito “in Sassia” para a festa instituída por João Paulo II

Contra o vírus do egoísmo


A misericórdia
salvação do mundo
ANDREA MONDA
misericórdia não abando-

«A na quem fica para trás»,


recordou o Papa na ho-
milia de domingo, durante a missa
celebrada na igreja do Espírito Santo
“in Sassia”, Santuário da Divina Mi-
sericórdia. Poder-se-ia acrescentar: a
misericórdia é aquilo que nos torna
humanos. Se num grupo de animais
que migram um pára porque está
cansado, doente, ferido, os outros
não esperam por ele, não se impor-
tam, abandonam-no. Ao contrário
dos seres humanos. Naquele momen-
to, quando alguém cai, irrompe algo
na alma e nas ações que soa humano
e ao mesmo tempo mais do que hu-
mano, e que dá outra direção, outra
dimensão à cadeia de eventos natu-
rais. Acontece que paramos para es-
perar pelo outro. Este “algo”, huma-
no e mais do que humano, é a mise-
ricórdia, que do homem mostra um
rosto maior, um rosto divino. Nas
narrações dos Evangelhos, pratica-
mente em cada página, pode-se ver
este semblante, que é a face de Cris-
to, verdadeiro Deus e verdadeiro ho-
mem, que mostra de que “massa” são
feitos os homens, a sua, embora mui-
tas vezes o esqueçam.
No Evangelho Jesus caminha so-
bretudo com um ritmo urgente e
premente, move-se de cidade em ci-
dade para pregar (a este respeito, é
exemplar o filme de Pasolini, inspi-
rado no texto de Mateus) e muitos
procuram acompanhá-lo, mas não
te, é verdadeiramente inalcançável e, tro precisamente daqueles que al- que ganha não se troca”, mas Jesus,
conseguem: coxeiam ou, pior ainda,
no entanto, decide regressar para re- guns dias antes o tinham abandona- ao contrário, inverte a lógica: não se
procuram superá-lo, limitando-o nos
tomar os seus, os “irmãos” como do, negado, traído. Escolha surpre- troca exatamente na equipe que per-
seus pequenos projetos de poder.
lhes chama (e só depois da ressurrei- endente! No mundo desportivo, as de. É a esta equipe que se deve dar
No início de Simone Bariona (“Si-
ção usa este termo), e vai ao encon- pessoas dizem muitas vezes “equipe confiança, transmitir esperança. E
mão, filho de Jonas”), a bonita his-
tória dedicada às memórias de São assim volta precisamente aos seus,
Pedro idoso, o escritor italiano Fer- não os abandona. E se por acaso um
ruccio Parazzoli faz com que o pro- só deles estiver ausente, regressa de
tagonista diga: «Mais um pouco de NESTE NÚMERO propósito ao seu encontro, à última
paciência, Senhor, bem sei que eu ovelha perdida, Tomé, a quem deixa
chegava sempre atrasado». Com Pág. 2: Manifesto de líderes católicos da América Latina; Cam- tocar as feridas, “fendas de esperan-
efeito, o ritmo de Jesus é difícil de panha de solidariedade da Igreja no Brasil; Cristo Redentor ça”, e é precisamente sua, recorda o
seguir, também porque é desnor- vestido de médico; pág. 3: Audiência geral de 15 de abril; pág. Papa, «a mais simples e bonita pro-
teante, paradoxal, e escapa sempre 4: Criados cinco grupos de trabalho pelo Dicastério para o Ser- fissão de fé»: «Meu Senhor e meu
viço do Desenvolvimento humano integral, por Massimo Meni- Deus!». É graças a este cuidado
às tentações ideológicas, indo sem-
chetti; pág. 5: Carta do Papa aos participantes nos encontros atento do seu pastor, a este amor pa-
pre “além”, como está escrito no iní-
mundiais dos Movimentos populares; págs. 6/7: Entrevistado ciente e misericordioso do Mestre,
cio do Evangelho de Marcos; contu-
por Austen Ivereigh, o Papa explicou como vive a emergência que depois os discípulos poderão fa-
do, quando vê que uma das suas
da Covid-19; pág. 8: A atualidade de «O homem que plantava
ovelhas perde o seu caminho, pára zer o que fizeram a partir do dia de
árvores» de Jean Giono, por Sérgio Suchodolak; pág, 9: Em
sempre e volta para a salvar. É o que Pentecostes: recomeçar com ímpeto
diálogo com o escritor Daniel Mendelsohn, por Andrea Mon-
acontece nas narrações dos Evange- e evangelizar o mundo com coragem
da; pág. 10: Comunicado da Congregação para a educação ca-
lhos do período da Páscoa, relacio- e alegria invencíveis no coração. Eis
tólica; pág. 11: Informações; Intenção de oração para abril; pág.
nadas com as aparições do Ressusci- o ponto essencial do cristianismo: o
12: Missa do Pontífice na igreja de Santo Espírito “in Sassia”.
tado. Com efeito, Jesus deu o passo
mais longo de todos, venceu a mor- CONTINUA NA PÁGINA 0
página 2 L’OSSERVATORE ROMANO terça-feira 21 de abril de 2020, número 16

Assinado por 170 personalidades, promove ações que têm como prioridade a proteção dos mais débeis e vulneráveis

Manifesto de líderes católicos da América Latina


Enfrentar a difícil realidade atual a piritual será também fundamental e concertada. Não existe um “salve-se bia, Brasil e Argentina/Chile). Por-
partir de um ponto de vista cristão muito saudável, razão pela qual é quem puder”, por conseguinte os or- tanto, é muito importante «a coope-
comum e agir em conformidade com necessário envolver as igrejas no ganismos multilaterais devem assu- ração do Banco Mundial, do Banco
ele, tendo sempre como prioridade a acompanhamento daqueles que vi- mir a responsabilidade e a liderança. Inter-americano de Desenvolvimen-
proteção dos mais débeis e vulnerá- vem situações traumáticas ou estres- As igrejas devem ser portadoras e, to e do Banco Latino-americano de
veis, e promover uma maior coope- santes»; «a economia deve demons- na sua extensão, executoras destas Desenvolvimento». No mesmo sen-
ração e integração numa base inter- trar a sua capacidade para enfrentar medidas».
tido, a dívida externa dos países de-
nacional. Este é o apelo contido no o desafio sem precedentes. Nem as É um momento fundamental,
ve ser reestruturada e adiada a lon-
“Manifesto dos católicos latino-ame- ideologias nem as ortodoxias tradi- afirma ainda o Manifesto, para re-
cionais podem ter precedência sobre forçar os mecanismos de integração go prazo com a solidariedade dos
ricanos com responsabilidades políti-
a realidade. É preciso criatividade (Aliança do Pacífico, Mercosul, Sis- credores: estamos seguramente nu-
cas”, assinado por 170 personalida-
para resistir e depois superar a cri- tema de Integração Centro-America- ma situação muito grave no nosso
des, incluindo três ex-chefes de Esta-
do, um ex-secretário da Organização se»; «os líderes políticos das diferen- na) e as relações de cooperação en- planeta, provavelmente o maior de-
dos Estados Americanos, um ex-di- tes nações da América Latina devem tre países com as maiores popula- safio que nós, enquanto geração, vi-
retor do Fundo Monetário Interna- procurar uma ação coordenada e ções do continente (México, Colôm- veremos na nossa história.
cional e vários parlamentares e ex-
deputados. A iniciativa foi promovi-
da pela Academia de Líderes católi-
cos, nascida no Chile e atualmente
presente em vários países da Améri-
ca Latina. É dirigido por um Conse-
É tempo de cuidar
lho Latino-americano cujos membros Campanha de solidariedade da Igreja no Brasil
são o teólogo Rodrigo Guerra Ló-
pez, o filósofo Rocco Buttiglione,
Ignacio Sánchez, reitor da Pontifícia Com o lema “É tempo de cuidar”, Evangelho de São Lucas (10, 33-34): Horizonte, neste momento particu-
Universidade Católica do Chile, a começou a nível nacional a iniciati- «Viu, sentiu compaixão e cuidou lar que o país vive, a solidariedade
presidente da Confederação Latino- va denominada “Ação solidária dele». Além de incentivar a ajuda «é o selo de autenticidade da vida
americana de Religiosos, Liliana emergencial”, promovida pela Con- material às pessoas, a Ação solidá- dos verdadeiros cristãos, o compro-
Franco Echeverri, Guzmán Carriqui- ferência nacional dos bispos do ria emergencial visa promover tam- misso indispensável dos cidadãos, a
ry, vice-presidente emérito da Ponti- Brasil e pela Cáritas para estimular bém a assistência nos campos reli- primeira tarefa dos governantes, a
fícia Comissão para a América Lati- a solidariedade, com a coleta de ali- gioso, humano e emocional. Deste ocasião para a conversão dos ricos,
na, e José Antonio Rosas, diretor-ge- mentos, e de produtos de higiene e modo, o Episcopado une-se a várias o único caminho novo para a paz e
ral da Academia. limpeza. iniciativas e projetos de solidarieda- o equilíbrio, de que o planeta preci-
«O nosso olhar — lê-se no Mani- Em sintonia com a Campanha de de que já estão em curso em todo o sa urgentemente».
festo — provém da dor daqueles que fraternidade da quaresma de 2020, país. Devido à pandemia do coronaví-
sofrem e sofrerão mais com esta pan- com o tema: “Fraternidade e vida: Segundo o presidente da Confe-
rus, grande parte da população bra-
demia: os pobres, os sozinhos e dom e compromisso”, a iniciativa rência episcopal, D. Walmor Olivei-
sileira, como os desabrigados, os
abandonados, os mais débeis e vul- mantém a inspiração bíblica do ra de Azevedo, arcebispo de Belo
migrantes e refugiados, quantos vi-
neráveis, os mais pobres e indefesos, vem em habitações precárias, bem
aqueles que serão mais duramente como os desempregados e os traba-
atingidos pela pandemia. Basta pen- lhadores informais, que atualmente
sar no impacto dramático que terá Agradecimento aos profissionais de saúde veem as suas fontes de rendimento
nas multidões de irmãos latino-ame- gravemente afetadas, enfrentam
ricanos que sobrevivem apenas atra-
vés do trabalho não declarado e, em Cristo Redentor vestido de médico uma realidade de extrema precarie-
dade e vulnerabilidade. Portanto, a
geral, do trabalho de rua, ou nas ação promovida pela Igreja no Bra-
tantas pessoas idosas abandonadas. sil quer multiplicar os gestos de so-
São os pobres que têm de sair de ca- lidariedade nas comunidades, na in-
sa para ganhar o seu pão de cada
dústria, no comércio e nas famílias,
dia e que muitas vezes não conse-
a fim de que estas pessoas possam
guem observar as regras de isola-
ser assistidas e, por sua vez, consi-
mento e quarentena». Uma leitura
gam cuidar das suas próprias famí-
autêntica da realidade, continua o
lias.
documento, é ditada pelas escolhas
feitas a partir da escolha de Cristo A Cáritas do Brasil trabalha na
Jesus: «Por conseguinte, todas as orientação das dioceses, paróquias e
ações e compromissos para enfrentar comunidades, sobre os protocolos
a crise devem ser assumidos a partir de segurança a seguir, de modo que
do ponto de vista do impacto sobre os donativos sejam recebidos e en-
os mais vulneráveis». tregues de forma adequada às pes-
No domingo de Páscoa a estátua do Cristo Redentor, colocada no topo soas e famílias necessitadas, durante
Concretamente, de acordo com os da colina do Corcovado com vista para o Rio de Janeiro, foi vestida —
signatários do Manifesto, «a solida- este período de risco de contágio.
ou melhor, iluminada com a imagem — de um uniforme de médico com
riedade deve ser organizada entre di- «Vivemos um momento muito difí-
o estetoscópio ao redor do pescoço. Na parte inferior, a palavra “Obri-
ferentes áreas territoriais e entre dife- gado” foi projetada em muitas línguas. Desta forma a Igreja brasileira cil no nosso país e no mundo — sa-
rentes países». A pandemia não atin- quis homenagear os médicos e os profissionais da saúde que trabalham lientou Carlos Humberto Campos,
ge todo o território nacional com arduamente durante este período no combate ao contágio e no trata- diretor da Cáritas do Brasil — um
igual força; «os meios de comunica- mento dos doentes afetados pela Covid-19. momento de sofrimento. A Cáritas
ção social devem ser envolvidos ten- Sobre a estátua foram projetadas também mensagens de ação de gra- tem como objetivo valorizar e sal-
do em vista o bem comum, evitando ças e de esperança em várias línguas, com as bandeiras dos países mais var a vida. É com este sentimento
o sensacionalismo a fim de contri- afetados, e imagens de muitos médicos e enfermeiros, para além do que participamos na campanha de
buir para um clima consciente do apelo aos cidadãos para ficar em casa. Segundo os boletins diários do emergência, denominada “É tempo
risco, mas sereno e auto-confiante»; ministério da Saúde, o Brasil detém o triste recorde na América Latina, de cuidar”. A ação solidária emer-
«para além do acompanhamento tanto no que diz respeito ao número de contágios como de mortes rela- gencial terá também mobilização
psicológico, o acompanhamento es- cionadas com o coronavírus. nas redes sociais.

L’OSSERVATORE ROMANO ANDREA MONDA TIPO GRAFIA VATICANA EDITRICE


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número 16, terça-feira 21 de abril de 2020 L’OSSERVATORE ROMANO página 3

CATEQUESE

O Papa retomou as catequeses sobre as bem-aventuranças

A paz deve ser procurada


a qualquer preço
«O amor é sempre criativo e procura a reconciliação a qualquer preço»; por
isso «são chamados filhos de Deus aqueles que aprenderam a arte da paz e a
exercem», sabendo «que não há reconciliação sem doar a própria vida, e que
a paz deve ser procurada sempre e apesar de tudo», frisou o Papa na
audiência geral de quarta-feira, 15 de abril. Renovando o encontro semanal da
Biblioteca do Palácio apostólico do Vaticano com os fiéis que o seguiam através
da rádio, da televisão e da web — por causa das medidas impostas pela
pandemia da Covid-19 — o Pontífice retomou as catequeses sobre o tema das
Bem-aventuranças. E comentando o trecho bíblico tirado da carta de São
Paulo aos Efésios (2, 14-16) analisou a sétima: «Bem-aventurados os
pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus» (Mt 5, 9).

Bom dia, estimados irmãos e conduzir à salvação. E nesse mo- rajevo, 6 de junho de 2015; Discurso chamados filhos de Deus aqueles
irmãs! mento parece que não temos paz, ao Pontifício Conselho para os Textos que aprenderam a arte da paz e
mas é o Senhor que nos coloca Legislativos, 21 de fevereiro de que a praticam, sabem que não há
A catequese de hoje é dedicada à
neste caminho para alcançarmos a 2020). Devemos pelo menos sus- reconciliação sem o dom da pró-
sétima bem-aventurança, a dos “pa-
paz que Ele próprio nos concederá. peitar que, no contexto de uma pria vida, e que a paz deve ser pro-
cificadores”, que são proclamados globalização feita sobretudo de in-
filhos de Deus. Regozijo-me por Neste ponto devemos recordar curada sempre e de todas as for-
que o Senhor entende a sua paz teresses económicos ou financeiros, mas. Sempre e de todas as formas:
ela se realizar imediatamente após a “paz” de uns corresponde à
a Páscoa, porque a paz de Cristo é como diferente da humana, a do não vos esqueçais disto! Deve ser
mundo, quando diz: «Deixo-vos a “guerra” de outros. E esta não é a procurada assim. Esta não é uma
fruto da sua morte e ressurreição, paz de Cristo!
como ouvimos na Leitura de São paz, dou-vos a minha paz. Não vo- obra autónoma, fruto das próprias
Paulo. Para compreender esta bem- la dou como o mundo a dá» (Jo Ao contrário, como “dá” a sua capacidades; é manifestação da
aventurança, é preciso explicar o 14, 27). A de Jesus é outra paz, di- paz o Senhor Jesus? Ouvimos São graça recebida de Cristo, que é a
ferente da paz mundana. Paulo dizer que a paz de Cristo é nossa paz, que nos fez filhos de
sentido da palavra “paz”, que pode
Perguntemo-nos: como dá o “fazer de dois, um só” (cf. Ef 2, 14), D eus.
ser mal entendido ou, às vezes, ba-
mundo a paz? Se pensarmos nos anular a inimizade e reconciliar. E
nalizado. O verdadeiro shalom e o autênti-
conflitos bélicos, normalmente as o caminho para realizar esta obra
Devemos orientar-nos entre duas co equilíbrio interior brotam da
guerras terminam de duas manei- de paz é o seu corpo. Com efeito,
ideias de paz: a primeira é a bíbli- Ele reconcilia todas as coisas e faz paz de Cristo, que vem da sua
ras: ou com a derrota de uma das Cruz e gera uma nova humanida-
ca, onde aparece a maravilhosa pa- duas partes, ou com tratados de as pazes com o sangue da sua cruz,
lavra shalom, que exprime abun- como o mesmo Apóstolo diz nou- de, encarnada numa infinita plêia-
paz. Só podemos esperar e rezar de de Santos e Santas, inventivos e
dância, prosperidade, bem-estar. para que se siga sempre este segun- tro lugar (cf. Cl 1, 20).
Quando em hebraico se deseja sha- criativos, que conceberam formas
do caminho; mas temos de consi- E aqui interrogo-me: todos po-
lom, deseja-se uma vida boa, plena, sempre novas de amar. Os Santos e
derar que a história é uma série in- demos perguntar-nos: portanto,
próspera, mas também de acordo as Santas que edificam a paz. Esta
terminável de tratados de paz des- quem são os “pacificadores”? A sé-
com a verdade e a justiça, as quais mentidos por guerras sucessivas, tima bem-aventurança é a mais ati- vida de filhos de Deus, que pelo
terão cumprimento no Messias, ou pela metamorfose destas mes- va, explicitamente operativa; a ex- sangue de Cristo procuram e reen-
Príncipe da paz (cf. Is 9, 6; Mq 5, mas guerras em outras formas ou pressão verbal é análoga àquela contram os seus irmãos, é a verda-
4-5). noutros lugares. Até no nosso tem- utilizada para a criação no primeiro deira felicidade. Bem-aventurados
Depois há o outro sentido, mais po, uma guerra “aos pedaços” é versículo da Bíblia e indica iniciati- aqueles que seguem este caminho.
generalizado, em que a palavra travada em vários cenários e de di- va e laboriosidade. O amor pela E de novo Feliz Páscoa a todos,
“paz” é entendida como uma espé- ferentes formas (cf. Homilia no Sa- sua natureza é criativo — o amor é na paz de Cristo!
cie de tranquilidade interior: estou crário Militar de Redipuglia, 13 de sempre criativo — e procura a re-
tranquilo, estou em paz. Esta é setembro de 2014; Homilia em Sa- conciliação custe o que custar. São «Com confiança rezemos a Jesus
uma ideia moderna, psicológica e Misericordioso pela Igreja e por toda
mais subjetiva. Pensa-se geralmente a humanidade, sobretudo por quantos
que a paz é sossego, harmonia, sofrem neste tempo difícil»: pediu o
equilíbrio interior. Este conceito da Papa no final da audiência geral —
palavra “paz” é incompleto e não nas saudações aos vários grupos
pode ser absolutizado, porque na linguísticos — recordando que
vida o desassossego pode ser um domingo se celebra a festa da Divina
importante momento de crescimen- misericórdia. A seguir, a saudação em
to. Muitas vezes é o próprio Se- língua portuguesa
nhor que semeia a inquietação em
nós para irmos ao seu encontro, Amados ouvintes de língua portu-
para o encontrarmos. Neste senti- guesa, «a paz do Senhor esteja
do, é um momento importante de com todos vós». Do túmulo onde
crescimento; enquanto pode acon- o fechamos, Cristo Jesus saiu para
tecer que a tranquilidade interior nós, para trazer a vida onde havia
corresponda a uma consciência do- morte. Ele ressuscitou para nós e
mesticada, e não a uma verdadeira não nos deixará faltar nada: apoia-
redenção espiritual. Muitas vezes o dos nesta certeza, conseguiremos
Senhor deve ser um “sinal de con- superar todas as dificuldades. De
tradição” (cf. Lc 2, 34-35), abalando novo, a todos desejo uma Páscoa
as nossas falsas certezas para nos feliz, na paz de Cristo!
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Criados cinco grupos de trabalho pelo Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento humano integral

O cardeal Turkson: pensar


no depois para não estar impreparados
MASSIMO MENICHETTI siste em substituir a ação das Igrejas
locais, mas em ajudá-las e ser por
A Igreja está na primeira linha em elas ajudados. Estamos ao serviço
todo o mundo para enfrentar as con- uns dos outros. Não compreendería-
sequências do coronavírus. Não só mos o tempo em que vivemos se não
necessidades de saúde, mas também o fizéssemos. Mas é sobretudo desta
económicas e sociais projetadas a forma que se manifesta a universali-
curto e a longo prazo. Enquanto as dade da Igreja.
vacinas e os tratamentos para erradi-
car a Covid-19 continuam a ser testa- Por que é importante pensar já hoje
dos, as previsões do Fundo Monetá- nas perspetivas futuras?
rio Internacional para 2020 falam de
uma queda de 3% do produto inter- Pensar imediatamente no que vem
no bruto mundial. A queda seria a seguir é importante para não estar-
pior do que a “Grande depressão” mos despreparados. A crise da saúde
dos anos 30. Neste cenário, o car- desencadeou uma crise económica. E
deal Peter Kodwo Appiah Turkson, a crise económica, se não for enfren-
prefeito do Dicastério para o serviço tada imediatamente, corre o risco de
do desenvolvimento humano inte- provocar uma crise social. A uma
gral, frisou que «uma crise corre o crise corre o risco de se seguir outra
risco de ser seguida por outra e de- e depois outras, num processo em
pois por outras, num processo em que seremos obrigados a aprender
que seremos obrigados a aprender lenta e dolorosamente a cuidar da
lenta e dolorosamente a cuidar da nossa casa comum, como o Papa
nossa casa comum, como o Papa Francisco tão profeticamente ensina
reuniões com o Santo Padre. Criá- para ver o amanhecer. E para isso
Francisco tão profeticamente ensina na encíclica Laudato si’. Há necessi-
mos um gabinete de direção, de or- precisamos de interligar as melhores
na encíclica Laudato si’». dade de coragem, de profecia. O Pa-
ganização para coordenar as iniciati- inteligências nas áreas da ecologia,
vas que dizem respeito à ação do da economia, da saúde e da previ- pa deixou isto claro na sua mensa-
Eminência, o Papa recebeu-o em au- hoje e as relativas à preparação do dência social. Precisamos da concre- gem Urbi et Orbi. Este não é o mo-
diência várias vezes para falar sobre a amanhã. O nosso é um serviço em tização da ciência e da profecia, da mento para indiferenças, egoísmos,
emergência do coronavírus. Qual foi a termos de ação e pensamento. Preci- criatividade. Devemos ir além. Este divisões; porque o mundo inteiro es-
preocupação que ele lhe manifestou? samos de ações concretas agora, e grupo trabalhará em estreita colabo- tá a sofrer e tem que se encontrar
estamos a fazê-lo. E temos de olhar ração com a Pontifícia Academia pa- unido para enfrentar a pandemia.
O Papa manifestou a sua preocu-
pação pelo momento atual, pela cri- para além do que hoje se passa, para ra a Vida, a Pontifícia Academia das Ao contrário, é tempo de diminuir
se mundial gerada pela Covid-19 e traçar o rumo da difícil navegação Ciências e a Pontifícia Academia das as sanções internacionais que inibem
pelos cenários dramáticos que se que nos espera. Se não pensarmos Ciências Sociais. O terceiro grupo a possibilidade de os países presta-
perfilam no horizonte. Disse-nos pa- no amanhã, voltaremos a encontrar- tem a tarefa de comunicar o nosso rem um apoio adequado aos seus ci-
ra não perdermos tempo, para come- nos despreparados. Tomar medidas trabalho, e de construir — através da dadãos. É tempo de permitir que to-
çarmos a trabalhar imediatamente, hoje e pensar no amanhã não são comunicação — uma nova consciên- dos os Estados satisfaçam as maiores
porque somos o Dicastério de refe- uma alternativa. Não estamos peran- cia, de chamar a um compromisso necessidades do momento. É tempo
rência. Devemos agir agora. E temos te um “aut aut” mas um “et et”. A renovado por intermédio da comuni- de reduzir, ou até de perdoar, o peso
que pensar imediatamente no que nossa equipa já iniciou uma colabo- cação. Uma secção do site do Hu- da dívida nos orçamentos dos Esta-
vai acontecer a seguir. ração com a Secretaria de Estado, man Development será dedicada à dos mais pobres. Chegou o momen-
com o Dicastério para a Comunica- comunicação do nosso grupo. O to de recorrer a soluções inovadoras.
Qual mandato foi conferido ao seu Di- ção, com a Caritas Internationalis, quarto grupo, coordenado pela Se- É tempo de encontrar a coragem de
castério e qual é a vossa missão? com as Pontifícias academias das cretaria de Estado, tratará de todas aderir ao apelo a um cessar-fogo
Ciências e para a Vida, com a Esmo- as iniciativas possíveis em matéria de global imediato em todos os cantos
O Santo Padre encarregou-nos de laria Apostólica, com a Congregação relações com os Estados ou multila- do mundo. Este não é o momento
duas tarefas principais. A primeira para a Evangelização dos Povos e terais. Também aqui há necessidade de continuar a fabricar e a traficar
diz respeito ao hoje: a necessidade com a Farmácia do Vaticano. Com o de ação concreta e de profecia. O armas, gastando enormes quantias
de oferecer prontamente, com solici- nosso grupo criámos uma modalida- quinto grupo será responsável por de capital que deveriam ser utiliza-
tude, com urgência, o sinal concreto de de certo modo nova de colabora- encontrar os fundos necessários de das para curar pessoas e salvar vi-
do apoio do Santo Padre e da Igreja. ção entre os dicastérios e os diversos forma transparente, promovendo das.
Devemos dar o nosso contributo, departamentos da Santa Sé. Uma uma circularidade virtuosa da rique-
neste momento de emergência. É modalidade de task force. Uma mo- za. Estamos a dar os primeiros pas- Como é chamado o homem de hoje a
uma questão de pôr em prática ações dalidade ágil que testemunha a uni- sos. Sabemos que há muito a fazer. viver esta provação?
de apoio às Igrejas locais para salvar dade e a capacidade de reação da Empenhar-nos-emos com toda a
vidas, para ajudar os mais pobres. A Igreja. energia de que formos capazes. Esta- O homem redescobre hoje toda a
segunda refere-se ao depois, ao futu- mos também a envolver instituições sua fragilidade. Redescobre, antes de
ro, à mudança. O Papa está convicto Como é composta a comissão que foi que tradicionalmente têm colabora- mais, que habitar a Terra como uma
de que estamos num momento de criada no dicastério e quais são as do — e ainda colaboram — com o di- casa comum exige muito mais: re-
mudança, e está a refletir sobre o suas áreas de intervenção? Também castério, tais como Georgetown Uni- quer solidariedade no acesso ao bem
que virá depois da emergência, acer- participam personalidades ou estruturas versity, Universität Potsdam, Univer- da criação como “bem comum”, e
ca das consequências económicas e externas à Santa Sé? sidade Católica do Sagrado Coração solidariedade na aplicação dos frutos
sociais da pandemia, sobre o que te- de Milão, World Resources Institu- da investigação e da tecnologia para
remos de enfrentar e, sobretudo, so- A comissão é composta por cinco
te, e muitas outras. tornar a nossa “Casa” mais saudável
bre a forma como a Igreja se pode grupos de trabalho. O primeiro já
está a trabalhar na emergência. Tra- e habitável para todos. Nisto o ho-
oferecer como ponto de referência Toda a Igreja está muito engajada mem reencontra Deus, que lhe con-
seguro para o mundo desorientado balha com a Caritas Internacionalis.
nesta emergência: há as Caritas, as fiou esta vocação à solidariedade.
face a um acontecimento inesperado. Criou mecanismos para ouvir as
congregações religiosas, as comunidades, Redescobre quanto o destino de ca-
Contribuir para a elaboração de uma Igrejas locais a fim de identificar as
os organismos e os movimentos católi- da um está interligado com o dos
reflexão sobre este tema é a nossa se- necessidades reais e ajudar no desen-
cos... Toda a rede de caridade e solida- outros. Redescobre o valor das coi-
volvimento de respostas eficazes e
gunda tarefa. O Papa pediu-nos con- riedade do mundo eclesial foi mobiliza- sas importantes e o não valor de
adequadas. Solicitou aos núncios e
cretização e criatividade, abordagem da. Que relações tereis com estas reali- muitas outras que considerávamos
às conferências episcopais que comu-
científica e imaginação, pensamento dades? importantes. Como disse o Papa a
nicassem as questões de saúde e hu-
universal e capacidade de compreen- 27 de março: «A tempestade desmas-
manitárias que exigem uma ação A rede da Igreja em cada país é
der as necessidades locais. cara a nossa vulnerabilidade e deixa
imediata. É necessário um olhar am- essencial. O trabalho que a Caritas
plo. Ninguém deve ser esquecido: faz é extraordinário. Tudo o que fi- a descoberto as falsas e supérfluas
Como está a desenvolver esta ativida- seguranças com que construímos os
prisioneiros, grupos vulneráveis. Pre- zermos será em comunhão entre nós,
de? nossos programas, os nossos proje-
cisamos de partilhar boas práticas. em Roma, e entre as Igrejas locais.
Criámos cinco grupos de trabalho O segundo grupo tem a tarefa de A equipa está ao serviço do Papa e tos, os nossos hábitos e priorida-
que já estão ativos. Tivemos duas perscrutar a noite, como a sentinela, das Igrejas. A nossa missão não con- des».
número 16, terça-feira 21 de abril de 2020 L’OSSERVATORE ROMANO página 5

O Pontífice lançou a proposta de um salário universal para os excluídos

Nenhum trabalhador sem direitos


«Talvez tenha chegado o momento de pensar num salário universal, que
reconheça e dê dignidade aos trabalhos nobres e insubstituíveis que desempenhais;
capaz de garantir e transformar em realidade esta palavra de ordem tão humana,
tão cristã: nenhum trabalhador sem direitos», escreveu o Papa Francisco numa
carta enviada na Páscoa aos participantes nos encontros mundiais dos
Movimentos populares que tiveram lugar duas vezes no Vaticano (2014 e 2016)
e outra em Santa Cruz de La Sierra, durante a sua viagem à Bolívia em 2015.
A seguir, o texto da missiva pontifícia.

Estimados amigos! Como é difícil ficar em casa para


aqueles que vivem em habitações pe-
Lembro-me muitas vezes dos nossos
quenas e precárias, ou inclusive para
encontros: dois no Vaticano e um
quem vive desabrigado. Como é di-
em Santa Cruz de La Sierra, e con-
fícil para os migrantes, para as pes-
fesso-vos que esta “memória” me faz
bem, me aproxima de vós, me leva a soas desprovidas da própria liberda-
repensar em tantos diálogos que tive de e para quantos seguem um per-
durante aqueles encontros e em tan- curso de recuperação de dependên-
tas esperanças que ali nasceram e cias. Vós permaneceis ali, fisicamente
cresceram, muitas das quais se torna- próximos deles, para tornar a situa-
O Papa com os movimentos populares em Santa Cruz de La Sierra, Bolívia (9 de julho de 2015)
ram realidade. Agora, no meio desta ção menos difícil, menos dolorosa.
pandemia, volto a recordar-me de Congratulo-me convosco e agradeço-
vós de forma especial e desejo estar vos de coração. Espero que os go- pensar num salário universal, que re- produção e de consumo, os seus lu-
próximo de vós. vernos compreendam que os para- conheça e dê dignidade aos traba- xos excessivos e os lucros imensos
digmas tecnocráticos (quer sejam es- lhos nobres e insubstituíveis que de- para poucos, tem necessidade de
Nestes dias de tanta angústia e di- tadocêntricos, quer mercadocêntri-
ficuldade, muitos referiram-se com sempenhais; capaz de garantir e abrandar, de repensar, de se regene-
cos) não são suficientes para enfren- transformar em realidade esta pala-
metáforas bélicas à pandemia que rar. Vós sois os construtores indis-
tar esta crise, nem sequer os outros vra de ordem tão humana, tão cristã:
estamos a viver. Se a luta contra a pensáveis desta mudança inadiável;
grandes problemas da humanidade. nenhum trabalhador sem direitos.
Covid é uma guerra, vós sois um além disso, tendes uma voz influen-
Hoje mais do que nunca, são as pes-
verdadeiro exército invisível que luta Gostaria de vos convidar a pensar te para testemunhar que isto é pos-
soas, as comunidades, os povos que
nas trincheiras mais perigosas. Um também no “depois”, porque esta sível. Conheceis crises e privações...
devem estar no centro, unidos para
exercício que tem como única arma tempestade vai acabar e as suas gra- que, com pudor, dignidade, empe-
cuidar, assistir, compartilhar.
a solidariedade, a esperança e o sen- ves consequências já se sentem. Não nho, esforço e solidariedade, podeis
tido de comunidade que se revitaliza Sei que fostes excluídos dos bene- sois insensatos, tendes a cultura, a transformar em promessa de vida
nestes dias em que ninguém se salva fícios da globalização. Não desfru- metodologia, mas sobretudo a sabe- para as vossas famílias e as vossas
sozinho. Como vos disse nos nossos tais dos prazeres superficiais que doria que se amassa com o fermento comunidades.
encontros, para mim vós sois verda- anestesiam muitas consciências. No de sentir a dor do outro como vossa.
entanto, deveis sofrer sempre os seus Continuai a vossa luta e cuidai
deiros poetas sociais que, das perife- Pensemos no projeto de desenvolvi-
danos. Os males que afligem todos uns dos outros como irmãos. Rezo
rias esquecidas, criais soluções dig- mento humano pelo qual aspiramos,
atingem-vos duplamente. Muitos de por vós, rezo convosco e peço a
nas para os problemas mais urgentes centrado no protagonismo dos Po-
vós viveis de dia para dia, sem qual- Deus Pai que vos abençoe, que vos
dos excluídos. vos em toda a sua diversidade e no
quer tipo de tutela legal para vos acesso universal aos três T que de- encha com o seu amor e vos defenda
Sei que muitas vezes isto não é re- ao longo do caminho, dando-vos a
proteger. Os vendedores ambulantes, fendeis: tierra, techo y trabajo, terra,
conhecido como se deve, porque pa- força que nos mantém de pé e não
os recicladores, os circenses, os pe- teto e trabalho. Espero que este mo-
ra este sistema vós sois verdadeira- desilude: a esperança. Por favor, orai
quenos agricultores, os operários, os mento de perigo nos separe do pilo-
mente invisíveis. Às periferias não por mim porque também eu preciso
alfaiates, quantos desempenham ati- to automático, desperte as nossas
chegam as soluções de mercado e a disto.
vidades de assistência. Vós, trabalha- consciências adormecidas e permita
presença protetora do Estado é es-
dores informais, independentes ou uma conversão humanista e ecoló- Fraternalmente,
cassa. E vós nem sequer dispondes
da economia popular, não tendes gica que ponha fim à idolatria do
dos meios para desempenhar a vossa
função. Sois vistos com desconfian- um salário estável para enfrentar o dinheiro, colocando no centro a FRANCISCO
ça, porque ides além da mera filan- momento presente... E para vós as dignidade e a vida. A nossa civiliza-
quarentenas são insustentáveis. Tal- ção, tão competitiva e individualis- Cidade do Vaticano, 12 de abril de
tropia através da organização comu-
nitária e reivindicais os vossos direi- vez tenha chegado o momento de ta, com os seus frenéticos ritmos de 2020, Domingo de Páscoa.
tos, em vez de vos resignardes, na
expetativa de ver cair algumas miga-
lhas daqueles que detêm o poder
económico. Muitas vezes suportais
raiva e impotência ao ver as desi- A misericórdia, salvação do mundo
gualdades que persistem, até nos
momentos em que já não existe des- CONTINUAÇÃO DA PÁGINA 1 precisamente este perigo que se in- de Paulo VI, citada pelo Papa nas
culpa alguma para justificar privilé- sinua: esquecer quem ficou para intenções da missa desta manhã na
gios. Mas não vos fechais na lamen- nexo inseparável entre o amor rece- trás [...] Naquela comunidade, de- Casa Santa Marta; agora, ao con-
tação: arregaçais as mangas e conti- bido e o amor dado, a correspon- pois da ressurreição de Jesus, ape- trário, os partidos políticos «procu-
nuais a trabalhar pelas vossas famí- dência entre as duas medidas, o nas um ficou para trás e os outros rem o bem do país e não o bem do
lias, pelos vossos bairros, pelo bem perdão das ofensas dos outros por- esperaram por ele. Hoje, parece
próprio partido». Hoje abre-se
comum. Esta vossa atitude ajuda- que as nossas foram perdoadas. A dar-se o contrário: uma pequena
me, interroga-me e ensina-me muito. imagem dos cristais, evocada pelo diante de nós o mundo de amanhã
parte da humanidade avançou, en-
Papa, é bonita e eficaz: «Frágeis e quanto a maioria ficou para trás». e então, exorta-nos o Papa, que seja
Penso nas pessoas, sobretudo nas
simultaneamente preciosos. E se A visão lúcida e profética do Pa- verdadeiramente «novo», um mun-
mulheres, que multiplicam o pão
nos refeitórios comunitários cozi- formos transparentes diante d’Ele pa Francisco alerta para o maior do de ressurreição após a morte:
nhando com duas cebolas e um pa- como o cristal, a sua luz – a luz da risco que o mundo inteiro enfrenta «Aproveitemos esta provação como
cote de arroz um delicioso guisado misericórdia – brilhará em nós e, hoje, no momento em que se pode uma oportunidade para preparar o
para centenas de crianças; penso nos por nosso intermédio, no mundo». começar a imaginar uma recupera- amanhã de todos. Porque, sem uma
doentes, penso nos idosos. Nunca Não se trata somente de uma be- ção da terrível emergência de saú- visão de conjunto, não haverá futu-
aparecem nos meios de comunicação la imagem, nem de uma história de de: o risco de uma retomada a duas ro para ninguém. Hoje, o amor de-
social importantes. E nem sequer os há vinte séculos, mas do que acon- velocidades. Mas voltar ao mundo sarmado e desarmante de Jesus res-
camponeses e pequenos agricultores, tece hoje, todos os dias e, acima de como era antes da pandemia, não
suscita o coração do discípulo.
que continuam a lavrar a terra para tudo, do que deverá acontecer ama- só não é possível como não seria
nhã. Se é verdade que «a misericór- Também nós, como o apóstolo To-
produzir alimentos saudáveis sem correto, aquele mundo não era jus-
destruir a natureza, sem os acumular dia não abandona quem fica para to. Com efeito, no mundo de on- mé, acolhamos a misericórdia, sal-
nem especular as necessidades das trás», o Papa exorta-nos a viver de tem prevaleceram muitas vezes os vação do mundo. E usemos de mi-
pessoas. Sabei que o nosso Pai celes- modo consequente: «Agora, en- «interesses partidários» e isto po- sericórdia para com os mais frágeis:
tial vos vê, vos aprecia, vos reconhe- quanto pensamos numa recupera- luiu a política, aquela «forma alta só assim reconstruiremos um mun-
ce e vos fortalece na vossa opção. ção lenta e fadigosa da pandemia, é de caridade», segundo a expressão do novo».
número 16, terça-feira 21 de abril de 2020 L’OSSERVATORE ROMANO página 6/7

rio e institucionaliza o futuro da Igreja. Esta é a


Utilizar as raízes das tradições Igreja que deve sair da crise.
Há algumas semanas, um bispo italiano telefo-
nou-me. Angustiado, disse-me que ia de um hospi-
para subir às montanhas tal para outro para dar a absolvição a todos os que
estavam lá dentro, permanecendo na entrada. Mas
alguns canonistas que ele interpelou disseram-lhe
Entrevistado por Austen Ivereigh, o Papa explicou como vive a emergência da Covid-19 que não, que a absolvição só é permitida com con-
tato direto. “Padre, o que me pode dizer?” pergun-
tou-me o bispo. Eu respondi-lhe: “Excelência, cum-
pra o seu dever sacerdotal”. E o bispo retorquiu:
Como está a viver o Papa a crise provocada pela Cuidar do momento, mas para o amanhã. Tudo Temos de recuperar a memória das raízes, da tradi- “Obrigado, compreendi”. Soube depois que ele
Covid-19? E como se está a preparar para o que isto com criatividade. Uma criatividade simples que ção, que é “memoriosa”. Nos Exercícios de Santo concedeu a absolvição em todo o lado.
vier? Francisco respondeu à distância às perguntas inventa algo todos os dias. Não é difícil descobri-la Inácio, a primeira semana inteira e depois a con- Por outras palavras, a Igreja é a liberdade do Es-
do jornalista e escritor britânico Austen Ivereigh, em família. Não se deve fugir, procurar fugas alie- templação para alcançar o amor na quarta semana, pírito neste momento, perante uma crise, e não uma
gravando alguns áudios. A entrevista foi publicada nantes, que neste momento não são úteis. seguem totalmente o sinal da memória. É uma con- Igreja fechada em instituições. Isto não significa
simultaneamente em “The Tablet” (Londres) e versão com memória. que o direito canónico seja inútil: serve, sim, ajuda
“Commonweal” (Nova Iorque). “ABC” publicou o A terceira pergunta dizia respeito às políticas dos Go- Esta crise toca-nos a todos: ricos e pobres. É um e, por favor, usemo-lo bem, porque nos faz bem.
texto original em espanhol e “La Civiltà Cattolica” vernos em resposta à crise. apelo à atenção contra a hipocrisia. Preocupa-me a Mas o último cânone diz que toda a lei canónica
em italiano. Alguns governos tomaram medidas exemplares, hipocrisia de certas figuras políticas que dizem que- tem significado para a salvação das almas, e é aqui
com prioridades claramente definidas, para defen- rer enfrentar a crise, que falam da fome no mundo que se abre a porta para sairmos e levarmos a con-
A primeira pergunta foi sobre a forma como ele está a der a população. Mas estamos a aperceber-nos de e que, enquanto falam dela, fabricam armas. Che- solação de Deus em tempos de dificuldade.
viver a pandemia e o isolamento. que todo o nosso pensamento, quer queiramos quer gou o momento de nos convertermos desta hipocri- Perguntou-me sobre a «home Church». Temos
não, está estruturado ao redor da economia. Parece sia em ação. Este é um momento de coerência. Ou de enfrentar a permanência em casa com toda a
A Cúria continua a trabalhar, procura viver nor-
que, no mundo financeiro, sacrificar seja normal. somos coerentes ou perdemos tudo. nossa criatividade. Ou nos deprimimos, ou nos alie-
malmente, organizando-se em turnos para que nun-
Uma política da cultura do descarte. De cima para O senhor pergunta-me sobre a conversão. Cada namos — por exemplo, com meios de comunicação
ca haja demasiadas pessoas juntas. Algo bem pensa- que nos podem levar a fugir das realidades do mo-
baixo. Penso, por exemplo, na seletividade pré-na- crise é um perigo, mas é também uma oportunida-
do. Mantemos as medidas estabelecidas pelas auto- mento presente — ou criamos. Em casa precisamos
tal. Hoje em dia é muito difícil encontrar pessoas de. E é uma oportunidade de sair do perigo. Hoje
ridades médicas. Aqui na Casa Santa Marta foram de criatividade apostólica, criatividade purificada de
com síndrome de Down na rua. Quando é vista na penso que devemos abrandar um certo ritmo de
estabelecidos dois turnos para o almoço, que aju- muitas coisas inúteis, mas com um desejo de ex-
ecografia, é enviada de volta ao remetente. Uma consumo e de produção (Laudato si’, 191) e apren-
dam a reduzir o afluxo. Cada um trabalha no seu pressar a nossa fé em comunidade e como povo de
cultura da eutanásia, legal ou oculta, em que a pes- der a compreender e a contemplar a natureza. E pa-
escritório ou em casa, com instrumentos digitais. Deus. Ou seja: uma clausura forçada com nostalgia,
soa idosa recebe medicamentos até um certo ponto. ra nos reconectarmos com o nosso ambiente real.
Todos estão a trabalhar, ninguém está inativo. para sairmos do nosso isolamento deve ajudar-nos
Penso na encíclica Humanae vitae do Papa Paulo VI. Esta é uma oportunidade para a conversão.
Como o vivo espiritualmente? Rezo mais, porque essa memória que produz nostalgia e provoca espe-
A grande questão em que os pastores se estavam a Sim, vejo sinais iniciais de conversão para uma
acho que o devo fazer, e penso nas pessoas. É isso rança.
concentrar na altura era a pílula. E não se deram economia menos líquida e mais humana. Mas não
que me preocupa: as pessoas. Pensar nas pessoas
conta do poder profético daquela encíclica, anteci- deveríamos perder a memória depois de termos su-
unge-me, faz-me bem, livra-me do egoísmo. Obvia- Por fim, o jornalista perguntou a Francisco como viver
padora do neo-malthusianismo que se estava a pre- perado a situação atual, não podemos arquivá-la e
mente, tenho os meus egoísmos: às terças-feiras vem esta Quaresma e esta Páscoa tão extraordinárias, e pe-
parar em todo o mundo. Foi uma advertência de voltar ao ponto em que estávamos antes. Chegou a
o confessor, e então ponho este tipo de coisas em diu “uma mensagem especial para os idosos isolados,
Paulo VI sobre a onda de neo-malthusianismo que hora de dar o passo. Passar do uso e abuso da na-
ordem. Penso nas minhas responsabilidades atuais e para os jovens encarcerados e para os empobrecidos pela
vemos hoje na seleção das pessoas segundo a possi- tureza à contemplação. Nós, humanos, perdemos a
no que virá. Qual será o meu serviço como bispo crise”.
bilidade de produzir, de ser útil: a cultura do des- dimensão da contemplação; chegou o momento de
de Roma, como chefe da Igreja, depois da pande-
carte. a recuperar. O senhor fala-me de pessoas idosas isoladas. So-
mia? Este depois já começou a revelar-se trágico,
Os desabrigados continuam sem casa. Há dias vi E em relação à contemplação, gostaria de me de- lidão e distância. Quantas pessoas idosas têm filhos
doloroso, por isso convém pensar nisto agora. Atra-
uma fotografia, de Las Vegas, onde foram postos ter num ponto: é tempo de ver os pobres. Jesus que não os visitam em tempos normais! Lembro-me
vés do Dicastério para o desenvolvimento humano
em quarentena num estacionamento. E os hotéis es- diz-nos que “pobres, sempre os tereis convosco”. E que em Buenos Aires, quando visitava as casas de
integral foi criada uma comissão para trabalhar nes- repouso, perguntava aos residentes: como vai a fa-
tavam vazios. Mas um desabrigado não pode ir pa- é verdade. É uma realidade, não o podemos negar.
ta matéria, que se reúne comigo. mília? “Ah, sim, tudo bem, tudo bem”. Eles vêm vi-
ra um hotel. Nisto vê-se em ação a teoria do descar- Estão escondidos, porque a pobreza se envergonha.
A minha maior preocupação — pelo menos, aque- sitar-vos? “Sim, sempre”. Depois, a enfermeira con-
te. Em Roma, em plena quarentena, um polícia disse a
la que sinto na oração — é como acompanhar o po- tava-me que tinham passado seis meses desde a últi-
um homem: “Não podes estar na rua, tens de ir pa-
vo de Deus e estar mais próximo dele. Este é o sig- ma vez que os filhos visitaram os pais. A solidão e
Na questão seguinte, Ivereigh perguntou se o impacto ra casa”. A resposta foi: “Não tenho uma casa. Eu
nificado da missa das sete horas da manhã ao vivo, o abandono, a distância.
da crise poderia levar a uma revisão dos nossos estilos vivo na rua”. Descobrir a quantidade de pessoas
seguida por muitos que se sentem acompanhados; de vida, a uma conversão ecológica e a sociedades e E, no entanto, os idosos continuam a ser as raí-
marginalizadas... e dado que a pobreza é vergonho-
assim como algumas das minhas intervenções e o ri- economias mais humanas. zes. E devem falar com os jovens. Esta tensão entre
sa, não a vemos. Estão lá, passamos ao lado delas,
to de 27 de março na Praça de São Pedro. E de um idosos e jovens deve ser sempre resolvida no encon-
Um provérbio espanhol diz: “Deus perdoa sem- mas não as vemos. Elas fazem parte da paisagem,
trabalho bastante intenso de presença, através da tro. Pois os jovens são os rebentos, a folhagem, mas
pre, nós às vezes, a natureza nunca”. Não demos são coisas. Santa Teresa de Calcutá viu-as e decidiu
Esmolaria apostólica, para acompanhar situações de precisam da raiz; caso contrário, não podem dar
ouvidos às catástrofes parciais. Quem fala hoje dos empreender um caminho de conversão. Ver os po-
fome e doença. Estou a viver este momento com frutos. O idoso é como a raiz. Aos idosos de hoje
incêndios na Austrália? E do facto que há um ano e bres significa restituir-lhes a humanidade. Não são
muita incerteza. É um momento de muita inventivi- gostaria de dizer: sei que sentis a morte próxima e
meio um navio atravessou o Polo Norte, que se tor- descartes, não são descartáveis, são pessoas. Não
dade, de criatividade. tendes medo, mas olhai para o outro lado, lembrai-
nou navegável porque o gelo derreteu? Quem está podemos fazer uma política assistencialista, como
acontece com os animais abandonados. E muitas vos dos vossos netos e não deixeis de sonhar. Isto é
Na segunda pergunta, Austen Ivereigh referiu-se a Os a falar das inundações? Não sei se é a vingança da o que Deus vos pede: sonhar (Joel 3, 1). O que te-
natureza, mas essa é certamente a sua resposta. vezes os pobres são tratados como animais abando-
Noivos de Alessandro Manzoni, ambientado na época nho a dizer aos jovens? Tende a coragem de olhar
Temos uma memória seletiva. Gostaria de insistir nados. Não podemos fazer uma política assistencia-
da peste em Milão, em 1630, onde são descritas as ati- cil. Eles são heróis! Médicos, voluntários, religiosos, gência de uma “home Church”, de uma Igreja com base para o futuro e de serdes profetas. Que o sonho dos
neste ponto. Fiquei impressionado com a celebra- lista e parcial.
tudes de vários eclesiásticos. E perguntou como vê o sacerdotes, trabalhadores que desempenham as suas também em casa»? mais velhos seja correspondido pela vossa profecia.
ção do 70º aniversário do desembarque na Norman- Gostaria de dar um conselho: é hora de descer ao
Papa a missão da Igreja neste momento. funções para que esta sociedade funcione. Quantos Isto também se encontra em Joel 3, 1.
dia. Havia figuras de destaque na política e cultura subsolo. O romance Notas do Subsolo de Dostoievs- Menos apegados às instituições? Eu diria aos es-
médicos e enfermeiros morreram! Quantos sacerdo- As pessoas empobrecidas pela crise são as defrau-
O cardeal Federigo é um verdadeiro herói da internacionais. Eles estavam a celebrar. É verdade ki é famoso. E há outro mais breve, Cadernos da quemas. De facto, a Igreja é uma instituição. Existe
tes morreram! Quantas religiosas morreram! Em dadas de hoje que se somam aos muitos despojados
peste em Milão. Num capítulo, no entanto, diz-se que foi o início do fim da ditadura, mas ninguém Casa Morta, em que os guardas de um hospital de a tentação de sonhar com uma Igreja desinstitucio-
serviço, servindo. de todos os tempos, homens e mulheres que no es-
que passava para saudar as pessoas, mas fechado na se lembrou dos 10.000 homens que morreram na- uma prisão tratavam os pobres prisioneiros como nalizada, por exemplo uma Igreja gnóstica, sem tado civil constam como “despojado”. Eles perde-
liteira, talvez por detrás da janela, para se proteger. objetos. E vendo como se comportavam com um Vem-me à mente uma frase contida em Os Noi- instituições, ou sujeita a instituições fixas, para se
quela praia. ram tudo ou estão prestes a perder tudo. Que senti-
As pessoas não gostavam. O povo de Deus tem ne- Quando fui a Redipuglia, no centenário do fim deles que acabava de morrer, outro prisioneiro ex- vos, do alfaiate, na minha opinião um dos persona- proteger, e é uma Igreja pelagiana. É o Espírito
gens mais simples e coerentes. Ele dizia: “Eu nunca do faz para mim hoje perder tudo à luz do Evange-
cessidade de que o pastor esteja ao seu lado, não da primeira Guerra Mundial, podia-se ver um boni- clamou: “Basta! Ele também tinha uma mãe”! Te- Santo que faz da Igreja uma instituição. Que não é lho? Entrar no mundo dos “despojados”, compreen-
que se proteja demasiado. Hoje o povo de Deus to monumento e nomes inscritos na pedra, e nada mos de o repetir muitas vezes: o pobre homem teve soube que o Senhor começou um milagre sem o gnóstico nem pelágico. É ele quem institucionaliza der que aqueles que antes tinham, agora já não
precisa de ter o pastor muito próximo dele, com a mais. Chorei pensando em Bento XV (no “massacre uma mãe que o criou com amor. Não sabemos o terminar bem”. Se reconhecermos este milagre dos a Igreja. É uma dinâmica alternativa e complemen- têm. Peço que as pessoas se encarreguem dos idosos
abnegação dos capuchinhos, que faziam assim. inútil”), bem como em Anzio, no dia de finados, re- que aconteceu depois na vida. Mas ajuda pensar- santos ao nosso lado, destes heroicos homens e mu- tar, porque o Espírito Santo causa desordem com e dos jovens. Tomem a seu cargo a história. Que se
A criatividade do cristão deve manifestar-se na cordando todos os soldados norte-americanos ali mos no amor que recebeu, nas esperanças de uma lheres, se soubermos seguir os seus passos, este mi- carismas, mas nessa desordem ele cria harmonia. ocupem da história. Que se ocupem das pessoas
abertura de novos horizontes, na abertura de jane- enterrados. Todos tinham uma família, no lugar de mãe. Nós humilhamos os pobres, não lhes damos o lagre terminará bem, será para o bem de todos. Igreja livre não significa uma Igreja anarquista, por- defraudadas.
las, na abertura da transcendência para Deus e para cada um deles, poderia estar eu. direito de sonhar com a sua mãe. Eles não sabem o Deus não deixa as coisas pela metade. Somos nós que a liberdade é um dom de Deus. Igreja institu- E vem-me à mente outro verso de Virgílio, quan-
os homens, e deve redimensionar-se em casa. Não é Hoje, na Europa, quando se começa a ouvir dis- que é o afeto, muitos vivem na toxicodependência. que as abandonamos e vamos embora. O que esta- cionalizada significa Igreja institucionalizada pelo do Eneias, derrotado em Troia, tinha perdido tudo
fácil estar fechado dentro de casa. Lembro-me de cursos populistas ou decisões políticas de tipo sele- E vê-los pode ajudar-nos a descobrir a piedade, mos a viver é um lugar de metanoia, de conversão, Espírito Santo. Uma tensão entre desordem e har- e restavam-lhe duas saídas: ficar ali a chorar e aca-
um verso da Eneida que, no contexto da derrota, tivo, não é difícil recordar os discursos de Hitler em aquela pietas que é uma dimensão voltada para e temos a oportunidade de o fazer. Portanto, assu- monia: esta é a Igreja que deve sair da crise. Temos bar com a sua vida, ou fazer o que tinha no seu co-
dá o conselho de não baixar os braços. Preparai-vos 1933, mais ou menos como alguns políticos fazem Deus e para o próximo. mamos isto e vamos em frente. que aprender a viver numa Igreja em tensão entre a ração, ir além, ir para as montanhas a fim de se
para tempos melhores, porque, nesse momento, irá hoje. Vem-me à mente outro verso de Virgílio: Me- Descer ao subsolo, e passar da sociedade hiper- desordem e a harmonia causadas pelo Espírito San- afastar da guerra. É um verso magnífico: Cessi, et
ajudar-nos a recordar o que aconteceu agora. Cui- minisce iuvabit. Será bom recuperar a memória, por- virtualizada e desencarnada para a carne sofredora Outra pergunta de Ivereigh dizia respeito à necessidade, to. Se me perguntar qual o livro de teologia que sublato montem genitore petivi. “Resignei-me e carre-
dai de vós para o futuro que virá. E quando esse que ela nos ajudará. Hoje é o momento de recupe- dos pobres, é uma conversão devida. E se não co- nestes meses, de repensar a maneira de ser da Igreja: possa ajudar a compreendê-lo, indico os Atos dos gando o meu pai, dirigi-me para as montanhas”. É
futuro chegar, far-vos-á bem recordar o que aconte- rar a memória. Não é a primeira peste da humani- meçarmos por ela, a conversão não terá futuro. Pen- «talvez uma Igreja mais missionária, mais criativa, Apóstolos. Nele encontra-se a forma como o Espíri- isto que todos nós temos de fazer hoje: pegar nas
ceu. dade. As outras estão agora reduzidas a anedotas. so nos santos da porta ao lado, neste momento difí- menos apegada às instituições. Estamos a viver a emer- to Santo desinstitucionaliza o que já não é necessá- raízes das nossas tradições e subir às montanhas.
página 8 L’OSSERVATORE ROMANO terça-feira 21 de abril de 2020, número 16

A atualidade de «O homem que plantava árvores» de Jean Giono

Contrastar com o bom senso


um mundo apático
SÉRGIO SUCHOD OLAK era a lavanda selvagem e onde «o vento so- mundo, apoderou-se do pastor uma espécie
prava com brutalidade insuportável», prati- de projeção ideal de reflorestação, a princí-
uando Jean Giono decidiu narrar a camente esquecido pelo homem e por Deus, pio dir-se-ia de maneira um pouco fantasio-
Q história de um pastor invulgar que,
numa desolada região dos Baixos Al-
retirado do mundo e da companhia dos seus
semelhantes, um humilde pastor vivia lenta-
sa mas em seguida cada vez mais realista, a
ponto de o impelir a ver naquelas plantas o
pes franceses, tinha resolvido plantar tantas mente e em completa solidão — entendida, único recurso real, capaz de redimir toda
sementes de árvores quantas fossem necessá- no entanto, mais como condição acidental aquela área de uma degradação intolerável
rias para dar nova vida à paisagem local, do que como sentimento humano, uma vez que não cessava de a minar.
transformando-a radicalmente, talvez nunca que a seu ver não se sentia só — e aí passava Nas mais diferentes culturas, a árvore foi
tivesse suspeitado que esta história simples, os longos dias com o seu cão, primeiro pro- desde sempre um símbolo de vida e sabedo-
dócil e até inocente no seu estilo narrativo, tegendo o seu rebanho e anos mais tarde ria, e portanto não é exceção neste conto,
pudesse obter um notável sucesso literário, cuidando das suas colmeias, abstraído da vi- descrito com grande perspicácia sensorial
impressionando de forma tão manifesta e in- da fora do seu universo e do horizonte que por um escritor que já na vibrante “Carta
cisiva o imaginário coletivo e tornando-se necessariamente o delimitava. A história aos camponeses sobre a pobreza e a paz”
mais relevante do que nunca até nos nossos passa-se entre os dois terríveis conflitos (Lettre aux paysans sur la pauvreté et la paix,
dias — quase setenta anos após a sua reda- mundiais. publicada em 1938, nas vésperas da segunda
ção — entretanto profundamente alterados O protagonista da narração, um certo El- guerra mundial, para procurar evitar o can-
sob a ótica do clima e não só, chegando a zéard Bouffier, precisamente “O homem que celamento da cultura e da sensatez típicas
fazer-nos crer que estamos verdadeiramente plantava árvores” (L’homme qui plantait des do mundo rural), deixava entrever de forma
num ponto de não retorno. arbres, 1953), sem visar qualquer lucro pes- límpida e poética, um impetuoso pensamen-
A pobreza do solo de uma grande parte soal e no anonimato mais absoluto, torna-se to moral, segundo o qual a natureza é sem-
do departamento em questão e a sua altitu- gradualmente para o leitor a personificação pre superior à tecnologia e, por conseguinte,
de representavam as condições mais desfa- de uma incomparável mensagem de amor à
voráveis para o crescimento das aldeias lo- natureza, que nasce do profundo respeito
cais e até para o desenvolvimento normal da que o ser humano é chamado a nutrir para
vida humana, motivos pelos quais se encon- com a mãe terra e as belezas que a ador- «A natureza é sempre superior à tecnologia
trava entre as regiões menos povoadas e me- nam. Além disso, percebe-se imediatamente
nos ricas de todo o país transalpino onde, que, apesar da pobreza dos meios à sua dis-
e o homem só pode ser salvo
especialmente durante o inverno, a paisa- posição e da máxima sobriedade em que através do trabalho levado a cabo
gem podia parecer quase fantasmagórica. É passa os seus dias aparentemente tão monó- em estreita harmonia com a terra»
neste cenário que tem lugar um dos diálo- tonos, o pastor tem uma personalidade ver-
gos mais significativos, simples e ao mesmo dadeiramente extraordinária, uma vez que
tempo profundos entre o homem e a nature- todo o seu inspirado trabalho escondido se
za — originado da pena de um escritor e en- revela totalmente desprovido de qualquer o homem só pode ser salvo através do tra-
saísta prolífico, diversificado e muitas vezes forma de egoísmo, num clima de grande balho levado a cabo em estreita harmonia
mordaz, sensível, autodidata, dotado de agrestia que, pelo contrário, tenderia a exas- com a terra.
uma cultura imensa e de uma curiosidade perar o individualismo. Esta comovedora e edificante parábola
praticamente universal, que o levará a ler De onde poderia ter derivado esta união pastoral, que exalta com extrema simplicida-
sozinho a Bíblia e Homero — que ressoa co- especial entre a simplicidade da sua conduta de a necessidade e a beleza da relação entre
mo um veemente apelo a contrastar com o e a grandeza do seu espírito, a não ser exa- o homem e a natureza, contudo sem cair em
bom senso e a poesia um mundo cada vez tamente da sua perspicaz intuição interior falsos mitos românticos nem em idealismos
mais indiferente à salvaguarda do território em relação à natureza, como parte indispen- irracionais, levou muitos a reconhecer na
e do meio ambiente. Na sua obra, às vezes sável de si mesmo, sem a qual ele próprio ti- voz do narrador um apelo urgente, como
Giono chega a ostentar uma espécie de mis- nha a impressão de não ser capaz de sentir um profundo sulco no chão, a ver na imen-
ticismo cósmico, mas desprovido de trans- nem sequer um pequeno vislumbre de felici- sa obra que brotou das mãos e da alma da-
cendência, talvez seguindo o sulco do pen- dade. Sim, a felicidade, pois no íntimo a quele homem sem meios técnicos, que «os
samento filosófico espinosiano que está na busca deste particular estado de espírito não homens poderiam ser tão eficazes como
base do Deus sive natura, o qual exalta uma pode ser negada a ninguém. Deus em algo mais que a destruição». E foi
certa identidade entre Deus e a natureza. Assim, partindo de uma simples bolota assim que, ao longo dos anos, onde havia
Naquelas terras desabitadas, pedregosas e de carvalho, de uma semente de faia ou de um deserto germinou um jardim exuberante
áridas, onde a única vegetação que crescia bétula, com o desejo de reverdecer o seu e em toda aquela região as aldeias e a pró-
pria vida começaram a florescer novamente.
Se é verdade que na mente e nas mãos o
homem tem não só o poder de destruir, mas
antes de tudo de procurar construir a felici-
dade, sua e dos outros, este escrito de Gio-
no é mais atual e providencial do que nun-
ca, ao mesmo tempo que nos exorta ao so-
nho de poder viver hoje e amanhã num pla-
neta mais respeitado, mais cuidado e mais
amado, e por conseguinte à transformação
do sonho em esperança, e da esperança em
realidade. Parafraseando a descrição com
que é frequentemente apresentado o patriar-
ca Noé, protagonista exemplar da narração
bíblica do dilúvio universal, às vezes “é sufi-
ciente um homem bom para que haja espe-
rança”. E não foi por acaso que, depois de
ter lido a pequena e comovente história des-
te “homem bom” dos nossos tempos, o es-
critor José Saramago não hesitou em intro-
duzi-la com as seguintes palavras: «Só
quem cavou a terra para acomodar uma raiz
ou a sua esperança poderia ter escrito este
livro. Estamos realmente à espera da chega-
da de um grande número de Elzéard Bouf-
fier reais. Antes que seja demasiado tarde
Capa de uma edição em português (Editora Marcador) para o mundo».
número 16, terça-feira 21 de abril de 2020 L’OSSERVATORE ROMANO página 9

NARRAÇÃO - PALAVRA DO ANO

«Desejo dedicar a Mensagem deste ano ao tema da narração


pois penso que precisamos de respirar a verdade das histórias boas:
histórias que edifiquem, e não as que destruam; histórias
que ajudem a reencontrar as raízes e a força para prosseguirmos juntos»
(Papa Francisco para o Dia mundial das Comunicações de 2020)

Uma história é boa quando é verdadeira


Em diálogo com o escritor Daniel Mendelsohn

ANDREA MONDA não só com uma história feliz, mas


sobretudo com uma história verda-
A palavra é uma ponte. Cada história deira, e é sobre isto que se baseia a
que é contada cria ligação, comu- responsabilidade de ser verdadeiro.
nhão. Este foi o aspeto da Mensagem
do Papa para o Dia Mundial das Co- Foi este sentido de responsabilidade que
municações Sociais que mais impres- o impeliu a escrever o seu livro sobre o
sionou o escritor Daniel Mendelsohn, Holocausto, “The Lost”?
que encontramos na sua casa de cam-
Sim, um escritor nunca deve falsi-
po: «Tal como os personagens do
ficar a realidade, mas encará-la, tal
Decameron, o qual fala de pessoas
como ela é. Algo que aprendi preci-
que procuram viver no campo e as-
samente escrevendo a narração da
sim sobreviver a uma grande catástro-
minha história familiar sobre o Ho-
fe, compartilhando histórias. Pois
bem, como sabemos, não se trata de locausto: até nas histórias mais terrí-
histórias propriamente “religiosas”, ao veis existem momentos de graça e
contrário, muito profanas, mas o que eles devem ser procurados e narra-
Boccaccio quer dizer é que através da dos, pois é disto que as pessoas pre-
narração podemos reduzir a distância cisam. Momentos de graça: quero
que nos separa e acho que hoje isto é dizer, por exemplo, quando alguém
necessário como nunca. Boccaccio in- decide salvar outra pessoa, quando
tui esta verdade, precisamente como alguém se agarra à própria humani-
o Papa». dade num tempo desumano... Penso
Pela mensagem do Papa, o ro- que é dever do escritor mostrar o
Diego Rivera, «A casa sobre a ponte» (1909)
mancista e ensaísta de Long Island quadro completo, e o quadro com-
sente-se posto em causa como escri- pleto pode incluir um momento de
tor. «Na minha opinião a mensagem revela a natureza da narração de ser bem, felizes, ligados ao mundo e à graça.
do Papa, que sublinha a importância ponte, ou seja, capaz de unir as pes- vida de forma humana. Mas há ou-
da partilha de histórias como meio soas. Esta possibilidade de uma tro tipo de boa história, aquela que Portanto o senhor concorda que, como
de ligação humana, parece-me muito ponte narrativa é tudo o que nos capta e partilha a verdade com as diz o Papa, a narração de histórias
necessária especialmente hoje, na cri- resta hoje. Não podemos estar fisica- boas, isto é, bonitas e verdadeiras, sal-
pessoas, ainda que seja uma verdade
se em que o mundo inteiro se en- mente juntos, não podemos tocar- va os homens do domínio da tagarelice
difícil. A meu ver, existe sempre
contra. E é uma mensagem muito nos, abraçar-nos, não podemos ver e das fake news?
uma responsabilidade maior pela
interessante e diria comovente para os nossos amigos: o que temos são verdade. Neste nosso tempo há mui- Sem dúvida, era o que eu dizia:
mim, como escritor, pois é obvia- histórias. Sim, julgo que a mensa- tas histórias por aí; por isso, é ainda no século XXI estamos circundados,
mente o que nós, escritores, procura- gem do Papa Francisco chegou na mais fundamental a responsabilidade sufocados pelos mexericos e hoje
mos fazer sempre. Com efeito, é pa- hora certa». do escritor (ou do jornalista, ou do mais do que nunca, no momento da
ra isto que serve a literatura: para li- sacerdote...) de narrar o que é verda- crise, é necessário lutar contra o ruí-
gar todos os diferentes tipos de pes- O Papa insiste que as histórias a nar- de. Especialmente num momento de do, a tagarelice, as notícias falsas. É
soas, de credos e de backgrounds rar sejam boas, isto é, bonitas e verda- a Fama, o monstro de que fala o
pânico, de ansiedade, é mais impor-
através de narrativas humanas. Refli- deiras, o que pensa sobre isto? meu poeta preferido, Virgílio, no
tante comunicar a verdade às pes-
to muito sobre isto neste momento quarto canto da Eneida, ou seja, o
Este é um ponto muito importan- soas, mesmo que a verdade seja difí-
de terrível pandemia. Isto é válido boato, o terrível poder dos mexeri-
te. Porém, tudo depende do que cil. Uma história verdadeira é tam-
para o classicismo, mas é assim tam- cos, das notícias falsas. Como se
bém no Evangelho, cujos textos ori- queremos dizer quando afirmamos: bém uma história bonita. Por isso,
“uma boa história”. Duas respostas acho que o Papa tem razão: é im- combate este monstro? Com histó-
ginais foram escritos em grego: os rias verdadeiras, com a verdade: a
Evangelistas compreenderam que a são possíveis. Antes de mais nada, portante compartilhar uma boa his-
há uma história que nos faz sentir tória, para poder ajudar as pessoas; verdade científica, a verdade jorna-
narração, as boas histórias, são a me- lística, a verdade médica, mas tam-
lhor forma de comunicar uma men- bém a verdade espiritual, a verdade
sagem importante; pensemos no uso emocional... é disto que precisamos.
das parábolas. Tanto no mundo pro-
É como se a atmosfera estivesse
fano como no sagrado, os maiores
cheia de veneno e a verdade fosse o
pensadores compreenderam que a
narração humana é a parte mais es-
Fascinante e poético antídoto. E a difusão da verdade
passa através de uma história.
sencial de quem somos. Somos “cria-
turas de narrativa” e é isto que nos Nascido a 16 de Abril de 1960, Daniel Mendelsohn é escritor, crítico, Segundo o Papa, a narração de histó-
torna humanos mais do que qual- tradutor e estudioso de literatura clássica. Completou os estudos
rias permite conhecer melhor também a
quer outra coisa, a narração da nossa clássicos na Universidade da Virgínia e depois em Princeton. Escreve
própria identidade...
experiência, quer ela seja uma expe- sobre literatura, cinema e teatro na “New York Times Book Review”,
riência teológica, quer profana ou “New Yorker” e “New York Review of Books”, e ensina Literatura no É verdade. Todos os escritores de-
mundana, independentemente da Bard College. É o autor de The Elusive Embrace: Desire and the Riddle vem entender que através do proces-
forma como a tivermos que narrar. of Identity (1999) e de um estudo académico sobre a tragédia grega, so de criação e de narração da histó-
Na minha opinião, há algo de iróni- Gender and the City in Euripides' Political Plays (2002). Em 2006 ria se desenvolve um sentido mais
co sobre a constatação de que esta publicou The Lost que se tornou um best seller. As suas publicações elevado da verdade. A redação da
mensagem chega num momento em incluem também ensaios, reflexões filosóficas e religiosas, diários e história é o veículo para uma maior
que as pessoas têm de ser separadas uma edição crítica das obras de Kavafis. Em 2018, Einaudi publicou a
à força, uma vez que a mensagem poética e convincente Un’Odissea. Un padre, un figlio e un’epopea. CONTINUA NA PÁGINA 10
página 10 L’OSSERVATORE ROMANO terça-feira 21 de abril de 2020, número 16

Comunicado da Congregação para a educação católica

Garantir as atividades escolares e académicas


através de modalidades telemáticas
Publicamos o texto do comunicado di- mens e as mulheres, conservada pe- A Congregação para a Educação conflitos, à agitação social e aos ris-
fundido na tarde de 7 de abril, pela las tradições dos nossos povos, como Católica deseja expressar a sua pro- cos naturais, e a garantia de que a
Congregação para a Educação católica o Papa nos mostrou ao parar diante ximidade e encorajamento a todas as educação continue a funcionar em
— assinado pelo cardeal prefeito Giu- do Crucifixo numa praça deserta fla- escolas católicas, Faculdades Ecle- situações urgentes, durante os confli-
seppe Versaldi e pelo arcebispo secretá- gelada pela chuva, para compreen- siásticas e Universidades Católicas; tos e nos períodos que se lhes se-
rio Angelo Vincenzo Zani — no mo- der que aquela morte nos salvou e em particular, gostaria de agradecer guem». Infelizmente, a imprevisibili-
mento da emergência do coronavírus. nos fez todos irmãos. aos Diretores, Reitores, Decanos, dade do evento não deu tempo para
Deste ícone extraordinário, que fi- professores e pessoal administrativo uma preparação adequada em todas
O tempo que estamos a viver, devi- e de serviço, que nestes meses estão as instituições, a fim de garantir a
cará na história, brota a energia espi-
do à propagação da pandemia de a gerir o sério esforço de garantir o continuidade das próprias aulas ou
Covid-19, é uma situação para a qual ritual para responder à crise multifa-
desempenho das suas atividades es- de introduzir as necessárias transfor-
não estávamos preparados. Sentimo- cetada que vivemos; sim, porque são
colares e académicas através de mações do ensino à distância.
nos esmagados por um acontecimen- crises pessoais, crises de relaciona-
meios telemáticos para garantir a Além disso, a crise produzida pela
to traumático que veio de repente e mento, para alguns também crises de pandemia criou uma emergência gra-
continuidade e a conclusão “regular”
criou uma emergência extraordiná- fé porque sentem o aparente afasta- ve não só para as instituições educa-
do ano em curso, como foi indicado
ria. Há quem luta contra a morte, mento de Deus, crises da comunida- na Nota da Congregação, relativa tivas e académicas, mas envolveu di-
quem luta contra o medo, quem per- de, de um povo e das suas institui- aos exames e provas equivalentes das retamente famílias que, no exercício
deu o emprego e até familiares ou ções, crises da história e do mundo. Instituições Académicas Eclesiásticas das suas funções, têm de se adaptar
amigos. Perante esta crise e no espírito de (12 de março de 2020). à necessidade de acompanhar os fi-
A dimensão do inesperado e do uma Quaresma vivida de forma ex- A Unesco, tendo em consideração lhos que estudam em casa; e nem to-
imprevisível tomou o lugar de todas cecional este ano, para o crente há a nestes dias as intervenções necessá- das estão equipadas com os instru-
as nossas certezas. Esta pandemia luz da Páscoa da Ressurreição. A rias para fazer face a situações gra- mentos informáticos pertinentes ou
pôs em evidência as fragilidades e as morte e a ressurreição de Jesus Cris- ves de emergência, referiu-se tam- preparadas para enfrentar a presença
chagas da sociedade: os pobres, os to abrem uma perspetiva de vida bém a um dos objetivos da Agenda contínua dos filhos em casa.
desabrigados, os idosos, os presos, que nunca terá fim e que nos permi- da Educação para 2030, que preco- Face a esta série de problemas, o
os desequilíbrios sociais, os egoísmos te olhar para o futuro com confiança primeiro dos quais diz respeito à
niza «a elaboração de sistemas edu-
individuais e nacionais. saúde e a todas as precauções a to-
e esperança bem fundamentada. cativos mais resilientes e reativos aos
E dentro deste black out, que pro- mar para a preservar, é necessário,
duziu uma profunda rutura na nossa antes de mais, responder às necessi-
vida quotidiana e na sociedade do dades imediatas para concluir este
terceiro milénio, temos o dever de ano com regularidade. Ao mesmo
voltar a compreender mais profunda- tempo, porém, é necessário conside-
mente o sentido da existência, de en- rar o facto de que a situação atual
contrar uma forma de recomeçar a vi- pode ser prolongada e termos que
ver, partindo de novas bases, mesmo nos organizar para o futuro, sendo
sabendo que não será como antes. capazes de discernir as oportunida-
Uma indicação clara vem-nos da des que esta crise nos oferece.
experiência que o Papa Francisco Ao mesmo tempo que exortamos
nos fez viver com a oração de sexta- todos a acompanharem o que os mi-
feira, 27 de março passado em São nistérios responsáveis pelas escolas e
Pedro: precisamos de recordar a his- universidades dispõem para as insti-
tória vivida por Deus com os ho- tuições educativas dos próprios paí-
ses, exortamos todos a darem apoio
e segurança às crianças e jovens e a
enfrentarem este momento especial
com paciência e com uma colabora-
Em diálogo com o escritor Daniel Mendelsohn ção inteligente e ativa durante o
tempo que for necessário.
À comunidade de Éfeso, São Pau-
CONTINUAÇÃO DA PÁGINA 9 do mesmo projeto, mas trata-se de para ser inspirado. A arte é “techne”, lo escreve: «Vede prudentemente co-
um projeto enorme que precisa de uma habilidade sob o controle do ar- mo andais [...] e remindo o tempo;
compreensão, tanto por parte do muitos tipos de histórias diferentes tista, ou é um dom recebido? porquanto os dias são maus [...].
escritor como do leitor. Portanto, a para o narrar. Precisamos tanto da Enchei-vos do Espírito...; dando
história é um instrumento cogniti- O facto de que tudo começa com
literatura como da ciência. sempre graças por tudo a nosso
vo, que permite a compreensão. a invocação da musa é um reconhe-
Deus e Pai, em nome de nosso Se-
Nestas páginas Renzo Piano observou cimento de que com a arte se vai
nhor Jesus Cristo» (Ef 5, 15-20). Esta
No entanto, a palavra da poesia pare- que todos os homens, até os cientistas, além do conhecimento humano,
crise pode tornar-se uma oportuni-
ce ambígua, incerta, em comparação no seu caminho de investigação, devem além da mera capacidade humana
dade para que as instituições educa-
com a palavra da ciência, tão clara e parar diante de um limiar, de um de fazer poesia. E, portanto, é ne- tivas católicas de todo o mundo con-
unívoca. mistério. cessária a ajuda do divino. É um firmem o testemunho da sua identi-
reconhecimento claro do limite do dade e missão como comunidade de
Sou filho de um cientista e tenho Concordo: no final, existe um poder humano: no fundo, o que
grande respeito pela ciência, mas ponto para além do qual há uma es- fé e caridade.
Homero diz é que ele não pode fa- Com São Paulo, convidamos a re-
julgo que podemos dizer que a pécie de mistério. Podemos chamar- zer poesia sem a ajuda do divino. novar a fé no Ressuscitado e a viver,
ciência pode afirmar uma verdade lhe o inefável, o misterioso, o divi- Todos os grandes artistas reconhe- desta vez, numa vigilância ativa, fa-
sobre o mundo, sobre o cosmo, en- no, mas acho que todos aqueles que
cem que num certo ponto intervém zendo o melhor uso possível dos
quanto a literatura pode afirmar são honestos percebem que afinal
uma verdade sobre o espírito huma- o transcendente, quando há necessi- dons recebidos de Deus.
existe “algo” misterioso, que todos
no que a ciência nunca poderá ilu- dade de uma espécie de talento so- Os votos de Páscoa que dirigimos
nós humanos temos em comum, mas
minar definitivamente. Ambas pro- que é muito difícil de descrever. Po- bre-humano para fazer uma grande a todos são para renovar a nossa fé
curam dizer uma verdade, mas tra- demos defini-lo também “transcen- arte. É o início comum da Ilíada e no mistério-realidade da Ressurrei-
ta-se de verdades diferentes, portan- dente”, algo que se reconhece mas da Odisseia: temos necessidade dos ção do Filho de Deus, que dá senti-
to ambas são necessárias: a ciência que é muito difícil de descrever. Este deuses para narrar a nossa história. do e ilumina tudo. Isto exorta-nos a
fala sobre o modo como o mundo é “transcendente” é também o ponto Nos nossos dias, nestes tempos de abrir os nossos corações e mentes a
feito; a literatura, ao contrário, diz para onde vamos, é a meta do cami- secularização, poder-se-ia falar, de Deus e aos nossos irmãos com cora-
algo inefável. Eis o objetivo da lite- nho do homem, um horizonte que forma mais laica, de “inspiração”, gem e determinação, e a investir os
ratura: procurar explicar o que na- conhecemos mas não podemos dizer “talento”... mas acho que todas es- nossos talentos neste “tempo presen-
da mais o pode fazer. Todos os que bem o que é, e por isso continua- tas palavras são apenas um reco- te”. Sim, pois ao crente não é pedi-
narram, escrevem, procuram escre- mos a avançar incessantemente. nhecimento de que é necessária al- do para viver uma espiritualidade
ver a verdade: cientistas, poetas, ro- guma qualidade sobre-humana. Os desencarnada e abstrata, mas aderen-
mancistas, jornalistas... quando pro- A poesia ocidental começa com as pa- gregos foram mais honestos: diziam te à realidade na qual devemos ser
curam dizer a verdade, fazem parte lavras de Homero, que pede à musa “os deuses”. luz, fraternidade, alegria e paz.
número 16, terça-feira 21 de abril de 2020 L’OSSERVATORE ROMANO página 11

No dia 16 de abril a 9 de abril de 1955, e a Ordenação


INFORMAÇÕES Bispo Auxiliar da Diocese de Siedl-
episcopal a 23 de setembro de 1989.
ce (Polónia), o Rev.do Pe. Grzegorz — D. Alojzij Uran, Arcebispo Eméri-
Suchodolski, até esta data Pároco da to de Liubliana, na Eslovénia.
Catedral e Decano em Siedlce, si-
multaneamente eleito Bispo Titular O ilustre Prelado nasceu em Spodnje
de Mesarfelta. Gameljne (Eslovénia), a 22 de janeiro
5 de maio de 1992 foi ordenado Sacer- de 1945. Recebeu a Ordenação sacer-
dote para o clero da Arquidiocese de D. Grzegorz Suchodolski nasceu a dotal a 29 de junho de 1970 e a Or-
Cascavel, onde foi diretor espiritual do 10 de novembro de 1963 em Łuków denação episcopal a 6 de janeiro de
seminário menor São José e promotor (Polónia), e foi ordenado Sacerdote a 1933.
vocacional (1992-1999); vigário paro- 11 de junho de 1988.
quial do Imaculado Coração de Maria A 12 de abril
(1995-1996); administrador da paró-
quia de Nossa Senhora de Caravaggio Prelados falecidos D. Camillo Ballin, Vigário Apostóli-
(1996-1999) e do santuário diocesano Adormeceram no Senhor: co de Arabia do Norte na Arabia.
de Nossa Senhora da Salette em Bra- O saudoso Prelado nasceu em Fon-
ganey; reitor do seminário maior de A 9 de abril taniva (Itália), a 24 de junho de
teologia (2002-2009); professor do 1944. Recebeu a Ordenação sacerdotal
Centro interdiocesano de teologia D. Clément-Joseph Hannouche, Bis-
po do Cairo dos sírios, no Egito. a 30 de março de 1969 e a Ordenação
(2002-2004); diretor espiritual do se- episcopal a 2 de setembro de 2005.
minário propedêutico (2005-2006); O saudoso Prelado nasceu no Cairo
professor (2005-2019) e diretor (Egito), a 27 de março de 1950. Rece- A 14 de abril
(2009-2019) na Faculdade missioneira beu a Ordenação sacerdotal no dia 13
Renúncias do Paraná (Famipar); pároco de Nos- de junho de 1976, e a Ordenação epis- D. Aldo di Cillo Pagotto, Arcebispo
sa Senhora de Fátima (2009-2016); copal a 19 de março de 1996. Emérito da Paraíba (Brasil).
O Santo Padre aceitou a renúncia: consultor da pastoral familiar a nível O saudoso Prelado nasceu em São
arquidiocesano e do Regional Sul 2. A 10 de abril
Paulo (Brasil), a 16 de setembro de
A 14 de abril Desde 2016 era pároco da catedral de- D. Nicholas Marcus Fernando, Arce- 1949. Recebeu a Ordenação sacerdotal
dicada a Nossa Senhora Aparecida. bispo Emérito de Colombo, no Sri a 7 de dezembro de 1977, e a Ordena-
De D. Pierre-Antoine Paulo, O.M.I.,
ao governo pastoral da Diocese de — Bispo de Paterson (Estados Uni- Lanka. ção episcopal a 31 de outubro de 1997.
Port-de-Paix (Haiti). dos da América), o Rev.do Pe. Kevin O venerando Prelado nasceu em Renunciou ao governo pastoral da Ar-
J. Sweeney, até agora Vigário Foren- Munnakkara (Sri Lanka), a 6 de de- quidiocese no dia 6 de julho de 2016.
A 15 de abril se de “Brooklyn 8 Deanery” e Páro- zembro de 1932. Recebeu a Ordenação
co da “Saint Michael Parish” em sacerdotal no dia 20 de dezembro de A 15 de abril
— De D. André De Witte, ao gover-
no pastoral da Diocese de Ruy Bar- Brooklyn. 1959, e a Ordenação episcopal a 14 de D. Gérard Mulumba Kalemba, Bis-
bosa (Brasil). D. Kevin J. Sweeney nasceu em maio de 1977. po Emérito de Mweka, na República
Elmhurst (E.U.A.), a 17 de janeiro de Democrática do Congo, por causa
— De D. Arthur J. Serratelli, ao go- A 11 de abril
verno pastoral da Diocese de Pater- 1970, e foi ordenado Sacerdote a 28 de da Covid-19.
son (Estados Unidos da América). junho de 1997. — D. Mariano De Nicolò, Bispo O venerando Prelado nasceu a 8 de
— Administrador Apostólico “sede Emérito de Rimini e São Marinho — julho de 1937 em Kananga (República
— De D. José Luis del Palacio y Pé- Montefeltro, na Itália.
rez-Medel, ao governo pastoral da vacante” da Diocese de Callao (Pe- Democrática do Congo). Recebeu a
Diocese de Callao (Peru). ru), D. Robert Francis Prevost, O saudoso Prelado nasceu em Cat- Ordenado sacerdotal a 20 de agosto de
O.S.A., atualmente Bispo de Chi- tolica (Itália), a 22 de janeiro de 1967, e a Ordenação episcopal 9 de ju-
clayo. 1932. Recebeu a Ordenação sacerdotal lho de 1989.
Nomeações
O Sumo Pontífice nomeou:
Intenção de oração para o mês de abril
No dia 14 de abril
— Bispo de Port-de-Paix (Haiti), o
Rev.do Pe. Charles Peters Barthélus,
Ajudar e acompanhar as vítimas de vícios
até agora Vice-Reitor do Seminário
Maior Notre-Dame d’Haïti.
É por «todas as pessoas sob a influência de vícios»,
D. Charles Peters Barthélus nasceu para que «possam ser bem ajudadas e acompanhadas»,
a 14 de novembro de 1970 em Mar- a intenção que Francisco confia para o mês de abril à
chand-Dessaline (Haiti), e foi ordena- rede mundial de oração do Papa.
do Sacerdote a 25 de janeiro de 1998. Difundida através do vídeo postado em
— Bispo de Fukuoka (Japão), D. Jo- http://www.thepopevideo.org a invocação do Pontí-
sep Maria Abella Batlle, C.M.F., até fice é um apelo à libertação de antigas e novas formas
esta data Auxiliar da Arquidiocese de escravidão que capturam as almas e os corpos de
de Osaka. mulheres e homens de todas as idades — até muito jo-
vens, infelizmente — e camadas sociais. «Certamente já
ouvistes falar do drama dos vícios», começa o Papa,
No dia 15 de abril focado em primeiro plano.
— Bispo de Ruy Barbosa (Brasil), D. «E... pensastes também no vício do jogo, da porno-
Estevam dos Santos Silva Filho, até grafia, da Internet e nos perigos do espaço virtual»,
agora Auxiliar da Arquidiocese de continua Francisco, enquanto o operador de câmara fo- mem, talvez um sacerdote, consola outro homem deses-
São Salvador da Bahia. caliza as imagens que procuram descrever o alcoolis- perado, com a mão colocada no seu ombro em sinal de
mo, a toxicodependência, a ludopatia e outras “doen- proteção enquanto fala com ele; um jovem, por terra, é
— Bispo de Erexim (Brasil), o ças” que conduzem a um túnel do qual é difícil sair so-
Rev.do Pe. Adimir Antônio Mazali, ajudado a levantar-se pela mão que alguém lhe esten-
zinho: um homem que segura a cabeça entre as mãos, deu; algumas cenas de abraços num centro de apoio.
até esta data Pároco da Catedral desesperado por ter perdido tudo na mesa do jogo, so-
Nossa Senhora Aparecida. Preparado pela agência La Machi, que se ocupa da
bre a qual, além de cartas e fichas, se veem notas de produção e distribuição, em colaboração com Vatican
D. Adimir Antônio Mazali nasceu a dinheiro e até as chaves do seu carro; ou um jovem Media, que supervisionou a gravação, o vídeo — tradu-
16 de maio de 1966 em Corbélia que, na triste solidão diante do computador, navega zido em nove línguas — foi publicado a 2 de abril, e
(Brasil). Fez os estudos de filosofia na em sites para adultos; ou uma mulher que, na cama, a relançado como é habitual nas contas sociais do Vatica-
Faculdade de ciências humanas Arnal- altas horas da noite, olha obsessivamente para o seu no. No Twitter apareceu imediatamente após o Dia
do Busato em Toledo (1986-1988) e telemóvel. Eis então o pedido do Pontífice para ajudar mundial de sensibilização para o autismo (Waad), ins-
os de teologia no Studium Theologicum aqueles que se encontram presos nas cadeias da depen- tituído em 2007 pela assembleia geral das Nações Uni-
em Curitiba (1989-1992). Em segui- dência. «Com base no “Evangelho da misericórdia” — das: “#Rezemos juntos também pelas dificuldades que
da, obteve a licenciatura em teologia assegura — podemos aliviar, cuidar e curar os muitos nestes dias encontram as famílias com filhos com #au-
patrística em Roma, na Pontifícia uni- sofrimentos ligados aos novos vícios». E mais uma vez tismo — escreveu o Papa em @Pontifex — e todas as
versidade Gregoriana (1999-2001). A o filme “sugere” as formas concretas de ajuda: um ho- pessoas com deficiência”.
página 12 L’OSSERVATORE ROMANO terça-feira 21 de abril de 2020, número 16

Missa do Pontífice na igreja de Santo Espírito “in Sassia” para a festa instituída por João Paulo II

A divina misericórida para derrotar o vírus do egoísmo


«Agora, enquanto pensamos numa nhamos] de andar aflitos por diver-
recuperação lenta e fadigosa da sas provações» (1, 6).
pandemia... o risco é que nos atinja Nesta festa da Divina Misericór-
um vírus ainda pior: o da indiferença dia, o anúncio mais encantador che-
egoísta», frisou o Papa Francisco ga através do discípulo mais atrasa-
celebrando em forma particular – na do. Só faltava ele, Tomé. Mas o Se-
manhã de 19 de abril, na igreja nhor esperou por ele. A misericórdia
romana de Santo Espírito “in não abandona quem fica para trás.
Sassia”— a missa no vigésimo Agora, enquanto pensamos numa re-
aniversário da canonização da Irmã cuperação lenta e fadigosa da pan-
Faustina Kowalska e da instituição do demia, é precisamente este perigo
domingo da Divina misericórdia. que se insinua: esquecer quem ficou
para trás. O risco é que nos atinja
No domingo passado, celebramos a
um vírus ainda pior: o da indiferença
ressurreição do Mestre, hoje assisti-
egoísta. Transmite-se a partir da ideia
mos à ressurreição do discípulo. Pas-
que a vida melhora se vai melhor
sou uma semana; semana esta, que
para mim, que tudo correrá bem se
os discípulos, apesar de ter visto o
correr bem para mim. Começando
Ressuscitado, transcorreram cheios
daqui, chega-se a selecionar as pes-
de medo, mantendo «as portas fe- soas, a descartar os pobres, a imolar
chadas» (Jo 20, 26), sem conseguir no altar do progresso quem fica para
sequer convencer da ressurreição o trás. Esta pandemia, porém, lembra-
único ausente, Tomé. Que faz Jesus nos que não há diferenças nem fron-
perante esta incredulidade medrosa? teiras entre aqueles que sofrem. So-
Regressa, coloca-Se na mesma posi- Podes objetar: «Mas, eu não paro mente teu». Que teria então guarda- mos todos frágeis, todos iguais, to-
ção, «no meio» dos discípulos, e re- mais de cair»! O Senhor sabe disso, do para si a santa freira? Diz-lhe dos preciosos. Oxalá mexa connosco
pete a mesma saudação: «A paz es- e está sempre pronto a levantar-te de amavelmente Jesus: «Filha, dá-me a dentro o que está a acontecer: é tem-
teja convosco!» (Jo 20, 19.26). Co- novo. Não quer ver-nos a pensar tua miséria» (Diário, 10/X/1937). Po- po de remover as desigualdades, sa-
meça de novo. A ressurreição do dis- continuamente nas nossas quedas, demos, também nós, interrogar-nos: nar a injustiça que mina pela raiz a
cípulo começa daqui, desta misericór- mas que olhemos para Ele, que, nas «Dei a minha miséria ao Senhor? saúde da humanidade inteira!
dia fiel e paciente, da descoberta que quedas, vê filhos a levantar; nas mi- Mostrei-Lhe as minhas quedas, para Aprendamos com a comunidade
Deus não Se cansa de estender-nos a sérias, vê filhos a amar com miseri- que me levante?» Ou há algo que cristã primitiva, que recebera miseri-
mão para nos levantar das nossas córdia. Hoje, nesta igreja que se tor- conservo ainda dentro de mim? Um córdia e vivia usando de misericór-
quedas. Quer que O vejamos assim: nou santuário da misericórdia em pecado, um remorso do passado, dia, como descreve o livro dos Atos
não como um patrão com quem de- Roma, no domingo que São João uma ferida que trago dentro, rancor
Paulo II dedicou à Misericórdia Di- dos Apóstolos: os crentes «possuíam
vemos ajustar contas, mas como o contra alguém, mágoa contra uma tudo em comum. Vendiam terras e
vina há vinte anos, acolhamos con- pessoa em particular... O Senhor es-
nosso Papá, que sempre nos levanta. outros bens e distribuíam o dinheiro
fiadamente esta mensagem. A Santa pera que Lhe levemos as nossas mi-
Na vida, caminhamos tateando, co- Faustina, disse Jesus: «Eu sou o por todos, de acordo com as necessi-
mo uma criança que começa a an- sérias, para nos fazer descobrir a sua
amor e a misericórdia em pessoa; dades de cada um» (At 2, 44-45). Is-
dar, mas cai; dá alguns passos e cai misericórdia.
não há miséria que possa superar a to não é ideologia; é cristianismo.
novamente; cai e volta a cair, mas Voltemos aos discípulos… D uran-
minha misericórdia» (Diário, Naquela comunidade, depois da
sempre o pai a levanta. A mão que te a Paixão, tinham abandonado o
14/IX/1937). Outra vez, quando a ressurreição de Jesus, apenas um fi-
nos levanta sempre é a misericórdia: Santa confidenciava feliz a Jesus que Senhor e sentiam-se em culpa. Mas
cara para trás e os outros esperaram
Deus sabe que, sem misericórdia, fi- Lhe oferecera toda a sua vida, tudo Jesus, ao encontrá-los, não lhes pre-
por ele. Hoje parece dar-se o contrá-
camos caídos no chão; ora, para ca- o que tinha, ouviu d’Ele uma res- ga um longo sermão. A eles, que es-
rio: uma pequena parte da humani-
minhar, precisamos de ser postos de posta que a surpreendeu: «Não me tavam feridos dentro, mostra as suas
dade avançou, enquanto a maioria
pé. ofereceste aquilo que é verdadeira- chagas. Tomé pode tocá-las, e desco-
bre o amor: descobre quanto Jesus ficou para trás. E alguém poderia
sofrera por ele, que O tinha abando- dizer: «São problemas complexos,
nado. Naquelas feridas, toca com não cabe a mim cuidar dos necessi-
mão a terna proximidade de Deus. tados; outros devem pensar neles».
Depois de encontrar Jesus, Santa
No Regina caeli recitado no final da celebração Tomé, que chegara atrasado, quando
abraça a misericórdia, ultrapassa os Faustina escreveu: «Numa alma so-
fredora, devemos ver Jesus Crucifi-
Os votos de Páscoa às Igrejas do Oriente outros discípulos: não acredita só na
ressurreição, mas também no amor cado e não um parasita nem um far-
sem limites de Deus. E faz a profis- do... [Senhor], dais-nos a possibili-
são de fé mais simples e mais bela: dade de nos exercitarmos nas obras
No final da missa, antes de conceder a bênção conclusiva, o Santo Padre «Meu Senhor e meu Deus!» (Jo 20, de misericórdia, e nós exercitamo-
guiou a recitação do Regina caeli, introduzindo-a com as seguintes palavras. 28). Eis a ressurreição do discípulo: nos nas murmurações» (Diário,
realiza-se quando a sua humanidade, 06/IX/1937). Mas, um dia, ela pró-
Estimados irmãos e irmãs! frágil e ferida, entra na de Jesus. pria se lamentou com Jesus dizendo
Aqui dissolvem-se as dúvidas; aqui que, para ser misericordiosa, passava
Neste segundo Domingo de Páscoa, foi significativo celebrar a Eucaristia
Deus torna-Se o meu Deus; aqui re- por ingénua: «Senhor, muitas vezes
aqui, na Igreja do Espírito Santo “in Sassia”, que São João Paulo II quis
começa a aceitar-se a si mesmo e a abusam da minha bondade». E Je-
como Santuário da Divina Misericórdia. A resposta dos cristãos nas tem-
amar a própria vida. sus retorquiu: «Não importa, minha
pestades da vida e da história só pode ser a misericórdia: o amor compas- filha! Não te preocupes! Tu sê sem-
sivo entre nós e por todos, especialmente por aqueles que sofrem, por Queridos irmãos e irmãs, na pro-
pre misericordiosa para com todos»
quantos mais lutam, pelos que estão mais abandonados... Não pietismo, vação que estamos a atravessar, tam-
bém nós, com os nossos medos e as (Diário, 24/XII/1937). Para com to-
não assistencialismo, mas compaixão, que vem do coração. E a misericór- dos: não pensemos só nos nossos in-
dia divina vem do Coração de Cristo, de Cristo Ressuscitado. Brota da nossas dúvidas como Tomé, nos re-
conhecemos frágeis. Precisamos do teresses, nos interesses parciais.
ferida sempre aberta do seu lado, aberta para nós, que precisamos sempre Aproveitemos esta prova como uma
de perdão e de conforto. A misericórdia cristã inspire também a justa Senhor, que, mais além das nossas
fragilidades, vê em nós uma beleza oportunidade para preparar o ama-
partilha entre as nações e as suas instituições, a fim de enfrentar a crise nhã de todos, sem descartar nin-
atual de maneira solidária. indelével. Com Ele, descobrimo-nos
preciosos nas nossas fragilidades. guém. De todos. Porque, sem uma
Formulo os bons votos aos irmãos e às irmãs das Igrejas do Oriente, visão de conjunto, não haverá futuro
Descobrimos que somos como belís-
que hoje celebram a Festa da Páscoa. Juntos anunciemos: «Verdadeira- simos cristais, simultaneamente frá- para ninguém.
mente, o Senhor ressuscitou!» (Lc 24, 34). Sobretudo neste tempo de pro- geis e preciosos. E se formos trans- Hoje, o amor desarmado e con-
vação, sintamos como é grande a dádiva da esperança que deriva do facto parentes diante d’Ele como o cristal, vincente de Jesus ressuscita o cora-
de termos ressuscitado com Cristo! Em particular, regozijo-me com as co- a sua luz — a luz da misericórdia — ção do discípulo. Também nós, co-
munidades católicas orientais que, por motivos ecuménicos, celebram a brilhará em nós e, por nosso inter- mo o apóstolo Tomé, acolhamos a
Páscoa juntamente com as ortodoxas: que esta fraternidade sirva de um médio, no mundo. Eis aqui o moti- misericórdia, que é a salvação do
conforto onde os cristãos são uma pequena minoria! vo para exultarmos «de alegria — co- mundo. E usemos de misericórdia
Com alegria pascal dirijamo-nos agora para a Virgem Maria, Mãe de mo diz a primeira Carta de Pedro —, para com os mais frágeis: só assim
Misericórdia! se bem que, por algum tempo, [te- reconstruiremos um mundo novo.

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