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FICHAMENTO- Responsabilidade dos Estados por atos internacionalmente ilícitos:

perspectivas atuais- Ranieri Lima Resende

1. A responsabilidade internacional dos estados por atos de natureza ilícita e sua


delimitação temática

1.1 A concepção jurídica de responsabilidade

A responsabilidade pressupõe a existência de dois ou mais sujeitos reconhecidos pelo


sistema jurídico em espécie, com relação aos quais uma obrigação juridicamente vinculada
encontra-se ofendida.

1.2 O trabalho de codificação da matéria pela comissão de direito internacional e o


foco do estudo ora empreendido

Chegou-se à conclusão de não abordar a definição e codificação das chamadas normas


primárias, ou seja, aquelas cuja violação enseja a responsabilidade pelo ilícito. Em virtude
disso, centrou-se o foco nas regras que se contrapõem às anteriores e são qualificadas de
secundárias, cujo objetivo é determinar as consequências jurídicas do descumprimento das
obrigações originais.

2. O ato internacionalmente ilícito e seus elementos constitutivos

Todo ato internacionalmente ilícito de um Estado gera sua responsabilidade internacional.

2.1 A questão do dano

Nas denominadas obrigações de mero comportamento, é suficiente constatar que seu


destinatário não tenha adotado a conduta esperada para deduzir a materialidade da
respectiva violação, diversamente das obrigações de resultado, cujo foco situa-se no efeito
material esperado.
Não obstante o dever de indenizar em razão do prejuízo ocorrido ser consequência normal
da responsabilidade, não é a única, diante do que o puro e simples descumprimento
obrigacional destituído do fator "dano” não deixará de ensejar a responsabilidade
internacional do Estado ofensor.
2.2 A questão da culpa

A maioria da doutrina internacionalista adota a teoria objetiva da responsabilidade, por meio


da qual a desvinculação do fator culpa converte o pressuposto básico do ato
internacionalmente ilícito em uma relação eminentemente causal. O estado afigura-se, de
uma maneira geral, responsável pela violação de qualquer de suas obrigações sem que seja
necessário identificar uma falha psicológica em seus agentes.

2.3 O ato atribuível ao Estado

2.3.1 Aspectos positivos e negativos do ato de Estado

Entenda-se o vocábulo “ato de Estado” em seu sentido amplo, ou seja, concernente ao


comportamento estatal comissivo ou omissivo que implique em uma violação obrigacional.

2.3.2 Conduta dos órgãos de governo

Inicialmente, considera-se ato de Estado o comportamento de todo órgão estatal no


exercício de suas funções executivas, legislativas, jurisdicionais ou de outra índole, qualquer
que seja sua posição organizacional perante o governo central ou perante uma divisão
territorial do Estado.

Com relação aos atos jurisdicionais internos, seu aspecto ofensivo ao direito internacional
centra-se na idéia de “denegação de justiça” , assim qualificados os comportamentos que
impliquem em: 1) decisões diretamente confrontantes com tratado ou norma de caráter
consuetudinário; 2) provimentos de última instância cujo conteúdo viole flagrantemente o
direito interno por razões discriminatórias com relação ao estrangeiro; 3) negativa de acesso
de estrangeiro a uma prestação jurisdicional completa, especialmente por intermédio da
dilação temporal injustificável sob o prisma do procedimento (denegação de justiça em
sentido estrito).

2.3.3 Exercício de atribuições típicas do poder público

Ainda que não esteja enquadrada na clássica estrutura tripartite do poder do Estado
(Executivo, Legislativo e Judiciário), uma pessoa ou entidade que exerça atribuições típicas
do poder público pode comprometer a potestade soberana à luz do direito internacional.
O exercício do poder de polícia, por exemplo, caracterizado pela limitação das liberdades
individuais, constitui prerrogativa inerente ao poder público, ainda que efetivado por
intermédio de entes de direito privado. Tais considerações têm em vista, por oportuno
esclarecer, a proliferação de entidades que exercem prerrogativas públicas, em
conseqüência da necessária descentralização ratione materiae do Estado contemporâneo.

2.3.4 O direito internacional face às restrições do ordenamento interno: pacto


federativo e atos ultra vires.

O Estado é internacionalmente responsável pela conduta de seus órgãos, inclusive quando


a respectiva atuação houver sido concretizada contra suas diretrizes ou ordem superior
direta.
Por outro lado, entender que disposições formais de direito interno apresentam-se
suficientes para afastar a responsabilidade internacional do Estado seria negar a existência
normativa do próprio direito internacional, 349 Revista \la Faculdade de Direito da
Universidade Federal de Minas Gerais na medida em que a noção de ordem jurídica
pressupõe seu posicionamento autoritativo acima dos respectivos sujeitos tutelados, sem o
qual não haveria que falar, sequer, na concepção de vínculo obrigacional entre Estados.

2.3.5. Responsabilidade do Estado por atos particulares

A regra geral é que o único comportamento atribuível ao Estado, no plano internacional,


refere-se à conduta de seus órgãos de governo ou de outros que hajam atuado sob sua
direção, controle, instrução ou instigação .
Outrossim, atos estritamente privados não demandam a responsabilidade do Estado, salvo
quando não forem adotadas por ele suficientes medidas para impedir e/ou punir os
particulares responsáveis. Além disso, condutas originariamente não enquadráveis no
conceito de “ato de Estado” podem vir a ser reconhecidas e adotadas como próprias pela
entidade estatal.

2.3.6. Responsabilidade do Estado por atos insurrecionais


A princípio, os atos insurrecionais não são inseridos na concepção de “ato de Estado”. A
atuação das autoridades estatais, marcada pela boa-fé e pela ausência de comportamento
negligente com relação aos movimentos insurgentes, não implica em responsabilidade pelos
danos produzidos pelos rebeldes a bens, direitos e interesses de outros Estados ou de
estrangeiros.
Importa considerar que a atuação positiva do Estado, nesse caso, deverá pautar-se pelo
uso efetivo das forças à sua disposição para impedir a consecução de atos revolucionários
prejudiciais a terceiros e, tendo ocorrido o dano, pelo emprego de suficientes diligências com
vistas à persecução e punição dos respectivos culpados.

2.4 Violação de uma obrigação internacional

A essência do ato internacionalmente ilícito, consequentemente, é dada pela falta de


conformidade entre o efetivo comportamento do Estado e o que deveria ter sido adotado para
ater-se a uma determinada obrigação internacional, em outras palavras, face à dissociação
subsuntiva entre sein (ser) e sollen (dever ser).

2.4.1. Obrigações internacionais erga omnes

Apesar de o direito internacional não fazer distinções entre as obrigações vulneráveis, sob a
óptica da fonte normativa de que se originem, com vistas a delimitar a responsabilidade e
suas respectivas conseqüências reparatórias, certas faculdades jurídicas encontram-se
especialmente protegidas em função de sua essencialidade axiológica para a comunidade
internacional como um todo, motivo pelo qual são consideradas de extensão erga omnes.
Portanto, a violação por um Estado de uma obrigação dessa natureza, em razão da
importância da causa, atinge a todos entes soberanos indiscriminadamente.

2.4.2. Crimes internacionais perpetrados por Estados

Crime internacional foi considerado todo ato internacionalmente ilícito resultante da


violação, por um Estado, de uma obrigação internacional tão essencial para a salvaguarda de
interesses fundamentais da comunidade internacional, que sua ofensa é reconhecida como
crime por essa comunidade em seu conjunto, qualificando-se os delitos, por exclusão, como
todo ilícito internacional que não se caracterize crime.

2.4.3. Violações graves de obrigações decorrentes de normas imperativas

Dentre as obrigações imperativas de direito internacional geral reconhecidas pela ClJ


figuram a proteção contra a agressão e o genocídio, o direito dos povos à autodeterminação,
os direitos básicos da pessoa humana e a repressão à prática de escravidão e de
discriminação racial.
3. Circunstâncias excludentes da ilicitude

Em seu Projeto, a CDI enumera seis circunstâncias excludentes da ilicitude de um


comportamento que, de outro modo, não seria de conformidade com as obrigações
internacionais assumidas pelo Estado que se trate, sejam elas: 1) consentimento; 2) legítima
defesa; 3) contramedidas; 4) força maior; 5) perigo extremo; 6) estado de necessidade.

3.1 Caráter exemplificativo das escusas listadas pela cdi

3.2 Consentimento

É princípio básico de direito internacional, reconhecido pela prática e pela jurisprudência,


que o consentimento de um Estado à determinada conduta de outro exclui a ilicitude desse
ato com relação ao Estado assente, sempre que esse consentimento seja válido e na medida
em que o comportamento permaneça dentro dos limites outorgados.
A validade do consentimento apresenta-se estrita às limitações objetivas do sistema jurídico
internacional, especialmente às obrigações resultantes de normas imperativas de jus cogens,
diante das quais aos Estados não é permitido alegar excludente de ilicitude para se exonerar
de seu cumprimento.

3.3 Legítima Defesa

Para que se caracterize uma situação de legítima defesa, imprescindível que um Estado
recorra ao uso da força armada com o específico propósito de deter e rechaçar uma
agressão de outro Estado, ou seja, pressupõe-se o uso defensivo da força armada, com o fito
de impedir o êxito de anterior ataque armado de outro sujeito, até que o Conselho de
Segurança tenha adotado, eficazmente, as medidas dirigidas à restauração da paz e da
segurança.
Os limites inerentes ao exercício da autodefesa encontram-se estabelecidos pelo direito
internacional, em vista do que as medidas adotadas 357 Revista da Faculdade de Direito da
Universidade Federal de Minas Gerais sob esse fundamento deverão respeitar as restrições
aplicáveis aos conflitos armados, especialmente as de caráter humanitário, observado
sempre o princípio da proporcionalidade.

3.4 Contramedidas
Em algumas circunstâncias, a comissão de um ato internacionalmente ilícito por um Estado
legitima que a entidade soberana lesionada por esse ato adote contramedidas, excluída a
ameaça ou uso da força, a fim de lograr sua cessação ou a reparação do dano acaso sofrido.
Dentre as condicionantes jurídicas a serem observadas para a legítima tomada de
contramedidas pelos Estados, figuram as seguintes características essenciais: 1) devem ter
por objeto induzir o Estado ofensor ao cumprimento da obrigação internacional em espécime
vulnerada; 2) devem ser, tanto quanto possível, de natureza reversível; 3) devem ser
proporcionais à violação a que reagem; 4) devem vir acompanhadas de prévio requerimento
ao Estado ofensor para que cumpra as obrigações primárias que lhe incumbem; 358 .Ranieri
Lima Resende 5) devem vír acompanhadas de prévia notificação oficial ao Estado ofensor,
especificando as medidas que serão tomadas e oferecendo a negociação internacional.

3.5 Força maior

Considera-se force majeure uma força irresistível ou um acontecimento imprevisível, alheio


ao controle do Estado, que torna materialmente impossível o cumprimento da obrigação
primária.
Apesar de freqüentemente invocada, a exoneração da ilicitude em razão da ocorrência de
força maior é raramente aceita pela jurisprudência internacional, dada a difícil concomitância
de suas condições elementares, quais sejam: irresistibilidade, imprevisibilidade e
exterioridade ao Estado descumpridor da obrigação internacional.

3.6 Perigo extremo

O direito internacional não-impõe atitudes heróicas, partindo-se dessa premissa, um ato de


Estado desconforme com determinada obrigação internacional tem excluído seu caráter ilícito
se o seu autor, em uma situação de perigo extremo, não tem disponível outro meio para
salvar sua vida ou a vida de outras pessoas confiadas a seus cuidados.
Diferencia-se perigo extremo da força maior com fulcro na possibilidade de escolha. Na
medida em que a force majeure exige a ausência de uma conduta voluntária por parte do
Estado, a existência de opções de comportamento, ainda que em tese, torna o perigo
extremo uma escusa plenamente justificável em face do confronto evidenciado entre
diferentes valores jurídicos, diante do que prevalece o grau axiológico da vida humana.

3.7 Estado de necessidade


Pela expressão “estado de necessidade” designam-se os casos excepcionais, em que o
único meio à disposição de um Estado, para salvaguardar um interesse essencial ameaçado
por um perigo grave e iminente, é não cumprir outra obrigação internacional de menor
importância ou urgência. État de necessité pressupõe, portanto, um conflito de interesses
legítima e juridicamente reconhecidos, mas que, diante das especialíssimas circunstâncias, a
conservação de um implicará o justificado sacrifício do outro.
Distintamente do perigo extremo, o estado de necessidade não consiste na ocorrência de
um perigo para as vidas de pessoas a cargo de um funcionário do Estado, mas em um grave
perigo para os interesses essenciais do próprio ente soberano ou para a comunidade
internacional como um todo.
Para sua excepcional ocorrência, o estado de necessidade deverá preencher a alguns
pressupostos básicos, tais quais: 1) a violação da obrigação internacional em espécime deve
ser o único meio utilizável para salvaguardar o interesse essencial em perigo; 2) a violação
não deve afetar gravemente outro interesse também essencial do Estado ou da comunidade
internacional; 3) a obrigação internacional vulnerada não deve excluir a possibilidade de sua
alegação, seja em razão de sua natureza intrínseca, seja em face de uma previsão
convencional específica; 4) não deve o Estado haver contribuído para a sua causa.

3.8 Consequências da exclusão de ilicitude

Ao elencar as conseqüências da invocação válida de uma circunstância excludente da


ilicitude, a Comissão de Direito Internacional considerou que a extirpação da antijuridicidade
do ato de Estado não retira a obrigação de indenizar qualquer perda efetiva causada pelo ato
em questão.

4. Consequências jurídicas da responsabilidade


Em face da diversidade de bens jurídicos tutelados no âmbito do direito internacional, nada
impede a adoção de medidas combinadas de cessação e reparação em necessária resposta
ao ilícito perpetrado, como seria o caso de uma extensa contaminação do meio ambiente
marinho, a qual implicaria nos deveres de fazer cessar o motivo poluente, de restituir o meio
a seu estado anterior e de indenizar os prejudicados pelos danos ambientais e econômicos
verificados.

4.1 Continuidade do dever de cumprir a obrigação originária

Não obstante a aparição de uma nova relação jurídica, inaugurada pelo ato
internacionalmente ilícito, a obrigação internacional preexistente 362 .Ranieri Lima Resende
de cunho primário não desaparece da esfera do Direito, tendo em vista a autonomia
ontológica dos vínculos obrigacionais sob comento. Nesse sentido, as conseqüências do ato
internacionalmente ilícito não afetam o dever do Estado responsável de cumprir a obrigação
originária violada.

4.2 Cessação e não repetição do ilícito

O dever de cessação objetiva pôr fim a uma violação do direito internacional e salvaguardar
a contínua validade e eficácia da norma primária subjacente, de maneira que proteja tanto o
Estado imediatamente atingido quanto a própria comunidade internacional em seu conjunto,
em virtude de a medida laborar em prol do império do Direito.
O Estado responsável pelo ato internacionalmente ilícito está obrigado, ademais, a oferecer
seguranças e garantias adequadas de não repetição, se as circunstâncias o exigirem, com
vistas ao restabelecimento da confiança mútua no âmbito de uma relação jurídico
internacional em que estejam envolvidas obrigações primárias de caráter continuado.

4.3 Reparação

Verificado o prejuízo em decorrência de um ato internacionalmente ilícito, o Estado


responsável está obrigado a reparar integralmente o dano ocorrido, seja de natureza
material, seja moral.
A responsabilidade jurídico-internacional não implica, necessariamente, que se tenha
produzido um dano econômico, visto que possível a verificação de prejuízo a um Estado
ainda que não tenha havido qualquer abalo em seu patrimônio, como ocorre na hipótese de
ofensas perpetradas à honra que resultem na diminuição do prestígio da entidade envolvida.
4.3.1 Restituição

o Estado responsável estará obrigado, verbi gratia, a ab-rogar ou modificar uma lei
contrária ao direito internacional, a revogar a detenção imotivada de um estrangeiro, a retirar-
se de um território ilegalmente ocupado ou a derrogar uma sentença conflitante com normas
internacionais, ainda que com força jurídica perante o ordenamento interno.

4.3.2 Indenização

Para fins de indenização, o dano susceptível de avaliação financeira abarca tanto o dano
sofrido pelo próprio Estado como os danos sofridos pelos nacionais deste Estado, sejam eles
pessoas físicas ou jurídicas, em cujo nome o ente soberano apresente uma reclamação em
decorrência de sua proteção diplomática.
Em alguns casos de difícil equivalência monetária, especialmente em que estejam
envolvidas perdas de vidas, de oportunidades ou danos psicológicos, o processo de
quantificação pecuniária do prejuízo efetiva-se por aproximação e por intermédio do
arbitramento do montante devido à vítima.

4.4 Consequências específicas das violações graves de obrigações decorrentes de


normas imperativas

Verificada a ocorrência de grave violação a obrigações resultantes de normas imperativas,


todos os Estados deverão empreender um esforço conjunto e coordenado com vistas a
conter seus efeitos.

5. Conclusão

Conclui-se, nesse sentido, que, apesar da excelência metodológica e de conteúdo, o tema


da responsabilidade dos Estados por atos internacionalmente ilícitos sob a óptica da CDI
encontra-se pouco direcionado a inovações jurídico-institucionais, tão necessárias ao
contínuo progresso de uma matéria em estado de constante mutação normativa.

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