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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE

SÃO PAULO
PUC-SP

IVANI FRANCISCO DE OLIVEIRA

VERSÕES DE MULHERES NEGRAS SOBRE A TRANSIÇÃO CAPILAR:


um estudo sobre processos de descolonização estética e subjetiva

MESTRADO EM PSICOLOGIA SOCIAL

São Paulo
2019
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC-SP

IVANI FRANCISCO DE OLIVEIRA

VERSÕES DE MULHERES NEGRAS SOBRE A TRANSIÇÃO CAPILAR:


um estudo sobre processos de descolonização estética e subjetiva

MESTRADO EM PSICOLOGIA SOCIAL

Dissertação apresentada à Banca Examinadora da


Pontifícia Universidade Católica de São Paulo,
como exigência parcial para obtenção do título de
MESTRA em Psicologia Social, sob orientação da
Profa. Dra. Mary Jane P. Spink.

São Paulo
2019
BANCA EXAMINADORA

______________________________________________________

______________________________________________________

______________________________________________________
Dedico este trabalho a minha filha
Nathalia e ao meu filho Brian,
que dão os sentidos e as razões pelas
quais cotidianamente eu me levanto.

(Nelson Mandela)
AGRADECIMENTO ESPECIAL

Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pelo


apoio à realização desta pesquisa por meio da bolsa consentida do processo número
130272/2017-5. Sem o apoio financeiro este trabalho não poderia ter sido realizado.
AGRADECIMENTOS

É com altivez e alegria que agradeço a todas as mulheres negras que existiram no
processo divino de continuidade da vida que é a nossa ancestralidade negra e que transmitem
sabedoria e força. Agradeço a minha mãe Iracema, meu pai Servandino e ao meu irmão Ricardo,
por acreditarem em meu potencial intelectual.
À Mary Jane Paris Spink, sou grata pela delicadeza, acolhimento, incentivo e respeito
sempre presentes nas orientações, sem que isso diminuísse a potência provocativa de seus
ensinamentos que foram fundamentais para a superação de lacunas da minha trajetória
educacional. Sua confiança em mim foi esplêndida!
Às professoras Maria da Graça Marchina Gonçalves e Nirlene Nepomuceno (Bebel),
pelas leituras atentas e criteriosas que geraram valiosas contribuições em meu exame de
qualificação. À Maria Cristina Vicentin e Bader Sawaia, pelas aulas tão inspiradoras. Às
companheiras e aos companheiros do Núcleo de Estudos sobre Práticas Discursivas no
Cotidiano: direitos, risco e saúde (Nuprad): Alê, Alexandre, Cicero, Cintia, Claudia, Hercilio,
Jaque, Jonas, Júlia, Juliana M, Juliana S, Malu, Marcela, Mário, Mauricio, Meira, Natalia,
Pablo, Priscila, Roberth, Rafael, Rubens, Sandra, Simone, Sueli e Vanda. Muito obrigada pelas
risadas e pelo apoio. E à Bia Brambilla, companheira e incentivadora. Ao Núcleo Psicologia e
Relações Étnico-raciais do CRP-SP, em especial, à Márcia e Cinthia.
Pela afetividade, amizade, incentivo na escrita e ajuda, tanto simbólica como material,
(valeu pelo notebook!), sou e sempre serei grata às queridas amigas Ana Helena Passos,
Deborah Monteiro, Dulci Lima, Joyce Rodrigues, Lia Mendes e Siméia Mello. O efeito da
existência dessas mulheres em minha vida tem sido transformador. Pela solicitude, conselhos e
demonstração de companheirismo na produção acadêmica, Emiliano de Camargo, Clélia
Prestes, Bergman de Paula, Marcio Farias, Deivison Faustino e Leila Maria de Oliveira. Pela
cuidadosa escuta psicológica que tanto me impulsionou, agradeço à Ângela Meire.
Sou especialmente grata à Flávia Eugênio, amiga que caminhou ao meu lado durante
todo este processo, compartilhando alegrias a cada etapa que concluímos e as angústias em cada
momento que precedeu essas etapas.
Antes de saber do pente que penteia meu cabelo
Procure saber da força de quem rege a minha cabeça
Estude sobre a história daqueles que me antecedem
Saiba o valor do sangue que percorre minhas veias.

Antes de saber do pente que penteia meu cabelo


Vá perguntar ao seu povo o que ele fez do meu
Vai ouvir sobre miséria, genocídio e violência
Ouça bem e não se esqueça, pois, meu povo não se esqueceu.

Antes de saber do pente que penteia meu cabelo


Leia, veja, sinta e ouça o que ensinam meus irmãos
E se estiver pensando em samba, futebol e Capoeira
Somos grandes referências, mas não termina aí não.

Antes de saber do pente que penteia meu cabelo


Saiba que a luta segue e extinguirá a opressão
Ao nos encontrar nos fóruns, consultórios, presidência
Reprima seu preconceito, acostume-se à visão
Saiba: não é qualquer pente que penteia meu cabelo
E não aceito qualquer nome para lhe dar definição
Crespos são os fios que tranço, prendo, solto e não aliso
Ruim é sua ignorância, duros os meus versos são.

De Nayla Carvalho, na Antologia poética pretextos de mulheres negras


OLIVEIRA. Ivani Francisco de. Versões de mulheres negras sobre a transição capilar: um
estudo sobre processos de descolonização estética e subjetiva. Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo, São Paulo, 2019.

RESUMO

Cotidianamente pessoas produzem sentidos e posicionam-se nas relações interpessoais e nas


redes sociais, e basta uma breve observação do dia a dia em nossa sociedade para ver que há
nítida conexão entre rede digital e o contexto cultural contemporâneo. Nesse cenário, há
mulheres negras divulgando depoimentos sobre a transição capilar e empresas do ramo estético
oferecendo produtos para esse fim, interação esta que tem gerado modificações na relação de
mulheres negras com seus cabelos. O objetivo geral desta pesquisa, portanto, é identificar as
diferentes versões sobre transição capilar que circulam entre mulheres negras. Esse geral
objetivo desdobra-se nos seguintes objetivos específicos: a) analisar as narrativas de mulheres
negras sobre a transição capilar para compreender as razões para essa opção e b) discutir a
relação entre a transição capilar e mudanças no posicionamento como mulheres negras. Adota-
se a noção de posicionamento proposta por Rom Harré (DAVIES; HARRÉ, 1990), que
considera o self como uma construção social, produto das práticas discursivas nas quais as
pessoas dão sentido ao mundo e a suas próprias ações. Portanto, é possível fazer uma análise
da construção histórica dessas narrativas a partir do legado das militâncias negras e, para isso,
esta pesquisa tem como referencial teórico-metodológico a abordagem da psicologia discursiva,
numa perspectiva construcionista voltada às produções dos sentidos no cotidiano. Os
procedimentos de pesquisa consistiram em analisar as narrativas de nove mulheres negras que
passaram pela transição capilar e contaram suas histórias em depoimentos gravados em vídeos
disponibilizados no site da websérie
temáticos. Os resultados permitiram entender a transição capilar como uma possível forma de
descolonização estética e subjetiva.

Palavras-chave: Mulheres negras; Transição capilar; Práticas discursivas; Descolonização


estética.
OLIVEIRA. Ivani Francisco de. Versões de mulheres negras sobre a transição capilar: um
estudo sobre processos de descolonização estética e subjetiva. Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo, São Paulo, 2019.

ABSTRACT

Everyday people produce meanings and position themselves in face-to face interpersonal
relations as well as in social media and a brief observation of the daily life in our society allows
us to see that there is a clear connection between digital networks and the contemporary cultural
context. In this scenario, there are black women making public statements about their hair
transition from straightening practices back to
enterprises in the beauty sector offering products for this purpose generating a type of
interaction that has led to changes in the way black women relate to their hair. The aim of this
research was to identify different versions of hair transition that circulate among black women.
More specifically, a) to analyze the narratives of black women regarding the reasons for
n and
changes in the way they position themselves as black women. For this purpose, the notion of
positioning proposed by Rom Harré (DAVIES; HARRÉ, 1990) was adopted which considers
the self as a social construction, product of discursive practices through which people make
sense of the world and their own actions. In this manner, it was possible to understand the
construction of these narratives as a result of the legacy of black activism. With this purpose,
the research was based on the theoretical and methodological frame of reference of
constructionist Discursive Psychology, with focus on the production of meanings in the day-to-
day. The narratives of nine black women who went through hair transition and told their stories
in testimonials available in vi
thematic maps. Results suggest that hair transition is a form of aesthetic and subjective
decolonization.

Keywords: Black women; Hair transition; Discursive practices; Aesthetic decolonization.


LISTA DE FIGURAS

Figura 1: Teaser websérie ............................................................ 36


Figura 2: Primeiro episódio ................................................................................................. 36
Figura 3: Segundo episódio ................................................................................................. 37
Figura 4: Terceiro episódio ................................................................................................. 38
Figura 5: Quarto episódio ................................................................................................... 39
Figura 6: Quinto episódio ................................................................................................... 39
Figura 7: Sexto episódio ..................................................................................................... 40
SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 12
2. DAS RAÍZES ÀS PONTAS A EMANCIPAÇÃO CRESPA .................................. 20
2.1. O adestramento .................................................................................................... 20
2.1.1. Estética como estratégia política de inserção na sociedade. ............................. 20
2.2. A Soltura .............................................................................................................. 26
3. OBJETIVOS E PROCEDIMENTOS ........................................................................ 30
3.1. A opção pelo uso da internet como foco de pesquisa .......................................... 30
3.2. Razões para a escolha do site ..................................... 33
3.2.1. A estrutura do site ........................................................................................... 33
3.2.2. Websérie : Teaser ..................................................... 35
3.3. A escolha dos depoimentos. ................................................................................. 44
3.4. Procedimentos de análise: a abordagem de análise de práticas discursivas como
opção metodológica ........................................................................................................ 45
4. DESEMBARAÇANDO AS NARRATIVAS ............................................................. 50
4.1. Racismo ................................................................................................................ 52
4.2. Alisamento como estratégia de adestramento social ........................................... 53
4.3. Incentivo e apoio .................................................................................................. 55
4.4. Justificativa para alisar o cabelo ......................................................................... 57
4.5. Prejuízos sociais ................................................................................................... 59
4.6. Efeitos deletérios do alisamento .......................................................................... 61
4.7. Motivos para transição ........................................................................................ 63
4.8. Posicionamentos ................................................................................................... 65
CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................. 69
REFERÊNCIAS ................................................................................................................. 73
12

1. INTRODUÇÃO

O desejo de pesquisar mulheres negras e o processo de abandono das práticas de


alisamento dos seus cabelos crespos para aceitação e crescimento do cabelo com textura natural
emerge do cruzamento dos percursos por mim percorridos entre ser mulher negra militante do
movimento negro organizado, psicóloga clínica e pesquisadora em Psicologia Social.
O tema me rondava em todos os lugares, seja na clínica, manifestado por meio do
sofrimento psíquico gerado desde a infância, momento em que algumas mulheres negras
vivenciam o racismo devido às experiências constantes de discriminação por conta da textura
dos seus cabelos, ; seja pelas frequentes abordagens na rua por
mulheres que gostariam de ter seus cabelos naturais e me perguntavam como fazer para ter o
cabelo igual ao meu; ou, ainda, por pais que pediam orientações e sugestões de cuidados para
cabelos de suas filhas ainda pequenas.
Iniciei a pós-graduação com um projeto de pesquisa de mestrado visando um estudo
sobre reconstrução identitária de mulheres negras a partir da atuação da organização NEGRA
SIM, no movimento social de mulheres, considerando o contexto de reconfiguração das
relações raciais na cidade de Santo André/SP. Durante as disciplinas do programa de pós-
graduação em Psicologia Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP),
encontrei uma reflexão acerca do conceito de identidade presente no livro A Aventura
antropológica: teoria e pesquisa, organizado por Ruth Cardoso. Nele, ela afirma ter ocorrido
uma banalização do conceito de identidade, gerando uma extensão que diluiu o campo de
análise, deixando de ser oposição entre grupos que se enfrentam na sociedade para ser entendido
como uma propriedade do grupo projetado na pessoa.
Penso que conceitos construídos em um determinado momento histórico podem adquirir
novos sentidos com o passar dos tempos, independentemente de qualquer contraposição. O fato
é que esse conceito se encontra fora da matriz histórica na qual foi gerado. Então minha
orientadora sugeriu adotar uma noção mais dinâmica que identidade, a qual farei uso na etapa
de análise e construção do conhecimento advindo desta pesquisa: a teoria de posicionamento
de Bronwyn Davies e Rom Harré (1990). Essa teoria considera o self a partir de um novo
entendimento, visto como um discurso, uma construção social, produto das práticas discursivas
nas quais as pessoas dão sentido ao mundo e a suas próprias ações.
13

Essa mudança de concepção fez com que eu adentrasse no referencial teórico-


metodológico da psicologia discursiva que é voltada à análise das produções dos sentidos no
cotidiano e à circulação de repertórios em uma perspectiva histórica e social, com foco nas
práticas discursivas. Esse referencial se pauta no construcionismo social, um movimento que
propõe a desfamiliarização de conceitos cristalizados e sugere repensar os modelos tradicionais
de fazer ciência na modernidade.
Diante disso, e considerando outros eventos ocorridos no percurso das disciplinas,
conversas com outras pesquisadoras de diferentes instituições e orientações que me alertaram
para importância de uma pesquisa sobre transição capilar1 na área de saber da Psicologia, alterei
meu projeto de pesquisa para discutir o processo de transição capilar nas mulheres negras em
suas múltiplas versões e seus múltiplos sentidos.
Segundo Nilma Lino Gomes,

O cabelo crespo e o corpo negro podem ser considerados expressões e suportes


simbólicos da identidade negra no Brasil. Juntos, eles possibilitam a construção social,
cultural, política e ideológica de uma expressão criada no seio da comunidade negra:
a beleza negra. (GOMES, 2002, p. 2)

Dessa forma, guiada pela constatação da importância do corpo e do cabelo no processo


de afirmação da beleza das pessoas e da negritude brasileira (GOMES, 2002), tornou-se
objetivo geral desta pesquisa conhecer as diferentes versões da transição capilar que circulam
entre mulheres negras. A partir desse objetivo geral, desdobraram-se os específicos: 1) analisar
as narrativas de mulheres negras sobre a transição capilar para compreender as razões para essa
opção e 2) discutir a relação entre a transição capilar e mudanças no posicionamento como
mulheres negras.
Apesar do caráter coerente da alteração de objetivos de pesquisa, permanecia em mim
uma inquietante sensação de descontentamento em pesquisar esse tema decorrente da seguinte
interrogação: qual é o sentido em produzir conhecimentos sobre cabelos das mulheres negras
vivendo numa sociedade machista, racista e genocida para essa população? Eu deveria
pesquisar as determinações reflexivas entre racismo, machismo e capitalismo?
Gloria Jean Watkins, mais conhecida pelo pseudônimo bell hooks, escritora, feminista
e ativista social estadunidense, apresenta reflexão importante para essa questão quando inicia

1
Processo pelo qual a pessoa abandona os procedimentos químicos de alisamento para permitir, o crescimento dos
fios, o cabelo volte à sua forma original, que pode ser ondulada, cacheada ou crespa.
14

fundamentalmente anti-intelectual é difícil para os intelectuais comprometidos e preocupados


com mudanças sociais radicais afirmar sempre que o trabalho que fazemos tem impacto

colonial, o corpo colonizado foi visto como corpo destituído de vontade, subjetividade, pronto
para servir e destituído de voz.
Entretanto, segundo a autora, o pensamento crítico pode ser usado a serviço da
sobrevivência. Sem separar o trabalho intelectual da política do cotidiano, ela optou
conscientemente por tornar-se intelectual, pois isso lhe permitiria entender o mundo a sua volta,
compreendendo que a vida intelectual não precisa nos separar da comunidade e, além disso,
pode nos capacitar a participar mais plenamente da vida de nossa família e comunidade. Em
outro texto, a potência da intelectualidade para a compreensão da vida é retomada por bell
hooks:

Cheguei à teoria porque estava sofrendo, a dor dentro de mim era tão intensa que eu
não poderia continuar a viver. Cheguei à teoria desesperada, querendo compreender,
querendo entender o que estava acontecendo ao meu redor. Acima de tudo, cheguei à
teoria porque queria fazer a dor ir embora. Eu vi, na teoria, um local para a cura.
(HOOKS, 2013, p.59)

A academia é um espaço de conhecimento, de erudição e da ciência, porém não é um


lugar neutro; foi ocupado e marcado pela ótica da classe dominante que, por sua maneira de
descrever ou interpretar os conhecimentos: objetificou, classificou, criminalizou e, por vezes,
até desumanizou as pessoas negras. De certo, esta pesquisa se insere dentro de um projeto
político-acadêmico no qual se assume uma postura decolonial ao se comprometer com a
produção de conhecimento pautado em narrativas na perspectiva negra e a partir de realidades
e histórias específicas.
Decolonialidade é aqui entendida como um movimento que busca romper com a
universalidade do conhecimento que o colonialismo trouxe ao mundo de modo a criar outras
configurações de conhecimento e de saberes, reconhecendo que teoria não é universal nem
neutra, mas sempre localizada e sempre escrita por alguém, e que este alguém tem uma história.
Em artigo de Joaze Bernardino-Costa e Ramón Grosfoguel (2016, p. 15), publicado no
Dossiê Decolonialidade e perspectiva negra, os autores
distintiva do projeto decolonial a produção do conhecimento e as narrativas a partir de loci
geopolíticos e corpos-
racializada, gendrada e posicionada em uma sociedade de classes. Porém, no empenho em
15

responder quando foi o decolonial, os autores apontam que ele está para além de um projeto
acadêmico contemporâneo, pois originou-se enquanto postura:

[...] o decolonial como rede de pesquisadores que busca sistematizar conceitos e


categorias interpretativas tem uma existência bastante recente. Todavia, isso responde
de maneira muito parcial à nossa pergunta, uma vez que reduziria a decolonialidade a
um projeto acadêmico. Para além disso, a decolonialidade consiste também numa
prática de oposição e intervenção, que surgiu no momento em que o primeiro sujeito
colonial do sistema mundo moderno/colonial reagiu contra os desígnios imperiais que
se iniciou em 1492. (BERNARDINO-COSTA; GROSFOGUEL, 2016, p. 17)

Ademais, estamos na Década Internacional de Afrodescendentes, proclamada pela


ONU, com início em 1 de janeiro de 2015 e final em 31 de dezembro de 2024. A década tem

oficialmente logo após a sexagésima nona sessão da Assembleia Geral.


Inspiro-me no documento de subsídio às ações que devem ser feitas durante a década
intitulado Mulheres e meninas afrodescendentes: conquistas e desafios de direitos humanos o
qual afirma que, em todo o mundo, mulheres e meninas afrodescendentes estão sujeitas a
padrões de estereótipos negativos, causados pelas subjacente exclusão, marginalização,
violência e violações de seus direitos. Portanto, os Estados devem tomar medidas para combater
os estereótipos sexistas e racistas negativos e discriminatórios de mulheres afrodescendentes.
Dessa forma, dedico a minha escrita para que o reconhecimento da população negra possa ser
entendido, também, como o direito a sua imagem conectada a sua estética livre de estereótipos.
Os estudos sobre relações raciais têm produzido um diagnóstico sobre o racismo no
território brasileiro que nos remete a um consenso quanto à importância de superar os
obstáculos gerados pelas desigualdades raciais para a mobilidade e ascensão social da
população negra. Alguns desses estudos concluem que a superação das desigualdades raciais
se dará pela implementação de políticas públicas que visem à eliminação das práticas
discriminatórias presentes no nosso cotidiano. Entretanto, os estudos organizados por Iray
Carone e Maria Aparecida Silva Bento (2002), no livro Psicologia Social do Racismo: estudos
sobre branquitude e branqueamento no Brasil, mostram que a Psicologia pode contribuir com
estudos que investiguem os fenômenos psicológicos que perpassam as relações raciais.
Segundo Maria Aparecida Bento (2002), a discriminação racial pode ter origem em
outros processos sociais e psicológicos que extrapolam o preconceito como, por exemplo, o
desejo do grupo racial dominante de manter o privilégio branco, pelo fato de serem vistos como
pessoas bonitas e inteligentes associado a uma rejeição às pessoas negras. Isso se manifesta na
16

cultura e nos conteúdos circulados na mídia e serve como uma alavanca facilitadora da interação
social para pessoas brancas e dificultadora para as pessoas negras.
De acordo com Jurandir Freire Costa (1983), o racismo produz um impacto no processo
identificatório que leva as pessoas negras a se reconhecerem com uma identidade antagônica a
sua realidade corporal e a sua história pessoal. Essa constatação diz respeito a um contexto
social no qual a imagem da pessoa negra era impregnada de estigmas sociais que influenciavam
a construção e a reafirmação das identidades individuais, oferecendo modelos de
comportamento a serem seguidos com efeito prejudicial na autoestima e na autoimagem.
A identidade negra, por sua vez, é entendida por Nilma Lino Gomes (2005), como uma
construção social, histórica, cultural e plural a qual implica na construção do olhar de um grupo
étnico/racial, ou de sujeitos que pertencem a esse mesmo grupo, sobre si mesmos, a partir da
relação com o outro. Contudo, construir um posicionamento ou uma identidade negra positiva
em uma sociedade que historicamente transmite às pessoas negras, desde a infância, a ideia de
que, para ser aceito, é preciso negar-se a si mesmo, é um desafio enfrentado por essa parcela da
população brasileira.
As legislações afirmativas, ou ações positivas, propiciaram avanço político e social para
a população negra na sociedade brasileira. Muitas das mudanças que ocorreram nesse contexto
como o crescimento da presença de pessoas negras na publicidade nos últimos anos, os sistemas
de cotas nas universidades, a lei nº 10.639/03, que tornou obrigatório o ensino da história e
cultura afro-brasileira e africana nas redes públicas e particulares da educação são exemplos de
contextos que oferecem, fazem apresentar, à população novos repertórios para seus discursos,
narrativas e construções identitárias. Entretanto, os resultados ainda são insatisfatórios e
atualmente correm risco de serem perdidos devido o recrudescimento dos setores conservadores
no Legislativo, Executivo e Judiciário.
Para Danubia de Andrade Fernandes (2016), a identidade negra não se resume à
aceitação do inevitável, mas sim a um difícil processo de conscientização. Tornar-se uma
mulher negra reflete em incumbir-se de seu papel de protagonista na luta contra o machismo
e contra o racismo e, além disso, construir uma resistência ao apelo pelo embranquecimento
Uma
das maneiras de exercer autonomia é possuir um discurso sobre si mesmo. Discurso que se faz

(SOUZA, 1983, p. 17).


Neusa Santos Souza ainda afirma:
17

A possibilidade de construir uma identidade negra - tarefa eminentemente política


exige como condição imprescindível, a contestação do modelo advindo das figuras
primeiras - pais ou substitutos - que lhe ensinam a ser uma caricatura do branco.
Rompendo com este modelo, o negro organiza as condições que lhe permitirão ter um
rosto próprio. (SOUZA, 1983, p. 77)

As mulheres negras brasileiras tiveram sua história marcada por sistemas de escravidão,
exploração e dominação humana que historicamente são engendrados por processos de
preconceitos, machismo, racismo e exclusão social. Porém, elas travaram uma batalha firme até
que suas vozes fossem ouvidas, e, a partir da sua organização política e da articulação em
espaços estratégicos de reivindicação, surgiu um novo olhar para a questão da mulher negra
abrindo a discussão de políticas para a promoção da igualdade racial e do reconhecimento social
de sua estética. Como fato emblemático dessa luta,

de 2015 e mobilizou 50 mil pessoas.


Para a compreensão do movimento supracitado, faço uso de uma das propostas
construcionistas que é a teoria de posicionamento e construção discursiva da realidade cujo
entendimento da natureza do self e dos processos de construção da identidade são dados na
linguagem e nos relacionamentos. Carla Guanaes e Marisa Japur (2003), no artigo

sobre as teorizações de Bronwyn Davies e Rom Harré (1990, buscando compreender a


especificidade das conversações através da definição de três conceitos centrais: posição, força
social da ação e linha de história.
Entende-se por posição,

... um grupo complexo de atributos pessoais genéricos, estruturado de vários modos,


que influenciam nas possibilidades de ação pessoal, intergrupal ou mesmo
intrapessoal, através de algumas designações de direitos, deveres e obrigações a um
indivíduo, conforme sustentado pelo grupo. (GUANAES; JAPUR, 2003)

Já a força social da ação poder presente nos enunciados na


construção das práticas sociais e de realidades conversacionais ; e a linha de história refere-se
a um
definir o sentido de uma posição em uma determi
O conceito de posição remete aos lugares sociais assumidos e negociados pelas pessoas
em suas conversações. Através dele, busca-se contemplar o dinamismo implicado nos processos
de construção de posicionamento, entendendo que é apenas no momento presente de uma
interação que as diversas posições de self adquirem sentido. Entende-se, nesta perspectiva, que
18

as pessoas estão sempre engajadas em atividades discursivas onde posicionam a si mesmas e


aos outros, mas as formas que esses posicionamentos assumem vão diferir de acordo com as
normas sociais que regulam tais interações e com as situações específicas em que eles ocorrem.
Considerando que a circulação desses repertórios pode possibilitar sua apropriação pela
população negra e fundamentar a produção de sentidos sobre o que é ser negra com cabelos
crespos, torna-se fundamental compreender a relação entre a transição capilar e as mudanças
em seus posicionamentos. Esta pesquisa tem como foco essa discussão.
Nesse contexto, tendo a transição capilar como objeto, esta dissertação está estruturada
da seguinte forma: no primeiro capítulo, há a introdução ao tema por meio da apresentação do
contexto de produção, atribuição do caráter decolonial da pesquisa na produção de
conhecimento, objetivos do trabalho e sua conexões com a psicologia discursiva, dados sobre
racismo na rede e políticas afirmativas, que são resultados da pressão do movimento negro, no
cenário político recente no País.
No segundo capítulo, são apresentados momentos históricos em que mulheres negras
assumem o cabelo crespo como discurso político e reflexões sobre as ações políticas feministas
descolonizadoras. No terceiro capítulo, o enfoque é dado às questões metodológicas articuladas
à apropriação da temática pelo mercado e pela grande mídia, desdobrando-se em
desenvolvimento e oferta de produtos que fazem uso de relatos sobre autoestima e identidade
nas redes sociais.
Por fim, no quarto capítulo, a pesquisa se concretiza na análise das versões sobre
transição capilar, com base nos depoimentos de mulheres que passaram por transição capilar.
Nas considerações finais, retomo os objetivos e procedimentos, sintetizando as etapas da
transição capilar analisadas a partir das seguintes categorias temáticas: a) O incômodo; b) A
tomada de decisão; c) Os diferentes sentimentos durante o processo; d) As mudanças pós
transição.
Faz parte da proposta de análise discorrer sobre os efeitos da transição capilar no
posicionamento de mulheres negras, bem como uma possível descolonização estética e
subjetiva. Maria Lugones (2014) chamou a análise da opressão de gênero racializada capitalista
, nomeando de a possibilidade de superar
tal colonialidade. No mesmo texto, ela afirma uma possibilidade de resistência à colonialidade:

Não se resiste sozinha à colonialidade do gênero. Resiste-se a ela desde dentro, de


uma forma de compreender o mundo e de viver nele que é compartilhada e que pode
compreender os atos de alguém, permitindo assim o reconhecimento. (...) A produção
do cotidiano dentro do qual uma pessoa existe produz ela mesma, na medida em que
fornece vestimenta, comida, economias e ecologias, gestos, ritmos, habitats e noções
19

de espaço e tempo particulares, significativos. Mas é importante que estes modos não
sejam simplesmente diferentes. Eles incluem a afirmação da vida ao invés do lucro, o
comunalismo ao invés do individualis
relação em vez de seres em constantes divisões dicotômicas, em fragmentos
ordenados hierárquica e violentamente. Estes modos de ser, valorar e acreditar têm
persistido na oposição à colonialidade. (LUGONES, 2014, p. 949)

Para escrever esta dissertação, precisei percorrer caminhos que me levaram ao


reconhecimento da existência de múltiplas versões de narrativas e posicionamentos de mulheres
negras que, por fim, me (re)posicionaram. A esperança depositada é de que possamos ampliar
a confiança no uso de narrativas pessoais como fontes significativas de conhecimento e
reconhecimento.
20

2. DAS RAÍZES ÀS PONTAS A EMANCIPAÇÃO CRESPA

(MBEMBE, 2018, p. 219)

Neste capítulo, é discutida a trajetória do processo de negação, prisão e soltura dos


cabelos crespos das mulheres negras. A raspagem dos cabelos de africanas escravizadas
ocorrera muito antes do início das técnicas de alisamento em que a trama das relações sociais
caía sob os discursos colonizadores. Mulheres negras fizeram uso de diversas estratégias de
sobrevivência para chegarem aos dias atuais em que o conhecimento por elas carregado é
transformado em novas formas de lidar com seus cabelos.

2.1. O adestramento

2.1.1. Estética como estratégia política de inserção na sociedade


Diversas foram as populações de origem africana que, trazidas ao Brasil em condição
de escravizadas, sofreram inúmeras violências e violações que extrapolaram as jornadas do
trabalho compulsório adentrando a corporeidade e subjetividade dessas pessoas. Nilma Lino
Gomes (2002) destaca a violação do corpo por meio dos cabelos.

Dentre as muitas formas de violência impostas ao escravo e à escrava estava a


raspagem do cabelo. Para o africano escravizado esse ato tinha um significado
singular. Ele correspondia a uma mutilação, uma vez que o cabelo, para muitas etnias
africanas, era considerado uma marca de identidade e dignidade. Esse significado
social do cabelo do negro atravessou o tempo, adquiriu novos contornos e continua
com muita força entre os negros e as negras da atualidade. (GOMES, 2002, p. 7-8)

A história da beleza negra no Brasil foi contada pela linguista e professora adjunta do
Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Universidade Federal da Paraíba (UFPB)
Amanda Braga que trabalhou com o conceito de beleza negra no mestrado e doutorado. O
estudo resultou no livro História da Beleza Negra no Brasil: discursos, corpos e práticas e
trouxe à tona uma análise discursiva sobre os conceitos de beleza negra na história do País, uma
leitura dos signos da estética negra numa perspectiva histórica.
Da beleza castigada pela escravidão, passando pelo alinhamento moral oferecido pelo
século XX, até chegar à pluralidade que o atual momento lhe concede, destaco o período pós-
21

abolição onde os jornais e associações feitas por pessoas negras se preocupavam com
estratégias políticas, educativas e estéticas capazes de amenizar os estereótipos negativos
relacionados à africanas, africanos e seus descendentes durante a escravização. A saída
encontrada, segundo Amanda Braga, foi o apelo à moral e bons costumes da época:

Símbolo dessa contraimagem são os concursos de beleza promovidos pela


população negra, que, não apenas auxiliavam na construção de um conceito de beleza
negra, mas, principalmente, se apresentavam como uma resposta à imagem da mulata
promíscua que vimos nascer no período escravocrata. (BRAGA, 2015, p. 85)

O livro Relações de Raça no Brasil, organizado por Guerreiros Ramos e publicado em


1950, após o 1º Congresso do Negro Brasileiro, apresenta, nos textos de Abdias do Nascimento,
um movimento negro como organização adestradora do negro, explicitando a necessidade de
uma proposta de tática sociológica que se ajustasse à configuração psicossocial daquele
momento histórico onde se almejava transformação.
O teatro experimental do negro, entendido como um experimento psicossociológico que
visava redimir o negro por meio do teatro e adestrar gradativamente as pessoas negras ao
comportamento da classe média e superior da sociedade, criou aulas de alfabetização, teatro
com domésticas e operários e, por fim, c
,
12).
Os costumes da época impuseram às mulheres negras processos de tratamento do cabelo
que transformam a curvatura natural do fio com alisamentos químicos e uso de pentes de ferro
quentes. Um exemplo dessa imposição foram as consecutivas propagandas direcionadas a essas
mulheres:

Uma invenção maravilhosa!...


"O cabelisador". Alisa o cabello o mais crespo sem dôr.

Uma causa que até agora parecia impossível e que constituia o sonho dourado de
milhares de pessoas, já é hoje uma realidade irrefutavel. Quem teria jamais imaginado
que seria possivel alisar o cabello, por mais crespo que fosse tornando-o comprido e
sedoso? Graças à maravilhosa invenção do nosso "CABELISADOR", consegue-se,
em conjuncto com duas "Pastas Mágicas", alisar todo e qualquer cabello, por muito
crespo que seja. Com o uso deste maravilhoso instrumento, os cabellos não só ficam
infallivelmente lisos, mas tambem mais compridos. Quem não prefere ter uma
cabelleira lisa, sedosa e bonita em vez de cabellos curtos e crespos? Qual a pessoa que
não quer ser elegante e moderna? Pois o nosso "Cabelisador" alisa o cabello o mais
crespo sem dôr. (O Clarim D'Alvorada, São Paulo, 9 de junho de 1929, p. 1 apud
LOPES, 2012)

Para Amanda Braga (2015, p. 105), o Cabelisador surgia como uma alternativa estética em
22

resposta à exigência histórica e ao mesmo tempo como um sonho que prometia beleza e
modernidade à mulher negra sem lhe causa dor, buscando aceitação/inserção por meio da
estética. A estética branca prevalecia enquanto norma a ser seguida, apostar na beleza natural
das negras não teria qualquer alcance.
Esses processos foram absorvidos pelas mulheres negras em diáspora e gradativamente
foram transpostos da fase adulta da vida para iniciar-se muitas vezes no término da infância, o
que demarca a mudança de fase da menina para mulher, caracterizando-se em um ritual pelo
fato de e
do Nascimento Oliveira (2016, p. 220), a importância da mudança nos penteados como formas
de representar a passagem da infância para a adolescência era esperada por todas, porque só
assim nós seríamos mais aceitas , passagem muito bem retratada por bell hooks:

Não íamos ao salão de beleza. Minha mãe arrumava os nossos cabelos. Seis filhas:
não havia a possibilidade de pagar cabeleireira. Naqueles dias, esse processo de alisar
o cabelo das mulheres negras com pente quente (inventado por Madame C. J. Waler)
não estava associado na minha mente ao esforço de parecermos brancas, de colocar
em prática os padrões de beleza estabelecidos pela supremacia branca. Estava
associado somente ao rito de iniciação de minha condição de mulher. Chegar a esse
ponto de poder alisar o cabelo era deixar de ser percebida como menina (a qual o
cabelo podia estar lindamente penteado e trançado) para ser quase uma mulher. Esse
momento de transição era o que eu e minhas irmãs ansiávamos. (HOOKS, 2005, p. 1)

Mulheres negras empreenderam muitas lutas para terem suas vozes ouvidas. Uma delas
versa acerca da denúncia do universalismo nas teorias feministas, pois o atravessamento das
questões raciais fez com que essas mulheres vivenciassem experiências distintas das mulheres
brancas e de alta classe, que tiveram acesso ao ambiente acadêmico naquele momento. De
acordo com Bebel Nepomuceno:

Às mulheres negras não coube experimentar o mesmo tipo de submissão vivido pelas
mulheres brancas de elite até o início do século XX. Tampouco seu espaço de atuação
foi unicamente o privado, reservado às bem-nascidas, uma vez que, pobres e
discriminadas, se viram forçadas a lançar mão de uma gama de estratégia para
sobreviver e fazer frente aos desafios cotidianos. A chegada do novo século
encontrou-as trabalhando como pequenas sitiantes, agriculturas, meeiras, vendedoras
de leguminosas e demais produtos alimentícios nas ruas das cidades brasileiras.
Muitas delas viviam em lares sem presença masculina, chefiando a casa e
providenciando o sustento dos seus. [...]. Ao contrário do prescrito para a mulher
idealizada da época, as negras circulavam pelas ruas, marcando a seu modo presença
no espaço público. (NEPOMUCENO, 2012)

O momento atual de transição capilar em que as mulheres negras brasileiras se


encontram guarda semelhanças com o movimento intitulado natural hair movement, originado
nos Estados Unidos durante os anos 2000, que encorajava as mulheres de ascendência africana
23

a manter seus cabelos naturais com textura afro. Entretanto esse movimento foi precedido por
outro que existiu nos anos 1960 e 1970.
Entre 1964 e 1966, o movimento pelos Direitos Civis nos Estados Unidos reuniu a
população afrodescendente nas grandes mobilizações, dessa conjuntura surgiu o movimento
Black Power. Difundia-se a ideia de que retornar ao natural significava perder a aparência e os
padrões de beleza de pessoas brancas assimilados por pessoas negras. Kathleen Cleaver,
integrante do Partido dos Panteras Negras, em entrevista registrada no documentário The Black
Panthers: Vanguard of the Revolution (Os Panteras Negras: A Vanguarda da Revolução, de
1968) de Stanley Nelson, pronunciou-se sobre o movimento natural dos cabelos:

A razão para isso, você pode dizer, é uma nova consciência entre os negros de que
sua própria aparência natural, sua aparência física, é bela. É agradável para eles.
Por muitos e muitos anos nos disseram que apenas as pessoas brancas eram bonitas.
Apenas cabelos lisos, olhos claros, pele clara era linda, e mulheres negras tentavam
de tudo para endireitar os cabelos e clarear a pele para se parecerem com mulheres
brancas. Mas isso mudou porque os negros estão cientes ... e brancos as pessoas
também sabem disso porque agora querem perucas naturais ... Elas querem perucas
como essa [aponta para seu cabelo natural].

Entretanto, o movimento Black Power sofreu forte repressão policial. Em entrevista à


revista Afro Images: Politics, Fashion, and Nostalgia, Angela Davis (1994/2016)2 comentou
como as fotos dela, incluindo aquelas nos cartazes do FBI, afetaram as percepções das pessoas
e as vidas de outras mulheres negras de cabelos naturais. Davis relata que, após assistir a uma
peça realizada por mulheres presidiárias e ex-presidiárias, foi apresentada ao irmão de uma
, ao ser repreendido por não reconhecê-la, disse
- -

Eu acho que esses tipos de respostas são dificilmente excepcionais, e é tanto


humilhante quanto degradante descobrir que uma única geração após os eventos que
me construíram como uma personalidade pública relembram-me pelo meu penteado.
Isto é humilhante porque isto reduz uma política libertária a uma política da moda;
isto é degradante porque esses encontros com uma geração mais jovem demonstra a
fragilidade e inconstância de imagens históricas, particularmente aquelas associadas
com a história afro-americana. (DAVIS, 1994/2016)

Esse relato de Davis demonstra a diversidade de produção de sentidos na sociedade


conforme o contexto do uso de suas imagens. Ela prossegue enfatizando que a desconexão da
imagem com a história pode ser prejudicial à luta de um grupo. Mas não é meramente a redução

2
O artigo, publicado inicialmente em 1994, foi traduzido Jaqueline Lima Santos, doutora em Antropologia Social
pela Unicamp, e enviado para o Portal Geledés.
24

do histórico político à moda contemporânea que a enfureceu e, sim, a distinção de ser conhecida
Black Power) que, segundo suas palavras,

[...] é largamente resultado de uma economia particular de imagens jornalísticas em


que a minha é uma das poucas que tem sobrevivido nas últimas duas décadas. Ou
talvez a autêntica segregação dessas imagens fotográficas causou a minha entrada na
então dominante cultura jornalística justamente pela virtude da minha presumida
criminalidade. (DAVIS, 1994/2016)

Sobretudo, isso tem permanecido, desconectado do contexto histórico em que surgiu,


como moda. Angela Davis diz que a maioria dos jovens afro-americanos que são familiarizados

fotografias, filme/clipes, vídeos musicais e em algumas montagens da história negra em livros


populares e revistas. Dentro do contexto interpretativo em que eles aprendem a situar essas
fotografias, o elemento mais destacado é o penteado, entendido como algo fashion e não como
uma declaração política.
E conclui:

A espantosa circulação contemporânea de fotos e imagens fílmicas dos afro-


americanos tem múltiplas e contraditórias implicações. Por um lado, ela mantém a
promessa da memória visual de velhas e passadas gerações, tanto de pessoas
conhecidas como de quem não alcançou a proeminência pública. Contudo, aí está
também o perigo em que esta memória histórica pode tornar-se a-histórica e apolítica.
(DAVIS, 1994/2016)

Os posicionamentos políticos de mulheres negras no Brasil também se manifestaram


primeiramente como uma mudança materializada em seus cabelos, tal qual o uso de cabelos
crespos em penteados black power como posicionamento político na luta por direitos civis nos
Estados Unidos. Alex Ratts, antropólogo, e Flavia Rios, socióloga (2010), escreveram a
biografia de Lélia Gonzalez na qual destacam que o cabelo se sobressaiu no tornar-se negra e
feminista :

O sinal acentuador desta mudança se verifica no cabelo, entre cacheado e crespo,


volumoso, usado mais ao natural, às vezes no estilo black power. (...) Desde o final
dos anos 1960 e início dos 70, várias mulheres negras estadunidenses, africanas e
brasileiras, a exemplo de Angela Davis, Alice Walker, Nina Simone, Miriam Makeba
e Beatriz Nascimento, passaram a vestir-

penteados das tranças ao cabelo black power. (RIOS; RATTS, 2010, p. 70)

Sempre atuantes na história de resistência negra brasileira, as mulheres participaram de


diversas organizações que possibilitaram a sobrevivência das pessoas negras diante das
25

situações desumanas antes de 1988 e inferiorizantes até os dias atuais. Sobre esse instinto
associativo, Clóvis Moura Gonçalves Filho (1980, p. 192) afirmou que observamos o negro se

origens étnicas ou lutando, através dessas organizações para não ser destruído social, cultural e

Dulcilei da Conceição Lima (2018), historiadora e pesquisadora do feminismo negro,


atualmente doutoranda em Ciências Humanas e Sociais na Universidade Federal do ABC
(UFABC), entes nas associações negras desde os

nessas associações. Conforme a autora:

O feminismo negro como, um movimento de mulheres negras alinhadas tanto com a


proposta feminista de emancipação da mulher, fim das violências simbólicas e
materiais oriundas das desigualdades de gênero quanto com a proposta antirracista de
combate à discriminação racial, só surgirá enquanto tal no Brasil no final dos anos
1970. (LIMA, 2018, p. 192)

Criadas para uma autodefesa da sociedade discriminatória, essas associações


reelaboram o passado e revalorizam as pessoas do grupo:

Essa tendência do negro a se organizar não surge por acaso. Os grupos que se
identificam na sociedade de classes por um estigma que essa sociedade lhe impôs
podem, ao invés de procurarem fugir a essa marca, transformá-la em herança positiva
e organizar-se através de um ethos criado a partir da tomada de consciência da
diferença que as camadas privilegiadas em uma sociedade etnicamente diferenciada
estabeleceram. (GONÇALVES FILHO, 1980, p. 144)

O combate à discriminação racial e os posicionamentos antirracistas têm se manifestado


por meio de práticas e discursos, sejam eles estéticos, realizados por meio do uso do cabelo
natural, sejam eles narrativos, realizados pela ressignificação da nomenclatura dos cabelos das
pessoas negras. Quanto à nomenclatura, anteriormente eram atribuídos termos depreciativos
atualmente, esses termos seguem em alternância para
definições que contemplem sua textura enquanto crespos e não adjetivados de qualidades
baseadas em julgamento de valor.
Se no período pós-abolição da escravatura,, houve a assimilação do padrão de aparência
e comportamento do grupo racial dominante como forma de inserção social de negras e negros
na sociedade brasileira, isso tem se revertido em reconhecimento de si conforme afirmou
Abdias Nascimento, no livro O quilombismo: documentos de uma militância pan-africanista:
26

Cabe mais uma vez insistir: não nos interessa a proposta de uma adaptação aos moldes
da sociedade capitalista e de classes. Esta não é a solução que devemos aceitar como
se fora mandamento inelutável. Confiamos na idoneidade mental do negro e
acreditamos na reinvenção de nós mesmos e de nossa história. Reinvenção de um
caminho afro-brasileiro de vida, fundado em sua experiência histórica, na utilização
do conhecimento crítico e inventivo de suas instituições golpeadas pelo colonialismo
e pelo racismo. Enfim reconstruir no presente uma sociedade dirigida ao futuro, mas
levando em conta o que ainda for útil e positivo no acervo do passado.
(NASCIMENTO, 1980, p. 263)

O cabelo crespo precisa ser entendido para além da questão biológica e/ou fenotípica.

cultural, política e ideológica, tanto do racismo brasileiro como da produção da identidade


, segundo Lia Vainer Schucman e
Mônica Mendes Gonçalves (2017, p. 77). É a representação emblemática da desvalorização da
identidade negra.

2.2. A soltura

A incursão nas químicas capilares abandona o trajeto retilíneo e segue agora por
caminhos mais curvos e sinuosos como o surgimento do Instituto Beleza Natural. Conforme a
história disponibilizada no site do instituto,3 este nasceu da ideia de Heloisa Assis, sua
fundadora, conhecida como Zica, de criação de um produto para cabelos crespos. Obrigada a
alisar seus cabelos para conseguir emprego, a ex-babá e faxineira não se conformou e foi estudar
para se tornar cabeleireira. Após dez anos de pesquisa, ela encontrou a
cabelos sem perder a originalidade do fio .
O Institutos Beleza Natural possui uma rede de vinte salões de cabeleireiro, cujo
principal serviço é o tratamento de cabelos crespos não com o objetivo final de alisá-los, mas
sim de torná-los cacheados. O produto que foi criado por Zica se chama super-relaxante e
transforma o cabelo crespo em um cabelo cacheado.
Contudo, em 2014, a pesquisadora Cintia Tâmara Pinto da Cruz, da Universidade
-
etnografia não autorizada para compreender os motivos de tamanho sucesso do
empreendimento. Seu estudo chama atenção para a permanência da imposição de padrão de
beleza dos cabelos já observada nos processos de alisamento dos cabelos, agora de forma mais

3
Disponível em: <https://www.belezanatural.com.br/quem-somos>.
27

Para a autora:

No contexto brasileiro a conotação sexual atribuída ao cabelo corresponde não apenas


à feminilidade como também à sensualidade, seja da mulher, ou do homem. A partir
do cabelo as mulheres brasileiras podem exercer a sua sedução, e a partir desse cabelo
ser comparada ou não ao padrão normativo. O padrão normativo é conhecido pelo

Vemos então que, por detrás de uma alusão ao natural, temos a manutenção do uso de
produtos químicos para modificar a textura do cabelo. Seria esse um processo de transição da
transição? Uma aproximação inconclusa de algumas mulheres negras com a real textura de seus
cabelos poderia configurar um momento transitório na história brasileira? Todavia, o fato é que
os cuidados com o cabelo ocupam um lugar importante na economia comercial e familiar. Esse
empreendedorismo compõe, ao meu ver, ações políticas feministas descolonizadoras, pois
proporcionam geração de renda, autonomia, independência financeira e o alicerce da estética
como política de posicionamento antirracista.
Enquanto os padrões sociais de beleza gritam, as crespas seguem marchando com passos
firmes. Conscientes de onde querem chegar, essas mulheres estão ocupando as ruas, as
comunidades, as rodas de conversas, os conteúdos de internet via blogs, canais de YouTube e
páginas nas redes sociais, por meio dos quais elas têm o poder de levar seus discursos a grande
massa, o que dentro dos movimentos sociais é chamado de trabalho de base.
Mas elas vão além disso, também estão na academia. Entre os dias 3 e 5 de novembro
de 2015, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), ocorreu o
ENCRESPANDO I Seminário Internacional: Refletindo a década internacional dos
Afrodescentendes (ONU, 2015-2024).4 A conferência de encerramento do Encrespando 2015
foi realizada por Ochy Curiel, licenciada em Serviço Social com especialização em
Antropologia Social, pesquisadora e ativista do movimento lésbico-feminista latino-americano
e caribenho. Sua fala partiu da trajetória dos muitos movimentos de mulheres negras latino-
americanas e caribenhas, convidando a refletir através do feminismo decolonial.
Ochy Curiel, ainda, revisitou os três momentos de nossa luta: a fase das políticas de
identidade, a partir da década de 1980; o momento seguinte de relacionar essa luta com outras
formas de opressão e tomada da esfera pública; e o terceiro momento, de maior
transacionalização e institucionalização da nossa ação política. Em suas palavras, esses
momentos permitiram o reconhecimento individual e coletivo, também permitiu questionar

4
O evento foi financiado pela Faperj, CNPq e Capes.
28

uma estética marcada por Westernization5 dos corpos e, com isso, a construção, a legitimação
e a valorização de uma estética negra de acordo com nossas próprias experiências:

El primero, la política de identidad nos permitió un aumento de la autoestima


individual y colectiva en torno al reconocimiento de ser mujeres negras y luego afros.
Esta identidad política nos ayudó a la movilización, el encuentro de experiencias
compartidas, nos permitió recuperar una ancestralidad perdida producto del racismo
y el sexismo desde tiempos de la colonización; las acciones culturales realizadas nos
permitieron a muchas descolonizar nuestras prácticas religiosas, marcadas
hegemónicamente por el judeo-cristianismo y recuperar espiritualidades de origen
africano. Nos permitió también cuestionar una estética marcada por la
occidentalización de los cuerpos y construir, legitimar y valorar una estética negra
acorde con nuestras propias experiencias. (CURIEL, 2015, p. 75)

Célia Regina Reis da Silva (2016), doutora e mestre em História pela Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo (PUC-
entendido como um território de insurgências em estéticas de reexistência na decolonialidade
. Ao acompanhar coletivos culturais e intervenções artísticas, a pesquisadora destaca
que os coletivos atuam como agentes de mudança, pois promovem reflexões coletivas que
valorizam e respeitam saberes e corporiedades além do padrão ocidental. Em suas palavras:

.
A discussão e produção acadêmica sobre essa temática tem ocorrido com notória
proximidade histórica dos fatos tamanha é a força e os impactos desse movimento de
ressignificação dos cabelos crespos e retomada do seu uso natural.
Tendo em vista a afirmação de Raul Lody (2004, p. 125):

O cabelo é um marcante indício de procedência étnica, é um dos principais elementos


biotipológicos na construção da pessoa na cultura. O negro quando assume o seu
cabelo de negro assume também o seu papel na sociedade como uma pessoa negra. E
ser negro no Brasil e no mundo, convenhamos, é ainda um duro caminho trilhado por
milhares de afrodescendentes.

Retomando os escritos de bell hooks (2005), , ela


afirma que, principalmente, entre mulheres negras e homens negros, o cabelo deve ser
concebido em uma extensão de afirmação política. A luta diária perpassa pela aceitação do
corpo que frequentemente é desmerecido, menosprezado, e combatido por uma ideologia que
aliena. Dessa forma:

5
Ocidentalização é o processo de adotar ideias e comportamentos que são típicos da Europa e Norte América,
em vez de preservar as ideias e o comportamento tradicionais em sua cultura.
29

Dentro do patriarcado capitalista o contexto social e político em que surge o costume


entre os negros de alisarmos os nossos cabelos -, essa postura representa uma imitação
da aparência do grupo branco dominante e, com frequência, indica um racismo
interiorizado, um ódio a si mesmo que pode ser somado a uma baixa autoestima
(HOOKS, 2005, p. 2)

Entretanto, analisar criticamente os padrões estéticos dominantes, como também


processos políticos neles engendrados, demonstra o poder que as mulheres negras vêm

precisamos do poder das teorias críticas modernas sobre como significados e corpos são
construídos, não para negar significados e corpos, mas para viver em significados e corpos que
15).

Até que seja vivenciada, entendida e percebida como natural, a beleza negra será
política!
30

3. OBJETIVOS E PROCEDIMENTOS

Os processos de produção de sentidos e os de produção de conhecimento estão


intimamente relacionados: conhecer é dar sentido ao mundo, seja feito de acordo com
as regras da ciência ou do senso comum. (SPINK, 2016, p. 15)

Como já apresentado anteriormente, o objetivo geral desta pesquisa é identificar as


diferentes versões da transição capilar que circulam entre mulheres negras. Esse geral objetivo
se desdobra no seguintes objetivos específicos: a) analisar as narrativas de mulheres negras
sobre a transição capilar para compreender as razões para essa opção e b) discutir a relação
entre a transição capilar e mudanças no posicionamento como mulheres negras.
Dessa maneira, este capítulo apresenta: (1) a opção pelo uso da internet como foco de
pesquisa; (2) razões para a escolha do site
depoimentos analisados no capítulo posterior e (4) os procedimentos de análise: a abordagem
de análise de práticas discursivas como opção metodológica.

3.1. A opção pelo uso da internet como foco de pesquisa

Os estudos de Larisse Gomes (2017) enfocam o processo de abandono do uso de


manipulação química para alisamento de cabelos, prática conhecida como Transição Capilar

Sua pesquisa de mestrado buscou compreender o fenômeno e como dele emerge o racismo,
admitindo que sua experiência pessoal atribui complexidade à pesquisa. Em suas considerações
Foi no ciberespaço que entendi que a minha experiência individual, até então

(GOMES, 2017, p. 143).


Diante dessas constatações e a partir da observação do cotidiano em nossa atualidade,
fica evidente a conexão entre a rede digital e o contexto cultural contemporâneo: em 2016 a
cada dez domicílios no Brasil, sete tinham acesso à internet, sendo que a proporção de mulheres
conectadas é maior que a de homens: 65,5% delas tinham acesso, enquanto, o índice para eles
é de 63,8% segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD),
divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2018).
Estudo feito pelo Google BrandLab, em São Paulo, apontou que, no último ano, a busca
por cabelos cacheados cresceu 232%. Cabelos afro, por sua vez, em 2017, tiveram uma procura
31

309% superior a 2015. O Google BrandLab é um programa elaborado para que parceiros google
possam acelerar a estratégia digital de atrair clientes e conta com especialistas em planejamento
digital trabalhando dados sobre universo de marca, da categoria, do mercado e do público-alvo
de produtos.
Temos aqui fenômenos bem distintos operando no mesmo espaço digital: mulheres
negras divulgando seus depoimentos sobre a transição capilar e empresas do ramo estético
oferecendo seus produtos para esse fim. São movimentos que exigem pesquisas que se valem
do uso do método científico para produzir conhecimentos, contudo exigem também uma
reorientação para dar conta das novas tecnologias de interações e relações sociais.
Em virtude de vivermos em um país onde as relações raciais estão em constante
reorganização, coexistem práticas racistas e antirracistas. Essa dinâmica é expressa e refletida
no comportamento das pessoas na internet como aponta o levantamento de indicadores da
Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos da organização não governamental
(ONG) SaferNet Brasil: Em 12 anos, a central de denúncias recebeu e processou 3.925.405
denúncias anônimas envolvendo 701.224 páginas (URLs) distintas (das quais 246.699 foram
removidas) escritas em nove idiomas e hospedadas em 94.155 hosts diferentes, conectados à
Internet através de 56.416 números IPs distintos, atribuídos para 101 países em cinco
continentes. As denúncias foram registradas pela população através dos sete hotlines brasileiros
que integram a Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos.
Segundo Paulo Rogério Nunes (2016), em entrevista concedida ao Jornal El País,
A Internet chegou para provar que somos um dos países mais racistas do mundo ,
a SaferNet recebeu, em nove anos, mais de 469 mil denúncias de casos de racismo. Somente
em 2015, foram 55 mil denúncias no País. Nunes é pesquisador do Berkman Center for Internet
and Society da Universidade Harvard e coordenador de um projeto que mapeia iniciativas de
jovens que estão produzindo inovação e tecnologias para o combate ao racismo na rede, de
aplicativos à vlogs.
A sobreposição da compreensão das possibilidades de uso da internet com a diversidade
de informações pessoais que se tornam públicas em sites e blogs mostrou ser um excelente
campo-tema, conceito elaborado por Peter Spink para ilustrar a complexidade de um campo de
pesquisa, cujo campo não é apenas um lugar específico, mas se refere à processualidade de
temas situados nos quais a inserção de psicólogas e psicólogos sociais se dá pela convicção
ética e política de que acreditam que podem contribuir e serem úteis.
32

Nada acontece num vácuo; todas as conversas, todos os eventos, mediados ou não,
acontecem em lugares, em espaços e tempos, e alguns podem ser mais centrais ao
campo-tema de que outros, mais acessíveis de que outros ou mais conhecidos de que
outros. Algumas conversas acontecem em filas de ônibus, no balcão da padaria, nos
corredores das universidades; outras são mediadas por jornais, revistas, rádio e
televisão e outras por meio de achados, de documentos de arquivo e de artefatos,
partes das conversas do tempo longo presentes nas histórias das ideias. (SPINK, P.
2003, p. 29)

A partir dos relatos clínicos, abordagens na vida cotidiana, dados relacionados ao


racismo disponíveis na internet, mencionados parágrafos acima, pude perceber a abrangência
do campo-tema deste trabalho. Daí, a possibilidade de encontrar a resposta à questão que estou
pesquisando: porque optar por uma transição capilar? É neste espaço que se configura o corpus
desta pesquisa, bem como, sua relevância psicossocial, que é dada pela característica de
r ser ao mesmo tempo um acontecimento que afeta
objetivamente a interação na vida social e também psicologicamente relevante por afetar
subjetivamente a mulher transicionada. Ainda sobre campo-tema, Peter Spink destaca que:

Declarar-se parte de um campo-tema é demonstrar a convicção ética e política de que,


como psicólogas e psicólogos sociais, pensamos que podemos contribuir e que
estamos dispostos a discutir a relevância de nossa contribuição com qualquer um,
horizontalmente e não verticalmente. (SPINK, P. 2008, p. 76)

Ao escolher trabalhar com documentos de domínio público, depoimentos de mulheres


negras gravados e disponibilizados em plataforma de compartilhamento de vídeos na internet,
abro mão de refletir sobre a influência que o meu perfil de pesquisadora negra de cabelos
crespos exerceria sobre as mulheres entrevistadas; perco a possibilidade de negociação de
sentidos e interação dialógica, porém mantenho postura construcionista ao reconhecer o
construcionismo social enquanto importante movimento de algumas áreas do conhecimento, a
saber, a filosofia, a sociologia do conhecimento e a política (SPINK; FREZZA, 2013).
Esse movimento também impactou o campo da psicologia social, especialmente por sua
dimensão crítica no processo de produção de conhecimento, bem como o lugar de destaque
dado à linguagem enquanto prática social capaz de promover novos sentidos e efeitos de
subjetivação. Portanto, reafirmo a concepção central de que todos os significados são
construídos socialmente por meio da linguagem e devem ser contextualizados para que sejam
avaliados e trabalhados de modo a ampliar possibilidades de compreensão.
33

3.2. Razões para a escolha do site

Na busca por documentos públicos para esta pesquisa, selecionei o site ajude na
6
por se apresentar como centro aglutinador de conteúdos sobre o processo de
abandono do uso de produtos químicos a fim de permitir o crescimento de cabelos com suas
texturas naturais, crespos ou cacheados. Esse site é patrocinado pela empresa Salon-line, que
se apresenta como uma expert em cuidados para cabelos e está no mercado de transformação
capilar e cosméticos há mais de duas décadas.
A empresa já produziu e comercializou, em grande escala, produtos para alisamento de
cabelos crespos, porém, em fevereiro de 2018, lançou o livro Deixa Enrolar: A história dos
cachos e crespos no Brasil, em parceria com DBA Editora, que promete uma viagem no tempo,
dos anos 1940 até os dias atuais, resgatando diferentes momentos da cultura, política, moda e
beleza nacional e internacional que influenciaram o senso estético de cada geração no Brasil.
Patrocinou também o documentário Fios de Alta Tensão, produzido pela DGT Filmes, no qual
são abordadas questões de identidade a partir dos relatos de diferentes mulheres sobre seus
cabelos, cabelos crespos e cabelos brancos.

um serviço de atendimento telefônico chamado DISK, que opera das 10h às 14h, e um espaço
para as mulh Em transição: conte sua transição , no qual consta um formulário
a ser preenchido pelas mulheres com seus dados e histórias pessoais. Essas ferramentas
possibilitam uma investigação constante do perfil das mulheres que usam os produtos
comercializados pelo site. Entretanto, ao publicar conteúdos elaborados a partir das narrativas
escritas, o site torna-se um expositor dos possíveis processos subjetivos a serem vivenciados
em cada etapa da transição capilar.

3.2.1. A estrutura do site


A página inicial apresenta às usuárias a seguinte proposta:

[...] estar ao seu lado em todas as fases dessa transformação e te ajudar a vencer
quaisquer medo e incertezas durante a transição capilar. Aqui você vai encontrar o
incentivo e conhecimento que precisa para cuidar dos seus cabelos, inspirar-se e
redescobrir o poder de sua beleza original.

6
Disponível em: <https://meajudenatransicao.com.br/>.
34

Explicita um reconhecimento de que essa fase é geradora de sentimentos ambivalentes.


Apresenta, na parte superior, seis abas, a saber: Decisão; O que fazer; Descoberta; Big chop;
Novo eu; Em transição e Blog.
Cada aba possui um enunciado repleto de questões subjetivas deixando explícita a
proposta de ajudar a amenizar algumas emoções que podem atrapalhar a transição capilar e
implícito o caráter mercadológico do site. Na categoria Decisão,7 o enunciado traz a afirmação
de que o padrão social de beleza influência nas relações familiares e afetivas. Muitas pessoas
que usaram química durante muito tempo, quando decidem assumir seus cabelos com a textura
natural, enfrentam resistência dos seus parceiros. Por conta disso el

A aba seguinte é intitulada O que fazer8 e nela são oferecidas dicas para driblar a
ansiedade e produtos para o crescimento e saúde dos cabelos. Na aba Descoberta9, o enfoque é
na identidade definida como um conjunto de características particulares que carregamos desde
e deslocam com muita frequência entre uma
região e outra do mundo. Os veículos mais utilizados para este deslocamento são os meios de

Na aba Big chop,10 são apresentados depoimentos de mulheres que realizaram o corte
de cabelo que retira toda a parte alisada. A aba seguinte é intitulada Novo eu11 que tem por
mensagem a descoberta de que é possível ser naturalmente bonita.
A sexta aba, Em transição,12 é composta por relatos escritos e em vídeo de mulheres
contando suas histórias de vida e como cada uma passou por cada etapa da transição capilar,
formando o conjunto de vídeos intitulado: websérie dos quais analisei
as narrativas. Por fim, a última opção no menu do site é a Blog13 com conteúdo sobre: tratamento
capilar, tipos de cabelo, cortes de cabelo e penteados.
Posto que, as marcas da colonização mantém-se presente na nossa sociedade, não
podemos agir com ingenuidade a ponto de pensar que indústrias do ramo cosmético, ou de
qualquer outro ajudariam grupos discriminados historicamente sem objetivarem algo em troca.

7
Disponível em: <//meajudenatransicao.com.br/portfolio-item/ajuda-decisao/>.
8
Disponível em: <//meajudenatransicao.com.br/portfolio-item/ajuda-o-que-fazer/>
9
Disponível em: <//meajudenatransicao.com.br/portfolio-item/ajuda-descoberta/>.
10
Disponível em: <//meajudenatransicao.com.br/portfolio-item/ajuda-big-chop/>.
11
Disponível em: <//meajudenatransicao.com.br/portfolio-item/ajuda-novo-eu/>.
12
Disponível em: <meajudenatransicao.com.br/portfolio-item/em-transicao/>.
13
Disponível em: <//meajudenatransicao.com.br/blog/>.
35

3.2.2. Websérie : Teaser


Embora a pesquisa realizada, a partir de dados encontrados em sites de internet, faça
parte de uma adequação da metodologia e da epistemologia ao objetivo do conhecimento que
se pretende atingir, esta pesquisa vai além dessa intenção, pois busca dar visibilidade, dentro
de um campo de pesquisa, ao movimento de circulação dos repertórios interpretativos em um
esforço epistemológico de aprofundar o desenvolvimento teórico da psicologia social na
compreensão de fenômenos atuais mediante ênfase nas experiências singulares.
Considerando que os documentos de domínio público, enquanto registros, são
documentos tornados públicos, sua intersubjetividade é produto da interação com um outro
desconhecido, porém significativo e frequentemente coletivo. São documentos que estão à
disposição, simultaneamente, traços de ação social e a própria ação social (SPINK, P 2013, p.
102).
Seguindo essa premissa, o conteúdo escolhido para a análise foi a produção de
depoimentos gravados em vídeos de forma sequencial intitulado: websérie
transição dois teasers de abertura, um vídeo final e 16 episódios,
divididos em duas temporadas, nos quais mulheres negras de diversas faixas etárias relatam a
transição capilar como um difícil processo de aceitação da identidade que conflita com as
opiniões e desejos de familiares e pessoas próximas.
Para melhor descrição e compreensão da websérie tomada como fonte dos depoimentos
a serem analisados, apresento abaixo o teaser da primeira temporada e texto descritivo, os seis
primeiros episódios, duas tabelas com informações sobre conteúdo de todos os episódios,
constando quantidade de visualizações e manifestações do público atingido e trechos dos textos
descritivos.
36

Figura 1: Teaser websérie


Fonte: Internet.

Teaser é uma técnica utilizada, muitas vezes, como um dos recursos iniciais de uma
campanha publicitária. Através de uma pequena peça, veiculada por qualquer mídia
publicitária, neste caso um vídeo de 1min42seg com recortes de falas das mulheres depoentes,

É uma fase de aceitação, identidade e amor que começa de dentro para fora. Acompanhe a
websérie e conheça várias histórias de mulheres guerreiras, fortes e

Websérie : 1° episódio

Figura 2: Primeiro episódio


Fonte: Internet
37

Descritivo: Assista o primeiro episódio da websérie . Nesse capítulo


conheça a história de Ornélia, uma história de descobertas e uma relação repleta de amor pelo
seu cabelo. (Ornélia é de Benin, África.)

Websérie : 2° episódio

Figura 3: Segundo episódio


Fonte: Internet.

Descritivo: Conheça nesse 2° episódio da websérie , a história da


Juliana. Ela, que após passar pela transição capilar, se encontrou e conseguiu achar a própria
identidade. Hoje, vive uma linda e maravilhosa história de amor com os seus cachos.
38

Websérie : 3° episódio

Figura 4: Terceiro episódio


Fonte: Internet.

Descritivo: Conheça nesse terceiro episódio da websérie a história


de superação e autoconhecimento da Thainá, 12 anos. Ela que parou de ligar para a opinião
das pessoas e decidiu seguir sua essência, sua origem e naturalidade, para assim, ser feliz e se
amar como é!
39

Websérie : 4° episódio

Figura 5: Quarto episódio


Fonte: Internet

Descritivo: Conheça nesse episódio da websérie


Gabriela e Beatriz, uma história de superação e autoconhecimento. Elas que não mudaram
apenas o cabelo, mas também sua personalidade, e após a transição capilar aprenderam a se
amar como são! Conheça esse lindo depoimento.

Websérie : 5° episódio

Figura 6: Quinto episódio


Fonte: Internet
40

Descritivo: Luiza é a protagonista do 5°episódio da websérie Mulheres em Transição . Ela


que já conheceu diferentes técnicas de alisamento, hoje sabe bem como é assumir os cabelos
naturais e fazer com ele o que quiser. Como cabeleireira, aproveita para incentivar os seus
clientes a entrarem para a transição capilar e a esbanjar os seus cachos e crespos por aí.
Clique e confira para ver essa linda história.

Websérie Mulheres em transição : 6° episódio

Figura 7: Sexto episódio


Fonte: Internet

Descritivo: Conheça neste 6° episódio da websérie Mulheres em transição a história da


Priscila, uma história de autoconhecimento e amor. Ainda quando adolescente ela optou pela

exigia. Com o tempo, não se conhecia mais, não se identificava e então decidiu passar pela

estão passando pela fase da transição.


41

Websérie Mulheres em transição 1ª temporada

Quadro 1: Quadro descritivo dos episódios 1ª temporada

Trecho de descritivo do Número de


Episódios Publicado Depoente
vídeo visualizações

A transição não é uma


mudança fácil, vai muito além
3 maio
Teaser Todas do visual. É uma fase de 104.204 1 mil 20
2017
aceitação, identidade e amor
que começa de dentro pra fora.

Uma história de descobertas e


1° episódio 8 maio
Ornélia uma relação repleta de amor 107.912 1,6 mil 24
2017
pelo seu cabelo.

Após passar pela transição


15 maio capilar, se encontrou e
2° episódio Juliana 116.087 1 mil 14
2017 conseguiu achar a própria
identidade.

Uma garota de 12 anos. Ela


que parou de ligar para a
22 maio opinião das pessoas e decidiu
3° episódio Thainá 59.116 1,1 11
2017 seguir sua essência, sua
origem e assim, ser feliz e se
amar como é

Elas que não mudaram apenas


Gabriela e o cabelo, mas também sua
29 maio
4° episódio Beatriz personalidade, e após a 105.613 653 8
2017
(irmãs) transição capilar aprenderam a
se amar como são!

Ela que já conheceu diferentes


técnicas de alisamento, hoje
5 jun.
5° episódio Luiza sabe bem como é assumir os 71.850 502 7
2017
cabelos naturais e fazer com
ele o que quiser.
42

Trecho de descritivo do Número de


Episódios Publicado Depoente
vídeo visualizações

Ainda quando adolescente ela


optou pela química como
forma de passar despercebida
12 jun.
6° episódio Priscila que a sociedade exigia. Com o 75.595 554 8
2017
tempo, não se conhecia mais,
não se identificava e então
decidiu passar pela transição
capilar

Ela que após tantas perdas se


via cansada e com uma
19 jun.
7° episódio Liah autoestima arrasada, por isso, 116.923 487 12
2017
escolheu se libertar e adotar
sua beleza natural

Após a gravidez teve que parar


Alessandra de fazer relaxamento nos
26 jun. e Martinha cabelos. A partir deste
8° episódio 203.327 413 0
2017 (mãe e momento, decidiu passar pela
filha) Transição Capilar e agora está
incentivando a própria mãe

Para quem acompanhou tanta


história maravilhosa, saiba
episódio 3 jul. que você também pode ser 81.857
Todas 463 1
final 2017 quem você quiser, transforme- visualizações
se em você e faça a sua
história!
Fonte: Elaborado pela autora.
43

Websérie 2ª temporada em São Paulo

Quadro 2: Quadro descritivo dos episódios 2ª temporada

Trecho de descritivo do Número de


Episódios Publicado Depoente
vídeo visualizações

Dessa vez em São Paulo,


mulheres incríveis, fortes e
corajosas contam suas
7 dez.
Teaser Nenhuma tocantes histórias sobre como 1.993.259 47 7
2017
passaram pela transição
capilar e renasceram com uma
nova identidade.

Uma história árdua, marcada

cheia de descobertas,
14 dez. principalmente, após passar
1° episódio Andrea 163.728 1 mil
2017 pelo BC (big chop), na qual
descobriu sua identidade, e
hoje, se sente muito bem e
feliz como é

Arriscou algo muito precioso


por causa dos padrões
estéticos sociais: a sua vida.
21 dez. "Eu mesma tive que chegar
2° episódio Simone 184.807 643 4
2017 quase à beira da morte para me
descobrir e para me fazer
voltar àquela Simone que eu
tinha deixado na infância".

Relembra os maus momentos


que sofreu por viver em uma
28 dez.
3° episódio Shirlena sociedade que discrimina e 117.292 99 2
2017
ofende apenas pela textura do
cabelo.

Ela lutou uma batalha consigo


mesma até que finalmente se
4 jan. descobriu e assumiu sua
4° episódio Daniela 47.922 466 4
2018 verdadeira identidade,
deixando de lado a ideia de
tentar ser quem não é.
44

Trecho de descritivo do Número de


Episódios Publicado Depoente
vídeo visualizações

Ela que desde criança foi


julgada pelo seu tipo de
11 jan.
5° episódio Márcia cabelo. Para isso, buscou se 158.942 07 3
2018
esconder e evitar lugares com
muita gente.

Com o passar dos anos se viu


refém dos aparelhos térmicos.
18 jan.
6° episódio Izabelle Foi nesse momento que se 234.336 49 1
2018

Ela que teve os seus cachos


alisados, ainda muito nova.
25 jan.
7° episódio Jéssica Mas, com o tempo, seu único 122.126 81 2
2018
desejo era ter os seus
cachinhos de volta.

Como nunca teve referências


8° episódio de cabelo cacheado, decidiu
1 fev.
(último Jéssica alisar os fios. Com o tempo e 121.033 93 5
2018
episódio) exaustão, decidiu cortar os fios
e começar a transição.

Fonte: Elaborado pela autora.

3.3. A escolha dos depoimentos.

Definir os episódios a serem analisados, demandou avaliar características como número

ação de aprovação, concordância ou apreço ao conteúdo do depoime


entendidas como manifestações de ação de desaprovação, discordância ou desapreço ao
conteúdo do depoimento. Para os propósitos desta dissertação, foram articuladas as
características dos depoimentos supracitados com os objetivos da pesquisa, resultando na
escolha de nove episódios, sendo seis da primeira temporada (episódios 1, 3, 4, 5, 7 e 8) e três
da segunda temporada (episódios 2, 5 e 8).
A análise e produção de conhecimento sobre os depoimentos que formam a peça de
investigação desta pesquisa se inclinam para a proposta feita por Maria Antonieta Antonacci
(2013):
45

Se a razão capitalista racializa e normaliza conhecimentos, massifica comunicações,


submete costumes a suas concepções de bem-estar, torna-se indispensável questionar
seus pressupostos descolonizando cotidianos a partir dos que têm corpos, línguas e
expressões artísticas, âncoras de outras memórias e diferentes viveres.
(ANTONACCI, 2013, p. 241)

3.4. Procedimentos de análise: a abordagem de análise de práticas discursivas


como opção metodológica

Esta pesquisa tem como referencial teórico-metodológico a abordagem da psicologia


discursiva voltada à análise das produções dos sentidos no cotidiano e com a circulação de
repertórios em uma perspectiva histórica e social, a partir do estudo das práticas discursivas. As
unidades de construção das práticas discursivas são os repertórios linguísticos que demarcam o
campo de possibilidades para a produção discursiva, considerando o contexto em que essas
práticas são produzidas e os tipos relativamente estáveis de enunciados emitidos, pois esses
repertórios foram históricos e culturalmente constituídos (SPINK; FREZZA, 1999/2013).
Para Lupicinio Iñiguez (2008, p. 13), interpretar um fenômeno social implica em
explicitar suas condições de construção. Segundo o autor, um fenômeno social é um depósito
de memória, uma vez que decorre de relações sociais que tornaram isso possível. Nessa
perspectiva, Iñiguez enfatiza que os acontecimentos construídos, historicamente, circulam em
inúmeras versões. É justamente essa postura que sustenta esta investigação como uma forma de
pesquisar, em psicologia social, buscando compreender os diversos sentidos envolvidos na
retomada do uso dos cabelos em sua forma mais natural, enfatizando os aspectos construtivos
e ativos do uso da linguagem na vida cotidiana.
Segundo Jonathan Potter (2000, p. 98 apud RASERA,
adentra as práticas humanas pelas categorias e descrições que são parte daquelas práticas (...).
Ela [a realidade] é constituída de uma forma ou outra à medida que as pessoas conversam,

Discursiva busca compreender como o discurso realiza práticas sociais, sem se restringir à
estrutura linguístic sa forma, as conversas, os
depoimentos e os textos públicos são entendidos como partes de práticas sociais.
Trabalhar com as versões e os sentidos de ser uma mulher negra transicionada ou em
transição capilar na vida cotidiana possibilita compreender, também, as múltiplas dimensões
envolvidas no processo de enfrentamento da desigualdade social e de hierarquização
intragênero, numa perspectiva discursiva que se distingue das abordagens totalizantes
tradicionalmente empregadas para entender desigualdade racial e suas consequências
46

individuais e coletivas na sociedade brasileira. Desse modo, ajuda a compreender a


complexidade das experiências vividas e relatadas em depoimentos na internet.
A valorização da identidade negra tem se dado, na maioria das vezes, por meio da
valorização da beleza negra e consequentemente dos cabelos crespos que realçam traços
característicos de pertencimento racial e da estética negra. Nesse cenário, outros fatores entram
em cena: a mídia, o mercado e o poder aquisitivo de uma classe que tinha, até então, sua beleza
marginalizada como postulado por Nilma Lino Gomes (2006, p. 206).

Como é próprio das sociedades capitalistas, o mercado se apropria de algo que é


construído ideologicamente como marca identitária e uma produção cultural de
grupos alijados do poder, transformando-o em mercadoria.

Obviamente, a mídia e o mercado buscam apropriar-se de aspectos subjetivos de


consumidores com o propósito de estimular o consumo de seus produtos. Evidentemente, o site
utilizado nesta pesquisa foi produzido fundamentalmente por um questão comercial que captou
muito bem o seu público, porém, ao fazer isso, contraditoriamente, deu visibilidade, por meio
dos depoimentos das mulheres negras, a questões muito importantes, pois essas mulheres
falaram sobre o sofrimento advindo das opressões estéticas, sobre sentimentos muito fortes e
como enfrentaram essas opressões.
Os relatos de resgate de autoestima apontam para possibilidades de superação da
sujeição das mulheres negras a outros grupos humanos, resultado da classificação e
sa demanda, segundo Frantz Fanon, foi criada a ideia
O autor a to
nativo da supervalorização europeia. Precisamos ter a coragem de dizer: é o racista que cria o
(FANON, 2008, p. 90).
Dessa forma, o que temos, atualmente, é uma negociação de sentidos entre mídia,
mercado e mulheres negras de cabelos crespos; um processo de recriação e ressignificação de
padrões de beleza que pode atuar das mais variadas formas entre elas.
Retomando, os textos foram salvos como arquivos digitais. Após a leitura das
transcrições para uma compreensão inicial do material e identificação dos temas presentes nos
depoimentos, pude prosseguir com a construção de mapas temáticos,14 que são tabelas temáticas
bidimensionais, com colunas para organização dos temas e linhas para os trechos dos textos.

14
Mapas temáticos são uma derivação dos mapas dialógicos, ferramenta desenvolvida no Núcleo de Estudos sobre
Práticas Discursivas no Cotidiano: direitos, risco e saúde (Nuprad) coordenado pela professora doutora Mary Jane
Paris Spink (PUC-SP), como uma proposta particular de análise de produção de sentidos influenciada pela
psicologia discursiva, porém com contribuições originais.
47

Para essa conjugação, entre estudo pormenorizado de cada parte de um todo e a proposta de
visualização, o mapa temático é uma ferramenta potente por ter a capacidade de nos dar muita
informação em pouco espaço.
48
49
50

4. DESEMBARAÇANDO AS NARRATIVAS

Mulher negra não se acostume com termo depreciativo


Não é melhor ter cabelo liso, nariz fino
Nossos traços faciais são como letras de um documento
Que mantém vivo o maior crime de todos os tempos

Música Mulheres Negras, de Carlos Eduardo Taddeo15

Para desembaraçar os fios das informações encontradas, foi necessário um processo


cuidadoso e sistemático para a construção e reconstrução de conhecimentos. As narrativas
permitiram tomar conhecimento das informações de uma história, e analisar essa história
permite entender como as pessoas se posicionam e como se constitui esse posicionamento
levando a uma construção do conhecimento sobre os s
construcionista social ocupa-se principalmente de explicar os processos pelos quais as pessoas
descrevem, explicam, ou, de alguma forma, dão conta do mundo em que vivem (incluindo-se a
GERGEN, 2009, p. 301).
Partindo dessa enunciação, as mulheres negras cujos depoimentos foram analisados
nesta pesquisa são parte de uma trama discursiva, uma vez que a linguagem é entendida como
uma prática social com poder de constituição de objeto (GRACIA, 2005). Por essa razão, seus
depoimentos se constituem como poderosas formas de geração de sentidos sobre o mundo e de
posicionamento das pessoas e coletivos em relações sociais contextualizadas e culturalmente
localizadas (SPINK; MEDRADO, 2013).
Das temáticas que emergiram das narrativas analisadas, destacam-se os seguinte temas-
foco: 1. Racismo; 2. Alisamento como estratégia de adestramento social; 3. Apoio e incentivo;
4. Justificativa para alisar os cabelos; 5. Prejuízos sociais; 6. Efeitos deletérios do alisamento;
7. Motivos para transição e 8. Posicionamentos. Cada tematização guarda singularidades acerca
dos sentidos de cada versão sobre aspectos da transição capilar.
Os mapas temáticos, encontram-se no Apêndice. Contudo, para auxiliar na compreensão
da análise, segue, como exemplo, o mapa do depoimento de Simone.

15
Carlos Eduardo Taddeo é rapper e escritor.
Quadro 3: Episódio 2 segunda temporada Simone
Episódio 2 segunda temporada - Simone
Justificativa Efeitos Motivos
Alisamento como estratégia de Prejuízos
Outros Racismo Incentivo e apoio. para alisar deletérios do para Posicionamento
adestramento social sociais
os cabelos alisamento Transição
Não criticando, mas você vê
uma pessoa que está usando

que está presa à química, que


está com o cabelo, ali,
ralinho, caindo, aí você quer
falar:
cabelo crescer, é tão bonito,

Foi mais, assim, na fase


da escola, né!? Aonde
você ouve que você tem
cabelo duro...
que o seu cabelo é feio,
que o seu cabelo é ruim.
você acaba alisando.
Conhecendo a química para você ser
aceita, para todos os seus amigos,
seus coleguinhas da época te aceitarem.
Então, não foi nem tanto a minha
família.
Eu acho que eu tinha... uns 10, 11
que eu conheci a química
E a primeira vez que eu coloquei a
química, eu achava que meu cabelo iria
ser daquele jeito, andava balançando o
cabelo para lá e para cá, parecia uma
borboleta,
52

É importante destacar que nem todos os temas-foco apareceram em todos os


depoimentos, por isso geraram mapas temáticos com uma pequena variação entre eles: cada
narrativa é permeada pelas vivências de cada mulher e pela percepção dessas vivências, sendo
assim, apesar de a transição capilar se configurar em um fenômeno coletivo atual, existe uma
diversidade de versões na manifestação de cada depoente pesquisada.
Os temas-foco com maior prevalência foram Posicionamento (31) seguido de Incentivo
e apoio (23). Mantiveram a média de manifestação similar os temas-focos: Prejuízos sociais
(15), Justificativa (13), Motivos para a transição (13) Efeitos deletérios do alisamento (12) e
Racismo (10).

4.1. Racismo

Ao relatarem a histórias de suas vidas, as mulheres negras narram cenas de violências


racistas com ataques aos seus cabelos. Como já apontado por Isildinha Nogueira em sua tese de

NOGUEIRA, 1998, p. 47).

Porque a gente falar é uma coisa. Se entre tanta gente que está com o cabelo natural,
cabelo cacheado, cabelo crespo, as meninas com cabelo quatro, tipo quatro, são as

a
cabelos crespos e dos cabelos cacheados.
(Ornélia)

Ficavam me chamando de cabelo de árvore, falaram que não era qualificada por
causa da minha cor, que eu era muito feia, que meu cabelo era feio, às vezes me
batiam, ameaçaram cortar o meu cabelo, uma vez. (...)

sair correndo porque ela queria cortar mesmo, ela queria cortar de qualquer jeito,
mas eu falei que não! E a minha sorte é que minha mãezinha chegou e eu fui embora.
(Thaina)

Quando eu ganhei a Alessandra ele estava bem black. Mas naquela época, assim, a
gente andava com um black e todo mundo achava assim, assado, né?!

.
(Martinha)
53

Foi mais, assim, na fase da escola, né!? Aonde você ouve que você tem cabelo duro...
que o seu cabelo é feio, que o seu cabelo é ruim. Era a neguinha do cabelo duro.

apontavam, cantavam para você também aquela música.


(Simone)

Eu me lembro que eu não tinha amizade na escola. Eu tinha uma única amiga, que
era negra, e que tinha o cabelo crespo igual o meu porque as crianças não queriam
brincar com a gente.
Na saída da escola, se as nossas mães não estivessem esperando a gente do outro
ente.
Uma ajudava a outra, sempre, assim na hora de ir embora.
(Márcia)

Nos meus 14 para 15 anos, eu comecei a escutar uns comentários mais pesados de
uns professores. E eu tinha feito relaxamento na época. Ele soltou muito os cachos,
ficou bem volumoso. Aí eu lembro que, nossa, foi terrível, o professor falando:

Eu me incomodava bastante.
(Jéssica)

Nota-se que Ornélia refere-se ao próprio cabelo como tipo 4; em suas palavras, esse é o
tipo de cabelo mais discriminado e, por isso, é necessário muita força para sair de casa. Sair de
casa pode ser compreendido como enfrentar o mundo e as pessoas, porém a informação que
emerge nesse relato é a afirmação de que existe um gradiente hierarquizante entre os tipos de
cabelos, no qual o cabelo tipo 4 é o mais discriminado.
Ao utilizar a tipificação conforme o sistema de classificação elaborado por Andre
Walker,16 a depoente expressa um conhecimento sobre si e sobre o grupo social ao qual
pertence, mas expressa também a mutabilidade do léxico e o poder transformativo das palavras.
Nesse discurso, o racismo está implícito, porém nenhuma atribuição moral ou valorativa foi
feita sobre a textura do seu cabelo crespo. O uso de um termo próprio mostra-se eficaz para
cessar o uso de termos pejorativos.

4.2. Alisamento como estratégia de adestramento social

Analisar as maneiras e os modos pelos quais as mulheres negras desde crianças tem o
seu desenvolvimento permeado pela preparação para a interação social revelou que o alicerce

16
O sistema de classificação para tipos de cabelo de Andre Walker foi criado, na década de 1990, a fim de
comercializar a linha de produtos para cabelos, mas desde então tem sido amplamente adotado como um sistema
de classificação de tipos de cabelo. O sistema inclui números e letras. 1 = reto, 2 = ondulado, 3 = encaracolado, 4
= crespo. As letras desse sistema de digitação se referem ao diâmetro do cabelo e ao tipo de ondulação.
54

do viver em sociedade é a modificação da textura e aparência de seus cabelos, utilizando o


alisamento como uma forma de fazer-se aceita e mostrar-se se hábil para conviver.

Eu sempre gostei de passar prancha nele... para alisar, sabe?!


Lavar e tudo, por causa de bullying e quando eu ia com o cabelo pranchado para a
escola, todo mund

enrolado porque ninguém gosta do meu cabelo assim, eu quero ele do jeito que as

(Thaina)

Eu queria que esse tempo que eu estou hoje fosse há 30 anos atrás. Sem brincadeira.
Em relação ao cabelo eu queria que fosse há 30 anos atrás. Hoje, você poder ter a
liberdade de fazer com o seu cabelo o que você quer, andar com o seu cabelo natural,
do jeito que ele é sem ser apontada.

(Luiza)

Desde que eu me entendo por gente eu aliso o cabelo.


(Liah)

ndo.
Conhecendo a química para você ser aceita, para todos os seus amigos, seus
coleguinhas da época te aceitarem. Então, não foi nem tanto a minha família. Eu acho

E a primeira vez que eu coloquei a química, eu achava que meu cabelo iria ser
daquele jeito, andava balançando o cabelo para lá e para cá,
(Simone)

Quando eu trabalhava. Eu trabalhei em uma área também... que o meu gerente falava
para sempre fazer escova no meu cabelo porque o meu cabelo estava feio. Então eu
passei por tudo isso aí.
Aí, toda semana, assim, eu fazia escova numa segunda-feira para ficar a semana

para não ter o meu cabelo, né? Porqu


O meu cabelo crespo, naquela época, não era muito bem aceito.
(Simone)

Mas eu comecei bem novinha mesmo.

arrumar um namorado de cabelo liso, branco, para poder salvar a família porque o
meu cabelo era muito ruim, muito duro.
Então não era justo eu ter uma criança, eu ter um filho com o cabelo igual o meu.
Então eu tinha que arrumar um marido de cabelo liso para poder salvar. Era sempre
esses comentários assim.
(Jéssica)
55

O alisamento dos cabelos como uma forma de adestramento é validado com a


manifestação de aprovação de pessoas do círculo de convivência, das redes de relacionamentos,
e é expresso por meio de elogios e sugestões de manutenção definitiva do alisamento. Nas
situações em que esse alisamento não ocorre, ele aparece como uma exigência para se adequar
ao ambiente, como, por exemplo, para ser admitida no trabalho. A repulsa ao cabelo crespo é
tão intensa que atinge até gerações futuras com a indicação de que mulheres de cabelos crespos
pos.

4.3. Incentivo e apoio

Os relatos sugerem que o incentivo e apoio recebidos são indícios da presença de uma
rede de interdependência de narrativas que se configura como um aspecto intrínseco da vida
social. As falas apontam para a importância da existência de pessoas ou entidades que atuem
como apoiadores na construção da nova postura, de percepção e cuidado com os cabelos
crespos, para que essa postura possa ser sustentada.

Uma das melhores decisões que eu tomei na minha vida foi voltar ao natural. Não
que a gente tenha essa obrigação de estar natural, não; cada uma faz o que quiser,
mas se você não está feliz com o cabelo alisado, então volta ao natural para ver como
é, talvez você vai se sentir melhor, tentar pelo menos né?!
(Ornélia)

Acho que essa decisão foi mais minha. Minha mãe, minha vó, minha família toda me
apoiou e falou:

me apoiou.
(Thainá)

Agora, que eu mudei de escola eu tenho muito mais amigas, amigos também. Na
minha sala, a maioria gosta de mim e fora da escola também, tenho bastante amigos.
A maioria delas quando me viu de cabelo cortado falou que eu estava muito bonita,
e o resto não eram minhas amigas porque falou
17
Eu
não ligo mais para a opinião dos outros.
(Thainá)

As minhas sobrinhas não foi nem tanto incentivo, elas vieram pra mim e pra minha
vida num momento muito difícil delas; foi quase que assim obrigadas por que elas
não tinham muitas opções, que elas estavam passando pelos problemas na família

17
Neologismo que se popularizou na internet e é utilizado como um sinônimo de pessoa falsa e que finge ser amiga
de alguém unicamente para atingir objetivos egoístas.
56

delas por parte de mãe e meu irmão teve que acolher as filhas, então elas tiveram
mais contato com ele, só quando ela já era o cabelo muito feio, mas muito destruído,
muito acabado, muito acabado mesmo, então não foi nem incentivo.
(Luiza)

Então eu quero ajudar as pessoas com isso. Eu quero que a minha história possa
mudar a vida de alguém, ou somente mudar o dia de alguém, ou somente mudar o
momento de alguém, ou somente mudar a cara de alguém.
Quero que a minha história possa pôr um sorriso no rosto de alguém, sabe?
De alguém que às vezes está na mesma situação que eu.
De alguém que às vezes está em uma situação pior que a minha.
(Liah)

Aí teve uma época que eu conheci as youtubers.

Eu já estou uns 4 anos sem passar relaxante.


Só cuidando mesmo, dando hidratação. Fazendo fitagem para ele ficar bem do jeito
que eu gosto. Eu não imaginava que o meu cabelo ia fazer o cacho que ele faz hoje.
Então quando eu vi que ele começou a crescer, eu parei de passar o relaxante. E ele

(Alessandra)

diferença mesmo de idade, de época;, a geração dela sofreu muito esse preconceito
de assumir o seu cabelo e de:

ela enxergar que o cabelo dela é bonito foi muito difícil. Foi muita conversa, muita

Para ela hoje ver: não meu cabelo é bonito, eu me aceito. Eu sou linda assim desse
jeito, entendeu?!
(Alessandra)

É, eu dou muita força para ela porque assim. Eu sinto que por essa.
A minha filha mesmo passou por um momento triste na escola, por causa do cabelo
cacheado dela, e eu comecei a conversar com ela e hoje ela ama o cabelo dela.

amigas da escola falam que você é linda, q


vejo que está refletindo até nas amiguinhas dela.
E ela se sente orgulhosa em ver que a mãe dela está com o cabelo natural e eu também
sempre motivo ela a ficar com o cabelo dela natural. Você se torna referência para
as outras pessoas, para quem está começando na transição mesmo, para quem está
na dúvida. Você se torna referência, você se torna inspiração.
Espero que o crescimento a minha filha, o mundo dela, seja diferente do meu.
(Simone)

Foi cortando, tirando as tranças. Aí quando ele tirou eu colocava a mão assim, não
tinha cabelo porque cortou, acho que ficaram uns 2 ou 3 dedos de cabelo, assim.

(Márcia)
57

Hoje, a gente tem muito mais referências de mulheres com cabelo crespo do que há
alguns anos atrás. Até mesmo colorido. Eu senti um pouco isso quando eu deixei
crespo e comecei a pintar, até de cor de rosa, mesmo. Eu procurava referências e não
tinha. Hoje, tem muitas referências.
(Jéssica)

Apoio e incentivo tornam-se fundamentais nas situações em que a transição capilar se


apresenta com uma escolha quando somos capazes de caracterizar a transição como uma opção
e não como uma obrigação. Quando a transição ocorreu como única possibilidade por não
muito
destruído muito feio muito acabado
presentes.
Uma das depoentes relata ter encontrado apoio e incentivo em youtubers.18 Estímulos
de apoio e incentivo foram majoritariamente de origem externas, porém podem ser gerados
internamente quando a mulher se reconhece como exemplo ou referência de beleza. O
crescimento dos cabelos, com o surgimento de cachos, também tem o mesmo efeito de apoio e
incentivo.
Outra modalidade de apoio e incentivo encontrada nos depoimentos foi a
representatividade de mulheres negras na mídia, sentir-se representada por mulheres mais
influentes, reconhecer-se em suas características, físicas e comportamentais, é sentir-se
pertencente à sociedade e confortável com seus próprios traços. Entretanto, devido ao fato de
que essa representatividade não atinge a multiplicidade de tons de pele e texturas de cabelos
possíveis da mulher negra, ela pode gerar uma nova imposição de padrão que contradiz a lógica
da transição capilar enquanto movimento de aceitação dos cabelos naturais.

4.4. Justificativa para alisar o cabelo

As justificativas podem envolver tanto razões positivas como desculpas, portanto, a


tarefa analítica desta pesquisa foi investigar o modo como as diferentes explicações e descrições
sobre o alisamento dos cabelos são construídas discursivamente.

Então, para mim era a coisa mais normal do mundo, alisar o cabelo.
(Ornélia)

18
Termo utilizado para denominar quem produz conteúdo para o YouTube oferecendo informações ao público,
podendo ocorrer interações a partir da troca dessas informações.
58

u estava meio insegura, mas eu falei:

tratar melhor."
(Thainá)

para o cabelo balançar, né?!


Para fazer franjinha, para jogar, para bater quando o vento do ônibus batia, eu fazia!
(Luiza)

Eu acho que porque a minha família por parte de mãe principalmente tem a maioria
negra. E todas as minhas tias, a minha mãe, a minha avó, todo mundo alisava o cabelo
e acho que é para seguir um padrão.
(Liah)

Foi hereditário, sabe?


Ninguém ia se aceitando e elas iam alisando o cabelo e perdendo esse cabelo é tipo
ok sabe?
Ok você ter um cabelo longo e de repente ficar careca, sabe?
Elas aceitavam isso e bola para frente porque nós temos que alisar o cabelo crespo,
porque sim!
(Liah)

A minha mãe, ela tem o cabelo crespo. E o meu pai, ele é neto de índio, então o cabelo
do meu pai é bem liso. E quando eu era criança eu não entendia porque eu tinha
puxado o cabelo da minha mãe e não o do meu pai. Então, sempre o meu sonho era
ter o cabelo liso de franjinha igual índia porque eu queria muito ter o cabelo igual
do meu pai. Daí eu comecei a fazer química.
(Alessandra)

[...] para ser aceito pela sociedade, porque eu achava que cabelo liso abria as portas

(Simone)

Com três crianças para cuidar, sem saber o que fazer, com uma mãe doente, com um
irmão menor...e tendo que arcar com várias coisas na vida.
Seguimos alisando os cabelos, passando por todas as situações da vida, né? E vamos
que vamos.
(Márcia)

Eu perdi minha mãe muito cedo, né?!


Eu perdi minha mãe com uns 6, 7...acho que foi praticamente na mesma época.
Meu pai foi morar com a minha madrasta, e para ficar mais fácil de pentear o cabelo,
começou com aqueles relaxamentos de criança.
(Jéssica)

Os resultados dessa temática apontaram que a presença constante do uso de métodos


alisantes de cabelos na vida social das mulheres negras acaba por atribuir um aspecto de
59

normalidade para mim era a coisa mais normal


do mundo, alisar o cabelo , destacam-se o alisamento como uma forma
de receber um tratamento melhor da sociedade e a tentativa de atingir uma imagem idealizada

Alisar os cabelos é uma prática que visa seguir um padrão repetido por todas as mulheres
da família, como algo transmitido por tradição ou hereditariedade, como algo inquestionável -
porque sim! , a justificativa para o alisamento pode ser
tanto o desejo de ter o cabelo igual ao genitor de cabelos lisos e, em tese, conquistar o mesmo
status de beleza, ou por imposição de um dos responsáveis. Ainda no campo das relações
familiares, o alisamento é justificado pela falta de tempo dos responsáveis para os cuidados
diários das crianças.

4.5. Prejuízos sociais

Este tema aborda a identificação de prejuízos relacionados às conexões da vida


cotidiana; afetos, dores, medos e perdas das mulheres negras devido à relação com seus cabelos.

Eu nunca conheci o meu cabelo nesse formato crespo porque eu comecei a alisar
desde cedo.
(Ornélia)

O problema é que eu fiquei calada, eu não falei para ela. Só contei muitos dias depois
que eu sofria bullying bullying, você não pode sofrer

de ir para a escola, eu fiquei até um tempo sem ir para a escola por causa disso. Eu
bullying, nem sabia o
nome. Sabia que era uma coisa muito errada, mas não sabia que era bullying
(Thainá)

[após, a justificativa pra alisar], vou alisar logo, que assim minha vida vai ficar
melhor, todo mundo vai me tratar melhor."

Eu deixava de ir em festinha de piscina e praia, às vezes, porque o meu cabelo estava


liso, e quando eu ia eu não ia para a água, não aproveitava nada. Ficava sentada lá,
sentada fazendo qualquer coisa menos indo para a piscina.
(Thainá)

Porque o que acontece, eu alisava o cabelo, mas de manhã eu tinha ou que pranchar
ou vinha com pente quente de manhã. Tem a raiz, o suor. Eu transpiro muito. Eu
60

passava o pente agora de manhã. Quando fosse de tarde, se eu tivesse que sair eu
tinha que vir com um pente quente de novo para fazer a raiz.
(Luiza)

Todas as minhas amigas jogando cachos ao vento e eu careca.


Sempre!
E com o tempo queria mudar isso. Eu não queria mais ser careca.
(Liah)

Eu ia a semana toda para o colégio com aquelas duas laçarotes de fita, né? E aí as
crianças riam.
Eles riem, né?
(Martinha)

outra metade tinha um pouquinho de cabelo ainda, porque eu tentava disfarçar,


u antes.

eu estava escondida.
(Simone)

Então, isso é uma coisa que fica, né?! Você passou por isso na infância, quando
criança, e aí quando você vai... andar nos lugares era isso.
(Márcia)

Ah, eu gastava horas, horas para arrumar. Às vezes eu deixava de sair porque tinha
que arrumar o cabelo.
Acordava muito mais cedo para poder escovar o cabelo. Eu tinha que ter uma rotina.
Era bem extensa.
(Jéssica)

Os relatos sobre o cotidiano das mulheres pesquisadas revelam danos à saúde e


desvantagens nos processos de desenvolvimento humano, como, por exemplo, o fato de uma
mulher desconhecer a textura do próprio cabelo devido ao início precoce do alisamento. Esse
desconhecimento leva à reprodução do mesmo modo de tratar os seus cabelos impedindo se
perceber como apta a transformar, reelaborar, questionar ou modificar os padrões.
Os processos de socialização ficam prejudicados quando existe situação de isolamento,
eu tinha medo até de ir para a escola, eu fiquei até um tempo
sem ir para a escola por causa disso -se e não frequentar a escola por si só já fere o seu
direito à educação, mas os prejuízos sociais do alisamento ultrapassaram a vida escolar e
adentraram na interação social, restringindo a diversão e, para crianças, restringindo o brincar.
61

Brincar, enquanto atividade, é essencial, por isso se tornou um direito garantido por lei
e preconizado pela ONU na Declaração Universal dos Direitos da Criança, em 1959,

direito a brincar e a divertir-se, cabendo à sociedade e às autoridades públicas garantirem a ela


(ONU, 1989).
Diante disso, é possível inferir que o maior prejuízo social advindo do ataque racista
aos cabelos crespos é a interdição social da pessoa discriminada em seu direito de viver em
sociedade. Lamentavelmente, outros prejuízos relevantes foram relatados nos depoimentos,
como: o consumo diário de horas produtivas para arrumar os cabelos, incluindo-se a
necessidade de acordar mais cedo para isso; a impossibilidade de sentir-se pertencente ao grupo
social do qual participa ao longo da vida como, por exemplo, colegas de sala de aula;
experiências de humilhação social por ser alvo de risos e chacotas; esconder-se da sociedade
evitando o contato com pessoas reunidas em grupos por receio de reviver situações ocorridas
na infância.

4.6. Efeitos deletérios do alisamento

Alisar quimicamente os cabelos é prejudicial à saúde, pois as substâncias usadas podem


ser tóxicas e deletérias em diferentes graus. Contudo, esses efeitos deletérios são suportados
por diversas razões, conforme discutimos no tema-foco número 4. Para a leitura dos efeitos
deletérios apresentados abaixo, recomendo um olhar sensível para a condição humana e atento
para a subjetividade e seus processos de construção nas experiências de corpos que são
racializados e gendrados.

Alisava, caia.
(Liah)

Agora, você até usa química para cachear, né?!


Mas há alguns anos atrás você usava química para alisar, você usava era soda
cáustica no cabelo, porque o cabelo tinha que ficar liso, verdadeiramente liso.
(Luiza)
62

Aí quando ela foi cortando ela olhou para mim e falou:

. Aí ele foi crescendo bem cacheado e ele estava natural.


(Martinha)

Porque começou a quebrar, começou a cair, comecei a ter alergia. E, mesmo assim,
eu teimava porque eu queria meu cabelo liso.
(Simone)

A minha cabeça parecia que estava pegando fogo. E quando eu vi que eu estava sem
respirar, o coração estava com aquele batimento cardíaco, aí eu resolvi ir no médico.

ele falou que eu estava tendo uma reação alérgica muito forte e que se eu não tivesse

essa reação alérgica foi muito forte na minha


cabeça. Ele falou: ou eu parava ou eu morria. E da próxima vez que eu passasse essa
química talvez não daria mais tempo de eu correr, porque a reação alérgica foi muito
forte. Aí eu tive que tomar medicamento na veia, tive que ficar em observação.
(Simone)

Eu lembro que tinha um casamento de uma prima minha, a Tânia, e minha mãe me
levou para alisar o cabelo. Eu era nova. Era bem nova. Não tinha mais que 10 anos.
Era uma pasta verde que derretia até pote de plástico, eu não vou lembrar o nome,
mas era um negócio fedido, e dependendo da onde você colocava, o recipiente
derretia.
Eu lembro que ela aplicava e assoprava porque queimava. Ela tinha que passar e
assoprar. E quando ela terminou o procedimento, que ela lavou o cabelo, deu ferida
no couro cabeludo.
(Márcia)

Destaca-se que a queda frequente dos cabelos resultava em períodos em que a mulher
negra ficava careca, um movimento pendular que tem nos extremos ora os cabelos alisados, ora
careca. O risco à saúde é um dado histórico, haja vista o uso de soda cáustica em passado
recente; hoje atenuado pelo desenvolvimento de outros produtos.
Apesar dos efeitos deletérios manifestados, a prática de alisar os cabelos quimicamente
era mantida, sendo suspensa apenas quando o risco de morte se sobressaltava, conforme os
relatos de reação alérgica: dores fortes, falta de ar, feridas no couro cabeludo, substância de
odor desagradável capaz de derreter o recipiente.
Um aspecto importante encontrado nos depoimentos foi a interrupção do alisamento
durante a gestação. Parece haver uma compreensão compartilhada sobre o risco de das
substâncias tóxicas dos produtos com o couro cabeludo serem absorvidas e levadas à circulação
sanguínea e, assim, chegarem ao feto. Porém esse risco não parece ser levado em consideração
no caso do alisamento dos cabelos das crianças.
63

Assim, apesar de o produto ser definido como


de plástico, eu não vou lembrar o nome, mas era um negócio fedido, e dependendo da onde
você colocava, o recipiente derretia , o uso não foi interrompido
corroborando com outro dado encontrado que é do alisamento enquanto preparação para a vida
em sociedade, o adestramento das pessoas negras, mas especificamente das mulheres negras.

4.7. Motivos para transição

Pode-se observar, nesta temática, um linha de aproximação, com uma espantosa


semelhança, nas versões da relação entre cabelo e beleza entre o relato de uma mulher beninense
e os das mulheres brasileiras. Vale atentar para as semelhanças nas narrativas e o lugar do cabelo

Então, eu já estava no Brasil e foi em 2013, eu trouxe um produto para alisar o cabelo
quando eu cheguei aqui.
Quando terminou o produto que eu trouxe para cá, eu comecei a usar as químicas
daqui para alisar o meu, só que não deram certo no meu cabelo. Aí eu comecei a ver

Aí eu falei: ah, sabe de uma coisa, eu vou tentar para ver porque eu vejo que as
meninas estão usando o cabelo assim e está legal, está bonito, eu vou começar a fazer.
(Ornélia)

Aí, quando eu decidi cortar o cabelo eu falei:

(Thainá)

É na verdade assim a gente pode falar que a nossa transição começou em 2012
porque de 2012 para 2013 foi um ano muito turbulento pra gente em família por parte
de mãe né - a minha avó morreu, depois minha tia morreu todos esses eventos foram
fazendo com que o cuidado com o cabelo fosse deixado para trás porque tinha outras
coisas mais importantes do que você cuidar do cabelo acontecendo, com a família em
si, né.
(Gabriela)

Foi por causa de uma perda, da morte da minha avó que eu comecei minha transição.
Eu perdi minha avó, minha avó teve um Alzheimer e eu perdi a minha avó.
E eu acho que foi muito isso, sabe?
Eu me olhava no espelho eu via uma pessoa assim arrasada, Cansada. Por tudo! [...]
Então eu acho que isso fez... Muita diferença na hora da minha transição
porque eu queria ver outra pessoa. Eu olhava no espelho e via uma pessoa triste,
acabada, com um cabelo feio. E aí eu fui, fiz a transição e nossa cacho, eu vou ter
cacho.
(Liah)
64

E quando eu tive o meu filho eu tive reação à anestesia. Daí o meu cabelo
começou a cair. Aí o médico falou:

Foi um desespero no começo porque eu não sabia o que eu ia fazer.


E eu nem sabia o que era transição. Nem sabia que eu estava passando por esse
momento. Aí eu fiquei lá segurando um tempo sem passar nada. E sem cortar também.
Aí eu ficava com metade do cabelo cacheado. E a outra metade com relaxante.
E depois eu decidi cortar. Eu cortei bem baixinho, bem Joãozinho mesmo.
(Alessandra)

A transição começou quando eu usei uma química muito forte no meu cabelo e eu
comecei a sentir falta de ar, meu cabelo começou a arder, a coçar e eu fui parar no
médico.
(Simone)

Eu precisava tirar a carteira de trabalho, e precisava tirar uma foto. E, nesse dia,
meu cabelo não estava ficando bom. Não estava conseguindo arrumar. Eu tinha tido
um corte químico. Eu perdi muito cabelo. Porque eu queria ter cabelo colorido, eu
queria ter cabelo liso.
Eu tinha todas as químicas possív
Com uns cabelinhos bem perdidos na cabeça, liso. E chegou uma hora que eu fui
arrumar e não estava dando certo. Já estava atrasada. E aí peguei a tesoura na frente

Aí fui tirar foto.


(Jéssica)

O relato de Ornélia, proveniente de um país africano, aponta para a percepção do


alisamento dos cabelos crespos como uma prática globalizada. O motivo apresentado por ela
para a o início da transição foi estritamente objetivo: primeiramente, veio a incompatibilidade
com os produtos alisantes existentes no Brasil, seguida da influência exercida pela internet, em
aí eu comecei a ver na internet esse negócio de afro, de voltar ao natural
Sobre a compreensão do fenômeno da globalização, acredito que o pensamento e Milton Santos
é de grande contribuição:

De fato, se desejamos escapar à crença de que esse mundo assim apresentado é


verdadeiro, e não queremos admitir a permanência de sua percepção enganosa,
devemos considerar a existência de pelo menos três mundos num só. O primeiro seria
o mundo tal como nos fazem vê-lo: a globalização como fábula; o segundo seria o
mundo tal como ele é: a globalização como perversidade; e o terceiro o mundo como
ele pode ser: uma outra globalização. (SANTOS, 2011, p. 9)

Os relatos das outras depoentes mesclam questões objetivas e subjetivas. Quando fazem
vontade de ser
outra pessoa -se à ausência de um cuidador
65

responsável pelos cuidados diários; queda de cabelo devido a reação alérgica; corte químico
seguido de corte manual e por precisar tirar uma foto e não conseguir arrumar o cabelo.

4.8. Posicionamentos

Este tema reuniu falas que apontam para a característica construída e situada das
narrativas das mulheres pesquisadas. A análise permite compreender os modos como as versões
sobre transição capilar são construídas na interação entre as pessoas em suas redes, as práticas
sociais que são engendradas através delas e como cada uma se constitui de modo diferente,
através das formas pelas quais se autodescreve em determinadas ocasiões.

É impossível você ficar feia com o cabelo que Deus lhe deu, naturalmente que saiu
da sua cabeça!
É impossível você ficar feia com isso!
[...]
As meninas lá são muito vaidosas, né?!

falei a gente
tem costume de alisar o cabelo,
[...]
Meu nome é Ornélia Gbohayida eu sou do Benim, país da África Ocidental.
Felicidade. Eu fiquei feliz por ter a oportunidade de poder falar disso, porque cabelo
não é só beleza, também tem toda uma história por trás, eu espero que eu possa ajudar
muitas outras mulheres a poder se empoderar e a assumir os seus cabelos.
(Ornélia)

Depois que eu cortei o cabelo, mudou muita coisa. Me senti mais bonita, e mais livre.
A minha atitude mudou, minha opinião mudou, meu jeito mudou. Me divirto mais,
mais aberta, extrovertida.
(Thainá)

Cabelo, acho que o cabelo, muda tudo isso. (Beatriz)


É, é verdade. (Gabriela)
Eu acho que em tudo foi melhor pra mim, eu acho que eu não mudei só meu cabelo,
eu mudei o corpo, mudou tudo (Beatriz)
Muda a autoestima. (Gabriela)
...então tudo, a personalidade muda, tudo mudou para mim então, foi maravilhoso.
(Beatriz)
(diálogo entre as irmãs)

Você fica mais autêntica, porque é diferente né, tipo assim o nosso cabelo, eu digo
que ele é diferente, assim uma sociedade tem dado vários estereótipos que as pessoas
seguem, em uma sociedade, que é totalmente padrão. Você tem cabelo louro, liso,
isso influencia no que as pessoas negras são, porque a gente acaba sempre se
perdendo, tá entendendo? Por que a gente não têm a nossa própria identidade, a
gente tem a identidade que a sociedade deu pra gente, impôs, em maioria sim o
pensamento muda, então, qualquer hora ô
(Gabriela)
66

Depois que meu cabelo começou a crescer e que ele formou um formato legal, que aí
foi mudando o pensamento aí ela começou a me puxar para esse negócio de
empoderamento, aí eu:

(Beatriz)

Eu acho que a transição ela mexe com você todo, você por inteiro entendeu? É a fase
que você olha no espelho e ver que o seu cabelo realmente está crescendo, é aquilo
que você é. Essas são as suas origens e eu vejo muita gente perdendo, tipo assim

quero um a igual ao da Taís Araújo que é referência para todas, pra muita gente.
Eu vejo assim, eu vejo como algo que é que muitas das vezes tira as pessoas do foco
do que realmente se assumir, que é natural. Eu falaria que essa pessoa que é pra
pessoa amar e cultivar o cabelo que ela tem, cabelo dela é o amor se constrói o
cabelo, é um amor que se constrói ca, eu

beleza.
(Gabriela)

Se eu não tivesse me aceitado eu também alisaria o cabelo da minha filha.


(Liah)

Então é importante a gente se impor porque eu acho que o cabelo crespo é uma forma
de expressão. Meu cabelo é a minha expressão. Então, assim, é muito importante a
gente se impor. E não ligar de forma alguma para o que as pessoas falam.
Porque nós estamos constantemente sendo questionadas. Então se nós formos nos
prender nisso, a gente não faz nada, nada da nossa vida.
(Liah)

Agora o meu cabelo caiu de novo, vai acontecer a mesma coisa.


Não aconteceu porque eu falei:
Se eu fosse a Martinha de antes eu até estaria preocupada com isso, mas agora não'.
Eu sei quem sou e o que eu quero ser. Eu estou assim e não vou me importar! Eu vou
colocar uma argola e vou sair com a minha cabeça careca.
E não quero nem saber quem está falando e quem não está. O cabelo é meu, eu sou

(Martinha)

É um autoconhecimento. Quando o seu cabelo vai crescendo não muda só o seu


cabelo. Eu mudei o meu jeito de me vestir, o meu jeito de me impor, sabe?
Eu mudei totalmente depois que eu assumi o meu cabelo. Eu sou uma outra
Alessandra do que eu era há três anos atrás com o cabelo relaxado. O meu filho, ele

Às vezes tem que cortar porque está muito grande e ele sente muito calor.
Nossa, ele chora black power Ele fala. Ele
adora.
(Alessandra)

Eu mesma tive que chegar quase à beira da morte para me descobrir e para me fazer
voltar àquela Simone que eu tinha deixado na infância.
E hoje eu me encontrei com ela e eu não quero nunca mais largar dela.
67

E hoje eu me sinto assim, que nem eu estou aqui: uma princesa... linda e empoderada.
(Simone)

Hoje eu me sinto muito mais confiante, com a textura do meu cabelo, com a cor do
jeito que eu sou hoje.
Eu deixava que as opiniões das pessoas fossem mais fortes em cima de mim, do que
hoje. Hoje, não. Eu me olho no espelho e me sinto bonita assim.
Eu acho que isso é a coisa mais importante: você se olhar no espelho e se sentir bem.
Essa é de uma das primeiras transições, acho que foi quando ficou bem mais curto, e
eu comecei nessa fase de me reconhecer como negra, de gostar dos meus traços, da
minha cor. De começar a buscar as referências.
(Jéssica)

do conceito
de posicionamento reside, portanto, em seu caráter constitutivo: o self é construído nas práticas
discursivas, através das posições que as pessoas negociam ativamente, em seus
. As autoras ainda afirmam que m está relacionado à

Portanto, entendemos que as mulheres cujos depoimentos fizeram parte desta pesquisa
estão sempre engajadas em atividades discursivas onde posicionam a si mesmas e aos outros.
Continuamente, enquanto pesquisadora, me empenho para deslocar o lugar de significação
individual das suas falas para a esfera do social, entendendo que a apropriação dos repertórios
se dão de acordo com as demandas e possibilidades de cada uma, com a finalidade de justificar
ações, comportamentos e críticas. Dessa forma encontramos, em relação ao posicionamento das
mulheres negras que decidiram voltar uso do cabelo natural, as seguintes informações:
A impossibilidade de ficar feia com o seu cabelo natural; a afirmação de que o cabelo é
mais do que beleza, ele tem uma história por trás; o desejo de ajudar outras mulheres a
assumirem seus cabelos; uma mudança na atitude; uma sensação de beleza e de liberdade
percebidas após o corte. Thainá, a única adolescente entre as mulheres incluídas na
pesquisa, relata que sua atitude, sua opinião e o seu jeito de ser também mudaram, e ela
passou a se sentir mais extrovertida, aberta e com o aumento da diversão na vida.
Para as irmãs Beatriz e Gabriela, mudar o cabelo mudou tudo. Segundo elas, tudo ficou
melhor: muda o corpo, aumenta a autoestima e as fez sentirem uma mudança na
personalidade. Para Gabriela, a transição capilar a deixou mais autêntica. Ela relata que os
estereótipos e os padrões impõem uma identidade que influencia o que as pessoas negras
são, acabando por se perderem de si nesse processo. Para Beatriz, o pensamento foi
mudando conforme o cabelo foi crescendo. Para Liah, posicionar-se e aceitar o cabelo
natural interrompeu o ciclo geracional de alisamento em sua família.
68

O cabelo é visto como uma forma de expressão. A fala de Martinha mostra que ela assume
uma postura altiva fundamentada em uma nova posição diante da possibilidade de perder o
cabelo novamente. Segundo os relatos, a transição capilar mexe com a pessoa toda, mexe
com a mulher por inteiro, proporciona pertencimento racial com resgate das origens.

movimento de assumir o cabelo natural.


Em linhas gerais, os posicionamentos mostram mulheres confiantes que se sentem
bonitas e fortes, ao mesmo tempo que se reconhecem como negras e gostam dos traços, da cor
e estão em busca de mais referência.
Para José Moura Gonçalves Filho (2008), professor Departamento de Psicologia Social
e do Trabalho da Universidade de São Paulo, a beleza é confundida com aparência padronizada,
sendo que a . Para
ele (2008), nós nunca saberemos de imediato o que uma jovem negra quer dizer quando declara
que se sente feia; isso se dá devido a possibilidade de ela se sentir feia por estar fora do padrão
branco. O autor ainda descreve:

A beleza quase nada tem a ver com a beleza socialmente consagrada, amortecida,
congelada. O fenômeno para o qual apelo tem a ver com a experiência de aparição.
Todo mundo, contanto que livre do controle social da beleza, é capaz de admitir e de
confirmar que beleza é aparição. Pessoas afastadas dos padrões controlados de beleza,
quando aparecem, quando livres para aparecer, são necessariamente bonitas.
(GONÇALVES FILHO, 2008, p. 60)
69

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esta pesquisa teve por objetivo identificar as diferentes versões da transição capilar que
circulam entre mulheres negras. Com esse intuito, foram analisados nove depoimentos de
mulheres negras da websérie
processo de transição capilar. Os episódios foram escolhidos de forma a garantir a diversidade
de faixas etárias e configurações familiares das depoentes. Trata-se de um dentre muitos sites,
blogs, páginas em redes sociais e canais de vídeos, com conteúdos disponibilizados na internet,
que são uma fonte de narrativas, tanto que alguns estudos que menciono neste trabalho beberam
dessa fonte.
A perspectiva teórico-metodológica de análise utilizada nesta pesquisa é orientada pelo
construcionismo social. A intenção, ao utilizar tal perspectiva, é entender o sentido dos
fenômenos sociais e, como é habitual em pesquisas qualitativas, a análise foi iniciada com uma
leitura exploratória e imersão no conjunto de informações sobre transição capilar, procurando
deixar emergir os sentidos, sem encapsular as informações em categorias, classificações ou
tematizações definidas a priori. Optar por não criar categorias, classificações e tematizações
antes da leitura e análise dos dados é o que permite emergirem os sentidos em cada versão
elaborada por cada participante da pesquisa. Foi com essa finalidade que desenvolvi mapas
temáticos a partir da transcrição integral dos depoimentos.
Esse objetivo geral se desdobrou no seguintes objetivos específicos: a) analisar as
narrativas de mulheres negras sobre a transição capilar para compreender as razões para essa
opção e b) discutir a relação entre a transição capilar e mudanças no posicionamento como
mulheres negras.

Nuprad.
Após uma primeira imersão nos depoimentos, os mapas foram construídos com as seguintes
temáticas: Racismo; Alisamento como estratégia de adestramento social; Apoio e incentivo;
Justificativa para alisar os cabelos; Prejuízos sociais; Efeitos deletérios do alisamento; Motivos
para transição e Posicionamentos.
A análise das versões sobre a transição capilar permitiu identificar que existem etapas
que dividem o processo e que cada etapa possui aspectos psicológicos relevantes, a saber:
70

a) O incômodo: Os métodos de alisamento dos cabelos não garantem estabilidade dos fios
lisos, isso requer um esforço para manutenção constante dos cabelos alisados, incluindo
horas de retoque na raiz dos cabelos, evitando-se atividades que possam desfazer o efeito
do alisamento. Essas situações são geradoras de aborrecimentos, irritação e desconforto,
gerando desgaste e descontentamento com a prática de modificar as texturas dos cabelos.
É a partir disso que se instala o incômodo nas mulheres que possuem cabelos alisados.
b) A tomada de decisão: O alisamento capilar começa a ser questionado quando a mulher
avalia os prejuízos sociais e os efeitos deletérios conectados a essa prática. Esse
questionamento permite ponderar vantagens e desvantagens em manter o procedimento,
e nas situações em que a mulher encontra apoio e incentivo, é possível tomar uma decisão
pela transição capilar com maior segurança.
c) Os diferentes sentimentos durante o processo: Os sentimentos manifestados dividem-
se em antes e depois da transição capilar; essa divisão não está relacionada a dicotomias
como certo ou errado, bom ou ruim, mas ela restringe a separação das sensações que
guardam relação como o estado emocional de uma mulher que alisa os cabelos para
adequar-se à sociedade em oposição a uma mulher que compreende a construção histórica
social na definição dos padrões de beleza e sente-se bonita com seu cabelo natural.
Os sentimentos e sensações, perceptíveis nos depoimentos relacionados ao período
anterior da transição capilar são: agonia, alienação, apatia, isolamento, passividade,
preconceito, rejeição, sensibilidade, sofrimento, timidez e vulnerabilidade.
Os sentimentos e sensações, perceptíveis nos depoimentos, relacionados ao período
posterior à transição capilar são: aceitação, afirmação, confiança, consciência,
pertencimento, força, beleza, coragem, convicção, determinação, dor, engrandecimento,
estruturação, felicidade, liberdade, maravilhar-se, perseverança, resiliência, satisfação,
solidária, solidariedade, sensualidade e vivacidade.
d) As mudanças pós-transição: As mulheres após a transição capilar passaram a sentir-se
mais autênticas, com maior segurança e com a autoestima elevada. A aceitação da textura
natural dos cabelos interrompe o ciclo geracional de alisamento compulsório dos cabelos
crespos. Essa quebra de padrão repercute nas gerações futuras quando a transição capilar
passa a ser desejada, planejada e bem-vinda nas famílias com seus cabelos crespos, com
efeitos na geração antecessora, os mais velhos, que podem perceber uma possibilidade de
voltar ao cabelo natural a partir da circulação de novas práticas e novos repertórios
adquiridos e compartilhados pela mulher transicionada. Em virtude de o cabelo crespo
ser, reconhecidamente, um traço fenotípico de ancestralidade negra, as mulheres negras,
71

após a transição tem sua negritude evidenciada, independentemente do motivo para o


início da transição. O processo de busca de informações e conhecimentos sobre a textura
do cabelo resulta sempre em reconhecer-se na sua condição mais natural, isso inclui se
compreender posicionada no pertencimento racial.
Em suma, todas as mulheres estão submetidas aos padrões de beleza impostos
socialmente: tratamentos estéticos de embelezamento dos cabelos, variedade de colorações e
cobrimento dos cabelos brancos permeiam a cultura e o cotidiano de todas as mulheres.
Entretanto as mulheres negras são as únicas que são atingidas violentamente por esses padrões,
antes mesmo de nascerem, o que as leva a serem atacadas pela imposição de padrões de beleza
antes mesmo do nascimento.
Isso se dá por conta do racismo; a violência racista existente na sociedade oportuniza,
ainda durante a gestação, manifestações de sentimentos antinegritude direcionadas ao bebê,
ganhando materialidade nas expressões que manifestam desejo de que o cabelo da criança não
seja crespo, que seja parecido com algum membro da família que tenha o cabelo liso ou mais
próximo do liso. Essa é a especificidade da relação com os cabelos que diferencia mulheres
negras de outras mulheres; elas precisam lidar com a repulsa aos seus cabelos e, por isso, são
incentivadas a buscar estratégias de eliminação desse traço, com a sugestão de que meninas e
mulheres negras devem procurar pares de cabelo liso para que possam ter filhos com cabelos
mais lisos.
Os resultados desta pesquisa mostram que, apesar do discurso político de consciência
racial, muitas mulheres decidem abandonar o alisamento dos seus cabelos e voltar ao uso do
cabelo natural por motivos de saúde e não por motivos de busca de identidade ou por influência
na moda. O confronto com esses dados revela a dimensão perversa e destruidora do racismo
que faz com que famílias alisem o cabelo de suas crianças, submetendo-as a uma constante
constrição dos aspectos do seu desenvolvimento saudável, físico e emocional.
Em todo caso, mães que alisam os cabelos de suas filhas o fazem devido a um processo
de consciência de que, numa sociedade racista, a aparência dessa criança pode fazer com que
ela sofra rejeição. Os relatos apontam para mulheres que, enquanto crianças, tinham seus
cabelos crespos trançados, iniciando o alisamento químico quando ingressaram no mercado de
trabalho.
Contudo, a mulher negra não se resume ao seu cabelo. Nenhuma pessoa pode ser
reduzida a ser apenas o produto de uma opressão, porém sofrem no enco
que as vê com as lentes obstruídas pelos efeitos do racismo, do machismo e das determinações
sociais.
72

Os resultados encontrados podem servir para contribuir com o pensamento clínico e a


escuta psicológica de forma que o atendimento às mulheres negras que se encontram em pré,
peri ou pós-transição capilar possam ser realizados a partir de uma percepção de que esse
momento guarda singularidades na vida dessas mulheres.
73

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APÊNDICE A Mapas conceituais da websérie "Mulheres em Transição' 1ª e 2ª temporada

Mapa 1
Episódio 1 Ornélia Gbohayida

Alisamento como
Justificativa para Motivos para a
Racismo estratégia de Incentivo e apoio. Prejuízos sociais Posicionamento
alisar os cabelos transição
adestramento social
É impossível você
ficar feia com o
cabelo que Deus lhe
deu, naturalmente que
saiu da sua cabeça!
É impossível você
ficar feia com isso!
Tenta, deixa crescer, ]
tenta ver, se não
gostar não aí você
volta a alisar, mas
pelo menos dá uma
chance ao seu cabelo
de crescer.
As meninas lá são
muito vaidosas, né?!
A mulher africana é
muito versátil, ela faz
muita coisa, ela

trança, alisa. Mas,

natural, a gente não


tem, como eu falei a
gente tem costume de
alisar o cabelo.
eu nunca conheci o
meu cabelo nesse
formato crespo
porque eu comecei a
alisar desde cedo.
então para mim era a
coisa mais normal do
mundo, alisar o
cabelo.

Então, eu já estava no
Brasil e foi em 2013,
eu trouxe um produto
para alisar o cabelo
quando eu cheguei
aqui.
Quando terminou o
produto que eu trouxe
para cá, eu comecei a
usar as químicas daqui
para alisar o meu, só
que não deram certo
no meu cabelo,
eu pintei o meu
cabelo, eu passava
chapinha toda hora,
aí eu comecei a ver na
internet esse

voltar ao natural. Aí
eu falei: ah, sabe de
uma coisa, eu vou
tentar para ver porque
eu vejo que as
meninas estão usando
o cabelo assim e está
legal, está bonito, eu
vou começar a fazer.
Aí eu comecei a fazer
mistura de abacate
que eu vi que as
pessoas fazem para
poder passar pela fase
de transição. Só que
eu não gostei muito
porque ficava duas
texturas aí eu falei: eu
vou cortar logo
porque eu fazia o
tratamento no cabelo e
não via resultado pelo
fato do cabelo estar
com duas texturas, aí
eu fui cortar no
cabeleireiro, eu cortei
e até deixei uma
franja, eu não queria
cortar tudo, eu cortei
tudo e só deixei uma
franja na frente.
Eu não cuidava tanto
do meu cabelo o
quanto eu cuido hoje
porque eu nem sabia o
que era hidratação, eu
não sabia nada disso,
para mim era alisar e
fazer trança, alisar e
fazer trança,
então o fato de eu
voltar ao natural,
aprendi a cuidar do
meu cabelo, a
entender o meu
cabelo. Quando você
tem uma autoestima
você gosta daquilo
que você tem, acho
que nada é difícil, é
uma relação de amor
entre você e o seu
cabelo, eu não acho
difícil, mas eu acho
que precisa de mais
cuidado.
O que foi também o
mais difícil para mim
foi o cabelo curto,
quando eu saía eu não
sabia como arrumar
ele, para sair e ficar
bonitinho. Eu não
sabia o que eu ia
passar no cabelo
porque quando você
corta o cabelo você
sente que o cabelo
está meio ressecado,
assim, mas, quando
você começa a fazer
as hidratações, você
vê que o cabelo está
todo fofinho, você
sente quando o seu
cabelo está bem e
você sente quando ele
não está.
No primeiro
momento, você não
sente ainda o
resultado, aí vai ter
um dia que você vai
fazer a hidratação,
você sai do banho,
seca o cabelo, você
toca o cabelo e está
tão fofo, está tão
assim... aí, estou
gostando.
Você fica feliz, né?!
Uma das melhores
decisões que eu tomei
na minha vida foi
voltar ao natural. Não
que a gente tenha essa
obrigação de estar
natural, não cada uma
faz o que quiser, mas
se você não está feliz
com o cabelo alisado,
então volta ao natural
para ver como é,
talvez você vai se
sentir melhor, tentar
pelo menos né?!
Acho que a Ornélia de
hoje tem uma
autoestima mais
elevada, porque você
se descobre, você
descobre uma parte de
você que não
conhecia, sabe?!
Porque a gente falar é
uma coisa. Se entre
tanta gente que está
com o cabelo natural,
cabelo cacheado,
cabelo crespo, as
meninas com cabelo
quatro, tipo quatro,

você sair de casa com


um cabelo tipo quatro,
você tem que ser
forte para você sair
porque é o cabelo
mais discriminado,
dentro dos cabelos
crespos e dos cabelos
cacheados.
Parar de querer
agradar as pessoas,
você tem que parar de
querer, ah se eu sair
assim o pessoal vai
falar, você tem que
parar com isso!
Você tem que fazer as
coisas para você
mesmo, não pelos
outros. Quando você
começa a deixar isso
de lado, você
consegue fazer muita
coisa.
Primeiro conselho:
pare de se importar
com o que os outros
acham de você!
O segundo passo é
você aprender a gostar
de si mesma,
independente de ter
cabelo crespo ou não,
você aprender a gostar
de si mesma.
Se tem alguma coisa
que você pode
melhorar, você vai
melhorar.
Eu não pensei em
desistir, não. Eu
entrei, e comecei a
gostar, na verdade foi
uma descoberta, eu
comecei a gostar, eu
não pensei em desistir
não. Tem certas vezes
que você fica enjoada
de ter que cuidar dos
cabelos porque
quando você acorda
você tem que dar uma
ajeitada, e quando
bate essa vontade de
ah estou enjoada, eu
faço o que?
Eu faço trança, aí
acabou com isso!
Turbante, trança, tem
tantas possibilidades
quando você está
cansada de mexer no
cabelo o tempo todo.
Meu nome é Ornélia
Gbohayida eu sou do
Benim, país da África
Ocidental. Felicidade.
Eu fiquei feliz por ter
a oportunidade de
poder falar disso,
porque cabelo não é
só beleza, também
tem toda uma história
por trás, eu espero que
eu possa ajudar muitas
outras mulheres a
poder se empoderar e
a assumir os seus
cabelos.
Mapa 2
Episódio 3 - Thainá
Alisamento como
estratégia de Justificativa para Motivos para
Outros Racismo Incentivo e apoio. Prejuízos sociais Posicionamento
adestramento alisar os cabelos transição
social
. O problema é que
eu fiquei calada, eu
não falei para ela.
Só contei muitos
dias depois que eu
sofria bullying.

isso é bullying,
você não pode

sofria calada, eu
chorava às vezes
escondida
porque... eu tinha
medo até de ir para
a escola, eu fiquei
até um tempo sem
ir para a escola por
causa disso. Eu

nem sabia, não


tinha nem ideia
que isso era
bullying, nem
sabia o nome.
Sabia que era uma
coisa muito errada,
mas não sabia que

Eu sempre gostei
de passar prancha
nele... para alisar,
sabe?! Lavar e
tudo, por causa de
bullying.
Ficavam me
chamando de
cabelo de árvore,
falaram que não
era qualificada por
causa da minha
cor, que eu era
muito feia, que
meu cabelo era
feio, às vezes me
batiam,
ameaçaram cortar
o meu cabelo, uma
vez.
A menina estava

e ela falou assim:


ho que eu vou
cortar o seu cabelo,
o seu cabelo é
muito grande, seu
cabelo é muito
feio, acho que eu

feio, eu vou

que sair correndo


porque ela queria
cortar mesmo, ela
queria cortar de
qualquer jeito, mas
eu falei que não! E
a minha sorte é que
minha mãezinha
chegou e eu fui
embora. Só que eu
fiquei calada,
e quando eu ia com
o cabelo pranchado
para a escola, todo
mundo gostava,

você está muito


mais bonita assim,
você devia usar ele
assim, você está
muito mais bonita

Quando eu lavava,
eu falava:
quero ele
pranchado, não
quero ele mais
enrolado porque
ninguém gosta do
meu cabelo assim,
eu quero ele do
jeito que as

Ela perguntou para

certeza que você


quer alisar o

a
verdade, naquela
hora eu estava
meio insegura, mas

alisar logo, que


assim minha vida
vai ficar melhor,
todo mundo vai me
tratar melhor."

isso que aconteceu,


né?! Eu deixava de
ir em festinha de
piscina e praia, às
vezes, porque o
meu cabelo estava
liso, e quando eu ia
eu não ia para a
água, não
aproveitava nada.
Ficava sentada lá,
sentada fazendo
qualquer coisa
menos indo para a
piscina:

porque o meu
cabelo está liso,
está bonito e eu
não quero molhar
ele se não eu vou
ter que alisar tudo
de novo, eu quero

Aí, quando eu
decidi cortar o
cabelo eu falei:

cortar porque eu
quero ter o meu
cabelo, porque eu
acordei para a

está certo, isso não


está certo, esse não
é o meu cabelo,
essa não é a minha
origem, eu quero
ele do jeito que ele

Acho que essa


decisão foi mais
minha mãe, minha
vó, minha família
toda me apoiou e
falou:
vai ficar bom, faz
Todo
mundo me apoiou.
Ninguém falou:

mundo me apoiou.
Depois que eu
cortei o cabelo,
mudou muita
coisa. Me senti
mais bonita, e mais
livre. A minha
atitude mudou,
minha opinião
mudou, meu jeito
mudou. Me divirto
mais, mais aberta,
extrovertida
...porque antes eu
era muito fechada,
não falava com
ninguém porque
pensava que eles
iam me xingar.
Eles me excluíam,
às vezes, das
coisas, eu não
brincava na escola.
Era muito ruim.
Agora, que eu
mudei de escola eu
tenho muito mais
amigas, amigos
também. Na minha
sala, a maioria
gosta de mim e
fora da escola
também, tenho
bastante amigos. A
maioria delas
quando me viu de
cabelo cortado
falou que eu estava
muito bonita, e o
resto não eram
minhas amigas
porque falou:

cabelo está
diferente, está feio,

Essas aí eram

porque... Eu não
ligo mais para a
opinião dos outros

paz! Vai cuidar da


sua vida, a vida é
minha, eu faço o
que eu quiser do
Eu
cortei ele porque
eu quis, não foi
porque ninguém
mandou, sabe?!
Foi uma opinião
minha, minha
família toda me
apoiou, inclusive.
É bom você ser do
seu jeito, não
deixar levar pela
opinião dos outros.
Se você quer
mudar, muda, mas
não pela opinião
dos outros, pela
sua, entendeu?!
Na escola, tinha
uma menina que
perguntou para
mim:
você não alisa o
Eu

você não deixa o


Eo
cabelo dela não é
natural liso, o
cabelo dela é
natural enrolado.

ela não deixa o


dela enrolado? Por
que ela não deixa o
dela natural?
Como eu deixei o

Para que eu vou


alisar ele de novo?
Eu não vou gostar,
não é o jeito que eu
vou querer ele,
depois de tanto
tempo, não vai
querer fazer isso.
Fica tão bonitinho
assim!
Ah, obrigada.
Gente! Nossa...
gente. Eu amo esse
creme, meu cabelo
ama muito.
Quando acaba eu

gente tem que


comprar outro
porque acaba e eu
não quero jogar o
pote fora,
entendeu? O pote é
bonitinho, o creme
é bom. Ah, gente...
Ah cara, porque
vocês fazem isso
comigo?

Mapa 3
Episódio 4- irmãs Gabriela e Beatriz
Justificativa para alisar
outros Incentivo e apoio. Prejuízos sociais Motivos para transição Posicionamento
os cabelos
- Assim eu vou chorar,
não, foi um foi um luto
complicado pra mim
porque como a Bia era
pequena eu não tive a
oportunidade de ser lá é
chorar muito entendeu.
Apesar de a gente teve a
força da nossa família por
parte de pai foi então
assim com adultos.
A minha mãe morreu a
gente recebeu uma força
assim deles que.
(Gabriela)
- A gente não esperava.
(Beatriz)
- Incrível, foi uma
comoção geral todo
mundo ligava para saber
como a gente tava sabe.
(Gabriela)
morreu depois da minha
tia morreu
É na verdade assim a gente
pode falar que a nossa
transição começou em
2008 pelo de 2012 para
2013 foi um ano muito
turbulento pra gente em
família por parte de mãe
né, a minha avó morreu,
depois minha tia morreu
todos esses eventos foram
fazendo com que o
cuidado com o cabelo
fosse deixado para trás
porque tinha outras coisas
mais importantes do que
você cuidar do cabelo
acontecendo, com a
família em si, né.
(Gabriela)
a minha mãe ficou doente
então tinha um plano a
gente ficaria com meu pai
durante um ano e depois a
gente voltaria então seria
uma coisa que não ia ficar
entendeu a gente não ia
ficar em saber que iria sair
só que as coisas acabaram
acontecendo de um jeito
assim totalmente diferente
do que a gente planejava,
ela já estava doente a
gente foi no hospital numa
segunda-feira, mas
quando foi quarta-feira ela
faleceu entendeu
(Gabriela)
as minhas sobrinhas não
foi nem tanto incentivo ela
vieram pra mim e pra
minha vida num momento
muito difícil delas foi
quase que assim obrigadas
por que elas não tinham
muitas opções que ela
estava passando pelos
problemas na família delas
por parte de mãe e meu
irmão teve que acolher as
filhas, então elas tiveram
mais contato com ele
só quando ela já era o
cabelo muito feio, mas
muito destruído muito
acabado, muito acabado
mesmo, então não foi nem
incentivo
no momento ali eu estava
pensando na aparência
delas em relação à escola,
então vamos cortar, só que
elas resistirão muito, a
Beatriz então nossa
senhora queria matar ela
foi cortar aquele cabelo,
até hoje ela diz que eu
não gosto de tesoura não,
eu só uso a tesoura
quando não tem jeito
mesmo precisa! (tia Luiza)
- Ah gente ela é a dama da
tesoura. (Beatriz)
-não, tô brincando ela fez
algo para o nosso bem tava
muito feio tia, muito
obrigado (Gabriela)
- agora a gente reconhece
mas no tempo, a gente: tia,
pelo amor de Deus
(Beatriz)
- a gente ficou muito mal
quando o cabelo, mas hoje
a gente vê que era preciso,
era preciso passar por isso
entendeu, e ela tem uma
pessoa fenomenal. Uma
nota de agradecimento,
brigado tia. Nós te
amamos, tia. (Beatriz)
- hoje em dia estou com o
cabelo assim que até eu
fico, tá vendo, ficou com

em três meses tem que dar


um cortezinho para
fortalecer o cabelo. (Tia
Luiza)
cabelo acho que o cabelo,
muda tudo isso. (Beatriz)
é, é verdade. (Gabriela)
eu acho que em tudo foi
melhor pra mim, eu acho
que eu não mudei só meu
cabelo, eu mudei o corpo,
mudou tudo (Beatriz)
Muda a autoestima.
(Gabriela)
...então tudo, a
personalidade muda, tudo
mudou para mim então,
foi maravilhoso. (Beatriz)
- Você fica mais autêntica,
porque é diferente né, tipo
assim o nosso cabelo, eu
digo que ele é diferente,
assim uma sociedade tem
dado vários estereótipos
que as pessoas seguem,
em uma sociedade, que é
totalmente padrão, você
tem cabelo louro, liso, isso
influencia no que as
pessoas negras são,
porque a gente acaba
sempre se perdendo, tá
entendendo, porque a
gente não têm a nossa
própria identidade, a gente
tenha identidade que a
sociedade deu pra gente,
impôs, em maioria sim o
pensamento muda, então,
qualquer hora eu me olho:

depois que meu cabelo


começou a crescer e que
ele formou um formato
legal, que aí foi mudando
o pensamento aí ela
começou a me puxar para
esse negócio de
empoderamento, aí eu:
aí foi

eu acho que a transição ela


mexe com você todo, você
por inteiro entendeu? É a
fase que você olha no
espelho e ver que o seu
cabelo realmente está
crescendo, é aquilo que
você é. Essas são as suas
origens e eu vejo muita
gente perdendo, tipo assim

quero um igual a esse, eu

igual ao da Taís Araújo


que é referência para
todos, pra muita gente. Eu
vejo assim, eu vejo como
algo que é que muitas das
vezes tira as pessoas do
foco do que realmente se
assumir, que é natural. Eu
falaria que essa pessoa que
é pra ela amara e cultivar o
cabelo que ela tem, cabelo
dela é o amor se constrói o
cabelo, é um amor que se
constrói, o cabelo, é você
se olhar no espelho:
ca, eu tô bonita pra
caram
mais cultivar o que você
tem. Buscar em você a
beleza. (Gabriela)

Mapa 4
Episódio 5 - Luiza - cabeleireira e tia das irmãs Gabriela e Beatriz
Alisamento como
Justificativa para alisar Efeitos deletérios do
estratégia de Incentivo e apoio. Prejuízos sociais Posicionamento
os cabelos alisamento
adestramento social
Eu queria que esse tempo
que eu estou hoje fosse há
30 anos atrás. Sem
brincadeira. Em relação ao
cabelo eu queria que fosse
há 30 anos atrás.
Hoje, você poder ter a
liberdade de fazer com o
seu cabelo o que você
quer, andar com o seu
cabelo natural, do jeito
que ele é sem ser
apontada.

cabelo dela
ou então encolhe.
Eu alisei o meu cabelo

tudo o que falavam que era


para alisar, para o cabelo
balançar, né?! Para fazer
franjinha, para jogar, para
bater quando o vento do
ônibus batia, eu fazia!
Eu vou falar para você que
verdadeiramente eu acho

uns 20 anos mais ou


menos que é o tempo que
eu estou mesmo na
profissão com cabelo afro
que eu resolvi não fazer
mais nada, então eu
sempre andei careca,
exatamente para mim não
ter trabalho e não ter que
.alisar
porque o que acontece, eu
alisava o cabelo mas de
manhã eu tinha ou que
pranchar ou vinha com
pente quente de manhã.
Tem a raiz, o suor.
Eu transpiro muito. Eu
passava o pente agora de
manhã.
Quando fosse de tarde se
eu tivesse que sair eu tinha
que vir com um pente
quente de novo para fazer
a raiz
eria cortar.

Eu comecei fazendo
chapinha em pente quente,
né?! Que era o auge da
época e depois que eu fui
me aperfeiçoando com
outras coisas porque
porque na época em que
eu comecei até eu mesma
a gente usava cabelo no
henê, pente quente,
chapinha, bobe, marcel,
entendeu?!
Hoje bons anos, mais de
10 anos é que eu fui
conhecer outras coisas,
outras técnicas, aí eu
conheci a trança, aí
comecei a trabalhar com
trança, então eu trançava
os filhos de todo mundo,
tirando as minhas, as
filhas de todo mundo.
Hoje eu estou com ele
curto por um motivo de
doença, que há 2 anos meu
marido faleceu, eu adquiri
uma psoríase e é na
cabeça, então eu estou
sempre cortando por uma
questão de medicação.
Mas eu mesmo assim eu
passo uma
hidrataçãozinha, não pinto
natural,
natural mesmo. Natural
mesmo, e eu falo muito
com os meus clientes de
verdade. Gente, assume o
que é o cabelo, o que é o
cabelo.
Hoje eu nem falo tanto de
química com cliente eu
falo para eles:
vamos para a transição?!"

trança,
alguma coisa, usa
turbante, corta bem

falo para os meus clientes


que o cabelo tem vida. O
cabelo precisa ser
alimentado. Então como
você pode alimentar ele?
Com a hidratação, que
antigamente era
massagem, né?!
E você tem várias opções.
Você não precisa estar
necessariamente química
para alisar o cabelo.
Acho que hoje em dia não
funciona, não. Hoje você
tem um cabelo crespo,
natural e o seu cabelo tem
movimento, que é muito
melhor. Eu acho que é
muito melhor.
Pelo menos eu acho que é
muito melhor do que
aquele cabelo certinho, ah
não, sou mais o cabelo de
hoje em dia, muito
melhor. Eu acredito que,

Eu acho que a sociedade é


que, que pedia isso,
porque é igual o gordo,
vamos falar, né?! O gordo.
A sociedade diz que você
tem que ser magra, e
naquela época, você tinha
que ter o cabelo liso, então
você era obrigada a usar
química.
Agora, você até usa
química para cachear, né?!
Mas há alguns anos atrás
você usava química para
alisar, você usava era soda
cáustica no cabelo, porque
o cabelo tinha que ficar
liso, verdadeiramente liso.
Hoje você não tem esse
problema. Está chovendo?
Tem problema não, vou
sair sem guarda-chuva do
mesmo jeito porque o
máximo que vai acontecer
com o meu cabelo é
diminuir o volume dele
porque ele não vai
encolher.
A água vai entrar porque
eu passei muito por isso,
não só eu como irmãos,
primos, né?!
Eu tenho 52 anos. Há 30
anos atrás. Ah eu acho que
a perseguição era muito
maior do que hoje.
Eu não gostava, eu tenho
pavor de henê, eu tinha
pavor, quando a minha
mãe cozinhava aquilo para
passar no meu cabelo era o
fim do mundo porque o
meu henê ainda era aquele
que cozinhava não era
nem o de gelzinho era
aquele que cozinhava.
Aquilo era o fim do
mundo para mim. Me dava
vontade de fugir mas não

meio das pernas e vamos


passar henê e fica não sei
quantas horas e aquilo
escorre. E eu nunca gostei.
( fala das sobrinhas) - Ela
é a grande inspiração e
tudo.
- É, ela é a grande
incentivadora da gente.
Ela é a nossa mãe agora. A
gente perdeu uma, mas
ganhou outra.

Mapa 5
Episódio 7- Liah
Alisamento como
estratégia de Justificativa para Efeitos deletérios Motivos para
Outros Incentivo e apoio. Prejuízos sociais Posicionamento
adestramento alisar os cabelos do alisamento Transição
social
Eu acho que a
minha vida foi
muito marcada por
perdas. Eu perdi
meu avô fez um
mês, há uns dias. E
meu avô e minha
avó que me
criaram. Então eu
perdi minha avó e
esses dias perdi o
meu avô. E eu
perdi muito cabelo
também. Então a
minha vida foi
muito isso de
perdas. E foi com
elas que eu
construí o meu eu,
sabe?
Eu acho que a
minha vida foi
muito marcada por
perdas. Eu perdi
meu fez um
mês, há uns dias.
E meu avô e minha
avó que me
criaram. Então eu
perdi minha avó e
esses dias perdi o
meu avô. E eu
perdi muito cabelo
também. Então a
minha vida foi
muito isso de
perdas. E foi com
elas que eu
construí o meu eu,
sabe?
Foi por causa de
uma perda, da
morte da minha
avó que eu
comecei minha
transição.
Desde que eu me
entendo por gente
eu aliso o cabelo.
Eu fazia
alisamento mesmo
com escova,
alisamento. Depois
de um tempo que
minha mãe viu que
não estava dando
certo a gente
começou a fazer
relaxamento. Com
um tempo também
começou a não dar
certo. Eu comecei
a ter o cabelo
muito curto, eu
sempre andava de
cabelo curto.
Todas as minhas
amigas jogando
cachos ao vento e
eu careca. Sempre!
E com o tempo
queria mudar isso.
Eu não queria mais
ser careca.
E deixei o cabelo
crescer e comecei a
fazer permanente.
Só que como todas
as outras coisas,
não aguentou. O
cabelo caiu de
novo.
Eu acabei me
acostumando, eu
acho, a ter cabelo
curto. Tanto que
hoje com o meu
cabelo eu ainda
tenho o cabelo
curto. Então é
porque foi
costume. Eu
alisava, caía, aí eu:

Alisava, caia aí eu
fui me sabotando,
Aceitando como se
o meu cabelo
tivesse que ser
curto e só!
Eu acho que
porque a minha
família por parte
de mãe
principalmente
tem a maioria
negra.
E todas as minhas
tias, a minha mãe,
a minha avó,
todo mundo
alisava o cabelo e
acho que é para
seguir um padrão.
Se eu não tivesse
me aceitado eu
também alisaria o
cabelo da minha
filha.
Foi hereditário,
sabe?
Ninguém ia se
aceitando e elas
iam alisando o
cabelo e perdendo
esse cabelo e

Ok você ter um
cabelo longo e de
repente ficar
careca, sabe? Elas
aceitavam isso e
bola para frente
porque nós temos
que alisar o cabelo
crespo porque sim!
Eu perdi minha
avó, minha avó
teve um Alzheimer
e eu perdi a minha
avó.
E eu acho que foi
muito isso, sabe?
Eu me olhava no
espelho eu via uma
pessoa assim
arrasada, Cansada.
Por tudo!
Minha avó sofreu
muito.
É uma doença que
a família toda ao
redor adoece.
Então eu acho que
isso fez...
Muita diferença na
hora da minha
transição porque
eu queria ver outra
pessoa.
Eu olhava no
espelho e via uma
pessoa triste,
acabada, com um
cabelo feio. E aí eu
fui, fiz a transição e
nossa cacho, eu
vou ter cacho.
Eu estou

porque quando eu
tirar a minha trança
eu vou ter cacho.
Quando eu tirei as
tranças eu olhei
para o meu cabelo
e falei:

Eu não tenho
cacho, sabe?!
cabelo é crespo.
O que eu vou fazer
agora?
Não vou voltar a
relaxar.
Coloquei trança de
novo!

tirar a trança ele

ou eu aceito o meu
cabelo, eu me
aceito. Porque eu
nasci com o cabelo
assim.
Ou eu aliso de
novo e eu não
quero voltar a
alisar depois de ter
ficado meses de
trança, investido
um dinheiro nisso
eu não quero voltar

No começo eu
ainda não sabia
muito cuidar do
cabelo. Ainda não
tinha muitas
blogueiras com o
cabelo crespo.
Entendeu?
Então eu não sabia
muito bem cuidar
ainda. Eu balancei.
Se te falar que não
vou estar
mentindo. Eu
balancei! Mas...
Eu consegui.
Me mantive firme.
Hoje eu não me
arrependo, sabe?
Foram momentos
de muito...
Nossa, eu tirei a
trança eu chorava,
me acabava de
chorar:

Não tenho cachos!


Quero ser igual a

Foi doído, mas


depois que eu falei
não vamos crescer
e é isso!
O que a gente faz
nunca está bom!
Sabe?
Você pode ter a
melhor roupa, você
pode andar com o
melhor sapato, mas
o seu cabelo não
está ok! Você pode
ter um cabelo
maravilhoso, uma
maquiagem
maravilhosa, mas a
sua roupa não está
ok! A gente é
sempre
questionada por
quem a gente é.
Seja lá o que nós
formos, a gente
está sempre sendo
questionado por
tudo!
Seja pela nossa
cor, pela nossa
sexualidade, pelo
nosso trabalho,
pelo nosso serviço,
pelos nossos

A gente está o
tempo todo sendo
questionado por
outras pessoas.
Então é
importante. Eu
digo para essas
pessoas que elas
não deixem.
Façam o que o
coração delas está
mandando.
Não deixem que
comentários
negativos
influenciem. Se
foca nos
comentários
positivos nem que
se tiver cem
negativos e um
positivo.
Se segura naquele.
Segura nos
comentários
positivos porque às
vezes as pessoas
gente para baixo a
troco de nada.
Então é importante
a gente se impor
porque eu acho que
o cabelo crespo é
uma forma de
expressão.
Meu cabelo é a
minha expressão.
Então, assim, é
muito importante a
gente se impor.
E não ligar de
forma alguma
para o que as
pessoas falam.
Porque nós
estamos
constantemente
sendo
questionadas.
Então se nós
formos nos prender
nisso, a gente não
faz nada, nada da
nossa vida.
Então eu quero
ajudar as pessoas
com isso.
Eu quero que a
minha história
possa mudar a vida
de alguém, ou
somente mudar o
dia de alguém, ou
somente mudar o
momento de
alguém, ou
somente mudar
a cara de alguém.
Quero que a minha
história possa pôr
um sorriso no rosto
de alguém, sabe?
De alguém que às
vezes está na
mesma situação
que eu.
De alguém que às
vezes está em
uma situação pior
que a minha.
Estou tão feliz,
nossa! Hoje é o dia
mais legal da
minha vida!

Mapa 6
Episódio 8- Alessandra e Martinha
Alisamento
como Justificativa Efeitos Motivos
Incentivo e Prejuízos
Outros Racismo estratégia de para alisar os deletérios do para Posicionamento
apoio. sociais
adestramento cabelos alisamento Transição
social
- Eu sou eu!
(Martinha)
- Às vezes agora
passa até batom.
(Alessandra)
- Passo batom,
me maquio, não
gostava de nada
disso.
(Martinha)
- Ela mudou
muito, agora ela
compra batom.
Quer que eu
maquio ela.
Ela ficou até
mais vaidosa.
(Alessandra)
- Eu costumo
dizer assim: que
a Alessandra
nasceu, assim
(Martinha)
Ela foi um
presente porque
ela me trouxe
assim, essa coisa,
a vida. Ela veio
com tudo. E a
gente sempre foi o
modelo dela.
(Martinha)
A minha mãe,
ela tem o cabelo
crespo. E o meu
pai, ele é neto de
índio, então o
cabelo do meu
pai é bem liso.
E quando eu era
criança eu não
entendia porque
eu tinha puxado
o cabelo da
minha mãe
e não o do meu
pai.
Então sempre o
meu sonho era
ter o cabelo liso
de franjinha
igual índia
porque eu queria
muito ter o
cabelo igual do
meu pai
Daí eu comecei
a fazer química.
(Alessandra)
Aí a gente ia até
o salão para
fazer relaxante,
a minha mãe
nunca deixou eu
passar
progressiva.
Nem essas
coisas para
alisar de fato.
Ficar liso. Mas
aí ela deixava
fazer relaxante
durante. Eu fiz
muito tempo em
um salão, ela me
levava. Aí
depois eu
comecei a fazer
em casa, eu
mesma fazia.
(Alessandra)
E quando eu tive
o meu filho eu
tive reação a
anestesia. Daí o
meu cabelo
começou a cair.
Aí o médico
falou:
parar de passar o
alisante, o
relaxante ou
você vai ficar
sem cabelo

eu vou fazer
com o meu
Foi um
desespero no
começo porque
eu não sabia o
que eu ia fazer.
E eu nem sabia o
que era
transição. Nem
sabia que eu
estava passando
por esse
momento. Aí eu
fiquei lá
segurando um
tempo sem
passar nada. E
sem cortar
também. Aí eu
ficava com
metade do
cabelo
cacheado. E a
outra metade
com relaxante.
E depois eu
decidi cortar. Eu
cortei bem
baixinho, bem
Joãozinho
mesmo.
(Alessandra)
Aí teve uma
época que eu
conheci as
youtubers. Aí eu

então eu estou
nessa fase. Vou

Eu já estou uns 4
anos sem passar
relaxante.
Só cuidando
mesmo dando
hidratação.
Fazendo fitagem
para ele ficar
bem do jeito que
eu gosto. Eu não
imaginava que o
meu cabelo ia
fazer o cacho
que ele faz hoje.
Então quando eu
vi que ele
começou a
crescer, eu parei
de passar o
relaxante. E ele
começou a fazer
uns cachinhos
tão
pequeninhos,
tão bonitinhos.

que lindo, nem


sabia que esse
(Alessandra)
Na minha época
de criança, não
tinha o que as
mães agora vão
no salão levar o
filho, né.
Para fazer corte,
fazer modelo,
para fazer isso,
fazer aquilo.
No meu tempo a
minha mãe
fazia hidratação
com Aloe vera.
Aquele osso que

né?!
A hidratação era
essa. E era
trança. A cada
semana a minha
mãe fazia um
modelo de
trança.
(Martinha)
Eu ia a semana
toda para o
colégio com
aquelas duas
laçarotes de fita,
né? E aí as
crianças riam.
Eles riem, né?
(Martinha)
Quando eu fiz
14 anos que eu
fui para o meu
primeiro
emprego, a
primeira coisa
que eu fiz foi
entrar em uma
casa de alisar o
cabelo.
Quando eu
engravidei dela
eu olhei um
panfleto e falei:

entrou com
um cabelo igual
o meu e saiu
com um cabelo
bonito. Eu vou

Quando eu

A moça disse:

vamos ter que


cortar as pontas
para passar o

pontas? Eu saí
de lá sem
cabelo. Ela foi
cortando, foi
cortando.
(Martinha)

Quando eu
ganhei a
Alessandra ele
estava bem
black.
Mas naquela
época, assim,
a gente andava
com um black
e todo mundo
achava assim,
assado, né?!

não passa um
negócio nesse

Aí eu falava:

não posso. Eu
estou

(Martinha)
É, eu dou muita
força para ela
porque assim.
Eu sinto que por
essa diferença
mesmo de idade,
de épocas, a
geração dela
sofreu muito
esse preconceito
de assumir o seu
cabelo e de:

E não, é crespo,
e é assim, é
bonito assim.
Então para ela
enxergar que o
cabelo dela é
bonito foi muito
difícil. Foi muita
conversa, muita
briga mesmo, de

quero mais falar


com a senhora
sobre esse

você quiser,

Para ela hoje


ver: não meu
cabelo é bonito,
eu me aceito. Eu
sou linda assim
desse
jeito, entendeu?!
(Alessandra)
Agora o meu
cabelo caiu de
novo, vai
acontecer a
mesma coisa.
Não aconteceu
porque eu falei:

Martinha de antes
eu até estaria
preocupada com
isso, mas agora
não. Eu sei quem
sou e o que eu
quero ser. Eu
estou assim e não
vou me importar!
Eu vou colocar
uma argola e vou
sair com a minha
cabeça careca.
E não quero nem
saber quem
está falando e
quem não está.
O cabelo é meu,
eu sou eu e não
estou me
importando com

(Martinha)
É um
autoconhecimento
. Quando o seu
cabelo vai
crescendo não
muda só o seu
cabelo.
Eu mudei o meu
jeito de me vestir,
o meu jeito de me
impor, sabe? Eu
mudei totalmente
depois que eu
assumi o meu
cabelo. Eu sou
uma outra
Alessandra do que
eu era há 3 anos
atrás com o cabelo
relaxado.
O meu filho, ele
adora o cabelo
dele. Se você fala

Às vezes tem que


cortar porque está
muito grande e ele
sente muito calor.
Nossa, ele chora.

gosto do meu
cabelo black
Ele fala.
Ele adora.
(Alessandra)

Mapa 7
Episódio 2 - segunda temporada - Simone
Alisamento
como Justificativa Efeitos
Incentivo e Prejuízos Motivos para
Outros Racismo estratégia de para alisar os deletérios do Posicionamento
apoio. sociais Transição
adestramento cabelos alisamento
social
Não criticando,
mas você vê
uma pessoa que
está usando
que está
presa à química,
que está com o
cabelo, ali,
ralinho, caindo,
aí você quer
falar:
deixa o seu
cabelo crescer, é
tão bonito, seu
cabelo é tão

Foi mais, assim,


na fase da
escola, né!?
Aonde você
ouve que você
tem cabelo
duro... que o seu
cabelo é feio,
que o seu cabelo
é ruim.
e você tem
você
acaba alisando.
Conhecendo a
química para
você ser aceita,
para todos os
seus amigos,
seus
coleguinhas da
época te
aceitarem.
Então, não foi
nem tanto a
minha família.
Eu acho que eu
tinha... uns 10,
11 anos, por
que eu
conheci a
química.
E a primeira vez
que eu coloquei
a química, eu
achava que meu
cabelo iria ser
daquele jeito,
andava
balançando o
cabelo para lá e
para cá, parecia
uma borboleta,
Era a neguinha
do cabelo duro.
Qualquer
música que
falava, na época,

as pessoas já
apontavam,
cantavam para
você também
aquela música.
Eu acho que eu
tinha uns 10, 11

que eu conheci a
química. E a
primeira vez que
eu coloquei a
química, eu
achava que meu
cabelo iria ser
daquele jeito,
andava
balançando o
cabelo para lá e
para cá, parecia
uma borboleta,
até você ver que
não é bem
aquilo, né!?
Porque começou
a quebrar,
começou a cair,
comecei a ter
alergia. E,
mesmo assim,
eu teimava
porque eu queria
meu cabelo liso
para ser aceito
pela sociedade,
porque eu
achava que
cabelo liso
abria as portas
e cabelo

Cabelo crespo
não.
Quando eu
trabalhava. Eu
trabalhei em
uma área
também...
que o meu
gerente falava
para sempre
fazer escova no
meu cabelo
porque o meu
cabelo estava
feio. Então eu
passei por tudo
isso aí
Aí, toda semana,
assim, eu fazia
escova numa
segunda-feira
para ficar a
semana todinha
com o cabelo
liso e, na outra
segunda, eu
fazia de novo
escova para

não ter o meu


cabelo, né?
Porque eu
trabalhava com
o público, então

O meu cabelo
crespo, naquela
época, não era
muito bem
aceito.
A transição
começou
quando eu usei
uma química
muito forte no
meu cabelo
e eu comecei a
sentir falta de ar,
meu cabelo
começou a
arder, a coçar e
eu fui parar no
médico.
Aí, chegou lá, o
médico falou
que eu tinha tido
uma reação
muito forte, uma
alergia muito
forte à química.
E que eu poderia
ter morrido.
E eu comecei
a sentir falta de
ar, a minha
cabeça parecia
que estava
pegando fogo. E
quando eu vi
que eu estava
sem respirar,
o coração estava
com aquele
batimento
cardíaco, aí eu
resolvi ir no
médico.
Aí quando o
médico olhou
o meu coro
cabeludo, viu
meu cabelo

ele falou que eu


estava tendo
uma reação
alérgica muito
forte e que se eu
não tivesse
corrido a

eu talvez teria
morrido.
Eu poderia ter
morrido
essa
reação alérgica
foi muito forte
na minha
cabeça. Ele
falou: ou eu
parava ou eu
morria. E da
próxima vez que
eu passasse essa
química talvez
não daria mais
tempo de eu
correr, porque a
reação alérgica
foi muito forte.
Aí eu tive que
tomar
medicamento na
veia, tive que
ficar em
observação.
eu mesma tive
que chegar
quase à beira da
morte para me
descobrir e para
me fazer voltar
àquela Simone
que eu tinha
deixado na
infância.
E hoje eu me
encontrei com
ela
e eu não quero
nunca mais
largar dela.
A minha filha
mesmo passou
por um
momento triste
na escola, por
causa do cabelo
cacheado dela, e
eu comecei a
conversar com
ela e hoje ela
ama o cabelo
dela. Por quê?
Porque ela tem
eu como
exemplo. E
quando ela fala

minhas amigas
da escola falam
que você é linda,
que o seu cabelo
Então,
aquilo, eu vejo
que está
refletindo até
nas amiguinhas
dela.
E ela se sente
orgulhosa em
ver que a mãe
dela está com o
cabelo natural e
eu também
sempre motivo
ela a ficar com o
cabelo dela
natural.
Você se torna
referência para
as outras
pessoas, para
quem está
começando na
transição
mesmo, para
quem está na
dúvida.
Você se torna
referência, você
se torna
inspiração.
Espero que o
crescimento
da minha filha, o
mundo dela, seja
diferente do
meu.
Porque no meu,
eu tive que
adaptar, tentar
me adaptar
àquilo que a
sociedade
queria: o cabelo
liso sem eu ter o
cabelo liso,
sendo que o meu
cabelo é crespo.
Eu espero que a
minha filha, que
no futuro dela,
seja diferente,
que ela possa ser
aceita, que ela
não precise
passar nem por
um processo
químico para
que outras
pessoas possam
abrir as portas
para ela, dar
oportunidade
para ela, para
que ela possa se
sentir amada.
Porque... eu não
desejo para a
minha filha o
que eu passei. A
verdade é essa.
Que ela não
precise passar
pelo pente
quente, que ela
não precise
passar pela
trança. Porque
marca, né!?
Marca a nossa
infância.
E aqui é eu com
química
também, a época
em que eu usava
química
também, que eu
achava que esse
cabelo iria durar
por toda a vida.
E aqui eu estava
careca. Eu
colocava
metade
do meu

careca e a outra
metade tinha um
pouquinho de
cabelo ainda,
porque eu
tentava

nem parece que


era eu antes.
Hoje eu falo:

como eu estava
me

Na verdade, eu
acho que eu
estava
escondida.
Já usei

nutrição para o
Gente,
muito obrigada,
viu!? Que Deus
abençoe vocês,
tá!?
E hoje eu me
sinto assim, que
nem eu estou
aqui: uma
princesa... linda
e empoderada.

Mapa 8
Episódio 5 - segunda temporada - Márcia
Incentivo e Justificativa para Efeitos deletérios Motivos para
Outros Racismo Prejuízos sociais Posicionamento
apoio. alisar os cabelos do alisamento Transição
Eu me lembro que
eu não tinha
amizade na escola.
Eu tinha uma
única amiga, que
era negra,
e que tinha o
cabelo crespo
igual o meu
porque as crianças
não
queriam brincar
com a gente.
Na saída da escola,
se as nossas mães
não estivessem
esperando a gente
do outro
lado da rua, a
galera vinha para

bater na gente.
Uma ajudava a
outra, sempre,
assim na hora de ir
embora.
Eu tinha um...
Meu cabelo era um
blackzinho, né?! E
a minha mãe fazia
vários coques
que tem um nome
difícil hoje que eu
não sei falar,
que faz aqueles
coquezinhos e
prende com as
xuxinhas e minha
mãe prendia com
as xuxinhas todas
coloridas.
Vermelho,
amarelo, era tudo
coloridinho. Mas
isso era para
separar, para
dividir para o
cabelo não
embaraçar e ficar
mais fácil para
poder ir para a
escola a semana
toda.
Eu vim entender
isso hoje, né?
Depois que eu
virei mãe que
eu entendi que era
isso.
Eu sempre fui
muito tímida,
não gostava de
conversar.
E isso me causou
travas por muito
tempo.
Falar, passar em
lugares onde
tinham muitas

cheio de gente ali,


eu vou dar a

vou passar por ali


porque vão rir de
Então, isso
é uma coisa que
fica, né?! Você
passou por isso na
infância, quando
criança, e aí
quando você vai...
andar nos lugares
era isso.
Eu lembro que
tinha um
casamento de uma
prima minha, a
Tânia, e minha
mãe me levou para
alisar o cabelo. Eu
era nova. Era bem
nova. Não tinha
mais que 10 anos.
Era uma pasta
verde que derretia
até pote de
plástico, eu não
vou lembrar o
nome, mas era um
negócio fedido, e
dependendo da
onde você
colocava, o
recipiente derretia.
Eu lembro que ela
aplicava e
assoprava porque
queimava.
Ela tinha que
passar e assoprar.
E quando ela
terminou o
procedimento, que
ela lavou o cabelo,
deu ferida no
couro cabeludo.
Eu era muito nova.
Fiquei feliz da
vida. Um cabelo
lisinho.
Meu cabelo era
grande. Era
enorme. Tomei
banho, molhei o
cabelo, o cabelo
voltou. Então,
existia essa coisa
de você não
entender. Pera lá,
tem que ficar
assim fica bonito,
mas se molhar não
pode molhar
porque vai voltar
ao normal. Foi
essa parte que
acabou levando
para a vida. Você
precisa sempre
andar com um
cabelo liso.
Com três crianças
para cuidar, sem
saber o que fazer,
com uma mãe
doente, com um
irmão menor... e
tendo que arcar
com várias coisas
na vida. Seguimos
alisando os
cabelos, passando
por todas as
situações da vida,
né? E vamos que
vamos.

agora eu vou

cara para ir na
minha casa para
cortar o meu
cabelo. Ele cortou,
acho que uns três
dedos.
não vou cortar
consigo cortar
ma
E aí, ficou aqui. E
aí, nisso, eu já
estava namorando
com o meu esposo.
E aí ele conversa
muito comigo.
Mas a gente vai
casar no civil, e eu

cortar o cabelo,
né?

vamos fazer
trança". "A gente
faz trança, aí pega
o cabelo que
sobrou..." "... corta
e fica de trança,
está tudo certo."
"Está tudo certo,
então tá, vamos

trançou o cabelo,
cortou o restante
do cabelo liso,
fez as tranças,
está tudo ok.
A gente casou no

foi para a lua de

Trindade, Paraty,
moto. Muita
aventura. E
quando chegou em
casa aquilo me
incomodava
muito. Eu não sei
se por conta da

cria uma
sensibilidade no
couro cabeludo. E
as tranças, elas
puxam bastante.
E eu tenho uma
sensibilidade,
assim, muito forte.
E, como puxou
muito, aquilo
começou a me
incomodar. Mais a
areia da praia.
Então isso
começou a coçar
muito. Eu falava:

aguento mais ficar


com isso na
eu

Como é que eu
vou tirar essas

Aí ele falou:
incomodando,

nos
pés da cama.
E ele foi tirando as
tranças e cortando
o cabelo.
Foi cortando,
tirando as tranças.
Aí quando ele
tirou eu colocava
a mão assim, não
tinha cabelo
porque cortou,
acho que ficaram
uns 2 ou 3 dedos
de cabelo, assim.
E aí ele falou:
r, você está

espelho como

Aí eu peguei e fui
para o banheiro.
Quando você olha
para o espelho,
você olha para
uma pessoa que
não é você.

Você está
acostumada a se
ver de um jeito,
você olha no
vai aprender a

comecei a usar
lenço para
esconder esse
cabelo, por que?
Para esconder o
cabelo porque eu
ainda não aceitava.
Então, eu queria
procurar adornos.
Só não sabia
como. Mas, eu não
sabia que estava
nascendo uma
nova pessoa ali.
Hoje... eu ministro
oficina de
turbante, por conta
da minha transição
porque eu aprendi
a amarrar lenço e
eu não fiquei
contente com
aquilo. Eu falei:

E aí eu fui
buscando e vi que
tinha amarrações
de turbante.

que se usa para

E aí eu descobri
que eu usava para
me esconder, e
depois eu descobri
que
eu usava para me
aceitar e depois eu
descobri que
eu estava usando
aquilo para ensinar
as pessoas a se
aceitarem.
Então, assim, foi
um processo de
aprendizado e
depois de
ensinamento.
Esse aqui, olha.
Coco do início ao
fim. E para quem
não tinha nada
para usar no
cabelo, agora
reclama que tem
coisas demais,
né?!
Porque se você
passa por tudo
isso e guarda só
para você, como
que você vai
alcançar o outro?

Mapa 9
Episódio 8 - segunda temporada - Jéssica
Alisamento
como Justificativa Efeitos
Incentivo e Prejuízos Motivos para
Outros Racismo estratégia de para alisar os deletérios do Posicionamento
apoio. sociais Transição
adestramento cabelos alisamento
social
Nos meus 14
para 15 anos,
eu comecei a
escutar uns
comentários
mais pesados de
uns professores.
E eu tinha feito
relaxamento na
época. Ele
soltou muito os
cachos, ficou
bem volumoso.
Aí eu lembro
que, nossa, foi
terrível, o
professor
falando: Ah esse
cabelo aí de

Aqueles
comentários
Eu me
incomodava
bastante.
Eu perdi minha
mãe muito cedo,
né?! Eu perdi
minha mãe com
uns 6, 7...acho
que foi
praticamente na
mesma época.
Meu pai foi
morar com a
minha madrasta,
e para ficar mais
fácil de pentear
o cabelo,
começou com
aqueles
relaxamentos de
criança.
mas que na
realidade hoje
eu sei que só
ficava pior. O
cabelo ficava
mais ressecado,
né? Doía mais
para pentear.
Mas eu comecei
bem novinha
mesmo. Eu
escutava muito
da minha
madrasta, das

ouvia que eu
tinha que
arrumar um
namorado de
cabelo liso,
branco, para
poder salvar a
família porque o
meu cabelo era
muito ruim,
muito duro.
Então não era
justo eu ter uma
criança, eu ter
um filho com o
cabelo igual o
meu. Então eu
tinha que
arrumar um
marido de
cabelo liso para
poder salvar.
Era sempre
esses
comentários
assim.
Ah, eu gastava
horas, horas
para arrumar.
Às vezes eu
deixava de sair
porque tinha
que arrumar o
cabelo.
Acordava muito
mais cedo para
poder escovar o
cabelo. Eu tinha
que ter uma
rotina. Era bem
extensa.
Eu precisava
tirar a carteira de
trabalho, e
precisava tirar
uma foto. E,
nesse dia, meu
cabelo não
estava ficando
bom. Não estava
conseguindo
arrumar. Eu
tinha tido um
corte químico.
Eu perdi muito
cabelo. Porque
eu queria ter
cabelo colorido,
eu queria ter
cabelo liso. Eu
tinha todas as
químicas
possíveis. E aí
caiu. E eu fiquei,
Com
uns cabelinhos
bem perdidos na
cabeça, liso. E
chegou uma
hora que eu fui
arrumar e não
estava dando
certo. Já estava
atrasada. E aí
peguei a tesoura
na frente do
espelh
cortei tudo! Aí
fui tirar foto.
Tanto que na
foto da carteira
de trabalho, eu
estou com uma
cara bem
estranha porque
eu ainda estava
me
reconhecendo
com aquele
cabelo curto.
Porque foi bem
na hora. Eu
cortei o cabelo e
saí. Aí depois
eu fui em uma
amiga e pedi pra
ela arrumar.
Mas... eu cortei
sozinha.
Eu falo para todo
mundo que não
tem sensação
melhor do que
você entrar dentro
do banheiro, ligar
o chuveiro e
molhar o cabelo.
Não tem sensação
melhor do que
essa.
Eu acho que o meu
momento de
liberdade, que eu
senti quando eu
cortei o cabelo foi
nessa hora.
Hoje, a gente
tem muito mais
referências de
mulheres com
cabelo crespo,
do que há alguns
anos atrás. Até
mesmo
colorido. Eu
senti um pouco
isso quando eu
deixei crespo e
comecei a
pintar, até de cor
de rosa, mesmo.
Eu procurava
referências e
não tinha. Hoje,
tem muitas
referências.
Hoje eu me sinto
muito mais
confiante, com a
textura do meu
cabelo, com a cor
do jeito que eu sou
hoje. Eu deixava
que as opiniões
das pessoas
fossem mais fortes
em cima de mim,
do que hoje. Hoje,
não. Eu me olho
no espelho e me
sinto bonita assim.
Eu acho que isso é
a coisa mais
importante: você
se olhar no
espelho e se sentir
bem. Essa é de
uma das primeiras
transições, acho
que foi quando
ficou bem mais
curto, e eu
comecei nessa
fase de me
reconhecer como
negra, de gostar
dos meus traços,
da minha cor. De
começar a buscar
as referências.
Ah, eu vou
começar a
chorar! Não vou
conseguir falar.
Essa, acho que
foi a segunda
transição que eu
fiz para ficar
nesse
comprimento.
Eu cortei o
cabelo mais
curto porque eu
queria ficar
parecida com a
minha mãe.
Eu tinha umas
fotos dela de
cabelo mais

E aí eu estava
passando por
uma fase difícil,
e a maneira
mais, assim, que
eu me sentia
mais próxima de
ficar perto dela,
assim, de pegar
um pouco da
força, da
personalidade
forte que ela
tinha foi
cortando o meu
cabelo e me
olhando no
espelho, e me
sentindo como
ela, tanto que...
acho que uns 3
meses depois
dessa foto, eu...
viajei para a
cidade dela, para
a Bahia,
e era engraçado
porque todo
mundo que me
via falava:

está parecida

E eu achava isso
um máximo
porque era
justamente o que

que parecesse
mesmo.
E é isso!
Acho que foram as
fotos que mais

grandes partes
da minha vida,
desde quando eu
comecei a me
reconhecer como
negra, e até hoje.
Porque o meu
cabelo e a cor, ela
não muda, não
muda nada no meu
caráter e naquilo
que eu sou. Tanto
com a família,
com amigos,
profissionalmente,
isso não muda
nada. Hoje as
pessoas me
respeitam!
Ai, meu Deus!
Tanta coisa.
Nossa, vai
salvar o meu
cabelo. Eu sou a
Jéssica, eu tenho
24 anos, sou da
zona leste de
São Paulo,
moro no Itaim
Paulista.
Sempre vivia de
trança, aquela
luta para
pentear.
A relação com
o meu cabelo,
acho que é igual
a toda criança
negra que tem o
cabelo crespo.

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