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SUPERACUMULAÇÃO E COLAPSO DO

CAPITALISMO NO BRASIL EM RETROSPECTIVA


Revista do Programa de Pós-Graduação
em Geografia e do Departamento de
Geografia da UFES Superacumulación y colapso del capitalismo en Brasil en retro-
Janeiro-Junho, 2019 spección
ISSN 2175-3709
Over-accumulation and Capitalism Collapse within Brazil in
Review

RESUMO

Não podemos buscar as causas da recente crise brasileira em “fa-


tores internos”, dado que a economia “nacional” está integrada à
economia mundial desde o seu processo de modernização indus-
trial. Numa avaliação retrospectiva, que vai da crise do chamado
“neodesenvolvimentismo” à crise do “milagre econômico”, nosso
objetivo principal é apontar para a conexão íntima do Brasil com a
economia mundial, indicando que a crise atual é parte do próprio
fracasso da modernização econômica brasileira, que por sua vez é
integrante da crise estrutural do capitalismo.
Palavras-chave: capital global, crise estrutural do capitalismo,
capital fictício.

RESUMEN

Las causas de la reciente crisis brasileña no pueden ser buscadas en


“factores internos”, dado que la economía “nacional” está integrada
a la economía mundial desde su proceso de modernización. En
una interpretación retrospectiva, que va de la crisis del llamado
“neodesenvolvimentismo” a la crisis del “milagro económico”,
nuestro objetivo principal es apuntar a la conexión íntima de Brasil
con la economía mundial, indicando que la crisis actual es parte
del propio fracaso de la modernización económica brasileña, que a
su vez es integrante de la crisis estructural del capitalismo.
Palabras-clave: capital global, crisis estructural del capitalismo,
capital fictício.

ABSTRACT
Maurilio Lima Botelho
Professor Associado de Geografia The causes of the recent Brazilian crisis can not be search in “in-
Urbana da Universidade Federal
Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)
ternal factors”, since the “national” economy has been integrated
maurilio_botelho@oi.com.br into the world economy since its modernization process. In a ret-
rospective evaluation, which goes from the crisis of the so-called
Artigo recebido em: “neodevelopment” to the crisis of “economic miracle”, our main
18/01/2019 objective is to emphasize to Brazil’s intimate connection with the
Artigo publicado em: world economy, indicating that the current crisis is part of the fail-
26/01/2019 ure of economic modernization Brazilian, which in turn is part of
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the structural crisis of capitalism.


Keywords: global capital, structural crisis of capitalism, fictitious
capital.

Introdução ricana”, estariam sendo desper-


O pensamento econômico diçadas. Teria sido possível evi-
costumeiramente procura as tar a crise que se abateu sobre o
causas de uma crise em “moti- Brasil na ocasião e as causas de
vos nacionais” e em “erros polí- sua irrupção foram basicamente
ticos”. Com isso se juntam dois internas – esse é o julgamento
ideologemas da economia de quase unânime.
mercado: não faltam oportuni- Este artigo é dividido em três
dades para o crescimento econô- partes. A primeira analisa essa
mico e, se essas potencialidades crise recente a partir de alguns
não são exploradas, a culpa é de de seus principais indicadores
determinados indivíduos que, para apontar a profundidade do
com suas escolhas, estabelece- problema econômico brasilei-
ram caminhos equivocados para ro. A partir dessas informações,
toda uma nação. O otimismo na segunda parte buscamos de-
diante das perspectivas objeti- monstrar que as causas mais
vas da economia, não importa as profundas da crise “atual” da
circunstâncias, e a origem sub- economia nacional são as con-
jetiva das dificuldades enfrenta- tradições de um capitalismo su-
das são, entretanto, um mesmo perprodutivo, isto é, o problema
e único princípio reificado: o estrutural da superacumulação
inevitável progresso das forças de capital temperado com as pe-
econômicas só não é desfrutado culiaridades de nossa condição
por uma vontade equivocada. periférica. Por fim, levamos essa
Desde 2015, quando os ín- discussão teórica para um fundo
dices econômicos brasileiros histórico de longo prazo, de-
se afundaram, esse mecanismo monstrando que a crise recente
ideológico foi utilizado com é somente parte do processo de
todo radicalismo nas opiniões modernização brasileira esgo-
diárias das instituições econô- tado há cerca de 45 anos. Com
micas, no noticiário da grande essa reflexão final pretendemos
imprensa e, principalmente, na chegar ao objetivo principal de
disputa política. Não importa o nossa argumentação: demons-
espectro político, o governo Dil- trar que a estrutura econômica
ma foi acusado de ter cometido brasileira é parte integrante e
erros na condução econômica indissociável da economia mun-
pelo excesso de intervencionis- dial, portanto, sua análise não
mo ou por ter seguido a “agenda pode ser feita de modo isolado,
FIESP” de desregulamentação sendo no mínimo necessárias
econômica. De qualquer modo, as devidas mediações com os
as oportunidades oferecidas processos globais da produção/
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pelo mercado mundial, o cresci- circulação de capital. A crise no em Geografia e do Departamento de
mento da economia chinesa ou a Brasil é parte integrante da crise Geografia da UFES

posterior “retomada norte-ame- estrutural do capital. Janeiro-Junho, 2019


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O colapso de hoje país que não passou por guer-
Pode-se escolher arbitraria- ras (pelo menos oficialmente).
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mente qualquer ângulo econô- A chamada “recuperação” dos
em Geografia e do Departamento de
Geografia da UFES mico ou indicador de atividade, anos seguintes esteve muito
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a crise que se abateu no Brasil longe de retomar os patamares
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em 2015 foi devastadora por to- da “riqueza nacional” anterior
dos os lados. Do desemprego ao à crise. Quando se compara
comportamento geral da econo- essa trajetória de declínio do
mia, da produção industrial às produto interno com os outros
contas públicas, o desempenho graves momentos da história da
nos últimos anos foi dramático. economia brasileira, no século
A taxa anual de desocupa- XX, tem-se o dramático quadro
ção da força de trabalho saiu da maior regressão econômica
de 6,8%, em 2014, e saltou, em oficialmente registrada, supe-
apenas três anos para 12,7%, rando largamente o confisco
1 - Desemprego recua em da poupança por Collor (1989
dezembro, mas taxa média uma ampliação de 6,5 milhões
de pessoas excluídas do merca- e anos seguintes), a crise da dí-
do ano é a maior desde 2012,
do e aferidas oficialmente pelo vida (1980 e segs.) ou mesmo
Agência IBGE Notícias, 31
jan. 2018. Disponível em: desemprego aberto.1 Nesse a crise de 1929. Mesmo assim,
<https://agenciadenoticias. mesmo período, como se sabe, a comparado a outros indicadores
i b g e . g o v. b r / a g e n c i a - n o t i - trajetória do mercado de traba- parciais, o PIB nem revela um
cias/2012-agencia-de-noticias/ lho no Brasil voltou a registrar quadro tão intenso de derroca-
noticias/19759-desemprego- uma maioria de “informais”, da.
recua-em-dezembro-mas-taxa-
uma categoria obscura que en- A produção industrial, por
media-do-ano-e-a-maior-des- exemplo, recuava antes mesmo
de-2012>. Acesso em jan. 2019.
volve uma gama de situações
desde a absoluta precariedade da queda do PIB, demonstran-
2 - PNAD 2015: rendimen- autônoma (como vender bala no do que a crise já estava insta-
tos têm queda e desigualdade trem), passando pelo emprega- lada em 2014 (quando ocorreu
mantém trajetória de redução. uma variação negativa da pro-
do assalariado não-formalizado
Agência IBGE Notícias, 25 nov. dução industrial de 3%). O es-
2016. Disponível em: <https:// e mesmo o pequeno “empresá-
rio” sem registro de seu negó- forço do governo para atraves-
agenciadenoticias.ibge.gov. sar o momento eleitoral, apesar
br/agencia-sala-de-impren- cio e sem funcionários. A renda
média do brasileiro, como seria dos percalços, foi um sucesso,
sa/2013-agencia-de-noticias/
releases/9461-pnad-2015-ren- de esperar, teve uma contração pois conseguiu adiar os efeitos
dimentos-tem-que- grave de um ano para o outro: maiores da catástrofe. Mas o
da-e-desigualdade-mantem-tra- caiu 5,4% apenas de 2014 para impacto foi sentido fortemente
jetoria-de-reducao>. Acesso em 2015.2 após a reeleição, daí a animo-
jan. 2019. O PIB brasileiro também sidade de setores industriais até
3 - Após três anos de que- apresentou uma queda acentua- então alinhados com o governo
da, indústria cresce puxa- da a partir de 2015. Se em 2014 Dilma: em 2015, a produção in-
da por setor automotivo, a variação no produto interno dustrial recuou 8,3% e, no ano
Agência IBGE Notícias, 01 foi de 0,1%, indicando estag- seguinte, ainda 6,4%.3
fev. 2018. Disponível em: nação, no ano seguinte o índice A incapacidade do Estado de
<https://agenciadenoticias.
caiu 3,8% e, em 2016, prosse- reverter o processo de regres-
i b g e . g o v. b r / a g e n c i a - n o t i - são econômica não decorria de
guiu numa queda de 3,6%. Em
cias/2012-agencia-de-noticias/ nenhuma “falta de vontade” ou
noticias/19856-apos-tres-anos- percentual acumulado, a eco-
nomia brasileira recuou quase de “opções erradas”, mas de
de-queda-industria-cresce- uma limitação objetiva em suas
puxada-por-setor-automotivo>. 10% em apenas dois anos, um
impacto devastador para um próprias condições de financia-
Acesso em jan. 2019.
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mento, encolhidas pelo recuo te, é que estava sendo cobrada 4 - Não importa contra-ar-
econômico geral. Em 2014, a a conta do capital fictício, que gumentar que existe reserva
arrecadação federal registrou havia sustentado o breve perío- cambial disponível para cobrir
uma queda de 26 bilhões de re- do anterior de moderado cresci- parte dessa dívida em caso de
ais frente ao ano anterior. Em mento. A explosão da dívida foi necessidade e que o significati-
vo seria apenas a dívida líquida.
2015, nova queda, agora de 29 um resultado das receitas cada
Desde o tombo econômico em
bilhões diante do último ano vez mais apertadas de renúncias 2015, o governo brasileiro tem
do primeiro governo Dilma — fiscais e queda de arrecadação suado para manter o controle
um patamar absoluto inferior a decorrente da baixa atividade sobre o câmbio, que apresenta
2011, o que, do ponto de vista econômica combinadas a uma volatilidade extrema. Dificil-
do fisco, fazia o Brasil recuar alta dos juros dos títulos públi- mente essas reservas podem ser
meia década. Talvez as expli- cos, que quase dobraram sua utilizadas para outros fins que
cações sobre a “agenda FIESP” rentabilidade média de 2015 a não o de assegurar o preço de
(Carvalho, 2018, p. 58-59) fa- 2016 (Bacen, 2016, p. 23). nossa moeda.
çam algum sentido aqui, na me- Foi o ciclo de liquidez abun-
dida em que o impacto de de- dante nos mercados financeiros
sonerações sobre os impostos internacionais – que fluíram ao
industriais foi sentido principal- Brasil principalmente por meio
mente no ano de 2014 e seguin- do mercado de exportação de
te, agravando o quadro fiscal, commodities – que permitiu o
que passou a apresentar déficits relativo crescimento da década
sucessivos após o ano da elei- anterior, inflando o “espetáculo
ção presidencial. Entretanto, a do crescimento”. Exatamente
dívida pública brasileira, tanto por isso, quando os recursos
em termos absolutos (volume minguaram, os efeitos foram
total) quanto relativos ao PIB, sentidos tanto na elevação dos
apresentou uma trajetória de custos de rolagem desse crédito
aceleração a partir de 2014. Em quanto na drástica redução de
pouco tempo a dívida pública investimentos. A desaceleração
bruta federal saltou 500 bilhões dos investimentos, que já era
de reais, passando da marca de sentida desde 2010, foi ainda
60% do PIB (2013), para 73% maior a partir de 2013, che-
(2015) e 81% (2017).4 gando a taxas negativas — ou
É preciso salientar essa des- seja, redução de investimentos
proporção entre a expansão comparado ao período anterior.
acelerada da dívida pública e No segundo trimestre de 2015,
a perda de rendimentos. Não ainda um ano antes do fatídi-
se poderia explicar o colapso co impeachment, a queda na
das contas públicas apenas pela formação bruta de capital fixo
desoneração obtida por empre- será de 8,1%. Nesse ano, a taxa
sários, ainda mais porque, se de investimentos da economia
havia junto desta uma agenda brasileira registrará 17,8%, um
de incentivo à produção, ime- patamar inferior aos anos de
diatamente após a reeleição “neodesenvolvimento” tão pro-
ela foi substituída por medidas palados anteriormente, quando
recessivas e cortes de gastos superavam 20%.
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implementados pelo governo Não pesaram apenas os re- em Geografia e do Departamento de
em diversos setores. O que se cursos cada vez mais restritos Geografia da UFES
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trata aqui, como ficará eviden- para fazer manutenção e reno-
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vação das condições de produ- caso, mas suas taxas de juros
ção. Aqui chegamos a um ponto precisam convergir para as pra-
Revista do Programa de Pós-Graduação fundamental de nossa reflexão ticadas pelo mercado. O fundo
em Geografia e do Departamento de
Geografia da UFES e que revela o dilema estrutu- comum a todos é o papel dos
Janeiro-Junho, 2019 ral enfrentado pela economia investimentos, cuja diferença
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brasileira como parte integran- está no agente que os realiza.
te e imediata da economia de Monetaristas e estatistas com-
mercado mundial: os efeitos põem duas válvulas com desa-
do forte investimento dos anos venças práticas, mas não neces-
anteriores, que aparentemente sariamente de fundo teórico, no
seriam a receita certa para um peito com insuficiência cardía-
crescimento econômico susten- ca do capital.
tado e de longo prazo, foram Como visto, ocorreu uma
sentidos sob a forma de exces- forte contração na taxa de in-
so de capacidade instalada, o vestimentos no Brasil nos últi-
que imediatamente desobrigou mos anos. A partir de meados
à renovação produtiva assim de 2014, os investimentos co-
que os indicadores econômicos meçaram a apresentar uma pro-
ficaram no vermelho. O capital gressiva queda, que ultrapassou
fictício produziu uma miragem os dez pontos percentuais no
de estrutura econômica sólida fim de 2015 e em todo o ano
que não resistiu à escassez de de 2016. Comparada ao PIB, a
crédito, desmoronando com o taxa de formação bruta de ca-
encarecimento dos custos de pital fixo chegou a 16,4% em
sua recirculação. 2016,5 uma queda significativa
frente ao último pico de 20,6%,
em 2011.6 Entretanto, mesmo
nesse último caso, muito longe
O dilema estrutural da econo- dos níveis alcançados na era de
5 - Participação de investimen- mia brasileira ouro do desenvolvimentismo
tos no PIB tem menor peso brasileiro (com patamares su-
em 2016, Agência Brasil, 07 Para os adeptos da teoria
econômica desenvolvimentis- periores a 25%) e, no primeiro,
mar. 2017. Disponível em:
ta, cabe ao Estado recuperar próximo dos piores momentos
<http://agenciabrasil.ebc.com.
br/economia/noticia/2017-03/ a capacidade de investimento da história nacional (cuja série
participacao-de-investimen- principalmente através de obras histórica do IBGE tem por fun-
tos-no-pib-tem-menor-pe- de infraestrutura. Seja pela re- do a taxa de 12,7%, em 1948).
so-em-2016>. Acesso em jan. tomada do PAC ou pela amplia- Apesar disso, ao contrário do
2019. ção da estrutura das empresas que prega a doutrina econômica,
6 - Após PIB, potencial de estatais, o caminho é reativar o “espetáculo do crescimento”
crescimento do Brasil con- o protagonismo estatal. Para os não foi uma função da taxa de
tinua em queda, dizem es- neoliberais, o papel do Estado investimentos. A relação é mais
pecialistas, Estadão, 01 jun. é garantir a estabilidade dos in- complexa: a taxa de investimen-
2017. Disponível em: <http:// dicadores financeiros para que tos é que resultou do excesso
economia.estadao.com.br/
o empresariado volte a confiar de liquidez mundial. Para evitar
noticias/geral,apos-pib-po- uma pletora, recursos mone-
tencial-de-crescimen-
no futuro e gastar com a am-
pliação de capacidade da pro- tários foram desviados para a
to-do-brasil-continua-em-que- formação de capital fixo, princi-
da-dizem-especialis- dução privada. Para os liberais
“de centro”, os bancos estatais palmente por meio do endivida-
tas,70001822593>. Acesso em
podem até atuar nesse último mento estatal. Foi o crédito farto
jan. 2019.
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que permitiu o forte investimen- econômico não apenas conso- 7 - O primary commodity index
to realizado pelo Estado (com lidou uma ampla base popular divulgado pelo FMI dá conta de
parcerias privadas) durante o pe- como selou de vez o “apoio uma alta de 326% entre 2001 e
ríodo de boom das commodities conservador” a Lula, com a in- 2011. A brusca queda em 2008
e, principalmente, no chamado tegração definitiva do PMDB ao nos preços internacionais (que
afetou o crescimento brasile-
“neodesenvolvimentismo”. governo com a eliminação das
iro) foi contornada pela de-
Seria possível determinar um suspeitas por parte do agrone- manda chinesa numa elevação
primeiro momento do governo gócio. Os saldos comerciais e progressiva até 2011. Nos anos
Lula baseado fundamentalmen- a ampliação abrupta de investi- seguintes, os preços das com-
te nos ganhos com a exportação mentos diretos externos no país, modities permaneceriam num
de commodities, graças à forte a partir de 2004, resultaram num patamar elevado até colapsar a
demanda chinesa e que culmina ambiente de forte liquidez, o que partir de 2014, o que explica o
com a transformação desse país estimulou o crédito por todos os golpe na economia brasileira.
no principal parceiro comercial lados. Disponível em: <https://www.
do Brasil – substituindo os EUA A liquidez abundante permi- imf.org/external/np/res/com-
e absorvendo, em 2010, 17% de tiu uma transformação na políti- mod/index.aspx>. Acesso em
jan. 2019.
toda exportação brasileira. Isso ca econômica a partir do segun-
permitiu que a grande demanda do governo Lula. Para contornar 8 - Somente os investimentos
chinesa por produtos primários a crise do subprime (em 2009, da Petrobrás chegaram a ultra-
(minério de ferro, cimento, car- o país teve um recuo no PIB de passar 10% do total de investi-
mentos realizados no Brasil.
ne, soja etc.) representasse ao 0,3%), o Estado começou a im-
mesmo tempo uma elevação da plementar uma política anticícli-
produção nacional, um salto dos ca e expandiu os investimentos
preços praticados e uma reser- em várias direções. PAC, Pro-
va cambial cada vez maior (que grama Minha Casa Minha Vida
levou à criação do Fundo Sobe- e a tentativa de finalmente apro-
rano em 2008).7 Os complexos veitar as descobertas do pré-sal8
agroindustriais receberam um levaram a taxa de investimento
forte impulso com as exporta- ao alto, que chega à casa de 20%
ções e passaram a ter linhas de entre os anos de 2010 e 2013.
crédito cada vez mais baratas Do lado do consumo, o crédito
do governo. O mesmo ocorreu alimentou uma alta imobiliária,
com as mineradoras, siderúrgi- as negociações com imóveis
cas e refinarias. Os fundos de bateram recorde e foi possível
pensão, já utilizados como ala- criar a versão nova do antigo
vanca financeira para aquisições financiamento imobiliário da
e fusões no período FHC, agora ditadura, cuja implementação fi-
tiveram força total em parce- cou a cargo das incorporadoras.
rias com grandes corporações, Esses efeitos de crédito barato
numa política de fortalecimento ao consumidor, inclusive para
de “campeãs nacionais” em co- bens de consumo, assim como
mum acordo com o “governo de uma política de valorização de
sindicalistas”. salário mínimo acima da infla-
Esse é o momento chave que ção, forjaram a euforia em torno
permitiu ao PT se manter no po- da “nova classe média” e da in-
der mesmo com o forte impacto tegração pelo consumo.
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do mensalão e, por outro lado, Ocorreu, no mesmo proces- em Geografia e do Departamento de
acabou por destruir a imagem so, uma mudança na adminis- Geografia da UFES
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ética do partido: o desempenho tração da dívida pública. Com
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espasmos para cima e para bai- ca arquimediana ignora o efeito
xo durante o primeiro governo final obtido por essa injeção de
Revista do Programa de Pós-Graduação Lula, o endividamento bruto adrenalina no capitalismo atual:
em Geografia e do Departamento de
Geografia da UFES do Estado brasileiro, a partir a formação bruta de capital fixo
Janeiro-Junho, 2019 de 2010, cresce no mesmo rit- ampliou a capacidade em diver-
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mo dos investimentos públicos sos setores da economia e cul-
e salta de 51,8% do PIB, em minou numa recessão. É fato
dezembro daquele ano, para que os gastos públicos atenu-
71,9%, em 2016. Sempre justi- aram brevemente os efeitos da
ficada pela sua comparação com crise mundial – e prolongaram
as reservas cambiais (dívida lí- politicamente o PT no poder,
quida), o endividamento foi par- obtendo a reeleição de Dilma
te essencial da ampliação da in- mesmo durante um novo ciclo
fraestrutura do país. Ampliação de escândalos –, mas o resulta-
de universidades e centros de do da ampliação da infraestru-
ensino, expansão de portos e ae- tura foi o retorno à estagnação
roportos, retomada da indústria secular que caracteriza a eco-
naval, construção de novas refi- nomia mundial e a brasileira há
narias em várias partes do Brasil mais de 40 anos.
e investimentos em transporte Desde a década de 1970, o
em quase todas as capitais – o capitalismo mundial enfrenta o
que ocorreu foi uma substitui- problema estrutural da superacu-
ção da mera política de expor- mulação crônica. O mais lon-
tação de commodities por um go período de crescimento da
“neodesenvolvimentismo” am- história mundial resultou numa
plamente baseado em parcerias capacidade produtiva gigan-
público-privadas, não sem con- tesca em boa parte do mundo,
tar com “megaeventos” que le- com dezenas de países concor-
gitimaram publicamente muitas rendo com suas mercadorias
dessas “alianças estratégicas”. industrializadas, incluindo aí
A especialização econômi- alguns da periferia do sistema.
ca em produtos de baixo valor A “revolução microeletrônica”
agregado e “intensivos em re- e as inovações organizacionais
cursos naturais” foi o que per- do chamado “pós-fordismo” só
mitiu gerar a liquidez necessá- fizeram ampliar a capacidade
ria para o forte investimento no produtiva, na mesma proporção
segundo governo Lula e, prin- em que reduziam a absorção
cipalmente, durante o primei- de força de trabalho. Taxas de
ro governo Dilma. Entretanto, crescimento econômicas redu-
essa ampliação da infraestru- zidas e desemprego crescen-
tura, ao contrário de promover te tornaram-se uma realidade
um ciclo de crescimento virtu- mundial.9
oso e de autonomia econômica Com os fortes investimentos
nacional, levou o país a expe- da década passada, a superacu-
rimentar de modo renovado e mulação de capital – raiz es-
ampliado o processo de crise trutural de todos os problemas
estrutural do capitalismo glo- da sociedade de mercado – foi
9 - Sobre a crise estrutural do bal. O mantra econômico que renovada em nosso quintal. Sua
capitalismo, ver Kurz (2017) e
vê o investimento como alavan- manifestação não demorou a
Botelho (2018).
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aparecer sob a forma de exces- na economia global: diferente 10 - Uso da capacidade na in-
so de força de trabalho (desem- de outras etapas da história bur- dústria está no menor patamar
prego) e superprodução de mer- guesa, hoje a superacumulação em 20 anos, O Globo, 06 jan.
cadorias (estoques elevados). não é o resultado ao fim de um 2017. Disponível em: <https://
Mas o ponto principal – o que ciclo econômico, mas uma con- oglobo.globo.com/economia/
uso-da-capacidade-na-indu-
paradoxalmente criou tempo- dição da própria base de repro-
stria-esta-no-menor-patamar-
rariamente a miragem de uma dução capitalista. O capitalismo
em-20-anos-20735276>. Aces-
nova era de prosperidade – foi superdesenvolvido enraizou de so em jan. 2019.
a ampliação da capacidade ins- tal modo a sua ampla capacida-
talada, levando ao agravamento de de produção que o excesso
do excesso de capital fixo, isto deixou de ser meramente cí-
é, ampliando a subutilização clico e tornou-se permanente:
das forças produtivas. o processo de circulação e dis-
Aqui, a ignorância econômi- tribuição fica constrangido sob
ca sobre princípios categoriais o peso de uma capacidade pro-
capitalistas independe de ide- dutiva gerada pelos momentos
ologia política: como insistir anteriores de acumulação de
numa solução para a crise atra- meios de produção. A supera-
vés do investimento (público cumulação tornou-se crônica,
ou privado) quando para todos daí uma das causas da crise es-
os lados o que não falta é capa- trutural do capitalismo. Ao con-
cidade ociosa de máquinas, fer- trário da leitura à direita e à es-
ramentas e edifícios? Enquanto querda, nosso problema social
a capacidade utilizada da indús- básico não é a falta de atividade
tria nacional apresentava uma econômica, mas o excesso – o
média de 75% em 2011, em capitalismo tornou-se vítima de
2016 o uso baixou para 66%. sua própria vitalidade.
Quase um terço de toda estrutu- Um dos resultados dessa
ra produtiva estava em estágio inversão no ciclo econômico –
de ociosidade. Em alguns seto- não acompanhado pela teoria
res o problema foi ainda mais econômica – é a mudança no
grave, como a indústria de pro- estatuto do crédito. Enquan-
dutos em metal (54% de uso da to no passado a ampliação do
capacidade), produção de má- crédito aparecia como um fe-
quinas e equipamentos (57%) nômeno típico do período de
e veículos automotores e outros euforia, hoje a economia só
meios de transporte (55%).10 A atravessa (breves) períodos de
ampliação do nível de investi- crescimento se for bombeada a
mento (público ou privado) não priori por crédito farto. Temos
vai oferecer um novo fôlego à uma mutação no papel do capi-
economia, mas anestesiá-la ain- tal fictício: ao contrário de am-
da mais ao adicionar capacida- pliar os negócios (e as fraudes)
de e ampliar o endividamento. num período de euforia com a
Os termos como liberais e economia real, a antecipação de
keynesianos encaram a crise do receitas futuras sob a forma de
capital são inadequados para endividamento público, priva-
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uma leitura conjuntural porque do, expansão monetária ou coi- em Geografia e do Departamento de
não têm compreensão também sas do gênero torna-se condição Geografia da UFES
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das transformações estruturais necessária para a própria expan-
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são econômica. Foi o crédito a depreciação do capital fixo.
barato conquistado com o setor Reaparece a fórmula tradicio-
Revista do Programa de Pós-Graduação externo brasileiro, angariando nal da crise como “lavanderia
em Geografia e do Departamento de
Geografia da UFES de modo oportunista uma parte automática do capital” – anos
Janeiro-Junho, 2019 da liquidez do circuito deficitá- de estagnação e recessão aca-
ISSN 2175-3709
rio sino-americano, que injetou bam por liquidar, involun-
ânimo na economia nacional tariamente, os excessos de
e permitiu o período “neode- capacidade presentes numa
senvolvimentista”.11 Assim economia. Isso abriria possi-
como se referiu um grupo de bilidade para a injeção de no-
críticos da economia ao boom vos recursos para uma renova-
norte-americano baseado na ção da própria base produtiva
alta acionária das empresas de enferrujada. Aqui o problema
tecnologia e internet, por aqui é ainda mais grave porque o
também a economia só foi desajuste teórico à história se
“estimulada por vários meios combina com a inadequação
artificiais, muito semelhantes geográfica.
às máscaras de oxigênio uti- A tecnologia industrial atu-
lizadas para escalar os picos al é flexível o bastante para se
mais altos”.12 ajustar a mudanças radicais no
Uma economia estagnada processo de produção apenas
pelo peso de sua estrutura de pela modificação de braços
produção só pode sair de re- e reprogramação das máqui-
pouso com a injeção artificial nas-ferramentas de controle
de meios de circulação que numérico. Isso significa que,
põe em marcha a capacidade dada a ociosidade produtiva
ociosa (e reduz os estoques). elevada, em qualquer momen-
Ao colocar em movimento to um espasmo econômico
novamente a capacidade ins- poderá ser sentido pela sim-
talada, a renda gerada pelo ples utilização da estrutura já
processo de reanimação da disponível. Mas a reanimação
circulação deve repercutir no mercado não vai restaurar
necessariamente em investi- o patamar produtivo anterior.
mentos infraestruturais, o que Uma retomada econômica não
repõe o problema rapidamente pode simplesmente recorrer
da superacumulação em pata- aos padrões de produção já
mar cada vez mais dilatado. estabelecidos e há anos estag-
Qualquer investimento reali- nado: em virtude das coerções
zado hoje será o canteiro de da concorrência mundial, a
obras parado, a usina inutili- capacidade instalada preci-
11 - Sobre o “circuito deficitário zada, o galpão abandonado ou sa ser recuperada e renovada
do Pacífico”, ver Kurz (2015, p. o porto vazio de amanhã. Sem diante das velozes exigências
31-32). falar no acúmulo das catástro- da inovação tecnológica. Mais
12 - The Stagnation of Em- fes ambientais. do que uma destruição por
ployment, Monthly Review, É verdade que, segundo os inutilização, por um esgota-
01 abr. 2004, disponível dogmas economicistas, dada a mento físico do capital fixo,
em: https://monthlyreview. queda brutal nos últimos anos, a capacidade produtiva ins-
org/2004/04/01/the-stagna- os gastos com investimento talada hoje é descontinuada,
tion-of-employment/. Acesso
podem nem sequer compensar pós-Terceira Revolução In-
em jan. 2019.
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Maurilio Lima Botelho Superacumulação e colapso do capitalismo no Brasil em retrospectiva
Páginas 182 à 199
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dustrial, principalmente pelas vada (se é fornecido por esta- 13 - “É praticamente impossível
pressões concorrenciais para tal ou empresa privada). Re- querer organizar de modo cícli-
o seu upgrade. Essa pressão pousa aí uma das contradições co, de acordo com o parâmetro
objetiva por modernização básicas do capitalismo ama- da demanda de valores mon-
constante amplia a necessida- durecido. As necessidades de etários, a canalização de água e
esgoto, o sistema ferroviário, a
de de crédito (endividamento) reprodução social não podem
rede de comunicação, o sistema
e destrói cada vez mais em- ser condicionadas às convul- de saúde ou as escolas e univer-
pregos. De qualquer modo, sões periódicas do mercado, sidades. Por outro lado, a ca-
a “retomada” só faz agravar mas como tudo passou a ser pacidade concorrencial de um
os efeitos mais profundos da organizado por meio da lógi- país depende cada vez mais da
falência estrutural do capital, ca mercantil, o que inclui até eficiência funcional e do nível
pois a dependência da simula- mesmo a infraestrutura social, desses agregados. Se o contexto
ção creditícia de capital e res- então as condições sociais de das condições infraestruturais
trição do mercado de trabalho reprodução devem ser sacri- começa a superar a finalidade
serão seus efeitos. O mundo ficadas diante dos obstáculos empresarial a rigor pressupos-
aberto à concorrência pressio- econômicos. O investimento ta, tanto materialmente quan-
to também no valor, surge um
na para que os novos inves- em infraestrutura pública não
problema que não é mais solu-
timentos, tidos como neces- poderia ser reduzido mesmo cionável em termos de econo-
sários à retomada, ampliem a em momentos de crise, mas mia de mercado”. (Kurz, 1993,
produtividade, o que implica como isso aprofunda o endivi- p. 11-12).
em menos força de trabalho damento (gastos públicos em
empregada. Por qualquer di- alta num momento de baixa
mensão que se olhe, o dilema econômica), então ele passa
da superacumulação estrutu- a ser ditado pelo ritmo priva-
ral torna inviável retomadas do em nome de uma solução
econômicas longas e dura- para o déficit fiscal. Que nos
douras, ciclos de prosperidade momentos de crise se reforce
como ocorriam no passado de o ímpeto privatista nos setores
ascensão da economia capita- de infraestrutura, até mesmo o
lista. abastecimento de água, temos
Entretanto, é verdade que uma demonstração do caráter
esse argumento não pode ser antissocial dessa forma eco-
aplicado aos agregados in- nômica.13
fraestruturais de uso público, Os “investimentos sociais”
cuja natureza própria exige foram demasiados propagan-
assistência constante sob o deados nos últimos anos, mas
risco de inutilização. Ruas agora se vê como rapidamente
e estradas precisam de reca- as ruas esburacam, viadutos
peamento e limpeza, a trans- desabam, hospitais fecham,
missão de energia precisa de museus queimam, sistemas
reparos diante das intempéries de saneamento problemáti-
e o sistema de água e esgoto cos produzem epidemias e
precisa, além da manutenção faltam vacinas – problemas
periódica, de expansão diante que não decorrem apenas dos
de uma população que conti- cortes orçamentários de oca-
nua se ampliando (pelo menos sião, mas de anos de decom-
Revista do Programa de Pós-Graduação
no Brasil). Isso independe de posição. Isso em parte explica em Geografia e do Departamento de
sua condição ofertada pelo porque a economia brasileira Geografia da UFES
Janeiro-Junho, 2019
Estado ou pela iniciativa pri- é relegada a um plano inferior
191
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a cada retomada conjuntural JBS, “campeã nacional” da Era
impulsionada por crédito, re- Lula-Dilma, cuja holding era
Revista do Programa de Pós-Graduação forçando sua condição perifé- administrada por uma das fi-
em Geografia e do Departamento de
Geografia da UFES rica já estabelecida. Aqui con- guras centrais do monetarismo
Janeiro-Junho, 2019 vivem insuficiência crônica na nacional (Henrique Meirelles),
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estrutura de reprodução social que progressivamente interna-
e alta capacidade produtiva cionalizou sua estrutura produ-
privada excludente. tiva e ao mesmo tempo faturou
O direcionamento da econo- no mercado futuro do câmbio,
mia para a exportação não foi só pode ser encarado, por ne-
responsável pela destruição da oliberais e keynesianos, como
complexidade da estrutura nacio- um fenômeno imoral e fruto de
nal. Isso até permitiu o acúmulo corrupção, quando é o símbolo
de recursos e estimulou tempora- máximo de uma era de “capital
riamente uma ampliação na base mundial imediato” (Kurz).
produtiva, que colapsou com É preciso levar em conta tam-
sua base de sustentação finan- bém que a indústria de grande ca-
ceira (a queda nos preços das pacidade tecnológica não oferece
commodities). A argumentação outra coisa senão uma economia
de que o país teria “optado” por de nicho: os salários de empre-
empregos e setores econômicos gos qualificados não podem ser
de baixa complexidade só pode generalizados exatamente por
se sustentar se a teoria econômi- causa da elevada produtividade
ca ainda credita ao Estado-nação alcançada por cada um destes.
a capacidade de sobrepor e con- O discurso da generalização da
ter voluntariamente as pressões complexidade produtiva é histo-
da concorrência internacional, ricamente defasada por ignorar a
o que nem sequer a economia proporção inversa estabelecida,
mais poderosa do mundo conse- desde a Terceira Revolução In-
gue – Trump e sua bravata de um dustrial, entre elevação de produ-
retorno ao capitalismo industrial tividade e geração de empregos.
nacional o demonstram. A substituição de trabalho vivo
Uma teoria dessas ainda por trabalho morto representa
está presa a uma compreensão ganho para o capital individu-
das relações econômicas inter- al no seu esforço de superar a
nacionais pelo ângulo da cir- concorrência, ainda que para o
culação de capital (comércio capital global a sua dinâmica
externo, variações de taxa de progressiva seja a incapacidade
juros e câmbio) ou de merca- de reprodução ampliada (queda
dorias, não do ponto de vista da taxa de lucro). A proliferação
da estrutura produtiva propria- de marginalização e a multipli-
mente dita. A dispersão geográ- cação de empregos precarizados
fica das cadeias de produção nas principais cidades high-techs
e a integração global dos me- do mundo revelam que a con-
canismos produtivos (valori- vergência entre alta renda e pa-
zação) com os expedientes de drão concorrencial é restrito aos
financeirização (capitalização) poucos sobreviventes da econo-
tornam caduca uma teoria as- mia de mercado. Nesse aspecto,
sim. Um fenômeno como o da Campinas ou os centros tecnoló-
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gicos da Ilha do Fundão, no Rio mo de desenvolvimento foi mais do que


o dobro do ritmo de desenvolvimento
de Janeiro, não são expressões de global da economia (Bresser Pereira,
um atraso social que rodeia alta 1968, p. 54).

tecnologia com favelas, mas um Quando consideramos


sintoma avançado da autocon- apenas o período do “mila-
tradição do capital, cuja expan- gre econômico”, os números
são tecnológica tem que ser ne- ainda são mais impressionan-
cessariamente acompanhada de te em virtude dessa explosão
uma contração social (Botelho, de crescimento coincidir já
2018b). com uma desaceleração da
economia mundial: no perío-
do de 1968/1974, a taxa mé-
O colapso de ontem dia de crescimento anual do
PIB será de 11,3%, enquanto
A convivência de grande a indústria alcança o patamar
capacidade de produção com anual médio de 12,6%, no-
miséria mais infame é uma tadamente em setores como
constante na história brasilei- equipamentos mecânicos,
ra, mas o alargamento desse elétricos e transportes (Baer,
contraste e a demonstração 1996, p. 91-92).
da inviabilidade de sua supe- Esse amplo processo mani-
ração ocorreram há cerca de festou-se como uma moderni-
45 anos, quando o processo zação da estrutura industrial
de desenvolvimento nacional, e agrícola nacional, a ponto
por assim dizer, foi derrotado. de não sermos mais capazes,
Derrota que não decorreu de como símbolo da fase avan-
uma força externa ou de um çada da economia, de distin-
mero fracasso interno: a mo- guir entre um setor e outro:
dernização brasileira se es- os complexos agroindustriais
gotou em função das próprias passaram a ser marca da estru-
forças que lhe viabilizaram. tura produtiva nacional, com
Durante um longo ciclo nível elevado de mecanização
que durou, em linhas gerais, e artificialização da produção
de 1930 até 1973, o Brasil no campo.
saiu de uma economia predo- Entretanto, não são esses
minantemente agrícola e com números isoladamente que
população rural e se tornou dão conta do upgrade da estru-
uma das grandes nações in- tura produtiva brasileira nesse
dustrializadas no mundo, com período, mas o seu efeito arti-
grandes metrópoles e um cres- culado ao processo global da
cimento médio elevado – no produção capitalista. Como
século XX, só superado pelo parte do movimento de dis-
Japão. Somente persão geográfica da indústria
entre 30 e 61 o crescimento da produ-
ção industrial brasileira foi de 683%. mundial ocorrida nesse perío-
Se tomarmos o período entre 40 e 61,
para podermos comparar o aumento da do, o Brasil passou a internali-
produção industrial com o aumento do zar a produção dos principais
Produto Interno Bruto (que já vimos Revista do Programa de Pós-Graduação
foi de 232%) temos que aquele aumen- equipamentos industriais ne- em Geografia e do Departamento de
to foi de 479%. Em um período de 22 cessários à sua estrutura eco- Geografia da UFES
anos, portanto, a produção industrial
brasileira quase sextuplicou, e seu rit- nômica. Ou seja, a maturidade Janeiro-Junho, 2019
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do capitalismo brasileiro foi taridade” estabelecida entre
marcada por uma passagem da as empresas transnacionais e
Revista do Programa de Pós-Graduação mera importação de máquinas as indústrias nacionais, mas
em Geografia e do Departamento de
Geografia da UFES e equipamentos necessários à uma verdadeira conexão da
Janeiro-Junho, 2019 produção industrial de bens economia nacional à forma
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de consumo finais para uma global do capital configura-
produção interna dos pró- da no pós-guerra. Muito mais
prios bens de capital. No caso do que um caráter “comple-
do campo, por exemplo, até mentar”, a economia brasi-
1960, a oferta de tratores de leira integrava-se ao mercado
produção interna era pratica- mundial como uma unidade,
mente nula. Em 1970, 99% do cujos pilares eram os proces-
consumo de tratores no cam- sos de produção e financeiri-
po brasileiro era de produção zação (apesar das barreiras
brasileira. A internalização da ainda existentes ao comér-
produção de tratores foi um cio que só seriam derrubadas
processo simultâneo à meca- com a “abertura” de Collor e
nização da agricultura nacio- FHC).14 Essa conexão íntima
nal – em 1950, havia pouco com o mercado mundial pode
mais de 8 mil tratores em ope- ser reconstituída teoricamente
ração no campo brasileiro, em em duas etapas.
1960, já existiam 61 mil, em Primeiro, a integração da
1970, mais de 165 mil e, em estrutura nacional à dinâmi-
1975, pouco depois do fim do ca produtiva fundamental
“milagre”, mais de 323 mil do capital, ou seja, o clássi-
tratores em operação (Silva; co debate sobre a “interna-
Baricelo; Vian, 2015, p. 26). lização do Departamento I”
O mesmo poderia ser dito da economia. Isso criou uma
em relação aos bens de capi- espécie de “ajuste de frequ-
tal em geral: se em 1949, 59% ência” da estrutura produti-
das máquinas e equipamentos va nacional com a dinâmica
utilizados no Brasil ainda de- do capital mundial. Contudo,
pendiam da importação, em o que foi pensado como um
1966 esse percentual já havia possível sinal de maturidade
baixado para 13,7%. Quanto do capitalismo brasileiro a ser
aos bens industriais interme- mobilizado para uma estraté-
diários, o mesmo processo gia desenvolvimentista, já era
ocorreu em velocidade mais indício de uma nivelação do
acentuada, já que em 1966 processo de crise. Na década
apenas 6,8% eram importados de 1970, essa internalização já
(Baer, 1996, p. 82). Ou seja, o não era vista como um proces-
grande esmagador volume do so de “desenvolvimento na-
capital fixo utilizado no Brasil cional autônomo”, pois parte
era já de produção interna. considerável da produção de
Esse movimento acelera- bens de capital era realizada
do de industrialização, o auge por empresas transnacionais.
14 - A tese de “complementa- do ciclo de modernização do Mas o ponto principal é que
ridade” foi lançada pelo então capitalismo brasileiro, não essa internalização produti-
economista José Serra em fa-
foi uma mera “complemen- va decorria de um excesso de
moso artigo (1982).
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capacidade já apresentado em ni, 2012), o argumento apela- 15 - Para uma análise da formação
outros mercados, que fluíram va para o caráter nacional dos das multinacionais brasileiras e a
para o território brasileiro. capitais envolvidos, sem dar relação de inúmeros outros inves-
Até mesmo as condições de conta do fundamento comum timentos externos realizados por
financiamento de uma parcela de crise mundial já anuncia- elas desde a década de 1960, ver
Sposito e Santos (2012).
da produção “genuinamente” do pelo fracasso imediato da
nacional, principalmente a re- modernização. Mas esse pon- 16 - Vide o caso da Ambev, uma
alizada pelo governo num ím- to de vista ainda era capaz de gigante formada no fim do go-
peto estatista inédito em nossa se posicionar de modo crítico verno FHC e estimulada pelo go-
verno Lula, cujas ações variam
história, foram possibilitadas diante da realidade econômica
entre domínio belga e brasileiro.
pelo capital excedente dispo- estabelecida. Diferente é caso
nível no mercado mundial. de nossa última rodada “neo-
Para afastar de vez a ima- desenvolvimentista”, quando
gem de uma mera “subordi- a criação de “multinacionais
nação” da economia nacional brasileiras”, tornada política
ao roldão global, a formação oficial com Lula-Dilma, pas-
pioneira de grandes “campeãs sou a ser interpretada por am-
nacionais”, ou seja, a criação plos segmentos de esquerda
de empresas transnacionais como uma demonstração de
brasileiras com atuação mun- “protagonismo econômico”
dial no período do “milagre” ou até mesmo uma “inserção
completa essa conexão. Esse autônoma do Brasil” em ter-
movimento remonta aos vín- mos mundiais.
culos políticos de grandes O segundo processo a ser
corporações, principalmente destacado na integração com
empreiteiras, com a ditadura a economia mundial é visível
militar (Campos, 2014), mas apenas em longo prazo e atra-
ultrapassa esse setor econô- vessa tanto o movimento de
mico. Nas décadas de 1960 e modernização econômica bra-
1970, empresas como Camar- sileira quanto a recente crise.
go Correa, Odebrecht, Men- Trata-se da integração e aber-
des Junior, mas outras ainda tura da estrutura econômica
como Marcopolo, Caloi e nacional ao capital financeiro.
Alpargatas realizavam inves- O caminho percorrido vai des-
timentos na Bolívia, Colôm- de a explosão da dívida da dé-
bia, Venezuela, Chile, Angola, cada de 1970, e seu momento
Mauritânia, Canadá e outros crítico nos anos de 1980, até
países.15 a abertura e desregulamenta-
Na década de 1970, esse ção financeira das eras FHC e
processo foi explicado pela Lula.
esquerda latino-americana Esse processo vai determi-
como sintoma de um subim- nar que o que conta, de fato,
perialismo e da formação de não é nacionalidade em si de
países intermediários no sis- uma determinada empresa,
tema mundial. Ainda que re- que se torna mais difícil de
corresse ao estabelecimento determinar com a integração
Revista do Programa de Pós-Graduação
da superacumulação para ex- financeira mundial.16 O que em Geografia e do Departamento de
plicar a exportação de capital conta é a capacidade do capi- Geografia da UFES
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por um país periférico (Mari- tal de articular suas estruturas
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com a rede produtiva e finan- tróleo, em 1973, deu um golpe
ceira global, que o permite mo- nessa abundância de liquidez e
Revista do Programa de Pós-Graduação bilizar e desviar recursos sem- demonstrou que o efeito diver-
em Geografia e do Departamento de
Geografia da UFES pre que necessário, de acordo gente era meramente temporá-
Janeiro-Junho, 2019 com as condições políticas e rio. Nos anos seguintes, o go-
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econômicas dos locais em que verno Geisel optou por manter
mantém suas bases. E isso não uma postura de endividamento,
17 - PA desindustrialização de
cidades importantes do Nordeste tem mais relação com o “desen- mesmo com os custos elevados
dos EUA demonstrou que isso volvimento nacional”, já que há de financiamento internacio-
vale para todos, assim como ha- décadas os investimentos mun- nal, o que não surtiu os mes-
via indicado Ulrich Beck: “A diais procuram os pontos de mos efeitos do crescimento no
economia de atuação global en- menor tensão na rede global de ciclo anterior e ainda levou à
terra os fundamentos do Estado custos, regulamentações e con- explosão da dívida com o novo
e da economia nacional. E assim dições políticas.17 choque do petróleo no fim da
entra em curso uma subpolitiza- Assim, o colapso recente da década – entre 1974 e 1980, a
ção de dimensões impensadas economia brasileira não pode dívida externa líquida brasilei-
e consequências imprevisíveis.
ser explicado por uma força ra cresceu mais de 600% (Baer,
Trata-se de um novo round para
econômica externa que lançou 1996, p. 109).20
se derrubar elegantemente o ve-
lho adversário ‘trabalho’; mas o Brasil ao chão. Evidentemen- Estava encerrada a moder-
ao mesmo tempo trata-se princi- te, não seria de todo infundado, nização industrial no Brasil
palmente da demissão do ‘capi- pela história de nossa econo- que, diferente do caso dos pa-
talismo ideal e completo’, como mia, considerar o peso do “setor íses centrais, nem sequer foi
Marx chamava o Estado; ou seja, externo” nas contas nacionais.18 capaz de criar um breve perío-
trata-se da libertação das amar- Entretanto, a economia brasi- do de integração social, sendo
ras do trabalho e do Estado, tais leira não pode ser tratada como caracterizada pela ampliação
como estes surgiram nos séculos um ente isolado ou relativa- da pobreza, concentração ace-
XIX e XX” (1999, p. 15). mente destacável do “mercado lerada de renda, favelização e
18 - Pesquisas recentes já demons- externo” e isso exatamente por explosão da violência. Na raiz
tram que o país volta a depender de causa do grau de modernização desse fiasco de integração eco-
importação de bens de capital para alcançado já na década de 1960 nômica estava a própria incapa-
seus setores produtivos. Não temos e 1970. Mesmo nos supostos cidade do mercado de absorver
condições de discutir aqui essa “re- momentos de “descolamento”, a força de trabalho disponível.
gressão produtiva”, mas longe de
a dinâmica econômica interna Enquanto os países de indus-
um problema “nacional”, trata-se
do próprio estreitamento do mer-
deveria ser explicada pela inte- trialização anterior passariam,
cado mundial provocado pela crise gração mundial.19 a partir da Terceira Revolução
estrutural. Quando o Brasil atravessou Industrial, a experimentar uma
as mais elevadas taxas de cres- progressiva exclusão no mer-
19 - Já em 1986, Stephany Grif-
cimento no período do “mi- cado de trabalho, o Brasil, com
fith-Jones e Osvaldo Sunkel conte-
staram a possibilidade de explicar
lagre econômico” e o mundo uma industrialização retardatá-
isoladamente a “crise da dívida” estava deixando sua era ouro ria baseada em tecnologia ain-
por “fatores externos”: “parece- do pós-guerra, essa aparente da da Segunda Revolução, já
nos incorreto procurar uma dis- divergência só pôde ser expli- se mostrava incapaz de gerar
tinção tão acentuada entre fatores cada pelo excesso de capital empregos suficientes diante da
ou forças externas e internas. Pre- internacional que, não encon- explosão populacional e êxodo
cisamente pelo fato de importantes trando mais o mecanismos de rural-urbano, mesmo com um
setores das economias e socie- valorização nos países centrais, crescimento econômico vertigi-
dades latino-americanas terem se inundou os novos países indus- noso.21
tornado integrados ou intimamente trializados, principalmente na Se o período do “milagre”
vinculados à economia interna-
América Latina. A crise do pe- apareceu brevemente descola-
Continua...
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do do contexto de crise mun- de um eixo produtivo central cional (ou ‘transnacionalizados’),


dial, o mesmo poderia ser dito capaz de mover a sociedade tal distinção analítica acentuada
do curto período de euforia com brasileira, subordinando a di- não mais parece, a nosso ver, cor-
o “espetáculo de crescimento” nâmica financeira aos ritmos da responder à realidade” (1990, p.
no segundo governo de Lula e produção de mais-valia e repro- 118).
primeiro de Dilma. A aparente dução do capital, a industriali- 20 - “O endividamento externo
dissociação entre o crescimento zação levada a cabo por aqui já apareceu então como a ‘solução’ e
apresentado pelo Brasil fren- era um indício das circularida- por esse lado abriu as portas à fi-
te aos países europeus e EUA, des de uma economia financei- nanceirização da economia e das
contas do Estado brasileiro, que
envolvidos na crise com a ex- ra mundialmente hipertrofiada
ficou patente no último governo
plosão do subprime, não era pelo sistema de capitalização.
militar da ditadura, sob o mesmo
efeito de uma política interna Foi o capital fictício que produ- czar das finanças que havia imper-
independente e muito menos ziu nossos parques industriais ado no período do ‘milagre bra-
de uma autonomia econômica. e o constante desamparo por sileiro’ que, talvez por ter Antonio
Tratou-se de um curto empuxo eles enfrentados, precisando re- no nome fosse considerado mila-
dado pela tentativa chinesa de correr regularmente a crédito e greiro” (Oliveira, 2003, p. 132).
conter a crise em seu próprio endividamento para se manter, 21 - “(...) durante os anos ses-
território, recorrendo a vasto é uma comprovação da vazia senta, apesar do extraordinário
investimento em infraestrutura. tautologia de automultiplicação desenvolvimento industrial, a
Quando esse empreendimento do capital em seu processo de indústria de transformação teve
fracassou e as commodities se crise.23 o número de seus empregados
acumularam em depósitos, por- elevado a uma taxa anual de ape-
tos e navios chineses (2014), a nas 3%, o que se explica pelo uso
crise se abateu com toda força de tecnologia capital intensiva,
em nosso quintal, demonstran- Palavras Finais economizadora de mão-de-obra.
Esse crescimento de 3%, quan-
do os vínculos imediatos entre A economia brasileira é par- do comparado com os 3,5% de
a economia brasileira e o resto te do mercado mundial. Parece crescimento da população ativa
do mundo. truísmo afirmar isso numa na- e com os 5,4% de crescimento
Assim, desde o princípio, ção que sempre serviu como da população urbana, revelou-se
o “desenvolvimento” brasilei- plataforma de exportação para claramente insuficiente” (Bresser
ro foi resultado do excesso de os centros do capitalismo. Mas Pereira, 1968, p. 66).
capital nos mercados interna- a dimensão dessa integração 22 - Fernando Henrique Cardo-
cionais, mais um fator dos re- mudou qualitativamente com a so e Enzo Falleto reconheceram
cursos monetários excedentes modernização produtiva levada isso de modo pioneiro: “Para o
do que uma tentativa autônoma a cabo na segunda metade do novo tipo de desenvolvimento,
de construção de novas estru- século XX, isto é, passamos a os mecanismos de controle da
turas econômicas. Embora nos ser imediatamente parte inte-
economia nacional escapam par-
primeiros anos “desenvolvi- cialmente do âmbito interno na
grante do mercado mundial. medida em que certas normas
mentistas” isso pudesse ainda Nosso ambiente econômico
ser a ilusão dominante, graças “interno” é já um espaço ime- Continua...
a todo o conjunto ideológico diato da economia mundial.
“populista” ou “nacionalista” Mas agora fica claro também
presente nos governos respon- que essa conexão imediata não
sáveis pela industrialização, foi sendo construída nas últi-
logo ficou evidente o vínculo mas décadas apenas pelo pro-
íntimo entre a modernização da cesso de integração produtiva Revista do Programa de Pós-Graduação
estrutura produtiva nacional e e globalização financeira, mas em Geografia e do Departamento de
o capital financeiro mundial.22 também pelo processo de cri-
Geografia da UFES
Janeiro-Junho, 2019
Mais do que a consolidação se mundial, pois a decadência 197
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global dos mercados exige do dial” com suas etapas coloniais
capital exatamente mais fluidez e imperiais – dos mecanismos
Revista do Programa de Pós-Graduação transfronteiriça para explorar as políticos internos. Na verda-
em Geografia e do Departamento de
Geografia da UFES possibilidades restritas de valo- de, a combinação de vitória e
Janeiro-Junho, 2019 rização ou de capitalização.24 derrotas locais é, hoje, uma ca-
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Numa era de mercados globais racterística global em todos os
conectados, cadeias produtivas cantos – a favela, o cortiço, o
universais do funcionamento de integradas internacionalmente, gueto e o “circuito inferior de
um sistema produtivo moderno, concorrência direta entre pro- consumo” combinando com o
impostas pelo mercado univer- dutos ou custos de produção condomínio fechado, o mall lu-
sal, não permitem alternativas: e, principalmente, de capital xuoso e o SUV blindado. Ven-
a unificação dos sistemas pro- excedente em busca de mul- cedores e derrotados da econo-
dutivos leva à padronização dos tiplicação (ficcionalização), a mia capitalista deixaram de ser
mercados e a seu ordenamento vitória ou a derrota de uma eco- definidos em termos nacionais
supranacional. (...). Assim, na nomia periférica depende cada – se é que o foram alguma vez
medida em que o ciclo de real-
vez menos – se é que dependeu – e agora são individualizados
ização do capital completa-se
alguma vez na longa história da numa guerra de todos contra to-
no âmbito interno em função da
grande unidade produtiva (pro- imposição do “sistema mun- dos cada vez mais acirrada.
dução, comercialização, con-
sumo, financiamento, acumu-
lação, reinvestimento), o sistema
econômico – ‘as leis do mercado’ REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
– tende a impor à sociedade suas
‘normas naturais’, restringindo, BACEN. Relatório Mensal – Dívida Pública Federal (Dezembro
por consequência, o âmbito e a
2016). Brasília: Banco Central do Brasil, 2016.
eficácia da contrapartida autôno-
ma dos grupos locais” (1970, p. BAER, Werner. A economia brasileira. São Paulo: Nobel, 1996.
130). Como demonstrou Roberto
Schwarz em diversas ocasiões, o BECK, Ulrich. O que é globalização? Equívocos do globalismo.
FHC presidente não rompeu com Respostas à globalização. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
essa compreensão, apenas a uti-
lizou de modo cínico: diante da BOTELHO, Maurilio Lima. Entre as crises e o colapso: cinco
falta de “autonomia dos grupos notas sobre a falência estrutural do capitalismo. In: Revista
locais”, já não há alternativa a Maracanan, n. 18, p. 157-180, jan.-jun. 2018.
não ser aceitar as “normas natu-
rais” da economia capitalista. ___________. A metrópole para além da nação: globalização e
crise urbana. In: Cad. Metrop., São Paulo, v. 20, n. 43, p. 697-716,
23 - Uma detalhada demon- set/dez 2018b.
stração dessa “circularidade”
construída pelo capital fictício BRESSER PEREIRA, Luiz Carlos. Desenvolvimento e crise no
pode ser vista em Pitta (2016), Brasil, 1930-1967. Rio de Janeiro: Zahar, 1968.
onde demonstra como o “agro-
negócio”, no caso o setor “su- CAMPOS, Pedro Henrique Pedreira. Estranhas catedrais: as
croalcooleiro”, é estruturalmente empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar, 1964-1988.
dependente de crédito e de dívida Niteóri: UFF, 2014.
mesmo em momentos de euforia
econômica e forte expansão da CARDOSO, Fernando Henrique e FALLETO, Enzo.
produção. Dependência e desenvolvimento na América Latina. Rio de
24 - “As “leis naturais” cegas Janeiro: Zahar, 1970.
do “capital em geral”, que du- CARVALHO, Laura. Valsa Brasileira: do boom ao caos
rante muito tempo podiam ser
econômico. São Paulo: Todavia, 2018.
Continua...
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Maurilio Lima Botelho Superacumulação e colapso do capitalismo no Brasil em retrospectiva
Páginas 182 à 199
Maurilio Lima Botelho Superacumulação e colapso do capitalismo no Brasil em retrospectiva
Páginas 182 à 199

GRIFFITH-JONES, Stephany; SUNKEL, Osvaldo. O fim de representadas no plano do contexto


uma ilusão: as crises da dívida e do desenvolvimento na América econômico nacional, tornam-se a
Latina. São Paulo: Brasiliense, 1990. lei mundial imediata de um merca-
do mundial universal e sem frontei-
KURZ, Robert. As luzes do mercado se apagam: as falsas ras, que já não constitui a esfera das
promessas do neoliberalismo ao término de um século em crise, relações entre as economias nacio-
in: Estudos Avançados, no. 7 (18), 1993, p. 7-41. nais, mas a esfera universal da con-
corrência de crise mundial imediata,
___________. Poder Mundial e Dinheiro Mundial (crônicas do não filtrada. Isto não significa outra
capitalismo em declínio). Rio de Janeiro: Consequência, 2015. coisa senão que esta concorrência se
torna concorrência de saque, e que
___________. A ascensão do dinheiro aos céus: Os limites as relações das empresas e indivídu-
estruturais da valorização do capital, o capitalismo de cassino e os entre si assumem os traços que
a crise financeira global. Disponível em: http://www.obecoonline. sempre caracterizaram as relações
org/rkurz101.htm. Acesso em out. 2017. entre Estados nacionais, não su-
jeitas a qualquer lei. A desinibição
___________. Ler Marx! Os textos mais importantes de Karl do homem, que já está contida no
Marx para o século XXI. Disponíel em: http://www.obeco-online. conceito de capital e muitas vezes
org/ler_marx.pdf. Acesso em jan. 2019. se manifestou nas atrocidades da
história da imposição do capitalis-
MARINI, Ruy Mauro. A acumulação capitalista mundial e o mo, ameaça tornar-se relação mun-
subimperialismo. In: Outubro, n. 20, p. 27-70, 1° semestre 2012. dial imediata. A globalização tem
por reverso a depravação moral dos
OLIVEIRA, Francisco de. Crítica à razão dualista/O
indivíduos, cuja atomização também
ornitorrinco. Boitempo: 2003. assumiu uma dimensão planetária.
PITTA, Fabio Teixeira. As transformações na reprodução Assim, temos de pensar a teoria da
fictícia do capital na agroindústria canavieira paulista: do globalização de Marx não só em
conjunto com a sua teoria da crise,
Proálcool à crise de 2008. Tese de Doutorado. USP: São Paulo,
mas também em conjunto com a
2016. sua teoria da barbarização do capi-
SERRA, José. Ciclos e mudanças estruturais na economia talismo – assim obtendo a imagem
brasileira de após-guerra. In: Revista de Economia Política, vol. precisa da atual situação mundial”
(Kurz, 2019).
2/2, n. 6, p. 5-45, abr.-jun 1982.
SILVA, Rodrigo Peixoto da; BARICELO, Luis Gustavo; VIAN,
Carlos Eduardo de Freitas. Estoque brasileiro de tratores agrícolas:
evolução e estimativas de 1960 a 2016. In: Rev. de Economia
Agrícola, São Paulo, v. 62, n. 2, p. 21-35, jul.-dez. 2015.
SPOSITO, Eliseu Savério; SANTOS, Leandro Bruno. O
capitalismo industrial e as multinacionais brasileiras. São Paulo:
Outras Expressões, 2012.

Revista do Programa de Pós-Graduação


em Geografia e do Departamento de
Geografia da UFES
Janeiro-Junho, 2019
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ISSN 2175-3709