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mente PALAVRAS

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DE FREUD

MENTE E CÉREBRO
Criador da
psicanálise
discute

cérebro psicologia // psicanálise // neurociências


transitoriedade,
luto e recomeços

MENSAGENS PARA O INCOSCIENTE


Mensagens para o
inconsciente
Como os estímulos subliminares
ANO XVIII NO 214 – NOVEMBRO 2010

influenciam nossas decisões


Bem-estar Caminhos da dor
Efeitos da meditação no Estudo de doença rara ANO XVIII
cérebro controlam a pode resultar no alívio para NO 214
R$ 11,90
ansiedade e o estresse milhões de pessoas c 4,90
carta da
editora

GLÁUCIA LEAL, editora


glaucialeal@duettoeditorial.com.br

Aquilo que sabemos sem perceber


Percepções sobre o mundo chegam até nós a todo recursos não percebidos pela consciência? A inser-
momento e, sem pedir licença, entram “pelos sete bu- ção de imagens “camulfladas”, apresentadas em
racos da nossa cabeça”– como diz a música de Cae- átimos de segundo, poderia nos forçar a consumir
tano Veloso. Ainda recebemos estímulos por meio da determinado produto? É isso que discute o artigo
pele, que “percebe” a temperatura e a umidade. Isso “Mensagens para o inconsciente”, nesta edição.
sem falar em dados mais sutis (hostilidade, indiferen- Embora a maioria dos cientistas que se dedica ao
ça ou interesse alheio, por exemplo) que captamos na estudo desse assunto não acredite que seja possí-
maior parte do tempo em que estamos despertos. vel manipular a vontade alheia com o uso de técni-
Mas nosso cérebro não abarca tudo de uma vez; cas subliminares, esses estímulos não são inócuos:
há muito que fica aquém do limite da consciência. apresentados repetidamente provocam reações ce-
Duvida? Perceba então onde estão seus pés enquan- rebrais que podem ser “vistas” em exames de neu-
to lê este editorial. E qual a sensação tátil do papel roimagem e até mensuradas.
da revista sob seus dedos? Ouve algum som ao re- Também nesta edição apresentamos um texto de
dor? Há algum odor específico no ambiente onde 1915, de Sigmund Freud, Sobre a transitoriedade, na
se encontra? Caso não tivesse respondido mental- qual o criador da psicanálise fala, em linhas gerais,
mente essas perguntas, provavelmente as informa- sobre os ciclos inerentes à vida – e à morte. Enquanto
ções simplesmente não teriam sido consideradas o amigo com quem passeava por um jardim via na
por sua mente e, se não houvesse desdobramentos, efemeridade das flores motivo para entristecer-se,
logo seriam esquecidas. O fato é que em qualquer posto que a beleza se dissipa no tempo, Freud postu-
contexto inúmeros aspectos simplesmente nos es- la que justamente a impermanência faz com que seja
capam. Mas, ainda que não as notemos conscien- tão valioso o que temos – seja prazeres como belas
temente, elas não poderiam estar se alojando em imagens, seja relações, sentimentos... Realmente é
ilustração de andrea ebert

nosso cérebro e influindo em nossas escolhas, de impossível deter aquilo que à nossa revelia se esvai.
alguma forma nos manipulando? Ainda assim é possível escolher onde queremos in-
Durante muito tempo, falou-se sobre os riscos vestir nossa energia: em lamentar o que se foi (ou em
das chamadas “mensagens subliminares”. Mas breve irá) ou desfrutar do que resta...
até que ponto a propaganda, por exemplo, utiliza Boa leitura.
3
sumário 2010

novembro
Capa: Thais Rebello

24 20 Sobre a transitoriedade
por Sigmund Freud
Ao pensarmos que tudo que temos de bom desvanece e se trans-
forma em nada sob a ação do tempo, podemos tanto nos desiludir
quanto valorizar ainda mais o presente

24 capa
Mensagens para o inconsciente
20 por Christof Uhlhaas
Os sentidos captam informações que escapam à consciência, mas
há dúvidas de que esses dados possam manipular nossa vontade.
Pesquisas mostram, porém, que esses estímulos provocam rea-
ções cerebrais mensuráveis

50 34 Escritório, doce escritório


por S. Alexander Haslam e Craig Knight
Autonomia para organizar e personalizar o espaço de trabalho
torna profissionais mais felizes, saudáveis e produtivos

34 40 Desenhando pensamentos
por Vera F. Birkenbihl
44 Técnicas que privilegiam a associação gráfica ajudam a exercitar a
imaginação e o raciocínio e a se conhecer melhor

44 Meditação para combater a ansiedade


por Camila Ferreira-Vorkapic
A prática tem auxiliado muitas pessoas a lidar de forma mais sau-
dável com estresse, depressão, pânico e ansiedade

50 Antes das palavras


por Annette Lessmöllmann
Alguns especialistas acreditam que a capacidade de aprender a lin-
gua materna é inata, outros afirmam que a habilidade se desenvolve
por meio de relações sociais e sofre influência da cultura

54 54 O quantum da consciência
por Andrea Lavazza
A física quântica busca desvendar a consciência, que cientistas
entendem como resultado de interações entre o ser e o mundo

60 O portal da dor
por David Dobbs
60 Um transtorno raro, em alguns casos hereditário, inspira pesquisas
sobre como o cérebro recebe e processa os estímulos dolorosos
4 l mentecérebro l Novembro 2010
s e ç õ e s nas bancas
PSICOLOGIA Crianças, memória e emoção
3 CARTA DA EDITORA E X P E R I M E N TOS E SS E N C I A I S

Os números 3, 4 e 5 da coleção Psicologia – Experimentos


6 PALAVRA DO LEITOR Essenciais estão nas bancas. O terceiro volume apresenta as
BEBÊS & CRIANÇAS descobertas e revelações da psicologia do desenvolvimento
* * * *
8
COMPORTAMENTO EMOÇÕES LINGUAGEM
ASSOCIAÇÃO LIVRE É possível adivinhar o sexo do futuro sobre as capacidades precoces dos bebês e das crianças no
filho? * Como os bebês enxergam? *
Notas sobre atualidades, Eles têm expectativas? * Que tipo de que diz respeito a comportamento e percepção de emoções.
psicologia e psicanálise 51 estar disponíveis? * O que Os números 4 e 5 apresentam 93 experimentos que desvendam
música preferem? * Até que ponto os
pais devem
sas ci
entífi
pesqui a entend
cas
er
atrai mais: a voz ou o rosto da mãe? *
ajudam o eles se
com am
O feto tem personalidade? * Qual é o
form o funcionamento cerebral. O quarto volume aborda os meca-
13 NA REDE efeito das canções de ninar sobre eles?
nismos da memória e da inteligência e o quinto, emoções, per-
O que acontece na internet cepções e sentidos. O psicólogo e pesquisador francês Serge Ciccotti, da Universidade
da Bretanha Sul, assina o número dedicado aos bebês, e Alain Lieury, da Universidade
14 CINEMA
de Rennes, os volumes 4 e 5.
Cartas para Julieta
por Ingrid Esslinger
Sem causa, sem cura
68 CASO CLÍNICO
Em torno de 75% das crianças vítimas do espectro autista re-
Sexo, jogo e dopamina
por Patrick Verstichel cebem tratamentos alternativos. Alguns médicos prescrevem
drogas aprovadas para tratar outros distúrbios que acabam
72 NEUROCIRCUITO causando sérios efeitos colaterais. Na última década, somente
Novidades nas áreas nos Estados Unidos os financiamentos para pesquisa sobre o
de psicologia e neurociências autismo aumentaram em 15% ao ano. Por enquanto, porém, o
que se pode afirmar é que as principais “culpadas” pelo surgi-
78 RESENHA mento da patologia são as variações genéticas e que levará muito
Freud entre Apolo e Dionísio tempo até que seja descoberta uma terapia para curar o distúrbio. No artigo “Desespero
por Maria Consuêlo Passos pela cura do autismo”, da edição no 102 da Scientific American Brasil, a jornalista Nancy
Shute, especialista em temas de neurociências e saúde, discute o assunto.
80 LIVROS

no site

w w w. m e n t e c e r e b r o . c o m . b r
© diego cervo/shutterstock

Tomar sol protege


os neurônios
colunas Dermatologistas costumam alertar: para expor a pele aos raios solares é preciso
aplicar protetor, o que evita câncer e o envelhecimento precoce. Mas fugir do sol
17 PSICANÁLISE também traz consequências graves para o cérebro. Pesquisadores descobriram
Não custa nada que a ausência de vitamina D no organismo pode comprometer funções cogni-
por Christian Ingo Lenz Dunker tivas. Embora seja mais conhecida por promover a saúde dos ossos e regular os
níveis de cálcio, a vitamina desativa enzimas cerebrais que participam da síntese
19 CUIDE-SE! de neurotransmissores e do crescimento neuronal. Com essas descobertas, pes-
Paixão, amor e casamento... quisadores esperam que no futuro a vitamina ajuda no tratamento de pacientes
por Suzana Herculano-Houzel com Alzheimer. Leia mais no site.
81 LITERATURA
Jogo e literatura BLOG DA REDAÇÃO Um espaço de discussão entre as editoras da revista e os leitores.
por Moacyr Scliar Acesse, leia e comente as informações e reflexões.

82 LIMIAR NOTÍCIAS Notas sobre fatos relevantes nas áreas de psicologia, psicanálise e
O futuro é verde neurociências.
por Sidarta Ribeiro AGENDA Programação de cursos, congressos e eventos.
5
palavra
do leitor

BOAS NOVIDADES
Adorei o novo projeto gráfico da Mente&Cérebro. O que mais me entusiasmou foi a
participação da neurocientista Suzana Herculano-Houzel, sou sua fã! Os colunistas
Sidarta Ribeiro e Moacyr Scliar continuam produzindo artigos excelentes. A seção
móvel Psicopatologia do Herói foi outra ideia maravilhosa. Estou ansiosa pelo “caso
clínico” que será publicada em novembro. Parabéns pelos seis anos da revista, que ela
possa continuar auxiliando os profissionais da área e os interessados pelos assuntos
do cérebro e da mente.
Thaís Loss – Curitiba, PR

NOVO PROJETO Ela responde algumas das minhas dú- rém, fiquei decepcionada com o artigo
A Mente&Cérebro está linda! O projeto vidas em relação ao funcionamento do “A hora é esta, presidente” da coluna
editorial está mais moderno e leve. Ficou cérebro masculino e do feminino com Limiar, assinada por Sidarta Ribeiro,
ainda mais prazeroso ler a revista. Gostei linguagem simples e bem didática. As completamente política e idolatrando
muito do artigo “Para que servem os so- ilustrações enriquecem muito o material. o governo Lula. Achei que esse tipo de
nhos”, do neurocientista Sidarta Ribeiro. Vou colecionar. posicionamento não combinou com
Por algum tempo tive medo de sonhar Marcelo Silva – Salvador, BA a revista. Uma coisa seria ressaltar o
e de ter pesadelos, mas acabei desco- aumento das pesquisas sobre a mente
brindo que eles eram reveladores e me UMA DECEPÇÃO durante o governo, e ele poderia até
ajudavam a tomar decisões. Parabéns a Comprei a revista pela primeira vez no ter citado algumas. Outra é dizer que
toda a equipe pelo trabalho. aeroporto de Porto Alegre. Fiquei en- essa gestão do governo é responsável
Júlia Lima – Porto Alegre, RS cantada! Não sou da área, mas sempre por tudo de bom que temos no país
me interessei por assuntos ligados à hoje. Para mim, o posicionamento
EXPERIMENTOS ESSENCIAIS mente. A revista é linda e agradável de do colaborador não combina com
Para mim, a coleção Psicologia – Experi- ler, fiquei realmente impressionada e a revista.
mentos Essenciais foi uma grata surpresa. ansiosa para ver a próxima edição. Po- Lívia Zappa – Cruzeiro, SP

mente
cérebro
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Alagoas/Bahia/Pernambuco/Sergipe: Pedro Amarante
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EDITORA Gláucia Leal Brasília: Sônia Brandão (61) 3321-4304 GERENTE Ana Paula Gonçalves
EDITORA-ASSISTENTE Flávia Ferreira Espírito Santo: Dídimo Effgen PRODUTOR GRÁFICO Wagner Pinheiro
EDITORA DE ARTE Simone Oliveira Vieira (27) 3229-1986 / 3062-1953/8846-4493/9715-7586 ASSISTENTE Paula Medeiros
ASSISTENTES DE ARTE Flávia Couto, Ana Salles e João Simões Rio de Janeiro: Carla Torres (21) 2224-0095 VENDAS AVULSAS Fernanda Ciccarelli
EDITORA DE IMAGEM Silvia Nastari
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ESTAGIÁRIAS Débora Queiroz dos Santos e Karishnanda Margarido EXECUTIVOS DE CONTAS Elisabeth Gonçalves e
COLABORADORES Renata Dias Mundt (tradutora/alemão), Walter Pinheiro Marketing Leitor
Áurea Akemi Arata e Vera de Paula Assis (tradutoras/inglês); ASSISTENTE Michele Lima
Adriana Marcolini (tradutora/italiano); Carlos Eduardo Matos MARKETING
(tradutor/francês); Luiz Roberto Malta, Maria Stella Valli e DIRETOR Lula Vieira NÚCLEO MULTIMÍDIA
Ricardo Jensen (revisão) GERENTE DE MARKETING PUBLICITÁRIO Felix Mifune DIRETORA Mariana Monné

6 l mentecérebro l Novembro 2010


COLEÇÃO PSICOTERAPIAS de interesses: o diagnóstico “fácil” e
Gostei muito da co- principalmente “tratado” com “pílulas FALE CONOSCO
leção Psicoterapias. da felicidade”. Sinto-me feliz em perce-
A ideia foi muito ber que o esforço dos profissionais de
bem elaborada. psicologia não é em vão e que o estímulo
Tel.: 55 11 3038-6300 Fax: 55 3038-1415
Estudei psicolo- ao diálogo e à interação social e familiar
gia e me interes- produz importantes ganhos reais. ATENDIMENTO AO ASSINANTE
De 2a a 6a feira, das 8h às 20h
so pelo assunto. Luiz Carlos Félix Pessoa – São Bernardo Mudança de endereço, renovação,
Infelizmente não do Campo, SP informações e dúvidas sobre sua assinatura:
atendimento@duettoeditorial.com.br
concluí o curso, mas espero um Tel.: 55 11 3038-6300 – Fax: 55 11 3038-1415
dia conseguir terminá-lo. Parabéns
pelas revistas!
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Silvana de Freitas Silva Para tornar a Mente&Cérebro ainda pelo site www.lojaduetto.com.br
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da edição de setembro, no 212. O debate mental, mande sua sugestão para REDAÇÃO
sobre o tema promete ser intenso e Cartas para o editor, sugestões de temas,
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EDITOR: Carsten Könneker www.revistacabelos.com.br
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Edição no 214, ISSN 1807156-2. Distribuição com


exclusividade para todo o BRASIL: DINAP S.A. www.esteticabrazil.com.br
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De segunda a sexta das 8h às 20h

7
livre
associação

EXPOSIÇÕES

Bienal de SP traz arte


para fazer pensar
Com trabalhos de artistas de vários países, o evento
privilegia a interatividade

V er, tocar, sentir, ouvir. Os sentidos


humanos são convidados a entrar
em ação na 29ª Bienal de São Paulo. Com
truiu um labirinto com
referências a obras de
Franz Kafka e Lewis
a proposta de colocar os visitantes em Carroll. Os corredores
contato com diversas maneiras de pen- levam ao interior de
sar e se relacionar com os objetos, esta uma casa que se trans-
edição privilegia a interação do público forma em biblioteca, e
com as mais de 850 obras feitas por 160 os visitantes podem
artistas de vários países. A mostra tem fazer doações de livros.
um cunho político, mas no seu sentido Localizada no segundo
é mais amplo. A palavra de ordem é a andar, o projeto do
interatividade, uma característica de artista Ernesto Neto,
várias instalações. Lembrança e esquecimento, oferece ni-
Uma das mais curiosas é A origem chos para sentar. A proposta é que seja
do terceiro mundo, de Henrique Oliveira, um espaço para descanso e reflexão, que
um túnel que leva a um labirinto cuja en- cria uma pausa ao ritmo do passeio, um
trada remete à imagem do órgão sexual lugar para sentar, deitar, fechar os olhos.
feminino. A obra foi inspirada no quadro A discussão sobre a reforma antimanico-
A origem do mundo (1866), do francês mial também está presente na obra da
Gustave Courbet, que na época causou artista plástica espanhola Dora García,
alvoroço ao retratar uma mulher com as na videoinstalação The deviant majority
pernas abertas. O visitante é convidado (A maioria depravada). Ela apresenta
a entrar por uma porta no formato de um filme de 40 minutos que retrata uma
uma vagina gigante. Lá dentro, encontra investigação feita pela própria artista
outros túneis construídos com compen- no Hospital San Giovanni (ex-hospital
sados de madeira. O chão e as paredes psiquiátrico de Trieste, Itália). O docu-
sinuosas lembram o interior de uma mentário traz o caso bem-sucedido de
caverna. A dupla de artistas brasileiros tratamento das doenças mentais que
Marilá Dardot e Fábio Morais, autores de emblematiza ideias políticas do debate
Longe daqui, aqui mesmo, também cons- sobre a antipsiquiatria. ■

29a Bienal de São Paulo. Parque do Ibirapuera, Portão 3, sem número. Tel.: (11) 5576-7600 ou www.29bienal.
org.br.. Grátis. Até 12 de dezembro.

8 l mentecérebro l Novembro 2010


Linhas que separam
estabilidade e movimento

A tensão entre estabilidade e movimento é o tema da


exposição Ponto de equilíbrio, em cartaz no Instituto
Tomie Ohtake, em São Paulo. As obras são produzidas
com base na cinestesia. Em psicologia este conceito está
associado à sensação de deslocamento do corpo em
relação ao ambiente. A expectativa de compreender o
movimento e deixar-se impulsionar por ele transparece
como um grande desafio vivenciado pelo observador que,
conscientemente ou não, necessita relacionar-se com a
diversidade do espaço. A todo instante é preciso conciliar
informações sobre características, volume e qualidades de

divulgação/tomie otake
planos, cores e volumes.
A mostra que reúne obras de 35 artistas brasileiros e tem
imagens: divulgação

curadoria de Agnaldo Farias – o mesmo da Bienal – e Jaco-


bo Crivelli Visconti integra o Polo Cultural da 29a Bienal de
São Paulo. O equilíbrio
que as obras atingem
é provisório. Trata-se
Entrada da instalação A origem do terceiro mundo de instabilidade. Essa
(acima à dir.) que leva a um labirinto (acima à esq.); palavra resume a situ-
o filme The deviant majority (abaixo) retrata um caso
bem-sucedido de tratamento de doenças mentais ação de tensão, talvez
até de paradoxo, que a
exposição quer iden-
tificar. Uma das obras
que mais flerta com
a arte cinética é Cinco
planetas e algumas luas
(foto), de Caetano de
Almeida. Artistas como
André Komatsu, Angelo
Venosa, Caetano Dias,
José Bechara, Sergio
Sister, Tony Camargo,
Tunga e Waltercio Cal-
das também partici-
pam da mostra. ■

Ponto de equilíbrio. Instituto Tomie Ohtake. Rua dos Coropés, 88, Pinheiros, São Paulo.
Tel.: (11) 2245-1900. De terça a domingo, das 11h às 20h. Grátis. Até 14 de novembro.

9
livre
associação

MOSTRA

Transformação e humor
na obra de Vik Muniz

A os vinte e poucos anos, o paulistano Vik Mu-


niz levou um tiro na perna quando tentava
apartar uma briga. Foi indenizado pelo autor do
INUSITADAS E LÚDICAS:
crânio com nariz de palhaço
disparo e, com o dinheiro, foi para os Estados e bola murcha

Unidos, onde estudou artes plásticas e iniciou


uma carreira de sucesso. Hoje, é um dos artistas
mais consagrados no cenário mundial, conheci-
do por transformar em arte alimentos, sucata,
páginas de revistas, monitores de computador e
até diamantes. Interessados em conhecer mais
sobre as obras do artista têm até 5 de dezembro
para visitar a exposição Relicário, na Galeria Laura
Alvim, no Rio de Janeiro.
A mostra reúne um conjunto de trabalhos
que o artista produziu há 20 anos, quando ainda
morava em Nova York, e alguns inéditos. São
apresentadas obras tanto inusitadas quanto lúdicas, como um
crânio com nariz de palhaço, uma ampulheta da qual um tijolo
substitui a areia, um sarcófago feito de tupperware, luvas de
seis dedos e uma bola de futebol murcha. Os trabalhos são

divulgação/fotógrafo: lucas blalock


“divertidos”, como o próprio artista descreve. O interessante
em suas obras é que ele tira objetos do senso comum e cria
uma espécie de teatro de subversões. “Quero fazer a pior
ilusão possível, mas que, ainda assim, engane os olhos dos
espectadores”, explica. ■
Relicário. Galeria Laura Alvim. Av. Vieira Souto, 176, Ipanema, RJ. Tel.: (21) 2332-
2017. De terça a domingo das 13h às 21h. Grátis. Até 5 de dezembro.

INCLUSÃO SOCIAL

Instituição produz e empresta audiolivros

O uvir histórias ajuda a desenvolver a criatividade,


a linguagem e estimula a leitura. E ao longo de
toda vida é ferramenta fundamental, não há nem dis-
dade promove a inclusão social tanto de deficientes
visuais quanto de idosos com dificuldade de leitura.
A audioteca possui obras de áreas como antropolo-
cussão sobre isso. Para cegos, porém, o acesso à lei- gia, história, psicanálise, medicina, administração e
tura em braile nem sempre é fácil. Tentando amenizar literatura infantil, todos em fita cassete, CD ou MP3.
esse problema, a Audioteca Sal & Luz, instituição sem Os interessados, de qualquer parte do país, podem
fins lucrativos, do Rio de Janei ro, produz e empresta escolher o livro pelo site ou solicitar por telefone. Os
audiolivros. Com mais de 1.700 associados e cerca exemplares são enviados gratuitamente pelo correio.
de 2.700 títulos, entre didáticos e literatura, a enti- ■ Informações: www.audioteca.org.br

10 l mentecérebro l Novembro 2010


livre
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TEATRO

O discurso do louco

A insanidade sempre fascinou o homem: a busca pela com-


preensão é secular e aponta para o questionamento sobre
os sentidos da existência. A leitura psicanalítica da loucura teve
início há pouco mais de 100 anos: o enlouquecimento passou
a ser visto como constitutivo da experiência humana, não o
oposto à razão, mas parte dela. Na época, Freud afirmou que
o delírio, o discurso do louco, tem um sentido e está articu-
lado à história do sujeito. E mais ainda: disse que a tentativa
de cura é um processo restituidor, um esforço de construção
de novos sentidos psíquicos. É desses devaneios que trata o
drama O nórdico, em cartaz em Salvador. O espetáculo mostra
os conflitos de um homem esquizofrênico às voltas com a
solidão e alucinações.
Dirigida e encenada por Thor Vaz (foto), com trilha sonora
executada ao vivo pelos músicos Tomaz Mota e Leopoldo Vaz
Eustáquio, a peça apresenta um personagem cujas companhias

divulgação/ fotógrafos: maria e xavier


misteriosas são animais que aparecem, vez por outra, e não
lhe dão atenção. Mas, na verdade, os bichos são criações do
inconsciente do protagonista. ■

O nórdico. Sesi do Rio Vermelho. Rua Borges dos Reis, no 9, Rio Vermelho, Salvador,
BA. Tel.: (81) 3616-7061. De R$ 8,00 a R$16, 00. Dias 11 e 12 de novembro às 20h.
O espetáculo viajará pelo país, mas as datas ainda não estavam marcadas até o
fechamento desta edição.

PROJETO

USP anuncia início da construção do Museu da Tolerância


A ideia de construir o
Museu da Tolerância
dentro da Universidade
O principal objetivo
dos idealizadores do pro-
jeto é criar espaço para es-
de São Paulo (USP) co- tudar, discutir e denunciar
meçou em 2004, quando intolerâncias políticas,
Adolfo José Melphi, o religiosas, culturais e so-
então reitor da instituição, ciais. Para tanto, haverá
concedeu permissão de seções temáticas sobre
uso de um terreno para índios, africanos e judeus,
abrigar o prédio. Seis anos minorias tradicionalmen-
depois, a universidade te vítimas de intolerância.
MAQUETE: obras devem começar dentro de um ano
anunciou que o projeto Segundo o projeto, o mu-
será construído próximo seu terá duas bibliotecas:
à Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) e uma com acervo documental, testemunhos, arquivos e fotos
que as obras serão iniciadas em um ano. O museu estará e outra dedicada à literatura infanto-juvenil. Abrigará tam-
ligado ao Laboratório de Estudos sobre a Intolerância (LEI) bém cinemateca, auditório, galerias para exposições, salas
divulgação

da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas e de multimídia, laboratórios de restauração e conservação


seguirá um conceito diferente dos museus tradicionais. e espaços de convivência. ■
11
livre
associação

PSICOLOGIA HOSPITALAR

Em busca de um jeito delicado de dar notícias difíceis


D iagnósticos complicados e a morte de pacientes,
infelizmente, são temas recorrentes na rotina dos
profissionais da saúde. Muitos sofrem com isso e alguns
da saúde e produziu o livro Comunicação de notícias difíceis:
compartilhando desafios na atenção à saúde, organizado por
Priscila Magalhães, coordenadora de Política de Humaniza-
chegam a ter problemas emocionais quando o tratamento ção do Inca. Os profissionais narram situações delicadas por
que propõem não produz resultados. Mas qual é a melhor que passaram no contato com familiares e pacientes com
maneira de informar um diagnóstico grave ao paciente e câncer e como conseguiram superá-las. Com tiragem de 10
à família sem causar pânico? Esse é o dilema que muitos mil exemplares, o livro será distribuído gratuitamente, a partir
profissionais enfrentam no dia a dia. Para ajudá-los, o Insti- de novembro, na rede hospitalar do Sistema Único de Saúde
tuto Nacional de Câncer (Inca), em parceria com o Hospital (SUS). ■ Para baixar da internet acesse: http://www1.inca.
Albert Einstein, reuniu depoimentos de vários profissionais gov.br/inca/Arquivos/comunicando_noticias_dificeis.pdf

“Todo homem é culpado do “Duas coisas me surpreendem:


bem que não fez.” a inteligência dos animais e a
bestialidade dos homens.”

reprodução
Voltaire, pseudônimo de Françoise-Marie Arouet,
filósofo, poeta e historiador francês (1694-1778) Flora Tristan, romancista francesa (1803-1844)

12 l mentecérebro l Novembro 2010


o que há para ler e ver

na rede
NA ONDA DOS Com que roupa eu vou?
REALITIES Comprar exageradamente pode ser uma
forma patológica de aplacar angústias.
Os primeiros dias sem fumar podem ser bastante Pesquisas apontam que 94% dos
desconfortáveis para quem está tentando compradores compulsivos são mulheres.
abandonar o cigarro. Irritabilidade, insônia, aumento de peso, ansiedade e Roupas, sapatos, bolsas e maquiagens
cansaço são alguns dos sintomas que os ex-fumantes terão de enfrentar. É por estão entre seus principais objetos
tudo isso que os publicitários João Bruno Werzbitzki, Ilana Stivelverg e Fernando de desejo. Mas não precisa nem ter
Christo estão passando. A diferença é que eles criaram um reality blog para comportamento patológico para encontrar
que outras pessoas possam acompanhar o drama cotidiano dos três colegas de dificuldades de resistir a uma vitrine
trabalho. A ideia surgiu quando eles foram encarregados de criar uma campanha atraente. Imagine-se escolhendo seis
para um programa on-line que ajuda as pessoas a parar de fumar. No Parar itens do guarda-roupa – não incluindo
de Fumar dá Trabalho (www.parardefumardatrabalho.com.br) o trio relata as acessórios e roupas íntimas – e passar
experiências e dificuldades de se livrar de uma vez da dependência. No espaço um mês vestindo apenas isso. Essa é a
virtual eles marcam quanto estão economizando sem o cigarro no Cofre cof proposta do Six Items or Less, projeto
(foto) e, no final de três meses os internautas que acompanham a saga vão criado pelas amigas Heidi Hackemer e
sugerir como devem gastar o dinheiro. Tamsin Davies. A experiência funciona
como uma “dieta das roupas”; além de
testarem sua “resistência” elas registram

Aulas on-line para cuidadores tudo no www.sixitemsorless.com e assim


compartilham sentimentos, reações e
de pacientes com câncer até recaídas. Muitas pessoas gostaram
da ideia e mais de 100 espalhadas pelo
O Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), ligado à Secretaria de mundo já aderiram à proposta.
Estado da Saúde e à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
(FMUSP), lançou um curso on-line dirigido a cuidadores. O programa voltado para
famílias ou profissionais que cuidam dos doentes em casa aborda temas como

© fanny71/shutterstock
desenvolvimento, diagnóstico e tratamento da patologia. As aulas ajudam na
compreensão de aspectos biológicos, psicológicos, sociais e éticos. O material está
disponível para estudantes e profissionais da área da saúde. O curso básico sobre
câncer é gratuito, e para participar basta acessar: www.icesp.org.br.

Ilusão ou realidade?
Imagine trilhos de trem bem no meio da sua sala ou uma escada rolante surgindo na
porta do quarto. Ao olhar para isso, você obviamente sabe que é um truque, mas alguns
dos seus neurônios processam a informação como se ela fosse real, causando o que
chamamos de ilusão de óptica. A Couture Déco, empresa francesa de design, criou
uma linha de adesivos em 3D que causam um efeito impactante. Há nove opções de
fotografias, entre elas uma estante cheia de livros, um armário vazio, um corredor de
um castelo e até as famosas escadarias de Montmarte, em Paris. O trabalho é feito
em trompe l’oeil (do francês “engana-olho”), técnica que utiliza imagens realistas. Os
reprodução

adesivos – com tamanho de uma porta convencional – e podem ser comprados no


endereço: www.couturedeco.com.
13
cinema
CARTAS PARA JULIETA
105 minutos – Estados Unidos, 2010
Direção: Gary Winick
Elenco: Amanda Seyfried, Marcia DeBonis
Gael García Bernal, Giordano Formenti

Mensagens de Verona
Cartas para Julieta, dirigido por Gary Winick, aborda um dos grandes anseios
dos seres humanos: o encontro do amor
// por Ingrid Esslinger

O amor por um homem ou por uma


mulher, como diz Rubem Alves,
O filme fala de perdas ao que é depositado transferencialmente no
terapeuta – e pode se caracterizar como uma
acontece quando, repentinamente, ao ver e reencontros; em uma perigosa sedução.
um rosto, tem-se a impressão de havê-lo leitura psicanalítica, No filme, Sophie (vivida pela atriz Aman-
visto lá, dentro da alma. Ou, como sugere é possível pensar da Seyfried) é levada pela identificação com
Cartas para Julieta, o amor pode resistir ao a remetente de uma carta deixada no Balcão
tempo e à morte. Talvez por isso, no filme, na necessidade da de Julieta há mais de 50 anos por Claire,
as pessoas realmente escrevem para Julieta protagonista de ser representada por Vanessa Redgrave. Ao ler
(de Shakespeare) pedindo conselhos. Por reconhecida e, ao a carta, Sophie descobre que a jovem Claire,
que a destinatária é a personagem, já que
ela não pôde viver seu famoso romance
mesmo tempo, aceitar numa viagem de férias, apaixonou-se por
um rapaz italiano, mas temendo a reação
por causa das proibições impostas pelas migalhas de afeto da família, decidiu voltar para a Inglaterra.
duas famílias? Penalizada, Sophie escreve uma resposta
Acredito que esta seja a grande questão do filme. Pai- à senhora, que meio século depois reencontra seu grande
xão é fome e só floresce na ausência do objeto amado. amor, com a ajuda da jovem americana.
Mais precisamente, vive da ausência do objeto amado. A É possível dizer que o filme trata de uma jornada em
pessoa apaixonada não enxerga o outro, vê o que projeta busca do que se perdeu. O objetivo de Claire é mais palpável,
nele. No amor, é possível perceber o outro e “apesar de”, encontrar Lorenzo (Franco Nero); já o de Sophie é resgatar
ainda amá-lo. Já a paixão não resiste ao tempo nem ao o amor, que acredita ter se perdido em sua relação com o
teste de realidade. marido. Para isso, contará com a ajuda de Charlie (Chris-
É na impossibilidade da realização do encontro entre topher Egan), neto de Claire, que a contragosto passa a
Romeu e Julieta que reside a perpetuação do sentimento. acompanhá-las. Seduzida pela tarefa de buscar o verdadeiro
Neste sentido, o amor vence a morte – basta observarmos amor, ela termina o casamento em plena lua de mel. Essa
que os mortos são sempre idealizados. Assim, é possível ruptura é, na realidade, reflexo da distância de Sophie em
pedir conselhos para a personagem cuja história de amor relação ao seu próprio mundo interno. Uma voz de fora (a
termina em morte, mas não com a morte. As “secretárias carta perdida há 50 anos) a despertou.
de Julieta”, que recolhem as cartas a ela endereçadas, no O filme traz também a temática das perdas por morte e
imaginário das pessoas são depositárias da sabedoria, com abandono, já que a mãe a deixou quando a jovem ainda era
a tarefa de acolher os sofrimentos e os aflitos. Podemos, criança. Numa leitura psicanalítica, esta situação poderia
neste ponto, comparar aquilo que é entregue às “secretárias” explicar a necessidade da protagonista de ser reconhecida
14 l mentecérebro l Novembro 2010
mas, ao mesmo tempo, aceitar migalhas de afe-
to. Ela sente o abandono como uma “escolha”,
diferentemente da morte (exceto a morte por
suicídio), o que lhe causa enorme sentimento de
menos valia, de baixa autoestima... Numa das ce-
nas mais bonitas, que evoca conforto e intimidade,
a mulher idosa reedita o papel de mãe, penteando
os cabelos da mais jovem. O rosto de ambas é
refletido no espelho, e coloca-se aí a passagem
do tempo e do envelhecimento. Há que haver a
morte para que nasça o novo.
O filme termina com o casamento da avó
com seu amado, Lorenzo, e com o encontro de
Sophie com um jovem com o mesmo nome do

imagens: divulgação
ancião. Este seria o verdadeiro “final feliz”? Talvez.
O filme sugere, porém, que o afeto não resiste
ao encontro. A mulher de um dos “Lorenzos”
que Claire encontra ao longo de sua busca pede
desesperadamente que o levem embora! O casa-
mento da alma resistirá ao casamento como instituição? Podemos pensar nas palavras de Clarice Lispector: “Porque
O que faz com que um rosto que juramos amar por toda eu fazia do amor um cálculo errado, pensava que, somando
a vida se perca? Como escreve Rubem Alves, “longe do as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as
outro é possível amá-lo. Na distância ele não perturba sua incompreensões é que se ama verdadeiramente”. e
m c

bela imagem. Ela está no retrato, como sempre esteve,


INGRID ESSLINGER é psicóloga, psicoterapeuta com formação em
congelada eternamente”.
psicodinâmica psicanalítica, terapia de casais e família e psicoterapia do
Ou, dito de outra forma, “as coisas tangíveis tornam-se enlutamento. É doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo
insensíveis à palma da mão”. Gostaria de voltar à vida de (USP) e autora do livro De quem é a vida, afinal? (Casa do Psicólogo,
Lorenzo e da avó ou de Sophie e de “seu Romeu” 20 anos 2006), entre outros.
depois. Será que ainda encontraríamos o brilho da relação? Assista ao trailer do filme no site: www.mentecerebro.com.br

15
psicanálise
inconsciente a céu aberto

Não custa nada CHRISTIAN INGO


LENZ DUNKER,
psicanalista, professor
livre-docente do Instituto de
Gestos valiosos como gentilezas, elogios sinceros Psicologia da Universidade
e dedicação criam lógicas específicas no psiquismo de São Paulo (USP)

A gratuidade exerce um estranho fascínio sobre nós. Ges-


tos espontâneos, crimes imotivados, atos imprevisíveis
de heroísmo ou generosidade, a violência sem justificativa
estrita lei de contrapartida, mas também porque engendra
um novo tipo de satisfação. Como dizia Machado de Assis,
a gratidão de quem recebe um benefício é bem menor do
ou a crueldade encontram-se nesta insólita categoria dos que o prazer de quem o faz. O dom cria uma obrigação que
eventos que não podemos antecipar, prever ou controlar. não é uma necessidade compulsória, ou seja, a “obrigação”
A tese psicanalítica nesta matéria é relativamente simples. de “livremente” retribuir. Daí que em português dizemos
Atos sentidos como gratuitos possuem a mesma estrutura “obrigado!” para nos referir a atos que são “não obriga-
da relação primária de amor. Diz-se que a criança é amada tórios”. A gênese da gratidão surge como um capítulo da
de forma incondicional, ou seja, independentemente do seu lógica do reconhecimento, por meio da qual nos tornamos
“desempenho”, das suas arbitrariedades ou da voluntarie- sujeitos, capazes de reciprocidade, reflexividade
dade de suas ações. Apesar de suas fraquezas e talvez e solidariedade. Este segredo da forma pela
por causa de suas fragilidades doamos aos pequenos qual o dom é exercido é altamente cobiçado.
nossa disposição e ternura. Sem ele as relações de trabalho se revelariam
Lacan denominou de dialética do dom o pro- como obscena exploração, as relações de
cesso pelo qual a criança apreende como o ato de ensino como mera imposição normativa e as
doação impõe-se em sua força e determinação, relações afetivas como pura troca instrumental
tanto ao objeto que é doado quanto ao agente de uso e interesse.
e ao destinatário. É uma grande conquista Também nos relacionamentos familiares e
quando a criança é capaz de oferecer uma amorosos esperamos “algo a mais” do que
flor caída ou um rabisco qualquer como o desenvolvimento de objetivos recíprocos.
prova de amor ou prova de gratidão. Este Ou seja, induzir esse plus que não custa nada
gesto é recebido pelo adulto como uma pode tornar-se a condição que prova que este
espécie de devolução, uma contrapartida funcionário não é apenas mais um funcionário
amorosa ao trabalho antes empenhado. Este ato que pode ser trocado por qualquer outro como
mostra sua estrutura dialética, pois inverte a po- um objeto obsoleto. Empresas sonham com
sição inicial de passividade da criança; substitui aquele que dá algo a mais, assim como o capi-
o valor funcional dos objetos pelo “não valor” tal que se reproduz magicamente, sem custar
arquivo pessoal (foto); gonçalo viana (ilustração)

contingente dos signos devolutivos e repara ou nada. Relatórios adicionais, horas extras, cursos
reconstitui frustrações e privações inerentes à re- compulsórios de aprimoramento, procedimen-
lação de cuidado. Ao caráter altamente simbólico tos de segurança, de prevenção, de controle e
do dom e seu potencial de moldagem de nosso de aprimoramento pessoal são contabilizados
imaginário amoroso acrescente-se que no dom cada vez mais como uma poluição de coisas
há algo de real irredutível à lógica das trocas. gratuitas. Não custa nada ser gentil, elogiar o
É esse “a mais”, que não custa nada e muda próximo ou sorrir para os outros; contudo, aqui
tudo, não só porque cria algo novo e diferente começa o próximo capítulo: como fazer alguém
de um comércio de investimentos ou de uma te odiar por ser obrigado a te amar... e
m c

17
cuide-se!
Paixão, amor,
casamento... SUZANA
HERCULANO-HOUZEL,
neurocientista,
professora da
Pesquisas neurocientíficas mostram que é possível Universidade Federal do
sentir-se encantado pela mesma pessoa por décadas Rio de Janeiro (UFRJ)

V ocê já se imaginou
vivendo 10, 20 ou 50
anos com a mesma pessoa?
torcemos para que o mesmo aconteça no cérebro dela, asso-
ciando um valor cada vez mais positivo à nossa própria compa-
nhia, claro). É o que fazemos no período de namoro, quando
Sentindo sempre o mesmo conversas interessantes, passeios agradáveis, boa música, boa
prazer em sua companhia, o comida e carinho oferecem prazeres que vão sendo associados
mesmo conforto em seus bra- à companhia do outro. Se rola sexo, então, melhor ainda: o
ços? Se a perspectiva parece prazer do orgasmo funciona como uma cola extraordinária
interessante, agradeça ao seu para o sistema de recompensa, que atribui (corretamente!)
cérebro (e se não lhe agrada, a satisfação incrível àquela pessoa específica (mas é verdade
a culpa é dele, também). De que isso não funciona tão bem em alguns cérebros...).
certa forma, é curioso que Com a repetição, o sistema de recompensa vai apren-
laços afetivos fortes, como dendo a ficar ativado não apenas em resposta, mas também
os amorosos, sejam tão em antecipação à presença daquela pessoa. Esse prazer
importantes para nossa es- antecipado é a motivação, que nos dá forças para alterar
pécie. Tecnicamente, viver compromissos, abrir espaço na agenda e ficar acordado
em sociedade, ou mesmo madrugada adentro. Essa é a paixão, estado de motivação
em pares, não é obrigató- enorme em que se faz tudo em nome de mais tempo na
rio para a sobrevivência presença do ser amado.
de nenhum animal – vide Quando vira amor? Essa questão é complicada, mas existe
tantos mamíferos, aves e outros bichos que procuram um ao menos uma definição operacional curiosa: passado o ardor
par somente para o acasalamento e imediatamente depois da paixão, descobre-se que se ama alguém quando pensar
seguem cada um o seu caminho. em uma vida sem ela causa angústia sincera e profunda. O
Se gostamos de formar pares a ponto de investir boa parte amor é esse laço que faz seu cérebro achar que sua felicidade
de nossa energia, tempo e esforços cognitivos em convencer está vinculada à presença e à felicidade do outro e que fazê-
um belo exemplar do sexo interessante de que nós somos lo feliz dá novo sentido à sua vida. Nesse estado, desejar o
a pessoa mais sensacional e desejável na face da Terra, é casamento é apenas natural.
porque o sistema cerebral humano, como o de outros ani- Se é para sempre? Depende de vários fatores, alguns
beto felício (foto); gonçalo viana (ilustração)

mais sociais, é capaz de atribuir um valor positivo incrível à deles fora de nosso alcance, como ser traído (e não apenas
companhia alheia. Isso é função do sistema de recompensa, sexualmente). A boa notícia da neurociência sobre a longe-
conjunto de estruturas no centro do cérebro especializadas vidade dos relacionamentos amorosos é que eles não estão
em detectar quando algo interessante acontece, premiar-nos necessariamente fadados ao esgotamento: é, sim, possível
com uma sensação física inconfundível de prazer e satisfação se sentir apaixonado décadas a fio pela mesma pessoa. E
e ainda associar esse prazer com o que levou a ele – o que não é mero acaso de sorte: você pode fazer sua parte. É
pode ser uma ação, uma situação, um objeto ou... alguém. uma questão de continuar inventando e descobrindo novos
Conforme o prazer se repete na companhia dessa pessoa, prazeres a dois. Tudo para manter o sistema de recompensa
o valor positivo que atribuímos a ela é reforçado (enquanto do outro interessado em você... e
m c

19
Sobre a

20 l mentecérebro l Novembro 2010


P S I C A N Á L I S E

transitoriedade
Ao pensarmos que tudo que temos de bom – as belezas da
natureza, o universo de sentimentos que cultivamos, nossos
amores e até sabedoria – desvanece e se transforma em nada
sob a ação do tempo, podemos tanto nos desiludir quanto
valorizar ainda mais o presente

Texto de

H
á algum tempo, em um dia de verão, fiz um passeio por um campo florescente em companhia
de um amigo, um jovem e calado poeta, que já desfruta de considerável fama. Ele admirava
a beleza da natureza à nossa volta, mas sem tirar grande experiência dela. Incomodava-o a
ideia de que toda aquela beleza estava fadada a se esvanecer, no inverno teria se dissipado,
assim como se perde a beleza humana e todas as coisas bonitas e nobres que os homens já
criaram e podem vir ainda a criar. Todas as outras coisas que ele, de alguma forma, teria amado e admirado
lhe pareciam desvalorizadas pela sina da transitoriedade à qual estão destinadas.
Sabemos que duas noções psíquicas diversas podem surgir do reconhecimento de que tudo, mesmo o
ilustrações de andrea ebert

que é belo e perfeito, se deteriora. Uma delas leva ao aflito fastio do mundo do jovem poeta; a outra, à insur-
reição contra a enunciada fatalidade. Podemos pensar ser impossível que todas essas maravilhas da natureza
e da arte, de nosso universo de sentimentos e do mundo exterior realmente tenham de se desfazer em nada.
Seria insensato e ultrajante demais acreditar nisso. Elas têm de subsistir de alguma forma, alheias a todas as
influências destrutivas.

21
P S I C A N Á L I S E

Essa exigência de eternidade é um desejo “Aqueles


humano tão evidente que se costuma pleitear
valor de realidade para esse anseio. Aquilo que que parecem
nos aflige, porém, pode ser até mais real. Não dispostos a
posso contestar a impermanência generalizada uma renúncia
para tudo o que existe nem encontrar exceção
para o belo e o perfeito. Mas contestei o poeta
permanente
pessimista, quando ele dizia que a transitorie- ao prazer
dade do belo traz consigo a desvalorização da pelo fato de o
própria beleza. Acontece justamente o contrário,
há uma valorização! A importância de tudo o
objeto valioso
que se transforma e por fim se esvai está asso- não ter se
ciada justamente a sua escassez no tempo. É a revelado durável
restrição da possibilidade de fruição que eleva a encontram-se
preciosidade de algo. Enquanto caminhava com esplêndida. Assim, tampouco pude compreen-
meu amigo, declarei ser incompreensível que a apenas em luto der como a graça e a perfeição da obra de arte e
ideia da transitoriedade do belo pudesse turvar pela perda” do trabalho intelectual poderiam perder seu valor
o prazer despertado pela beleza. devido à limitação temporal. Pode ser que venha
No que diz respeito à natureza, as flores re- um tempo em que as pinturas e as esculturas
tornam exuberantes no ano seguinte, após cada que hoje admiramos estejam arruinadas, ou
destruição causada pelo inverno, e esse regresso que o ser humano, nascido depois de nós, não
pode ser qualificado, em relação à duração de compreenda mais a obra de nossos poetas e in-
nossa vida, como eterno. Já a beleza do corpo telectuais; ou mesmo é possível que chegue uma
e do rosto humanos, típica da juventude, nós época geológica em que tudo o que vive sobre a
a vemos perder-se para sempre no decorrer Terra desapareça. Se o valor de todas essas coi-
de nossa própria vida, mas essa efemeridade sas belas e perfeitas é definido apenas pelo seu
acrescenta aos seus encantos um outro, novo. significado para nossa vida sentimental, então
Se existe uma flor que desabrocha apenas por ele não precisa sobreviver a nós, independendo,
uma noite, ela não nos parece por isso menos portanto, de sua duração tem-
poral absoluta.
Eu pensava que essas con-
O valor da escassez do tempo siderações eram incontestá-
veis, mas percebi que não havia
Sobre a transitoriedade é um dos ensaios menos divulgados de Sig- causado grande impressão ao
mund Freud, o que pode ser facilmente compreendido, já que nesse meu amigo poeta. Depois des-
escrito o criador da psicanálise não apresenta nenhuma informação se insucesso, percebi que um
teórica inédita. O original alemão, de 1915, apresenta amostra os forte momento afetivo turvava
dotes literários do autor e traz uma reflexão interessante: aquilo que seu julgamento. Provavelmente
amamos e admiramos é valorizado justamente por seu aspecto tran-
fora a rebelião psíquica contra
sitório. Ou seja, a constatação da limitação da existência dos objetos
(sejam coisas, situações ou pessoas) nos quais investimos nosso afeto os
o luto que lhe tirara o prazer pela apreciação do
torna ainda mais preciosos no momento em que podemos desfrutar deles. belo. A ideia de que essa beleza era transitória fez
Está subentendida aí a ideia de que só o que temos de fato o presente e nossa com que ele experimentasse antecipadamente
capacidade de reconstrução diante daquilo que foi destruído e talvez possa o luto pelo seu declínio, e como o psiquismo se
ser reconstruído “em terreno até mais firme e de forma mais duradoura do desvia instintivamente de tudo o que é doloroso,
que antes”. O momento histórico no qual o ensaio foi produzido tem influ- ele sentia seu prazer pelo belo prejudicado pela
ência sobre seu conteúdo: a Primeira Grande Guerra, então em seu segundo ideia de sua impermanência.
ano, castigava a Europa e despertava todo tipo de incertezas. O texto foi redi-
O luto pela perda de algo que amamos ou
museu freud, londres

gido a convite da Sociedade Goethe de Berlim para um volume comemorativo


lançado no ano seguinte com o título O país de Goethe (Das lands Goethe). A admiramos parece tão natural ao leigo que ele
edição luxuosa contou com contribuições de vários autores e artistas. O arti- o considera óbvio. Para o psicólogo, no entanto,
go abrange um enunciado da teoria do luto contido em “Luto e Melancolia”, o luto é um grande enigma, um daqueles fenô-
escrito alguns meses antes, mas só publicado dois anos depois. menos que nós mesmos não esclarecemos,
22 l mentecérebro l Novembro 2010
andrea ebert
mas ao qual atribuímos inúmeras obscuridades. coisas que amávamos e nos mostrou a efemeri-
Imaginamos possuímos que certa capacidade dade de outras que considerávamos perenes.
de amar, que podemos chamar de libido, se Não admira que nossa libido, tão empobre-
voltou ao próprio Eu (Ich) nos primórdios do cida de objetos, tenha investido com grande
desenvolvimento. Mais tarde – mas na verdade intensidade naquilo que nos restou; e que o amor
desde muito cedo – a libido se desvia do Eu, pela pátria, a afeição pelo próximo e o orgulho
voltando-se para os objetos que internalizamos. de nossas similaridades tenham sido repentina-
Se os objetos são destruídos ou se os perdemos, mente fortalecidos. Mas aqueles outros bens,
então nossa capacidade de amar se torna livre agora perdidos, será que realmente deixaram
de novo. Ela pode tanto tomar outros objetos de ter valor para nós por terem se revelado tão
como substitutos ou retornar temporariamente efêmeros e incapazes de resistir às mudanças?
para o Eu. Não compreendemos, porém, por que Para muitos entre nós, parece que sim; mas eu,
motivo esse desligamento libidinal dos objetos em particular, considero essa postura injusta.
é necessariamente um processo tão doloroso, e Acredito que aqueles que pensam assim e pa-
não podemos, neste momento, fazer deduções recem dispostos a uma renúncia permanente
com base em nenhuma suposição. Vemos ape- ao prazer pelo fato de o objeto valioso não ter
nas que a libido se agarra a seus objetos e não se revelado durável, encontram-se apenas em
quer abrir mão daqueles que foram perdidos, luto pela perda. Porém, sabemos que o luto, por
mesmo quando o substituto já está disponível. mais doloroso que possa ser, dissipa-se espon-
Isso, portanto, é o luto. taneamente. Se renunciamos a tudo o que foi
A conversa com o poeta ocorreu no verão perdido, nossa libido se torna livre, por sua vez,
antes da guerra. Um ano mais tarde, o conflito para substituir, enquanto ainda somos jovens e
eclodiu, de fato roubando as belezas do mun- cheios de vida, os objetos perdidos por outros
do. Ela destruiu não apenas as paisagens que novos e, se possível, tão ou mais preciosos.
atravessou e as obras de arte que roçou em seu Existe a esperança de que nada diferente disso
caminho, mas também arruinou nosso orgulho ocorra com as perdas desta guerra. Quando o
pelos feitos da cultura, o respeito por tantos luto houver sido superado, será revelado que
intelectuais e artistas, nossa esperança de uma nossa reverência pelos bens culturais não foi
superação e, finalmente, as diferenças entre afetada pela experiência de sua fragilidade. Nós
povos e raças. A guerra contaminou a honorável PARA SABER MAIS vamos reconstruir tudo o que a guerra destruiu,
imparcialidade das ciências, expôs nossa vida Freud e a filosofia. J. Birman. talvez sobre uma base ainda mais firme e de
Jorge Zahar, 2003.
pulsional em sua nudez, libertou dentro de nós Freud: conflito e cultura. M.
forma mais duradoura que antes.
os maus espíritos que acreditávamos estarem Roth. Jorge Zahar, 2000. Viena, novembro de 1915
permanentemente domados pela educação Freud: uma vida para o nosso Sigmund Freud
tempo. P. Gay. Companhia
secular e por nossas mais nobres intenções. Ela das Letras, 1989.
voltou a tornar nossa pátria pequena e as outras Vida e obra de Sigmund Freud. RENATA DIAS MUNDT é mestre em tradução e tra-
terras distantes e vastas. Ela nos roubou tantas E. Jones. Imago, 1989. dutora da Mente&Cérebro desde 2004.

23
inconsci nte
M ensagens
para o

Os sentidos captam informações que


escapam à consciência, mas há dúvidas
de que esses dados possam manipular
nossa vontade. Pesquisas mostram,
porém, que esse estímulos provocam
reações cerebrais mensuráveis

// por Christof Uhlhaas

Q
uando falamos em estímulos subliminares, em
geral pensamos em imagens que aparecem de
forma tão fugaz a ponto de não serem percebidas
pela consciência, mas que mesmo assim são ca-
pazes de influenciar as nossas decisões. Alguns
acreditam que esse recurso permite criar determinados estados de
ânimo e até obter ganhos, influenciando as pessoas a fazer certas
escolhas. Usada de forma indiscriminada, essa técnica poderia
ser um risco nas mãos de publicitários e políticos. Os cientistas
demonstraram, porém, que o efeito da percepção subliminar não
é tão espetacular como durante muito tempo se acreditou.
Essas técnicas vieram à tona em 1957, com uma experiência
desenvolvida pelo publicitário americano James Vicary (1915-
1977), especialista em pesquisa de mercado. Durante uma pro-
jeção em um drive-in, ele exibiu – em velocidade muito alta, sem
que o público notasse – uma mensagem na tela: “Coma pipoca
e beba Coca-Cola”. Na ocasião, Vicary anunciou que o sistema
thais rebello

aumentou em 20% o consumo do refrigerante e em 60% o de


pipoca. No entanto, cinco anos mais tarde o próprio Vicary admitiu
24 l mentecérebro l Novembro 2010
C A P A

25
C A P A // P E R C E P Ç Õ E S S U B L I M I N A R E S

que nunca levara a cabo uma experiência nesses te, Delta. Após a projeção, os 400 congressistas
moldes, e que queria apenas incrementar o fatu- tinham de escolher entre o Delta e outro produto,
ramento de sua agência publicitária. Mas o mito Theta. Resultado: 81% escolheu a primeira op-
da manipulação inconsciente já tinha nascido. ção. Mas nunca se procedeu a uma comprovação
Posteriormente, ele de fato fez uma experiência – normalmente usada nos estudos científicos
em um cinema na presença de um grupo de – para estabelecer se a mesma experiência sem
jornalistas, mas os dados haviam sido falsifi- as mensagens subliminares poderia trazer um
cados: o famigerado tactoscópio, aparelho resultado diferente.
que envia as breves mensagens, teria tido
seus dados fraudados. CRUCIFIXO MISTERIOSO
Para o cinquentenário de “Coma No final de 2007, suspeitou-se que o candidato
pipoca e tome Coca-Cola”, em 2007, o republicano à presidência dos Estados Unidos
psicoterapeuta Jim Brackin, especialista Mike Huckabee tivesse procurado manipular
em publicidade e hipnose, realizou uma os eleitores durante a propaganda eleitoral. No
experiência similar em um congresso de centro das suspeitas havia uma estante de livros
reprodução

marketing em Istambul. Usando imagens branca, visível na propaganda atrás de Huckabee.


subliminares, divulgou o produto inexisten- Com a ajuda do enquadramento e de um pouco
de boa vontade, os eixos horizontais e verticais
da estante formavam uma cruz. A acusação feita
Contra a dependência química ao ex-pregador batista era de que ele pretendia
associar, na mente do público, a própria imagem
Imagens subliminares associadas à cocaína ativam a amígdala, o estriado, o a um símbolo cristão. Aqui, porém, o termo
globo pálido e a ínsula, ligados ao sistema de recompensa. “subliminar” é insuficiente. Em latim sub limen
Em 2008, um grupo de pesquisadores dirigido por Anna Rose Childress, significa “sob o limite” e se refere a estímulos
da Universidade da Pensilvânia, em Filadélfia, descobriu o considerável efeito tão fracos a ponto de não serem percebidos
das percepções subliminares no cérebro humano. Durante uma experiência, os conscientemente; mas a estante “em cruz” era
pesquisadores mostraram algumas imagens de objetos relacionados com coca-
bem reconhecível pelos espectadores.
ína para 22 voluntários do sexo masculino, em tratamento contra dependência
havia 15 anos. A pesquisa com ressonância magnética funcional demonstrou Os cientistas desenvolveram um critério
que o estímulo não consciente excitava o centro de recompensa dos voluntários. mais rigoroso que o limite de tempo, no qual
Anna Rose deduziu que uma reação rápida a estímulos específicos é uma vanta- um símbolo pode ser considerado “sublimi-
gem da evolução: pode ser determinante, por exemplo, reagir a uma substância nar”. Se, por exemplo, o “4” aparece por um
comestível sem estar claramente ciente disso. A reação à droga segue o mesmo segundo na tela, é percebido conscientemen-
esquema, mas para “aprendê-la” são necessários anos de consumo. te. Mas se o tempo de exibição for reduzido,
chega-se a um patamar limite e quem observa
garante que não enxerga nenhum número.
Globo pálido Ainda assim, caso se deva adivinhar se o nú-
Estriado
mero mostrado é inferior ou superior a “5”, a
resposta é descoberta com frequência superior
à média: evidentemente, quem olha enxerga
alguma coisa sem se dar conta.
Portanto, uma percepção é considerada su-
Ínsula bliminar mesmo se, como no caso descrito, os
participantes adivinham só por acaso. O número
não deve aparecer na tela por mais de 30 milisse-
gundos. Além disso, deve ser logo “disfarçado”
por uma faixa com uma série de letras colocadas
por acaso. É assim que os pesquisadores definem
esse artifício – caso contrário a imagem que fica
arte: erika onodera

na retina poderia ter uma impressão fixa. Assim


Amígdala
Lobo temporal sendo, a estante de Huckabee estava muito aci-
ma desse limite da percepção.
26 l mentecérebro l Novembro 2010
Como deve ser o estímulo para que passe
despercebido? Pode ser de vários tipos, como
demonstraram experiências desenvolvidas por
psicólogos e neurocientistas. Sem que saibamos,
o cérebro entende palavras, interpreta a mímica
dos rostos, decifra símbolos e capta sons. Nu-
merosas experiências de priming (facilitação) des-
vendam a influência dos símbolos que escapam
à consciência: um impulso desencadeado abaixo
do patamar limite, o prime, influencia a reação a

© javarman/shutterstock
um estímulo percebido conscientemente, o target
(alvo). Os exemplos clássicos dessas experiências
têm base nos números: os participantes veem na
tela um número entre 1 e 9 e devem classificá-
lo, apertando a tecla esquerda se inferior a 5 e a
direita, se superior. É uma tarefa tão simples que,
em geral, ninguém costuma errar.
A ILUSÃO DE VENCER O JOGO
A ação dos estímulos subliminares se ma- Em 2007, em Ontário, Canadá, as máquinas caça-níqueis foram retiradas do
nifesta principalmente no tempo da reação: comércio porque se acreditava que exercessem influência subliminar sobre
os indivíduos reagem mais rápido se, antes do os jogadores. Nesse jogo, as três rodas com os símbolos giram e uma certa
estímulo-target percebido conscientemente, apa- combinação determina a conquista do jackpot. De acordo com o que descobriu
recer ligeiramente um estímulo-prime subliminar, a Canadian Broadcasting Corporation (CBC), as pequenas máquinas da Konami,
empresa produtora de videogames, mostravam os símbolos da vitória por 200
que requer apertar a mesma tecla. Se, por exem-
milissegundos, durante uma animação em vídeo realizada para ilustrar o jogo.
plo, um 7 for rapidamente iluminado antes de um A acusação era de que, dessa forma, as máquinas criavam a ilusão de haver
8 percebido conscientemente, os participantes mais probabilidade de ganhar e induziam assim os compulsivos a permanecer
decidem com mais rapidez apertar a tecla correta. sentados na cadeira. No entanto, a empresa garantiu que a causa era um defeito
Ao contrário, um 4 subliminar os faria hesitar por no programa de computação.
mais tempo. A experiência também funciona se o

© walter daran/time life pictures/getty images

FORAM LEVANTADAS
SUSPEITAS de que o filme
Férias de amor (Picnic),
dirigido por Joshua Logan
e interpretado por Kim
Novak (na foto) e William
Holden, incitasse ao
consumo de pipoca

27
C A P A // P E R C E P Ç Õ E S S U B L I M I N A R E S

Ratos na campanha
Durante campanha eleitoral, em 2000 especialistas em comunicação que trabalhavam
com George W. Bush teriam recorrido a mensagens subliminares, nas quais a palavra
rats, “ratos”, aparecia para indicar os adversários e combater Al Gore. Na página seguinte,
protesto antirrepublicano no qual foi denunciada a publicidade veiculada por Bush

imagens : reprodução
número estiver escrito por extenso, como no caso Quando um realmente influenciava os eleitores? O grupo de
de “sete”. As palavras com significado emotivo, pesquisa coordenado pelo neurocientista cogni-
como “medo”, também influenciam a escolha, e número aparece tivo Stanislas Dehaene, pesquisador do Collège
a mímica dos rostos, mais ainda. por um segundo de France, em Paris, estudou de que maneira os
A elaboração subliminar da expressão facial estímulos subliminares podem ser captados. O
foi acompanhada em 2007 pelos psicólogos na tela, é pesquisador Lionel Naccache, membro da equi-
Monika Kiss e Martin Eimer, pesquisadores da percebido pe, forneceu a primeira demonstração direta da
Universidade de Londres, por meio do registro influência das palavras com conteúdo emotivo.
de medidas com o eletroencefalograma (EEG). conscientemente; Ao acompanhar três pacientes epiléticos que
Durante a experiência, 14 participantes eram mas se o tempo tinham em seu cérebro eletrodos para o trata-
orientados a diferenciar as fotos de pessoas com mento da patologia, chamou sua atenção que
expressão assustada ou neutra. Os voluntários de exibição for palavras subliminares com forte dose emotiva
conseguiam realizar a tarefa com desenvoltura reduzido, já não exercem influência sobre a amígdala, uma região
se o rosto fosse exibido por 200 milissegundos. cerebral determinante no processamento de
Quando o tempo era reduzido para 8 milissegun-
é possível notá-lo emoções. “Tais vocábulos modificavam a ativida-
dos, as respostas eram eventuais. Neste caso, de da amígdala, justamente como acontece com
o estímulo podia ser definido como subliminar. a elaboração consciente”, afirmou Naccache.
Mesmo assim o eletroencefalograma mostrava O cientista Raphael Gaillard, outro pesqui-
as mesmas variações que têm origem também sador da equipe de Paris, demonstrou que pala-
com a percepção consciente. vras fugazes com conteúdo emotivo entram na
consciência antes daquelas com sentido neutro.
FORTES EMOÇÕES Durante sua experiência, mudou o tempo em que
O “mito da ação subliminar” tem, portanto, um vocábulo apresentado de forma subliminar é
uma base empírica: estímulos não captados disfarçado, aleatoriamente, pela exibição de vá-
conscientemente provocam reação que pode rias de letras na mesma cena. No caso daquelas
ser medida no cérebro. Não é aceitavel, porém, neutras, de cada dois pacientes um se lembrava
falar de 1 manipulação profunda dos nossos do que estava representado na tela. Quando se
julgamentos e decisões. tratava de termos com conotação negativa, três
Em 2000 surgiu o temor de possíveis em cada duas pessoas se recordavam deles.
influências políticas ocultas quando, para comba- Gaillard concluiu que o conteúdo emotivo de
ter o adversário político Al Gore, um assessor da uma palavra pode reduzir o limiar da percepção
equipe de George W. Bush sugeriu iluminar mui- consciente. E que as palavras percebidas de
tas vezes em uma propaganda eleitoral a palavra que possamos nos dar conta são elaboradas
bureaucrats (burocratas) e, por três centésimos de maneira específica, de acordo com o seu
de segundo apenas, as quatro últimas letras: rats, conteúdo semântico. É muito improvável que
ou seja, ratos. Mas o uso da palavra “negativa” com esses artifícios seja possível manipular
28 l mentecérebro l Novembro 2010
© bill bridges/time life pictures/getty images
PERFUME DE HOMEM AJUDA A ARRANJAR EMPREGO
O olfato também pode nos ajudar a fazer escolhas – mesmo que usavam perfume masculino foram avaliadas quase duas
sem que percebamos a influência dos aromas em nossas deci- vezes mais positivamente em relação às que haviam passado
sões. Um estudo desenvolvido pelas psicólogas Sabine Sczesny fragrância feminina – e quase três vezes melhor do que as que
e Dagmar Sahlberg, da Universidade de Berna, na Suíça, de- não usavam perfume algum. Para os homens, os resultados
monstrou que mesmo perfumes de boa qualidade nem sempre foram similares: o perfume masculino aumentou as chances de
causam boa impressão. E podem até atrapalhar na hora de contratação. Mas entre usar um perfume de mulher e nada, é
conseguir emprego. Mulheres, por exemplo, têm mais chances melhor que os candidatos fiquem com a última opção.
de ser aprovadas numa entrevista ao pleitear um cargo executi- Esse resultado se baseia no estereótipo segundo o qual se
vo quando usam perfume de homem. deve confiar um cargo executivo e responsabilidades profis-
Para chegar a essa conclusão, as pesquisadoras contaram sionais a uma pessoa com características consideradas mais
com a ajuda de 116 voluntários que atuaram como assistentes masculinas, como assertividade, raciocínio lógico aguçado e
de um recrutador do departamento de recursos humanos. Sua capacidade de tomar decisões difíceis sem se deixar levar pelo
função era acompanhar uma avaliação de pretendentes a uma sentimentalismo. Mulheres com um lado masculino mais pro-
vaga numa empresa. Os participantes, obviamente, não sa- nunciado (uma característica indicada pelo perfume), portanto,
biam, mas os candidatos eram, na realidade, atores treinados teriam mais vantagens. A consideração dessa informação, po-
para se comportar exatamente da mesma maneira. Não apenas rém, raramente é percebida conscientemente pelos avaliadores.
o sexo variava (homem ou mulher), mas também o perfume Quando o cargo pretendido está mais ligado a um estereótipo
(masculino, feminino ou nenhum). O trabalho dos recrutadores mais feminino (por exemplo, secretária), um perfume de ho-
consistia em estar presente no momento da entrevista e depois mem pode trazer desvantagens. Também não adianta perfumar
fazer considerações sobre o candidato. o currículo. Outra experiência dessas mesmas pesquisadoras
As psicólogas logo perceberam que o olfato do recrutador mostrou que os recrutadores preferem candidatos não estão
era um elemento importante na tomada de decisão. Mulheres perfumados. (Da redação)

29
C A P A // P E R C E P Ç Õ E S S U B L I M I N A R E S

Para as crianças
Volta e meia circulam e-mails denunciando que desenhos animados estão
repletos de figuras eróticas escondidas, garantindo que uma “evidente”
ilustração de caráter sexual está oculta no logotipo de uma famosa marca de
cigarros e que mensagens satânicas foram camufladas em meio aos versos de
músicas de sucesso. O tema das mensagens subliminares e a sua capacidade
de influenciar a mente de quem as recebe atiçariam o imaginário coletivo,
mas é difícil delinear precisamente um limite exato entre verdade e lenda. O
mundo adocicado de Walt Disney esteve muitas vezes no centro de acusações e
polêmicas ligadas a supostas mensagens subliminares de natureza sexual, mais
preocupantes ainda porque tinham como alvo o público infantil. No cartaz do
filme A pequena sereia e em alguns fotogramas da obra, estariam escondidos
símbolos fálicos, enquanto no céu estrelado que serve como pano de fundo para
uma cena do longa-metragem O rei leão apareceria em um trecho a palavra
“sex”: os autores dos desenhos animados sempre desmentiram que essas
possíveis alusões tivessem sido criadas deliberadamente – de qualquer maneira, O REI LEÃO, de 1994, e A pequena sereia,
elas quase nunca podem ser reconhecidas sem um pouco de imaginação. No de 1989: suspeitas de mensagens ocultas
entanto, sempre resta a dúvida. nas animações da Disney

as pessoas, porque, quando o estímulo não faixas com as letras colocadas ao acaso, havia
atinge a consciência, a influência dura pouco
Percebemos uma desativação da parte superior do lobo tem-
tempo. A experiência de Gaillard demonstra os estímulos poral. Ao contrário, na tarefa de leitura a área
serem determinantes não apenas a duração da de maneira magnética precisava estar na parte inferior do
percepção, mas também o seu conteúdo. Além lobo temporal. Isso significa que a área em que
disso, os estímulos subliminares são elaborados consciente o estímulo subliminar deixa rastros no cérebro
de acordo com a atividade que a pessoa está quando é determinada pela tarefa na qual os candidatos
desempenhando naquele momento. são submetidos à percepção subliminar.
Esse tema foi estudado pelo neurologista produzem uma Segundo Stanislas Dehaene, pode ser que
Kimihiro Nakamura, da Universidade de Kyoto. “reverberação” elaboremos o estímulo subliminar em nível
Fazendo uso da estimulação magnética trans- semântico. Seria um resultado fascinante: o estí-
craniana (EMT), ele desativou algumas áreas do duradoura mulo óptico é reconhecido como palavra, a faixa
cérebro em um grupo de pessoas que enxerga- no cérebro de letras é decifrada e a representação da palavra
vam imagens subliminares nas palavras. Com é lembrada pelo cérebro. Tudo isso acontece sem
essa técnica, ele podia interromper dois efeitos nos darmos conta.
priming. No primeiro caso, em um teste de re- De acordo com Nakamura, o efeito priming
conhecimento verbal, os voluntários deveriam subliminar passa de uma modalidade sensorial
apertar uma tecla para comunicar se a faixa de a outra. Mesmo se a palavra fosse inserida sob
letras rapidamente sobrepostas formava ou não a forma escrita por 3 centésimos de segundo
uma palavra. Se o mesmo vocábulo era proposto e a tarefa sucessiva de reconhecimento verbal
de forma subliminar, os voluntários reagiam consistisse na sua pronúncia, a faixa de letras
com mais velocidade, desde que o estímulo inserida de forma subliminar diminuía o tempo
magnético não impedisse essa ação. de reação das pessoas. Dehaene deduz que
No segundo caso, os participantes do teste percebemos os estímulos de maneira consciente
tinham de pronunciar em voz alta uma palavra quando produzem uma “reverberação” distribuída
inscrita. Desta vez a resposta era mais rápida e duradoura no cérebro. Portanto, não apenas o
quando era projetada de forma subliminar. tempo do estímulo é determinante, mas também
E, também neste caso, a EMT podia anular o os processos cognitivos superiores: por exemplo,
efeito priming. a tarefa em que a pessoa está envolvida naquele
Com base nessa tarefa, era preciso desa- momento ou na qual deve se concentrar.
tivar várias áreas do cérebro: se os indivíduos Mas a questão científica ainda está aberta.
mantinham separadas entre si as palavras e as Os céticos refutam a ideia de que possamos
30 l mentecérebro l Novembro 2010
HORMÔNIOS QUE DESPERTAM A
RIVALIDADE MASCULINA
As preferências das mulheres pelos aspectos físicos masculinos
mudam de acordo com as fases do ciclo menstrual. Durante o período
da ovulação, elas tendem a considerar atraentes os homens mais viris.
O motivo é que, nessa fase, elas se interessam em ter relações com
um representante do sexo masculino com alto nível de testosterona.
Trata-se de um resquício evolutivo para preservação da espécie surgido
de forma inconsciente. Afinal, mulher alguma olha para o espelho de
manhã e diz: “Hoje quero me arrumar para aumentar a probabilidade
de ser fecundada”. Querendo ou não, porém, as mensagens que envia
aos parceiros do sexo oposto causam efeitos claros – e mais uma vez
esse processo se dá em um limite que não alcança a consciência.
Uma nova pesquisa destaca que os homens percebem de forma
imagens: divulgação

sutil a mudança na preferência da parceira e, consequentemente,


tendem avaliar homens “mais masculinos” como uma ameaça para
o casal. O curioso é que isso acontece apenas durante os períodos
de maior fertilidade de sua parceira e somente quando ela não toma
pílulas anticoncepcionais.
Em um estudo publicado no periódico científico Evolution e Human
ler palavras em um nível inferior ao patamar da
Behavior, os pesquisadores A. C. Little e R.P. Burris mostraram fotos
consciência. É provável que as faixas com poucas de rostos masculinos a 110 homens. Os participantes deveriam dizer
letras tenham sido “arquivadas” no cérebro como se, em sua opinião, os traços faciais indicavam que aquela pessoa
figura completa e criado efeitos priming. tinha facilidade de obter o que queria. Lábios finos e maxilar quadrado,
Em 2000, o psicólogo Richard Abrams, da por exemplo, eram sinais dessa característica de “dominância”. Em
Universidade de Washington, encontrou alguns seguida, os voluntários deviam preencher um questionário que
indícios disso. Inicialmente, permitiu que os perguntava se sua namorada usava algum método anticoncepcional
oral, assim como a data de seus dois últimos períodos menstruais.
indivíduos determinassem o conteúdo emo-
Evidentemente, essas perguntas estavam misturadas a outras, de
tivo dos termos: a palavra smile (sorriso), por maneira que os participantes não pudessem estabelecer alguma
exemplo, tinha efeito positivo, enquanto smut relação com a experiência anterior.
(sujeira) assumia conotação negativa. Após Os pesquisadores constataram que os homens cuja mulher não
a experiência de priming, Abrams confirmou tomava pílula, ou estava próxima ao período de ovulação, avaliavam
que uma palavra subliminar de cunho negativo maior número de rostos como dominantes (e potenciais adversários)
provocava reações mais rápidas nos indivíduos em comparação com os demais participantes. Burris lembra que
quando se davam conta conscientemente de esse comportamento é encontrado também entre os chimpanzés. Os
primatas dessa espécie são capazes de viver harmoniosamente em
uma palavra que tinha o mesmo significado.
grupo, mas quando uma fêmea entra no cio os dois machos mais
Mas também os acrônimos sem sentido dominantes do grupo tornam-se adversários e lutam para conquistá-la.
como anrm suscitavam o efeito de uma palavra Da mesma maneira, no homem a percepção da dominância aumenta
prime de caráter positivo se antes os indiví- quando a mulher está mais fértil.
duos tivessem lido várias vezes palavras de O que surpreende os pesquisadores é que são as mulheres que,
conotação positiva, como angel (anjo) e warm involuntariamente, determinam esse comportamento masculino. Os
(calor). Abrams conseguiu até transformar maridos prestam mais atenção ao rosto e à masculinidade dos outros
homens quando a esposa se aproxima da ovulação. Isso acontece
smile em uma palavra subliminar emotiva-
porque, durante a fase mais fértil do ciclo, as mulheres tendem a
mente negativa: deixou que os indivíduos
preferir os parceiros com níveis mais elevados de testosterona, e os
lessem várias vezes smut (sujo) e bile (bílis). rostos mais masculinos refletem essa qualidade.
O psicólogo deduz que, em nível subliminar, Se a forma e a estrutura do rosto são bons indicadores de
reconhecemos apenas fragmentos das pala- dominância, por outro lado os homens com olhos grandes, queixo
vras na memória. arredondado, lábios carnudos ou aparência mais feminina não
Em 2007, a empresa coreana Xtive lançou precisam se preocupar. Também para eles são boas as chances de ter
um programa de computador que sussurrava um relacionamento de longo prazo com uma mulher – embora não
sejam percebidos como dominantes. (Da redação)
em frequências não audíveis frases bem-humo-
radas como “deslique este treco” às pessoas
31
C A P A // P E R C E P Ç Õ E S S U B L I M I N A R E S

Seguindo o mestre até sem notar


Obedecemos, seguimos e damos ordens muitas vezes até legítimas é a devoção afetiva a ela ou a crença em
sem perceber. Há leis, regras de trânsito, conselhos morais seus dons (como faculdades mágicas, abertura
e espirituais, determinações do chefe e tantas outras para revelações místicas, demonstrações de
situações em que prevalece mando e obediência. Numa heroísmo, poder intelectual ou alta capacidade
dessas relações é fácil imaginar motivos para alguém de convencimento pelo discurso). Encontra-
desejar comandar – como sede de status, vantagens mos esse tipo de relação entre grandes ora-
materiais ou satisfação da vaidade. Pode ser mais dores, guerreiros ou líderes religiosos e seus
interessante, contudo, pensar no que leva alguém a séquitos. Mas a dominação embasada no
obedecer sem fazer questionamentos – ou pelo menos carisma é tão extracotidiana que dificilmente
estranhar essa conjuntura. O sociólogo alemão Max se mantém sozinha por muito tempo.
Weber deu algumas respostas a essa questão. No início do Mais estável é a chamada dominação legal.
século 20 ele estudou as relações de dominação, a qual defi- Nela, uma pessoa não é obedecida por uma quali-
niu como “probabilidade de encontrar obediência a determinada dade sua, mas pelo cargo que ocupa. Na verdade, o que
ordem”. O que mais lhe interessava nessas relações era o sentido dado realmente é obedecido é uma regra estatuída. A ideia básica, nes-
à ação de obedecer por aqueles que se submetiam às ordens. se tipo de relação, é que qualquer direito pode ser criado ou modificado
Podem existir motivações para a obediência com base no medo, mediante um estatuto correto. Corresponde a esse tipo de dominação
no afeto, num costume arraigado ou no cálculo das vantagens de a estrutura do Estado, as empresas capitalistas e toda associação mo-
ser conivente com o dominador. Mas a dominação construída sobre derna que dispõe de um numeroso e hierarquizado quadro de funcio-
esses alicerces pode ser instável. De acordo com Weber, as relações nários (os burocratas).
de mando-obediência tornam-se mais estáveis quando o sujeito que Mas é claro que nenhum desses tipos de dominação existe de
segue as determinações alheias o faz por acreditar que esta é a coisa forma isolada dos demais. Hitler, por exemplo, era aprovado por boa
certa a fazer. Em outras palavras, a dominação é mais estável quando o parte dos alemães por causa de seu discurso carismático, mas coman-
dominado acredita na legitimidade do motivo de sua obediência. Três dou uma burocracia que a muitos parecia legítima por ter sido criada
fundamentos são identificados pelo sociólogo para a dominação ser legalmente e de modo racional; mas também era obedecido porque
considerada legítima por aqueles que acatam e cumprem as ordens. havia mecanismos de violência para reprimir quem o contrariasse.
Existem os casos em que a motivação é a crença na santidade das Vemos, nesse exemplo, que na realidade as diversas motivações para a
ordenações e dos poderes senhoriais existentes há muito tempo. Obe- obediência se misturam. E isso pode acontecer em proporções e com-
dece-se por fidelidade, sem questionamentos, porque se acredita que binações extremamente diversificadas. Talvez a maior lição que apren-
o estado das coisas foi daquele jeito desde sempre. Mas as ordens não demos, a partir da teoria da dominação de Weber, é que toda relação de
podem ser aleatórias. Seu conteúdo está “santificado” pela tradição, mando e obediência não é construída somente – e talvez não predomi-
embora haja um limite nas ações de quem manda, entre as partes de- nantemente – por aquele indivíduo que dita ordens, mas também por
terminadas pela tradição, pelo seu arbítrio e graça, podendo esta última todos os sujeitos que consentem em ser dominados, sem questionar.
ser influenciada por simpatias pessoais. Exemplo desse tipo de relação,
chamada de dominação tradicional, é a autoridade dos pais de família GIULIANA FRANCO é pós-doutoranda em sociologia pela Univer-
nas relações patriarcais. sidade Estadual de Campinas (Unicamp), professora da Academia
reprodução

Outra razão para considerar as ordens de uma pessoa como Brasileira de Força Aérea (AFA).

dependentes do computador. Os produtores Essas propostas estão quase totalmente


argumentam que a mensagem subliminar em desacordo com a definição científica do
PARA SABER MAIS
pode curar a dependência. Existe até “CDs su- ERPs reveal subliminal pro-
estímulo subliminar. Se, por um lado, pesqui-
bliminares” à venda: em geral, são inofensivas cessing of fearful faces. Kiss sadores como Stanislas Dehaene usam esses
gravações de textos extraídos do seu contexto, M. E Eimer M, em Psychophy- recursos para medir o limite da consciência,
siology, no 45, 2008.
acrescidos à música relaxante, que ajudam as Mechanism of subliminal
por outro alguns supostos especialistas se
pessoas a pegar no sono (pelo menos tem response priming in advances apropriam do assunto e propõem uma “pro-
esse efeito para boa parte delas). No entanto, in cognitive psychology.Kiesel gramação da mente”, apostando que um
A. e outros, no 3, 2007.
não existe uma indicação com relação ao efeito Poderes invisíveis. A.
estímulo imperceptível do inconsciente pode
exato desse material. E há poucas pesquisas Florack e M. Scarabis. fazer a fantasia humana alçar voo. Porém, se
em curso: do ponto de vista científico, esses Mente&Cérebro, n o 162, excluímos o que foi demonstrado pela ciência,
págs. 30-37, julho 2006.
produtos são pouco discutidos. Por definição, Conscious, preconscious and o efeito que se pode obter com essas técnicas
quem os compra não sabe que alcance têm as sublimal processing: a testa- é pura questão de fé. e
m c
ble taxonomy. S. Dehaene.,
mensagens “disfarçadas” – se é que realmente em Trends in Cognitive Scien-
têm algum efeito. ces, no 10, 2006. CHRISTOF UHLHAAS é jornalista.

32 l mentecérebro l Novembro 2010


Escritório,
doce escritório

N
// por S. Alexander Haslam e o passado, a fábrica, com seus equipamen-
Craig Knight tos sujos e barulhentos, era um ícone dos
países industrializados; atualmente, esse
lugar é ocupado pelos escritórios. Milhões
de pessoas – pelo menos 15% da população
dos países desenvolvidos – trabalham em uma mesa, com
ou sem a divisória que as separe dos outros colegas, em
frente a um computador. Embora muitos acreditem que uma
© ola dusegård/ istockphoto

estação de trabalho não é mais que o mero espaço físico, nos


OS AUTORES
últimos anos psicólogos sociais e ocupacionais começaram
S. ALEXANDER HASLAM é professor de
psicologia social da Universidade de Exeter, a acumular evidências de que as características desses am-
na Inglaterra. CRAIG KNIGHT é pesquisador, bientes onde as pessoas passam tantas horas por dia afetam
pós-doutorando em psicologia e diretor do
Center for Pychological Research into Identi-
o desempenho de maneira surpreendente. O tamanho das
ty and Space Management, em Exeter. escrivaninhas, a proximidade da luz natural, a qualidade do ar
34 l mentecérebro l Novembro 2010
T R A B A L H O

Mais importante do que ter um local de trabalho bem decorado


é fundamental ter um lugar com a “cara” da pessoa que o ocupa
– autonomia para organizar e personalizar seu próprio espaço torna
profissionais mais felizes, saudáveis e produtivos

35
T R A B A L H O

que respiramos e a privacidade (ou a falta dela) A proliferação de novos empreendimentos


influem no conforto, na satisfação com a rotina de mídia digital nos anos 1990, tentando atrair
e no resultado do trabalho. trabalhadores especializados, popularizou uma
Em nossas experiências, descobrimos, por opção ao sistema de escritório aberto. Junto
exemplo, que quando os empregadores bem-in- com as máquinas de café chegaram aos am-
tencionados penduravam reproduções de obras bientes de trabalho elementos visuais vistosos,
de arte nas paredes e colocavam vasos de plantas tanques com peixes tropicais e chamativas
para decorar o ambiente, seus esforços se mostra- obras de arte. A ideia era fazer os profissionais
vam vãos. Curiosamente, esses recursos podem se sentirem valorizados, ganhar a sua lealdade e
ser tão desmotivadores quanto os ambientes es- incentivá-los a cumprir horas extras. Em Moun-
téreis, que geram o mesmo nível de insatisfação. FÁBRICAS SUJAS e tain View, Califórnia, no “campus” do Google
barulhentas já foram
Os profissionais costumam apresentar melhor ícones de industrialização (essa palavra já indica o distanciamento da
desempenho quando são estimulados a decorar e modernidade dinâmica tradicional de um local de trabalho) e
seu ambiente com objetos que escolheram, como
plantas, enfeites, fotografias ou outras peças
e imagens significativas – é importante que a
pessoa se identifique com seu espaço e se apro-
prie dele. O projeto de um escritório, portanto,
não deve ser determinado apenas por questões
práticas, como ter cadeiras que não causem dor
nas costas (o que é fundamental, claro). Mas os
empregadores raramente consideram desdobra-

neue nationalgalerie, berlin


mentos psicológicos do ambiente no desem-
penho, grau de satisfação, comprometimento
e iniciativa dos empregados, deixando de lado
um dado significativo: o local de trabalho pode
contribuir para tornar as pessoas mais felizes – e
aumentar o lucro dos empresários.

Escribas, burocratas e vigilantes


A história dos escritórios modernos remonta à Idade Média, chamadas de “taylorizadas”. Taylor postulava que, exceto pelos
quando cabia aos escribas a responsabilidade de manter os materiais absolutamente necessários para executar a tarefa, tudo
registros da Igreja e do governo. Esses hábeis artesãos trabalha- deveria ser eliminado do espaço de trabalho. Embora essa pro-
vam nas residências dos reis e nobres, escrevendo e copiando posta se aplicasse a indústrias e linhas de montagem, empresá-
documentos à mão. Para desempenhar a função era preciso ter rios passaram a usá-la em escritórios e locais de trabalho criativo.
uma formação que não estava ao alcance da maioria dos cida- Os burocratas de todo o planeta estão familiarizados com
dãos. Geralmente tais escribas tinham permissão de organizar espaços abertos estéreis, que acomodam as pessoas sem o
suas salas de trabalho, onde misturavam cadeiras, banquetas, mínimo de privacidade e podem ser rapidamente modificados
livros e mesas de estudo. conforme as contratações, demissões ou variações de tarefas.
No final da Revolução Industrial, o quadro começou a mudar. Algumas organizações optam por não oferecer lugar fixo. Nes-
As classes profissionais proliferaram, assim como o número de ses ambientes, qualquer forma de acúmulo de material é vista
pessoas com a tarefa de supervisionar o trabalho, o que levou como bagunça e impedimento à produtividade.
à criação de locais padronizados, nos quais os gerentes tinham O sistema aberto, que permite que os supervisores monito-
maior controle sobre sua mão de obra e conseguiam vigiar seus rem sutilmente seus subordinados, se baseia no conceito Pana-
subalternos. No início do século 20, o engenheiro da Pensilvâ- opticon, desenvolvido em 1785 pelo filósofo Jeremy Bentham.
nia Frederick W. Taylor foi pioneiro do que se tornou o primeiro Tratava-se de uma prisão circular com uma torre central da
modelo de administração científica. Para ele, o cerne da tarefa qual os guardas vigiavam os reclusos sem que estes os vissem.
dos executivos consistia em descobrir e implementar a melhor Era uma forma eficiente de controle, no qual um pequeno nú-
maneira de desempenhar alguma tarefa. Em 1911, escreveu mero de carcereiros poderia manter todos os prisioneiros sob
Princípios da administração científica, livro tão influente que as guarda; os reclusos nunca conseguiriam saber quando estavam
empresas que tinham melhorado a produtividade passaram a ser sendo observados.

36 l mentecérebro l Novembro 2010


também em empresas de jogos virtuais e agên- laboratório de psicologia e outro com trabalha-
cias interativas de propaganda os funcionários
É comum que dores em um escritório comercial de Londres.
têm liberdade para encher seus escritórios com as pessoas Nas duas experiências pedimos aos participantes
peças vintage, bonequinhas Hello Kitty, objetos confundam que fizessem uma hora de trabalho com tarefas
feitos com Lego ou qualquer coisa bonita, mal-estar rotineiras (verificando documentos e criando me-
engraçada ou significativa. Os empregados morandos, por exemplo) em um dos quatro tipos
chegam a competir para ver quem consegue físico com de espaço de trabalho (ver quadro na pág.36).
criar o espaço mais atraente. desconforto O escritório “básico” era um espaço com
Supõe-se que os escritórios incrementados psicológico aparência limpa, que continha apenas os obje-
aumentem o bem-estar e a produtividade dos tos necessários como uma mesa e uma cadeira
empregados mas nem sempre provoquem mu- giratória, além de lápis e papel. O ambiente “in-
danças positivas profundas. Em 2009, cientistas crementado” tinha esses suprimentos básicos,
da Universidade de Amsterdã substituíram os mas foi decorado com plantas e peças de arte,
escritórios tradicionais por espaços projetados como pinturas grandes e coloridas. No escri-
para funções específicas (uma cabine para tarefas tório “particular”, os voluntários receberam as
que demandassem concentração e “uma sala mesmas plantas e obras de arte que estavam no
de estar” para a interação social entre colegas). escritório incrementado, mas tiveram a liberdade
Apesar desses adicionais criativos, após seis me- de arrumá-las do modo como quisessem ou
ses foi constatado que a produtividade diminuiu NA SEDE DA GOOGLE, mesmo de não usá-las. Finalmente, no espaço
ligeiramente. Por que isso aconteceu? na Califórnia, funcionários “retomado”, os participantes tiveram a oportu-
Recentemente fizemos dois experimentos para são incentivados a decorar nidade de decorá-lo, porém, ao terminarem, o
local com brinquedos e
estudar o efeito do ambiente de escritório sobre objetos de antiquário de pesquisador o redecorou para que ficasse igual
a produtividade. Conduzimos um estudo em um preferência inusitados ao “incrementado”.
© erin siegal/reuters/latinstock

37
T R A B A L H O

Do seu jeito é melhor


Para investigar como a aparência de uma sala influencia o trabalho, o pesquisador pediu a voluntários que executassem tarefas em quatro locais.
O escritório “básico” continha apenas os equipamentos essenciais. O “incrementado” foi decorado com plantas e arte. No “particular”, as
pessoas tiveram liberdade para arrumar plantas e quadros como quisessem. No espaço “retomado”, o pesquisador desfez os toques pessoais.
Os funcionários do ambiente “particular” foram os mais satisfeitos e produtivos.

BÁSICO INCREMENTADO

Este último cenário pode aparentemente não lugar daqueles”. A produtividade e o bem-estar
ter relevância na vida real, mas, na verdade, é aumentaram ainda mais – cerca de 30% – no
surpreendente como esse tipo de interferência se ambiente customizado pelos participantes. “Foi
torna um incômodo. Recentemente, entrevista- demais; adorei. Que escritório maravilhoso”,
mos um gerente de tecnologia da informação (TI) disse um dos voluntários. No entanto, quando as
em um banco importante de Sydney, Austrália, escolhas pessoais foram ignoradas, seu desem-
cujo projeto e decoração tinham sido mudados penho e bem-estar caíram para os mesmos ní-
36 vezes nos últimos quatro anos. “Eu me sinto veis demonstrados no escritório básico. “Eu me
como um peão no tabuleiro de xadrez, e todos senti sabotado”, declarou um dos empregados
ao meu redor pensam o mesmo. É uma das do escritório “retomado”. “Gastei um tempão
principais coisas sobre as quais conversamos arrumando a sala para nada... Sinceramente?
no escritório: o que vão inventar da próxima vez. Tive vontade de bater em quem mexeu no ‘meu
Essa situação não é nada divertida, aliás, é bem espaço’ ”, afirmou outro funcionário.
estressante”, declarou
Nossos estudos, publicados em junho SOB CONTROLE
na Journal of Experimental Psychology: Applied, Outros fatores além do projeto e das armadilhas
mostram que a produtividade do trabalhador de um local de trabalho, como a acústica, podem
aumenta quando sua autonomia é valorizada.
Em algumas afetar o desempenho profissional. Um estudo de
As pessoas em um escritório incrementado empresas 2009, da Universidade de Turku, na Finlândia,
trabalharam 15% mais rapidamente e com funcionários avaliou como os funcionários se saíram em
menos erros em comparação àquelas que es- tarefas cognitivas em ambientes variados com
tavam no escritório básico e reportaram menos
chegam a relação a sons. A equipe descobriu que, quando
queixas relacionadas à saúde. “As pinturas e as competir para os trabalhadores ouviam sons irrelevantes de
plantas realmente alegraram o local” foi uma ver quem fala por perto (imagine um rádio ligado na mesa
observação típica em relação ao escritório incre- consegue criar do colega ao lado), o desempenho em tarefas
mentado. Um participante avaliou, referindo-se de compreensão de leitura e memorização de
ao escritório básico: “Parecia um cenário, sem o espaço mais números declinava, assim como o conforto dos
nada fora do lugar; não dava para relaxar num atraente participantes. Os pesquisadores especulam
38 l mentecérebro l Novembro 2010
imagens: craig knight
PARTICULAR RETOMADO

que o ruído pode perturbar a memória, além sofisticados, “favoráveis ao funcionário”, como
de estimular o estresse; por isso recomendam a de uma agência de turismo no Reino Unido,
paredes altas entre as estações de trabalho e uso estudada pelo pesquisador Chris Baldry, pro-
de materiais que absorvam o som. fessor de administração da Universidade de
Mostrar aos empregados como manipular Stirling, na Escócia. Aparentemente, o lugar
os ambientes de trabalho em benefício próprio parecia promissor: áreas com cores fortes eram
tem vantagens distintas. Em um estudo de 2009, enfeitadas com palmeiras. Mas um espaço no
do Liberty Mutual Research Institute for Safety, estilo Panaopticon, o chamado Controle da
em Hopkinton, Massachusetts, avaliaram-se os Missão, permitia que os gerentes monitoras-
efeitos de oferecer um curso de treinamento em sem clandestinamente os funcionários. Estes,
ergonomia aos funcionários e fornecer cadeiras por sua vez, reclamavam constantemente da
de escritório altamente ajustáveis. Aqueles que PARA SABER MAIS sensação de sufocação e da tosse seca.
Surviving the toxic workplace:
receberam o treinamento e a cadeira não ape- protect yourself against co-
A impressão de estar sendo vigiado também
nas correram menos riscos de problemas com workers, bosses and work está ligada à produtividade. Cientistas da Uni-
músculos e ossos, como se sentiram melhor na environments that poison versidade de Chung-Ang, em Seul, pesquisaram
your day. Linda Durre. Mc-
situação do trabalho em geral. Graw-Hill, 2010. quase 400 trabalhadores e descobriram relação
Na verdade, oferecer ou negar controle sobre The relative merits of lean, entre o controle percebido pelos funcionários
as condições de trabalho dos funcionários tem enriched, and empowered em seus locais de trabalho e sua capacidade de
offices: an experimental
implicações significativas para seu bem-estar examination of the impact concentração. Nesse estudo, o “controle” foi
e costuma deflagrar a chamada “síndrome do of workspace management definido, parcialmente, como ter a possibilidade
strategies on well-being and
prédio doente”, com sintomas como irritação productivity. Craig Knight e S. de mexer na mobília dentro do ambiente pro-
nos olhos, nariz, garganta e pele, fadiga, náu- Alexander Haslam, em Journal fissional e individualizar os enfeites, da mesma
of Experimental Psychology:
sea, dores de cabeça e tonturas. A patologia Applied, vol. 16, págs. 158-172, forma como nosso escritório incrementado. As
geralmente é atribuída a propriedades físicas do junho de 2010. respostas da pesquisa indicam que quando as
local de trabalho, como problemas de ventilação, Office psychology: optimizing pessoas sentiam que tinham poder de decisão
work space for the next gene-
aquecimento ou sistemas de ar-condicionado. ration of employees. Natalia sobre os aspectos físicos de sua área de trabalho
Mas, em 1989, uma grande pesquisa da Universi- O’Hara, em Prague Post, dis- os efeitos negativos do barulho e de outros fatores
ponibilizado na internet em
dade de Copenhague desafiou esse conceito. Os 16 de dezembro de 2009. de distração eram reduzidos. O fato é que quando
cientistas descobriram que as reclamações são Princípios da administração nos sentimos desconfortáveis ficamos menos en-
duas vezes mais comuns entre profissionais que científica. Frederick W. Taylor. volvidos com as atividades. Mas se trabalhamos
Editora Atlas, 1995.
estão em posições inferiores e, portanto, exercem em espaços aos quais nos sentimos conectados
Work places: the psychology
pouco controle sobre seus ambientes. of the physical environment ficamos mais felizes e produtivos – e até mesmo
A relação entre a falta de autonomia em in offices and factories. Eric mais saudáveis. Ou seja: felicidade nos torna
Sundstrom e Mary Graehl
relação ao próprio espaço e a síndrome do Sundstrom. Cambridge Uni- mais comprometidos e criativos. Pena que alguns
edifício doente é verdadeira até em ambientes versity Press, 1986. patrões ainda não sabem disso... e
m c

39
Desenhando
pensamentos
Como o cérebro humano processa
imagens até mil vezes mais rápido do
que palavras, o uso de técnicas que
privilegiam a exploração criativa
por associação gráfica ajuda a
exercitar a imaginação, treinar a
racionalidade e se conhecer melhor

G
// por Vera F. Birkenbihl ostaria de convidá-lo para participar de dois
pequenos experimentos. E como a primeira vez
só existe uma vez, você sairá perdendo caso leia
este artigo sem participar dos experimentos. Mas
é uma escolha... Exercitar o cérebro significa tam-
bém embrenhar-se por aventuras mentais, experimentar coisas
novas, adquirir conhecimentos. Para aceitar esse desafio peço
que você pegue lápis, papel e borracha. E me acompanhe nos
exercícios a seguir.
Primeiro, faça uma lista daquelas atividades que, em geral,
fazem parte de sua rotina de trabalho, indicando logo à frente
a porcentagem aproximada que ocupam de seu dia. Lembre-se
apenas de que a soma não deve ultrapassar 100%. Utilize no
© bodhi hill/istockphoto

máximo três minutos para fazer isso.


A AUTORA Pronto? Agora, lembre-se de uma situação na qual você
Psicóloga especializada tenha sido obrigado a suportar uma dor intensa. Em duas ou
em analografites como
recurso diagnóstico e três linhas, descreva a sensação dolorosa. Em que região do
terapêutico. corpo ela se localiza? Como é senti-la?
40 l mentecérebro l Novembro 2010
I M A G E M

ANALOGRAFITE
CRIADO por Vera
F. Birkenbihl:
letras, símbolos
e figuras são
recursos eficazes
para organizar
o raciocínio
e expressar
sentimentos

Sobre o primeiro experimento: talvez você tenha descoberto anos de idade é capaz de desenhar, são mais do que suficientes.
que pode ser bastante difícil listar com rapidez aquilo que fa- De resto, as fronteiras da arte costumam ser elásticas: podemos
zemos em um dia típico de nossa vida. Na maioria das vezes, arriscar dizer que muitas obras tardias de Pablo Picasso nada
a soma das atividades ultrapassa 100%, requerendo solução mais são do que explorações criativas por associação gráfica. Ao
para um problema aritmético. Vamos agora para outra etapa compor muitos de seus trabalhos o artista espanhol sacrificou
do experimento: construir uma imagem desenhando um típico a beleza convencional em prol da expressão de determinadas
dia de trabalho com lápis de cor. ideias. Assim, reuniu, por exemplo, num mesmo rosto, as visões
Mas antes vale partilhar algumas considerações. Essa téc- de frente e de perfil.
nica é denominada exploração criativa por associação gráfica Também gráficos e diagramas, pictogramas e ideogramas
(ou analografite) e propõe a apresentação de ideias sob a forma podem ser considerados analografite. Eles são mais agradáveis
de pequenos desenhos. O objetivo é promover uma expansão à mente do que as meras palavras, uma vez que o cérebro pro-
www.analograffiti.ch/reprodução

de nossas capacidades mentais e ver situações cotidianas com cessa imagens numa velocidade bastante elevada, até mil vezes
maior clareza. À parte o fato de que essa ferramenta fomenta mais rápido do que palavras. Os antigos chineses já sabiam que
a criatividade, é importante ressaltar que ela pode ajudar a “uma imagem pode valer (até) mil palavras”. Simplificações à
fortalecer o pensamento racional e analítico. E, para tanto, parte, em alguns casos essa afirmação é verdadeira. E é bom
não é necessário nenhum talento especial para o desenho, no lembrar que quanto mais conhecida uma imagem, quanto mais
sentido mais usual da palavra. Os mais simples esboços de familiarizados estamos com o que ela reproduz, tanto mais
homenzinhos esquemáticos, como os que uma criança de 4 rápido somos capazes de processá-la.
41
I M A G E M

Antigamente, os resultados de eleições, por produzir. De que tamanho é o pedaço da pizza


exemplo, eram oferecidos em longas colunas de que você reservou para o cumprimento de
números. Hoje, já as primeiras projeções apare- tarefas imprevistas? Normalmente, as pessoas
cem na forma de gráficos, o que facilita a visualiza- não reservam área nenhuma para isso – ou, ao
ção de uma imagem imediata dos resultados. menos, não em seu primeiro exercício. Se você
Dito isso, vamos em frente: faça um gráfico em observar seu cotidiano com atenção por duas
forma de pizza com os percentuais do primeiro semanas, vai aprender quanto tempo do seu dia
experimento. Você perceberá de imediato que típico precisa disponibilizar, em média, para o
atividades tomam mais seu tempo. Não precisa- inesperado. Inclua o pedaço correspondente na
rá fazer contas para sabê-lo. Se perceber que as pizza e veja que o tempo reservado para outras
proporções não estão corretas (porque nota, di- atividades terá de ser diminuído ou suprimido,
gamos, que passa muito mais tempo ao telefone), para que seu gráfico corresponda à realidade.
basta deslocar um pouquinho a linha divisória do Isso ajudará também a protegê-lo do estresse
pedaço de pizza na direção desejada. excessivo que o tempo insuficiente reservado ao
Provavelmente a essa altura você já terá notado inesperado pode originar. É claro que podemos
que é muito mais fácil visualizar do que calcular usar o mesmo recurso para “pensar graficamen-
as proporções. Para calculá-las, o pensamento te” temas bem mais complexos (ver quadro).
normal precisa fazer um duplo desvio: primei- Vamos agora ao segundo experimento. Foi
ro, transformando ideias em números; depois, muito difícil descrever a dor com palavras? Em que
revertendo os números de volta em ideias. Com medida você foi capaz reproduzi-la com exatidão?
o auxílio da analografite, vemos de pronto o que É possível que também aqui o processo não verbal
é fato relevante, tanto no momento da produção tenha utilidade. Foi o que pensou o pesquisador
do gráfico quanto depois. Se, 20 anos mais tarde, Stefan Büchi, da clínica psiquiátrica do Hospital
retomarmos as mesmas anotações, bastará um Universitário de Zurique. E foi por isso que ele
olhar para nos inteirarmos das informações. desenvolveu a pictorial representation of illness and
De resto, muita gente aprende de passagem self measure (Prism, na sigla em inglês).
uma importante lição de vida ao fazer esse A Prism é um processo de pensamento idênti-
exercício. Em geral, quanto mais cheio o dia, co à analografite, embora o desenho não seja ne-
tanto mais trabalho imprevisto se acrescenta cessário. Neste caso, os pacientes depositam um
a ele. Isso soa familiar a você? Se a resposta é disco vermelho, representando a doença (ou a
sim, examine de novo o gráfico que acabou de dor ou outro aspecto a ser observado) sobre uma

Porcentagens para se conhecer melhor


Gráficos de pizza e de barras podem ser desenhados como analografites; por
meio deles, é possível compreender melhor as mais variadas situações
ais os temas ce
A : Qu ntra
VID ra onde estão dire is
E : P a io a c d
D TO ZA DE CONHECIME nado su
A N Z N
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AMIGOS ESTUDO TRABALHO FAMÍLIA an as
tém ar e
contatos regul ?
PRIORIDADES

42 l mentecérebro l Novembro 2010


placa branca de metal que re- Os desenhos resultantes foram
presenta a vida. Nesse caso, bem diferentes uns dos outros. Um
é fundamental a distância garotinho de 9 anos desenhou um
escolhida entre a patologia e martelo que golpeava o topo da
o “eu” – simbolizado por um cabeça, ao passo que uma jovem
disco amarelo também sobre de 18 anos esboçou uma nuvem
a placa branca. Essa distância da qual caem gotas de chuva. A
pode ser facilmente medida flecha apontando para sua cabeça
e nos diz algo sobre como mostra com clareza: quando cho-
o paciente vive sua enfer- ve, sinto dor na têmpora.
midade no plano subjetivo. Mesmo entre os pacientes
Curiosamente, as pessoas que não sofrem de enxaqueca,
reagem de maneiras muito imagens relativas a suas dores
diversas, mesmo quando de cabeça revelam-se bastante
afligidas por dor semelhante. distintas. No desenho de uma
Segundo Büchi, o recurso menina de 9 anos uma garotinha
é uma tentativa de, com o põe as mãos na cabeça, no ponto
auxílio de um método visual, de onde acredita que a dor irradia.
compreender a pressão que Um garoto de 10 anos localizou
a dor exerce sobre o paciente a sensação dolorosa mais para o
para entender melhor a re- lado, na altura da orelha, para onde
lação entre a pessoa e seus sua mão aponta. Muitos desenhos
problemas de saúde. sugerem ainda náusea e descon-
Büchi reconhece que uma forto na região do estômago.
técnica tão incomum pode, Ao todo, crianças e jovens
DOIS EM UM: em muitas
sim, resistir ao crivo rigoroso da ciência: “Nós de suas pinturas, o
demonstraram surpreendente capacidade de re-
medimos essas distâncias em cerca de 1.500 espanhol Pablo Picasso presentar sua dor por meio de desenhos – e sem
pacientes com doenças crônicas. É nítida a (1881-1973) representou qualquer treinamento para isso. Quanto não con-
rostos de dois pontos de
constatação estatística de que, em pessoas que seguiríamos se, nas escolas, o pensamento com
vista simultâneos, de frente
se veem mais prejudicadas, a distância é menor, e de perfil, como em Retrato o lápis de cor fosse exercitado de maneira mais
ao passo que em outras, com a mesma enfermi- de Marie-Thérèse, de 1937 criativa? Talvez muitos conflitos pudessem ser mais
retrato de marie-thérèse, 6 de janeiro de 1937, leo sobre tela, pablo picasso/museu picasso, paris/reprodução

dade, mas com melhor disposição psíquica, a bem compreendidos pelos professores se eles ape-
distância é maior”. O quadro resultante da Prism nas pedissem que seus alunos desenhassem o que
exibe nítidas similaridades com os resultados de sentiam sobre determinados assuntos (incluindo
outros procedimentos de diagnose. dificuldade de relacionamento ou aprendizagem)
De novo, vemos que esse tipo de ferramenta e depois falassem sobre o que fizeram.
pode auxiliar o pensamento, porque nos permite O que menos importa é se as pessoas em-
expressar, sem o auxílio das palavras, aquilo que pregam seu incômodo com perfeição. O fato
não conseguimos exprimir. A imagem ajuda a é que as imagens são instrumentos preciosos
tornar palpável o abstrato – no caso da Prism, de comunicação, que às vezes surpreendem até
tanto para os especialistas responsáveis pelo mesmo quem desenha. Em séries de estudos
tratamento quanto para seus pacientes. E todos duplos-cegos, neurologistas analisaram os dese-
saem ganhando. nhos de pacientes nos quais não haviam sequer
Direção semelhante toma o procedimento PARA SABER MAIS realizado exames fisiológicos. Seus diagnósticos,
adotado pelo neurologista americano Carl Stafs- Paradoxos da percepção. baseados apenas nas analografites, coincidiram
trom, da Universidade de Wisconsin em Madison. Vilayanur S.Ramachandran e em grande parte com aqueles de colegas que,
Diane Rogers- Ramachandran.
Ele pediu a seus jovens pacientes, com idade entre Especial Mente&Cérebro no
para o mesmo fim, utilizaram recursos técnicos
4 e 19 anos, que desenhassem suas dores de 16, págs. 16-19. sofisticados. Ambos os procedimentos chegaram
cabeça, fazendo-lhes perguntas parecidas com as A fisiologia da percepção. ao mesmo diagnóstico de 83% dos pacientes que
Wlater J. Freeman. Especial
que sugeri neste texto, no segundo experimento: Mente&Cérebro no 3, págs.
não sofriam de enxaqueca, e em 93,1% dos casos
onde está a dor? Como é senti-la? 30-39. de enxaqueca. e
m c

43
Meditação
para combater a
ansiedade
A prática tem ensinado muitas pessoas a prestar mais atenção
às emoções e ao próprio corpo e a lidar de forma mais
saudável com o estresse; estudos mostram sua eficácia no
controle de patologias como depressão, pânico e ansiedade

// por Camila Ferreira-Vorkapic

C
riada na Índia há mais de 3 mil anos, a me-
ditação sempre existiu tanto nas principais
religiões quanto nas organizações seculares.
Mais recentemente, a prática baseada na
autorregulação tem atraído a atenção de pes-
quisadores e sido utilizada como aliada eficaz no tratamento
de estresse, depressão, síndrome do pânico e transtorno de
ansiedade. Nos estudos médicos, dois aspectos são mais
frequentemente analisados: a concentração (representada
aqui pela meditação transcendental, MT, e técnicas de rela-
xamento) e a chamada mindfulness (sem tradução exata no
© michelangelo gratton/shutterstock

português, é definida como um estado de atenção plena,


voltada para o momento presente, de forma intencional,
A AUTORA sem julgamento). Esta última tem sido pesquisada pelo
CAMILA FERREIRA-VORKAPIC é pesquisadora do programa de redução do estresse baseado em mindfulness
Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio (MBSR, na sigla em inglês), criado pelo pesquisador Jon
de Janeiro (UFRJ), onde realiza pesquisa de doutorado
sobre efeitos de técnicas de ioga e meditação no
Kabat-Zinn, professor da Universidade de Massachusetts.
tratamento de transtornos de ansiedade O programa, que tem como base o treinamento intensivo,
44 l mentecérebro l Novembro 2010
T E R A P I A

45
T E R A P I A

é o mais utilizado em estudos sobre meditação meditação os níveis de lactato declinam significa-
Estudos
devido à sua abordagem bem definida, sistemá- tivamente, o que provavelmente está relacionado
tica e centrada no paciente. Há duas décadas o mostraram à concomitante redução da pressão sanguínea e
cientista também utiliza o programa de redução melhoras clínicas da necessidade de medicação hipertensiva.
do estresse com base em técnicas de meditação imediatas dos A meditação tem sido associada também a
em ambientes hospitalares. quedas drásticas nos níveis de alerta e excitação,
A meditação transcendental envolve o ato sintomas e o que ajuda a controlar o estresse e a ansiedade.
de voltar toda a atenção para algo específico. É depois de três Além disso, os praticantes parecem dispor de um
preciso esforçar-se constantemente para que a anos, aqueles sistema de recuperação autonômica do estresse
concentração fique restrita e a mente não diva- mais rápido que os não praticantes.
gue. O objeto escolhido pode ser uma imagem,
que persistiram Há várias confirmações de que a meditação,
um mantra, uma emoção, a própria respiração ou na prática especialmente a MBSR, reduz sintomas de pa-
partes do corpo. Já durante no estilo mindfulness conseguiram tologias crônicas e recorrentes como a síndrome
o praticante exercita a “observação desapegada”: do pânico e do transtorno de ansiedade genera-
inicialmente focaliza a atenção na própria respira-
manter os lizada (TAG). Sessões em grupo do programa
ção até que esteja estabilizada. Desse ponto em benefícios MBSR têm ensinado as pessoas a cuidar melhor
diante, a pessoa é capaz de observar quaisquer de si e a viver de forma mais saudável. Nos
eventos físicos ou mentais que possam surgir no últimos anos, foi desenvolvida uma abordagem
campo da consciência. Esses eventos mudam terapêutica que integra técnicas de meditação e
de um momento para o outro e são observados terapia cognitivo-comportamental, voltada para
com curiosidade – e nunca julgados ou avaliados. pacientes com ansiedade crônica e depressão
Essa maneira de estar presente e perceber o – em especial aqueles que não querem fazer uso
ambiente e a si mesmo ajuda o indivíduo a lidar de medicamentos controlados, gestantes ou que
com estresse, dor e doenças. desejam um tratamento adicional.
Um número cada vez maior de estudos
mostra isso. O pesquisador Scott Bishop, da PENSAR MELHOR
Universidade de Toronto, no Canadá, por exem- Geralmente, são prescritos ansiolíticos aos
plo, sugere que mindfulness, que frequentemente pacientes com doenças crônicas e recorrentes
é, por si só, o próprio objetivo da meditação, relacionadas à ansiedade. A combinação de
abarca dois componentes: o primeiro é a au- farmacoterapia e outras abordagens, como a
torregulação da atenção (que envolve inibição psicoterapia, favorece as chances de recupera-
do processo de elaboração); e o segundo é a ção. A meditação surge então como uma opção
possibilidade de vivenciar a experiência com complementar, de baixo custo, que favorece o
curiosidade, abertura e aceitação. tratamento. Além disso, reforça a autonomia
Embora os mecanismos fisiológicos por meio JULIA ROBERTS em cena do do paciente. Por isso mesmo a mindfulness é o
dos quais a meditação atua ainda não sejam filme Comer, rezar, amar sistema de meditação mais usado em pesquisas:
completamente claros para a ciência, é reconhe-
cido o fato de que a prática produz a redução
generalizada de diversos sistemas fisiológicos,
promovendo um estado profundo de relaxa-
mento. Alguns autores ressaltam que, durante a
meditação, ocorre um estado de funcionamento
fisiológico único: consumo de oxigênio reduzido,
resistência basal da pele aumentada, frequência
cardíaca reduzida e aumento da densidade e am-
plitude de ondas cerebrais alfa. Vários trabalhos
apontam para o rebaixamento do lactato sanguí-
neo, um marcador bioquímico de relaxamento.
Níveis elevados da substância no organismo
divulgação

estão associados à hipertensão e ansiedade, mas


investigações recentes mostraram que durante a
46 l mentecérebro l Novembro 2010
© reuters/latinstock
é conciso, bem definido e, uma vez aprendido, EM NOVA DÉLI, na Índia, aguçar a percepção de si e do ambiente, aju-
policiais participam do
pode ser realizado pelo próprio paciente e usado dando a clarear o raciocínio e as emoções. As
programa Vipassana,
em paralelo com qualquer terapia tradicional. técnica indiana que duas abordagens consideram também que, se o
Um estudo foi realizado em 1995 pelo purifica a mente por meio indivíduo for capaz de mudar sua relação com os
psiquiatra John Miller, na Divisão de Medicina da auto-observação próprios pensamentos, poderá alterar padrões
Preventiva da Universidade de Massachusetts, de comportamento autodestrutivos.
com 22 pacientes diagnosticados com ansiedade Outro estudo realizado por Jon Kabat-Zinn,
e pânico. Durante oito semanas os voluntários que desde 1992 investiga o tema no Departa-
participaram do programa de redução do estres- mento de Psiquiatria da Universidade de Massa-
se com base em mindfulness, sendo avaliados chussetts, confirmou as conclusões de Miller. Em
quatro vezes durante o estudo – na triagem, sua pesquisa, pacientes ansiosos também foram
antes da intervenção, logo depois da interven- submetidos ao programa de redução de estresse
ção e três anos mais tarde. Não apenas houve baseado em mindfulness durante oito semanas
melhoras estatísticas e clínicas significativas nos ininterruptas. Os resultados mostraram reduções
sintomas tanto subjetivos quanto objetivos de significativas na ansiedade, depressão e fobias
ansiedade e depressão, mas confirmou-se que em pacientes diagnosticados com transtorno
os resultados persistiram por mais três anos de ansiedade generalizada e pânico. E a maioria
para os que continuaram a praticar. Os autores dos voluntários continuou com a prática de
concluíram que a terapia ajuda a “reestruturar o meditação e disse acreditar no valor duradouro
conteúdo dos pensamentos para alcançar uma do programa. Os autores observaram que a taxa
relação entre pensamento, estado emocional de desistência foi muito baixa, indicando que a
e ação mais acurada e adaptativa”. O estudo prática foi bem aceita pelos pacientes.
mostra que a meditação mindfulness tem em Um trabalho mais recente, realizado em 2007
comum com a terapia cognitiva a proposta de na Universidade de Pochon-Cha, na Coreia do
47
T E R A P I A

A PRÁTICA MOSTRA-SE
EFICAZ NO TRATAMENTO
de pacientes que não podem
fazer uso de medicamentos,
como as gestantes

© aldo murillo/istockphoto
Respiração e ritmo influenciam Sul, investigou os efeitos da meditação mindful-
estados de humor ness em 46 pessoas diagnosticadas com transtor-
no de ansiedade generalizada e pânico, algumas
Entre as várias técnicas da ioga, os estimular o sistema parassimpático. das quais sofriam de agorafobia. Os participan-
exercícios respiratórios (Pránayáma) Com a prática dos exercícios tes foram divididos em dois grupos, sendo um
parecem ser os que exercem maior propostos pela ioga, os
deles submetido à redução de estresse baseado
influência nos estados de humor, quimiorreceptores sensíveis à
em mindfulness e o outro, ao programa de edu-
justamente pela notória relação elevação de CO2, localizados no
das emoções com a respiração. centro respiratório do cérebro cação em ansiedade. Comparado ao grupo de
A regulação respiratória depende (no tronco cerebral), começam a educação, o grupo que praticou meditação mos-
de uma série de mecanismos responder menos a esse aumento trou melhoras significativas em todas as escalas
involuntários, podendo ser realizada durante a expiração, de modo que que mensuram ansiedade. Esses e tantos outros
sem a interferência do controle o indivíduo consegue expirar mais estudos presentes na literatura evidenciam os
voluntário. Assim, as características prolongadamente, reduzindo a efeitos dessa prática nos níveis de ansiedade
da respiração se ajustam de acordo frequência cardíaca. As técnicas
de pacientes ansiosos e sujeitos normais. No
com as emoções. Entretanto, é têm como finalidade prolongar a
possível alterar voluntariamente seu expiração e valorizar a retenção
entanto, algumas dessas pesquisas apresentam
ritmo, frequência e profundidade. de ar. Esse princípio conduz a um falhas metodológicas e experimentais, sendo
As técnicas respiratórias orientam treinamento tão forte do SNA que necessária a constante replicação desses resul-
justamente esse controle ocorre um aumento das variações da tados e formulação de novos experimentos. Es-
voluntário, exercendo influência frequência cardíaca, mesmo quando tudo de 2008, realizado pela pesquisadora Susan
em mecanismos involuntários que o indivíduo não está praticando, pois Evans, na Universidade Médica Weill Cornell,
regulam a respiração e o sistema o padrão respiratório involuntário em Nova York, obteve resultados semelhantes
cardiovascular, podendo modular é profundamente alterado. Essas
com pacientes que sofriam de transtorno de
a interação entre sistema nervoso pesquisas talvez expliquem por que
simpático e parassimpático e, os praticantes de ioga são menos ansiedade generalizada.
consequentemente, o eixo HPA. propensos a desenvolver transtornos Há algumas décadas, pesquisadores vêm
Esses exercícios ativam o sistema de ansiedade e de humor e apontando a ligação entre meditação e a te-
nervoso autônomo com a finalidade respondem melhor às alterações rapia cognitivo-comportamental. Em 2002,
de inibir o sistema simpático e emocionais negativas. a Associação de Terapia Comportamental e
48 l mentecérebro l Novembro 2010
Cognitiva (então Associação para o Progresso ÁREAS ATIVADAS DURANTE A MEDITAÇÃO
da Terapia Comportamental) publicou uma
edição especial dedicada à integração da filo- Giro pós-central
Giro pré-central
sofia budista a essa abordagem psicoterápica.
Os autores argumentam que interpretações Córtice pré-frontal Córtice parietal
budistas para o sofrimento estão intimamente
relacionadas a deduções embasadas no conhe-
cimento a respeito do “eu”. A ideia de carma,
por exemplo, estaria “refletida” nas técnicas da
terapia cognitivo-comportamental que enfati-
zam comportamentos positivos e não prejudi-
ciais como terapêuticos. Eles indicam ainda que Lobo temporal

ARTE: ÉRIKA ONODERA


a meditação pode representar um antídoto útil
ao “comportamento não virtuoso” por meio do
estado de atenção plena, sem preocupação com

ARTE: ERIKA ONODERA


Hipocampo
julgamentos. A ideia de mindfulness, central no
pensamento budista, refere-se a uma conscien-
tização cuidadosa dos próprios pensamentos e
emoções, fundamental na meditação. A prática
busca promover uma forma de consciência de demonstrar clareza quando deveriam alcançar
pensamentos negativos na qual qualidades seus objetivos pessoais, profissionais e afetivos.
como aceitação, descentralização e desapego Além disso, o mesmo grupo encerrou as sessões
favorecem a capacidade de refletir e influenciar de terapia muito mais rapidamente que o grupo
as próprias experiências cognitivas. Essa orien- de controle. As diferenças sugerem que, além de
tação direcionada aos próprios pensamentos ajudar na redução do estresse, a TCBM aumenta
de forma flexível é capaz de promover a regu- o autocontrole dos praticantes. Anos mais tarde,
lação afetiva. os pesquisadores constataram também que a
maior parte dos pacientes não só seguiu com
ATIVIDADES DIÁRIAS a prática de meditação, mas teve melhoras nos
Levando essas questões em conta, pesquisado- níveis de energia e atividade diárias. Outro estu-
res da equipe do psiquiatra Zindel Segal, na Uni- do, realizado também por Myra Weiss, comparou
versidade de Toronto, criaram em 2002 a terapia os resultados de duas intervenções, ambas com
cognitiva baseada em mindfulness (TCBM), com duração de 12 semanas, em 31 pacientes ansio-
o objetivo de reduzir o sofrimento emocional sos divididos em dois grupos experimentais,
associado aos transtornos de ansiedade e depres- PARA SABER MAIS também teve conclusões similares. Só que dessa
são. Nela, os participantes têm a oportunidade Mindfulness-based cognitive vez os ganhos terapêuticos foram avaliados em
therapy for generalized an- dois momentos: uma semana antes do início e
de observar objetivamente seus pensamentos, xiety disorder. Susan Evans,
emoções e sensações físicas. A meditação pode Stephen Ferrando, Marianne ao término do trabalho. Ambos os grupos mos-
ainda preparar o terreno para a terapia que será Findler, Charles Stowell, Co- traram melhoras significativas, mas apenas os
lette Smart, Dean Haglin.,
realizada posteriormente, tornando os pacientes Journal of Anxiety Disorders 22, que frequentaram sessões de psicoterapia e do
mais receptivos e menos defensivos, potenciali- págs. 716–721, 2008. programa de redução do estresse baseado em
zando os efeitos da psicoterapia. Em um estudo Buddhist psychology, psycho- mindfulness todas alcançaram as metas traçadas
therapy and the brain: a cri-
realizado em 2005 na Universidade de Berkeley, tical introduction. Brendan e encerraram as sessões de terapia mais cedo do
na Califórnia, pesquisadores da equipe do cien- Kelly. Transcultural Psychiatry que o outro grupo.
(43), págs. 5-31, 2008.
tista Myra Weiss compararam a eficácia tanto Apesar das constatações e confirmações
Three-year follow-up and clini-
da psicoterapia aplicada isoladamente quanto cal implications of a mindful- sobre os benefícios da meditação, futuras pes-
vinculada à TCBM com pacientes ansiosos e ness meditation-based stress quisas ainda são necessárias para elucidar como
reduction intervention in the
estressados. Os resultados mostraram reduções treatment of anxiety disorders. funciona o intricado processo que nos leva a
significativas dessas variáveis nos dois grupos. John J. Miller, Ken Fletcher viajar para dentro de nós mesmos. O convite a
e Jon Kabat-Zinn. General
No entanto, apenas aqueles que praticaram Hospital Psychiatry 17, págs. essa expedição tem sido feito há séculos. Muitos
meditação e fizeram psicoterapia conseguiram 192-200, 1995. cientistas já o aceitaram. e
m c

49
Antes das
palavras discussões sobre os processos mentais que levam uma
criança a aprender rapidamente a língua materna
dividem cientistas: alguns acreditam que essa
capacidade é inata, outros afirmam que é determinada
por relacionamentos sociais e influências culturais

A
// por Annette Lessmöllmann pediatra Ghislaine Dehaene-Lambertz, do
Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Mé-
dica da França, demonstrou, há alguns anos,
que bebês de 3 meses já reconhecem frases
simples e reagem a elas. Mesmo sem matu-
ridade para a fala, regiões cerebrais semelhantes às dos
adultos para o processamento da linguagem são ativadas
nessas situações. A conclusão da pesquisadora reforça o
que parece, a princípio, comprovar algo que muitos estu-
diosos defendem: o cérebro de crianças bem pequenas
já estaria programado para o futuro desenvolvimento da
linguagem. Podemos pensar, portanto, que não basta
compreender a forma como um bebê
age para apreender processos
complexos como a aquisição
da fala, é preciso considerar
outros aspectos.
O linguista americano
Noam Chomsky foi um dos
primeiros a discordar, no fim
editora record/divulgação

DESAFIANDO O BEHAVIORISMO,
predominante no meio científico nos
anos 50 nos Estados Unidos, o pesquisador
A AUTORA americano Noam Chomsky incluiu o estudo da
É linguista e jornalista. linguagem na área da psicologia

50 l mentecérebro l Novembro 2010


DESENVOLVIMENTO INFANTIL

da década de 50, do que propunha o behaviorismo (do in- behaviorismo, Burrhus Frederic Skinner (1904-1990), postu-
glês behavior, comportamento). Segundo essa abordagem, la que a linguagem só poderia ser estudada como sistema
para entender o funcionamento mental era necessário de reação a estímulos. Chomsky, por sua vez, sugeriu que
© joseph mcnally/the image bank/getty images

concentrar-se totalmente no comportamento manifesto, a caixa-preta fosse aberta. Sua resenha da obra de Skinner,
ou seja, nas reações apresentadas quando a pessoa era publicada na revista Language em 1959, impulsionou o
exposta a certos estímulos vindos do ambiente. A mente surgimento de uma nova linha de pesquisa. A ordem era
seria uma “caixa-preta”, o que tornaria impossível compre- recorrer a métodos psicológicos para reconhecer o funcio-
ender os processos ocorridos ali secretamente. namento mental. Assim, Chomsky, professor de linguística
Essa forma de pensar dominava, na época, extensa desde 1961 do Instituto de Tecnologia de Massachusetts
parte das pesquisas psicológicas nos Estados Unidos. Em (MIT), incluiu o estudo da linguagem na área da psicologia.
seu livro Verbal behavior (Comportamento verbal, lançado no A pergunta de real interesse, segundo ele, seria: “De que
Brasil em 1959, pela Cultrix), o principal representante do forma a língua é processada pelo cérebro?”.
51
D E S E N V O LV I M E N T O I N FA N T I L

Como poderia ser possível que uma crian- sobre a aquisição da linguagem. Em resumo,
ça aprendesse alemão, suaíli ou filipino em ela transformou completamente grande parte
poucos meses, apenas por simples reação da linguística, a ponto de muitos linguistas se
a estímulos, sem que seus pais tivessem de considerarem mais cientistas naturais do que
despender grande esforço dando-lhe aulas cientistas humanos, uma vez que se propõem
de gramática? A suposição de Chomsky é a descrever o aparelho fonador e seu funciona-
de que, por trás de tal desempenho haveria mento com o auxílio de modelos matemáticos
uma espécie de processador, um “órgão da e algoritmos. Além disso, linguistas que usam
linguagem”, que utilizaria regras como um estritamente os preceitos de Chomsky não tra-
programa de computador, ajudando a formar tam da fala e da comunicação. Eles estudam a
frases concretas. competência, o conhecimento linguístico fun-
damental, ou seja, um objeto abstrato, que
CHAVE NEURAL se encontra guardado nas profundezas
Assim que compreende, inconscientemente, da caixa-preta.
que as orações em alemão sempre precisam O psicólogo Michael Tomasello,
de sujeito, a criança alemã é capaz de cons- porém, defende uma visão com-
truir corretamente infinitas frases como: pletamente diferente. Diretor do
Ich aß süß (“Eu comi doce”). Já a brasileira Instituto Max Planck de Antropologia
aprende rapidamente que não há problema Evolucionária em Leipzig e codiretor
em deixar o sujeito “eu” de fora: “Comi doce”. do Centro de Pesquisa de Primatas
Hoje estamos acostumados à ideia de que em Göttingen, ambos na Alemanha,
o cérebro processa informações de forma ele estuda homens e macacos. Com base
semelhante a um computador e trabalha sob na comparação entre as diferentes espécies,
determinadas normas. No final dos anos 50, Tomasello desenvolveu uma teoria sobre a
essa visão era revolucionária. E Chomsky aquisição da linguagem pelos humanos que
ainda acrescentou que muitas dessas regras parte de princípios bastante diversos dos
seriam inatas: ao nascer, todo ser humano já de Chomsky. Em vez de pesquisar na mente
disporia de conhecimento gramatical abstra- humana a competência linguística inata que
to. De fato, Chomsky e colegas elaboraram nos diferencia de todos os outros seres, ele
mais tarde uma teoria que explicava essa estuda o uso da língua – sua performance, tão
questão do sujeito na frase: tanto a criança negligenciada por Chomsky. No desempenho
alemã quanto a brasileira já “saberiam” desde da língua, poderia ser encontrado o porquê de
o nascimento que existe algo como a posição nossa espécie ser tão talentosa para línguas
do sujeito. Haveria, então, uma espécie de – e a explicação sobre como toda criança
“chave neural comutadora” movida para a aprende a língua materna com tanta rapidez
posição “sujeito-necessário” ou “sujeito- e segurança. Segundo Tomasello, o que nos
possível”. E esse dispositivo seria inato. Com distingue dos animais nesse quesito é nossa
esse modelo, Chomsky conseguiu explicar capacidade de nos colocar no lugar do outro e
instituto max planck de antropologia evolucionária/divulgação
por que as crianças aprendem a língua ma- compreender intenções e sentimentos alheios.
terna tão depressa; segundo suas suposições, Desse modo, nos relacionamos de forma
o processo de direcionar um mecanismo
Para Chomsky, comunicativa: “lemos” a mente do outro e
preexistente para um ou outro lado ocorreria nascemos com interpretamos seus desejos.
rapidamente. um “órgão da É exatamente isso que motiva uma criança
Como nos adultos a chave já está em de- a decifrar os sons estranhos que saem da boca
terminada posição – ou seja, os parâmetros
linguagem”; da mãe e do pai: “O que eles querem me di-
da língua estão fixos – é mais difícil para eles já Tomasello zer? E o que eu posso fazer para que eles me
compreender as regras de uma língua estran- prioriza a compreendam?”. Tomasello não contesta o
geira, enquanto para os pequenos esse pro- capacidade fato de que deve haver uma estrutura básica
cesso parece bastante “natural”. A linguística biológica para que se possa lidar com a lingua-
de Chomsky, a chamada “gramática gerativa”, empática na gem. Segundo ele, no entanto, a força motriz
pode ser considerada também uma teoria aquisição da fala durante o aprendizado de uma língua – e sua
52 l mentecérebro l Novembro 2010
Língua materna
Para Chomsky as crianças têm um “órgão
da linguagem”, enquanto na opinião do
linguista de Leipzig Michael Tomasello o
que nos permite falar é o constante exer-
cício de nos colocar no lugar do outro,
compreendê-lo e interpretar seus desejos.
Já para pesquisadores americanos da área
de psicolinguística, como Jenny Saffran e
Peter Jusczyk, o que conta é o aprendizado
estatístico da língua. Segundo eles, de
início o que o bebê escuta são apenas sons
encadeados; o primeiro passo em direção à
linguagem é isolá-los em palavras e depois
lhes conferir sentidos. Atualmente estão
em curso vários experimentos científicos
© calek/shutterstock

para investigar a aquisição da linguagem


cujo objetivo é verificar a predisposição de
bebês para reconhecer a voz materna. Para
isso, a criança é exposta a gravações de
vozes em várias línguas.

transmissão para a geração seguinte – é a mais eficiente para a comunicação – e, quase


cultura e não a natureza: o ato comunicativo, sempre, a mais correta gramaticalmente.
não os genes. O argumento principal de Tomasello para
Tomasello tem também uma visão diferen- tal teoria é o fato de que as crianças usam
te da de Chomsky no que concerne ao núcleo a própria língua durante muito tempo com
da linguagem. Enquanto o linguista do MIT regras especiais; elas dizem, por exemplo, “Au-
vê o sistema de regras da gramática como au” em vez de “Agora eu quero brincar com o
centro, para o psicólogo de Leipzig o cerne cachorro de pelúcia”. Tais expressões servem
está no conteúdo simbólico. Os homens se para a comunicação, pois agindo assim os
comunicam na medida em que trocam sinais pequenos frequentemente conseguem o que
significativos. Assim também surgiu a gramá- querem. Mas, na opinião de vários pesquisa-
tica na história da evolução – e não o contrário. dores, não se encaixam no sistema de regras
A visão da maneira como a espécie humana abstratas, que, segundo Noam Chomsky, é
chegou à linguagem marca também a teoria inato. Como se explica então que, durante
de Tomasello sobre de que forma cada criança PARA SABER MAIS a aquisição da língua, as crianças primeiro
aprende a língua materna. Diferentemente A review of B. F. Skinner’s ver- façam esse desvio por uma “não gramáti-
bal behavior. N. Chomsky, em
de Chomsky, ele não parte do pressuposto Language, vol. 35, no 1, págs.
ca”? Isso só se explica se não partirmos do
de que todas as pessoas são equipadas com 26-58, 1959. pressuposto das regras inatas, diz Michael
a mesma gramática universal e que, durante Reflexões sobre a linguagem. Tomasello, mas se considerarmos o sentido
Noam Chomsky. Cultrix, 1980.
o aprendizado, as crianças têm de trilhar o cultural da língua: a comunicação.
Constructing a language: a usa-
caminho até um conjunto concreto de regras ge-based theory of language Quem tem razão, afinal? “Hoje ninguém
– seja alemão, japonês ou outro qualquer. acquisition. Michael Tomasello. mais discute que, quando tratamos da lin-
Harvard University Press, 2003.
Michael Tomasello supõe que o processo de guagem, estamos tratando também de ha-
Computational constraints on
aprendizado seja muito mais simples. Se- syntactic processing in a non- bilidades inatas”, afirma o linguista Daniel
gundo sua teoria, as crianças brasileiras, por human primate. W. T. Fitch e M. Büring, da Universidade da Califórnia em Los
D. Hauser, em Science, vol. 303,
exemplo, ouvem algumas vezes frases do tipo págs. 377-380, 2004. Angeles. No entanto, outras questões, como
“Comi doce”, reconhecem então um padrão Word learning in a domestic o que acontece durante o processo de aquisi-
e concluem: “Ah, então é assim que se fala!”. dog: evidence for fast mapping. ção da linguagem ou se foram os genes ou o
J. Kaminski, J. Call e J. Fischer,
Regras abstratas são derivadas do uso con- em Science, vol. 304, págs. 1682- ambiente que levaram nossa espécie a falar,
creto da língua, e sai vencedora a construção 1683, 2004. ainda são assunto de discussão. e
m c

53
54 l mentecérebro l Novembro 2010
N E U R O C I Ê N C I A

O quantum
da consciência
Um dos objetivos da nova física quântica é desvendar
o funcionamento da consciência; pesquisadores dessa
área compreendem como um acontecimento, resultado
da dinâmica de interações entre o indivíduo e o mundo

// por Andrea Lavazza

A
consciência é um fato. Qualquer coisa que ve-
mos, sentimos ou fazemos provoca um efeito
indefinido, do qual não podemos fugir. Não
por acaso, no início do século 20 o psicólogo
americano William James dizia que consciência é
aquilo que começa quando acordamos e se interrompe quan-
do adormecemos. Porém, se tentamos defini-la de forma mais
precisa, começam os problemas. “Não existe acordo em rela-
ção a uma descrição, embora muitos concordem que tenha a
ver com as experiências subjetivas: preocupações, sensações,
observações”, afirma a psicóloga britânica Susan Blackmore,
que recentemente revisou todas as teorias propostas sobre o
tema. Muitos especialistas concordam que nada nos autoriza
a pensar que estamos próximos a explicar a consciência como
um conjunto de processos eletroquímicos no tecido cerebral
© colin anderson/photographer’s choice/getty images

que esteja em condições de produzir a maravilhosa variedade


da nossa vida interior.
Diante da dificuldade, há alguns anos os pesquisadores
recorrem a uma arma nova e potente: a física quântica (veja
quadro na pág. seguinte). Tanto é assim que em 2003 foi criado
o periódico científico NeuroQuantology. A iniciativa deve-se ao
prêmio Nobel de Medicina John Eccles, em parceria com o
filósofo Karl Popper. A proposta é considerar a relação entre
o cérebro e a mente com base nos campos da probabilidade
quântica como interface entre o mundo físico e o imaterial. A
hipótese mais conhecida e debatida é a do matemático e físico
55
N E U R O C I Ê N C I A

inglês Roger Penrose. Segundo ele, nosso cérebro


é completamente controlado pela física; o ponto
é que se trata de um tipo de física totalmente
novo, excepcionalmente complexo, que não se
baseia na intuição e cuja aplicação pode ser leva-
da a cabo apenas com um aparelho matemático
muito avançado.

REALIDADE FABRICADA
Penrose argumenta que existem dois níveis de
explicação na física: o habitual, clássico, chamado
newtoniano, usado para descrever objetos da
nossa vida cotidiana; e o quântico, utilizado para
as escalas subatômicas, guiado pela equação
de Schrödinger. Nesta dimensão encontram-se
casos em que existem duas possibilidades no
mesmo momento. Ficou famosa uma experiên-
cia mental chamada “o gato de Schrödinger”, na
qual se imagina o animal fechado em uma caixa
onde é colocada uma ampola de veneno ligada
a um complicado mecanismo detonador – o
felino pode, paradoxalmente, estar vivo e morto
no mesmo instante.
Mas quando fazemos uma observação (ou
seja, quando tomamos como ponto de partida
a física clássica), a sobreposição de estados deve
terminar em um dos dois, se considerarmos o
processo conhecido como colapso da função
de onda (ou seja, se abrimos a caixa, o gato está
vivo ou morto).
Físicos como Eugene Wigner sustentaram que
o colapso da função de onda é provocado pela

consciência humana. Desta premissa nasceram


História, água e proteína várias posições ingênuas e espiritualistas que
procuram combinar a peculiaridade da nossa vida
Provavelmente foi Alfred Lotka o primeiro a fazer a ligação entre a mental com a mecânica quântica. Mas Roger Pen-
nascente mecânica quântica e a consciência. Já em 1924 ele utilizou a rose não segue essa linha. Ele propõe uma teoria
constante de Planck para separar o mundo interior da mente do universo
conhecida como “redução objetiva”, um processo
exterior, divididos pelo determinismo da física newtoniana – que seria
válida apenas para o segundo. Outros físicos, matemáticos e biólogos
gravitacional que leva em conta a atração dos
seguiram seus rastros. Entre eles está Luigi Fantappiè, que introduziu o corpos e não local (que leva em conta os efeitos
conceito de sintropia, fundado sobre as ondas antecipadas que divergem ocorridos a distância e a modificação de objetos
no sentido contrário do tempo (do futuro ao passado), com base no qual sem que um esteja em contato com o outro).
desenvolveu a hipótese de que a memória dos sistemas vivos pode se “Hoje sabemos que a melhor conexão neuro-
manifestar como conexões não locais com acontecimentos passados não nal da consciência é a sincronização da atividade
vividos diretamente (lembrando, neste aspecto, a tese junguiana dos ar- elétrica cerebral sobre as ondas gama (30-90
quétipos universais). Mais recentemente, os japoneses Mari Jibu e Kunio
ciclos por segundo). Quando nos conscientiza-
Yasue desenvolveram uma neurofísica quântica na qual as ondas cere-
brais são representadas por meio da equação de Schrödinger e o cérebro
mos de alguma coisa (do toque do telefone ao
é visto como um sistema quântico macroscópico. Segundo essa visão, a lado, por exemplo), o córtex e as regiões mais
consciência surgiria da interação entre os campos eletromagnéticos e os profundas do cérebro, como o tálamo e parte do
moleculares da água nas proteínas. tronco encefálico, sincronizam-se em cerca de
56 l mentecérebro l Novembro 2010
Quando nos 25 milésimos de segundo”, afirma o anestesista
Stuart Hameroff, professor da Universidade do
conscientizamos Arizona, promotor dos seminários internacionais
de alguma coisa, regulares sobre a consciência realizados em Tuc-
o córtex e as son. Segundo ele, trata-se de um intervalo difícil
de explicar com a descarga dos neurônios, que é
regiões cerebrais muito mais lenta. “Do nosso ponto de vista, entra
mais profundas, em jogo o efeito da coerência quântica. Tudo
como o tálamo acontece no nível dos microtúbulos, estruturas
formadas por proteínas filamentosas que fazem
e parte do tronco parte da célula. Além de darem apoio ao neurô-
encefálico, nio, microtúbulos elaboram a informação através
sincronizam-se de um cálculo quântico não algorítmico (ou seja,
em cerca de 25 que um computador atual não poderia fazer),
favorecido pela sua estrutura em espiral.”
milésimos de Essas estruturas convertem as possibilidades
segundo múltiplas do subconsciente, que coexistem simul-
tâneamente, em forma de percepções ou pensa-
mentos. Nesta etapa entramos no reino da física
newtoniana, aquele do qual temos consciência.
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QUENTE E ÚMIDO
Tudo simples e linear? Não exatamente. A teoria
é altamente especulativa, e por enquanto não
há confirmação experimental. A filósofa e neu-
rocientista canadense Patricia S. Churchland,
professora da Universidade da Califórnia em
San Diego, criticou os argumentos de Penrose.
Ela observa que os microtúbulos existem no
corpo todo, não apenas no cérebro; existem
substâncias que podem prejudicá-los mas não
têm efeito sobre a consciência, e há anestésicos
capazes de “desligar” a consciência sem atuar
sobre os microtúbulos.
O que é teoria quântica? No que se refere à física, a principal objeção
apontada pelo físico Max Tegmark, do Instituto
Esse campo da física fornece atualmente a descrição mais confiável dos fenô- de Tecnologia de Massachusetts, diz respeito ao
menos físicos, em nível atômico e subatômico, no qual podem não ser levados isolamento do ambiente que deveriam ter as es-
em conta os efeitos relativistas. Estruturada no início do século 20, graças
truturas onde acontecem os processos quânticos
à contribuição de cientistas como Max Planck e Werner Heisenberg, Albert
Einstein, Niels Bohr e Erwin Schrödinger, a teoria quântica afirma em primeiro
para que eles mantenham o estado de coerência:
lugar a superação da divisão entre matéria (concebida como um conjunto de parece que essa condição (dificílima de ser repro-
minúsculos corpos localizáveis no espaço e no tempo) e radiação (entendida duzida até em laboratório) não é nem um pouco
como fenômeno contínuo e ondulatório). Seu nome deriva do fato de que a respeitada no cérebro quente e úmido.
energia da radiação eletromagnética pode assumir somente valores múltiplos Mesmo assim o filão quântico segue outros
inteiros de um valor fundamental, chamado “quantum”. Do princípio de in- percursos. O físico teórico Henry Stapp, ex-co-
determinação, do qual resulta impossível afirmar ao mesmo tempo a posição laborador de grandes nomes como Wolfgang
e o quanto uma partícula se movimenta, deriva uma interpretação da proba-
Pauli e Werner Heisenberg, confirma que “a
bilidade das trajetórias das partículas elementares, eliminando o determinis-
mo causal no âmbito microscópico e introduzindo elementos de incerteza
mecânica quântica ortodoxa introduziu na di-
estatística nas equações. Não obstante as múltiplas interpretações teóricas e nâmica algumas escolhas conscientes não de-
filosóficas do formalismo, nos dias atuais a teoria tem aplicações tecnológicas terminadas pelas leis da física conhecidas atual-
e industriais fundamentais. mente, mas com importantes consequências
57
N E U R O C I Ê N C I A

no mundo físico”. Isso é possível com base em Alguns que a intenção consciente do observador apre-
uma interpretação da teoria segundo a qual o sente uma pergunta ao sistema observado, o
conceito clássico de matéria é eliminado.
pesquisadores qual, de acordo com as leis estatísticas, pode
A chamada “interpretação de Copenhague”, acreditam a responder “sim” ou “não” (graças à interrup-
elaborada pelo físico Niels Bohr, provém da memória é ção da função da onda quântica), fornecendo
divisão da natureza em duas partes: uma é o associada aos conhecimento ao observador. A resposta é
sistema de observação que abrange corpos, dada pela natureza e não sofre influência do
cérebros e mentes que preparam os experimen- “estados de indivíduo. Pelo contrário, a causalidade tende
tos, descrito pela linguagem pela física clássica; vazio”, isso pode a anular o esforço consciente.
a outra é formada pelos sistemas observados explicar por Mas a possibilidade de formularmos pergun-
e questionados, descritos pelo formalismo da tas de forma sucessiva nos permite orientar as
mecânica quântica. John von Neumann, outro
que as novas respostas graças ao chamado “efeito quântico”.
grande nome da física do século 20, fala de um lembranças não A “escolha consciente” atua sobre o cérebro, que
processo contínuo constituído por infinitas comportam o por sua vez produz o comportamento manifes-
possibilidades quânticas em nível subatômico to na realidade física. No interior da interação
(os estados sobrepostos) e um processo de
cancelamento de quântica, as leis da física conectam a escolha
“investigação” da nossa parte (chamado “pro- rastros mnésicos consciente com os efeitos físicos. Assim, a mente
cesso 1”), que aponta em determinados obje- é considerada um primum ontológico capaz de
tos ou acontecimentos macroscópicos o que ação, em coerência com a física quântica, mas
a matemática descreve como um continuum. fora dela. Graças ao “esforço consciente” o ob-
No dualismo de interação de Stapp, Schwartz e servador consegue influenciar de forma peculiar
Beauregard, a posição cartesiana que diferencia o sistema observado
mente imaterial e cérebro físico se traduz na
afirmação de que a consciência é um fenômeno TEORIA DOS CAMPOS
real, enquanto nas outras entidades físicas se “Retomando de forma diferente a leitura da me-
reconhece apenas a descrição segundo as leis cânica quântica de Copenhague, todos esses mo-
expressas em forma matemática. Consideran- delos baseiam suas suposições no fato de que a
do que o “processo 1” é fundamental para o própria consciência se coloca acima da realidade
surgimento do mundo tal como o conhecemos observada e a determina. Dessa maneira escapa
e que este processo não é especificado pelas à verificação experimental”, diz a doutora em
leis da mecânica quântica, parece necessário psicologia cognitiva Antonella Vannini. O físico
aventar outras possibilidades. Pode-se afirmar Giuseppe Vitiello, professor da Universidade

A consciência saltitante
Coelho ou pato? Vasos ou rostos femininos? São as já familiares figuras
“biestáveis”, diante das quais damos um “salto de imagem”, passando
de uma à outra, uma vez que nosso cérebro não tem condições de per-
ceber as duas versões ao mesmo tempo. A mesma coisa acontece com
a “rivalidade binocular”, quando um objeto diferente é submetido a cada
olho. Os saltos observados e estudados com ressonância magnética
funcional (fMRI) levaram Efstratios Manousakis, professor da Universi-
dade do Estado da Flórida, a fazer uma conexão com o comportamento
quântico das partículas. Segundo ele, existem dois estados cerebrais
diferentes: a consciência “potencial” e a “real”. A primeira, o estado no
qual o cérebro recebe ambas as imagens simultaneamente, é repre-
© jethro toe/shutterstock

sentada como uma função de onda quântica. A consciência real existe


no momento em que a função se interrompe e percebemos a imagem.
Neste ponto o processo recomeça com outra função da onda de cons-
ciência “potencial”. O cálculo dos tempos de ativação dos neurônios e
da quantidade dos “saltos” deveria levar a um modelo que pudesse ser
testado em laboratório.

58 l mentecérebro l Novembro 2010


com a física clássica. A mesma coisa acontece,
por exemplo, com os cristais, os magnetos e os
supercondutores. Um aspecto importante do
modelo é que o cérebro se comporta como um
sistema clássico para cuja compreensão não se
pode ainda prescindir da dinâmica quântica da
qual ele surge. No modelo, os neurônios, as cé-
lulas gliais e outras unidades celulares não são
objetos quânticos. As variáveis quânticas são
aquelas relativas às propriedades moleculares
dos comportamentos biológicos”, diz Vitiello.
Esses sistemas podem viver em muitos es-

© colin anderson/photographer’s choice/getty images


tados fundamentais, passando de um a outro.
“É justamente isso que a mecânica quântica
não pode explicar. Faz-se necessária a teoria
dos campos (segundo a qual a natureza ondu-
latória se associa a uma partícula mensageira
responsável pela propagação da informação)
com base na qual podemos descrever como
se forma a ordem e principalmente como o
cérebro interage com o ambiente”, ressalta o
físico. E seria justamente esta “combinação”,
que comporta uma contínua troca de energia
e informação (a dissipação), que constitui a
de Salerno, considera essa interpretação insufi- chave para tentar explicar a consciência.
ciente para entender a consciência. Ele defende O ambiente é a “outra parte” do cérebro,
uma abordagem mais refinada, que tenha a ver porque existe uma ligação inquebrantável entre
diretamente com o funcionamento do cérebro, os dois, um contínuo diálogo, um “tráfego”,
usando a “teoria quântica dos campos”, uma como o define Vitiello. A qualidade subjetiva da
evolução da mecânica quântica. O ponto de nossa experiência seria o resultado da interação
partida é o modelo proposto em 1967 por Luigi recíproca – um fenômeno físico de altíssima
Maria Ricciardi e Hiroomi Umezawa, no qual a complexidade. Para o pesquisador, não estamos
memória é associada aos “estados de vazio”, diante de uma consciência do tipo cartesiano,
os níveis mais baixos de energia. Possivelmente com uma separação mente-mundo. Partindo
isso possa explicar por que a contínua “re-escri- de um modelo matemático podemos levantar
tura” das novas lembranças na mesma matriz a hipótese de que também a impossibilidade de
cerebral não comporta o cancelamento dos exprimir as sensações em palavras seja produto
PARA SABER MAIS
rastros mnésicos. Física quântica – Átomos,
da “manifestação” da nossa outra parte (porque
Na origem da pesquisa está a necessidade moléculas, sólidos, núcle- a descrição matemática considera cérebro e
de esclarecer a oscilação simultânea de grandes os e partículas. Robert M ambiente um sistema fechado; o ambiente é a
Eisberg e Robert Resnick.
áreas do encéfalo, que respondem a estímulos Campus, 1979. imagem refletida do cérebro no tempo). A cons-
externos a uma velocidade que nenhum meca- O cérebro quântico – As ciência não é um objeto, mas um acontecimento,
nismo conhecido consegue registrar. Vitiello, novas descobertas da neuro- o resultado e a manifestação de uma dinâmica,
ciência e a próxima geração
que trabalha em laboratório com o neurobió- de seres humanos. Jeffrey fruto do fato de que o cérebro está imerso no
logo americano Walter Freeman, sugere que a Satinover. Aleph, 2007. mundo. A consciência poderia ser uma fase
ordem emergente observada nas configurações The emerging physics of particular da matéria viva, tendo em vista como
consciouness. J. A. Tuszyn-
neurais surge do mecanismo microscópico ski. (org.). Springer, 2006. é organizada quanticamente. Isto leva em conta
que ocorre com o rompimento espontâneo da My double unveiled. V. Viti- que alguma forma de consciência esteja presente
simetria induzida por estímulos externos. “O ello. John Benjamins, 2001. em todo o reino animal. e
m c
La mente nuova dell’impe-
cérebro é um objeto quântico macroscópico ratore. R. Penrose. Rizzoli,
dotado de coerência especial, não compatível 2000. ANDREA LAVAZZA é jornalista.

59
60 l mentecérebro l Novembro 2010
N E U R O P A T O L O G I A

O portal da
dor
Um transtorno raro, em alguns casos hereditário, inspira
novas pesquisas sobre como o cérebro recebe e processa
os estímulos dolorosos; a resposta para diminuir o
desconforto de milhões de pessoas pode estar no controle
do funcionamento dos canais receptores de sódio

D
urante a maior parte dos 140 anos desde
// por David Dobbs
que passou a ser chamada de “síndrome do
homem em chamas”, a eritromelalgia (que
significa “doença das extremidades vermelhas
dolorosas”) manteve-se na quase total obs-
curidade. Mesmo hoje, sabe-se que o distúrbio afeta alguns
milhares de pessoas no mundo inteiro, mas faltam dados
mais precisos. O transtorno causa intenso calor nos pés e nas
pernas e, às vezes, nas mãos, em geral sem que os pacientes
saibam o que desencadeia o sintoma. E a maioria dos que
sofrem desse tormento até há bem pouco tempo imaginava
que estava inteiramente só.
A americana Pam Costa, de 45 anos, viveu a primeira
década de sua vida dessa maneira. Ela é uma das 30 ou 40
pessoas nos Estados Unidos, e possivelmente está entre as
aproximadamente 500 no mundo, inteiro que têm comprova-
mulher nua sentada com o braço direito dobrado e levantado,

damente uma forma hereditária da doença. “Minha primeira


palavra, me contaram, foi ‘mãos’ porque me incomodavam
óleo sobre tela, egon schiele, 1910, museu histórico, viena

demais”, conta Pam. Mais tarde, quando estava na escola,


seus pés ardiam o tempo todo. Muitas vezes, desesperada,
colocava-os no vaso sanitário em busca de algum alívio. Ela
não entendia como as outras pessoas conseguiam usar sa-
patos e meias. As aulas de educação física eram uma tortura.
“Ninguém tinha a menor ideia do que acontecia comigo. E eu
nem mesmo sabia que essa doença tinha nome.”
Em 1976, quando estava com 10 anos, a família de Pam
recebeu uma carta de uma equipe de pesquisadores da Uni-
versidade do Alabama, que lhe deu esperanças. Na época,
61
N E U R O P A T O L O G I A

a menina estava na 5a série, mas caminhar até pesquisadores de dor da Escola de Medicina da
a escola inflamava suas pernas, e suas mãos Universidade Yale, apoiando-se na descoberta fei-
doíam demais quando segurava a caneta. A ta por uma equipe de pesquisadores de Pequim
carta dos pesquisadores lançou um pouco de acerca de uma mutação genética relacionada à
luz sobre a situação. A universidade estava eritromelalgia hereditária, não apenas confirmou
montando a árvore genealógica de uma família a base genética, mas também o que parecia ser o
que tinha vários membros com algo chamado mecanismo fisiológico fundamental da EM. Um
eritromelalgia, ou EM, um transtorno bem pouco canal de sódio defeituoso nos neurônios senso-
conhecido que, no caso dessa família, parecia ser res de dor das pernas e braços – uma espécie de
hereditário. Aparentemente, a genealogia incluía porta, através da qual os sinais dolorosos são
Pam e sua mãe. enviados ao cérebro, rápida demais para abrir e
“Aquela carta foi uma coisa monumental lenta demais para fechar. Quando essa passagem
em minha vida. Não que tivesse feito sumir o estava aberta, a dor “saía em disparada como
problema. Mas comecei a lutar contra ele como fogo”. Mas a pesquisa sugeria que era uma
algo fora de mim”, lembra Pam. Com a ajuda porta que algum dia poderia ser fechada.
de uma professora da 6a série, Sally Jackson (a
primeira a perceber que a garota tirava ótimas UM BOM MERGULHO
notas quando o clima estava frio), ela começou O titular de neurologia em Yale, Stephen Wax-
a enfrentar a doença. A menina levava pacotes man, chefe do laboratório que publicou o artigo
de gelo para a escola, conseguiu ser liberada da sobre o canal de sódio, gosta de um pouco de
educação física para ler, aprendeu a reconhecer história. Quando o trabalho de Pequim chamou
o que podia e não podia fazer e descobriu que sua atenção para a eritromelalgia, aproveitou a
conseguiria se sair bem nas provas. Fez a oportunidade para mergulhar nos arquivos do
graduação e depois a pós-graduação, obtendo homem que foi o primeiro a dar um nome à
um doutorado em psicologia. Casou-se, abriu doença, Silas Weir Mitchell. Embora atenda um
uma clínica, começou a lecionar e, há oito anos, grupo variado de pacientes, ele nunca tinha visto
adotou uma filha. Ao nomear seu sofrimento, a alguém com EM.
carta circunscreveu sua patologia, tornou-a finita. Filho de um médico rico de Filadélfia, Mit-

imagem de silas weir mitchell: biblioteca nacional de medicina, bethesda; imagem de stephen waxman: bill fitz-patrick
E o que é finito, por maior e mais feio que seja, chell foi um dos neurologistas mais importantes
pode ser encarado. do século 19. A transformação foi atribuída
Pam nunca esperou ter outro lampejo de SILAS WEIR MICHELL foi principalmente à Guerra Civil, durante a qual
compreensão tão poderoso assim. Entretanto, 28 o primeiro a descrever a ele dirigiu um hospital militar de 400 leitos
eritromelalgia, descoberta
anos depois, ele veio – desta vez via um e-mail da quando tratou lesões e
para tratar lesões e doenças neurológicas em
Associação de Eritromelalgia, um grupo de pes- doenças neurológicas em Filadélfia. Ali viu centenas de problemas, e foi o
quisa e de apoio do qual faz parte. Uma equipe de militares durante a Guerra Civil primeiro médico a descrever e definir três dis-
túrbios, ainda hoje misteriosos. O primeiro foi a
eritromelalgia. Os outros dois eram o membro
fantasma, a sensação de reter a parte amputada
do corpo, e a causalgia, uma queimação que se
instala perto do local de um ferimento que já
parece ter sido curado.
Essas duas últimas patologias resultam ex-
clusivamente de trauma; a eritromelalgia, não.
biblioteca do congresso, washington d. c.

Contudo, ao ler os prontuários dos pacientes


de Mitchell e a correspondência com eles, Wax-
man compreendeu por que razão seu colega
identificou a EM como uma patologia especí-
fica, embora relacionada a outros problemas.
As três se originavam de mecanismos pouco
conhecidos e incidiam na ampla classe dos
transtornos chamados neuropatias periféricas,
62 l mentecérebro l Novembro 2010
nos quais entorpecimento, mau funcionamento No começo, tos tipos de células, inclusive musculares, de
ou dor, geralmente nos membros na “periferia” neurônios motores e do tecido cardíaco. Mas
do corpo, surgem não de uma lesão ativa, mas acharam que o os canais de sódio servem para cumprir papéis
de funcionamentos anômalos das fibras de menino sofria de particularmente vitais no sistema nervoso. Pela
nervos sensoriais que correm do tecido para autismo, mas o liberação dos íons de sódio carregados positiva-
o cérebro. A neuropatia periférica pode causar mente através das paredes das fibras axonais,
desde entorpecimento dos artelhos até síndro-
reumatologista eles criam os impulsos elétricos – os potenciais
me do túnel do carpo e paralisia. que o examinou de ação – que iniciam o processo eletroquímico
E frequentemente provoca intensa dor, que disse que a pelo qual os neurônios enviam sinais.
assume várias manifestações – queimação, Em 1990, Waxman e muitos outros pesquisa-
pontadas ou fisgadas como se fossem choques
criança estava dores produziram vários estudos que sugeriam
elétricos – e geralmente atingem os pés ou as com tanta dor que que os problemas associados aos canais de sódio,
mãos. Alguns pacientes, como os soldados de não conseguia as “canalopatias”, poderiam ser a base da dor
Mitchell, desenvolvem neuropatias depois de assimilar nada neuropática. Mas esses trabalhos não examina-
sofrer lesão ou se submeter a cirurgia. Muitos ram a questão crucial: que tipo de canal de sódio
outros sofrem de “neuropatias secundárias” nem se relacionar produz a descarga associada à dor? No total, havia
que acompanham doenças ou transtornos nove canais de sódio. Quais falhavam?
inflamatórios ou imunológicos, como hiperten- Mesmo quando Waxman formulou essa
são, aids, câncer, diabete ou esclerose múltipla. pergunta, sua equipe estava adquirindo novas
Estima-se que, somente nos Estados Unidos,
50 milhões de pessoas tenham uma forma de
neuropatia. Cerca de 10 milhões a 20 milhões DOLOROSOS CAMINHOS
delas sofrem de dor.
“Dor”
Waxman e outros pesquisadores tentaram O circuito da dor, mostrado aqui na forma
por anos entender as dores crônicas de origem simplificada, estende-se da periferia do corpo – a
pele e outros tecidos fora do sistema nervoso
neuropática, na esperança de curá-las e revelar
central – até chegar à medula espinal e ao cérebro.
os mecanismos fundamentais: se a dor é um
sinal recebido, então é preciso estudar os sinais
defeituosos. E os melhores para isso são os Projeção
Corno dorsal da
ao cérebro
sinais exagerados que se originam das neuro- medula espinal
patias. Já nos anos 50, trabalhos mostravam
Gânglio da raiz dorsal
que os neurônios motores danificados no trau-
ma frequentemente emitem sinais ampliados Impulso
durante semanas depois do trauma. Nos anos (mensagem de dor) Ramos periféricos
80, foi confirmada um funcionamento falho dos nociceptores
comparável nos neurônios sensoriais a uma
hiperexcitabilidade, como se um interruptor Corpo celular
do nociceptor
deixado ligado por acidente tivesse se tornado
o foco da pesquisa de dor crônica.
Mas um circuito de dor possui muitos inter-
ruptores. Onde estava aquele que permanecia
aberto? Os canais de sódio logo entraram na
lista dos candidatos mais prováveis. Em 1952, Lesão tissular
os fisiologistas britânicos Alan L. Hodgkin e Célula nervosa do corno dorsal
Andrew F. Huxley registraram as correntes
do axônio gigante de uma lula do Atlântico e, Num sistema sadio, uma lesão tissular faz as células nervosas sensoras de dor,
assim, estabeleceram a existência e o papel de ou nociceptores (rosa), enviarem uma mensagem de sinal de dor para as células
nervosas no corno dorsal da medula espinal que, por sua vez, passam a mensagem
transmissão dos canais de sódio. Pesquisas
ao cérebro, que a interpreta como dor. Na eritromelalgia e outras neuropatias
amadeo bachar

subsequentes confirmaram que os canais de periféricas, o mau funcionamento das células nociceptoras envia sinais de dor
sódio (juntamente com os de cálcio, potássio mesmo que não haja lesão.
e de outros íons) transmitem sinais em mui-
63
N E U R O P A T O L O G I A

ferramentas de observação e manipulação que doença.” Pam tinha praticamente dobrado as me-
os ajudariam a respondê-la. Agora, eles pode-
Até poucos anos, dicações de dor nos últimos cinco anos e agora
riam examinar os vários canais de sódio de um pessoas com a estava tomando cerca de oito a dez analgésicos
axônio superexcitado e ver quais genes estavam doença eram por dia, outros oito anti-inflamatórios, além de
se comportando de maneira estranha – produ- 90 miligramas de morfina de liberação contínua.
encaminhadas a
zindo proteínas (e, portanto, disparando uma E ela ainda acordava algumas vezes com tanta
atividade) quando deveriam estar dormentes, dematologistas, dor que o marido precisava lhe dar uma injeção
ou estavam dormentes quando deveriam estar hematologistas, extra de morfina.
atarefados. Durante anos eles e outros cientistas cardiologistas, Um dia, conversando com Pam, ela me con-
estreitaram o campo de pesquisa. Para Waxman e tou: “Tenho um primo, Jacob, que quando estava
seus auxiliares do laboratório (bem como alguns reumatologistas com 2 anos, tinha tanta dor que começaram a
pesquisadores de outros lugares), os resultados e vários outros lhe dar morfina. No começo, acharam que sofria
implicavam cada vez mais o sétimo dos nove especialistas, de autismo, pois parecia não conseguir aprender
canais, o Nav1.7. Eles o chamaram de Um-Sete. nada nem se relacionar com ninguém, mas um
E ficaram bons na criação de Um-Setes hipe-
exceto reumatologista que o examinou disse que o
rexcitáveis. Mas não conseguiam encontrar uma neurologistas menino estava com tanta dor que simplesmente
maneira de bloquear sua atividade nos sistemas não conseguia assimilar nada. Vi Jacob há vários
completos de dor, o que significava que não po- meses, quando estava com 3 anos. Ele ainda
diam saber o que aconteceria se essa estrutura não estava andando”, contou Pam. A mãe de
estivesse ausente. Outra maneira de confirmar Jacob desapareceu, provavelmente dependente
seu papel seria identificar o gene responsável de opiato. Dor demais. A avó cometeu o suicídio
pelo comportamento estranho. Infelizmente, por causa da dor. O garoto está sendo criado pela
um neurônio lesionado reage alternando os bisavó, de 80 anos.
interruptores em centenas de genes, disparando- Uma das muitas singularidades desta histó-
os para produzir proteínas que enviam sinais na ria é que, embora Stephen Waxman soubesse
tentativa de recuperar a função prejudicada. Os sobre a eritromelalgia e até que tinha uma
pesquisadores enfrentavam uma situação de forma hereditária, ele não conhecia o estudo da
agulha em palheiro. Universidade do Alabama e, portanto, não sabia
“Precisávamos de uma alteração genética no nada sobre a família de Pam. Nem ninguém do
canal de sódio – supostamente do Um-Sete – que seu laboratório, nem os muitos colegas a quem
soubéssemos que estava isolada. Em resumo, perguntou sobre neuropatias familiares. Isso
precisávamos de uma mutação”, diz Waxman. pode parecer um pouco estranho – e de fato é.

a single sodium channel mutation produces hyper-or hypoexcitability in different types of neurons”,
de anthony m . rush, sulayman d. dib-hajj, shujun liu, theodore r. cummins, joel a. black e stephen g.
waxman, in: proceedings of the national academy of science u.s.a., vol. 103, no 2; 23 de maio de 2006
“Ou seja, precisávamos de uma família com a Reflete a obscuridade que a eritromelalgia mante-

Passagem que não fecha


80— 80—
Os terminais sensores
60— de dor dos neurônios 60—
nociceptores contêm
40— canais de íons chamados 40—
canais de sódio Nav1.7 que
20— funcionam como “portais” 20—
MILIVOLTS

MILIVOLTS

para a resposta da célula


0— 0—
neural. Um neurônio com
–20— canais Nav1.7 normais –20—
“dispara” uma vez em
–40— resposta a um estímulo –40—
elétrico (esquerda). Mas
–60— –60—
em pessoas com EM
a passagem permanece –80—
–80—
I I I I I I I I I I I I
0 100 200 300 400 500 aberta – e a dor 0 100 200 300 400 500
TEMPO (MILIONÉSIMOS DE SEGUNDOS) não acessa. TEMPO (MILIONÉSIMOS DE SEGUNDOS)

64 l mentecérebro l Novembro 2010


ve até 2004. Apesar de 25 anos do deveriam sussurrar, berram. Desde
reconhecimento crescente de que que o laboratório de Waxman pu-
a maioria das dores crônicas se ori- blicou os resultados em setembro
gina da neuropatia, esta patologia de 2004, ele e outros confirmaram
singularmente misteriosa nunca e explicaram em maior detalhe o
cruzou o caminho da comunidade fato de certas mutações no SCN9A
de pesquisa da dor. (foram identificadas sete até agora)
Essas pessoas eram encami- criarem um mau funcionamento no
nhadas a dermatologistas, espe- Nav1.7 que causa a eritromelalgia.
cialistas vasculares, hematologis- Em dezembro de 2006, a equipe da
tas, cardiologistas, reumatologis- Universidade de Cambridge relatou
tas – vários especialistas, exceto uma mutação do SCN9A que criava
neurologistas. Essa desconexão uma completa ausência da sensação
terminou em março de 2004, de dor. A equipe descobriu a mutação
quando Waxman localizou na na família de um artista de rua de 10
Journal of Medical Genetics o artigo anos no Paquistão que impressio-
“Mutations in SCN9A, encoding nava multidões por caminhar sobre
a sodium channel alpha subunit, carvão quente e se esfaquear no bra-
in patients with primary eryther- ço. Algum tempo depois, ele morreu
malgia” (Mutações no SCN9A, depois de cair de um telhado.
que codifica uma subunidade alfa Waxman agora tem notícias de
do canal de sódio, em pacientes muitas pessoas com EM, inclusive
com eritromelagia primária). Os EM 1976, pesquisadores
Pam, que forneceram uma amostra
autores, uma equipe de dermatologistas e ge- da Universidade do de sangue com mutação no SCN9A, para um de
neticistas de Pequim, haviam analisado o perfil Alabama descobriram que seus estudos. Mais famílias apareceram. Cerca
a doença de Pam podia ser
genético de dois parentes com EM hereditária e de duas vezes por mês, o médico recebe e-mail
hereditária
esquadrinharam o gene defeituoso. de um paciente que não conhece. A maioria sofre
Aquele trabalho era brilhante. Mas já que os com dores terríveis. “Isso faz com que continue-
autores chineses eram dermatologistas e geneti- mos quando os experimentos não funcionam.”
cistas, eles não sabiam de uma coisa importante: “Muitos deles perguntam quando poderão
o canal de sódio codificado pela mutação que eles ter cura. É preciso entender que estamos ainda
tinham descoberto opera quase que exclusiva- tentando entender a biologia fundamental, o que
mente nos neurônios periféricos sensores da dor. leva muito tempo. Se a Merck ou a Abbott encon-
Não estando cientes disso, os dermatologistas trasse em suas prateleiras hoje um medicamento
naturalmente tentaram encontrar o canal fazendo que silenciasse o Um-Sete em um ensaio de
seu trabalho na pele. Mas não o encontraram. Era laboratório, ainda poderia levar dez anos para ser
nu vermelho, grávida, aquarela e carrvão, egon schiele, 1910, coleção particular

um canal específico de neurônio. usado em tratamentos. E esta biologia representa


O canal em questão era o Nav1.7. O laborató- um grande desafio”, esclarece Waxman.
rio de Waxman certamente sabia onde procurar PARA SABER MAIS A parte positiva é que o Nav1.7 é um bom
por ele. “Na neurociência, se você encontra uma Em busca de alívio. Allan alvo para medicamentos, já que parece fazer
mutação em um canal de íon, é um procedimen- L. Basbaum e David Julius. pouco além de evitar a dor e, portanto, reprimir
Mente&Cérebro no188, págs.
to convencional você cloná-lo em algumas células 44-51, setembro de 2008. seu funcionamento deve causar poucos efeitos
novas e ver que efeito tem a mutação. Normal- A dor. João Augusto Figueiró. colaterais. “Sempre achei que ajuda pensar que
mente, clonar um canal como esse exigiria um Publifolha, 2006. algum processo fisiológico particular estava
ano de trabalho árduo. Mas estávamos com tudo Mutations in SCN9A, en- causando meu desconforto. Agora eu conheço
coding a sodium channel
armado bem aqui, na prateleira. Levamos dois alpha subunit, in patients with esse processo. Consigo ver aqueles canais de
meses”, explica Waxman. primary erythermalgia. Y. Yang, sódio agindo exageradamente, todos aqueles
Y. Wang, S. Li, Z. Xu, H. Li, L.
As mutações reduziam o limiar de ativação Ma, J. Fan, D. Bu, B. Liu, Z. Fan, íons atravessando, e penso com muita força em
do Um-Sete. Criavam canais hiperativos que se G. Wu, J. Jin, B. Ding, X. Zhu e desacelerá-los”, diz Pam. e
m c
Y. Shen, em Journal of Medical
amplificam e se sustentam. Quando deveriam Genetics, vol. 41, no 3, págs.
permanecer silenciosas, elas falam. Quando 171-174, março de 2004. DAVID DOBBS é jornalista.

65
caso clínico

Sexo, jogo e dopamina


quando um novo medicamento para parkinson desencadeou sintomas como
apetite sexual desenfreado e compulsão por apostas, os neurologistas ficaram
perplexos. depois de algum tempo, porém, casos semelhantes se multiplicaram
// por Patrick Verstichel

N o princípio C. não prestou atenção aos


sinais. Seus braços doíam um pouco;
apresentava alguma dificuldade para se levantar
“Ele passa o
tempo todo no
No trabalho, C. parecia ainda mais eficiente.
Mas o médico notou um resíduo de rigidez mus-
cular e aconselhou um aumento ligeiro da dose
da cadeira. Talvez fosse uma simples gripe. Mas computador. do medicamento.
depois de algumas semanas a situação piorou. Logo que Seis meses mais tarde, foi um homem aca-
Era como se o seu organismo de repente enferru- bado e abatido que compareceu ao consultório
jasse e esse processo causasse dores por todo o
engole o jantar, do neurologista. O médico não compreendeu:
corpo. Ao fim de três meses, ele decidiu procurar vai surfar na fez várias perguntas ao paciente. As dores reapa-
seu médico e soube então que provavelmente era internet. E o que receram? Não, não... Tem de novo dificuldades
vítima da doença de Parkinson. para andar? Não, de modo algum. Na verdade, C.
Sua primeira reação foi de incredulidade.
faz? Joga sem não tinha rigorosamente mais nenhum sintoma
Mal completara 50 anos, jamais havia estado parar. Noites e do Parkinson.
doente e trabalhava muito ativamente como fins de semana Mas o homem estava embaraçado. Foi sua
executivo em uma grande empresa. Ao ser inteiros. O mulher, Sylvie, quem terminou por contar uma
informado de que a doença podia atingir pes- parte do problema: “Ele passa o tempo todo no
soas nessa faixa etária – e até mais jovens – seu problema é que computador. Logo que engole o jantar, vai surfar na
ânimo desabou. No decorrer da consulta, o aposta dinheiro. internet. E o que faz? Ele joga sem parar. Noites e
neurologista propôs um tratamento de última E perde! E, além fins de semana inteiros. O problema é que ele joga
geração, muito eficaz, que geralmente permite a dinheiro. E perde! E, além disso, doutor...”.
que o paciente leve uma vida normal. E, de fato,
disso, doutor...” Embaraço redobrado. Murmurando, a mulher
algumas semanas mais tarde, tudo parecia baixou os olhos. O neurologista a interrogou
correr bem. C. estava sorridente e executava cautelosamente. Ele fica agressivo, violento?
com a destreza reencontrada os exercícios que Visita sites pornográficos? Os olhos da mulher
o neurologista havia prescrito. Ele se sentia óti- se ergueram, mas ela fez que não com a cabeça.
mo e havia recuperado toda a sua energia. Os “Não é isso. Antes, nós tínhamos relações sexu-
© konrad bak/shutterstock

comentários de sua mulher pareciam animado- ais episódicas, nem muito frequentes, nem muito
res: “Ele recomeçou a sair no fim de semana, a raras. Enfim, já não somos tão jovens. Mas, veja,
andar de bicicleta; nos dias útetis faz compras, o problema é que ele...”.
faz seu joguinho na loteria e até adquiriu um O neurologista espera a continuação. Ela ter-
novo computador”. mina por contar: em alguns meses, C. tornou-se
68 l mentecérebro l Novembro 2010
69
caso clínico

obcecado por sexo. A mulher tinha dificuldade Enfim, ela cancela a assinatura da internet.
A patologia,
para acompanhar o seu ritmo incontrolável, Isso equivale a recuar para melhor saltar. C. co-
incansável e perpetuamente insatisfeito na que causa meça então a apostar em seu local de trabalho.
cama. “Não é que seja desagradável, mas pode enrijecimento Pego em flagrante, é advertido formalmente, com
acontecer que, um dia, eu já não baste para seu muscular, ameaça de demissão. O paciente se desespera,
apetite”, preocupa-se. mas não pode fazer nada. “É mais forte do que
lentidão nos eu, não consigo resistir, tenho de jogar. Sei muito
DESCIDA AO INFERNO gestos e no bem que vou perder meu emprego.”
Jogo compulsivo e hiperatividade sexual: eis andar e tremor Mas o que dizer de seus desejos sexuais?
um caso que difere bastante dos prognósticos Esses arrebatamentos incontroláveis que o
iniciais. O neurologista retomou o histórico e
característico, assaltam contrastam com seu temperamento
notou que C. começou com os jogos de azar resulta de uma habitual, contido em todas as circunstâncias.
em uma tabacaria. Os fregueses costumeiros degeneração O neurologista compreendeu. O medicamento
viram-no certo dia sair, raspar sua cartela e en- prescrito alivia os sintomas do Parkinson, porém,
trar de novo, para comprar outra. Depois uma
dos neurônios em certos casos raros, tem consequências inde-
terceira e uma quarta vez. C. é perseverante. que fabricam um sejáveis como a hiperatividade sexual ou a com-
Hoje, a tabacaria não é mais suficiente. neurotransmissor pulsão pelo jogo. Mas na época em que C. veio
Agora ele joga pela internet. Raspadinhas essencial consultá-lo, esses efeitos secundários ainda não
virtuais, pôquer, loterias, gamão, roleta... estavam comprovados. Portanto, ele participou,
Os sites são ilegais, mas pouco importa. A contra a sua vontade, da pesquisa médica.
necessidade de jogar é mais forte. Tão forte A doença de Parkinson, que causa enrijeci-
que as perdas financeiras se acumulam. C. mentos musculares, lentidão nos gestos e no
consegue um empréstimo sem informar Sylvie andar e, muitas vezes, tremor característico,
disso. A mulher, alertada pelo banco, percebe resulta de uma degeneração dos neurônios que
que as dívidas são colossais. O casal vende o fabricam um neurotransmissor essencial do cé-
automóvel e a casa para pagá-las e instala-se rebro, a dopamina. A substância está implicada
em um pequeno apartamento. na transmissão dos sinais nervosos nos circuitos

EM BUSCA DE SENSAÇÕES
Córtex motor

Por causa da falta de dopamina,


Striatum
o córtex motor de uma pessoa
atingida pelo Parkinson não é
estimulado adequadamente. A
administração de uma substância Núcleo
accumbens
que se fixa sobre os receptores
da dopamina localizados na
substância negra, porém, é
capaz de reativar os circuitos
que ligam a substância negra
ao striatum e ao córtex motor
(seta branca): a atividade
motriz é restabelecida. Mas
a área tegmental ventral
também contém receptores da
dopamina que são estimulados
pelo medicamento. Essa região
envia projeções para o núcleo
accumbens (seta azul), suscitando a
raphael queruel

ânsia por sensações que decorrem Substância


de práticas como jogo e sexo. negra Área tegmental ventral

70 l mentecérebro l Novembro 2010


que podem favorecer comportamentos aditivos
pela busca compulsiva de situações agradáveis
que envolvam emoção.
Esses efeitos secundários não ocorrem com
que controlam a execução motriz. Quando, devi- todos os pacientes, mas provavelmente em
do à morte das células, a concentração cerebral menos de 10% dos casos eles dizem respeito a
de dopamina torna-se inferior a 90% da normal, sujeitos relativamente jovens, sobretudo do sexo
os sintomas da doença se manifestam. Para masculino, que muitas vezes já apresentavam
restabelecer o bom funcionamento dos circuitos propensão a jogar, antes mesmo do tratamento.
pode-se administrar um precursor da dopamina, Ainda que esses efeitos secundários sejam raros,
a L-dopa, que é transformada no cérebro em do- as consequências são por vezes desastrosas, daí
pamina, ou moléculas que, fixando-se sobre os as autoridades exigirem que sejam sistematica-
receptores neurais da dopamina, os ativam como Na França, mente mencionados na bula do remédio e que
o faria o próprio neurotransmissor. Esses medica- os médicos que os prescrevem informem os
mentos são os agonistas dopaminérgicos, e uma tanto o pacientes a respeito disso. Na Justiça francesa,
molécula desse tipo foi prescrita para C. laboratório que por exemplo, estão em andamento diversos pro-
Os efeitos secundários podem ser explicados fabricou quanto cessos de pacientes que se arruinaram devido
pelo fato de que a dopamina não serve somente à dependência do jogo; tanto o laboratório que
de neurotransmissor nos circuitos da motricida- médicos que fabricou quanto médicos que prescreveram o
de, mas também intervém no sistema límbico, prescreveram o remédio foram condenados ao pagamento de
quer dizer, nos circuitos do prazer. Essa área é remédio foram indenizações por omissão de informação.
constituída por um conjunto de estruturas ner- Devido aos benefícios que esses medicamen-
vosas que controlam as emoções e as reações
condenados ao tos trazem aos doentes, é impossível renunciar
emocionais: prazer, medo, desejos, repulsa, pagamento de totalmente à sua utilização. Resta apostar nos
entre outras. A dopamina é com frequência indenizações benefícios inegáveis da informação. Recen-
descrita como uma molécula “da recompensa”, temente, uma viúva octogenária a quem eu
pois faz com que a pessoa sinta prazer quando
por omissão havia receitado uma pequena dose de agonista
realiza atividades agradáveis (relações sexuais, de informação dopaminérgico para uma situação diferente do
por exemplo) ou uma excitação nas situações de Parkinson me interrogou a esse respeito com
incerteza (particularmente os jogos de azar). uma pitada de malícia. No caso, ela não tivera
nenhum efeito secundário. “Eu li a bula, doutor, o
LEIA A BULA! senhor me disse que eu poderia começar a jogar
Quando se trata um paciente com Parkinson, e a ter encontros e, digamos, experiências... Na
© dwight lyman/shutterstock

dependendo do estágio da doença, o agonista minha idade, o senhor compreende... Veja bem,
dopaminérgico pode contribuir para o restabe- até certo ponto eu fico um pouco decepcionada,
lecimento de circuitos cerebrais de controle dos isso talvez fosse divertido...” e
m c

movimentos – que é o objetivo buscado, mas


nesse processo ativam-se também os receptores PATRICK VERSTICHEL é neurologista do Centro Hos-
de outros circuitos (chamados de mesolímbicos) pitalar Intercomunal de Créteil.

71
neuro
circuito
AFETO

Vínculo com a
mãe influi nas
escolhas e
no humor
Pesquisadores acreditam que
toque feminino traz segurança
e nos torna mais propensos a
viver novas experiências

A forte ligação emocional entre


mães e filhos aumenta a vonta-
de infantil de explorar o mundo – um
VESTÍGIOS DA INFÂNCIA:
na vida adulta voz materna aumenta
efeito também observado no reino a coragem e diminui o estresse

animal. Quanto mais seguros nos


sentimos em relação à figura mater- tários antes de dar as instruções. Os grupo especialmente receptivos ao
na, mais propensos estamos a viver estudantes de ambos os sexos toca- contato das pesquisadoras e mais
novas experiências e a correr riscos. dos por uma pesquisadora tiveram dispostos a correr riscos.
Agora os pesquisadores descobriram maior propensão a fazer apostas de No entanto, o toque não é a
que esse efeito se reflete também risco do que aqueles confortados única fonte de conforto maternal.
na vida adulta: uma lembrança do por um homem. “O toque feminino Em outro estudo, pesquisadores da
toque materno ou do som de sua pode ter despertado associações Universidade de Wisconsin-Madison

um beijo no bebê anne, pastel sobre papel, mary cassat, c. 1897, coleção particular
voz é suficiente para mudar o humor primárias, inspirando a mesma atitu- “estressaram” um grupo de meni-
das pessoas, afetando até a tomada de observada em crianças pequenas nas entre 7 a 12 anos com exercícios
de decisões. A conclusão do estudo com mães que as apoiam”, explica o de matemática e oratória. Logo de-
desenvolvido na Universidade de autor principal do estudo. pois, reuniram algumas com suas
Colúmbia pelo adminstrador Jona- Para confirmar que um toque de mães e às outras ofereceram apenas
than Levav, professor de administra- uma mulher remete a sentimentos uma ligação telefônica. As garotas
ção, foi publicada na Psychological de segurança, os pesquisadores que apenas falaram com as mães li-
Science. Um grupo de estudantes de pediram a outro grupo para tomar beraram tanta ocitocina, o hormônio
administração de empresas teve de decisões financeiras após um exer- dos vínculos sociais, quanto as que
escolher entre apostas seguras – tí- cício no qual metade deles escreveu puderam abraçá-las. Os dois grupos
tulos com 4% de retorno anual – e sobre uma época em que se sentiam tiveram níveis igualmente baixos de
jogos arriscados, como investimen- seguros e apoiados, enquanto a outra cortisol, o hormônio do estresse,
tos na bolsa, por exemplo. Na meta- parte abordou justamente o oposto. o que pode explicar por que tantas
de dos casos, os pesquisadores toca- Evocar uma sensação de insegurança pessoas ligam para a mãe quando
vam levemente no ombro dos volun- deixou os voluntários do segundo estão tristes. ■
72 l mentecérebro l Novembro 2010
SENTIDOS

Vermelho e amarelo são

© luiz rocha/shutterstock
cores associadas ao prazer

É comum que as pessoas se aproximem ou se afastem


de objetos devido à sua cor: o vermelho e o amarelo
normalmente remetem a frutas maduras e saborosas, TONS “QUENTES” remetem a frutas maduras e saborosas; já os “frios”
enquanto o verde e o marrom nos levam a coisas menos nos levam a coisas menos agradáveis
agradáveis. Para testar se isso faz sentido sob o olhar da
ciência, os psicólogos Stephen Palmer e Karen Schloss, apreciados. Finalmente os participantes do quarto grupo
da Universidade da Califórnia em Berkeley, separaram os indicaram o quanto gostaram ou não das 32 cores ante-
voluntários em quatro grupos. O primeiro devia dizer rapi- riores usando uma escala móvel. Os pesquisadores des-
damente o objeto que associava a cada uma das 32 cores cobriram que esse grupo tendia a apreciar as cores com
propostas. Quando apresentados ao amarelo, por exemplo, os maiores pesos – as que os três grupos associaram a
listaram bananas, canários e mostarda; o segundo grupo objetos agradáveis.
avaliou a atração que cada objeto exercia em uma escala de A próxima questão é: será que a atração e a rejeição por
zero (repulsivo) a 100 (muito agradável); e um terceiro gru- determinadas cores são agravadas pelo nosso cérebro? Ou
po avaliou o quanto cada cor combinava com cada objeto. são as nossas experiências que moldam nossas escolhas?
Com base nas diferentes avaliações feitas pelos grupos, Agora o grupo de cientistas está testando pessoas dos
os cientistas deram um peso matemático para cada cor Estados Unidos, México e Japão para averiguar se as cores
indicando a força de sua conexão com os objetos mais e os objetos prediletos são diferentes em cada país. ■

PATOLOGIA

Maus hábitos podem ajudar a combater distúrbios?


A lguns estudos têm mostrado que
consumidores compulsivos de café e
fumantes têm menos risco de apresentar
para que as células de dopamina morres-
sem em razão do envelhecimento. Quando
o pesquisador Leo Pallanck e seus colegas
a doença de Parkinson. Inspirados nesses alimentaram as cobaias com extratos de
resultados, cientistas da Universidade café e de tabaco, descobriram que os neu-
de Washington, nos Estados Unidos, rotransmissores dopamina dos insetos
decidiram aprofundar as pesquisas e co- sobreviveram mais e seu tempo de vida, de
meçaram a investigar como o café forte e forma geral, também aumentou. Os cien-
os cigarros afetam as moscas-das-frutas. tistas descartaram a cafeína e a nicotina
Os tremores e outros sintomas motores como substâncias protetoras, mas encon-
comuns em pacientes com Parkinson traram nelas componentes promissores
© silver-john/shutterstock

são desencadeados pela morte de células para combater o Parkinson e pretendem


cerebrais responsáveis pela produção realizar novos testes. ■
do neurotransmissor dopamina; assim,
CIENTISTAS DESCARTARAM A CAFEÍNA E A NICOTINA
os pesquisadores usaram moscas que como substâncias protetoras, mas encontraram nelas
haviam sido geneticamente modificadas componentes promissores para combater o Parkinson

73
neuro
circuito

MOTIVAÇÃO

Preguiçosos se saem melhor em atividades divertidas

E m uma sala de aula é


possível encontrar todos
os tipos de alunos. Os pre-
A FORMA como se descreve uma tarefa
influencia no rendimento dos alunos

guiçosos, por exemplo, em um segundo teste confundiu


geral, são tão inteligentes os pesquisadores.
quanto os demais, porém, Novamente foram apre-
parecem não se importar em sentadas palavras motivacio-
parecer medíocres. Um estu- nais para os jovens voluntá-
do realizado pelos psicólogos rios antes que iniciassem o
William Hart, da Universi- jogo de caça-palavras. Mas,
dade de Alabama, e Dolores dessa vez, ao invés de des-
Albarracin, da Universidade crever a tarefa como um teste
de Illinois, sugere que basta sério como havia sido feito
classificar uma tarefa como com o anterior, os pesquisa-
“divertida” para que os me- dores disseram que se tratava
nos esforçados superem os de uma “atividade divertida”.
que geralmente se destacam. Os resultados após essa sim-
Os resultados indicam que ples mudança foram profun-
a maneira de um educador dos: a maioria dos supostos
descrever uma atividade pode preguiçosos não apenas se
influenciar muito no bom saiu melhor, mas superou os
rendimento dos alunos. onde foram apresentadas palavras mais aplicados. Os autores do estudo
Para chegar a essa conclusão os e expressões relacionadas ao bom enfatizaram que para alguns alunos,
© stacey newman/istockphoto

pesquisadores classificaram os estu- aproveitamento como “vença” e “seja quando uma tarefa é apresentada
dantes com habilidades semelhantes, o máximo”. Nos testes seguintes de como “divertida”, é fundamental para
distribuindo-os em categorias como aptidão, como caça-palavras, as crian- a melhora da motivação e, consequen-
dedicados ao sucesso ou interessados ças interessadas no sucesso se saí- temente, para o seu desempenho. Por
em diversão. Depois, fizeram com ram melhor que as outras. O estudo isso, educadores e pais, devem ser
que olhassem na tela do computador confirmou o que já se sabia, porém, cuidadosos ao rotular atividades. ■

NEUROCIÊNCIA

Cérebro tem dificuldade de realizar tarefas simultâneas

E studo publicado no periódico Science mostra que quando exe-


cutamos duas ações ao mesmo tempo o cérebro, literalmente,
divide o trabalho ao meio para que cada hemisfério se concentre
em uma tarefa. Para chegar a essa conclusão pesquisadores medi-
ram a atividade neural de voluntários por meio de testes de compa-
ração de letras. Quando os participantes tinham de lidar com duas
© otnaydur/shutterstock

séries de sinais gráficos, realizando duas tarefas simultâneas, cada


atividade correspondia a uma metade do cérebro. Os resultados
desse estudo podem explicar por que o desempenho piora quando
realizamos três ou mais atividades simultâneas: ficamos com falta
de hemisfério para realizar mais de duas tarefas. ■
74 l mentecérebro l Novembro 2010
neuro
circuito

PRAZER

Dinheiro compra “infelicidade”

P or que muitos religiosos freiras


católicas e monges budistas fa-
zem voto de pobreza? Deixando dou-
dois grupos. O primeiro recebeu a
fotografia de uma pilha de dinheiro
e o segundo, a mesma figura, po-
trinas e crenças à parte, tanto quanto rém desfocada e impossível de ser MONGES BUDISTAS e freiras
católicas encontram satisfação
possível, um estudo publicado na reconhecida. Depois os participantes
nas coisas simples
Psychological Science oferece pistas fizeram testes psicológicos para me-
que podem iluminar essa questão dir sua capacidade de aproveitar as por mais tempo que os homens, po-
e esclarecer essa dúvida: o dinheiro experiências agradáveis. Os que rece- rém, independentemente do sexo, os
– até o simples pensamento sobre beram a imagem do dinheiro pontua- participantes que receberam a figura
ele – diminui a satisfação encontrada ram menos. do dinheiro gastaram menos tempo
em prazeres simples da vida. Consi- Em um segundo teste, o primeiro saboreando o chocolate (em média 32
© christine gonsalves/istockphoto

derando que a capacidade de apreciar grupo recebeu um pedaço de chocola- segundos contra 45 segundos). Esses
as experiências prediz o nível de feli- te após ter visto a fotografia do dinhei- resultados mostram que pensar em
cidade, o psicólogo Jordi Quoidbach ro e o outro depois de ter observado dinheiro pode tirar o prazer. Em ou-
e seus colegas da Universidade de a imagem borrada. Depois os pesqui- tras palavras, apesar de o dinheiro ser
Liège, na Bélgica, dividiram aleato- sadores cronometraram o tempo que um canal para o acesso a experiências
riamente 374 adultos, com perfis e cada um levou para saborear o doce. prazerosas, ele “rouba” a capacidade
atividade profissional variados, em As mulheres apreciaram a guloseima de apreciar as coisas simples. ■

75
neuro
circuito

NEUROECONOMIA

Gene pode estar


associado à compulsão
por compras

P or que algumas pessoas têm difi-


culdades de controlar seus gastos e

© dmitriy shironosov/shutterstock
acabam invariavelmente ultrapassando o
limite do cartão de crédito? Alguns colo-
cam a culpa desses excessos na inflação
ou nas altas de taxa de juros. Porém, re-
centemente, pesquisadores encontraram
mais um “culpado” para acrescentar a
essa lista: um gene associado à com-
CONTROLE DA IMPULSIVIDADE é menor em pessoas com baixo nível de monoamina oxidase
pulsão por gastos. Estudos anteriores já
haviam mostrado que a genética desem-
penha papel importante na forma como administramos Algumas pesquisas haviam associado versões de bai-
nossas finanças. Mas o estudo é o primeiro a mostrar xa eficiência desse gene à impulsividade. O novo estudo
que um gene específico pode ser o responsável por afetar mostrou que pessoas com uma “versão de baixa eficiên-
o comportamento financeiro de algumas pessoas. Ob- cia” de MAO-A tinham dívidas no cartão de crédito com
viamente a relação não é tão direta, mas está ligada ao frequência 7,8% maior que aqueles com duas versões
controle da impulsividade. Pesquisadores da Universida- maiores do gene. Isso pode ser observado mesmo quan-
de da Califórnia em San Diego e da Escola de Economia do fatores como condições socioeconômicas e escola-
de Londres, analisaram dados genéticos e questionários ridade foram levados em consideração. Em voluntários
preenchidos por mais de 2 mil jovens entre 18 e 26 anos com duas “versões baixas do gene”, esse número saltava
que integraram o Estudo Longitudinal Nacional da Saúde para 15,9 %. Os pesquisadores se surpreenderam com
do Adolescente. Com esses relatórios os pesquisadores essa diferença. “O efeito é quase tão grande quanto o
pretendiam saber se esses jovens tinham dívidas acumu- analfabetismo financeiro que traduz a incapacidade hu-
ladas e qual era o papel do gene de monoamina oxidase mana de digerir informações financeiras complexas”,
(MAO-A, na sigla em inglês), enzima que quebra os neu- observa o pesquisador Jan-Emmanuel de Neve, um dos
rotransmissores do cérebro. autores do estudo. ■

LIDERANÇA

Quanto mais poder mais espaço e hormônios


N o ambiente de trabalho, a possibilidade de que
um chefe seja a pessoa que usa mais espaço é
grande. Em geral, são os que ocupam cargos mais
inclinassem o corpo para a frente em uma escriva-
ninha. Os participantes apresentaram aumento da
testosterona e queda no nível de cortisol, o hormônio
altos que têm salas mais amplas e maior quantidade do estresse. “As pessoas se sentiram mais podero-
de armários. Outros animais, além do homem, de- sas”, diz a psicóloga Dana R. Carney da Escola de
monstram seu status com posturas expansivas. Um Administração da Universidade Columbia. Portanto,
estudo recente sugere alterar os níveis hormonais. para aumentar a autoestima, ponha os pés em cima
Os pesquisadores pediram a um grupo de volun- da mesa e se pergunte: “Quem manda aqui?” Mas
tários que colocassem os pés sobre uma mesa ou depois aguente as consequências. ■

76 l mentecérebro l Novembro 2010


neuro
circuito

77
l i v r o s
resenha
FREUD ENTRE APOLO E DIONÍSIO – RECORTES
FILOSÓFICOS, RESSONÂNCIAS PSICANALÍTICAS
Zeferino Rocha. Edições Loyola e Universidade Católica de
Pernambuco, 2010. 200 págs., R$ 36,00

Deuses da luz
Obra traz textos recentes de Zeferino Rocha que aproximam saberes da
filosofia e da psicanálise, com a proposta de discutir o sofrimento psíquico
// por Maria Consuêlo Passos

E m tempos de uniões instáveis e raras “sintonias pensamento, quanto desvelar sua complexidade, sobre-
finas”, Freud entre Apolo e Dionísio – Recortes filosó- tudo quando se trata da dimensão intrapsíquica, objeto
ficos, ressonâncias psicanalíticas, de Zeferino Rocha, é um da psicanálise. Preocupado não só com o conteúdo, mas
verdadeiro alento. O livro propõe um exercício refinado também com a forma e com o processo de criação, o autor
de enlaçamentos que expressam harmonias, tensões e apresenta, em cada ensaio, uma introdução, os objetivos
saídas, próprias a qualquer relação. Bem formado tanto do texto, os caminhos trilhados, sem perder de vista a
em psicanálise como em filosofia, o autor cria uma ponte dinâmica de elaboração que incita o leitor a participar do
entre esses dois saberes com admirável desenvoltura. Em debate e a fazer suas próprias reflexões.
certos momentos ele se coloca como Em certo momento do livro, ao se re-
narrador, outras vezes como mediador, O processo de ferir às implicações de figuras mitológicas
mas também como parceiro em um no trabalho de Freud, o autor afirma: “Em
diálogo criativo e tenso, cuja principal criação de uma teoria Apolo, o deus da luz e da razão, inspirava-se
intenção é desvelar pensamentos e pai- é tão importante o seu espírito racionalista, influenciado pela
xões. Tarefa difícil, já que entre ambos quanto o conteúdo Aufklärung (iluminação); de Dionísio ele
as fronteiras são tênues, marcadas por herdou a paixão pelo desconhecido, o que
muitas aproximações e complementari-
que ela engendra; o fez mergulhar nas profundezas da alma
dades, aliás, tratadas no livro. Zeferino isso nos alerta para humana e destacar sua dimensão irracio-
esmiúça as diferentes concepções teóri- a necessidade nal. Esse paradoxo vivo entre o apolíneo e
cas, mostrando o quanto a racionalidade o dionisíaco sustentou a quase impossível
e o arrebatamento vividos por Sigmund
de buscarmos os tarefa que ele se atribuiu de sistematizar
Freud e espelhados nas obras dos seus fundamentos das teoricamente o estatuto metapsicológico
mestres sustentaram a criação de uma nossas concepções do conceito de inconsciente, ousando,
metapsicologia, capaz de revolucionar o desse modo, colocar um pouco do sangue
conhecimento do psiquismo. Trata-se, portanto, de um es- de Apolo nas veias de Dionísio e do sangue de Dionísio
paço fértil no qual fluem, com naturalidade, transferências nas veias de Apolo”.
cruzadas e identificações entre os personagens. Se essa mistura favoreceu a concepção original da
O trabalho é composto por textos recentes que, em psicanálise, poderíamos dizer que é de Zeferino Rocha o
conjunto, oferecem um elogio ao paradoxo, sem que haja mérito de criar uma química por meio da qual ele conse-
nenhuma preocupação de resolvê-los. Ao contrário, a gue mostrar a paixão, a razão e a poesia necessárias para
intenção é tanto ressaltar a importância da formação do tornar viável uma teoria sobre subterfúgios e armadilhas
78 l mentecérebro l Novembro 2010
e revela a preocupação do autor em
manter aceso o debate filosófico e os
desdobramentos necessários à criação
de um conhecimento voltado ao so-
frimento psíquico. Esse fio ressalta o
quanto é fundamental buscar sentidos
da cadeia que origina determinadas
leituras e compreensões do humano,
mas também dos sentidos recriados ao
longo do tempo. Revela-se assim que
o processo de criação de uma teoria é
tão importante quanto o conteúdo que
ela engendra – o que nos alerta para
a necessidade de buscar sempre (e
criteriosamente) os fundamentos das
nossas concepções. Em síntese, po-
deríamos dizer que este trabalho é, da
primeira à última página, atravessado
pela preocupação com as origens das
fundações epistemológicas das ciên-
cias. Preocupação esta inerente aos
pensadores que não se contentam com
interpretações rápidas, tão frequentes
nos dias de hoje.
Os temas abordados indicam o
quanto o autor busca as origens para
se manter antenado com os aconteci-
mentos do nosso tempo. Sensível aos
dilemas psíquicos e às psicopatologias
que acometem o homem contemporâ-
neo, Rocha usa os recursos desse co-
baco/dionísio, óleo sobre tela, nicolas poussin, século xvii, museu
nacional, estocolmo / © the bridgeman art library/keystone

do psiquismo. Neste sentido, é preciso reconhecer que há nhecimento fronteiriço, entre a filosofia e a psicanálise, para
uma boa dose desse “sangue” nas veias do autor que toma problematizar o sujeito e suas mazelas, a crise e a violência
para si a tarefa complexa de interpretar as profundezas do dos dias atuais, sem esquecer os desvios éticos da cultura.
pensamento freudiano, apresentando uma interpretação Mesmo reconhecendo o quanto esses dispositivos são
sensível e amadurecida das influências que marcaram a responsáveis por certa barbárie, apresenta reflexões sobre a
origem da psicanálise. esperança, deixando antever a crença na capacidade originária
O debate proposto vai além da trilogia Freud, Apolo do homem de enfrentar as forças antagônicas. e
m c

e Dionísio. Há várias outras incursões pela filosofia de


Heráclito de Éfeso a Heidegger, por exemplo, passando MARIA CONSUÊLO PASSOS é doutora em psicologia social, psica-
por algumas referências à filosofia contemporânea. Os nalista, pesquisadora e docente do Programa de Pós-Graduação em
textos são atravessados por um fio invisível que os conecta Psicologia Clínica da Universidade Católica de Pernambuco.

79
l i v r o s
Lançamentos

Deuses de Freud
– A coleção de Fundamentos da
arte do pai da psicanálise – De Freud
psicanálise. Janine a Lacan – vol. 2. Marco A trilogia do
Burke. Record, Antonio Coutinho amor. Betty Milan.
2010. 462 págs., Jorge. Zahar, 2010. Record, 2010. 240
R$ 59,90. 290 págs., R$ 39,90. págs., R$ 37,90.

ARTE PSICANÁLISE ROMANCE


A coleção de Freud Fantasia, cultura e clínica Histórias de amor
Em Deuses de Freud – A coleção de arte do Dando sequência à obra Fundamentos Em A trilogia do amor, a psicanalista Betty
pai da psicanálise, a premiada historiadora da psicanálise, o psiquiatra e psicanalista Milan reúne três de seus livros de ficção
de arte Janine Burke apresenta uma Marco Antonio Coutinho Jorge lança sobre o amor: O sexophuro conta a história
faceta pouco conhecida de Freud: a de Fundamentos da psicanálise – De Freud de uma mulher que, diante da falência da
um colecionador dedicado, apaixonado e a Lacan, expondo as conquistas da vida conjugal, procura uma saída fora do
preocupado em cercar-se de belos objetos psicanálise no campo da fantasia e casamento; A paixão de Lia, no qual, para
de arte. A obra foi feita com base em intensa avançando na pesquisa teórica sobre o compensar a falta do amado, a personagem
pesquisa sobre o criador da psicanálise tema, ressaltando a importância desses se deixa levar pela fantasia, passando por
e sua coleção de antiguidades egípcias, conceitos. Para isso, o autor analisa diversas situações imaginárias; e O amante
gregas e romanas. A autora constrói uma produções nas quais a fantasia encontra brasileiro, centrado em dois protagonistas
imagem detalhada e íntima da vida e da expressão como filmes, contos, poesias, que se amam verdadeiramente. Assim, a
época de Freud, mostrando como o acervo, pinturas, músicas e peça além de autora permite que as três histórias, antes
composto por mais de 2 mil estátuas, era explorar exemplos extraídos da clínica e autônomas e distintas, possam ser lidas de
parte essencial de seu trabalho. observações da vida cotidiana. forma agregada.

Violentamente
pacíficos. Maria de
L. Trassi e Paulo A.
Transtorno da Malvasi. 128 págs.
ansiedade da HIV/Aids
infância. Ronald M. – Enfrentando o
Rapee, Susan H. sofrimento psíquico.
Spence, Vanessa Voluntariado: uma Edna P. Kanhale,
Cobham, Ann dimensão ética. Cynthia Christovam
Wignall. M. Books, Rachele Ferrari. e outros. 144 págs.
2010. 176 págs., Escuta, 2010. Ambos da Cortez,
R$ 45,00. 160 págs., R$ 31,50. 2010. R$ 24,00 cada.

DISTÚRBIO VOLUNTARIADO COLETÂNEA


Ansiedade infantil Sentido do tempo doado Psicologia social
O livro Transtorno da ansiedade da Originalmente escrito como dissertação Os livros Violentamente pacíficos
infância descreve os tipos mais comuns de mestrado, Voluntariado: uma dimensão – Desconstruindo a associação juventude
de ansiedade infantil. Dividido em oito ética é resultado de uma longa experiência e violência e HIV/Aids – Enfrentando
capítulos, apresenta os distúrbios, causas, de trabalho da psicóloga e psicanalista o sofrimento psíquico fazem parte da
sintomas e, principalmente, técnicas que Rachele Ferrari. A obra propõe ao leitor coleção Construindo o compromisso
podem ajudar a criança a se controlar. Os uma reflexão sobre as dimensões desse social da psicologia. O primeiro busca
autores usam casos reais como exemplo tipo de trabalho, questionando a essência desassociar juventude e violência,
para explicar cada manifestação e a e a natureza do altruísmo. São abordados, contextualizando-os em referenciais
imagens: divulgação

partir disso discutem o tema abordando entre outros temas, a diversidade de mais amplos e históricos. Já HIV/Aids-
desde medos menores, temporários, aos objetivos, valores e expectativas daqueles Enfrentando o sofrimento psíquico aborda
problemas mais persistentes, mais graves que se engajam nessa atividade. A proposta a busca de uma intervenção profissional
e invasivos, capazes de impor restrições à é discutir as intenções e os significados de que leve em conta as angústias vividas
vida do paciente. se dedicar a essa tarefa. por pessoas afetadas pelo vírus.

80 l mentecérebro l Novembro 2010


literatura

Jogo e literatura MOACYR SCLIAR,


médico, escritor e
membro da Academia
Em Dostoievski e o parricídio Freud diz que apostadores Brasileira de Letras
compulsivos têm o desejo inconsciente de perder

J ogo é paixão, esperança, incerte-


za, desilusão, desespero: ingre-
dientes que fazem dessa prática um
O personagem principal e narra-
dor Aleksei Ivanovitch é preceptor de
uma família tradicional que se encon-
tema para a ficção e têm inspirado tra em uma estação de águas alemã,
obras clássicas. Duas delas foram em Roletemburgo. O patriarca é um
indicadas por Sigmund Freud. O general que fugiu de seu país por
pai da psicanálise era admirador da causa de dívidas e tem uma enteada,
literatura; considerava o impulso Polina, por quem nutre paixão platô-
artístico inatingível do ponto de vista nica. A moça estimula o rapaz a jogar,
psicanalítico, mas isso não o impe- e numa dessas ocasiões ele ganha
diu de recorrer numerosas vezes a tanto que chega a “quebrar a banca”;
textos literários como instrumentos no final, porém acompanhamos sua
para compreensão dos fenômenos degradação psicológica e financeira,
psíquicos. Um dos autores que mais estudou o que leva Polina a desprezá-lo. No ensaio
foi o russo Fiodor Mikhailovich Dostoievski Dostoievski e o parricídio, Freud sugere que
(1821-1881). Personalidade trágica, para jogadores compulsivos nutrem um desejo
dizer o mínimo. A mãe morreu cedo; o pai, inconsciente de perder, o que representaria
médico, foi assassinado pelos empregados um alívio para seu sentimento de culpa.
em sua propriedade rural. Epilético, Dos- A outra obra clássica sobre o tema é do
toievski teve a primeira crise convulsiva após novelista e ensaísta austríaco Stefan Zweig
saber da morte do pai. O homicídio de um (1881-1942). Fugindo do nazismo, veio
patriarca aparece em Os irmãos Karamazov, para o Brasil e instalou-se em Petrópolis,
e foi com base na obra que Freud escreveu o no Rio de Janeiro. Aqui, desesperado diante
ensaio Dostoievski e o parricídio, em 1928. da possibilidade de uma possível vitória nazista, ele e
O autor russo estreou cedo na literatura e foi bem-su- a mulher se suicidaram. Em seu ensaio sobre Dostoievski,
cedido; mas aos 28 anos, acusado de subversão, foi preso Freud menciona a obra de Zweig Vinte e quatro horas na vida
e condenado à morte. Porém, teve a pena cancelada pelo de uma mulher. O texto conta a história de uma personagem
czar Nicolau; após a liberdade passou nove anos na Sibé- de meia-idade que conhece um jovem jogador. Depois de
© beto scliar (foto); gonçalo viana (ilustração)

ria, experiência que descreveu em Recordações da casa dos perder seu dinheiro, o rapaz vai para um jardim, aparente-
mortos (1866) e Memórias do subterrâneo (1864). Tornou- mente para se suicidar. Ela, porém, o convence a desistir e
se místico e intransigente defensor da cultura eslava. Em os dois acabam na cama. A partir daí a mulher tenta salvá-lo
sua sombria obra que inclui os clássicos Crime e castigo, O da dependência, mas sem sucesso. Para Freud, o jovem via
idiota e Os demônios, loucura, autodestruição, crime são nela um misto de figura materna e prostituta. O resultado é a
temas recorrentes. Era um jogador compulsivo, e essa “má consciência” que o leva ao final infeliz. O jogador é uma
experiência é descrita em O jogador. Atolado em dívidas figura infantil, que tem problemas com as figuras parentais.
de jogo e pressionado pelo editor, ele concluiu o livro em E para ele o jogo da vida é ainda mais incerto e complicado
apenas 26 dias. que o de cartas ou uma simples roleta. e
m c

81
limiar
neurociências

O futuro é verde SIDARTA RIBEIRO,


neurobiólogo, chefe do
laboratório do Instituto
Internacional de Neurociências
Desenvolver a economia do país de forma de Natal Edmond e Lily Safra,
sustentável é o desafio crucial da nova presidência professor titular da UFRN

E screvo um dia após o primeiro turno das eleições. O tema


é a ciência, complemento essencial da educação. Nossa
ciência vem crescendo e aparecendo. Para ela contribuem
ganhou, constato que tanto Dilma quanto Serra sabem per-
feitamente bem que é preciso desenvolver a economia com
inovação tecnológica. Alto valor agregado e qualificação de
brasileiros no Brasil e no exterior, bem como estrangeiros no pessoal são objetivos consensuais, mas alcançá-los de forma
Brasil. Antropofagicamente, cada vez mais incorporamos as sustentável é um problema ainda não resolvido. Crescimento
tecnologias e saberes que se nutrem de nossa cultura. Imagi- econômico é compatível com preservação ambiental? Quanta
nem a levitação de células! A equipe encabeçada por Glauco ciência será necessária para que possamos habitar o planeta
Souza e coordenada por Renata Pasqualini e Wadih Arap, sem poluir e destruir?
três brasileiros na Universidade Rice, nos Estados Unidos, Tudo são símbolos. Negra, acreana, ex-empregada
introduziu nanopartículas de magnetita em células tumorais doméstica, líder dos povos da floresta, primeira escolha
a fim de erguê-las por meio de um campo magnético. A ministerial de Lula por seu perfil internacional, autoridade
técnica permitiu o crescimento de culturas multicelulares governamental que resistiu a projetos econômicos ambien-
em três dimensões. Trata-se de um avanço importante para talmente agressivos, derrotada na queda de braço com os
obter modelos tumorais fidedignos e para o cultivo de órgãos desenvolvimentistas e candidata presidencial pelo Partido
em laboratório. Verde (PV), Marina teve 20% do voto
Sonhos grandes de ciência, educação nacional e provocou o segundo tur-
e saúde também têm valido a outro brasi- no. Leio nos jornais que vai discutir
leiro um gol atrás do outro. Com um pé no com Dilma e Serra o código florestal
Brasil e outro nos Estados Unidos, Miguel e a execução dos compromissos de
Nicolelis tem feito descobertas sucessivas Copenhague. Estará em pauta Belo
sobre interfaces cérebro-máquina, com Monte? E os catadores dos lixões
aplicações de profundo impacto no trata- sairão da invisibilidade? Teremos
mento da doença de Parkinson, epilepsia finalmente chance de discutir nosso
e paralisia. Em consequência, o mais futuro como adultos responsáveis?
© ayrton vignola/folhapress (foto); gonçalo viana (ilustração)

palmeirense de todos os neurocientistas Oxalá as conversas com Marina


ganha prêmios e levanta financiamentos tenham afinal selado compromissos
vultosos lá fora, ao mesmo tempo que verdes para o futuro. Se funcionar, o
investe na educação científica, gratuita Brasil poderá exportar com orgulho
e de qualidade para 1.400 jovens no Rio mais uma tecnologia de ponta: a
Grande do Norte e Bahia. O plano é atin- relação saudável entre trabalho, ca-
gir um milhão de alunos em todo o país, pital e meio ambiente. A Amazônia, o
e Nicolelis tem pressa. cerrado, o pantanal, a mata atlântica,
E por falar em sonhos grandes… Quan- a caatinga, as praias, os lagos, os rios
do ler esse texto, você já saberá quem e o mar, as lavouras e as cidades,
ocupará a presidência pelos próximos os bichos e as pessoas, todos, sem
quatro anos. Escrevendo sem saber quem exceção, agradecem. e
m c

82 l mentecérebro l Novembro 2010


mente PALAVRAS

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DE FREUD

MENTE E CÉREBRO
Criador da
psicanálise
discute

cérebro psicologia // psicanálise // neurociências


transitoriedade,
luto e recomeços

MENSAGENS PARA O INCOSCIENTE


Mensagens para o
inconsciente
Como os estímulos subliminares
ANO XVIII NO 214 – NOVEMBRO 2010

influenciam nossas decisões


Bem-estar Caminhos da dor
Efeitos da meditação no Estudo de doença rara ANO XVIII
cérebro controlam a pode resultar no alívio para NO 214
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ansiedade e o estresse milhões de pessoas c 4,90