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paul brunton

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pensamento
SABEDORIA OCULTA

ALÉM DA IOGA
ÍNDICE

I A L É M DA IOGA

II O CAMINHO FINAL

III Os GRAUS RELIGIOSOS E MÍSTICOS

IV A FILOSOFIA O C U L T A DA ÍNDIA

V A DISCIPLINA FILOSÓFICA

VI O C U L T O DAS PALAVRAS

VII A BUSCA DA VERDADE

VIII A REVELAÇÃO DA R E L A T I V I D A D E

IX DA COISA AO PENSAMENTO

X O SEGREDO DO ESPAÇO E DO T E M P O

XI A MAGIA DA MENTE

XII A QUEDA DO MATERIALISMO

EPÍLOGO: A Vida Filosófica

APÊNDICE: Esclarecendo alguns equívocos


tulo de suplemento explicativo da obra)
CAPITULO I

ALÉM DA IOGA

Quanto mais eu perambulo por este mundo de Deus, tanto m a i s


percebo que não apenas os indivíduos, governos ou povos devem levar
a c u l p a pela desoladora condição atual da raça h u m a n a — tão fasci-
nada pelas maluquices d a moda e tão iludida pelos mitos t r a d i c i o n a i s !
— m a s vejo também que boa parcela d a culpa deve ser atribuída ao
desconhecimento destas três questões fundamentais: Qual o significado
do mundo e da experiência? Que sou eu? Qual o objetivo da exis-
tência?
Vejo c o m assustadora nitidez que, rompida essa antiga ignorância,
nosso conturbado mundo mais do que nunca poderia contar com u m a
paz duradoura.
A essência do- problema do inundo é demasiado óbvia p a r a ser
percebida pela nossa complexa e r a : todos os atos são ditados pela
fonte oculta d a mente e apenas quando aprendermos a pensar direito,
e não antes, agiremos com acerto. Os nossos atos não podem nunca
ultrapassar as nossas ideias, porque são os comandos inaudíveis d a
mente que irão determinar o chão a ser pisado pelos pés. A s m a i s
amargas dores do mundo e os pecados mais bestiais não passam dos
sintomas de u m a doença c u j a causa é u m a antiga ignorância e c u j a
única c u r a é a renovação dos conhecimentos. Ê dever inelutável de
todo o ser inteligente e racional que alimenta, desejos rudimentares
e semiconscientes de u m a existência melhor não permanecer n a indo-
lência mental, mas persistir n a busca das respostas àquelas três per-
guntas, vale dizer n a busca da estrela cintilante da V E R D A D E .
Chavão muito conhecido é o de que vivemos hoje n u m inundo
c u j a situação não encontra paralelo n a história. Nós nascemos n u m a
encruzilhada crucial. Certas novas correntes de pensamentos, senti-
mentos e atividades vêm agitando fortemente o globo desde o começo
deste século, e, e m menor grau, desde há muito mais tempo. A
guerra não fez senão colocá-las n u m a convulsão ainda maior e mais
dramática. A crónica monótona de outras eras carece de u m mínimo
de significação quando comparada com a da nossa. As multidões
cegas quedam-se estupefatas ante as mudanças iconoclastas, e descon- e a consequência é que as massas são hoje bem mais sofisticadas do
certadas ante os seus efeitos devastadores. Marte colocou este planeta que outrora. E l a s superaram notavelmente as doutrinas de j a r d i m
no pelourinho. Nêmesis tem percorrido as nações como u m j u i z , en- da infância que sempre lhes foram impingidas.fi 0 aparecimento dos
vergando u m a soturna peruca e manipulando com rispidez a esque- primeiros tipos impressos anunciou a queda dos velhos tempos de
cida balança da justiça. E todos os povos e r r a m às cegas através c r a s s a ignorância. Enquanto o camponês ou o operário europeu de
de u m a das mais momentosas transições j a m a i s impostas à raça. há m i l anos e r a incapaz de ler u m a carta e sequer assinar o próprio
nome, o camponês e o operário europeu e americano de hoje não
Sete dessas novas características transformadoras da nossa época apenas sabe ler todas as letras do alfabeto como também sabe escre-
merecem maior atenção do ponto de vista filosófico e têm u m a ligação vê-las. Tampouco acha-se t a l progresso restrito a esses continentes,
final com a publicação desta obra.
embora tenha neles atingido o seu clímax. Também a Ásia e a África
A primeira característica digna de nota é o incrível desenvolvi- estão avançando.
mento do transporte mecânico entre as cidades, os países e os conti-
nentes, através do uso dos trens elétricos e a vapor, dos automóveis e Mas não devemos incorrer n a crença errónea de que tal fato tenha
ônibus, dos navios e aviões. Com isso o planeta encolheu-se e, sem contribuído substancialmente p a r a que a humanidade aprendesse a
querer, os homens foram forçados a aproximar-se u n s dos outros. raciocinar corretamente. E x i s t e m duas espécies de instrução: a que
O fato ampliou definitivamente o sentido de espaço de milhões de se l i m i t a a divulgar os fatos e ajuda o homem a memorizá-los, e a
pessoas. F e z com que elas entrassem e m contato íntimo c o m os que os ajuda a ponderar devidamente tais fatos. A maior parte da
vizinhos, com os estranhos e estrangeiros; e m consequência, teste- instrução enquadra-se n a primeira categoria (que depende do uso do
munhamos u m intercâmbio de culturas raciais, u m a multiplicação das intelecto), mas há também a instrução que se enquadra na segunda
ideias e u m a expansão nos horizontes. Aconteceu, assim, ao mundo (que depende da altaneira faculdade da razão). Contudo, o progresso
algo que não encontra paralelo nos anais d a história. A s ideias já generalizado n a área do conhecimento gera algum progresso n a área
não podem permanecer insuladas, a não ser por obra da força b r u t a da indagação, advindo u m certo despertar do raciocínio, por incipiente
— e isso mesmo por u m período de tempo bastante breve. E u m a que seja. As pessoas estão hoje mais aptas a usar a razão do que em
consequência até aqui subestimada é que a voz da sabedoria asiática outras épocas, embora não estejam preparadas p a r a fazer desse uso
está sendo agora ouvida n a E u r o p a e n a América. u m componente vital da sua existência. Pode-se, portanto, alimentar
u m a razoável esperança de que aumentará bastante o número de neó-
A segunda característica é a formidável elevação tanto do status
fitos à procura de iniciação filosófica quando as doutrinas forem des-
político quanto do padrão de v i d a das classes trabalhadoras, e m com-
pojadas do opaco véu do jargão e colocadas em termos mais com-
paração com as duas ou três últimas gerações. T a l elevação desen-
preensíveis.
volveu entre os trabalhadores u m sentido de auto-respeito que i n e x i s t i u
enquanto eles viveram presos aos laços de u m a escravidão atávica. A quarta característica é a relação das surpreendentes invenções
Aristos entregou o seu cetro a Demos ( m u i t o a contragosto, sem dú- surgidas no campo da comunicação desde que Gutenberg, n a Alemanha,
vida), e Demos o está manejando — por vezes com respeito e dis- i m p r i m i u sobre o papel em branco a primeira palavra e William Cax-
crição ou então de forma ditatorial e absoluta. E l e adora as multidões ton, n a Inglaterra, montou a primeira e barulhenta prensa manual. A
e se humilha perante a magnitude. A turba carrega consigo o poder; máquina impressora, o correio barato, o telégrafo elétrico, o telefone,
o seu veredicto constitui a p a l a v r a final. Mas a consequência m a i o r o cinema e o telégrafo sem fio são instrumentos civilizadores que se
dessa emancipação sem precedentes foi por s u a vez o desenvolvimento combinaram para comunalizar e popularizar o conhecimento, colocan-
de u m interesse pela v i d a ulterior à preocupação corriqueira de garan- do-o ao alcance imediato de todos. O resultado é que por toda a parte
tir apenas a subsistência. As massas começaram a enxergar adiante se processa u m contínuo intercâmbio de fatos, pensamentos, ideias e
do nariz e a libertarem-se do sentimento de submissão.'% As questões pontos de vista. O tempo perdeu muito da sua importância numa
mais amplas e os pontos mais discutíveis da religião, d a política e da época em que o sem fio e o cabo se j u n t a r a m para trazer as últimas
cultura já não permanecem por inteiro fora do seu alcance. notícias de todo o mundo à nossa porta n u m instante, em que os jor-
nais diários ou as revistas colocam a mais recente descoberta cientí-
A terceira característica é a erradicação do analfabetismo e a
fica britânica diante dos olhos do leitor chinês na mesma semana. U
democratização da instrução. O conhecimento deixou de ser o mono-
homem falando de Londres fará eco n u m sétimo de segundo e n :
pólio de uns poucos privilegiados. A instrução livre e compulsória
fraçáo de tempo sua voz terá percorrido toda a T e r r a e sido capta
operou modificações miraculosas nas mentes de pessoas que e r a m
pelos ouvidos de milhares de pessoas. Assim, estas invenções I
antes tratadas como simples crianças pelo despotismo das classes do-
contribuíram para alterar e ampliar o sentido de tempo da maioria
minantes. A onda educacional v a r r e u o mundo c o m ímpeto crescente

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pessoas. Mais ainda, abriram-se ao estudo imensos períodos evolutivos
da história pretérita do homem e o universo habituou as pessoas ins- crescer e o balbuciar insípido das mentes primitivas irá, mais cedo
ou mais tarde, deixar de apoquentar os nossos ouvidos.
truídas a raciocinar em termos de tremendas perspectivas de tempo.
As conquistas da ciência constituem-se em fatos inseparáveis do
A antiquada ideia de tempo como u m a coisa e m lento desloca-
nosso dia-a-dia. As maravilhas científicas enchem os nossos lares, api-
mento foi varrida pelo vento do progresso. Vivemos agora n u m mundo
nham as nossas ruas, flutuam nos cinco mares e deslocam-se invisivel-
em movimento e não estático. O ritmo da v i d a americana subiu a
mente pelo espaço. E destarte demonstram cabalmente ao mundo o
u m nível j a m a i s sonhado pelo inca ou pelo azteca. O ambiente e os
valor superior da razão aplicada. A aparição dos novos conhecimentos
mecanismos caseiros dos lares europeus permitem inúmeras atividades
científicos na forma de publicações acessíveis a todo o mundo começou
cotidianas nunca vislumbradas pelos indolentes romanos de outrora.
a alterar as fundações da vida humana, a afetar o espírito da nossa
Os hábitos de u m a centena de gerações estão se desintegrando diante
época e a modificar as nossas perspectivas. Todo aquele que acom-
dos nossos olhos, mas aqueles que passam toda a s u a v i d a e m cidades
panha fielmente as descobertas da ciência foi obrigado a fazer uma
ocidentais talvez deixem de notar e levar e m conta essa surpreendente
revisão do seu conceito de existência em geral e da sua existência
alteração tanto quanto o fazem aqueles que vez por outra dirigem-se
em particular.
para as cidades do Oriente, onde os dias podem ser passados longe
de todos os sinais da nossa época e d a nossa ciência. A evolução da O momento histórico do surgimento da moderna era científica
mente humana processa-se, portanto, de forma muito mais rápida do começou n a realidade quando Galileu rompeu com a tradição e reali-
que e m séculos passados. zou a sua famosa experiência n a torre inclinada de Pisa. Foi o início
0 jornal, produzido n u m ritmo de vinte m i l exemplares por h o r a , de u m a vasta série de pesquisas de âmbito mundial que culminaram
transformou-se n u m a grande força formadora n a v i d a moderna. S e com o quadro científico do mundo como uma imensa máquina auto-
o homem medieval não conseguia u m só livro p a r a ler, em razão do mática e casualmente governada. Deus, como criador exigente, como
alto custo das obras, o homem de hoje, por seu turno, pode conseguir supervisor caprichoso e juiz arbitrário, foi devidamente retirado do
u m j o r n a l todos os dias e ler u m novo l i v r o por preço acessível todas velho quadro medieval. F o i esta a primeira revolução na perspectiva
as semanas. A folha impressa disseminou o conhecimento, preparou ocidental. A segunda veio quando Rontgen descobriu a base elétrica
o caminho p a r a a ciência, demonstrou-a em todos os idiomas modernos, do átomo. A pesquisa progrediu de forma ainda mais rápida; tão
e pode agora a b r i r u m a v i a — ainda que estreita — p a r a a filosofia rápida n a verdade que os cientistas entregam-se agora ao trabalho de
em geral. O nascimento da imprensa assinalou a morte de todas as refazer o quadro. O universo deixou de ser uma máquina. Aquilo
eras do esoterismo. Vivemos agora a hora de franquear por inteiro em que ele se transformou ninguém sabe ao certo o que é. O novo
para o mundo ocidental o pouco visitado caminho da filosofia oculta quadro é embaçado e vago, até mesmo amorfo, mas isto em razão de
do Oriente. pertencer ao domínio da filosofia. Pois houve um processo gradual
de abstração, u m a transição do ponto de vista empírico para o meta-
A quinta característica é o surgimento d a ciência no horizonte físico, u m a crescente tendência da ciência a transformar-se em parte
intelectual da humanidade. P a r a o b e m ou p a r a o m a l , a ciência do seu próprio campo de investigação e a transformar matéria e me-
afetou a mentalidade de hoje. O seu nascimento n a E u r o p a foi o canismo e m conceitos. Todos os indícios mostram agora que a ciência
arauto da era dos fatos e obrigou o mundo a começar a dizer adeus não apenas anda de mãos dadas com a filosofia, mas também Mercúrio
à era da fantasia. Os homens estão passando do antigo domínio da se prepara para casar com Minerva! De especial interesse é o fato
magia para o domínio mais maduro da lógica. O desenvolvimento da de que a ciência inadvertidamente está se transportando para o campo
mentalidade h u m a n a talvez não seja muito grande, mas é digno de da filosofia oculta, pois alguns dos seus mais recentes princípios, n a
nota e contrário à superstição humana. A ascensão do p r i m e i r o i m - f o r m a e m que foram enunciados por Einstein, Planck, Heisenberg,
plica n a queda da segunda. Os fatos científicos foram u m d i a meros Jeans e outros, foram antecipados e afirmados pelos sábios hindus
intrusos n u m mundo em que imperavam as suposições, m a s hoje e m n u m a época em que a civilização ocidental engatinhava ainda na sua
dia dominam o cenário mundial. B a c o n não foi senão u m precursor p r i m e i r a infância. Pela primeira vez na história torna-se possível for-
da guerra darwiniana entre os ensinamentos racionais e as crenças m u l a r os produtos do pensamento oriental em termos ocidentais —
dogmáticas, guerra essa que marcou de forma decisiva o pensamento vale dizer, em termos científicos e sintetizá-los com os frutos abu
do século passado. Qualquer que tenha sido a posição da fé cega e m dantes das pesquisas ocidentais. A Europa e a América fornecera
séculos passados, esta já não poderá, por muito tempo, voltar a u m a novas e mais amplas bases à sabedoria asiática. E s t a última jcjjj
condição de comando n u m século em que a razão v e m triunfando por ser agora explicada com uma amplitude nunca antes posta em palavras.
toda a parte de forma tão visível e tão tangível. Nós começamos a A s s i m é que o sábio antigo e o cientista moderno encontram-se i

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cientemente, e toma-se possível agora construir u m a síntese intelectual emocional interior grandemente necessária depois dos horrores da
tremendamente significativa, uma ideologia universal da verdade até guerra, mas a filosofia terá também de acolher no seu seio uns tantos
então impossível. novos pesquisadores que modificaram os seus pontos de vista in-
A sexta característica é u m a possibilidade relativamente maior de telectuais.
lazer oferecida às pessoas de todas as classes, de modo especial às Se estes sete fatores têm algum significado, todo esse significado
classes trabalhadoras, através do uso da máquina e m todos os depar- resume-se em que a história encontra-se prestes a contornar a sua
tamentos da existência humana, como é de praxe desde a revolução c u r v a mais aguda, e m que o crescimento cultural da humanidade foi
industrial. notavelmente acelerado, em que u m a nova e única época n a sabedoria
É comum entre os modernos a queixa da ausência de lazer, mas humana está se abrindo perante o mundo educado, em que o campo
na verdade o homem das cavernas descansava muito menos. E l e era potencial de receptividade à filosofia da verdade é agora maior e mais
obrigado a arrostar a inclemência da Natureza, enfrentar os seus se- profundo do que nunca, em que o esoterismo está se tornando supér-
melhantes desenfreados e as feras selvagens. E r a obrigado a l u t a r fluo, e em que, pela primeira vez, u m a nova e universal propagação
pela simples subsistência, pela alimentação cotidiana e pela própria de pontos de vista mais elevados tornou-se possível. Ademais, as
satisfação. Por isso, somente tornou-se possível p a r a o homem voltar condições da política e economia internacionais de hoje são tais que
o seu pensamento p a r a coisas mais elevadas depois que ele superou obrigam por toda a parte as pessoas a verem os acontecimentos e as
essas necessidades básicas. Quando e m toda a história conseguiu o coisas e m sua relação com o todo, isto é, a filosofar I É impossível
homem os resultados surpreendentes de que dispõe hoje? O homem encontrar algo semelhante a esse oportuno fenómeno — merecedor
dispõe hoje de mais tempo para vencer a própria ignorância. P o r essa do maior destaque — em outros séculos que não o século X X . E s t a
razão, se no passado uns poucos puderam estudar a filosofia, a maior espantosa era de transição social, dissolução generalizada, revolução
possibilidade de lazer que hoje se apresenta faz deste o momento tecnológica e iluminação mental é, em suma, uma aceleração contínua
azado p a r a que mais numerosos estudantes, dispostos a empregar do processo de fazer do homem primitivo u m animal científico, Mas
sabiamente o seu tempo vago, sejam atraídos p a r a esse domínio ilustre. mesmo isto não basta. O homem deve viver da maneira que lhe é
A sétima característica é o fato histórico de que os períodos de mais adequada, e não como u m a fera, u m réptil ou u m parasita. Con-
após guerra c r i a m dúvidas de caráter religioso e m numerosas mentes, sequentemente é chegado o momento de revelar uma doutrina que, ao
com a consequente busca de u m a explicação mais satisfatória p a r a a contrário da maior parte das religiões, não contradiz as descobertas
vida por parte de algumas dessas mentes. Mas quando duas guerras da ciência, mas de preferência apóia-se nelas. Torna-se realmente
são travadas no espaço de u m a única geração, sendo essas guerras as aconselhável nestas condições esquecer as antigas restrições e liberar
piores que o mundo já v i u , e havendo se espalhado n a m a i s gigantesca u m a porção do antigo e genuíno conhecimento ariano suficiente para
escala de que se tem notícia, não será decerto u m erro prever que a ajudar as classes culturalmente mais adiantadas a agir de forma mais
fé vacilará seriamente depois do impacto do cataclisma. O sentimento sensata, de modo que algo mais nobre possa surgir e a todos nós seja
desesperador de que a vida é destituída de objetivo se propagará entre dado avançar no sentido de u m mundo humano melhor. Pois é a
todas as classes. O poder da religião de dominar eticamente o homem essas classes que as massas sempre recorrem à procura de orientação;
com certeza também sofrerá rebate, o que representará u m a posição são as suas maneiras de pensar que servem de padrões a serem imi-
de profundo perigo social. 0 colapso dessas antigas sanções c m meio tados; e são as suas maneiras de viver que se prestam a ser ambi-
à inquietação e à revolta está a exigir o seu fortalecimento quando cionadas ou copiadas. 0 progresso flui do alto, dos círculos domi-
não a s u a substituição. Pois a maioria dos homens é incapaz de viver nantes e das classes mais elevadas de cada comunidade, e desce até
confortavelmente com o pensamento de que não existe u m significado penetrar n a populaça. As ideias e crenças alimentadas pelos mais
fundamental e u m objetivo grandioso p a r a a v i d a . As pessoas logo instruídos e esclarecidos pouco a pouco são recebidas por aqueles que
procurarão alguma fé o u teoria que lhes forneça direção à existência. estão colocados mais abaixo. Seus pontos de vista e suas atitudes
Por isso a época presente, conturbada e decadente, testemunhará u m a influem grandemente sobre o mundo. Por esta razão, a filosofia oculta
busca de tais doutrinas que nenhuma época anterior testemunhou. E ora apresentada destina-se especialmente àquelas pessoas.
porque tais modificações encontrarão sempre m a i o r repercussão entre
as classes m a i s instruídas, as formas a serem tomadas pela busca e m As flamantes atividades dos cientistas europeus podem agora har-
tela serão predominantemente místicas e vez por outra filosóficas ao monizar-se com as tranquilas contemplações dos sábios orientais. A
invés de religiosas. O misticismo receberá provavelmente o seu maior libélula da sabedoria integral pode agora romper o casulo dentro do
contingente de adeptos e m todos os tempos, já que oferece u m a paz qual amadureceu e se abrigou no passado. Essa união pode pressa-
giar a nova civilização Leste-Oeste que talvez surja u m dia, quando

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o tempo p a r a nós já não puder ser contado e a prímariedade do m a mundo ocidental. Nem mesmo o próprio tempo pode tornar antiquada
terialismo houver sido deixada de lado, e quando a verdade estiver a antiguidade de t a l cultura. E l a vence o tempo porque decorre da
entronizada e a presidir o verdadeiro renascimento de toda a v i d a realidade permanente dentro da qual o universo está compreendido.
humana e de todo o trabalho do homem. A humanização da h u m a n i -
E u não sabia, quando pela primeira vez desembarquei nas praias
dade terá de acontecer u m dia, e, se essa concepção grandiosa pu-
da Índia, que h a v i a encetado u m a busca que afinal iria transportar-me
desse difundir-se entre as classes cultas de u m mundo sem guerras,
ainda além das doutrinas do misticismo e da prática da meditação
desde a Sibéria até a Espanha, desde Colombo até a Califórnia, as
propriamente dita, as quais durante muito tempo considerei como a
consequências seriam notáveis. Infelizmente a materialização dessa
m a i s elevada forma de vida ao alcance do homem. E u não sabia,
miragem parece deveras remota. N a realidade encontra-se bastante ao penetrar lenta porém seguramente os mais recônditos segredos da
distante. Não obstante, a imensa renovação que tem de seguir-se ao ioga ortodoxa da Índia, que a empreitada de desvendar a verdade da
gigantesco colapso do mundo trará c o m certeza numerosos candida- v i d a não apenas me levaria até o coração e o limite extremo desse sis-
tos aos portais da filosofia, sedentos de novos caminhos, novos conhe- tema, como também me obrigaria a chegar ainda além desse limite.
cimentos e novos axiomas. T a n t o os sofrimentos quanto os conheci- E u não sabia que h a v i a jogado os dados com o Destino e que o jogo
mentos dos nossos tempos uniram-se p a r a a t u a r como u m agente ca- não t e r m i n a r i a n a forma esperada por m i m — isto é, adotando u m a
taclísmico que forçosamente despertará u m a nova orientação n a men- f o r m a de v i d a que consagra como sua meta suprema e conquista mais
talidade do mundo. Não que se deva considerar aquilo que é novo — sublime o recolhimento físico e mental, na forma de u m a contem-
como melhor, m a s antes como desfrutando d a oportunidade de ser plação profunda.
melhor. E s s a s são as razões pelas quais se torna aconselhável que a
vetusta sabedoria deixe o seu esconderijo nas mentes de u m número P a r a esclarecimento dos leitores para quem estes termos não são
microscopicamente diminuto de asiáticos e se coloque ao alcance de familiares, diremos aqui que ioga é u m a palavra sânscrita que diz
u m círculo mais amplo, conquanto limitado ainda. O seu advento é respeito a várias técnicas de autodisciplina envolvendo a concentração
claramente u m produto d a necessidade histórica. N e n h u m a o u t r a cul- mental e levando a experiências ou intuições místicas, técnicas que
tura de âmbito total se ajusta tão bem ao sentido recentemente a m - serão descritas n u m capítulo posterior, ao passo que iogue é a pessoa
pliado de tempo e espaço da humanidade. que. p r a t i c a tais métodos.

Quem sou eu? Ao longo deste tratado, portanto, e u percorro c o m À m a n e i r a dos iogues hindus eu estive em transe, mas depois
os meus leitores parte do caminho que leva a esse ponto de v i s t a m a i s ergui-me, p a r a primeiro redigir u m a crónica das suas vidas e a seguir
elevado. A ascensão exigirá muito deles, m a s dará m a i s e m troca, descrever p a r a os meus irmãos ocidentais o caminho para chegar e
o valor de chegar à tranquilidade mental. Contudo, quando as satis-
pois, quando for completada n u m volume subsequente, irá solucionar
fações intermitentes da paz mental entraram em conflito com u m
todos os problemas, elidir as dúvidas mais profundas e p r o p i c i a r a
racionalismo inato e sempre inquiridor, tremendas questões começa-
todos u m a escora indestrutível e granítica p a r a toda a vida. Ademais,
r a m lentamente a apresentar-se. E u percebi que embora o pequeno
o cientista reflexivo que se der ao trabalho de estudar estas páginas
foco de luz em que e u caminhava houvesse aumentado de tamanho,
com a mente aberta poderá encontrar as pistas restantes de que ne-
a área escura em torno apresentava-se mais. impenetrável do que
cessita p a r a progredir no sentido da revelação d a realidade; o devoto
nunca.
religioso que deseja adorar o Deus vivo ao invés do dogma morto po-
derá descobrir a fonte secreta d a s u a própria f é ; o místico poderá Muito naturalmente, quando o pensamento, o tempo e a experiên-
aprender a passar do bem-aventurado pensamento de Deus, que não c i a levantavam determinados problemas fundamentais, em minha pri-
é senão u m a imagem, p a r a o Deus sem pensamento e sem i m a g e m t a l m e i r a esperança de encontrar u m a orientação esclarecida eu recorria
qual E l e é n a realidade; ao passo que o filósofo cujo cérebro é per- ao Maharishee. Os leitores de A índia Secreta recordarão que este é
turbado pela diversidade das opiniões predominantes e m todas as o nome do famoso iogue da Índia Meridional com o qual eu pratiquei
partes poderá encontrar aqui u m a atitude mental e m última instância a meditação muitos anos atrás. Mas a orientação jamais v e i a Espc
infalível e poderá deixar de lado toda e qualquer crítica. Pois as rei pacientemente, n a esperança de que o tempo a fizesse brotar dele,
raízes destes escritos alcançam a A s i a p r i m i t i v a , e u m a época e m que mas esperei em vão. Pouco a pouco fui me dando conta de que até
surgiram Napoleões no mundo do pensamento p a r a sacudir o jugo d a a l i o Maharishee j a m a i s havia instruído quem quer que fosse para a
tradição hierática e forçar passagem através das b a r r e i r a s alpinas dos obtenção de u m conhecimento mais elevado. E a razão começdEPí
problemas mentais. Paradoxalmente e contudo inevitavelmente essa aflorar lentamente à medida que eu ponderava no assunto. .Minha
c u l t u r a arcaica logo será alvo do tributo deste j o v e m e adolescente longa amizade com ele permitia entrever que primordialmente não se

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tratava do seu caminho e o assunto não lhe interessava muito. S u a importantes. A palavra quem era u m pronome pessoal e se prestava
imensa conquista ficava nos reinos do ascetismo e d a meditação. E l e ao místico preocupado consigo próprio como individuo e entidade
possuía u m tremendo poder de concentrar interiormente a atenção e autónoma, ao passo que a palavra que era u m pronome interrogativo
perder-se num transe extático; de permanecer sentado, calmo e imóvel impessoal reportando-se a u m nivel mais elevado. Quem sou eu? era
como uma árvore. Mas com todo o profundo respeito e afeição que u m a pergunta que pressupunha que o eu derradeiro do homem de-
lhe devoto, devo dizer que a história íntima do seu ashram é das mais monstrar-se-ia u m ser pessoal, ao passo que Que sou eu? alçava racio-
desalentadoras. 0 papel de sábio professor não foi o seu forte porque nalmente o problema à indagação impessoal da natureza desse eu
ele era primordialmente u m místico absorvido e m s i mesmo. Isto derradeiro. Não que a p r i m e i r a fórmula devesse ser abandonada. E l a
explica por que seu desdém confesso pela prática do serviço desinte- era necessária e excelente em s i mesma, mas era apropriada para os
ressado em favor do próximo levou a inevitáveis decepções pessoas noviços, ao passo que a outra fórmula destinava-se a ser usada por
dos seus círculos mais próximos. E r a indiscutível p a r a ele, como o pessoas de nível mais alto.
era para os seus fiéis seguidores, o fato de que ele se h a v i a aperfei-
A passagem destes últimos anos, com o alargamento da compre-
çoado na indiferença aos atrativos mundanos e no domínio d a mente
ensão que se seguiu à busca incessante e com o crescimento gradual
irrequieta. E ele não pedia mais. O problema do significado do uni-
de u m a experiência inusitada, não me permitiu dar-me por satisfeito
verso em que vivia, aparentemente, não o preocupava. O problema
nem mesmo c o m este importante desenvolvimento. Os instrutivos
da significação do ser humano preocupava-o e ele h a v i a chegado a
episódios do viver cotidiano se me depararam, com crescente desilusão,
uma resposta satisfatória.
com as limitações e deficiências do misticismo e as intolerâncias e os
Tratava-se porém da mesma resposta encontrada por todos os mís- defeitos dos místicos, de cujo rol não me excluo; e os esforços para
ticos, fossem eles d a velha Ásia ou da E u r o p a medieval Cristã. A compreender os problemas que ocasionalmente se apresentavam fize-
meditação sobre s i mesmo e r a u m desiderato necessário e admirável, ram-me v e r a precariedade de até mesmo essa perspectiva, ampliada.
mas não constituía toda a atividade que a vida está sempre a exigir Percebi que assim como a fé religiosa resignada no dogma puro e
do homem. E r a u m a coisa boa, mas demonstrou-se insuficiente. Pois simples não bastava ao místico, assim também o próprio sentimento
o correr do tempo me havia mostrado as limitações dos místicos e intuitivo não bastava agora a m i m , e que a intuição deve ser colocada
ainda que tais limitações se deviam à unilateralidade dos seus pontos e m seu devido lugar e dela não podemos esperar milagres. Tanto
de vista e à exiguidade da sua experiência. Quanto m a i s e u me ligava u m a coisa como outra h a v i a sido experimentada e se mostrara in-
a eles em todos os cantos do mundo tanto mais começava a perceber completa.
que os seus defeitos decorriam simplesmente de u m a complacência
exagerada, de u m íntimo complexo de superioridade e de u m a atitude Contudo a outra fonte de conhecimento disponível — o intelecto
de santidade injustamente adotada por eles com relação ao resto do — também se mostrou imperfeita em todos os seus aspectos, e incapaz
mundo, bem como decorriam da presunção p r e m a t u r a de u m total de passar pela prova da experiência. 0 intelecto poderia mostrar-se
conhecimento da verdade quando aquilo que h a v i a m conseguido não tão enganoso como as outras formas. Pois intelecto é raciocínio
passava de u m a verdade parcial. F u i afinal obrigado a concluir que gico, e o Arcebispo Whately chegou certa vez a provar, e da forma
a perfeição da sabedoria humana j a m a i s poderia desenvolver-se a par- mais irónica, que do ponto de vista lógico podemos muito bem pô.
tir de qualquer eremitério místico e que apenas u m a c u l t u r a integral e m dúvida a existência histórica do grande Napoleão! A indução
e sintética pode dar qualquer esperança do seu desenvolvimento. lógica é bastante útil dentro das suas possibilidades, mas é demasiado
incompleta p a r a produzir resultados definitivos. Seus resultados são
Assim sendo, palmilhei aos poucos u m caminho de reflexão que sempre passíveis de alterações com o prosseguimento das experiências.
me fez ver que a clássica forma de meditação do Maharishee, quem E x i s t e algo e m todos esses três caminhos que o homem necessita par
sou eu?, a qual constatei mais tarde haver sido tomada por emprés" u m a Vida equilibrada. Durante muitos anos fiz uso dessa combinação
timo a determinados autores sânscritos da antiguidade, não bastava. colhendo orientação nas palavras de homens considerados sábios, v a i
embora calhasse maravilhosamente como u m marco miliário no ca- dizer, n a autoridade; no meu próprio sentimento durante a medi taça
minho do domínio do eu. Por esta razão julguei conveniente há alguns e a absorção extática, Vale dizer, no misticismo; e no exame da auto
anos alterar essa fórmula, coisa que fiz ao escrever os meus livros dúvida e d a autocrítica, vale dizer, no intelecto. Na verdade eu me
mais recentes, nos quais ofereci essa semente p a r a a meditação ana- gabara de ser u m místico racional e de me recusar a me amo r

lítica com u m a variante, que sou eu? A diferença entre as duas pe- aos modelos convencionais. Contudo, nem mesmo a totalidade des
queninas palavras iniciais é de apenas u m a l e t r a sobre o papel m a s combinação bastou para revelar u m a verdade que jamais precisará de
em pensamento representa u m a diferença de perspectiva das m a i s revisão. H a v e r i a por acaso urna outra e mais satisfatória fonte

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a obtenção do conhecimento? E i s u m a pergunta que também estava mano e p a r a elevar os seus padrões éticos até ura ideal satisfa
a exigir resposta. O m i s t i c i s m o é incapaz de vincular-se inteiramente à vida no mundo
Poucos dentre os devotos do Maharishee lhe h a v i a m proposto, tanto e x t e r n o ! Trata-se de u m a lacuna demasiado importante para ser igno-
quanto e u sei, problemas desse cunho, e consequentemente m i n h a pró- r a d a . Até mesmo as exaltações do êxtase místico (por mais maravi-
pria incapacidade de obter dele u m a m a i o r iluminação s e r i a decerto lhosas que possam s e r ) são passageiras tanto na experiência como no
atribuída por esses devotos ao insaciável espírito de indagação gerado efeito, e se m o s t r a r a m insuficientes para enobrecer o homem em ca-
pela minha venenosa educação ocidental moderna. Não obstante, eu ráter permanente. O desdém pela ação e a recusa em aceitar a res-
respeitava e reverenciava o Maharishee pela s u a extraordinária con- ponsabilidade pessoal que assinalaram o cará ter dos verdadeiros mís-
quista no campo da quietude mental, pois poucos outros se h a v i a m ticos impediu-os de comprovar a veracidade dos seus conhecimentos
guindado com igual êxito a esse ápice psicológico, e isso b a s t a r i a p a r a bem como o valor das suas conquistas e deixou-os suspensos no ar,
manter-me a seu lado até hoje, como amigo, a i n d a que e u não pudesse por a s s i m dizer. S e m a sadia oposição da participação ativa nos as-
permanecer na qualidade de pesquisador da verdade, r u m i n a n d o n u m suntos do mundo não tinham eles meios para saber se estavam ou não
silêncio solitário e resignado as perguntas roazes que ele não respondia. vivendo n u m reino de alucinação.
Porém no decurso de m i n h a s duas últimas v i s i t a s à índia tomara-se
A meditação apartada d a experiência e r a inevitavelmente vazia; a
dolorosamente claro que a instituição conhecida como o A s h r a m que
experiência apartada d a meditação não passava de tumulto. 0 misti-
em torno dele proliferara durante os últimos anos, e sobre a q u a l a
c i s m o monástico que despreza a vida e as responsabilidades do mundo
sua ascética indiferença p a r a com o inundo e v i t a v a que exercesse o
dos negócios amiúde se perde a martelar inutilmente o ar. A verdade
menor controle, só poderia me estorvar ao invés de me a u x i l i a r nos
obtida através da contemplação carecia de ser provada e comprovada,
meus esforços para chegar ao objetivo m a i s alto, de m a n e i r a que não
não p o r meio de palavreado pio mas por meio de u m a expressão ativa;
me restou senão despedir-me do lugar de forma a b r u p t a e definitiva.
o a s s i m chamado conhecimento mais alto que deixava de aparecer no
A fama é o castigo inexorável do êxito n a m i n h a profissão — o dia-a-dia e r a m a l apreendido e talvez não passasse de uma inócua
ciúme é o castigo indesejável d a fama e o ódio constitui o seu medo- excentricidade. O verdadeiro sábio não poderia ser u m anêmico so-
nho fruto. O comportamento violento vez p o r o u t r a derrota a ousadia nhador m a s deveria transformar continuamente as sementes da sua
do vitupério verbal e detém as ameaças de violência física. Compreen- sabedoria nas plantas visíveis e tangíveis dos atos bem executados.
di, no entanto, que preciso ater-me a este precioso talismã do D h a m m a - A s exaltações emocionais conquistadas através da devoção religiosa
pada B u d i s t a : — entre aqueles que nos odeiam, sigamos isentos de constituíam-se n a verdade em satisfações de caráter pessoal mas po-
ódio — ; compreendi também que ninguém deve manter-se alheio à d e r i a m transformar-se e m perigosas ilusões, caso lhes faltasse o indis-
compaixão. Não obstante, essas amargas experiências de v i d a ensina- pensável equilíbrio externo. A sociedade representava uma oportuni-
ram-me com rigor o preço exato a ser dado a essa coisa frágil que é dade p a r a que o sonhador espiritual examinasse a verdade dos seus
a amizade h u m a n a verbalizada e a exteriorização da santidade. Aqueles sonhos e pusesse à prova a fortaleza dos castelos por ele engendrados.
que são incapazes de compreender inclinam-se sempre a interpretar Mas, p a r a fazê-lo, ele precisava modificar a sua atitude de desprezo
mal. Porém aqueles poucos que, pela finura do seu temperamento ou p a r a c o m o mundo d a praticidade, deixar por vezes de lado o seu
em razão de u m a experiência altruística, estendem instintivamente as perigoso orgulho ascético e ampliar e equilibrar as suas perspectivas
mãos através da escuridão do mundo, compensam plenamente as má- através da c u l t u r a intelectual.
goas causadas pela ignorância maliciosa. Juntamente com eles nós
somos membros de u m a igreja invisível que une aqueles que nasceram O tempo, a experiência e o pensamento haviam destarte se en
destinados a deixar o seu recanto do mundo u m pouco melhor do regado de provar errónea a teoria que a tradição me havia entrega
que encontraram. como u m atalho para o reino dos céus, para depois indicarem-
silenciosamente u m outro caminho, instando-me a dar seguimento
Qual o significado do mundo? É hora de voltar ao tipo de pensa- m i n h a busca alhures. O misticismo era um fator importante, n<
mento de quê tenho tratado. A passagem da fórmula p a r a a contem- sário e v i a de regra descurado na vida humana, mas, no frigir dos
plação analítica de quem sou eu? p a r a que sou eu? não terminou aí. ovos, não passava de u m simples e único fator e jamais poderia ser
Ambas as perguntas ainda se enquadravam no âmbito do misticismo e tomado pela totalidade da vida. Tornava-se necessária uma culti
a lógica dolorosa de determinados acontecimentos tinha afinal com- mais integral, capaz de ser completada pela razão e capaz de resisti
provado por inteiro aquilo que a lógica da reflexão crítica começara a a qualquer experiência.
revelar. Comecei a perceber incisivamente que o misticismo não bas- T a l cultura só poderia advir do fato de admitir-se que o home
tava por si só para transformar ou mesmo disciplinar o cará ter hu- aqui está p a r a viver ativamente tanto quanto meditar passivament

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O campo da s u a atividade situa-se, s e m dúvida, no m u n d o externo, e não é senão u m reconhecimento franco da veracidade destas afirma-
não no mundo do transe. Ao passo que a prática d a meditação l e v a o ções. O oposto porém é igualmente corre to, segundo me demonstrou
homem a u m determinado g r a u de autoconhecimento, n a m e d i d a e m a experiência. O místico que principia deslumbrando-se consigo pró-
que penetra no substrato dos seus pensamentos e sentimentos, e l a não prio, irá, se é que dá maior importância à verdade do que aos estados
o leva, por outro lado, à auto-suficiência. P o r e s t a razão, ao s a i r do de espírito agradáveis, forçosamente acabar por deslumbrasse com o
transe, o mundo externo sempre lhe antepõe a silenciosa exigência de universo. E n q u a n t o ele contornar ou ignorar esta questão: — 0 que
que ele o conheça integralmente e compreenda devidamente. A me- é o universo? — permanecerá falto de equilíbrio e seu conhecimento
nos, portanto, que o homem pesquise a fundo a v e r d a d e i r a n a t u r e z a será incompleto.
do mundo exterior e some o conhecimento r e s u l t a n t e à s u a percepção
mística, ele permanecerá n a b r u m a e não verá o S o l b r i l h a r e m s u a Se tentássemos, por u m minuto que fosse, retirar qualquer cria-
plenitude, como j u l g a fazer o místico e m t r a n s e . A m a i o r i a dos mís- t u r a d a s u a atividade sensorial externa, não apenas a retiraríamos do
ticos, n a tentativa de conhecer-se a s i mesmo, fecha, p o r a s s i m dizer, universo m a s também do seu eu consciente. Pois em tal condição a
os olhos ao enigma m a i s profundo do mundo e m torno, m a s t a l ati- pessoa m e r g u l h a r i a prontamente n u m sono profundo ou desmaiaria,
tude não leva a desconsiderar por inteiro esse mundo. e de f o r m a a l g u m a poderia dar-se conta do seu eu. Isto significa não
apenas que o indivíduo é u m a parte efetiva do mundo mas também
A derradeira extensão lógica deste argumento permite perceber que que o mundo da impressão sensorial é uma parte do individuo, pois
o significado do e u inevitavelmente se t o r n a r i a m a i s c l a r o quando en- desaparece c o m o desaparecimento do ego. E m consequência, o ver-
tendido no seu devido lugar, dentro d a unidade orgânica de toda a dadeiro conhecimento do eu em sua plenitude tem de depender de um
existência. Pois, assim como u m a visão inteiramente correta de qual- conhecimento adequado do mundo físico. A verdade só pode ser obtida
quer u m a das peças de u m a máquina só é possível a p a r t i r de u m a através de u m a análise compreensiva do Todo, a qual necessariamente
visão de toda essa máquina, assim também u m a visão perfeita do i n c l u i a análise do mundo e a análise do indivíduo.
indivíduo só é possível a p a r t i r d a visão d a existência u n i v e r s a l d a
qual ele participa. É preciso aprender a distinguir o toque v a c i l a n t e G r a n d e é o mérito do alemão Hegel por haver antecipado através
dos quartos de verdade, d a impressão hesitante das meias verdades do raciocínio puro o mesmo problema com que me deparei na rota
e d a empunhadura firme d a verdade plena. Dos mais instrutivos é do m i s t i c i s m o . Assinalou o filósofo que a experiência individual era
o velho conto asiático acerca dos quatro cegos. Q u e r i a m eles saber p a r c i a l e finita, não podendo por isso abarcar a plenitude da realidade.
como e r a u m elefante, de modo que p e d i r a m ao condutor que lhes Desde que m a n t i d a e m s i mesma, isolada da experiência universal, d a
permitisse tocar o a n i m a l c o m as suas mãos. O p r i m e i r o cego tocou se apresentava repleta de contradições e anomalias. Mas estas desa-
no abdome do elefante e e x c l a m o u : — Ê u m a b a c i a redonda. — O p a r e c i a m tão logo inseríamos o indivíduo no Todo, cuja existência era
segundo tocou n u m a das pernas e emendou: — N ã o . . . parece u m já pressuposta e tida como iminente. Hegel deu-se conta, em suma,
enorme p i l a r I — O terceiro tateou u m a orelha e protestou que e r a de que o indivíduo só poderia ser adequadamente explicado em termos
como u m a cesta. A f i n a l o quarto pegou n a t r o m b a do elefante e afir- do todo e que p a r a esclarecer a sua própria significação era obrigado
mou que o a n i m a l e r a como u m a bengala torta. A s s i m , u m a visão a p r o c u r a r além de s i .
limitada gerou u m a discussão inconsequente. O condutor liquidou A s s i m sendo, avancei hereticamente no sentido do clímax de todo
afinal a controvérsia, dizendo: — Cada u m de vocês tomou u m a parte esse processo de raciocínio e deparei-me com a fórmula final. De —
do elefante pelo todo e todos se enganaram. Que sou eu? — eu passara finalmente para — Qual o significado da
experiência do mundo? — e daí para — Qual o objetivo de toda a exis-
O místico adorava a meia-verdade de s i mesmo, enquanto a ver- tência? — E u havia chegado à conclusão de que todas as questões en-
dade plena que unifica o e u interno e o mundo exterior permanecia v o l v i a m a ascensão do misticismo avançado rumo da filosofia pura
ignorada ou incompreendida.
propriamente dita.
A história contemporânea prenuncia claramente que o cientista
preocupado apenas com o mundo exterior e que não toma conhecimento Iniciação à Ioga. E x i s t e u m a época apropriada para todas as
do seu mundo interior, se do ponto de v i s t a mental for suficiente- coisas, diz a Natureza ao exibir todos os anos como num ritual as suas
mente arguto e do ponto de vista anímico suficientemente corajoso, quatro diferentes faces. Aquele que se beneficiar dos seus ensinamen-
ver-se-á e m última instância obrigado a interiorizar as suas preocupa- tos silenciosos aprenderá o antigo método de fazer as auto-revelaçôes
ções. Assim, o homem que principiou pela fórmula — Que é o uni- apenas no momento azado. Este é, sem dúvida, u m momento em que
verso? — foi forçado a terminar pela correspondente: — Que sou eu? me compete obedecer aos ensinamentos da velha mestra. Consequen-
— A obra mais recente de fiddington A Filosofia da Ciência Física temente, os dois primeiros capítulos desta obra são exclusivamente

20 m
autobiográficos, podendo parecer por isso u m tanto egoístas dentro lendário d a m i n h a vida, os fenómenos mentais paranormais que pre-
de u m trabalho de caráter predominantemente filosófico. Não obstante, sidem às p r i m e i r a s experiências n a ioga estavam reduzidos a simples
é essencial lê-los c o m paciência a título de preparação p a r a u m a com- lugares c o m u n s , ao passo que o árido labor da meditação cedera lugar
preensão adequada de u m a aparente retomada da m i n h a o b r a já a u m a facilidade despida de esforço.
publicada. Ademais, este toque de egoísmo não m a i s será imposto
A fugaz bem-aventurança do místico que faz o movimento mun-
aos meus leitores daqui p a r a a frente, pois esforcei-me p a r a que os
dano parecer tão pobre e pretensioso não faltou aos laureados, como
assuntos pessoais não m a i s apareçam no restante deste volume, des-
facilmente pode comprovar u m a referência aos anais da poesia. Du-
virtuando os seus objetivos.
rante aqueles alentados devaneios em que, sem o entrave do rubro
É preciso que e u diga agora de m a n e i r a m a i s explícita aquilo que sangue e dos brancos ossos, a mente excedia seus supostos limites, o
apenas deixei entrever no p r i m e i r o capítulo de A índia Secreta, pri- mundo físico permanecia como u m a coisa remota e estranha, o corpo
meiro l i v r o através do qual m e apresentei perante meus contemporâ- físico c o m o seu séquito inevitável de problemas difíceis, preocupações
neos. A l i eu confessei que m u i t o antes de c r u z a r c o m o p r i m e i r o iogue irritantes e desejos insatisfeitos assumia u m aspecto secundário e ser*
vestido de amarelo — e u v i v e r a u m a v i d a i n t e r i o r totalmente desvin- v i l ; o grosso do nosso interesse e atenção estando focalizado interior-
culada das circunstâncias externas. P a s s a r a grande parte do m e u mente nessa experiência incrível e surpreendentemente serena que
tempo entregue ao estudo de livros secretos e percorrendo pequenos parecia alçar a mente acima do ramerrão comum da existência ter-
atalhos da experimentação psicológica. Esmiuçara assuntos que sempre rena. N o m a i s profundo do transe eu parecia distender-me no espaço,
h a v i a m permanecido envoltos no m a i s denso mistério. tornar-me incorpóreo. Quando, posteriormente, encontrei em meu ca-
m i n h o traduções de obras hindus sobre a ioga além de livros europeus
Desde então nada foi acrescentado àquelas p a l a v r a s pouco escla- medievais acerca do misticismo, verifiquei, assombrado, que o sabor
recedoras. Conservei-me em silêncio enquanto o silêncio s e r v i u às m i - arcaico d a fraseologia formava descrições familiares das minhas pró-
nhas finalidades, m a s tais finalidades já p e r d e r a m s u a razão de s e r . prias experiências mais cruciantes. Assim, eu me havia inserido in-
P o r outro lado, acontecimentos recentes d e m o n s t r a r a m que, perante conscientemente no reino da ioga e encetado novas atividades pesqui-
u m a sucessão de mal-entendidos por parte dos ignorantes e u m a tor- sadoras que u m d i a levar-me-iam bem além dos seus domínios.
rente de interpretações falsas por parte dos pseudo-ashrams, b e m como
por parte do mundo materialista, o silêncio tornou-se ignominioso. Não m e ocorreu, porém, naqueles dias que eu não passava então
de u m canhestro principiante. E u havia começado a compreender o
Tudo isto não passa de u m preâmbulo à necessária confissão de
homem através d a introspecção, mas só podia começar a compreender
que ao v i r para a Índia pela p r i m e i r a vez eu não e r a u m novato n a
a v i d a através d a retrospecção. E u padecia daquele defeito típico
prática da ioga, não e r a n e n h u m pasmado "bicho novo" à p r o c u r a de
da inexperiência d a j u v e n t u d e : a falta de autoconfiança. Minha ima-
aprender o A B C de u m a arte estrangeira n a s u a t e r r a de origem. Cedo
ginação compunha quadros vívidos (direi mesmo fantásticos) daquilo
rompi c o m a estreita bitola segundo a q u a l a hereditariedade b u s c a v a
modelar a m i n h a natureza, pois todo o m e u pensamento e tempera- que s e r i a possível conseguir com mais vinte ou trinta anos de prática.
mento eram de outro feitio. A m i n h a infância eu a passei inteiramente E m consequência, eu colocava n u m pedestal bem alto todos os togues
ofuscado por u m terrível e enorme desejo de penetrar o significado e místicos que houvessem alcançado a mcia-idade, ao passo que os
intimo da vida. S e m mapas que me pudessem esclarecer os labirintos, anciãos a s s u m i a m p a r a m i m o caráter de legítimos heróis I 0 engano
sem guias que me informassem o r u m o a tomar e os perigos a evitar, de que todo o progresso seguia u m a linha direita e contínua confundia
rodeado por u m a civilização que tachava de ridícula a m i n h a própria o meu raciocínio, e eu tinha como certo que lodos aqueles que haviam
tentativa, ainda assim díspus-me a explorar — ou melhor, percorrer praticado a meditação, por alguns anos que fosse, eram merecedores
às apalpadelas — aquela terra estranha. Aquilo que afugenta a m a i o r de u m a reverência que beirava a adoração.
parte das pessoas da investigação do misticismo e r a precisamente o De nenhum proveito me foi o fato de a minha evolução haver
que me atraía p a r a ela. A imensidão do enigma enchia-me de vontade subitamente passado da constante contemplação da vida externa como
de desvendá-lo. E u não saí ileso de mente e corpo dessas explorações um desfile de sombras bruxuleantes para um trabalho penoso executa»
nos labirintos do meu cérebro e nas profundezas do m e u coração à do sob as fortes pressões do cinismo do mundo editorial e do mate-
p r o c u r a da " a l m a " . Cometi erros e tive de pagar por eles. O acaso, rialismo jornalístico, bem como o fato de que eu jamais tenha sido
contudo, pareceu fornecer-me o melhor caminho. Antes que e u atin- capaz de ultrapassar os limites das minhas ulteriores contemplações
gisse os umbrais da maturidade a capacidade da contemplação íntima ocasionais. A mudança inesperada e aquela provocadora incapacidade
já me havia sido outorgada como u m tesouro celeste, os inefáveis foram atribuídas às minhas próprias falhas pessoais, e eu jamais deixei
êxtases do transe místico se t i n h a m tornado coisa corriqueira no ca* de esperar que u m dia alguma súbita explosão de progresso me aeo*

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meteria. Se eu ao menos soubesse que os fracassos são m u i t o m a i s
E a atitude generalizada no Ocidente e r a a de desconsiderar a ioga
instrutivos que os êxitos!
moribunda, bem como toda e qualquer outra superstição de u m a Índia
Chegou o tempo em que j i não me foi possível esperar m a i s . S a - senil e estéril. Cabia-me, portanto, mostrar que a ioga postula ao
bedor de que a Índia conservava a tradição dos iogues ( a t e n u a d a que menos algum valor p a r a a vida, e, para fazê-lo, o melhor era lançar
fosse) mais do que qualquer outro país, p a r t i afinal p a r a lá, n a espe- mão de pessoas vivas p a r a ilustrar o meu ponto de vista.
rança de encontrar os principais protagonistas do sistema e aperfeiçoar
Os anos se passaram e o meu desejo de revelar os maiores mis-
a minha técnica. Viajei pelas planuras escaldantes d a Índia e dediquei
térios d a ioga não sofreu rebate, de maneira que me pus a escrever
preciosos anos da m i n h a juventude à investigação. O conhecimento
acerca dos menores, que tinham deixado de ser segredo. Descobri na
procurado encontrava-se muitas vezes difundido e m centenas de livros
Índia que a verdade acerca do sistema da ioga era que, na prática
e, vez por outra, corporificado de fato e m algum homem. E n t r e estes
do século X X , ela deixara de ser u m sistema, tornando-se mais hetero-
eu considerava — como ainda considero — o Maharishee como o mais
génea do que u m a paella espanhola. E r a difícil distinguir o que era
eminente iogue d a Índia Meridional. C o m ele r e v i v i espontaneamente
mítico daquilo que e r a místico. A ioga e r a considerada totalmente inú-
os meus primeiros transes extáticos. A v i d a de total absorção íntima
t i l pelo mundo moderno porque alguns faquires fantásticos a manti-
tornou-se u m a vez mais a única v i d a que v a l i a a pena. Sob a in-
n h a m prisioneira de u m a infeliz e deformante superstição. A religião
fluência daquele homem e do ambiente modorrento da Índia emergi
dogmática h a v i a destorcido bastante os seus objetivos psicológicos, ao
bruscamente da m i n h a excursão tangencial, voltando a desprezar as
passo que a magia antiga havia transformado o que restava num es-
atividades e os serviços mundanos por destituídos de objetivo e inú-
petáculo circense. E u não viera à Índia a fim de desenterrar velhos
teis. U m a vez mais o pensamento foi canalizado no sentido de negar-se
erros e remexer nos ossos dos seus esqueletos. Desenvolvi esforços
a s i mesmo. U m a vez mais entreguei-me à prática reiterada d a ioga,
hercúleos p a r a salvar o que e r a aproveitável n a ioga e a seguir ela-
considerando-a como a finalidade mais elevada do homem, ao passo
borar u m método prático conciso, em primeiro lugar p a i a o meu pró-
que a antiga esperança de ser agraciado com u m a súbita explosão de
prio esclarecimento e depois para esclarecimento do mundo.
progresso no sentido de u m a nova dimensão da consciência h a b i t a v a
perenemente no m e u coração. M i n h a peregrinação prosseguiu com o seu inevitável séquito de
duras lutas e inesquecíveis êxtases, intermitentes desilusões e gloriosas
A descrição da m i n h a mais profunda experiência de transe e m revelações. Não fiz t a l peregrinação sozinho. Uma legião invisível e
companhia do Maharishee dada ao final de A Índia Secreta é bastante desconhecida peregrinou lado a lado comigo. E s s a coorte de colegas
rigorosa enquanto descrição daquilo que senti, embora e u n a ocasião era cosmopolita e sem classe. Espalhava-se por todo o planeta. Sem-
não compreendesse a nítida distinção entre o sentimento e o conheci- pre que u m a imposição do alto pressionava a minha vontade relutante,
mento. O que omiti então e revelo agora é que não se tratou de u m a eu lhes comunicava,as minhas descobertas. Assim nasceram os meus
experiência nova, porque muitos anos antes de conhecer o santo iogue livros. Aqueles que o dever mantinha presos às engrenagens do mo-
do Arunachala eu já gozara êxtases semelhantes, igual tranquilidade derno mundo materialista puderam beneficiar-se das descobertas de
íntima e intuições igualmente luminosas durante o período de auto- alguém que lograra êxito em afastar-se delas. Não me foi fácil escre-
•aprendizado das minhas meditações. M i n h a dívida p a r a c o m o no- ver palavras que pudessem atrair u m a era de total praticidade. Por
tável místico prende-se em parte ao fato de haver ele revivido as be- vezes eu m a l podia compreender por que razão, havendo no mercado
líssimas experiências interiores que eu tivera, dívida que reconheço tão numerosas obras mais objetivas e excitantes, alguém haveria de
com gratidão e procuro saldar tornando o meu muito amado inspira- dar-se ao trabalho de ler u m a das minhas. No entanto havia os de-
dor mais conhecido entre os seus próprios concidadãos por meio dos sorientados que exibiam essa tendência perversa! Só me resta agra-
meus livros. Os leitores perspicazes perceberão com clareza que vali- decer-lhes e à minha boa estrela o incentivo que me foi dado. O valor
•me do seu nome e dos seus feitos como u m apoio p a r a o meu ponto deste somente a minha pena poderia expressar melhor do que eu.
de vista acerca do valor da meditação. A principal razão deste modo Que Alá prodigalize a essa boa gente u m a longa v i d a !
de proceder é que ele se constitui n u m recurso literário adequado
para prender a atenção e conservar o interesse dos leitores ocidentais, U m a vez mais, porém, vi-me na antiga situação de estar colocado
os quais sem dúvida emprestariam grande importância à conversão diante de u m a barreira intransponível. Minhas ligações com o Maha-
à ioga de u m jornalista aparentemente contrário ao sistema. Pois o rishee não me ajudaram a vencer tal barreira. Muitos hindus me t i -
escopo geral das minhas investigações reflete-se no meu principal ob- nham inveja por eu haver mergulhado nas profundezas da ioga, pois
jetivo ao escrever o livro, qual seja o de a t r a i r os europeus e ame- não sabiam que intimamente eu não estava satisfeito com o que con-
seguira; mas uns poucos amigos ficaram admirados ao saber. Per*
ricanos para o desprezado caminho da paz íntima, vale dizer, setyttos.
guntas intrigantes pontilhavam minhas satisfações extáticas. E certo

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que a capacidade de entrar e m transe místico não é c o i s a de pouca meditação, e c u i d a v a m de aprimorar-se ainda mais, v i a de regra ter-
monta; a capacidade de concentrar o pensamento durante longos pe- m i n a v a m por embalar-se ao som da melancólica melodia do ascetismo
ríodos de tempo não é c o m u m ; o poder de gozar de u m a paz inefável, e fugir à esposa, à família, ao l a r , à propriedade e ao trabalho; refu-
ainda que temporária, através de u m a simples reorientação d a atenção giavam-se eles e m a s h r a m s , grutas, mosteiros, florestas ou montanhas,
não é obra desprezível. Todas essas e a i n d a outras características d a de m a n e i r a que o mundo sendo deixado bem para trás, seus esforços
ioga eu as possuía. Qual seria então a v e r d a d e i r a c a u s a d a insatis- por alcançar o estado contemplativo podiam tornar-se ininterruptos e
fação? A menos que u m a explicação seja dada ao leitor ele terá o contínuos. Ao p r o c u r a r o gozo diário da paz da ioga eram obrigados
direito de ficar confuso. a s a c r i f i c a r os afazeres d a v i d a cotidiana.
Depois que emergimos de u m estado de transe ou contemplação Ademais, o fato de que a prática reiterada da meditação diária
o sentimento de exaltação v a i gradualmente arrefecendo, deixando por i n c a p a c i t a inevitavelmente o homem para as atividades de ordem
fim apenas u m eco. P o r essa razão somos obrigados a repetir diaria- prática tornava-se progressiva e intrigantemente mais claro para m i m .
mente a experiência, se é que desejamos voltar a v i v e r nas condições N a verdade, e u fora obrigado a abandonar minha carreira jornalística
originais, da mesma forma pela q u a l somos obrigados a repetir coti- durante algum tempo, e m parte por haver exagerado n a prática da
dianamente as nossas refeições p a r a não vivermos c o m fome. Aque- meditação e e m parte p o r causa d a hipersensibilidade resultante que
les que são peritos no assunto sabem como prolongar durante longo t r a n s f o r m a v a quase todas as ambiências em verdadeira tortura. Muito
espaço de tempo os doces efeitos residuais do transe, m a s é impossível m a i s fácil e r a escrever livros, pois se tratava de u m a atividade que
retomar qualquer atividade de ordem prática sem tornar a perdê-los. poderia s e r desenvolvida n u m remoto cume de montanha, se necessá-
Assim sendo, as iluminações propiciadas pela ioga são sempre passa- rio; longe d a agitação da vida citadina. Não obstante, dei-me conta
geiras. É preciso que sejam diariamente renovadas ao preço d a re- de que ao menos noventa por cento da população ocidental vivia in-
núncia temporária aos deveres práticos e às atividades m u n d a n a s . voluntariamente presa ao turbilhão de u m a existência tumultuada, sem
qualquer esperança de escape. U m sistema completo de ioga não
E s s a transitoriedade do estado contemplativo tomou-se u m i m -
poderia, portanto, s e r oferecido como coisa viável ao grosso das pes-
portante problema que ocupou boa parte das m i n h a s considerações
soas. Como poderia então u m a forma de v i d a que prometia ao mundo
mais sérias. O mesmo problema perturbou alguns iogues m a i s expe-
apenas u m a p a z intermitente como recompensa constituir-se n a forma
rientes do que eu, foi o que fiquei sabendo há alguns anos, quando
perfeita, verdadeira e integral há muito procurada pelas pessoas re-
de u m a das minhas visitas ao grande A s h r a m de S r i Aurobindo Ghose,
flexivas? A combinação d a prática da meditação com o trabalho mun-
em Pondichery, n a Índia Francesa. Lá me m o s t r a r a m algumas cartas
dano v i a de regra só tinha valor p a r a aqueles que faziam concessões
escritas por ele a seus discípulos, e u m a dessas cartas continha o se-
a u m tipo imperfeito de meditação.
guinte parágrafo, c u j a veracidade impressionou-me de t a l modo que
eu o copiei imediatamente. A autoridade d a declaração tornar-se-á H a v i a , contudo, u m a única exceção. O sistema que outrora pre-
patente se acrescentarmos que S r i Aurobindo é provavelmente o m a i s v a l e c i a entre os Zen-Budistas do Japão e r a sensato e prático. Os jo-
famoso dos iogues hindus vivos e sem n e n h u m a dúvida o m a i s culto vens que e x i b i a m gosto e predisposição p a r a a meditação eram levados
dentre eles. E i s o trecho: p a r a os mosteiros Zen e a l i exercitados durante cerca de três anos.
D u r a n t e esse período não h a v i a distrações p a r a perturbá-los, de maneira
— 0 transe é u m a forma de fuga — o corpo permanece aquie- que o trabalho visando ao domínio da mente não sofria solução de con-
tado, a mente física f i c a n u m estado de torpor, a consciência ín- tinuidade. Os mestres japoneses, com u m senso prático que amiúde
t i m a é liberada p a r a d a r prosseguimento à experiência. A desvan- f a l t a v a aos seus colegas hindus, não permitiam que seus discípulos
tagem é que o transe se torna indispensável e que, se o problema abusassem d a meditação ou do transe, mas insistiam na parcimónia.
da consciência desperta não for resolvido, ele será imperfeito. Contrariando a opinião generalizada, as capacidades dos japoneses i a m
além da imitação p u r a e simples. Os japoneses j a m a i s se sujeitai
Ademais, o homem que é obrigado a v i v e r e t r a b a l h a r neste mundo, a ser seguidores inconscientes dos costumes nascidos na índia e
que é obrigado a participar das suas atividades, presa d a voragem do culados pelos chineses. E l e s adotavam aquilo que atendia às suas
trabalho, prazer e sofrimento, mais cedo ou mais tarde terá de aban- próprias necessidades e rejeitavam o resto. O objetivo final do Z<
donar a meditação e voltar à atividade, da m e s m a forma pela q u a l medieval e r a c r i a r homens argutos e determinados, donos de u m a
abandonou a atividade p a r a entregar-se à meditação. — F a z e i o que mentalidade pronta e lúcida, capazes de manter-se em calma a tivida*
quiserdes mas pagai o preço — disse certa vez E m e r s o n com helénico e hábil concentração através de todos os seus empreendimentos; ca]
discernimento. A prova do acerto dessa declaração reside no fato de de entregar-se por inteiro ao serviço do seu país. A crassa le(
que os orientais que começavam a fazer algum progresso n a senda d a a melancolia espectral e o antimundanismo de numerosos monges

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dus não convinha a u m a raça tão v i r i l , otimista e prática. Não se
permitia aos estudantes passar o d i a de u m a forma indolente, fútil tes. Reiteradamente, repeti em meus livros que não era meu propósito
ou parasitária; pelo contrário, eles recebiam tarefas rigorosas que os induzir os ocidentais a refugiarem-se em ashrams, mas apenas a refu-
giarem-se ocasionalmente em s i mesmos. Esses livros mostram como
mantinham ativos. Sendo o objetivo Z e n u m a existência equilibrada,
fazê-lo; a prática dos seus exercícios acarreta grandes benefícios, os
os jovens eram obrigados a trabalhar bastante e m e d i t a r muito. Mas,
quais bastarão à maioria das pessoas. Os demais benefícios da medi-
ao final do período disciplinador, exceção feita àqueles que sentiam
tação, quando corretamente praticada, (o que é raro) constituem-se
uma forte e inata vocação p a r a o retiro monástico, os jovens e r a m de-
também n u m apreciável patrimônio, tendo uma vinculação de ordem
volvidos ao mundo a f i m de que casassem, abraçassem u m a c a r r e i r a
prática com a v i d a e a conduta. São eles: a capacidade de concentrar
e tivessem êxito. Dotados do poder de concentrar-se instantânea e fir-
o pensamento; o arrefecimento da emoção e da paixão; o poder de
memente, preparados para enfrentar as dificuldades e vicissitudes do
afastar d a mente os fatores perturbadores ou indesejáveis; e, final-
viver cotidiano com imperturbável equanimidade, universalmente res-
mente, u m a melhor compreensão de si mesmo. Claro que tais bene-
peitados por sua elevação de caráter, eles geralmente se destacavam fícios não devem ser subestimados, pois são da maior utilidade até
dos demais homens, colhendo enormes êxitos em suas c a r r e i r a s . Nume- mesmo nas circunstâncias rotineiras do viver cotidiano. Tanto quanto
rosos dentre os mais famosos soldados, estadistas, a r t i s t a s e humanis- sei, numerosos homens de negócios — tais como Lorde Kitchner, o
tas japoneses eram homens de formação Zen. O seu ideal e r a u m falecido Marechal de Campo inglês, e Lorde Brabourne, o falecido Go-
equilíbrio perfeito entre o homem exterior e o interior, sendo a efi- vernador de Bengala — alimentavam grande interesse por tais práticas.
ciência o traço dominante de ambos. Tão elevada e r a a qualidade da
sua meditação que bastavam trinta minutos diários, depois de deixa- Mas p a r a aqueles poucos (como e u ) que procuravam compreender
rem o mosteiro, p a r a mantê-los em permanente paz espiritual. A s s i m , o significado da vida e desvendar o imperioso problema da verdade,
sua vida mundana não sofria rebate, pelo contrário, enriquecia-se. a paz e a autodisciplina não poderiam por s i sós saciar a fome aguda
da mente. E m síntese, eu procurava a realização daquelas promessas
Parecia não haver como acomodar t a l coisa à existência moderna, de sabedoria com que acenavam os antigos textos sânscritos, classifi-
de maneira que éramos obrigados a encarar os fatos tais como são cando-a como pertinente aos mais elevados mistérios da ioga.
hoje.
Cabe-me aqui fazer u m a pausa para esclarecer o que entendo por
À Espera da Sabedoria. E s t a s foram as desagradáveis conclusões " m a i s elevados mistérios da ioga". Eles representam a diferença entre
que tirei a partir das minhas experiências orientais e hindus conj a saber e sentir alguma coisa. Nas profundezas da meditação sente-se,
ioga, tal como então eu a entendia, experiências essas que m e colo- ao lado da transitoriedade das exaltações emocionais, que o mundo é
caram em condição de u m a intensa abstração interior, m a s não m a i s como u m sonho passageiro, que o corpo não é senão u m estorvo para
do que isso. Decerto ficará claro que a m i n h a preocupação não e r a o eu real, e que o único valor permanente repousa no recôndito ine-
apenas pessoal, mas até certo ponto altruística. Devotamente, e u es- fável do coração. Através de u m a série de alentadas experiências eu ha-
perava encontrar no misticismo u m sistema capaz de satisfazer por v i a penetrado as profundezas da ioga, tal como esta era conhecida pelos
completo às aspirações mais elevadas de todos aqueles que, assim místicos e iogues das minhas relações, e descoberto os limites exatos
como eu, faziam da experiência a prova derradeira. Cheguei a pensar da s u a utilidade. S e m dúvida, o que se ganha é muito: ganha-se a vaga
certa vez que o materialismo contemporâneo poderia encontrar no sensação de haver chegado à verdade, mas não se ganha a consciência
misticismo a sua c u r a parcial. irrefutável da verdade. A ioga proporciona apenas esses sentimentos
imprecisos, mas não os transforma em formulações definitivas. Ade-
Tais percepções só me ocorreram depois de e u tíaver incorrido no
erro inicial de crer e mesmo apoiar todas as alegações e m favor da mais, ela só possibilita converter essas experiências intermitentes em
ioga que tradicionalmente se faziam. Só mais tarde, e c o m m u i t a atitudes permanentes se nos dispusermos a passar o dia todo meditan-
dificuldade, graças à ampliação do meu descortínio, aprendi a distin- do. I s t o não apenas é pouco prático para a maioria dos homens como
guir em tais alegações aquilo que era válido daquilo que não passava também, b e m o sei agora, inexequível.
de superstição.
Meu espanto foi intenso até que aos poucos comecei a perceber que
E s t a s palavras poderão facilmente ser m a l interpretadas. A tran- tal permanência só poderia advir do equilíbrio entre o conhecimento
quilidade mental foi fortemente defendida em meus livros e não me e o sentimento. Quando o intelecto houvesse descoberto aquilo que a
arrependo n e m u m pouco dessa defesa. A inserção de u m pouco de emoção entrevia, quando houvesse firmado tal descoberta sobre u m a
paz n u m a v i d a atribulada possui u m valor relativamente grande, e até base irretorquível de fatos definitivamente provados, todo o ser do
mesmo a recordação de u m a manhã repleta de abençoada tranquili- homem se harmonizaria, suas perspectivas ficariam firmemente conso-
dade adoça a faina mais árida e disciplina os prazeres mais degradan- lidadas e sua paz interior resultaria íntegra e inquebrável como um

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Moco de aço fundido. Já não t e r i a importância que ele fosse u m ele-
de m a n e i r a que cuidei de e x a m i n a r a s u a posição n a Índia contem-
mento ativo n u m mundo febricitante o u u m s e r p a s s i v o m e r g u l h a d o
porânea.
n u m transe constante, pois s u a v i d a s e r i a então u m a unidade integral.
Há declarações nos antigos textos hindus que vêm de encontro a estas À p r i m e i r a v i s t a tornava-se evidente p a r a qualquer indivíduo de
ideias. E m b o r a t a l compreensão d a n a t u r e z a m a i s íntima do m u n d o , inteligência normal que a mixórdia de opiniões antagónicas e a ausên-
tal percepção dos significados m a i s sutis d a v i d a , só possa a d q u i r i r c i a de resultados frutuosos que afligem a filosofia ocidental prevalecia
uma existência real ao invés de teórica n a medida em que for da nossa por igual n a Índia. H a v i a seis sistemas clássicos que pretendiam ex-
própria elaboração, não é menos verdade que u m dedo antigo teve de plicar racionalmente o universo, m a s cada qual p a r t i a de prenrssas
emergir da escuridão p a r a apontar o c a m i n h o certo. A s s i m , o conhe- diferentes e apelava p a r a fatos totalmente diversos. E m consequência»
cimento de que h a v i a picos a i n d a por galgar, e de que os c a m i n h o s chegavam a noções irreconciliáveis acerca da Verdade, tíavia tam-
p a r a eles não estão à v i s t a hoje e m d i a , encheu-me p o r vezes de p u n - bém inúmeros sistemas teológicos e escolásticos que passavam por filo-
gente descontentamento. sofias, ocultando o seu apelo final à fé através de u m apelo imediato
à razão, quando não alardeando a s u a grandiosa estrutura racional ao
E s s a necessidade de u m m a i o r esclarecimento i n t e l e c t u a l r e l a t i v a - mesmo tempo e m que p r i n c i p i a v a m pelo maior de todos òs dogmas,
mente à natureza do mundo e s u a e x a t a relação c o m a visão mística qual seja o da existência de u m Deus pessoal. H a v i a não poucos viden-
do homem — e m suma, a Verdade e m toda a s u a plenitude — fez-me tes e santos que pretendiam p r i v a r da intimidade do Criador Supremo
olhar e m torno e p r o c u r a r onde m a i s poderia s e r encontrado. E u co- e que verborragicamente esclareciam o significado do universo, tal
nhecia diversas das respostas do Ocidente; s a b i a também que amiúde como o C r i a d o r e m pessoa lhes h a v i a confiado. Também aqui havia
e r a m excelentes até certo ponto, m a s não de grande a l c a n c e . A ciência tanta discrepância doutrinária que a única conclusão possível era que
confessava francamente a s u a deficiência e cientistas de escol c o m o o plano divino m u d a v a de mês p a r a mês, segundo os impulsos momen-
Jeans, Eddington e P l a n c k t i n h a m começado a voltar-se p a r a a filosofia. tâneos do C r i a d o r ! H a v i a também u m grande número de pseudo-auto-
E u conhecia algo das filosofias ocidentais, a d m i r a v e l m e n t e a r r a z o a d a s res que ofereciam u m máximo de palavreado e u m mínimo de conteúdo.
e laboriosamente trabalhadas, m a s o tremendo conflito de opinião e n t r e Onde quer que estivéssemos nesse país de tagarelas, fácil era encontrar
elas restringia grandemente o v a l o r de c a d a u m a , deixando atónitos os professores de p a l a v r a pronta e mente ágil capazes de executar surpre-
estudantes. E u sabia, contudo, que os m a i s eminentes pensadores d o endentes truques de prestidigitação lógica e sempre prontos para des-
Oriente h a v i a m ponderado longamente no p r o b l e m a m u i t o antes que o s pejar, à menor provocação, u m a caudalosa torrente de palavras polissi-
primeiros gregos citadinos começaram a pensar nele n a E u r o p a . Ade- lábicas — amiúde sem sentido, por vezes crípticas e v i a de regra com-
mais, existia esta diferença v i t a l : ao passo que os pensadores ocidentais binando-se p a r a f o r m a r declarações improvadas e improváveis. Mas
pretendiam geralmente que ninguém h a v i a descoberto a v e r d a d e d e r r a - o significado d a experiência deste mundo era e m última instância assaz
deira e que as limitações h u m a n a s e r a m de ordem a que ninguém enganoso. E u queria u m a filosofia destituída de dogma c u j a verdade
pudesse descobri-la, os autores dos antigos textos asiáticos a l e g a v a m pudesse ser provada de m a n e i r a tão irrefutável como qualquer expe-
que a verdade derradeira poderia, s e m a menor dúvida, s e r descoberta riência científica. E m poucas palavras, queria pisar em chão firme.
e que alguns sábios inquestionavelmente a h a v i a m conhecido.
A m a i o r i a dos homens e m m e u lugar ficaria contente com as con-
Recordo-me do entusiasmo com que, nos dias d a m i n h a j u v e n t u d e , quistas iogues que fiz e se entregaria ao gozo da paz diária d a medi-
defendia ardorosamente este ponto de v i s t a j u n t o a u m cético a r t i s t a tação, recolhendo-se ao eu interior e deixando aos xeretas do intelecto
francês, quando caminhávamos lado a lado pelas margens do S e n a e m a tarefa de preocupar-se c o m o significado do universo I Infelizmente
noites de. l u a r . M a s , infelizmente, naqueles dias e u u s a v a indiferen- o m e u temperamento não e r a esse. Os astros da razão pura e as es-
temente as p a l a v r a s sábio e místico; hoje e m d i a já não o faço. Per- trelas m a i s quixotescas deveriam estar em conjunção quando do meu
cebo muito bem que se há esperança e m alguma parte, t a l esperança nascimento. E u já t i v e r a u m a experiência suficientemente madura
tem sede n a Asía, continente onde nasceram os m a i s renomados mís- da sociedade e s u a esmagadora esterilidade para saber até que ponto
ticos e mestres filosóficos desde Jesus até Confúcio. E não são ne- são incompletas as satisfações que ela oferece e m comparação com a s
cessárias m u i t a s considerações m a i s p a r a c o n c l u i r que a b u s c a deve conquistas interiores. U m a grande pobreza arrastara-se de muletas
cingir-se à Índia, pois sei, e m função dos estudos e das numerosas v i a - até m i m , quando o m e u alvo e r a a plenitude de u m a rica existência,
gens que fiz, que todos os países asiáticos, como o Tibete, á C h i n a , o e e u odiara essa pobreza. U m a grande riqueza surgira a meus pés
Japão, direta o u indiretamente, c o l h e r a m seus s i s t e m a s iogues e es- n u m a época e m que o m e u ideal era a mais simples das vidas e eu
peculações religiosas n a m e s m a e única fonte. A torrente do pensa- a desprezara. Agora eu não tomava conhecimento de ambas as coisas
mento filosófico c o m toda certeza seria m a i s p u r a n a s u a fonte original, porque a m i n h a v i d a pessoal tinha sido entregue e m mãos mais ele*

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vadas e eu me t o r n a r a capaz de a c e i t a r c o m alegria o que m e esti-
vesse reservado.
E u h a v i a alcançado a idade m a d u r a e m q u e os cabelos b r a n c o s
alastram-se de modo a l a r m a n t e e a m i n h a m e n t e desenvolvera-se o
suficiente p a r a fazer-me perceber que q u a l q u e r t e n t a t i v a p a r a fugir
à s u a insistente inquirição e n v o l v e r i a u m a violação d a integridade d a
consciência. O tempo me h a v i a a t i r a d o a u m a época t e m e r o s a das
consequências do destino, e m que o m u n d o i n t e i r o e s t a v a sendo estu-
pidificado por u m a devastadora série de espantosas experiências e
enredado n u m a e m a r a n h a d a teia de acontecimentos, dos q u a i s só po-
deria s a i r a r r u i n a d o o u rejuvenescido. E r a u m a época q u e t e n t a r a
equipar-se como u m candidato à morte. C o m o e u f a z i a p a r t e d a f r a -
ternidade m a l s i n a d a , m u i t o n a t u r a l m e n t e m e i n t e r e s s a v a pelo destino
dos habitantes desta triste estrela. À aspiração de s e r v i r a m i n o r i a
dos pesquisadores conscientes entre a m a s s a ignorante e sofredora, Espero que V . S . colocará perante o Congresso o real objetivo da filosofia
hindu, a conquista da felicidade para todos os seres, tal como preconizam os
dando-lhe u m pouco d a piedosa V e r d a d e ( p o r h u m i l d e e i m p e r f e i t a
grandes ditados sânscritos: 'Sarve Janah Sukhino Bhavantu* (Que toda • hu-
que fosse), d a m e s m a f o r m a pela q u a l antes e u p r o c u r a r a d a r u m manidade seja feliz) e 'Sarve Satwa Sukho Hitah* (Faça-se o bem-estar de
pouco de Paz, queimava-me internamente como u m fogo abrasador. tudo aquilo que existe) — Mensagem telegráfica de Sua Alteza o falecido
Poucos anos r e s t a r i a m ao m e u desgastado organismo e e u não p o d i a Marajá de Misore ao Delegado Hindu ao Congresso Filosófico Internacional
• dar-me ao luxo de esperar passivamente pelo túmulo enquanto ques- de Paris de 1937.
tões dessa ordem p e r m a n e c i a m e m aberto.
Mas e u estava n u m beco s e m saída m e n t a l , do q u a l p a r e c i a não h a -
v e r como fugir. A f i n a l ocorreu-me que, se não h a v i a ninguém v i v o n a
Índia que me pudesse ajudar, talvez me fosse possível desencravar
— Não se sente n a companhia de alguém que tem por hábito dis-
alguém do seu passado já morto. A s m a i s sérias reflexões a c e r c a do c u t i r o destino n e m com ele entabule conversação. — Este foi o sen-
significado d a existência j a z i a m encerradas n u m a cópia de papiros sato conselho do pragmático Profeta Maomé, que destarte liquidou com
manuscritos. Talvez entre aquelas vozes emudecidas fosse possível u m a só pincelada a questão, poupando, não padece dúvida, aos seus

encontrar u m a o u duas capazes de falar-me c o m benevolência e com- fiéis adeptos m u i t o tempo e palavrório. Decerto o Destino, que no
preensão através dos séculos. De modo que decidi-me a p r o c u r a r u m a passado não me favorecera com a sua amizade quando eu procurara
tal obra. despertar a s u a atenção, fazia agora u m a súbita aparição em cena.
Tateando nas escuras prateleiras da memória tentarei dar busca
Não se deve pensar que umas poucas divergências ideológicas
ao l i v r o e m que o incidente se encontra relatado. E u havia me diri-
tenham bastado para modificar a minha devoção profunda e o
gido p a r a o alto de umas montanhas recobertas de florestas a fim de
meu amor intenso pelo Maharishee. Eis o que escrevi num jornal
fugir à sociedade por algum tempo e a f i m de compilar e dar forma
londrino de 1950, quando da sua morte: — Foi ele o místico hindu
a u m a série de anotações sobre pesquisas que se haviam acumulado
que mais me inspirou... O contato telepático Intimo e a grande
ap m e u redor. A s necessidades de u m temperamento hipersensível
afinidade espiritual entre nós mantiveram-se vívidos e ininterrup-
t o r n a v a m obrigatório esse afastamento periódico do convívio da socie-
tos... Através de um amigo que foi visitá-lo ele mandou-me a sua
dade. A princípio eu alimentara a esperança de que na assim chamada
derradeira mensagem falada: — Quando o coração fala ao coração,
convivência espiritual de u m . certo ashram, equivalente hindu de ere-
o que mais é preciso dizer?
mitério fraterno ou instituição monástica, pudesse encontrar a har-
monia de u m pensamento elevado e de u m a estada tranquila, como
conviria àqueles períodos de fuga à atividade mundana. A esperança
acabou por demonstrar-se u m a risível ilusão, ao passo que o ashram
provou não ser senão u m fragmento daquele mesmo mundo imperfeito
que eu a c a b a r a de deixar. Àqueles que sentem a mesma necessidade
interior e u por isso recomendaria com empenho, louvado na minha

É
32
própria experiência, o único ambiente perfeitamente adequado ao seu
caso. Cuide-se de voltar às solidões cénicas d a Mãe Natureza e fazer e nove por cento dos iogues praticavam as disciplinas preparatórias
da sua encantadora beleza a nossa dona. E n t r e florestas umbrosas e sob a impressão muito encontradiça porém errónea de que todas elas
silentes ou entre picos altaneiros e agrestes, ao lado de regatos tran- levavam diretamente ao mesmo e supremo objetivo; raro u m iogue
quilos ou praias despovoadas, na quietude da terra, n a cor do céu e moderno conhecia e seguia o único caminho que poderia conduzir o
na pureza das montanhas, sempre se encontrará u m bálsamo p a r a homem à compreensão da verdade derradeira, caminho este denomi-
curar as feridas provocadas pelos contatos c o m u m mundo hostil e nado "ioga do discernimento filosófico", cujo derradeiro estágio era
1

sem amor. a "ioga do irretorquível". 2

O novo ninho que eu encontrara graças à generosa hospitalidade A seguir o m e u hóspede apanhou o segundo dos livros que colo-
do falecido Marajá de Misore era u m desses locais abençoados. Quan- c a r a sobre a mesa e disse: — Permita-me apresentar-lhe u m livro pou-
do se corria os olhos por todo aquele rincão acolhedor e inspirativo co conhecido, muito desprezado e raramente lido, porque o seu con-
da índia Meridional não se divisava nenhuma a l d e i a ; nenhuma cidade teúdo ou está fora do alcance do leitor comum ou é contrário às pre-
espraiava seus tentáculos cruéis como u m polvo gigante p a r a enlaçar concepções dos pânditas e m geral. Chama-se Ashtavakra Samhita.*
as campinas verdejantes. A Natureza e r a m i n h a c o m p a n h e i r a ; s u a T e m nada menos que três m i l anos de idade, talvez mesmo quatro,
grandiosidade solitária e b r a v i a o m e u encanto. E m s u a presença pois os nossos remotos ancestrais pouco se preocupavam com o re-
maravilhosa, sob esperançosas auroras cor de pêssego e abafados cre- gistro das datas. E s t e é o misterioso livro que o venerado sábio e
púsculos rubros, tive a certeza de que breve não apenas recuperaria iogue de Bengala, S r i R a m a k r i s h n a , há coisa de u m século costumava
o que havia perdido entre homens mesquinhos, como também daria ocultar sob o travesseiro e só manuseava quando a sós com o seu
conta de certas tarefas mais urgentes. mais desenvolvido e amado discípulo, o famoso Swami Vivekananda.
Três luminosas semanas se p a s s a r a m e, de repente, u m aconteci- Nenhum dos seus demais seguidores j a m a i s foi instruído nas altaneiras
mento inesperado sobreveio. Meu criado veio trazer-me certa tarde doutrinas desta obra, pois estas concorreriam para abalar as suas cren-
u m a carta que lhe havia sido entregue por u m estranho. Tratava-se ças mais caras. Como o senhor poderá perceber, não se trata de um
apenas de u m convite, p a r a u m a rápida entrevista, feito por u m cava- livro p a r a principiantes. Contém ele os avançados ensinamentos mi-
lheiro hindu que se dizia leitor dos meus livros, e que, por acaso, nistrados pelo sábio Ashtavakra, que realizara em s i o objetivo derra-
passava as suas férias nas redondezas. Contudo, m a l sabia e u que deiro d a sabedoria hindu, ao R e i Janaka, ardente pesquisador da ver-
aquele pedaço acinzentado de papel encerrava a fase seguinte do m e u dade que, não obstante, sempre se mantivera fiel às suas obrigações
tortuoso destino. Aquela v i s i t a inesperada divertia-me, pois e u achava de dirigente de u m a nação. Os últimos capítulos salientam que o ver-
que naquele lugar obscuro a m i n h a solidão estaria absolutamente res- dadeiro sábio não se refugia em grutas ou permanece indolentemente
guardada. Saboreei u m pouco daquela sensação de s u r p r e s a que aco- em ashrams, m a s se entrega a u m constante labor em prol do bem-
meteu u m famoso missionário de há muito perdido nas florestas da -estar alheio. Salientam ainda que o verdadeiro sábio procurará ser
Africa Central ao dar de chofre com u m homem branco, aparentemente externamente igual às pessoas comuns, a f i m de que estas não o co-
saído do n a d a : — Senhor Livingstone, suponho! — foi tudo quanto ele loquem n u m pedestal. Mas o princípio para o qual desejo chamar de
pôde dizer.
forma especial a sua atenção está condensado no verso X V do pri-
Surgiu então o m i s s i v i s t a : u m velho brâmane de feições plácidas meiro capítulo: — E i s a tua sina, a prática da meditação! — 0 signi-
e baixa estatura, turbante branco e óculos, três pequenos l i v r o s meti- ficado é que a meditação constitui-se n u m exercício para desenvolver
dos debaixo do braço. O fato é que dentro de dez minutos e u o ouvia a tranquilidade, a abstração e a concentração mentais, e que o verda-
com sofreguidão, enquanto ele discorria precisamente sobre o pro- deiro pesquisador não deve deixar-se enlear pela sensação de paz re-
blema que me perturbava a mente I A s s i m , a mola espiralada do sultante a ponto de v a c i l a r nesse estágio disciplinador, mas, ao con-
destino começava a distender-se u m a vez mais, e de u m a f o r m a a u m trário, deve prosseguir r u m o da verdade mais elevada. Ashtavakra
tempo curiosa e oportuna. adverte ao seu régio discípulo que não se dê por satisfeito com o mis-
Logo ele entrou a v i r a r as páginas de u m dos livros que trazia, o ticismo, a ioga habitual ou a religião pura e simples, mas trate de
famoso clássico BhaRavad Gita, e a elucidar as citações u m a por u m a passar à fase subsequente da aquisição dos conhecimentos da filosofia
em abono de u m a tese pouco c o m u m : a visão ortodoxa d a ioga e r a
v i a de regra inexata e, sem a menor dúvida, insuficiente; a prática
d a meditação e r a u m a excelente preparação m e n t a l p a r a a b u s c a d a 1
Gnana-ioga.
verdade mas, por s i só, j a m a i s poderia produzir a verdade; noventa 2
Asparsa-ioga.
3
A Canção do Sábio Ashtavakra.
34
85
da verdade. T a l fase está contida n u m s i s t e m a m a i s elevado, deno- mover o bem-estar do seu povo durante u m longo reinado de mais
minado discernimento filosófico, do q u a l o poder de t r a n q u i l i z a r e de quarenta anos transformaram-no no mais respeitado e querido de
concentrar o pensamento propiciado pela ioga c o m u m é decerto u m todos os governantes nativos. Gandhi lhe havia conferido com admi-
componente essencial, sem deixar, contudo, de s e r secundário. O ração o título único de Rajarishee, isto é, rei-sábio. Quando me foi
senhor compreenderá agora por que essas doutrinas revolucionárias dado conhecer mais intimamente S u a Alteza descobri que a fonte
não caem no gosto público. secreta de toda a s u a grandeza j a z i a n a filosofia com a qual se iden-
O visitante depôs o livro, fez u m a p a u s a e m s u a narração e olhou tificara e a q u a l tentarei explicar ao longo desta obra.
para m i m através das grossas lentes dos seus óculos redondos. E u Desde as praias beijadas pelo m a r do Cabo Comorin até o vene-
sentia u m interesse crescente por ele. Assegurando-lhe o m e u m a i s rando H i m a l a i a ele v i a j a r a p a r a conhecer os mais renomados erudi-
profundo interesse, roguei-lhe que prosseguisse. tos e homens santos do seu país. Desde a Cachemira até Benares ele
Carinhosamente, ele entregou-me o terceiro volume d a s u a peque- t i n h a conversado c o m os m a i s notáveis pânditas e iogues; cruzara
na coleção, elogiando-o em alta voz. O volume consistia de u m breve até as gélidas cordilheiras que levam ao Tibete, em mística peregri-
texto intitulado Upanichade Mandukya,* contendo doze límpidos pa- nação. P e r s c r u t a r a o íntimo de todos esses homens. Por esta razão,
rágrafos, ao lado de u m suplemento denominado Gaudavada Karika, g
melhor do que a maioria dos hindus, podia ele julgar aquilo que era
contendo duzentos e quinze curtos parágrafos e, afinal, u m comentário m a i s valioso n a cultura do seu povo. Acabou por encontrá-lo n a filo-
mais extenso acerca do texto e do tratado, de a u t o r i a do renomado sofia oculta, c u j a real interpretação personificou, não apenas na vida
Shankara. — Aquele que dominar intelectualmente tanto o texto como p r i v a d a m a s também n a pública.
o comentário terá se assenhoreado da mais elevada verdade d a q u a l S u a Alteza sintetizou o valor prático daquilo que aprendera na
a índia tornou-se a única depositária durante m i l h a r e s de anos e d a mensagem ao Congresso Filosófico Internacional transcrita no cabeça-
qual alguns fragmentos foram tomados por empréstimo pelo restante lho deste capítulo, u m a mensagem p a r a que toda a humanidade fosse
da Asia, — assinalou o visitante. — E s t a o b r a contém a chave-mestra tratada como u m a família. Recado mais altaneiro e de maior valor
para 'os mistérios maiores além da ioga, dos quais o senhor o u v i u não poderia ser transmitido ao mundo numa época de tanta perplexi-
falar, ( e os quais tem procurado), conhecidos como a ioga do discer- dade. Nenhuma religião institucionalizada ou filosofia esotérica trans-
nimento filosófico, a qual, por sua vez, c u l m i n a n a derradeira faceta mitiu-o até agora, pois todas as religiões e filosofias, no próprio ato
denominada a ioga .do irretorquivel. E s t e s métodos começam onde de rotularem-se, excluem os seguidores de outros credos ou outros
termina a meditação, pois são n a verdade disciplinas filosóficas que ensinamentos do seu âmbito. A Europa não fez caso da advertência,
empregam a intensa concentração ocasionada pela prática d a ioga, ignorando que os conceitos da genuína filosofia, longe de serem fúteis,
sendo orientados no sentido de libertar a mente d a s u a ignorância contêm implicações reais para a orientação ética, e, dois anos após,
inata e dos seus erros costumeiros. E l e s são de compreensão deveras estourou o maior conflito da sua história.
difícil p a r a nós do Oriente, e mais difícil a i n d a p a r a vocês do Oci-
As duas passagens em sânscrito mencionadas n a mensagem eram
dente. As togas mais adiantadas são desconhecidas de quase todos
cantadas diariamente no Palácio de Misore. S u a Alteza provou, den-
os nossos iogues hindus e v i a de regra incompreendidas pela quase
tro do seu próprio Estado, que a filosofia podia ser aplicada com
totalidade dos nossos pânditas. Contudo, conhecendo esses negligen-
grande sucesso às pessoas comuns. Misore fez j u s ao título de estado
ciados sistemas, não se precisa conhecer n e n h u m outro. Mesmo n a
modelo, e amiúde era citado como o mais progressista da índia. A
índia, local do seu nascimento, sendo este texto tão pouco valorizado
f a m a do Marajá espalhou-se por toda parte e quando da sua morte
e menos ainda compreendido, claro que não resta n e n h u m a esperança
o Times, expoente da imprensa inglesa, afirmou que ele havia criado
de vê-lo penetrar corretamente entre vocês, orientalistas do Ocidentel
um modelo p a r a o restante da índia. Esse era o fruto prático da ver-
dadeira filosofia.
E n t r e os motivos das minhas várias andanças pela índia aquele
que me levou primeiramente a visitar Misore foi a reputação ímpar Talvez também se possa mencionar aqui que o falecido Marajá
desfrutada n a índia pelo falecido Marajá, autor de u m generoso con- acompanhou com crescente interesse o meu progresso filosófico e lite-
vite à minha pessoa. O caráter irrepreensível de S u a Alteza, s u a sin- rário, e me afirmou alguns anos antes da sua morte: — Você estudou
cera devoção à cultura e seus esforços incansáveis no sentido de pro- e levou a ioga aos ocidentais; agora estude aquilo que de m i l
a índia tem p a r a d a r : a nossa filosofia mais elevada!
Chegara afinal a hora de desempenhar-me da segunda missão
4
A Doutrina Secreta do Sábio Mandukya. me tinha sido confiada. S u a Alteza ansiava tanto pela propagação
0
As Concisas Estâncias de Gaudapada. da Verdade que me incentivou grandemente na feitura deste livro, %

36 37
para meu pesar, não viveu o suficiente p a r a testemunhar a s u a pu- tempo todos os dias. 0 quarto método manda murmurar m i l e uma
blicação. vezes por d i a u m dos nomes escriturais de Deus. 0 quinto método é
Sábios já desaparecidos proclamaram do alto d a s u a sapiência a cantar determinadas sílabas sagradas em rítmica conjunção com os
existência de um caminho derradeiro que e r a o único a proporcionar movimentos de inspiração e expiração da respiração.
à mente inquiridora do homem o repouso da sabedoria perfeita e do O segundo grupo de exercícios da ioga, ou grupo intermediário,
poder oculto, a beleza ética e o benefício u n i v e r s a l d a compreensão situa-se a c i m a do corpo físico e cuida de educar os sentimentos no
derradeira. Nessa consciência sublime sabe-se, até m e s m o no ritmo campo da devoção e treinar os pensamentos no campo da concentração.
atordoante da vida moderna, que tudo e todos não diferem em essên- I n c l u i diversos exercícios místicos de meditação cujo objetivo final
cia de cada u m dos indivíduos. ISSO merece realmente s e r pesquisado. é a obtenção da paz emocional e mental; pode igualmente abarcar
a aquisição de u m constante desejo da presença de Deus. 0 panorama
E u comecei a compreender melhor a ioga depois de u m alentado
genérico deste grupo de exercícios será esboçado no próximo capitulo.
período de pesquisas; aprendi a separar o que é p r e l i m i n a r e inter-
Seus arroubos de meditação e transes extáticos propiciam ao estudan-
mediário daquilo que constitui os estágios pouco conhecidos e adian-
te rápidas visões d a não-materialidade básica do mundo e da sua har-
tados, dos quais a dita pesquisa foi n a verdade u m a preparação.
moniosa unidade subjacente, mas tais visões não passam, em última
instância, de sensações passageiras, conquanto elevadas. A seguir o
Os Três Graus da Ioga. Pode-se fazer agora u m sucinto levanta- estudante tem de aprender a transformá-los n u m a compreensão perma-
mento das relações entre essa doutrina oculta, que pretende ser o nente, coisa que só pode ser feita interpretando-a à luz mais elevada da
coroamento e a realização d a ioga, e as iogas m a i s conhecidas e razão, atividade esta que se enquadra n u m outro estágio. O êxito neste
menos elevadas. Isto requer a inclusão de algumas visões prévias de segundo g r a u é caracterizado pelo poder de chegar a u m estado de
um material que pertence propriamente a estágios m a i s avançados. devaneio e nele manter-se por longo tempo, estando a pessoa perfeita-
Tais relações surgirão com maior clareza se d i v i d i r m o s o método mente concentrada e a atenção permanecendo afastada do meio am-
iogue em três graus crescentes através dos quais chegamos a u m a biente. Valendo-se dos benefícios ganhos no auto-aprendizado dos pri-
consciência mais ampla. O grupo mais elementar é todo ele dedicado meiros métodos, o estudante pode ascender ao terceiro grau, a ioga do
aos exercícios físicos de concentração, pois estes exercem u m a atração discernimento filosófico.
mais direta sobre aqueles (sempre mais numerosos) cujos intelectos É este o m a i s elevado grupo d a família d a ioga; em última ins-
não são cultivados. tância, é supermístico, mas, inicialmente, é apenas intelectual e r a -
O principiante em matemática decerto f i c a r i a m u i t o surpreso se cional. Trata-se da doutrina oculta. Parte dela encontra-se delineada
o seu curso começasse pelo estudo do T e o r e m a B i n o m i a l , que, por neste livro, mas antes de chegar ao l i m i a r da porção mais adiantada
essa razão, é reservado para u m a fase posterior dos estudos. Analo- e s u a derradeira e assombrosa revelação, a ioga do irretorquível, é
gamente, o novato em ioga que, por temperamento e g r a u de instrução forçoso que se faça u m a pausa nestas páginas. Nesse terceiro es-
não está apto p a r a outra coisa, é colocado e m a l g u m desses exercícios tágio o estudante luta, lado a lado com a concentração e a disciplina
físicos. Mas alguns dentre os que se i n i c i a m v i s a m algo m a i s do que de sentimento e pensamento, p a r a aguçar o seu raciocínio e aplicar a
o cultivo da concentração, pretendendo melhorar a saúde, a u m e n t a r a sua inteligência assim aguçada a u m a bem orientada consideração
fortaleza e curar as moléstias que porventura os a f l i j a m . Sabe-se que do significado e da natureza tanto do mundo quanto da vida. Até
u m organismo doente perturba a mente e escraviza o pensamento à então só cuidou ele de si próprio, só se preocupou com o seu diminuto
doença propriamente dita. Por isso, não r a r o , estes exercícios são pres- ego; agora expande os limites das suas perspectivas e transforma
critos como u m a providência preliminar até mesmo p a r a os portadores e m problema seu o problema do mundo. Ê preciso que ele treine
de u m desenvolvimento cultural suficiente p a r a iniciar-se n u m g r a u bastante a f i m de i m p r i m i r as novas ideias em cada molécula do seu
mais elevado. Os métodos empregados podem parecer estranhos aos ou- ser. É preciso que pense com profundidade e empenho nessas ver-
dades sutis que está aprendendo até que o pensamento adquira o
vidos ocidentais, mas nem por isso são destituídos de extraordinária efi-
caráter de introvisão.
cácia no que tange às finalidades específicas a que se propõem. O p r i m e i -
ro método consiste em colocar o corpo n u m a determinada e r a r a postu- Quando estes esforços por f i m amadurecerem ele praticará os
r a e mantê-lo fixo e imóvel durante algum tempo. O segundo método exercícios da contemplação ultramística e procurará através do poder
envolve diversos exercícios característicos disciplinando r i t m i c a m e n t e da s u a agora iluminada inteligência perscrutar o místico derradeira;
durante certos períodos de tempo a inalação, a retenção e a soltura a relação entre a grandiosa realidade final do mundo e ele própria»
da respiração. O terceiro método consiste e m olhar s e m p i s c a r os E l e atingiu o clímax de u m a aventura em que mente e corpo precisam
olhos p a r a u m determinado ponto durante o mesmo intervalo de

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caminhar, lutar e labutar e m uníssono. E s s e caminho-ápice é a ioga do
irretorquível. E m primeiro lugar se p r o v a o princípio f i n a l d a iden- devaneio meditativo e revelando suas consequências lógicas no viver
tidade secreta do homem com a realidade u n i v e r s a l e a seguir se mos- cotidiano que acaba por produzir os frutos da compreensão derradeira.
tra ao homem como entendê-lo e m meio à a t i v i d a d e d a v i d a prática. A simples compreensão intelectual dos ensinamentos ocultos sem a
Mais alto do que isso a mente h u m a n a não pode c h e g a r ; e os anos correspondente capacidade iogue de manter íntegra essa compreensão
que lhe restam, o homem irá passá-los ocupado e m estabelecer defini- é tão p a r c i a l , incompleta e pouco satisfatória como o simples poder
tivamente n a s u a consciência a verdade, e m v i v e r c o m e l a c a d a mo- iogue de r e t i r a r a atenção do meio ambiente e focalizá-la em estados
mento e cada dia, e m expressá-la p r a t i c a m e n t e c o m u m a plenitude abstratos despidos de esforço filosófico. Nem u m árido intelectua-
contínua e sem concessões, e m manter-se embebido n o s e u espírito l i s m o académico n e m u m a prática pouco esclarecida da ioga pode
e caráter até que ela se transforme e m conhecimento imediato, certo levar à verdade, n e m ambos conjuntamente, se não forem vivificados
e comprovado. O conhecimento deve dinamizar-se, sendo praticado pela ação.
até que os exercícios propriamente ditos se p e r c a m n a s u a consecução
A s s i m sendo, o novato passa de u m grau para outro, da disciplina
completa. O estudante terá então terminado c o m as f o r m a l i d a d e s d a
corporal p a r a a disciplina emocional e daí para a intelectual. Os três
religião, com as visões da meditação, c o m os arrazoados d a filosofia.
grupos combinam-se p a r a formar u m desdobramento progressivo das
Assim como os andaimes são erguidos c o m cuidado e p e r m a n e c e m
suas capacidades e d a s u a compreensão. É importante notar que se
durante todo o processo de construção d a casa, p a r a apenas no f i n a l
t r a t a de etapas e não terminais. A verdade aprendida é sempre pro-
serem desmontados, a s s i m também, p r i m e i r o a religião, depois a ioga
porcional ao nível de compreensão do indivíduo.
e afinal a filosofia, podem ser agora v i s t a s como meros a n d a i m e s que
permitem ao homem erguer a e s t r u t u r a d a verdade. N o f i n a l , depois A confusão entre as segunda e terceira iogas é u m fato mais ou
de c u m p r i r a sua missão, também elas são repudiadas. M a s t a l repú- menos generalizado entre os religiosos e letrados da Índia contempo-
dio refere-se apenas às pretensões de p r o p i c i a r a realização d a verdade rânea. P a t a n j a l i é amiúde citado, mas ele só fala no objetivo de con-
unicamente através dos seus canais i n d i v i d u a i s , e não aos restantes trolar a mente e os sentidos e não n a união da alma com o Derradeiro.
e menos importantes usos. U m a vez estabelecido a título definitivo, É certo que faz u m a referência a I s h w a r a (Deus), mas isso apenas
o mestre poderá residir e m todos esses mundos diferentes, se quiser, p a r a i n d i c a r u m método de exercícios. Aqueles que fazem da ioga
e sentir-se em casa em qualquer deles. Poderá c o n t i n u a r estudando da concentração mental u m caminho final enganam-se redondamente.
a filosofia com o fito de orientar as correntes m e n t a i s d a s u a época, O Bhagavad Gita declara textualmente no décimo quinto capítulo que
poderá submeter-se aos ritos e imposições d a religião o r t o d o x a c o m o não há n a d a igual à ioga do conhecimento, e no décimo terceiro que
fito de encorajar outras pessoas s e m condições p a r a sobrepor-se a eles, ela é a m a i s elevada forma de realização. Por isso, não devemos con-
poderá até mesmo entrar e m transes meditativos c o m o fito de rela- fundir as coisas. É preciso conservar a religião apartada do misticis-
xar-se, mas j a m a i s reincidirá no erro de j u l g a r q u a l q u e r dessas coisas mo e m nossas mentes, e o misticismo apartado da filosofia. Se, por
como os únicos e derradeiros caminhos p a r a a verdade. Quando muito obra do sentimento, do hábito e dos enganos confundirmos u m com o
elas poderão projetar suas reflexões no pensamento; o h o m e m pro- outro, perderemos o rumo e acabaremos aturdidos. Ver-se-á que os
priamente dito deve tomar consciência da s u a substância, coisa que diferentes métodos de ioga conduzem sucessivamente de uma para
bruxaria alguma poderá propiciar. O leitor não terá compreendido estas outra coisa e, decididamente, não são caminhos levando para u m único
explicações se não se der conta do fato importante de que aqueles que objetivo central, t a l como generalizada porém erroneamente se ensina
não dominaram a ioga do segundo g r a u não poderão, p o r i s s o , d o m i n a r n a Índia hoje em dia. Não terá o próprio Atmarama Swami. autor
a ioga do grau mais elevado. Pois a prática do devaneio é necessária do clássico m a n u a l da" ioga do controle corporal intitulado Hatha
para transformar e m êxito a investigação d a filosofia. A indagação Yoga Fradipika confessado que compusera a sua obra com a finalidade
da verdade é o conteúdo adequado p a r a o transe meditativo. A disci- de a j u d a r aquelas pessoas incapazes de praticar a ioga da concen-
plina ascética da vontade, do corpo e do ego deve c o r r e r lado a lado tração mental? — Apenas p a r a a obtenção da ioga da concentração é
com o seu estudo e implementar através da ação as descobertas teó- que se preconiza a ioga do controle corporal — escreveu o autor. As
ricas da filosofia. A ioga, t a l como é geralmente entendida, não deve, Togas m a i s conhecidas são altamente inadequadas aos elevados pro-
portanto, ser posta de lado, conquanto tenha deixado de ser u m f i m pósitos da suprema realização; quando muito propiciam u m conheci-
em s i mesma para transformar-se tão apenas n u m meio p a r a u m f i m . mento mediato ou indireto da verdade, mas nunca a verdade propria-
A capacidade de praticar a ioga não é essencial apenas no princípio mente dita. E l a s não são senão unidades de u m a série progressiva,
do caminho derradeiro m a s também no seu f i n a l , É a perfeita com- degraus preparatórios de u m a escada e, para chegar ao alto, é pi
binação de u m a arguta indagação intelectual fundida n u m profundo que os galguemos u m a u m ; u m único estágio j a m a i s poderá colocar*
-nos no topo, salvo o estágio final. Analogamente, nenhum tipo

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ioga é auto-suficiente e n e n h u m trará a compreensão f i n a l , salvo a Onde me encontro agora. S e m o poder de entrar em transe m i *
ioga final do irretorquível. O termo ioga é u m a m p l o guarda-chuva tico e s e m a reonentação moral que gera, a filosofia só pode terminar
que abriga numerosas ideias e práticas diferentes. E l e abrange o n u m intelectualismo estéril e frustrante. A vida é u m produto do
asceta que se tortura sobre u m leito de pregos tanto quanto o reflexivo h o m e m integral, e quando o pensamento filosófico já percorreu todo
filósofo que aplica a s u a sabedoria à v i d a prática. P o r isso aqueles o s e u c a m i n h o e produziu a verdade que decorre de fazer o pensa-
mento v i a j a r até o l i m i t e das suas possibilidades, a ioga u m a vez
que limitam a ioga à prática d a meditação, excluindo dela a indaga-
m a i s deve e n t r a r e m cena p a r a completar as conclusões filosóficas
ção filosófica, adotam u m a atitude errónea.
por meio do s e u poder característico de absorver no eu a ideia de
No entanto, o valor prático de cada fase m a i s do que n u n c a se mundo. Não foi e m razão de sobrestimar o meu próprio discerni-
conserva no lugar devido. Mas p a r a aqueles poucos que de início ado- mento que dei a público este livro, mas em razão do desejo de comu-
tam a ioga n a esperança de chegar à verdade a c i m a de todas a s coisas, n i c a r u m a atitude mental que tem sido da maior valia na solução
que exercitam os métodos elementar e intermediário c o m sucesso, de clamorosas questões. É o melhor serviço que posso prestar ao
existe sempre o convite não verbalizado p a r a e x p l o r a r u m método próximo.
mais elevado. Se aceitarem esse convite p a r a c o m p l e m e n t a r a ioga Não se interprete erroneamente a minha posição no tocante a
da experiência com a ioga do conhecimento não estarão fugindo ao estes assuntos. No momento estou trilhando u m caminho solitário.
esquema da ioga, m a s , pelo contrário, estarão completando-o. Pois É u m a grande verdade que e u deixei de procurar iogues e mestres,
0 trabalho da ioga integral não t e r m i n a c o m a meditação n e m a de- no sentido convencional das expressões, e já não me identifico com
voção esgota as suas possibilidades. A passagem poderá s e r feita os seus a s h r a m s . Isto se deve e m parte a que a utilidade dessa busca
pelas pessoas sensatas sem prejuízo p a r a a s u a integridade intelectual, desapareceu e e m parte a que u m a longa experiência em determinados
ao passo que os tolos não verão senão perigos e r u p t u r a s n o método a s h r a m s acabou por desencantar-me inteiramente. Outrora eu con-
mais elevado. Os perigos são ilusórios e consistem apenas e m colocar fundia iogues e outros indivíduos com sábios — t a l como faz a maioria
em segundo plano a benfazeja experiência da meditação que o hábito — m a s hoje e m d i a já não incorro nesse erro. Continuo a encarar
antigo obrigava a considerar como p r i m o r d i a l , ao passo que a t e m i d a m i n h a s passadas experiências místicas como indispensáveis em seu
ruptura consiste apenas n a sujeição do sentimento i n t u i t i v o ao poder tempo, e experiências análogas sempre o serão para outras pessoas.
mais alto do discernimento racional. A s pessoas poderão d a r segui- A mudança por que passei envolve não a negação mas uma interpre-
mento às suas meditações e intuições ( n a d a p r e c i s a s e r perdido ou tação diferente dessas experiências. U m a pesquisa mais aprofundada
abandonado), mas as exageradas pretensões de s u p r e m a c i a absoluta e u m a orientação melhor ajudaram-me a estabelecer o seu justo valor
da meditação e das teimosas extravagâncias d a intuição devem ser e determinar o seu exato lugar. Não obstante, trata-se de fases essen-
deixadas de parte sempre que colidam com u m a razão filosoficamente ciais d a experiência mística pelas quais todos os aspirantes têm que
adestrada.!~ Realmente, a incapacidade de p r a t i c a r c o m êxito a medi- passar. Ademais, j a m a i s m e passaria pela cabeça permanecer u m
tação, e a incapacidade de entrar voluntariamente no estado de deva- só d i a sem u m intervalo, por breve que fosse, dedicado ao recolhi-
neio continuado, tornariam totalmente impossível a grandiosa com- mento mental e ao esquecimento dos assuntos pessoais e da atividade
preensão final. Pede-se, portanto, às pessoas que escolham entre a mundana, e pleno de u m a serena e beatífica tranquilidade ou medita-
paz momentânea e a paz duradoura. O trabalho d a ioga não t e r m i n a ção profunda, coisa que u m a longa prática possibilita-me conseguir
segundo os meus desejos, a qualquer momento e em qualquer lugar.
| com a meditação, não termina com a devoção, não t e r m i n a c o m pos- E u não desisti da meditação e ainda a encaro como u m a parle atraente
1 turas ou exercícios respiratórios; termina, isto s i m , c o m a f i r m e com- e essencial do programa diário. No entanto, recuso-me a continuar
preensão que é a única a propiciar u m a paz sempre presente, quer confundindo as coisas. As visões, os êxtases e as intuições são agora
o homem pratique a meditação quer não. meros acidentes da meditação e constituem-se apenas n u m subproduto
dela. Não há padrão universal pelo qual se possa aferir a sua vali-
Assim, a realidade pode ser concebida de quatro pontos de v i s t a
dade, de modo que considero de bom alvitre ter sempre em mente o
diferentes, dispostos ao longo de u m caminho a ser percorrido em
estágios progressivos. E m primeiro lugar, pode a realidade ser ado- objetivo essencial da meditação.
rada religiosamente como coisa à parte d a individualidade. Pode a E m duas obras anteriores prometi fornecer u m dia a decl
seguir ser objeto de meditação mística como coisa inerente ao eu. intelectual completa acerca das verdades derradeiras que se cons
E m terceiro lugar, pode ser filosoficamente estudada, afastando-se m a m além d a ioga popularmente conhecida. A tarefa de formul
todos os falsos conceitos acerca dela. Finalmente, pode ser cons- neste volume essa declaração, há muito aguardada por u m públí
cientemente compreendida t a l como é e m si mesma e através de pro- internacional, n e m mesmo agora será completada e não esgota a re*
cessos ultramísticos.

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lação das coisas que ainda estão p o r ser dadas ao m u n d o . Será pre- estimativas a c e r c a dos homens e da experiência, demonstrando-me,
ciso u m segundo volume. Aquilo que a q u i será apresentado c o n s t i t u i assim, instável de caráter e falho de julgamento. Meus amigos par
parte da ioga do discernimento filosófico m a s não a s u a totalidade. ticulares irão decerto divertir-se com a injustiça destas últimas pala-
0 restante, de p a r com o fecho do arco d a verdade que venho ten- v r a s , sendo certo que a tónica das acusações t r a i u m a indiscutível in-
tando arigir, forçosamente ficou intato. S e estas páginas d e s p e r t a r e m compreensão das m i n h a s atuais perspectivas. E u não reneguei velhas
suficiente interesse, então tanto as doutrinas que estão faltando quanto opiniões, simplesmente ampliei-as. S e j a como for, a integridade dos
a ioga do irretorquível, que é o fecho derradeiro, serão erigidas e a meus propósitos obriga-me a confessar que a congruência não é para
tarefa resultará completa. A composição do último v o l u m e será ex- m i m u m espantalho. Só me preocupo com ela no que respeita a busca
tremamente difícil e a s u a separação d a o b r a presente é imprescindível. da v e r d a d e ; se os resultados dessa busca se alteram e divergem à
Pois esta última não apenas funciona como u m a ponte cobrindo o medida que avanço, pouco i m p o r t a ! Não me esquivarei ao reconhe-
vazio entre as minhas primeiras obras sobre o m i s t i c i s m o e o m e u cimento dos fatos. A honestidade dos meus propósitos no passad
atual trabalho de cunho puramente filosófico, como também reorienta encoraja-me a agir a s s i m agora. P a r a u m escritor que firmou st
a mente do leitor, preparando-a eficazmente p a r a o estudo adiantadís- reputação pesquisando e advogando a ioga não é fácil reconhecer
simo diante do qual a s u a busca irá decerto colocá-lo. público as limitações do sistema. Obviamente, razões de grande peso,
A linguagem comum é deficiente como veículo p a r a os conceitos além de u m a extensa experiência, fazem-me assumir tão grande re:
abstratos; daí a necessidade corrente de i n v e n t a r u m a terminologia ponsabilidade. E u vivo a aprender e a pôr à prova coisas novas, bem
filosófica especial. E u procurei, contudo, Iembrar-me daqueles p a r a como a amadurecer a m i n h a capacidade de julgamento. Quando isso
quem escrevo — não, decerto, os pedantes e n c l a u m r a d o s n e m os meta- acontece, torna-se inevitável que u m homem se ache na contingência
físicos académicos, mas os homens de r u a que a i n d a se p r e o c u p a m de modificar suas p r i m e i r a s conclusões e as primeiras interpretai
com o significado da v i d a — e, por isso, reluto e m lançar mão dessa das suas experiências — a menos que se trate de u m cego que acredita
terminologia distante e pouco conhecida, salvo quando h o u v e r abso- e m tudo quanto lhe dizem e aceita passivamente tudo que lhe sobrevêm.
lutamente necessidade ou quando a s u a compreensão for fácil. T a n t o E s s a b u s c a é como escalar u m a montanha desconhecida, jornada
quanto possível, minhas pesquisas sobre essas complexas abstrações que envolve sucessivas modificações d a paisagem. A gente divisa lá
foram trazidas p a r a o campo de u m a linguagem não-técnica ao al- no alto aquilo que parece ser o cume. Depois de muitos anos de pe-
cance das inteligências normais, e isso sem prejuízo d a exatidão e da nosos esforços chega-se ao topo da crista. Desilusão! Naquele fatí-
profundidade. As pasmosas verdades a l i contidas e s t i v e r a m u m d i a dico momento de êxito constata-se que o verdadeiro cume fica ainda
restritas a u m a diminuta elite intelectual, porém, e m b o r a e u não tenha m a i s a c i m a e que talvez mais alguns anos de dura luta nos aguardem.
escrito para ignorantes, coloquei-as e m p a l a v r a s simples e b e m ao A s visões místicas, a s experiências iogues, as crenças religiosas e as
alcance da compreensão do leitor capaz de entender o estilo de u m teorias científicas são cristas com que topamos na nossa escalada
jornal bem redigido. Não obstante, aqueles que n u n c a p r a t i c a r a m a e que amiúde confundimos com o pico final. Colhemos visões variadas
meditação ou a concentração n e m estudaram filosofia talvez não te- e até aqui insuspeitadas d a verdade à medida que os velhos marcos
nham gosto para pensamentos dessa ordem, ao passo que aqueles vão desaparecendo atrás de nós e nós vamos ganhando altura. O
que trilham a estreita senda da ortodoxia religiosa possivelmente se derradeiro existe, não tenhamos qualquer dúvida a respeito, mas, a
assustarão com eles. E todo leitor constatará que embora estas pá- dar-se crédito aos registros históricos, apenas aqueles que têm a co-
ginas estejam abertas e sejam acessíveis a quem se dispuser a folhea- ragem de s e r incongruentes poderão encontrá-lo! Até mesmo Buda,
das, a penetração no seu sentido real é vedada a quantos se r e c u s a r e m quando entreviu u m caminho mais elevado, não hesitou em pôr de
a u m mínimo de esforço mental. Aconselha-se, portanto, u m a c u r t a lado as formas elementares de ioga que vinha praticando há seis anca.
leitura por vez, seguida de u m a pausa p a r a reflexão a c e r c a do fruto
A segunda acusação saída de lábios ignorantes é a de que sou u m
filosófico que acabou de ser colhido.
renegado. I m e n s a tolice, pois j a m a i s esposei outra causa que não a
Talvez não seja também desarrazoado prever a publicação por da verdade, e com esta continuo casado. Se algumas mentes super-
escrito de críticas que já ouvi formuladas n a intimidade e até mesmo ficiais e não indagativas até aqui me têm — e estou certo de que
v i estampadas n u m pasquim h i n d u d a pior qualidade, porta-voz de a s s i m é — como u m homem convertido ao Hinduísmo, ou como u m
lastimáveis criaturas que se dedicam ao cultivo d a inimizade pessoal. propagandista de algum a s h r a m hindu em particular, isto se deve a
Tais críticas ficarão sem dúvida mais cristalizadas com o aparecimento u m a presunção vã da sua parte e nunca à minha atitude pessoal Se.
desta obra. Primeiro me será imputada a pecha de incongruente. contudo, a passagem de u m ponto de vista menos elevado para um
Dir-se-á que eu investi com fúria iconoclasta contra definições e dou- ponto de v i s t a mais elevado faz de m i m u m renegado, então com muito
trinas passadas, modifiquei u m ponto de v i s t a firmado, alterei velhas prazer declaro-me culpado.

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A terceira acusação, a de que repudiei a ioga, é i g u a l m e n t e t o l a
E u não me afastei do m e u antigo modelo. N ã o o c o m b a t o agora, m a s aceitação p a s s i v a dessas visões extraordinárias e experiências inefá-
continuo a dar-lhe o devido valor, como sempre, recusando-me, porém, veis v i s t a s sob u m p r i s m a m a i s róseo e deter-me aí. 0 destino, porém,
a concentrar sobre ele toda a m i n h a atenção; pelo contrário, procuro foi m a i s bondoso e, ferindo-me no m e u amor-próprio, conduziu-me
apreciá-lo, criticá-lo e compreendê-lo à l u z m a i s potente d a verdade a t u n a atmosfera m a i s elevada de verdade. Os êxitos mais deleitosos
derradeira. Ademais, já não acolho todas a s grosseiras alegações em e os fracassos m a i s acachapantes foram pequenos mestres que prepara-
favor dos caminhos inferiores d a ioga a p r e s e n t a d a s p o r iogues irres- r a m o c a m i n h o . D a m a i o r v a l i a foi a filosofia ao mostrar-me como
ponsáveis e destituídos de senso crítico; hoje e m d i a tenho p a r a m i m a v a l i a r as visões místicas à l u z daquela Verdade Suprema, que poucos
que tais caminhos servem p a r a nos conduzir a regiões a i n d a além dos se dão ao t r a b a l h o de p r o c u r a r porque esmaga o desejo egoísta e põe
e m ridículo todas as razões de ordem pessoal.
seus domínios. E u não repudio a ioga, desenvolvo-a a p e n a s . De
parceria com a filosofia, a ioga irá d e f i n i t i v a m e n t e p r o d u z i r como Aqueles, portanto, que encararem este livro como u m símbolo da
fruto a verdade; por s i só não poderá p r o d u z i r senão a paz. O cul- incongruência estarão errados. Não tenho nenhuma necessidade de
tivo da intuição mística, a prática da quietude m e n t a l e os exercícios desculpar-me perante o t r i b u n a l da razão. Alguns dos novos ensina-
de meditação são absolutamente indispensáveis a todos quantos se mentos a q u i apresentados não apresentam incongruências com relação
encontrem ainda n a fase d a b u s c a . a anteriores declarações m i n h a s . E u já estava de posse deles desde
a época e m que escrevi a Busca do E u Superior, obra em que dizia
Todo pesquisador d a verdade, todo h o m e m que ousou p e n s a r com claramente no p r i m e i r o capítulo que a última palavra não havia ainda
honestidade e acatar os resultados das suas lucubrações — fossem sido e s c r i t a :
estes amargos como o fel ou doces como o m e l — foi u m nómade.
Seus pontos de v i s t a j a m a i s f o r a m rígidos. E l e sabe que a sabedoria — T o d o escritor o u mestre tem forçosamente de adotar uma
é o último resíduo do agitado processo de destilação d a v i d a e não posição diferente segundo o grau de desenvolvimento da mente
o primeiro. A busca e m que está empenhado é dinâmica e não está- com que está l i d a n d o . . . Não se deve interpretar mal o objetivo
tica. Não lhe é possível b a i x a r à s e p u l t u r a e colocar p o r c i m a u m a destas páginas. Têm elas a intenção de mostrar u m caminho
lápide proclamando u m ponto de v i s t a teimoso p a r a a n u n c i a r a sua iogue adequado aos o c i d e n t a i s . . . elas mostram como conseguir
morte. P o r essa razão só quero como leitores aqueles q u e estejam determinadas satisfações, m a s não procuram nesta fase solucio-
dispostos a penetrar comigo a imensidão b r a v i a do desconhecido. O n a r o mistério do u n i v e r s o . . . Quando a quietude da mente e a
esforço por descobrir a verdade é u m a grandiosa a v e n t u r a , u m a antiga concentração do pensamento forem conseguidas, e só então, es-
incursão no domínio do desconhecido e não u m mísero p e r m a n e c e r tará a pessoa e m condições de encetar a busca da Verdade Der-
enfurnado n a própria toca. O pioneiro t e m de l a b u t a r e s o f r e r p a r a r a d e i r a . Continuamos empenhados no processo de revelar uma
aprender como verdade nova aquilo que os seus descendentes receberão sabedoria s u t i l e espantosa que ainda não foi dada a conhecer
como u m a antiga verdade; A congruência deve s e r f e s t e j a d a como a u m a n u m milhão de pessoas.
um elegante traje novo quando a u x i l i a r n a p r o c u r a d a verdade, m a s
deve ser atirada fora como u m traste velho s e m p r e que e s t o r v a r t a l E m b o r a a m i n h a lealdade ao misticismo permanecesse inabalável,
procura. As perguntas são amplas e m s u a m a i o r i a ; elas têm m a i s de eu s a b i a que este não bastava, que e r a incompleto e insuficiente. E u
uma faceta. Se no passado a n a u de u m h o m e m enveredou p a r a u m h a v i a começado a perceber que a verdade estava tão distante do
lado e no presente envereda p a r a outro — b e m , tanto m e l h o r p a r a a m i s t i c i s m o quanto este estava distante da religião. No livro seguinte
veracidade do seu ponto de v i s t a ! ( A Realidade I n t e r n a ) , c o m m u i t a coragem, admiti reiteradas vezes
que o m i s t i c i s m o por s i só não bastava e que havia u m caminho der-
O tempo decerto tornou-me u m pouco m a i s sensato nesses assuntos, radeiro u l t e r i o r a ele. Mas apenas com o presente trabalho chegou o
u m pouco mais dotado de autocrítica, b e m c o m o propiciou-me u m a momento oportuno p a r a e x p l i c a r com clareza as razões da minha
maior capacidade de analisar os famosos a s h r a m s e as decantadas passagem de u m a perspectiva fragmentária p a r a u m a visão mais plena.
personalidades místicas que conheci. E u p e r s c r u t e i m a i s a fundo os C a d a l i v r o que fiz brotar da fluida obscuridade da tinta represent
seus fundamentos e m busca de u m a compreensão m a i s c l a r a , ff Neste portanto, u m m a r c o superado, u m oásis no deserto da existência no
esforço vali-me das descobertas dos m a i s competentes psicólogos mo- qual a c a m p e i durante algum tempo ao longo da minha jornada em
dernos do Ocidente b e m como dos antigos psicólogos h i n d u s . T e r i a b u s c a de u m a explicação válida p a r a a v i d a e a realidade. Talvez eu
sido mais agradável à m i n h a vaidade p e r m a n e c e r ao lado de colegas não v i v a o suficiente p a r a escrever u m testamento filosófico ou u m
místicos — fossem da obscura antiguidade o u d a l u m i n o s a e r a con- credo f i n a l , m a s no presente volume os leitores irão decerto verificar
temporânea, fossem do j o v e m Ocidente o u do velho O r i e n t e — n a que a B u s c a se aproximará bastante do seu termo. Não se pense,

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porém, que os demais volumes poderão s e r ignorados. T a l e r r o seria inexpressável e fazer c o m que ele siga u m caminho de inexorável 1
fatal ao desenvolvimento de c a d a u m . O s p r i m e i r o s e n s i n a m e n t o s gicidade. P o d e m o s p r o v a r que dois e dois são quatro, que a T e r r a
persistem e são agora complementados. Aqueles e s c r i t o s sobreviverão é redonda, e que a água não é senão u m a combinação de dois gases;
e serão necessários enquanto os homens f o r e m obrigados a e s c a l a r m a s c o m o poderemos p r o v a r a realidade daquilo que se situa acima
progressivamente o c a m i n h o d a verdade, enquanto a m e n t e h u m a n a do p e n s a m e n t o formulado, que é totalmente inaudível e invisível, e
tiver de amadurecer como os frutos n a s árvores; v a l e dizer, r e p r e s e n que só poderá s e r conhecido depois que todos os argumentos tiverem
t a m portais que não poderemos e v i t a r e s e r e m o s obrigados a f r a n q u e a r . sido esgotados? E i s n a verdade u m paradoxo provocante, quando
Aqueles que estão demasiado apressados não p o d e m e s p e r a r p o r u m a aquilo que é parece s e r aquilo que não é ! Podemos chegar à di-
súbita e m i r a c u l o s a transição p a r a a v e r d a d e d e r r a d e i r a . | P o r essa mensão inefável do d e r r a d e i r o viajando através de u m a série de pensa-
razão os primeiros livros, representando tão f i e l e l u c i d a m e n t e quanto mentos e experiências, m a s o derradeiro propriamente dito não é
possível o m e u pensamento e a m i n h a experiência p o r ocasião d a s u a n e m u m pensamento n e m u m a experiência. A Verdade em sua na-
feitura, são registros factuais que representarão i g u a l m e n t e a q u i l o que t u r e z a a b s o l u t a não poderá j a m a i s ser encerrada em palavras ou trans-
muitos outros virão a p e n s a r e s e n t i r à m e d i d a q u e f o r e m t r i l h a n d o m i t i d a p o r q u a l q u e r outro meio. Daí o misterioso silêncio de Cristo,
o mesmo caminho. de B u d a e d a E s f i n g e .

E i n s t e i n descobriu que o r a i o de l u z descreve u m a c u r v a através M a s a solitária senda que leva à augusta verdade pode ser deli-
do espaço. Todos os cientistas que o a n t e c e d e r a m a c e i t a v a m p a c i f i c a - neada através de p a l a v r a s humanas, o duro caminho da sua compreen-
mente que a trajetória d a l u z e r a r e t i l i n e a . S e r i a m eles mentirosos são pode s e r p o r meio delas debuxado, e os homens podem, através
ou estariam enganados? A T e o r i a d a R e l a t i v i d a d e desfaz a m b a s as de u m processo de rigoroso raciocínio, ser levados a u m a posição que
hipóteses. Demonstra que as p r i m i t i v a s explicações e r a m deveras r i - indicará c o m o torná-lo r e a l p a r a s i próprios. Desde que a meada
gorosas quando enfocadas do ponto de v i s t a e m que o o b s e r v a d o r se secreta de A r i a d n e s e j a colocada e m nossas mãos, a razão analítica
colocava. E r a como u m ativo cientista sempre entregue a experiências c o m b i n a d a c o m a ioga poderá levar-nos até os portais da realidade.
de laboratório visando a u m a m a i o r compreensão dessas m e s m a s expe- M a s a razão não poderá j a m a i s penetrar tais portais adentro, pois
riências. Até mesmo aos princípios aceitos d a matemática devemos então o próprio ente que r a c i o c i n a irá deixar cair ao chão o instru-
atribuir u m caráter apenas relativo. A sede do conhecimento absoluto m e n t o dos seus pensamentos, ao perceber, finalmente, aquilo que na
salvou-me d a letargia d a saciedade c o m as descobertas existentes. É realidade ele é. Aquele que não e r a capaz de ver a luz, por enganar-se
verdade que eu escrevi c o m forte dose de convicção e c o m aparente c o m a i d e i a de que não e r a senão u m a pessoa finita, presa a alguns
dogmatismo. A justificação é que, tendo p r a t i c a d o a meditação du- centímetros de u m a pobre t e r r a , é despertado pela força inerente da
rante u m quarto de século e tendo m e v a l i d o dos seus benefícios, s u a própria percepção ultramística, quando esta for suficientemente
muito naturalmente desejei transmiti-los a o u t r e m . S e n t i necessidade forte p a r a afetar e f u n d i r s u a vontade e seus sentimentos, e irá agora
de fazer o papel de u m advogado e a t r a i r forçosamente c o m isso a libertar-se p a r a sempre d a s u a velha ilusão. Naquele instante ele de-
atenção dos meus irmãos do Ocidente p a r a o fato de que t a l l i n h a de saparece p o r t a i s adentro e a s u a peregrinação chega ao fim. Não
experiência encontra-se aberta também p a r a eles, desde que d e m o n s t r e m desejo perder o m e u tempo, n e m o dos meus leitores, pedindo-lhes
que se esforcem p o r atingir altitudes intangíveis, mas peço-lhes, isto sim,
u m mínimo de interesse.
que p r o c u r e m , por u m lado, todo o significado da existência terrena,
O presente esforço é m a i s do que u m a simples incursão nos domí- e, por outro, o objetivo da encarnação, até que lhes seja dado conviver
nios d a redação de u m livro. Ê u m a e s t r u t u r a f u n d i d a de pensamento h a r m o n i c a m e n t e c o m ambos.
Leste-Oeste construída com v i s t a s à nossa época. É u m a interpretação
à moda do século vinte p a r a t u n a antiga sabedoria que c a t i v o u graves
e vetustos sábios que v i v e r a m m u i t o antes de C r i s t o . Ê u m a contri-
buição p a r a a compreensão do t e m a m a i s obscuro e, paradoxalmente,
m a i s importante da vida, escrita ante as pressões do tempo e d a i n -
clinação pessoal. E n c a r a r e i francamente a m i n h a a t u a l consecução,
bem como a s u a f u t u r a complementação, como a m a i s elevada e sa-
grada tarefa da m i n h a c a r r e i r a até aqui. N u m a e r a e m que se v e n e r a
a autoridade d a ciência e se repudia tudo o que não f o r passível de
u m a demonstração intelectual, não é coisa de pouca m o n t a a tarefa
de organizar o pensamento e m defesa d a realidade transcendental

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j u s à denominação de revelação, pois era antes u m apelo à fé e à
fantasia do que à capacidade crítica do homem.
A m a i s importante e significativa de todas as religiões foi a con-
sequência d a tentativa feita por u m homem realmente sábio, poste-
riormente convertido pela história em líder titular dessa mesma re-
ligião, de p a r t i l h a r os seus conhecimentos com a massa ignara valen-
do-se do único recurso ao alcance da gente simples: utilizar crenças
simbólicas e fábulas simples ao invés de verdades claras e diretamente
enunciadas. T a i s homens muito raramente têm aparecido neste nosso
mundo. Não é preciso que os imaginemos como superseres, como de
OS G R A U S R E L I G I O S O S E MÍSTICOS hábito fazem os seus seguidores, embora tenhamos que reconhecer
que u m profundo destino reservou u m a enorme importância às suas
vidas e às suas palavras. Até mesmo Macaulay, cético como era,
não r e s i s t i u ao desejo de escrever q u e : — D a r à mente humana uma
orientação que e l a conservará durante milénios é a prerrogativa de
Algumas antiquíssimas indagações vêm confrontando permanente- alguns espíritos imperiais. São tais espíritos que movimentam os ho-
mente a humanidade. Será a v i d a tão-somente u m a t r e m e n d a porém mens que, por s u a vez, movimentam o mundo.
trágica e patética brincadeira que o C r i a d o r faz c o m a h u m a n i d a d e ?
U m t a l defensor de u m a nova e genuína fé surgiu com u m facho
Esse vasto panorama de estrelas incandescentes ocupando u m a enorme
e m punho p a r a dissipar u m pouco da escuridão ética do seu tempo e
porção de espaço tem ou não u m significado? Não passaremos nós
do seu meio, p a r a decifrar o primeiro significado da vida aos olhos da
de meros acidentes biológicos e m perene e inútil desfile através do
empedernida m a i o r i a e p a r a abrir as portas da salvação derradeira à
tempo? Não será o homem senão u m círio tremeluzente que esparge
m i n o r i a interessada. P o r u m a questão de compaixão e nobreza dese-
a s u a pequenina luz nas sombras por alguns instantes p a r a depois de-
j o u ele tornar u m a pequena parte do seu saber acessível àqueles que
saparecer p a r a todo o sempre?
do ponto de v i s t a mental não tinham condições para compreender
As primeiras respostas a estas perguntas f o r a m dadas pelos homens a s u a deslumbrante totalidade. E l e não pretendeu ocultar seu conhe-
nas primitivas religiões, a esta a l t u r a perdidas no atro a b i s m o da cimento das massas obreiras, m a s não ousou ignorar o fato psicológico
pré-história, e cujos ecos, atravessaram os tempos p a r a chegar até nós. de que t a l saber só poderia ser transmitido em sua plenitude àqueles
U m pouco de pesquisa basta p a r a m o s t r a r que n e n h u m a fé é inteira- que houvessem atingido u m estágio suficiente para capacitá-los a com-
mente nova, que poucos dogmas são características e x c l u s i v a s de u m a preender. P a r a todos os demais a coisa ficaria ininteligível e maçante.
única religião, m a s todos têm u m a ascendência m i s t a . A s s i m como
n a linguística a palavra sânscrita bharter, a l a t i n a frater, a francesa Pois as derradeiras verdades da vida eram remotas e abstratas.
frère, a alemã bruder, e a inglesa brother i n d i c a m a m e s m a r a i z a r i a n a , P e r t e n c i a m aos domínios d a filosofia, palavra que não deverá ser
assim também a semelhança entre diversas doutrinas religiosas i n d i c a confundida c o m a metafísica. E s t a acabou por significar uma es-
a influência de contatos mais .antigos. A s pesquisas conhecidas d a peculação a c e r c a da verdade, ao passo que filosofia significa aqui a
verificação d a verdade. T a i s opiniões não poderiam ser trazidas pe-
religião comparada e as revelações d a mitologia c o m p a r a d a já fizeram
rante mentes i m a t u r a s sem antes receberem u m a forma sólida e con-
franzir o cenho àqueles que entretém a estreita visão de que a l g u m
creta. Isto só poderia ser feito transformando-as em símbolos corri-
credo em p a r t i c u l a r contém a única revelação feita p o r Deus, qual-
queiros e a sistematização desses símbolos cotejados constituiria uma
quer que seja ele. E m cada u m a das religiões ouvimos aproximada-
religião histórica. O simbolismo teria de aparecer na forma de rituais,
mente os mesmos s o n s : o receio do sombrio mundo do além, o deslum-
lendas, mitos, pseudo-histórias, simples dogmas e assim por diante,
bramento ante a pompa d a Natureza, o preito a u m maravilhoso S e r
m a s qualquer que fosse a forma assumida, ele representaria necessaria-
superior que criou tanto o conhecido quanto o desconhecido, súplicas
mente u m desaparecimento dos conceitos profundamente abstratos e
em prol de favores pessoais ou nacionais, consolações p a r a os aflitos,
sua substituição por conceitos mais diretos e concretos. Assim sendo,
sussurros abafados acerca de princípios profundamente filosóficos e a filosofia m o r r e r i a n a aparência apenas para renascer disfarçada na
débeis esboços de altas verdades — tudo curiosamente misturado e f o r m a de religião. O metafísico poderá lamentar tal transformação,
terminando e m benéficas injunções de ordem m o r a l .

I
m a s o verdadeiro sábio não o fará. E l e saberá que as massas que
Religião pode ser concisamente definida como a crença n u m E n t e a c h a v a m a filosofia desagradável e impossível de aprender encontra*
ou E n t e s sobrenaturais. | C a d a religião e m s u a origem fazia decerto
SI
50
r i a m ajuda nessa solução e não p e r m a n e c e r i a m cingidas à escuridão.
Q u a l e r a o significado prático dessa religião? E l a fornecia u m
Saberá também que a populaça irá l e n t a m a s seguramente e v o l u i r
credo p a r a satisfazer a curiosidade das ignorantes classes obreiras,
desses ténues bosquejos p a r a as apreensões i n t e l e c t u a i s a c e r c a da
que não apenas não t i n h a m tempo ocioso como também não dispu-
sua origem.
n h a m d a capacidade de indagação necessária para aprofundar-se em
Um Deus que não fosse p a r c i a l n e m pessoal, q u e não se interessasse determinados aspectos da torrente da vida. E l a oferecia u m a fé para
vivamente pelas vidas i n d i v i d u a i s dos seus fiéis servidores p a r e c e r i a satisfazer a grande necessidade de consolo nas aflições e trazer um
contristador e frio aos olhos das pessoas c o m u n s . E s t a s t i n h a m mentes lenitivo p a r a as dores. Estabelecia u m salutar código de ética para
demasiado incultas e subdesenvolvidas p a r a l i d a r f r u t u o s a m e n t e c o m orientar a conduta e m meio às perplexidades do comportamento hu-
os conceitos abstratos; s u a inteligência e r a demasiado o b t u s a p a r a mano, p a r a resguardar os homens de s i próprios e para erigir u m
visualizar u m a Mente impessoal d i s t a n c i a d a dos interesses terra-a-terra. ideal excelso p a r a as aspirações correntes. E r a u m a autoridade no
N a qualidade de proficiente psicólogo o sábio líder religioso aperce- fornecer orientação prática p a r a a configuração das formas sociais e
beu-se deste fato. Não e r a seu desejo a t u r d i r m a s s i m a j u d a r . Con- p a r a a junção dos indivíduos n a formação de nações inteiras. E r a
sequentemente, ele j u l g a v a errónea a providência de d a r à grande u m a força estética p a r a inspirar e incrementar as belas artes. E r a a
maioria aquilo que só poderia s e r v i r a u m a r e f i n a d a m i n o r i a . E l e p r i m e i r a indicação de que u m a existência melhor do que o simples
compreendia cabalmente que a apresentação d a v e r d a d e filosófica t e m permanecer a mercê das circunstâncias, melhor do que essa feira i n -
necessariamente de ser determinada pelos l i m i t e s d a compreensão dos terminável de tristezas indesejáveis e alegrias fugidias, melhor do que
adeptos, e que u m longo espaço de tempo p r e c i s a d e c o r r e r antes que essa l u t a incessante c o n t r a o infortúnio e a debilidade interior, melhor
ela possa tornar-se acessível às m a s s a s e m toda a s u a p u r e z a . do q u e esse extenso r o l de agitações materiais que só terminam no
Não lhe restava, portanto, o u t r a a l t e r n a t i v a senão fazer e s s a apre- pó e n o n a d a — aguardava p a r a sempre o homem a fim de acolhê-lo
sentação de u m a forma c r u a , apelando p a r a a anedota mitológica a e m s u a paz e beatitude.
fim de revestir as verdades m a i s sutis, oferecendo a realidade derra- A s s i m , toda a estrutura do dogma religioso e da doutrina estabe-
deira, sob o pesado véu de u m a Divindade pessoal, c o m o objeto das lecida, do c e r i m o n i a l aparatoso e do milagre legendário, originalmente
orações das pessoas ou como foco da s u a adoração, e propiciando u m não e r a senão u m símbolo de assuntos mais elevados. Aqueles que
código de preceitos éticos m a i s elevado do que o até então adotado p o r i a m à i g r e j a o u ao templo e adoravam Deus não estavam perdendo
essas pessoas. F o i também o mestre forçado a colocar o conhecimento por completo o seu tempo, nem se entregavam ao luxo de u m solilóquio
em termos simbólicos, lançar mão daquilo que e r a m a i s i m e d i a t o p a r a estéril. E l e s h a v i a m feito u m passo decisivo no caminho do reconhe-
apresentar à s u a gente — os fenómenos d a N a t u r e z a — atribuindo cimento de que o mundo m a t e r i a l não esgotava a realidade, conquanto
tais fenómenos a seres invisíveis facilmente imagináveis, dotados de se tratasse a i n d a de u m passo inicial e vacilante. O discreto temor
poderes mais extraordinários do que os m o r t a i s c o m u n s ; foi a i n d a que s e n t i a m naquele local que tomavam pela morada da divindade
obrigado a inserir s u a sabedoria e m interessantes contos de caráter era u m pálido reconhecimento d a verdade de que o homem poderia
semi-histórico a f i m de despertar o senso do pictórico e m mentes i m a - dar-se conta d a presença dessa realidade derradeira. 0 consolo que
turas e captar-lhes a imaginação por meio d a dramatização de certos colhiam nos ensinamentos das escrituras e nas imagens esculpidas que
fatos n a forma de cerimónias rituais; a sugerir u m a realidade m a i s postulavam a existência eterna de u m a Divindade constituía a sua
elevada, expressando-a n a f o r m a de u m h o m e m enormemente exa- primária introdução ao valor filosófico do conceito de u m a existência
gerado, isto é, u m Deus pessoal; e a v i n c u l a r o todo ao s e u objetivo eterna que sobrevivia a este mundo sempre cambiante. 0 simbolismo
prático imediato, acenando c o m as agradáveis recompensas d a v i r t u d e conceptual d a religião e r a de hábito antropomórfico, fato que o tor-
ou intimidando com os desagradáveis castigos do pecado. Que m a i s n a v a inteligível perante a massa. A adoração era, portanto, dirigida
poderia fazer ao t r a t a r com crianças intelectuais? Acaso as crianças a u m s e r imaginário, m a s e r a a única forma pela qual se podia adorar
de todo o mundo não adoram os contos de fadas e não se deliciam aquilo que afinal e r a tido como a suprema verdade. Quando, ao longo
com as fábulas? U m a religião c r i a d a por u m h o m e m de genuíno do extenso período da evolução, as capacidades intelectuais se achassem
saber nunca deixava de ser u m a fábula -significativa, u m a tremenda suficientemente desenvolvidas, as dúvidas obrigatoriamente iriam apa-
metáfora, cujo derradeiro objetivo e r a o r i e n t a r o pensamento das recer e forçar a procura de u m conceito mais satisfatório. Isto pro-
massas no sentido de ideias mais elevadas e ideais m a i s nobres, e cujo v o c a r i a eventualmente a penetração na superfície do símbolo e a apro-
objetivo imediato e r a inculcar, através do apelo à fé e à esperança, ximação do verdadeiro significado. Tentar-se-ia revelar Deus t a l qual
u m certo grau de responsabilidade m o r a l n a s v i d a s i n d i v i d u a i s de E l e realmente é e não como se supõe que seja. 0 instinto primitivo
cada u m . de adoração e r a , destarte, u m instinto salutar, mas a forma segundo

52 5S
a qual os homens se submetiam a esse instinto t i n h a necessariamente
que v a r i a r em função dos diferentes graus de c u l t u r a . tão-somente de u m a tentativa incipiente para compreender a vida e
que encerra atrativos p a r a os que estão no primeiro estágio da evo-
Dai podermos concluir acertadamente que o grosso d a humanidade
lução mental. Virá decerto o tempo em que dúvidas acerca da ver-
precisa sempre de u m a religião condigna funcionando como u m vis-
dade e do valor da religião assaltarão a mente dos mais reflexivos, que
lumbre inicial da filosofia, mas que os símbolos sagrados e os emble-
poderão repudiar tanto a salvação oferecida pela religião quanto o ani-
mas históricos, os dogmas pontificais e as doutrinas tradicionais, não
quilamento previsto pelo ateísmo ortodoxo, pois poderão achar a pri-
são eternos mas apenas conjeturais e passíveis de alterações ou me-
meira pretensiosa e o segundo terrível. Onde então procurar? A fi-
lhorias, sem prejuízo p a r a os reais objetivos da religião.
losofia oculta situa-se v i a de regra além da capacidade e do âmbito
T a i s são a natureza, os valores, as operações e os serviços de u m a desses indivíduos, ao demais de ser dificílima de encontrar. E homem
religião condigna. Mas é comum ouvir-se de racionalistas zombeteiros algum é capaz de saltar o alto obstáculo que separa a religião simples
reiteradas referências a selvagens aterrorizados que g r a v a m n a madei- da filosofia sutil. O feito supera as suas capacidades. A vida é cres-
r a grotescos fetiches p a r a representar o seu D e u s ; a povos primitivos cimento e não u m salto. É preciso encontrar u m estágio intermediá-
que personificam a s . forças impessoais da Natureza como Espíritos rio e m a i s acessível. É o que se pode conseguir no misticismo, que
diante dos quais se devem efetuar sacrifícios rituais; e a ritos sagrados se constitui no segundo passo da escalada ascensional.
que são indisfarçáveis adorações fálicas. A ideia cética de que toda
fé originou-se nos vagos temores de fantasmagóricos avoengos ou ainda O Que é a Meditação. 0 misticismo é u m fenómeno surgido em
nas superstições animistas do desorientado homem p r i m i t i v o é contra- todas as partes do mundo e entre todas as comunidades religiosas.
ditada pela pieguice da crença que u m Deus antropomórfico enviou Não há lugar aqui para abordar a sua origem histórica; numerosas
u m emissário especial munido de u m l i v r o sacro a u m grupo de pri- penas competentes já se reportaram às suas fontes. Desprezando as
vilegiados arbitrariamente escolhidos, transformando-os n a S u a raça aparências externas decorrentes da ignorância dogmática, das dife-
eleita. Ambas as explicações são demasiado tendenciosas p a r a perce- renças geográficas, da ambiência religiosa e das perspectivas raciais
ber corretamente a razão pela qual surgem as religiões b e m como o poder-se-á dizer que o misticismo do Ocidente pode ser equiparado
lugar n a sociedade que elas devem ocupar. com a ioga asiática de grau médio em suas duas ramificações: a
Cada religião fornece u m caso diferente p a r a estudo. Se u m a ioga da Devoção e a ioga do Controle. Pede-se, por isso, ao leitor
1 2

apareceu em razão do desejo de u m tipo ambicioso, agressivo e sem ter em mente que a palavra misticismo, tanto ao longo destas páginas
escrúpulos de influenciar mentes mais fracas do que a s u a , outra quanto no restante d a obra, abrange ambas as iogas e que a palavra
apareceu e m razão da crença honesta, porém errónea, de u m h o m e m místico i n c l u i também o iogue. A conveniência literária desta prática
bem intencionado e altamente imaginoso de que se j u l g a v a o veículo supera e m muito o cuidado de assinalar neste exame sucinto as mí-
da santa missão de saívar a humanidade. Se u m a fé constituía u m a nimas diferenças existentes. Ademais, a palavra ioga tornou-se tão
tentativa p a r a aplacar poderosas forças naturais, a o u t r a constituía ambígua n a sua terra de nascença como o é a palavra misticismo n a
n a realidade u m esforço por parte de u m homem profundamente be- E u r o p a e n a América.
névolo no sentido de elevar seus companheiros eticamente menos dis- Podemos considerar o misticismo — com sua tentativa de pene-
ciplinados, inculcando-lhes conceitos mais elevados acerca do b e m e t r a r sob a superfície comum da religião e sua busca das satisfações
do m a l e impondo-lhes restrições sociais por meio de u m código fixo. íntimas em lugar das decorrentes dos ritos externos — como uma
Reconhece-se com tristeza que até mesmo u m a religião valiosa fase inevitável no desenvolvimento da mente humana, quando esta se
pode degenerar com o correr do tempo e infelicitar a humanidade; desilude c o m a estreiteza da fé ortodoxa. Essa modificação processa-
toda a história testemunha que crentes sinceros e honestos se têm -se de forma lenta (às vezes, porém, repentina) a partir da adoração
perseguido e se matado mutuamente; igualmente verdadeiro é o fato teísta comum. Pode ela ocorrer de três maneiras. No primeiro caso
de que charlatães e embusteiros têm-se utilizado d a religião p a r a a o pesquisador se desencanta dos resultados da religião ou se desgosta
satisfação de motivos pessoais e apetites egoístas; não se pode também da antiga hipocrisia praticada em nome desta, ou ainda se aborrece
negar que o progresso do mundo tem sido repetidas vezes entravado com as contradições e os conflitos teológicos, quando não se decep-
por religiosos ignorantes e fanáticos. Pecados colossais m a c u l a m as ciona c o m a aparente impotência de Deus para socorrer este nosso
páginas d a história religiosa. N u m a análise cabal do assunto essas convulsionado planeta. Os símbolos outrora glorificandos perdem o seu
apreciações têm de ser objeto de u m a crítica franca porém construtiva
à luz da filosofia. Aqui se deseja apenas salientar a posição ocupada
pela religião relativamente ao ensinamento oculto n a Índia. Trata-se 1
Bhakti-ioga.
2
Raja-ioga.
encanto histórico e deixam de ser sacrossantos; o indivíduo experimen- excessivo materialismo, suas atividades desregradas e sua cega pro-
ta u m período de f r i a dúvida e sombrio agnosticismo, t a l v e z m e s m o de c u r a dos prazeres físicos no altar do próprio coração.
ateísmo militante, durante o q u a l perde as suas a m a r r a s . Seguir-se-á, A t e r c e i r a maneira pela qual a modificação poderá se processar é
contudo, desde que ele insista n a busca, a interessante descoberta de através do variegado recurso da receptividade à beleza, seja esta criada
que u m a diminuta minojria verificou s e r possível abraçar u m a visão pelo homem — como a boa música —- seja natural — como as verdes
mais ampla da religião —• visão que permite p e r m a n e c e r apartado da campinas. Do ponto de vista prático as formas físicas em que a be-
ortodoxia insatisfatória e suas organizações sacerdotais e aproximar-se leza é encontrada possuem o seu valor intrínseco, mas de u m ponto
mais da atmosfera original de u m a religião. O pesquisador ficará de v i s t a m a i s elevado o desfrutar dessa beleza é uma atividade que
tão interessado no estudo da l i t e r a t u r a dessa visão a m p l a como o existe não apenas e m s i mesma, mas também como u m meio para
estava antes em ater-se à visão m a i s r e s t r i t a . A seguir ele aprenderá u m f i m m a i s alto. 0 homem que gosta de entregar-se às impressões
que existe u m método prático — a contemplação mística — através recebidas através de canais como as Belas Artes e a Natureza irá
do qual poderá provar por s i mesmo a beleza e a paz de u m espírito u m d i a experimentar espontaneamente a sensação de encontrar-se per-
divino sempre presente no q u a l e m outros tempos lhe foi dado crer, dido e m s i mesmo, ao escutar maravilhosos acordes musicais, ou con-
mas o qual não lhe foi dado conhecer. T u d o o que lhe pedem aque- templar o soberbo panorama de picos nevados alçando-se até o céu,
les que atestam t a l experiência é que faça uso dos exercícios básicos. ou deixar-se penetrar pelo encanto dos sublimes crepúsculos que vêm
Nesta nossa e r a sequiosa de resultados positivos a s promessas desse com o fecho do dia. E s s a suave sensação borbulha docemente como
tipo encerram não poucos atrativos. u m riacho, v i n d a não se sabe de onde, e carrega consigo os pensa-
mentos interiorizados do homem. Toda a oposição e resistência se
Poderá também a modificação v i r s e m a ocorrência de u m a fase desvanecem. A sensação poderá transformar-se imperceptivelmente
inicial de descrença e através da intensidade, ardor e sinceridade da n u m êxtase inesquecível. A mente do homem ter-se-á libertado dos
aspiração religiosa do pesquisador, conduzindo-o gradualmente d a re- grilhões do tempo, por assim dizer. U m a quietação suprema se apossa
petição formal e da petição materialística d a oração verbalizada con- do seu coração e toma conta das suas emoções. É difícil descrever
vencional p a r a a espontânea e silenciosa aspiração que amadurece de com propriedade t a l estado. Nietzsche sentiu-o por instantes em sua
forma suave e natural, provocando u m a concentração i n t e r i o r i z a d a e moradia n a montanha e escreveu: — Os maiores acontecimentos —
uma aquietação total d a mente. A s orações d e i x a m de s e r então me- esses não são as nossas horas de maior barulho; pelo contrário são
ros pedidos de cunho pessoal p a r a transformarem-se e m auto-sacrifí- as de maior tranquilidade. O mundo não gira em torno do desco-
cios. O devoto religioso que encontra satisfação n a oração c o m u m t e m b r i d o r de novos ruídos, m a s e m torno do descobridor de novos valo-
necessariamente de v i s i t a r alguma igreja o u templo a f i m de louvar res; s e m se fazer o u v i r ele gira.
sua Divindade ou conseguir-lhe os favores, o u a i n d a b u s c a r consolo
j u n t o a u m a das figuras sagradas entronizadas no i n t e r i o r do local A referência do autor alemão à mudança de valores indica a nova
santificado, ao passo que o devoto que encontra satisfação n a prática visão d a v i d a induzida pela intensa quietude do pensamento, visão que
da meditação não tem necessidade de fazer t a l coisa. Basta-lhe reco- faz parecer efémera, fugaz e irreal a existência material, mas — infe-
lher-se dentro de s i mesmo e v e r i f i c a r que o seu próprio coração já l i z m e n t e ! — trata-se apenas de u m breve lampejo. Não obstante,
é u m local sagrado habitado pela Divindade. A i m a g e m m a t e r i a l an- esse refinado sentimento revelou possibilidades mais elevadas. E m
teriormente adorada no templo é substituída pela i m a g e m m e n t a l ado- seguida a s u a aparição o homem viverá na recordação da sua vinda
rada agora no interior da mente. E m lugar d a pedra coloca o devoto até aprender que através da disciplina mística u m gozo puramente
o seu próprio coração, e m lugar d a e s c r i t u r a o s e u próprio espírito e estético poderá ser revivido sem ajuda externa e intermitentemente
em lugar do padre o seu próprio pensamento. A meditação é, por- repetido. P o r essa forma, principiará o homem a compreender a sub-
tanto, superior à oração no sentido de que o h o m e m capaz de p r a t i - jetividade básica do sentimento em tela, dado que a contemplação
cá-la possui obrigatoriamente u m a capacidade m e n t a l m a i s elevada, p u r a é capaz de evocar, como n u m passe de mágica, toda a gama de
pois não depende de coisas ou de lugares m a t e r i a i s . E l e poderá l e v a r tais variações, desde os mais ténues prazeres até o mais profundo
consigo seu objeto o u local de concentração, n a f o r m a de i m a g e m ou êxtase. T a i s efeitos não são em absoluto u m a característica exclusiva
conceito mental, onde quer que vá. A oração falada não é senão u m a nem do puramente místico nem do puramente estético, mas perten-
alegoria e no sacro silêncio da contemplação humilde surge u m a prece c e m a ambos. E s t a s declarações aplicam-se também ao homem que
sem palavras que dispensa por completo a fala a r t i c u l a d a . Os resul- produz formas artísticas, bem como àquele que delas desfruta. A
tados éticos de u m a verdadeira consecução são também importantes. disposição c r i a t i v a faz o homem viver impressões, ritmos, devaneios,
O homem deixa de sacrificar suas ovelhas e seu gado nos altares s a - silêncios, quietudes, êxtases e outros aprofundamentos emocionais aná-
cerdotais e começa a sacrificar u m a parte m a i o r ou menor do seu logos do ser.

c/U
O princípio básico de todo o exercício místico é a abstração m e n t a l ,
que pode ser i l u s t r a d a de duas m a n e i r a s . Q u e m e s t i v e r perdido a g i c a de p e n e t r a r no mundo do invisível. O êxito revela-se por etapas
seguir atentamente u m veio de pensamentos o u totalmente entregue quando aquele que medita é capaz de deixar de lado todo e qualquer
às fantasias do devaneio, tornar-se-á m e n o s consciente d a s condições esforço, e quando o ritmo do raciocínio se retarda até imobilizar-se
físicas e poderá mesmo não se aperceber delas. A s s i m , a a l e i j a d o chega e ele m e r g u l h a imperceptivelmente n u m estado de intensa absorção
quase a esquecer a s u a deformidade, o pedestre n e m chega a n o t a r as interior, s e m deixar-se d i s t r a i r ou perturbar pelo espetáculo da vida.
O místico evoluído não precisa fazer qualquer esforço consciente para
multidões que por ele p a s s a m n a calçada, o e s c r i t o r s e q u e r t o m a co-
r e p e l i r os pensamentos importunos, pois a firmeza das suas intenções
nhecimento do seu ambiente caseiro, e a s s i m p o r diante. E s t e s exem-
conserva à distância tais pensamentos. Ignorando com regularidade
plos demonstram que a consciência pode libertar-se t e m p o r a r i a m e n t e
o m u n d o externo e os seus assuntos e interiorizando os pensamentos
da presunção h a b i t u a l de estar r e s t r i t a aos l i m i t e s i m e d i a t o s do cé-
c o m aguçada atenção, ele poderá entrar n u m a condição de paz mental
rebro e do corpo físico. Trata-se de indícios das a m p l a s possibilidades
e conseguir u m a quietude emocional profundamente satisfatória. Por
da mente quando l i b e r a d a d a s u a d o m i n a d o r a gravitação u n i v e r s a l
vezes os sentidos físicos poderão até entrar n u m coma temporária O
e m torno dos sentidos físicos, gravitação que a impede de t o m a r cons-
t r a n s e extático, e m diferentes graus de profundidade poderá também
ciência d a s u a própria natureza não-material e que i n c o n s c i e n t e m e n t e
s o b r e v i r . A m b o s os estados são de hábitos inócuos, embora por vezes
converte a existência física n u m a prisão perpétua.
pareçam assustadores p a r a aqueles que não estão familiarizados
Como segunda ilustração poderemos i m a g i n a r a superfície de u m c o m eles.
lago agitada por ondas frequentes e repetidas t o r m e n t a s c o m o sendo
Há certos acompanhantes fugazes e subjetivos da experiência mís-
a condição n o r m a l de inquietação e m que se e n c o n t r a a m e n t e do
tica. O devoto religioso talvez tenha visões de luz ou do querido
homem médio. A s ondas desse lago poderão i m p e l i r u m b a r c o des- Guia Espiritual ( v i v o o u m o r t o ) cujo auxílio invocou durante a tenta-
governado ( v a l e dizer, s e m leme n e m r e m o s ) p a r a cá e p a r a lá, s e m tiva. Outros praticantes poderão imaginar-se a flutuar fora do seu
levar e m conta o bem-estar do barqueiro, de m a n e i r a que a mente corpo o u a conversar c o m espíritos ou a receber ordens de algum ser
deste último permanecerá sempre preocupada c o m a s u a sorte. A n a - angelical. Conquanto os fenómenos mentais difiram bastante entre si,
logamente, os nossos pensamentos i m p e l e m de contínuo a n o s s a aten- e x i s t e m determinados fatores comuns às experiências místicas mais
ção p a r a cá e p a r a lá n u m a reação m e r a m e n t e mecânica à existência adiantadas, tais c o m o : ( a ) sentimentos de sereno gozo ou abençoada
física e sem levar e m conta o verdadeiro bem-estar e t r a n q u i l i d a d e c a l m a ; ( b ) sensações de distanciamento da ambiência física; e, em
da mente, que é a única alma c u j a existência é conhecida do h o m e m . intervalos m a i s raros ( c ) exaltação extática acima da existência física
Os métodos empregados pelos iogues e místicos v a r i a m grande- e pessoal. S u r g e m estas depois que as lutas voluntárias contra as
mente, m a s consistem, v i a de regra, e m seguir u m d e t e r m i n a d o s i s t e m a ondas dos pensamentos houverem logrado algum êxito.
de rígido ascetismo pessoal ou renúncia m u n d a n a , ao l a d o das tenta- O místico v i a de regra colhe satisfações extremas nessas experiên-
tivas de c r i a r u m a disposição contemplativa, d i s c i p l i n a n d o durante cias e, ao atingir o estado extático, considera sua busca em fase ter-
períodos de tempo estabelecidos a confusa m a s s a de pensamentos e m i n a l , por h a v e r entrado em união com Deus ou encontrado a sua
impressões que constitui a existência íntima do h o m e m . T a l dispo- a l m a i m o r t a l . O sutil refinamento desse estado só pode ser avaliado
sição surge quando tudo aquilo que é i r r e l e v a n t e é afastado d a mente por aqueles que lhe deram realidade dentro do seu próprio ser. Não
e apenas a l i n h a de concentração escolhida persiste. A c h a v e do s u - obstante, a seiva v i t a l que alimenta a árvore do misticismo é extraída
cesso encerra dois aspectos: u m a exercitação constante e u m a a j u d a das suas raízes tão apenas e m sentimento.
proficiente. E s s e esforço deve s e r d i a r i a m e n t e repetido e a vontade
deve ser treinada ho sentido de controlar os ímpetos de fuga d a Os benefícios essenciais da prática bem sucedida da ioga indis-
mente, b e m como a inquietação das ideias. I s t o não é fácil de con- cutivelmente existem, digam os críticos o que quiserem nas suas apre-
seguir e numerosos novatos sentem-se desencorajados, pois a o n d a dos ciações a c e r c a das eventuais visões e intuições religiosas surgidas no
pensamentos flui e reflui de m a n e i r a desordenada. A faculdade da decorrer dessa prática. Dir-se-ia que a maldição de Babel caiu sobre
atenção deve ser dominada e drenada do exterior de m a n e i r a a que os homens tão logo estes começaram a raciocinar. Suas mentes en-
se estabeleça u m estado de total abstração. A seguir a atenção será contram-se agora n u m tal estado de inquietação que o poder de acal-
mantida imóvel como u m a cobra prestes a d a r o bote. E s t e esforço má-las devidamente já não existe. Quando o cérebro se cansa dos
poderá ser ligado n a imaginação com a ideia p u r a m e n t e religiosa de seus intermináveis pensamentos e o coração se enfada dos seus instá-
encontrar a presença de Deus, ou ligado c o m a ideia p u r a m e n t e psico- veis humores, quando o mundo se f a r t a de ambos e os nervos ficam
lógica de encontrar o e u r e a l , ou mesmo c o m a ideia p u r a m e n t e má- abalados, a nossa grande necessidade de repouso mental e paa íntima
se m a n i f e s t a e pode ser em parte satisfeita por meio do hábito da

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meditação tranquila. U m certo sistema de desenvolvimento d a me- Uma Súmula do Misticismo. E s t e é o segundo grau n a ascensão
mória granjeou u m a legião de adeptos e m todo o m u n d o n o s anos do h o m e m r u m o d a verdade. O misticismo poderia ser enigmatica-
subsequentes à guerra de 1914-1918. Hoje, u m a legião de pessoas asso- mente descrito como u m modo de v i d a que pretende, sem mais loas
berbadas de problemas acolheria de b o m grado u m s i s t e m a que as ao Senhor, aproximar-nos m a i s Dele do que qualquer u m dos métodos
ajudasse a esquecer! 0 Conde K e y s e r l i n g arriscou-se a predizer que religiosos h a b i t u a i s ; como u m a visão da vida que refuta o Deus de-
o próprio materialismo d a civilização ocidental acabará p o r a c a r r e t a r , masiadamente h u m a n o construído pelo homem segundo a sua própria
no mínimo, a reação do misticismo, e poucos observadores abalizados imagem, substituindo-o por u m a divindade amorfa e infinita; e como
discordarão dele. u m a técnica psicológica que procura estabelecer u m a comunicação
d i r e t a c o m esses espíritos, através do canal da contemplação interior.
Nós nos encontramos apresados como ratos n a r a t o e i r a giratória
deste mundo. Galgamos os degraus do engenho rotativo n a ilusão de Certos princípios coletivos do misticismo não se limitam a nenhu-
u m a atividade incessante. Os mais sensatos suspendem de quando e m m a fé, n e n h u m país ou povo e m particular, e são mais ou menos uni-
quando os seus esforços, descansam interiormente e p o u p a m o fôlego. v e r s a i s . E s s a s posições cardeais do pensamento místico são em nú-
E l e s chegam mais longe do que nós, pois, ao menos, conseguem u m a m e r o de cinco e poderão ser sucintamente a p o s t a s como segue.
certa dose de paz, ao passo que nós...?
Os místicos asseguram inicialmente que Deus não deve ser loca-
A disciplina da quietação m e n t a l foi descoberta há m i l h a r e s de lizado e m n e n h u m lugar, igreja ou templo em especial, mas que o
anos e continua, não obstante, igualmente válida n e s t a n o s s a e r a de S e u espírito é onipresente n a Natureza e que a Natureza está nele
maravilhas mecânicas e de ruas cheias de automóveis. E l a continua e m toda a parte. A ideia ortodoxa de que Deus é u m a Pessoa deter-
a mostrar ao homem como deixar que a faculdade d a atenção tra- m i n a d a entre numerosas outras, com a diferença de que é muito mais
balhe a seu favor e não contra ele. poderoso, s e m deixar de apresentar gostos e aversões, ódios e ciúmes
e m profusão é rejeitada por infantil. O panteísmo é, portanto, a
E s t a s vantagens psicológicas nada têm a v e r c o m o lado religioso p r i m e i r a nota a ser tocada. O pensamento acertado santifica ou pro-
da meditação, embora a maioria dos místicos tenda a negar t a l afir- f a n i z a u m lugar, e a verdadeira santidade existe apenas no interior
mação. E nem poderiam eles agir de o u t r a f o r m a , já que o seu en- d a mente. A seguir, como corolário do primeiro princípio, asseguram
foque é preconcebido, tendencioso e anticientífico. Contudo, o i n - os místicos que Deus está presente no coração de todos os homens
vestigador i m p a r c i a l descobrirá por s i só que a meditação pode ser d a m e s m a f o r m a pela q u a l o S o l está presente em todos os seus in-
praticada até mesmo por u m ateu, que dirá u m agnóstico, produzindo contáveis raios. O homem não é apenas u m simples corpo físico, como
sempre os mesmos benefícios! a c r e d i t a m os materialistas, nem u m corpo acrescido de u m a alma que
Sem dúvida a introdução de u m a técnica de meditação b e m pla- o abandona após a morte, como acreditam os religiosos, mas aqui vive,
nificada, simplificada, não-religiosa e impecável como a u x i l i a r p a r a divino, n a s u a própria carne. O reino do céu tem de ser encontrado
u m a v i d a correta demonstrar-se-ia altamente vantajosa p a r a o m u n d o enquanto vivemos, sob pena de ficar perdido para sempre. Não se
t r a t a de u m prémio que talvez nos venha a ser conferido no nebuloso
moderno, e em particular p a r a o moderno mundo ocidental. T a l sis-
t r i b u n a l d a morte. A consequência prática desta doutrina acha-se
tema teria de ser absolutamente r a c i o n a l e escoimado de todas as
corporificada no terceiro princípio dos místicos, que assegura ser per-
absurdas superstições que de hábito i m p r e g n a m a ioga n a Índia.
feitamente possível a todos os homens que se submetam à inicial da
A grande necessidade da s u a adoção torna-se m a i o r a c a d a ano que
d i s c i p l i n a ascética entrar em comunhão direta, através da contempla-
passa. Nas tensões e nas febricitantes batalhas do viVer europeu e
ção e d a meditação, com o E s p i r i t o de Deus, sem a intervenção de
americano, a meditação, como método p a r a desenvolver a capacidade
qualquer padre o u prelado e sem a articulação formal de qualquer
de manter à distância os pensamentos perturbadores, assegurar u m
prece v e r b a l . I s t o torna totalmente desnecessário erguer as mãos
melhor equilíbrio emocional, a c a l m a r temores obsessivos e p r o p i c i a r
súplices e m prece a qualquer S e r superior. Assim, a aspiração silen-
u m a agradável paz interior deveria constituir-se n u m a necessidade
ciosa substitui a recitação mecânica. O quarto principio é tão pouc
imperiosa. A s u a adoção como componente do v i v e r cotidiano merece simpático à religião oficial como o terceiro, pois declara que as est
ampla reivindicação. Os exercícios poderiam e deveriam s e r iniciados n a s , as passagens, os incidentes e os ditados que constituem u m a es-
n u m a idade .conveniente como parte do currículo escolar nos ginásios c r i t u r a sagrada não passam de u m a mistura de alegorias imaginária
e colégios, a f i m de disciplinar a mente dos estudantes e concentrar e acontecimentos reais, umà preparação literária através da qual as
os seus pensamentos. Mas os estúpidos preconceitos dos pais, a ati- verdades místicas são sagazmente transmitidas n a forma de mitos sim-
tude desconfiada dos clérigos e a completa ignorância dos próprios bólicos, personificações lendárias e fatos históricos verdadeiros. De-
alunos erguem altas barreiras à consumação desse importante projeto

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clara, outrossim, que o século vinte poderia m u i t o b e m escrever suas t a r d e os apóstolos, nos princípios do segundo grau, isto é a ioga e o
novas Bíblias, Coroes e Vedas, porque o Espírito S a n t o poderá tornar misticismo, isso se demonstra amplamente nos ditos e nas vidas dos
a baixar a qualquer momento. Os místicos asseguram, e m quinto primeiros adeptos, como, por exemplo, no transes místicos de João e
lugar, que as suas práticas levam e m última instância ao desenvolvi- nas sentenças místicas de Paulo.
mento de faculdades supranormais e poderes m e n t a i s extraordinários E s s a compreensão puramente mística da verdade eivou posterior-
ou mesmo poderes físicos estranhos, s e j a e m razão das dávidas divinas mente de falhas os ensinamentos dos apóstolos, bem como impregnou
seja em razão dos esforços d a própria pessoa. de incompreensões o seu entendimento da real natureza da personali-
Claro está que quando o êxtase místico é forte, logicamente o dade de Jesus, erros e falhas de que os ulteriores filósofos gnósticos
homem será levado a contemplar-se como u m portador d a divindade se aperceberam até certo ponto e que buscaram corrigir. Se, porém,
e, em casos extremos, como a própria D i v i n d a d e . A s s i m é que u m a história e o mistério de Jesus intrigaram a sua própria gente, não
famoso Sufi muçulmano exclamou perante u m a a s s o m b r a d a plateia é s u r p r e s a que v e n h a m intrigando o restante do mundo desde então.
em Bagdá, há coisa de m i l a n o s : — E u s o u D e u s ! U m exame atento do Novo Testamento mostrará que embora a
Infelizmente, o Califa pensava de o u t r a f o r m a e p u n i u aquela i m - m a i o r i a das suas partes possa ser devidamente caracterizada como do
piedade com torturas romanas, acabando por m a n d a r a t i r a r o corpo p r i m e i r o grau, vale dizer, matéria estritamente religiosa, existe por
do místico às águas do Tigre. F o i este o destino do festejado H a l l a j . igual u m a v e i a de misticismo do segundo grau correndo por todas as
O efeito ampliador do m i s t i c i s m o sobre as perspectivas religiosas páginas. P o r exemplo, a f r a s e : — O Reino do Céu está em vós —
de u m homem.é u m incentivo à tolerância e, por isso, u m notável não t e m qualquer ligação com a religião oficial e se refere inteiramente
cabedal neste nosso mundo intolerante. Considerar, p o r exemplo, a às experiências iogues e místicas. A explicação para a existência
Bíblia como a única base autêntica da verdade religiosa, ignorando dessa m e s c l a de conceitos encerra dois aspectos. E m primeiro lugar,
por completo a possibilidade de que outras raças, a c h i n e s a e a h i n d u , a compilação dos registros n u m único volume não foi feita senão uns
entre outras, possam ter produzido e s c r i t u r a s merecedoras de i g u a l c e m anos após a d a t a presumível do passamento de Jesus. O obscuro
consideração, é ter u m a visão tacanha. E s s e f a n a t i s m o religioso que Concilio de Nicéia, ao reunir-se p a r a fazer a compilação, encontrou
L

impede o reconhecimento de qualquer o u t r a fé religiosa que não a u m a quantidade de evangelhos n a forma de u m a variada coleção de
sua não tem cabimento hoje e m d i a , quando o estudo d a religião com- livros religiosos destinados às massas e volumes místicos para uso de
parada pode provar à saciedade a existência de laços de parentesco uns poucos privilegiados. O elevado número de bispos que constituíam
entre as várias crenças do mundo. A elevação religiosa não é p r i v i - o concílio empenhou-se e m séria luta quanto à natureza de Cristo;
légio de qualquer indivíduo, movimento o u raça. O místico plenamente as escolhas, obviamente, foram feitas em obediência a opiniões e in-
desenvolvido compreende que o S o l de Deus aquece a todos p o r i g u a l , clinações p e s s o a i s . D a i a seleção irregular de evangelhos autênticos
8

e que todos têm a liberdade de adotar a crença que d e s e j a m , se é e a não j u s t i f i c a d a rejeição de determinados apócrifos. E m segundo
que pretendem adotar alguma. Aquilo que o indivíduo p r o c u r a ele / lugar, J e s u s se rebelara contra a rígida ortodoxia dos sacerdotes j u -
precisa encontrar por s i mesmo e e m s i mesmo através d a introversão deus, a m a i o r parte dos quais não apenas desconhecia o grau mais
meditativa. elevado, como também m o v i a f r a n c a perseguição às pessoas de in-
clinações místicas. S u a indignação Jesus a expressou nestas palavras:
O inspirador ou fundador de u m culto religioso que s e j a realmente — A i de vós! Vós próprios não entrastes, e impedistes aqueles que
evoluído saberá como escalonar os seus ouvintes e devotos, saberá q u e r i a m fazê-lo.
quando d a r à populaça e n t r a d a tão apenas p a r a o p r i m e i r o
grau, e quando d a r aos portadores de u m a m e n t a l i d a d e m a i s mística Ê evidente que as simpatias de Jesus pela massa ignara eram tão
entrada p a r a o segundo grau. Podemos t o m a r as p a l a v r a s de J e s u s co- grandes que ele chegou a abrir-lhe de certa forma as portas de u m
mo exemplo desse tipo de conhecimento, quando ele disse aos seus dis- ensinamento místico m a i s elevado, conquanto tão-somente os seus dis-
cípulos mais próximos: — A vós é dado conhecer os Mistérios do cípulos m a i s chegados tenham recebido u m a iniciação plena. Buda,
Reino do Céu, m a s não a e l e s . . . P o r isso e u lhes falo através de s e m dúvida alguma, e r a movido pelos mesmos sentimentos e abriu
metáforas; porque ouvindo, eles não e s c u t a m n e m compreendem. essas m e s m a s portas a i n d a mais do que Jesus.

A p a l a v r a Mistérios tem no original a significação de " o u t r o r a ocul-


tos m a s hoje revelados", ao passo que Moffat não hesitou e m classi- 8
A versão oficial de que os livros durante a noite te reagruparam
ficá-la como verdade secreta n a s u a tradução do Novo T e s t a m e n t o .
lamente a si próprios, resultando daí a classificação, pode t deve ser rejeitada
T a i s mistérios, porém, não têm relação c o m a filosofia. Que J e s u s pelo que é: uma tentativa infantil de impressionar os ignorantes.
iniciou alguns dos seus primeiros seguidores, e através destes m a i s
Não existiu praticamente n e n h u m povo antigo que não encarecesse mirável, embora não seja perfeito. Falta-lhe algo. 0 elemento em
os seus princípios místicos. Quando pesquisamos os seus registros f a l t a é precisamente igual àquele mesmo elemento de que carece a
mais secretos constatamos que quase todos p r o c l a m a m j u n t a m e n t e religião. U m apela diretamente p a r a a fé emocional; outro para a
com E p i c u r o : — Os Deuses e x i s t e m m a s não são a q u i l o q u e a gente experiência emocional. Nenhum deles apela para o critério da verdade
comum imagina. mais elevada. Ambos carecem de u m a base racional e chegam mesmo
Ideias semelhantes são adotadas hoje e m d i a n o s m a i s altos es- a vangloriar-se dessa carência. P a r a aquele que respira a atmosfera
calões de algumas religiões, m a s , de modo geral, pouco se f a l a a res- r a r e f e i t a d a verdade não é possível nenhuma charlatanice, nenhuma
peito. 0 Vaticano sabe como conservar os seus segredos históricos superstição, n e n h u m a exploração. E l e j a m a i s se enganará a s i mes-
e preservar o seu acervo de raríssimos m a n u s c r i t o s e l i v r o s místicos. m o e tampouco enganará os outros. A s variações e contradições da
Houve quem não, se surpreendesse c o m a recente confissão de u m experiência mística estão a i n d i c a r que, necessariamente, a verdade
antigo Deão d a Catedral de S . Paulo, e m L o n d r e s , q u a n d o este declarou derradeira deve situar-se além dos domínios do misticismo. Pois tem
de público: — Quanto a r e f u t a r dogmas já obsoletos, trata-se de u m que h a v e r u m a verdade única a respeito da vida, não duas o u m a i s .
assunto difícil. Não temos o direito de ofender os pequeninos que Os fracassos éticos dos místicos e dos ocultistas devem ser atribuídos
crêem... É perfeitamente inútil t e n t a r e l a b o r a r u m c r e d o q u e satis- à s u a incapacidade de descobrir e compreender essa verdade suprema»
faça a u m só tempo o letrado e a s u a c r i a d a . b e m como à s u a dependência a u m a fonte instável e incerta de ins-
piração, vale dizer, o sentimento, que é reconhecidamente volúvel por
m a i s que possa ser temporariamente exaltado e m função da contem-
O Misticismo não Basta. Mas a lei da v i d a é o movimento. O
plação. A s dificuldades intelectuais dos místicos e dos ocultistas são
homem não pode permanecer imóvel como u m sapo h i b e r n a d o e m
o resultado lógico do seu desdém pela lógica e d a s u a íntima oposição
prolongado transe. E l e tem de emergir dessa condição m a i s cedo o u
aos processos racionais comprovados e m favor de métodos intuitivos
mais tarde. T e m de ligar-se aos seus c a m a r a d a s místicos, o u à s u a
dos mais discutíveis. Claro que aquele que busca o mais alto tem
família ou ao grande mundo. O u então terá de desincumbir-se de
de resolver-se u m d i a a i r a i n d a além do misticismo, por útil que este
u m a o u o u t r a necessidade fisiológica. A d e m a i s , cedo o u t a r d e terá de
tetaha sido n a s u a progressão.
confrontar as várias limitações do m i s t i c i s m o e^ os defeitos caracterís-
ticos dos místicos. Alguns desses defeitos são graves e relevantes. A incapacidade de obter respostas satisfatórias e convincentes para
O pesquisador que n u n c a se deparou c o m eles, o u que, tendo se de- as perguntas que a plenitude d a experiência e o amor do conhecimento
parado, j a m a i s teve a coragem de encará-los devidamente, não poderá irão eventualmente suscitar deve conduzir o místico reflexivo que não
nunca elevar-se a c i m a do segundo grau, m a s colocajrá p r e m a t u r a m e n t e se acomodou a u m a situação de passividade e autolouvação a u m
u m ponto final n a s u a b u s c a e permanecerá p a r a sempre u m estudante e r m o bravio, onde durante algum tempo ele errará aturdido, da mes-
sem diploma, presunçoso e oco. Como o presente capítulo t r a t a ape- m a f o r m a pela q u a l terá decerto u m d i a penetrado no ermo da dú-
nas do valor prático do misticismo e não do filosófico, t o d a e qualquer v i d a , do desespero e do ceticismo, ao emergir das autocontradições
consideração acerca deste último ficará p a r a u m capítulo posterior. d a religião dogmática. O processo d a passagem de u m a submissão
total ao sentimento místico p a r a u m a percuciente autocrítica racional
Assim, o pesquisador chegará u m d i a ao m u r o que d e l i m i t a o
não é fácil n e m rápido p a r a u m homem que durante muitos anos
âmbito do misticismo. E l e verá que, conquanto benéfico, o m i s t i -
esteve entregue à p r i m e i r a . S u a consumação demandará algum
cismo não t e m condições p a r a fazer todo o b e m que a l a r d e i a . Verá,
tempo e o princípio d a gradação funcionará c o m certeza. Embora
ainda, que o valor social do m i s t i c i s m o histórico é tão pequeno como
ele não o saiba, o próprio descontentamento que lhe assaltou a mente
é grande o seu v a l o r i n d i v i d u a l , e que, p o r essa razão, não pode o
é u m precursor d a s u a proximidade da invisível fronteira de u m a
misticismo constituir-se n u m a solução completa p a r a o p r o b l e m a d a
região m a i s elevada do pensamento. Contudo, essa fronteira perma-
existência h u m a n a , n e m pode funcionar como u m a p a n a c e i a p a r a os
necerá fechada a menos que ele prossiga n a s u a solitária jornada e
males da hun^anidade sofredora. Afastar-se-á, desgostoso q u a n d o não
se recuse a ser obstado por hábitos antigos ou opiniões alheias. A
desiludido, da velada exploração d a ignorância, credulidade, recursos
coragem que dele s e exige agora não é menor do que a anteriormente
financeiros, moléstias, ansiedades o u desejos p r a t i c a d a p o r aqueles
requerida n a s u a memorável passagem da religião ou do agnosticismo
que professam ensinar a matéria ou que p r o c l a m a m a s u a autoridade
p a r a o m i s t i c i s m o . N a ocasião poucos estavam prontos a acompanhá-lo,
p a r a atuar como guias espirituais. Perguntar-se-á p o r que t a n t a char-
m a s agora serão infinitamente menos numerosos aqueles que lado a
latanice perniciosa e t a n t a superstição grosseira a n u v i a m os céus d a
lado c o m ele se disporão a invadir aquele ermo ululante. Mas se d e
história do misticismo. A conclusão f i n a l só poderá s e r a de que a
não perder de v i s t a a gravidade da s u a empreitada, não vacilará e m
própria possibilidade desses inconvenientes r e v e l a a s deficiências e
ceder às circunstâncias. Acabará por perceber, ainda que obscura-
as limitações do misticismo. E s t e , e m s e u aspecto meritório, é ad-

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mente, que a sua Compulsão íntima deve s e r respeitada a c i m a de todas
as coisas, pois carrega u m a inefável santidade que s u p e r a e m m u i t o
a santidade da fé religiosa o u d a intuição mística.
A posição elementar de todas as religiões e s i s t e m a s místicos tor-
na-se, portanto, c l a r a quando estes são coordenados segundo as con-
cepções mais amplas d a filosofia. Aquilo que de verdade contêm
não é senão a tradução simbólica de sutis princípios filosóficos. As
pias confecções de u m Deus h u m a n i z a d o p r o p i c i a m u m c a m p o fértil
p a r a as crendices populares; os tranquilos devaneios d a meditação
são como bênçãos p a r a as mentes m a i s evoluídas; m a s , p a r a ambas CAPÍTULO I V
as classesL a comida sofisticada de u m a elite m o r a l , emocional e inte-
lectual sabe inevitavelmente f r i a e insossa. A FILOSOFIA OCULTA DA ÍNDIA
Assim, o místico cujo l e m a é Excelsior! t e m de s o f r e r e l u t a r , mes-
mo e m meio aos frequentes, se b e m que i r r e g u l a r e s , interlúdios d a
paz contemplativa a que chegou. Chegará o m o m e n t o e m que ele
Os leitores que abordarem estes capítulos com .uma atitude cari
se encontrará postado diante d a própria f r o n t e i r a a c i m a r e f e r i d a . A l -
tativa não o estarão fazendo de caso pensado. £ de se temer que
guns passos m a i s e poderá transpô-la. Além f i c a u m a n o v a t e r r a , ex-
algumas das proposições os tenham assustado e outras, alarmado. Mas
tremamente misteriosa e quase virgem. Trata-se d a região do terceiro
os ensinamentos ainda por serem apresentados constituirão u m a sur-
grau, o império da suprema sabedoria aberto ao h o m e m . N o entanto,
presa p a r a quantos saborearam as narrativas do autor acerca de suas
este não chegará a saber o quanto está próximo desse império, a me-
aventuras iogues ou suas experiências místicas. Que esperem, porém,
nos que surja u m guia p a r a fazer-lhe a revelação e acompanhá-lo terri- com paciência, pois acabarão por constatar que todo o verdadeiro te-
tório adentro. T a l guia poderá s e r antigo e f a l a r ao h o m e m através souro da religião e do misticismo não estará perdido e que a sua pa-
das páginas manuscritas de u m velho texto o u das páginas impressas ciência será devidamente recompensada. Tudo aquilo que é admirável
de u m l i v r o . Poderá também estar v i v o e f a l a r ao h o m e m frente-a- n a religião e presta bons serviços à laboriosa humanidade será aqui
-frente. No p r i m e i r o caso será como u m a carroça capaz de carregá-lo respeitado; tuao aquilo que torna o misticismo u m beneficio para o
lentamente durante certo trecho do caminho, ao passo que no segundo indivíduo lutador terá os seus méritos devidamente reconhecidos.
o homem será levado mais longe e c o m m a i o r rapidez. M a s , u m a vez Nossa balança é j u s t a . Não obstante, impossível de enganar. E l a
iniciada a nova j o r n a d a e deixada p a r a trás a f r o n t e i r a , n u n c a m a i s não aceitará o espúrio de cambulhada com o genuíno, nem o fictício
será dado ao homem saber o que é o descanso complacente o u a i n - e m meio ao factual. Tampouco permitirá que o prejudicial suba aos
dolência egoísta. Pois o novo acólito do Absoluto t e m agora de l u t a r seus pratos à sombra do benéfico.
incessantemente, p r i m e i r o com os olhos fitos no s e u posicionamento
final, depois p e l a liberação dos outros, sob o comando autoritário de E m b o r a o apelo destas páginas se dirija apenas à compreensão
u m poder superior — A V E R D A D E 1 racional e não à fé sentimental e à credulidade, nem mesmo à imagi-
nação (sempre facilmente exdtável), a amplitude distintiva da ver-
dade é t a l que abrange todas as coisas. U m a unidade jamais sonha
u m a síntese sublime aproximando o Real, o Verdadeiro, o B o m e
Belo aguarda a todos no final. As intermináveis guerras doutrinárias
e os ódios bestiais entre os homens encontrarão aqui a sua derradei
sepultura.
A relação da filosofia com a religião foi aqui tratada e
relação com o misticismo fartamente sugerida. As inter-relações entre
as três coisas são tais que, se a religião for encarada como u m ves-
tíbulo p a r a o misticismo, este, por sua vez, ocupará a mesma posi
relativamente à filosofia. No entanto, torna-se necessário evidenci
com maior clareza a relação entre a filosofia oculta e aquilo que tanto
no Leste como no Oeste é amiúde erroneamente chamado de fi
Isto exige algumas considerações preliminares acerca do signi
genérico do termo.

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Nenhum a n i m a l torturado j a m a i s indagou do bondoso B u d a por
considerações acerca das causas e da marcha de toda a estrutura do
que existia o sofrimento u n i v e r s a l , n e m tampouco q u i s p e n e t r a r além
universo; ao mesmo tempo em que pode tomar os fatos e os itens da
das primeiras aparências, indagando que significado m a i s a m p l o es-
experiência e, através de u m a reflexão constante, relacioná-los racional-
taria por detrás do enigma d a v i d a . D e todas a s espécies v i v a s o ho-
mente, terminando por conjugá-los n u m modelo compreensível e siste-
m e m foi o único a fazê-lo.
mático de explicação. Ao procurarmos o significado de tudo isto somos
O macaco é o a n i m a l que m a i s se parece c o m o h o m e m , contudo obrigado a concluir que apenas ao homem foi dada a capacidade de
os conflitos éticos da religião, a apreciação estética d a a r t e e a s tor- interessar-se pela verdade acerca da sua própria vida, investigá-la, ana-
turantes indagações d a filosofia j a m a i s l h e p a s s a r a m pela cabeça. lisá-la e, possivelmente, compreendê-la, bem como a vida do universo.
Qual será então a mais acentuada diferença entre a mente h u m a n a Nenhum inseto, planta ou animal possui esse privilégio único de bus-
e a do macaco? À m a i o r i a dos a n i m a i s certamente p e n s a e guarda c a r a verdade e nela refletir. Vaishta, u m antigo sábio hindu, excla-
recordações, ao passo que numerosos dentre eles são, c o m certeza, mou : — Melhor é o sapo do brejo, melhor é o verme da terra, melhor
portadores de inteligência. Alguns, como o elefante d a Índia, possuem é a cega serpente das cavernas do que o homem sem investigação.
u m elevado grau de inteligência. Há, porém, algo que a n i m a l algum T a l investigação denomina-se filosofia.
pode fazer, e isso é u s a r s u a inteligência no abstrato. E l e é incapaz
Ninguém pense, porém, ser a filosofia algo que o homem pode
de arrazoar teoricamente o u fazer c o m que a reflexão t r a n s c e n d a os
adotar quando melhor lhe aprouver; pelo contrário, é a filosofia que
domínios d a s u a ambiência física. S u a s ações são i n v a r i a v e l m e n t e de-
adota o homem! O simples fato de ele ser u m ente humano e não
terminadas pelas condições concretas que o rodeiam.
u m a n i m a l torna-o obrigatoriamente u m filósofo, se bem que u m filó-
U m a outra atividade m e n t a l que escapa à inteligência do a n i m a l sofo inconsciente. Claro que t a l honraria ele não pediu, mas também
é a de pensar impessoalmente. Ao que se sabe, n e n h u m a n i m a l j a m a i s não há como fugir delai Os pensamentos iniciais e desconexos acerca
tentou estabelecer comunicação c o m outro a n i m a l vivendo n u m outro do meio ambiente que primeiro perpassaram a mente do selvagem
continente, pois não sente necessidade de preocupar-se c o m aqueles primitivo, os toscos retalhos de conhecimento de s i mesmo que ele
que não estão colocados n a s u a vizinhança i m e d i a t a o u que dificilmente coletou durante breves períodos de nebulosas reflexões, o deslumbra-
poderão v i r a entrar e m contato direto c o m ele. I m p l i c a isto e m que mento e a adoração que o raiar do S o l matutino sempre despertava
o animal é incapaz de transcender s u a própria i n d i v i d u a l i d a d e , a c a u s a nele — esses foram os começos de u m a vida mental que diferençava o
homem do animal e que caracterizaram os seus primeiros e incertos
sendo a s u a incapacidade de relacionar devidamente q u a l q u e r i t e m da
passos naquela busca da sabedoria para cujo derradeiro estágio d e
sua experiência c o m o universo. O a n i m a l é incapaz de colocar-se e m
u m d i a desperta e para a qual reserva o nome de filosofia. Sua ati-
separado do seu próprio corpo e contemplar c o m total isenção o cará-
tude torna-se então consciente e racional; atinge u m alto nível. Dali
ter, a natureza e a v i d a de u m outro a n i m a l que se m o v i m e n t a a c e m
e m diante os movimentos do homem jamais são lentos, imprecisos ou
metros de distância; menos a i n d a as estrelas no céu. P a r a todo ani-
canhestros, mas ao invés rápidos e diretos. Fazendo perguntas abs-
m a l a principal preocupação são as necessidades p r i m o r d i a i s do seu
tratas, investigando a fundo a existência universal, d e mostra até
corpo. N o seu universo, o eixo e m torno do q u a l tudo g r a v i t a , é, e
que ponto suplantou os brutos. Mas a busca é na realidade uma uni-
sempre será, ele próprio, e a s u a reação a todas as demais c r i a t u r a s
dade, conquanto possa ser dividida nesses dois estágios claramente
variará em função dos seus temores, desejos etc. A v i d a é u m fato definidos.
simples p a r a t a l c r i a t u r a , enquanto o intelecto do h o m e m está fadado
a c r i a r problemas com c u j a solução irá torturar-se m a i s tarde. Todos são, consequentemente, u m tanto filósofos, ainda que imper-
feitos e rudimentares. Já se explicou por que a religião é uma iniciação
O homem foi o único que julgou v a l e r a pena a g i t a r a s u a mente elementar a u m a forma subalterna de filosofia e daí todas as pes
e fazer todas essas coisas. Apenas ele é solicitado pelo u n i v e r s o a Religiosas enquadrarem-se também nessa categoria. A diferença é que"
colocar perguntas e procurar as respostas correspondentes, o que prova ela prefere as parábolas às explicações racionais. O homem de ne-
possuir faculdades mentais distintivas de que os a n i m a i s não dispõem. gócios demasiado ocupado para cansar a cabeça com essa coisa estéril
E a soma de tais faculdades n a d a m a i s é do que a capacidade de r a - e sem valor que ele considera a filosofia possui, contudo, u m ponto
ciocínio desenvolvida não apenas até u m g r a u m a i s elevado, como de vista próprio acerca da vida, acerca daquilo que ele é e acerca da
também até u m nível de abstração impessoal. O intelecto do h o m e m realidade da matéria. E l e talvez acredite destituída de significado a
pode alçar-se até u m a atividade puramente teórica; pode empenhar-se pantomima cósmica, talvez ache que o objetivo primordial da sua
em estudos assaz impessoais, como a astronomia, por exemplo, e esta- carnação seja exclusivamente económica E l e poderá encarar a cadeira
belecer os movimentos de planetas remotos; pode desdenhar as exi- sobre a qual se senta como portadora de uma materialidade tão óbvia
gências d a cerceante vizinhança m a t e r i a l e entregar-se a altaneiras que dispensa qualquer consideração. Pouco importa que tais pontos

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de vista sejam correios o u não, pois o simples fato de esposá-los de- Derradeiro. E s t a é a sua visão inicial e superficial do lugar da filo-
monstra que ele também, à m a n e i r a do metafísico académico que des- sofia. Mas, assim como numerosas outras visões iniciais, esta perma-
preza, possui u m a filosofia. Ademais, essa filosofia i n f l u e n c i a a s u a nece e m aberto a u m a possível revisão com o correr do tempo.
conduta e tem u m a vinculação prática c o m a s u a v i d a tanto quanto A objeção geral implica em que o mundo pode passar muito bem
a de qualquer outro homem. sem a filosofia. Não ocorre ao mundo que aqueles que resolvem para
Chegamos a s s i m à verdade pouco conhecida de que a s opiniões onde irão r u m a r antes de saltar para o lombo dos seus cavalos talvez
do homem c o m u m a c e r c a da completa i n u t i l i d a d e d a s cogitações filo- cheguem a u m destino melhor do que aqueles que se põem a cavalgar
sóficas e da futilidade das questões que p r e o c u p a m o s filósofos cons- a esmo. Ao que se sabe, o mundo continua batendo-se para escapar
tituem-se elas próprias em frutos da reflexão filosófica! A o elaborá-las às dificuldades insanas em que o meteu essa política muito prática
o homem emprega o mesmo método que o filósofo adota, se b e m que porém irrefletida. Suas aflições são u m melancólico atestado da au-
mais tosco. A esterilidade no tocante aos resultados práticos e a f a l t a sência da filosofia em seu seio.
de conclusões definitivas que ele r e c l a m a à filosofia devem-se e m parte A queixa específica de que é mais fácil para u m homem rico do
ao fato de que os filósofos são m u i t o m a i s cautelosos n a s u a aborda- que p a r a u m pobre entregar-se a estudos desse tipo, bem como é
gem, muito menos precipitados nos seus procedimentos e m u i t o m a i s m a i s fácil p a r a u m homem livre do que para u m escravo fazer o
clarividentes n a sua mentalidade p a r a se satisfazerem c o m a s conclusões mesmo, encerra decerto u m a verdade. Mas a leis das compensações
apressadas que tanto lhe agradam. Até m e s m o o estilo d a s u a argu- começa a operar aqui e torna mais fácil para o pobre do que para o
mentação constitui u m a conclusão t i r a d a pelo raciocínio lógico genera- rico praticar a filosofia! E s t a verdade tornar-se-á mais nítida poste-
lizado a p a r t i r de fatos dados — exatamente o m e s m o método usado riormente.
pela filosofia. P o r isso, s e u parecer contrário à filosofia torna-se nulo É também justificável afirmar que se necessita de uma certa quan-
face à forma pela qual foi obtido! Ademais, ele é obrigado a pensar tidade de tempo ocioso para dar prosseguimento a tais estudos, bem
n a vida, quer queira quer não, porque os fatos e circunstâncias m a i s como refletir nos seus aspectos, e que é indispensável uma certa reta-
banais da s u a v i d a pessoal r e c l a m a m u m a c e r t a dose de reflexão guarda de conhecimentos para a sua compreensão. No que tange a
(por pequena que seja) acerca d a s u a significação. A diferença entre este último aspecto, a biografia está repleta de exemplos em que
ele e o filósofo é que ele reflete de m a n e i r a c a s u a l e s u p e r f i c i a l , ao homens desprovidos de meios tornaram-se autodidatas ao invés de
passo que o filósofo reflete de m a n e i r a consciente e p r o f u n d a , não cederem à derrocada cultural, e — com relação ao problema do tempo
cessando de fazer perguntas enquanto tudo não l h e p a r e c e claro. — aqueles que se queixam da sua falta poderão encontrá-lo roubando
alguns momentos ao sono. Desta maneira conseguirão pelo menos uma
Queixa muito encontradiça é a de que filosofia não enche b a r r i g a .
hora por dia. Não se arriscarão a nenhum inconveniente, pois o tempo
Hoje e m d i a as pessoas d i z e m : — Ponhamos e m o r d e m a nossa c a s a
é pouco e sacrificado a u m a boa causa. Mas há outros que poderiam
económica, ou ponhamos e m ordem a nossa c a s a política, e depois
a r r a n j a r tempo com maior facilidade. São aqueles que têm dema-
haverá tempo p a r a filosofar.
siadas ocupações e deveriam suprimir algumas. Não é preciso que
Os antigos romanos diziam mais o u menos a m e s m a coisa n o seu negligenciem deveres essenciais nem cancelem relações já existentes
conhecido provérbio: — P r i m e i r o viver, depois filosofar. A i n d a essa com o fito de atender a este reclamo. Mas, quando houverem encon-
mesma queixa já e r a ouvida quando Nabucodonosor r e i n a v a sobre a trado u m a forma de encaixar o período de estudo, decerto encontrarão
cálida Babilónia e continuará a sê-lo quando todos os colossos arqui- a s u a recompensa. Assim sendo, a verdade final é que os esperançosos
tetônicos da Cidade de Nova Iorque não forem senão relíquias do e os ambiciosos agirão sempre enquanto os demais limitar-se-ão a gemer.
passado.
Se a nenhum de nós é dado não ser filósofo, por que há de parecer
Todo homem goza, p o r conseguinte, de total liberdade p a r a ignorar pueril a solicitação de que aprendamos a filosofar com correção, cons-
o estupendo problema que a v i d a silenciosamente coloca diante dele, ciência, sistematização e olhos abertos ao invés de fazê-lo com defeito,
e ninguém se dará ao trabalho de recriminá-lo p o r isso. A existência sonolência e cegueira? E m suma, sejamos verdadeiros filósofos e não
no século X X já é por s i suficientemente difícil, c o m a s u a carga de u m bando de tolos desarvorados I Nosso esforço no sentido de negar
tensões, fadigas e l u t a s ^ p a r a j u s t i f i c a r que u m h o m e m se preocupe a supremacia deste tipo de pensamento generalizado e direto, igno»
tão-somente c o m as suas necessidades m a i s i m e d i a t a s , deixando de lado randoo, será sempre vão. Não poderá ser nunca estúpido e inútil,
todas essas questões, deveras remotas na aparência, que a filosofia m a s s i m indispensável esse proceder que permitirá retirar toda a nossa
suscita. É o que geralmente acontece. O h o m e m relega o assunto a atividade de v i d a do nível da adivinhação elevandoa ao nível da cons- a

uns poucos ermitões académicos que não têm nada melhor a fazer ciência. A vida nos presenteia com u m currículo educacional próprio,
do que entregar-se a intricadas especulações a c e r c a de u m a b s t r a i o
expresso n a forma de experiências dolorosas o u agradáveis, m a s a
busca consciente d a verdade é u m i t e m q u e cabe a nós n o s i n s e r i r nele. Os nossos amigos cientistas também formam esse coro de quei-
xosos. E l e s fazem u m muxoxo de desdém ante os parcos resultados
Os pensamentos que são h a b i t u a i s l e v a m às s u a s consequências
dos três m i l anos de filosofia que o mundo já conheceu; com orgulho
na ação. A s perspectivas gerais do h o m e m c o m u m determinarão sem-
apontam p a r a a imensa enciclopédia de fatos comprovados e aceitos
pre o curso das suas ações, tanto quanto o farão a s d o filósofo. Mas,
que a ciência conseguiu reunir e m menos de trezentos anos. Contam
enquanto o homem c o m u m é v i a de r e g r a s a c u d i d o pelos ventos das
também a v e l h a piada sobre o filósofo cego que procura num quarto
circunstâncias, e, por isso, afligido p e l a i n c e r t e z a , o filósofo l e v a a
escuro u m gato preto que lá não está; piada que o século vinte atua-
vantagem de haver refletido longamente e t r a z i d o à l u z certos prin-
lizou, j u n t a n d o à t r a m a u m teólogo e esclarecendo que este acaba en-
cípios p a r a u m a conduta sã. U m h o m e m q u e j a m a i s f o r m u l o u per-
contrando o gato! Aquele que tem a ousadia de falar numa filosofia
guntas fundamentais, que j a m a i s elaborou p o r s i m e s m o u m a atitude
d a verdade será decerto u m néscio, desconhecedor da história da filo-
racional, ver-se-á p r e s a d a dúvida o u d a escuridão q u a n d o eclodir a
sofia e disposto a despertar em s i próprio e nos outros uma esperança
p r i m e i r a grande crise d a s u a v i d a . P o r outro lado, todas a s situações,
condenada a m o r r e r ingloriamente.
todas as eventualidades encontrarão s e m p r e p r e p a r a d o aquele que
domina a verdadeira filosofia. A f a l t a de princípios p r e d e t e r m i n a d o s E s s a s reclamações são justas. A história da exploração filosófica
leva o homem desprevenido a agir não apenas e m d e t r i m e n t o do seu é u m fascinante relato de inconcludentes incursões nos domínios da
próprio bem-estar como também do bem-estar alheio. E a i n d a a s s i m futilidade. T o d a a história demonstra que os filósofos não têm uma
p l a t a f o r m a de conhecimentos estabelecida sobre a qual se fixem har-
o homem do mundo não t e m paciência c o m os filósofos!
monicamente, e que eles continuam vivendo no reino das conjeturas,
As pessoas chegam mesmo a fugir ante a s i m p l e s menção d a pa- no que respeita a interpretação do significado do mundo.
l a v r a filosofia. Até mesmo P l u t a r c o dignou-se r e n d e r homenagem Aquilo que u m filósofo erigiu de maneira muito convincente, o filó-
tão-somente aos homens públicos, guerreiros e políticos e m s u a obra sofo seguinte demoliu enfaticamente; aquilo que no século dezoito se
Vidas Paralelas. A s s i m é que elogiou L i c u r g o e e s c a r n e c e u Platão por t i n h a como u m a grande descoberta foi sumariamente repudiado no
ser filósofo, p o i s : — enquanto o p r i m e i r o c o n s o l i d o u e d e i x o u atrás de dezenove; os sistemas mais caros a u m povo foram atirados à rua
s i u m a constituição, o outro não deixou senão p a l a v r a s e l i v r o s escritos. d a a m a r g u r a por outro. Inumeráveis páginas da mais cândida bran-
c u r a f o r a m afogadas e m tinta negra por ávidos pensadores, mas a
Não obstante, a filosofia desempenhou u m p a p e l de relevo n a f o r m a d a verdade continua sem ser vista. Com certeza aquelas graves
antiga c u l t u r a dos coríntios. O s gregos p r o f e s s a v a m u m a c e r t a con- discussões sobre se a v i d a tem ou não o cemitério como objetivo
sideração pelo raciocínio correto. M a s a atitude desta e r a de j a z z é : c o n t i n u a m m a i s pendentes do que nunca. As respostas dos filósofos
— por que esquentar a cabeça c o m problemas desse tipo? — A m a i o r às perguntas que eles próprios colocaram têm sido tão diametralmente
parte dos homens e mulheres dos nossos dias prefere o grosseiro taga- opostas como os dois pólos da T e r r a . A importância de ser frívolo é
r e l a r que passa p o r conversação e conforma-se c o m o c o r r e r do berço encarecida aos leitores todas as vezes que eles apanham muitas dessas
p a r a o túmulo c o m ambos os olhos fechados. E s s e s i n c a p a z e s do páginas arrebitadas e maçudas. Talvez no final venham a exclamar,
intelecto não têm condições p a r a t i r a r proveito de u m a s u b i d a aos irónica e irreverentemente, como Anatole France: — As coisas têm
píncaros do raciocínio e de u m solilóquio n a q u e l a s paragens m a i s aparências diversas e nem mesmo sabemos o que elas são... na mi-
rarefeitas. N a imaginação do indivíduo médio o a s s u n t o é c o m o u m a n h a opinião não se deve ter opinião!
árvore ressequida, m o r t a e estéril: u m a insípida e descolorida teia Já se assinalou que esse mesmo demónio da autocontradição in-
de pensamentos. T a l imagem m e n t a l não d e i x a de t e r s u a s boas r a - festa também os domínios do misticismo e da religião. Não haverá,
zões, pois m u i t a coisa duvidosa p a s s a p o r filosofia, m a s , quando i n - então, como escapar a ele? Estará Herbert Spencer certo ao declarar
vestigamos u m pouco m a i s a fundo a base desse temor e desse ressen- que a verdade absoluta deve ser relegada ao domínio do intangível?
timento, descobrimos deverem-se eles antes à ignorância do que ao Os pesquisadores religiosos, místicos e filosóficos estarão condenados
conhecimento da matéria. O indivíduo pensa, porém, c o m j u s t a razão a permanecer n u m atro labirinto sem ponto de partida visível e se
que a filosofia irá alçar a s u a mente do terreno conhecido d a realidade objetivo tangível?
concreta até desconhecidas alturas d a v i d a , e t a l como m u i t a s pessoas
É de a d m i r a r que o homem não tenha deixado inteiramente de
adultas antes do seu p r i m e i r o voo e m avião, sente medo. E quando
filosofar. O que o obriga a construir e reconstruir, criticar e demolir
por acaso, f i c a conhecendo u m dessecado s e r h u m a n o que se c h a m a a
as teorias dos seus antecessores e as especulações dos seus contem-
s i mesmo de filósofo, acrescenta u m a c e r t a dose de irritação aos seus
porâneos? P o r que razão ele não abandona, agastado, essa vã linha
temores, porque aquele homem parece-lhe e r r a r n u m e r m o selvagem
de conduta, seguindo o exemplo do talentoso poeta persa Omar
onde não se pode encontrar nada que s e j a frutífero ou comestível.
Khayyám:
expresso n a forma de experiências dolorosas o u agradáveis, m a s a
busca consciente da verdade é u m i t e m que cabe a nós n o s i n s e r i r nele. Os nossos amigos cientistas também formam esse coro de quei-
xosos. E l e s fazem u m muxoxo de desdém ante os parcos resultados
Os pensamentos que são habituais l e v a m às suas consequências dos três m i l anos de filosofia que o mundo já conheceu; com orgulho
na ação. As perspectivas gerais do h o m e m c o m u m determinarão sem- apontam p a r a a i m e n s a enciclopédia de fatos comprovados e aceitos
pre o curso das suas ações, tanto quanto o farão as do filósofo. M a s , que a ciência conseguiu r e u n i r e m menos de trezentos anos. Contam
enquanto o homem comum é v i a de r e g r a s a c u d i d o pelos ventos das também a v e l h a piada sobre o filósofo cego que procura n u m quarto
circunstâncias, e, por isso, afligido p e l a incerteza, o filósofo l e v a a escuro u m gato preto que lá não está; piada que o século vinte atua-
vantagem de haver refletido longamente e trazido à l u z certos prin- lizou, j u n t a n d o à t r a m a u m teólogo e esclarecendo que este acaba en-
cípios para u m a conduta sã. U m h o m e m que j a m a i s f o r m u l o u per- contrando o gato! Aquele que tem a ousadia de falar numa filosofia
guntas fundamentais, que j a m a i s elaborou por s i m e s m o u m a atitude da verdade será decerto u m néscio, desconhecedor da história da filo-
racional, ver-se-á presa d a dúvida o u d a escuridão q u a n d o eclodir a sofia e disposto a despertar e m s i próprio e nos outros u m a esperança
primeira grande crise d a s u a v i d a . P o r outro lado, todas as situações, condenada a m o r r e r ingloriamente.
todas as eventualidades encontrarão sempre p r e p a r a d o aquele que
E s s a s reclamações são justas. A história da exploração filosófica
domina a verdadeira filosofia. A f a l t a de princípios predeterminados
é u m fascinante relato de inconcludentes incursões nos domínios da
leva o homem desprevenido a agir não apenas e m detrimento do seu
futilidade. T o d a a história demonstra que os filósofos não têm uma
próprio bem-estar como também do bem-estar alheio. E a i n d a a s s i m
p l a t a f o r m a de conhecimentos estabelecida sobre a qual se fixem har-
o homem do mundo não t e m paciência c o m os filósofos!
monicamente, e que eles continuam vivendo no reino das conjeturas,
As pessoas chegam mesmo a fugir ante a s i m p l e s menção d a p a - no que respeita a interpretação do significado do mundo.
lavra filosofia. Até mesmo P l u t a r c o dignou-se r e n d e r homenagem Aquilo que u m filósofo erigiu de maneira muito convincente, o filó-
tão-somente aos homens públicos, guerreiros e políticos e m s u a obra sofo seguinte demoliu enfaticamente; aquilo que no século dezoito se
Vidas Paralelas. A s s i m é que elogiou L i c u r g o e escarneceu Platão por tinha como u m a grande descoberta foi sumariamente repudiado no
ser filósofo, p o i s : — enquanto o p r i m e i r o consolidou e d e i x o u atrás de dezenove; os sistemas m a i s caros a u m povo foram atirados à r u a
si u m a constituição, o outro não deixou senão p a l a v r a s e l i v r o s escritos. d a a m a r g u r a por outro. Inumeráveis páginas da roais cândida bran-
c u r a f o r a m afogadas e m t i n t a negra por ávidos pensadores, mas a
Não obstante, a filosofia desempenhou u m papel de relevo n a f o r m a d a verdade continua sem s e r vista. Com certeza aquelas graves
antiga cultura dos coríntios. Os gregos professavam u m a c e r t a con- discussões sobre se a v i d a tem ou não o cemitério como objetivo
sideração pelo raciocínio correto. M a s a atitude desta e r a de j a z z é : continuam m a i s pendentes do que nunca. As respostas dos filósofos
— por que esquentar a cabeça c o m problemas desse tipo? — A m a i o r às perguntas que eles próprios colocaram têm sido tão diametralmente
parte dos homens e mulheres dos nossos dias prefere o grosseiro taga- opostas como os dois pólos d a T e r r a . A importância de ser frívolo é
relar que passa por conversação e conforma-se c o m o c o r r e r do berço encarecida aos leitores todas a s vezes que eles apanham muitas dessas
para o túmulo com ambos os olhos fechados. E s s e s incapazes do páginas arrebitadas e maçudas. Talvez no final venham a exclamar,
intelecto não têm condições p a r a t i r a r proveito de u m a s u b i d a aos irónica e irreverentemente, como Anatole F r a n c e : — As coisas têm
píncaros do raciocínio e de u m solilóquio naquelas paragens m a i s aparências diversas e n e m mesmo sabemos o que elas são... na mi-
rarefeitas. N a imaginação do indivíduo médio o assunto é como u m a n h a opinião não se deve ter opinião!
árvore ressequida, morta e estéril: u m a insípida e descolorida teia
Já se assinalou que esse mesmo demónio da autocontradição in-
de pensamentos. T a l imagem mental não deixa de ter suas boas r a -
festa também os domínios do misticismo e da religião. Não haverá,
zões, pois m u i t a coisa duvidosa passa por filosofia, m a s , quando i n -
então, como escapar a ele? Estará Herbert Spencer certo ao declarar
vestigamos u m pouco mais a fundo a base desse temor e desse ressen-
que a verdade absoluta deve ser relegada ao domínio do intangível?
timento, descobrimos deverem-se eles antes à ignorância do que ao
Os pesquisadores religiosos, místicos e filosóficos estarão condenados
conhecimento da matéria. O indivíduo pensa, porém, com j u s t a razão
a permanecer n u m atro labirinto sem ponto de partida visível e sem
que a filosofia irá alçar a s u a mente do terreno conhecido d a realidade
objetivo tangível?
concreta até desconhecidas alturas da vida, e t a l como m u i t a s pessoas
adultas antes do seu primeiro vôo e m avião, sente medo. E quando É de a d m i r a r que o homem não tenha deixado inteiramente de
por acaso, fica conhecendo u m dessecado ser humano que se c h a m a a filosofar. O que o obriga a construir e reconstruir, criticar e demolir
s i mesmo de filósofo, acrescenta u m a certa dose de irritação aos seus as teorias dos seus antecessores e as especulações dos seus contem-
temores, porque aquele homem parece-lhe e r r a r n u m ermo selvagem porâneos? P o r que razão ele não abandona, agastado, essa v i linha
onde não se pode encontrar nada que seja frutífero ou comestível. de conduta, seguindo o exemplo do talentoso poeta persa Omar
Khayyám:

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N a mocidade convivi desenvolvimento a p a r t i r dos fatos, por meio do mais agudo e apurado
Com Santos e Doutores, de q u e m m u i t o a p r e n d i ; tipo de raciocínio j a m a i s praticado pela mente humana e terminando
E o que deles recebi pela p r o v a d a experiência h u m a n a total. Numerosos metafísicos es-
Nunca, nunca discuti. gotaram s u a capacidade inventiva imaginando, por exemplo, u m Nú-
mero, u m a Substância, u m Espírito, u m Absoluto etc. subjacente ao
mundo das aparências, mas a filosofia da verdade não permite nem
A verdade é que o homem está, e c a d a vez m a i s , abandonando a aos seus expoentes n e m aos seus estudantes recorrer sequer a uma
filosofia. E l a , que u m d i a esteve colocada a c i m a de todas as ciências única fantasia ou aceitá-la sem investigação. 0 Espírito pode na
empíricas, não passa hoje de u m a desprezada C i n d e r e l a . Aqueles que verdade existir, m a s à filosofia da verdade cabe descobrir a sua exis-
se dão ao trabalho de estudar a filosofia c o m a finalidade de chegar tência por meio d a investigação e não aceitá-la por princípio. Os fatos
à verdade diminuem rapidamente e m número. P o r toda a parte ocorre são a única base e a realidade é a s u a superestrutura.
esse processo de esvaziamento e perda de prestígio. A A l e m a n h a , que
há não mais de u m século gabava-se de ser a pátria d a filosofia euro- A filosofia académica apresenta u m quadro de opiniões confli-
peia, tacha hoje a matéria de inútil, encarando-a c o m o u m simples ' tantes principalmente por causa dos variados pontos de vista esposados
passatempo intelectual. A Índia, que, m i l anos atrás m a n t i n h a uni- ' pelos filósofos. Tão-somente u m ponto de vista é possível ao verda-
versidades como a de Nalanda, onde ninguém i n g r e s s a v a se não fosse / deiro filósofo, isto é, mais elevado. T a l ponto de vista tem de basear-se
capaz de responder às mais intricadas perguntas de caráter metafísico, f nos fatos da experiência total. Por isso, todos os pressupostos, todos
e onde, a despeito dessa enorme b a r r e i r a p r e l i m i n a r , contavam-se em os dogmas, toda a fé cega, toda a submissão ao sentimento, todos os
certa época dez m i l alunos inscritos — a Índia, que a l i m e n t o u todos sonhos a c e r c a do invisível e do desconhecido, são de pronto eliminados.
Onde quer que a filosofia tenha fracassado, seu insucesso deve-se em
os demais países asiáticos com os seus pensamentos, não consegue
parte à violação desse fator. A vida não pode nunca ser satisfatoria-
hoje em dia formar senão classes cujo número de alunos é r i d i c u l a -
mente interpretada estudando-se as fantasias em detrimento dos fatosT
mente reduzido. Sabe-se que numerosos colégios s u p r i m i r a m mesmo
— I
do seu currículo a cadeira de filosofia. A matéria sofreu realmente Até esse ponto, portanto, a genuína filosofia deve abarcar a ciência»
uma séria queda, tornando-se aos olhos do m u n d o u m m u s e u de anti- começar juntamente com ela, acompanhá-la pari-passu, embora mais
guidades cujos curadores são os seus mestres de metafísica! tarde tenha de adiantar-se-lhe, mais arrojada que é. A ciência é n a
verdade u m a parte, se b e m que preliminar, da filosofia da verdade.
O espírito moderno v i a de regra se exaspera ante q u a l q u e r ten-
P o r ciência entende-se principalmente o método científico, a aborda-
tativa de atraí-lo p a r a os empoeirados salões d a especulação meta-
gem científica, a v a s t a coleção de fatos comprovados, mas não as con-
física.
j e t u r a s flutuantes e as opiniões individuais dos cientistas.
A Filosofia da Verdade. T a l crítica justifica-se apenas quando a
Perante numerosas pessoas do Ocidente a especulação metafísica é
pseudofilosofia se desvia da ação prática ao invés de i r de encontro u m jogo o u passatempo p a r a diletantes, quando muito u m exercício
à mesma, quando entra n u m círculo vicioso e permanece inconclusa, intelectual p a r a as horas vagas. A genuína filosofia é uma ocupação
e quando principia o seu movimento de pensamento c o m m e r a s fanta- infinitamente m a i s séria e produtiva do que essa. E l a considera esta
sias ao invés de fatos comprovados, embora possa, até m e s m o nesses nossa v i d a como u m a preciosa oportunidade para colher da sua apa-
casos, ser de utilidade p a r a quantos apreciem o estímulo intelectual rente provisoriedade benefícios eternos. Consequentemente, não p«
da ginástica mental. Mas tudo isto n a d a t e m a v e r c o m a filosofia ela desperdiçar tempo com esforços vãos ou inúteis, condenados de
oculta. antemão a perderem-se no vazio. 0 método da investigação filosófica
O erro generalizado misturando a f a n t a s i a i n d i v i d u a l c o m a filo- não é usado com o fito de encontrar desculpas para u m a vida vazia,
sofia ou a teologia dogmática com a metafísica r e c l a m a o esclareci- m a s p a r a propiciar orientação no sentido de u m a existência mais plena;
mento de que a filosofia da verdade, tal como é revelada na índia, não p a r a atenuar os interesses humanos, mas para ampliá-los; e não
não deve ser confundida com essa especulação filosófica d a verdade. p a r a c o r r e r atrás de fugazes espectros, mas para encontrar a perma-
Se a meia-filosofia e a pseudofilosofia já t i v e r a m a s u a vez e estão nente Realidade.
agora no ostracismo, então o caminho p a r a a v e r d a d e i r a filosofia se N u m capítulo posterior abordaremos u m a outra característica es-
acha aberto, h As primeiras adejam no reino da fantasia como u m pecial d a filosofia mais elevada, qual seja a justificação real (quan«
pássaro em liberdade e a segunda cinge-se estritamente aos fatos. todas as demais filosofias não o conseguem) da sua alegação de
Começa com eles n a medida e m que estão disponíveis e se r e c u s a a necer u m exame lato do mundo e u m a correspondente visão sii
excedê-los. Não aceita nada gratuitamente, não p a r t e de qualquer tipo d a V i d a . A possibilidade de comprovar as suas alegações explica
de pressupostos, dogmas o u crenças. S e u processo consiste n u m lento

P9 Â
que as inteligências hindus lograram êxito e m penetrar n a escuridão
departamento e é obrigado a aceitar tanto as limitações como as es-
do mundo, enquanto as mentes ocidentais c o n t i n u a m a e n c a r a r a ta-
treitas perspectivas desse departamento. Todo especialista sofre a
refa como impossível ou passível de ser completada apenas n u m futuro
influência inconsciente da ênfase emprestada àquele aspecto particular
muito remoto.
da v i d a m a i s intimamente ligado à sua atividade. E m consequência,
Já vimos que as explicações d a religião são excelentes p a r a as o seu conceito de verdade é forçado a encaixar-se dentro de uma pers-
pessoas simples ou tímidas, mas demasiado elementares e demasiado pectiva estanque e ele ignora o objetivo da verdade tal qual ela é
contrárias à consciência e ao bom senso das pessoas c u l t a s . V i m o s quando a salvo de t a l limitação. % Por mais funcional que isto seja
também que os princípios e as práticas do m i s t i c i s m o são melhores e quando se t r a t a de finalidades práticas, quando se visa ao objetivo
mais amplos, mas são, por s u a vez, igualmente insuficientes p o r pro- mais amplo da verdade derradeira, universal e irretorquível, torna-se
duzirem u m a visão meramente p a r c i a l da v i d a . Assegura a filosofia u m estorvo.
oculta da verdade — que daqui por diante neste l i v r o será simples-
Ê difícil saber como colocar u m a atitude mental tão notável, pois
mente chamada de filosofia, e m parte por u m a questão de conve-
ser antiquado é demasiado moderno, ser medieval é demasiado racional
niência verbal e em parte porque a etimologia d a p a l a v r a reporta-se
e ser moderno é demasiado histórico. T a l é o paradoxo da mais ar-
à verdade e não à simples especulação e m que ela degenera — que
caica sabedoria do mundo, sabedoria esta que se situa tão adiante da
somente ela cuida de investigar todas as fases d a experiência u n i v e r s a l
contemporânea que nós estamos apenas começando a nos inteirar dela!
total, sem deixar nada de fora, e somente e l a b u s c a a m a i s c a b a l e
T a l é a singularidade de u m a filosofia que é u m corajoso esforço para
derradeira explicação; ademais, ela não apenas i n i c i a a investigação,
atingir o significado da existência, p a r a fazer uso da mais elevada fa-
mas prossegue com férrea determinação até atingir plenamente o seu
culdade do homem c o m o mais elevado dos objetivos e para descobrir
objetivo.
u m critério adequado p a r a a ética, u m inatacável cânone de verdade
Pode-se concluir desta declaração que a v e r d a d e i r a filosofia não e u m a sabedoria necessária à preservação da ação social. Somente
tem u m a só cor, mas é tão rica que não apenas deve a b a r c a r os mé- pessoas de espírito superficial ousam pôr e m dúvida a utilidade prá-
todos adotados pela religião, pelo misticismo, pela ciência e p e l a arte, t i c a e as vantagens desse sistema, mas é notório que tal esforço não
por exemplo, mas deve também u s u f r u i r dos resultados p o r estes con- é m i n t o encontradiço n a v i d a cotidiana das populações mais densas.
seguidos ; não deve apenas abranger no âmbito do s e u interesse assun- Encontra-se ele muito mais amiúde entre os esparsos montanheses. O
tos diversos como o comércio, a indústria, a guerra, o matrimónio, a habitante d a cidade tem o direito de recusar-se a abandonar a sua co-
maternidade, os sonhos e a pobreza, por serem estes componentes da modidade, retirando-se p a r a u m a região desconhecida, mas não deve
vida humana; não deve apenas i n c l u i r a i m e n s a legião de a n i m a i s , menosprezar aqueles que deixam de lado os temores e tentam a jor-
plantas, rios e montanhas entre os seus interesses por pertencerem à nada. N e s t a não há o perigo do tédio, pelo contrário só se encontra
existência universal; deve também ser autocrítica, porque, a f i n a l de •fascínio e estímulo. Trata-se de u m a empreitada realmente absorvente
contas, toda investigação — seja ela religiosa, mística, científica o u que, ao apontar no horizonte do estudo toda a sua significação prática,
filosófica — é feita com a mente. E m consequência, a filosofia b u s c a assume aspectos de v i t a l interesse humano. Os episódios da vida co-
também descobrir por que a mente quer saber todas essas coisas, por tidiana passarão a ser vistos sob u m prisma de crescente grandiosidade.
que ela enceta a busca da verdade, qual é a s u a v e r d a d e i r a natureza,
quais são os limites da s u a capacidade de percepção d a verdade, como V i m o s como o enfoque da verdade se faz através de u m a série gra-
chega a conhecer o mundo, e q u a l é, e m suma, a d e r r a d e i r a verdade dativa, cujo desenvolvimento acompanhamos até o final da segunda
de todas as verdades já conhecidas. A filosofia exige a verdade e m fase. I s t o está concorde com os antigos ensinamentos da índia, que
sua totalidade, não meias verdades. postulam três estágios de evolução através dos quais o homem tem de
passar, três atitudes progressivas com relação à vida. 0 primeiro es-
A filosofia dá grande valor às já mencionadas contribuições dos
tágio é a religião e se baseia n a fé; o segundo, o misticismo, é con-
fatos e d a fé, bem como a todas as demais, ao tempo e m que foge
à especialização, pois nega-se a deter-se e m qualquer delas e m p a r t i c u l a r trolado pelo sentimento; e o terceiro, a filosofia (que é inclusive u m a
ou a l i m i t a r suas investigações ao seu campo. A ciência, por m a i o r ciência) é disciplinado pela razão. Nem poderia ser de outra forma,
que seja a s u a valia ao proporcionar-nos u m enfoque razoável d a v i d a pois a compreensão do homem acerca do mundo tem, necessariamente,
e ao organizar o nosso conhecimento do mundo, padece, obviamente, de crescer e m função da sua capacidade mental, S u a perspectiva i n -
de muitas limitações. E l a opera com fragmentos. Não se pode es- variável e inevitavelmente fica limitada pelo grau da sua inteligência*
p e r a r que o cientista médio entenda de música, por exemplo. Como Daí ser impossível a todos os homens responder da mesma forma a
todos os especialistas, ele u s a antolhos, pois se l i m i t a a u m determinado todas as indagações d a vida.

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Ê preciso que cheguemos agora à p o r t a do t e r c e i r o g r a u do arcaico
templo da sabedoria e batamos com a esperança no coração. S e é como u m m a p a imprescindível com a ajuda do qual o explorador po-
que pretendemos alcançar o máximo desenvolvimento é m i s t e r que deria encetar por conta própria a busca da verdade.
atravessemos o limiar e descubramos o q u e há no i n t e r i o r . Diante de Mas por que não haveriam as esperanças dessas poucas pessoas
nós veremos em caracteres sóbrios a inscrição: F i l o s o f i a d a V e r d a d e ; de ser m a i s que u m engano, u m a ilusão gerada pelo desejo individual
a coruja de Minerva estará fixando e m nós o s e u o l h a r severo. Pois disfarçado e m intuição profunda? Apenas u m a resposta cabe a esta
esse estranho pássaro entra e m atividade quando a s s o m b r a s d a noite j u s t a queixa, m a s se t r a t a de u m a resposta que despertará assombro
começam a cair e distingue com clareza os objetos quando o homem nos círculos ocidentais portadores de u m complexo de superioridade
não é capaz de entrever senão vultos. que só se explica talvez face à ignorância daquilo que há milhares de
anos se v e m fazendo e pensando no outro hemisfério. Contudo, ela
Mas quem já ouviu falar nessa filosofia não catalogada? Já ou-
merece tanto quanto qualquer outra ser ouvida por nós e isto será
vimos falar em filosofia alemã, filosofia grega, filosofia h i n d u ; guar-
objeto de a m p l a demonstração através de todo este livro. A esperança
damos longínquas recordações de alguns dos m a i s obscuros volumes
de u n s poucos transformou-se (ainda que de forma intermitente) n a
do mundo, escritos por algumas das maiores inteligências humanas, realização comprovada de uns tantos privilegiados e, digam o que disse-
enchendo de emoções atordoantes e confusas os nossos dias escolares; r e m os repositórios do pensamento mundial, tanto os registros escritos
guardamos recordações de haver queimado as pestanas n a l e i t u r a de como os não-escritos d a Índia indicam que aquela verdade considerada
maçantes volumes sobre o assunto; mas, ao invés de nos i l u m i n a r , as pelo Ocidente como inatingível já foi no passado alcançada por tais
teorias contraditórias só fizeram escurecer a i n d a m a i s o nosso c a m i n h o ; indivíduos e mesmo no presente poderá constituir-se n u m prémio àque-
ironicamente, acreditávamos s e r u m a r e g r a geral n a discussão filo- les que estiverem dispostos a pagar o seu alto preço.
sófica que quanto mais banal e r a a questão tanto m a i s séria deveria
ser a argumentação; captamos u m pouco do jargão do s i s t e m a de Ao testemunharmos as maravilhas operadas pela mente humana
Spinoza, do sistema de Anaxágoras, do s i s t e m a de K a n t , m a s j a m a i s no sentido de alterar a face da T e r r a , cabe-nos ser desesperançados a
encontramos, e tampouco sabemos que alguém h a j a encontrado, u m a ponto de c r e r que a Natureza teme a revelação da verdade e sagazmen-
filosofia representando mais do que as opiniões de u m h o m e m o u te m a n o b r o u p a r a que j a m a i s seja dado ao homem compreender o sig-
uma escola. nificado derradeiro da s u a existência neste planeta? E se alguém afir-
m a s e r esse significado impossível de conhecer, estará afirmando i n -
Existem, contudo, uns poucos que e x p l o r a r a m a fundo os luminosos conscientemente que está a p a r daquilo que as gerações vindouras
reinos da religião, do misticismo e d a metafísica, não se limitando chegarão ou não a saber — asserção destituída de fundamento e im-
a percorrer apenas as suas fronteiras; u n s poucos que também sabem possível de s e r provada. Mas por que não concordarmos em aprender
o que tem a ciência a dizer acerca do mundo e que não são portadores dos antigos aquilo que não podemos aprender dos modernos?
daquele pessimismo. S e u deslumbramento i n i c i a l e s t a v a fundido com
o desejo de saber, este com a paixão de compreender e e s t a última A Doutrina Secreta da índia. U m a recôndita doutrina hindu, que
com a busca da realidade. E l e s percebem que essa b u s c a absorvente constitui essa filosofia d a verdade e se situa acima da religião e do
que os impeliu para frente e p a r a o alto reage e m resposta a alguma misticismo, existe, segundo o testemunho dos eruditos, há mais de
coisa que é. Uma esperança indestrutível os a n i m a . Pois aquilo que cinco m i l anos, m a s n a verdade é muito mais antiga, pois suas origens
começaram a crer com a religião, s e n t i r a m e m s u a plenitude c o m o remontam a tempos imemoriais. T a l doutrina pertencia tradicional-
misticismo, suspeitaram racionalmente c o m a ciência e debateram es- mente a u n s poucos iniciados, que formavam u m círculo fechado e
peculativamente com a metafísica é que existe a l g u m a essência derra- conservavam-na c o m grande zelo (já que se tratava da quinta-essência
deira que é a real natureza das coisas e dos homens, e que, sendo da sabedoria do seu país), impedindo que a ela tivessem acesso quan-
essa essência eterna e onipresente, e l a confere ao u n i v e r s o a maior tos não fossem iniciados no assunto. N a verdade, até o romper da
significação possível, e, consequentemente, o p r i m e i r o e m a i o r dever era moderna u m brâmane que ousasse revelar que a verdade latente
na, religião só se realiza n a filosofia era passível de punição. A trans-
do homem é conhecê-la de perto. Mas esses poucos percebem que a
missão e r a feita de geração p a r a geração, mas o processo era mantido
essência universal antes de ser devidamente conhecida deve s e r com-
e m segredo tão rigoroso que os ecos que se filtravam ocasionalmente
preendida do ponto de vista intelectual e especulativo t a l como é, e,
p a r a o mundo mais lato pouco custavam p a r a tornarem-se distorcidos.
inevitavelmente, t a l como não é. Daí surge a compreensão d a ne-
Mais tarde apareciam perante o público representantes autopromovi-
cessidade de u m a filosofia adequada: não a filosofia desta o u daquela
dos e auto-iludidos p a r a converter os recentes ecos da filosofia pura
escola, deste ou daquele indivíduo, deste o u daquele país, m a s unica-
que lhes h a v i a m chegado aos ouvidos e m escolasticismo religioso quan-
mente a filosofia da verdade. T a l filosofia, se descoberta, funcionaria
do não e m misticismo teológico. A incompreensão gerava a mutilação.

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transformando, destarte, u m a grandiosa verdade u n i v e r s a l n u m a redu- Haverá também ferozes negativas e oposições de ordem pessoal por
zida verdade tribal. Não obstante, mesmo quando os seus legítimos parte daqueles restritos círculos que tanto no Oeste como no Leste
representantes estiveram a pique de desaparecer d a superfície d a T e r r a , intitulam-se esotéricos e reivindicam a posse da sabedoria oculta. A
a filosofia conservou s u a existência i m o r t a l nuns r a r o s e s c r i t o s e r u - confusão e a incompreensão entre os mal-informados é desculpável
'ditos e fê-lo ainda de f o r m a fragmentária e m numerosos escritos de A c r e d i t a m eles, e c o m j u s t a razão, que alguns dos mais renomados
cunho popular. No entanto, as interpretações erróneas decorrem i n - mestres do m u n d o ensinaram u m a doutrina secreta aos seus discípulos
variavelmente das leituras feitas sem a orientação pessoal de u m mes- mais chegados. Acreditam também, mas sem razão, que tal doutrina
tre competente, figura sempre imprescindível. consistia e m grande parte de magia, taumaturgia e teologia. Os grandes
mestres t i n h a m coisa melhor com que se ocupar. A finalidade última
Deve-se, portanto, esperar que diversas das explicações dadas nestes do esoterismo h i n d u e r a conduzir os homens a descobrir o significado
capítulos sejam consideradas como inautênticas p o r m u i t o dos m a i s essencial d a v i d a h u m a n a , ajudá-los a adquirir u m a percepção da real
sábios letrados da Índia contemporânea, o u condenadas como perver- e s t r u t u r a do universo e m o s t r a r o S o l da verdade absoluta brilhando
sões pelo grosso dos místicos e iogues convencionais, o u denunciadas no horizonte de toda a existência.
como ateísticas pela m a i o r parte das autoridades religiosas. Que a s s i m Antes m e s m o que as vitoriosas andanças de Alexandre colocassem
seja. Nós não falamos a esses n e m aos seus inúmeros seguidores, m a s os pensamentos helénico e o oriental em contato fértil, fragmentos dessa
apenas aos que possuem u m a mentalidade inteiramente v o l t a d a p a r a doutrina já h a v i a m sido trazidos para a Europa por intermédio de
a busca da verdade. A verdade poderá permanecer invisível durante industriosos viajantes como Apolônio de Tiana e Pitágoras. E m nossa
milénios, pois depende do sufrágio secreto de alguns poucos, m a s a própria época provas fragmentárias da existência desse ensinamento
hipótese é improvável; a s s i m como u m vasto oceano, e l a sobreviverá oculto r e s v a l a r a m p a r a o mundo exterior, pois a crescente legião dos
à escuma da opinião m o r t a l e à névoa dos interesses preconceituosos. orientalistas ocidentais entregou ao mundo os frutos de sua pesquisa
E m b o r a a nossa heterodoxa apresentação dessa sabedoria s e j a moderna de u m século entre os tesouros culturais da Índia. As muralhas que
e ocidental, s u a fonte original é antiga e h i n d u . T a n t o os textos silen- i n s u l a v a m n a posse de u n s poucos brâmanes os mais importantes l i -
ciosos como as vozes v i v a s que forneceram informações à nossa obra vros secretos f o r a m derrubadas. Aquele que se der ao trabalho de
são e m s u a maior parte hindus, complementados, por vezes, por a l - v a s c u l h a r tais obras constatará por s i mesmo inúmeras indicações de
guns documentos tibetanos e também por u m a instrução esotérica u m ensinamento velado que não era dado senão àqueles que se mos-
mongólica transmitida de pessoa p a r a pessoa. U m milhão de homens t r a v a m capazes de preencher determinados requisitos e que possuíam
poderá contestar a solidez dos princípios a q u i desenvolvidos, m a s nin- certas r a r a s virtudes de caráter e capacidade. Encontrará também
guém poderá negar tratar-se de princípios h i n d u s ( a i n d a que desco- reiteradas referências ao fato de que o conhecimento pleno só pode
nhecidos) sem deturpar antigos documentos d a m a i o r antenticidade ser obtido através do contato pessoal com u m professor competente.
Não apenas u m a v e l h a tradição dizia que os brâmanes iniciados que
em função da s u a mentalidade medíocre. S e não fazemos a q u i a c i -
revelassem os seus conhecimentos a estrangeiros não qualificados eram
tação desses textos é porque os nossos leitores são, e m s u a quase tota-
passíveis de sanções, m a s assim também o afirmam numerosos textos
lidade, ocidentais e não é nosso desejo sobrecarregá-los c o m a enfa-
sânscritos c u j a tradução pode ser hoje facilmente encontrada: Os Upa
donha obrigação de consultar alentados glossários à c a t a de desco-
nichades, o Bhagavad Gita, os Comentários de Shankara acerca do
nhecidos nomes sânscritos. N a realidade, o fato de que neste l i v r o
Bhagavad Gita, Vivekachudamani, os Brama Sutras, o Panchadasi, e
não se u s a mais do que duas expressões filosóficas e m sânscrito dará outros.
motivo a que se assaque ainda mais u m a crítica c o n t r a ele, pois se
alega que determinados conceitos filosóficos d a Índia não apenas são C o m tais declarações poderemos cotejar as seguintes palavras do
B u d a , tiradas do Saddharma Pundarika:
incompreenssíveis p a r a o Ocidente como também são inexpressíveis e m
qualquer u m a das línguas ocidentais tradicionais. É acertado dizer —• Homens superiores e de vasta compreensão preservam a
que lidamos aqui com ideias que em sânscrito se e x p r e s s a m através de doutrina, preservam o mistério e não o revelam... T a l conheci-
u m a única palavra, enquanto amiúde se requer toda u m a f i e i r a de mento é de difícil compreensão; os simples ficariam perplexos
palavras ocidentais p a r a t r a n s m i t i r a m e s m a coisa. M a s a verdade ao ouvi-lo de supetão... Falo de acordo com o seu alcance e a
já existia antes do nascimento do mesmerismo do sânscrito; e, c o m s u a capacidade; através de diferentes significações adapto a eles a
certeza, sobreviverá e m muito àquela língua. Os homens devem t e r m i n h a doutrina.
encontrado ou inventado termos expressivos antes do s e u aparecimen- Já v i m o s como, segundo esse ensinamento oculto, existem
to, e, talvez, pressionados pelas necessidades, voltem a fazê-lo. progressivos estágios de desenvolvimento através dos quais tem

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passar o pesquisador d a verdade. A declaração é e x p r e s s a m e n t e for- traído aqueles poucos que estavam e m condições de iniciar-se por ha-
mulada pelo sábio Gaudapada no seu velho v o l u m e já r e f e r i d o : v e r e m perdido o gosto pela religião ortodoxa e sentido a necessidade
de a l g u m a c o i s a m a i s racional. Ao demais das pessoas mentalmente
— Há três estágios de v i d a correspondendo a três poderes da amadurecidas, a iniciação e r a também propiciada aos reis, estadistas,
compreensão: o inferior, o médio e o s u p e r i o r . . . A i o g a do i r r e - generais, altos sacerdotes brâmanes e outros investidos nas responsa-
torquível é de difícil acesso p a r a os iogues despidos do conhe- bilidades de o r i e n t a r aj> vidas das pessoas. Por essa forma, propor-
cimento preconizado n a filosofia m a i s e l e v a d a . . . esses iogues que cionava-se-lhes melhores condições p a r a u m desempenho mais sensato
também se encontram no c a m i n h o m a s são portadores de u m a e eficaz das suas tarefas.
compreensão inferior ou mediana.
O segundo fator repousa n a natureza aristocrática desta filosofia.
E l a não se p r e s t a igualmente a leões e cordeiros. Não pode ser levada
Comentando tais opiniões, observa o grande m e s t r e S h a n k a r a : — até a s g r u t a s e cabanas dos iletrados n a esperança de encontrar ali
As ordens da humanidade também são três e m número. C o m o ? I s t o boa acolhida. É tão impenetrável do ponto de vista mental e tão
se deve a que os homens são dotados de três g r a u s de compreensão, avançada do ponto de v i s t a ético que paira muito além do alcance
a saber: inferior, médio e superior. popular. S e pudesse encontrar u m a aceitação fácil, tal aceitação se
Pitágoras que viajou até a índia e conseguiu iniciar-se n a sabe- t e r i a consumado tão logo foi pela primeira vez enunciada. Por ser
doria secreta dos brâmanes, d i v i d i u os homens e m três classes, colo- impossível de i n c u l c a r a não ser a uns poucos privilegiados seu des-
tino certo é o ostracismo. Seus princípios só podem ser entendidos
cando os que a m a v a m a filosofia n a classe m a i s elevada. F o i nesse
por pessoas de b o m desenvolvimento intelectual e nobre caráter; são
sentido que criou e usou a expressão filosofia, sendo, portanto, o p r i -
princípios demasiado sutis p a r a as mentes imaturas, para as pessoas
meiro europeu a fazê-lo. Amónio, fundador de u m a i m p o r t a n t e escola
obtusas e estúpidas, b e m como p a r a as mesquinhas e egoístas. As po-
mística e filosófica e m Alexandria, também d i v i d i u os seus discípulos
pulações p r i m i t i v a s e r a m compostas principalmente de camponeses
em três graus, exigindo-lhes sob j u r a m e n t o o c o m p r o m i s s o de não
que d a a u r o r a ao crepúsculo labutavam arduamente nos campos ou de
revelarem os seus mais elevados ensinamentos filosóficos. S u a s regras
pastores que se entregavam a acompanhar mecanicamente seus reba-
foram calcadas nos antigos mistérios gregos de O r f e u , o q u a l , segundo
nhos. A m b a s as classes não poderiam desenvolver com facilidade in-
o historiador Heródoto, as h a v i a trazido d a índia.
teligências aptas e dispostas a ponderar longo tempo nos tópicos mais
Não se deve pensar que o rigoroso segredo que envolveu u m d i a abstratos que p a r e c i a m deveras distantes do campo e do lar, mas se
o aprendizado dessa matéria e r a inteiramente intencional. Quatro i n c l i n a r i a m de preferência a dar crédito a estórias singelas. Por esta
fatores respondem pelo fato. Ò primeiro é a c l a r a percepção de que razão contentavam-se e m acreditar tão-somente naquilo em que seus
a verdade real da religião sendo popularizada, todo o estofo d a morali- pais acreditavam. A s massas eram, v i a de regra, iletradas e viviam
dade pública resultaria seriamente comprometido. A veiculação i n - n u m mundo que as obrigava a manterem-se deveras ativas para ga-
discriminada de u m ensinamento descrevendo Deus t a l q u a l E l e é n a r a n t i r a s u a subsistência e dentro do qual o polvo gigantesco da ati-
realidade e repudiando a S u a imagem presumível, e demonstrando que vidade pessoal e d a responsabilidade familiar as mantinha firmemente
todos os ritos, sacrifícios e sacerdócio não p a s s a m de recursos mera- presas entre os seus tentáculos; tão firmemente que não lhes sobrava
mente provisórios, e m pouco tempo e l i d i r i a a influência d a religião ânimo n e m tempo p a r a explorar o significado mais sutil da sua pró-
institucionalizada junto àqueles que dela têm necessidade; e concomi- p r i a existência e menos ainda o conhecimento derradeiro da mais am-
tantemente desapareceriam as consequentes restrições de caráter ético p l a e r e m o t a existência universal. Trabalhar, sofrer, perpetuar a es-
e as disciplinas morais. As confusas massas das pessoas s e m ins- pécie e m o r r e r ; eis o resumo do seu acanhado horizonte. Pouco se
trução voltar-se-iam então contra os seus ídolos aceitos, s e m contudo lhes dava a razão mais elevada da sua presença neste mundo. Como
dar-se conta das inegáveis vantagens que e m troca p r o p i c i a r i a a filo- se poderia então desejar que compreendessem princípios e apreciassem
sofia mais elevada, pois esta última v i r i a a ser rejeitada p o r dema- devidamente valores que se encontram tão distantes da sua órbita
siado diante dessas mesmas massas. E s t a s ficariam mergulhadas quanto o estão as conferências de nível pós-universitário dos alunos do
n u m vácuo mental, ou, pelo mínimo, n u m a desnorteante incompreen- curso primário? É preciso que a imatura mente popular tenha tempo
são, com o resultado de que a sociedade seria a t i r a d a ao caos e a v i d a p a r a desenvolver-se e, naquelas épocas primitivas, não se poderia es-
social possivelmente reverteria à impiedosa l e i da selva. S e r i a danoso perar que e l a tivesse condições p a r a opinar sobre assuntos que amiúde
perturbar a mente das massas ainda adolescentes do ponto de v i s t a superam a capacidade dos mais sagazes.
mental, suprimindo-lhe a fé n a religião tradicional quando n a d a que
estivesse a seu alcance se lhe poderia d a r e m troca. Daí terem os Ademais, a frase do Novo Testamento: — Muitos são chamados
sábios tratado de conservar p a r a s i os seus conhecimentos e só ins- mas poucos são escolhidos —- encontra o seu equivalente hindu no

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to: — E n t r e as multidões u m h o m e m , vez p o r o u t r a , l u t a p o r com-
lidos pela roda da vida. Sentiam que era preciso reservar u m lugar
preender a verdade — estampado no Bhagavad Gita. N ã o há a q u i
n a s u a programação p a r a o estudo da filosofia. U m a vida totalmente
nenhum exclusivismo arbitrário, apenas u m reconhecimento das l i m i -
v a z i a de pensamentos mais profundos era considerada como indigna
tações humanas, pois esta última o b r a diz a i n d a : — E u não m e revelo
do h o m e m , pois aproximava-o do animal. E m resumo, o que se queria
a toda a gente, a m a i o r i a das pessoas tendo a s u a visão toldada p e l a
e r a conhecer a verdade. Daí o fugir ao mundo da atividade, em fun-
ilusão.
ção não de u m a frustração emocional mas de u m a séria empreitada
0 terceiro fator do segredo é que os poucos sábios que d o m i n a r a m espiritual. E s s e prolongado afastamento da sociedade, embora desti-
essa doutrina v i v i a m , quase sempre, e m eremitérios o u e m obscuros nado a s e r apenas u m meio provisório e não u m fim permanente, de
retiros monteses. E s s a f o r m a de v i v e r à distância das multidões não f o r m a gradual (porém inapelável) foi retirando o conhecimento ad-
era escolhida por atender às suas necessidades pessoais, p o i s aqueles q u i r i d o d a tradição cultural normal da sociedade até que a palavra
sábios possuíam u m a fortaleza de caráter q u e lhes p e r m i t i r i a p e r m a - sânscrita significando Doutrina da Floresta terminou por traduzir-se
necer incólumes e m meio às atividades das cidades m a i s populosas, também p o r Doutrina Oculta. Não que os sábios se mantivessem
como no caso de S h a n k a r a , o u manter-se alheios ao áureo esplendor
1
sempre escondidos, m a s quando se aventuravam a apresentar-se pe-
das cortes, como no caso de J a n a k a . 2
T a l reclusão e r a e s c o l h i d a c o m rante o público ensinavam às pessoas apenas aquilo que consideravam
vistas aos interesses daqueles que dela n e c e s s i t a v a m , v a l e dizer, os m a i s adequado, isto é, a religião pura na maior parte dos casos e o
poucos discípulos já maduros p a r a a iniciação filosófica. A concentra- m i s t i c i s m o p u r o e m alguns casos.
ção constante e a reflexão profunda exigidas p e l a d e u s a d a sabedoria
oculta aos seus adeptos encontrava u m mínimo de antagonismo e de O quarto fator já foi mencionado. Trata-se do perigo de os textos
interrupção e m seus derradeiros postos avançados no seio de florestas tradicionais s e r e m m a l interpretados e incompreendidos, de maneira
bravias ou n a i m e n s a grandiosidade de m o n t a n h a s solitárias. A t a l a que a falsidade comece gradualmente a passar por verdade e venha
ponto se reconhecia e s s a tendência a r e c o r r e r a l o c a i s desérticos c o m mesmo no futuro a ser rotulada como t a l . Aqueles que do ponto de
o fito de estudar que os antigos textos usados pelos m e s t r e s e m suas v i s t a ético e m e n t a l estivessem despreparados iriam atribuir aos textos
preleções chamavam-se ( e a i n d a se c h a m a m ) Doutrinas da Floresta. o seu r e a l significado, imaginariam interpretações condizentes com os
Seria, porém, u m grave e r r o confundir esse exílio voluntário de u n s seus gostos pessoais e temperamentos. E este perigo é assaz verda-
poucos visando a equipar-se melhor, através de laboriosos estudos, p a r a deiro, pois os textos são altamente condensados e requerem laboriosas
primeiro compreender e depois a j u d a r a h u m a n i d a d e , c o m o ascetismo explicações.
barato que prevalece hoje e m d i a nos avantajados e apinhados arre- A s s i m sendo, o esoterismo surgiu primeiro como u m fenómeno
medos daqueles pequeninos eremitérios de o u t r o r a . A l e t a r g i a estéril n a t u r a l , embora, sob os efeitos deteriorantes do tempo, tenha chegado
e a especulação supersticiosa o c u p a m hoje o l u g a r do esforço m e n t a l a extremos, ante o egoísmo de alguns e a indiferença humana da maio-
e do estudo disciplinado. Os antigos estudantes do t e r c e i r o g r a u e r a m ria. A matéria-prima p a r a u m histórico desse lento declínio, se fosse
homens que compreendiam estar há m u i t o empenhados m u n a ativi- possível dispor dela, não seria de pequeno interesse no que tange a
dade incessante, sem perceber as razões determinantes dessa m e s m a vários setores distintos d a filosofia.
atividade; que se d a v a m conta de v i v e r e m presos c o m o marionetes a
D u a s perguntas aflorarão com certeza aos lábios do crítico ociden-
cordéis e serem obrigados a dançar ao s o m de u m a música alheia.
tal. E m p r i m e i r o lugar, se t a l filosofia existiu desde há tanto tempo
E l e s h a v i a m chegado ao ponto de entender o significado das coisas,
n a Índia, por que não terá conseguido erguer a cultura hindu aos
o motivo d a s u a presença n a T e r r a , e os r u m o s p a r a onde e r a m impe-
pináculos da admiração mundial? A resposta é que, conforme já foi
explicado, os hindus possuidores desse conhecimento sempre foram
poucos p a r a assinalar a sua presença n a cultura de u m vasto subconti-
1
Shankara era um antigo filósofo que atingiu o mais alto grau de iluminação nente. Contudo, embora a sua influência imediata se limitasse a u m
numa idade extraordinariamente precoce, percorrendo a seguir todos os rincões círculo restrito e influente, sua influência derradeira e mdiretã foi
da índia com s finalidade de ajudar as massas ignaras e iluminar os raros eru-
ditos; ambas as classes à sua maneira. imensa.
2
Um rei que governou um grande Estado no nordeste da Índia e estudou As dificuldades materiais e linguísticas da comunicação cultural
a doutrina oculta sob a orientação do sábio Ashtavakra com tal profundidade entre a Índia e a E u r o p a até o século passado, ao lado do caráter eso-
que compreendeu a derradeira essência das coisas. Esse rei sentia-se tão à vontade térico dessa filosofia, explicam a não-influência do sistema no mundo,
junto BO plácido sábio na floresta, como entre a massa agitada dos seus súditos j u s t i f i c a t i v a que se comprova pelo fato de que no restante da Ásia,
que num salão de audiências solicitavam favores, como entre os seus toldados onde a comunicação com a Índia sempre foi mais fácil e abundante,
prontos a entrar em ação num campo de batalha. ele goza do m a i s alto prestígio. Não obstante, é significativo que o

84 85
íntmdutor d a p a l a v r a filosofia n a E u r o p a t e n h a s i d o o p r i m e i r o „ a r e

a
Sn^cido aventurar-se Índia a d e n t r o e m b u s c a d a s a b e d o r i a . p f ° 8

eido. A s mentes das pessoas encontram-se atualmente em estado de


SSTfoi b e m recompensado pelas v i c i s s i t u d e s d a s u a longa viagem perturbação e as suas convicções religiosas estão abaladas. De t a l
g e trouxe de volta ao Ocidente n o v a s e m a i s e l e v a d a s concepçc£ f o r m a está a l t e r a d a a posição hoje em dia que chega a ser um tanto
da verdade. p a r a d o x a l , pois a filosofia oculta, ao invés de destruir o que resta da
A segunda pergunta que s e r i a de esperar-se é p o r q u e , já que essa religião, poderá salvá-la através da sua exegese simbólica e da sua
doutrina durante muitos séculos p e r m a n e c e u inacessível às massas j u s t i f i c a t i v a perante os espíritos cultos do lugar e dos objetivos da
haverá ela de ser agora a p r e s e n t a d a e e x p l i c a d a e m d e t a l h e à popula^ religião institucionalizada. Suas revelações m a l poderiam hoje afetar
çáo. Pode-se apresentar u m a r e s p o s t a tríplice. A revelação positiva- as m a s s a s , pois estas não t o m a r i a m conhecimento delas, como não to-
mente não é nova, pois v e m acontecendo desde q u e a s forças armadas m a m de toda a filosofia abstrata, ou então, caso viessem a fazê-lo,
britânicas, já no século dezoito, p r e p a r a r a m o c a m i n h o p a r a os estu- não c h e g a r i a m a aperceber-se das sutilezas.
diosos ingleses, franceses e alemães. O s t e x t o s f o r a m sendo reunidos O terceiro fator que ensejou u m a explicação mais franca, ousada
um por u m , inicialmente a título de p i l h a g e m m i l i t a r , depois n a forma e c a b a l d a filosofia m a i s elevada é deveras excepcional e o mais im-
de compras regulares feitas j u n t o aos círculos brâmanes q u e se h a v i a m portante de todos. Desde a época em que essa filosofia foi pela pri-
convertido nos zelosos guardiães das o b r a s . H o j e e m d i a esses livros m e i r a vez f o r m u l a d a o mundo tem passado por grandes transformações,
estão à disposição de u m m a i o r número de p e s s o a s . N u m e r o s a s cida- o m e s m o acontecendo com a humanidade. Os detalhes de tais modi-
des foram vasculhadas p o r c o m p r a d o r e s e n u m e r o s o s m a n u s c r i t o s , que ficações, n a m e d i d a e m que afetam a filosofia, já foram fartamente
o receio ao conquistador muçulmano e a s i m p l e s i n c a p a c i d a d e de fornecidos nas páginas iniciais desta obra.
compreensão m a n t i n h a m encerrados e m baús, v i e r a m a f i n a l à luz. A l -
guns desses textos f o r a m traduzidos p a r a i d i o m a s e u r o p e u s e estão ao
dispor de qualquer interessado, ao passo q u e a m a i o r p a r t e deles foi
cuidadosamente reunido e p r e s e r v a d o e m e x c e l e n t e s b i b l i o t e c a s , como
a do Secretário de E s t a d o p a r a a Índia, a de M i s o r e , a de B a r o d a , a de
Travancore, a da R e a l Sociedade Asiática e o u t r a s , onde podem ser
hoje consultados pelos estudiosos. Há c e r c a de d u z e n t o s a n o s poucas
dessas obras poderiam s e r conseguidas p o r alguém q u e não perten-
cesse a u m a d i m i n u t a elite d a iníelligentzia h i n d u . H o j e é possível
conseguir centenas de antigas o b r a s filosóficas t a n t o n a E u r o p a como
na América. Não se está, portanto, fazendo a q u i n e n h u m a n o v a reve-
lação; apenas se está dando sequência a u m a revelação que começou
há cento e setenta e cinco anos. A apresentação a q u i oferecida será,
contudo, considerada como n o v a e e s s e n c i a l m e n t e m o d e r n a e, positiva-
mente, heterodoxa. Contudo, u m elemento n o v o n e s t a s páginas é que
os seus princípios se b a s e i a m e m p a r t e n u n s poucos l i v r o s que a esco-
lástica europeia deixou p a s s a r e m b r a n c o p o r q u e s u a especial impor-
tância e sua difícil interpretação não f o r a m d e v i d a m e n t e captadas e
em parte n u m aprendizado pessoal que é t a l v e z único no a t u a l pano-
rama hindu.

A outra resposta à pergunta do crítico é que a p r i n c i p a l proibição


a revelação da filosofia o c u l t a e m o u t r a s épocas e r a atribuída ao P £
ngo q e essa filosofia representava p a r a a a u t o r i d a d e d a religião o r t *
U

5 2 . f ^ e n t e m e n t e , p a r a a m o r a l i d a d e . Desde aqueles d u *
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C 0 M e
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P a n d o t a l a u t o r i d a d e que e l a m a l t e m cons£
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oodia S ? S a !° m e s m a s daqueles d i a s e m que


n s a o a s

Podia ser condenado à morte porque s u a fé r e l i g i o s a h a v i a enfraqu*


87
ÉS
dão e a t i t u d e se t o r n a s s e m aceitáveis, lamentavelmente, ele não podia
i n i c i a r o aprendizado. Pouco i m p o r t a v a aos guardiães da sabedoria
que ele tivesse ou não a l g u m a fé religiosa, que fosse ateu, cristão ou
muçulmano; o que i m p o r t a v a é que do ponto de vista psicológico es-
tivesse apto. A diferença é importante e ajuda a explicar os melhores
resultados e os notáveis êxitos conseguidos pelos asiáticos. Fichte, no
entanto, deve t e r entrevisto a necessidade desse preparo disciplinador,
ao dizer c e r t a v e z : — O tipo de filosofia que u m homem escolhe de-
pende, e m última análise, do tipo de homem que ele é.
A assimilação d a verdade m a i s elevada estará e m rigorosa pro-
porção c o m a qualificação pessoal do indivíduo.
Depois de l e r o presente capítulo o estudante deveria fazer um
e x a m e consciencioso de s i m e s m o e determinar de maneira objetiva até
que ponto a s características desejadas estão presentes no seu equipa-
O simples fato de que o indivíduo médio p e r m i t e q u e os seus m e n t o m e n t a l . O e x a m e deverá s e r procedido à base da maior hones-
eventuais desejos de conhecimento s e j a m esmagados p e l a aversão de- tidade. O s resultados desse levantamento poderão ser espantosos para
corrente d a s u a impressão s u p e r f i c i a l a c e r c a d a filosofia, q u a n d o não o estudante compenetrado, vexatórios p a r a o sensível, ou esclarecedores
pelo receio do abstrato, incapacita-o p a r a d a r p r o s s e g u i m e n t o aos es- p a r a aquele que t e m sede de autoconhecimento. U m a das primeiras
tudos. Pois há determinadas características c a r d e a i s q u e se e x i g e m coisas q u e ficarão patenteadas é até onde a pessoa é influenciada pelos
de todos os homens antes que l h e s s e j a dado t r a n s p o r os u m b r a i s d a m a u s i n s t i n t o s , pelos preconceitos correntes, pelas inclinações desco-
filosofia. Ninguém que não possua sete d e t e r m i n a d a s q u a l i d a d e s filo- nhecidas, pelos temores ocultos, pelas esperanças tolas, pelas atitudes
sóficas poderá esperar filosofar c o m proveito. São essas qualidades injustas, pelas disposições do momento, pelas alucinações violentas
necessárias porque representam os meios através dos q u a i s se poderá o u pelas ilusões a r r a i g a d a s ; e como ela se conduz em meio a uma
atingir os fins colimados. O explorador que deseja p e n e t r a r e m inós- névoa de motivos conflitantes e poderosa influência subconsciente.
pitos novos territórios, e que será obrigado a c r u z a r rios, m o n t a n h a s e Dessa f o r m a se descobre o que se é realmente! A revelação decerto
desertos n a s u a j o r n a d a , deve, se é que entende do r i s c a d o , começar não s e r $ agradável. S e a pessoa não tiver pendores para a filosofia
os seus preparativos p a r a a empreitada equipando-se convenientemente. esse m o m e n t o tornar-se-á c r u c i a l , e ela irá atirar raivosamente o livro
Aquele que a l m e j a explorar a filosofia o c u l t a e p e n e t r a r no n o v o t e r r i - p a r a u m c a n t o e abandonar por inteiro o assunto. Mas, se a pessoa
tório d a verdade deve igualmente c u i d a r d a n a t u r e z a e d a qualidade t i v e r a têmpera ideal, irá adotar a disciplina necessária e aos poucos
do seu equipamento pessoal antes que s u a m e n t e p o s s a aventurar-se começarão a s u r g i r as modificações desejadas.
n u m a atividade que decerto irá pôr à p r o v a toda a s u a capacidade.
A p r i m e i r a preocupação do instrutor de filosofia é derrubar os
N e m todos podem encetar u m a expedição dessa o r d e m . Apenas ídolos de pés de b a r r o do estudante o u explicar-lhe com franqueia
aqueles que preenchem os requisitos básicos podem c o n t a r s e r b e m aquilo que ele n a realidade faz ao adorá-los. Pois o instrutor ocupa
sucedidos. T a i s requisitos não são de imposição externa, m a s inerentes aquela m e s m a e desagradável posição do diretor de u m hospital psi-
à própria natureza d a apreensão d a verdade e, p o r isso, s u a satisfação quiátrico que m u i t a s vezes é obrigado a concordar com os doentes que
é inadiável. Tampouco são eles a r b i t r a r i a m e n t e fabricados por a l g u m j u l g a m s e r aquilo que não são — u m Napoleão, por exemplo — mas
mestre exigente. São impostos pela própria N a t u r e z a e aceitos p o r que n u m dado momento se vê forçado a dizer intempestivamente àque-
u m a longa tradição. Contudo, ninguém p r e c i s a preocupar-se e m de- las pobres c r i a t u r a s que elas não são o que julgam s e r ! Naquele
masia, a menos que conte entre aqueles poucos que q u e r e m a todo momento detestável o médico, sem a menor dúvida, tornar-se-á a pes-
custo descobrir o segredo derradeiro d a v i d a . Todos os demais pode- soa m a i s odiada de toda a instituição!
rão dar-se ao luxo de ignorá-los e v i v e r e m comodamente a s suas v i d a s .
E m e r s o n bem d i s s e : — F a z e i como quiserdes, m a s pagai o preço. A consciência de encontrarem-se numa posição análoga «—
E s t a s p a l a v r a s cabem maravilhosamente a e s t a a l t u r a d a n o s s a b u s c a . pouquíssimas pessoas gostam de ouvir que não estão aptas a rece 1

a verdade — é u m a razão a mais para que os instrutores da filosofi,


Nos países ocidentais sempre foi possível a q u a l q u e r u m i n i c i a r oculta se tivessem mantido à sombra durante tantos séculos. Na ver-
os estudos filosóficos, m a s n a A s i a o candidato e r a obrigado a e x i b i r dade, do ponto de vista da filosofia poucas pessoas apresentam o
previamente u m a c e r t a capacidade p a r a a tarefa. Até que a s u a apti-
líbrio requerido e, consequentemente, cria-se o a x i o m a de que o can-
didato deve ser tratado e curado desse desequilíbrio c o m u m a milhões entre sentimento e razão, perceber como são formados os conceitos
de seres humanos. Pois a filosofia b u s c a colocar os seus estudantes das ideias e das coisas e atacar o problema da motivação inconsciente.
no ângulo exato p a r a que v e j a m o préstito d a existência cósmica tal
Quando, por exemplo, u m a determinada ideia ressurge ínapeíavel-
qual ele realmente é, despojado de fascínio e embustes. I s t o não po-
mente a c a d a instante e acaba por converter-se numa obsessão, eia
derá ser conseguido enquanto o intelecto não f o r b e m esclarecido e
interfere com o livre curso do raciocínio e impossibilita com isso uma
a força dos seus complexos ocultos não desaparecer. A t a r e f a de re-
rigorosa reflexão filosófica. Ou quando u m homem faz restrições men-
ordenar a mente pode ser u m processo assaz doloroso. O t r a b a l h o de tais a determinados pontos de vista acerca de u m assunto ou campo
afastar as falsidades e tolices que a d o m i n a m pode d e i x a r p a r a trás de interesse específico e não permite que suas faculdades a l i operem
algum vácuo. e m s u a plenitude, s u a mente ficará então dividida em dois ou mais
É essencial descobrir quais as forças que estão atuando n a mente compartimentos estanques, os quais j a m a i s poderão interagir logica-
e influenciando o raciocínio e as perspectivas m e n t a i s . U m a vez que mente entre s i . Poderemos ter então o espetáculo de u m a credulidade
o estudante tenha desenterrado a base r e a l das suas ações e atitudes, completa n u m departamento e u m a crítica racional no outro. O ho-
ele poderá filosofar livremente, m a s não antes. P o r m e i o de u m a m e m apresentará u m r e a l desequilíbrio n u m dos departamentos, man-
crítica rigorosa é preciso que desmascare impiedosamente os seus tendo, contudo, apreciável equilíbrio no outro. A excelência deste úl-
motivos ocultos, desejos inconscientes e tendências v e l a d a s . Os com- timo disfarçará os defeitos do primeiro. O problema não é a incapa-
plexos que recamam a porção inferior d a mente h u m a n a e não são cidade de r a c i o c i n a r adequadamente mas u m complexo específico cuja
reconhecidos n e m nomeados respondem e m parte p e l a incapacidade interferência se faz sentir a u m a dada altura. U m a vez mais, quando
de apreender a verdade. U m a fase d a m a i o r importância durante essa o auto-respeito ou o respeito humano exige que se façam concessões à
atividade preliminar é, portanto, aquela e m que se e r r a d i c a esses pa- razão, testemunhamos o curioso processo em que u m a pessoa encontra
rasitas mentais, expondoos à poderosa l u z d a consciência. p a r a as suas conclusões u m a base e m tudo diferente da real. Por essa
m "ti f o r m a e l a se ilude a s i própria e talvez aos outros através dessas ra-
Depois de aperceber-se dos processos secretos d a s u a mente e do cionalizações de desejos egoístas e preconceitos injustificáveis. Tam-
funcionamento secreto dos seus desejos, o estudante irá descobrir que bém constituem dificuldades as ilusões que assumem um caráter rí-
numerosas crenças falsas e distorções emocionais de há m u i t o v i n h a m gido a ponto de proporcionar à razão u m a defesa inexpugnável. Sua
atuando como poderosos empecilhos a u m a c o n d u t a a c e r t a d a e a u m a persistência v i a de regra se registra no domínio das crenças políticas,
nítida percepção d a verdade. Descobrirá s e r pesado o fardo das ilu- religiosas, sociais ou económicas.
sões e racionalizações que carrega e que impedem a e n t r a d a do ver- Trata-se do que poderia s e r chamado de moléstias da mente e,
dadeiro conhecimento. Somente através dessa compreensão p l e n a da- enquanto não forem curadas, impedirão o funcionamento normal da-
quilo que acontece nos bastidores d a v i d a pessoal consciente poderá quelas faculdades que são chamadas a intervir quando nos empenha-
surgir a liberação a f i m de preparar o advento de novos progressos mos n a p r o c u r a d a verdade. Pois determinam os processos do racio-
no caminho derradeiro. As características m a i s íntimas deverão ser cínio e d a ação.
postas a n u , sem concessões de qualquer espécie, procurando-se c o m
destemor compreender as mais amargas verdades a nosso próprio res- E s s a é a auto-revelação que aguarda o estudante. E l a não é agra-
peito. É preciso que nos vejamos t a l q u a l somos, expondo o e u ao e u . dável, m a s se a pessoa tiver a coragem de aceitá-la como u m remédio,
E s s a é a delicada operação psicológica necessária p a r a determinar, a mostrar-se-á purificadora. Não pode haver cura a menos que a pessoa
fim de que sejam suprimidas do processo do pensamento e d a ação, se dê conta de que está enferma.
todas as tendências, alucinações e racionalizações que i m p e d e m a en- É difícil chegar a u m a análise acurada por s i mesmo, e aqui a
trada da verdade n a mente ou que colocam a mente n a t r i l h a errada. ajuda — sempre que for possível — de u m filósofo proficiente, vale
Até que tais influências sejam determinadas através da análise e ex- dizer, u m sábio, será de grande utilidade; mas tais homens são extre-
postas através da perguntação não cessará a u m a ação maléfica. E s s e s mamente raros. O filósofo competente verifica, depois de u m pouco
complexos surgem para dominar o homem e r e t a r d a r o seu l i v r e uso de conversação, quais são os complexos atuantes numa pessoa, sem
da razão. Compete-lhe humilhar-se desde o princípio, não hesitando e m a necessidade de empregar os alentados e não raro fantásticos pro-
reconhecer que o seu caráter, tanto n a fase f r a n c a como n a oculta, é cessos d a psicanálise. Ademais, ele os verá com clareza muito maior
u m a coisa deformada, aleijada e desequilibrada. E m s u m a , é preciso que o analista, pois este decerto carrega u m a carga de variados com-
estudar u m pouco de psicologia antes de abordar frutuosamente a filo- plexos desde que não se tenha submetido à disciplina filosófica! U m
sofia. É preciso analisar as próprias emoções, e x a m i n a r a interação exame dessa natureza só pode ser eficazmente executado por alguém
que do ponto de v i s t a mental seja absolutamente livre.

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91
itanto, estas páginas deverão s e r de algui
e m d i a a percuciente análise psicológica relegou esse mito ao esqueci-
todo o leitor consciente empenhado n u m auto-exame, ao passo que a
mento e m que ele merece ficar. Assim como o poder da cultura
busca incessante do altaneiro ideal da verdade v i a de r e g r a fará muito
física é hoje reconhecido como definitivo, assim como sabemos que
no sentido da c u r a dos complexos. N e n h u m m e s t r e genuíno poderá
os nossos músculos podem ser fortalecidos e a nossa circulação san-
efetuar pelo aluno a s u a autoconquista f i n a l ; ao discípulo cabe promo-
guínea a t i v a d a através da exercitação diária, assim também sabemos
vê-la por s u a livre vontade e através do s e u próprio esforço. M a s a que a nossa capacidade mental e as nossas características naturais
crítica construtiva de t a l mestre será sempre esclarecedora, e s u a pre- poderão ser desenvolvidas de u m a forma bem precisa, se atacarmos
sença pessoal inspiradora. corretamente a tarefa.
E s s e mergulho introspectivo n a s profundezas do caráter e d a ca- — U m a caminhada de m i l léguas começa pelo primeiro passo —
pacidade do estudante é u m a a v e n t u r a que deve s e r f e i t a c o m frieza e diz u m provérbio chinês.
destemor. Inevitavelmente, haverá resistências i n a t a s , oposições ins-
N e n h u m homem sensato irá desesperar-se, portanto, ante as per-
tintivas e impedimentos emocionais p a r a obstar a descida. T a i s fa-
plexidades e dificuldades do estudo desta filosofia. Ninguém chega
tores decorrem naturalmente das tendências inatas, b e m c o m o do meio
realmente a fracassar enquanto não desiste. Por que não haveremos
ambiente, d a educação e das circunstâncias. Trata-se, n a m a i o r parte
de fazer hoje aquilo que outros homens pretendem fazer amanhã?
dos casos, de fraquezas disfarçadas o u repressões psicológicas. Não
Ou — adaptando o verso de Milton: nada recebem, aqueles que se
obstante, ao inteirar-se delas através de u m a t r a n q u i l a autocrítica, o es- l i m i t a m a esperar passivamente. Nós podemos refazer a nossa men-
tudante encontrará n a s u a própria presença — se t i v e r u m a mentali- talidade se assim o desejarmos. Pois as teorias da psicologia e as
dade filosófica — u m incentivo especial p a r a corrigi-las e assegurar realidades da experiência demonstram claramente o fato de que a
à sua v i d a o desejado ajustamento. Exige-se p a r a tanto grande dose capacidade d a mente é extraordinariamente flexível e expansível. Essa
de honestidade intelectual com a consequente r e c u s a e m fugir à reali- capacidade pode desenvolver-se de forma inimaginável quando u m es-
dade, e u m a coragem intelectual a i n d a m a i o r p a r a s u p e r a r o obscuran- forço paciente no sentido de compreender aquilo que na aparência é
t i s m o ; trata-se, portanto, de u m a tarefa p a r a u m herói m e n t a l que incompreensível se aliar à esperança, que é a derradeira das possessões
não se envergonhe de reconhecer que p r e c i s a m u d a r e não receie con- humanas, assim como a sabedoria é a melhor. Por isso, é preciso que
tribuir voluntariamente p a r a as modificações r e q u e r i d a s . É u m pro- nos disciplinemos mentalmente e nos moldemos eticamente para des-
cesso de metabolismo interno que provoca sofrimentos temporários pertar a atitude correta para a árdua jornada que temos pela frente.
mas leva a u m a saúde permanente. E é a única f o r m a pela q u a l o E s s a é a providência preliminar.
estudante pode colocar-se e m condições de d o m i n a r a filosofia oculta.
Se este l i v r o apresenta ao mundo u m a doutrina que exige uma
1 Imensamente difícil é convencer as pessoas a c o n t r a r i a r ou modi- dose i n u s i t a d a de atenção contínua apenas para acompanhá-la, que
ficar os seus antigos hábitos de raciocínio, porque a n a t u r e z a h u m a n a requer da parte dos estudantes u m pensamento concentrado de inten-
é basicamente conservadora. E esses velhos hábitos se r e a f i r m a m sidade pouco encontradiça entre as pessoas, e que professa um ideal
teimosamente a cada passo. No entanto, se a pessoa a c h a r que essas de altruísmo aparentemente inatingível, a sua defesa poderá ser feita
qualificações psicológicas estão muito além do seu alcance, e que esse com auxílio de Thoreau, que disse: — cumpre-nos objetivar os píncaros,
padrão de conduta intelectual é demasiado elevado, não é preciso que embora a turba j a m a i s chegue a alcançá-los.
ela se mortifique. Os notáveis resultados clínicos conseguidos c o m o
auxílio d a psicoterapia estão a m o s t r a r as insuspeitadas forças de Tampouco quer isto dizer que precisamos possuir as características
auto-aperfeiçoamento que existem e m estado latente n a mente h u - requeridas p a r a a perfeição; quer dizer, isto sim, que devemos fazer
mana. Nenhum de nós atingiu o l i m i t e extremo d a s u a capacidade. u m esforço interior no sentido de desenvolvê-las a u m ponto que nos
S e m p r e acumulamos m a i s discernimento quando buscamos novos ho- p e r m i t a captar pelo menos os princípios elementares da filosofia, e
rizontes. Numerosos homens poderiam tornar-se filósofos se se puses- que devemos, mais do que nunca, conservar entre os nossos ideais
sem e m ação, se quisessem pagar o preço de u m esforço persistente aquelas sete qualidades. Assim, a estreita fresta da luz intelectual
e ininterrupto no sentido de romper o encanto dos velhos vícios, se poderá alargar-se até transformar-se numa faixa luminosa capaz de
se dedicassem com afinco a u m tipo de v i d a e m que i r i a m ganhando clarear m u i t a coisa até então obscura. U m começo modesto poderá
fé à medida que as suas possibilidades fossem crescendo. ser suficiente, pois, quando houvermos dominado mais alguns desses
princípios, teremos provado o sutil encanto e o extraordinário fascínio
Anos atrás costumávamos pensar que os homens n a s c i a m c o m u m que se encontram n a alma, profundamente ocultos atrás da fachada
caráter estabelecido, u m grau fixo de capacidade, u m a dose l i m i t a d a proibitiva d a filosofia. Iremos então ceder de bom grado às exigên-
de força mental, e que j a m a i s poderiam exceder tais limites. | Hoje cias p a r a u m maior aprimoramento daquelas qualidades, embora pos-

92 SÉ
samos nos dar conta de que a s u a aquisição p l e n a não poderá se às mais altas regiões do ser. Esse desejo representa u m a oitava acima
consumar de forma rápida e simples. Teremos, portanto, de desdo- do mesmo e profundo anseio para chegar ao coração oculto da vida
a que os místicos denominam de manifestação da Graça; mas aqui
brar as características u m a a u m a , não de u m a só vez.
ele passa de u m a emoção compulsiva para u m calmo pensamento à
Quase todos nós começamos como pecadores; cabe-nos esperar medida que assume u m a forma mais avançada e exige a verdade derra-
que terminemos u m d i a como sábios. M a s há u m a enorme diferença deira de preferência a u m a satisfação temporária. Não são muitos os
entre o homem que se l i m i t a a c h a f u r d a r nos seus pecados e o homem que nascem com esse dom de amar a verdade pela verdade, pois de
que se ergue descontente e insatisfeito depois de c a d a ocasião de pecar. hábito a mente não tem nenhuma propensão a esgotar-se na sua pro-
O primeiro está atolado e s e m perspectivas, ao passo que o segundo c u r a . Aquelas pessoas que mais tarde adquirem tal dom fazem-no
não apenas se movimenta como também o faz n a direção c e r t a . Pois quase sempre e m razão de algum sofrimento profundo, alguma perda
a alegria de enobrecer o caráter, aguçar a inteligência e ganhar for- trágica o u alguma decepção com a religião ou o misticismo. Pode
taleza à medida que vivemos é u m a das inúmeras vantagens d a filo- também o dom despertar através do contato com u m sábio genuíno,
sofia. U m simples olhar p a r a as qualidades necessárias a esse estudo quando a demonstração externa das suasj vantagens, particularmente
purificador mostrará que não se t r a t a de u m m e r o esmalte superficial nos momentos críticos, torna-se não só patente como também chama-
destinado a pôr e m relevo o intelecto do indivíduo e n e m m e s m o de tiva p a r a a mente.
u m ornamento c u l t u r a l ; elas exigem m u i t o do h o m e m m a s , no final,
dão-lhe ainda mais e m troca, pois têm ação preponderante no que O desejo da verdade significa realmente o desejo de livrar-se da
respeita tanto a v i d a m a t e r i a l como a eterna. E s s a s qualidades l e v a m ignorância. Nenhum homem realmente reflexivo pode quedar-se sa-
ainda a u m a equilibrada compreensão d a engrenagem d a v i d a , não tisfeito como u m simples animal sensual, mas depois do pasmo ou
p a r a efeito de demonstrações teóricas m a s p a r a u m a ação efetiva e dúvida inicial perante o espetáculo cósmico terá de empolgar-se com
sensata. Já foi demonstrado que a justificação prática d a religião é o esforço p a r a rasgar o véu que oculta o significado da vida. Cum-
a defesa que ela faz da boa v i d a ; demonstrar-se-á m a i s tarde que a pre-lhe empenhar-se n a extinção da sua ignorância; se ele coloca como
justificação prática d a filosofia é a defesa que e l a faz d a m e l h o r v i d a . dogma que a verdade é inacessível, torna-se com isso inapto. Que ele
Ainda que o presente estudo m a i s não faça, os objetivos práticos e se esforce primeiro, e j a m a i s desista desse esforço, se deseja ponti-
psicológicos que nos apresenta lançam u m sólido fundamento m e n t a l ficar com acerto sobre o assunto.
e moral para u m a personalidade excepcional, que, m a i s cedo ou m a i s E todo aquele que sentir apenas u m a curiosidade passageira tor-
tarde, está fadada a distinguir-se n u m a ou n o u t r a esfera de atividade. nar-se-á igualmente inapto, pois dentro de pouco tempo irá também
E l e será u m guia seguro p a r a u m a conduta adequada e u m a satisfação escapar pela tangente. Com relação à sabedoria o homem tem de ser
dos mais puros e exaltados sentimentos. Nós temos de sofrer u m a u m discípulo ardente ou nada. Mais talhado para a filosofia é aquele
profunda transformação c o m vistas à melhoria da atitude, d a pers- que p a r a ela é atraído por u m a paixão abrasadora pela verdade ao
pectiva e dos hábitos. Assim sendo, aquelas horas dedicadas à disci- invés de u m a repugnância ascética pelo mundo. A verdade exige uma
plina filosófica ou ao estudo não são e m vão. A divindade que por devoção profunda antes de revelar-se. Poucos a desejam com tal
essa forma adoramos recompensa os seus fiéis devotos. intensidade. A maior parte dos homens e das mulheres poderá inte-
S e r i a fácil aos inexperientes subestimar a necessidade dessas sete ressar-se por e l a como u m passatempo ou como um pretexto para al-
qualificações psicológicas, mas o filósofo militante sabe que se trata gum ameno debate social, mas não permitirá de forma alguma que
dos seus mais preciosos atributos. C o m elas ele f i c a pronto p a r a a ela se imiscua n a sua vida. O resultado é que sairão logrados, rece-
iluminação e pode esperar realizar o supremo objetivo d a v i d a , m a s bendo em troca u m pálido substituto, porque assim como nas habituais
sem elas — nunca 1 transações com as coisas materiais o que se recebe é exatamente aquilo
que se paga. De qualquer forma, muito cedo n a busca as pessoas são
A Verdade Acima de Tudo. A p r i m e i r a característica não é senão postas à prova. Aquelas que inconscientemente são insinceras ou cujos
u m forte desejo de encontrar a verdade. O candidato tem de aprender motivos são apenas medíocres ou cujos objetivos são limitados permi-
a pôr-se de joelhos p a r a libertar-se d a ignorância. N e n h u m sábio asiá- tirão que o seu amor por coisas menores porém tangíveis suplante
tico chegaria sequer a tocar no alfabeto da filosofia p a r a qualquer o seu amor pela verdade intangível. Pois virá o tempo em que i r i r
pesquisador se notasse a ausência ou a insuficiência desse desejo. Não entregar-se a profundas considerações, não apenas se desejarem a ver»
é possível atear fogo a u m a p i l h a de lenha encharcada enquanto a dade mais elevada mas também se a desejarem independentemente
madeira não secar u m pouco. Tampouco poderá u m mestre conscien- da s u a amenidade ou não. 0 verdadeiro pesquisador prosseguirá até
cioso tomar u m a pessoa mundana, p a r a quem o mundo dispensa o fim e então aceitará o que vier sem atentar para o sabor, seja est
discussões e está muito bem t a l qual se encontra, e elevar a s u a mente
de néctar o u de veneno, pois ele terá compreendido a implicação e
sentido a força dos dizeres de B a c o n : — N e n h u m p r a z e r s e i g u a l a vada, e, contudo, não podemos esmorecer no nosso trabalho enquanto
àquele de estar a cavaleiro d a verdade. esperamos. O tempo é assim u m fator que deve ser levado em conta.
O salto do Coronel l i n d b e r g h por sobre o Atlântico foi n a época u m
Todo aquele que anseia o u v i r o c h a m a d o d a v e l a d a d e u s a e está h i n o aos céus e m que ele voou. Mas só se concretizou depois de o
disposto a segui-la onde quer que e l a vá, s e j a e m t e r r a desconhecida aviador r e a l i z a r sete m i l viagens preparatórias. 0 encanto da con-
ou e m pensamentos desconhecidos, tornar-se-á u m s e u devotado após- quista filosófica empresta cores vivas a u m nome histórico, mas n a
tolo, base d a história do êxito corre u m rio invisível de labor cotidiano e
persistente. A revelação d a verdade deve fazer-se pouco a pouco dentro
Persista e Tenha Fé.^ M a s a deusa não surgirá c o m o u m a aparição d a pessoa, à ifiedida que v a i acarretando u m a transfiguração n a mente;
e m nosso c a m i n h o ; é preciso p e r s i s t i r i n c a n s a v e l m e n t e n a b u s c a . N a d a contudo a compreensão final poderá ocorrer de forma inopinada.
mais natural, portanto, p a r a alguém portador de u m a tão forte incli-
É preciso que combatamos a nossa fraqueza de propósitos. N a
nação pela verdade do que l u t a r p e l a posse d a segunda qualificação,
v i d a , a v e r d a d e i r a l u t a é a l u t a do homem consigo mesmo. E nela
que é u m a firme determinação de encetar a b u s c a d a verdade e per-
poucos se empenham porque ela exige muito d a pessoa. Não obstante,
severar, aconteça o que acontecer, até que o objetivo f i n a l s e j a conse-
é a única que vale a pena. N a d a grande ou grandioso poderá ser
guido. A b u s c a será, inevitavelmente, u m a a l t a e e s c a r p a d a m o n t a n h a
conseguido simplesmente a custa de desejar. P a r a se receber é pre-
a ser escalada c o m l u t a e esforço, e não u m a e s t r a d a p l a n a onde o
ciso estar preparado p a r a d a r — a s i mesmo 1 Houve certa feita u m
progresso é sempre certo e fácil. E s s e fator de u m a inquebrantável
mestre itinerante n a Galileia que notou u m a corriqueira tendência à
persistência e m meio a toda escuridão e perplexidade q u e envolvem
fraqueza entre os seus próprios seguidores. O mestre foi obrigado a
o estudante é de fato essencial, pois este não deve d e s a n i m a r e aban-
dizer-lhes: — Aqueles que praticarem as minhas palavras conhecerão
donar a busca. É essencial por proporcionar a necessária força pro- a m i n h a doutrina.
pulsora p a r a fazê-lo superar todas as dificuldades, todas as desvan-
tagens e todos os obstáculos, a f i m de que possa chegar ao amargo A mente determinada consegue mais. Quando a válvula de segu-
f i m . Mesmo aquele que sente o desejo d a v e r d a d e deve preservá-lo rança de u m a caldeira a vapor começa a subir, u m maior volume de
c o m cuidado, porque está nadando c o n t r a a corrente d a superficiali- energia começa a sair da máquina. Quando aqueles mesmos'fios que
dade dos nossos dias — t a r e f a difícil porém exequível, p o i s todo aquele conduziam u m a débil carga de corrente elétrica começam subitamente
que está realmente convicto adquire u m a coragem indómita n a s c i d a a receber u m a voltagem maior, resulta a u m a pronta melhoria. E i s
do desespero. aqui duas parábolas que os homens deveriam levar em conta.
Por f i m , a determinação filosófica de estabelecer aquilo que é
Inevitavelmente, os estados de ânimo depressivo aparecerão e de- verdade nega-se a confundir u m a derrota com o fracasso. A primeira
saparecerão, m a s a determinação de prosseguir n a b u s c a t e m de per- proporciona-lhe os dividendos da advertência ou da sabedoria, mas o
sistir. Os camaleões mentais que m u d a m a c o r do s e u objetivo a segundo ela j a m a i s aceita.
cada ano que passa não se p r e s t a m p a r a e s t a empreitada. O investi-
gador deve ser suficientemente paciente p a r a s u p o r t a r impávido as Pensei A terceira característica exigida é a capacidade de pensar
provações e tentações, as perturbações e alegrias, conservando toda a é u m a inteligência suficientemente vigorosa para sopesar a importância
s u a determinação. A s provações não deixarão j a m a i s de lhe s u r g i r relativa das coisas ou a validade das declarações de forma correia e
no caminho d a v i d a e lhe assaltarão continuamente o espírito. não apenas convencional. A filosofia exige perspectiva. Procura ver
as coisas como elas realmente são. Isto implica u m a certa presteza
Voltemos à nossa analogia do explorador p a r a dizer que ele p a r t i u mental sempre atenta ao dito comum porém verídico de que as coisa
p a r a a travessia do norte d a A f r i c a . Se, e m qualquer ponto do trajeto, n e m sempre são aquilo que aparentam. Amiúde o falso parece ou
ele se detivesse por f a l t a de água, pela hostilidade do meio, por causa faz por parecer verdadeiro. O raciocínio deveria ser independente a
de algum ataque de mosquitos ou cobras, j a m a i s chegaria ao cabo da ponto de recusar simplesmente u m a opinião que expressasse o ponto
sua travessia. O pesquisador d a verdade deve u s a r de igual perseve- de v i s t a de todos. 0 rebanho se afunda na torrente das opiniões e
rança dentro d a s u a própria esfera de exploração intelectual e não teorias alheias porque vive sujeito a crenças erróneas do ponto de vis
interromper e m hipótese alguma o seu avanço. É preciso que saiba mental, a realidades aparentes e aparências enganadoras, mas o
como levar avante estudos que não irão produzir quaisquer resultados sador não se abala. A fuga a essa escravidão se faz através da refle
imediatos e como esperar pelo privilegiado momento d a iluminação. correta, da análise profunda e da indagação constante. Talvez a noss
N e n h u m de nós é inteiramente senhor de s i e todos temos de esperar geração não assimile muito essas coisas, mas a mente pioneira
pelo momento azado, pela h o r a destinada d a compreensão m a i s ele- certo o fará. U m a inteligência intensa é necessária. Precisamos peo»

97
sar, precisamos agir, não c o m v i s t a s a nós próprios m a s c o m v i s t a s à
verdade. E s s e cultivo d a percepção r a c i o n a l facilitará a compreensão a penetrar sob as superfícies. Nenhuma inteligência que se recuse a
da filosofia. submeter-se a esse processo de fortalecimento pode desincumbir-se da
empreitada filosófica, ou seja, da busca daquilo que é. Exige-se u m a
Não está aqui toda a implicação. D e i g u a l importância é a aguda compreensão aguçada p a r a eliminar tudo quanto não é verdadeira, to-
capacidade de distinguir o efémero do eterno, a s coisas de u m d i a das das as ilusões e dissipar todos os mal-entendidos. Ademais, essa ne-
coisas de u m a v i d a , o espetáculo passageiro d a existência m a t e r i a l dos
cessidade ficará patente quando, n u m volume posterior, fizermos o
fatores mentais relativamente m a i s permanentes. Poder-se-ia c h a m a r
estudo do significado do sono e do sonho.
de sexto sentido aquilo que sabe o q u e é genuinamente f u n d a m e n t a l
no jogo d a v i d a . S u a ação deve s e r de m o l d e a l e v a r a u m constante O ideal derradeiro é u m a inteligência tão afiada como u m a lâmina
exercício de discernimento entre os valores d u r a d o u r o s e os temporá- de Toledo, de modo que o seu gume possa realmente rasgar as ilusões
rios. E deve a m a r a t a l ponto o fato rigoroso ao invés d a f a n t a s i a e fantasias, os sentimentos e superstições. As ideias mais caras e
deleitável que a determinação de d i s c r i m i n a r o r e a l do ilusório — alegres talvez tenham que desaparecer, quando dissecadas por u m a
coisa essencial através de todo o estudo e prática d a f i l o s o f i a — assu- lâmina tão cortante, pois se verá à medida que o estudo progredir que
m a gradualmente u m a importância máxima. a quase totalidade dos homens abriga u m a quantidade de ilusões ape-
nas porque a movimentação d a sua inteligência é defeituosa e lenta,
A filosofia não pode tornar-se inteligível s e m m u i t o esforço m e n t a l ; e porque a s u a lâmina intelectual não tem fio.
é difícil acompanhá-la — tão difícil que amiúde o esforço é c o m o tentar
c a m i n h a r sobre u m a c o r d a b a m b a intelectual s e m p e r d e r o equilíbrio Isenção Intima. Quando a mente estiver convenientemente afiada
— e aqueles que não q u e r e m o u não podem desenvolver o esforço maior será a sua predisposição p a r a desenvolver a quarta característica.
acabarão achando que algumas p a r t e s deste l i v r o são quebra-cabeças, Trata-se de u m a firme atitude de isenção íntima tanto e m relação aos
por m a i s simples que s e j a a linguagem. Os tímidos de intelecto e episódios desagradáveis quanto e m relação às coisas agradáveis que
os débeis de mente gostam de escusar-se, dizendo q u e t a i s indagações constituem o nadir e o zénite do viver mundano. Qualquer que seja
são dispensáveis. I s t o porque desconhecem o l u g a r do legítimo pensa- a desgraça trazida pela roda da fortuna à vida do estudante, este deve
mento n a v i d a ; e m consequência, não compreendem que e s t i m u l a r o cultivar u m a indiferença oculta, e, qualquer que seja as alegrias ou os
pensamento é tão importante como fornecer-lhe informações. desejos da hora presente, deve conservar u m desapego suficiente para
deixá-los de lado, caso isso se torne necessário. Se o estudante desejar
Entreter-se c o m u n s tantos problemas a f i m de equipar-se p a r a
assegurar-se u m a perspectiva filosófica, precisa manter-se nessa posição
fazer determinadas observações espirituosas e m sociedade não faz
de indiferença, porque as suas vinculações geram u m favoritismo men-
de ninguém u m filósofo. Somente aquele q u e p e n s a a s c o i s a s até esgo-
tal, impedindoo destarte de conseguir u m a atitude imparcial ao pesar
tá-las, que devassa todo e qualquer problema até o âmago s e m hesitar
provas, dar seguimento a investigações ou proferir julgamentos. Ade-
n u n c a ante a oposição dos demais homens, q u e a p l i c a inflexivelmente
mais, t a l qualificação é necessária para que o estudante não corra o
suas conclusões à s u a conduta n a v i d a , merece a designação de filó-
risco de ser desviado da sua busca por engodos passageiros. Pois, se
sofo. Todo aquele que não estiver disposto a e x a m i n a r u m princípio
ele estivesse preso à experiência ordinária do mundo a ponto de con-
com o propósito de a p u r a r se é o u não verdadeiro, apenas por encon-
siderá-la como a única coisa importante, não haveria sequer razão
trar-se diante de alguma coisa desconhecida, não t e m o direito de re-
para encetar essa busca filosófica.
ceber a verdade. E todo aquele que se nega a i n v e s t i g a r u m a dou-
t r i n a porque esta não é corrente no s e u país o u entre a s u a gente, Uma inteligência não estupidificada pelas convenções sociais, pelo
mas provém de u m outro país e de outras gentes, é igualmente indigno status pessoal, pela ambição desmedida, pelo hedonismo hílare ou pelos
desse dom precioso. A razão desconhece as fronteiras geográficas. desejos insatisfeitos, não pode furtar-se a perceber que a vida neste
Nesta esfera da pesquisa filosófica a introdução das s i m p a t i a s políticas nosso globo é u m cambiante fluxo de acontecimentos favoráveis e
ou dos preconceitos r a c i a i s contra algum princípio o u mestre é inteira- desfavoráveis aos quais ninguém pode escapar. E , se essa mesma inte-
mente fatal ao êxito. ligência for bastante aguçada, perceberá também que tudo, d a i n -
clusive, é perecível, tudo é evanescente. Todos os atrativos mundanos,
O homem c o m u m sente-se impaciente ante a reflexão continuada todos os bens terrenos, todas as relações humanas, todos os prazeres
e é dominado pelas impressões i m e d i a t a s ; ele t i r a conclusões dema- sensuais bem como os seus objetos podem morrer ou desaparecer
siado apressadas, amiúde baseando-as e m aparências superficiais e amanhã. Por isso exige-se do estudante de filosofia uma atitude cor-
enganosas. A s s i m sendo, vive presa d a ignorância. E s s a fraqueza é r e i a face a esse encanto enganoso: nem u m cego enfamamento nem
u m defeito que pode ser corrigido por meio d a disciplina. T a l inteli- u m a repulsa total. Deve ele atribuir o devido valor a esse instável pa-
gência p r e c i s a aprofundar e aguçar o seu próprio caráter, e habituar-se norama dos dias que passam, se é que não pretende iludir-se a s i

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icsmo. AO constatar que t u ao 6 r e l a t i v o e q u e as pessoas são provi-
sórias, compreenderá que no máximo lhe poderão p r o p o r c i o n a r u m a zeres comuns, m a s algo bem diferente. U m simples aborrecimento
felicidade relativa e provisória. E l e t e m de c o m p r e e n d e r que é pouco temporário devido a u m a aflição passageira não basta. Exige-se algo
seguro considerar aquilo que é passageiro c o m o o f i m e a essência de m a i s profundo: u m verdadeiro romper de invisíveis grilhões. N a ver-
toda a sua encarnação. Deve, p o r i s s o , t e r seriedade s u f i c i e n t e p a r a dade aquele que possui esta qualidade poderá exteriormente participar
usar s u a inteligência no sentido i n c o m u m d a p r o c u r a de algo que não da m e s m a r o t i n a de obrigações de família, trabalho e diversão, como
morra e não desapareça. S e t a l coisa pode o u não s e r e n c o n t r a d a , isso qualquer mortal, mas no fundo dará o devido valor às coisas, reconhe-
já é outro problema, m a s a b u s c a filosófica é n o sentido de u m a reali- cendo-as como transitórias e sem duração.
dade duradoura e u m a verdade absoluta que t r a n s c e n d e a s i m p l e s opi- E s t a característica não precisa necessariamente divorciá-lo da v i d a
nião humana. Mas não apenas se r e q u e r inteligência p a r a perceber prática e i n d i v i d u a l — ele continuará a c u m p r i r à risca todas as suas
tudo isto, como também coragem p a r a reconhecê-lo. S e f o r dado ao exigências e suas relações externas poderão continuar a existir como
estudante chegar até a q u i ( o que acontece c o m p o u c o s ) , ele estará antes — m a s ele formará delas u m a apreciação algo diferente da habi-
preparado p a r a adotar a atitude p r e c o n i z a d a : u m a c e r t a isenção es- tual. O indivíduo poderá agir da mesma forma que os demais, mas
tóica das flutuações do destino i n d i v i d u a l e u m a ascética equanimi- não se perderá n a sua ação. E l e poderá apreciar as delícias de u m
dade com relação ao prazer. ambiente confortável e poderá saber desfrutá-las melhor do que qual-
quer u m . Não obstante, todas as suas esperanças de felicidade não
Há, contudo, outras inteligências que talvez não s e j a m suficiente- estarão subordinadas a essa base, pois a transitoriedade das coisas
mente argutas p a r a perceber a necessidade de u m a t a l a t i t u d e e a i n d a é algo perfeitamente claro p a r a ele. Nesse sentido pode-se dizer ape-
assim chegarão a ela, como resultante de d e t e r m i n a d a s experiências nas que ele se abstém mentalmente.
pelas quais terão passado. Nelas essa atitude surge e m decorrência
de grandes sofrimentos, perdas amargas, choques súbitos, esforços m a l Tampouco significa esta característica u m enfraquecimento das c a -
sucedidos ou perigos exagerados. T a i s pessoas são amiúde r i c a s e m pacidades mundanas. S u a interpretação correta se fará quando for
enfatizado o fundo e não a superfície da mente. O homem se manterá
experiências terrenas. Quando elas se c a n s a m de c o r t e j a r o i n c i d e n t a l
tão firme e pragmático nos seus assuntos cotidianos como qualquer
em detrimento do f u n d a m e n t a l ; quando se c a n s a m de t a t e a r n a s épo-
empresário, m a s o dever será maior motivação p a r a ele do que o
cas de escuridão e n a m o r i c a r n a s m a i s l u m i n o s a s , inconscientemente
desejo.
formam as características filosóficas por s i m e s m a s . O s sofrimentos
que nos corações femininos provocam os homens indelicados o u in- Se não houver lugar aqui p a r a u m otimismo fácil acerca da vida,
fiéis, tanto quanto a sombria vacuidade que a s m u l h e r e s volúveis tra- não haverá também para u m sombrio pessimismo. O objetivo é de-
zem aos corações dos homens enfeitiçados, podem, e v e n t u a l m e n t e , fazer masiado grandioso p a r a tanto. A pessoa comum poderá mascarar seu
com que surja essa qualificação. O sofrimento intenso i n j e t a no san- profundo desaponto atrás de u m sorriso polido o u de u m cinismo pun-
gue humano u m a certa indiferença c o m relação à v i d a . gente, m a s o filósofo dispensa t a l máscara, e, mesmo que tenha u m
objetivo muito sério n a vida, sabe que pode ser responsável sem ser
As aflições e sofrimentos generalizados q u e de f o r m a tão grave solene. E l e poderá até gostar de rir. E sempre desejará que j a m a i s
atingiram o nosso século foram responsáveis p o r u m a c e r t a iniciação chegue o d i a e m que terá de rir-se de s i mesmo. Mas, se t a l desgraça
a t a l atitude. Quando os indivíduos, apercebem-se de que a existência lhe sobreviesse, sendo u m verdadeiro filósofo, ele não pediria senão
dos seus bens materiais, propriedades e pessoas c o r r e r i s c o , e pode u m favor as seus amigos: envolvê-lo n u m a branca mortalha e despa-
desaparecer de u m momento p a r a o u t r o ; quando e x p e r i m e n t a r a m a chá-lo celeremente p a r a o crematório mais próximo I Pois preferiria
angustiante sensação de perder a s u a riqueza o u a presença de parentes não afligir o mundo com alguém que se tivesse e m conta tão alta a
amados, eles tendem a perder u m pouco d a s u a vinculação m u n d a n a . ponto de esquecer que o seu presente nascimento não é senão u m n u m
Percebem como a v i d a é transitória e instável, e os dias de caos terrí- milhão, e que desse tão pouco valor à realidade a ponto de não poder
v e l e insegurança contínua tornam-se menos atraentes aos seus olhos. v i v e r a sua v i d a externa com a mesma alegria da criança que roda o
Por essa fornia a dor gera a compreensão. C a d a lágrima converte-se seu pião. E se, n a s u a busca da verdade através da força do racio-
n u m mestre. cínio, matasse o que de poético havia em sua alma, pusesse a perde
todas as mais refinadas nuanças de sentimento que lhe haviam prapf
Facilmente poderia a natureza dessa qualidade s e r incompreendida ciado as belas artes e a Natureza, ele estaria liquidado. S e t a l busca
por aqueles que j a m a i s a s e n t i r a m o u j a m a i s a v i r a m e m ação ou, o fizesse chegar ao ponto em que a floresta se transforma tão-somente
tendo visto a sua manifestação teórica, entenderam-na p o r aquilo que n u m a coleção de umas tantas m i l árvores, carente de paz suave e de
não é. E l a não i m p l i c a n u m a fuga ascética à v i d a h u m a n a n e m n u m beleza clássica, ele estaria liquidado. Se não fosse capaz de fazer u m
repúdio da atividade pessoal, n e m mesmo n u m alheamento dos pra-
pausa todos os fins de tarde e m seus quefazeres p a r a a p r e c i a r a s en-
cantadoras tonalidades do pôr do S o l , ele e s t a r i a i g u a l m e n t e l i q u i d a d o . siada frequência ou quando o desejo ameaça submergi-lo, esse homem
0 gosto da apreciação rigorosa p e l a mente lógica não p r e c i s a obriga- torna-se u m desequilibrado. E quando poderosos complexos emocio-
toriamente desbancar o gosto do e n c a n t a m e n t o p e l o coração; n a v i d a nais e n t r a m em choque com a razão, quando os problemas domésticos
há espaço mais do que suficiente p a r a a m b a s a s c o i s a s . ou profissionais absorvem inapelavelmente a sua atenção, ou quando
o temperamento é instável ou vacilante, os conflitos mentais surgem
Assim sendo, é possível e preferível que o d i s c e r n i m e n t o filosófico inapelavelmente p a r a perturbar o homem. E m todas essas situações
responsável pela isenção esteja lado a lado c o m o p l e n o d e s e n v o l v i m e n - é possível conseguir a fixação da mente através da prática da meditação.
to da cultura e d a atividade h u m a n a . A p e r d a do s e n t i m e n t o e u m a n - C o m a s u a ajuda u m melhor equilíbrio entre sentimentos e pensa-
seio desfigurado de v i v e r são menos desejáveis do q u e o c u l t i v o de u m mentos, entre pensamentos e pensamentos, entre paixão e razão, pode
profundo sentimento de isenção e m meio àqueles m o m e n t o s de senti- ser aos poucos desenvolvido e periodicamente obtido. O equilíbrio
mento e desejo. permanente, contudo, só pode ser conseguido terminando-se u m curso
de disciplina filosófica. Não obstante, a meditação nas mãos de u m
Concentração, Calma e Devaneio. A necessidade de assegurar-se praticante razoavelmente adiantado poderá em pouco tempo suprimir
a quinta característica jà foi m e n c i o n a d a e m capítulo a n t e r i o r . Con- da mente a violência e a agitação, bem como pacificar os conflitos.
siste t a l característica n a capacidade de p r a t i c a r a técnica d a m e d i - Os sentimentos exasperados poderão ser dominados, a força da i r a
tação. Os aspectos gerais dessa técnica já f o r a m a m p l a m e n t e aborda- reduzida, e os desejos ardentes que desfiguram a vida poderão ser
dos em outras obras do autor, e a q u i bastará a s s i n a l a r apenas três removidos recorrendo-se à disciplina da meditação. A medida acalma
pontos que o praticante precisará enfatizar, p a r t i c u l a r m e n t e se e s t i v e r a mente, restaurando-lhe o equilíbrio e a uniformidade, ao menos a
empenhado n a b u s c a filosófica também. Não há n e n h u m a preocupa- título provisório. Os iogues hindus denominam essa condição de re-
ção c o m as demais consequências d a ioga. N a v e r d a d e , a s experiên- sistência às paixões momentâneas de autocontrole nivelador. Preferi-
cias ocultas, as visões extraordinárias e outros acontecimentos anor- remos chamá-la de paz interior.
mais semelhantes servirão apenas p a r a estorvar os progressos nos do-
mínios d a filosofia, se a pessoa lhes d i s p e n s a r u m a atenção i n d e v i d a . O terceiro ponto a ser notado é o desenvolvimento do devaneio.
T a i s coisas não têm a q u i n e n h u m a importância, p o r m a i s encorajadoras É ele de profunda importância e do mais alto valor quando, nos es-
que possam s e r no caminho do m i s t i c i s m o . O p r i m e i r o desses pontos tágios m a i s avançados, o estudante tenta colher os frutos derradeiros
é o poder de regular os pensamentos e d o m i n a r a atenção e a seguir dos seus esforços filosóficos, vale dizer a realização da verdade derra-
concentrar-se totalmente e m qualquer direção desejada. A mente pos- deira. É isso que parece no constante esforço do místico cessar a
sui u m a tendência n a t u r a l p a r a correr e m todas as direções e s a l t a r atividade externa, afastar as distrações do meio ambiente, deter o
de u m assunto p a r a outro, e m função d a pressão d a s fixações emo- funcionamento dos seus cinco sentidos e desenvolver u m a condição de
cionais, d a ambiência física ou das imperfeições c u l t u r a i s . T a l ten- completa introversão. E s t a última é aparentada com a profunda abs-
dência pode ser detida e corrigida pela d i s c i p l i n a psicológica d a medi- tração e as disposições criativas notadas nas vidas de numerosos gé-
tação. O poder de deixar-se absorver i n t e i r a m e n t e pelo a s s u n t o e m nios. E s s a interiorização contínua pode consumar-se até mesmo no
pauta pode ser então desenvolvido. E s s a concentração s i g n i f i c a u m a transe, m a s o fator essencial é a capacidade de reorientar a atenção
atenção extrema p a r a o tópico e m consideração, j a m a i s p e r m i t i n d o do mundo das coisas concretas no sentido dos pensamentos abstratos.
que resvale p a r a a preguiça ou p a r a a fadiga. A mente deve deslocar-se Muitos comerciantes e industriais possuem u m a inteligência atilada e
tão-somente p a r a onde a vontade ordenar. M u i t a c o i s a se pode con- aguda m a s , ainda assim, são incapazes de se haver com as ideias
seguir através desse simples poder de concentração. T r a t a - s e de u m a abstratas, pois só conseguem f i x a r a atenção em objetos concretos.
força constante que, dirigida c o n t r a qualquer objetivo o u obstáculo, E s s a capacidade de u m a sutil introspeção é bastante rara.
vence toda e qualquer resistência. O raio de acetileno — que funde
o mais duro metal — é u m bom exemplo de concentração física. Ana- Torna-se agora conveniente explicar u m assunto relacionado com
logamente, a faculdade de f i x a r e reter a atenção à vontade a j u d a , o m i s t i c i s m o e a ioga que não cabia n a explanação anterior e que
e m última instância, a a b r i r caminho através dos m a i s difíceis pro- irá fazer l u z sobre u m problema colocado no primeiro c a p i t u l a Todo
blemas intelectuais. filósofo precisa possuir essas três qualidades de concentração» calma
e devaneio. Sob esses aspectos ele será como u m místico, *roas os
O segundo fator de importância filosófica a se p r o c u r a r n a disci- místicos em s u a maioria não são filósofos. 0 misticismo poderá ser
p l i n a mística é o equilíbrio — u m a disposição m e n t a l c a l m a , f i r m e e agora encarado como u m estágio disciplinador através do qual o fu-
uniforme capaz de aparar todos os choques. Quando as paixões fer- turo filósofo tem de passar, se achar, como ocorre com a maioria,
v e m no íntimo de u m homem, quando a i r a se* incendeia c o m dema- que lhe faltam tais qualificações. A dificuldade de concentrar inteira-

108
mente os pensamentos n a v i d a c o m u m , que é tão f a m i l i a r e pessoal, para a consideração de princípios derradeiros c temas abstratos, a
é assaz conhecida; o quanto não será m a i o r n a p e s q u i s a filosófica, extrema capacidade de atenção do iogue poderá permitir-lhe captá-las
que é tão remota e impessoal? A s dificuldades dessa p e s q u i s a logo com esforço muito menor.
cansam as mentes despreparadas, a menos q u e estas desenvolvam
Ver-se-á a p a r t i r destas observações que a filosofia encara a ioga
previamente a força p r o p i c i a d a p o r essa d i s c i p l i n a . E s e m a completa
da concentração como u m treinamento psicológico de inestimável valor
concentração que mobiliza a mente p a r a u m único f i m , e q u e . m a n -
e recomenda-o a todos quantos desejam aprofundar-se no seu estudo.
tém à distância todos os pensamentos aleatórios, o s esforços no sen-
T a l ioga ajuda n a compreensão do mundo n a medida em que ajuda
tido de captar o significado dos problemas filosóficos o u no de chegar
a modelar o instrumento mental com cujo auxílio se conseguirá essa
às soluções desejadas serão cerceados p e l a resistência. O s alentados
compreensão. O místico que desenvolve o devaneio e a calma através
exercícios de raciocínio a que o estudante de filosofia t e m de entre-
da meditação e aí se detém, preso ao gozo da paz e do êxtase que
gar-se requerem peremptoriamente a presença dessa qualidade. S u a
estará sentindo, permanecerá ignorante da suprema verdade acerca da
mente deve estar a p t a a empreendê-los s e m p e r m i t i r - s e d e s v i a r dos
vida, embora tenha chegado além da maioria n a trilha do autoconhe-
seus objetivos e m razão de ideias exteriores o u de ambiências per- cimento. E l e poderá sentir-se feliz, mas não será sábio. Resumindo:
turbadoras. a ioga do discernimento filosófico é a sequência inadiável da ioga
Ademais, a serenidade d a paz m e n t a l é u m prelúdio essencial a da concentração mental. U m a é chamada a preparar o instrumento
u m a imperturbável investigação d a verdade. O h o m e m i n c a p a z de mental que terá de ser usado pela outra.
manter a s u a mente isenta de conflitos e ansiedades é também inca- Deve-se também repetir que apenas quando corretamente prati-
paz de manter s u a atenção i n i n t e r r u p t a m e n t e f i x a d a n o s assuntos cada a meditação poderá ser de utilidade para esta ou qualquer outra
filosóficos. A compostura exigida p a r a t a l reflexão pode s e r conse- busca. Quando erradamente praticada ou levada ao exagero torna-se
guida através da meditação e será de u t i l i d a d e p a r a e v i t a r as inter- ela u m estorvo à atividade filosófica, ensejando novos males, estados
ferências emocionais, s u p r i m i r a s obstruções ideológicas e p e r m i t i r de espírito e fantasias que não existiam anteriormente e que precisa-
ao estudante abordar os seus estudos c o m u m a m e n t e m a i s c l a r a . F a t o rão ser vencidos. A meditação deve ser prescrita dentro de certos
sabido é que a excitação obscurece a inteligência, q u e é impossível limites. Quando as pessoas perdem de vista esses objetivos discipli-
f o r m a r u m juízo sensato e equilibrado estando a m e n t e c h e i a de i r a ; nares e purificadores do misticismo e os ampliam ao ponto de exclui
mas ambos desaparecem sob a influência t r a n q u i l i z a n t e d a ioga. Mes- todas as demais coisas, elas não apenas fracassam n a supressão do
mo que u m homem possua u m a aguda inteligência, ele poderá com- seus complexos como também chegam a aumentá-los!
prometer o s e u valor filosófico se fizer u s o d e l a e m estado de i r a .
Discipline a Emoção e Purifique o Caráter. 0 sexto deste grupo
A mente deve estar emocionalmente l i v r e p a r a o estudo. Quando al-
de atributos psicológicos que assinalam o estudante competente diri-
gum sentimento de hostilidade p a r a c o m u m o u t r o h o m e m o u o res-
cilmente agradará à maioria das pessoas. E m todos os estágios da
sentimento por alguma afronta feita à pessoa f e r v e m d e n t r o dela, ou
pesquisa filosófica o estudante deve reprimir suas emoções e seus
quando há u m excessivo descontentamento, e l a se t o r n a distraída e,
sentimentos sempre que estes entrem em conflito com a razão. Sem-
e m consequência, i n a p t a p a r a a reflexão p r o f u n d a .
pre que se analisou o processo psicológico, constatou-se que, particular-

1 Posteriormente, no decurso desta b u s c a se tornará necessário des-


considerar o ingénuo relatório dos sentidos físicos e p e n e t r a r n u m a
[região desconhecida p a r a eles. Trata-sfe de u m a t a r e f a difícil, pois o
mente no exame dos problemas complexos, bem como na apreciaçi
das ideias rivais, a tendência das pessoas indisciplinadas a embaralha:
u m raciocínio claro por meio de u m confuso emaranhado emocion
homem médio acredita estar a s u a mente e n c a r c e r a d a n o corpo e, era insopitável. V i a de regra, tais pessoas vêem o mundo e interpre-
inconscientemente, se embaraça c o m e s s a crença, a q u a l se demons- t a m as experiências da vida através dessa bruma. Cabe ao estudante
trará ser e r r a d a . 1 A realizar-se e s t a t a r e f a , i s t o só poderá s e r feito desobstruir o caminho.
libertando p r i m e i r a m e n t e a mente d a s u a auto-reclusâo e tornando-a A personalidade humana encerra em seu seio conglomerados de
a s s i m flexível bastante p a r a e n c o n t r a r e s s a região. O s hábitos d a in- desejos antagónicos e impulsos contraditórios. E l a abriga paixões i n :
trospecção e d a abstração engendrados p e l a meditação demonstram-se tintivas c antigos anseios cujo caráter arraigado nem sempre é sus-
a q u i pré-requisitos indispensáveis. E n a investigação do significado peitado enquanto os momentos críticos não o traz à baila. Todas e
do sono o valor dessa e x t r e m a sutileza m e n t a l será também compre- forças são tão poderosas que é acertado dizer que os homens v i
endido. Ademais, todo o raciocínio metafísico resultará bastante faci- mais do sentimento do que da razão, g A consequência é que pintam
litado pelo recurso a u m a experiência prévia de meditação. E quando a maior parte dos seus pensamentos com desejos e anelos conscientes
a mente for obrigada a deslocar-se r a p i d a m e n t e do m u n d o prático ou subconscientes, com temores irracionais e outros complexos emo-

205
cionais. Não raro colocam cadeias nos próprios pés n a f o r m a de in-
decorosos anelos pessoais que são essencialmente danosos aos seus Os sentimentos facilmente enredam a faculdade do raciocínio,
impedindoo de funcionar com clareza. 0 elemento irracional na alma
interesses. O fluxo e refluxo desses sentimentos e i m p u l s o s empurra-as
h u m a n a está sempre a procurar o sentimento de satisfação e sempre
contra a sua vontade e torna difícil p a r a elas b a s e a r s u a atitude ge-
a evitar o de frustração, simplesmente porque u m produz prazer e
nérica face à v i d a e m fatos concretos o u n u m raciocínio correto.
outro dor. Os povos primitivos que não desenvolveram a sua capa-
Poderemos ver mais claramente o sentido destas declarações ob- cidade de raciocínio fornecem u m a ilustração mais clara desse prin-
servando a emoção sem controle operando e m c a m p o s m a i s amplos cípio que os indivíduos civilizados. E quem não sabe que os vere-
que o individual. Durante os tensos dias d a g u e r r a as paixões se dis- dictos d a r a i v a são em sua maioria efémeros, ao passo que os da razão
seminam entre as pessoas, atingindo não r a r o u m crescendo impressio- são sempre duradouros?
nante. U m a nação pode s e r então levada, como rês ao matadouro, a
As questões que n a filosofia se apresentam à consideração são
tomar decisões fatais aos seus reais interesses. D u r a n t e as eleições
amiúde tão sutilmente balanceadas que a emoção poderá perfeitamente
politicas multidões inteiras caem e m estado de excitação emocional
impor o seu parecer arbitrário à voz fria da razão, impedindo, assim,
e se tornam presa fácil p a r a os demagogos; e m tais ocasiões torna-se
o estudante de perceber a verdade real. E as dificuldades ficarão
Óbvio que as inteligências f i c a m ofuscadas e o raciocínio lógico desa- acentuadas porque os sentimentos humanos sabem como camuflar-se
parece de cena. Os médicos ligados a manicômios s a b e m que quando habilmente. Os desejos humanos, especialmente, são deveras compe-
a excitação emocional das multidões chega ao ponto de não poder ser tentes e m seduzir a razão. Poucas pessoas reconhecem os reais mo-
controlada torna-se reconhecidamente igual aos sintomas d a insanidade. tivos p a r a as suas ações mais importantes. Há numerosas barreiras
As rajadas emocionais mais fortes erigem u m a b a r r i c a d a c o n t r a a qual íntimas a t a l reconhecimento erigidas pela própria pessoa ou então
nada podem os ataques d a razão. A emoção não controlada p e l a razão puramente inatas. E numerosos complexos emocionais envolveram-nas
é u m dos grandes traidores d a humanidade. D u a s emoções poderosas e m suas ataduras que precisarão ser agora penosamente removidas a
— o ódio e a cobiça — respondem e m conjunto por numerosos crimes f i m de que a verdade possa ser vista. Não raro o conhecimento é
n a história do mundo. As paixões criadas pelo sexo são responsáveis distorcido de modo a atender às conveniências da pessoa. É possível,
por terríveis distúrbios. Aqui está u m a das causas dos tradicionais por hipótese, que u m estudante seja dotado de u m a inteligência aguda
vetos que a sociedade v e m colocando à l i v r e e p l e n a manifestação d a e desenvolvida e ainda assim a sua dependência aos desejos faça-o
emoção no convívio humano decente. acreditar n a materialidade derradeira do mundo físico, quando todas
as provas estiverem a indicar que essa derradeira natureza é essen-
O estudante de filosofia e m p a r t i c u l a r não se pode d a r ao luxo cialmente espiritual.
dessas explosões emocionais. E l e sabe que quando o sentimento inunda
a vida do homem, isto se faz e m detrimento d a s u a n a t u r e z a inte- E l e poderá também não gostar desta ou daquela pessoa, porém,
lectual. com o objetivo de compreendê-la, deve estar preparado para impedir
que esse sentimento perturbe a sua capacidade de julgamento. Caso
E u m a vez que o principal instrumento de penetração no domínio
contrário s u a percepção resultará anulada.
da verdade não é senão a própria mente, devidamente aguçada, ele,
mais cedo ou mais tarde, terá de chegar a u m a escolha definitiva O estudante gostar ou não de certos fatos ou de certas experiên-
entre o exercício constante da razão e d a contenção o u o abandono à cias nada t e m a v e r com a veracidade ou a realidade dessas coisas.
emoção e à paixão. Mais do que os outros, deve ele precaver-se contra Se ele teimar e m fazer dessas atrações ou repulsões o seu guia (como
as ilusões fomentadas pelos sentimentos pessoais, c o n t r a a prevalência faz a m a i o r i a das pessoas), então jamais conseguirá descobrir a ver*
do entusiasmo contagioso sobre o julgamento sóbrio, c o n t r a o sacrifício dade ou a realidade. A superfície de u m lago só é capaz de refletir
do fato objetivo à imaginação acalorada o u c o n t r a as ilusões ocasio- s e m distorção u m a imagem quando livre da ação do vento; a mente
nadas pelos sentimentos pessoais o u pelo desejo sexual. E l e não só pode investigar devidamente a verdade quando livre da ação dos
poderá, de forma alguma, descobrir a verdade, se não estiver disposto sentimentos fortes. A racionalização do desejo é sempre agradável
a p a r t i r de u m a posição fidedigna. Não é o prazer n e m a dor pro- mas amiúde pouco proveitosa.
duzidos por u m a ideia ou acontecimento que irão d e t e r m i n a r o valor A esperança d a filosofia está em obedecer à razão e não em frus-
ou a veracidade dessa ideia ou acontecimento, pois tais emoções ape- trá-la obedecendo a desejos desordenados e excentricidades emocionais,
nas revelam algo acerca do seu próprio caráter, mas nada cm absoluto Até mesmo a ambição desequilibrada e a vaidade indevida distorcerão
a respeito da real natureza da ideia ou do acontecimento propria- o raciocínio e impedirão a aquisição de u m conhecimento exalo. Con-
mente dito. tudo, a i r a e o ódio são desencaminhadores confessos. Quando tne-

106 10?
freadas, todas essas emoções são enganosos i n v a s o r e s q u e não obstante Chegamos assim à antiga sabedoria de que, se no reino dos homens
alegam propalar a verdade. Daí, aqueles que i n s i s t e m e m negar a a emoção i m p e r a momentaneamente, no final a razão deverá impor-se.
razão no interesse dos seus sentimentos t o r n a r e m - s e i n a p t o s p a r a esta
busca, da mesma f o r m a pela q u a l aqueles q u e p r e f e r e m m a n t e r des- E s t a s declarações não são agradáveis. É bem provável que venham
a s e r incompreendidas. Portanto, pela segunda vez neste capítulo, faz-se
virtuada a s u a mentalidade, descontrolada a s u a paixão e irrefreada
necessária u m a advertência no sentido de que não se pede ao estu-
a sua repulsão i n s t i n t i v a j a m a i s chegarão a u m a v e r d a d e i r a compre-
dante que mate a emoção íntima e destrua os sentimentos mais calo-
ensão do significado d a v i d a . Pois se entregarão a o esforço fútil e
rosos; isto n a verdade é inteiramente impossível; pede-se apenas ao
até mesmo impossível de acomodar a v e r d a d e n u m rijo leito de com-
estudante que subordine aquelas coisas à razão e não permita que
pulsões involuntárias e i n t e r n a s . aflorem ao topo do seu ser, quando forem irracionais. E l e , com justa
Apenas u m a fidelidade científica aos fatos, a l h e i a a todo e qual- razão e proveito, poderá apelar para a emoção, quando esta se basear
n a razão. S e u objetivo não deverá ser o de destruir os sentimentos,
quer sentimento de ordem pessoal, l e v a i á o e s t u d a n t e a b o m êxito
m a s o de orientá-los e controlá-los. A emoção é parte integrante da
em suas pesquisas. Quando a faculdade do raciocínio está recamada
natureza do homem, sendo por isso indestrutível; é preciso que se lhe
de sentimentos grosseiros e preferências m e s q u i n h a s e l a logo se per-
dê o devido lugar n a vida, mas à razão cumpre dirigir o seu curso
verte inconscientemente. T o d a emoção torna-se p o t e n c i a l m e n t e peri-
sempre que ambas entrem e m choque. Não se deve sufocar nada que
gosa quando avoca a s i o trabalho de o r i e n t a r a razão, ao invés de
mereça s e r conservado, m a s tudo deve ser colocado na devida relação.
ser por esta orientada. A f i m de p e n s a r c o m v e r a c i d a d e , portanto, o
neófito deve t e r a coragem de impor-se u m a r i g o r o s a a u t o d i s c i p l i n a . T a m p o u c o se deve subestimar o valor do entusiasmo conveniente-
É esse o tremendo sacrifício que ele é c h a m a d o a f a z e r : u m a sagrada mente dirigido. E l e proporciona ao novato u m a preciosa força motriz
oferenda daquilo que ele deseja no sobranceiro a l t a r d a q u i l o que é. e o defende dos críticos tendenciosos e da oposição irracional. Na
verdade, todo sentimento é o elemento propulsor na personalidade"
U m a manifestação de sentimento que se tende de f o r m a especial
h u m a n a e, m a i s do que qualquer outra coisa, leva à ação* daí o es-
a colocar em perigo o estudante desavisado é u m e n t u s i a s m o injusti-
petáculo melancólico dos livrescos insensíveis que na prática são in-
ficado. Trata-se de u m a estrela que amiúde b r i l h a c o m intensidade
capazes de fazer j u s aos seus nobres arrazoados.
durante algum tempo, p a r a depois desaparecer no horizonte d a decep-
ção. É sabido que os entusiastas n a v e g a m l i v r e m e n t e nos m a r e s dos N o entanto, o estudante terá com certeza de dominar as estro-
fatos estabelecidos r u m o de u m f i r m a m e n t o m e r a m e n t e teórico; não piantes paixões d a i r a e apagar o pecado abismal do ódio, porqui
raro falta-lhes discriminação e, sobretudo, isenção. P o r i s s o seus j u l - apenas o hábito d a autocrítica irá conduzi-lo à verdade. E m todos
gamentos são quase sempre distorcidos. O investigador deve, portanto, ~~os conflitos é preciso que esta resolução fique bem evidenciada.
ter cuidado p a r a não se deixar a r r e b a t a r p o r q u a l q u e r espécie de en-
É preciso que ele se exija u m a completa candura. O fato de não
tusiasmo quando estiver analisando provas ou formando juízos. Ele r
l desejar e n c a r a r u m problema não deverá ser motivo para desviara
deverá estar sempre e m guarda quando n a presença e s c r i t a o u física ! dele. N e m sempre lhe será possível dominar a onda de sentimento
do doutrinador acalorado, b e m como n a do fanático inflexível. Deverá I interiores n e m deter as compulsões irracionais, mas em tais ocasiõt
recusar-se a qualquer pronunciamento a c e r c a de u m a s s u n t o que não compete-lhe, pelo mínimo, tentar compreendê-las e aquilatá-las pelí
haja investigado além das interpretações equívocas das preferências que são. A s s i m sendo, mesmo ao render-se a elas, o estudante nã<
pessoais. Se não tomar esses cuidados irá decerto a b r i r a porta às estará agindo às cegas. É u m enorme benefício para u m novato
fantasias ou permitir que u m raciocínio especioso v e n h a a enganá-lo. I gar a t a l ponto.
O novato e m filosofia deve dedicar-se s e r i a m e n t e à t a r e f a de impedir
que tanto as aversões emocionais como as s i m p a t i a s emocionais o Seus desejos irão decerto arrefecer ante u m a análise aguda e a
perturbem durante as suas horas de estudo. É p r e c i s o que ele liberte mente com isso se tornará mais calma. E do império dos sentimentos
surgirá inevitavelmente o mais organizado e disciplinado império da
a sua mente das distorções herdadas, i n a t a s e a d q u i r i d a s . È preciso
conduta. O estudante começará a ser u m homem melhor e mais sál
que impeça a s fantasias impossíveis e os a r r o u b o s visionários de trans-
portá-lo p a r a fora de s i mesmo. T o d a s essas imaginações deverão ser Não será surpresa constatar a esta altura das reflexões que a filo-
trazidas p a r a análise ao plano d a mente e a l i s u b m e t i d a s ao escrutínio sofia é u m a coisa mais masculina do que feminina (mais própria do
mais rigoroso e i m p a r c i a l . S e o novato não a d o t a r este processo e não sexo masculino do que do feminino), mais da maturidade Que dfl
se f u r t a r às ditas imaginações — c o i s a viável n o s p r i m e i r o s estágios lescênciaT Geralmente, é mais fácil para os homens do que para H
— ele simplesmente estará retardando o m o m e n t o d a verdade. mulheres seguir este caminho, embora a Natureza forneça uma com-

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freadas, todas essas emoções são enganosos invasores que não obstante
Chegamos a s s i m à antiga sabedoria de que, se no reino dos homens
alegam propalar a verdade. Daí, aqueles que i n s i s t e m c m negar a
a emoção i m p e r a momentaneamente, no final a razão deverá impor-se.
razão no interesse dos seus sentimentos tornarem-se inaptos p a r a esta
busca, da mesma forma pela qual aqueles que p r e f e r e m m a n t e r des- E s t a s declarações não são agradáveis. É bem provável que venham
virtuada a sua mentalidade, descontrolada a s u a paixão e irrefreada a ser incompreendidas. Portanto, pela segunda vez neste capítulo, faz-se
necessária u m a advertência no sentido de que não se pede ao estu-
a sua repulsão instintiva j a m a i s chegarão a u m a v e r d a d e i r a compre-
dante que mate a emoção íntima e destrua os sentimentos mais calo-
ensão do significado da vida. Pois se entregarão ao esforço fútil e
rosos; isto n a verdade é inteiramente impossível; pede-se apenas ao
até mesmo impossível de acomodar a verdade n u m r i j o leito de com-
estudante que subordine aquelas coisas à razão e não permita que
pulsões involuntárias e internas.
aflorem ao topo do seu ser, quando forem irracionais. E l e , com justa
Apenas u m a fidelidade científica aos fatos, a l h e i a a todo e qual- razão e proveito, poderá apelar p a r a a emoção, quando esta se basear
quer sentimento de ordem pessoal, levai á o estudante a b o m êxito n a razão. S e u objetivo não deverá ser o de destruir os sentimentos,
em suas pesquisas. Quando a faculdade do raciocínio está recamada m a s o de orientá-los e controlá-los. A emoção é parte integrante da
de sentimentos grosseiros e preferências m e s q u i n h a s e l a logo se per- natureza do homem, sendo por isso indestrutível; é preciso que se lhe
verte inconscientemente. T o d a emoção torna-se potencialmente peri- dê o devido lugar n a vida, mas à razão cumpre dirigir o seu curso
gosa quando avoca a s i o trabalho de orientar a razão, ao invés de sempre que ambas entrem e m choque. Não se deve sufocar nada que
ser por esta orientada. A f i m de pensar c o m veracidade, portanto, o mereça ser conservado, m a s tudo deve ser colocado na devida relação.
neófito deve ter a coragem de impor-se u m a r i g o r o s a autodisciplina. Tampouco se deve subestimar o valor do entusiasmo conveniente-
É esse o tremendo sacrifício que ele é c h a m a d o a f a z e r : u m a sagrada mente dirigido. E l e proporciona ao novato u m a preciosa força motriz
oferenda daquilo que ele deseja no sobranceiro a l t a r daquilo que é. e o defende dos críticos tendenciosos e da oposição irracional. Na
verdade, todo sentimento é o elemento propulsor na personalidade
U m a manifestação de sentimento que se tende de f o r m a especial
h u m a n a e, m a i s do que qualquer outra coisa, leva à ação* daí o es-
a colocar em perigo o estudante desavisado é u m e n t u s i a s m o injusti-
petáculo melancólico dos livrescos insensíveis que na prática são in-
ficado. Trata-se de u m a estrela que amiúde b r i l h a c o m intensidade
capazes de fazer j u s aos seus nobres arrazoados.
durante algum tempo, p a r a depois desaparecer no horizonte d a decep-
ção. É sabido que os entusiastas navegam l i v r e m e n t e nos m a r e s dos N o entanto, o estudante terá com certeza de dominar as estro-
fatos estabelecidos rumo de u m firmamento m e r a m e n t e teórico; não piantes paixões d a i r a e apagar o pecado abismal do ódio, porque
raro falta-lhes discriminação e, sobretudo, isenção. P o r isso seus j u l - apenas o hábito d a autocrítica irá conduzi-lo à verdade. E m todos
gamentos são quase sempre distorcidos. O investigador deve, portanto, """os conflitos é preciso que esta resolução fique bem evidenciada.
ter cuidado para não se deixar a r r e b a t a r p o r q u a l q u e r espécie de en-
É preciso que ele se exija u m a completa candura. 0 fato de não
tusiasmo quando estiver analisando provas ou formando juízos. Ele
f, desejar encarar u m problema não deverá ser motivo para desviar-sc
deverá estar sempre em guarda quando n a presença e s c r i t a o u física
• dele. N e m sempre lhe será possível dominar a onda de sentimentos
do doutrinador acalorado, bem como n a do fanático inflexível. Deverá :
interiores n e m deter as compulsões irracionais, mas em tais ocasiões
recusar-se a qualquer pronunciamento a c e r c a de u m assunto que não
compete-lhe, pelo mínimo, tentar compreendê-las e aquilatá-las pelo
haja investigado além das interpretações equívocas das preferências
que são. A s s i m sendo, mesmo ao render-se a elas, o estudante não
pessoais. Se não tomar esses cuidados irá decerto a b r i r a porta às
estará agindo às cegas. É u m enorme beneficio para u m novato che-
fantasias ou permitir que u m raciocínio especioso v e n h a a enganá-lo.
\ gar a t a l ponto.
O novato e m filosofia deve dedicar-se seriamente à t a r e f a de impedir
que tanto as aversões emocionais como as s i m p a t i a s emocionais o Seus desejos irão decerto arrefecer ante uma análise aguda e a
perturbem durante as suas horas de estudo. É preciso que ele liberte mente com isso se tornará mais calma. E do império dos sentimentos
a sua mente das distorções herdadas, inatas e adquiridas. É preciso surgirá inevitavelmente o mais organizado e disciplinado império da
que impeça as fantasias impossíveis e os arroubos visionários de trans- conduta. O estudante começará a ser u m homem melhor e mais sábio.
portá-lo p a r a fora de si mesmo. Todas essas imaginações deverão ser Não será surpresa constatar a esta altura das reflexões que a filo-
trazidas para análise ao plano d a mente e a l i submetidas ao escrutínio sofia é u m a coisa mais masculina do que feminina (mais própria do
mais rigoroso e imparcial. Se o novato não adotar este processo e não sexo masculino do que do feminino), mais da maturidade Que da ado-
se furtar às ditas imaginações — coisa viável nos p r i m e i r o s estágios lescência. Geralmente, é mais fácil para os homens do que para as
— ele simplesmente estará retardando o momento da verdade. mulheres seguir este caminho, embora a Natureza forneça uma com-

108
nsação, tornando a t r i l h a do m i s t i c i s m o m a i s acessível às m u l h e r e s .
contrária às m i n h a s ; deve, portanto, ser errónea; este fato não me
As mulheres têm u m a inclinação n a t u r a l a p e r m i t i r q u e a razão ceda
I i n t e r e s s a ; portanto não t e m valor n u m a discussão; aquela explicação
à emoção sentimental, anuviando c o m isso os céus d o pensamento.
/ é de difícil compreensão p a r a mim, por isso ignoro-a em favor de uma
Por questões sociais, as mulheres ocidentais são m a i s i n t e l e c t u a l i z a d a s
o u t r a a q u a l compreendo e a q u a l deve, consequentemente, ser ver-
do que as suas irmãs do Oriente, m a s se a p e g a m m a i s fortemente ao
dadeira !
egoismo. Daí, no que tange a esta b u s c a de v e r d a d e , não se saírem
melhor. Contudo, permanecerá s e m p r e c o m o u m a x i o m a q u e u m a Todos os que desejarem iniciar-se n a verdadeira filosofia devem
mulher excepcional conseguirá sempre libertar-se d e s s a f r a q u e z a , en- começar por deixar de lado esses pontos de vista meramente egoístas.
frentar os motivos inconscientes que a a s s e d i a m e r e c l a m a r à N a t u r e z a O que neles se evidencia é apenas orgulho e vaidade: cuida-se tão
os seus mais elevados direitos. P o r f i m , c o n s t a t a m o s q u e a filosofia -somente de corroborar os próprios preconceitos e não de promover a
se presta melhor às pessoas de meia-idade do q u e aos j o v e n s . Os Dusca d a v e r d a d e ; a l i o estudo 3 i i ÕEFIi fiíipre^ãs visa pjcclmiva
moços deixam-se comover m a i s r a p i d a m e n t e p e l a emoção e p e l a pai- mente a c o n f i r m a r conclusões prévias; o recurso ao mestre se faz
xão do que os m a i s velhos, os quais, possuindo u m a m a i o r experiência não p a r a obter novos conhecimentos mas para ratificar antigas crenças.
n a disciplina d a v i d a , têm a cabeça m a i s t r a n q u i l a . Porém, u m a vez Mantendo o E u e m p r i m e i r a plana no seu pensamento, o indivíduo
mais a magnífica l e i das compensações e n t r a a o p e r a r também aqui. será inconscientemente atraído para numerosos e perigosos enganos.
Pois é privilégio dos jovens p i s a r novos c a m i n h o s do p e n s a m e n t o com A s s i m p a t i a s e antipatias geradas por esses pontos de vista pessoais
u m a ousadia magnífica que f a l t a aos m a i s idosos. constituem empecilhos à descoberta daquilo que u m a ideia ou objeto
realmente é. Amiúde fazem com que u m homem veja coisas que
Abandone o Ego! De todas essas lutas surgirá p o r s i m e s m a a absolutamente não existem, m a s que, através de associações de ideias,
sétima e última característica, m a s o estudante deve entregar-se ao ele i m a g i n a existir. F a t o patológico é que as várias formas de insa-
seu cultivo com plena consciência do que está fazendo e após a m p l a nidade e perturbações mentais estão enraizadas no ego e que todas a s "
deliberação. Trata-se d a disposição de enfocar a v i d a através de u m a obsessões e complexos estão igualmente vinculados ao eu.
lente límpida e não através de u m a lente embaçada pelas predileções Aquele que j a m a i s adotou a disciplina filosófica amiúde se ena-
e preconcepções do ego. T a l v e z essa t a r e f a p r e l i m i n a r de desenvolver m o r a de s i mesmo e a s u a disposição mental fica presa por todos os
conscientemente t a l impessoalidade seja a m a i s difícil que se lhe apre- lados ao pronome E u . E s s e eu priva-o da verdade, bloqueando o seu
senta. No entanto, dificilmente se poderá s o b r e s t i m a r a s u a impor- acesso à percepção correta. Esse eu prejulga de forma inconsciente
tância. Todo o homem que nunca adotou a d i s c i p l i n a filosófica está os argumentos e decide por antecipação as crenças, de modo que de-
inclinado a atribuir aos seus julgamentos u m v a l o r m u i t o m a i o r que saparece a garantia de se chegar às conclusões certas, restando apenas
o devido. V i a de regra, ele p r o c u r a t i r a r conclusões que v e n h a m de voltar, através das justificativas e racionalizações, ao ponto de vista
encontro aos seus mais caros preconceitos e c o n v e n h a m às suas ten- mental inicial. E s s e eu é como u m a aranha apanhada n a sua própria
dências herdadas. È p a r a ele u m hábito não a c e i t a r n u m a discussão teia. Quando tal egoísmo dita o padrão do raciocínio, a razão tem de
senão os fatos que se encaixam perfeitamente nos seus pontos de vista permanecer à parte por impotente. Esse eu tranca a mente dentro
j a existentes. Por essa t o r m a , e não r a r o , v e m ele a r e c u s a r aquilo de u m armário, perdendo assim as vantagens das novas ideias que de
que mais urgentemente necessita, d a m e s m a m a n e i r a p e l a q u a l u m bom grado entrariam. Quando o ego se converte no centro dos esta-
inválido poderá recusar-se a tomar u m medicamento de gosto amargo dos obsessivos, nós nos deparamos com inteligências amesquinhadas
do qual necessita inadiavelmente, por preferir a l g u m a guloseima de" pela intolerância religiosa ou toldadas pelas sinuosidades metafísicas
sabor adocicado."" ou embrutecidas pelo materialismo irreflexivo ou desequilibradas pelas
crenças tradicionais e sobrecarregadas pelas crenças adquiridas —
f Toda vez que u m homem insere o seu ego n u m raciocínio, este
resulta desequilibrado e distorcido no que respeita o seu sentido da todas recusando-se cegamente a examinar aquilo que não é conhecido,
L verdade. Se ele se limitar a j u l g a r todo e qualquer fato pelos padrões que não é agradável, que não é sabido, repudiando tudo a priori. Tais
da sua experiência prévia, impedirá com isso o surgimento de novos inteligências aceitam de boa vontade aquilo que lhes agrada e repu-
conhecimentos. Ao examinarmos as manifestações d a s u a mentalidade d i a m aquilo que lhes desagrada, inventando depois racionalizações
e m palavras e atos, sua atitude habitual (conquanto inconsciente) será para j u s t i f i c a r as suas preferências, mas em nenhum dos casos a
e s t a : — Isto se encaixa dentro daquilo e m que eu creio; deve, por- pergunta: — Isto é verdade? — é investigada independentemente das
tanto, ser verdade; este fato não contradiz aqueles fatos dos quais eu suas predileções, nem é o resultado de tal investigação aceito, quer
I tenho conhecimento; por isso, aceitá-lo-ei; esta crença é totalmente venha de encontro àquelas predileções quer não.

110 111
Significa tudo isto que aqueles que professam as opiniões pessoais B e r t r a n d R u s s e l l assinalou alhures que: — o âmago do enfoque
mais fortes são os mais difíceis de levar à verdade. T a i s pessoas científico é a s u a recusa e m contemplar os próprios desejos, gostos e
precisariam absorver a lição de J e s u s : — Se não vos tornardes como interesses como chave p a r a a compreensão do mundo.
as criancinhas, j a m a i s entrareis no reino do Céu. Trata-se de u m a excelente declaração acerca da qualificação aqui
exigida, d a impessoalidade de toda a investigação do conhecimento,
/ A humildade implicada neste dito t e m sido objeto de m u i t a in-
do registro m e n t a l das coisas como elas são e não como se desejaria
compreensão. Trata-se de u m a mentalidade inocente m a s não p u e r i l .
que fossem, d a colocação de cada problema n u m plano mental própria
Não se trata de u m a dócil submissão a pessoas malévolas ou de u m a
ridícula sujeição a pessoas tolas. Trata-se de d e i x a r de p a r t e todos i O estudante não deve nunca esquivar-se a u m problema. Não se
os preconceitos oriundos d a experiência e todas as preconcepções de- deve f u r t a r a enfrentar seus próprios complexos. Não lhe resta senão
correntes do pensamento inicial até que, ao enfrentar o problema da encará-los resolutamente. E l e tem de, ao menos, ser sincero consigo
verdade, não nos sintamos peados n e m perturbados por eles. Trata-se próprio, tentando colocar-se a c i m a das preconcepções pessoais, pois
de chegar a u m a alienação total das inclinações pessoais e de fugir somente a s s i m poderá v e r as coisas n a s u a exata perspectiva. | S u a
por completo à influência dos pensamentos do eu e do meu. Trata-se afeição à verdade t e m de s e r tão sincera e incorruptível como era a
de deixar de usar como argumento as expressões: — E u penso a s s i m de Sócrates. U m a firme objetividade intelectual ao invés de uma débil
— ou — Ficarei com a m i n h a opinião — e de deixar de c r e r que aquilo esperança emancipará a s u a mente da servidão ao ego e capacita-la-á
que nós sabemos tem, necessariamente, de s e r verdadeiro. T a l argu- a absorver a verdade sem oferecer resistência. A mente será assim
mento leva simplesmente a u m a opinião, e não à verdade. A s crenças alçada a u m a atmosfera de imparcialidade e impessoalidade e habi-
pessoais podem ser falsas, o conhecimento aceito pode s e r fictício. tuada a u m raciocínio ininterrupto de autonegação, que é o único a
£ preciso caminharmos com humildade nestes redutos filosóficos. Os propiciar u m discernimento correto. E mesmo aqueles que consideram
mestres certos são reconhecidamente raros, m a s os discípulos certos essa tarefa demasiado difícil n a vida cotidiana podem ao menos tentar
também o sãol objetivar temporariamente o seu ideal durante aqueles minutos ou
A filosofia é u m estudo puramente desinteressado e deve s e r abor- i horas dedicados a tais estudos.
dada sem quaisquer restrições mentais prévias. M a s as predisposições Onde quer que a verdade conduza, para lá deverá i r o estudante.
estão amiúde tão arraigadas, e por conseguinte tão escondidas, que os S e ele t r a i r a s u a percepção racionalista e se demonstrar u m traidor
estudantes nem sempre suspeitam, e menos a i n d a c o n s t a t a m , a s u a do s e u m a i s alto ideal ante as pressões violentas de preconcepções
presença. Até mesmo alguns dos assim chamados filósofos são por- que e x i j a m u m rasteiro conformismo, ele se condenará à pena de per-
tadores de tuna determinação subconsciente de não a c e i t a r senão aquilo manecer perpetuamente cativo de u m a ignorância banal.
que contam ouvir e sob a influência dessa auto-sugestão p e r m i t e m
E m r e s u m o : a b u s c a da verdade encetada pelo estudante prin-
que as suas inclinações sobreponham-se aos seus julgamentos e que a
cipia pela dependência à autoridade, prossegue com o uso da lógica
prepotência escravize a razão. Por isso o estudante compenetrado deve
e depois d a razão, tem continuidade com o cultivo da intuição e da
extirpar de forma consciente esses confortáveis subterfúgios atrás dos
experiência mística, e c u l m i n a com o desenvolvimento da percepção
quais ocultam as insinceridades e as hipocrisias do raciocínio, suas
ultramística. A filosofia mais elevada é tão sabiamente balanceada e
fraquezas pessoais e seu egoísmo. N o decurso dos seus estudos, e
tão lindamente integrada que não desdenha qualquer das formas de
sempre que a sua mente estiver empenhada e m algum problema, ele
conhecimento, mas usa-as cada u m a no seu devido lugar. Daí, embora
deverá pelejar por livrar-se d a pressão de todas as predileções de
o nome filosofia tenha por vezes sido usado n a sua acepção académica
ordem pessoal. T a l desprendimento mental é r a r o e só poderá ser
referindo-se a u m sistema metafísico, o mais das vezes foi ele usad~
conseguido através de u m desenvolvimento intencional. Deve o estu-
na s u a acepção m a i s antiga e verdadeira referindo-se à visão uni-
dante lembrar-se sempre que lhe cabe p r i m e i r o e n u n c i a r simplesmente
ficada que completa a metafísica com o misticismo e incorpora a re*
e depois analisar com isenção u m caso sob todos os ângulos, antes de
ligião à ação.
preferir u m julgamento. A verdade n a d a teme d a investigação plena, pe-
lo contrário, é por ela fortalecida. S e descobrir então que está errado,
Deye-se fazer aqui uma advertência indispensável: este livro nã
o estudante deverá acolher de boa sombra a revelação e não esqui-
pretende fornecer instrução p a r a o preparo moral para a Busca,
var-se a ela, por condoer-se das machucaduras d a vaidade ferida e
omissão é intencional, pois t a l instrução já foi ampla e livremen
da inesperada humilhação. E l e precisa de u m a completa elasticidade
dada à humanidade por inúmeros professores de ética, escritores
mental a fim de livrar-se da escravidão aos preconceitos e conseguir
giosos, pregadores e profetas. E m b o r a não tenhamos desenvolvido
u m a integridade interior absoluta e u m a saúde m e n t a l genuína.
a matéria porque muito já se escreveu a respeito em numerosos I h

112
. não deverá s e r s u b e s t i m a d a . P e l o con-
t â n r í a

3k
. n A „ assim a sua ímportanw»
o Sunto deve ser < ^ n d o gr^
d o c a n d i d a t o c o m o u m a das
t o

estudante ?

^ u m a vez q u e ele também p m i c a


de filosofia deveria comp^en* „ m o s requisitos p u r i f i c a -
m e s

a meditação, é * J ^ e s t u d a n t e místico. S e os seus exerci-


dores que são P / ? ^ e c
dos perigos a l i envolvidos, ele
cios de meditação devem ser P J * ^ o , enobrecendo a s s i m
s o u t r o s

deverá abster-se sempre a c P J c u l t i v a n d o s u a s v i r t u d e s , essas


T s e u caráter, d o m i ^ P « » d e t o d a religiões,
s a s g r a n d e s
CAPÍTULO V I
virtudes recomendadas pelos
O C U L T O DAS PALAVRAS

Até a q u i vimos dando sequência a este estudo na suposição de


que a s p a l a v r a s usadas, pertencendo ao cotidiano, têm sido bem com-
preendidas tanto pelo autor quanto pelo leitor. Mas a filosofia oculta,
fiel à s u a determinação de não aceitar nada pacificamente, insurge-se
agora contra essa complacência generalizada e exige que conheçamos
c o m m a i o r precisão aquilo de que estamos falando. Na realidade, ela
empresta enorme importância à análise da linguagem e à revelação
do significado como fundamento essencial do raciocínio lógico que
e n t r a n a s u a construção.
Tampouco é o reconhecimento dessa necessidade de esclarecimento
v e r b a l u m a peculiaridade asiática, embora somente a Asia haja cuidado
de satisfazê-la até o seu extremo limite. U m ilustre professor da
Universidade de Londres fez há pouco tempo a seguinte e surpreen-
dente confissão:
— Quando tomei sobre os ombros a tarefa de expressar mi-
n h a própria filosofia e m linguagem não-filosófica, constatei, não
sem espanto, como era vaga a minha própria apreensão do real
significado dos termos técnicos que de hábito emprego com grande
precisão. A tentativa de descobrir-lhes o significado acabou sendo
a p r i m e i r a disciplina filosófica que jamais me impus; disciplina
essa que foi mais valiosa p a r a a compreensão da filosofia do que
qualquer estudo dos textos clássicos.

Quando u m famoso filósofo faz u m a descoberta tão desconcertante


— que equivale a reconhecer que ele m a l sabia o que estava dizendo —
nós devemos estar preparados para surpresas ainda maiores quando
nos dispusermos a examinar a forma pela qual as pessoas comuns
fazem uso d a linguagem. T a l exame forma uma parte essencial deste
curso, já que não podemos fugir às palavras. Estas c o n s t i t u e m o
meio de comunicação, de estudo, de raciocínio e de compreensão. São
os instrumentos com que trabalhamos. Aquilo que será revelado
neste capítulo bem poderá fazer os tímidos encherem-se de surpresa

114
ou recuarem de medo. O estudante que s o b r e v i v e u às humilhações
Por outro lado, é igualmente perigoso para a compreensão falar
do capítulo anterior e se m o s t r a disposto a prosseguir pode agora
demasiado pouco. Dois escolares lêem a palavra caneta. O primeiro,
preparar-se para ver mais alguns dos seus ídolos jogados p o r t e r r a .
pobre, pensa de imediato n u m toco de madeira. O outro, rico, liga
Aqui, porém, os projéteis visarão as p a l a v r a s !
prontamente a p a l a v r a a u m objeto de ouro. O autor que escreveu
Assim sendo, ficamos advertidos a t o m a r e m consideração a grande a p a l a v r a não t i n h a e m mente nenhuma das duas coisas, pois se re-
importância da expressão verbal. E s s a importância nos i n s t a a sermos feria a u m a caneta metálica comum. Assim, declarações fragmenta-
realmente cuidadosos nesse reino d a linguagem e s c r i t a o u f a l a d a . Pois tárias e inconsequentes não podem levar à correta compreensão da
toda a mente se retrata n a p a l a v r a . Nossos processos de raciocínio experiência comunicada. A linguagem deve ser adequada ao signifi-
são em grande parte pensionistas da linguagem. Somos incapazes de cado, quando não o é, somos deixados a tatear n a escuridão mental
desenvolver o pensamento conceptual s e m o c o n c u r s o das p a l a v r a s . ou ficamos então l i v r e s p a r a propor significados da nossa criação, os
A maior parte do pensamento do homem, e m oposição à percepção, quais poderão ser inteiramente falsos.
se faz mais à custa de palavras do que de imagens. A s p a l a v r a s dão
E r r o c o m u m é pensar que o significado da maioria das palavras é
forma ao pensamento e fornecem as ferramentas a s e r e m u s a d a s pela evidente por s i mesmo. 0 fato é que numerosas palavras têm dife-
razão. E m última análise, a s p a l a v r a s não são senão e s c r a v a s do pen- rentes nuanças de significado. A linguagem do incompleto é u m óbice
samento e, como todos os escravos, devem s e r m a n t i d a s n o devido à compreensão adequada. Diz-se com frequência, por exemplo, que
lugar. Talvez tenhamos, por isso, de nos t o r n a r m a i s cuidadosos no u m a determinada providência, se transformada em lei, será u m estouro.
uso que fazemos das palavras, m a s acabaremos t r i u n f a d o r e s embora Mas aquilo que constitui u m estouro p a r a u m a dada pessoa poderá
os nossos vizinhos talvez s a i a m perdedores. ser o inverso p a r a outra. Se o assunto for fazer passar u m a ferrovia
pelas terras de u m lavrador, a proposição poderá ser u m estouro para
Houve certa vez u m político do P a r t i d o T r a b a l h i s t a Inglês que e r a
o público m a s u m inconveniente p a r a o lavrador. Analogamente, é
capaz de subir a u m a tribuna e discorrer c o m fluência e facilidade
perfeitamente inútil que alguém diga estar o mundo progredindo sem
sobre qualquer tema. E l e matriculou-se n u m curso de dois anos no
acrescentar m a i s nada. Os horrores que se desencadearam sobre a
Ruskin College, onde os seus companheiros de p a r t i d o r e c e b i a m o
humanidade durante as duas principais guerras deste século indicam
equivalente a u m a instrução semi-acadêmica. A o s a i r , e r a u m h o m e m u m progresso técnico, m a s não evidenciam qualquer progresso moral
diferente. F a l a v a devagar e c o m hesitação. P o r quê? O aumento por parte daqueles que perpetraram tais atos; bem pelo contrário.
do patrimônio intelectual fizera-o perder a antiga segurança e convic- Torna-se, portanto, necessário particularizar a aplicação dessas ex-
ção: em consequência, ele tornou-se m a i s cauteloso c o m as p a l a v r a s . pressões indefinidas. A menos que se amplie a declaração, tais ex-
0 seguinte ponto a assinalar-se é evitar a tentação de n a aparência pressões são inúteis do ponto de vista do investigador da verdade, por
dizer muito e n a verdade dizer m u i t o pouco. Os homens amiúde m a i s aproveitáveis que sejam n a produção de u m efeito de oratória
mascaram a vacuidade das suas cabeças sob a enganosa abundância ou de u m a sensação de deslumbramento entre u m a plateia irreflexiva.
de uma floreada verbalização. S a n k a r a A c h a r y a , u m sábio h i n d u do
U m a p a l a v r a que é lida mas não é inteiramente compreendida, é
século nono, comparava os prolixos letrados do seu tempo c o m homens
u m a p a l a v r a morta. Se u m sentido totalmente inteligível não voar
perdidos numa floresta de extensas palavras. H a m l e t foi m u i t o elo-
direto d a p a l a v r a falada ou escrita p a r a a mente, nós ficaremos sem
quente n a sua resposta à indagação de Polónio a c e r c a do que estava
proveito. Quanto mais devemos então aprender para dispensar uma
lendo: — Palavras, palavras, palavras.
cuidadosa atenção às palavras que usamos n u m estudo importante ou
O uso abusivo e papagaiado das p a l a v r a s o u apresa o pensamento n u m a momentosa discussão?
ou emaranha-o n u m a sucessão de nós, que p r e c i s a m s e r desfeitos a
E s s a incerteza é a verdadeira causa da qual provém muita contro-
fim de que se possa raciocinar com acerto; ou ainda gera u m a trai-
vérsia desnecessária. Muita polémica intelectual em torno de fatos
çoeira facilidade de leitura que transmite u m a ilusão de progresso
não passa n a verdade de u m a discussão do significado real de certas
no campo do conhecimento. Aqueles que confundem verbosidade com
palavras, sem referência a coisas, tornando-se, destarte, uma disputa
sabedoria e volume com verdade gostam de deleitar-se n u m preten- tão inócua como a de ser a parte convexa ou a côncava da c i n
sioso dédalo de palvras. mas aqueles que sabem quão enganosas são rência que forma o círculo. Quando nos deparamos com u m a lin-
a sabedoria e a verdade tratam as palavras com m a i o r cuidado. Os guagem ambígua, nós nos deparamos com gente traiçoeira, contra a
f primeiros falam antes de pensar, fazendo e refazendo seus passos nu- qual devemos estar prevenidos. Altercações seculares continuam a
/ m a confusão interminável, ao passo que os últimos p e n s a m antes de arrastar-se e m razão desse defeito. Palavras nebulosas foram respon-
k falar. sáveis por dores de cabeça de três m i l anos infligidas a atónitos meta-

116 m
físicos. Como poderão duas pessoas esperar conseguir u m a perfeita tais e l a se t o r n a u m chão perigoso de pisar. Quantas pessoas se
compreensão mútua quando empregam dois pensamentos diferentes empenham e m amargas controvérsias ou discutem em vão, apenas
com relação à mesma palavra o u duas p a l a v r a s diferentes c o m relação porque as m e s m a s p a l a v r a s significam coisas diferentes perante as
à mesma coisa? Quantas discussões evitáveis, quantos debates des- mentes de pessoas diferentes! Se, portanto, escoimar a linguagem
necessários, surgiram em decorrrência dessa c a u s a o c u l t a ? das suas c i l a d a s interpretativas e traduzir perfeitamente o significado
de u m a mente p a r a o u t r a é muito mais difícil do que supõem as
Admitamos que alguém pronuncie a p a l a v r a homem d u r a n t e u m a
massas, como não deve ser mais difícil fazê-lo quando se procede a
discussão da qual participam cinco pessoas. A d m i t a m o s que a pessoa
u m a investigação filosófica! Sócrates foi talvez o primeiro investi-
esteja pensando n u m monge h i n d u de corpo esguio, pele m o r e n a e
gador semântico f o r a d a Asia. Possivelmente entendamos agora por
crânio raspado. O que pode acontecer n a s mentes dos seus ouvintes?
que ele se d e u ao trabalho de i n q u i r i r professores e pedir definições
O primeiro forma a imagem mental de u m h o m e m e x t r e m a m e n t e alto,
de oradores.
forte e corado. O segundo vê u m indivíduo b e m baixo, retaco e de
tez pálida. O terceiro pensa n u m h o m e m de e s t a t u r a m e d i a n a e tez A s s i m sendo, n e m sempre é suficiente definir o significado de
clara. 0 quarto imagina u m homem idoso e grisalho, ao passo que u m a p a l a v r a j amiúde necessitamos definir a aplicação precisa dessa
o quinto compõe o quadro de u m h o m e m j o v e m , de cabelos castanhos. p a l a v r a . E m se tratando de falar ou escrever, é possível que alguém
Alguma destas cinco definições corresponde exatamente à i d e i a do a t r i b u a u m certo significado a u m a palavra, mas que outra pessoa
orador? — Não. — Nenhuma das seis pessoas foi portanto, capaz de entenda diferentemente a m e s m a palavra. Aquilo que parece riqueza
dar u m significado estabelecido p a r a u m a p a l a v r a c o r r i q u e i r a como a u m a pessoa desfavorecida parecerá pobreza ao dono de uma pol-
homem. E s s a palavra aparentemente simples pode d a r azo a u m a p u d a conta bancária. N u m caso como esse torna-se necessário rela-
pletora de definições diferentes. Quando os ouvintes reagem de forma c i o n a r a p a l a v r a riqueza c o m u m a determinada esfera, a fim de evi-
tão disparatada à articulação de u m a p a l a v r a tão c o m u m , quando dei- denciar o seu pleno significado. E m b o r a seja mais próprio das crian-
xam de concordar unanimemente n u m caso tão s i m p l e s , torna-se c l a r o ças que dos adultos f a l a r sem fazer u m a ideia nítida daquilo que se
que numerosos significados contraditórios são criados o u encontrados está dizendo, u m pouco de investigação poderá revelar que as pessoas,
por aqueles que ouvem as palavras, significados estes que j a m a i s pas- v i a de regra, movimentam-se m u n a b r u m a de vagos pensamentos e
saram pelas cogitações daqueles que f a l a m . T a m p o u c o é inteiramente obscuras noções, apenas porque nunca se dão ao trabalho de apro-
evitável a fuga a essas ambiguidades. Aqueles que f a r i a m a p a l a v r a fundar-se n a significação das suas palavras.
homem representar sempre a m e s m a i d e i a t e r i a m i m e d i a t a m e n t e de
Ademais, o significado v a r i a em função do homem que emprega
limitá-la a u m único homem entre os milhões que h a b i t a m a T e r r a ,
a p a l a v r a . E s t e só percebe aquilo que a s u a experiência pretérita e
deixando assim anónimos todos os d e m a i s ! O procedimento é deveras
a s u a capacidade a t u a l lhe permitem. Consequentemente, a mesma
impraticável. P a r a os efeitos práticos d a v i d a c o t i d i a n a b a s t a geral-
p a l a v r a poderá significar muito para u m homem e quase nada para
mente usar qualquer definição aplicável d a p a l a v r a , m a s p a r a os efei-
outro. Não sejamos cegos a tais limitações da linguagem. Para o
tos mais elevados da reflexão rigorosa o hábito torna-se perigoso. 0
camponês pobre d a Itália a p a l a v r a América resumiu em certa época
único método satisfatório é, portanto, exigir o u fornecer u m a descrição
a visão de u m a t e r r a onde abundava a riqueza e para onde era dese-
mais extensa do tipo de homem de que se está falando.
jável emigrar, a f i m de fazer fortuna rápida. A mesma palavra na
E s t e é, porém, apenas u m exemplo de u m a desinteligência decor- mente de u m desempregado operário italiano vivendo em Chicago
rente do uso incompleto de u m a única p a l a v r a . Sabendo-se que a evoca agora u m significado inteiramente diferente: uma terra em que
mesma p a l a v r a traz diferentes imagens às mentes de diferentes pes- i m p e r a u m a l u t a desenfreada e impiedosa pela sobrevivência do mais
soas, o que deverá acontecer quando várias p a l a v r a s de significado forte e onde a pobreza é a i n d a mais dura do que na mãe-pátria.
ambíguo são combinadas p a r a a formação de d i v e r s a s sentenças?
O significado derivado de u m a palavra nada é. Tudo aquilo que
Só se consegue u m a comunicação satisfatória quando u m con- a sociedade o u o indivíduo decidir atribuir-lhe transformar-se-á em
teúdo é comunicado e compreendido pelo leitor exatamente como o interpretação aceita. Apenas o uso importa. U m significado pode
compreendeu o próprio autor. até mesmo v a r i a r de u m século p a r a outro ou de u m autor para outi
O serviço prestado por u m a p a l a v r a dependerá do significado que U m léxico moderno dificilmente concordará com os significados
lhe é dado por aqueles que a u s a m . U m a p a l a v r a que não possui necidos por u m já anacrónico. 0 pensamento tem, inevitavelmem
u m significado comum para todas as pessoas d e i x a de t e r u m v a l o r de tornar-se capcioso quando for inconsequente no uso dos t e r m
comum para todas as pessoas. Quando é u s a d a de f o r m a tão inde- a t r i b u i n d o o r a u m o r a outro significado à mesma palavra. Não que
finida que pode ser empregada com relação a diversos conceitos men- pretenda que as p a l a v r a s permaneçam para sempre fixas no seu

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significado e n u n c a s e j a m u s a d a s a não s e r no m e s m o s e n t i d o . T a l
desejo seria impossível de concretizar-se. Até m e s m o n e s t a n o s s a v r a apenas porque e l a desperta em nós fortes reações. Como deve
época, tão f a r t a e m dicionários, a i m p o s s i b i l i d a d e s e c o m p r o v a . A então estar atento o investigador ao entrar no reino da linguagem!
linguagem é u m fluxo contínuo. E l a s e a d a p t a e r e a d a p t a p a r a As pessoas a m o l d a m os significados aos seus desejos pessoais.
manter-se atualizada. Não é, n u n c a f o i e n e m será estática. Cres- Quando alguém consegue derrubar pela força u m governo, passa a
ce por possuir características de modificação, expansão e p e r d a . chamar-se chefe do novo governo, ao tempo em que aos seus rivais
É passível de nascer e deteriorar-se c o m o q u a l q u e r o u t r a f o r m a r e s e r v a a qualificação de traidores. Durante a luta armada, porém,
da atividade h u m a n a . M a s o q u e é desejável é q u e o s i g n i f i c a d o seja ele próprio m e r e c i a do regime anterior a designação de rebelde e trai-
de início estabelecido c o m c l a r e z a através de u m a definição mútua dor. S e e r a então u m traidor, não terá deixado de sê-lo agora, e, se
e a seguir seja mantido sempre que se u s e u m a p a l a v r a desempenhan- não e r a , nesse caso o governo deposto estava fazendo u m uso total-
do u m papel importante n a instrução o u n a discussão. P a r t i r do prin- mente incorreto de u m a palavra, ou, falando claro, estava propalando
cípio de que já conhecemos o significado é o m e s m o que u s a r antolhos m e n t i r a s . E m consequência, u m traidor nunca é bem sucedido, pois,
mentais. ganhando, d e i x a de ser u m traidor de fato e de direito. Apenas os
derrotados l e v a m a pecha de traidores! E m ambos os casos a palavra
Não há palavras realmente e r r a d a s , c o m o também não a s há cor- representa u m a confusão de pensamento com desejo, assumindo um
reias. O que existe é o b o m e o m a u uso das p a l a v r a s . A p a l a v r a v a l o r puramente privativo.
será deficiente apenas se a compreendermos de u m a m a n e i r a deficiente.
E para efeito de uso cotidiano, p a l a v r a a l g u m a é t o t a l m e n t e destituída Nós costumamos colorir as palavras com emoções pessoais de
de significado, pois a mente a t r i b u i u m significado a c a d a p a l a v r a agrado ou desagrado, faltando, assim, com o rigor. Os líderes traba-
ouvida ou falada. P o r isso, devemos s e p a r a r o significado pretendido lhistas são, não raro, rotulados de agitadores pelos empresários que
não os vêem c o m bons olhos, e de burgueses conservadores pelos ope-
de u m a p a l a v r a do seu significado aceito, a f i m de q u e a comunicação
rários extremistas. A s s i m , se dermos ouvidos a ambas as partes e
seja precisa. Mas é no uso filosófico que s u r g e m os grandes problemas
não tivermos ânimo p a r a fazer u m a análise crítica, acabaremos por
e a l i nós nos deparamos c o m apenas a o u t r a escuridão onde o m u n d o
constatar que líder trabalhista é algo que se pode definir simultanea-
externo só percebe claridade e b r i l h o .
mente como u m revolucionário e u m reacionário! Tais exemplos res-
A Psicopatologia das Palavras. U m ato que j a m a i s se permitirá s a l t a m o enorme valor da análise verbal, por permitir distinguir o
ao matemático é a inserção de favoritismos pessoais, inclinações emo- fato p u r o d a opinião preconceituosa.
cionais ou interesses subjetivos tanto no uso como n a compreensão de Quando o propagandista religioso ou o político polemista usa uma
u m sinal ou símbolo algébrico ou geométrico. O estudante deve apro- expressão como ateu ou radical com u m ardor depreciativo suficiente
veitar a valiosa lição desse especialista e aplicá-la ao t r a t o dos sinais p a r a t r a n s f o r m a r a própria palavra em veredicto antes mesmo que
e símbolos linguísticos, vale dizer, as p a l a v r a s . A s s i m é que numerosas qualquer discussão racional seja possível, torna-se evidente que a ele
pessoas manifestam-se dizendo: — E x c e l e n t e este chá! — quando seria não interessa chegar à verdade acerca dessas expressões, mas apenas
mais correto confessar: — E s t e chá parece-me excelente. despertar comoção e hipnotizar a audiência. Quando u m termo ino-
A diferença entre estas duas f o r m a s linguísticas poderá s e r pouco cente é pronunciado em tom de desprezo ou de asco como se fosse
importante em se tratando apenas de chá, m a s será v i t a l quando se u m epíteto abusivo, as massas mentalmente desavisadas raro se d
tratar da verdade filosófica, pois representará a diferença entre o fato têm p a r a e x a m i n a r como convém a ideia implicada, deixando-se, pel
objetivo e a projeção pessoal inconsciente do fato. N a verdade, n u - contrário, enredar pela sugestão psicológica.
merosas crenças populares erróneas são a consequência dessa lingua-
Palavras-chaves e slogans constituem recursos muito apreciados
gem estruturalmente defeituosa. pelos políticos inescrupulosos, pelos demagogos baratos e pelos anun-
Os fatores psicopatológicos despontam n a f a l a de toda a mente ciantes sem ética que se preocupam mais com os lucros do que com
indisciplinada, quando esta se manifesta. Quando u m objeto ou u m a verdade. T a i s frases são usadas para desencadear na mente da maio-
acontecimento é desagradável a u m homem, este emprega u m termo r i a emoções exageradas, falsas representações, meias verdades inten-
de referência bem diferente daquele que u s a r i a se se t r a t a s s e de a l g u m a cionais ou imagens distorcidas que prejudicam o bom julgamento. As
coisa ao seu gosto. Mas, u m a vez que e m ambos os casos seus senti- pessoas repetem tais slogans na ilusão de que estão raciocinando. Por
mentos individuais — e não o objeto ou acontecimento propriamente mais úteis que tais frases possam ser para os propagandistas, é
dito — ditaram a adoção do termo escolhido, os termos empregados selhável investigar com maior atenção o seu significado antes de
não podem constituir-se em indicadores rigorosos d a referência. Che- tá-las, da mesma forma pela qual se deve examinar os floreados
ga a ser perigoso admitir que conhecemos o significado de u m a pala- oratória objetivando encontrar-lhes a substância.

120 m
H S H " pretensiosos conceitos do conhecimento hipotético, retalhandoos por
As concepções superficiais de t a l f o r m a se e n t r o s a r a m e m nossa a s s i m dizer.
linguagem que as mais verdadeiras só poderão desbancá-las vencendo
uma enorme resistência. O h o m e m c o m u m , i r r e f l e x i v o e falastrão, É possível que os homens encerrem inconscientemente toda a sua
atitude face à v i d a em duas ou três palavras que de hábito pronun-
recusa-se a se preocupar com o problema dos significados, de m a n e i r a
que o filósofo tem de l u t a r sozinho. A linguagem — e s c o l h a de pala-
c i a m com displicência. O processo mental do indivíduo revcla-se tanto
n a m a i s breve frase como n a mais longa sentença. Qual é a nossa
_
vras e de estruturas de sentenças — pode a u x i l i a r o u e n t r a v a r sensivel-
reação 5 p a l a v r a sobrenatural'} A definição de u m clérigo será decerto
mente a busca filosófica, e, por essa razão, o filósofo deve t o m a r m u i t o
piedosa, m a s de u m cético só se poderá esperar sarcasmo. Assim, a
mais cuidado com ela do que as o u t r a s pessoas. O desleixo irrespon-
m e s m a p a l a v r a irá forçosamente dar margem a definições antagónicas.
sável do homem c o m u m é no filósofo u m a f a l t a imperdoável.
Qualquer que s e j a o significado que ambos os indivíduos associem ar-
Os êxitos da ciência moderna devem-se p r i n c i p a l m e n t e a que e l a
b i t r a r i a m e n t e à p a l a v r a , eles acreditarão estar dando uma definição,
lida em essência com fatos. O fracasso d a lógica e d a escolástica me-
quando n a realidade não estão fazendo senão enunciar u m pensamento
dievais deveu-se a que elas l i d a v a m e m essência c o m p a l a v r a s . O
que corresponde ao seu conceito pessoal d a definição. Consequente-
êxito da filosofia oculta n a solução do p r o b l e m a d a v e r d a d e deve-se
mente, pensarão por engano estarem interpretando fatos, quando aqui-
em grande parte a que ela l i d a tanto c o m fatos c o m o c o m p a l a v r a s .
lo que estão interpretando não passa de imaginações, suas ou alheias,
A teologia o u escolástica medieval está c h e i a de n u m e r o s a s pseudo-
relativas a esses fatos.
questões, como, por exemplo, a de quantos a n j o s c a b e m n o fundo de
uma agulha, apenas porque n u n c a se deu ao t r a b a l h o de a p u r a r o P o r último, a definição dada por u m homem depende da sua teo-
quanto realmente sabia. — Melhor é s e r ignorante do q u e teólogo e sa- r i a i n d i v i d u a l a c e r c a do universo. 0 significado torna-se uma criação
ber tantas inverdades — declarou u m h o m e m de negócios a m e r i c a n o da m e n t e ! A s s i m sendo, o elemento da preconcepção pessoal, contra
que tinha s u a própria m a n e i r a de a d o r a r e soube c o m o m o r r e r c o m o q u a l o estudante foi reiteradamente advertido, tenderá uma vez mais
dignidade e elevação quando o Lusitânia foi posto a pique. a intrometer-se nos lugares mais insuspeitados, até mesmo na com-
preensão e no uso que o homem faz dessas unidades de pensamento
Os perigos das construções metafóricas são m u i t o m a i s conhecidos
que se t o t a l i z a m n a linguagem.
que os das frases literais. Quando abordarmos o estudo d a mente
descobriremos como a junção de u m a pequenina preposição c o m u m a T o d a p a l a v r a tem portanto dois significados: o significado externo,
figura anatómica de p a l a v r a é responsável por m u i t a c o i s a e r r a d a no que é o fato o u acontecimento objetivo n a experiência externa, e o
nosso enfoque. Pois quando dizemos que u m pensamento está na significado interno, que é a ideia desse fato ou evento formada na
nossa cabeça, inconscientemente situamos a mente n a c a i x a óssea do mente. O fato propriamente dito e a sua declaração divergirão sempre,
crânio. C o m isso damos-lhe u m a certa dimensão l i m i t a d a no espaço, j a m a i s coincidindo. Qualquer que seja o significado atribuído a um
sem j a m a i s haver investigado a exatidão dessa localização. Descobri- termo, ele não poderá nunca corresponder à coisa que rotula. Pois
remos, ao final da nossa busca, que ela não é e x a t a e que o u s o dessa significado é apenas u m a abstração preferencial — usando-se este termo
perigosa metáfora espacial induz-nos a confusões e erros. no sentido técnico. Todos nós sabemos o que Napoleão disse aos seus
soldados antes da B a t a l h a das Pirâmides, mas ninguém sabe ao certo
Linguagem comum é linguagem descuidada. E l a tolera ilogicida- a e x a t a tonalidade c o m que aquelas palavras foram proferidas nem
des, ambiguidades, irrealidades, ilusões e enganos. A s p a l a v r a s , decla- a exata reação que provocaram em cada u m dos homens. * Por isso,
rações e definições desempenham importante papel n a solução dos seríamos m a i s rigorosos se confessássemos saber algo acerca da fa-
problemas filosóficos. A s s i m , o h o m e m c o m u m m u i t o j u s t a m e n t e se mosa exortação, m a s não sabermos — como jamais poderíamos saber
contenta em dizer: — Vejo u m a árvore. — E s t e tipo de declaração é — tudo a repeito do acontecimento.
perfeita p a r a o uso prático diário, m a s insuficiente p a r a a filosofia.
O estudante tem de aprender a perguntar: — q u a l é o significado cor- As p a l a v r a s nos dizem o que está na nossa imaginação, e não a
reto da declaração de que vejo u m a árvore? — Através dessa dissecação coisa propriamente dita. E l a s traduzem uma definição nossa e não a
da palavra e da sentença obtém-se a inestimável vantagem de s e p a r a r p u r a realidade. Consequentemente, existe uma outra armadilha contra
o fato da asserção e a verdade da presunção. Trata-se de trazer à l u z a qual convém prevenir os incautos. • £ impossível comprovar de ma-
do dia a perene luta entre o certo e o incerto. N a realidade, a p u r a r neira direta qualquer asserção acerca da experiência pessoal de u m
aquilo que sabemos e aquilo que não sabemos, m a s erroneamente indivíduo feita por ele próprio. Só podemos aceitar a verdade de tal
acreditamos saber, é u m a grande conquistai De posse desse conheci- asserção n u m a base analógica ou inferencial, vale dizer, indireta. Diga
mento o estudante poderá progredir; sem ele poderá estagnar ou pas- ele o que disser, a única coisa ao nosso alcance é imaginar a ideia
s a r anos inteiros caçando fantasmas. P o r essa f o r m a ele podará os concebida pela s u a mente. Portanto, quando nos convencemos de qut

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foi conseguida u m a compreensão direta e u m a d u p l a verificação, aqui-
transmitirá apenas u m a aproximação seletiva do pensamento ou da
lo que realmente se conseguiu foi u m a imaginação i n d i v i d u a l . Quando
emoção, do acontecimento ou do fato que está na mente de quem fala.
usamos para u m objeto o mesmo nome que u s a m o u t r a s pessoas,
T a l erro pode transformar o mundo n u m óbice ao conhecimento ade-
amiúde cometemos o engano de pensar que nos referimos todos ao
quado do objeto propriamente dito.
mesmo objeto. Mas objeto algum pode s e r idêntico e m todos os sen-
tidos para todas as pessoas. A m o n t a n h a q u e e u v e j o não é a m e s m a O estudante de filosofia deve, portanto, ter o cuidado de separar a
que vê u m outro observador colocado n u m a posição diferente, por p a l a v r a do pensamento que ela representa e, por sua vez, o pensa-
exemplo. Contudo, nós ambos a designamos p e l a m e s m a p a l a v r a ! mento da p a l a v r a que representa. Só assim poderá perceber com pre-
Sejamos francos conosco mesmos e m tais casos e reconheçamos que cisão o v a l o r que a p a l a v r a tem para ele. Deve analisar as palavras
amiúde elaboramos imagens mentais diferentes d a q u e l a s elaboradas e as estruturas das frases individuais, tornando a traduzi-las para re-
por outras pessoas, ao passo que nós todos colocamos o m e s m o rótulo ferenciais preferivelmente factuais do que imaginados. Isto exige
nessas entidades dessemelhantes. penetrar sob a superfície como faz o cirurgião com a sua lanceta. U m
ponto tem de estar bem c l a r o : o próprio significado de u m a palavra
Um homem que h a j a recebido a notícia d a m o r t e de u m grande pode s e r puramente verbal, isto é, tão-somente u m a coisa real. E se
amigo poderá, se perguntado, explicar toda a s u a t r i s t e z a pelo aconte- a s s i m for, haverá também a questão de saber quanto daquela coisa
cido. Mas o ouvinte poderá apenas c a p t a r p o r alto aquilo que está é simbolizado pela palavra. As sentenças descritivas nos contam algo
escutando e nunca aquilo que o outro está sentindo. E , como a força acerca de u m a parte de u m objeto, mas não nos elucidam acerca do
da expressão verbal do outro poderá s e r f r a c a , m e s m o essa compreen- todo, pois são sempre necessariamente abstratas. Culpa não lhes cabe
são aproximada poderá ser m a i s imperfeita do que e m outros casos. por isso, pois elas possuem, como todas as coisas, suas limitações e
De qualquer forma, o ponto m a i s importante é que e x i s t e e deve e x i s t i r delas não se pode exigir milagres. Isto posto, porém, não é preciso
u m a lacuna entre aquilo que o h o m e m contristado diz e aquilo que que agravemos as coisas comportando-nos com displicência e descaso
realmente sente. T a l lacuna denota o fato de que o significado v e r b a l ao colocar n a m a t r i z linguística o conteúdo dos nossos pensamentos.
é necessariamente incompleto e imperfeito, isto é, i m p r e c i s o !
Ê costume entre os leigos, quando pela primeira vez colocados dian-
E m consequência, a p a l a v r a não pode e não r e p r e s e n t a toda a te desses problemas de significação, afastá-los por imerecedores dc
ideia. E l a nos diz algo acerca d a ideia, não p a s s a de u m excerto u m a atenção especial e por demasiado triviais para uma consideração
significado total, apenas isso. A sensação de enfatuamento que de prolongada. E até mesmo estudantes professos da filosofia não raro
hábito sentimos quando falamos é enganosa. Apenas e m p a r t e ela se se m o s t r a m altamente impacientes quando submetidos a essa inquiri-
ampara, e pode se amparar, n u m a comunicação eficaz. Será o signi- ção daquilo que parece ser tão-só a linguagem do dia-a-dia. Para
ficado da palavra mesa, por exemplo, a i m a g e m m e n t a l que se f o r m a eles trata-se de u m a completa perda de tempo, quando não de uma
n a mente de alguém quando a p a l a v r a é a r t i c u l a d a o u será a ideia tremenda maçada. A tarefa não lhes parece nem vantajosa nem in-
daquele determinado objeto ao qual o ouvinte se senta p a r a comer? teressante. Tampouco deixa entrever qualquer ligação com a busca
Se for este o caso estaremos diante do problema de que a imagem d a verdade. Perguntam o que toda essa preocupação com simples pa-
que se forma n a mente do ouvinte pode d i f e r i r enormemente d a mesa l a v r a s t e m a v e r c o m a filosofia. 0 assunto não deveria interessar
que está sendo pensada por aquele que profere a p a l a v r a . U m a po- apenas aos filólogos?
derá ser u m a mesa de três pernas e o u t r a poderá ser u m a m e s a de
A resposta é que a implicação plena desse estudo semântico só
quatro pernas.
pode v i r c o m u m desenvolvimento mais cabal deste curso. Apenas
As convenções linguísticas não merecem confiança. P r e c i s a m o s , evi- quando esta pesquisa estiver bem adiantada poderá o estudante per-
dentemente, i r além da simples p a l a v r a ou do seu s o m a f i m de chegar ceber por si mesmo por que se insistiu n a importância desta investi-
à precisão. Nós devemos ter presente a c l a r a relação existente entre gação, tendo em v i s t a o fato de que a maior parte das pessoas instruí-
o termo e a coisa propriamente dita. O h o m e m instruído dirá, agas- das supõe compreender muito bem as palavras que de hábito emprega.
tado, que sabe perfeitamente aquilo que a s p a l a v r a s s i g n i f i c a m ; m a s Não obstante, ainda dentro deste capítulo se mostrará u m pouco da
n a realidade ele costuma confundir c o m frequência s e u domínio das re- importância da presente investigação.
gras da gramática e a amplidão do seu vocabulário c o m o conheci- O futuro filósofo que do ponto de vista psicológico se equipou para
mento real que essa estrutura de linguagem representa. Pois p a l a v r a s a s u a expedição encarará todo o campo da existência como território
não são coisas. É fácil confundir a p a l a v r a escrita c o m a coisa pro-
seu. E l e terá de p a r t i r p a r a a exploração da veracidade daquilo que
priamente dita ou esquecer que a p a l a v r a falada não é senão u m a
lê e ouve nas camadas subsuperficiais, d a veracidade daquilo que diz
abstração da coisa que ela significa. Quando muito, u m a p a l a v r a
e escreve, da veracidade do mundo e m torno, da veracidade daquilo

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que pensa e que os outros p e n s a m e d a v e r a c i d a d e do m u n d o interior,
isto é, da mente. Mas é preciso que p a r t a de a l g u m l u g a r e será d a mente, se i m a g i n a que tais problemas são apenas fantasiosos e acadé-
máxima conveniência p a r t i r do ponto m a i s próximo, o q u e s i g n i f i c a micos, pertencendo aos domínios das inúteis discussões medievais, tal
como o problema do número de anjos que cabem no fundo de uma
que deve começar pelas p a l a v r a s , pois todo o r e s t a n t e do s e u conhe-
agulha! N a d a m a i s errado. A solução desses problemas tem uma
cimento terá de ser formulado e m p a l a v r a s .
aplicação tanto prática como filosófica e u m valor deveras insuspeitado
0 candidato p r i n c i p i a portanto a s u a investigação pondo-se m e n t a l por quantos neles não ponderaram longamente.
e linguisticamente tão a contragosto c o m o possível! Há que escon- E s s a exigência de precisão filosófica no uso dos termos não é ar-
j u r a r fantasmas! Pois a m a i o r p a r t e dos h o m e n s , a totalidade talvez, bitrária. Trata-se, n a realidade, de u m a exigência da clareza, já que
tem entretido ténues espectros e lidado c o m t r a n s p a r e n t e s aparições o progresso é obstado pelos conceitos falsos e enganosos. Trata-se de
n a ilusão de que se t r a t a de sólidas f i g u r a s de c a r n e e osso. E m s u m a , u m a exigência p a r a que examinemos as palavras com o fito de estabe-
é preciso descobrir até onde o pensamento e x p r e s s o e m p a l a v r a s é lecer u m a nítida distinção entre fato e falsidade, descobrir os vícios
mera tolice e até onde é comprovável e c o m p r o v a d o ; até o n d e é i n - básicos no emprego das palavras e pôr a n u pressupostos injustificados
compreendido e até onde é corretamente i n t e r p r e t a d o . Q u a n t o m a i s o u inconscientes. Devemos, portanto, estar atentos às expressões inad-
seus significados se tornam claros p a r a o e s t u d a n t e t a n t o m a i s este v e r t i d a s e despidas de significado.
se aproxima d a verdade. A não-ambiguidade é p o r t a n t o u m ingrediente
essencial do bom vocabulário filosófico. O uso arbitrário das p a l a v r a s Estranhas Descobertas Sobre a Verdade, Deus e o Espírito, /k filo-
poderá muitas vezes ser de pouca importância n a e s f e r a d o s assuntos sofia é a b u s c a total da verdade universal, do significado básico de
mundanos, m a s quando se t r a t a r d a recepção o u d a comunicação d a toda a existência. À maior parte dos homens que se filia a u m deter-
verdade será mister o máximo cuidado e m f i x a r o s e u e x a t o signifi- minado credo religioso, culto ou escola de pensamento adota a atitude
cado, excluindo a s s i m a possibilidade de q u a l q u e r incompreensão. de considerar tais doutrinas como a última palavra da sabedoria, ati-
tude de hábito eivada de contradições^ A implicação inconsciente
C o m u m conjunto de termos b e m definidos c o n s t i t u i n d o u m a lin- dessa atitude é e s t a : — Eu sei que isto é verdade. — Mas como lhes
guagem c o m u m entre o escritor e o leitor, a m b o s poderão a l m e j a r é possível ter certeza de que aquilo que sabem é verdadeiro, se não
algum progresso. S e m t a l conjunto ambos poderão c a i r n a v e l h a es- f i z e r a m previamente u m exame crítico e analítico das bases do seu
parrela de erigir toda u m a e s t r u t u r a filosófica c o m b a s e tão-só n a conhecimento, se não fizeram u m estudo semelhante de todas as dou-
ambiguidade. trinas comparativas e antagónicas, e, a c i m a de tudo, se ainda não
Considerar essa dissecação v e r b a l c o m o p u r o p e d a n t i s m o é, por- f i z e r a m u m esforço no sentido de determinar o exato significado da
tanto, u m grave erro. Ela é parte do equipamento essencial para a verdade? N a d a melhor p a r a conseguir u m a visão da aplicação filo-
comprovação da verdade. Todo aquele que não d i s p e n s a r o tempo ne- sófica dos princípios o r a estabelecidos do que começarmos a examinar
os significados atribuídos a essa palavra verdade por alguns dos nossos
cessário a esse esforço preparatório está fadado a não p e n e t r a r n a ante-
contemporâneos.
câmara da filosofia. Quantos esperam furtar-se a esse e x a u s t i v o l a b o r
e ainda assim colher os tardos frutos d a f i l o s o f i a ! M a l s a b e m eles Será conveniente nos darmos ao trabalho de apurar aquilo que os
que o domínio da análise v e r b a l lhes permitirá d e s m a s c a r a r posterior- eruditos têm a dizer acerca d a verdade. N u m dicionário comum en-
mente os argumentos tendenciosos e o s falsos p r e s s u p o s t o s , p r e p a r a n - contramo-la definida c o m o : — u m a declaração r e a l ; u m a representa-
do destarte o terreno p a r a o s e u progresso r u m o d a v e r d a d e ! P o i s a s ção a c u r a d a ; u m a explicação real. — Quando recorremos aos filosofe
palavras desabrocham e m sentenças que, por s u a vez, g e r a m s i s t e m a s p a r a verificar-lhes a definição, deparamos com u m a interessante varie-
inteiros de asserções que constituem encadeamentos c o m p l e t o s de r a - dade de teorias e opiniões sobre a verdade! Diz a escola Pragmática,
ciocínio. S e as próprias p a l a v r a s pressupõem a q u i l o que n a realidade com W i l l i a m J a m e s , que — verdadeiro é tudo aquilo que se demonstra
é falso, quem poderá chegar à verdade m i s t u r a n d o p a l a v r a s c o m p a - bom e m matéria de crença. — Os defensores da teoria da Correspon-
lavras? dência a f i r m a m q u e : — verdade é aquilo que está concorde com os
fatos e corresponde a u m a situação real. — Os protagonistas da teoria
Se os homens i n s i s t i r e m n u m a atitude de indiferença p a r a c o m os
da Coerência a f i r m a m que verdade é coerência. Outros dizem que a
problemas do significado ficarão inaptos p a r a prosseguir nos estudos p a l a v r a verdade é passível de quatro outras interpretações; em pri-
filosóficos. Pois o efeito psicológico d a s u a obstinação é n a d a menos meiro lugar pode ser considerada como algo que não é contestado. E m
que o abandono da atividade de pensar e n a d a m a i s que u m a silen- segundo, pode ser tomada como u m a indicação da realidade factual;
ciosa pretensão de sapiência, a qual, n a verdade, i n e x i s t e no i n t e r i o r d a s e m terceiro, pode ser considerada como u m a simples asserção acerca
da realidade f a c t u a l ; por f i m , pode ser a indicação da corre ta relação
suas cabeças. É como u m a súbita p a r a l i s i a da faculdade d o racio-
cínio. 0 resultado é u m a aceitação dos argumentos especiosos. Tota-
127
i s
existente entre duas coisas, duas pessoas o u duas u n i d a d e s como precisamos de ui ra nos orientar os passos,
3 + 2 = 5. u m homem de carne e osso ou u m a bússola mecânica. U m a definição
Podemos perceber nesse amontoado de definições m u t u a m e n t e con- fidedigna de verdade f i x a r i a u m rumo certo p a r a os esforços dos pen-
trárias que a p a l a v r a é tão versátil que a rigor não é senão u m estra- sadores, mostrando-lhes o caminho a ser seguido para a s u a conse-
nho jargão e que a crença generalizada de que todos conhecem o seu cução. S e r i a como a agulha magnética que adverte quando se está
significado é errónea. A s diferenças n a conotação são demasiado gran- perdendo o caminho ou cometendo u m erro e que incentiva e encoraja
des p a r a fazer sentido. Contudo o m u n d o u s a l e v i a n a m e n t e essa pa- quando se está no caminho certo. S e r i a como u m a estrela polar no
lavra verdade e j u l g a possuir j u s t a compreensão do s e u significado. céu mental fulgindo perpetuamente p a r a que não se perca tempo em
Claro que o mundo se engana. O h o m e m c o m u m é logo v i t i m a d o pela infrutíferas especulações n e m e m teorizações complicadas. E não é
sedutora simplicidade dessa breve p a l a v r a e não s u s p e i t a j a m a i s que tudo. E s s a definição evitaria que as pessoas se iludissem aceitando
se trata do ponto de p a r t i d a d a compreensão filosófica. P a r a ele tra- u m a verdade apenas por ela lhes saber agradavelmente. E v i t a r i a que
ta-se, no entanto, d a m e t a f i n a l ! tomassem a sua própria imaginação — bem como a imaginação alheia
— acerca d a verdade como sendo a própria verdade. Propiciaria u m a
A coisa mais difícil do m u n d o é chegar à v e r d a d e , a m a i s fácil é
segura perspectiva final que não é dada àqueles que não sabem se aquilo
chegar a u m simulacro d a verdade. P o r isso, todo h o m e m imagina
que sabem é verdade ou não e que, por isso, estão sempre propensos
conhecer a verdade. No dicionário filosófico a p a l a v r a d e v e r i a mere-
a mudar de opinião.
cer o lugar mais importante, t a l como acontece n o s m e l h o r e s textos da
Índia, mas o Ocidente foi incapaz de e n c o n t r a r u m a definição f i x a a Pode-se oferecer agora mais u m aspecto do valor filosófico de u m a
gosto de todos os seus pensadores. D e modo geral não se cuidou do vigorosa análise verbal. Quantos homens se apavoram ante u m a pa-
problema de definir a verdade, e m b o r a s e j a do domínio de todos a l a v r a imponente como Deus, ficando com isso impedidos de fazer u m a
importância do princípio geral de definir o s t e r m o s . M a s a crença tranquila verificação e u m a análise imparcial de todas as suas i m p l i -
comum é a de que a natureza d a verdade d e r r a d e i r a não pode ser cações? E i s aí u m a palavra que proporciona grande conforto e má-
determinada e, portanto, é inútil tentar definir o incognoscível. M Po- gico alívio a milhões de pessoas, mas o pesquisador d a verdade —
rém, se a filosofia pretende l e v a r a cabo os seus objetivos de a p u r a r infelizmente! — não pode amparar-se nela antes de haver refletido
o significado do Todo, isto é, a verdade do Todo, que m a i s espera os mais demoradamente n a ideia do que n a palavra. Porque a sociedade
seus escritores e leitores senão u m mergulho n a o b s c u r i d a d e quando v e m usando ininterruptamente a palavra através dos séculos certas
a sua palavra m a i s importante escapa a qualquer definição inconteste? mentes superficiais tendem a acreditar que o termo representa algo
Aqueles raros, no entanto, que f i z e r a m a t e n t a t i v a de defini-la oferecem que existe dentro d a experiência humana, algo que é. O estudante
explicações tão desabridamente diferentes que se t o r n a patente esta- precisa, porém, analisar inicialmente do ponto de vista psicológico
r e m oferecendo meras opiniões sob a elaborada f a c h a d a d a linguística. aquilo que foi feito. Pois é necessário começar as investigações com
Todas as definições correntes têm as suas falhas e p o d e m s e r pulveri- u m a base isenta de dogmas e ainda assim favorável ao desenvolvimento
zadas por u m a mente atilada. da compreensão, caso contrário tudo ficará em mero palavreado. U m a
definição específica e rigorosa tem de ser o ponto de partida no estudo.
Chegamos com isso à surpreendente posição de que o significado O estudante não tem a sorte dos gárrulos clérigos e sábios teólogos
das palavras mais importantes usadas n a b u s c a d a v e r d a d e não é que f a l a m em Deus c o m intimidade e segurança suficientes para dar
fixo mas apenas relativo à interpretação de c a d a u m . T a l descoberta
a impressão de que eles próprios estavam presentes quando E l e criou
ajuda contudo a explicar por que B u d a conservou-se e m silêncio quan-
o mundo, ou, pelo menos, como diria Matthew Arnold: — Fosse E l e u m
do alguém o interpelou a respeito d a n a t u r e z a do N i r v a n a e p o r que
vizinho de bairro.
Jesus se manteve igualmente calado quando P i l a t o s lhe perguntou so-
bre a natureza d a verdade. Qualquer resposta fornecida p o r u m deles A p r i m e i r a coisa então descoberta é que essa palavrinha de quatro
encerraria, inevitavelmente, alguma coisa i m a g i n a d a , e m consequên- letras pode ser compreendida em vários sentidos diferentes. À medida
cia, alguma coisa diferente n a s mentes do interrogador e do interro- que o indivíduo vasculha o conglomerado de associações piegas que
gado. Mas a explicação completa desses misteriosos silêncios cabe à o termo possui, ele v a i constatando que os homens podem pronunciar
parte mais adiantada deste curso. a p a l a v r a Deus, mas há importantes diferenças de ponto de vista por
Talvez se pergunte onde está a importância de se chegar a u m a detrás de c a d a manifestação embora o som seja sempre o mesmo. A
definição universalmente aceitável e inteiramente irretorquível d a na- p a l a v r a pode referir-se a u m ser pessoal ou impessoal, pode reportar-se
tureza d a verdade antes de se chegar à verdade p r o p r i a m e n t e d i t a . A à abstrata totalidade das leis d a Natureza ou a u m a existência indivi*
resposta é que nós somos como exploradores n u m continente desco- dual e m particular, a u m pedaço de madeira entalhada ou a uma ima-

128 129
gem fundida em metal. Segundo o h o m e m p r i m i t i v o trata-se tão-só
consulta ao dicionário c o m o fito de encontrar u m a resposta p a r a
de u m termo animista, ao passo que p a r a o f i n a d o L o r d e Haldane
esta p e r g u n t a : — Q u * 6 a significação de Deus? — Deve o estudante
a

trata-se de u m termo abstrato e absoluto. O e s t u d a n t e não deve limi-


saber que todos os dicionários não passam de tentativas de estabilizar
tar a sua investigação ao conceito corrente a p e n a s n o s e u m e i o ambien- os significados e que j a m a i s chegam a alcançar plenamente os seus
te, no seu próprio país ou entre a s u a raça; ele é u m pesquisador da objetivos, porque dicionários diferentes oferecem significados dife-
verdade de toda a v i d a e deve, por isso, r e u n i r e c o m p a r a r os conceitos rentes e, a f i n a l de contas, não são senão indicadores de opiniões inter-
vigentes em todos os quadrantes do globo. Descobrirá então a exis- pretativas existentes por ocasião da compilação: sua autoridade não é
tência de deuses raciais como Jeová, deuses t r i b a i s e m profusão, dita- absoluta. A única saída será reformular a pergunta nestes termos:
dores universais personificados — como V i s h n u —, e espíritos impes- — O que sente a m i n h a mente quando e u faço uso dessa palavra?
soais e universais totalmente amorfos; e que a m e n t e h u m a n a , e m sua O que há n a experiência do mundo ou da v i d a que corresponda ao
primitividade, adora u m a Divindade totalmente d i v e r s a d a q u e l a que termo Deus?
adora n a maturidade.
Assim, quando refletimos a fundo no significado do significado
A tentativa de penetrar no significado desse t e r m o e fixá-lo em constatamos que não se trata, afinal de contas, senão de u m a ideia da
sua plenitude leva, destarte, o estudante a e m p r e e n d e r u m a t a r e f a esta- mente, de u m pensamento que entretemos ou mesmo de u m a imagina-
fante, além de interminável e inconsequente. P o i s , faça o q u e fizer, ção que construímos. E , por possuir u m a existência puramente mental,
ele jamais terá condições p a r a descobrir exatamente a q u i l o que se é impossível comparar a ideia contida n a mente de u m homem com a
quer dizer com â pequenina p a l a v r a . Cabe u m a i n f i n i d a d e de estranhas ideia contida n a mente de outro. Objetos exteriores como dois lápis
interpretações. P a r a quinze pessoas diferentes poderá h a v e r quinze podem, facilmente, ser colocados lado a lado e comparados, mas não
interpretações diferentes. Talvez n e n h u m a o u t r a p a l a v r a registrada duas ideias internas. Consequentemente, aquele que ouve ou lê uma
p a l a v r a pode e v a i imaginar apenas aquilo que prefere como signifi-
no dicionário tenha margem a tantas explicações nebulosas. Tudo
cado. P o r essa forma, a comunicação exata e a recepção perfeita fi-
quanto lhe é possível descobrir é o que u m a multidão de pessoas,
c a m frustradas. T a l frustração só poderá ser evitada entrando-se com
abrangendo desde o simplório nativo das I l h a s F i j i até o sofisticado
m a i s cuidado n u m cauteloso exame e n u m a definição prévia. Quando
portador de u m diploma universitário, i m a g i n a , a c r e d i t a , deseja, supõe,
o estudante houver compreendido não apenas como avaliar o valor
ou espera venha a ser o significado, m a s ninguém — n e m u m a só
das palavras, m a s também como avaliar o significado do significado,
pessoa — sabe realmente o que é. A intrigante consequência é que
então virá a descoberta daquilo que Deus realmente é — e m contra-
todas as definições propostas se contradizem entre s i . A diversidade
posição com aquilo que alguns pensam que é — antes disso: nunca!
das definições de Deus, fornecidas não apenas pelos selvagens incultos
T a l descoberta não virá logo, e não se fará senão no f i m d a busca
mas também pelos indivíduos mais eruditos, é d e v e r a s escandalosa. filosófica, m a s surgirá com certeza se houver perseverança, e, a partir
Pouquíssimos deuses mentais são parecidos. C o m o é obrigada a usar de então, não haverá mais o risco de ser enganado por imagens escul-
as palavras como elementos primordiais do s e u raciocínio, como o pidas ou deuses falsos.
significado precisa primeiro assumir a f o r m a de p a l a v r a s p a r a depois
ser devidamente apreendido pela inteligência, essa r u i d o s a multidão Outra p a l a v r a que muito tem contribuído para aturdir os homens
dos que falam acerca de Deus não sabe n a verdade o q u e está dizendo, ou fazê-los c a i r e m armadilhas é a palavra espiritual. Tèm-na usado
não conhecendo o" significado preciso d a p a l a v r a . E não apenas não os chefes totalitários p a r a rotular os seus pontos de vista sobre a vida,
sabe essa gente o que está falando como também não a compreendem mas têm-se valido dela por igual os maiores adversários desses dita-
aqueles que a escutam. Pois as ideias formadas n a s mentes destes dores ! Há algo de irónico n a forma pela qual ditadores e democrata
últimos serão decerto b e m diferentes do que a s f o r m a d a s n a s mentes se assacam mutuamente a pecha de materialistas e não-espiritualizados.
dos oradores. Todos, n a verdade, o b j e t i v a r a m seus pressupostos in- Obviamente, as ideias dos políticos acerca dessa simpática palavra são
deveras confusas. Quando, porém, entramos nas esferas da religião
dividuais n a palavra e através desta no mundo que os rodeia.

I
e do misticismo a cõnfiisão aumenta ainda mais. Fala-se de expenên-
O estudante de filosofia não deve submeter-se s e m resistência a cías espirituais que, submetidas a u m a apreciação analítica, demons-
uma situação tão extraordinária. £ preciso que ele se coloque de so- tram-se magníficas manipulações emocionais, ou fugas extremamente
breaviso e tome medidas profiláticas c o n t r a esses sérios perigos que imaginosas, o u belos estados de intensa paz, ou grosseiras conversões
ameaçam a sua saúde mental. £ preciso que s u b m e t a à p r o v a do sentimentais, ou visões de seres imateriais e assim por diante. As i n -
pensamento desinteressado todo o falatório a c e r c a de Deus que cons- terpretações possíveis são por isso numerosas. Por fim, se dissermos
tantemente lhe chega aos ouvidos ou lhe passa diante dos olhos nas que determinado homem é muito espiritualizado, u m dos ouvintes
páginas impressas. Isto não poderá s e r feito através de u m a simples entenderá que ele é nobre de caráter, outro que ele possui u m tempe-

JSJ
130
ramento tranquilo, u m terceiro imaginará que ele l e v a u m a v i d a de
ascética simplicidade, u m quarto pensará n u m a v i d a e x t r e m a m e n t e atirado n a serpente antes de acercar-se dela. E , com enorme surpresa,
religiosa, ao passo que u m quinto ouvinte pensará q u e ele v i v e n u m constatara ao aproximar-se que não se tratava de u m réptil mas s i m
misterioso estado de consciência desconhecido d a m a i o r i a dos mortais de u m rolo de corda. A obscuridade os h a v i a enganado a ambos! A
e assim por diante. Assim, cada definição difere de todas a s demais. serpente não passava de u m produto de suas imaginações, de u m auto-
-engano inconsciente.
Analisemos agora com maior profundidade as implicações da pa-
lavra espiritual. Qualquer que seja a n a t u r e z a d a experiência o u cons- S e r i a u m fato o rapaz haver visto a cobra? A resposta deve ser
ciência espintual da pessoa, se nos reportamos até o s e u término veri- a f i r m a t i v a . S e r i a u m fato que o objeto visto e r a n a realidade u m a
ficaremos que é a mente dessa pessoa que lhe f a l a dessa experiência corda? U m a vez mais a resposta deve ser afirmativa. Imaginemos,
e lhe mostra tratar-se de u m a parte d a s u a existência. O r a , a mente porém, que o rapaz j a m a i s voltasse a «ncontrar-se com o homem. Não
só nos pode dar consciência de alguma c o i s a — trate-se de u m a m i - ocorreria então que ele i r i a a f i r m a r peremptoriamente haver visto u m a
núscuia mosca o u de u m D e u s . imponente — se ocupar-se de pensar c o b r a e que o h o m e m i n s i s t i r i a n o fato de que o rapaz não h a v i a
nessa coisa. Portanto, tudo aquilo que é sabido de a l g u m a f o r m a , é visto cobra alguma?
sabido como u m pensamento. A s experiências e s p i r i t u a i s não fazem Tornar-se-á claro p a r a a mente reflexiva que é necessário muita
exceção a esta regra universal. E l a s também não p a s s a m de pensa- cautela ao empregar o termo. Se u m fato é alguma coisa comunicada
mentos, por mais inusitadas que s e j a m as suas demais características. pelos cinco sentidos, nesse caso é possível que os cincos sentidos nos
Daí não haver diferença entre as p a l a v r a s espiritual e mental. Toda enganem, fornecendo-nos u m a falsa interpretação. Sendo assim, o
vida consciente é vida-pensamento. O h o m e m m a i s espiritualizado estudante deverá i n c l u i r a p a l a v r a fato n a relação daquelas cujo uso
vive em pensamentos tanto quanto o h o m e m m a i s m a t e r i a l i s t a . Não indiscriminado deve ser evitado. Se, ao invés de pensar: — E u v i u m a
lhe é possível agir de outra forma e permanecer desperto. cobra — ele houvesse pensado: — V i alguma coisa que aparenta ter
as características de u m a cobra — o rapaz não se teria enganado e
Torna-se agora possível compreender não apenas p o r q u e a s pes-
não t e r i a induzido a erro outras pessoas.
soas não formam u m a ideia c l a r a e consistente do significado d a pala-
v r a espiritual, m a s também por que sequer chegam a f o r m a r a l g u m a E s t a , porém, é a mais simples das dificuldades n a aceitação do
ideia. Tudo o que conseguem é construir n a imaginação u m signifi- termo. P a l a v r a s pertencentes à e r a pré-científica e a concepções ex-
cado que venha de encontro aos seus gostos e temperamento. O filó- tremamente distantes no tempo continuam a integrar a nossa lingua-
sofo deve esquivar-se ao fascínio dessa p a l a v r a e, através de u m racio- gem e podem tornar-se enganosas agora, reportando-se a coisas a res-
cínio mais rigoroso, deve disciplinar o uso que dela faz, a s s e g u r a n d o " peito das quais é muito extenso o saber contemporâneo. Os resultados
a clareza daquilo que .está dizendo. conseguidos e m nossa geração não o teriam sido em gerações anterio-
res, pois f o r a m e m grande parte possibilitados peles maravilhosos novos
instrumentos e delicados aparelhos concebidos p a r a auxiliar os cinco
0 Que é um Fato? U m quarto inimigo linguístico, c o n t r a cujos
sentidos a funcionar de maneira que não lhes e r a dado funcionar em
enganos e embustes deve o filósofo estar atento, é a p a l a v r a fato.
outras épocas. A s s i m é que o telescópio e o espectroscópio, a superfí-
Pois a filosofia da verdade jacta-se de t e r por base os fatos e não as
cie fotográfica sensível e a célula fotoelétrica tornaram viáveis comu-
crenças. Mas o que é u m fato? E i s u m a p a l a v r a c u j o u s o n o lingua-
nicações visuais impossíveis ao olho humano desarmado.
j a r diário é a dotado pacificamente; m a s u m a indagação analítica .irá
demonstrar que o termo encerra u m a série de nuanças obscuras. Se O microscópio, por exemplo, descerra aos nossos olhos u m novo
alguém, considerando demasiado o esforço de prosseguir n a investiga- mundo, u m mundo maravilhoso que nos revela que o cadáver por nós
ção, aceitar arbitrariamente a p r i m e i r a o u a t e r c e i r a dentre todas as julgado como estaticamente morto está n a realidade dinamicamente
interpretações oferecidas, como poderá então estar certo de que o seu v i v o e cheio de parasitas ativos; que a água por nós julgada desabitada
conhecimento baseia-se realmente e m fatos? fervilha de minúsculas criaturas; que o fio da navalha por nós
julgado perfeitamente direito é n a realidade denteado e recurvo; e
Suponhamos que u m rapaz esteja caminhando à l u z i n c e r t a do cre- que aquilo que é dado perceber aos cinco sentidos não passa de u m
púsculo e veja u m a serpente enrodilhada j u n t o d a s a r j e t a . Seguindo mísero infinitésimo daquilo que ainda existe para ser visto. Há pou-
o seu caminho, ele mais tarde c r u z a com u m outro pedestre que segue cos séculos dizia-se correntemente que as simples impressões dos sen-
na direção oposta. 0 rapaz sente-se n a obrigação de i n f o r m a r ao tidos físicos referiam-se aos fatos, ao passo que a ciência moderna
outro a existência de u m a cobra j u n t o da s a r j e t a , a f i m de que o declara que apenas as impressões transmitidas pelos meios mais aper-
viandante não corra o perigo de ser atacado pelo réptil. N o d i a se- feiçoados se referem aos fatos. Ambos os grupos de observações pa-
guinte o rapaz torna a encontrar-se com o homem, que o i n f o r m a h a v e r recem contradizer-se mutuamente ou desautorar-se entre s i . Contudo,

132 133
milhões de pessoas p e n s a v a m e a i n d a p e n s a m q u e a s observações m a i s
matéria. Sob u m a f o r m a inteiramente diferente, s u a existência teria
simples constituem os fatos.
prosseguimento. A investigação da natureza dessa existência derra-
Continuamos a empregar os t e r m o s p r i m i t i v o s c o m relação a tais d e i r a é o b r a que transcende a ciência e compete à filosofia, a qual
fenómenos» embora qualquer estudioso d a s ciências os s a i b a h o j e i m - r e v e l a então u m a versão anteriormente insuspeitada do significado da
precisos e enganosos. Nossas mentes a i n d a u s a m c o n c e i t o s do m u n d o p a l a v r a fato; versão esta a que o estudante chegará no devido tempo
tal qual este é assinalado pelos sentidos físicos p u r o s . O nosso f a l a r e que no momento encontra-se além dos horizontes do cientista espe-
ainda abarca expressões v e r b a i s baseadas n e s s e s c o n c e i t o s enganosos. cializado.
A linguagem se a r r a s t a morosamente m u i t o atrás do n o s s o conheci-
A filosofia não se satisfaz assim com o conhecimento do fato mo-
mento. Como podem aqueles que i n a d v e r t i d a m e n t e e m p r e g a m u m
mentâneo : quer também o fato permanente, se é que este existe. Daí
tão deficiente meio de pensamento, compreensão e comunicação espe-
ser de pouca utilidade p a r a o filósofo ouvir que alguma coisa é u m
r a r trazer p a r a o s e u âmbito a v e r d a d e d e r r a d e i r a d a v i d a ?
fato, quando a declaração parte de alguém que j a m a i s procurou saber
Qual é, pois, e m última análise, o s i g n i f i c a d o dessas declarações? as características e comprovações do fato. Se o filósofo desejar real-
É que os homens podem facilmente t o m a r c o m o fatos a s s u a s pró- mente chegar à verdade derradeira, ele será obrigado a retraduzir em
prias crenças. Quando consideramos a matéria do p o n t o de v i s t a cien- \ p a r t e a terminologia d a v i d a cotidiana. Não lhe será permitido sequer
tífico, aprendemos que todo objeto m a t e r i a l é constituído de elétrons u s a r indiscriminadamente u m termo pré-científico como fato sem m u -
em movimento. A nossa máquina de escrever poderá apresentar-se aos t i l a r o conhecimento moderno, pois se trata de u m a das mais impor-
sentidos como continuamente existente e constante, m a s , p e r a n t e as tantes p a l a v r a s tomadas por empréstimo ao reino da experiência diá-
modernas investigações de laboratório, apresenta-se c o m o u m a f o r m a ria e o u s o abusivo de tais palavras poderá ser u m estorvo ao racio-
de energia cujas ondas se a l t e r a m de u m m o v i m e n t o p a r a o u t r o . M a i s cínio correto, já que os seus significados se tornaram demasiado obs-
a i n d a : a ciência não tendo conseguido e n c o n t r a r u m a substância últi- curos e m razão do m a u emprego pelo povo. E quão mais verdadeiro
ma, abandonou a p a l a v r a objeto p e l a p a l a v r a acontecimento, de modo será isso à m e d i d a que se passar do nível científico p a r a a atmosfera
que a nossa máquina é u m complexo de a c o n t e c i m e n t o s n o espaço- m a i s r a r e f e i t a d a interpretação filosófica! U m a correção no vocabu-
-tempo que j a m a i s poderão repetir-se e m condições idênticas. A má- lário acarretará u m a correção no raciocínio, pois ambas são insepará-
quina de escrever, como u m fato do espaço-tempo, não pode j a m a i s ser veis. A s p a l a v r a s irrefletidas deste tipo carregam consigo u m a pesada
idêntica e m momentos sucessivos do tempo. E n q u a n t o nossas preocupa- c a r g a de meias-compreensões, interpretações erróneas e maneiras an-
ções com a máquina não forem senão de o r d e m prática, t a i s considera- tigas de pensar d a q u a l deve ser escoimada sempre que se tratar de al-
ções não nos interessarão, pois não e n c e r r a m n e n h u m v a l o r p a r a quem go m a i s elevado do que os objetivos práticos primários. Deve-se pro-
está querendo escrever alguma coisa sobre u m a f o l h a de p a p e l . M a s , c u r a r a isenção desses defeitos. A linguagem está vinculada ao conhe-
quando o nosso interesse for de cunho científico, e e s t i v e r m o s empe- cimento e deve evoluir c o m este ao invés de engatinhar atrás dele.
nhados e m saber mais a respeito d a máquina de e s c r e v e r c o m o u m
objeto material entre muitos outros, essas considerações assumirão O exame destes quatro termos: verdade, Deus, espiritual e fato
v i t a l importância. S e r i a então erróneo e enganoso p e n s a r n a p a l a v r a revelou as definições contraditórias que cada qual poderá ensejar aos
máquina de escrever, isto é, defini-la d a m e s m a f o r m a p e l a q u a l se diferentes usuários. Todos os a r t i c u l a m com displicência, seja o ho-
pensaria nela segundo o ponto de v i s t a prático. S e nos ativéssemos m e m de r u a que j a m a i s lhes dedicou u m minuto de reflexão, sejam
de forma servil à antiga definição pré-científica, o b v i a m e n t e não che- os incapazes de t a l reflexão e — convenhamos — mesmo o místico
garíamos à verdade científica, m a s seríamos l u d i b r i a d o s pelos cinco que se j u l g a no direito de dar a última palavra sobre o assunto em
sentidos e corrompidos pela própria p a l a v r a . Se i n s i s t i r m o s e m con- v i r t u d e das suas experiências extáticas. Como poderá qualquer u m
siderar o termo fato como encerrando apenas o significado s u p e r f i c i a l destes ter certeza acerca das suas palavras, se não se deu ao trabalho
que o homem comum v i a de r e g r a lhe a t r i b u i , v a l e dizer, referindo-se prévio de v e r i f i c a r o que n a realidade a elas corresponde? Mas o
à matéria d a m a n e i r a m a i s tosca, referindo-se apenas àquilo q u e é enevoado do seu raciocínio lhes fornece u m abrigo onde refugiasse das
perguntas embaraçosas e das dúvidas repentinas. O estudante não
tangível aos sentidos desarmados, permaneceremos n u m a a t m o s f e r a de
pode dar-se ao luxo de tolerar tais fraquezas.
pensamento que impede a aquisição d a verdade.
O presente exame mostrou também a importância vital de obter-se
E não é tudo. Se nos fosse possível esperar m i l h a r e s de anos e u m a compreensão c l a r a das palavras-pensamentos que podem funcio-
testemunhar o processo de enferruj amento e deterioração g r a d u a l pelo n a r como u m bússola que nos ajude a fugir de toda essa confusão,
qual passaria a máquina, chegaria o momento e m que esta se desfaria orientando-nos devidamente n a nossa busca. Esse esforço por alcançar
e m pó e desapareceria. Desta forma f i c a r i a t r a n s f o r m a d a e m o u t r a a compreensão semântica deve ser daqui por diante a principal pre*

m 135
ocupação do estudante, e a este caberá t r a z e r p a r a o âmbito dessa
compreensão determinados termos análogos i m p o r t a n t e s à m e d i d a que T a i s recursos possuem u m encanto, u m efeito hipnótico que lhes
estes se forem apresentando. Caber-lhe-á também abster-se das pala- empresta certa aura de significação mas lhes oculta a vacuidade. Quan-
vras que trazem satisfação emocional m a s c a r e c e m de e s c l a r e c i m e n t o do o pesquisador se entrega resolutamente à análise de tais sentenças
intelectual;" bem como prevenir-se c o n t r a os t e r m o s q u e e n c e r r a m ele pode destruir as falsas pretensões de sabedoria nelas contidas.
antigos preconceitos e são de u s o t r a d i c i o n a l m a s não d e f i n e m nada f O emprego de palavras destituídas de significado pode levar até
factual. Deve o estudante reconhecer que libertar-se d a t i r a n i a d a mesmo u m homem de reconhecida inteligência a acreditar que está
superficialidade linguística é l i b e r t a r a mente do ónus d a ignorância investigando dados concretos e fatos objetivos quando na verdade está
e da incompreensão. Deve ele proteger-se das f a l s a s teorias que re- investigando apenas suas próprias alucinações, às quais decerto se
pousam não sobre fatos comprovados m a s sobre ficções p u r a m e n t e enredará como u m a mosca n u m a teia de aranha. A maioria das pes-
verbais. soas padece d a ilusão de que toda palavra tem necessariamente de re-
presentar u m a coisa não-verbal. Mas, sob a superfície da palavra po-
Não pretende o presente capítulo r e u n i r todas as p r i n c i p a i s ideias
derá não haver absolutamente nada. A falsidade dessa crença de
' expressas nos termos religiosos, místicos, filosóficos o u cotidianos e
que toda palavra tem necessariamente de possuir u m significado é
analisá-las u m a a u m a . P a l a v r a s como intelecto, razão, realidade,
demonstrada pela possibilidade de usar-se frases como: — filho de
existe, mente e assim por diante surgirão e serão definidas n o corpo
m u l h e r estéril — e flores celestes — que são ridículas até para u m
deste livro e se poderá proceder a u m a reeducação do pensamento
menino de curso primário, mas que p a r a o filósofo não são mais ri-
quando o seu significado f i c a r devidamente estabelecido. O objetivo
dículas do que numerosas expressões que até as pessoas mais catego-
específico deste capítulo é p r e p a r a r a mente do leitor, m o s t r a n d o a m - rizadas empregam por inadvertência.
plamente a m a n e i r a pela q u a l t r a t a r os p r o b l e m a s v e r b a i s que surgi-
rem e explicando o princípio geral a s e r seguido d a q u i p o r diante. A base desta crítica é que devemos silenciar acerca da verdade
A p r i m e i r a dificuldade dos problemas d a filosofia é q u e a s u a n a t u - dessas coisas c u j a existência nunca verificamos n e m poderemos ve-
reza real permanece de hábito o c u l t a p a r a aqueles que p r o c u r a m rificar. N u m caso como esse falar equivale a imaginar e, por conse-
solucioná-los, porque os termos e m que t a i s p r o b l e m a s são vazados guinte, afastar-se do caminho do fato rigoroso. Não devemos per-
pertencem à etapa f i n a l de u m a extensa série de processos conhecidos m i t i r que u m a palavra nos leve a crer que estejamos lidando com
e desconhecidos. A análise a j u d a ' a d e s e n t r a n h a r o q u e neles está objetos, experiências e existências quando n a verdade nada disso esti-
implícito. v e r ocorrendo.
— E s t a p a l a v r a designa algo real ou algo fictício? — tal é a in-
O, pesquisador será portanto obrigado a e m p r e g a r o método d a vestigação a que nos deveremos entregar quando diante das asserções
disciplina verbal não apenas agora m a s também e m todas as etapas de numerosos advogados e propagandistas. Quando u m a palavra faz
p o s i m u i e s úo S E U ES lLido. K m consequência, terá de a p r e n d e r a q u i as vezes do inconcebível ela poderá em pouco tempo obscurecer a ca-
u m a característica intelectual especial. N o capítulo a n t e r i o r foi-lhe pacidade de julgamento de u m homem e levá-lo à aceitação do não-
dito que aprendesse certas o u t r a s características essenciais à investi- -existente. É apenas pseudo-interpretação esse contínuo matraquear
gação filosófica. P o r esta razão, os dois capítulos se c o m p l e m e n t a m . de termos s e m sentido e esse permanente deslocar-se n u m círculo que
0 resultado de t a l esforço é que o indivíduo irá g r a d u a l m e n t e liber- t e r m i n a n a p a l a v r a original, sem que no percurso surja qualquer ex-
tando-se daquela ilusão m u i t o encontradiça e n t r e os religiosos, mís- plicação r e a l do significado. P o r essa forma se constroem esplêndi-
ticos e metafísicos de que a p r e n d e r a m algo v e r d a d e i r a m e n t e novo dos mundos verbalizados nos quais os seus criadores vivem felizes o
quando o que de fato a p r e n d e r a m não f o i senão u m amontoado de resto d a existência! P o r toda parte os homens alimentam opiniões
palavras ressonantes. E l e descobrirá que a s pessoas b u s c a m n a s p a - falsas e m virtude do seu incorrigível hábito de inferir que toda a coisa
lavras ideias que elas não contêm, n u n c a c o n t i v e r a m e j a m a i s poderão portadora de u m nome é coisa necessariamente existente e em virtude
conter, sendo tais palavras tão-somente sons ocos. D e m o d o especial, da s u a tradicional tendência de confundir palavras vazias com reali-
aprenderá a temer esses significados indefinidos, essas p a l a v r a s emo- dades substanciais. Daí a necessidade de examinar as declarações
cionais que parecem tão plena de sentido e n a v e r d a d e não têm sen- f i m de v e r i f i c a r se são realmente pensáveis ou não passam de pseudo-
tido algum. Os políticos, oradores e demagogos e m e s p e c i a l gostam -significados: conjuntos de símbolos sem nada substancial na experiêr
de empregar palavras grandiloquentes, slogans e f r a s e s que exageram c i a h u m a n a que realmente lhes corresponda. E m suma, trata-se da
brutalmente quando não carecem por completo de relevância o u que necessidade de chegar-se àquilo que realmente é sabido, pôr a n u pret
se destinam a despertar fortes sentimentos i r r a c i o n a i s o u que b u s c a m supostos ocultos e elucidar aquilo que acontece quando se diz que
m ascarar fatos desconcertantes — e conseguem I u m a coisa é verdadeira.

136
estudante de filosofia não tem o u t r a a l t e r n a t i v a senão começar
desconfiando de toda p a l a v r a que não r e p r e s e n t a u m a d e t e r m i n a d a É verdadeiro acrescentar que o efeito geral desse auto-adestra-
coisa dentro da sua experiência pessoal d e f i n i d a c u n i v e r s a l . Com- mento verbal aparecerá com certeza no campo do viver cotidiano. À
pete-lhe pôr em dúvida os ídolos v e r b a i s que os a n t e p a s s a d o s o u a medida que a mente começa a tornar-se mais exigente com relação aos
tradição atual lhe apresentam à adoração. Cabe-lhe d e i x a r de lado pensamentos e às palavras no decurso da investigação filosófica, o
hábito irá se estendendo progressivamente até abarcar os assuntos prá-
a crença simplória de que a existência de u m a p a l a v r a i m p l i c a neces-
ticos normais. Aquela condição genérica de descaso que caracteriza
sariamente na existência de u m a c o i s a o u u m a i d e i a designada por
a maior parte dos raciocínios, impregna boa parte dos escritos e dis-
tal palavra. Descobrirá então o estudante, c o m m u i t a s u r p r e s a talvez,
torce a conversação do dia-a-dia irá aos poucos cedendo lugar a u m a
que essa suposta existência não é e m absoluto u m a existência! Claro
certeza significativa, intencional e realista. T a i s consequências com
que, embora tal p a l a v r a não represente u m objeto e x i s t e n t e — como toda certeza serão de longo alcance. Não apenas os rótulos mas tam-
se supõe — ela poderá representar u m sentimento daquele q u e a pro- bém o próprio conteúdo do pensamento resultará alterado e melho-
nuncia e, por s u a vez, estimular u m outro sentimento de m e s m a classe rado. Quando voltamos nossa atenção para o significado estamos
no ouvinte. cuidando de alguma coisa cujo âmbito vai muito além da esfera da
comunicação e do aprendizado; nossa atenção é transportada, em ra-
Assim sendo, tem o estudante de p r o c u r a r a substância sólida por
zão do seu ímpeto natural, p a r a outras ambiências e outros campos de
trás da fachada d a linguagem, a f u r o a r o significado dos significados.
atividade onde colhemos os benefícios consequentes. Não será exage-
Antes de poder principiar corretamente por u m a sentença c o m o : —
rado dizer que se processa u m a reeducação mental. Desenvolvemos
Qual é a natureza do mundo e m torno? — deve ele i n d a g a r : — Qual
destarte a capacidade de pensar de forma independente. — As palavras
o caráter dessa expressão natureza do mundo? — É p r e c i s o saber co-
violentam e submetem francamente a compreensão — confessou o in-
mo colocar devidamente as perguntas a f i m de que a s respostas resul- signe mestre das palavras F r a n c i s Bacon. Teve ele a perspicácia de
tem corretas. Os químicos oitocentistas perderam-se n a falsidade da assinalar que, — dentre todos os obstáculos impostos ao raciocínio
teoria do flogístico por perguntarem: — Que substância especial está correto, as palavras eram o mais renitente — e a sua advertência a
envolvida no processo da combustão? — ao invés de p e r g u n t a r e m : — todos os futuros filósofos merece ser lembrada: — As palavras, tal co-
Que espécie de processo é a combustão? mo o bumerangue, voltam-se sobre a compreensão, enredando e dis- ~ *
A linguagem deve ser ajustada aos objetivos d a filosofia e não torcendo poderosamente o julgamento.
vice-versa. As palavras que não e n c e r r a m significado d e v e m s e r im-
S e a estrutura da linguagem não é afinal de contas senão u m sis-
piedosamente banidas. As palavras que e n c e r r a m significado falso
tema de implicação, a s possibilidades de erro e incerteza são deveras
devem ser rigorosamente corrigidas. As p a l a v r a s que e n c e r r a m signi-
reais. As declarações representando de maneira imperfeita uma coisa
ficado ambíguo devem ser cabalmente esclarecidas. A s p a l a v r a s que
podem sempre gerar raciocínios incorretos a respeito dessa coisa.
parecem representar fatos m a s n a realidade r e p r e s e n t a m imaginações
devem ser desmascaradas. Todas as p a l a v r a s desse tipo mantêm ca- T a l como em outra altura desta obra, faz-se agora necessário re-
tivo o filósofo em formação e restringem o seu c a m p o de investigação gistrar u m a advertência. Não se deve interpretar m a l a função da
até que ele separe a realidade conceptual dos seus significados d a rea- análise linguística. Não se pretende que a fala existe apenas para a
lidade verdadeira, o significado fictício do significado r e a l . A eluci- comunicação de fatos. Não se pretende que toda a linguagem meta-
dação do significado derradeiro das ditas p a l a v r a s é u m estágio ne- fórica, todas as belezas da poesia, todos os prazeres da ficção, todas
cessário n a elucidaçãç da verdade derradeira, porque envolve a re- as distrações do humor e todo o trabalho imaginativo não devam ser
construção em grande escala do pensamento. expressados o u apreciados. Os toques ligeiros e por vezes exagerados
que o humor põe n a conversação, os hiatos coloridos que a leitura dos
A reorientação envolvida nesta revisão dos padrões v e r b a i s a fim romances propicia ao lazer, não devem ser desdenhados. Nada se diz
de adaptá-los às perspectivas filosóficas é r e c o n h e c i d a m e n t e difícil a aqui contra tais prazeres inocentes da vida. — Seja filósofo — aconse-
princípio. Tornar-se meticuloso do ponto de v i s t a linguístico pode lhou H u m e — mas e m que pese sua filosofia não deixe nunca de ser
ser u m a tarefa embaraçosa, m a s , c o m o tempo, o árido esforço sc u m homem,
transforma em hábito fácil. Não obstante, os h o m e n s de p o u c a ins-
trução consideram a tarefa como maçante e as m u l h e r e s consideram-na O que realmente se pretende é que, ouvindo ou fazendo humor, não
francamente insuportável! Daí vermos poucas m u l h e r e s abraçar a devemos perder de v i s t a o fato de que se trata de simples gracejos;
filosofia e poucos homens darem-lhe a l g u m a atenção, a menos que a de que escrevendo ou lendo irrealidades imaginosas devemos estar ple-
sua estrutura mental ou o seu desejo de verdade s e j a de u m a quali- namente conscientes daquilo que estamos fazendo, sem cair jamais
dade especial. na crença de que tais fantasias tenham alguma substância; A*

139
ÉÉ
em meio a todo o palavrório vazio que p a r t i c i p a inapelavelmente da
etiqueta social não devemos ficar perdidos no desconhecimento dessa traem a pobreza do seu raciocínio através do uso de construções lia»
vaziez ou na confusão entre as necessidades práticas e a s filosóficas. guísticas ambíguas, tendenciosas, inexatas ou vazias. Assim é que"
Aquilo que necessitamos para a vida cotidiana não deve necessaria- apenas o sábio e capaz de descobrir a partir do estilo de u m homem
mente ser julgado pelos padrões daquilo que necessitamos p a r a a pes- o caráter das suas estruturas linguísticas e o exato estágio na trilha
quisa filosófica. Dentro dos limites do gosto pessoal, c o m relação ao da verdade a que a inteligência e o conhecimento desse homem o
primeiro nós podemos gracejar tanto quanto quisermos, m a s com trouxeram.
relação ao segundo não nos é permitido g r a c e j a r de f o r m a alguma. A análise filosófica nos assuntos linguísticos segundo os moldes
Nós podemos pronunciar u m milhão de p a l a v r a s s e m significado nas aqui preconizados ajudará o estudante a apurar se qualquer declaração
conversas banais de toda u m a vida, sem q u a l q u e r dano p a r a nós, formulada por ele próprio ou por outrem veicula informações genuínas
mas não podemos pronunciar ou pensar u m a só p a l a v r a s e m signifi- ou meras falsidades. Pois a filosofia da verdade é ensinada de uma
cado durante a busca filosófica s e m perder o r u m o certo. Podemos maneira especial e peculiar. E l a começa por conduzir os homens à
rechear nossas sentenças de tanta criatividade artística o u colorido verdade apontando-lhes os eiros, mostrando-lhes onde pensam ou fa-
emocional como desejarmos, desde que c o m isso não nos enganemos l a m tolices, denunciando-lhes a falsa sabedoria e a seguir lembrando-
a nós mesmos e conservemos plena consciência do q u e está sendo -lhes que a penetração n u m nível mais profundo de investigação não
feito. Podemos esquadrinhar páginas e m a i s páginas de ficção desde apenas é possível como também desejável. E l a se estabelece na mente
que compreendamos a natureza não-filosófica d a linguagem c o m que dos estudantes não tanto pela afirmação daquilo que é, mas pela eli-
estamos lidando. Podemos até mesmo engodar u m a p l a t e i a de eleito- minação daquilo que não é. E l a mostra os princípios primordiais de
res políticos com metáforas enganosas e d i s c u r s o s f i g u r a d o s , se for todas as visões conhecidas da existência e trata a seguir de apontar-lhes
essa a nossa sina, mas não devemos s e r apanhados pelos erros que os erros e enganos. Quando tais enganos são banidos da mente, com
preparamos para os outros. eles desaparecem numerosos problemas, pseudoproblemas e questões
perturbadoras que há muito vêm perturbando o pensamento da huma-
Não é preciso que a linguagem seja e s v a z i a d a de colorido e imagi- nidade, mas que j a m a i s foram suprimidos — e bem poderiam sê-lo —
nação, desde que tenhamos presente tratar-se apenas de colorido e pois não t i n h a m nenhuma necessidade de aparecer. Por fim, diz a
imaginação. A arte é tão admissível n a v i d a do filósofo c o m o n a do análise filosófica: — Deus existe, mas não poderá ser revelado a ti"
empirista. Todas estas coisas nós as podemos u s a r e m s u a plenitude, t a l qual E l e é enquanto a t u a mente não ficar livre das ideias erró-
mas não as adotemos como padrões segundo os q u a i s a verdade have- neas a S e u respeito. Agora o caminho está preparado para que t u
rá de ser aferida e conservemo-las conscientemente f o r a dos limites O encontres, p a r a que descubras a Verdade e a Realidade, a santa
da intensa busca daquilo que e m última instância é r e a l . É preciso trindade que de fato e UmãT
certa renúncia para atingir as culminâncias, m a s a q u a l q u e r momento Daí a grande importância deste método de análise.
poderemos retomar o que deixamos, desde que a m e n t e se desvie do
Portanto, as sutilezas da linguagem podem ser moldadas numa
estudo. Assim sendo, surgirá gradualmente u m ponto de v i s t a duplo:
chave-mestra capaz de a b r i r numerosas portas dos mistérios do pen-
o prático e o filosófico. T a l dualidade perdurará enquanto o h o m e m
samento e do ser.
for u m pesquisador, mas para o sábio que a t i n g i u o objetivo oculto
toda a vida torna-se u m a sublime unidade e não há n a d a c o n t r a o que
manter-se precavido.
0 que faz a mente quando empenhada n a p r o c u r a de u m signifi-
cado? A pergunta sugere u m trabalho filosófico de p r i m e i r a gran-
deza e a resposta correspondente é e m s i m e s m o u m t r i u n f o m e n t a l .
0 presente capítulo pode s e r resumido p e l a declaração de que
quando u m homem fala ou escreve ele revela não apenas a q u i l o que
sabe mas também (e de forma inconsciente) a q u i l o que não sabe.
Sua ignorância tanto quanto s u a sabedoria, desponta d a s suas frases
para a observação filosófica. E s s a s frases c o n s t i t u e m u m documento
de auto-revelação, u m a manifestação igual ao do subconsciente e do
consciente do indivíduo. Apenas o sábio é c a p a z de c h e g a r a u m a
formulação exata dos seus conhecimentos, ao passo q u e os demais

140
c u r a de prosseguir n u m a busca impossível. Coube a I . K a n t a honra
de ter sido o primeiro pensador ocidental a levantar o problema de
estar ou não o homem equipado com u m instrumento mental adequado
p a r a conhecer a verdade. A conclusão de K a n t foi negativa. Feliz-
mente, não é preciso que sejamos tão pessimistas, pois iremos cons-
tatar, a s s i m como o fizeram os antigos sábios hindus, que no final
aguarda-nos o melhor e que o enigma d a vida pode ser decifrado com
os atuais recursos do homem.
U m a criança não tem como encontrar por s i só os seus caminhos
n a vida. E l a tem, forçosamente, de confiar em outras pessoas, isto é,
A BUSCA DA V E R D A D E os pais. A s s i m também os adultos que se sentem até certo ponto
ignorantes e inseguros quanto à interpretação da existência em geral
têm de r e c o r r e r à a j u d a alheia. Assim sendo, para a satisfação dessa
necessidade surge a p r i m e i r a orientação oferecida ao homem, qual
Haverá alguma outra e m a i s satisfatória fonte de conhecimento? seja a da autoridade: religiosa, política, cultural ou de qualquer outro
— T a l foi a pergunta feita no p r i m e i r o capítulo deste l i v r o , depois tipo, tradicional ou não. E a recomendação é: — Acredita e estarás
que u m a breve referência à fé religiosa, ao raciocínio lógico e à ex- salvo! $ | |
periência mística caracterizou todas essas fontes c o m o p a r c i a i s , insu- Precisamos, portanto, começar u m exame desse autoritarismo com
ficientes e destituídas de u m a certeza a b s o l u t a . O s capítulos subse- o espantoso postulado da ignorância universal. Significa isto que as
quentes forneceram ainda outros fatos p a r a e s s a conclusão. Ê pre- massas seguem sendo infantis sob u m a porção de aspectos. Milhões
ciso proceder a u m a análise e encontrar, se possível, u m a resposta para de c r i a t u r a s adultas vivendo hoje no mundo não passam de crianças
a pergunta que encabeça o presente parágrafo. N ã o se deverá pensar, sob o ponto de v i s t a intelectual, as quais aceitam e acreditam piamente
no entanto, que a fé, a intuição, o raciocínio lógico e o t r a n s e místico n u m a porção de coisas tolas e falsas. Não devemos recear tal decla-
careçam de valor. Pelo contrário, tais coisas têm o s e u l u g a r próprio ração. A aritmética nos ensina que a cifra de u m milhão multiplicada
e os seus usos específicos, m a s devem s e r e n c a r a d a s c o m o apenas por n a d a continua sendo igual a zero. N a vida humana, u m cálculo
intermediárias. Não são e j a m a i s poderão s e r i n s t r u m e n t o s perfeitos semelhante permite aquilatar o conhecimento da maioria das pessoas.
para o serviço de u m homem que b u s c a n a d a m e n o s do q u e a certeza Mas a sociedade sendo o que é, as massas humanas — ocupadas no
absoluta. Se fossem, então o mundo já t e r i a há m u i t o solucionado labor ou penando n a dor — devem confiar no autoritarismo e nas
antigos problemas e a alentada b u s c a s e r i a hoje desnecessária. A mera épocas n o r m a i s não encontram v i a de regra melhores orientadores nos
presença de numerosos pontos de v i s t a discordantes q u e c o n t i n u a m a labirintos d a v i d a do que os tradicionais, especialmente se não houver
intrigar a humanidade demonstra a insuficiência e a indefinição dessas abuso de confiança.
fontes, nas quais os homens se a p o i a r a m n o p a s s a d o . Tome-se o exemplo d a religião. U m a religião tem de estabelecer
0 investigador b e m poderá s e r p r o v o c a d o a p e r g u n t a r se de algu- a s u a autoridade consolidando os seus pontos de vista em asserções
ma forma é dado à mente h u m a n a resolver p r o b l e m a s fundamentais. formais e dogmas fixos. T e m de anunciar tais doutrinas como sendo
Trata-se de u m a importante pergunta. T r a t a - s e , n a v e r d a d e , d a nossa de revelação sobrenatural e a c i m a de contestação pelos humanos. No
indagação preliminar, m a s sob o u t r a f o r m a . A r e s p o s t a envolve a momento e m que se dispuser a discutir seus princípios em quaisquer
resposta a outras perguntas, como estas p o r e x e m p l o : — C o m o ganhar outras bases que não as da revelação dada e infalível, estará aberta
conhecimento? O que se entende p o r c o n h e c i m e n t o ? Q u e espécie de a p o r t a p a r a numerosos cismas e p a r a u m lento porém certo enfraque-
conhecimento é verdadeiro? — as quais d e v e m s e r a b o r d a d a s pelo cimento de toda a s u a posição. A continuação desse enfraquecimento
filósofo, se é que este deseja c a m i n h a r e r e t o à l u z do S o l e não se acarretará u m d i a o colapso religioso. Por isso, a religião tem o cui-
arrastar titubeante n a escuridão. dado de oferecer ao homem os seus conhecimentos como coisa prove-
niente de u m a fonte mais elevada, de u m ser mais elevado ou de u m
Toda investigação do significado f i n a l d a experiência e do mistério m u n d o m a i s elevado, cabendo-nos aceitá-los e conservá-los reverente-
do mundo seria p u r a perda de tempo s e o s próprios l i m i t e s de t a l mente como u m a tradição indiscutível.
investigação fossem previamente fixados p o r b a r r e i r a s intransponíveis
que entravassem os meios de conhecimento disponíveis. M e l h o r por- E x a m i n e m o s esta posição. P a r a as massas ela é historicamente
tanto será conhecer o pior, se houver o pior, do que entregar-se à lou- satisfatória, já que as massas principiam naturalmente a vida com as

i*3
142
c u r a de prosseguir numa busca impossível. Coube a I . Kant a h
de ter sido o primeiro pensador ocidental a levantar o problema de
estar ou não o homem equipado com u m instrumento mental adequado
p a r a conhecer a verdade. A conclusão de K a n t foi negativa. Feliz-
mente, não é preciso que sejamos tão pessimistas, pois iremos cons-
tatar, a s s i m como o fizeram os antigos sábios hindus, que no final
aguarda-nos o melhor e que o enigma d a vida pode ser decifrado com
os atuais recursos do homem.
U m a criança não tem como encontrar por s i só os seus caminhos
n a vida. E l a tem, forçosamente, de confiar em outras pessoas, isto é,
os pais. Assim também os adultos que se sentem até certo ponto
ignorantes e inseguros quanto à interpretação da existência em geral
têm de recorrer à ajuda alheia. Assim sendo, para a satisfação dessa
necessidade surge a primeira orientação oferecida ao homem, qual
Haverá alguma outra e mais satisfatória fonte de conhecimento? seja a da autoridade: religiosa, política, cultural ou de qualquer outro
— T a l foi a pergunta feita no p r i m e i r o capítulo deste l i v r o , depois tipo, tradicional ou não. E a recomendação é: — Acredita e estarás
que uma breve referência à fé religiosa, ao raciocínio lógico e à ex- salvo!
periência mística caracterizou todas essas fontes c o m o p a r c i a i s , insu- Precisamos, portanto, começar u m exame desse autoritarismo com
ficientes e destituídas de u m a certeza absoluta. Os capítulos subse- o espantoso postulado da ignorância universal. Significa isto que as
quentes forneceram ainda outros fatos p a r a essa conclusão. Ê pre- massas seguem sendo infantis sob u m a porção de aspectos. Milhões
ciso proceder a u m a análise e encontrar, se possível, u m a resposta p a r a de c r i a t u r a s adultas vivendo hoje no mundo não passam de crianças
a pergunta que encabeça o presente parágrafo. Não se deverá pensar, sob o ponto de v i s t a intelectual, as quais aceitam e acreditam piamente
no entanto, que a fé, a intuição, o raciocínio lógico e o transe místico n u m a porção de coisas tolas e falsas. Não devemos recear tal decla-
careçam de valor. Pelo contrário, tais coisas têm o s e u l u g a r próprio ração. A aritmética nos ensina que a cifra de u m milhão multiplicada
e os seus usos específicos, m a s devem s e r e n c a r a d a s c o m o apenas por nada continua sendo igual a zero. N a vida humana, u m cálculo
intermediárias. Não são e j a m a i s poderão s e r i n s t r u m e n t o s perfeitos semelhante permite aquilatar o conhecimento da maioria das pessoas.
para o serviço de u m homem que b u s c a n a d a menos do q u e a certeza Mas a sociedade sendo o que é, as massas humanas — ocupadas no
absoluta. Se fossem, então o mundo já t e r i a há m u i t o solucionado labor o u penando n a dor — devem confiar no autoritarismo e nas
antigos problemas e a alentada busca s e r i a hoje desnecessária. A mera épocas normais não encontram v i a de regra melhores orientadores nos
presença de numerosos pontos de v i s t a discordantes que c o n t i n u a m a labirintos d a v i d a do que os tradicionais, especialmente se não houver
intrigar a humanidade demonstra a insuficiência e a indefinição dessas abuso de confiança.
fontes, nas quais os homens se apoiaram n o passado.
Tome-se o exemplo da religião. U m a religião tem de estabelecer
0 investigador b e m poderá s e r provocado a p e r g u n t a r se de algu- a s u a autoridade consolidando os seus pontos de vista em asserções
m a forma é dado à mente h u m a n a resolver problemas fundamentais. formais e dogmas fixos. T e m de anunciar tais doutrinas como sendo
Trata-se de u m a importante pergunta. Trata-se, n a verdade, d a nossa de revelação sobrenatural e a c i m a de contestação pelos humanos. No
indagação preliminar, m a s sob o u t r a f o r m a . A resposta envolve a momento e m que se dispuser a discutir seus princípios em quaisquer
resposta a outras perguntas, como estas p o r e x e m p l o : — C o m o ganhar outras bases que não as da revelação dada e infalível, estará aberta
conhecimento? O que se entende por conhecimento? Q u e espécie de a porta p a r a numerosos cismas e pára u m lento porém certo enfraque-
conhecimento é verdadeiro? — as quais devem s e r abordadas pelo cimento de toda a s u a posição. A continuação desse enfraquecimento
filósofo, se é que este deseja c a m i n h a r ereto à l u z do S o l e não se acarretará u m d i a o colapso religioso. Por isso, a religião tem o cui-
arrastar titubeante n a escuridão. dado de oferecer ao homem os seus conhecimentos como coisa prove-
niente de u m a fonte mais elevada, de u m ser mais elevado ou de u m
Toda investigação do significado f i n a l d a experiência e do mistério mundo m a i s elevado, cabendo-nos aceitá-los e conservá-los reverente-
do mundo seria p u r a perda de tempo se os próprios l i m i t e s de t a l mente como u m a tradição indiscutível.
investigação fossem previamente fixados p o r b a r r e i r a s intransponíveis
que entravassem os meios de conhecimento disponíveis. M e l h o r por- E x a m i n e m o s esta posição. P a r a as massas ela é historicamente
tanto será conhecer o pior, se houver o pior, do que entregar-se à lou- satisfatória, já que as massas principiam naturalmente a vida com as

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I
concepções mais simples possíveis e de b o m grado a c e i t a m o universo
estabelecido depois dessa busca. Trata-se de u m enigma a ser deci-
em que se encontram sem esquentar m u i t o a cabeça pensando nele.
frado, não de u m dogma a ser firmado. Se a princípio somos obri-
No entanto, pequeno é o valor d a posição o r a enfocada p a r a aqueles
gados a pôr e m dúvida os deuses pré-fabricados e rejeitá-los bem
que se dedicam à busca d a certeza d e r r a d e i r a e que, p o r essa razão,
como aos seus legados de revelações como fontes para u m conheci-
são aconselhados a começar com o exercício d a investigação agnóstica.
mento seguro, isto se faz apenas para abrir caminho para uma com-
Por que terão os sábios adotados u m a a t i t u d e tão c a u t e l o s a ? Por- pleta investigação daquilo c u j a veracidade é irretorquível. E , se nos
que, afinal de contas, toda escritura conhecida não é senão u m livro for dado antecipar aqui posteriores conclusões, diremos que através
que alguém escreveu u m d i a — s e m o que não p o d e r i a t e r vindo à da filosofia teremos o prazer de redescobrir o verdadeiro Deus, e não
luz — e porque as crenças religiosas florescem n u m a i m e n s a variedade perdê-Lo.
de intrigantes contradições. Quem se a v e n t u r a r a investigá-las com
I imparcialidade acabará presa de inevitável confusão. Ficará total- U m famoso cientista contemporâneo, depois de defender admira-
I mente impossibilitado de condensar a m a s s a das c o s t u m e i r a s alega- velmente o valor da filosofia p a r a a ciência e da verdade do idealismo
ções antagónicas e m qualquer espécie de u n i d a d e . J a m a i s saberá metafísico, rompeu suas vinculações tanto com a filosofia quanto com
a ciência e se entregou à especulação pura e simples. E l e escreveu
ao certo qual dos deuses adorados existe r e a l m e n t e o u q u a i s dentre
c o m reverência a respeito do divino arquiteto que é o responsável por
as estórias cosmológicas são corretas ou c o m o h a r m o n i z a r dogmas
este mundo. C a i u ele no engano muito comum de pensar que uma
irreconciliáveis ou as diferentes descrições correntes de céu e inferno.
vez que as melhores classes de seres humanos planificam arquitetural-
Tampouco poderá perscrutar a mente de u m o u t r o h o m e m que por-
mente suas casas antes de edificá-las, também Deus deve planejar o
ventura tenha diante de s i , porque a mente é a única característica S e u universo d a mesma maneira. Com isso, reduziu Deus todo-pode-
não aberta à inspeção pública. Como poderá então p e r s c r u t a r a mente roso ao nível de u m a criatura humana. Onde a justificação para re-
de u m ser inteiramente invisível — Deus — e a s s e v e r a r q u e este último b a i x a r dessa m a n e i r a o status da Divindade? O cientista não viu, in-
é todo-misericordioso? Tanto quanto lhe é dado saber. D e u s poderá felizmente, que todas essas especulações antropomórficas não passa-
ser todo-inclemente. /O conhecimento daquilo que v a i n a mente de v a m de refinada blasfémia! T a l Deus existia na imaginação pessoal
Deus, necessariamente, limita-se tão-somente a D e u s m e s m o . Quando desse homem e s u a existência de fato não poderia ser provada à sa-
p homem tenta ler a mente divina tudo o que consegue é l e r a sua ciedade.
própria ideia de Deus, isto é, s u a imaginação!/ S u a crença relativa- O estudante de filosofia deve abster-se de fazer uma oferenda de
mente a Deus não passa, em última instância, de u m a imaginação fé e m altares desse tipo, porque ele, mais do que qualquer outro, pro-
acerca de Deus; não é, e m absoluto, u m c o n h e c i m e n t o provado. E c u r a a verdade, isto é, deve limitar-se exclusivamente aos fatos e não
quando o homem percebe a presença do dedo d i v i n o n a s u a v i d a ou a elucubrações especulativas.
n a vida alheia, t a l percepção não p a s s a n a r e a l i d a d e de u m simples
esforço imaginativo da sua p a r t e ; o esforço poderá v i r de encontro E s t a s p a l a v r a s não serão do agrado das pessoas sinceramente
aos seus sentimentos, bem como trazer-lhe m u i t o consolo, m a s , como religiosas. Porém, qualquer que seja a conclusão dos críticos a res-
critério de verdade, não será mais valioso do q u e q u a l q u e r outro. peito de tais declarações, persiste u m fato inconveniente que os reli-
giosos v i a de regra procuram evitar. /Deus nos dotou a todos — ainda
E m suma, quando a mente h u m a n a resolve a c e i t a r determinado que e m pequeno grau — com u m a capacidade de raciocínio, com a
credo religioso é porque se sente incapaz de u m a investigação mais capacidade de d i s c r i m i n a r e arrazoar por nós mesmos. Não nos cum-
ampla ou simplesmente porque está e x a u s t a de p e n s a r , e não porque pre então fazer uso desse dom ao invés de desprezá-lo?^
encontrou afinal a verdade 1
Não obstante, nossa preocupação a esta altura é menos com a
Repetidamente, os anais de história e a experiência i n d i v i d u a l têm existência e a natureza de Deus do que com a ajuda que o pesquisador
demonstrado que a fé não merece confiança e, e m consequência, não da verdade poderá auferir das revelações da religião n a sua forma po-
pode propiciar u m conhecimento certo e u n i f o r m e . pular. A questão está contida n u m a outra mais ampla, qual seja a
Perguntar-se-á, talvez com horror, se os sábios não se dedicam da validade d a crença em alguma autoridade, religiosa ou não. Aqui,
então a ensinar o ateísmo. T a l acusação não pode s e r a c e i t a n e m re- m a i s u m a vez, se deve advertir o leitor contra o erro de confundir
pudiada. Os sábios ensinam o ateísmo q u a n d o se t r a t a de deuses diferentes sistemas de dimensão no mundo do pensamento. Não se
duvidosos, vale dizer, deuses imaginados. N e g a m o ateísmo quando deve empregar o mesmo padrão n a medida da utilidade e da verdade.
se trata do verdadeiro Deus, vale dizer, Deus t a l q u a l E l e é. C o m Não nos preocupa no momento o valor prático do autoritarismo; este
relação a este último, porém, não há dogmatização. A q u i l o que Deus tem s e m dúvida o seu lugar e é realmente indispensável na ordenação
é deve constituir parte do objetivo d a n o s s a b u s c a e só pode f i c a r dos assuntos d a sociedade. E s t a m o s estudando a questão sob o ângulo

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de uma dimensão muito mais alta, a d a filosofia, a d a b u s c a d a v e r d a d e
aquilo que os sábios de há m u i t o e n s i n a m : que a simples palavra ae
derradeira, e por ora o leitor será obrigado a a b a n d o n a r p o r completo
u m h o m e m — r e v e r e n c i a d o como Maomé ou odiado como Nero — não
a dimensão mais baixa do pensamento; caso contrário, irá m i s t u r a r as
tem q u a l q u e r v a l o r p a r a o estudante de filosofia, mas precisa ser pes-
coisas e confundir a sua mente. E é agora que a s qualificações essen-
q u i s a d a a fundo p a r a saber-se se é verdadeira, tanto quanto precisa
ciais descritas em capítulo anterior provarão o s e u v a l o r . N a verdade,
sê-lo a p a l a v r a de u m desconhecido qualquer. Tampouco pode qual-
sem o passaporte dessas qualificações o leitor não poderá s e q u e r fran-
q u e r a u t o r i d a d e i m p e d i r e m caráter permanente que as pessoas inves-
quear o limiar dessa elevada dimensão. tiguem os dogmas q u e lhes são impostos. Até mesmo a formiga corre
É preciso que haja u m a r e c u s a peremptória a deixar-se i n t i m i d a r de u m lado e de o u t r o a f i m de v e r i f i c a r se as várias substâncias são
pela autoridade. Deve haver u m a atitude que i n v e s t i g u e a fundo e de fato comestíveis! A credulidade é filha da debilidade mental: de-
disseque cada u m dos dogmas propostos ao c o n s u m o ; deve h a v e r t o t a l ve-se superá-la fortalecendo a f i b r a mental.
isenção dos antigos preconceitos e das predileções i r r a c i o n a i s ditados
S e o p e s q u i s a d o r não toma qualquer autoridade individual como
pela hereditariedade, pelo ambiente e p e l a experiência; deve h a v e r a f i n a l é porque t a l fonte amiúde tem-se mostrado falível e poderá voltar
coragem para resistir à pressão emocional gerada pelas forças sociais a sê-lo no f u t u r o . A única utilidade de t a l autoridade é como um
convencionais, pressão esta que a r r a s t a a m a i o r p a r t e d a s pessoas n a possível i n d i c a d o r d a verdade m a s nunca como árbitro. 0 estudante
torrente das inverdades, da dissimulação e do i n t e r e s s e egoísta. não t e m o direito de aceitar certas crenças apenas porque outros as
Que coisa devemos pensar quando a autoridade de u m l i v r o , bíblia, a c e i t a m o u porque a m a i o r i a as aceita. Pois, se os outros firmam suas
homem ou instituição é oferecida como única sanção d a v e r d a d e filosó- crenças e m t a i s bases, então todos poderão haver aceitado falsidades
fica de alguma declaração? Devemos p e n s a r que é s e m p r e possível integrais c o m o verdades. Daí ser a filosofia incapaz de dobrar o
descobrir alhures u m outro livro, bíblia, h o m e m o u instituição que joelho ante os falíveis humanos, mas apenas ante os fatos incontes-
poderá ser oferecido como sanção de u m a declaração f r o n t a l m e n t e táveis. E s t a fórmula é aplicada a todos os homens sem exceção, se-
oposta! Tudo aquilo que pode ser por u m lado proposto, pode — j a m eles r e i s coroados, iogues descalços, cardeais mi trados ou escrito-
* com ou sem justa razão — ser por outro contestado. D i f i c i l m e n t e se res aureolados por u m a f a m a suficiente para que qualquer palavra
encontra u m princípio religioso, sociológico, económico, político, lite- sua s e j a obedecida à risca por milhões de pessoas. A citação de mi-
rário, artístico, metafísico o u místico n a história d a c u l t u r a antiga, lhares de sentenças não tem nenhum valor como prova filosófica, mal-
medieval e moderna que não tenha ( o u não t e n h a t i d o ) a s u a contra- grado o s e u v a l o r n a existência empírica, nos numerosos casos em que
partida. Dificilmente haverá u m a asserção que não t e n h a sido vio- as autoridades citadas são peritos em conhecimentos especializados.
lentamente combatida por asserções contrárias. O método d a discordância pode ser aplicado a todos quantos apon-
Aquele que declara que a religião h i n d u promete n u m e r o s a s vidas t a m d e t e r m i n a d a autoridade como final. Quando dizem a título de
terrenas ao homem será contestado por alguém que dirá: — A religião p r o v a que A a f i r m a t a l coisa, isso não resolve o assunto. Será sempre
cristã promete tão-somente u m a v i d a t e r r e n a ao h o m e m . — Aquele que possível a s s u m i r u m a posição antagónica e citar B , cuja asserção será
cita Buckle para mostrar que a história não é senão o r e s u l t a d o do diametralmente oposta à de A. I s t o basta para demonstrar que ho-
esforço individual e nacional do homem, será contestado p o r alguém m e m a l g u m pode s e r tomado como autoridade final. 0 estudante em
citando Bunsen para provar que a história é o r e s u l t a d o d a vontade busca filosófica deve, portanto, descartar por completo a fé cega, a
aceitação incondicional, a adoção fácil' da tradição e a submissão à
f de Deus sobre o mundo. T a l oposição entre as autoridades pode pro-
t i r a n i a dos grandes números, porque tudo isso deve ser considerado
longar-se indefinidamente, coisa que t e m acontecido através dos tem-
como erros de raciocínio! Conquanto úteis p a r a a maioria dos homens
pos. As religiões entrarão e m frontal contradição, os escritores pro-
no que se refere aos assuntos práticos do viver cotidiano, estas coisas
moverão sisudos confrontos de teses antagónicas, dois historiadores
não têm n e n h u m v a l o r p a r a a comprovação de uma verdade que não
despudoradamente acharão que o mesmo acontecimento é p r o v a e
pode s e r defraudada.
negação de u m a finalidade no d r a m a do m u n d o !
De onde provêm esses princípios opostos e essas asserções discor- Não quer isto dizer que tais autoridades estejam sempre erradas;
dantes? Invariavelmente, eles foram propostos por a l g u m a autoridade pelo contrário, às vezes elas têm razão. Quer dizer que as autoridades
viva ou morta. Nem todos podem ser verdadeiros; muitos se elidem podem e s t a r erradas, que não há nenhuma garantia da sua infalibili-
dade.
mutuamente. 0 investigador tímido ignora de hábito e s s a c a n h e s t r a
posição, mas o corajoso irá enfrentá-la de peito aberto, pois há u m a A própria ocorrência no homem do desejo de saber, a necessidade
c l a r a indicação de que e m alguma parte dessas declarações existe a l - de compreender — quer n a forma de crença quer não — indica que a
gum erro de lógica. O investigador será então obrigado a reconhecer ignorância está igualmente presente. E m consequência, é melhor re-

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conhecer que será mais conveniente t r i l h a r u m c a m i n h o diferente,
coisa que só se pode fazer começando pela dúvida. A menos que se cerdotes ungidos, dirigentes entronados e líderes empossados, irá ditar
introduza nas concepções diárias o elemento d a perguntação intimo- as suas formas habituais de pensar, seus hábitos de conduta e seus
rata, não se poderá esperar obter maiores informações a c e r c a d a va- pontos de v i s t a básicos.
lidade dos conhecimentos adquiridos. Agora ficará m a i s claro por que, quando da descrição das quali-
ficações necessárias ao pesquisador filosófico, colocou-se grande ênfase
Não é possível atingir o ápice do conhecimento d a v e r a c i d a d e de n a supressão d a arraigada tendência humana de ver as coisas pelo
todas as coisas se não começarmos pelo p r i m e i r o p a s s o , q u e é pôr e m p r i s m a do egoísmo. Pois podemos agora observar que os autoritários
dúvida a veracidade de todas as coisas! E s t a é a única f o r m a p e l a q u a l de todos os tipos v i v e m tão imbuídos das cores das suas predileções
se obtém uma garantia de que todos os passos posteriormente feitos pessoais e pressuposições emocionais que inconscientemente fixam l i -
i serão seguros e de que não será preciso refazer m e l a n c o l i c a m e n t e o mites p a r a as suas possibilidades de chegar à verdade das coisas. A
caminho percorrido. Importante é ressaltar que não se u s a a q u i o raiz o c u l t a das suas asserções é — o ego! Estou com a razão diz
termo dúvida em sentido cético m a s agnóstico. Não é u m a atitude u m ; não, e u é que estou com a razão, retruca outro.
correta negar intolerantemente aquilo que n e m m e s m o compreendemos,
mas é perfeitamente correto o b s e r v a r : — E u não sei. E u não v i . P o r O E u se o c u l t a sob a ignorância gregária, os fátuos enganos e as
isso não posso começar com nenhuma asserção dogmática: s e j a de p r i m i t i v a s incompreensões do género humano.
afirmação, seja de negação. — T a l posição não será a d o t a d a pelas Dentre todas as falsas crenças e enganosas ilusões que obscurecem
pessoas de natural impaciente, sempre prontas a a c e i t a r e m p r i m e i r a a mente a m a i s forte é a de que tudo aquilo que sabemos, acreditamos,
instância tudo aquilo que lhes for agradável, sempre r e l u t a n t e s e m vemos o u endossamos mentalmente é necessariamente verdadeiro. —
rever opiniões apressadas e colocar perguntas pertinentes antes de E u s e i l — é u m a declaração que qualquer tolo poderá fazer, como
aceitar u m argumento. Aqueles que se a g a r r a m à p r i m e i r a e m a i s dizem os sábios, m a s se t a l conhecimento é correto isso é coisa que
simples das conclusões eximem-se dos aborrecidos conflitos interiores r a r o o indivíduo se dá ao trabalho de verificar. Por esta razão é a
mas inconscientemente incorrem no erro do p r i m i t i v i s m o . N o f i n a l , dúvida necessária. £ u m a característica dessa gente (e de quase toda
por isso, sua atitude viciosa terá u m d i a de p r o d u z i r seus f r u t o s de- a h u m a n i d a d e ) a c r e d i t a r que compreende cabalmente quando na rea-
cepcionantes. U m espírito não-apressado é, por isso, u m a vantagem lidade não o faz. Daí o fato de o sábio que inicia seu discípulo no
aqui. c a m i n h o derradeiro adotar como s u a primeira tarefa a revelação desse
defeito u n i v e r s a l . E l e explica que o — E u s e i ! — é a presunção cons-
Não queremos dizer com isto que devamos nos d a r p o r satisfeitos ciente o u inconsciente d a humanidade e que a humildade em seu sen-
com as nossas dúvidas, nem tampouco com o sombrio confinamento tido m a i s verdadeiro deve ser procurada e encontrada pelo aspirante
do agnosticismo. Queremos dizer que devemos t r a n s f o r m a r o nosso antes que este possa ensaiar o primeiro passo em frente. E a pre-
ato de duvidar num aguilhão a forçar continuamente u m a investigação sente acepção não apenas é m o r a l como também psicológica. —- E u
mais profunda, e não numa gélida mão que nos desencoraje a prosse- s e i ! — v i a de regra significa — E u acho — ou — E u sinto — ou —
guir. Dizem os sábios que as dúvidas são de grande u t i l i d a d e , p r i n c i - E u prefiro — e n e n h u m a destas expressões é u m critério válido de ver-
palmente quando somos induzidos a dissipá-las através de u m a b u s c a dade. Daí a inadiável necessidade de pôr em dúvida aquilo que j u l -
perseverante que nos conduza u m d i a a u m nível m a i s elevado de gamos saber, de afastar rigorosamente as nossas imaginações, de veri-
compreensão. Não devemos expulsá-las à força ou dissimulá-las t i m i - f i c a r as idéis e pôr à p r o v a os conceitos que com tanta veemência
damente. E se formos tolos a ponto de p e r m i t i r que as dúvidas inter- abraçamos e de levantar questões nos assuntos que confessadamente
rompam toda e qualquer investigação posterior, nesse caso não tere- ignoramos. Não devemos c r e r n a crença. Pois a crença se apresenta
mos o direito de dogmatizar com pessimismo acerca da intangibilidade onde a razão teme pisar.
da verdade em geral, como fazem numerosas pessoas no Ocidente.
O caminho do Raciocínio. 0 estudante tem agora de retirar-se.
Diz a filosofia oculta, contrariando a autoridade: — Recebe de
E l e poderá voltar-se noutra direção e i r bater noutra porta: a da
boa sombra a dúvida — passo inicial no caminho da certeza — e serás
lógica. Todos u s a m a lógica até certo ponto. 0 pássaro, o castor e
salvo! — Mas isto é dito apenas àquele que p r o c u r a a verdade m a i s
o peixe são guiados por u m instinto natural, mas o homem só se
elevada. Para todos os outros, para todos quantos não têm tempo
orienta à custa de u m a c e r t a dose de raciocínio. A lógica possui u m
para u m a busca tão longa ou não têm vontade n e m capacidade p a r a
imenso v a l o r no reino do dia-a-dia; ela é capaz de ordenar os nossos
encetá-la, a filosofia oculta endossa sem hesitação as injunções d a
pensamentos de u m a forma conveniente; é capaz de descobrir erros
autoridade. B e m conhece ela o valor prático que t e m p a r a tais ho-
graves e enganos variados nas nossas peregrinações das premissas às
mens as instituições pré-fabricadas, que, através de l i v r o s s a c r o s e s a -
conclusões; é capaz de nos mostrar como raciocinar. Mas i preciso

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que reconheçamos com humildade que o conhecimento teórico das
Antes de prosseguirmos é essencial que retiremos o term
leis da lógica não tem impedido os homens de p r a t i c a r erros absurdos. da ambiguidade e da confusão que v i a de regra o cercam. Razão é a
Os advogados são obrigados a u s a r a lógica n a s u a argumentação faculdade que apreende e julga a verdade, distinguindo-a da falsidade,
perante os tribunais. Mas, como o seu propósito consciente o u sub- da opinião, da imaginação ou da ilusão. Torna-se oportuno inserir
consciente é fazer triunfar a sua causa, não r a r o a verdade f i c a des- aqui a definição de verdade dos sábios. Já se demonstrou que sem tal
figurada no correr do processo pelo exagero de pontos pouco impor- definição os homens ficam perdidos numa árida solidão de fantasias
tantes, pela omissão de fatos desagradáveis e pelos apelos à sensibili- ocas, opiniões infundadas, teorias sem valor e palavras substanciali-
dade do júri. Ademais, quando examinamos o repisado silogismo da zadas. A definição talvez seja das mais simples, mas suas implica-
lógica sob u m ponto de vista filosófico constatamos s e r ele assaz en- ções são das m a i s profundas. É preciso gravá-la fundo no coração.
ganoso. — Todos os homens são mortais. Sócrates é h o m e m . Logo, Ei-la:
Sócrates é mortal — E n t r e as sílabas inteiramente plausíveis deste clás-
sico silogismo existe a gigantesca presunção de que conhecemos todos VERDADE é aquilo que está acima de qualquer contradição e
os homens que viveram no passado, todos os que v i v e m hoje e m dia livre de toda dúvida; aquilo que na realidade está além da possi-
e todos os que viverão no futuro: coisa de todo impossível. O silo- bilidade tanto da contradição como da dúvida; aquilo que está
gismo começa, portanto, com u m conhecimento provado que, n a rea- além das modificações e da alternação do tempo e da vicissitude;
lidade, não é em absoluto u m conhecimento. Logicamente ele é per- aquilo que é sempre igual a si mesmo, inalterável e inalterajdo;
feito, mas filosoficamente é defeituoso. Talvez se preste às l i m i t a d a s universal e por isso independente de toda ideação humana.
condições do uso prático cotidiano, m a s p a r a efeito da apuração final
da verdade mais elevada é totalmente inaceitável. Os maiores espe- O objeto dessa filosofia é u m conhecimento independente das in-
cialistas em lógica reconhecem hoje e m d i a que esta é incapaz de termináveis vicissitudes d a opinião humana. Aplicando o critério dessa
produzir uma nova verdade, podendo apenas e x t r a i r aquilo que está definição, constatamos que toda dependência às volúveis autoridades
contido nos fatos já dados. A lógica é u m instrumento imperfeito e humanas, toda crença nas palavras escritas ou faladas, toda aceitação
como tal não pode produzir u m a certeza absoluta. E l a f u n c i o n a dentro de qualquer coisa que não seja a razão como a mais elevada instância
de certos limites de utilidade e validade. Não pode, por isso, revelar de apelação, traz-nos de pronto para os domínios das contradições,
o significado derradeiro da existência; os muros e m torno são dema- contradeclarações, e dúvidas e por isso essas dúbias fontes de conhe-
siado difíceis de escalar. cimento são banidas das nossas operações. Não há certeza nelas. Por
Acontece vez por outra que aqueles que tomam consciência desses esse motivo a p a l a v r a razão não é aqui usada como mero sinonimo de
defeitos insanáveis da lógica enveredam por u m atalho p a r a o alívio árida argumentação. Os Escolásticos de outras eras empregaram a
intelectual, recuando no seu desespero ou n a s u a escuridão e descendo p a l a v r a nesse sentido e mostraram como as pessoas argutas são ca-
ao vago nível do sentimento pessoal — saída que lhes parece s e r a pazes de invocar numerosas razões em abono de suposições ocas. Ló-
única disponível. Aqui o intelecto poderá abdicar v o l u n t a r i a m e n t e e gica é a arte que b u s c a assegurar u m raciocínio correto, mas, infeliz-
encontrar descanso durante algum tempo, porém, m a i s cedo o u m a i s mente, não cuida de p a r t i r de dados corretos; ela pode e amiúde co-
tarde, surgirão decerto sérias decepções e gritantes contradições, como meça c o m pressupostos que não passam de fantasias ou de informa-
que a indicar a impossibilidade de alcançar algum alívio pela v i a fácil. ções erradas. Razão é a faculdade de pensar corretamente, que pro-
Outros, sem disposição para refazer o seu caminho, começaram a aban- c u r a a verdade e que assegura que a sua atividade deve começar com
donar os antigos métodos formais e a construir sistemas não-Aristo- todos òs fatos observados da experiência real. 0 lógico cujas pre-
télicos de lógica. Estes, porém, permanecem n u m estágio a i n d a expe- missas são falsas pode, não obstante, pensar corretamente e chegar a
rimental. conclusões erradas. A razão evita t a l erro.
O investigador que deseja trocar a lógica por u m método m a i s T a m p o u c o é o termo usado como sinónimo de simples especulação.
elevado passará, em última instância, p a r a a etapa seguinte, que é Os a n a i s d a metafísica estão repletos de numerosos voos da mais pura
a da razão amadurecida. Por amadurecida entende-se u m a faculdade fantasia aos quais se deu u m a orientação aparentemente racional. O
de raciocínio que não apenas preenche rigorosamente os requisitos do pensamento que ignora os fatos da experiência não é raciocínio tal
fato, da indução e dedução, não apenas se mantém imparcialmente dis- como o entendemos. E o raciocínio limitado exclusivamente aos fatos
tante de toda espécie de predisposição, preconceitos, favoritismos ou da experiência pessoal também não é raciocínio no sentido mais amplo
egoísmos, como também aprende a operar tão livremente sobre os da p a l a v r a . E m b o r a tanto a lógica como a razão estabeleçam como
níveis concretos como sobre os abstratos. Segundo os sábios d a anti- critério que o raciocínio não deve cair em autocontradição, e que não
guidade trata-se de u m requisito preliminar à aquisição d a introvisão. deve ser frouxo n e m vicioso, a primeira contenta-se com fatos parei

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ao passo que a última exige nada menos do que a totalidade dos fatos. quer outro elemento do grupo científico, cujos componentes têm por
0 intelecto, que pode ser definido como a a t i v i d a d e de p e n s a r com conseguinte a possibilidade de concordar entre s i . Fator de inexpug-
lógica, é levado pelos desejos de cunho pessoal e pelas predisposições nabilidade d a genuína filosofia é que apenas ela apela para a experiên-
individuais a escolher seus dados segundo u m critério de preferência, c i a universal, p a r a aquilo que qualquer homem a qualquer momento
ao passo que o raciocínio, que pode ser definido c o m o a atividade de e m qualquer lugar poderá verificar, desde que possua a capacidade
pensar com acerto, é rigorosamente impessoal e a p a r t a asceticamente m e n t a l necessária.
os seus sentimentos do manuseio dos fatos.
É c o m u m entre os místicos, intuitivos e alguns religiosos criticar
Apenas quando o pensamento não é apenas rigidamente lógico m a s causticamente as cambiantes hipóteses científicas e entornar o ácido
também rigidamente impessoal; apenas quando é levado aos seus ex- do desprezo sobre a s conquistas modernas e as aplicações tecnológicas
tremos e sempre baseado em fatos u n i v e r s a l m e n t e válidos — q u e po- da ciência. Ademais, quando hoje em dia estoura u m a guerra, parte
dem ser comprovados tanto nos desertos do N o r t e d a África como dos seus horrores é atribuída também à ciência. Tudo isto trai uma
nas ruas de Nova Iorque e que daqui a dez séculos continuarão tão confusão de pensamentos de p a r com predisposições emocionais. Se
verdadeiros como agora — apenas então merece ele a a l t a n e i r a desig- as mudanças da teoria revelam as imperfeições da ciência — como
nação de razão. reconhecidamente o fazem — devemos admitir que revelam igualmente
u m duplo objetivo interno c u j a extrema significação a filosofia praze-
Esse arrazoado competente o u integridade i n t e l e c t u a l é r a r o . E rosamente aceita. 0 primeiro é u m a busca da verdade que ocasiona
possui, como veremos, u m a auto-expressão bifacetada. A primeira u m a propensão a trocar u m ponto de vista imperfeito por outro melhor,
reside n a ciência, m a s é l i m i t a d a e imperfeita. A segunda existe n a quando houver fatos adicionais indicando conclusivamente tais imper-
filosofia, e aqui encontra o seu melhor e m a i s a m p l o desenvolvimento. feições. O segundo é u m esforço no sentido de generalizar os dados,
Pode-se, por isso, assinalar que a ciência é o vestíbulo d a filosofia. f o r m u l a r leis universalmente compreensivas. Trata-se, na realidade,
A própria vanguarda dos cientistas modernos está começando a fazer de u m a tentativa de i n c l u i r a multidão n a unidade, de receber a dife-
essa descoberta, pois, façam o que fizerem c o m a finalidade de esca- renciada miríade das coisas n u m a única e grandiosa unidade. São
par, a pressão dos seus próprios resultados e a força do s e u próprio características que, ao f i m e ao cabo, trarão o exército em marcha dos
raciocínio os levam passo a passo à b u s c a do significado derradeiro cientistas p a r a o sempre receptivo acampamento dos verdadeiros filó-
de toda experiência, o que v e m a s e r filosofia. sofos.
Poder-se-á objetar que os antigos h i n d u s j a m a i s c o n h e c e r a m a N o que tange às acusações de que a ciência torna piores as guerras,
ciência* tal como hoje a entendemos. A objeção será c o r r e t a desde pode-se dizer que — assim como todas as demais coisas — ela tem
que se faça referência ao método experimental inaugurado p o r B a c o n , seus aspectos luminosos e escuros, suas agradáveis vantagens e suas
mas os sábios de então conheciam o princípio científico d a verificação repelentes desvantagens. S e a ciência nos deu explosivo de alta po-
e o valor filosófico da observação que são elementos essenciais d a s tência e aviões de caça, deu-nos também o conforto da luz elétrica e
suas doutrinas. do aquecimento central.
Tanto o cientista quanto a místico p a r t i l h a m deste fator c o m u m : Não se deve c u l p a r a ciência porque alguns homens são demasiado
o cansaço das crenças cegas e a vontade de chegar à comprovação d a tolos o u demasiado imorais p a r a usá-la como de direito. A ciência é
experiência. P o r isso ocupa o m i s t i c i s m o u m l u g a r tão elevado n a inteiramente n e u t r a . Os mesmos explosivos químicos que podem man-
escala da evolução mental, além da fé, da intuição e d a lógica. C e r t a s d a r pelos ares todo u m pelotão de homens podem também fertilizar
diferenças importantes devem, contudo, s e r salientadas. O místico o solo e ensejar o aparecimento de novas colheitas, O mesmo motor
busca e considera satisfatória s u a própria experiência, enquanto o de combustão i n t e r n a que aciona u m letífero tanque de guerra pode
cientista não se satisfaz com a validade da s u a experiência pessoal também acionar u m veículo de transporte coletivo. A mesma emissora
mas procura também a experiência de u m número m a i o r de indivíduos. de rádio que enche as cabeças dos homens com mentiras, ódios e pro-
Daí ser mais ampla a s u a verificação. Ciência é colaboração; seus paganda tendenciosa pode também divulgar verdades sublimes, gran-
resultados são os resultados dos esforços de grupos, como os biólogos, diosas e i n s t r u t i v a s . As invenções científicas invadiram o século vinte
químicos ou físicos. Fraqueza irremediável do m i s t i c i s m o é que s u a como u m a enchente. O conhecimento científico tanto pode ser bem co-
validade repousa naquilo que u m homem sente e encontra no seu mo m a l empregado pelos homens, mas os seus notáveis progressos náo
intimo, região inacessível aos outros, e, por isso, a m a i o r p a r t e d a s podem s e r detidos. T a l conhecimento veio para ficar. Trata-se do mais
suas descobertas não pode ser comprovada. Força admirável d a ciência notável fenómeno d a nossa e r a . Nós somos obrigados a aceitá-lo. Os
é que a s u a validade repousa naquilo que está acessível n a N a t u r e z a místicos talvez tentem ignorá-lo m a s não lograrão êxito. Nenhum ho-
ou nos laboratórios, sendo por isso passível de verificação p o r q u a l -

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mem moderno pode passar u m a s e m a n a sequer s e m se s e r v i r u m a
costumam cometer o engano de acreditar que por possuir um nomen
centena de vezes dos frutos d a pesquisa científica. E não será melhor u m a grande capacidade n u m determinado terreno, ou por desempe-
escravizar máquinas de aço ao invés de homens gemebundos? nhar-se ele com eficiência de u m cargo público, suas opiniões nos as-
Outro hábito corrente entre os místicos orientais, dos quais Gan- suntos estranhos à s u a esfera de atividade profissional têm o mesmo
dhi é u m excelente exemplo, é denunciar tudo quanto é moderno em valor. O que não se sabe é que a insanidade pode localizar-se em
favor daquilo que é medieval e, consequentemente, a t r i b u i r u m a ori- determinados setores da mente, por assim dizer.
gem satânica à ciência e u m a origem celestial às f o r m a s p r i m i t i v a s A esquizofrenia é muito encontradiça entre os dementes. Mas há
de cultura e civilização. Não é necessário p r o c u r a r m u i t o p a r a obter vários graus de demência. Apenas quando u m a pessoa demente se
a resposta, pois o próprio G a n d h i não hesitou e m r e c o r r e r aos m a i s torna perigosa p a r a os seus semelhantes ou prejudicial a si mesma é
recentes métodos da cirurgia p a r a livrar-se do seu incómodo apêndice; ela rotulada como t a l e recolhida a u m hospício. Numerosas pessoas
os iogues não pensam duas vezes p a r a e m b a r c a r nos modernos trens não se enquadram nessa categoria mas são suficientemente desequili-
que os levam p a r a perto dos seus retiros no sopé do H i m a l a i a ; pere- bradas p a r a serem parcialmente dementes, embora nem elas próprias
grinos atopetam entusiasticamente os caminhões à g a s o l i n a q u e o s n e m a sociedade de modo geral se dêem conta disso. Não é exagero
transportam através das planícies e m demanda das cidades s a n t a s ; a f i r m a r que as guerras, crimes, ódios, conflitos e lutas sociais que afli-
e até mesmo os críticos que f o r m u l a m tais denúncias fazem-no usando gem o mundo se devem a que a maior parte da humanidade é mais ou
canetas-tinteiros e papel produzido e m fábricas, p a r a depois mandá-las menos demente. E , de acordo com o ensinamento oculto, apenas os
a u m a impressora a f i m de que sejam tiradas m u i t a s cópias dos seus sábios conseguiram u m a sanidade completa e u m equilíbrio integral!
escritos! A ciência ocupa assim o seu inevitável l u g a r e m suas vidas,
A demência tende a desenvolver-se gradualmente. Aquilo que prin-
por mais ingratos que sejam aqueles a quem está servindo. A capa-
c i p i a como u m a branda e inócua forma de crença supersticiosa pode
cidade de prejudicar a humanidade através das guerras, conquanto
evoluir p a r a u m completa impossibilidade de conduzir os assuntos
lamentável, pode ser removida unicamente de u m a m a n e i r a , isto é,
corriqueiros d a v i d a .
trazendo a verdade filosófica p a r a a alçada d a h u m a n i d a d e .
A tentativa de j u s t i f i c a r fantasias sem base ou ingénuas supersti-
Torna-se necessário fazer agora u m a advertência conhecida dos ções herdadas através de u m a demonstração lógica plausível é racio-
psiquiatras militantes e dos psicólogos p r o f i s s i o n a i s . ! A faculdade do nalização. O esforço de pensar rigorosa e impessoalmente sobre os
raciocínio pode ser bastante desenvolvida no que r e s p e i t a a s u a apli- fatos é arrazoar. A diferença entre ambas as coisas pode ser obser-
cação a u m a esfera especial de interesse, e, contudo, no m e s m o h o m e m vada nos casos de numerosos homens públicos.
pode ser quase que inteiramente não-utilizada ou, quando m u i t o , pou-
A p a l a v r a razão parece ser tão familiar, apresenta-se com tanta
quíssimo usada quando se t r a t a r de u m a esfera diferente. É o co-
frequência n a arenga dos oradores e n a pena dos escribas, que o leitor
nhecido fenómeno denominado esquizofrenia. P o r exemplo, u m ho-
que ansiosamente aguardava alguma nova revelação irá provavelmente
m e m poderá ter-se guindado rapidamente a u m a posição de relevân-
desapontar-se agora. E l e terá alimentado a esperança de que talvez
cia dentro do seu campo de atividade graças ao uso efetivo d a razão
os sábios do E x t r e m o Oriente, na qualidade de elite da evolução men-
e, no entanto, tão logo suas atenções se v o l t e m p a r a o u t r o s assuntos
tal e ética d a humanidade, tenham desenvolvido u m novo órgão de
não haverá crenças suficientemente tolas p a r a que ele não as a c e i t e !
conhecimento, algo que o restante da ronceira humanidade irá decerto
É muito possível que o mesmo homem s e j a u m a criança e m assuntos
desenvolver em épocas futuras. Tais esperanças serão amplamente
religiosos e u m adulto e m matéria de negócios; daí poder s e r múltiplo
gratificadas, quando os mais altos mistérios da meditação ultramística
do ponto de v i s t a mental e uno do ponto de v i s t a físico!
forem revelados no segundo volume desta obra. Esse novo órgão
A mente pode estar dividida e m compartimentos de ideias, u m existe. É a introvisão ultramística. Mas não pode ser desenvolvido
dos quais será eficiente e o outro, por obtuso ou m e s m o defeituoso, sem a evolução p r e l i m i n a r da corriqueira, batida e comentada facul-
permanecerá inteiramente isolado do p r i m e i r o . Determinados juízes dade da razão.
e estadistas de comprovada argúcia e x i b i r a m h i s t o r i c a m e n t e essa curio-
V e j a m o s . S e r i a m os sábios suficientemente tolos e desavisados a
sa enfermidade mental, quando, por exemplo, s u a razão recusou-se a
ponto de propor u m instrumento de conhecimento que na aparência foi
discutir as bases da religião tradicional. E s s e m a l do compartim&n-
exaustivamente provado pelos gregos e continua a sê-lo pelos cientis-
talismo mental decorre de u m a recusa, consciente ou não, e m u s a r a
tas e filósofos euro-americanos, mas que em nenhum dos casos con-
razão quando no trato de determinados assuntos. E m consequência
duziu a qualquer solução do problema do mundo, o qual parece fa-
testemunhamos o doloroso espetáculo de u m h o m e m sensato valendo-se
dado a permanecer p a r a sempre u m objeto de controvérsia; seriam
de recursos ridículos p a r a defender crendices ridículas. A s pessoas

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tais sábios ridículos a ponto de designar como perfeito u m i n s t r u m e n t o no sono — tranquilo ou agitado — e r a considerada como demasiado
desse tipo? insignificante p a r a merecer algum estudo, quando toda a sua atenção
A resposta é que tanto o grego antigo como o moderno pensador voltava-se, de f o r m a i n j u s t a , tão-somente para o estado desperto? T a l
têm contra si três acusações principais por esse f r a c a s s o : ( a ) — dei- perspectiva e r a por inteiro inadequada ao desiderato que se propu-
xar de coletar dados completos, ( b ) — ignorância d a aplicabilidade n h a m e a derrota desenhava-se, por isso, certa já nos inícios da batalha
da lei da relatividade não apenas aos fenómenos físicos observados pela verdade. N e n h u m sistema de pensamento que exclua o estudo
mas também aos fenómenos psicológicos observados e, a f i n a l , à mente do sono poderá s e r concludente; pelo contrário, a probabilidade maior
do observador propriamente dita. ( c ) — d e i x a r de l e v a r s u a l i n h a é que as suas conclusões v e n h a m a ser erróneas, defeituosas ou im-
de raciocínio até o extremo limite, e x a u r i n d o destarte possibilidades perfeitas.
ainda desconhecidas. São acusações de peso, m a s é p r e c i s o que se- Se a ciência deve evoluir p a r a a filosofia, e se a lógica deve evoluir
j a m demonstradas. Não obstante, mesmo que as três incorreções fos- p a r a a razão, é preciso que os três estados d a existência sejam incluí-
sem corrigidas, ainda assim a verdade p e r m a n e c e r i a f o r a do alcance dos n a órbita dos estudos. Deve-se creditar aos poucos conhecidos sá-
do investigador científico médio a menos que este estivesse disposto a bios h i n d u s o fato de que n u m a época e m que a civilização europeia
disciplinar-se de alguma forma. I s t o feito, porém, a m e n t e h u m a n a , a i n d a engatinhava eles já h a v i a m captado esse importante aspecto
escoimada do seu egoísmo inato, perfeitamente concentrada, aguçada d a v i d a e já e n s i n a v a m aos seus atentos discípulos que a l i estava a
para as sutilezas mais metafísicas e abstraída no intenso devaneio d a chave p a r a os m a i s profundos mistérios do s e r ; e a matéria descle
autoobservação intencional, poderá a f i n a l esperar conseguir u m a i n - cedo foi incluída entre os seus estudos filosóficos. Realmente, os sá-
trovisâo única da real natureza das coisas, do significado d e r r a d e i r o bios h i n d u s a f i r m a v a m que u m a investigação da natureza e das im-
da existência universal e da verdade o c u l t a do seu próprio e miste- plicações do sono e r a essencial, pois t a l fenómeno da vida era de
rioso ser. grande importância p a r a a compreensão do estado desperto.
A primeira acusação poderá ser agora j u s t i f i c a d a . A filosofia oci- E x i s t e no Ocidente u m a ideia corrente porém desculpável de que
dental não tem honrado o seu credo. Aquilo que m a i s t e m atraído apenas os indivíduos primários necessitam d a r atenção aos sonhos
através dos tempos os homens reflexivos e as mentalidades generosas e de que as mentes científicas nada têm a aprender com o sono pro-
para o estudo da filosofia é talvez a s u a pretensão de p r o c u r a r (sendo fundo. A superficialidade deste ponto de vista será amplamente de
a única a fazê-lo entre todos os ramos da c u l t u r a h u m a n a ) u m a visão monstrada quando o assunto vier a ser tratado e m detalhe.
compreensiva da vida como um todo. Contudo, é estranhável que O u t r a desvantagem dos filósofos bem como dos cientistas ociden-
toda a tradição histórica da filosofia grega, europeia e a m e r i c a n a t e n h a tais não reside apenas n a insuficiência dos dados mas também na im-
negligenciado por completo e m suas investigações u m aspecto d a v i d a perfeição do s e u instrumento. A ferramenta com a qual u m filósofo
tão importante que ocupa nada menos do que u m terço d a duração p r e c i s a t r a b a l h a r é a s u a mente. Os sábios antigos não permitiam
da existência humana. que u m h o m e m iniciasse os estudos filosóficos enquanto sua mente
Referimo-nos à condição do sono. Os poucos que e s t u d a r a m o não estivesse devidamente preparada e e m condições de funcionar
assunto foram psicólogos ou médicos, e não filósofos, e, consequen- c o m eficiência. A fase preparatória consistia de u m curso prático da
temente, não se interessaram senão p o r alguns limitados aspectos fí- ioga d a concentração m e n t a l , v i a de regra combinada com u m curso
sicos do sono. paralelo de auto-abdicação ascética. Ambos os cursos, porém, eram
em geral temporários e se prolongavam apenas n a medida em que
Não é, portanto, de surpreender que os pensadores ocidentais não e r a m necessários p a r a colocar as faculdades mentais n u m grau acei-
tenham chegado a u m a solução quanto ao p r o b l e m a d a existência, tável de capacidade de concentração e p a r a colocar o caráter do aluno
quando todos eles deixaram de investigar o problema do sono, conten- n u m g r a u de isenção suficiente p a r a empreender a difícil tarefa da
tando-se com u m a visão fragmentária e incompleta da v i d a , e m b o r a reflexão filosófica.
sua preocupação como filósofos fosse investigar o p a n o r a m a e m s u a
totalidade! Não devemos ficar espantados de h a v e r e m eles divagado Os pensadores ocidentais fizeram tentativas admiráveis, mas fra-
de maneira tão inconsequente, pois, sem os fatos a serem elucidados c a s s a r a m e m parte porque não dispunham dessa mentalidade iogu
por t a l investigação, estavam insuficientemente equipados p a r a a s u a p u r i f i c a d a e controladora, necessária p a r a a b r i r as portas da verdad
ambiciosa tarefa e fadados a retornar frustrados ao ponto de p a r t i d a , A f a l t a de u m curso de ioga responde igualmente pela incapa
à maneira do tigre mutilado que e r r a e m círculos p e l a floresta*sobre dade de certos cientistas ocidentais de destaque para chegar às i
suas três patas sãs. Como poderiam t e r eles coberto e m pensamento plicações m a i s plenas das suas próprias descobertas. Por isso, aqu
toda a nossa complexa v i d a h u m a n a quando aquela v a s t a porção gasta les c i e n t i s t a s e filósofos que não a d q u i r i r a m os duradouros beneffc?

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mentais do exercício místico ( e m oposição às visões e sentimentos
passado longínquo o u ainda — o que é mais comum — pode fornecer
passageiros) terão de reexaminar a s u a conduta e t r a t a r de adquiri-los.
u m a orientação imediata quanto à atitude a ser tomada em face das
T a l deficiência é até certo ponto responsável p e l a s e g u n d a acusa- circunstâncias do momento.
ção contra eles assacada, pois entre todos os seus t r a b a l h o s de inves- Será possível f i x a r aqui u m a fonte que por si só produza u m co-
tigação eles não foram capazes de descobrir — conforme se demons- nhecimento seguro a c e r c a do objetivo da existência e do significado
trará no segundo volume — que o seu próprio ego i n t e r f e r i u e m s e u do u n i v e r s o ? Infelizmente 1 u m a pequena pesquisa histórica em pou-
trabalho, conquanto relativo, passageiro e objetivo c o m o todos os de- co tempo trará à b a i l a a desconcertante informação de que os intui-
mais fenómenos por eles observados; ademais, o ego impediu-os, e m tivos de todas as eras divergiram entre s i em suas conclusões finais,
sua maioria, de ver a sutil verdade d a n a t u r e z a m e n t a l de todos os t i v e r a m u m a orientação espontânea absurdamente contraditória e
fenómenos, seja do mundo exterior s e j a do ego i n t e r i o r . atreveram-se a fazer declarações que o tempo encarregou-se de de-
A justificação da terceira acusação será também a m p l a m e n t e for- m o n s t r a r falsas. N e m todas as suas predições deixaram de cumprir-se,
necida n u m volume posterior, m a s bastará p o r o r a a s s i n a l a r q u e ape- n e m todas as suas intuições foram vãs; houve n a verdade notáveis
sar das descobertas de Heisenberg, autor d a Lei da Indeterminação, exemplos e m que as palavras se j u s t i f i c a r a m amplamente e se demons-
e das de M a x Planck, formulador d a T e o r i a dos Q u a n t a , n e m u m só t r a r a m corretas. A descoberta de surpreendentes invenções tecnoló-
líder do pensamento euro-americano ousou t o m a r u m a posição cora- gicas e de leis científicas da maior utilidade surgiu por vezes de forma
josa e decisiva relativamente à questão d a Não-Causalidade. Peio i n t u i t i v a e espontânea durante momentos de repouso ou devaneio.
contrário, tais homens mantêm-se todos n a d i v i s a que s e p a r a a v e l h a M a s t a i s exemplos f o r a m relativamente tão poucos que a ninguém é
e conhecida lei d a causação do novo, estranho e revolucionário p r i n - dado a s s e g u r a r a priori a infalibilidade de qualquer dessas declara-
cípio cuja aceitação integral t r a n s f o r m a r i a i n v o l u n t a r i a m e n t e os cien- ções. P o r outro lado, os exemplos de discordância, não-realização, pro-
tistas em filósofos consumados I No entanto, a física, n a qualidade pensão emocional e indiscutível abandono dos fatos conhecidos foram
de mais v i r i l das ciências modernas, tomou de c e r t a f o r m a a i n i c i a t i v a tão numerosos que somos obrigados a reconhecer, contrafeitos, que o
e tem lançado olhares hesitantes n a direção d a filosofia, s u a a t u a l v i - chão pisado pelo i n t u i t i v o é incerto e inseguro. Se o seu guia interior
zinha e região p a r a a qual e l a será u m d i a obrigada a r u m a r . serviu-o s e m e r r a r algumas vezes, não há nenhuma garantia de que
continuará a s e r a s s i m . P o r que isso? Porque os sentimentos fortes,
os complexos inconscientes, os impulsos repentinos e o desejo que é
Pensamento, Intuição e Misticismo. O estudante p r e c i s a calçar
pai do pensamento são de hábito confundidos com as genuínas intui-
os sapatos e deixar o recinto da fé cega, d a lógica p u r a e das limitações
ções. Apenas aqueles poucos que adotaram a disciplina filosófica são
racionais. P a r a onde deverá i r ? A p r i m e i r a reação à dependência
capazes de d i s t i n g u i r todas essas pseudo-intuições das verdadeiras.
dos outros é a dependência de s i mesmo. S u r g e m a s s i m referências
Como, porém, a pessoa c o m u m raro adotou a disciplina filosófica, fre-
aos sentimentos pessoais alheias às da experiência e x t e r n a , i n t u i t i v a
quentemente é e l a i l u d i d a por algum engodo no exato momento em
e interna. O estudante passa assim p a r a o segundo g r a u d a inteligên-
que a c r e d i t a e s t a r sendo dirigida pela intuição, coisa n a verdade tão
cia humana, onde o conhecimento que lhe é oferecido p a r e c e s e r s u -
m a r a v i l h o s a quanto i n c o m u m . Não obstante,/quando a verdadeira
perior à fé cega. Aqueles que estão fartos das contradições d a s e r v i l
faculdade i n t u i t i v a realmente se apresenta, ela se demonstra mais va-
dependência aos outros voltam-se por vezes p a r a essas fontes pessoais
liosa que q u a l q u e r outra, m a i s profunda que o raciocínio e mais digna
e a l i encontram, ao que parece, u m a renovada certeza e u m a satisfação
de confiança como guia./?
que parece liberá-los daquela duvidosa dependência. E x e m p l o s disto,
nós os encontramos e m K a n t , c o m o seu imperativo categórico i n t e r i o r
no campo da m o r a l ; em H i t l e r , que só reconhecia como correto a q u i l o A ilustração histórica do fato encontra-se em R a l p h Waldo Emer-
son, c o m o seu simbólico influxo da mente divina na nossa mente, em
que julgava ser melhor p a r a s i ; no D r . F r a n k B u c h m a n , cujos grupos
oxfordianos dedicam-se a escutar durante a hora do silêncio mensa- J . Boehme, c o m a súbita iluminação que adquiriu através dos transes
gens intuitivas p a r a orientação de suas atividades m u n d a n a s . que a s s i n a l a r a m a s u a v i d a , e e m E m m a n u e l Swedenborg, com suas
estranhas visões de homens e mulheres falecidos em seus ambientes
Intuição é u m pensamento ou ideia que surge espontaneamente celestiais o u no purgatório. A experiência mística é por vezes espon-
e é aceito sem hesitações pelo ego. A intuição surge por s i m e s m a tânea m a s v i a de regra é auto-induaida. Neste último caso decorre
n u m a fração de segundo, permanece independentemente d a n o s s a ela d a prática d a concentração mental ou de u m a intensa aspiração
volição e some sem pedir permissão. E l a pode esclarecer-nos n u m emocional ou d a atenção interiorizada transformada numa condição
relance a real natureza de u m a coisa, pode traduzir-se n a previsão de de devaneio o u mesmo de transe. Durante tais estados poderão sur»
alguiii acontecimento futuro ou n a descrição de algo ocorrido n u m gir n a mente visões extraordinariamente vívidas de homens, aconteci-

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mentos ou lugares; o místico, se b e m que só ele, t a l v e z ouça vozes,
e tais vozes poderão trazer-lhe u m a mensagem, u m a advertência, u m a m a t a r pela força do pensamento os vivisseccionistas a f i m de s a l v a r a
v i d a dos a n i m a i s ; Miguel Molinos, que impregnou de toda a emotivi-
série de instruções ou u m a revelação r e l i g i o s a ; até m e s m o D e u s po-
dade e s p a n h o l a a s u a união c o m Deus; E l i p h a s L e v i , que aplicou curio-
derá ser sentido como u m a presença próxima e s u b l i m a d o r a ; o mís-
sas interpretações cabalísticas à teologia católica; Jacob Boehme, que
tico, poderá sentir-se arrebatado no espaço c o m o p o r vezes acontece
foi p r e s a de t r a n s e entre os remendos d a s u a velha sapataria; H u i K o ,
em sonho aos não-místicos, de modo que lhe é possível fazer v i s i t a s que e n s i n o u aos camponeses chineses o seu misticismo e foi cruelmente
mentais a locais, pessoas e esferas distantes. O u poderá a i n d a che- m a r t i r i z a d o p o r i s s o ; e W a n g Y a n g Ming, que descobriu no próprio
gar ao clímax em glorioso êxtase, o q u a l será violento e erótico ou coração u m m u n d o d i v i n o !
sereno e beatífico, m a s será encarado como o s i n a l d a e n t r a d a n u m
A limitação o c u l t a e a fraqueza desconhecida do misticismo é que
reino mais elevado do ser, v i a de regra c h a m a d o de espiritual, alma, não se t r a t a de u m a b u s c a d a verdade definitiva e s i m de u m anseio
realidade divina e assim por diante. de experiências emocionais. P o r isso, o místico preocupa-se mais e m
No entanto, não devemos aceitar falsificações d a s m a r a v i l h o s a s ter os seus sentimentos t e m p o r a r i a m e n t e apresados n u m a grande paz
realidades de tais experiências. E m p r i m e i r o lugar, e m p r e g a n d o u m o u t e m p o r a r i a m e n t e espicaçados p o r u m a grande visão o u temporaria-
critério consistente, vejamos até que ponto os místicos não se c o n t r a - mente exaltados p o r a l g u m a mensagem o r a c u l a r de caráter pessoal.
dizem entre s i . S e m fazer alentadas incursões n u m t e r r e n o contro- Daí a filosofia abordá-lo o u assustá-lo c o m a pergunta: — Como sabe
verso, pode-se dizer concisamente que não se deve p e n s a r q u e o m i s t i - que a fonte d a s u a comunhão é de fato Deus o u a Realidade, Jesus
cismo seja u m a experiência tão privilegiada que a s e u respeito todos ou Krishna?
os místicos estejam sempre de acordo. Longe disso. A s s i m c o m o o s Mas ele se recusará a o u v i r qualquer crítica, por procedente que
homens de religião — desde o m a i s tosco campônio até o m a i s r e f i - seja, a respeito d a possível irrelevância das suas conclusões. E insis-
nado pregador — v a r i a m bastante e m c a l i b r e pessoal e p e r s p e c t i v a tirá e m fazer do fato indiscutível d a s u a própria experiência o critério
mental, assim também existem diferenças entre o s místicos e é fácil discutível d a s u a validade. I n t e i r a m e n t e inevitável e humano é que
constatar que, tirante os cinco princípios já mencionados e m capítulo e m tais circunstâncias ele se deixe empolgar pelo sentimento de ex-
anterior, até mesmo os místicos t r a e m e m suas p a l a v r a s e atos a ine- traordinária imediação do acontecimento e pela força das suas inusi-
xistência de u m a unanimidade entre eles. Malgrado a s d i v e r s a s a n a - tadas exaltações a ponto de d a r m a i o r importância ao que é menos
logias em suas doutrinas e práticas, há também n u m e r o s a s e insaná- essencial e que isto lhe baste, s e m maiores investigações da natureza
veis diferenças entre elas. E n q u a n t o a m a i o r i a gasta u m bocado de oculta e d a v e r a c i d a d e d a d i t a experiência.
tempo desencravando problemáticos significados esotéricos e n t e r r a -
dos nas escrituras, u n s poucos desdenham as e s c r i t u r a s e têm t a i s O valor d a meditação p a r a a paz interior, o êxtase sublime e a
práticas n a conta de acrobacias intelectuais e não de descobertas es- auto-absorção i n t e g r a l é imenso. Mas o seu valor para a busca da
verdade e d a realidade, s e m o auxílio da filosofia, é coisa bem dife-^
pirituais, sustentando que o tempo s e r i a m e l h o r empregado n a m e d i -
rente e r e q u e r c u i d a d o s a investigação por parte de inteligências criti-
tação sobre s i mesmo. E n q u a n t o a m a i o r i a agarra-se de a l g u m a f o r m a
cas e i m p a r c i a i s dotadas de senso das proporções e de argúcia filo-
ao nome de u m personagem sagrado como Jesus o u K r i s h n a , alguns
sófica — qualidades quase sempre ausentes da constituição do místi-
declaram que pouco i m p o r t a a quem estejam seguindo desde que sin-
co. O êxtase é n a verdade u m a f o r m a de satisfação pessoal, mas não
t a m a presença da divindade. As doutrinas a c e r c a das q u a i s discor- é n e m u m completo critério de realidade n e m u m a prova adequada
dam estão repletas de prolíficas fantasias e são m u i t o m a i s n u m e r o s a s da verdade. Pois qualquer tipo de satisfação, por mais nobre que seja,
do que os cinco requisitos essenciais acerca dos quais tendem a s e r não é e m absoluto u m a p r o v a d a verdade. De fato, quanto mais calo-
uníssonos. rosos f o r e m os sentimentos de u m homem e quanto mais caloroso for
o seu entusiasmo, tanto m a i s ele deverá esfriá-los e refreá-los a fim
Aqueles que contestam este fato — pessoas e m s u a m a i o r i a b e m de e x a m i n a r a experiência de u m a forma imparcial e impessoal. Se
intencionadas, m a s despidas de espírito crítico — d e v e r i a m t e n t a r i m a - esta for v e r d a d e i r a , n a d a perderá com t a l exame, mas se for falsa, a
ginar u m conclave dos seguintes famosos místicos encerrados n u m a c a l m a do h o m e m será de grande valia n a constatação da falsidade.
sala até que conseguissem chegar a u m a total unanimidade de pontos
de vista ( s e r i a t a l coisa realmente possível?): Cornélio Agrippa, que Ademais, nós nos deparamos com a insuperável dificuldade de que
mesclou a piedade mística com u m a magia e s t r a n h a ; E m m a n u e l S w e - é impossível v e r i f i c a r a experiência interna de u m outro homem, por-
denborg, que conversava familiarmente com anjos e espíritos; S . S t y l i - que de hábito é impossível e n t r a r diretamente n a mente alheia. Até
tes, que permaneceu muitos anos sentado no topo de u m p i l a r de mesmo a transmissão de pensamento e a leitura de pensamento, con-
pedra, mortificando-se; Anna Kingsford, que confessava abertamente quanto genuinamente possíveis, são ainda raras e imperfeitas.

160 m
podemos fazer inferências, i m a g i n a r c r i a t i v a m e n t e e tecer c o n j e t u r a s ,
mas não é o mesmo que p a r t i c i p a r r e a l e p e r f e i t a m e n t e do conheci- a l t a realização mística não produz qualquer emoção, visão ou preocupa-
mento e da experiência i n t i m a de u m o u t r o h o m e m , c o i s a s q u e neces- ção do belo. Não fosse ele discípulo de Amónio e talvez j a m a i s
chegase a e s s a conclusão. Pois a escola de Amónio em Alexandria ensi-
sariamente estão fora do alcance h u m a n o . A s s i m , q u a n d o u m místico
n a v a tanto o m i s t i c i s m o como a filosofia, sendo esta última, contudo,
afirma haver visto Deus, nós não temos m e i o s irrefutáveis de confir-
r e s e r v a d a p a r a a classe m a i s adiantada e baseada, como já se explicou,
m a r ou desmentir s u a visão. Não há t r a n s m i s s i b i l i d a d e . M e s m o que
n u m a tradição de iniciação proveniente em última análise da índia.
consigamos reproduzir mentalmente t a l visão, tratar-se-á então d a
nossa própria reprodução e j a m a i s poderemos c o l o c a r lado a l a d o a m - — Que desejas? — perguntou R a m a k r i s h n a , o ilustre sábio que
bas as visões e aferir as suas semelhanças. M e s m o reconhecendo a r o m p e u a escuridão d a Índia no século dezenove. Replicou seu famoso
eventual exatidão do conhecimento especial ganho através d a medita- discípulo S w a m i V i v e k a n a n d a : — Desejo permanecer imerso em transe
místico durante três ou quatro dias a fio, quebrandoo apenas p a r a
ção, infelizmente não é possível p a r a a m a i o r i a dos h o m e n s e m o u t r a s
alimentar-me. — E R a m a k r i s h n a emendou: — És u m tolo! Existe um
partes do mundo ter a certeza de d u p l i c a r d a m e s m a m a n e i r a a m e s m a
estado muito mais elevado do que esse.
descoberta por s i próprios: é preciso que eles a p e l e m p a r a a fé p u r a
e simples o u se esqueçam por completo deste método. Daí s e r a ex- N o s s a b u s c a de u m a fonte válida de conhecimento só poderá ter-
periência mística estritamente i n d i v i d u a l e p o r t a d o r a de u m a certeza m i n a r apenas quando s u r g i r u m conhecimento universal e permanen-
apenas pessoal. A s s i m sendo, a ausência d a c e r t e z a u n i v e r s a l encon- temente inalterável, que seja sempre o mesmo e obedeça às mesmas
trada entre os homens de fé é agora e n c o n t r a d a e n t r e os h o m e n s de leis de comprovação e m todas as épocas e condições, e não durante
visões. Onde a garantia de que aquilo que agora e n c a r a m c o m o o m a i s a meditação apenas.
elevado dos estados, como a realidade f i n a l , não será m a i s t a r d e subs- Há, contudo, ao nosso alcance tuna o u t r a forma de comprovar a
tituído por outra coisa? Goethe a s s i n a l o u c o m m u i t a p r o p r i e d a d e q u e : o b r a d a orientação mística. Pensemos no número das declarações mís-
— o misticismo é o escolástico do coração e o dialético dos s e n t i m e n t o s . ticas que p a s s a m s e m contestação, no número das que não encontram
contrapartidas, no número das que se s i t u a m além de quaisquer dú-
Todo o nível e m que opera é o do sentimento não p r o v a d o . M a s vidas. Que os anais d a ciência cética e da religião ortodoxa dêem
como saberá o místico o u o iogue que aquilo c o m q u e e n t r o u e m con- u m a resposta!
tato durante a meditação é a realidade d e r r a d e i r a ? — E u s e n t i , por-
tanto deve ser r e a l — eis u m a atitude generalizada e n t r e os místicos Torna-se, portanto, claro que como fonte de conhecimento certo a
que nunca se dão ao trabalho de investigar. E l e s a d m i t e m a r e a l i d a d e experiência mística o u iogue não merece confiança. S e u valor prin-
dos seus sentimentos porque estão de t a l f o r m a ligados a eles q u e não c i p a l existe p a r a aquele que a pratica, mas não p a r a a sociedade e m
enxergam a diferença entre a existência aparente de u m a c o i s a e a geral. E m consequência, apenas quando u m discípulo já superou to-
realidade provada, ou entre aquilo que parece s e r e a q u i l o q u e é. C o m o das a s p r e l i m i n a r e s d a autodisciplina pessoal e completou u m extenso
poderão saber que atingiram o estado de conhecimento m a i s elevado? c u r s o de meditação pode ser ele considerado apto p a r a a iniciação nos
Por que u m a paz extraordinária haverá de s e r g a r a n t i a suficiente p a r a m a i s altos mistérios do conhecimento além da ioga. Então o estudante
o estado da verdade? P o r que haverá de s e r u m sinónimo de onis- do c a m i n h o derradeiro que tiver a sorte de contar com u m professor
ciência? Ê perfeitamente justificável colocar questões d e s s a o r d e m , p a r t i c u l a r irá notar que este último começará a instilar certas dúvidas
pois, ao fazê-lo, estamos prestando u m duplo serviço: a nós m e s m o s e m s u a mente. I s t o se faz de forma tão sagaz e cuidadosa que o dis-
e à verdade. Os adeptos d a meditação que n a s u a t r a n q u i l i d a d e en- cípulo será gradual e imperceptivelmente levado a passar da sua posi-
ção a t u a l p a r a u m a m a i s elevada. Nada acontece de forma súbita e
contraram a verdade derradeira deveriam fazer u m a p a u s a p a r a i n -
violenta, caso contrário o aluno perderia a fé n a sua posição atual
dagar se se trata realmente d a verdade, a i n d a que t a l p a u s a se prolon-
s e m conseguir e m t r o c a encontrar esperança n u m a mais nova e sólida
gasse por vários meses o u mesmo p o r toda a v i d a .
posição. A modificação é conseguida com o mestre fazendo certas
U m a vez que os místicos não penetram além dos seus sentimentos, observações indiretas e colocando certas perguntas enigmáticas perante
por mais exaltados que possam ser estes, somos obrigados a c o n c l u i r o aluno, de m a n e i r a que a mente deste último comece a adquirir nova
que toda a espécie de conhecimento de que eles nos dão notícia a força e tornar-se m a i s lúcida até que determinadas dúvidas se apresen-
p a r t i r d a sua meditação talvez não represente a verdade d e r r a d e i r a . tem espontaneamente. Quanto mais submeter-se a essa disciplina d a
P o r quê? Porque os sentimentos são volúveis; aquilo que a g o r a se t e m dúvida tanto m a i s tenderá o aluno a deixar de lado velhas atitudes
por verdade poderá ser amanhã repudiado p o r falso. Até Plotino, que mentais. E l e adquirirá a coragem de contestar suas próprias experiên-
é saudado pelos antigos místicos e pelos modernos teosofistas como cias e reexaminá-las à l u z de u m novo ponto de vista. Apenas por
u m a das m a i s ilustres figuras das suas hostes, confessou q u e a m a i s essa f o r m a poderá interpretar-lhes acertadamente o significado. De-

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pois começará a notar a insuficiência das suas conquistas, a não-vali-
dade das suas crenças e as limitações das suas práticas. A s ilusões a p u r a r a s u a veracidade; ao passo que os homens pouco esclarecidos
e v i t a m deliberadamente o contato da intuição com a razão, enquanto
que porventura o dominavam começarão a perder a s u a força. M a s o
os místicos pouco esclarecidos recusam-se a submeter a sua verdade
mestre irá aconselhá-lo a não descansar enquanto todas a s dúvidas
a qualquer prova. O filósofo não seria tolo a ponto de repelir uma
não se houverem dissipado.
intuição, por exemplo, m a s só a aceitaria depois de controlá-la, exa-
A presente análise não significa que devamos desprezar a meditação miná-la e confirmá-la. Mentalmente fortalecido, ele usará suas pró-
ou ignorar as experiências do místico por carentes de v a l o r . P a z , p r i a s intuições o u práticas de modo a que funcionem para ele como
tranquilidade e êxtase não são coisas s e m v a l o r . Cético a l g u m poderá u m ajutório inestimável.
negar que de quando e m quando o místico a s alcança. N e m o sábio
nem o novato precisa afastar essas e o u t r a s satisfações, m a s o pri- A fidelidade à razão não exclui m a s admite a fé, portanto, apenas
meiro j a m a i s permitirá que elas desviem s u a mente d a verdade. A quando for preciso que ponhamos à prova as nossas crenças e apure-
meditação transforma-se n u m estorvo apenas quando se prende à i m a - m o s a s u a veracidade. A existência da intuição espontânea é igual-
ginação como se esta f o r a a realidade ou se a g a r r a à visão como se mente aceita, m a s é necessário que examinemos as nossas intuições e
esta fora a verdade, ao passo que se t r a n s f o r m a e m ajutório à técnica comprovemos a s u a correção, sem vacilar u m instante sequer em re-
filosófica quando se restringe à m a i s completa t r a n q u i l i d a d e . pudiá-las quando se m o s t r a r e m insatisfatórias. A razão admira sem
restrições a inusitada tranquilidade encontrada nas meditações místi-
Aquele que p r o c u r a a verdade pode r e j e i t a r a s visões do místico
cas, m a s nos aconselha a investigar com empenho para apurar se a
e a sua acanhada perspectiva do mundo, m a s nós seríamos deveras
sensação de realidade que nos é propiciada é o u não verdadeira. E l a
tolos se repudiássemos as valiosas dádivas de concentração e paz que
a p r o v a sempre o exercício d a lógica n a organização do raciocínio, mas
o misticismo nos oferece. O principiante que d u r a n t e a l g u m tempo
a s s i n a l a o u t r o s s i m que as operações da lógica são limitadas pela quan-
praticou conscienciosamente a meditação pode desenvolver u m a c e r t a
tidade de dados disponíveis e que, n a melhor das hipóteses, a lógica
capacidade de concentração e sutileza que será d a m a i o r v a l i a ao pas-
é capaz de reorganizar, ordenando, aquilo que explícita ou implicita-
s a r ele para u m grau mais elevado, pois ser-lhe-á exigido m a n t e r s u a
mente já sabemos. E m suma, o que se procura é u m a verificação ina-
mente inteiramente fixada n u m só ponto d u r a n t e o s e u desenvolvi-
tacável.
mento n a ioga do discernimento filosófico.
S e , p o r exemplo, aqueles que estão tendo experiências místicas se
A Introvisão Filosófica. O êxito dos antigos sábios não se deveu dispuserem, s e m obrigar-se a abandoná-las, a submetê-las às provas
a u m a cega obediência às injunções de alguma personalidade; não veio a q u i descritas, o proveito será grande e o progresso acentuado. U m a
da receptividade aos lenitivos propostos por a l g u m l i v r o s a c r o ; não das funções d a disciplina filosófica é atuar como u m corretivo da ex-
veio da intuição mística, que surgia de i m p r o v i s o e c o n t r a a vontade; periência mística.
não veio exclusivamente das satisfações d a ioga elementar, m a s veio
Como poderemos então pôr à prova as nossas crenças, averiguar
depois de laborioso raciocínio metafísico seguido d a s u p r e m a ioga que
nossas intuições, investigar a realidade d a experiência da meditação,
mergulhava o ego no Todo U n i v e r s a l e aquietava tanto pensamento
saber se a nossa lógica está se valendo de todos os fatos possíveis e
como sentimento.
não e l i m i n a r os erros de c a d a u m desses métodos? Não há senão u m a
Não obstante, deve-se assinalar também que a s fontes de conheci- resposta a todas essas indagações, u m só meio de dissipar todas as
mento caracterizadas como falíveis n e m por isso devem s e r excluídas nossas dúvidas a respeito: começar e terminar com o s cânones da
da v i d a racional. Algumas crenças são assaz razoáveis, c o n q u a n t o razão como único critério de julgamento. Pois somente u m a análise
muitas sejam inteiramente ridículas. Onde as autoridades e a s e s c r i - crítica poderá mostrar-se frutuosa. 0 que é aquilo que até mesmo os
turas, as intuições e iluminações, os argumentos e a s conclusões con- teólogos t e n t a m u s a r quando pretendem discriminar entre as escri-
cordam com a experiência u n i v e r s a l e c o m a razão genuína tais c r e n - t u r a s autênticas e as espúrias? 0 que eles tentam usar é a razão. 0
ças são plenamente aceitáveis. E l a s c o n s t i t u e m valioso ajutório, e m - que é a q u i l o que nos f a l a d a insuficiência d a lógica e da falibilidade
b o r a isoladamente não mereçam confiança. O filósofo não se nega a da intuição? Não é a intuição propriamente dita, nem a revelação,
o u v i r o que elas têm a lhe dizer, pois sabe que o conhecimento pode n e m a visão; é a razão. E quando se alega que tanto a intuição como
ser amiúde conseguido através de tais fontes, m a s , c o n t r a r i a m e n t e às o sentimento místico estão a c i m a d a razão, por que então aqueles que
demais pessoas, desejará sempre julgá-los p o r d e r r a d e i r o à l u z de se a r r i s c a m a manifestar-se c u i d a m de debater, argumentar e provar
padrões m a i s elevados, de m a n e i r a a poder a v e r i g u a r a s u a fidedigni- através do raciocínio que aquilo que sentiram ou v i r a m é correto? Não
dade. Pois o filósofo b u s c a u m a posição irremovível. E l e não r e j e i t a será u m a referência inconsciente à razão como o supremo tribunal
n a d a a priori, m a s debate tudo e m última instância c o m o fito de de apelação, u m a referência ao veredicto do raciocínio como o supremo

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árbitro? Não será u m a tácita admissão de que apenas a razão t e m o
direito de julgar o valor último de todas a s o u t r a s faculdades? Os só então — deve o pensamento voltar-se sobre s i mesmo e examinar
pensamentos não cessam, salvo no sono o u no t r a n s e , e todas a s for- sem hesitações a sua própria natureza, numa etapa derradeira que só
mas de pensamento — sejam as usadas pelos empedernidos r e a l i s t a s poderá t e r êxito se t i v e r havido u m êxito prévio n a prática da ioga.
ou pelos etéreos místicos — envolvem a l g u m raciocínio, p o r i m p e r f e i t o Trata-se de u m a tarefa imensamente difícil por requerer u m máxi-
e grosseiro que seja. P o r que então não haveremos de i r até o f i n a l mo de concentração d a m a i s sutil qualidade. Tampouco poderá u m a
— já havendo chegado até este ponto do c a m i n h o — aceitando s e m inteligência débil e frágil desenvolver o esforço exigido. Quando t a l
reservas a supremacia da razão? concentração h o u v e r afinal cumprido as suas finalidades o conheci-
mento d a realidade apresentar-se-á de pronto, e naquele momento a
Uma convicção absoluta e u m a irrepreensível compreensão dos
razão deixará de funcionar, já que os seus serviços internos no julga-
verdadeiros princípios só pode ser conseguida através d a exercitação
mento e n a discriminação não m a i s são necessários. E s s a cessação
adequada da capacidade de raciocínio intensamente c o n c e n t r a d a e a l -
espontânea dos pensamentos não deve ser confundida, como amiúde
çada ao seu grau mais elevado. N e n h u m outro método de abordagem
acontece, c o m a intuição direta da realidade do místico. Assinala-se
poderá produzir tão duradoura correção e m todos os casos. E e s t a
a l i a conclusão t r i u n f a l do pensamento e não a abolição do pensamen-
será eventualmente a única m a n e i r a de conseguir u m entendimento
to. A reflexão não deve r e n u n c i a r a s i própria antes de completar
universal em todos os recantos do globo, porque a razão não pode
integralmente a s u a obra. N e m consegue o místico a abolição dos
variar em suas conclusões acerca d a verdade; e l a pode s e r p o r todos
pensamentos simultaneamente com a retenção da consciência desperta,
verificada e assim, o será daqui a u m a centena de m i l h a r e s de anos. proeza que só é possível quando se chega ao caminho deradeiro. Assim,
Tais variações pertencerão, contudo, àquilo que pretende s e r a razão. aquilo que o místico considera como a conquista final da sua obra, é
E continuarão a existir sempre que a razão fique i n j u s t a m e n t e r e s t r i t a considerado pelo sábio tão-somente como meio caminho andado. Onde
tão-somente ao estado desperto. o místico limita-se a sentir, o sábio compreende integralmente.
Torna-se assim possível chegar a u m conhecimento do significado Os sábios do passado p r o c u r a v a m no seu próprio ego a realidade
da existência mundana que será válido e m qualquer ocasião, conheci- permanente de preferência à experiência ocasional, a verdade derra-
mento que algum sábio hindu residindo e m s u a escola h i m a l a i a há d e i r a ao invés d a satisfação emocional e, acima de tudo, a conclusão
quatro séculos admitiu e acatou e m s u a plenitude; e que não passará e não o início do seu exame do mundo — daí terem sido os únicos a
por falso nem daqui a outros quatro séculos, quando e x a m i n a d o p o r descobrir o verdadeiro objetivo. E porque não se furtavam, como os
algum arguto cientista americano, a despeito do fato de que este será místicos, ao e x a m e do inquietante problema do mundo, foram também
então o herdeiro de todo o conhecimento das desaparecidas gerações capazes de resolvê-lo no exato instante e m que lhes foi dado compre-
que o precederem. E s s a série de invariáveis conclusões j a m a i s poderá ender o s e u próprio e u . E s s e r a r o instante de compreensão total, no
ser invalidada pelas atividades de novos pensadores n e m desbancada m a i s profundo de u m reflexivo transe místico, constituiu-se no ápice da
pela novel sabedoria da ciência moderna. pirâmide do s e u esforço filosófico. Os sábios chamaram-no o darão
do relâmpago, pois foi como u m corisco percorrendo e m velocidade
Os antigos sábios hindus colocaram-se e m o u t r a s épocas e m de-
alucinante o c a m p o d a consciência. Conseguido isto, o passo seguinte
terminadas posições ocupadas pelos cientistas de hoje, m a s não hesi-
foi r e c u p e r a r e e s t a b i l i z a r o lampejo gratificador. Assim a s u a busca
taram em estender suas investigações até u m a região e m que todos os
chegou a u m desfecho perfeito. Pois o S o l da manhã deixou de nas-
pontos de referência conhecidos f i c a r a m perdidos. E l e s desconside-
cer apenas p a r a eles no r u b r o Oriente. Desde então a secular causa de
r a r a m o fator pessoal, começando como heróis c o m p r o m i s s a d o s a não
todo o género h u m a n o passou a ser deles também.
se deter enquanto a última p a l a v r a do pensamento h u m a n o a c e r c a d a
verdade não houvesse sido dita. C o m f i r m e z a l e v a r a m o raciocínio até Aquilo que s a b i a m , e r a aquilo que e r a m ! Tendo aperfeiçoado o
a sua derradeira possibilidade, até u m ponto que, n a realidade, não raciocínio, s e m titubear deixaram-no p a r a trás e t r a t a r a m de aperfei-
poderia ser ultrapassado porque a faculdade do raciocínio d e i x a de çoar a faculdade d a introvisão, n a q u a l o conhecimento e o ser fun-
operar naquele misterioso momento e m que a verdade o c u l t a é reve- dem-se n u m a só coisa.
lada, entrando imediatamente em recesso. D e s c o b r i r a m , ademais, que
há na realidade duas espécies de pensamento a que podemos c h a m a r
estágios inferior e superior do raciocínio. No p r i m e i r o a força do
julgamento analítico é aplicado ao mundo externo, n u m esforço de
distinguir aquilo que é substancialmente r e a l daquilo que é apenas
aparente. Desenvolvido esse esforço até o s e u extremo l i m i t e — e

166
até onde o nosso conhecimento é basicamente verdadeiro e reservar
p a r a o seguinte a apuração até onde é basicamente real aquilo que se
sabe.
O estudante, a s s i m como todas as demais pessoas, experimenta
de fato o mundo dado, m a s será que se detém eventualmente para
averiguar a validade dessa experiência? Caso não o faça, é preciso que
comece a agir a s s i m . Pois, se levar t a l investigação até o seu ponto
CAPITULO V I I I extremo, fará as m a i s estranhas e surpreendentes descobertas intelec-
tuais.
Q u a l foi u m dos acontecimentos máximos no mundo científico dos
A REVELAÇÃO DA R E L A T I V I D A D E nossos dias? Que princípio revolucionário veio fazer nova luz sobre
antigos problemas? S e m dúvida alguma a formulação da Teoria da
R e l a t i v i d a d e p o r A l b e r t E i n s t e i n não apenas resumiu dois m i l anos de
pesquisas matemáticas e passou em revista três séculos de experimen-
0 estudante que c o m determinação e compreensão a c o m p a n h o u
tação física, como também a b r i u novos caminhos e rasgou enormes
até aqui este veio de pensamento ter-se-á colocado a c i m a d a s p r i m i t i -
horizontes p a r a os pensadores pioneiros. A prova racional dessa com-
vas consolações d a religião e das inconsistentes c o n j e t u r a s d a i m a g i -
p l i c a d a conclusão está cheia de fórmulas que superam a capacidade
nação; terá despertado dos beatíficos sonhos do m i s t i c i s m o , dos siste-
do leigo, e a d o u t r i n a só pode ser explicada através de intrincadas
máticos enganos d a lógica e do profundo e n t o r p e c i m e n t o do v e r b a l i s -
equações matemáticas. O próprio Einstein, solicitado certa vez a colo-
mo; terá aguçado a s u a compreensão e m o l d a d o os seus s e n t i m e n t o s
c a r a s u a teoria e m p a l a v r a s de fácil compreensão confessou que preci-
para encetar a mais a l t a n e i r a a v e n t u r a p a r a a q u a l o h o m e m pode s e r
s a r i a de três dias p a r a fornecer u m a definição concisa! No entanto,
recrutado: a b u s c a d a verdade d e r r a d e i r a . O e s t u d a n t e estará decerto
s e m nos perdermos n u m emaranhado de difíceis símbolos técnicos e
bem preparado p a r a a p r i m e i r a p r o v a de fortaleza p e l a q u a l terá de
nos indigestos cálculos de variáveis e invariantes, podemos e devemos
passar agora. O problema do mundo se l h e a p r e s e n t a p r i m e i r o porque s i m p l i f i c a r e i l u s t r a r determinados aspectos da hipótese de Einstein
é o problema concernente àquilo que é m a i s conhecido e m a i s visível. que são de p a r t i c u l a r interesse p a r a os filósofos. Que ele próprio en-
E m b o r a o problema do ego pareça m a i s próximo, está n a v e r d a d e m a i s c a r e c o m r e s e r v a s a filosofia, isso é u m a consequência natural (con-
distante, e, conquanto simples n a aparência, é n a r e a l i d a d e de solução quanto lamentável) d a s u a especialização científica; mas o fato decorre
mais difícil que o enigma desse indefectível u n i v e r s o q u e n o s r o d e i a também d a confusão que faz entre a especulação pura e a filosofia
a todos. Ê mister, por isso, p r i n c i p a l m e n t e c o m u m a investigação d a p r o v a d a , engano c u j a resposabilidade cabe também aos pseudofiló-
natureza deste curioso mundo ao q u a l somos a t i r a d o s de supetão e do sofos e meios-filósofos. E m seu horror à metafísica, Einstein procurou
qual vamos sendo aos poucos sacados s e m s e r m o s a b s o l u t a m e n t e con- pensar e m s u a o b r a e m termos bem definidos, mas jamais poderia
sultados! ter desenvolvido s u a hipótese exclusivamente com o auxílio da expe-
Já se explicou por que a atitude i n i c i a l de u m filósofo é a dúvida. rimentação, e, n a medida e m que se serviu de u m a rigorosa reflexão,
T a l atitude ele deve conservá-la não apenas quando p r o c u r a u m a fonte foi, a i n d a que a contragosto, u m filósofo inconsciente. Ê impossível
satisfatória de verdade m a s também n a s suas expedições m e n t a i s que p a r a o físico e n c a r a r a questão da relatividade com a meticulosidade
de hábito aturdem o homem c o m u m . O filósofo deve s e r suficiente- que o i m p o r t a n t e princípio exige sem abordar questões finais e sem
mente ousado p a r a começar s u a investigação p r o c u r a n d o i r a i n d a do consequentemente, a d e r i r temporariamente à fraternidade filosófica.
seu conhecimento convencional do u n i v e r s o p r o p r i a m e n t e d i t o ! E i n s t e i n , porém, é u m físico e matemático e deseja ater-se rigorosa-
mente à s u a especialidade. Daí recusar-se a levar em conta as ulte-
O estupefato leitor, porém, que se t r a n q u i l i z e . N ã o se l h e pede
r i o r e s implicações d a s u a obra, vale dizer, recusar-se a filosofar. Mas
que ponha e m dúvida a existência deste m u n d o , q u e é o p r i m e i r o fato
n e m todos os seus discípulos são igualmente bitolados. Eddington e
com que ele se depara ao a b r i r os olhos p e l a manhã e o último q u e
Whitehead aventuraram-se a arrostar as consequências de levar sua
contempla antes de adormecer todas a s noites. O q u e se l h e pede
d o u t r i n a p a r a domínios e m que o pensamento se aprofunda mais, o
é que discuta a veracidade das visões, dos sons e das sensações de que
p r i m e i r o n a psicologia filosófica e o segundo n a lógica filosófica, do-
se dá conta e a realidade dos objetos p o r e s s a f o r m a v i s t o s , ouvidos
mínios e m que o mestre não se a r r i s c a r i a . No entanto, apenas tio
o u sentidos, cujo conjunto apenas u m m a l u c o s e r i a c a p a z de t a c h a r
antigo pensamento asiático seguiu-se até o cabo a trilha da análise que
de não-existente. Trata-se de duas questões d i s t i n t a s q u e r e q u e r e m
ambos começaram a p a l m i l h a r .
u m tratamento diferente; bastará, portanto, e x a m i n a r neste capítulo

168 169
ão é preciso que o cunho altamente matemático dos cálculos de
Einstein nos desanime ou nos afaste d a hipótese p r o p r i a m e n t e dita. A relatividade tomou a inalterável fixidez do tempo e transformou*
Pois a matemática não passa de u m a espécie de e s t e n o g r a f i a lógica -a n u m a dimensão variável. E m linguagem mais simples, o tempo não
cujos símbolos fornecem conclusões a p a r t i r de informações dadas c o m tem u m significado determinado, sempre fixo e igual para todos os se-
uma rapidez desconhecida d a lógica. A matemática a b r e v i a o pro- res h u m a n o s . Aqueles que o l i m i t a m à sua medida pelos relógios ou
cesso silogístico substituindo fórmulas e equações. A essência con- pelas revoluções de corpos celestes estão simplesmente alimentando u m
ceptual das descobertas de E i n s t e i n já e r a c o n h e c i d a dos desaparecidos preconceito. P o i s o sentido do tempo não é u m a realidade absoluta
sábios hindus, os quais não e r a m , como E i n s t e i n , matemáticos forma- m a s u m a interpretação tanto de relógio como de astro feita por u m
dos, enquanto filósofos gregos como Platão e Aristóteles davam-se ser consciente. É a f o r m a pela qual as sensações se dispõem n a mente.
conta da sua profunda importância. Os pensadores j a i n a s f o r m u l a r a m Medida a b s o l u t a de tempo é coisa que não existe. U m a análise rigo-
uma doutrina filosófica semelhante, a S y a d v a d a , q u e l e m b r a a R e l a t i - r o s a revelará que todas as medidas baseadas nas revoluções planetá-
vidade, dois m i l anos antes que E i n s t e i n enunciasse a s u a d o u t r i n a r i a s não p a s s a m em última instância de nossas impressões relativas.
científica. Assim, os pensadores hindus e gregos a n t e c i p a r a m u m prin- E i n s t e i n foi o p r i m e i r o a fazer t a l observação, sem, porém, dar-se conta
cípio que somente muitos séculos m a i s tarde s e r i a e x p e r i m e n t a l m e n t e de todas a s suas consequências.
provado. O que E i n s t e i n n a realidade fez f o i corroborá-lo cientifica- A d o u t r i n a ensina que por movimento entende-se apenas a modi-
mente, colocá-lo em bases de observações matemáticas o r i g i n a i s e pro- ficação posicionai d a relação entre u m a e outra coisa, e, por isso, u m a
vas experimentais, ilustrando a s u a aplicação prática n u m a e s f e r a es- mudança física, como o movimento, j a m a i s é absoluta mas sempre
pecial. Einstein formulou a relatividade a f i m de a d a p t a r a hipótese r e l a t i v a . Admitindo-se que os padrões de medida de tempo e espaço
da física às observações já feitas. E l e t o r n o u a ciência responsável podem v a r i a r , seremos então obrigados a abandonar nossas ideias con-
pela comprovação e verificação de u m princípio q u e até então t i v e r a vencionais a c e r c a d a s ciências físicas, geométricas e astronómicas. A
uma existência precária seja no controverso c a m p o d a s especulações
de obscuros metafísicos, seja no campo das antigas d o u t r i n a s de com-
pletos desconhecidos. E foi o desenvolvimento de ciências tecnológi- Por que os raios de luz, de acordo com as leis conhecidas, não aumentavam
cas como a ótica e a eletrodinâmica que p o s s i b i l i t o u o s e u trabalho a sua velocidade de deslocamento? Antes de Einstein não surgiu nenhuma ex-
experimental n a investigação d a influência g r a v i t a c i o n a l do S o l sobre plicação realmente adequada dessa peculiaridade. Einstein assinalou em linguagem
os raios luminosos, por exemplo. E m consequência, tal prova não matemática que toda a reflexão anterior acerca do assunto baseara-se em princí-
pios que interpretavam erroneamente a experiência, e que seria mais sensato
poderia ter surgido antes nos anais da história! 1

modificar tais princípios até que eles retratassem com fidelidade os fatos a que
se referiam. Isto, porém, colocou na berlinda a própria maneira pela qual a
velocidade da luz era medida e a maneira pela qual cada instrumento e cada
1
A luz desempenha um papel sui-generis entre os elementos. O raio lumi- observador usando esse instrumento chegava às dimensões de espaço e tempo
noso é a coisa mais veloz que a ciência conhece e o mais importante meio de resultantes. Caso tal modificação viesse a ser feita, seria então necessário modi-
comunicação do homem com o mundo exterior. A introdução da teoria da ficar os conceitos vigentes de espaço e tempo. Tais conceitos até então eram
relatividade no pensamento científico deve-se a uma famosa experiência sobre a considerados como coisas fixas em todas as ocasiões e em todos os lugares, e em
velocidade da luz realizada pelos americanos Michelson e Morley em fins do quaisquer condições. Porém, ficou provado através da dita experiência que os
século passado. Os trabalhos desses cientistas mostraram que a velocidade de antigos padrões eram deficientes em se tratando do comportamento da luz num
propagação da luz é sempre a mesma, independentemente da direção ou do sistema deslocando-se em alta velocidade. Promovendo uma modificação no ca-
corpo no espaço para o qual ela se dirige. A experiência mostrou que a luz se ráter desses padrões, privando-os da sua pretensa fixidez e colocando-os numa
desloca na mesma velocidade relativa à Terra, quer esta se aproxime ou se afaste dependência fundamental da situação do observador, reconhecendo que toda me-
dela. Era difícil conciliar a descoberta com o fato de que a Terra se desloca dida espacial é a comparação entre as posições relativas de duas coisas no espaço,
no espaço. Seria de esperar-se que a velocidade de deslocamento da luz fosse e aceitando que não existe nada em última instância constante no tempo ou no
maior quando a luz se aproximasse da Terra. O princípio é o mesmo das veloci- movimento ou na medida dos comprimentos, surgiria uma nova visão do mundo,
dades combinadas de dois trens que correm em sentido contrário, aproximando-se capaz não apenas de explicar satisfatoriamente o problema da velocidade constante
um do outro: essa velocidade somada é maior que a velocidade de cada um dos da luz como também outros problemas físicos que os mais recentes progress
trens em separado. Por isso, um observador colocado num planeta que avan- da ciência suscitaram. Foram esses os inícios do principio da relatividade, E s
çasse rapidamente na direção de um raio de luz deveria constatar que a veloci- tein aplicou a seguir o princípio à influência da gravitação solar sobre os raios
dade de propagação deste seria maior do que quando ele se deslocasse em sentido da luz e calculou com exatidão a refração sofrida pelos raios luminosos. Quando,
oposto. Mas o novo experimento afirmava que a velocidade da luz permanecia em 1919, observações astronómicas feitas durante um eclipse confirmaram suas
inalterável, mantendo-se sempre igual a 360 000 km por segundo, tal como acon- previsões o princípio da relatividade logrou um magnífico triunfo no campo d
tecia antes de se levar em conta o movimento do observador e da luz. Esse tífico. Já não era possível continuar a ignorá-lo. A base de todo o pensamen
fantástico resultado correspondia aritmeticamente portanto a: 2 + 1 = 2! científico convencional teria de passar por uma ampla revisão.

170
astronomia tem por hábito f a l a r e m constelações de e s t r e l a s fixas.
quando v i s t o de perspectivas diferentes. Até que ponto se alteraria a
Trata-se, contudo, de u m termo apenas r e l a t i v o , p o i s s e m a m e n o r dú-
nossa visão do m u n d o se nos fosse dado alterar a nossa perspectiva?
vida essas estrelas também c o r r e m o espaço q u a n d o c o n t e m p l a d a s p o r
alguém situado n u m ponto fixo r e l a t i v a m e n t e a e l a s . F a l a m o s d a U m a c a r a v a n a de quinhentos camelos descansando num vale parece
Estrela Polar como se ela estivesse p e r m a n e n t e m e n t e e m r e p o u s o , po- e m completo repouso p a r a u m observador postado no alto de u m a
rém o fenómeno da precessão dos equinócios d e m o n s t r a t r a t a r - s e de m o n t a n h a adjacente. I s t o porém só é válido com relação às ideias
uma estrela igualmente móvel. A s estrelas f i x a s são a s s i m c h a m a d a s de espaço pertinentes à física pré-relativista, pois ignora o fato de que
não porque saibamos que elas p e r m a n e c e m estacionárias n o espaço a T e r r a g i r a e m torno do S o l arrastando consigo a caravana. O obser-
mas porque a astronomia a i n d a não c r i o u i n s t r u m e n t o s c a p a z e s de vador, n a impossibilidade de notar esse movimento, ilude-se incons-
aproximá-las o suficiente p a r a que nelas p o s s a m o s i d e n t i f i c a r c o m cientemente com a crença de que aquilo que é verdadeiro do seu ponto
segurança qualquer espécie de movimento. Q u a n d o E i n s t e i n a f i r m o u de v i s t a também o é de qualquer outro ponto de vista no universo.
não haver no universo u m a só posição de absoluto r e p o u s o — e, con- Obviamente, v a i aí u m engano, pois u m segundo observador com toda
sequentemente, nenhuma posição d a q u a l o f o r m a t o e a m e d i d a de certeza v e r i a a passagem d a c a r a v a n a através do espaço, se fosse pos-
sível s u p e r a r a dificuldade de colocá-lo no S o l , munido de um instru-
um objeto possam ser estabelecidos e c o n f i r m a d o s e m q u a i s q u e r con-
mento ótico adequado à s u a finalidade. Tudo quanto o primeiro obser-
dições de observação — a f i r m o u c o m efeito q u e a ciência é i n c a p a z
vador t e m o direito de dizer é que os camelos estão em repouso relati-
de chegar a u m a estimativa f i n a l a c e r c a do m u n d o .
vamente à T e r r a ; m a i s não poderá a f i r m a r sem erro, a menos que lhe
Nós fazemos nossas medições espaço-tempo de posição e m o v i m e n - s e j a possível m u d a r s e u ponto de observação. Contudo, nenhum dos
to em relação a algum padrão que supomos p e r m a n e n t e , inalterável observadores está totalmente certo ou totalmente errado. 0 fato é
e imutável; em suma, e m contínuo repouso. E i n s t e i n , porém, demons- que, a s s i n a l a E i n s t e i n , todo corpo e m movimento possui o seu próprio
trou convincentemente não haver no u n i v e r s o n a d a q u e se p o s s a d i z e r padrão de tempo e o s e u próprio sistema de espaço com o qual u m
em repouso. Tanto quanto sabemos q u a l q u e r c o i s a pode e s t a r revo- observador estará sempre e m relação. V i a de regra, este não saberá
luteando em torno de u m a segunda que também se supõe e m repouso. que os d e m a i s padrões e sistemas podem diferir dos seus e que, se
Como podemos saber que alguma c o i s a está p e r p e t u a m e n t e e m re- i n s i s t i r s e m p r e nestes últimos, não terá condições para explicar a pre-
pouso — sem j a m a i s se mover — quando o âmbito d a n o s s a percepção sença no u n i v e r s o de fatores inteiramente incompreensíveis e de todo
é tão limitado? Habitualmente, os nossos j u l g a m e n t o s s e b a s e i a m n a s irracionais.
aparências externas plausíveis, naquilo que os nossos l i m i t a d o s cinco E s t a s declarações são a consequência lógica do nosso conhecimen-
sentidos nos dizem, e não r a r o tomamos sólidas r o c h a s p o r matéria to de que a T e r r a g i r a e m torno do S o l . Mas o movimento de qualquer
em repouso. Contudo a verdade é c l a r a m e n t e r e v e l a d a p e l a m o d e r n a planeta pode s e r medido e descrito por comparação mútua com algu-
investigação nos maravilhosos domínios dos átomos e d a s moléculas. m a o u t r a c o i s a totalmente imóvel como, por exemplo, a totalidade
Pois a totalidade da matéria estática é constituída de elétrons, pró- das estrelas f i x a s . Consequentemente, a relatividade ensina que pode-
tons e nêutrons e m constante movimentação t a l q u a l u m e n x a m e de mos conhecer apenas a s relações entre os corpos no espaço e que a
irrequietas abelhas. É preciso que revisemos n o s s a s noções s i m p l i s - descrição de t a i s corpos é apenas comparativa. Só podemos comparar
tas acerca do mundo. u m a c o i s a c o m o u t r a . Somos obrigados a lidar com dualidades. Pois
s e m u m dado padrão de referência o nosso conceito de espaço é des-
Se durante algum tempo permanecermos sentados n o i n t e r i o r de tituído de significação. 2

u m trem em movimento, apreciando a verde p a i s a g e m q u e d e s f i l a


através das janelas envidraçadas, nossos olhos se acostumarão ao mo- S e de a l g u m a f o r m a estivéssemos tão perto a ponto de não nos
vimento e logo julgaremos estar n u m a condição n o r m a l . S e o t r e m ser possível v e r a s outras estrelas e planetas no céu, não poderíamos
se detiver sobrevirá a ilusão temporária de que a p a i s a g e m está a v a n - saber que a n o s s a T e r r a se desloca no espaço. Teríamos a exata sen-
çando ou de que o t r e m está recuando. E m d e t e r m i n a d a s relações
com o universo toda a humanidade é c o m o o passageiro do t r e m .
U m homem que esteja contornando a pé u m a c u r v a d a v i a férrea
2
Um homem que habitualmente escuta o carrilhão da sua cidade dar o
meio-dia dirá que o som provém sempre do mesmo lugar. Se, contudo, fosse
não notará, se mantiver os olhos fixos nos pés, q u e os próprios t r i l h o s possível a um outro homem colocado no Sol escutar a mesma coisa, esse segundo
sobre que caminha são curvos. P a r a ele serão i n t e i r a m e n t e direitos. homem diria que a cada novo dia o som proviria de locais distantes 482 000
Apenas quando erguer os olhos, o l h a r u m pouco a d i a n t e de s i , e a l - quilómetros do anterior. Pois a Terra e o carrilhão se deslocariam regularmente
terar com isso a sua perspectiva irá o h o m e m perceber que os t r i l h o s com relação ao Sol. Assim é que uma modificação do ponto de observação acar-
são realmente curvos. O mesmo objeto, portanto, p a r e c e diferente reta uma enorme modificação nos resultados obtidos.

175
sacão de que ela se mantém imóvel no f i r m a m e n t o . P o i s não dispo- s i m , se pensarmos no espaço como u m a parte menor estaremos negando
ríamos de nenhum padrão de referência. A s s i m sendo, o m o v i m e n t o a s u a existência como u m todo. Se ambos os pontos de vista se elidem
é essencialmente relativo. mutuamente, devemos então concluir que o espaço é mais u m a ideia
A Terra caminha dinamicamente pelo espaço e m t o r n o do S o l à subjetiva do que u m elemento objetivo.
enorme velocidade de 113 000 quilómetros p o r h o r a , s e m q u e alguém A d e m a i s , se aplicarmos algumas das valiosas lições aprendidas no
perceba o menor indicio dessa movimentação; pelo contrário, todos os sexto capítulo a determinadas palavras que se usam quando a exis-
habitantes terrestres têm a impressão de q u e o p l a n e t a se mantém n a tência do espaço é pacificamente aceita, as palavras aqui e ali, encon-
mais completa imobilidade! trar-nos-emos diante de u m a curiosa situação. Pois espaço supõe-se
Nós costumamos usar displicentemente a p a l a v r a aqui. Contudo, ser aquilo e m que alguma coisa existe ou aquilo em que a ordem do
no preciso instante em que apontamos p a r a o l o c a l a T e r r a se desloca mundo se diferencia.
com gigantesca velocidade no espaço, carregando consigo o referido
Pensemos agora n u m ponto colocado sobre u m a folha de papel
local, de maneira que poucos minutos após o m e s m o estará a m u i t o s
em branco. A geometria define ponto como sendo u m a posição sem
quilómetros de distância da p r i m i t i v a posição. O aqui torna-se, por-
grandeza. Ponto não t e m qualquer dimensão. V a l e dizer que o ponto
tanto, um termo relativo, vinculado a a l g u m ponto o u p e s s o a sobre
não contém n a d a no seu interior e que não ná lugar p a r a colocar-se
a Terra mas falto de significação quando aplicado ao espaço.
a l g u m a coisa dentro dele. Prosseguindo-se nesta análise ver-se-á que
Ademais a T e r r a gira sobre s i m e s m a e depois e m t o r n o do S o l . o ponto não é e m absoluto espacial e por isso o espaço, t a l como en-
Mas este, por sua vez, desloca-se c o m relação à V i l a Láctea e, tendido pelo termo aqui, a u m só tempo existe e não existe, contradi-
embora o assunto escape por o r a às nossas medições, a V i a Láctea ções que também se elidem mutuamente.
com toda certeza desloca-se também no espaço. Q u a n d o todos esses Pensemos novamente e m alguma coisa que se encontra lá adiante,
movimentos são levados em conta devemos entender q u e não n o s é pos- digamos o continente australiano. Significa isto que t a l terra não
sível estimar a distância realmente p e r c o r r i d a p o r u m m e s m o ponto está aqui. P o r aqui, no entanto, entende-se esta cidade, este país o u
no decurso de uns tantos minutos. Tampouco haverá q u a l q u e r expe- este continente; ou ainda, talvez, todo o planeta T e r r a . Não se pode
riência capaz de estabelecer a real velocidade de deslocação desse i r m a i s além, pois já não existe u m outro ponto de vista que permita
ponto, pois não há nenhum corpo e m repouso absoluto c o m o qual o d i s t i n g u i r u m lugar de outro. A estreiteza que restringe a definição
movimento possa ser comparado. Tudo o que p o d e m o s d e t e r m i n a r de aqui ficará então abolida. Mas, chegando onde chegamos, incluí-
é o lugar relativo e a velocidade r e l a t i v a de deslocamento. E isso mos a Austrália n a nossa definição de aqui. A s s i m aqui e ali se contra-
será o resultado da posição e m que nos c o l o c a r m o s . dizem entre s i e c o m isso o próprio conceito de espaço como u m a

f Chegamos assim, uma vez mais, à base d a d o u t r i n a de E i n s t e i n ,


que diz não ter o espaço u m padrão último de m e d i d a e não s e r o
realidade e m separado que repousa sobre aquelas definições falece
inteiramente.
mesmo em todas as circunstâncias. O espaço não p o s s u i , e m última O que acontece à nossa concepção n o r m a l de espaço quando a
análise, as propriedades mencionadas p o r E u c l i d e s e m seus postulados investigação r a d i o a t i v a nos diz que o ponto mais agudo d a mais del-
e axiomas. E s t a é a conclusão da relatividade. C o n t u d o , m u i t o antes gada agulha j a m a i s f a b r i c a d a é u m mundo e m m i n i a t u r a onde milhões
de Einstein, já Zenão e Pitágoras n a Grécia e d i v e r s o s sábios d a Índia de corpos e m movimento c i r c u l a m incessantemente sem nunca se to-
haviam descoberto as contradições inerentes à i d e i a de q u e o espaço c a r e m u n s aos outros?
tem uma existência característica e u m a inalterável f i x i d e z própria.
Perceberam eles que sob u m certo ponto de v i s t a o espaço é mensurá- Aqueles que consideram a análise de tais paradoxos como mero
vel, relativo e finito, mas sob outro é incomensurável e i n f i n i t o e m jogo de p a l a v r a s não compreendem o importante papel desempenhada
pelas p a l a v r a s n a construção dos nossos pensamentos, como també:
todas as direções. Segundo o primeiro ponto de v i s t a p o d e m o s l i m i t a r
não compreendem que os problemas semânticos são n a realidade 1
o espaço às suas partes, as quais podem s e r f a c i l m e n t e destacadas das
gicos e, não r a r o , epistemológicos. E não compreendem que o s i "
outras partes ocupadas pela extensão dos objetos físicos, m a s do se-
ficado de u m a c o i s a é inseparável daquilo que nós próprios julgam
gundo ponto de vista tais partes não têm u m a existência e m separado
ser; e não apenas aquilo que u m dicionário registra. E não compre-
do todo, e não nos é possível determinar l i m i t e s à s u a c o n t i n u i d a d e
endem a i n d a que o funcionamento oculto da mente n a contemplação
indefinida. Pois, quando tentamos r e u n i r todas a s s u a s p a r t e s , j a m a i s
do mundo é algo b e m diferente daquilo que habitualmente se supõe.
conseguimos chegar a u m agregado que s e j a a totalidade do espaço;
haverá sempre mais espaço estendendo-se a i n d a além d a q u i l o que j u l - A relatividade m o s t r a ao menos que precisamos alterar os :
gamos ser o todo, através de u m processo contínuo e interminável. As- hábitos arraigados de encarar o mundo. Espaço e tempo req
exame porque entram e m todas as concepções do m u n d o e x t e r n o . São estática de u m objeto. Não é possível à mente produzir quaisquer
as formas em que a nossa experiência nos é d a d a . U m a compreensão imagens adequadas d a ideia de como a relatividade afeta a massa do
integral deste mundo envolveos a ambos. N o s s a v i d a o b j e t i v a n a T e r r a nosso u n i v e r s o m a t e r i a l . É preciso que nos contentemos com saber,
obviamente se processa dentro das condições i m p o s t a s pelo espaço e s e m s a b e r como.
pelo tempo; toda a nossa experiência é r e a l m e n t e inseparável deles.
Todos os corpos mensuráveis e todas as c r i a t u r a s v i v a s são apresen- As Mágicas do Tempo. A estranha luz que a relatividade fez j o r r a r
tados aos nossos sentidos como espacial e t e m p o r a l m e n t e existentes sobre a s n o s s a s crenças a c e r c a do espaço é e m tudo semelhante àque-
e não podemos nos furtar a imaginar o u n i v e r s o dentro de u m a e s t r u - l a que fez j o r r a r sobre as nossas crenças acerca do tempo. A segu-
tura de espaço e tempo. Não nos é possível p e n s a r n a s miríades de rança c o m que colocamos u m a data n u m acontecimento ficará com-
fatos e nos variados acontecimentos d a N a t u r e z a s e m c o n s i d e r a r que p r o m e t i d a quando soubermos que t a l acontecimento será visto em oca-
ocupam u m a posição e m algum lugar do tempo e do espaço. M a s o siões diferentes p o r dois observadores colocados em corpos dotados
seu significado é sempre relativo e se m o d i f i c a c o m a modificação das de diferentes velocidades de deslocamento. Igualmente surpreendente
circunstâncias. Por isso esses fenómenos d a N a t u r e z a só p o d e m s e r é s a b e r q u e d u a s ocorrências que p a r a u m a testemunha são simultâ-
interpretados de forma relativa. S e m o d i f i c a r m o s o nosso enfoque neas, p a r a o u t r a parecerão intervaladas.
teremos de modificar também as características c o n h e c i d a s do nosso
A T e r r a já não g i r a no espaço com a mesma velocidade dos dias
universo. Este perderá a s u a fixidez f u n d a m e n t a l , s e u inalterável ab-
d a s u a j u v e n t u d e e, consequentemente, a duração do nosso dia é pelo
solutismo. Não pode haver u m a relação e s p a c i a l única n e m u m a ob-
servação inalterável do tempo. Ao e x a m i n a r m o s c o m m a i o r profun- menos o d o b r o dos dias de então!
didade o espaço, este tende a t r a n s f o r m a r o s e u a p a r e n t e caráter de A r e l a t i v i d a d e do tempo é t a l que a tarda tartaruga que vive u m
fato externo n u m fator mental interno. É preciso, e m s u m a , q u e come- século i n t e i r o poderá não perceber que dura mais do que o fugaz
cemos a mentalizar o espaço e espacializar a mente. L o n g e de s e r inseto que nasce, cresce, reproduz-se e morre numa única semana, pois
u m a propriedade do mundo externo, o espaço começa a s u r g i r c o m o ela d e t e r m i n a a s u a experiência segundo u m ponto de vista diferente.
u m misterioso elemento subjetivo que condiciona a n o s s a percepção O que i m p o r t a é o número de sensações que passam pela mente; se o
de todo o mundo exterior. número f o r o m e s m o e m ambos os casos, os anos não terão a menor
importância. Aqueles que já experimentaram certas drogas sabem que
E s t e ponto de vista abandona, no entanto, os velhos conceitos da u m a das consequências é o surgimento de u m sentido anormal de
física. E se enquadra nas deduções matemáticas de E i n s t e i n q u e tor- tempo de modo que u m ato b a n a l como o erguer a mão tomará meia
naram variável a m a s s a dos corpos. O antigo conceito a c e r c a d a m a - h o r a n a consciência p a r a se consumar, conquanto para u m espectador
téria era que a sua característica m a i s destacada e tangível — tecnica- s e j a o b r a de u m a fração de segundo. Pessoas que escaparam de mor-
mente denominada m a s s a — e r a também a m a i s p e r m a n e n t e . T a l r e r afogadas d i z e m que durante o curto intervalo que precede a in-
coisa é verdadeira com relação às pequenas velocidades dos objetos consciência a história de toda a nossa vida nos vem à mente com a
cotidianos, mas deixa de sê-lo c o m relação aos m o v i m e n t o s de altas velocidade de u m relâmpago.
velocidades, pois E i n s t e i n obrigou a ciência a a b a n d o n a r u m a a n t i g a Nós adormecemos e temos a sensação de acordar logo após em
crença, provando que a m a s s a pode v a r i a r . A s s i m , os objetos físicos sonhos, m a s descobrimos posteriormente que despertamos apenas n a
transformam-se e m campos de força elétrica, de energia p u r a , assu- manhã seguinte. Nós nos sentimos tão despertos durante o sonho como
mindo formas ditadas pela velocidade. A crença e m a l g u m a c o i s a e m d u r a n t e o d i a . N o entanto, e m cinco minutos de sonho fazemos uma
separado, alguma substância sólida, ficou s e r i a m e n t e a b a l a d a . Até viagem q u e e m estado desperto levaria três semanas. E m sonhos vi-
aqui não era possível falar e m matéria e m separado do espaço p o r e l a vemos longas sequências de acontecimentos dramáticos, amiúde cheias
ocupado; não obstante, pode-se falar e m energia s e m q u a l q u e r neces- de detalhes, e nos parece que horas ou dias se passaram, quando a
sidade de colocá-la no espaço. investigação revela que toda a fieira de acontecimentos ocupou tão»
E s s e novo conceito de que a energia t e m m a s s a e de q u e a m a s s a -somente u m a fração de minuto! Assim, a experiência revela as estra-
de u m corpo material pode v a r i a r proporcionalmente a c i m a de c e r t a s n h a s flutuações d a nossa noção de tempo quando abordamos o mesmo
velocidades de deslocamento faz c o m que o aspecto m a t e r i a l de u m a fato segundo ângulos diferentes.
coisa deixe de ser o mais importante. A imaginação não pode a q u i U m h o m e m colocado em posição diferente, no planeta Vénus, di-
acompanhar com facilidade a razão, m a s não se deve u s a r Q fato c o m o gamos, t e r i a necessariamente u m a noção de tempo diferente da nossa.
desculpa para que aquela estorve esta última. O novo enfoque cien- A ideia de que v i n t e e quatro horas serão sempre vinte e quatro horas
tífico necessariamente c o n t r a r i a o b o m senso, destruindo a n a t u r e z a e m queisquer condições e em quaisquer lugares não é correia. T a l

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afirmação poderá chocar profundamente os n o s s o s hábitos r o t i n e i r o s
milionésimo de segundo m a i s tarde, o assim chamado momento pre-
de raciocínio. Tome-se, porém, o caso de u m j o v e m q u e t e n h a passado
sente já se terá transformado no assim chamado passado. Quando
três ou quatro horas em c o m p a n h i a de u m a n a m o r a d a a r d e n t e m e n t e
falamos descuidadamente e m passadas, presentes e futuras fases de
desejada. Esse intervalo de tempo parecerá p a r a ele não t e r durado
tempo f a l a m o s e m coisas que ninguém pode determinar e das quais
mais do que u m a hora. Tome-se, e m contraposição, o c a s o de u m i n -
ninguém pode f o r m a r u m a ideia suficientemente correta para suportar
válido que tenha caído desastradamente s o b r e a c h a p a q u e n t e de u m
qualquer análise. Que acontece então à nossa ideia global de tempo
fogão e não possa erguer-se c o m presteza! P a r a ele c a d a segundo pa-
quando não é possível f o r m a r qualquer ideia dos seus constituintes
recerá durar uma h o r a ! C a d a h o m e m t e m s u a percepção i n d i v i d u a l
e m separado? A s s i m , aquilo que parecia ser u m a realidade provavel-
do tempo, conforme esclarecem os exemplos dados, e é u m a ilusão
mente será até certo ponto pelo mínimo u m a ideia arraigada em nossas
acreditar que essa percepção s e j a o u t r a c o i s a q u e não a s u a experiência
mentes, isto é, o movimento do tempo está em grande parte dentro
pessoal exclusiva. Cada qual vê os acontecimentos n a p e r s p e c t i v a do
de nós próprios.
seu ponto de vista particular, porque o próprio t e m p o não p a s s a de
uma relação. N a verdade, nós n u n c a m e d i m o s o t e m p o p r o p r i a m e n t e Observe-se qualquer coisa que cresce, u m a semente por exemplo.
dito. Até mesmo o tempo do relógio é apenas a medição de u m mo- Será possível d e t e r m i n a r o exato momento em que a semente se trans-
vimento no espaço, isto é, u m a relação e n t r e d u a s c o i s a s . f o r m a e m p l a n t a ? Impossível. Onde então aquele momento em que
a semente d e i x o u de ser semente e se fez planta? Se é que existe,
A Natureza nos obriga a e n c a r a r todas a s c o i s a s c o m o existentes deve e s t a r n a n o s s a mente ou n a nossa imaginação. Assim sendo,
no espaço e no tempo. No processo do raciocínio o t e m p o é i m u t a - a p a s s a g e m do tempo é n a verdade u m a experiência nossa. Os mo-
velmente pressuposto. O espaço é u m a condição necessária do pro- mentos não existem. O tempo não é u m a soma de não-existências.
cesso de percepção. Não nos é possível j a m a i s a p a r t a r u m a só c o i s a Some-se zero c o m zero e o resultado continuará sendo zero; por isso,
do tempo e do espaço. Contudo, j a m a i s v e m o s o t e m p o e o espaço o tempo não é u m a realidade independente mas uma abstração da
propriamente ditos! Não recebemos n e n h u m a impressão s e n s o r i a l realidade. O tempo, a exemplo do espaço, é u m a abstração. Quando,
direta do espaço puro e do tempo puro. Não nos é possível r e v e s t i r porém, se t o m a u m a abstração por u m a realidade cai-se numa contra-
o simples conceito de espaço c o m n e n h u m a i m a g e m m e n t a l ; só pode- dição.
mos pensar em alguma coisa ocupando u m a distância, u m a extensão;
daí conhecermos o espaço apenas como u m a p r o p r i e d a d e d a s coisas L e v a n d o m a i s além o nosso raciocínio, somos obrigados a reco-
e o tempo como u m a propriedade do m o v i m e n t o . nhecer que a n o s s a noção de tempo pode encolher-se da mesma forma
pela q u a l pode expandir-se a nossa noção de espaço, e que ao medir-
0 processo comum é considerar o tempo c o m o a l g u m a c o i s a seme- mos a p a s s a g e m do tempo a mente de alguma forma e até certo ponto
lhante a uma torrente ou a u m a sucessão de m o m e n t o s d i s t i n t o s . N a d a c r i a esse tempo. A relatividade ensina que as formas assumidas pelo
mais natural, pois a mente h u m a n a não é capaz de i m a g i n a r u m tempo tempo n a experiência não são finais. São aspectos que podem alterar-
isento da passagem dos acontecimentos o u no q u a l o antes, o agora -se d a m a n e i r a m a i s radical. E x i s t e , contudo, u m elemento insepará-
e o depois não existam. É no tempo que os p e n s a m e n t o s se s u c e d e m v e l que p e r s i s t e através de todas as alterações e que unifica e conserva
uns aos outros e é no tempo que o c o r r e m os a c o n t e c i m e n t o s . Será todas essas f o r m a s . Trata-se do fator da mente.
possível formar alguma ideia de tempo s e m o c o n c e b e r m o s e m p r i n -
cípios e fins ou em interrupções e alterações? I n f e l i z m e n t e , porém, T u d o isto serve p a r a mostrar que o tempo não é a coisa simples
isto nos conduz a ilusões. Pois supomos o tempo d i v i d i d o e m momen- que supomos, m a s u m amontoado de mistérios. — A humanidade morre
r a p i d a m e n t e por pensar que o tempo é real, 0 pequeno espaço de
tos, mas tentamos capturar tais momentos e eles d e s a p a r e c e m . A aná-
tempo que gastei indagando: "será que o tempo existe?" revelou-m
lise não revela partes separadas n e m momentos independentes; não
a P a z perfeita, a Divindade propriamente dita — tal foi a observaçi
há intervalo entre o presente e o passado. C o m o pode alguém dis-
de T i r u m o o l a i , escritor medieval de língua tamil. Com sapiência ainda
tinguir quando o momento presente começa o u t e r m i n a ? Tente-se
maior, ele p e r g u n t o u : — Não sabeis que o tempo desaparece quando
encontrar o ponto de separação entre o passado e o f u t u r o , e n t r e o
se p r o c u r a a s u a origem? De que adianta então limitar-vos a ele?
antes e o depois. Aquilo que tomarmos por t a l ponto deixará de sê-lo
no instante em que o houvermos distinguido. No entanto, que é o S e r i a u m grande erro imaginar que se está fazendo aqui alguma
momento presente senão esse ponto hipotético? U m a das ilusões do tentativa de negar que o homem possua u m a noção de tempo. Não é
tempo é que nós acreditamos sempre estar vivendo nos acontecimentos preciso que se faça t a l negação. 0 homem percebe certamente a pas-
do tempo presente quando t a l divisão n a realidade não existe. Trate-se sagem do tempo e percebe-a com real intensidade. 0 que se tenta
de u m único segundo, ou de u m milésimo de segundo o u a i n d a de u m a q u i é fazer a l g u m a luz sobre a natureza do tempo. A fonte oculta

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da sensação da sua realidade tornar-se-á patente à m e d i d a que o pre-
u m a perspectiva que seja c o m u m a todos, da mesma forma pela qual
sente curso for-se desenvolvendo.
nenhum se ocupa d a totalidade da existência.
A Doutrina dos Pontos de Vista. O v a l o r d a o b r a de E i n s t e i n ao Quando a relatividade assomou no l i m i a r da ciência assustou os
provar a verdade da relatividade através de fatos físicos ao invés de tímidos. E s t e s decerto não teriam coragem para examinar-lhe as úl-
fantasias metafísicas é imenso, Aquilo que ele inconscientemente con- timas consequências. E continuam hesitando em fazê-lo, de maneira
seguiu foi uma crítica do conhecimento, e m b o r a tenha l i m i t a d o suas que f i c a p a r a a filosofia a responsabilidade de arcar com a tarefa.
investigações aos métodos científicos de medida. T o d o o princíoio da Do seu ponto de v i s t a m a i s elevado, o qual, é preciso que se assinale,
relatividade suscita u m a grande dúvida c o m relação à n o s s a experiên- é o d a verdade d e r r a d e i r a e não o do valor prático, todo conhecimento
cia do universo e, em consequência, c o m relação às nossas definições não-filosófico, científico o u não, ocupa u m território traiçoeiro. Ne-
de conhecimento. Que sabemos realmente? O m u n d o d e i x o u de ser n h u m a das suas conclusões é ou pode ser final. Todas dependem do
um fato difícil para transformar-se n u m problema a i n d a m a i s difícil. ponto de v i s t a paroquiano dos observadores do nosso insignificante
A relatividade é u m a lei fundamental b a s i l a r e m todos os aconte- planeta, simples fagulha entre milhões de outros corpos celestes. To-
cimentos físicos, todos os objetos d a Natureza. N a d a se sabe que dos os resultados podem sofrer modificações quando novos pontos de
não seja sabido relativamente a outras coisas. Daí a declaração de v i s t a s u r g i r e m e m função de conhecimentos adicionais. Pode-se esperar
Lotze de que existir é estar e m relação. A ideia de que e x i s t e m siste- a descoberta de distorções da realidade final por meio dos métodos
mas herméticos no universo desaparece à l u z i n q u i r i d o r a d a r e l a t i v i - atuais, m a s n u n c a a realidade propriamente dita. O conhecimento
dade. Cada sistema é apenas u m estágio experimental n a abordagem não-filosófico vive, portanto, a borboletear de u m princípio provisório
da verdade e nunca a etapa final. O universo requer u m a constante p a r a outro como o eterno judeu errante.
reinterpretação. P o r essa razão, é b e m possível que nos aturdamos ante a natureza
Poderá haver no mundo físico tantas verdades r e l a t i v a s quantas deste intrigante planeta e m que vivemos. É ela a mais paradoxal que
forem as posições possíveis ou as maneiras de v e r as coisas. E s s a é se poderia imaginar. E m nosso mundo a razão violenta, a experiência
a falha antropocêntrica que vicia o conhecimento c o m u m . Poderá ha- e os fatos negam o pensamento. Todo o conhecimento intelectual hu-
ver tantas visões da verdade do mundo quanto são os homens. E s s e s mano padece de u m a total relatividade e acaba sempre caindo num
pontos de vista pluralistas e multiformes dependem das limitações ciclo vicioso. Parece impossível sair desse ciclo. Dir-se-ia que jamais
humanas, sendo sempre por isso condicionais e passíveis de alterar-se. podemos chegar à verdade final do universo e que somos prisioneiros
Cada qual é apenas u m aspecto, nenhum deles é a verdade total. O eternamente condenados a receber tão-somente a ilusão de novos conhe-
materialismo vitoriano, por exemplo, é hoje e m d i a contestado por cimentos, m a s n u n c a os conhecimentos e m s i .
cientistas de proa com a mesma veemência c o m que foi defendido A verdade transformou-se n u m mito. 0 finalismo é uma quimera.
pelos seus predecessores. Significa apenas u m a entre inúmeras visões possíveis. Toda perspectiva
E i s o nosso sinal vermelho de advertência. U m a observação pode pode, a s s i m , ser justificada. Nenhuma observação científica poderá
ser inteiramente verdadeira quando decorrer d a fixação d a n o s s a aten- ser declarada c o r r e t a p a r a sempre e para todos os casos. Não existe
ção em algum ponto de vista específico nos domínios e m que i m p e r a nenhuma teoria científica que não carregue o estigma indelével de u m
a relatividade e pode, contudo, não ser verdadeira e m si mesma. São total relativismo. Esses aspectos diferentes e divergentes da mesma
duas coisas diferentes. coisa quando os observadores ou pontos de vista são diferentes podem
levar-nos ao desespero quanto ao conhecimento da verdade acerca do
Todos estes fatores devem ser encarados como pontos de v i s t a
individuais e incompletos, pois dependem d a flexibilidade do gosto mundo. Pois os homens irão sempre modificar sua posição intelectual
humano, dos tipos de temperamentos humanos, dos graus do conheci- e passar-se p a r a novas ideias, p a r a , logo após, abandonarem-nas tam-
mento humano ou dos graus da capacidade h u m a n a . P o r isso encon- bém. A s s i m , e m última análise, tudo se transforma ou numa fugidia
tramos tão amplas diferenças de opinião, tão estranhos conflitos de aparência ou n u m a insignificante ilusãol Nada poderá ter pretensões
experiência e tão variadas espécies de crenças, perspectivas, costumes ao finalismo.
e conclusões. Por esta razão tais departamentos se d e n o m i n a m ver* V a l e dizer que as nossas visões do mundo são apenas fragmentárias
dodes relativas. Tão variada é a gama dos pontos de v i s t a i n d i v i d u a i s e j a m a i s vemos o mundo como u m todo. Vale dizer que nos acontece
decorrentes dessa dependência à verdade r e l a t i v a que o número deles apenas u m a sucessão interminável de doutrinas. Vale dizer que a
é praticamente ilimitado. Cada departamento, como a biologia e a mente substitui sempre u m conjunto de ideias por outro. Vale dizer
farmacologia, por exemplo, tem u m ponto de v i s t a próprio a c e r c a d a que o fato propriamente dito depende do ponto de vista por nós ado»
vida ou se ocupa de u m fragmento da mesma, m a s n e n h u m possui tado. Aquilo que convém a u m ponto de vista não convirá a outro.

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Pois aquilo que captamos são detalhes e não entidades independentes, sob f o r m a s d i v e r s a s a diferentes observadores. E s s a é a implicação
A vista de u m detalhe e x c l u i todas a s d e m a i s . N ã o e x i s t e f i n a l i s m o da T e o r i a G e r a l d a R e l a t i v i d a d e de E i n s t e i n .
na metafísica porque, a s s i m como a ciência, e l a padece d a r e c a l c i t r a n t e
A necessidade de adotar novos pontos de vista a fim de assegurar
moléstia do relativismo. A tentativa de c h e g a r a u m s i s t e m a irreversí-
a expansão d a s perspectivas é a s s i m u m a lição essencial e importante
vel de explicação mostrou-se vã. E m s u m a , a i m a g e m do m u n d o que
de r e l a t i v i d a d e . O princípio d a relatividade não desautoriza Newton
nós possuímos ( o u que a ciência p o s s u i ) não é a d e r r a d e i r a .
n e m t o r n a necessária pôr de lado as velhas medições. Traça uma linha
Neste mundo do relativismo e m que todas a s opiniões são a u m divisória e m t o r n o de todos os tipos de resultado e dentro de cada
tempo falsas e verdadeiras, e m que aquilo que p o r u m l a d o pode s e r s i s t e m a de referência as velhas medições e as ideias newtonianas con-
afirmado pode por outro ser negado, parece não h a v e r u m significado s e r v a m s u a v a l i d a d e . M o s t r a que estas nem sempre são aplicáveis,
último. Os pesquisadores hindus que se d e r a m c o n t a d a i n e v i t a b i l i - pois são r e l a t i v a s a u m ponto de v i s t a apenas.
dade dessa consequência f i c a r a m insatisfeitos. Q u e r i a m eles s a b e r se
era possível chegar a u m ponto de v i s t a que pudesse e x p l i c a r todos U m ponto de v i s t a m a i s elevado que outro revelará u m horizonte
os fatos e não apenas u m a parte deles. D e m o d o que u m a vez m a i s m a i s a m p l o . Até mesmo u m a experiência essencialmente superficial
a pergunta crucial se lhes apresentou. Como Pôncio P i l a t o s , eles bus- d a v i d a m o s t r a que numerosas coisas não são aquilo que aparentam
cavam u m a resposta p a r a a s u a indagação s u p r e m a : — Q u e é a ver- ser à p r i m e i r a v i s t a , que as primeiras e singelas impressões a seu res-
dade? Será possível chegar à última p a l a v r a d a v e r d a d e e m toda a peito se m o s t r a m insuficientes à luz de u m a análise mais profunda.
sua integridade? E s s a é a p r i m e i r a lição da filosofia e a última da experiência. É a
diferença entre aquilo que realmente é e aquilo que parece ser, entre
Visavam com isto algo que não fosse tão imperfeito, m a s q u e fosse aquilo que é s u b s t a n c i a l e aquilo que parece ser substancial. T a l con-
tão universalmente válido p a r a todos como o fato de que u m m a i s tradição d a experiência nós a encontramos por toda a parte. Tanto na
dois somam três. Ninguém, e m n e n h u m a parte do m u n d o o u e m tempo sociedade h u m a n a como nos processos planetários. A órbita, o tama-
algum, contestou esse resultado aritmético. U m princípio de verdade nho e a distância de u m corpo astral não se revelam ao nosso olhar,
igualmente invariável é o que b u s c a v a m os pesquisadores h i n d u s . É por m a i s longamente que o contemplemos. É preciso que desenvolva-
o que chamavam de verdade derradeira. Por fim, encontraram u m a mos u m esforço intelectual, colhamos ensinamentos na astronomia, para
resposta satisfatória e então o ensinamento oculto foi f o r m u l a d o . Pro- depois a r r a n c a r os segredos daquilo que estamos vendo. Se tudo re-
v a r a m que tudo e r a u m a questão de ponto de v i s t a , de galgar u m a velasse a s u a n a t u r e z a integral à p r i m e i r a e precária impressão, a
altura suficiente p a r a que todos os picos fossem escalados. E n c a r e c e - ciência j a m a i s s e r i a necessária e a filosofia não precisaria estafar-se
r a m a necessidade de não nos desesperarmos ante a i m p o s s i b i l i d a d e de acompanhando as pegadas da ciência. A enorme discrepância entre a
encontrar u m a característica absoluta nos componentes do nosso co- experiência e a veracidade da experiência obriga-nos a i r além do fato
nhecimento do universo. Deveria ser p a r a nós e s t i m u l a n t e o u v i r a plausível e refletir no fato.
voz da filosofia oculta que diz explicitamente que se deve p r o c u r a r
u m a nova abordagem p a r a o problema, u m a vez que e s t a pode s e r P e r m a n e c e r sempre preso a u m a única posição e considerar as
encontrada. coisas a p a r t i r dessa posição apenas porque é fastidioso encontrar
u m a n o v a é, e m última instância, perigoso e antifilosófico. De que
Euclides mostrou que as linhas paralelas j a m a i s se e n c o n t r a m ;
ponto de v i s t a procuramos a verdade? E m que posição nos colocamos
Einstein mostrou que elas podem encontrar-se. Contudo, pode-se dizer
quando contemplamos aquilo que julgamos ser a verdade? Pois tudo
que ambos estão com a razão, desde que tenhamos presente que di-
isso determinará tanto aquilo que vemos como a extensão da veraci-
vergem em função da adoção de diferentes pontos de v i s t a . O habi-
dade daquilo que vemos. 0 significado daquilo que acreditamos ver-
tante de u m outro planeta usando u m relógio dividido exatamente
dadeiro e o v a l o r de u m julgamento são inteiramente condicionados
como os nossos, aparentemente i r i a medir o tempo d a m e s m a m a -
pelo ponto de v i s t a adotado. Assim, a possibilidade de assegurar-se
neira, mas n a verdade a semelhança seria fictícia. O s e u d i a poderia
ser mais longo ou mais curto do que o nosso e, por isso, a s suas três u m a m a i o r veracidade n a esfera científica aumenta com a simples ado-
horas poderiam não equivaler às nossas. Pois os padrões d a referência ção de u m ponto de v i s t a mais elevado. A filosofia absorve esta liçâ A

espacial seriam diferentes e os sistemas de tempo também i r i a m ne- e a seguir desenvolvc-a ainda mais, dizendo: adotemos, portanto, o
cessariamente diferir. A diferença de ponto de v i s t a será sempre fatal mais elevado, o derradeiro ponto de vista, onde não haja relatividade
à uniformidade de observação; a aparência daquilo que o h o m e m d a e só então tiremos as nossas últimas conclusões acerca do mundo. Ass
T e r r a vê não pode ser separada da sua própria posição no espaço. A nala a i n d a que não podemos fugir à necessidade de u m ponto de vist
forma de u m a coisa, a posição que ela ocupa e o lugar no tempo e no duplo; e m p r i m e i r o lugar incluindo todas as posições possíveis e r c L
espaço que ela possui são, afinal de contas, aparências apresentadas tivas abrangidas pela v i d a cotidiana e pela ciência experimental; e*f

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segundo, abarcando a razão universal, r e m o t a , a u s t e r a , única, indepen- e pode i n c l u i r inúmeros graus daquilo que se acredita real ou ver-
dente de toda a relatividade. Pois o ponto de v i s t a o b t i d o através dadeiro, m a s está sempre envolvido naquilo que em lógica se designa
desta última independerá por completo daquelas características h u m a - por falácia d a simplicidade. Pode-se descrevê-lo como sendo primitivo,
nas que tornam todos os resultados p a r c i a i s e r e l a t i v o s . E s t e s talvez inferior, relativo, c o m u m , simples, prático, sensato, empírico, imediato,
sejam da maior utilidade p a r a fins práticos e i m e d i a t o s , m a s não se p a r c i a l , finito, fenomenal, local, ignorante e óbvio. 0 segundo ponto
prestam à rigorosa busca da verdade d e r r a d e i r a . de v i s t a pode s e r descrito como sendo absoluto, derradeiro, filosófico,
Uma mente que se canse facilmente irá, ante o espetáculo de ca- unificado, máximo, numênico, reflexivo, universal, verdadeiro, pleno,
minhos inusitados, contentar-se c o m o p r i m e i r o e m a i s próximo ponto único, superior, f i n a l e oculto.
de vista, qual seja o da utilidade prática, t o m a n d o as c o i s a s t a l como Já v i m o s como a ciência c o n t r a r i a o ponto de vista do homem
as percebem os sentidos; ao passo que u m a m e n t a l i d a d e imbuída do c o m u m . Quanto m a i s nãó será então ofendido este ponto de vista por
amor da verdade esforçar-se-á p a r a alçar-se a c i m a d a s aparências ime- algo que s u p l a n t a a própria ciência? O ponto de vista mais elevado
diatas, ou superfície comum das coisas, e chegar às s u a s explicações, não apenas é absolutamente necessário como também afortunadamente
adotando uma posição crítica e indagativa. É o q u e f a z o c i e n t i s t a . possível. Apenas a filosofia o propicia pois só ela galga o cume e se
Mas se detém aí. Daí a queixa da filosofia o c u l t a . E s t a vê c o m bons r e c u s a a cingir-se ao compartimentalismo, explorando toda a existên-
olhos a marcha do cientista. Não o teme, c o m o faz a religião. Apenas c i a , inclusive a exploradora mente propriamente dita. A filosofia busca
lhe encarece a necessidade de não acomodar-se senão a u m a posição preencher o vazio criado pelo compartimentalismo da vida prática e
que lhe permita a f i r m a r a verdade d e r r a d e i r a . T a l posição só pode per- d a p e s q u i s a científica cuidando que nenhum aspecto da existência
tencer à rigorosa atividade d a razão p u r a a m p l i a d a ao máximo, e não m e n t a l e m a t e r i a l — por insignificante que possa parecer a outros —
será nunca revelada pela observação física o u através de e x p e r i m e n - fique f o r a do s e u amplo campo de ação.
tações de laboratório.
A ciência não pode n u n c a completar por s i mesma a sua tarefa.
0 ponto de vista primitivo é u m a necessidade do v i v e r cotidiano. S u a saga é g r a n d i o s a m a s não chega a u m f i m . Quando se cansa de
E l e pode demonstrar-se de grande v a l i a c o m relação às f i n a l i d a d e s prá- a n d a r e m círculos a ciência é obrigada a procurar repouso; não entre-
ticas ( e m oposição às teóricas), dispensando c o m i s s o q u a l q u e r o u t r a gando-se nos braços balsâmicos do dogmatismo mas alçando-se à at-
sanção por parte do homem c o m u m . Baseia-se, v i a de r e g r a , n a s gros- m o s f e r a r a r e f e i t a d a filosofia, encontrará ela a paz duradoura. A
seiras e ingénuas informações dos cinco sentidos; o fato de t a i s infor- r o n d a v i c i a d a d a relatividade não tem saída a menos que a ciência
mações lá está e todos têm de aceitá-lo. O simplório contenta-se c o m r e c o r r a à a j u d a d a filosofia. Surgem, assim, dois pontos de vista dis-
o valor nominal do seu fato e e m s u a pobreza m e n t a l se r e c u s a a i r tintos e b i f u r c a m a nossa visão d a natureza. Só pode haver u m a ver-
além da experiência real, mas tanto o filósofo q u a n t o o c i e n t i s t a só o dade d e r r a d e i r a e u m ponto de v i s t a final cujo caráter seja a u m tempo
aceitará condicionalmente e tratará de e x a m i n a r - l h e o significado. inalterável e invulnerável. O filósofo b u s c a encontrá-los e não se sa-
Ambos percebem que é necessário u l t r a p a s s a r e m p e n s a m e n t o a expe- tisfaz c o m menos. 0 conceito do mundo que decorre da mais pura
riência imediata e efetuar u m a investigação m a i s a m p l a e m a i s profun- reflexão é diferente daquele que decorre da primeira impressão sen-
da da maneira pela qual o fato veio a acontecer. S e o p e n s a m e n t o s o r i a l . É p r e c i s o estabelecer u m a nítida distinção entre ambos. 0
popular fosse sempre certo não h a v e r i a necessidade de instrução; se as p r i m e i r o é perfeito, ao passo que o segundo é prematuro. 0 primeiro
impressões de momento bastassem p a r a d a r a conhecer toda a v e r d a d e ponto de v i s t a é o do universo propriamente dito, o segundo é o do
acerca de alguma coisa, não se r e c o r r e r i a à educação p a r a c o r r i g i - l a s ; h o m e m : o p r i m e i r o opera do ponto de v i s t a de todo o universo e não
e se os homens percebessem n a t u r a l m e n t e o significado do u n i v e r s o apenas do ponto de v i s t a do conhecimento de algum homem e m par-
e das suas próprias vidas a obra d a filosofia s e r i a i n t e i r a m e n t e s u - t i c u l a r , sendo, p o r conseguinte, absoluto e verdadeiro, enquanto o se-
pérflua. Os homens nascem, n a verdade, presos ao e r r o ; e só conse- gundo vê apenas de u m a f o r m a antropocêntrica, vale dizer relativa.
guem chegar a u m conhecimento seguro através de u m a l a b o r i o s a
correção dos seus julgamentos espontâneos. C o n t u d o , o h o r r o r h a b i - A t r o c a do ponto de v i s t a m a i s baixo pelo mais elevado adotad
tual aos esforços mentais faz c o m que as pessoas, de hábito, s e satis- pelo e n s i n a m e n t o oculto só pode acontecer depois de subirmos os ar
façam com o ponto de vista m a i s fácil, conquanto pejado de falsi- d a i m e s d a vivência o u depois de atravessarmos a nado o r i o da r e f l e x '
dades, e suspeitem amiúde dos filósofos, e m b o r a estes últimos repre- p r o f u n d a . P o i s é a t r o c a do p r i m e i r o a m o r pelo definitivo. Amiúde
sentem a extensa batalha e a vitória f i n a l d a razão. ela p r e n u n c i a d a quando a s circunstâncias apresentam problemas diffr
que e n t r a m èm conflito c o m as crenças preconcebidas e confundem a
Chegamos assim à conclusão de que haverá s e m p r e d u a s f o r m a s mente e s c r a v i z a d a . Aí é evocado o atro espectro da dúvida, o qual, por
possíveis de encarar o mundo. O p r i m e i r o ponto de v i s t a é múltiplo s u a vez, r e c l a m a novas e m a i s profundas investigações. Mas a invés
gação suscita e m breve agudas questões. O c o n h e c i m e n t o resultante vista que podem ser distinguidos, mas não podem ser separados, não
da adoção do ponto de v i s t a m a i s elevado é o único e m condições de podem ser divorciados. Podemos estudar u m deles independentemente
fornecer u m a resposta satisfatória a tais questões, p o r s e r o único a do outro, m a s c o m isso estaremos fazendo u m a simples abstração de
lidar com aspectos derradeiros, ao passo que todos o s d e m a i s pontos ambos, sendo verdadeiro o todo. Não devemos tomá-los como divisões
de vista oferecem respostas que poderão s e r m o m e n t a n e a m e n t e satis- rígidas m a s como distinções necessárias. Ninguém poderá negligenciar
fatórias; respostas que durante a l g u m tempo poderão s e r visões úteis o p r i m e i r o s e m deixar de ser u m ser humano, enquanto ninguém po-
e pragmáticas, m a s estão condenadas a f r a c a s s a r a q u a l q u e r momento derá negligenciar o segundo sem condenar-se a permanecer alheio ao
sob o impacto dos fatos. A história m o s t r a c o m o p o r f i m os governos, reino da verdade. Ninguém poderá prescindir do ponto de vista primi-
as religiões, as teorias e a s instituições e n t r a m e m colapso, a p e s a r d a tivo porque a v i d a prática tem de basear-se na crença muito mais do
sua aparente inexpugnabilidade. Pois não há permanência absoluta que n a verdade. É preciso que confiemos n a nossa cozinheira, por
senão n a verdade derradeira. É m u i t o menos i m p o r t a n t e v i a j a r do exemplo, pois não há tempo p a r a investigar ou supervisionar os peque-
Canadá à Cidade do Cabo do que v i a j a r do ponto de v i s t a p r i m i t i v o nos detalhes d a cozinha cotidiana. Vale dizer que devemos nos con-
tentar c o m a ignorância da veracidade de tal ponto de vista, com a falta
até o filosófico.
de provas de que as coisas são aquilo que pretendem ser. A vida ativa
Assim, apenas a filosofia pode converter-se no ápice p a r a o qual seria impossível se tivéssemos que esperar e coletar todos os fatos
convergem todas as linhas d a pirâmide do c o n h e c i m e n t o e d a ação. antes de c a d a ato o u movimento, de maneira que somos obrigados a
Seus pronunciamentos são adamantinos; p o d e m s e r r a t i f i c a d o s m a s aceitar quase tudo e m função dos valores aparentes. A aplicação do
nunca retificados pela passagem do tempo. ponto de v i s t a m a i s elevado às pequenas coisas do dia-a-dia não é nem
desejável n e m necessária. Os assuntos mais banais se transformariam
A virtude sem p a r e o v a l o r incomparável de t a l a t i t u d e mostram-se
em grandes dores de cabeça. Seria essa aplicação tão tola e impossível
na corajosa alegação que apenas a filosofia o c u l t a o u s a fazer q u a l seja,
como a t e n t a t i v a de aplicar os cânones do julgamento comum aos pro-
a alegação de chegar à inteireza dos resultados, à i n d i s c u t i b i l i d a d e d a
blemas d a filosofia p u r a . B a s t a , portanto, que tenhamos sempre pre-
verdade e ao princípio provado subjacente a todas a s fases d a experiên-
sente e m conhecimento a redondez da nossa Terra, sem exigir que a
cia e do conhecimento que, u m a vez atingido, todas as c o i s a s r e s u l t a m
v i s t a e o tato no-la confirmem. B a s t a que o filósofo permaneça sempre
compreendidas. A alegação, como todas as d e m a i s , p r e c i s a s e r posta
u m s e r h u m a n o sensível, desde que se atenha com firmeza aos prin-
à prova, e a filosofia oculta de b o m grado e s e m receios se submeterá
cípios que generalizam a verdade anterior ao cambiante cenário do
a todas as provas imagináveis, pois, tendo sido através dos tempos o
seu d i o r a m a diário.
seu mais ferrenho crítico, ela sabe h a v e r estabelecido u m a base tão
sólida como o Rochedo de G i b r a l t a r . S e e m toda p a r t e a q u i l o que T a l método, contudo, tanto quanto o prático, é por si mesmo dema-
passa por filosofia difere dos filósofos p r o p r i a m e n t e ditos, e m parte siado falho p a r a a filosofia, que é obrigada a investigar minuciosa-
alguma pode a genuína filosofia afastar-se u m a l i n h a e m matéria de mente c a d a centímetro da sua progressão. Quando o homem começa
princípios essenciais daquilo que sempre foi e s e m p r e terá de s e r . a pensar no significado da vida e no significado do mundo deve deixar
de lado as irrelevantes transações que constituem a existência comum
Assim, e m nossa busca é preciso que a p r e n d a m o s a e m p r e g a r o
ponto de vista adequado. Queremos a última p a l a v r a e m matéria de e s u b i r a vertiginosas alturas mentais. Quando filosofa, livre-se ele das
verdade? Nesse caso é preciso que abordemos o m u n d o segundo o transações dessa ordem, de todas as concessões fáceis às enfermidades
ponto de vista filosófico. Queremos u m a visão prática e funcional? da nossa adolescente raça, e permaneça fiel à sua mestra.
Nesse caso poderemos f i c a r c o m o ponto de v i s t a i n f e r i o r e limitado. O m o v i m e n t o do pensamento é inevitável em ambos os estágios.
Porém, o que quer que façamos, não devemos c o n f u n d i r a s nossas E s t e s são complementares. Temos que coordená-los. Confundir ou
categorias. Pois o castigo será a distorção d a v e r d a d e e a impossibi- t r a n s a c i o n a r c o m os dois pontos de vista é, porém, misturar os pro-
lidade de encontrar u m a regra funcional. O ponto de v i s t a filosófico blemas d a v i d a e do pensamento. Do seu ponto de vista único a filo-
deve ser mantido apartado do prático, caso contrário f i c a r e m o s c o m sofia b u s c a fornecer u m a explicação consistente e final de tudo aquilo
u m a perspectiva confusa e embaçada, diz a d o u t r i n a o c u l t a . que existe, s e m negar, contudo, o valor da obra realizada por aqueles
Ademais, não se deve pensar que a adoção do ponto de v i s t a eleva- que se l i m i t a m tão-somente ao ponto de vista comum nem o da expe-
do significa a destruição do ponto de v i s t a m a i s b a i x o . A antítese en- riência daqueles que só conseguem achar a verdade naquilo que vêem.
t r e eles pertence ao mundo do pensamento elementar e não desloca a s Mas d e m o n s t r a a inadequação do cunho puramente relacional de t a i r

fontes d a ação cotidiana. Os dois pontos de v i s t a podem s e r coorde- trabalhos, experiência, julgamento e conhecimento para uma visão ex-
nados e m função das circunstâncias i n d i v i d u a i s . São dois pontos de tensiva d a v i d a que nada omita do seu campo de observação.

J
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Assim, podemos acomodar as reivindicações d a v i d a prática às
A hipótese d a relatividade nasceu da investigação num campo espacia
reivindicações da verdade filosófica e h a r m o n i z a r todo o conhecimento.
de amplitude sem precedentes n a história de tais experimentações.
Para a experiência, a ciência é o ponto de p a r t i d a d a genuína filosofia.
Isso p e r m i t i u a E i n s t e i n descobrir que os raios de luz, aparentemente
Quando a ciência reunir forças suficientes p a r a d a r o salto, quando a retos, são n a realidade curvos e que u m a linha reta, suficientemente
revelação da relatividade obrigá-la a confessar a s u a impotência de prolongada, acaba tornando-se curva! As linhas retas parecem direitas
chegar a uma certeza absoluta por s i só, assumirá e l a então a elevada apenas porque não acompanhamos a luz n u m trajeto de milhões de
dignidade da filosofia. Ao fazê-lo não precisará a ciência abandonar quilómetros e durante u m espaço de tempo devidamente longo. Se
as conquistas práticas, pois ambas as coisas podem e devem c a m i n h a r pudéssemos fazê-lo, veríamos que as retas são curvas. T a l descoberta,
lado a lado. Assim é que a ciência deve l a b o r a r e m meio ao tumulto porém, subverte todos os axiomas de Euclides, toda a geometria ba-
da labuta terrena, apegando-se ao silêncio i n t e r i o r do s e r extraterreno; seada sobre tais axiomas, todos os velhos conceitos de corpos mate-
deve conciliar as limitações que c e r c a m o h o m e m p o r todos os lados r i a i s fixos dispostos no espaço segundo as antigas leis euclidianas.
com a liberdade que reside bem no fundo do s e u s e r ; deve eliminar A geometria de E u c l i d e s funcionava com perfeição, desde que aplicada
a falsa oposição entre o prático e o filosófico, promovendo a s u a uni- a porções l i m i t a d a s do universo. Quando, porém, u m campo mais
dade. Pois, enquanto o primeiro ponto de v i s t a p r o p i c i a visões da vasto e r a considerado, tornava-se ela insatisfatória e sistemas não-eu-
verdade, o segundo propicia a verdade propriamente d i t a ! Repousa clidianos, como o de Riemann, demonstravam-se mais adequados à
o derradeiro ponto de vista n u m a base dupla de razão e experiência. medição d a T e r r a . Aqui, u m a vez mais, a ampliação da noção de es-
É inexpugnável porque leva tanto u m a como o u t r a a u m desenvolvi- paço revolucionou até mesmo o caráter da matemática. Se, por u m
mento jamais sonhado. lado, exigiu o abandono de noções limitadas, por outro, ofereceu ex-
plicações m a i s amplas e genéricas para os fenómenos físicos.
Aqueles que se passam da relatividade do pensamento do p r i m e i r o
ponto de vista para a rígida certeza do segundo e x p e r i m e n t a m a su- A ampliação d a noção de tempo da humanidade é igualmente im-
prema revolução da mente humana. A n o v a posição torna-se c r u c i a l portante p a r a o pensamento e para a cultura e apareceu de diversas
para a sua reflexão acerca do universo e p a r a a s u a atitude relativa- maneiras. Os homens já não se surpreendem hoje diante dessas cho-
mente aos demais humanos. Quando t a l reflexão é l e v a d a aos seus cantes transformações, como decerto o fariam há quinhentos anos
extremos, o que exige tanto de coragem como de paciência, a r e l a t i v i - atrás. O gramofone lhes traz aos ouvidos u m a voz que falou uma dé-
dade de todo o seu conhecimento psicológico se patenteará. E s t e prin- c a d a antes, o rádio lhes permite ouvir de imediato vozes ou músicas
cípio, aplicado no seu devido lugar no início do segundo v o l u m e que
que e m outras épocas só poderiam ouvir depois de semanas e até meses
completará a presente obra, funcionará p a r a o leitor c o m o u m a ope-
de viagem. O mundo do tempo se contraiu, ao passo que a noção de
ração de catarata no caso de u m homem cego. Será então possível
tempo se dilatou.
chegar a surpreendentes resultados, únicos n a história do conhecimen-
to do mundo, os quais irão revelar u m insuspeitado m u n d o do s e r no E s s e alargamento d a noção de espaço que produziu as descobertas
qual as esperanças mais altaneiras d a raça h u m a n a poderão concreti- de Copérnico e E i n s t e i n no campo da ciência trouxe também no seu
zar-se à medida que as suas mais grandiosas intuições forem-se reali- r a s t r o outras novas verdades. Está ele influenciando a política prá-
zando. tica dos estadistas e os princípios teóricos dos economistas. Está in-
fluenciando os m a i s importantes departamentos da vida e cultura hu-
A Noção Espaço-Tempo do Homem se Amplia. Salientou-se n a s manas. E n a m e d i d a e m que t a l alteração está fazendo com que os ho-
páginas de abertura desta obra que recentes invenções forçavam a mens se dêem conta d a unidade da existência, nessa medida enqua-
humanidade a ampliar a s u a noção de espaço b e m como a s u a noção drasse e l a no ensino prático d a filosofia ligado à vida social e à con-
de tempo. Algumas importantes implicações u l t e r i o r e s daqueles pro- duta ética. Ciência e filosofia tendem a encontrar-se aqui e os seus
gressos podem ser agora mostradas. Será que percebemos que o ho- caminhos se t o r n a m cada vez menos divergentes. Ademais, todas essas
mem chegou à ideia de que a T e r r a é redonda a m p l i a n d o a s u a noção novas verdades acerca de espaço e tempo estão trazendo grande desen-
de tempo? Quando os navegadores medievais começaram a fazer v i a - volvimento aos pensamentos dos homens e grande desenvolvimento às
gens mais longas e afinal circunavegaram o globo, quando os astró- suas concepções acerca do mundo. Estão destarte preparando a mente
nomos inventaram instrumentos superiores e t o m a r a m conhecimento do público p a r a acolher de b o m grado as verdades da filosofia oculta
da existência de estrelas mais remotas, a crença de que a T e r r a e r a da índia, p a r a as quais tendem de forma inapelável, À medida que as
chata tornou-se ridícula e insustentável. Copérnico i n a u g u r o u a i d e i a pessoas se h a b i t u a r e m a raciocinar dessa nova maneira, ficará mais
d a relatividade d a direção no pensamento europeu e m o v i m e n t o u for- fácil p a r a elas a q u i l a t a r o valor do mais elevado ponto de vista
ças que foram gradualmente revolucionando toda a c u l t u r a europeia. filosófico.

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A relatividade propiciou u m a n o v a visão do m u n d o c o m o base
c m q u e ele t r a b a l h a v a e as preconcepções com que trabalha
para todo o pensamento futuro a c e r c a d a s c o i s a s . U m a compreensão va-se, contudo, de fatores que e n t r a v a m n a observação e, em conse-
integral do significado d a r e l a t i v i d a d e não f a z senão t r a z e r à l u z u m a quência, m o d i f i c a v a m os resultados obtidos. Pensar nos objetos à
nova perspectiva para os homens r e f l e x i v o s e e m a n c i p a r - l h e s a mente parte dos homens que os estudam é pensar em abstrações. É como as
das ideias mortas, porque até a q u i a característica d o m u n d o externo duas e x t r e m i d a d e s de u m a m e s m a v a r a — não se pode, em hipótese
era a sua inevitabilidade, o s e u status mecânico, j ; É r a m o s obrigados a l g u m a , s e p a r a r u m a e o u t r a . É preciso que haja alguém para conhe-
pelos nossos sentimentos a aceitá-los t a l c o m o ele p a r e c i a s e r . Sen- c e r o objeto; tanto quanto alcança o conhecimento humano ambas
tíamos instintivamente que não se t r a t a v a d a q u i l o q u e desejávamos e x i s t e m c o m o coisas conhecidas. Tratá-las de outra forma é abstrair
pensar a respeito, m a s daquilo que devíamos p e n s a r . Daí, todas as u m a d a s pontas d a v a r a e fingir que a outra não existe. Afirma clara-
pessoas, os cientistas inclusive, h a v e r e m se a p e g a d o à i d e i a de que mente a r e l a t i v i d a d e que não se pode separar o observador das suas
tudo aquilo que ocupava u m a c e r t a f o r m a possuía u m a aparência e observações, que o espaço não é u m grande vácuo no qual os objetos
uma medida em separado que e r a r r f c o b j e t i v a m e n t e s u a s , e x a t a m e n t e estão suspensos e n e m é o tempo u m a larga torrente em cujo seio se
na forma em que e r a m percebidas. A c r e d i t a v a - s e t a m b é m q u e sempre e n c o n t r a m . A s f o r m a s que percebemos, as medições que fazemos,
que tinha lugar algum acontecimento, s u a duração e r a também algu- dependem d a posição daquele que percebe e mede. Se ele mudar sua
ma coisa precisamente inerente a ele, c o m o h a v i a d i t o N e w t o n — e posição, novas f o r m a s e novas medidas se lhe apresentarão. Por essa
todos os cientistas que v i e r a m depois dele — e m t o d o s o s c a s o s , abso- razão o conhecimento empírico está continuamente sujeito à revisão.
lutamente inalterável e uniforme, e, e m consequência, i n t e i r a m e n t e i n - S e m a filosofia j a m a i s podemos chegar a u m a determinação do cará-
dependente da experiência h u m a n a a respeito. O u n i v e r s o e s t e l a r que ter do u n i v e r s o que s e j a e se mantenha p a r a sempre absoluta.
nós humanos acreditávamos lá fora e c o n s t a n t e através do t e m p o não
O significado íntimo d a relatividade é que o mundo pode ser co-
era de forma alguma afetado pela n o s s a posição, presença o u ausência
nhecido de m a n e i r a s diferentes n a experiência de diferentes seres hu-
e seguia com s u a existência u n i f o r m e c u j a s características f u n d a m e n -
manos. O princípio pode ser aplicado à forma particular segundo a
tais eram as mesmas p a r a todos os o b s e r v a d o r e s e m t o d a s a s épocas.
q u a l u m objeto se nos m o s t r a de u m a determinada posição ou pode
Espaço e tempo, definitivamente, e r a m " d a d o s " .
ser aplicado ao fato de que o objeto propriamente dito também é co-
Com o advento de E i n s t e i n , mostrou-se q u e t a i s opiniões e r a m er- nhecido c o m o u m a ideia e m relação à mente que conhece. U m objeto
róneas, imperfeitas e enganosas. E l e d e m o n s t r o u q u e o s padrões con- não é n u n c a independente das condições que afetam u m determinado
vencionais de medida, feitos no espaço e n o tempo, não são de f o r m a observador.
alguma absolutos e irrevogáveis. Dependem i n t e i r a m e n t e de fatores,
tais como a posição do observador, os q u a i s são e m s i m e s m o s variá- O u n i v e r s o f i c o u privado de u m a entidade inalterável. A relativi-
veis e relativos. Aquilo que realmente sabemos do m u n d o não é este- dade converteu-o n u m universo de interpretação individual ou coletiva.
reotipado p a r a todos e todos os lugares m a s é r e l a t i v o ao ponto de Mesmo que as observações de u m milhão de pessoas sejam mais ou
menos concordes, n u n c a deixarão elas de ser meras interpretações.
vista específico que se esposou. M u d a n d o o p o n t o de v i s t a i r e m o s
O princípio d a relatividade não perde s u a veracidade porque u m mi-
visualizar o mesmo mundo de u m a m a n e i r a diferente. Note-se, porém,
lhão de pessoas reunidas n u m a cidade não denota diferenças n a sua
que transformar o espaço n u m a variável é privá-lo do s e u caráter eu-
observação geral de u m determinado objeto. 0 princípio se lhes apli-
clidiano e fazer c o m que u m fator m e n t a l e n t r e nele.
c a , conquanto coletivamente, porque essas pessoas usam a mesma po-
Durante todo o século passado a ciência, c o m o se fosse u m obser- sição g e r a l o u empregam o mesmo padrão geral de referência.
vador empenhado em investigar a fundo o m u n d o , não soube q u e os
dados conseguidos e r a m mais úteis p a r a q u e às c o i s a s f o s s e m feitas T i r a n t e o s e u v a l o r prático, c u j a consideração não cabe aqui, o
do que para chegar-se à verdade d e r r a d e i r a . E r a c o m o u m h o m e m v a l o r d a o b r a de E i n s t e i n p a r a o mundo da cultura é haver abalado a
n u m sistema astronómico fechado, incapaz de dizer se a T e r r a se deslo- presunçosa tradição científica que buscava estabelecer u m a represen-
cava ou não, por não ter nada c o m o que compará-la. O sono m e n t a l tação f i x a p a r a o universo. E i n s t e i n inaugura u m a nova era para as
da raça estava, porém, terminando. A história t i n h a d e s t i n a d o o século mentes reflexivas. O aspecto d a s u a obra que mais importa prova
vinte a ser o século do súbito despertar. A ciência começou a e s c r u t a r convincentemente que o universo observado, vale dizer, o u n i
a sua própria posição, por s i m e s m a , a d q u i r i n d o c o m i s s o consciência conhecido, e m separado do suposto universo exterior, quanto à $
da falta de u m elemento e m s u a observação de o u t r o s m o v i m e n t o s — aparência, depende, ao menos e m parte, do observador propriarr.:
seu próprio movimento! dito. No entanto, qualquer pessoa poderá compreendê-lo sem precisar
A ciência tinha-se absorvido no estudo do m u n d o e x t e r n o m a s p a r a tanto transformar-se n u m matemático que domine as nuanças
deixava de levar e m conta o estudante p r o p r i a m e n t e dito, a s condições relatividade, desde que se resolva a estudar o mundo com mais aí

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ção, atendose de preferência ao que ele é e não ao q u e parece ser. de referência irá a c a r r e t a r u m a alteração da imagem sensorial do mun
T a l pessoa irá forçosamente n o t a r que os aspectos espaço e tempo na do nos observadores propriamente d i t o s . 8
E essa imagem sensorial
experiência humana não são tão objetivos c o m o supõe o pensamento é a única à q u a l se a t r i b u i sem restrições u m a realidade, por ser a
cotidiano. única conhecida.
Se nada existe em isolado, independentemente d a s u a relação com Os fatos do mundo nós habitualmente os percebemos através dos
aquele que percebe, então, s e m a s s u m i r p o r i n t e i r o a personalidade órgãos sensoriais, essas complicadas estruturas que num remoto pas-
de u m outro homem, torna-se impossível o b s e r v a r q u a l q u e r objeto sado não e r a m senão pedaços sensíveis de pele. 0 cientista é obri-
exatamente como ele o faz. A s s i m é que, r e c a l c i t r a n t e m e n t e , nós car- gado a t r a b a l h a r c o m medições obtidas a partir de u m instrumento
regamos conosco a nossa visão do m u n d o onde q u e r q u e estejamos. consultado c o m a s u a própria faculdade da visão. Sob esse aspecto
As observações que fazemos efetuam-se n a v e r d a d e d e n t r o desse mundo permanece ele n a total dependência dos seus dois olhos. 0 químico
e são inseparáveis dele. 0 nosso m u n d o de fatos o b s e r v a d o s é tam- altera os pesos n a balança do laboratório e a seguir lê os algarismos
bém u m mundo de julgamentos! Nós s e p a r a m o s p o r u m processo indicados por u m ponteiro que se desloca sobre u m a escala numerada.
de abstração algum aspecto especial e a ele d a m o s a denominação da N a verdade, s u a consciência anotou certas sensações visuais, certas
coisa. Nós isolamos determinadas aparências do objeto, fazemos a experiências acontecidas com os mecanismos nervosos do seu corpo.
abstração de todas as aparências possíveis e a s e g u i r a f i r m a m o s haver Diz-se que a ciência se baseia apenas em medições, mas, evidentemente,
visto o objeto! A lógica que p r o v a que o objeto conhecido não pode trata-se de u m a declaração incompleta; o observador humano tem de
nunca ser separado do sujeito que conhece c o m o u m a entidade inde- ser computado como u m a parte dos resultados também. Não se pode
pendente, que o observador é parte de toda a observação que faz, e separar a ciência dos cientistas. Por isso, o padrão criado pela ciência
que o mundo só pode ser descrito e m termos de relações é irretorquível. é também o padrão da experiência humana. Einstein o reconheceu,
incluindo a ideia matemática de u m observador em suas conclusões.
Quando E i n s t e i n m o s t r a não h a v e r tempo n e m espaço c o m u n s a
E o observador, por s u a vez, baseia todas as suas informações nos
todos os grupos de seres humanos, é como se m o s t r a s s e a utilização
simultânea de numerosos óculos, as lentes de c a d a grupo tendo u m seus cinco sentidos.
colorido diferente e, consequentemente, produzindo u m a i m a g e m de — M a s que tem toda esta análise a ver comigo? — perguntará
matiz diferente. Onde ocorrem n a realidade t a i s alterações de aspecto? alguém. — Não será ela prerrogativa dos cientistas e matemáticos? —
As imagens resultantes, referidas à s u a p r i m e i r a o r i g e m , não se en- A resposta é : — tudo! Pois o caro leitor é também u m observador,
contram lá fora, no objeto, m a s s i m nos observadores propriamente sendo o mundo e a s u a ambiência o seu campo de observação. A
ditos. Se cinco homens estudando a m e s m a c o i s a de cinco posições obra de E i n s t e i n está sendo aqui usada como u m mero exemplo, apenas
diferentes encontram diferenças de tamanho, m a s s a , velocidade e a s s i m p a r a i l u s t r a r alguns importantes princípios do ensinamento oculto da
por diante, quem senão eles próprios é responsável pelas alterações índia. E i n s t e i n demonstrou que nada sabemos de definitivo acerca
no objeto observado? E s s a é a única f o r m a possível de conceber t a l da realidade e demonstrou tacitamente a necessidade do ponto de vista
relatividade. Retire-se dos cálculos o observador e todo o s i s t e m a da filosófico m a i s elevado. Ademais, embora sua descoberta se referisse
relatividade entrará e m colapso. A s observações dependem e m boa a medições quantitativas no espaço e no tempo, pode ser d a aplicada
parte do observador. 0 mundo dos imensos continentes e majestosos a numerosos outros campos de investigação. A relatividade é u m
oceanos parece destacado no espaço, contudo, ao p o n d e r a r m o s no princípio c u j a validade se mantém em quase todos os lugares e o
assunto, as próprias relações espaciais se m o s t r a m inapelavelmente seu estudo filosófico é consequente p a r a todos. Servirá ele como u m
envolvidas com o observador. S e a T e r r a parece s e r a c h a t a d a e n a útil t r a m p o l i m p a r a u m nível de referência único, no qual o verdadeiro
realidade é redonda, se parece parada e não cessa n u n c a de g i r a r , onde
o erro a ser procurado? Obviamente, no próprio observador, pois os
seus sentidos trabalham continuamente p a r a f o r m a r a s u a i m a g e m 8
Observando sobre uma tela de cinema uma imagem em câmara lenta de
da T e r r a . um cavalo saltando um obstáculo, veremos que as patas se movem com tal lentidão
que o animal leva sessenta segundos para completar uma ação que na verdade
A suposição muito plausível, gravada e m nossas mentes p e l a he-
não dura mais do que dois. Que aconteceu? O fotógrafo acelerou a rotação
reditariedade e pelo hábito, de que entramos e m contato direto c o m da sua câmara de modo a tirar centenas de imagens por segundo, ao passo que o
u m mundo independente e separado de nós mesmos já não encontra operador projetou-as em ritmo lento de modo que os movimentos tendem a de-
justificação. A relatividade nos a r r a n c a a deplorável confissão de saparecer. Não se trata de uma ilusão. A máquina ampliou de fato a nossa
que existem sempre diferentes maneiras de v e r o mundo, de que não noção de tempo, modificando o número das nossas sensações. Demonstrou-se de
existem características fundamentais percebidas i n d i s t i n t a m e n t e por forma simples e prática aquilo que o princípio da relatividade expressa por meio
todos os observadores e de que a modificação d a posição o u do padrão de fórmulas matemáticas.

192 m
caráter do mundo e, posteriormente, o r e a l s i g n i f i c a d o d a existência
C o m o acontece então encontrarmos espaço e tempo como realida-
podem ser desvendados.
des s e p a r a d a s ? É porque a mente inconscientemente os tomou e des-
A relatividade reina tanto no m u n d o m e n t a l q u a n t o n o físico. A tacou de s i m e s m a até certo ponto, impondo-os a s i mesma como des-
crença dá colorido ou condiciona a percepção. A predileção é seletiva cobertas o b j e t i v a s . A s s i m , a e s t r u t u r a do mundo depende em parte da
e elimina da observação camadas i n t e i r a s de f a t o s . O egoísmo é enga- e s t r u t u r a d a mente. Não devemos desprezar o fato de que a mente
noso e amiúde vê apenas aquilo que d e s e j a v e r . A presunção falsifica está sempre a i n t e r p r e t a r o mundo p a r a nós, sempre ocupada por de-
até mesmo aquilo que vê. A emoção s o b r e c a r r e g a o t r i v i a l , foge ao trás de c a d a m o v i m e n t o no tempo e cada coisa medida no espaço. O
mental e ignora o substancial. A imaginação, s e m q u a l q u e r esforço, fato e x t r e m o d a ciência é que o espaço-tempo é a matriz derradeira
fabrica os dados m a i s improváveis. que a m o l d a os objetos e acontecimentos dotados de existência: é a
u m tempo a s u a fonte m i s t e r i o s a e a q u a r t a dimensão d a matéria.
Ademais, a obra de E i n s t e i n não apenas d e s p o j a t e m p o e espaço Quando, contudo, chegarmos à compreensão de que o espaço-tempo é
da sua realidade independente como também l e v a l o g i c a m e n t e a u m também inseparável d a mente, veremos que rumo a investigação e as
outro ponto que não deve s e r ignorado. Q u a n d o E i n s t e i n patenteia descobertas obrigarão a ciência a tomar. Quanto mais esta hesitar
que u m homem n a L u a t e r i a u m tempo diferente de u m h o m e m na e m t o m a r t a l atitude tanto maior será o acúmulo de provas.
T e r r a , fica demonstrado que a referência de t e m p o t e m vinculação
com a referência de espaço. M o s t r a a r e l a t i v i d a d e q u e não se pode N o i n s t a n t e e m que E i n s t e i n proclamou suas descobertas a ciência
separar o espaço do observador, que não se pode s e p a r a r o tempo do física já não pôde manter-se alheia, como no passado, face ao problema
observador, e que tanto espaço como tempo se c o n s t i t u e m e m partes da relação d a mente c o m o mundo. Pois a relatividade solapava toda
de u m a mesma coisa. O contínuo espaço-tempo é u m a só c o i s a , não a n a t u r e z a objetiva dessa ciência e introduzia involuntariamente u m
duas: não há espaço sem tempo ( s e u c o m p a n h e i r o inseparável). 0 fator subjetivo. Nada, portanto, segundo a relatividade, é completa-
mente auto-existente. E s t e nosso interpretado mundo depende, ao me>
quando e o onde vivem e m perpétua união.
nos e m parte, da mente interpretadora do observador. 0 velho con-
Todas as percepções de tempo d e v e m e n v o l v e r referência ao mundo ceito de que espaço e tempo são continentes e m que todas as coisas são
externo e, consequentemente, envolver percepções de espaço também. exibidas, p r e c i s a s e r posto de lado. 0 novo conceito de que espaço e
E l a s são inseparáveis. O tempo e m que u m objeto o c u p a a s s u a s três tempo estão contidos n a mente do observador precisa ser esposado.
dimensões no espaço tem de ser levado e m c o n t a p a r a se completar O corolário a ser tirado é que mente e sensação são fatores inarredá-
a medição desse objeto. Todo o nosso conhecimento d a n a t u r e z a é o veis n a c o n t e x t u r a do mundo que conhecemos, pois esse mundo é inse-
conhecimento de coisas presentes no espaço e acontecendo no tempo; parável do espaço tanto quanto o é do tempo.
toda a nossa experiência é a experiência de objetos o c u p a n d o u m a A verdade, t a l como existe e m s i mesmo, incondicionada, é segundo
determinada posição espacial e u m a d e t e r m i n a d a o r d e m n o tempo. Não E i n s t e i n intangível; a verdade, t a l como existe e m relação com as fa-
apenas vemos o mundo e m torno m a s também o fazemos n u m a rela- culdades dos indivíduos é a única tangível. O ensinamento oculto dis-
ção espaço-tempo. corda c o m veemência desse pessimismo, assinalando que a entidade
isenta de toda relação só pode ter u m a natureza mental comum e pode
Tempo e espaço se i m p l i c a m reciprocamente; dependem u m do
ser apreendida por meio de u m a abordagem não-individual. De qual-
outro. Pois vemos os objetos no espaço s e p a r a d a m e n t e e portanto
quer forma, os princípios que determinam o conhecimento humano
sucessivamente e n a dimensão total do espaço-tempo. I n v e r s a m e n t e , existem, ao menos até certo ponto, dentro dos sentidos humanos e da
se não nos fosse possível separar no espaço a T e r r a do S o l , não tería- mente h u m a n a e não além deles no universo. S e m a ajuda da mente
mos como medir o tempo. A s s i m , todas as nossas sensações são corre- somos incapazes de saber o que quer que seja. A proposição é irre-
lativas no espaço-tempo. Nós espacializamos fugindo a r b i t r a r i a m e n t e futável. A s s i m , no estágio e m que nos encontramos, o mundo gira
ao contínuo tetradimensional e m que espaço e tempo p e r m a n e c e m e m grande parte e m torno de nós como observadores. Mas que somos
em perpétua união. 0 contínuo espaço-tempo é o f u n d a m e n t o que ba- nós sem os nossos instrumentos de observação, os nossos sentidos?
seia toda a nossa experiência do mundo. Nada! T u d o é recebido através deles. A t e r r a que pisamos e a ca-
Não é preciso que nos atemorizemos diante dessa ressonante pa- deira e m que sentamos e n t r a m n a nossa percepção apenas porque são
l a v r a contínuo. Torna-se ela explicável quando sabemos que espaço e registradas n a pele, nos olhos e n a s orelhas. O mundo que conhecemos
tempo são relativos à mente do observador e que esse contínuo está é u m mundo sensorial, pouco importando o que exista além dele. E s s e
misteriosamente vinculado à própria mente. Espaço-tempo é a f i n a l de mundo irá v a r i a r e m função da variação das nossas sensações penta-
valentes. Aquilo que estas nos dizem constitui o mundo. E o que dizem
contas u m conceito matemático, u m a i m a g e m c o n c e p t u a l e, conse-
podem s e r coisas diferentes p a r a homens colocados e m posições dife»
quentemente, u m a coisa mental.

194 195
rentes. Esta é a lição fundamental d a r e l a t i v i d a d e . A r e l a t i v i d a n
introduz um cunho individual ou grupai a todas a s observações A
pessoas irreflexivas não compreendem que pelo m e n o s p a r t e daouii
que julgam externo a s i existe antes como impressões sensoriais i
ternas delas próprias. Aquilo que se supõe e x i s t i r além dessas im*
pressões não se sabe ao certo. u n
'
Estamos seguindo u m a trilha sugestiva e e x p l o r a d o r a que, atravé
das coisas do espaço e do tempo, levou-nos de v o l t a ao h o m e m p r o p r i S

mente dito, em parte à sua mente e de modo especial às sensações o *


ele forma do mundo externo. Isto suscita a questão fisiológica e psic CAPÍTULO I X
lógica de como experimentamos as sensações e o que elas n a re r "
dade são. Habitualmente, nós aceitamos as comunicações desses DA COISA AO PENSAMENTO
tidos como verdadeiras e, por isso, não nos detemos p a r a e x a m i n a "
até onde vai tal veracidade. A tarefa seguinte é i n v e s t i g a r a s u a exata
natureza, bem como estabelecer quanto daquilo que v e m o s depende
desse fator mental. Encontramo-nos agora no l i m i a r de u m antigo mistério, 9 E x i s t e
u m estimulante aspecto d a descoberta científica ao qual não se atri-
b u i u a devida significação e o adequado valor no Ocidente, mas o qual
já e r a conhecido, compreendido e valorizado pelos pensadores da
antiga índia. T a l mistério é a relação entre as coisas da nossa expe-
riência, os sentidos e a mente. Pois foi-nos dado ver a esta altura que
cada coisa e m separado da q u a l o homem tem ou pode ter consciência
é n a aparência o produto de dois ingredientes, o mental e o material,
e não apenas o m a t e r i a l . A proporção, porém, em que ambos se com-
b i n a m está a i n d a pendente de determinação. Quanto de u m a coisa é
dado pela mente e quanto é recebido do mundo externo é u m enigma
que v e m desafiando os homens desde K a p i l a até K a n t , mais porque a
resposta c e r t a é demasiado inesperada e insuspeitada para ser aceita
e menos porque a s u a dificuldade é de impossível superação.

Sabemos que existe e m torno de nós u m mundo de objetos co-


muns, como casas de tijolos e árvores folhudas. Mas aquilo que real-
mente sabemos a c e r c a do mundo depende de como adquirimos tal co-
nhecimento. Pode a descuidada ignorância a f i r m a r que nós o vemos,
que determinadas imagens correspondentes se registram em nossos
olhos e são de a l g u m a f o r m a captadas pela mente. A visão, porém, não
é coisa tão simples como parece, pois, submetida a u m processo ana-
lítico, produz surpreendentes revelações. A mente comum contenta-se
que a s u a consciência do mundo, suas experiências pessoais e modifica-
ções ambientais s e j a m coisas simples, mas a mente científica sabe o
quanto elas n a realidade são complexas.
As formas que vemos e m todos os cantos não se explicam por s i
mesmas. S e quisermos saber a s u a verdade é preciso que procedamos
a u m a rigorosa investigação. O mundo dado à mente não o é de par
com u m a explicação simplificadora. É preciso que procuremos esta
última c o m todas as nossas reservas de energia. Caso contrário ela não
se apresentará e nós j a m a i s sairemos do j a r d i m da infância do pensa-
mento.
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Antes de darmos o u não crédito ao t e s t e m u n h o dos n o s s o s sentidos
d a cabeça, n a p a r t e t e r m i n a l de u m canal de dois centímetros de com-
deveríamos compreender adequadamente c o m o c h e g a m esses sentidos
primento.
a oferecer t a l testemunho. Não é p r e c i s o n e g a r m o s q u e n o s f a l a m de
u m mundo externo, m a s devemos assegurar-nos e x a t a m e n t e d a q u i l o de U m sexto sentido é a consciência dos nossos próprios movimentos
que nos tentam falar. Aqueles que t i v e r e m a paciência necessária p a r a m u s c u l a r e s , u m sétimo é o do equilíbrio físico, mas bastará alcançar
proceder com seriedade a essas investigações estarão t o m a n d o impor- o princípio que preside a todos esses sentidos.
tantes providências no sentido de d e s p e r t a r do sono d a ignorância que Os nossos sentidos nos contam algo acerca de u m objeto, mas j a -
mantém prisioneira dos seus pesados grilhões a m a i o r p a r t e d a h u m a - m a i s nos c o n t a m m a i s do que u m a fração dos fatos concernentes a tal
nidade; terão começado a desfazer a ilusão u n i v e r s a l n a única f o r m a objeto. Pois f u n c i o n a m dentro de u m campo de vibrações limitado e
através da qual ela pode s e r desfeita, através d a interpelação. Tais b e m definido. S e fossem capazes de nos contar tudo, se os ouvidos
pessoas serão os precursores de u m a população d e v i d a m e n t e instruída t i v e s s e m a capacidade de distinguir sons de alta frequência ou as nari-
e nobremente elevada. nas t i v e s s e m sensibilidade a todo e qualquer odor, a vida tornar-se-ia
intolerável, quando não impossível de viver. Veja-se aqui u m a séria
Precisamos começar como a ciência m o d e r n a , p a r t i n d o lúcida e lo-
advertência n o sentido de não confiar demasiadamente no conheci-
gicamente do ponto de v i s t a do conhecido p a r a depois c h e g a r ao
mento s e n s o r i a l . E u m a asserção franca no sentido de que aquilo que
desconhecido. É preciso, p o r isso, que n o s t r a n s f o r m e m o s momenta-
sabemos d a fonte dos sentidos deve não apenas ser complementado
neamente e m físicos, fisiologistas e psicólogos. P r e c i s a m o s e x a m i n a r
pela investigação r a c i o n a l como também controlado por da.'fr Algo a
o nosso aparelho corporal, o b s e r v a r a s u a f o r m a de c o n d u t a a o perce- respeito foi aprendido no capítulo anterior, no nosso estudo do prin-
ber as coisas e pesquisar o nosso c a m p o de consciência. E se u n s cípio d a relatividade, estudo que mostrou a imperiosa necessidade da
poucos termos científicos t i v e r e m de s e r u t i l i z a d o s p a r a t a n t o , eles adoção de u m ponto de v i s t a duplo, e algo mais será aprendido no cor-
serão simples e conhecidos d a m a i o r p a r t e dos l e i t o r e s ; não obstante, r e r do presente capítulo. A filosofia não teima, portanto, em mostrar-se
sua explicação plena também será fornecida, de m o d o q u e n a d a per- descontente c o m a nossa p r i m e i r a visão do mundo, tal como ele de
manecerá obscuro p a r a q u e m quer que s e j a . pronto se apresenta aos nossos sentidos. A filosofia vê mistério onde
A investigação física e fisiológica d e v e r i a s e r p r o c e d i d a e m p r i - o h o m e m c o m u m n a d a pressente. E l a procura n a verdade desvendar
meiro lugar, pois o corpo é m a i s compreendido do q u e a m e n t e . T a l o mistério a n t e r i o r às aparências percebidas.
estudo irá revelar fatos peculiares a c e r c a do f u n c i o n a m e n t o dos nossos D e todo os cinco sentidos, aquele que mais nos conta acerca do
sentidos. T o d a experiência ganha consciência através d a s p o n t a s dos mundo e x t e r i o r é a visão. V i a de regra, apreendemos a existência de
instrumentos dos sentidos: olhos, ouvidos, n a r i z , língua e pele. Des- c a d a coisa i n d i v i d u a l através da instrumentalidade da visão. Todos os
necessário é f r i s a r que a percepção e a interação c o m o m u n d o s e r i a m outros sentidos lhe estão subordinados. A visão é, portanto, o mais im-
impossíveis se não possuíssemos esses c i n c o i n s t r u m e n t o s sensíveis portante dos nossos sentidos; e m segundo lugar vem a audição. Ê
que nos mantêm informados quanto ao m u n d o d a s c o i s a s q u e n o s ro- também a visão o m a i s útil dos cinco sentidos, porque quase sempre
deiam, esses cinco canais das sensações: visão, audição, tato, olfato e pensamos no mundo e m termos de imagens visuais, enquanto a maior
paladar. U m a v i d a destituída de qualquer desses c i n c o sentidos é u m a parte das imagens que e n t r a m n a memória e n a imaginação é também
v i d a tragicamente l i m i t a d a . P o r essa razão sentimos u m a piedade ins- v i s u a l . A d e m a i s , a função dos olhos é muito superior em alcance à
tintiva pelos cegos, pelos surdos e pelos mudos, que v i v e m n u m m u n d o função de qualquer dos outros sentidos. Assim é que eles são capazes
sem cor, sem fala e s e m som. de perceber grande número de coisas diferentes, tanto longe como per-
A pele está cheia de t e r m i n a i s nervosos e m f o r m a de b u l b o que lhe to, n u m átimo de tempo, ao passo que o tato, por exemplo, lirnita-se
ficam sob a superfície. Através desses t e r m i n a i s recebemos a s sensa- apenas às que se encontram ao alcance da mão. Por fim, a visão é
ções de tato, temperatura e pressão, a s q u a i s são comunicações m a i s o m a i s s u t i l e mentalizado dos nosso sentidos.
simples que as dos demais instrumentos dos sentidos. A língua e p a r t e Que acontece quando contemplamos a legião dos objetos em tomo
da boca são recamadas de t e r m i n a i s nervosos c a p i l a r e s q u e n o s dão de nós? Que queremos dizer quando afirmamos haver visto alguma
o sentido do paladar, a doçura e o a m a r g o r das coisas. A p a r t e supe- coisa? A visão não é e m absoluto o processo simples que aparenta
r i o r do n a r i z contém u m a m e m b r a n a n e r v o s a cota auxílio d a q u a l chei- ser. É u m processo altamente complicado. A primeira coisa a ser no-
r a m o s as partículas gasosas que e n t r a m n a composição do a r . O apên- t a d a é que, e m c o m u m com os demais sentidos, a visão partilha da
dice a u r i c u l a r que vemos não é o verdadeiro i n s t r u m e n t o d a audição necessidade de u m estímulo físico para entrar em atividade» As ondas
m a s u m a espécie de proteção do mesmo. N a r e a l i d a d e o u v i m o s as sonoras a t i v a m o ouvido ao tocarem o tímpano e as ondas luminosas
ondas sonoras através de u m a m e m b r a n a cilíndrica que f i c a n o i n t e r i o r i n c i d e m sobre o olho, colocando-o e m ação. A luz é o verdadeiro está-

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mulo do olho. 0 tecido nervoso do olho é m a i s sensível à l u z do que
m i n a d a s cores do espectro, pois basta colocar u m prisma de vidro
qualquer outra coisa.
diante d a j a n e l a de u m quarto escuro e de pronto surgirão lindos ma-
E i s u m a caneta-tinteiro. Os r a i o s de l u z d e v e m t e r n e s t e objeto tizes violetas, amarelos, vermelhos, azuis etc.
o seu ponto de partida, sendo refletidos d a s u a superfície p a r a a seguir A s s i m sendo, não vemos diretamente as coisas, mas s i m a luz por
viajarem e estimularem esse espantoso m e c a n i s m o ótico d a N a t u r e z a : elas refletida o u e m i t i d a . Não é a caneta que realmente entra em
os olhos. contato c o m os olhos; são os raios luminosos que partem da caneta.
Duas esferas de tecido fibroso encontram-se e n c r a v a d a s n o recesso A superstição negada pela ciência é serem as cores pertencentes às
do crânio. Há três camadas de f i b r a s n e r v o s a s s o b r e c a d a globo o c u l a r coisas p r o p r i a m e n t e ditas. T a l não acontece. A s cores são o resul-
e a mais interna é a m a i s sensível à l u z e, p o r conseguinte, à cor. tado d a decomposição d a l u z b r a n c a . A luz não está nas coisas pro-
Tecnicamente, denomina-se essa c a m a d a de r e t i n a . D e s e m p e n h a ela p r i a m e n t e ditas. Ê apenas refletida por elas. A experimentação cien-
o mesmo papel desempenhado n u m a câmara fotográfica p o r u m filme tífica o d e m o n s t r o u cabalmente, m a s u m exemplo simples serve para
sensível ou por u m visor, pois r e g i s t r a a i m a g e m de o b j e t o s exteriores. i l u s t r a r a verdade. O crepúsculo d i m i n u i a luz no interior das casas
Mas, enquanto u m filme só pode s e r usado u m a vez, a r e t i n a pode ser e c o m i s s o a s coisas a l t e r a m o seu matiz e escurecem. As mesas mar-
utilizada u m sem-número de vezes, prestando s e m p r e b o n s serviços. rons tornam-se pretas, cortinas verdes tornam-se cinzentas. Pois a
Nela os raios luminosos se e n c o n t r a m e a f e t a m n u m e r o s o s t e r m i n a i s cor não é n a realidade u m a propriedade essencial das coisas.
nervosos cilíndricos e cónicos, c u j a atividade põe e m ação o segundo Pode-se dizer c o m acerto que o único mundo que vemos é u m mis-
elo n a corrente de processos que se estendem desde a caneta-tinteiro terioso m u n d o de l u z , t a l como a f i r m a r a m outrora antigos cultos e tal
até a nossa percepção da s u a existência. Q u a l q u e r o u t r o i n s t r u m e n t o como d e m o n s t r o u a ciência moderna. A filosofia, porém, não pode
sensorial, como o ouvido e a pele, contém i g u a l m e n t e t e r m i n a i s ner- deter-se aí. E l a t e m de penetrar n a própria raiz das coisas. T e m
vosos, caso contrário s u a utilidade desapareceria. de v e r i f i c a r até mesmo a proveniência da luz.
E s s a estrutura da r e t i n a possui u m a f i n u r a microscópica e per-
Do Olho à Mente. Voltemos à nossa caneta-tinteiro. A impressão
mite, em consequência, a formação sobre a s u a superfície de imagens
de tê-la v i s t o p r i n c i p i a c o m a l u z entrando no olho, o qual, em resposta
dotadas de u m a precisão e c l a r e z a j a m a i s igualadas p e l a s informações
a este estímulo, f o r m a u m a imagem n a retina. A Natureza transfor-
fornecidas pelos demais sentidos. Não devemos e s q u e c e r q u e a pre-
masse, por a s s i m dizer, e m artista, e pinta u m quadro luminoso sobre
sença de t a l imagem não é senão a influência p u r a e s i m p l e s d a l u z
u m a tela de tecido nervoso. Nós, porém, não temos consciência da
sobre a retina. existência de t a l quadro, a prova sendo que a imagem formada sobre
A fim de ver qualquer objeto externo é preciso q u e este t e n h a u m a r e t i n a é i n v e r t i d a t a l como é no negativo do filme fotográfico. Se
pano de fundo colorido, pois é através do c o n t r a s t e e n t r e a s cores que não tivéssemos senão essa imagem, também a caneta ficaria de cabeça
distinguimos a forma e o tamanho do objeto, m a s , p a r a h a v e r c o r é p a r a b a i x o ! Torna-se, portanto, claro, que a imagem passa por u m
preciso que haja luz, pois a cor é u m produto dos r a i o s l u m i n o s o s . outro processo de transformação antes que nós tomemos plena cons-
Apenas quando nos é possível estabelecer u m a comparação e n t r e duas ciência d a caneta.
cores podemos a f i r m a r haver u m objeto diante de nós. Nós notamos O que o c o r r e u foi u m a alteração química e estrutural na camada
o flamante esplendor do flamingo e m v i r t u d e dos tons m a i s baços do superior d a r e t i n a . N e n h u m a consciência da cor rebrilhante, do for-
cenário em que a ave se encontra. Percebemos a gigantesca pirâmide mato esgalgado e d a pena dourada conseguiu ainda penetrar na nossa
porque as suas pedras pardacentas se erguem de u m leito fulvo de ignorância. P a r a nós não existe ainda u m a caneta, A nova da sua
areia e porque o seu cume agressivo projeta-se no olímpico a z u l do existência a i n d a não chegou à mente e é preciso que seja levada ainda
céu egípcio. Se u m a única cor nos rodeasse, objeto a l g u m poderia além dos olhos; é preciso, n a verdade, que seja levada até algum ponto
assumir u m a forma perante nossos olhos, porque o f o r m a t o aparente c e n t r a l n u m corpo que possa funcionar como u m a câmara de compen-
de u m a coisa é a consequência d a presença de u m a segunda c o r o u de sação p a r a todos os informes dos sentidos enviados de diversos pontos
diversas outras cores contra a q u a l fazemos o contraste. localizados por todo o corpo. T a l ponto existe no cérebro.
Esses raios são decompostos pelos objetos n a s tonalidades m a r - A N a t u r e z a cuidou admiravelmente da tarefa. Todo o corpo é na
rons, cinzentas e verdes que a superstição popular a t r i b u i às coisas realidade u m aparelho receptor nervoso que reage diferentemente a
que vê. A casca de u m a l a r a n j a , por exemplo, reflete e decompõe a cada estímulo físico recebido. Infinitos filetes nervosos brancos se en-
luz branca de maneira que a nós nos dá a impressão de s e r d o u r a d a . tretecem desde a superfície do corpo até o cérebro e constituem u m
É u m a experiência de nível escolar p r o v a r que a l u z b r a n c a pode de- sistema global de comunicação, u m a espécie de sistema telegráfico ner-
compor-se e dividir-se em diversas outras cores, tecnicamente deno- voso e c e r e b r a l .

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E x i s t e u m processo genérico de interação e n t r e o s o b j e t o s externos T u d o q u a n t o os olhos podem oferecer, no caso da caneta-tinteiro,
e o cérebro interno através do f u n c i o n a m e n t o d o intermediário entre está contido n a porção sensível d a retina e consiste numa imagem de
eles: os cinco sentidos físicos. D e t e r m i n a d o s a c o n t e c i m e n t o s o c o r r e m menos de dois centímetros de diâmetro, invertida e bidimensional ape-
com os instrumentos sensoriais e, através d e vibrações q u e p e r c o r r e m n a s . M a s a c a n e t a que lá está t e m doze centímetros de comprimento
os nervos de ligação, i n i c i a m i m p u l s o s q u e s e d i f u n d e m s o b r e u m a e não dois, está de pé e não de cabeça p a r a baixo e possui três dimen-
determinada porção do cérebro. sões: a l t u r a , l a r g u r a e profundidade. E i s aqui três indicações de que
A caneta, que produziu u m a impressão n o olho, c o m o se d i z em a c a n e t a e x t e r n a presente e m nossa visão não é a caneta percebida da
linguagem técnica, colocou e m a t i v i d a d e a s inúmeras p a r t e s cilíndricas q u a l a m e n t e t o m a consciência e também de que a crença popular de
e cónicas da retina e através delas os n e r v o s q u e p a r t e m d a s u a base. que vemos a s coisas propriamente ditas não passa de u m a ilusão.
E s s a corrente de movimento ondulatório é t r a n s m i t i d a a o n e r v o prin- Pois a i m a g e m c o m que o cérebro lida está dentro dos nossos olhos,
cipal que parte do globo ocular, o n e r v o ótico, e este p o r s u a vez co- isto é, dentro do nosso corpo, dentro de nós próprios, portanto! Não
munica a sua resposta ao s e u n a s c e d o u r o n o f u n d o d o cérebro. A l i nos é sequer possível i r além dela. Vale dizer que vemos imagens,
uma porção da superfície c e r e b r a l d e n o m i n a d a córtex t o m a conheci- aparências, e que estas são sempre relativas ao observador — lição
mento da atividade vibratória que c o n s t i t u i a m e n s a g e m e n v i a d a pelo que aprendemos no capítulo anterior a partir de outros dados, bem
olho. c o m o a p a r t i r d a reflexão acerca da obra de Einstein. Para efeitos de
Consideremos u m aspecto deste último ponto. A q u i l o q u e torna o r d e m prática é preciso a d m i t i r que percebemos uma coisa exatamente
possível a imagem e a t i r a a s u a f o r m a s o b r e a r e t i n a é a l e n t e com- como e l a é, m a s e m se tratando da investigação filosófica é preciso
posta formada pela córnea do olho e pelo c r i s t a l i n o . A superfície dessa p e n e t r a r sob a superfície dessa premissa.
lente é convexa e se a N a t u r e z a houvesse a u m e n t a d o e s s a convexidade A m e n s a g e m dos olhos acerca da existência da caneta é o único
nós estaríamos condenados a v e r s e m p r e a c a n e t a e x a g e r a d a n a s suas relato que o cérebro pode esperar receber, pois ele está demasiado
dimensões e distorcida n a s u a f o r m a . T u d o m a i s n o u n i v e r s o assu- afastado d a c a n e t a . Contudo, do ponto de vista físico, o que se lhe
m i r i a a mesma grotesca aparência, fosse u m a g i g a n t e s c a c o r d i l h e i r a oferece é apenas u m a m i n i a t u r a invertida. U m a mensagem tão imper-
himalaia, fosse u m minúsculo inseto c o m o a f o r m i g a . D o n a s c i m e n t o feita não f a z j u s à caneta externa e não pode ser tomada literalmente.
à morte permaneceríamos n a crença de q u e todas a s p e s s o a s e objetos É preciso que s e j a t r a b a l h a d a até que a caneta seja representada com
possuíam realmente aquela aparência. O s a s s i m c h a m a d o s espelhos exatidão p o r aquilo que é visto, vale dizer, interpretada. A mensagem
mágicos das feiras e parques de diversões f o r n e c e m u m a cómica ilus- chegou, portanto, ao cérebro n a forma de u m código Morse fisiológico.
tração dos estranhos rostos e figuras q u e t e r i a m os h o m e n s . I m a g i n a r que a imagem v i s u a l propriamente dita percorre o nervo
Por que é isso possível? Porque o cérebro depende i n t e i r a m e n t e ótico é o m e s m o que i m a g i n a r as próprias palavras percorrendo o fio
da imagem fornecida pelos olhos. O b v i a m e n t e , ele não pode e n t r a r e m telegráfico ao invés dos correspondentes impulsos eiétricos. Esses im-
contato direto com qualquer c o i s a e x t e r n a . pulsos chegam ao s e u destino n a forma de sons destituídos de signifi-
Há casos e m que a s pessoas n a s c e m daltônicas. A t é q u e alguém cado até s e r e m captados e traduzidos e m Morse por u m operador, u m
lhes chame a atenção p a r a aquela p a r t i c u l a r i d a d e d a s u a visão elas ser h u m a n o c u j a inteligência os traduz e m letras e palavras significa-
talvez n e m percebam qualquer a n o r m a l i d a d e . É possível q u e e l a s as- tivas. A d e m a i s , u m telegrama propriamente dito não é senão uma
segurem que duas coisas de cores diferentes c o l o c a d a s d i a n t e delas te- série de sinais negros sobre u m a folha de papel em branco. Tais sinais
nham exatamente a m e s m a cor. T a l v e z a f i r m e m q u e a r o s a a m a r e l a têm de s e r decifrados e convertidos em pensamentos pelas pessoas que
e o cravo vermelho têm a m e s m a c o r , s i m p l e s m e n t e p o r q u e não são os lêem. Analogamente, a inteligência precisa pôr-se a trabalhar a fim
capazes de distinguir. Também não são capazes de d i s t i n g u i r m o r a n - de d e c i f r a r os i m p u l s o s nervosos ondulatórios recebidos pelo cérebro
gos ainda verdes de morangos já m a d u r o s , b e m c o m o o s i n a l semafó- e retraduzi-los n a consciência das impressões correspondentes dos seus
rico verde do vermelho que i n d i c a perigo. P o r e s t a razão a s f i r m a s impulsos físicos originais, que, no caso presente, constituem-se n a ca-
exigem que os motoristas passem p o r u m rigoroso e x a m e e m matéria neta Ê e x t r e m a m e n t e difícil definir a palavra mente, segundo recente
de distinção de cores. A lição a s e r extraída d a análise desse defeito confissão dos filósofos e cientistas modernos, 0 ensinamento oculto
é que a cor errada, não fazendo parte d a lâmpada n e m do morango, compreende cabalmente a significação daquilo que há por detrás dessa
deve fazer parte da imagem que c a i n a r e t i n a , e q u e o cérebro é l i m i - pequenina p a l a v r a , m a s t a l significação só poderá ser revelada em sua
tado por aquilo que se encontra n a representação d a r e t i n a e não por totalidade ao f i n a l deste curso e não no momento presente, quando nos
aquilo que está n a coisa e x t e r n a p r o p r i a m e n t e d i t a . O e s s e n c i a l a q u i achamos a i n d a a meio caminho. Contudo, poderemos definir por ora
é aquilo que de -fato vemos e não aquilo q u e deveríamos v e r segundo a p a l a v r a mente, de u m a f o r m a breve, simples e conjetural, como sendo
a observação comum. aquilo que nos faz pensar nas coisas e nos torna conscientes das coi

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T a l interpretação tem necessariamente de s e r u m a a t i v i d a d e mental.
Tem ela de transpirar n a mente, pois exige u m a a t i v i d a d e p o s i t i v a da Explicação concludente do fato é que o conhecimento da existência
inteligência ao invés da passividade do olho, do n e r v o e do cérebro. de u m objeto não surge no olho, n a pele, n a língua ou no nariz, que
Inteligência implica em consciência de a l g u m a espécie e, c o m o de há- se s i t u a m n a s extremidades dos nervos, mas apenas depois que a men-
bito não nos damos conta desse processo, s o m o s obrigados a c o n c l u i r sagem a t i n g i u os centros cerebrais, que se localizam nos pontos de
que ele ocorre antes do l i m i a r d a consciência c o m u m e é totalmente p a r t i d a dos nervos. Pois só então se revela aquele misterioso elemento
subconsciente. Conhecemos apenas os r e s u l t a d o s desse t r a b a l h o invi- denominado consciência. Nós começamos a tomar conhecimento de
u m a c o i s a anotando as particularidades que a distinguem das demais
sível: a visão acurada deste belo i n s t r u m e n t o de e s c r i t a .
coisas, como, p o r exemplo, a forma, o tamanho, a dureza; só nos é
É este o instante e m que a consciência e n t r a n o p r o c e s s o e deter- possível fazê-lo através do conhecimento dessas qualidades.
mina o nascimento de u m a observação p a r a nós. É o i n s t a n t e c r u c i a l
em que começamos a saber que a c a n e t a lá está. Até a l i permanecía- S a b e m o s que temos diante de nós u m pequenino objeto chamado
mos alheios à s u a existência, a despeito d a i m a g e m n a r e t i n a , a des- relógio porque existe nos olhos u m a minúscula imagem do relógio, nos
peito da vibração que percorre o nervo ótico e a despeito d a resposta ouvidos s o a m a s batidas rítmicas e nos dedos há a sensação de dureza
do cérebro. do m a t e r i a l ; todas essas impressões se combinam e corroboram mutua-
mente. Sabemos que u m a l a r a n j a é u m a laranja porque ela é redonda
Prova disto encontra-se nos anais d a c i r u r g i a . A pele de c a d a u m
e a m a r e l a , t e m sabor doce e é polpuda ao tato. São as características
dos dedos está vinculada à espinha d o r s a l p o r m e i o de feixes fibrosos
m a i s conhecidas dessa fruta. Mas como tomamos consciência delas?
de nervos. Se estes últimos forem seccionados próximo d a e s p i n h a os
Só podemos fazê-lo através dos efeitos imediatos que a laranja produz
dedos poderão ser cortados o u esmagados, m a s não sentirão d o r algu-
e m nossas mentes por meio dos sentidos. Cada efeito individual, como
ma. Suas mensagens já não poderão chegar ao cérebro e, consequen-
o tato polpudo d a l a r a n j a e não todo o fruto, que surge n a nossa cons-
temente, não poderão chegar à consciência. Q u a n d o , p o r t a n t o , dize-
ciência recebe a designação técnica de sensação.
mos sentir dores n u m pé machucado, nós nos e x p r e s s a m o s indevida-
mente, pois a sensação deveria s e r localizada no ponto e m q u e é real- T u d o aquilo que é percebido pelos sentidos ou pelo pensamento
mente sentida, isto é, depois do movimento de vibração n o cérebro. n a reflexão torna-se u m objeto no campo d a consciência. Por essa r a -
Nós localizamos as sensações de doce e a m a r g o n a língua, q u a n d o n a zão, pode-se r e s e r v a r a denominação técnica de objeto para tais coisas.
realidade elas só acontecem depois que o cérebro d e u a s u a resposta. Todo objeto possui determinadas qualidades reconhecíveis que se apre-
Mas em ambos os casos o pé e a língua podem a p e n a s r e c e b e r a s i m - sentam perante a mente como sensações. São estas grandemente va-
pressões de dolorosa pressão e doce fluidez r e s p e c t i v a m e n t e , ao passo r i a d a s ; contam-nos onde o objeto está, qual o seu tamanho, qual a sua
que as impressões só se t r a n s f o r m a m e m experiência consciente de- forma, q u a l o s e u paladar, qual o seu cheiro, qual o seu peso, qual o
pois que os nervos as fizeram deslocar-se até o c e n t r o c e r e b r a l com- seu g r a u de t e m p e r a t u r a e ainda se está e m repouso ou em movimento.
petente. Situar tais sensações localmente nos t e r m i n a i s nervosos é Quando os impulsos nervosos originados nos ouvidos completam
incidir em erro grosseiro, conquanto perfeitamente desculpável. a s u a c a m i n h a d a e chegam ao cérebro criam-se sensações de sons. E s -
A importância reservada pela Natureza aos n e r v o s e aos centros ce- tas variarão e m intensidade, volume e caráter. A intensidade poderá
rebrais pode tornar-se agora m a i s c l a r a . Desde que a ligação dos ner- ser a l t a o u b a i x a , o volume forte ou fraco, e o caráter musical ou
vos com o cérebro se mantenha contínua os i n s t r u m e n t o s sensoriais simplesmente ruidoso, m a s cada efeito sonoro será u m a sensação em
continuarão a funcionar. U m leproso, c u j a comunicação n e r v o s a entre separado.
a mão e o cérebro foi destruída, perderá o sentido do tato. S u a mão A s impressões produzidas sobre a pele e m u m a das extremidades
lesada poderá ser queimada o u decepada e ele n a d a sentirá. Destruído e os processos consequentes despertam processos correlatos na outra
o nervo, paralisado o nervo ou surgida u m a lesão no c e n t r o c e r e b r a l extremidade do cérebro, de onde provêm as nossas sensações de tato
correspondente o instrumento sensorial deixará de f u n c i o n a r n o r m a l - que, a grosso modo, podem ser enquadradas em três classes: as de
mente — a visão desaparecerá e o tato deixará de e x i s t i r nos dedos. contato, as de t e m p e r a t u r a e as de dor superficial. Ê o reconheci-
Por isso, nosso conhecimento de u m objeto não se pode obter senão mento de qualidades distintas tais como calor e frio, lisura e aspereza,
à custa dos nervos e do cérebro. Os olhos p o d e r i a m e s t a r inteiramente peso o u leveza, dor, movimento e pressão. A maior parte das sensa-
ilesos e exibir todos os seus reflexos n o r m a i s e a i n d a a s s i m u m ho- ções táteis é recebida através da pele da mão, por tratar-se do mais
mem poderia não enxergar coisa alguma, se a seção c o r t i c a l do cérebro ativo dos m e m b r o s do homem. Segurando-se na mão este livro, ter-
apresentasse alguma lesão ou moléstia o u se o n e r v o ótico fosse seccio- -se-á as sensações de pressão n a pele e tensão nos nervos. Conjunta-
nado. Não é possível a visão sem a v i t a l cooperação entre cérebro, mente, essas duas sensações formam a impressão combinada do peso
nervo e olho: u m a tríplice sociedade. do l i v r o . Quando apanhamos u m pedaço de ferro, as nossas mãos, en-

204 m
trando e m contato c o m a s u a superfície, s e n t e m u m a sensação de du-
Torna-se m a i s fácil captar este aspecto quando levamos em conta
reza. Os nossos dedos nos c o n t a m q u e o c o r p o d a c a n e t a - t i n t e i r o é
o que acontece quando cortamos o dedo com u m a faca. Surge u m a
redondo e liso, o que significa que e s t a m o s r e c e b e n d o sensações de
sensação de dor. T a l sensação está, indubitavelmente, dentro de nós e
redondez e l i s u r a . S e a s e g u r a r m o s c o m f i r m e z a n a p a l m a d a mão, de ninguém m a i s ; ademais, trata-se de u m estado da nossa consciência
a caneta e o dedo começarão a repelir-se u m ao o u t r o e n o v a s sensa- e não de u m estado d a faca. Trata-se, e m suma, de u m a sensação de
ções surgirão, como as de resistência e d u r e z a . Q u a n t o m a i s firme- dor. Semelhantemente, se colocarmos a mão sobre u m livro, o ato
mente apertarmos, tanto m a i s fortes serão t a i s sensações. dá origem a u m a sensação de resistência, pois a superfície da palma
e n c o n t r a a resistência d a superfície do livro. Quando se diz que senti-
As luzes e sombras que b r i n c a m e m t o r n o d a s c o i s a s n o s forne-
mos o l i v r o , não é b e m a s s i m ; o que de fato sentimos é aquela parte
cem as sensações de formas coloridas. A o t o m a r m o s a c a n e t a e exa- da n o s s a pele que o l i v r o toca, e da pele é enviada u m a mensagem para
minarmos com m a i s atenção o s e u belo e x t e r i o r e x p e r i m e n t a r e m o s a espinha d o r s a l e d a l i p a r a o cérebro, em seguida ao que surge u m a
sensações de vermelho, cinza, a m a r e l o e p r e t o . S a b e a ciência que as sensação de resistência n a nossa zona individual de consciência. Daí
diferentes velocidades de vibração de u m m e s m o r a i o l u m i n o s o são não s e n t i r m o s o l i v r o , m a s aquilo que nos está acontecendo a nós. To-
lidas pelos olhos como cores diferentes. A c o r de u m a c o i s a é, por- das as demais espécies de sensações — olfativas, gustativas ou sonoras
tanto, tuna interpretação ótica. Aquilo q u e p e r c e b e m o s c o m o c o r não — d a n o s s a experiência diária são igualmente estados da nossa cons-
é percebido e m separado de nós m e s m o s . ciência.

Quando falamos a u m h o m e m e o u v i m o s a s u a r e s p o s t a , o que n a Onde está o t r a v o r que sentimos ao morder u m fruto verde? N a
realidade está acontecendo? O s o m , vibração s o n o r a q u e é, a t u a sobre realidade, a s s i m como todos os demais gostos, trata-se de u m a sensa-
ambos os corpos, e determinados m o v i m e n t o s o c o r r e m então n o s ter- ção proveniente d a língua, pois, antes de mais nada, é u m a consciência,
minais nervosos dos tímpanos dos ouvidos. E s s e s estímulos são pro- u m i t e m d a consciência. E s s a sensação tem que identificar-se com a
pagados n a forma de comoção através dos p r i n c i p a i s n e r v o s até o cé- nossa mente. Como experiência, portanto, existe dentro de nós, em-
rebro, onde surgem a seguir as sensações c o r r e s p o n d e n t e s . S e tocarmos b o r a de f o r m a inconsciente a projetemos no fruto exterior. O fruto
o corpo desse homem armazenaremos n a f o r m a de sensações muscula- produz em nós o travor, m a s dizemos erradamente que ele próprio é
res de pressão e afrouxamento os resultados d a s impressões produzi- amargo. A s s i m , u m estado de consciência é erroneamente atribuído a
das sobre a pele. u m a coisa e x t e r n a ! O presente exemplo mostra até onde a linguagem
inadequada pode desvirtuar o pensamento. Aprendemos em capítulos
Onde se originam, por exemplo, a s sensações de d u r e z a o u aspe- anteriores a estar prevenidos contra as palavras e a prestar atenção
reza? Estarão elas n a coisa o u no observador d a c o i s a ? A análise às ciladas que elas p r e p a r a m à nossa compreensão do mundo.
mostrará que estão no observador, superficialmente n o s e u corpo, m a s Conheceremos algo mais de u m relógio do que essas sensações que
realmente no seu cérebro. Analogamente, a s sensações de peso e for- nos f a l a m d a s u a aparência e dos seus sons? Se nos detivermos para
m a não se encontram nas coisas m a t e r i a i s m a s n a s sensações que estas analisar a posição e a nossa análise for correta e profunda, seremos
produzem e m nós. obrigados a confessar que são unicamente os informes dos sentidos
Onde o ponto em que u m h o m e m t o m a consciência de h a v e r chei- que compõem p a r a nós o relógio que conhecemos. Suprima-se o colo-
rado u m a rosa? Quando a r o s a se a p r o x i m a das n a r i n a s ? Quando rido m a r r o m , dourado e negro, a sensação de dureza, redondez, lisura
as partículas odoríferas tocam a m e m b r a n a i n t e r n a d a s n a r i n a s ? Quan- e frescor, o tique-taque rítmico — e quanto sobrará do relógio? S e m
do o nervo registra u m a alteração? Quando essa alteração chega ao essas coisas não pode haver relógio p a r a quem quer que seja. Con-
cérebro? Não! O homem não conhece e não pode conhecer o perfume tudo, s e m n e n h u m a exceção, trata-se de sensações, de eventos mentais,
da rosa enquanto a s u a mente não efetua o registro, enquanto o seu de ideias — se a s s i m preferirmos. Aquilo que vemos, aquilo que ou-
pensamento não dá existência ao perfume. Somente neste ponto a vimos, aquilo que sentimos são as primeiras coisas de que tomamos
interação física entre a rosa e ele adquire significação p a r a ele. A consciência c o m relação a qualquer objeto. Os movimentos intern<
interpretação das impressões d a experiência física c o m u n i c a d a s pelos aos sentidos, nervos, cérebro e mente processam-se com velocidade tã
nervos é seguida por u m a reconstrução das sensações r e s u l t a n t e s n a grande que nós não temos sequer como perceber o processo.; As s<
experiência mental. Cada sensação é, portanto, falando-se e x c l u s i v a - sacões são, portanto, não apenas as primeiras coisas que ficamos s
mente e m termos de fisiologia, u m a resposta apenas m e n t a l e m que se bendo a c e r c a do relógio como também as últimas. E s s a incrível
traduziu u m estímulo nervoso material. C a d a sensação é u m assunto pidez d a ação mental c r i a a ilusão de haver sido feito u m contato di-
mental; acontece dentro do campo d a consciência, ao passo que as i m - reto c o m alguma coisa externa, quando n a verdade entramos apenas nas
pressões sensoriais pertencem ao corpo. nossas próprias sensações. Analogamente, a visão de uma pessoa que

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esteja próxima não é senão a r e s u l t a n t e de várias sensações, v a l e dizer, diosos d a m e d i c i n a e d a psicologia. Não o são entre a maioria dos
a soma daquilo que os sentidos a p r e s e n t a m à n o s s a m e n t e , e apenas leigos. S u a importância p a r a nós repousa em duas razões: primeira-
isso. Cada coisa que vemos o u e x p e r i m e n t a m o s p o s s u i , p o r t a n t o , u m mente, c o n f i r m a m de modo amplo u m princípio crucial do ensinamento
conglomerado de qualidades e características e c a d a q u a l i d a d e se im- oculto que p r e c i s a s e r absorvido a esta altura dos nossos estudos. De-
prime individualmente nos sentidos, p r o d u z i n d o d e s t a r t e u m a sensação pois, p o r q u e estamos recorrendo a fatos, porque estamos interpelando
separada de cor, s o m , gosto e a s s i m p o r d i a n t e . . Q u a n d o penetramos a N a t u r e z a à m a n e i r a de F r a n c i s Bacon, o fundador da ciência mo-
a fundo nas bases do nosso c o n h e c i m e n t o do m u n d o , c o n s t a t a m o s que d e r n a . U m a apresentação moderna do antigo ensinamento hindu tem
o sustentáculo é esse fato p r i m o r d i a l d a sensação. N e n h u m conheci- de basear-se n a ciência, porque esta última é o traço marcante da cul-
mento é possível s e m que a visão, audição, t a t o e o u t r a s sensações — t u r a m o d e r n a e porque as novas descobertas científicas estão começan-
ou suas recordações r e a v i v a d a s — e s t e j a m p r e s e n t e s de início. Pois do a r a t i f i c a r e r e v a l i d a r as antigas descobertas hindus. Mas, enquanto
cada qual é u m i t e m d a experiência h u m a n a . a ciência está a t u r d i d a diante dos fatos que coletou e não sabe ao certo
o q u e fazer c o m eles, a filosofia oculta domina perfeitamente tais fatos,
Nós poderemos conhecer m u i t a s c o i s a s , m a s a s únicas c o i s a s que pois compreende de f o r m a plena o seu lugar e significação. Enquanto
conhecemos com certeza são a s condições d a n o s s a consciência, isto é, a ciência, m a i s cedo o u m a i s tarde, terá de assumir u m cunho filosó-
as nossas sensações e n a d a m a i s . A p e n a s o s n o s s o s c i n c o s e n t i d o s nos fico, sob p e n a de permanecer eternamente perplexa, o ensinamento
falam d a existência deste m u n d o tão f a m i l i a r e n o s f o r n e c e m i n f o r m a - oculto e l a b o r o u c a d a princípio de u m a forma completa até o derra-
ções a seu respeito. Ê impossível chegar d i r e t a m e n t e a o o b j e t o com deiro detalhe. Não se conhece aqui nenhuma dúvida, nenhuma incer-
u m a existência independente. Chegamos a p e n a s à interpretação sen- teza, n e n h u m a t u r d i m e n t o . A verdade foi conseguida e os adeptos po-
sorial do objeto; vale dizer, chegamos a u m a condição fisiológica in- d e m s e r conduzidos diretamente até ela. Se, portanto, adotarmos aqui
terior. a ciência, não nos l i m i t a r e m o s a ela. Continuaremos destemidamente
Cada sensação é u m assunto p r i v a t i v o e i n d i v i d u a l p o r s e r u m a a n o s s a m a r c h a até chegarmos a u m conhecimento provado em com-
atividade que se origina dentro do e u . N ã o se p a r t i l h a n a d a c o m os paração c o m o q u a l as declarações da ciência não passem de um tímido
outros; v i a de regra, não conseguimos v e r d i r e t a m e n t e o i n t e r i o r da gaguejar ante o mistério u n i v e r s a l . Tenham, portanto, paciência os
mente alheia. Normalmente, c a d a h o m e m só pode o b s e r v a r a q u i l o que leitores, pois temos algo deveras novo reservado para eles. Esperem
se passa n a s u a própria consciência. E l e e x p e r i m e n t a sensações que pelo v o l u m e f i n a l , no q u a l pela p r i m e i r a vez e m forma moderna e numa
são separadas e podem mesmo d i f e r i r d a s de u m o u t r o h o m e m posta- língua o c i d e n t a l será apresentado o ensinamento da mais antiga filo-
do diante do mesmo objeto. E s s a s impressões p e s s o a i s de l u z , s o m e sofia d a A s i a , berço d a m a i s antiga cultura da humanidade.
tato que nos f a l a m do objeto externo são a q u i l o q u e s a b e m o s e m pri-
m e i r a mão, aquilo de que tomamos c o n h e c i m e n t o i m e d i a t o e aquilo O Nascimento da Experiência Consciente. Qualquer fato ou acon-
que só nós temos a certeza de e x p e r i m e n t a r . tecimento que é realmente observado ganha o direito de ser chamado