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ISBN: 978-65-87106-10-6

ANPUH-BA
Associação Nacional de História - Seção Bahia

Revisão e Organização
Cleide Lima

Marca do evento e diagramação


Eline Luz

Ilustração
Romeu Ferreira

Observação: a adequação técnico-linguística dos textos, bem como seus conteúdos, são de responsabilidade dos autores.

E47

Associação Nacional de História (ANPUH-BA)


X Encontro Estadual de História: Combates pela História. (Caderno de
resumos) / Associação Nacional de História. – – Vitória da Conquista: Edições
UESB, 2020.

291p. il.;

ISBN 978-65-87106-10-6

1. História – Congressos. 2. X Encontro Estadual –


História. I. Associação Nacional de História. II. Universidade Estadual
do Sudoeste da Bahia. IV. T.

CDD: 338.528142

Catalogação na fonte: Juliana Teixeira de Assunção – CRB 5/1890


Bibliotecária – UESB – Campus de Vitória da Conquista – BA
DIRETORIA GESTÃO 2018/2020
Presidente -  Denilson Lessa dos Santos  (UNEB)

Vice-Presidenta  - Cleide de Lima Chaves  (UESB)

Secretária-Geral -  Lina Maria Brandão de Aras (UFBA)

1ª Secretária -  Maria Sandra da Gama (UNEB)

2ª Secretária -  Flaviane Nascimento Ribeiro (IFBA)

1º Tesoureira -  Laila Brichta (UESC)

2º Tesoureiro - Henrique Sena dos Santos (UFRB)

COMISSÃO ORGANIZADORA LOCAL (UESB)


Adilson Amorim de Sousa

Ana Cláudia Reis Rocha

Belarmino de Jesus Souza

Edinalva Padre Aguiar

Grayce Mayre Bonfim Souza

José Rubens Mascarenhas

Márcia Santos Lemos

Maria Aparecida Silva Sousa

Maria Cristina Dantas Pina

Ricardo Alexandre Santos Sousa


APRESENTAÇÃO

A Associação Nacional de História - Seção Bahia (ANPUH-BA) convida seus(suas)


associados(as), professores, pesquisadores(as), estudantes e demais interessados(as)
na área para o X Encontro Estadual de História, que terá como tema: “Combates
pela História”. O evento, realizado na modalidade online, entre os dias 20 e 23 de
outubro de 2020, em função da pandemia de COVID-19.
Em consonância com as edições anteriores, o X Encontro Estadual de História afirma-
se como o maior evento da área de História no Estado da Bahia, tendo mantido sua
periodicidade desde 2002.
A programação científica conta com conferências, mesas redondas, simpósios
temáticos para apresentação de trabalhos, minicursos e oficinas. Neste livro, serão
encontrados os resumos dos trabalhos apresentados nos Simpósios Temáticos,
demonstrando a força e a importância da pesquisa histórica na Bahia e no Brasil.
No contexto do X Encontro Estadual de História, enfrentamos uma conjuntura
de ataques à educação pública e à produção científica feita, em sua maioria,
pelas Universidades Públicas brasileiras, de retrocessos e/ou perdas de direitos
trabalhistas, conquistados com sacrifício pelos trabalhadores e trabalhadoras.
São tempos sombrios e tristonhos, mas escolhemos a profissão certa e estamos
preparados e preparadas para atravessar a tempestade. Somos historiadores e
historiadoras. Se nascemos para incomodar, perturbemos mais ainda em nome de
nosso ofício. O conhecimento nos liberta, o sofrimento nos mobiliza e a empatia nos
protege. Estamos em combate!
SUMÁRIO
SIMPÓSIO TEMÁTICO I _______________________________________________________ 012
A Antiguidade e o Medievo: combates por uma História presente
Coordenadores: Alexandre Galvão Carvalho (UESB), Márcia Cristina Lacerda Ribeiro
(Universidade do Estado da Bahia)

SIMPÓSIO TEMÁTICO II _______________________________________________________ 028


A ocupação dos sertões: Ciências, etnicidades e trocas culturais/ST 26. Os sertões
baianos na história do Brasil Império e República
Coordenadores: Ricardo Alexandre Santos de Sousa (UESB - Universidade Estadual do Sudoeste
da Bahia), Arthur Cavalcanti de Oliveira Damasceno (Secretaria de Educação do Estado da Bahia,
Joana Medrado Nascimento (Universidade do Estado da Bahia - UNEB), Napoliana Pereira Santana
(Universidade Federal do Oeste da Bahia - UFOB)

SIMPÓSIO TEMÁTICO III ______________________________________________________ 038


Acervos e fontes para a história
Coordenadores: Anselmo Ferreira Machado Carvalho (Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia Sergipe), Lina Maria Brandão de Aras (UFBA)

SIMPÓSIO TEMÁTICO VI ______________________________________________________ 052


As artes da/na História: intersecções, paradigmas e produções de saberes
Coordenadores: Leandro Gracioso de Almeida e Silva (Unifesspa), Everton Vieira Barbosa (UFF -
Universidade Federal Fluminense)

SIMPÓSIO TEMÁTICO V _______________________________________________________ 060


Assistência à saúde na Bahia em perspectiva histórica
Coordenadores: Christiane Maria Cruz de Souza (Instituto Federal de Educação, Ciência, Tecnologia
da Bahia), Ricardo dos Santos Batista (USP - Universidade de São Paulo)

SIMPÓSIO TEMÁTICO VI _______________________________________________________ 070


Cidades e Populações Negras: territórios e sujeitos entre discursos e práticas do
século XIX ao século XXI
Coordenadores: Ana Maria Carvalho dos Santos (UEFS), Railda Neves Souza (SEDUC/Feira de Santana)

SIMPÓSIO TEMÁTICO VII _______________________________________________________077


Cinema, audiovisual e novas tecnologias na produção do conhecimento e no ensino de História
Coordenadores: Francismary Alves da Silva (Universidade Federal do Sul da Bahia - UFSB), Sérgio
Martins Pereira (UFSB - Campus Sosígenes Costa - Porto Seguro)
SIMPÓSIO TEMÁTICO VIII _____________________________________________________ 086
Combates pela História nos territórios do Sagrado: Religiões e Religiosidades no Brasil
Coordenadores: Fabricio Lyrio Santos (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia), Erivaldo
Sales Nunes (IFBA)

SIMPÓSIO TEMÁTICO IX _______________________________________________________ 097


Combates pela História: Lutas de classes, conflitos e resistências
Coordenadores: Maria Aparecida Silva de Sousa (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia),
José Rubens Mascarenhas de Almeida (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia)

SIMPÓSIO TEMÁTICO X _______________________________________________________ 107


Educação Histórica: ensinos e aprendizagens do conhecimento histórico em contextos
de escolarização
Coordenadores: Maria Cristina Dantas Pina (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia), Valter
Guimarães Soares (Universidade Estadual de Feira de Santana)

SIMPÓSIO TEMÁTICO XI _______________________________________________________ 120


Emancipações e pós-abolição: legislações, protagonismos e (re)existências
Coordenadores: Aline Najara da Silva Gonçalves (Universidade do Estado da Bahia), Rafael Petry
Trapp (UFOB - Universidade Federal do Oeste da Bahia)

SIMPÓSIO TEMÁTICO XII _______________________________________________________ 130


Fontes, Linguagens, Materiais didáticos: experiências e reflexões sobre a prática
docente em História
Coordenadores: Sérgio Armando Diniz Guerra Filho (Univerdidade Federal do Recôncavo da Bahia),
Cristiana Ferreira Lyrio Ximenes (UNEB-Campus V - Santo Antonio de Jesus)

SIMPÓSIO TEMÁTICO XIII ______________________________________________________ 139


Formação Docente e Ensino de História: experiências e diálogos nos espaços formativos
Coordenadores: Célia Santana Silva (UNEB), Nora de Cássia Gomes de Oliveira (Universidade do
Estado da Bahia)

SIMPÓSIO TEMÁTICO XV _______________________________________________________ 147


História da África, Estudos Africanos e Representações da África no Brasil
Coordenadores: Rodrigo Castro Rezende (Universidade Federal Fluminense), Ivaldo Marciano de
França Lima (UNEB Universidade Estadual da Bahia - Campus Alagoinhas)

SIMPÓSIO TEMÁTICO XVI ______________________________________________________ 160


História da educação, instituições e culturas escolares: perspectivas e desafios
teórico-metodológicos
Coordenadores: Gilmário Moreira Brito (DEDC/PPGEduC/UNEB), Ione Celeste Jesus de Sousa (UEFS)

SIMPÓSIO TEMÁTICO XVII _______________________________________________________170


História do Atlântico, Diáspora Africana em suas articulações
Coordenadores: Raiza Cristina Canuta da Hora (Secretaria de Educação do Estado da Bahia),
Cristiane Batista da Silva Santos (UESC)
SIMPÓSIO TEMÁTICO XIX ______________________________________________________ 181
História do Esporte e das Práticas Corporais
Coordenadores: Coriolano Pereira da Rocha Junior (UFBA), Viviane Rocha Viana (Universidade do
Estado da Bahia)

SIMPÓSIO TEMÁTICO XX _____________________________________________________ 196


História, audiovisual e fotografia: fricções e relações
Coordenadores: Izabel de Fátima Cruz Melo (UNEB), Marcos Ferreira Gonçalves (UNEB)

SIMPÓSIO TEMÁTICO XXII ____________________________________________________ 205


Histórias da escravidão e da liberdade: trajetórias, alforria e trabalho
Coordenadores: Mayara Pláscido Silva (IFBA), Flaviane Ribeiro Nascimento (IFBA - Instituto Federal
de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia)

SIMPÓSIO TEMÁTICO XXIII ___________________________________________________ 219


Histórias das Bahia(s) colonial: Política, administração, economia e sociedade
Coordenadores: Augusto Fagundes (Universidade Estadual de Feira de Santana-UEFS), Eduardo
Jose Santos Borges (UNEB)

SIMPÓSIO TEMÁTICO XXIV ____________________________________________________ 228


Literatura e história: diálogos
Coordenadores: Clóvis Frederico Ramaiana Moraes Oliveira (Uefs), Leandro Antonio de Almeida (UFRB)

SIMPÓSIO TEMÁTICO XXV __________________________________________________ 239


Lutas Sociais e combate historiográfico: personagens, projetos, iniciativas e reflexões
Coordenadores: Eurelino Teixeira Coelho Neto (Universidade Estadual de Feira de Santana), Carlos
Nássaro Araújo da Paixão (Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia Baiano)

SIMPÓSIO TEMÁTICO XXVII __________________________________________________ 252


Passados Jogáveis: cultura histórica, memória e aprendizagens em simulações e jogos
digitais e analógicos
Coordenadores: Alex Alvarez Silva (UFOB), Helyom Viana Telles (INSTITUTO FEDERAL BAIANO)

SIMPÓSIO TEMÁTICO XXVIII ___________________________________________________ 259


Rotas e perspectivas da historiografia das relações de gênero e sexualidades na Bahia
Coordenadores: Vânia Nara Pereira Vasconcelos (UNEB), Kleber José Fonseca Simões (Universidade
do Estado da Bahia)

SIMPÓSIO TEMÁTICO XXX __________________________________________________ 274


Ensino de História, Educação e História Local
Coordenadores: Anderson Dantas da Silva Brito (Universidade Federal do Oeste da Bahia), Sandra
Regina Mendes (Universidade do Estado da Bahia)

SIMPÓSIO TEMÁTICO XXXI ___________________________________________________ 284


História da África Contemporânea e de sua Diáspora
Coordenadores: Lídia Nunes Cunha (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia), Luiza
Nascimento dos Reis (UFPE)
SESSÃO 01: 21/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

A pluralidade das pólis gregas e a singularidade da historiografia na construção do


antagonismo Atenas Esparta
MÁRCIA CRISTINA LACERDA RIBEIRO (UNEB)

Resumo:  Os gregos antigos se espalharam por toda a bacia do Mediterrâneo em centenas de


pólis, com regimes políticos, calendários e estilo de vida diferentes. No entanto, a despeito dessa
profusão de pólis e de sua diversidade, a historiografia elegeu, por um lado, Atenas como modelo
padrão de cidade grega (“pólis normal”) e, por outro, legou à Esparta o lugar de antimodelo (“pólis
anormal”). Nosso objetivo nesta comunicação é refletir como e quando a historiografia criou esse
antagonismo, e a reviravolta historiográfica em curso no século XXI, a mostrar os limites dessa
visão atenocêntrica. Como se sabe, os poucos documentos escritos sobre a pólis dos lacedemônios
são lacunosos, redigidos majoritariamente por não espartanos. Na maior parte das vezes foram
escritos por atenienses e por autores tardios que, muito frequentemente, absorveram a visão
daqueles (atenienses). Pretendemos passar em revista uma série de projetos de arqueologia
executados e em execução na região da Lacônia, e como os resultados dessas investigações e de
novos modelos interpretativos têm nos direcionado para uma nova história sobre Esparta.

O Santuário de Apolo em Delfos e a Construção da Identidade Grega


MATEUS SOARES DE OLIVEIRA

Resumo: O objetivo desta comunicação é apresentar nossa pesquisa de Iniciação Científica em


curso no Programa de Iniciação Científica da Universidade do Estado da Bahia (2019-2020).
Discutimos, a partir de uma revisão bibliográfica, como o santuário de Apolo em Delfos e os
Jogos Píticos colaboraram com o processo de construção e consolidação de uma identidade grega
comum entre os helenos, espalhados por centenas de pólis de uma ponta a outra do Mediterrâneo.
A partir do século VII a.C. os grandes santuários, como o de Zeus em Olímpia e o de Apolo em
Delfos, se transformaram em espaços de competição entre os cidadãos das diversas pólis gregas
nos festivais pan-helênicos, fortalecendo os vínculos de identidade entre elas. Ao tempo em que
os santuários reforçavam a identidade helênica exibiam em seus espaços monumentalizados
as identidades individuais políades espelhadas através de suas diversas oferendas – tesouros
(pequenos templos), estátuas, exibidos à vista de todos. O cenário majestoso e os festivais
celebrados a cada quatro anos reforçavam a identidade comum grega. Partimos da concepção de
Jonathan Hall, que afirma que os gregos viveram sempre no processo de tornarem-se gregos, ou
seja, sua identidade foi construída, e reconstruída por vezes, englobando ou suprimindo grupos.
Para o autor a ideia de uma identidade teria se formado inicialmente em torno do século VI a.C.

“Hades sombrio”: A simbologia e as características do Deus ctônico e do submundo nos


poemas homéricos
CARINA SUCRO MORAES GALVÃO CARVALHO (UESB)

Resumo:  Este trabalho pretende investigar o papel de Hades, deus ctônico relacionado ao
mundo inferior e dos mortos, deidade temida e respeitada na Ilíada e na Odisseia. Abordar-se-á a
perspectiva espacial do reino de Hades, relacionando-a com a personalidade e o papel atribuído
à divindade, na narrativa homérica. Junto a isso, destacar-se-á a passagem da psyché do mundo

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dos vivos ao mundo dos mortos, procurando localizar no reino de Hades a existência ou não de
sofrimento no post-mortem nos épicos, a partir das expectativas dos diferentes grupos sociais em
relação ao submundo, incluindo aí os valores que permeiam aquela sociedade. Apesar de haver uma
vasta produção acerca dos poemas atribuídos a Homero, principalmente no campo da literatura, o
viés teórico da pesquisa é amparado nos trabalhos de Moses Finley e Claude Mossé, que procuram
extrair dos poemas uma sociedade coerente, inclusive com uma datação histórica. Em relação ao
papel de Hades nos poemas, iremos acompanhar as reflexões de Leandro Barbosa, que procurou
apresentar os deuses ctônicos em diferentes épocas da história grega, possibilitando-nos conhecer
melhor a sociedade descrita por Homero, a partir de suas construção do mundo Hades, tendo suas
características transformadas de acordo com as mudanças na sociedade grega antiga.

Júlio César, a conquista da Gália e o vinho francês


MARINA REGIS CAVICCHIOLI (UFBA)

Resumo: O vinho teve um papel de destaque na história da Gália. Contudo, se em alguns momentos
a expansão de seu consumo e produção se deu de forma natural, em outros, ele foi também fruto
de conflitos e conquistas. As últimas descobertas da arqueologia, aliadas ao estudo das fontes
antigas, têm evidenciado a evolução deste processo: o comércio de vinhos importados; a introdução
do cultivo da videira; as conflituosas ações de conquista pelos romanos, com o estabelecimento
dos colonos e a criação de uma nova dinâmica na produção, consumo e exportação de vinhos.
Deste modo, estes foram responsáveis por tornar o vinho bebida fundamental e onipresente,
perpetuando sua produção e consumo em várias regiões da Gália. Neste sentido, o vinho ocupa,
ainda hoje na França, uma relevante função econômica e política, bem como, legitima a identidade
nacional e identidades locais, mediante aos usos deste passado.

Novas Abordagens no Estudo da Morte na Roma Antiga


YURI AUGUSTO DE OLIVEIRA (UFBA)

Resumo: O tema da morte na antiguidade romana, em geral, ainda possui lacunas significativas.
Tal afirmação não busca argumentar que as evidências materiais da morte e seus rituais tenham
sido ignorados. Contudo, as evidências são constantemente isoladas e estudadas em sua natureza:
arqueológica, monumental, epigráfica ou literária. Porém raramente as diferentes evidências são
cruzadas. As evidências arqueológicas fornecem informações essenciais sobre a maneira que
os mortos foram tratados. Muitos monumenta preservam os epitáfios, seus textos fornecem
informações verbais sobre o mundo romano e seus diversos grupos sociais. Escritores romanos
de todos os gêneros escreveram sobre a morte, raramente escreviam descrições sistemáticas de
rituais e funerais, mas escreviam muito, ainda que indiretamente, sobre o modo que as pessoas
morriam, sobre a maneira que foram lamentadas e sobre como eram lembradas. Contudo, a
escassez de trabalhos que realizem o cruzamento de evidências destas tipologias revelam as
lacunas a serem preenchidas e, simultaneamente, apresentam necessidades metodológicas
que possuem potencial de aprofundar o nosso entendimento deste fenômeno e das pessoas
envolvidas nestes processos.

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O poder régio e as formas de propaganda na Mesopotâmia Antiga: uma análise comparativa
entre o período acadiano e a III dinastia de Ur (2335-2004 a.C.)
RAFAEL FELIPE ALMEIDA NASCIMENTO (UESB)

Resumo: Na civilização mesopotâmica, as formas de poder e legitimação sofreram mutações ao


longo dos seus diversos momentos históricos. A forma predominante de governo, a realeza e a
propaganda estatal, não podem ser definidas por um único modelo que englobe todo o período
da Mesopotâmia Antiga. As transformações do poder monárquico, associadas aos aspectos
políticos, sociais, econômicos, culturais e religiosos de cada época, incita-nos a investigar os
elementos de legitimação real do período acadiano e da III dinastia de Ur no seio do debate
historiográfico, com o fito de perceber as transformações da civilização Mesopotâmia no final do
III milênio. No período acadiano (2335-2154 a.C.), uma nova tendência de poder é inaugurada na
Mesopotâmia - a dinastia sargônica – promove, pela primeira vez, a unificação territorial de toda a
região por meio da coerção militar e de uma poderosa propaganda oficial, que enfatizava o poder
belicoso do exército e o papel guerreiro do imperador, aspectos fortemente demonstrados nas
estátuas e estelas espalhadas por todo território, reafirmando o poder centralizado do Império.
Posteriormente, o colapso/queda do Império acadiano resulta na ascensão de uma nova dinastia,
que viria a ser conhecida como III dinastia de Ur (2112-2004 a.C.). Os novos imperadores, diferente
dos antigos soberanos acadianos, querem ser lembrados como intelectuais, administradores
e escribas. Em sua propaganda oficial, deram grande ênfase a racionalidade. Os reis de Ur,
acreditavam que o sucesso para o domínio imperial estava na dominação das elites locais, por
isso, buscaram legitimar-se, principalmente, através da escrita e da erudição, difundindo inúmeros
textos oficiais nas escolas de escribas, local cujo o objetivo era educar pessoas em posições de
poder, ou seja, pessoas ligadas ao culto, escribas, administradores e cortesãos. Analisar as razões
políticas, sociais, econômicas e culturais de tal mutação no modelo de realeza e sua propaganda
oficial é o objetivo desta comunicação, tema que vem sendo amplamente investigado e debatido
pelos mais respeitados assiriólogos da atualidade, como Mário Liverani, Benjamin Foster, Norman
Yoffee, dentre outros.

A Influência do Exílio Babilônico na Elaboração de Mitologias e Lendas Judaicas: uma


perspectiva minimalista-revisionista
IOLANDA ALMEIDA MATOS (UESB)

Resumo: Este trabalho pretende analisar a influência cultural e religiosa que o exílio na Babilônia
caldeia provocou nos exilados judeus durante o século VI a.C., visando compreender o contexto
e os processos sobre os quais algumas lendas e mitos bíblicos foram construídos. O período na
Babilônia proporcionou aos sacerdotes, que defendiam a exclusividade de culto a Yahweh, um
conjunto de experiências que lhes serviram para construir um discurso que legitimou a dominação
da terra de Judá pela elite econômica, política e social exilada, frente aos remanescentes que
haviam ficado em Judá e consequentemente com a posse da terra. Para isso, pretendemos fazer
uma breve análise do debate historiográfico que circunda o tema, visto que há três correntes
que disputam as narrativas sobre a história do antigo Israel: maximalistas, que acreditam na
sacralidade da Torá; os minimalistas, que compreendem que a Torá tenha sido escrita após o
século VI a.C., de modo que não deve ser usada como fonte para analisar séculos anteriores; e, por
fim, os minimalistas-revisionistas, defensores do uso da Torá como fonte para analisar a história
do antigo Israel, apesar de sua datação complicada e problemática. Mário Liverani, professor da

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Universidade de Roma La Sapienza, cujos estudos serão a base de nosso trabalho, é o um dos
mais destacados defensores dessa última corrente. A historiografia tradicionalista, vinculada às
instituições religiosas e escolas teológicas, tem perpetuado uma interpretação ultrapassada sobre
a história do antigo Israel, fazendo com que mitos e lendas sejam vistos como fatos históricos.
Em vista da desatualização dos pesquisadores brasileiros sobre essa temática, livros didáticos se
aproximam da vertente tradicional, no qual, os temas como o dilúvio, a abertura do mar Vermelho,
a história dos patriarcas, entre outros, são apresentados como fatos históricos. Esse é o principal
motivo pelo qual essa pesquisa se faz importante no cenário brasileiro. Desse modo, utilizando a
perspectiva minimalista-revisionista pretendemos demostrar como o exílio na Babilônia caldeia
contribuiu com a invenção de lendas e mitos descritos no Antigo Testamento.

Akhenaton e o Festival-Sed: Aspectos de legitimação do poder real e da reforma Amarniana


MAÍRA MALTA CAIRO FONSÊCA

Resumo:  Durante o reinado de Akhenaton, no Reino novo, o antigo Egito foi palco de uma
reforma religiosa, patrocinada pelo faraó, cujo alicerce central foi o culto solar ao deus Aton, em
detrimento dos outros deuses do panteão divino, além do enfraquecimento do clero de Amon.
Dentre os elementos que viabilizaram essa nova lógica religiosa, destacamos o festival-Sed, um dos
principais eventos da sociedade Egípcia, realizado, em geral, de trinta em trinta anos, preparado e
organizado desde o momento da coroação real, com a construção e reforma de templos e capelas,
até a sua culminância. O festival é um recurso cênico e ideológico fundamental de legitimação do
poder real, pois, ao renovar os poderes do faraó, realçava o equilíbrio entre o divino e o terreno,
tendo o rei como mediador. Além disso, o festival traduzia um pacto de caráter cósmico entre o rei
e os deuses, pondo toda a sociedade em situação cerimonial, no qual o Rei, através das oferendas,
buscava prosperidade, poder e fartura. Partindo do pressuposto de que política e religião estão
imbricadas no Egito Antigo, objetiva-se, neste trabalho, mostrar como durante os reinados de
Amenhotep III e Amenhotep IV (Akhenaton) o festival-Sed, visto por meio da iconografia e dos
textos literários, desempenha papel fundamental para uma transformação de caráter político,
social e religioso, a reforma Amarniana.

O Egito Antigo na ópera: Entre o Orientalismo e a Egiptomania


ANDRÉ LUÍS SILVA EFFGEN (LABORATÓRIO DE ÓPERA/UFBA)

Resumo: A ópera, nascida durante o renascimento italiano como tentativa de resgatar o teatro
grego e os seus valores, carrega em si as mais diversas expressões artísticas ( música, teatro,
dança, cenografia, figurinos, etc.) é por isso mesmo considerada um exemplo de “Arte total” e o
gênero artístico que mais representa os valores do mundo ocidental. Escolhemos como fontes de
pesquisa o enredo de duas óperas compostas no Séc. XIX, época do auge do Orientalismo na arte
européia. Uma do compositor italiano Giuseppe Verdi, considerado um dos maiores expoentes
mundiais do gênero, “Aida” (1871); e uma do  compositor francês Jules Massenet, “Thaïs” (1894).
Respectivamente o enredo dessas óperas se desenvolvem no Egito faraônico e no Egito Romano.
No presente trabalho pretendemos abordar o diálogo entre os conceitos de Orientalismo
(Edward Said) e Egiptomania (Jean-Marcel Humbert) no que concerne tanto à invenção do Oriente
pelo mundo ocidental, como também no empréstimo, modificação de sentido e reutilização de
elementos do Antigo Oriente Próximo na modernidade.

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A formação do Estado no Egito Antigo: rupturas, continuidades e relações de poder
ALEXANDRE GALVÃO CARVALHO (UESB)

Resumo:  A unificação dos reinos por volta de 3100 a.e.c. e as mudanças de caráter social da
sociedade egípcia são caracterizadas pelo desenvolvimento de uma religião de Estado, centrada
em torno do rei e celebrada através de um culto mortuário. O rei se tornou o mediador entre os
vivos e as forças do mundo dos mortos e representava uma ordem cósmica no mundo. Para manter
o fluxo de excedente produzido pela maioria da população para a classe dominante, era necessário
manter as aparências de que as relações mais antigas estavam intactas. Assim, o advento do Estado
faraônico não transforma, de forma abrupta, o sistema de prestações preponderante na sociedade
tribal, mas se apropria deste sistema em proveito de uma classe dominante. A redistribuição é
uma sobreposição do sistema de prestações recíprocas da sociedade tribal, amparada na lógica
do parentesco, subsumida pela lógica estatal. A religião pré-estatal e as formas de integração –
reciprocidade - permanecem e se modificam antes e depois do aparecimento do Estado faraônico.
Além disso, a lógica estatal e a lógica do parentesco coexistem com pontos de articulação e de
conexão entre uma e outra, sendo a lógica parental subsumida e ressignificada pela lógica estatal.
As formas de sociabilidade das classes subalternas deixam de servir somente à sua reprodução
e passam a se constituir em elementos que vão fortalecer o domínio da classe dominante. Neste
sentido, procuraremos elucidar a transmutação da ordem social tribal à hegemonia estatal, que,
com todo o seu intricamento de relações no seio da elite, procura mascarar os aspectos materiais
e simbólicos da reciprocidade tribal, reapropriados em benefício de um aparelho estatal.

SESSÃO 02: 22/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

Gênero, justiça e formas de violência no medievo castelhano, séculos XV e XVI


MARCELO PEREIRA LIMA (UFBA)

Resumo: Os Estudos de Gênero tornaram-se uma das referências fundamentais para a discussão
de novos paradigmas de conhecimentos. Esse campo de investigação tem auxiliado na revisão
de referenciais teórico-metodológicos e epistemológicos, na discussão contextualizada de
documentos de diferentes modalidades e, por fim, na problematização da história da historiografia
e suas relações interdisciplinares. Há poucos trabalhos que articulem sistematicamente os
estudos da violência à história das instituições jurídicas no contexto da Castela dos séculos
XV e XVI, sobretudo a partir da perspectiva de gênero e da história das sexualidades. Nesta
comunicação, partindo da proposição de uma História Institucional de Gênero, objetiva-se discutir
a historicidade das formas de violência social e institucional, procurando identificar e analisar
as práticas e discursos sobre os sujeitos das transgressões, os delitos, as circunstâncias e as
punições dadas no processo de criminalização do comportamento sexual de homens e mulheres.
Partimos do pressuposto de que a regulação das sexualidades é reveladora de configurações de
conflitualidades sociais, materiais, culturais, religiosas, morais, jurídico-políticas e institucionais
na chamada Baixa Idade Média.

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Perspectivas de gênero no épico gaélico Táin Bó Cuailnge
BEATRIZ GALRÃO ABRANTES (UFBA)

Resumo: A categoria de gênero propôs uma revisão nos estudos históricos desde o seu surgimento.
A medievalista Andreia Frazão aponta para a relevância da teoria de gênero no processo de
consolidação da História Medieval no Brasil. Assim, a pretensão do meu projeto de pesquisa, em
desenvolvimento, é discutir, à luz dessa categoria, os manuscritos do Táin Bó Cúailnge redigidos
no século XI e XII respectivamente Lebhor na hUidre (Recension I) e Book of Leinster (Recension
II). Essas duas versões contam as aventuras de Cú Chulainn para defender o território de Ulster
dos invasores comandados pela rainha Medb, que queria roubar o grande touro, Donn Cuailnge. A
motivação da rainha para o sequestro de Donn Cuailgne é equiparar os seus bens ao do esposo, pois
o seu touro mágico, FIndebennach fugiu, julgando ser indigno fazer parte do gado de uma mulher,
passando a pertencer ao rei. Ao aliar os Estudos de Gênero com a História comparada, pretendo
analisar as representações de gênero presentes na literatura medieval irlandesa, percebendo
rupturas, permanências e adaptações entre as obras. Afinal, estudar gênero no medievo serve,
entre outras finalidades, para desafiar as suposições contemporâneas sobre masculinidades e
feminilidades.

Bruxas, feiticeiras e parteiras perante a justiça castelhana no final do século XV e início do


XVI
LUCAS VIEIRA DE MELO SANTOS (UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA)

Resumo:  O século XV foi um período de constantes reforços na centralização política e


administrativa da monarquia espanhola, mas, sem paradoxo aparente, essa reorganização se
deu pela descentralização administrativa da justiça. Desde a sua reformulação, a Audiencia era o
principal órgão de justiça do reino, um tribunal itinerante que acompanhava o rei em suas viagens
e realizava suas reuniões onde se fixava a Corte. Uma série de encontros e ordenamentos foram
emitidos com o objetivo de reformular os cargos, funções e atribuições da Audiencia, porém
foi com os Reis Católicos (1475-1504) que houve uma tentativa mais sistemática de reordenar
a administração da justiça. A partir do final do século XV, em virtude da sua relevância política
e jurídica, a Real Audiencia e Chancelaria de Valladolid funcionava como tribunal de primeira
instância para casos locais e de última para todo o reino de Castela, atendendo aos processos
de diversos tipos tais como os “civis”, “criminais”, econômico-patrimoniais e de fidalguia. Com
a finalização dos processos, eram emitidas as suas cartas ejecutorias que tinham como objetivo
fazer executar a sentença jurídica. É neste contexto de reestruturação da administração da justiça
e aplicação das normas jurídicas que nos deparamos com um número significativo de mulheres
que exerciam o ofício de parteira ao norte do Reino de Castela no final do século XV e início do
XVI e acabaram sendo levadas à justiça sob acusação de praticarem bruxarias e feitiçarias. A partir
da historiografia espanhola e pesquisando as Reales Cartas Ejecutorias conservadas pela Real
Audiencia e Chancelaria de Valladolid, nos deparamos com um número significativo de mulheres
que exerciam o ofício de parteira ao norte do Reino de Castela no final do século XV e início do XVI
e acabaram sendo levadas à justiça sob acusação de praticarem bruxarias e feitiçarias.
Esta apresentação é parte da pesquisa de mestrado em desenvolvimento com financiamento da
FAPESB sob orientação do Prof. Dr. Marcelo Pereira Lima e tem por objetivo investigar se, como e
por que as diretrizes de gênero atravessam as relações entre o ofício das parteiras e as concepções

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de bruxaria e feitiçaria existentes ao norte do Reino de Castela nos séculos XV e XVI.

“Quem quer ser um cavaleiro?” - Masculinidades e Cavalarias no Livro da Ordem de Cavalaria


(1274-6) de Raimundo Lúlio.
ROBSON FREITAS CERQUEIRA DA PAIXÃO (UFBA)

Resumo:  Esta comunicação visa apresentar uma pesquisa sobre padrões de masculinidades
presentes no “Livro da Ordem de Cavalaria”, escrito pelo catalão Raimundo Lúlio no século XIII.
Aclamado por alguns estudiosos como talvez a primeira codificação da conduta cavalheiresca - que
não estivesse entrelaçada completamente pela literatura, tal obra permanece ainda com nenhum
ou poucos estudos à luz da História das masculinidades. Permeada de uma escrita pedagógica
para o período, que compara o cavaleiro com diversos sujeitos estereotipado, a fonte indica os
desejos pessoais do autor, além de diversos posicionamentos sobre como homens, especialmente
os cavaleiros, deveriam se comportar em relação a eles mesmos e a sociedade que os cerca.
Os estudos sobre masculinidades – guiados principalmente pelo conceito de masculinidades
hegemônicas e concorrentes – podem apontar para relações sociais e construções culturais difíceis
de serem acentuadas em abordagens tradicionais sobre o cavaleiro e a cavalaria na península
ibérica medieval.

Dos Contos De Fada ao Tratado de Inquisição: A Mulher Como Ameaça


CERES ALVES LUZ (UESB)

Resumo:  A proposta deste trabalho é realizar um estudo sobre a posição do sujeito mulher
enquanto ameaça, tanto nos contos de fada quanto nos tratados de inquisição,
fundamentada teoricamente nas pesquisas do filósofo Michel Foucault sobre o sujeito,
em especial, o sobre o conceito de “posição de sujeito”, apresentado por ele em seu
livro A arqueologia do saber. Este conceito é o ponto de partida para analisar a posição
de sujeito bruxa presente na obra Malleus Maleficarum e a sua representação nas
coletâneas de contos publicadas por Charles Perrault, no século XVII, e pelos irmãos
Grimm, no século XIX. Embora a obra de Michel Foucault não tenha pretensão de ser
um trabalho histórico, suas contribuições para a história são inegáveis e muitos
historiadores o colocam como tendo direta influência na história cultural surgida após a
escola dos Annales. Suas obras abordam uma análise da normalização da civilização
ocidental, produzindo uma história geral. A partir da observação dos modos de sujeição,
Foucault pretendia constatar como os seres humanos se tornam sujeitos. O conceito de
“posição do sujeito” é uma das quatro características que compõem o enunciado. Essa
posição é compreendida como sendo uma função vazia, podendo ser ocupada por
diferentes indivíduos sob certas condições. Assim, o indivíduo se torna sujeito quando
ocupa um lugar constituído por práticas específicas. O Malleus Maleficarum, ou o
Martelo das Feiticeiras, é um manual do inquisidor escrito por James Sprenger e
Heinrich Kramer por volta de 1484. O tratado é dividido em três partes – a primeira
direcionada aos juízes e ao reconhecimento das bruxas; a segunda elenca os diversos
males que podem ser causados pela bruxaria; a terceira retrata como deve ser
conduzido o processo legal de julgamento das bruxas. As coletâneas de contos
publicadas por Charles Perrault e pelos irmãos Grimm serão utilizadas para se perceber
as formas de alcance do sujeito bruxa mulher advindas do Malleus Maleficarum. Dessa

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maneira este trabalho delimitará quais normalizações e saberes deveriam se incidir nos
corpos das mulheres do século XIV, presentes nos tratados de inquisição, para que elas
ocupassem a posição de sujeito bruxa. Na segunda parte, observaremos como estas
normas e saberes – identificados no Malleus Maleficarum - reaparecem nos contos
populares europeus.

As faces de Afrodite nas narrativas míticas gregas do período arcaico


LAYSSE LEDA DANTAS CAVALCANTI

Resumo: No Período Arcaico da história da Grécia, o mito permeava todos os aspectos da vida
daqueles gregos. Visto que as esferas do mundo grego recorriam às narrativas míticas (GRIMAL,
1986), insinuava-se por todo lado, seja na arquitetura, nas esculturas, nos vasos, na literatura
e na própria política. Moses Finley (1990) defende o argumento de que a religião grega não
estava isolada em um compartimento à parte ou restrito a um único âmbito das vivências, mas
estava intrínseca a todos os aspectos do comportamento pessoal e social dos gregos antigos.
Uma característica marcante dos mitos em geral é sua pluralidade. Não apenas pela existência
de inúmeros mitos, mas em razão das diversas versões que um único mito pode apresentar nas
tradições mitológicas e ainda na obra de um mesmo autor. Os mitos associados à deusa grega
Afrodite na Ilíada, Odisséia, Hinos Homéricos e Teogonia são o exemplo preciso da existência de
diferentes versões de um mesmo mito e a inscrição deles dentro de uma tradição maior. Afrodite,
na Ilíada (Il.III. 374 e V. 371-372) e na Odisséia (Od. VIII. 308) é filha de Zeus e da deusa das ninfas
Dione, já na Teogonia (Hes. Th. 188-192) é originária das genitais de Urano ceifada por Cronos
e lançada ao mar. Nos primeiros casos é uma deusa atrelada à beleza, ao amor, aos desejos do
casamento, aos encantos e seduções. Já na Teogonia, justamente por ter nascido da espuma do
mar, quando as genitais de Urano foram lançadas para baixo, é uma deusa vinculada ao mar e
protetora dos marinheiros. Deste modo, a apresentação se concentrará em explicitar as diferentes
representações da deusa Afrodite na mitologia grega do período arcaico dentro dos poemas e
hino citados, utilizando-se, para tanto da teoria de gênero a fim de repensar o modelo da mulher
reclusa (LESSA, 2010) para o período arcaico, tendo em vista as novas leituras das fontes antigas
que evidenciam uma sociedade grega heterogênea, em que as mulheres possuíam um papel
muito mais ativo que tradicionalmente se pontuava (POMEROY, 2014, p. 12). Neste sentindo, a
relevância deste trabalho está entre outras questões, ligada ao fato de que poucos estudos de
gênero contemplaram o feminino no mundo arcaico (POMEROY, 2014, p 09). A apresentação é
resultado de pesquisa de pós-graduação em desenvolvimento que se propõe também a pensar
como as diferenças na tradição mítica referentes à deusa Afrodite e a sua sexualidade podem
refletir questões de gênero e poder no mundo grego arcaico. A teoria de gênero, por questionar
as configurações engessadas de homens e mulheres, abre caminho para pensar a deusa Afrodite
como múltipla, possibilitando enxergar suas diversas facetas apresentadas nas tradições
mitológicas não como excludentes ou contraditórias, mas como formadoras da constituição da
deusa.

“Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas”: a resistência feminina do século Va.E.C.


figurada nas Bacantes
KAROLINI BATZAKAS DE SOUZA MATOS

Resumo:  Por um longo tempo o discurso tradicional historiográfico afirmou que as mulheres

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gregas eram exímias donas de casa, viviam para seus maridos e tinham participação apenas na
oíkia, dentro de suas casas. Isoladas no ambiente doméstico essas mulheres foram narradas
com base em uma sociedade ocidental que compreendia a mulher como objeto, submissa e
homogênea. Os problemas que afetam o mundo feminino não estão na forma como as fontes são
construídas, mas na forma com que os historiadores a interpretam. Em 1987 Sarah Pomeroy, uma
precursora da História do gênero no mundo antigo, publica o livro “Goddesses, whores, wives, and
slaves” em que já aponta para o problema da interpretação anacrônica a qual as mulheres gregas
foram submetidas. Para a historiadora, os investigadores “son las víctimas de sus próprias épocas
e de sus entornos sociales” (POMEROY, 1999: 75). Destarte, alguns conceitos do mundo moderno
foram levados a fazer parte do mundo antigo, moldando-o e apropriando-o a essas ideologias.
(CUCHET, 2017: 13-14). A partir dessa dimensão das Bacantes e, por conseguinte, ao trazer à tona
uma nova perspectiva sobre a mulher grega que está sendo circulada para um grande público
acredito pluralizar o universo feminino e fazer ver que a Mélissa parece existir apenas como
discurso masculino. Na análise feita por Pierre Bourdieu (2002, p. 28) esta supremacia aparente
era necessária ao social e ao estético, pois mostrava ao outro a liderança e potência masculina,
justificando e estabelecendo uma dominação. É a partir deste discurso da mulher ideal que se
mantém e controla o poder de uma sociedade patrilinear.

Antígona de Sófocles: Representações subversivas, gênero e poder na Atenas clássica


ALLANA DE AZEVEDO TRAJANO (UCAM)

Resumo:  O presente trabalho busca analisar as relações de gênero e poder na Grécia Antiga,
mais especificamente na Atenas do período clássico. A cidade cuja política e cultura inspiraram
profundamente o Ocidente, onde a leitura tradicional de algumas fontes conceberam às mulheres
gregas a alcunha de seres débeis, compelidas à restrição dos espaços domésticos, particularmente
o gineceu, ao passo que aos homens caberiam as atividades da cidade-Estado, notadamente
a política e a guerra. A questão é, aqui, apresentar a ideia de que não apenas a historiografia,
mas também as fontes utilizadas delinearam as diretrizes que permitiram a confirmação acrítica
de que “a pólis era um clube de homens”. Tendo como fonte principal a Antígona de Sófocles,
buscaremos compreender as relações entre os indivíduos para além do determinismo biológico,
através da representação de uma personagem que subverte o padrão ideal estabelecido pela
sociedade grega. Destarte, os estudos de gênero e feministas nos permitem novas abordagens
sobre temas recorrentes, assim, a Antígona ressurge para nós, com problemas que ainda nos são
pertinentes e dialogam com o presente.

As mulheres de Esparta sob a ótica de Eurípides: Observações sobre a tragédia Andrômaca


ISABELA MOREIRA SILVA (UNEB)

Resumo:  Esta comunicação tem por objetivo apresentar nossa pesquisa em andamento no
Programa de Iniciação Científica da Universidade do Estado da Bahia (2019-2020). Nossa proposta
é investigar a representação da personagem Hermione e das espartanas de forma geral na tragédia
ática, Andrômaca, escrita por Eurípides no século V a.C. Nosso estudo se alinha com tantas outros
que tentam reinserir a história de Esparta, especialmente a história das mulheres espartanas,
em um contexto mais positivo, menos preso de um dado juízo de valor, tão presente nos textos
escritos por atenienses no contexto da Guerra do Peloponeso (432 a.C. – 404 a.C.). Tomamos como

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base a ideia de representação da História Cultural na forma que nos apresenta Roger Chartier
(CHARTIER, Roger. A história cultural entre práticas e representações. Lisboa: Difusão Editora,
1988). Para ele, “as estruturas do mundo social não são um dado objetivo, tal como o não são as
categorias intelectuais e psicológicas: todas elas são historicamente produzidas pelas práticas
articuladas (políticas, sociais, discursivas) que constroem as suas figuras” (CHARTIER, 1983, p. 27).
Assim, as representações não são a realidade, mas um olhar sobre ela, e, apesar de construídas
como universais, são determinadas pelos interesses de quem as constrói. Daí a necessidade de
se observar/interpretar um dado discurso levando em consideração o lugar social daquele que o
profere. É nessa perspectiva que pretendemos examinar a representação levada aos palcos por
Eurípides ao discorrer sobre as mulheres de seus inimigos de guerra, as espartanas. Partimos do
estudo e análise da tragédia Andrômaca, relacionando-a com outros documentos produzidos no
mesmo período e interpretados à luz da historiografia mais recente sobre o tema.

História das Mulheres: um panorama das pesquisas brasileiras


MARIA JOSÉ DE JESUS LIMA (UNEB)

Resumo: As mulheres vêm assumindo cada vez mais papel de destaque na sociedade e denunciando
a submissão a qual sempre estiveram sujeitas. Estudos sobre gênero vêm em um crescendo:
novas perguntas, novas abordagens têm proporcionado a reconstrução de uma história das
mulheres. Nosso objetivo nesta comunicação é apresentar nossa proposta de projeto de
pesquisa (TCC). A partir de uma revisão bibliográfica, pretendemos perceber como
pesquisadores(as) brasileiros(as) estão se inserindo nesses novos debates sobre o feminino:
quais são as questões que os têm movido, como estão encaminhando a discussão. Partimos de
um levantamento bibliográfico que consta, além de livros impressos, de uma pesquisa em
bancos de dados e repositórios institucionais, na tentativa de levantar as dissertações, teses e
artigos científicos produzidos nos últimos trinta anos. Nossa hipótese é que há um esforço da
produção brasileira em acompanhar as novas discussões sobre a temática

SESSÃO 03: 23/10/2020 DAS 14H ÀS 18H.


Martinho de Braga contra o paganismo: Os usos da cultura escrita e a oralidade
VITOR MORAES GUIMARÃES (FAPESB), MÁRCIA SANTOS LEMOS (UESB)

Resumo:  A Igreja cristã se expandiu pelo Ocidente chegando até a Hispânia, região onde se
fixou o reino suevo no ano de 411 e o visigodo em 507. O clero recorreu a diferentes estratégias
para combater o paganismo e construir a hegemonia cristã entre os povos instalados no antigo
território do Império Romano. Neste trabalho, perscrutamos a produção literária de Martinho de
Braga, as atas do II Concílio de Braga e a carta-sermão Da correção dos rústicos como evidência das
táticas empregadas pelo clérigo no empreendimento contra o paganismo. Pretendemos realizar
a analise de seus escritos a partir do arcabouço teórico do Estruturalismo Genético da Literatura,
a fim de verificar como a escrita e a oralidade foram articuladas no processo de conversão ao
cristianismo na Hispânia do século VI.

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A Cidade de Deus contra os pagãos: o papel dos intelectuais na afirmação do cristianismo
como religião oficial do Império Romano
CARLOS EDUARDO MEIRA BATISTA (UESB)

Resumo:  No século V d.C., o cristianismo já havia se constituído como credo oficial do Império
Romano. Contudo, os distintos cultos existentes no território continuavam a ser praticados pela
população e a Igreja cristã ainda não tinha uma ortodoxia definida. Observada essa conjuntura,
propomos discutir o papel dos intelectuais no processo de afirmação do cristianismo como religião
oficial do Império Romano no século V d.C. Com esta perspectiva, analisaremos as formulações
do bispo Agostinho de Hipona, autor de uma vasta obra e influente pensador cristão, por meio da
quais polemizou com pagãos e hereges e contribuiu para a fundamentação do credo cristão como
único e legítimo sistema de interpretação do mundo. Utilizamos como fonte a obra A Cidade de
Deus, escrita pelo Bispo após o saque à cidade de Roma em 410. O Estruturalismo Genético da
Literatura de Lucien Goldmann fornece os pressupostos teórico-metodológicos para análise da
fonte.

As mulheres romanas entre a censura e a apologia: o ideal de feminilidade no discurso de


intelectuais pagãos e cristãos nos séculos IV e V d.C.
LUZIA BEATRIZ RAMOS ALVES

Resumo: O Império Romano, entre os séculos IV e V d.C., passou por um conjunto de transformações
que promoveu a estruturação do Dominato, a constituição da basileia e o cristianismo como religião
oficial do Império, bem como a difusão de valores e símbolos balizados pelo novo credo. A partir
deste processo histórico, o presente artigo objetiva discutir como intelectuais vinculados à tradição
pagã ou cristianizados, utilizando a apologia e a censura ao comportamento das mulheres por eles
descritas, contribuíram para formular e projetar um ideal de feminilidade que ainda repercute no
mundo contemporâneo. Esta análise também evidencia como a Igreja cristã reforçou o regime
patriarcal por meio da valorização da castidade, subserviência e inferioridade feminina. O corpus
desta pesquisa é constituído por duas fontes, Dos bens da viuvez: cartas a Proba e a Juliana de
Agostinho de Hipona e Elogio à Imperatriz Eusebia de Juliano, e será examinado com o auxílio das
premissas teóricas e metodológicas de Mikhail Bakhtin, Antonio Gramsci e Heleieth Saffioti.

Devotio Moderna e o aspecto místico no livro Imitação de Cristo


FRANCO ALVES BIONDI (CNPQ)

Resumo: No final do século XIV, um grupo de mulheres e homens estabelece uma comunidade na
cidade de Deventer, atuais Países Baixos, sobre a liderança do pregador Geert Groote. Orientados
para uma vida de simplicidade material, pautada pela prática ascética e pelo trabalho manual,
essa comunidade logo se tornaria um modelo de conduta espiritual e daria origem a dezenas de
outras comunidades, que passariam a se auto intitular como “comunidades dos irmãos e irmãs
de vida comum”, ou “devotos modernos”. Embora pouco estudados, esse grupo de religiosos
possui uma importante contribuição para a história do cristianismo. Eles seriam responsáveis pela
elaboração de manuais de exercitação espiritual, dando continuidade à profunda tradição mística
neerlandesa e oferecendo, em um momento de fortes crises, um modelo de reavivamento da vida
religiosa inspirado pelos exemplos do cristianismo primitivo. Uma de suas obras se tornaria um dos

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títulos mais lidos da história: a Imitação de Cristo, de Thomas de Kempis, devoto da comunidade
de Santa Agnes, ligada à casa dos irmãos de Deventer. Ainda hoje, esse livro pode ser encontrado
facilmente, possuindo, apenas em português, mais de dez edições ainda comercializadas. Apesar
de sua importância histórica, são poucos os trabalhos que procuraram compreendê-lo, e todas
as suas traduções possuem caráter confessional. Trata-se de uma obra medieval que rompeu
a barreira do tempo e que continua viva mesmo em nossos tempos. A proposta aqui realizada
é a de abordar o contexto de produção desse livro, procurando compreender quais respostas
traz para as indagações do momento em que surgiu. Pretende-se abordar o seu profundo
aspecto místico, orientado à prática da união espiritual, como uma manifestação das tendências
trazidas pelas “comunidades de vida comum”, suscitadas, especialmente, por uma sensação de
corrupção e decadência generalizada que marcou a vida religiosa nos século XIV e XV, origem dos
anseios por uma relação direta com o divino e de um projeto de resgate dos modelos ligados ao
cristianismo primitivo. O objetivo, desse modo, é fazer uma leitura histórica dessa importante
obra, compreendendo as suas principais preocupações e as respostas que pretendia oferecer ao
seu momento.

A identidade dos primeiros cristãos e a eucaristia nos dois primeiros séculos


ALESSANDRO ARZANI (SECRETARIA DE EDUCAÇÃO DO ESTADO DE MATO GROSSO)

Resumo:  A eucaristia ou “ceia do Senhor” é uma celebração ritual comum em todas as


denominações cristãs. Sua origem reflete os embates e dinâmicas de construção da identidade de
grupos cristãos que se cristalizaram na história. Este trabalho parte da análise de fontes materiais
e escritas dos séculos I e II tendo como principal objetivo compreender a relação entre o ritual da
eucaristia e o processo de delimitação de identidades nos cristianismos primitivos. Desse modo,
é possível perceber que nos dois primeiros séculos os cristãos se dividiam em grupos variados
e contraditórios, marcados por disputas. Suas reuniões carregam características peculiares às
inúmeras associações do mundo greco-romano daquele tempo. Suas celebrações e doutrinas
podem ser examinadas dentro de uma perspectiva histórica, destacando cada contorno do seu
desenvolvimento em contraste às proposições intra-religiosas que tendem a considerar a religião
atual como uma herdeira direta dos primeiros cristãos.

As Ressignificações de Eurípides nas Troianas de Sêneca


DOUGLAS DE CASTRO CARNEIRO (UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS)

Resumo: Esta comunicação tem como objetivo analisar as ressignificações de Eurípides nas Troianas
de Sêneca. No século V a.C., os poetas trágicos colocaram suas peças em digressões máximas
proferidas pelas personagens, ou mais geralmente pelo coro, que expressava pensamentos sobre
a condição humana, exames críticos do poder político e regras para conduzir a vida dos indivíduos.
Os únicos espécimes dos dramas que sobrevivera do mundo antigo são as 32 peças atribuídas a
Ésquilo, Eurípides, Sófocles e Sêneca. Como gênero literário, as tragédias expressavam um tipo
particular de experiências humanas, assim como as condições sociais e psicológicas. Cada uma
dessas peças possuía uma estrutura com discursos que poderiam ser analisados dentro de um
ponto de vista filosófico, literário e histórico. As Troianas de Sêneca é dividida da seguinte forma:
Em 1179 versos, os personagens se apresentam: Hécuba, Taltíbio, Pirro, Agamêmnon, Calcante,

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Andrômaca, um ancião, Astíanax, Ulisses, Helena, Políxena, um mensageiro e o coro de troianas. A
peça teatral inicia-se com o lamento de Hécuba, rainha troiana sobre o seu destino e o de Tróia (1-
65). Um coro das troianas acompanha a destruição da cidade e a morte de Príamo e de Heitor (67-
162). No primeiro episódio (164-408), Taltíbio, relata o aparecimento da sombra de Aquiles com
o seu pedido: o sangue de Políxena pela mão de Pirro. Agamêmnon é contra esse pedido e o filho
de Aquiles, Pirro defende a honra de seu pai, discute a necessidade e a validade do assassinato da
jovem troiana. O segundo episódio inicia-se com Andrômaca, Astíanax e um ancião. No terceiro
episódio (v. 861-1008), com a ajuda de Helena, Políxena é preparada como noiva sob o pretexto
de seu casamento com Pirro. Mas o estratagema é logo descoberto, vindo Helena a confessar a
verdade. Assim, Pirro leva a jovem troiana. No êxodo (v. 1056-1179), o mensageiro relata as mortes
de Astíanax e Políxena, destacando a nobreza de espírito dos troianos frente a morte. Andrômaca
e Hécuba lamentam as suas desventuras. As Tragédias de Sêneca foram apresentadas aos leitores-
ouvintes da aula imperial durante as sessões de recitações. No presente estudo, nossa hipótese
pressupõe que Troianas Hécuba e Helena, serviam como formuladores das Troianas senequiana.
A análise leva a conclusão que essas peças influenciaram diretamente na construção dessa peça.

Cristianismos silenciados e o discurso dos vencidos: introdução ao estudo dos manuais de


História Universal (1854-1878)
JOSE PETRUCIO DE FARIAS JR (UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ)

Resumo: Objetivamos investigar o uso de versões da História Antiga, mais precisamente da história


do cristianismo no Império Romano tardo-antigo, nos compêndios de História Universal, adotados
entre as reformas educacionais de Couto Ferraz (1854) e Leôncio de Carvalho (1878), no interior
dos quais defendemos que a alusão à herança clássica foi objeto de utilizações justificadoras e
legitimadoras de projetos de nação que se forjaram no II Reinado, porquanto as narrativas escolares,
a nosso ver, estavam comumente impregnadas de questões políticas dos Estados. Dito isso, a
configuração da História ensinada será analisada por meio de compêndios escolares adotados à
época e consideraremos suas implicações para a construção de novas representações da memória
nacional e para a formação de uma elite intelectual que em geral se preparava, por intermédio
dos cursos secundários, para assumir cargos político-administrativos ou militares junto ao Estado.
Partimos do pressuposto de que os autores brasileiros, tradutores de compêndios escolares
franceses, reproduziam como verdade histórica, isto é, como restituição do passado clássico aquilo
que é, a nosso ver, retórico, ou seja, produto da manipulação de acontecimentos históricos com a
finalidade de referendar determinados posicionamentos político-culturais do presente.
Dinâmicas de corte e articulações da aristocracia na cronística castelhana do século XV
LUCAS WERLANG GIRARDI (UESB)

Resumo:  Esta comunicação busca apresentar a pesquisa de doutorado em andamento, em


que se propõe a análise das dinâmicas de Corte que envolviam a aristocracia castelhana do
século XV, mais especificamente do reinado de Juan II (1406-1454), em seus movimentos de
aproximação e afastamento do poder monárquico. No estudo destas articulações aristocráticas,
serão consideradas as elaborações de festas de Corte e de Cavalaria como instrumento do fazer
político, explicitando a relevância destes eventos para os sujeitos envolvidos naquele contexto.
As fontes selecionadas para o estudo são principalmente as crônicas produzidas em Castela no
período do reinado de Juan II, totalizando cinco, três delas podendo ser diretamente vinculadas
à categoria de crônica régia. Tratam-se da “Crónica de Juan II”, da “Crónica del Halconero de
Juan II”, da “Refundición de la Crónica del Halconero”, da “Crónica de Don Álvaro de Luna”, e das
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“Generaciones y Semblanzas”. Estes escritos apresentam relevância para o estudo em questão
em diversos sentidos: em um primeiro momento, por demonstrarem repetidamente as dinâmicas
mencionadas, abordando a formação de facções aristocráticas, a aproximação de favoritos do rei,
os movimentos de concessão e retirada de bens e privilégios por parte do poder monárquico,
entre outros. Ainda, as crônicas expressam a importância das festas para a aristocracia. Em
comparação às crônicas de outros períodos, é dado um espaço muito maior para o registro destes
eventos nos escritos historiográficos castelhanos do século XV, possível mudança de estilo que
precisa ser investigada, mas que não deixa de evidenciar a relevância social das festividades.
Desta forma, a pesquisa toca em temáticas e debates que tratam de processos como a chamada
“centralização monárquica”, atribuída aos séculos XIV e XV, contemplando as relações entre
aristocracia e monarquia, assim como o debate sobre o Estado na Idade Média e o “nascimento do
Estado Moderno”. Assim, a apresentação pretende abordar e contextualizar estas problemáticas
centrais, as questões sobre o uso das fontes e levantar os debates que permeiam a pesquisa.

O indivíduo e o sujeito rei: estudo sobre a multiplicidade do corpo do rei e a subjetivação


CIRO RENAN OLIVEIRA PRATES (UESB)

Resumo: O sujeito, segundo a definição de Foucault, é compreendido como sendo uma função
vazia podendo ser exercida por diferentes indivíduos, desde que esses indivíduos
estejam adequados a exigências historicamente estabelecidas. O médico, o professor, o
policial, o soldado são posições de sujeito e, assim como tantas outras, se manifestam
por meio de práticas de certos indivíduos que, por algum momento, exercem tais
funções. Nessas posições, esses indivíduos, necessariamente, precisam conferir à sua
subjetividade uma forma historicamente constituída. O sujeito foucaultiano é forma e
não substância, não pode ser, nesse sentido, confundido com o indivíduo que exerce a
função. Está, assim, em um domínio institucional inserido em um conjunto de
dispositivos no qual o Estado aparece como principal articulador. Há um indivíduo cujo
corpo, no entanto, se confunde com o próprio Estado: o rei. Retomamos, neste trabalho,
o processo histórico de constituição do rei enquanto função vazia a ser exercida e a
sobreposição dessa função com o corpo do único homem que pode exercer essa função.
Seguindo essa linha de raciocínio, fazemos uso do trabalho de Ernst Kantorowicz acerca
da duplicidade do corpo do rei, para desdobrar algumas das questões já iniciadas por
Foucault ao longo de sua pesquisa sobre o nascimento das prisões. De acordo com o
trabalho do historiador alemão mencionado, a compreensão que temos de rei passou por
inúmeras transformações, e sua definição está ancorada em um grande conjunto de
teorias do direito de caráter teológico ou político. Todas essas teorias contribuem para a
compreensão do que Foucault chama de poder soberano. O trabalho de Kantorowicz
mostra a transformação dessas teorias acerca do rei ao longo do tempo, Foucault, não
obstante, descreve uma espécie de quadro do rei. Na Alta Idade Média, o rei está
centrado em Cristo, é considerado humano por natureza e divino pela graça. Ele está
ligado ao altar pela sua consagração enquanto rei e não somente como pessoa.
Representa a imagem de Cristo e, em seguida, a imagem mesma de deus até que sua
imagem esteja centrada na lei. Desse modo, o rei não é um ser humano no sentido
comum. O rei é a própria perfeição, desde que seja rei e não déspota. Ele está acima da
lei, porque é o fim de toda lei; mas é, ao mesmo tempo, a justiça que, em si mesma, está
sujeita à lei. Sendo assim, não é o rei, mas a justiça que reina através de um rei que é o
instrumento da justiça. Trata-se, assim, de mostrar a complexidade a respeito da
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subjetivação em relação ao sujeito rei.

Efeitos da ação antrópica de longo prazo sobre sítios arqueológicos pré-históricos na região
da Serra do Espinhaço, sudoeste da Bahia
ELVIS PEREIRA BARBOSA (UESC)

Resumo: Este trabalho procura evidenciar os efeitos danosos causados em sítios arqueológicos


pelo processo de lixiviamento e percolização da água sobre o solo desprotegido de cobertura
vegetal decorrentes do desmatamento e extinção de culturas agrícolas intensivas (como milho e
algodão) na região da Serra do Espinhaço. O texto demonstra como os sítios arqueológicos foram
afetados e aponta para a necessidade dos arqueólogos considerarem esta situação no momento
de realização de escavações, principalmente para a chamada “arqueologia de contrato”.

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SESSÃO 01: 21/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

Aldeamento no sertão: administração da Missão do Apodi, Capitania do Rio Grande do Norte


(1700-1761)
RISTEPHANY KELLY DA SILVA LEITE (UFRN)

Resumo: Em decorrência da Guerra do Açu, os povos Tapuia dos sertões das Capitanias do Norte
do Estado do Brasil foram reduzidos em missões religiosas. Nestas missões, os indígenas ficariam
sob a tutela de missionários das Ordens religiosas e seriam introduzidos à fé católica e aos
costumes de vida ocidentais. A Missão do Apodi foi criada em 1700 e inicialmente administrada
pelos jesuítas. Posteriormente, em 1734, após um período de ausência de missionários fixos na
Missão, ela foi retomada pelos missionários Capuchinhos, que permaneceram na administração
até 1761, quando a vila de Portalegre é erigida e os índios da Missão são transferidos para ela. O
objetivo deste trabalho é perceber quais eram as dinâmicas estabelecidas entre os missionários
(jesuítas e capuchinhos), os indígenas e os demais moradores da região.

Índios, missionários, colonos e militares no sertão do Araguaia, Goiás (Sec. XIX)


LAÉCIO ROCHA DE SENA (UNIFESSPA)

Resumo: O presente trabalho versa acerca do processo de ocupação e colonização do vale do rio
Araguaia, no antigo norte de Goiás, na segunda metade do século XIX, sob a égide da legislação
indigenista do Segundo Reinado (Regulamento das missões de 1845), e implementada a partir
da fundação de aldeamentos missionários e presídios militares às margens do Araguaia. Esse
amplo território, que hoje compreende o Estado do Tocantins, era visto enquanto um espaço
selvagem, bárbaro e de difícil controle pela província. Tratava-se de um território densamente
ocupado por vários grupos indígenas, constituindo-se num mosaico étnico bastante complexo,
no qual o domínio imperial era débil. O sertão, diziam as autoridades provinciais. Do ponto de
vista econômico, para a província de Goiás, era fundamental a construção de um corredor fluvial
estratégico ligando o norte da província ao litoral paraense, notadamente a sua capital, Belém.
Desse modo, esperava-se fomentar a econômica provincial, baseada unicamente na agricultura
e criação de gado. Ao mesmo tempo, era preciso incentivar e garantir a instalação de colonos
– principalmente os criadores de gado – às margens daquele rio para que pudessem socorrer
aos comerciantes/navegantes que realizariam viagens a Belém. Nesse contexto, a catequese
indígena, a cargo dos missionários capuchinhos, articulada à construção de presídios militares foi
a estratégia adotada pelas autoridades para a garantir o controle por sobre esse vasto território.
Entretanto, a experiência concreta mostra como os grupos indígenas da região, tais como os Karajá
e Kayapó, acabavam colocar os seus interesses na ordem do dia e, muitas vezes redimensionando
ou limitando, as intensões daqueles que eram responsáveis pela implementação da política
indigenista do sertão do Araguaia. Assim, tomando a experiência concreta do presídio militar de
Santa Maria do Araguaia, refundado em 1862, no médio curso daquele rio, mostro como a relação
entre índios, militares, colonos e missionários não foi marcada pela sobreposição e domínio da
cultura ocidental sobre a indígena, mas foi bem mais complexa, posto que os indígenas buscaram
sempre criar espaço de autonomia e negociação. A documentação analisada consiste em relatórios
da província de Goiás, relatos de viajantes e jornais.

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Lavras Diamantinas (Bahia, séc. XIX): Reflexões Sobre a Historiografia
LUIZ ALEXANDRE BRANDÃO FREIRE (UESB), MARIA APARECIDA SILVA DE SOUSA (UESB)

Resumo:  Os estudos sobre os Sertões da Bahia, nas últimas décadas, se expandiram graças ao
avanço de novos métodos de pesquisa, assim como em razão do interesse acadêmico pelas regiões
não-litorâneas da Bahia. Embora não tenha tido maior visibilidade em análises historiográficas
mais ampliadas sobre o Brasil durante o século XX, os relatos sobre a ocupação e o povoamento
dos sertões da Bahia datam desde o século XVI, seja por meio dos registros produzidos pelas
autoridades régias, seja em escritos posteriores de viajantes e cronistas que deixaram informações
preciosas sobre o movimento de domínio e controle do território. Ao se debruçar sobre fontes
inéditas, diversos trabalhos de pesquisa foram publicados nos últimos anos revelando a dinâmica
sertaneja em suas variadas dimensões. Aqui, merece ressalva a obra do historiador Erivaldo
Fagundes Neves, que em seus extensos estudos acerca das policulturas do semiárido baiano,
das experiências da escravidão nos sertões, das disputas nos seios familiares, assim como outros
temas de igual relevância, possibilitou evidenciar a importância da História Regional e Local para
a compreensão da totalidade histórica e, nesse sentido, o lugar essencial ocupado pelas áreas
sertanejas para uma compreensão mais rigorosa da História da Bahia/Brasil. No caso específico da
Chapada Diamantina, a análise de fontes documentais coetâneas tais como inventários, processos-
crimes, livros de notas etc., tem permitido avançar na compreensão da história econômica e
social da região, indo na contramão de interpretações clássicas que relegaram aos sertões papel
periférico da economia litorânea, a exemplo de autores como Kátia Mattoso, Caio Prado Júnior e
Sérgio Buarque de Holanda. Além disso, obras como a de Capistrano de Abreu, Felisbello Freire
e Rodolfo Garcia, que tratam sobre a história territorial, também vem sendo constantemente
referenciadas. Isso explica-se pela utilização dos métodos de História Regional e Local, que têm
forte influência da Geografia Humana e da História Econômica na escolha das fontes de estudo.
Nessa perspectiva, os trabalhos acadêmicos produzidos sobre as áreas diamantíferas da Bahia
apresentam caráter inovador, fomentando contribuições inestimáveis aos estudos da Chapada
Diamantina e das relações de produção e de reprodução da vida humana no período de extração
de diamantes. Desse modo, a presente comunicação, fruto de uma pesquisa mais ampla, propõe
debater, a partir dos estudos históricos produzidos nas últimas décadas, aspectos fundamentais do
processo de avanço científico e epistemológico da escrita documental sobre as Lavras Diamantinas
no Oitocentos, assim como as suas possíveis lacunas e possibilidades para novas investigações.

O Senado da Câmara da Vila de Rio de Contas-Ba: Conflitos políticos e aprendizado na crise


da Independência (1821-1823)
LUANA TEIXEIRA BARROS, MARIA APARECIDA SILVA DE SOUSA (UESB)

Resumo: Durante o período colonial as Câmaras se constituíram enquanto unidades de extrema


relevância para o processo de colonização portuguesa na América. A instituição, de caráter
político-administrativo, baseava-se no modelo tradicional do Estado português cujas decisões
deveriam ser submetidas ao poder central da Coroa. Não obstante as diferenças de atuação em
determinadas localidades, esses órgãos exerceram papel fundamental para a compreensão das
negociações, conflitos e representatividade das populações locais haja vista a abrangência das
funções exercidas. No caso da Bahia, com raras exceções, os estudos sobre o papel desempenhado
pelas Câmaras carecem de aprofundamento, sobretudo quando se trata das áreas sertanejas. Aqui,
especificamente, propõe-se uma análise do Senado da Câmara da Vila de Rio de Contas, situada

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no Alto Sertão da Bahia, durante as lutas pela Independência do Brasil, a partir da bibliografia
específica sobre o tema e da pesquisa documental que possibilitem uma análise mais apurada
sobre as particularidades dos sertões da Bahia no período. Instalada na primeira metade do século
XVIII, o Senado da Câmara de Rio de Contas era responsável pela administração de um amplo
território e tal como ocorrido em outros lugares, foi absorvida pelas alterações decorrentes das
disputas e tensões políticas verificadas no período da Independência. De fato, os desdobramentos
nas diversas províncias do Brasil após a Revolução do Porto (1820) estimularam as discussões e
participação nas decisões camarárias não apenas daqueles que compunham a sua direção, como
também de parte da população atraída pelas possibilidades de alteração dos rumos do Reino do
Brasil, ainda que não se tivesse clareza sobre as alternativas de mudança. O que chama a atenção
no caso da Câmara da Vila de Rio de Contas é a maneira pela qual variadas questões vieram à tona
em meio ao debate sobre a conformação do Estado Imperial, expondo aspectos importantes dos
conflitos e tensões locais que nessa conjuntura conturbada viram-se dilatados.
No decorrer da crise política, evidenciam-se as extremas dificuldades de articulação entre o Senado
da Câmara de Rio de Contas e os poderes centrais situados em Salvador e no Recôncavo baiano.
Isto possibilitou o desenvolvimento de uma relativa autonomia da instituição na condução dos
seus próprios projetos revelando aspectos importantes da dinâmica política nos sertões da Bahia,
como espaços de considerável mobilização e de aprendizado político. Questões que a pesquisa,
ora em andamento, pretende discutir na esteira das produções acadêmicas acerca do intricado
processo de formação do Estado e da Nação brasileiros.

“Padre José Tíbúrcio de Sant’Ana no Contexto do Antilusitanismo na Vila de Porto Seguro


-1821 a 1835”
ALAILSON MENDES BRITO (UNEB)

Resumo: A aproximação dos 200 anos da Independência do Brasil é por si uma justificativa para
revisitar os eventos e conflitos que forjaram a formação das identidades nacionais e políticas
brasileiras. Eventos e conflitos que, também, estão envolvidos os processos que resultaram na
formação do Estado e Nação brasileiras. Entre esses conflitos, está o antilusitanismo que esteve
disseminado no Brasil entre a Revolução do Porto em Portugal e alguns anos após a abdicação
de D. Pedro em 1831, com alguns episódios registrados até a década de 40 do século XIX. As
ações antilusitanas estiveram praticamente silenciadas na historiografia brasileira até o final do
século XX. Porém, nos últimos 20 anos tem sido tema de algumas pesquisas, principalmente, em
espaços urbanos como Rio de Janeiro, Salvador, Recôncavo e Recife. Esses conflitos antilusos,
que colocavam os “brasileiros” contra os “portugueses”, receberam na Bahia a alcunha de “mata-
marotos”. Para além de visitar a historiografia sobre esse tema, é preciso avançar nas pesquisar, a
fim de preencher certas lacunas que ainda estão em aberto. Parte dessas lacunas está na falta de
conhecimento historiográfico de como as ações antilusitanas se deram no interior das províncias,
e no nosso caso específico, no interior da província da Bahia, a Vila de Porto Seguro. Na Vila de
Porto Seguro da primeira metade do século XIX, viveu um padre extremamente atuante no seio
da sociedade de então. Ele se envolveu em querelas de vários tipos, além de agir politicamente,
em buscar de mercês, privilégios e honrarias junto ao Presidente da Província, ao Imperador e
junto ao Clero; e mais importante para nossa pesquisa, estava no cenário dos palcos das sedições
antilusitanas na Vila de Porto Seguro. O Padre José Tibúrcio de Sant’Ana era natural na Villa de
Caravelas-BA, Filho de pai portossegurense e mãe caravelense. José Tibúrcio se ordena padre
em 1808 e passa boa parte da primeira metade do século XIX, já como vigário, em Porto Seguro.

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Testemunha ocular e protagonista em muitas ações do microuniverso sociohistórico da Vila de
Porto Seguro na primeira metade dos oitocentos, o Padre José de Tibúrcio será nosso personagem
guia na busca de historicizar uma parte fundamental da história da antiga Vila de Porto Seguro,
que foram as disputas identitárias, a formação do Estado e Nação brasileiras e o antilusitanismo no
Primeiro Reinado, pouco estudadas nessa região. E dentro desse contexto da Vila de Porto Seguro,
centraremos atenção na atuação do Padre José Tibúrcio de Sant’Ana nos conflitos antilusitanos
que ocorreram entre 1821 a 1835, como consequências dos processos que levaram a separação
política do Brasil e Portugal e àqueles que envolveram a abdicação de D. Pedro I e por isso, são as
bases dessa pesquisa.

Para além de patriotismo: atuação do magistrado José Antônio Gomes Neto no contexto da
Guerra do Paraguai
LIELVA AZEVEDO AGUIAR (UNEB)

Resumo:  Este texto aborda como a Guerra do Paraguai foi encarada por José Antônio Gomes
Neto, juiz municipal e delegado na vila de Caetité (1860-1867), como uma oportunidade ímpar de
prestar serviços ao Império com vistas a alcançar um título nobiliárquico. Pautado em fontes do
seu arquivo pessoal e em correspondências encaminhadas ao presidente da província da Bahia, a
discussão também se encaminha na perspectiva de iluminar a participação de outros sujeitos do
alto sertão baiano no conflito em questão, desde aqueles alistados como Voluntários da Pátria
até estudantes de medicina.

Nas Trilhas do Cadó: conflitos familiares e poder em Vila Nova da Rainha


MATHEUS DA SILVA CONCEIÇÃO (UFBA)

Resumo: A presente comunicação trata do conflito envolvendo as famílias Passos e Silva ocorrida
em Vila Nova da Rainha, atual cidade de Senhor do Bonfim e Região, no norte da Bahia, entre 1831
e 1835. Os grupos eram aliados políticos, mas por razões pessoais acabaram entrando em uma
disputa que tomou cunho político. Tal confronto ficou conhecido como Guerra do Cadó, devido ao
apelido do líder da família Silva, Joaquim Simões da Silva. Este desonrara a filha mais jovem dos
Passos. A família cobrou uma retratação, porém o líder Narciso de Freitas Passos fora morto por
aliados dos Silva. Seu filho Manoel Joaquim dos Santos Mabiroba assumiu a liderança os Passos
e levou o confronto adiante. Através do confronto é possível perceber a influência do poder
religioso, na figura do Padre Severo Cuim Atuá, irmão de Joaquim Simões, dentro da política local
nos sertões baianos e as conexões entre o poder local e central com o envio de tropas da Primeira
Linha para apaziguar a situação. O primeiro destacamento enviado acabou por tomar parte
na contenda, acarretando em uma sublevação de onze praças contra seu comandante, Ignácio
Joaquim Pitombo. Para conter esse primeiro destacamento foi designado outra tropa, que enfim
apaziguou a situação.

História e Memória: a construção do “herói” na pessoa do Coronel Napoleão Ferraz


MISAEL SILVA LACERDA (COLÉGIO ESTADUAL CARLOS SANTANA)

Resumo: O presente trabalho tem como objetivo, a partir da análise do livro “Belo Campo – memórias”,
de autoria do memorialista Roberto Lettière (1997), problematizar a figura do coronel Napoleão
Ferraz, descrito pelo autor como herói. A memória constitui-se como fonte importante para o trabalho

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do historiador, da mesma forma que o trabalho de memorialistas ao longo dos séculos tornou possível
o conhecimento de importantes aspectos de vários eventos na história, contribuindo para que muitas
informações não se perdessem com o apagamento da memória enquanto fonte histórica. Napoleão
Ferraz de Araújo foi um precursor da cidade de Belo Campo, que à época analisada (1900-1915) era
conhecida como Chapada e pertencente ao município de Conquista (atual Vitória da Conquista). Este
personagem está inserido em um momento complexo e diversificado em suas características, que
foi o Coronelismo. No livro memorialista acima citado, o autor aponta Napoleão Ferraz como um
herói, ressaltando, de forma romantizada, características pertinentes ao Coronel, como também suas
contribuições para a região da chapada, ainda em formação, e colocando o Coronel como avesso ao
Coronelismo e às atitudes de seus contemporâneos, também coronéis. Para tal objetivo, foi preciso
respondera alguns questionamentos: como se deu a construção de heróis cívicos ao longo da Primeira
República brasileira (1889-1930) e com qual objetivo? Quem foi, segundo a documentação disponível
e o contexto analisado, Napoleão Ferraz? Napoleão, mesmo recebendo a patente de coronel, era
avesso ao coronelismo? O coronel Napoleão Ferraz era um homem à frente de seu tempo ou um
homem, apesar de suas especificidades, parte de um contexto e de uma época específicas? Far-se-á
um contraponto do trabalho de Lettière com a bibliografia sobre Primeira República (1889-1930),
com o fenômeno do Coronelismo na região de Conquista (atual Vitória da Conquista), além de cartas
de Napoleão Ferraz e seus contemporâneos, valendo-se também da memória dos moradores mais
antigos do município de Belo Campo.

A ideia de melhoramento da agricultura e possíveis medidas de controle no meio rural baiano -


segunda metade do século XIX
ANTONIO HERTES GOMES DE SANTANA (UFRRJ)

Resumo: A comunicação tem como objetivo refletir sobre a ideia de melhoramento ou aperfeiçoamento
da agricultura, presente no pensamento e nas ações de algumas autoridades e proprietários de
terras no Brasil imperial, sobretudo na província baiana, durante a segunda metade do século XIX.
Analisando falas e relatórios de presidentes de província da Bahia, bem como algumas posturas
municipais de uma região do interior, procuramos entender como esses grupos sociais pensavam
uma modernização da economia agrícola, mas atentos ao controle de possíveis ociosidades, ou seja,
eles pretendiam mudanças técnicas, científicas propostas pela era moderna, mas sem consequências
revolucionárias no que se refere à estrutura social. Dialogamos com Teresa Cribelli nesse sentido,
pois percebemos o uso do vocábulo melhoramento ou aperfeiçoamento, no Brasil, associado ao
sentido de progresso, significando o melhoramento de algo que já existia, empregando a ciência e as
máquinas na economia agrícola, pensando também numa ordem social pacífica, como se fosse uma
máquina bem servida (CRIBELLI, 2009, p. 57). Melhorar ou aperfeiçoar representava, portanto, uma
ideologia de mudança social, mas não de libertação. Ao contrário, as elites sempre estiveram atentas
para possíveis “distúrbios” sociais provocados pelo suposto progresso. Nas fontes documentais, além
dos tópicos referentes a transportes, obras públicas e educação agrícola nas falas e relatórios de
presidente da província, analisamos algumas posturas da região de Alagoinhas, onde sofreu direta, ou
indiretamente, os impactos com a implantação da ferrovia “Bahia and São Francisco”. Pensamos que
alguns códigos dessas posturas locais tinham o intuito de controlar ainda mais os espaços e as ações
de grupos sociais que desenvolviam a agricultura de forma sazonal, como agregados, sem relacionar-
se com a terra de forma individual, e por isso eram muitas vezes vistos como ociosos. Percebemos,
até então, que algumas ações costumeiras que passaram a ser tratadas pelas autoridades locais como
passíveis de pena, persistiram para além daquele contexto de “melhoramento”.

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SESSÃO 02: 22/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

Representações sobre o vaqueiro: uma abordagem histórica dos trabalhadores da atividade


pecuária sertaneja.
BIBIANA OLIVEIRA PINTO DE ARAÚJO (COLÉGIO ESTADUAL TEOTONIO MARQUES DOURADO
FILHO)

Resumo:  A história do Brasil enquanto nação teve um percurso historiográfico voltado para o
nacionalismo, para a constituição do que seria o Estado Nacional. Seu território, cultura e política
estiveram por muito tempo atrelado à ideia de um discurso uniforme sobre o que é mais representativo
do que seria o brasileiro. Trata-se da elaboração de uma narrativa nacional elitista frente ao caráter
heterogênico da nação brasileira, onde práticas e indivíduos vão corresponder ao ideal nacional e outras
vozes são descartadas. Desse modo, abordagens sobre a cultura regional e local visam, sobretudo,
reconhecer categorias e sujeitos silenciados por essa História de caráter oficial.
Entre estes temas, tem se a história social da pecuária, que se constituiu por muito tempo como
apêndice à história do litoral e da plantation. A proposta deste trabalho é estudar a pecuária nordestina,
a partir da representação de seus trabalhadores, em especial, o vaqueiro, que na historiografia muitas
vezes foi apresentado como fruto de construções literárias, memorialistas e folclóricas, bem como,
problematizar essas visões relacionando-as como os estudos cientificistas ligados à eugenia.
Inclui também, como proposta, compreender quem eram os trabalhadores da pecuária, quais as suas
relações, vivências e cultura. Tendo como local de pesquisa o município baiano de Morro do Chapéu
entre os anos de 1905 a 1935. E feita a partir de documentos cartoriais, entrevistas e matérias do jornal
local Correio do Sertão. Trata-se, portanto de um estudo sobre parte fundamental da estrutura pastoril,
os trabalhadores cuja identidade se faz tão presente no sertão, mas sobre os quais a historiografia
tardou em reconhecer e problematizar.

Autonomia e dependência dos vaqueiros no sertão de Morro do Chapéu na segunda metade do


século XIX
NIEDIA MARIANO NUNES

Resumo: Discutir sobre a ocupação no interior do Brasil no tempo da colonização, levando em


consideração a expansão do comércio de gado se torna imprescindível tratar do trabalhador que foi
essencial para o funcionamento das atividades pastoris, o vaqueiro. Os sertões baianos desempenharam
um importante papel para a formação da estrutura fundiária brasileira tendo como vetor de povoamento
a pecuária. Este trabalho tem como objetivo identificar as relações de dependência do vaqueiro com
o seu senhor e analisar quais espaços de socialização e autonomia faziam parte do próprio serviço
vaqueiral, sinalizando o que seria essas possíveis autonomias que os vaqueiros podiam conquistar
para além do trabalho ligado ao seu senhor. Para isso, terá como foco a atuação dos vaqueiros no
sertão de Morro do Chapéu-Bahia, na segunda metade do século XIX, através da análise de processos
criminais sobre furto de gado, neles estão contidas ações envolvendo o cotidiano, conflitos, relações
de solidariedade, subalternidade e dependência na cultura do vaqueiro. Os resultados da pesquisa
apontaram que desde os princípios da colonização até o século XIX, o sertão não estava isolado das
áreas mais proeminentes da província ou do país, ao contrário, era parte integrante da economia e da
sociedade brasileira e que o local de trabalho do vaqueiro possibilitava um grande conhecimento do
território e contatos com várias pessoas, isso permitia também a autonomia em relação ao senhor ou
patrão, não poucas vezes o agregado (livre ou escravo) conhecia a fazenda melhor que o próprio patrão

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estabelecendo uma relação de dependência mútua, entre proprietários e agregados/trabalhadores.
Nessa sociedade, a maneira mais eficiente de ascender economicamente era através do ofício vaqueiral,
a profissão representava a ascensão tanto econômica quanto social, no entanto, a ascensão pelo
trabalho com o gado levava muitos anos e nem todos conseguiam, dependia da relação que estabelecia
com os proprietários e da habilidade do trato com o gado. Envolvidos nessa sociedade paternalista e
promovedora de laços de dependência, corroborou para a complexidade das relações de trabalho,
extensão dos laços de proximidade afetivos ou conflituosos e fez com que fazendeiros, vaqueiros
(livres e escravos), e trabalhadores autônomos estabelecessem relações sociais e estreitamento dos
laços de solidariedade, acentuando assim as diferentes concepções de poder, trabalho e sociedade e
definindo a aparência de seus conflitos cotidianos, fossem estes assumidamente ou sutil.
Palavras chaves: Sertão. Pecuária. Vaqueiro. Dependência. Autonomia.

Brasil-Vaqueiro: Análise da nação no ensaio Fidalgos e vaqueiros (1989), de Eurico Alves


Boaventura
ARTUR VITOR DE ARAÚJO SANTANA

Resumo: “Nascia do toque das boiadas a vida da pátria” (BOAVENTURA, 1989, p. 15). Essa é uma das
primeiras frases do livro de Eurico Alves Boaventura, no qual o escritor baiano propõe narrar uma
história do Brasil tendo como protagonista o vaqueiro, na produção da brasilidade. Na narrativa
do ensaísta, o vaqueano se torna o produtor das espacialidades, formador seminal da paisagem
interiorana, que substitui o papel do bandeirante como o responsável pela interiorização da nação.
Neste trabalho, irei analisar o modelo de Brasil proposto pelo escritor, que tem como cenário o sertão
baiano, em particular a zona do pastoreio, na região da Bacia do Jacuípe. Para isso, será analisado
diversos trechos da obra, com o objetivo de perceber as intencionalidades do autor na escrita do texto,
principalmente a escolha do vaqueiro (lido comumente como símbolo regional), como o protagonista
da fundação nacional. Nessa comunicação, o conceito de nação é de fundamental importância para
analisar o projeto político de Brasil defendido por Boaventura. Para aprofundar o termo, dialogo com
Benedict Anderson (1989), Perrone-Moisés (2007), Kothe (2000) e Hall (2015), que me possibilitam
pensar como o ideal de nacionalidade e identidade nacional é desenvolvido, principalmente no campo
literário. Entre as mais variadas características que marcam os sujeitos, a língua se sobressai, já que é
a partir da linguagem que se torna possível a construção dos signos, assim como o próprio indivíduo,
que necessita metaforizar sua própria existência para se ler no mundo. Dessa forma, a narrativa de
Eurico Alves apresenta uma imagem particular de nação, pautada nos dizeres de uma Bahia sertaneja
e centrada no aboio do vaqueiro viril.

A seca no Sudoeste da Bahia no século XIX: Notas históricas e representações literárias


ROGÉRIO SANTOS SALES

Resumo: A presente pesquisa analisa historicamente o fenômeno da seca ocorrida no Sudoeste baiano
no último quartel do século XIX, cotejando com o discurso poético de Elomar Figueira Melo relacionado
a este fator climático. A partir disso nota-se a escassez de um índice pluviométrico favorável capaz de
contribuir para dificultar a criação de animais, o cultivo agrícola, sobretudo gera dificuldades sociais
para as populações atingidas por ela. Isto torna a vivência neste ambiente muito difícil, já que a falta
de água causa também a ausência de recursos econômicos provocando fome e miséria no sertão
nordestino. Vale ressaltar, a seca não atinge todo o Nordeste, mas uma área conhecida como Polígono
das Secas incluindo o norte de Minas Gerais. Grande parte das populações destas áreas – geralmente os

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moradores das zonas rurais - se desloca procurando fugir das secas e buscam refugiar-se nas cidades,
ocasionando com isto o inchaço nas zonas urbanas, sobretudo as áreas de favelas sem infra-estrutura
adequada, mendicância, subemprego etc. Entretanto, estas mesmas populações também contribuem
fortemente com sua cultura e o emprego de sua força de trabalho para desenvolver as áreas para
onde migram. De qualquer forma os migrantes, segundo poetas como Elomar Figueira Melo, almejam
sempre o regresso ao seu local de origem após haver uma situação climática favorável. Para quem
permanece resta às vezes esperar o regresso das chuvas, podendo durar até cerca de meia década,
ou os socorros públicos. Políticas assistencialistas desenvolvidas de forma precária servem muito mais
como um paliativo, e um meio de conseguir promover a elite política por meio do processo eleitoral.
Em sua maioria a elite política também é a elite econômica, e tais socorros ou recursos são conseguidos
por meio do poder burocrático do Estado através dos representantes políticos da respectiva região.
Ao longo da história parece não haver efetivamente uma preocupação por parte do poder público
para contornar o problema gerado pela falta de água no sertão a fim de fazer com que o homem do
campo conviva de forma harmoniosa com o ambiente. Esta pesquisa se justifica pelo fato do tema ter
sido pouco ou quase nada explorado pela historiografia ao longo dos anos. Portanto, pesquisar a seca
no Sudoeste baiano no final do século XIX, analisando a poesia Elomariana contribui para elucidar
aspectos históricos relevantes da região Sudoeste neste período. É a partir da referida região, com
uma característica típica de um Menestrel e sua linguagem Dialetal Sertaneza que ele realiza suas
composições nas quais emprega um rigor não apenas técnico em suas obras tornando-as pertinente
para análise do tema. Espera-se com essa pesquisa contribuir para futuros estudos sobre o período e
o assunto.

“Matos alheios de ladrões e facinorosos” ou a terra das oportunidades? Uma visão dual sobre os
sertões dos Rios Piranhas e Piancó no período colonial na América Portuguesa
JANICE CORREA DA SILVA (SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE BONITO DE SANTA FÉ - PB)

Resumo: A primeira parte do título deste artigo trata-se de uma expressão utilizada pelo sargento mor
e senhor de engenho Antônio Borges da Fonseca para se referir aos sertões da capitania da Paraíba,
especificamente aos sertões dos rios Piranha e Piancó para os quais realizava frequentes viagens. Estes
últimos constituíram o centro irradiador da conquista das áreas interioranas da referida capitania. A
expressão deixa bastante nítida uma das formas de se enxergar aqueles espaços durante o período
colonial, qual seja: percebê-lo enquanto um lugar de refúgio para criminosos e, portanto, de violência.
Não era só nesse sentido que os sertões eram vistos, muitas outras conotações fizeram parte do
imaginário das pessoas no que diz respeito ao modo como às áreas que se distanciavam do litoral eram
pensadas. É muito comum, quando se fala em sertão, algumas representações saltarem no imaginário
das pessoas. Atualmente, por exemplo, quando o assunto é sertão, emerge logo a imagem da seca, da
fome, da pobreza, da escassez, do desconhecido, do não civilizado, do rústico, etc. Se ainda hoje é assim,
o que pensar, então, das conotações apresentadas pelo termo sertão durante o período colonial? Quais
visões eram formuladas? No imaginário de colonizadores, viajantes cronistas e aventureiros vindos de
Portugal ou de outras partes do Brasil, ou ainda na compreensão de escritores ditos tradicionais de
nossa historiografia, quais representações predominavam acerca do sertão? São essas algumas das
indagações que motivam a elaboração de um saber histórico que se preocupe também em apresentar
alguns dos aspectos simbólicos e também das representações espaciais que palpitavam no imaginário
das pessoas durante o período colonial nos espaços supracitados. Essas representações ajudaram a
configurar as visões das gerações posteriores. Em tal empreitada, serviram como base documental os
relatos de viajantes e cronistas, mesmo sabendo que, em muitos momentos, tais relatos encontravam-

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se impregnados de intensa subjetividade, uma vez que as impressões ou descrições dessas pessoas
sobre a terra que encontraram partiam de observações realizadas apressadamente e de modo
superficial. Fez uso também de documentos do Arquivo Histórico Ultramarino pertencentes a capitania
da Paraíba.

Violência e territórios de mando nos sertões de São Bento do Tamanduá


RODRIGO LEONARDO DE SOUSA OLIVEIRA (INSTITUTO FEDERAL DE RONDÔNIA)

Resumo:  Os sertões de São Bento do Tamanduá (hoje Itapecerica/MG) era, nos setecentos, palco
das ações de diversos bandos armados. Estes bandoleiros formavam grandes áreas de mando nestas
áreas de fronteiras. Segundo Marcia Amantino, “a principal imagem criada para o Sertão foi a de uma
área rebelde que precisava ser controlada e domesticada. Era assim também que os habitantes de
Minas Gerais no século XVIII viam o Sertão” (AMANTINO, Márcia. “O sertão oeste em Minas: um espaço
rebelde”. Varia Historia, Belo Horizonte, n.29, p.79-88, jan.2003). Ao formar os “Territórios de Mando”
- expressão utilizada pela autora Célia Nonata da Silva para classificar as regiões onde predominava os
interesses privados em detrimento dos interesses públicos – vários bandidos buscavam monopolizar
variados espaços pelo uso da força e da intimidação. Assim ocorreu nos sertões do Tamanduá. Ali agiam
vários bandos, entre eles a quadrilha dos “sete orelhas”. Este bando era liderado por Januário Garcia
Leal. Agiram nestes sertões nos fins do século XVIII e início do século XIX. Consta que teria imposto
perpétuo silêncio em pleitos judiciais que corriam na vila, ameaçando advogados que porventura
viessem a favorecer os seus inimigos ou mesmo aqueles que ousassem interferir judicialmente nas
querelas feitas contra o bando. Noutras vezes, suprimia fazendas alheias, ameaçando e forçando os
proprietários a abandonarem as suas propriedades. Sendo assim, formaram a sua área de mando
pelo medo e pela força de seus componentes. Nossas fontes estão concentradas na seção colonial
do Arquivo Público Mineiro e nos avulsos do Arquivo Histórico Ultramarino – MG. Nossos referenciais
teóricos são os estudos de Carla Anastasia (“Geografia do Crime”), Célia Nonata da Silva (“Territórios
de Mando”) e Márcia Amantino (“O sertão oeste em Minas: um espaço rebelde”).

Thomaz Cardoso de Almeida e Vicente Moretti Fóggia: conhecimento médico científico e a varíola
em Goiás
LEICY FRANCISCA DA SILVA (UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS)

Resumo: Durante o século XIX, explica Lycurgo Santos Filho, não se percebe a existência de organizações,
de carreira ou de um campo de investigações científicas brasileira (1995). Tanto a formação, quanto
o modelo de organização profissional deviam muito ao modelo francês de onde proeminentemente
advinham os professores e o material para as Academias médicas (FERREIRA, 1994). O modelo médico
implementado era a clínica nascente, como analisado por Michel Foucault. Contrapondo-se em parte
a essa análise e considerando uma “forte tradição clínica” brasileira, Luiz Otávio Ferreira aponta a
possibilidade de através das trajetórias dos membros da elite médica perceber uma tradição clínica
“institucionalizada e portadora de padrões de formação intelectual, carreira profissional e produção
de conhecimento próprios” (idem). Se a produção do pensamento dos médicos, e sua trajetória
profissional pode nos trazer importante elementos para pensar o padrão da medicina clínica no
século XIX, a vida e atuação de Thomaz Cardoso de Almeida e de Vicente Moretti Fóggia, médicos
de proeminência regional pode nos auxiliar a perceber as margens dessa produção e atuação em
Goiás. Nosso objetivo neste artigo é, partindo da análise de texto dos dois médicos citados, observar
o conhecimento médico sobre a varíola, sua prevenção e no tratamento em Goiás no século XIX. Bem
como compreender os limites da atuação destes profissionais de saúde em casos de epidemia.

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SESSÃO 01: 21/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

Das fontes primárias ao livro didático: o debate na rede básica de ensino sobre a construção da
história
LIBÂNIA DA SILVA SANTOS (SECRETARIA DE EDUCAÇÃO DO ESTADO DA BAHIA)

Resumo: O objetivo deste trabalho é demonstrar a importância da discussão do processo de construção da


História para os estudantes da rede básica de ensino através da análise de produtos da experiência docente
com enfoque na relação entre as fontes primárias e os livros didáticos. O trabalho em sala de aula permite
ao profissional da História a percepção de que muitos estudantes não estabelecem uma relação positiva
ou de interesse para com os conteúdos da disciplina por motivos que vão além dos aspectos relativos à
afinidade. O que é História? é um questionamento que com frequência permanece não respondido ao
longo de toda a formação básica do educando, e a confiabilidade de nossa ciência é questionada sobretudo
em ocasiões onde o seu caráter mutável se apresenta. Em sala de aula, os estudantes deparam-se com o
livro didático e outras fontes de estudo e por vezes questionam as informações nelas contidas por não
compreenderem as suas procedências ou por tratar-se de uma interpretação diversa do difundido pelo
senso comum. O revisionismo histórico, por exemplo, apesar de importante, quando não é devidamente
discutido pode permitir a compreensão errônea por parte dos educandos de que a História não é confiável
e, consequentemente, que os seus conteúdos não são dignos de atenção. Logo, sobretudo em tempos
onde as ciências humanas de modo geral são descaracterizadas, visualizadas como inferiores, descartáveis,
ou sequer consideradas ciências, se faz necessária cada vez mais a inclusão no cotidiano docente do debate
acerca do que é a ciência histórica e como se dá o exercício que leva aos seus produtos. A viabilização por
parte do professor da rede básica de ensino, de discussões acerca dos caminhos percorridos para que a
História seja construída, desde o acesso às fontes, às reflexões sobre as multiplicidades de suas naturezas,
seu exercício crítico de leitura, interpretação e cruzamento de dados, utilização de bibliografias correlatas,
entre outros aspectos, até a etapa de escrita do fruto da análise de todos estes materiais, na forma de
artigos, dissertações, teses, textos de outras tipologias, e a elaboração do livro didático permitirá ao
estudante a elucidação de alguns de seus questionamentos sobre a disciplina e a redução de obstáculos ao
processo de aprendizagem do conhecimento histórico.

O relato biográfico como fonte e objeto da história: a escrita de Maria Mercedes sobre José
Marcelino de Souza (1887-1917)
RAILTON SOUZA SANTOS (SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO DE SERGIPE)

Resumo: Considerando a importância das fontes históricas para o ofício do historiador, esta comunicação
tem por objetivo tecer uma reflexão teórico-metodológica acerca do uso da narrativa biográfica como
fonte e objeto relevantes para os estudos situados no campo da história política. Para tanto, investiga-se
em que medida Maria Mercedes Lopes de Souza faz uso dos métodos da construção do conhecimento
histórico para recompor a trajetória política de seu pai, José Marcelino de Souza. A autora escreveu três
livros nos quais narra a história do “homem do campo”, bacharel em Direito, deputado geral na Monarquia
e governador da Bahia (1904 – 1908) e, que portanto, foi um sujeito que vivenciou a política baiana do final
do século XIX e dos primeiros anos do século XX.
O início da República na Bahia é marcado pelos atritos entre os interesses individuais, de modo que a
mentalidade provinciana levou a elite política, ao formar seus partidos, à criação de um fechado esquema
ofensivo-defensivo para a tomada do poder, logo, interessa-nos questionar como José Marcelino se

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moveu dentro dessa lógica. Nesse contexto, procuramos também entender de que maneira a escrita da
biógrafa-filha mostra os fatores de coesão e de cisão, a articulação com grupos de interesse e a atuação de
Marcelino junto outros chefes políticos da época, a exemplo de Rui Barbosa, Severino Vieira, Luis Viana e
J.J. Seabra. Podemos afirmar que os livros de Mercedes estão empenhados na construção da memória de
“um estadista quase desconhecido” para inseri-lo no roll de ilustres personalidades “defensoras” da Bahia.

Acervo fotográfico da Casa do Divino: um estudo sobre a rede social estabelecida entre os devotos
ELIZABETH JOHANSEN (UNIVERSIDADE ESTADUAL DE PONTA GROSSA)

Resumo: A Casa do Divino é um lugar de devoção ao Divino existente em Ponta Grossa (PR) desde 1882
quando sua fundadora, Maria Selvarina Julio Xavier, encontrou uma imagem do Espírito Santo. Desde
então, o imóvel que era uma residência foi se transformando em um lugar de devoção. Esta comunicação
analisará o acervo fotográfico da instituição a partir da perspectiva da formação de rede social entre
os devotos. A rede social pressupõe a identificação dos participantes a valores e práticas devocionais
compartilhados que remetem à sociabilidade do grupo, definindo quem são os outros com quem o
devoto se relaciona numa dimensão de identificação e afinidade. As relações não precisam vincular-se a
laços familiares, podem ser multiformes, aproximando participantes diversificados, pois o que os une é a
devoção ao Divino. As relações que se estruturam baseiam-se no conhecimento que os devotos vão tendo
uns dos outros a partir da participação nas atividades religiosas. Scherer-Warren (2006), afirma que nesses
casos a rede se constitui num processo em construção contínua, resultando em múltiplas articulações. As
fotografias deixadas no altar do Divino rogando ou agradecendo bênçãos tanto podem ser interpretadas
como ex-votos, como apresentar elementos da rede social conforme o conteúdo imagético ou o que foi
manuscrito no verso. Imagens de crianças oferecidas por seus pais devotos ou pela mãe/pai em separado
demonstram os nós mais próximos dessa rede: a filiação. Outros graus de parentesco também foram
identificados, como fotos levadas por avós, tias/tios, irmãs/irmãos, referendando a informação de que
a devoção era uma prática transmitida e vivenciada no seio familiar, uma vez que o primeiro contato
que tiveram com a devoção foi por intermédio de parentes próximos. Fotografias de casais também
são comuns no acervo, tanto trajando as roupas da cerimônia do casamento como usando vestuário
cotidiano. Muitas dessas imagens possuem manuscritos que indicam que a mulher ou o homem eram
os devotos, e seu parceiro, não; mas outros retratos demonstram que a devoção era comum a ambos.
Outras relações também ficaram evidentes, como o retratado que escreveu que estava cumprindo uma
promessa feita dezoito anos antes por outra pessoa em prol de sua saúde. Observando os sobrenomes,
vê-se que são distintos, levando a crer a existência de laços, mas não de parentesco, talvez de amizade,
apadrinhamento e/ou de vizinhança. Assim como a imagem em que a menina retratada oferece sua
foto ao Divino, mas solicita a outra pessoa que a entregue, provavelmente porque não residia em Ponta
Grossa. Nesse caso, a rede social atuou inclusive na redução de distâncias espaciais, pois possibilitou que
alguém sem condições de frequentar o local mantivesse sua prática devocional de encaminhar o ex-voto.

Roteiro de Fontes sobre o Mundo Botânico na Bahia Atlântica Colonial (1780-1808): um instrumento
de pesquisa a partir dos Catálogos do Arquivo Histórico Ultramarino – AHU
RODRIGO OSÓRIO PEREIRA (UEFS), WILTON ALVES FERREIRA JÚNIOR (UEFS)

Resumo: Este trabalho objetiva refletir acerca da experiência de elaboração de um Roteiro de Fontes


sobre os usos, saberes e circulação das produções botânicas na Bahia Atlântica Colonial, entre os anos
1780 a 1808, a partir dos catálogos de fontes do Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa – AHU. A partir
da seleção de catálogos com significativa presença de documentos sobre a Bahia, foi realizada uma busca

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sistemática, a partir de critérios pré-estabelecidos, às listas de documentos que traziam alguma referência
em seus títulos (seja por autoria ou por temas) a aspectos do mundo botânico. Como resultado, criamos
um guia de fontes específico – Roteiro – que se constitui em instrumento estratégico aos historiadores
interessados nas ciências coloniais, no trabalho dos funcionários-naturalistas da Bahia, na identificação
de espécies (com interesse potencial de pesquisadores de outras áreas) e muitos outros aspectos. Ao
longo desse processo, refletimos sobre a organização dos catálogos dos AHU, a lógica de constituição das
referências documentais (fundo, série, caixa, documento, título) e as possibilidades de reorganização do
acervo catalogado. A experiência socializada neste trabalho foi realizada como proposta de trabalho de
Iniciação Científica no âmbito do curso de História da Universidade Estadual de Feira de Santana – UEFS.

O corpo das imagens: sobre usos e narrativas nas coleções fotográficas do Museu Afro-brasileiro
da UFBA
ELSON DE ASSIS RABELO (UNIVERSIDADE FEDERAL DO VALE DO SÃO FRANCISCO)

Resumo:  Esta comunicação é resultado parcial de uma pesquisa em andamento sobre as coleções
fotográficas do Museu Afro-brasileiro (MAFRO) da Universidade Federal da Bahia, problematizando os
usos museológicos dados a essas imagens na história da constituição de suas exposições e de sua reserva
técnica. Através do cotejamento entre as imagens doadas ao MAFRO ou adquiridas por sua gestão e seus
diferentes projetos e discursos curatoriais, indagamos se a fotografia é concebida ali como acervo, no
sentido de materialização das culturas africanas e afro-brasileiras, ou se tem funcionado como ilustração
do que efetivamente seria o acervo – isto é, as coleções do que convencionalmente se entende por cultura
material. Em nossa compreensão, essas percepções se desdobram, ainda, nas políticas de preservação
e nas narrativas construídas em torno dos artefatos, com vistas à formação dos diferentes públicos. No
recorte temporal estabelecido desde a criação do museu, em 1974, até o presente, selecionamos para
esta análise imagens que não aparecem para o público produzidas por três fotógrafos relativamente
desconhecidos para o visitante do MAFRO: Bauer Sá, Renato Marcelo e Sílvio Robatto.

Periódico como fonte histórica.


DAYANE CRISTINA GUARNIERI

Resumo: O texto visa discorrer sobre a pesquisa periódica, que a utiliza simultaneamente, como objeto
e fonte. Para isso, o texto promove uma discussão sobre os cuidados e deveres em torno da fonte,
utilizando a análise bibliográfica e considerações práticas da sua aplicação no campo da história.

O historiador-pesquisador, as fontes e o Brasil indígena


FRANCISCO GONÇALVES QUEIROZ PAYAYÁ

Resumo: O estudo deste artigo aborda a necessidade do historiador trabalhar com fontes escritas a
respeito dos povos originários, abordando a semelhança entre história e antropologia, identidade nativa
e miscigenação, as diversas literaturas que possam corroborar para a pesquisa e consciência histórica. O
trabalho de Thiél (2019) corroborou para esclarecer sobre a importância dos escritores indígenas e suas
obras o que caberá ao professor com base neste artigo, proporcionar positivamente seu método de
ensino. Consequentemente, a descolonização e a ruptura do pensamento do senso comum que regem
a sala de aula serão percebidas cotidianamente através do tempo.

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Protagonismo indígena e indigenismo: acervos e fontes para a história (Rio Grande do Sul, 1964-
1985).
ANDRESSA DE RODRIGUES FLORES

Resumo:  A presente comunicação compreende um recorte do projeto de pesquisa que venho


desenvolvendo no Programa de Pós-Graduação em História na Universidade do Vale do Rio dos Sinos
(PPGH/UNISINOS). A pesquisa em questão, tem como tema o protagonismo indígena e a atuação de
indigenistas no período da ditadura militar no Rio Grande do Sul. Sabemos que o avanço de pesquisas
em que a ênfase é o protagonismo das populações indígenas se deve, principalmente, a contribuição
historiográfica de autores, tais como, Almeida (2010), Cunha (1998) e Monteiro (1999), os quais, abordam
o indígena como sujeito atuante na história, uma oposição à ideia de que estes povos teriam sido apenas
vítimas do processo de colonização. Desta forma, sob o aporte teórico da Nova História Indígena, torna-se
fundamental considerar a “perspectiva dos próprios indígenas e colocar em cena suas interpretações da
história, posto que durante muito tempo os pesquisadores se detiveram apenas nos discursos e práticas
sobre eles, ou mesmo reconheciam sua historicidade” (WITTMANN, 2015, p.17). Sendo assim, buscamos
nessa comunicação, trazer o levantamento de fontes disponíveis sobre essa temática dentro do recorte
geográfico e temporal estabelecido. Sabemos que “é preciso conhecer a fundo, ou pelo menos da melhor
maneira possível, a história daquela peça documental que se tem em mãos. Sob quais condições aquele
documento foi redigido? Com que propósito? Por quem?” (BACELLAR, 2005, p. 63). Desta forma, nesta
comunicação, buscamos ressaltar as nove fontes que são utilizadas no projeto de tese, as quais, além de
documentos institucionais, destacamos documentos de cunho jurídico, religiosos e artigos da imprensa
tradicional e alternativa, entre outros. Atentos à observação feita por Bacellar (2005, p. 64), para quem
“ser historiador exige que se desconfie das fontes, das intenções de quem a produziu, somente entendidas
com o olhar crítico e a correta contextualização do documento”, consideramos fundamental, além de
compartilharmos sobre essas fontes, enfatizar suas respectivas problematizações e as perspectivas que
pairam sobre as mesmas.

Os álbuns em vinil como fontes de pesquisa histórica sobre o Carnaval


MILTON ARAUJO MOURA (UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA)

Resumo:  Nas décadas de 70 a 90 do século XX, foram produzidos cerca de 300 álbuns em vinil por
artistas (compositores e intérpretes) ligados direta ou indiretamente ao Carnaval de Salvador. Boa parte
desses álbuns encontra-se também no formato CD. O cotejamento das informações contidas nas capas,
contracapas e encartes desses álbuns, bem como o próprio texto musical de que os álbuns são o suporte,
permite compreender aspectos relevantes do mundo do Carnaval de Salvador. A partir da migração ou
trânsito de artistas entre modelos diferentes, como blocos afro, bandas de trio elétrico ou artistas em
carreira solo, pode-se compreender meandros e atalhos do contexto sociocultural do Carnaval. A partir
dessas descobertas, colocam-se elementos interessantes para a compreensão da trama do Carnaval
como um sistema de práticas em que a cidade se apresenta ao mesmo tempo polarizada e integrada.

Em busca de novos sujeitos: processos-crime como fonte histórica


PRISCILA DE MOURA SOUZA

Resumo:  O estudo apresenta a conflituosa relação do saber médico com as práticas de cura e a
intervenção no cotidiano dos citadinos, a partir da análise de dois processos-crime da década de 1940 na
cidade de Parnaíba-PI. Pretende-se analisar os processos-crime e o desvelar de historicidades distintas,
dando visibilidade a atores sociais diversos, as contradições e as tramas nos quais eles estão envolvidos.

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SESSÃO 02: 22/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

“E as borboletas estão girando Estão virando a sua cabeça”: Gênero e ditadura na República
Dominicana
LINA MARIA BRANDÃO DE ARAS (UFBA)

Resumo:  O estudo da participação feminina na resistência aos Estados autoritários e ditatoriais


tem se tornado frequente nas últimas décadas. A inclusão das relações de gênero e a participação
feminina nesses estudos têm possibilitado novos olhares sobre como se articulam os diversos tipos de
opressões sobre os sujeitos históricos. A publicação da obra “No tempo das borboletas” de autoria de
Julia Alvarez (2001) nos possibilita abrir um fresta para a investigação da ditadura do General Trujillo
na República Dominicana e, com isso, ampliar o olhar para questões de política e gênero no evento
em que Mirabal acabaram mortas. A ditadura na República Dominicana nos obriga a sair dos lugares
de conforto dos estudos e adentrar o Caribe para buscar sua história e das mulheres que ousaram
enfrentar o ditador e seus partidários. As irmãs Mirabal, objeto da obra de Alvarez, nos ajudam a traçar
perfis femininos ao tempo em que aponta para a vida de mulheres inseridas em seu ambiente social
e imbuídas de sentimentos de resistência e contestação a ordem estabelecidas, especialmente, os
valores patriarcais, que sustentam a opressão contra as mulheres em todo o mundo.

Olhar do cotidiano, olhar político: interações cotidianas e íntimas nas CEBs durante a Ditadura
Civil-Militar.
GISELE OLIVEIRA DE LIMA (INSTITUTO FEDERAL DE ALAGOAS)

Resumo: O presente trabalho pretende discutir sobre as interações cotidianas e íntimas, principalmente
entre as pessoas que não ocupam nenhum cargo representativo ou autoridade legitimada. Baseio-me
em María Lugones, onde aponta sobre a importância da relação subjetiva e intersubjetiva de libertação
seja no processo de adaptação ou oposição. Segundo Lugones, a subjetividade que resiste se expressa
muito mais vezes infrapoliticamente, ao invés de uma política do público. A partir desta perspectiva
teórica, este trabalho irá iniciar a análise sobre a relação subjetiva e intersubjetiva de mulheres que
atuaram nas Comunidades Eclesiais de Base - CEB na periferia de Salvador durante a Ditadura Civil-
Militar. Estas entrevistas foram coletadas durante o doutorado, que tinha como foco a atuação política
de um sacerdote que foi uma importante liderança religiosa nas CEBs na capital baiana. As entrevistas
destas mulheres nortearam o trabalho deste pároco, no entanto acabam revelando muito sobre esta
relação subjetiva e intersubjetiva de libertação expressada nas interações cotidianas e íntimas. Diante
disto, a História Oral se mostra como um rico caminho onde pode tornar visível algo inicialmente
subjetivo, demonstrando-se um campo importante e múltiplo de exploração para História e para
Historiografia.

História e memória no Conselho Estadual de Cultura da Bahia através dos calendários culturais
(1968-1985)
ANSELMO FERREIRA MACHADO CARVALHO (INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E
TECNOLOGIA SERGIPE)

Resumo: O presente artigo investiga as noções de história e memória refletidas nas ações do Conselho
Estadual de Cultura da Bahia (CEC). Busca compreender qual passado o CEC quer lembrar e como ele é
recomposto ao ativar memórias da Bahia. Dessa forma, analisa a política de memória do CEC e centra

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o foco nos Calendários Culturais baianos, elaborados pelos conselheiros de cultura— intelectuais de
prestígio na Bahia, boa parte deles, membros do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB) e da
Academia de Letras (ALB). Os calendários eram lugares de memória e, ao mesmo tempo, portadores de
uma memória cultural das elites pretéritas baianas vivificadas através da ação do CEC. Os referenciais
teóricos que embasam o artigo são referendados em NORA(1993) e ASSMANN (2011) na medida em
que auxiliam interpretar os usos e construções das memórias nessa instituição cultural

O intelectual Ernesto Simões Filho


LUANA MOURA QUADROS CARVALHO

Resumo: Os dias que se sucederam à morte de Ernesto Simões Filho (1886-1957) causaram grande
comoção em órgãos de imprensa do Rio de Janeiro e de Salvador. Naquelas condolências e homenagens
prestadas, reunidas em livro publicado, em 1958, sob o título “Simões Filho: in memorian”, foram
enaltecidas as atuações de Simões Filho como jornalista, que modernizou a imprensa na Bahia por meio
do A Tarde, criado por ele em 1912, e como político que devotava um grande amor à sua terra natal.
Dos sessenta e um textos apresentados, sua maioria foram escritos por políticos, poetas, romancistas
e jornalistas, pessoas que, de algum modo, pertenciam a mesma rede de sociabilidade e, até mesmo,
tinham vínculos afetivos com o homenageado. Talvez se possa dizer que o traço comum entre eles
seja o pertencimento a um quadro de intelectuais da época, tanto no aspecto sociocultural, como no
engajamento de ideias e no cotidiano da esfera política, como ensinou Jean-François Sirinelli (2003).
Desse modo, o objetivo dessa comunicação é utilizar os depoimentos da coletânea como fonte histórica
de modo que permitam, para além do saudosismo existente nos textos, problematizar a pessoa de
Simões Filho como um intelectual da época que, inserido nesta rede de sociabilidade, gravitou entre
contextos políticos que nem sempre lhe foi favorável, mas que não se furtou a se utilizar de tom
combativo para se expressar. Para isso, buscou-se traçar um breve perfil dos sujeitos que escrevem
sobre Simões Filho e, ainda, estabelecer que relação direta ou indireta existiu entre eles.

O mundo gráfico de Carvalho Déda: a ilustração humorística no semanário sergipano A Semana


1959-1968.
AMANDA DE OLIVEIRA SANTOS

Resumo:  O uso da iconografia no campo historiográfico, já conquistou uma ampla dimensão, na


qual os desenhos gráficos, como charges, caricaturas, cartuns e HQ’s, são utilizados como fontes. O
presente estudo tem como objetivo abordar a atuação jornalística do político José de Carvalho Déda
no processo de confecção de charges e caricaturas no semanário sergipano A Semana, no período de
1959-1968, explorando as relações e intenções ideológicas contidas nos desenhos gráficos, todas elas
confeccionadas através da técnica da xilogravura, no qual destacam diversas críticas, sobre o campo
político, cultural, econômico e social, da sociedade sergipana. Para o desenvolvimento da pesquisa,
além das charges e caricaturas, foi utilizado um corpus documental diversificado, como jornais, cartas,
discursos, mapas, entrevistas, documentários, fotografias e livros. No âmbito metodológico, a pesquisa
contou com a análise exploratória e qualitativa do acervo de fontes. Todo esse suporte serviu para
situar o trabalho de Carvalho Déda nos embates políticos da época, destacando-se em temas como a
reforma agrária e os direitos sociais em um momento de radicalização política em Sergipe e no Brasil.

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A “escrita de si” e sua contribuição para a historiografia: o trabalho com o acervo epistolar do
pintor Candido Portinari
ANA CAROLINA MACHADO ARÊDES (UFES)

Resumo:  Este trabalho trata das correspondências do acervo pessoal do pintor Candido Portinari
tanto como fontes historiográficas, quanto como objeto de estudo metodológico. Portinari foi um
importante artista brasileiro que atuou principalmente no período do primeiro governo de Getúlio
Vargas, época marcada pelo intenso mecenato estatal. Vargas ficou conhecido como um presidente
conciliador e hábil, capaz de reunir em torno do seu governo políticos, artistas e intelectuais das mais
variadas correntes de pensamento. Portinari participou ativamente desta gestão, realizando inúmeros
trabalhos para o Estado. Suas obras, de acentuado teor social e nacionalista, apareciam como as mais
apropriadas para endossar o caráter patriótico que era almejado pelo governo autoritário naquele
momento. Cabe ressaltar, que Portinari nutria uma simpatia pela esquerda comunista, tanto que se
filiou ao PCB após o Estado Novo, em 1945. No entanto, seu posicionamento político não impediu que
o artista participasse de um Estado de exceção. Assim como Portinari, outros artistas e intelectuais
contrários às ideologias do regime se relacionaram com o governo naquele momento, confeccionando
trabalhos ou diretamente empregados nas fileiras burocráticas. O Estado, por sua vez, entendia o
incentivo à arte e à cultura como necessário para fortalecer o Brasil como nação. As correspondências
trocadas entre Portinari e seu importante círculo de amizades epistolares são, dessa forma, capazes de
revelar muitos aspectos sobre os bastidores desse importante momento da política cultural brasileira.
As cartas compõem o que foi denominado de “escrita de si” pelo filósofo Michel Foucault. A “escrita de
si” engloba aquilo que concerne à produção de si, tal como autobiografias, diários íntimos, memórias,
anotações, correspondências, entre outros. As cartas do acervo pessoal de Portinari proporcionam ao
pesquisador uma boa noção do que estava em voga no círculo artístico e intelectual da época, assim
como são capazes de demonstrar os modos de produção de si do seu autor. Portanto, esta pesquisa
busca contribuir tanto para o estudo da produção de si e do uso metodológico das cartas como fontes
históricas, assim como almeja o entendimento da participação do pintor Portinari no Estado Varguista.

Produção agrária no sertão do São Francisco: a economia do catado e sua diversidade no século
XIX
RAFAEL SANCHO CARVALHO DA SILVA (UNIVERSIDADE FEDERAL DO OESTE DA BAHIA)

Resumo:  A diversidade produtiva no sertão do Rio São Francisco aponta para uma economia
diversificada com variedade na agricultura e extrativismo. A pecuária era a principal produção, mas isso
não anulou o ecletismo produtivo definido como “catado” que demonstra uma economia que não era
especializada. O propósito da presente comunicação é de debater a variedade produtiva da economia
do “catado” no sertão do São Francisco. Para isso, foi utilizado como fontes as correspondências de
autoridades como juízes e câmara de vereadores de Santa Rita do Rio Preto, Campo Largo e Barra
do Rio Grande. Além das correspondências das autoridades, também foram consultados relatórios
de viajantes e intelectuais oitocentistas como Henrique Halfeld e Ignacio Accioli Cerqueira e Silva.
Os limites técnico-tecnológicos eram empecilhos constatados por autoridades e intelectuais que
apontavam caminhos para reverter este problema e dinamizar as relações econômicas. Alguns desses
produtos eram de circulação restrita enquanto outros eram comercializados nos portos ao longo do rio
São Francisco. A partir da observação da economia do catado podemos notar as conexões mercantis

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do sertão do São Francisco com outras regiões da Bahia e, até mesmo, fora da província.

“Sob a pena da lei”: Mulheres sertanejas diante das leis criminais republicanas (Caetité, 1890-
1945)
MILEIA SANTOS ALMEIDA (PREFEITURA MUNICIPAL DE CAETITÉ)

Resumo: A análise das histórias de criminalização e resistência das mulheres de classes mais pobres
em Caetité, por meio de fragmentos de suas experiências que atravessaram as cinco décadas e meia
compreendidas por este estudo, implica a problematização dos instrumentos legais empregados
com o intuito de moralização, controle e punição desses sujeitos. Essas mulheres, cujas estratégias
de sobrevivência e práticas cotidianas não se enquadravam nas normas morais de comportamento
feminino da época, representavam uma ameaça ao projeto de ordem e civilidade das elites republicanas
caetiteenses, propagandeado naqueles sertões baianos, em que aspiravam a uma modernidade que
nem sempre correspondia aos seus anseios. A precoce aprovação de um conjunto de leis penais estava
relacionada ao projeto de controle e punição da população mais pobre, gestado ainda no Império, e
implementado sob os ares de “ordem e progresso” ditados pelo discurso de modernização das elites
republicanas. Elites essas, que detinham o poderio econômico e político, e cujo poder intelectual
amparava-se, sobretudo, nos saberes médico e jurídico, alicerces para a elaboração das novas leis.
No que se refere as mulheres, a interferência maior do estado em questões de âmbito privado,
empregando conceitos como “honra e moralidade”, revelava diversas facetas, desde a imposição de
modelos ideais de feminilidade ao controle sobre seu comportamento e sexualidade. Ainda que o
alvo dessa “moralização” fosse principalmente a família de uma forma geral, enquanto instituição
que garantiria a concretização do projeto de civilidade republicano, aqueles sujeitos e grupos sociais
que escapassem desses papéis normativos e caíssem nas malhas da lei, tornavam-se alvo do controle
jurídico. As mulheres pobres e negras, seja por explícita resistência ou por necessária sobrevivência,
subvertiam essas legislações e, muitas vezes, utilizavam-se delas em suas táticas cotidianas, o que é
possível percebermos nos meandros dos processos judiciais.

SESSÃO 03: 23/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

Com Açúcar e Com afeto: a viuvez vivenciada por D. Lola em Éramos Seis.
SILMÁRIA SOUZA BRANDÃO (COLEGIO ESTADUAL LEOPOLDO DOS REIS)

Resumo: A presente comunicação tem por objetivo discutir as nuances da viuvez feminina retratada
no romance de Maria José Dupré, “Éramos Seis”, ambientado em São Paulo entre 1920 e 1940,
retratando a sociedade local e as alterações urbanas que se processam ao longo dessas décadas. A
trama referida já foi retratada em telenovelas exibidas em momentos diversos, com adaptações a
cada nova versão. Interessou-nos na história várias vezes exibida na televisão, a viuvez da personagem
Lola, cujo rosto, gestos e sentimentos tomaram vida na interpretação de Glória Pires (2020), nesta
última edição. O enredo desenvolvido de maneira lenta pela autora vai apresentando, aos poucos,
personagens complexas, em que o universo de sentimentos e estratégias femininas se desenrolam de
maneira criativa e envolvente, em especial a partir do momento em que ocorre a viuvez da personagem
Lola. Com uma família numerosa, cheia de conflitos e vivenciando grandes dificuldades financeiras,
acentuam-se as questões relacionadas ao gênero, classe e geração. As tristezas, alegrias e vitórias de

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D. Lola são dignas do sucesso que a história alcançou e que se presta a nosso objeto de estudo, posto
que poucas são as fontes para esboçar a viuvez feminina no Brasil republicano. Ressalte-se que a licença
poética, a fidelidade ou não da telenovela ao texto original, em nada reduz o brilho da saga da viúva
que encontra no doce do açúcar uma maneira de se reinventar para sustentar a prole ainda jovem e
dependente de suporte financeiro, transfigurando-se como sustentáculo da família e protagonista de
sua trajetória. Nos doces produzidos por D. Lola abre-se o caminho do suor, da luta da resistência, do
recomeço e do amor. Apresento esse texto a todos que enxergam na literatura uma fonte permanente
para a História em diálogo com as relações de gênero, classe e geração, trazendo reflexões do que
somos como mulheres, mães e senhoras dos nossos sonhos.

Com Açúcar e Com afeto: a viuvez vivenciada por D. Lola em Éramos Seis.
SILMÁRIA SOUZA BRANDÃO (COLEGIO ESTADUAL LEOPOLDO DOS REIS)

Resumo: A presente comunicação tem por objetivo discutir as nuances da viuvez feminina retratada
no romance de Maria José Dupré, “Éramos Seis”, ambientado em São Paulo entre 1920 e 1940,
retratando a sociedade local e as alterações urbanas que se processam ao longo dessas décadas. A
trama referida já foi retratada em telenovelas exibidas em momentos diversos, com adaptações a
cada nova versão. Interessou-nos na história várias vezes exibida na televisão, a viuvez da personagem
Lola, cujo rosto, gestos e sentimentos tomaram vida na interpretação de Glória Pires (2020), nesta
última edição. O enredo desenvolvido de maneira lenta pela autora vai apresentando, aos poucos,
personagens complexas, em que o universo de sentimentos e estratégias femininas se desenrolam de
maneira criativa e envolvente, em especial a partir do momento em que ocorre a viuvez da personagem
Lola. Com uma família numerosa, cheia de conflitos e vivenciando grandes dificuldades financeiras,
acentuam-se as questões relacionadas ao gênero, classe e geração. As tristezas, alegrias e vitórias
de D. Lola são dignas do sucesso que a história alcançou e que se presta a nosso objeto de estudo,
posto que poucas são as fontes para esboçar a viuvez feminina no Brasil republicano. Ressalte-se
que a licença poética, a fidelidade ou não da telenovela ao texto original, em nada reduz o brilho da
saga da viúva que encontra no doce do açúcar uma maneira de se reinventar para sustentar a prole
ainda jovem e dependente de suporte financeiro, transfigurando-se como sustentáculo da família e
protagonista de sua trajetória. Nos doces produzidos por D. Lola abre-se o caminho do suor, da luta
da resistência, do recomeço e do amor. Apresento esse texto a todos que enxergam na literatura uma
fonte permanente para a História em diálogo com as relações de gênero, classe e geração, trazendo
reflexões do que somos como mulheres, mães e senhoras dos nossos sonhos.

Uma Bahia em revista ou a história dos e nos periódicos ilustrados de Salvador nos séculos XIX e
XX
HENRIQUE SENA DOS SANTOS (UNIVERSIDADE FEDERAL DO RECÔNCAVO DA BAHIA)

Resumo: Esta comunicação visa apresentar algumas possibilidades de pensar a história de Salvador e da


sua imprensa através das revistas ilustradas que foram editadas e que circularam naquela cidade entre
o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Neste período, aquela cidade experimentou
um gradativo processo de modernização da sua imprensa, seja através da profissionalização do campo
com a implementação de novos profissionais e técnicas de produção, edição e circulação dos periódicos,
ou com o processo de segmentação e diversificação com o surgimento de impressos voltados para
temáticas variadas e específicas. É neste contexto que surgem as revistas ilustradas que foram as que

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melhor traduziram os avanços tecnológicos do período. Seus editores passaram a estampar em suas
páginas reportagens fotográficas, imagens, contos, crônicas, propagandas, passatempos, artigos,
notícias, colunas e outros gêneros jornalísticos que fizeram desses impressos um amplo espaço de
divulgação e discussão das mais variadas temáticas possíveis. Não tão imediatas como os jornais,
tampouco densas como os livros, as revistas ilustradas, especialmente as de variedades, ao se situarem
em um meio termo no mundo dos impressos, permitiram que jornalistas, poetas, cronistas, fotógrafos,
caricaturistas experimentassem, na produção de texto e imagem, novos recursos gráficos e literários,
compartilhando dialogicamente com os leitores novas formas de ser e estar no mundo. Entretanto, a
despeito da riqueza desse material, na historiografia baiana as revistas ilustradas ainda não receberam
uma atenção mais aprofundada. Na maioria dos casos, esses impressos têm assumido uma função de
fonte auxiliar na pesquisa histórica. São poucos os trabalhos que os tem como fonte principal e mais
raros ainda são as pesquisas que os mobilizam como objeto de pesquisa. Diante deste cenário, esta
comunicação busca sugerir possibilidades de pensar as revistas ilustradas na investigação histórica,
considerando-as como fonte e, sobretudo, objeto. Para tanto, pretendemos fazer dois movimentos.
Inicialmente centraremos esforços na tentativa de periodização das revistas ilustradas de Salvador.
A intenção é apresentar alguns dos principais periódicos do período situando-os em um contexto
maior de emergência e desenvolvimento da imprensa da cidade e do país. Em seguida, a partir das
revistas citadas, levantaremos algumas possibilidades pesquisa levando em conta as temáticas, textos
e imagens presentes nestes periódicos. À guisa de conclusão, esperamos que esta comunicação possa
contribuir para o fomento de um campo de pesquisa sobre a história da imprensa ilustrada na Bahia
que, embora não tão desenvolvido quanto outros estados do Brasil, pode frutificar, estando apenas a
espera de novos pesquisadores.

A VOZ DE UM APÓSTOLO EM MEIO AS TRAMAS DO TEMPO: Jornal O Apóstolo Na Imprensa


Católica Piauiense Do Nascente Século XX (1907-1912)
BIANCA MOURA DA SILVA (ESCOLA NOSSA SENHORA DO AMPARO)

Resumo: No ano de 1907, a recém-criada Diocese do Piauí, instalou um órgão de imprensa denominado
O Apóstolo. O periódico surge, na sociedade católica piauiense, como o principal instrumento, dentre
o conjunto de práticas ultramontanas, adotadas na região, com a intenção de vociferar as ideias
reformistas da instituição. O jornal, durante um considerável período, publicou em suas páginas,
artigos estritamente ligados aos interesses clericais, que tinham no Ultramontanismo seu norte
ideológico. Assim, divulgava as ações do Bispo, bem como artigos com caráter prescritivo, construindo
discursivamente, modelos de vida familiar, de vivência da fé e da espiritualidade, da necessidade de
frequência aos sacramentos, bem como de enaltecimento de modelos educacionais, presentes nas
escolas confessionais, e que eram apontados como adequados para o fortalecimento das práticas de
boa formação escolar para jovens católicos. No entanto, mesmo com a premissa suprema de manter-
se longe dos interesses político partidários, a Igreja Católica no Piauí, e consequentemente, seu
principal órgão de imprensa, diante de acalorados debates políticos presentes na sociedade, enviesa à
uma tendência partidária. Dessa forma, podemos perceber, nas páginas d’O Apóstolo, que o periódico
diocesano passa a emitir artigos, majoritariamente políticos, assumindo um reformulado perfil
editorial, que, por fim, desagua em desavenças políticas e no empastelamento do mesmo no ano de
1912. A pretensão da pesquisa é perceber como se dão tais mudanças no jornal, e como a instituição
católica responde ao cenário do início do século XX, que transpira tensões político partidárias.
Tomamos os autores Nelson Werneck Sodré e Tania Regina De Luca, como base teórica para a análise,
no que se refere aos diálogos entre a história e a imprensa. Bem como autores que tratam das

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práticas cotidianas e das instituições católicas no Piauí, para auxiliar na compreensão dos discursos
reformistas e das práticas católicas. Na análise damos visibilidade às intencionalidades expressas, nas
colunas do jornal, nos devidos contextos ideológico e político em que estavam inseridos, analisamos
os embates discursivos presentes no periódico, discorrendo sobre as publicações, os autores e os
textos, e, conferindo aos devidos espaços contextuais da época, nesse exercício, somos amparados
pelas reflexões de Michel de Certeau, quando afirma ser possível perceber que os discursos não são
neutros nem desinteressados, mas que todo saber obedece a normas de produção que o justificam.

Implantação do Arquivo Histórico do Judiciário de Ilhéus


CARLOS ALBERTO DE OLIVEIRA (UNIVERSIDADE ESTADUAL DE SANTA CRUZ)

Resumo: A presente comunicação busca sumariar o processo de Implantação do Arquivo Histórico


do Judiciário de Ilhéus, tendo como marco fundamental a Assinatura do Convênio de Cooperação
celebrado entre o Tribunal de Justiça do Estado da Bahia e a Universidade Estadual de Santa Cruz.
O Convênio de Cooperação foi publicado no Diário de Justiça Eletrônico do TJBA em 22 de Julho de
2019, sob número 43/19 – C. Ao longo do ano de 2018, tivemos acesso aos Documentos do Judiciário
de Ilhéus, guardados em imóvel locado pelo Fórum de Ilhéus, localizado nas proximidades do Terminal
Urbano de Ilhéus. Na oportunidade, verificamos a presença de uma variedade de processos, cíveis
e criminais, com data de meados do Século XIX, até os primeiros anos do Século XXI. Desnecessário
informar que majoritariamente mal acondicionados e sem qualquer identificação sistemática.
Ainda em 2018, com um grupo de discentes do Curso de História, matriculados na disciplina
Organização dos Arquivos Municipais, iniciamos um levantamento do potencial dos Documentos,
procedendo a uma separação básica: Cível ou Crime e Década. Já em 2019, com a mudança da Direção
do Fórum de Ilhéus, iniciamos a discussão de uma Parceria – Celebração de Convênio, aos moldes
dos estabelecidos com outras IES – UNEB, UEFS, UESB e UFRB. Celebrado no final de Julho de 2019,
o Convênio possibilitou e exigiu a organização de grupos de trabalho, sob a Supervisão Técnica do
Centro de Documentação e Memória Regional (CEDOC – UESC), formado por discentes dos Cursos de
História e Direito. Sendo que ao final do segundo semestre acadêmico de 2019 (Fevereiro de 2020),
todos os Documentos foram transferidos do Imóvel locado pelo Fórum de Ilhéus para as Instalações do
Antigo Instituto do Cacau da Bahia, mantido do pela Universidade Estadual de Santa Cruz, localizado
no Centro de Ilhéus. Mesmo sem ter sido feita uma identificação criteriosa, foi possível proceder à
higienização e acondicionamento em 1198 Caixas, onde os Processos são identificados por Décadas.
No estágio atual, as atividades de identificação, já no novo espaço, encontram-se suspensas em função
da Pandemia do COVID-19. Mesmo que preliminarmente, identificamos a possibilidade de, uma vez
efetivada a Implantação do Arquivo Histórico do Judiciário de Ilhéus, serem desenvolvidas pesquisas,
sobretudo nos campos da História e do Direito.

Belmonte, sua gente e afins: a cidade impressa em fontes oficiais


MARIA SANDRA DA GAMA (UNEB)

Resumo:  Na presente comunicação o foco principal é a apresentação do projeto de extensão que


compõe parte de minhas atividades na docência no DCHT/XVIII da Universidade do Estado da Bahia.
O projeto está em andamento e tem como objetivo maior lidar com documentação de instituições
sediadas na cidade de Belmonte-BA, ou seja, organização de acervo de fontes impressas de uma
pequena cidade litorânea da microrregião, hoje, denominada de Extremo Sul do estado. As fontes
tratadas até agora são os jornais institucionais da prefeitura do referido município, jornais esses

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produzidos pela mesma tipografia/gráfica, o material recebeu duas denominações ao longo de seu
transcurso, vigente entre os anos 1938 a 1997, a saber: Jornal Oficial e Boletim Oficial de Belmonte.
Ao longo de suas páginas há registros de código de postura, sentenças jurídicas, anúncios, informações
sobre educação e construções de prédios escolares, prestação de contas, notas de nascimento,
casamento e falecimento e ainda notícias sobre acontecimentos no Brasil e no mundo, entre outros.
Tais registros são de suma importância para o campo da pesquisa em História – e também para outras
áreas do conhecimento –, em especial, por que eles contêm dados para investigação a respeito dos
moradores da cidade e de outros lugares em seu entorno. Graças à parceria com Secretaria de Cultura
e Turismo de Belmonte foi possível recolhermos o material para o campus para execução das etapas
metodológicas de: higienização, organização e catalogação do material. A etapa da digitalização da
documentação encontra-se em processo. Ao fim da referida etapa se pretende disponibilizar tal acervo
para os estudos historiográficos a serem realizados no curso de História, bem como para os estudos
realizados pelos atores do curso de Letras e ainda para consulta dos estudantes e pesquisadores
que frequentam a Biblioteca Municipal Sosígenes Costa em Belmonte, uma vez que o material será
digitalizado em CD/DVD. O fato da inexistência de arquivo público na cidade de Eunápolis e/ou em
outras, cujos estudantes estão no raio de extensão do campus XVIII – como a cidade de Belmonte
–, não é o único, mas é fator importante para justificar a relevância de tal atividade, pois ela permite
a democratização da herança de parte de um passado comum para as pessoas oriundas desses
lugares, assim como para os forasteiros que se instalaram por ali décadas depois e, que, são ávidos por
construírem “raízes”, vínculos, conexões com suas novas moradas.

“Lembrar-se é ter uma lembrança ou ir em busca de uma lembrança”: Coletânea de entrevistas


dos/as moradores de São João do Paraíso-Mascote Bahia.
LUCIARA SANTOS DOS ANJOS

Resumo: A presente comunicação é fruto da pesquisa em andamento para o trabalho de conclusão


de curso o TCC, no qual ambiciono, a partir do mesmo, a produção de novas fontes, pois o objetivo
é elaborar um acervo sobre as memórias de alguns moradores e moradoras de São João do Paraíso
Mascote-Bahia a partir das fontes orais, tendo como fio condutor suas trajetórias antes e depois da
chegada ao lugar, identificando as particularidades socioculturais do distrito. O marco espacial dessa
pesquisa será o lugarejo em que morei uma longa parte da minha vida, o distrito de São João do
Paraíso, localizado às margens da BR 101, na altura do KM 616, pertencente ao município de Mascote.
Demarquei 1970 como marco inicial por ser o ano em que aproximadamente começa a formação
do povoado e a 1986 ou 1988 período relatado em que, possivelmente, alguns dos entrevistados
chegaram ao ainda povoado. Essa pesquisa é relevante por trazer à tona o cotidiano das pessoas
de um pequeno distrito, que não possui documentos escritos acerca da sua formação/organização
política, mas sim, na memória de seus moradores. Até aqui realizei mapeamento de alguns ofícios:
como comércio informal, varejo (feirantes, donos (as) de vendas), aguadeiros, lavagem de roupas,
professoras, trabalhadores (as) rurais. Eis que me lancei na tarefa de realizar o convite a alguns
moradores para participar da pesquisa, logrando êxito, iniciei as entrevistas, das quais parafraseio aqui
trechos da cessão de entrevista realizada com a lavadeira de ganho Guiomar Lima, sobre sua chegada
a Paraíso e seu ofício: “devido à proximidade de onde morava para Paraíso, ouvia falar de um lugar
que estava começando, por causa das fazendas de cacau das redondezas, e também pela feira-livre
que diziam encontrar de tudo, parecia uma oportunidade de batalhar por emprego”, assim a lavadeira
Guiomar Lima e sua família foram morar em Paraíso onde trabalhou por 21 anos na lavagem de roupas,
deixando o ofício quando se aposentou. (Lima, Guiomar. Entrevista cedida a Luciara dos Anjos em 30

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de maio de 2019). O estudo em desenvolvimento se pauta na metodologia da história oral em que a
entrevista é o momento dessa efetivação, a partir do aporte teórico da metodologia da História Oral,
Verena Alberti (2004). Para o conceito de memória dialogo com os autores: Michael Pollak (1989), Paul
Ricoeur (2007), Bosi (1994), Le Goff (1990). Aqui será mobilizada também a noção de escrevivência
de Conceição Evaristo (2006), nos três elementos formadores: corpo, condição e experiência. Em face
da exposição dos recursos e percursos empreendidos nesta pesquisa esforço-me para avançar na
efetivação da coletânea de fontes cumprindo os requisitos para adquirir o grau de Licenciatura Plena
em História, para além de cumprir com uma função social.

O Correio de Bomfim (1920) e os projetos de modernização das elites sertanejas.


ALOÍSIO SANTOS DA CUNHA (INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO DO MARANHÃO)

Resumo:  A presente comunicação objetiva discutir o papel da imprensa interiorana na difusão


dos interesses de classe das elites da cidade de Senhor do Bonfim, Norte da Bahia, bem como os
ideais de civilização e progresso deste grupo. Através do semanário Correio do Bomfim, estes
indivíduos buscaram pôr em marcha um processo de modernização da região, objetivando uma nova
territorialização, processo este centrado na cidade e cujo maior símbolo era a abertura de uma estrada
de rodagem para a então vila do Uauá, 150 quilômetros a leste da sede municipal de Bonfim. No
discurso do jornal, a obra, que na prática beneficiaria em larga medida aos grupos detentores do poder
que a construíram, é colocada como um projeto em prol da região e do seu desenvolvimento. Também
se discutem questões teóricas e metodológicas acerca do uso da imprensa como fonte historiográfica,
notadamente no que concerne aos pequenos jornais do interior.

TUNGSTÊNIO: os aspectos de uma Salvador desenhada por Marcello Quintanilha.


MAILANE ALMEIDA BATISTA

Resumo: Esta comunicação tem como base uma pesquisa em andamento, se trata do meu Trabalho
de conclusão de curso sobre a obra literária intitulada Tungstênio de Marcello Quintanilha publicado
em 2014 pela editora Veneta. Quintanilha é um quadrinista brasileiro, teve sua primeira graphic
novel publicada em 1999, uma história baseada na vida de seu pai, que era jogador de futebol no
Rio de Janeiro em 1950. No Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte conheceu o
francês François Boucq que se interessou por seu trabalho e convenceu-o a enviar seus desenhos para
editoras europeias. Assinou contrato com uma editora Belga que o levou a mudar para Barcelona
para ficar mais próximo dos roteiristas, ao mesmo tempo, continuou produzindo álbuns para o público
brasileiro. Tungstênio narra uma história que se passa na cidade de Salvador tendo como fio condutor
um crime ambiental, envolvendo quatro personagens, Marcos Vinícios (vulgo Caju) um traficante, Sr.
Ney um ex-sargento, Richard um policial e sua mulher Keira que têm sérias dúvidas sobre continuar seu
casamento. A pesquisa tem por objetivo analisar a graphic novel e alcançar as intenções de Quintanilha
ao escolher o jogo de traços e ângulos para inscrição dos desenhos. Assim, é de suma importância
investigar o contexto da criação do autor e se a obra aponta evidências do momento histórico vivido
por ele, seguindo na perspectiva de que a mesma é uma fonte que permitirá entender questões da
sociedade humana. No presente trabalho, com base no estudo da iconografia e, principalmente,
análise do discurso dos quadrinhos Ramos (2018), utilizando da análise de biografia e autobiografia
conforme os respectivos autores Levi (2006) e Alberti (1991), busco analisar as imagens, linguagens
e discurso do autor para alcançar a escolha e intencionalidade de Marcelo Quintanilha ao retratar a
cidade de Salvador em sua obra e como os elementos e personagens-sujeitos foram distribuídos nas
imagens, atentando-me aos significados ali colocados nos quadrinhos.

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SESSÃO 01: 21/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

Representações de governos autoritários no mangá One Piece e seu uso em sala de aula
LARA DANIELLE BARBOSA OLIVEIRA SILVA (UNIJORGE)

Resumo: O presente artigo analisa o mangá One Piece do autor Echiiro Oda e suas representações
de autoritarismo a luz do debate entre estudiosos do tema. A partir de diferentes concepções,
características acentuadas do autoritarismo durante a história são apresentadas e comparadas com
a ficção construída pelo autor, tais como elitismo e coesão social, estabelecendo diálogos históricos
e pedagógicos entre a ficção e realidade autoritária do mundo. Este trabalho também conta com
considerações acerca da importância e dos desafios que o professor que deseja trabalhar com
mangás em sala de aula irá enfrentar, além da legislação que o apóia, fornecendo um respaldo para a
transformação de One Piece em uma ferramenta pedagógica dentro da aula de história.

Samba e Pensamento Afro-Brasileiro nas décadas de 1930-1950


ALESSANDRA CARVALHO DA CRUZ (UCSAL - UNIVERSIDADE CATÓLICA DO SALVADOR)

Resumo:  Esse artigo busca refletir sobre a importância do samba na elaboração dos principais
projetos de identidade cultural que estavam sendo produzidos no contexto das décadas de 1930 a
1950, pelo modernismo musical e pelos ideólogos do Estado Novo . É nessa perspectiva que o samba
figura nas páginas da revista Cultura Política, dos artigos analisados no período de 1941 a 1945 é
possível perceber claramente a importância que as seções de “Música” e “Rádio” dão à veiculação de
sambas nas emissoras de radiodifusão e a consequente penetração de seus valores na formação das
massas como um problema político emergencial, já que este se colocava como um potencial “inimigo”
da ideologia trabalhista do regime. A partir daí busca-se confrontar esses discursos com a perspectiva
de uma cultura popular autônoma, que expressava nas rodas de Salvador e nas canções de sambistas
como Batatinha e Riachão, expectativas e necessidades absolutamente próprias. Nas narrativas de
Riachão e Batatinha vão se delineando os elementos definidores de uma tradição oral e musical que se
expressava na sua capacidade de incorporar as demandas do tempo, identificar interesses antagônicos
e preencher as canções de versos que representam a realidade vivida pelas comunidades afro-
brasileiras. Nas letras dos sambas os sambistas cantaram as expectativas do povo pobre de Salvador
em relação ao mundo, ao Carnaval e principalmente ao trabalho. Seleciono as que tematizando as
questões do cotidiano deixaram indícios de uma história que esse artigo pretende escutar.

“Amar, verbo intransitivo”: a burrice paulista específica em 1969


VICTOR SANTOS VIGNERON DE LA JOUSSELANDIÈRE (ESCOLA LOURENÇO CASTANHO)

Resumo:  No fim dos anos 1960, o crítico Paulo Emílio Salles Gomes escreveu duas adaptações
cinematográficas de “Amar, verbo intransitivo”, de Mário de Andrade. O romance permitiu a Salles
Gomes aprofundar sua produção ficcional, que já contava com os roteiros “Dina do cavalo branco”
(1962), “Capitu” (1966) e “Memória de Helena” (1967); ao longo dos anos 1970 o autor ainda produziria
as novelas “Três mulheres de três PPPês” (escritas em 1973) e “Cemitério” (escrito entre 1973 e
1976). Considerando a posição de “Amar, verbo intransitivo” nessa trajetória, o objetivo é analisar a
articulação desse projeto com a atuação política do autor após o Golpe de 1964. A participação na
demissão coletiva de docentes da Universidade de Brasília (1965) e a suspensão de sua contribuição

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em “A Gazeta” (1968) levaram o crítico a buscar alternativas, dentre as quais se destaca o investimento
ficcional em sua escrita. Esse movimento não inclui apenas o material já citado, mas a multiplicação
de estratégias narrativas (anedotas, digressões, o uso do palavrão etc.) em contextos acadêmicos.
Estratégias que marcam cada vez mais a presença do autor no texto. É nesse sentido que, na Versão
II de “Amar, verbo intransitivo”, Salles Gomes inclui um conjunto novo de personagens, como Oswald
e Raul Morais. A inclusão do autor (Mário Raul de Morais Andrade) no texto marca uma reflexão
sobre a produção da narrativa e sobre o papel do intelectual. De forma ampla é possível afirmar que
esse movimento no interior da obra de Salles Gomes se assemelha à produção fílmica da época que
repassa os dilemas dos intelectuais evidenciados pelo golpe, como ocorre em “O desafio” (1965, dir.
Paulo César Saraceni) e “Terra em transe” (1967, dir. Glauber Rocha). No entanto, o trabalho de Salles
Gomes é marcado por algumas peculiaridades. Em primeiro lugar, as modulações da vinculação com
o presente se dão de forma paulatina em sua ficção: são muito discretas no Segundo Império de
“Capitu”; insinuam-se genericamente no prognóstico de Raul Morais sobre a São Paulo dos anos 1960
(“uma grande... BOSTA”); concretizam-se nas menções à tortura na produção poética de início dos anos
1970 (“Tortuto”; “Paris 1944 curvou-se ante São Paulo 1970”), em “Três mulheres de três PPPês” e
em “Cemitério”. Mas a aproximação com a modernização conservadora seria trabalhada através de
dois movimentos já articulados em “Amar, verbo intransitivo”: 1. a circunscrição do escopo narrativo a
uma classe, a burguesia paulista (que de certa forma reapareceria na “aristocracia do nada” do ensaio
“Cinema: trajetória no subdesenvolvimento”, de 1973); 2. a dessolidarização do autor com essa classe
(o deboche que retrabalha a fórmula de Mário de Andrade, ao passar da “tosse paulista específica”
para a “burrice paulista específica”).

A trajetória de Ferreira Gullar e a publicação de “Cultura posta em questão” (1957-1965)


LORENZO TOZZI EVOLA (USP - UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO)

Resumo: O ano de 1961 pode ser lido como uma espécie de ponto de inflexão na trajetória de Ferreira
Gullar. Ao assumir como diretor da Fundação Cultural de Brasília, no governo de Jânio Quadros, o
poeta rapidamente se aproxima de Leon Hirzsman e Oduvaldo Vianna Filho, os quais representavam
uma organização que buscava estruturar-se naquele momento: o Centro Popular de Cultura. Um
contato que inicialmente se daria em torno de acesso a verbas para a viabilização do CPC logo se
transformaria, com Gullar produzindo obras próprias para o grupo e participando ativamente de
discussões internas, num envolvimento que poucos anos depois o levaria à sua presidência. Antes de
ir a Brasília, porém, Gullar vinha de uma outra experiência, com a vanguarda neoconcretista, da qual
foi inclusive um dos principais ideólogos. Indo além da discussão teórica, outra vez contribuiu com o
movimento desenvolvendo obras de sua autoria, bem como em colaboração com outros artistas, até
que, alegando um esgotamento das possibilidades de continuação de sua obra sob o guarda-chuva
desta vanguarda, Gullar aos poucos se afastaria dela, o que abriu espaço para a busca por um novo
rumo poético. Partindo dos debates e reflexões internos ao CPC — dentro dos quais pululavam temas
como a função do artista na sociedade, a definição do conceito de “cultura popular”, quão “próximas
das massas” deveriam passar a ser as obras de arte (e como essa “aproximação” poderia se dar) etc.
—, Gullar escreveria um livro de breves ensaios intitulado “Cultura posta em questão”, o qual pode
ser considerado uma tentativa de sistematização desses debates, com vistas também a um certo
apaziguamento das tensões da organização, afloradas com a circulação do polêmico “Anteprojeto do
Manifesto do Centro Popular de Cultura”, de Carlos Estevam Martins, a partir de março de 1962. É
em torno de “Cultura posta em questão” que eu gostaria de propor minha apresentação. Em minha
dissertação de mestrado, enxergo-o sob dois vieses não dissociados. No primeiro deles (gênese),

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busco entender a construção do livro de Gullar enquanto “bem simbólico”, olhando também para as
condições editoriais muito peculiares e acidentadas nas quais se deu sua publicação. Já no segundo
viés, meu foco está no texto da obra em si, com destaque para a genealogia de algumas das ideias ali
presentes, bem como para um cotejamento de alguns argumentos utilizados diante da obra anterior
de Gullar, buscando identificar eventuais “permanências” desde outros momentos de sua trajetória,
em especial o neoconcrestismo. E, aproveitando a coincidência envolvendo as datas do Simpósio e
do depósito de minha dissertação, gostaria de aproveitar o espaço para desenvolver uma espécie de
relato final, contemplando todo o andamento de minha pesquisa.

Um virtuoso entre dois polos do Atlântico: A trajetória de Joseph Boulogne, Chevalier de


Saint Georges
FERNANDO ANTONIO UCHÔA FONSECA (UFPE - UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO)

Resumo: A figura enigmática de Joseph Bologne, Chevalier de Saint-Georges (1745-1799), tem sido um
assunto de romance e aventura na literatura francesa desde o início do século XIX. Virtuoso violinista
e espadachim, ele capturou a imaginação da França pré e pós-revolucionária, não apenas por suas
prodigiosas habilidades físicas (tanto artísticas quanto marciais) mas também por sua ascensão à fama
a partir de origens relativamente humildes. Nascido na ilha caribenha de Guadalupe, ele era o filho
ilegítimo do proprietário de plantação George Bologne e de sua escrava africana Nanon. Em tenra idade,
mudou-se permanentemente para a França, onde recebeu uma educação esmerada, provavelmente
estudando violino e composição com Antonio Lolli e Franrois-Joseph Gossec, respectivamente. Com
uma boa reputação como solista, mestre de concertos e diretor, Saint Georges também era conhecido
como compositor; com obras entres as quais se incluem dois conjuntos de quartetos de cordas, doze
concertos para violino e dez sinfonias concertantes. Neste trabalho, procuramos analisar a trajetória
do compositor dentro da teia de relações raciais presente no sociedade francesa da época e das
implicações no campo musical, bem como os impactos de sua condição de “mulâtre” (mulato) na
processo de recepção da sua obra musical, revalorizada em anos recentes.

(Re)visitando os mortos – os cemitérios oitocentistas e as suas peculiaridades


LEANDRO GRACIOSO DE ALMEIDA E SILVA (UNIFESSPA)

Resumo: Os cemitérios são muito além de um simples local para deixar restos mortais. São lugares de
memória por excelência. Por meio das lápides, da arte funerária e da própria disposição dos túmulos
é possível encontrar evidências relevantes. Toda essa organização cemiterial oferece indícios e
fontes para investigar trajetórias, perceber disputas, observar identidades, analisar a religiosidade e
compreender momentos econômicos que certamente ultrapassam os muros do cemitério. Embora
desde as últimas décadas do século XX, as pesquisas cemiteriais tenham ganhado mais fôlego, ainda
se considera reduzido, no meio acadêmico, o interesse pelos locais de enterramento oitocentistas.
Assim, pretende-se demostrar o importante papel que esses locais têm. Para tanto, demonstra-se a
relevância da produção de levantamentos fotográficos e inventários e, como eles têm contribuído, de
modo geral, com as pesquisas cemiteriais. Por isso, o que se propõe é apresentar algumas ideias de
pesquisa a partir desses instrumentos, evideciando porque se deve ter um olhar mais acurado para a
polis dos mortos, uma vez que se entende também muito da polis dos vivos.

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Critérios do patrimônio material e imaterial no Brasil: o caso das Carrancas do São Francisco.
JULIANO PEREIRA VICENTE

Resumo: O presente trabalho busca fazer uma reflexão acerca dos critérios adotados para o registro
dos bens de natureza material e imaterial no Brasil, utilizando como fonte de pesquisa as Carrancas do
São Francisco, figuras de proa de feições zooantropomorfas que integravam as barcas do médio São
Francisco da segunda metade do século XIX até meados do século XX, expressão popular brasileira e
que não encontra registro em nenhum dos dois âmbitos. Serão utilizados como fonte para análise os
textos-base da Política do Patrimônio Cultural Material – PPCM/Iphan, instituída pela Portaria Nº 375,
de 19 de Setembro de 2018, bem como o do Programa Nacional do Patrimônio Imaterial – PNPI/Iphan,
regulamentado pela Portaria Nº 200, de 18 de Maio de 2016. A discussão será feita de acordo com as
premissas contidas no manual do Inventario Nacional de Referências Culturais, publicado em 2000
pelo Iphan, bem como do texto da Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial de
2003, da Unesco. A preocupação sobre a preservação dos bens culturais no Brasil possui uma história
oficial de mais de oitenta e cinco anos, partindo da proteção das belezas naturais e dos monumentos
de valor histórico ou artístico, defendidos na Constituição de 1934, passando pelo Decreto nº 3.551,
de 4 de agosto de 2000, que instituiu o registro de bens culturais de natureza imaterial como parte do
patrimônio brasileiro.

A representação da Procissão do Fogaréu na Santa Casa de Misericórdia da Bahia


DANIELLA MUDESTO ROSA SÃO THIAGO

Resumo: Uma reflexão sobre presença da Arte Sacra na história do Brasil, a partir da representação
da Procissão do Fogaréu na Santa Casa de Misericórdia da Bahia. Uma investigação através do
painel de azulejos instalado na nave da Igreja da Misericórdia e das telas de José Joaquim da Rocha
expostas no museu de mesmo nome. Para tal pesquisa, além das imagens em expostas, utilizou-se
também os documentos originais de encomenda e despesas constantes no Centro de Memória Jorge
Calmon, valioso acervo documental da instituição. O eixo narrativo percorre a história da Santa Casa
de Misericórdia da Bahia desde a sua fundação, passa pela a construção do templo da Igreja e suas
variadas intervenções. Continua através dos esforços dos provedores em construir um legado artístico
e se estende até a aquisição e uso dos azulejos e das telas que remetem a Procissão do Fogaréu
procurando compreender em cada tempo, de que maneira estes processos se relacionavam com a
sociedade local.

SESSÃO 02: 22/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

O que a moda pode ensinar para o conhecimento histórico?


EVERTON VIEIRA BARBOSA (UFF)

Resumo:  A moda enquanto fenômeno social pode ser identificada e pensada nas esferas política,
econômica e cultural em diversas sociedades no tempo e no espaço. Sua presença nestes ambientes e
suas interações com o devir coletivo permite inseri-la no patamar de fonte e objeto para o conhecimento
histórico. Mas para tornar este prestígio compreendido e útil em sua essência pela historiografia, faz-
se necessário a compreensão de algumas noções, tais como: produtos de moda, tendências de moda e

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seu sistema. Nesta perspectiva, temos como objetivo analisar este fenômeno social na esfera cultural,
a fim de identificar a complexa gama de elementos que compõe seu sistema para, então, compreender
o que a moda pode ensinar para o conhecimento histórico.

A historicidade do têxtil: (Des)costurando memórias em figurinos históricos de telenovelas


MARCELLE LOPES DE SOUZA (UFJF)

Resumo: As telenovelas brasileiras são grandes lançadoras de tendências de moda por produzirem
peças que geram uma identificação com o gosto e a identidade visual do telespectador. Apesar das
novelas de época não possuírem essa mesma dinâmica na cultura de consumo que as novelas mais
contemporâneas têm, os trajes históricos também costumam cair no gosto popular, sendo estes menos
pela questão da identificação e mais por remeter a um tempo histórico diferente do telespectador. De
acordo com Luciana Andrzejewski, esse movimento permite que o figurino rompa com a “mesmidade”
em que vivemos, criando uma memória afetiva com o público. No entanto, mesmo funcionando tal
qual um espelho dos modos de vida, da cultura e da estética de uma época, esses trajes não são
completamente verossímeis com a realidade. Segundo a figurinista Emilia Duncan, “a linguagem da
televisão pede coisas que não necessariamente são a realidade. A ficção vem sempre em primeiro
plano”. Por isso, é mais importante se comunicar com o telespectador do que representar fielmente
a indumentária presente nas fontes históricas. Sem a atualização e a glamourização estabelecida
pelos figurinistas, as roupas não teriam tanta liberdade artística para compor a caracterização das
personagens. Nesse sentido, o traje de época se refere à realidade, mas não é completamente
verossímil a esta. Ele possui efeitos estéticos que ao se sobrepor ao dado histórico, acaba emergindo
um imaginário no telespectador capaz de se relacionar com a realidade histórica apresentada, e ainda
sim permanecer com os seus traços de ficcionalidade. Ao apresentar tais representações do passado
dentro do jogo da ficção, as novelas acabam contribuindo para a produção de uma memória histórica
fantasiosa. Afim de convencer o telespectador que determinada ficção televisionada é real, o/a
figurinista desempenha um grande papel na produção dos trajes, realizando uma pesquisa histórica
de modas e modismos que vão estar de acordo com as intenções artísticas e a narrativa proposta
pelo/a diretor(a). Como muitas vezes não é possível desenvolver as peças de todo o elenco de maneira
completamente diferenciada, é comum que os figurinistas recorram ao acervo de sua instituição para
o reaproveitamento trajes antigos. A partir desta ressignificação de roupas que outrora já foram
decodificadas durante o seu processo de reprodução do passado, podemos dizer que essas peças
possuem uma historicidade que não se refere ao fazer histórico mas à sua produção artística. Assim,
muitas vezes os figurinistas acabam rompendo com a historicidade do material têxtil e de parte da
memória histórica da peça em prol da produção artística. A partir desta nova produção, a peça está
pronta para vestir um outro corpo e recontar outra história.

Ilhéus, o Cinema e a Exposição do Centenário de Independência (1922)


MARY LUCY SILVA LIMA (UESC)

Resumo: Esta comunicação apresenta um recorte da dissertação de mestrado em andamento, intitulada


“O Cinema na Belle Époque ilheense: importações atlânticas de cultura urbana e representações
poder no auge do cacau (1889-1930)”. Aqui enfocaremos a relação entre Ilhéus, o Cinema e a Grande
Exposição Internacional do Centenário de Independência do Brasil (1922), a qual aconteceu no Rio
de Janeiro, entre 7 de setembro de 1922 e 23 de março de 1923, sendo ainda hoje a maior exposição

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internacional realizada em solo brasileiro. O objetivo é analisar a participação de Ilhéus e o lugar
que coube ao cinema baiano e, especialmente, ilheense nessa exposição. A cidade de Ilhéus teve
participação no evento, se destacando na propaganda encomendada pelo Governo do Estado, que
exibia filmagens da capital e de algumas cidades do interior. A empresa contratada para realizar as
filmagens, Nelima Film, tinha João Galdêncio de Lima como um dos sócios, o qual era casado com uma
ilheense e residia na cidade. Justifica-se a importância dessa pesquisa ao fato de estarmos às vésperas
da comemoração do Bicentenário da Independência, bem como para perceber a contribuição de
Ilhéus na construção da história dessas comemorações e da história do cinema baiano. O referencial
teórico desta proposta utiliza autores tais como Eduardo Morettin, que traz uma visão do lugar que
cabia ao cinema nacional na grande exposição; Cínthia da Silva Cunha, que faz uma crítica à pouca
importância dada à participação da Bahia (na exposição) para consolidação da independência; e ainda
fontes históricas como jornais de Ilhéus e revistas da década referente ao centenário que retratam a
participação da cidade neste evento.

Entre o medo e o fascínio: “imaginação televisual” e modernização na imprensa (1964-1968)


MILENA AZEVEDO DE MENEZES

Resumo: O presente trabalho tem como objetivo traçar a produção intelectual sobre televisão em
cadernos culturais da grande imprensa e imprensa alternativa do eixo SP-RJ, durante a ditadura civil-
militar. O objeto de estudos consiste na formação de um crítica televisiva, presente nesses cadernos
culturais como colunas de televisão. Não há dúvidas quanto ao impacto que a televisão como meio
de comunicação de massa, na segunda metade do século XX, produziu para que diversas produções
literárias, filosóficas, sociológicas, dentre outras, situassem o tema como central para debate. No Brasil,
a TV tornou-se, para muitos dessas produções, sinônimo de desenvolvimento da industrialização no
Brasil, o que contribuem para os estudos sobre o processo de urbanização e intensa industrialização
na região sudeste do país, relacionando capitalismo e integração nacional, como é o caso da Rede
Globo. Durante o regime, a modernização da televisão torna-se parte do projeto de desenvolvimento
da comunicação de massas por meio da “modernização conservadora” (PATTO, 2014), conceito
que exprime as contradições entre os investimentos, sobretudo, em capital privado nas redes de
comunicação e a defesa da moral e dos bons costumes representada na censura. Com o crescimento
dos circuitos de comunicação e o aumento do acesso à tv por políticas de facilidade de crédito, é possível
perceber o aumento dos espaços nos cadernos culturais de colunas sobre televisão, sobretudo, como
crítica ao objeto e escrita sobre possibilidades de futuro para a TV. As fontes utilizadas são Caderno
B (Jornal do Brasil), Segundo Caderno (Tribuna da Imprensa), Cartazes da Cidade (Diário Carioca),
Revista da Televisão, o semanário Brasil Urgente, o alternativo Movimento, Revista UH (Última Hora) e
o Suplemento Literário (Estado de S. Paulo).

GRUPO DE TEATRO CECÉU: Do Parque Histórico Castro Alves as ruas da cidade de Cabaceiras do
Paraguaçu-BA (1996-2007)
RODRIGO DA SILVA LUCENA

Resumo: Cabaceiras do Paraguaçu na Bahia é o local de nascimento do importante escritor Castro


Alves sendo um dos mais lembrados do século XIX e substantivado como poeta dos escravizados,
que recebeu em 1971 a construção do primeiro Parque Histórico da Bahia. Esse espaço é o cenário
para o desenvolvimento de inúmeras ações culturais, sociais, educacionais e artísticas ao longo de

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sua trajetória; impactando de forma direta ou indireta na vida dos moradores e recebendo público de
diversas localidades. O objetivo é descrever a origem e o funcionamento do Grupo de Teatro Cecéu
fundado em 1996 no Parque Histórico Castro Alves e que estará em atividade até 2007. Buscando
compreender a importância do grupo na formação de vários adolescentes e jovens moradores da
cidade. A metodologia utilizada foi a História Oral. O grupo atuou de forma ativa em espaços públicos
no qual terão uma importância significativa em algumas datas comemorativas e festivas da cidade de
Cabaceiras do Paraguaçu. Atraindo de forma significativa os moradores para assistir apresentações
teatrais no espaço do parque fortalecendo assim a interação e a relação da cidade com o grupo de
teatro Cecéu e o Parque Histórico Castro Alves.

Itinerários da Saudade: a História Oral aplicada ao Teatro


RUDINEI BORGES DOS SANTOS (USP)

Resumo: O estudo analisa possíveis interseções entre os conceitos e os procedimentos da história oral
e os expedientes teatrais, sobretudo na “tecitura” da escrita da literatura dramática e na encenação de
obras cênicas criadas a partir de memórias, depoimentos, narrativas de vida, relatos e testemunhos orais.

Que se abram as cortinas, o espetáculo não deve parar! O teatro de Antonio Mario dos Santos
como resistência durante o Regime Militar em Alagoinhas - BA (1964-1985)
BRUNA MEYER PEREIRA (FAPESB)

Resumo: O presente trabalho se debruça sobre as contribuições de Antonio Mario dos Santos (1922
- 2002) para a resistência artística e intelectual de Alagoinhas durante o Regime Militar (1964 – 1985).
Como primeiro ator/diretor formado pela Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (UFBA), na
cidade, a trajetória do sujeito se desdobra por todo um cenário cultural que se fortaleceu ao longo do
período de repressão contra o teatro e demais expressões artísticas. Antonio Mario dos Santos nasceu
a 8 de maio de 1922, em Salvador. Por volta de 1960, mudou-se para Alagoinhas e montou o grupo de
teatro Dias Gomes, formado por estudantes e trabalhadores de diversos ramos. Foi poeta, professor
de escolas da rede pública e privada, além de participar ativamente do movimento cultural que se
desenvolveu em Alagoinhas ao longo das décadas de 1970 e 1980. Interessado pela história local, passou
pelos domínios historiográficos ao escrever uma espécie de monografia onde criou representações
da cidade sobre suas instâncias políticas, educacionais e culturais, em 1985. Alagoinhas exerceu um
importante papel diante da formação histórica da militância de esquerda na Bahia. No estado, a cidade
foi pioneira em sediar o Partido Comunista do Brasil, sendo um alagoinhense o secretário nacional do
partido, Antonio Maciel Bonfim. No âmbito do teatro, essa militância se expressou, igualmente, de
forma tática. Não à toa este se intensificou em Alagoinhas, à medida que o regime militar recrudesceu,
principalmente na fase pós - AI-5. Nesse período, Alagoinhas sediou o único centro de repressão
clandestino na Bahia. A “Fazendinha”, assim chamada por ser localizada no meio de um matagal na
BR, consistia num galpão aberto onde os militantes do PCBR eram levados de diversas localidades -
principalmente de Salvador - para serem torturados por meio da “Operação Radar”, trazida à Bahia
em 1975. O coronel Carlos Alberto Brilhante Ulstra, um dos principais torturadores da Operação
Bandeirantes em São Paulo, era o seu comandante. Mesmo diante da censura e das dificuldades
de fazer teatro numa cidade do interior da Bahia, o professor aproveitava as brechas do sistema,
de forma tática, para manter os projetos junto com o seu grupo. Foram tais táticas que permitiram
aos jovens alagoinhenses o acesso democrático à arte-educação, possibilitando o despertar para a
conscientização política em tempos de repressão.

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SESSÃO 01: 21/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

Condições de saúde entre escravizados na província da Bahia e Sergipe


BARBARA BARBOSA DOS SANTOS (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE)

Resumo:  Nas confluências da história da saúde e escravidão é possível acessar cenários ainda
turvos do cotidiano das populações escravizadas, isto ocorre pela percepção de novas fontes como
movimentos de hospitais e documentos de corpo de delito, ou pela observação a acervos já visitados
pela historiografia como inventários post mort com novas perspectivas. Partindo do princípio que a
experiência de adoecimento na população serviu gera subsídios para compreendermos os meandros
das sociedades escravagistas, este artigo busca iluminar os padrões de doenças apresentados entre
cativos nas províncias da Bahia e Sergipe, relacionando estes dados as condições de trabalhadores
escravizados destes sujeitos.

As artes de curar na Bahia setecentista


MARIANA DOURADO DA SILVA (UNEB)

Resumo: O artigo busca analisar as diferentes perspectivas a respeito das práticas e terapêuticas de cura
das doenças na Cidade da Bahia durante o século XVIII, identificando também os agentes responsáveis
pelo diagnóstico e tratamento das enfermidades. Assim, dentro dessa narrativa, encontraremos
alguns personagens que exerceram funções importantes para a construção da história da saúde e
das doenças juntamente com suas práticas de cura, desse modo, curandeiros, cirurgiões, boticários
e padres da Companhia de Jesus tornaram-se os responsáveis pela junção entre o que se entende
por medicina legal – acadêmica – e a medicina ilegal – aquela praticada a partir dos conhecimentos
da natureza e de benzeduras – causando, o que o historiador Timothy Walker classificou como uma
combinação entre o sagrado e o profano. Sendo assim, para compreender os métodos utilizados por
esses sujeitos, focarei meu interesse na análise de dois manuais cirúrgicos do período em questão, o
Erário Mineral de autoria do cirurgião Luís Gomes Ferreira (1735), e a Relação Cirúrgica e Médica do
também cirurgião João Cardoso de Miranda (1745), fazendo uso de uma análise comparativa entre
as práticas e receitas para o preparo de medicamentos ou dietas apresentadas por esses práticos de
cura.

“Precisa-se” de uma ama: “sadia e moralisada”. A representação histórica e médica em Salvador


(1872- 1889)
GABRIELA GRILO DE ALMEIDA CORDEIRO

Resumo:  A partir do cruzamento de fontes, históricas e médicas, o seguinte projeto alicerçado na


história social da escravidão e do pós- abolição, investiga a figura fabricada para a ama-de-leite em
Salvador entre 1872 e 1889, principalmente, quanto às especificações de “sadia” e “moralisada”.
Por meio de jornais da época, importa perceber suas sociabilidades e a preconcepção formada à
sua pessoa e a atividade desenvolvida. Neste sentido, o projeto de valorização da identidade, nega
a importância da mulher negra para o período em questão, apesar de sua condição de lactante
favorecer a alimentação de crianças brancas, sua condição de escravizada é mantida enquanto corpo
negro e sujo. Por esta razão, a problemática se insere no que diz respeito ao tipo de sujeito saudável à
amamentação de outrem, e consoante a isso, a construção e formação de sua identidade, bem como,
seus reflexos posteriores no que tange a dinâmica da inserção histórica da mulher negra na sociedade.

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Planeja-se analisar as qualificações baseadas nas teorias eugênicas para o corpo negro feminino, como
a exemplo de “ama muito sadia” ou “que seja sadia” assim como, o exame do papel da ama-de-leite
e as ocupações espaciais visando discutir sua condição no pós-abolição diante da base científica e
apoio popular que a categoriza de forma inferior, seja em alcance por meio de anúncios redigidos nas
tipografias, em documentação da Faculdade de Medicina da Bahia ou Institutos Históricos. Em segunda
perspectiva, examina os constrangimentos legais e jurídicos reguladores da atividade que compuseram
as memórias, trajetórias e as lutas por direitos e cidadania. A partir do objeto e inquietação propostos,
o intuito da pesquisa vincula-se na reflexão da hierarquia da mulher negra, enquanto categoria de
raça e gênero, e para além, a concepção de seu corpo enquanto objeto, de modo que, a investigação
resultante possa vir a somar em novos suportes de análise criteriosa à trajetória feminina. Dessa forma,
pretende-se traçar o perfil de sociabilidade da ama-de-leite articulado as estruturas e demarcadores
sociais, particularmente, os de raça e gênero.

De anjinhos a sujeitos de direito: considerações sobre a mortalidade de crianças expostas em


Salvador na primeira metade do século XX
MAIHARA RAIANNE MARQUES VITORIA (GOVERNO DO ESTADO DA BAHIA)

Resumo:  O presente trabalho pretende tecer algumas considerações sobre a morte de crianças
abandonadas na roda dos expostos da Santa Casa de Salvador nas primeiras décadas do século XX, a
partir das novas percepções sobre a morte surgidas na virada do século, sobretudo, com a inserção do
saber médico higienista no cuidado à infância. O período aqui analisado vai de 1936 a 1940, quando
ocorreu uma mudança significativa na forma de acolhimento do Asilo, a extinção da secular roda
dos expostos. O Asilo de Nossa Senhora da Misericórdia, popularmente conhecido como Asilo dos
Expostos, instituição pertencente à Santa Casa de Misericórdia da Bahia foi, durante muito tempo, o
principal responsável pelo acolhimento e criação de menores abandonados. Desde o período colonial,
mais precisamente em 1726, quando a Roda dos Expostos foi instalada, esta era a única forma de
acesso à Instituição, e assim permaneceu por mais de dois séculos. Os índices de óbitos de crianças
expostas sempre foram bastante alarmantes, havendo oscilações em determinados intervalos e
atingindo números recordes nos períodos de crise, sobretudo, em tempos de epidemias. Ao longo
dos séculos, as atitudes tomadas pelos médicos, mesa diretora, irmãs de caridade e demais membros
da Irmandade responsáveis pelo cuidado com os expostos diante do elevado número de mortes
foram bastante distintas. Desde as designações das moléstias, seus agentes causadores, bem como
os possíveis tratamentos, que variavam de acordo com o período e crença dos envolvidos. Em 1934, a
Santa Casa aprovou a instalação de um “escritório aberto” ou “escritório de admissão”, que, de acordo
com o regulamento, deveria funcionar em conjunto com a Roda. As mudanças na forma de acolhimento
aliadas às transformações no olhar médico em relação ao trato com as crianças foram substanciais
para a diminuição da mortalidade no Asilo. Nesse sentido, o meu intuito é perceber de que forma os
novos ideais de higiene e cuidados com a infância influenciaram, não somente no número de óbitos
precoces, mas também na mentalidade da população baiana sobre a mortalidade infantil.

Parteiras de Itaberaba: trajetórias, saberes e tradições


LILIANE NASCIMENTO DA SILVA ALVES

Resumo: O trabalho pretende analisar a trajetórias de vida das Parteiras em Itaberaba, visibilizando
seus saberes, formas de sociabilidades e sua ação dentro da comunidade que está inserida. Pretende

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ainda registrar a atuação destas mulheres como figuras fundamentais na hora do parto, especialmente
no que diz respeito a rede de sociabilidade que as mesmas construíram. Para desenvolver este artigo,
utilizei como metodologia a história oral, através do uso de entrevistas, trazendo depoimentos das
parteiras pesquisadas, buscando responder os questionamentos, bem como analisando os vários
papéis que as mesmas desempenham em suas comunidades. Falar dessa temática é relevante para
o meio acadêmico e social, pois é preciso relatar a importância social dessas mulheres, pois as suas
trajetórias e memórias têm uma dimensão histórica relevante que não pode ser esquecida.

Villa de Soure: o berço da prática do termalismo na Bahia oitocentista


JOÃO BATISTA DE CERQUEIRA (UNIVERSIDADE ESTADUAL DE FEIRA DE SANTANA)

Resumo:  O uso medicinal de águas termo mineral já é conhecido desde a antiguidade. Na Região
Nordeste da então Província da Bahia, no século XIX, as nascentes conhecidas por Mãe d’Agua do
Sipó, situadas no arraial homônimo e localizadas na margem direita do Rio Itapicuru, território da Villa
de Soure, despertaram a atenção do Governo da Província e de terapeutas com formação acadêmica.
À época, as populações ribeirinhas já faziam uso terapêutico desses recursos naturais, que afloravam
em diversas fontes. Em razão dos fatos citados, estudou-se o uso da balneoterapia ou termalismo
em uma vila do interior da Província da Bahia, foram analisados os conceitos e fundamentos teóricos
que norteavam a prática médica no período, assim como o envolvimento do Governo da Província da
Bahia nas ações de proteção social à população. Na realização do estudo, além de revisão bibliográfica
e pesquisa de campo, foram necessárias pesquisas documentais em fontes primárias, a exemplo dos
relatórios dos Presidentes da Província da Bahia, teses doutorais da Faculdade de Medicina da Bahia
e relatos de casos de pacientes atendidos pelo Dr. Ignácio Moreira do Passo. Ao final, conclui-se que
a Villa de Soure foi o berço do termalismo na Bahia oitocentistas. Além disto, com base nos princípios
científicos vigentes à época, marcados pelo final da transição da Teoria Humoral em direção à Teoria
Anatomoclínica, Dr. Ignácio Moreira do Passo, formado pela Faculdade da Bahia, no ano de 1840, na
condição de funcionário do Governo da Província da Bahia, deixou um significativo legado sobre a
assistência e a prática médica, ao longo do período que exerceu a medicina em uma vila do interior da
Bahia oitocentista.

Cátedra de Oftalmologia na Bahia: Um processo em construção (1882-1933)


CHACAUANA ARAÚJO DOS SANTOS (SEC - SECRETARIA DE EDUCAÇÃO DA BAHIA)

Resumo:  Esta comunicação discute sobre o surgimento da Cátedra de Oftalmologia na Faculdade


de Medicina da Bahia, a partir da Reforma do Ensino Médico, iniciada em 1879. Discute-se, ainda, os
benefícios desta reforma para a criação das especialidades médicas, entre fins do século XIX e início do
século XX. Neste trabalho, tomaremos como referência a Reforma do Ensino, através do decreto de
nº 7.247, de 19 de abril de 1879, e seu impacto no Ensino Superior, em especial no que diz respeito às
Faculdades de Medicina. Além disso, foi a partir da Lei Nº 3.141, de 30 de outubro 1882 que a Cadeira
de Clinica Oftalmológica foi regulamentada, possibilitando a contratação de professores específicos
através de exames. Ao longo dos anos algumas disputas ocorreram para ocupar a Cadeira de Clinica
Oftalmologia da Faculdade de Medicina da Bahia e alguns nomes também se destacaram. Em 1911,
quem assumiu a cadeira foi João Cesário após uma disputa acirrada com José de Souza Pondé. É
possível também, refletir sobre o trabalho de ensino e pesquisa realizado nessa disciplina, ao analisar
a documentação das enfermarias especificas de clínica oftalmológica ligadas a FAMEB.
Para alcançar nosso objetivo, utilizaremos como fontes os Relatórios do Hospital Santa Izabel, que

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contém informações sobre as ações que envolviam professores e alunos da FAMEB no cuidado a
pacientes nas Enfermarias oftalmológicas, tanto masculina quanto feminina. Assim como, utilizaremos
exemplares da Gazeta Médica que discutem a Reforma do Ensino Médico, no Brasil e sobretudo na
Bahia; os Decretos e Leis que possibilitaram a Reforma e a Memória Médica da FAMEB escrita por
Gonçalo Muniz. Assim como iremos utilizar exemplares da Gazeta Médica que discutem a Reforma
do Ensino Médico, no Brasil e sobretudo na Bahia, os Decretos e Leis que possibilitaram a Reforma e
o Memorial Histórico da FAMEB escrito por Gonçalo Muniz e também matérias de Jornais da época
como Bahia Tradicional e Moderna, Correio do Povo: Órgão Independente, Noticioso e Informativo,
Gazeta de Notícias.

Revivendo a gripe espanhola? O padrão arquetípico das histórias de peste.


CHRISTIANE MARIA CRUZ DE SOUZA (INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA, TECNOLOGIA
DA BAHIA)

Resumo: Nessa apresentação pretende-se analisar o padrão arquetípico das histórias de peste, a partir
das pandemias de COVID-19 e da pandemia de gripe espanhola (1918-1919). Estudos historiográficos
sobre pandemias passadas revelam certa similitude na forma pela qual os fatos se desenrolaram sob o
impacto de uma epidemia/pandemia. Chales Rosenberg criou modelo um interpretativo para explicar
as epidemias baseado em padrões repetitivos, historicamente vivenciados. Objetiva-se discutir esse
modelo, destacando os pontos em que as pandemias de gripe espanhola e COVID-19 se aproximam
ou se distanciam.

A pandemia de cólera asiático no Brasil do século XIX e as repercussões na província da Bahia


CLEIDE DE LIMA CHAVES (UESB)

Resumo: O presente trabalho busca evidenciar a chegada da epidemia de cólera asiático na segunda
metade do século XIX e os impactos causados pela mesma, quer seja na economia, na política e na
ciência médica do período. A província da Bahia tomou diversas medidas sanitárias, com o objetivo
de conter a pandemia e, ao mesmo tempo, preservar o comércio internacional. O porto de Salvador
era um dos mais importantes do Império brasileiro e recebia mercadorias e embarcações do mundo
inteiro. Do ponto de vista da política, acordos sanitários começavam a ser discutidos entre o Império
e as Repúblicas da Argentina e do Uruguai, para buscar diminuir os prejuízos econômicos e, ao mesmo
tempo, uniformizar medidas profiláticas defendidas pelos médicos dos três países e a Bahia integrou-
se a essas discussões, especialmente através do periódico médico “Gazeta Médica da Bahia”, que
atualizava os esculápios baianos do que estava acontecendo no Brasil e em outros países. Consideramos
que a epidemia de cólera contribuiu para que a ciência médica conseguisse se impor cada vez mais no
Brasil e em outros países da América, bem como impactou nas relações políticas econômicas e políticas
internacionais, que obrigou esses países a estabelecerem acordos sanitários nem sempre vantajosos
aos interesses econômicos do período.

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SESSÃO 02: 22/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

A loucura aqui é diferente da loucura de lá: análise comparativa das instituições e políticas
públicas nos estados de Sergipe e Rio de Janeiro, 1889 a 1930.
RENATA MASCARENHAS FREITAS DE ARAGÃO (TJSE)

Resumo: A presente proposta de pesquisa está inserida na problemática maior consubstanciada na


criação das instituições de administração da loucura e do louco no lapso temporal correspondente a
Primeira República (1889 a 1930) e às engrenagens desenvolvidas pelo poder público para compor
políticas de atenção ao louco, analisando especificamente o caso de uma unidade da Federação
brasileira – o estado de Sergipe. O estudo tem como objetivo mostrar fragilidade e insipiência da
articulação entre loucura, sociedade, medicina e Poder Público no estado de Sergipe em comparação a
complexidade das estruturas já existentes e atuantes no Rio de Janeiro no lapso temporal destacado.
A preocupação recai, especialmente, sobre a discussão de processos tão dispares desenvolvidos no
Estado de Sergipe e no Estado do Rio de Janeiro em relação a administração da loucura. O objetivo do
trabalho era tentar delimitar as formas encontradas pelo poder público para solucionar o problema
da administração da “loucura” no estado de Sergipe em contra partida daquelas já adotadas no Rio de
Janeiro. Na referida pesquisa foram utilizadas fontes primárias localizadas no Arquivo Público Estadual
e da Biblioteca Estadual Epifânio Dória. A análise da documentação se concentrou nos documentos
oficiais, relatórios de Presidentes do Estado do período republicano, além de documentos dos
secretários de governo, chefes de polícia, juízes, inspetores de higiene, provedores da Santa Casa
de Misericórdia, entre outros. Bem como de uma revisão bibliográfica de escritos sobre instituições
psiquiatras e políticas públicas de saúde mental adotadas á época do lapso temporal recortado.

“A máscara da ferocidade”: Interpretações médicas sobre doentes leprosos nas primeiras décadas
do século XX.
MULLER SAMPAIO DOS SANTOS SILVA (UNEB)

Resumo:  Ao analisar os acontecimentos relacionados às doenças como um evento social é possível


perceber as diferentes respostas e os significados que lhes são conferidos pela sociedade. Nessa
perspectiva, o corpo saudável ou doente deve ser interpretado como um fenômeno que ultrapassa
a realidade orgânica. No caso da lepra, por exemplo, as construções morais e simbólicas justificaram
medidas de exclusão e até mesmo de violência contra todos aqueles identificados como prováveis
“portadores de um grande mal” (SERVIÇO NACIONAL DE LEPRA, 1950). Além de estar envolta em tabus,
crenças e um forte estigma, desde épocas remotas e entre os mais diferentes povos, as descobertas
da medicina, durante o final do século XIX, reforçaram o status que classificava a lepra entre uma
das enfermidades mais temidas de todos os tempos. A confirmação das teorias de transmissibilidade
e a impossibilidade de cura, que permaneceu até meados de 1940, tornou-se argumento base para a
constituição de políticas de controle e combate à lepra. A exclusividade médica na condução do processo
terapêutico e de diagnóstico determinou o médico como principal agente de detenção do conhecimento,
porém é possível perceber que mesmo a partir da reconfiguração dos saberes, através das descobertas
da medicina bacteriológica, os médicos continuaram associando-a a determinadas representações
sociais e concepções morais. A intenção deste texto é evidenciar as concepções médicas em relação à
lepra, na cidade Salvador-BA, a partir de teses de doutoramento defendidas nas primeiras décadas do
século XX e, assim, traçar uma compreensão mais ampla a respeito das implicações sociais do ser doente.

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Um Laboratório da Fundação Rockefeller: interação médica, pesquisa e combate à Febre Amarela
na Bahia (1928-1934)
RICARDO DOS SANTOS BATISTA (USP)

Resumo: Este trabalho tem como objetivo discutir a presença do Laboratório da Fundação Rockefeller
na Bahia, que funcionou entre 1928 e 1934. A implantação desse aparato tecnológico de saúde se
deu no contexto de aprofundamento do conhecimento científico sobre o agente patológico, das
possibilidades de transmissão e da descoberta de uma vacina para a amarílica. O trânsito de agentes
da Fundação Rockefeller no Nordeste, em especial na Bahia, contribuiu para a interação médica nas
atividades de pesquisa, visitas de campo, muitas vezes com o envio de materiais orgânicos para análise
no laboratório, na Capital, e com a publicação de artigos sobre as experiências de campo. Ao mesmo
tempo, se aprofundava o conhecimento sobre a realidade sanitária dos sertões baianos.

Saber médico e o saneamento do recôncavo: análise da atuação dos postos de profilaxia rural de
São Félix e Santo Amaro, Bahia (1922-1930)
JOSIEL MENEZES DA SILVA (UNEB)

Resumo: Os serviços de profilaxia rural foram iniciados na região do recôncavo da Bahia a partir de
1922 através da instalação de um posto nas cidades de Santo Amaro, de São Félix e de Nazaré. Esses
postos surgiram, principalmente, para amenizar as condições sanitárias que os municípios baianos
enfrentavam com a prevalência das “doenças dos sertões” cuja orientação técnica-sanitária ficava a
cargo do Governo Federal (União) com a finalidade de sanear os sertões. A Bahia foi um dos estados que
aderiu rapidamente ao serviço em questão (acordo realizado com a União a partir de 1921), tendo em
vista o quadro de constantes epidemias e entraves econômicos que não permitiam o investimento de
ações no interior do estado, embora, em certa medida, se entendesse a necessidade de fazê-lo. Deste
modo, em muitos locais, este foi o primeiro contato da população com médicos e espaços destinados
ao tratamento de doenças Este estudo tem o objetivo analisar a atuação dos Postos de Profilaxia Rural
no recôncavo da Bahia. O recorte temporal desse estudo vai de 1920 a 1930. A escolha desse recorte
se deu, porque em 1920 foi o ano da implantação do DNSP e em 1930, aconteceu à revolução. Assim,
com as modificações na estrutura politica brasileira implementadas por Getúlio Vargas, ocorreram
modificações na assistência a saúde pública. Essa pesquisa foi importante para entender a dinâmica de
implantação e execução das ações e serviços de saneamento, higiene e profilaxia no interior da Bahia.

Educar para Curar: O Projeto de Educação Sanitária nos Sertões da Bahia (1922-1930)
ANA CLARA FARIAS BRITO (UNIVERSIDADE ESTADUAL DE PERNAMBUCO)

Resumo: A educação sanitária foi defendida em 1910 como um dos pilares para a integração nacional
e erradicação de doenças. As ideias sobre o assunto, colocadas naquele período, ganham projeção
nacional e se revertem em uma linha de ação do Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP)
que nos anos de 1920 cria um setor específico para o assunto. De uma maneira geral o Serviço de
Propaganda e Educação Sanitária, criado em 1923, tinha como objetivo controlar problemas sanitários
de forma preventiva através de cuidados com o corpo e a saúde, assim, buscava articular diagnóstico
precoce e prevenção por meio da divulgação das características da enfermidade e informações sobre
sua profilaxia. Estes instrumentos de comunicação foram fundamentais para o convencimento da
população sobre os conceitos higiênicos e a prevenção de doença. O projeto idealizado pela União,

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foi ganhando forma nos estados. Na Bahia as ações direcionadas para a educação e propaganda
sanitária foram, progressivamente, ampliadas entre 1923 até 1930. No interior do Estado, era de
responsabilidade dos Postos de Profilaxia Rural, atuar como um centro de estímulo a novos hábitos
sanitários e difusor dos novos conceitos de higiene que tinham como base os cuidados com o corpo
e a saúde, com o objetivo de atuar na prevenção de doenças. O presente trabalho tem como objetivo
abordar as particularidades na execução do projeto educativo desenvolvido pelos Postos Rurais de
Juazeiro e Senhor do Bonfim, no Norte da Bahia, entre 1922-1930. Destaca-se as particularidades de
cada cidade no desenvolvimento deste objetivo, dando ênfase a interlocução entre os médicos, os
poderes locais e os diretores dos postos rurais. Em Juazeiro as propostas elaboradas pelos médicos
higienistas abordavam, sobretudo, a necessidade de um uso adequado das águas Rio São Francisco,
contudo, as medidas propostas, foram ignoradas pelos poderes locais o que prejudicou o andamento
dos trabalhos nesta região. Em contrapartida, na cidade de Senhor do Bonfim, o discurso afinado entre
médicos e líderes locais resultou num bom aproveitamento das orientações feitas com o objetivo de
educar a população daquela região. Portanto, é objetivo deste trabalho problematizar os projetos
destinados a assistência a saúde no interior da Bahia, trazendo para discussão, a educação sanitária
realizada nos Postos de Profilaxia Rural de Juazeiro e Senhor do Bonfim.

Maternidade e Ciência no sertão do Pernambuco: O discurso médico através das propagandas


materno-infantil no jornal o “Pharol” (1920-1940).
LUANA DA SILVA MARTINS (CIEE)

Resumo: No início do século XX, a maternidade e a infância, tornavam-se pedra angular da nacionalidade.
A criança passa a ter valor não só para a família, mas para a nação, sendo de responsabilidade da mãe a
formação física, moral e intelectual das crianças (FREIRE, 2006). Este discurso mostrava-se sintonizado
com as propostas de educação higiênica, como solução para o problema do país. A Reforma Federal
da Saúde Pública colocou a higiene infantil na agenda nacional sendo de sua responsabilidade a
orientação técnica das ações sanitárias implantadas nos estados e conduzidas pelas inspetorias que
cuidavam da lepra, sífilis e doenças venéreas, tuberculose e higiene infantil. Pretende-se nesse estudo,
entender a sistematização do discurso médico-higienista no sertão de Pernambuco, tendo como
fonte principal as propagandas que tinham como público alvo as mães e crianças da região veiculadas
no jornal o Pharol. Analisamos o material entre os anos de 1920 a 1940, uma vez que esse recorte
temporal nos permite compreender a inserção dos profissionais da saúde nessa região, bem como,
entender a consolidação e as mudanças que foram feitas no âmbito da saúde durante o governo de
Getúlio Vargas, em 1930. Nesse novo modelo de sociedade que estava emergindo, a prática jornalística
auxiliava o corpo científico, principalmente os médicos, com as informações e propagações de ideias
de higiene, sobre os males das doenças, as formas de prevenções, medicamentos e onde se consultar.
Nessas propagadas e nos discursos médicos se percebia que a mulher não era só aquela que cuidava
do lar e do seu marido, mas cuidava também do seu filho com afinco, pois isso significava além de
tudo amor à pátria. Devido à necessidade de manter essa criança saudável, os médicos alimentavam
esse discurso sob uma ótica de “maternidade científica”. Em Petrolina o índice de mortes na infância
era significativo nas primeiras décadas do século XX. Durante o período, atribuiu-se esse resultado
a alimentação incorreta das crianças nos seus primeiros meses de vida. Segundo as observações do
chefe do posto de profilaxia rural, em 1923, na região era comum a oferta de papas, feitas de farinha,
às crianças muito pequenas, para fortalecer o seu organismo (SERAFIM JR, 1923). Desta forma, o
trabalho aqui apresentado, busca identificar no jornal O Pharol, anúncios destinados às mães, que
tinham o objetivo de propagar métodos aceitos pela ciência médica, quanto à forma de cuidar e nutrir.

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Através deste material, compreende-se o discurso médico-higienista veiculado na região e a forma de
recepção de novos hábitos de cuidado infantil por parte da população do Vale do São Francisco.

No enveredar do sertão do Jacuípe: uma análise da assistência à saúde na interseccionalidade


sobre raça, classe e gênero.
MARINA RIOS DA CUNHA SANTA ROSA (SESI)

Resumo: O trabalho aqui apresentado propõe-se a enfatizar a atuação do Hospital Adelaido Ribeiro
do atual município de Riachão do Jacuípe, cidade localizada na bacia do Jacuípe do interior baiano, que
fica a 197 km da Capital, mais precisamente no que tange às pessoas que compunham a Liga Jacuipense
de Proteção à Maternidade e à Infância (LJPMI), que era referência filantrópica que prestava serviços
assistenciais à saúde, em tese, com o intuito de envolver a população de um modo abrangente, e aos
atendimentos realizados pela mesma instituição, tecendo uma análise do perfil das pessoas que se
beneficiaram no processo aqui referido. Objetiva-se então problematizar a ausência das mulheres
negras nos espaços de destaque, sendo assim, de poder, e mais precisamente analisar o lugar social
que as mesmas ocupavam haja vista questões sociopolíticas que possivelmente clivavam essas
personalidades sociais neste contexto micro que se relacionavam com questões macro nacionais. Porém
é válido ressaltar e verificar a diferenciação de locais de privilégios e atuação das figuras envolvidas
descriminadas entre gênero, raça e classe. Para tal, é estabelecido um diálogo com pesquisadores da
área da assistência a saúde, filantropia e políticas sanitárias, assim como, neste trabalho em questão,
com pesquisadoras feministas negras que possibilitaram um olhar de explanação em linhas gerais, a
partir das fontes primárias e secundárias que são utilizadas nesta produção. Em suma, explana-se em
linhas gerais o silenciamento das questões que tangem aos aspectos das mulheres negras em esferas
políticas, econômicas e sociais, trazendo a discussão para um campo micro, de exclusão de mulheres
no hospital em questão.

Saúde e assistência nos Sertões da Bahia: infância e trabalho no Orfanato Santa Catarina de Sena
em Vitória da Conquista (1959-1981)
NAILA ARAÚJO MAGALHÃES (UESB)

Resumo: O presente trabalho visa debater a constituição do Lar Santa Catarina de Sena enquanto
uma instituição de assistência à infância órfã e necessitada em Vitória da Conquista durante o século
XX. A história do orfanato se inicia com a chegada das Irmãs dos Pobres Santa Catarina de Sena na
cidade na década de 1940, com o intuito de auxiliar o trabalho caritativo na Santa Casa de Misericórdia
conquistense. Com a inauguração da Maternidade Régis Pacheco em 1952, as Irmãs começam a cuidar
das crianças órfãs ou abandonadas pelas mães na maternidade, muitas vezes única alternativa de
sobrevivência dessas crianças diante a situação pauperizada que se encontrava a maioria da população
conquistense naquele período. Iniciado na antiga capela da Santa Casa como uma escola de educação
complementar e ensino religioso, o Lar construiu sua sede em um terreno doado pela elite local e foi
inaugurado em 1962. A importância do Lar pode ser percebida nos relatórios anuais da Instituição,
segundo essa fonte, no primeiro ano funcionando em sede própria o orfanato cuidou de 405 meninas,
entre os regimes de internato, semi-internato e externato. Contudo, esse número decai nos anos
seguintes devido à falta de verbas, chegando a extinguir o sistema de semi-internato em decorrência
disso, deixando claro o descaso governamental com a casa de amparo às meninas pobres. Dos anos de
1959 a 1981, espaço temporal dessa pesquisa, o Orfanato Santa Catarina de Sena funcionou como casa
e escola para muitas meninas órfãs ou que, mesmo tendo os pais vivos, se encontravam em situação

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de extrema pobreza. No Lar, obtinham abrigo, educação primária, ensino religioso, bem como cursos
de “artes femininas”, como bordado, artes culinárias, corte e costura e etc. Essa grade curricular, bem
como a rotina das crianças internas, que participavam dos eventos religiosos promovidos na cidade
pela Igreja Católica, como também a distribuição das tarefas domésticas entre as residentes do lar,
tinha como intuito articular o ensinamento da boa moral cristã, a importância da caridade, com o papel
que era relegado às mulheres na sociedade brasileira capitalista do século XX; demonstrando assim o
viés ideológico da educação doméstica para a conformação social dessas mulheres na divisão sexual
do trabalho na ordem do Capital. O papel das fontes documentais do Orfanato se faz de extrema
importância porque nelas é possível identificar esses aspectos, bem como notar a relação do Estado
com a Instituição, demostrando que, apesar do vínculo do Lar com o MESP a partir do governo
Varguista em 1930, o Orfanato sobreviveu a duras penas graças a caridade da elite local, que direta
ou indiretamente – através dos clubes – contribuiu para o estabelecimento e funcionamento do Lar
durante toda a segunda metade do século XX.

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SESSÃO 01: 21/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

Da Igreja do Bonfim ao Bembé do Mercado: políticas patrimoniais na Bahia e a valorização do


patrimônio afro-diaspórico
SURA SOUZA CARMO (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE)

Resumo:  O artigo visa abordar, a partir de uma análise historiográfica, a trajetória das políticas
patrimoniais na Bahia, desde a criação da Inspetoria Estadual de Monumentos Nacionais do Estado
da Bahia em 1927 até os dias atuais, apontando os agentes precursores, as características e as razões
para o alargamento da noção de patrimônio, que influenciou e também foi influenciada pelo contexto
nacional de preservação de bens culturais. O marco balizador da análise situa-se na criação da Inspetoria
Baiana, por intelectuais baianos vinculados ao Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB), como
também a elite conservadora do estado, com destaque para Wanderlei de Araújo Pinho, detentor
de uma noção de patrimônio relacionada à defesa da herança colonial portuguesa representada
pelas edificações do Centro Histórico de Salvador e do Recôncavo. Mudanças políticas, econômicas e
sociais estão relacionadas a ampliação da noção de patrimônio no mundo e no Brasil, sendo a Bahia
caracterizada, sobretudo, a partir da década de 1960, pela valorização da herança africana, em diversas
expressões culturais, concomitantemente com a herança portuguesa, em uma relação estreita entre
patrimônio, representação, turismo e entretenimento. O tombamento de terreiros, a partir dos anos
1980, e o registro de bens imateriais de herança africana, a partir dos anos 2000, no âmbito federal e
estadual, inauguram um novo olhar e uma busca por equilíbrio nas ações patrimoniais.

Festa urbana e diáspora africana: o discurso da imprensa soteropolitana, 1930-1950.


ANDRÉ LUIZ ROSA RIBEIRO (UESC)

Resumo: A presente pesquisa pretende estudar como a imprensa soteropolitana ajudou a construir
uma memória do candomblé como expressão religiosa indissociável da Bahia, especialmente da Cidade
do Salvador, conhecida no período de estudo como a “Roma Negra”. Perceber as festas realizadas
nos largos e nos terreiros, territórios negros, como vinculadas a uma possível identidade afro-baiana,
também ligada ao surgimento do turismo como atividade econômica. As principais fontes são artigos
da imprensa soteropolitana (Jornais: A Tarde, Estado da Bahia, Diário de Notícias e O Imparcial)
pertencentes ao acervo hemerográfico da Biblioteca Pública do Estado da Bahia. O recorte temporal
inicial situa-se na década de 1930, período de ruptura do olhar da imprensa baiana sobre o candomblé
baiano em diálogo com busca de uma nova identidade brasileira característica do nacionalismo
varguista e encerra-se na década de 1950, quando se consolida a imagem do candomblé como símbolo
identitário baiano. As fontes hemerográficas, pertencentes ao acervo da Biblioteca Pública do Estado
da Bahia - Seção Raros, são percebidas enquanto produtoras de discursos construtores de memória
sobre a religiosidade de matriz africana na Bahia, mais especificamente em Salvador. Busca-se,,
portanto, a observação das permanências e das rupturas conceituais sobre a população de uma das
maiores comunidades negras das Américas e das suas manifestações culturais.

Transformações e tensões na Salvador oitocentista: o caso das freguesias Conceição e Pilar


JOICE NUNES DA CONCEIÇÃO SILVA (UFRB)

Resumo: A chegada da família real no ano de 1808 provocou enormes transformações no cotidiano da

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colônia portuguesa da América. Em Salvador, comumente chamada de cidade da Baía, não foi diferente.
Segunda praça comercial mais importante do Brasil à época, a cidade vivenciou inúmeras intervenções
físicas – aterros, calçamentos, alargamento de vias –, em sua maioria destinadas a proporcionar
melhor funcionamento das atividades comerciais. Grande parte das modificações ocorreram durante
o governo do Conde dos Arcos, entre 1810 e 1818. Data desse período um significativo aumento nos
investimentos em obras e reformas públicas, sobretudo no entorno da região portuária. Em conjunto,
tais mudanças no plano urbanístico acabaram remodelando a feição de duas das mais importantes
áreas comerciais da cidade, as freguesias de Conceição e Pilar. Ao interferir na dimensão e disposição
do espaço socialmente construído, alterando o traçado urbano, as reformas modificaram a vida dos
sujeitos que viviam, trabalhavam e negociavam naquelas localidades. Esta pesquisa, ainda em fase
inicial, visa compreender os impactos e tensões sociais provocados pelas transformações urbanas
ocorridas em Salvador durante o período de permanência da corte portuguesa no Brasil.

Ideias antiescravistas no Brasil na primeira metade do séc. XIX.


SANTIAGO MUNIZ DA SILVA BENITES (UFRB)

Resumo:  A pesquisa histórica tem conseguido responder a inúmeras questões acerca do sistema
escravista, desde a circulação dos sujeitos, até mesmo à sua demografia. Longe de esgotar o tema,
estudos apontam para a necessidade de investigações mais aprofundadas sobre a chegada de ideais
antiescravistas ao Brasil e seus desdobramentos nos primeiros anos do oitocentos. Entre outros
aspectos, considero fundamental compreender os meios utilizados para a divulgação do antiescravismo
nos mais importantes núcleos econômicos do país, a exemplo das praças comerciais da Bahia e do Rio
de Janeiro. Inicialmente essa pesquisa utiliza como fonte as memórias da escravidão que circularam
entre o fim do século XVIII e a primeira metade do seguinte, embates e discursos políticos feitos no
contexto das câmaras e por figuras públicas, e a chegada da imprensa na capital em 1809, depois
espalhando-se por outras províncias. Esta apresentação visa expor as primeiras impressões de uma
pesquisa que analisa o desembarque, a recepção e os desdobramentos do antiescravismo nessas
importantes praças comerciais na primeira metade do século XIX.

Reflexos de Canavieiras a partir de produções culturais no intermédio dos séculos XIX e XX


Belaine das Neves Nascimento (UESC)

Resumo: O conteúdo que se pretende apresentar é o resultado de um estudo sobre a produção cultural
de Canavieiras entre os séculos XIX e XX. A investigação foi baseada na leitura de fontes como relatos
de viajantes europeus no fim do século XIX. Essas informações foram cruzadas com fragmentos de
textos sobre a história local, e com a obra literária Fruta do Mato (1920), de Afrânio Peixoto, que tem
como cenário a cidade de Canavieiras. Analisamos ainda fotografias da cidade e de sua população para
desenvolver a análise que ora se apresenta. Realizou-se um retorno ao período em que Canavieiras era
apenas um vilarejo. Analisou-se A cidade, sua população e o processo de mudança que ocorreu através
do tempo de forma contextualizada com acontecimentos nos âmbitos regionais e globais.
O estudo parte das considerações da História vista de baixo para pensar nas diversas formas de
resistência dos grupos que foram excluídos da história local, questionamos como estes lidavam com a
classe hegemônica local e quais conflitos poderiam ser verificados no passado de Canavieiras.
Dessa forma, demonstramos a intenção de romper teoricamente com a perspectiva da História
tradicional, narrativa, cronológica, pois compreendemos que as classes sociais conviviam e convivem
de maneira intensamente dinâmica, negociando a todo tempo, visando melhores condições de vida

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para os seus. Buscamos compreender com esse trabalho os resultados devastadores da dinâmica
escravidão, bem como as formas como a cultura negra resistiu e foi sendo incorporada a outras culturas
na cidade investigada. Sabendo, no entanto, que em toda a América, as comunidades de descendentes
de africanos foram amplamente destituídas de direitos, em um período de longa duração, discutimos
criticamente esse problema e verificamos se aos descentes de africanos em Canavieiras também foi
negado o direito de serem considerados parte integrante da produção da História da cidade e de toda
uma região, a saber, o litoral sul baiano.

Lagoa Santa e Laranjeira: Memórias Quilombolas no Baixo Sul da Bahia (1990-2018)


FERNANDA LEMOS PINTO (PREFEITURA MUNICIPAL DE IGRAPIÚNA)

Resumo: Este estudo está sendo desenvolvido a nível de mestrado, com o intuito de pesquisar a
construção de narrativas sobre o universo das heranças africanas na contemporaneidade, entre
as últimas décadas do século XX, início do processo de reconhecimento oficial das comunidades
quilombolas na Bahia, e a primeira do século XXI, quando das certificações emitidas pelo governo federal
através da Fundação Cultural Palmares. O trabalho tem como objetivo discutir sobre a construção de
memória afro-brasileira presente nas narrativas de membros das comunidades quilombolas da Lagoa
Santa e Laranjeira, mediante a análise das narrativas presentes nos documentários - Lagoa Santa: Nós e
Eles, criado em 2017; Comunidade da Laranjeira: Cultura e Memória Quilombola no Baixo Sul da Bahia,
produzido em 2018 e, de outros documentários produzidos sobre o tema. A comunidade de Lagoa
Santa, situada na zona rural, fica a 12 Km da sede do município de Ituberá. Localizada na zona rural,
a comunidade de Laranjeira, com aproximadamente 17 Km de distância da sede da cidade Igrapiúna,
ambas sito no Território de Identidade do Baixo Sul da Bahia. O trabalho justifica-se por possibilitar o
conhecimento das heranças africanas presentes no Baixo Sul da Bahia, no sentido de contribuir para
o reconhecimento dos sujeitos históricos e para a valorização das suas formas de pensamento, cujas
raízes remontam ao contexto das diásporas atlânticas. O referencial teórico desta proposta utilizará
autores tais como Stuart Hall no entendimento do processo de hibridização cultural presente nos
modos de pensar, agir e fazer nas relações construídas e ressignificadas nas comunidades quilombolas
na atualidade; Paul Gilroy também se aproxima das discussões, no que se refere a influência do processo
diaspórico vivido no “mundo atlântico”; bem como a discussão a respeito do interculturalismo presente
na vida das pessoas diaspóricas. Serão utilizadas outras referências bibliográficas que ampliam a
discussão sobre os temas apresentados nas narrativas dos recursos audiovisuais, assim como o diálogo
com outros filmes documentários, documentos escritos que versam sobre comunidades quilombolas
no Baixo Sul da Bahia e do seu entorno.

SESSÃO 02: 22/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

A luta por moradia na poesia de Solano Trindade e nas páginas do Jornal Quilombo (Rio de
Janeiro, 1944-1964)
OSCAR SANTANA DOS SANTOS (COLÉGIO MUNICIPAL NATUR DE ASSIS FILHO - CMNAF)

Resumo:  O presente artigo analisa poemas de Solano Trindade (1908-1974) e matérias do Jornal
Quilombo (1948-1950) com o intuito de identificar reflexos da luta por moradia no Rio de Janeiro,
entre os anos 1944 e 1964. Com o início do desenvolvimento urbano e industrial no Rio de Janeiro,

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a partir de 1940, a população pobre foi obrigada a subir os morros e a viver em barracos improvisados,
sem energia elétrica, água encanada e saneamento básico. Portanto, objetiva-se compreender como
essas questões aparecem na poesia de Trindade e no Jornal Quilombo. Após analisar os poemas O
canto do trabalhador, Poema autobiográfico e Rio, constatou-se que a luta por moradia pode ser
visualizada nos textos literários e na biografia do poeta. Já os artigos sobre política, morros e favelas,
publicados em Quilombo possibilitaram verificar as reivindicações sociais e o descaso da administração
pública com a população pobre da cidade do Rio de Janeiro nas décadas de 1940 e 1950.

A era dos trios elétricos: a micareta de Feira de Santana e o direito a cidade (1975-1985)
MIRANICE MOREIRA DA SILVA (UNEB)

Resumo: O trio elétrico é um antigo conhecido dos carnavais baianos; criado na década de 1950, o trio
naquela ocasião era visto como mais um elemento carnavalesco, assim como eram os carros alegóricos
e as baterias das escolas de samba. Entretanto a invenção de meados do século XX ganhou outros
contornos ainda no final dos anos de 1970, o trio passou a ser o grande protagonista dos festejos na
Bahia e com isso expôs uma nova sociabilidade das ruas em dias de festa. A partir desse contexto,
uso “as naves da alegria” para pensar as representações de cidade em Feira de Santana. Perceber
os lugares e sentidos dos territórios ocupados pela população negra e periférica na micareta de
Feira de Santana, em uma discussão sobre o direito a cidade que está para além dos dias de festa.
Interpretação que perpassa pela análise dos discursos sobre a ocupação da cidade por parte desses
sujeitos subalternizados e como eles tecem táticas para se apropriarem da cidade mesmo diante da
“privatização” dos espaços públicos pelos blocos de cordas e trio. A ocupação privada dos espaços
públicos estava aliada ao poder público que põe a desfilar o seu projeto de cidade e sociabilidades.
O corpo documental para compor a interpretação são os jornais Folha do Norte e Feira Hoje; fontes
que são interpretadas também na perspectiva de construtoras de sentido e significados do objeto;
ao mesmo tempo que noticia cria representações para a festa e para a cidade e seus sujeitos. Que
são lidos a luz de uma interpretação histórica que pensa as representações (Chartier, 1990), os usos
(Certeau, 2014), relacionadas as interpretações de cidade de Sandra Pesavento e quando pensando
o racismo estrutural (Almeida, 2019) que norteia as representações e imaginários da ocupação dos
espaços públicos. Em uma concepção que considera o público como não democrático (Arendt, 2016).
Trata-se, portanto de um texto que vê a micareta como uma linguagem da cidade que apresenta seus
conflitos, interesses e negociações.

Ressignificações territoriais no conjunto habitacional Jardim Sucupira bairro Baraúnas em Feira


de Santana (1980-2000)
RODRIGO ZANNABRÉA DOS SANTOS SILVA (UEFS)

Resumo:  A pesquisa trabalhada neste artigo busca interpretar as relações de poder e disputa por
significação e representação territorial a partir do movimento empreendido por um grupo de moradores
do conjunto habitacional Jardim Sucupira localizado no bairro Baraúnas em Feira de Santana-BA.
Este movimento consistiu na mudança de alguns nomes das ruas do lugar, nos anos de 1980 a 2000.
Desde a sua origem, as ruas da localidade receberam identificações com nomenclaturas do universo
religioso do Candomblé e, no qual passaram a ser alvos das ações firmadas pelo grupo de moradores.
Essas ações aparecem como resquícios de um processos históricos de perseguição e silenciamento
a esse seguimento religioso no Brasil e seus desdobramentos na cidade de Feira de Santana. A ideia
é captar os imperativos por urbanização e civilidade sustentados pela elite local, as criminalizações

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impostas as práticas culturais afrodiaspóricas dentro desse processo e a expansão do protestantismo
na cidade no decorrer do século XX como propulsor do fenômeno histórico territorial ocasionado no
bairro. O propósito é identificar quais interesses orientaram o desejo pela mudança dos nomes nos
tais logradouros. Os usos dos dispositivos legais e discursivos (projeto de lei, processos crimes, abaixo-
assinados, jornais) mobilizados pelos sujeitos envolvidos servirão para dimensionar a disputa pela (re)
construção de significações e representações que circunscrevem a instituição de novas experiências
e territorialidades . A ideia é entender até que ponto os espaços ocupados socialmente dão vasão a
territorialidades que se vinculam e se organizam de acordo tanto as estruturas sociais quanto aos
aspectos identitários, políticos, culturais e religiosos.

As Ações Afirmativas na UEFS: Redefinindo Lugares da Presença Negra em Feira de Santana nos
Séculos XX E XXI
ANA MARIA CARVALHO DOS SANTOS (UEFS)

Resumo: As ações afirmativas na Universidade Estadual de Feira de Santana, UEFS se constituíram


como uma realidade em 2006, quando o Conselho Superior aprovou a Resolução Consu nº034/2006
estabelecendo o sistema de reserva de vagas para os grupos excluídos historicamente, dentre eles,
os negros e não negros oriundos de escolas públicas, os quilombolas e os indígenas. De tal modo a
partir do vestibular 2007.1, a UEFS passou a receber um significativo conjunto populacional negro
em seus cursos. O espaço acadêmico, até então, com predominância de não negros, passou a contar
com uma significativa presença negra. Esta ao longo do tempo se fez constante nos mais diferentes
espaços da urbe feirense, embora algumas narrativas da história da cidade silenciassem sobre esta
presença, ou a ela atribuísse lugares de exclusão. Utilizando a documentação relativa ao processo de
implantação das ações afirmativas, o relatório da política das ações afirmativas da UEFS, articulando
a bibliografia específica pretendemos abordar a presença negra na UEFS dialogando com o conceito
de lugar definido por Michel de Certeau, o conceito de território desenvolvido por Félix Guatarri, bem
como, atentando para as discussões sobre o movimento negro educador desenvolvido por Nilma
Gomes. Por fim ressaltamos que compreendemos as ações afirmativas etnoraciais para o acesso ao
ensino superior como um processo de resistência e reelaboração das possibilidades de vivências face
os resultados da longa diáspora africana.

Dos barracos da Avenida Anchieta para o Conjunto Sérgio Carneiro: a relocação


RAILDA NEVES SOUZA (SEDUC FEIRA DE SANTANA)

Resumo: A pesquisa sobre a perspectiva afrocentrada do Ensino de História no CEUP, além de ter como
foco uma escola de periferia, apresenta aspectos relativos ao crescimento urbano de Feira de Santana.
Crescimento que constrói realidades cujas histórias se confundem com o surgimento da escola aqui
em destaque. Em meio a essas desigualdades e invisibilizações de sujeitos, se construiu a história de
Feira de Santana, cidade que surge dos caminhos desenhados pelo pisotear dos animais e movimentar
das pessoas no cotidiano, e em dias de feira. Assim se desenha, em sua origem, as vias de acesso dos
dias atuais, por onde diferentes transeuntes movimentam-se cotidianamente. Feira de Santana surge
a partir das antigas feiras de gado, tem portanto, uma forte tradição comercial e adquire mais tarde
um importante parque industrial. O contexto de crescimento e modernização de Feira de Santana
incide diretamente no cotidiano de homens e mulheres que sentiam na pele os reflexos da exclusão,
através das condições inóspitas de moradia em que estavam inseridos. É esse contexto, forjado pelas
exigências do progresso, que traz à tona parte da história da vida real de alguns sujeitos “invisíveis”,

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que vão fazer parte da história do surgimento do Colégio Estadual Uyara Portugal.
Ao longo da avenida Anchieta, na época estrada de chão, moravam pessoas praticamente no meio da
rua em pequenos casebres e barracos de papelão, plástico e flandre, sem sanitários, água ou quaisquer
condições de higiene. Eram inicialmente duzentas e oitenta famílias, moradoras daquele lugar, que
deveriam ser removidas. A ideia de promover progresso em Feira de Santana, a partir daquele espaço,
não podia ocorrer fora da preocupação com as pessoas que ali residiam. As ações da Interurb, órgão
público da época definiram o destino dos moradores da Avenida Anchieta. Afinal ela era de extrema
importância pois cortava várias outras avenidas. Naquela época já se pensava, inclusive, na Avenida
Nóide Cerqueira. O novo endereço ficava, na época, extremamente longe do centro da cidade e era
quase de difícil acesso. Inclusive não havia transporte coletivo passando no local. Logo, essa passou a
ser uma das primeiras demandas enfrentadas pelos moradores. Na escola, que havia sido construída
para acolhê-los, os filhos desses moradores viviam a realidade da sua invisibilidade no currículo.

Urbanização, políticas públicas e racismo em Feira de Santana. 1977-1980


VALTER ZAQUEU SANTOS DA SILVA (UFBA)

Resumo: Marcada por um “boom” populacional iniciado ainda nos anos de 1950, Feira de Santana
durante a década de 1970 recebeu mais de 150 mil pessoas migrantes vindas das mais diversas regiões
do Nordeste. Esse fenômeno transformou a realidade local, promovendo mudanças significativas na
forma como o solo urbano foi ocupado. Para se manter a frente do processo de urbanização e controlar
a acesso ao solo, a prefeitura da cidade, em consonância com a política federal de urbanização, criou
secretarias especializadas na gestão da infra estrutura urbana e controle do solo. Passadas mais de
4 décadas desse processo, é possível observar um cenário de favelização das regiões periféricas da
cidade, donde reside a maioria da população negra local, o que nos leva a questionar: Qual a relação
entre as políticas públicas aplicadas no passado e a formação favelas da cidade? Esta comunicação
tratará da gestão do acesso ao solo urbano de Feira de Santana durante os anos de 1977 e 1990,
enfocando as políticas públicas direcionadas para a promoção do acesso à moradia e sua relação com
a população negra da cidade.

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SESSÃO 01: 21/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

Histórias Cruzadas: Desigualdade, Racismo e Exclusão


SHEILA SANTOS DE JESUS (PREFEITURA MUNICIPAL DE ILHÉUS)

Resumo:  Baseado no livro chamado “The Help” de Kathryn Stockett, o longa-metragem Histórias
Cruzadas, é uma produção norte-americana lançada em 2011, e foi dirigido por Tate Taylor que é amiga
de infância da autora do livro, cresceram juntas na cidade de Jackson, no Mississipi, mesmo local onde o
filme foi desenvolvido. A obra fílmica retrata o drama das desigualdades sociais e raciais das mulheres
negras e suas famílias. O filme é um reflexo da conjuntura sobre os direitos civis nos Estados Unidos
nos anos 1960. A história é desenvolvida em uma pequena cidade no sul do país, tem como pano de
fundo a discriminação racial na sociedade norte-americana, por meio das palavras de Martin Luther
King, o longo descreve a história de Skeeter (Stone), uma jovem da sociedade que está decretada a se
tornar escritora, diante desse contexto ela começa a entrevistar as mulheres negras da localidade, que
deixaram seus familiares para trabalhar na criação dos filhos da alta sociedade burguesa. O objetivo do
livro era descreve as mazelas do sistema e os direitos civis. As mulheres negras viviam uma verdadeira
diáspora: não podiam andar de táxi, porque era privilegio da burguesia, e não podiam usar os banheiros
dos patrões, porque eles acreditavam que pessoas pretas transmitiria doenças. O trabalho doméstico
sempre foi e será cruel com a classe negra, essa situação retrata as desigualdades de gênero, tanto nos
Estados Unidos como também no Brasil. Uma categoria que vivem na incivilidade social, que convive
com os baixos rendimentos, discriminação e assédio sexual. Esses são alguns aspectos básicos para se
discutir o altíssimo números de trabalhadores domésticos negros no Brasil. Tal aspectos, perpassam
pela herança escravocrata da sociedade brasileira. Faz 132 anos que a escravidão acabou, mas ainda se
encontra pessoas negras trabalhando em regime de escravidão no Brasil. Faz 8 anos que a classe dos
empregados domésticos no país, passou a ser reconhecidos (Lei Complementar Nº 150/2015). Mesmo
sendo reconhecidos por lei, o ambiente ainda é de verberação e a comprovação de que o trabalho
doméstico ainda não é valorizado pelos patrões, a desigualdade de gênero de classe e étnicas raciais
e o lugar onde reside. Algumas práticas se mantem e consiste em permanecer.

Documentário “Manifestação”: A Denegação dos Direitos Sociais


LÍLIAN SILVA COSTA (UNIVERSIDADE FEDERAL DO SUL DA BAHIA)

Resumo: O Documentário “Manifestação” é uma homenagem aos 57 anos do movimento global da


Anistia Internacional e dos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. A obra fílmica
reúne vários artistas nacionais de diversas áreas e juntos gravaram o vídeo clipe, a música é dividida
em 117 versos redigidos por Carlos Rennó e musicados por Russo Passapusso, Rincón Sapiência e
Xuxa Levy. Diante do repertorio de denúncias a melodia evidência a indignação diante dos mais de
61 mil homicídios cometidos por ano no país: O racismo que golpeia de formas cruel a sociedade;
o LGBTfobia que precisam impacientemente de ações eficazes que eduquem os cidadãos sobre a
diversidade no país; a população negra que ainda sofrem com as relações raciais desequilibradas que
os levam à exclusão social; os indígenas que sofreram e que continuam sendo ameaçados e sofrem
todas as formas possíveis de crueldade e desrespeito a seus direitos fundamentais diariamente; os
refugiados ou migrante que não encontram o mínimo de hospitalidade necessário para sobreviver;
as pessoas gordos que sofrem com preconceito por ser gordas; e o machismo que as mulheres sofre,

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se for negra isso é mais covarde ainda, são humilhadas, agredidas e mortas por sua singularidade;
os indivíduos sofre com a falta de moradia, saúde, segurança, educação e de outros direitos que são
violados no cotidiano de uma camada da população brasileira. Esse manifesto é uma inspiração para
lutas sociais e reinvindicações por uma vida digna com possibilidade de direitos sociais para toda classe
de vulneráveis. Dentro desse contexto, toda sociedade é destinatária dos direitos sociais, mesmo que
a base para esses direitos seja o amparo aos dependentes e dos mais fragilizados, que são os maiores
necessitados por prestações de serviços desenvolvidos pelo Estado. A complexidade que envolve os
direitos sociais e sua incontestabilidade reivindica uma análise exclusiva e pontual desses direitos,
para que existam soluções adequadas à sua natureza, sempre tendo como base o princípio da máxima
existência real. O poder público deve assegurar às pessoas mais desfavorecidas, as mínimas condições
de se viver dignamente, e buscando sempre uma efetiva justiça social. A música é um protesto que
menciona força e determinação que tanto precisamos para continuar lutando. O objetivo é abordar
a ligação direta entre a realidade retratada no vídeo clip e a contemporaneidade de nossa sociedade
atual onde todos os gêneros sempre lutaram e resistiram bravamente a toda forma de opressão e a
discriminação.

Cinema e ensino: O filme como ferramenta de auxílio no ensino de história


DANIEL DE FARIAS CHAVES

Resumo:  A relação cinema e história vem sendo dialogada pela historiografia durante mais de 50
anos; começando com os estudos de Marc Ferro, Jacques Le Goff e Pierre Nora (1992), historiadores
franceses que, no início da década de 70, iniciaram a discussão sobre o valor das produções artísticas
para o estudo da história, e o uso das mesmas como ”documento”. A partir disto, o presente artigo
tem como principal objetivo levantar a importância de um material didático sobre o uso do cinema
em sala de aula, utilizando como temática principal a resistência do negro no Brasil. Esta proposta
se dá devido à observação de pouca ou nenhuma menção em livros didáticos para descrever os atos
de resistência dos povos escravizados inseridos em uma sociedade racista e escravocrata, o que
serve para perpetuar a visão de docilidade desses corpos. Paralelamente, o artigo também salienta a
importância do cinema como uma ferramenta didática para o ensino-aprendizagem de História, visto
que esse aparato é constantemente subvalorizado no ambiente da sala de aula, tanto pela figura do
educador quanto por parte dos estudantes - erroneamente figurando o ensino de história como uma
área de conhecimento estática que não progride, não se adapta e/ou não faz uso das tecnologias atuais
disponíveis. Logo, pretende-se por em evidência metodologias e obras que tratam da resistência do
povo negro dentre os mais de 350 anos de escravidão infligida às populações oriundas do continente
africano, com o intuito de apontar eventos, práticas e personalidades que não ganharam importância
em livros didáticos, e, através da ferramenta fílmica, aprofundar o debate do ensino de história.

Memória Social e Cibercultura: o Laboratório Virtual de História UNEB/CAMPUS X


PRISCILA SANTOS DA GLÓRIA (UNEB)

Resumo: A presente comunicação busca apresentar a experiência do Laboratório Virtual de História


da UNEB/ Campus X, Teixeira de Freitas. Com a pandemia e o isolamento social causada pelo COVID-19
o coletivo do curso de História buscou formas de aproximação e amparo aos estudantes, foi com
esse primeiro objetivo que foi elaborada a página do Laboratório na plataforma do Facebook para
abrigarmos textos explicativos, vídeos de curta duração e fotografias do acervo do curso de História,
sendo assim um espaço e um meio de memória e divulgação. Utilizando os conceitos de cibercultura

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de Pierre Lévy (1999) e memória social de Peter Burke (2006) analisamos o ciberespaço como uma
rede que possibilita a valorização das culturas locais, mas também partícipe de um processo global.
A página facebook.com/labvirtualhistoria foi criada em maio de 2020 e junto com ela um perfil
no Instagram, @labvirtualhistoria, ambas se complementam e têm sido um importante meio de
transmissão da memória social do curso de História, destacando a atuação de professores com seus
projetos de ensino, pesquisa e extensão, mas também de estudantes e egressos. Ao decorrer das
atividades no ciberespaço os debates circunscritos na história do tempo presente ganharam visibilidade
e percebemos as possibilidades de tornar a página também um instrumento de ensino de História com
a articulação do 1º Ciclo de Debates do Laboratório Virtual de História. A primeira live aconteceu no
dia primeiro de julho com a temática “Por uma educação antirracista”, a professora do colegiado Raiza
Canuta debateu com a egressa Jéssica Silva, ambas bastante ambientadas nas redes sociais, tivemos
a participação de estudantes ingressantes, concluintes, egress@s e da comunidade externa da cidade
de Teixeira de Freitas, mas também de outras cidades e estados do Brasil.

Uso de tecnologias de informação e comunicação (TIC) na sala de aula dos professores de História
de Poções (BA): breve relato de experiência

EDIVANDA JESUS DA SILVA (SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE POÇÕES-BA)


Resumo: Este relato de experiência tem por objetivo discutir a relação entre as Tecnologias de
Informação e Comunicação (TICs) e as salas de aulas, com foco nos professores de História da cidade
de Poções (BA). A partir do levantamento de dados realizados com diretores das Escolas Municipais
e os professores de História da cidade, partimos dos seguintes questionamentos: os professores têm
habilidade para usar essas Tecnologias? Utilizam com frequência? Com qual finalidade e com qual
viés historiográfico? Deste modo, imbricado a minha formação e atuação enquanto professora de
História do município, tentamos apontar algumas possíveis respostas a partir do levantamento de
dados sobre os equipamentos tecnológicos existentes nas doze (12) escolas de Ensino Fundamental
II, do questionário aplicado a 20 professores em relação ao uso das TICs, do contato com as políticas
públicas desenvolvidas em âmbito Federal e do aporte teórico de autores como Pierre Lévy (2008),
Vera Maria Candau (2016), Pedro Demo (2008), dentre outros. Nossa análise permitirá concluir, ao
final, que há um distanciamento abissal entre as políticas públicas e a realidade da sala de aula no
Município de Poções (BA), distanciamento que consequentemente afetam professores e alunos, tanto
no uso cotidiano no ambiente escolar e no processo ensino aprendizagem, quanto no enfrentamento
de exames nacionais diante de outras regiões do país.

Cinema e Ensino de História: uma proposta de emancipação de Jovens e Adultos periféricos


RUBENS BALDINI NETO (PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO PAULO)
Resumo:  O projeto visa analisar as possibilidades do uso do cinema como promotor da Educação
em Direitos Humanos para Jovens e Adultos da periferia de São Paulo, buscando a autonomia dos
educandos por meio da produção de materiais audiovisuais. Para tanto, tomamos como base teórica
o campo da Cultura Visual, onde as imagens e tecnologias criadas para dar sentido ao mundo que
envolve os sujeitos são compreendidas na dinâmica interativa com sua própria agência e seus próprios
regimes (MENEGUELLO). Além disto, utilizamos a metodologia da pesquisa-ação por do Projeto Escola
Minuto - CIEJA Campo Limpo, que levou em consideração as especificidades da Educação de Jovens
e Adultos na produção e análise de conteúdo audiovisual. Parte-se do pressuposto que as produções
audiovisuais, em específico o cinema, são capazes de promover uma reflexão ética e uma fruição
estética simultaneamente ( W. BENJAMIN). Da mesma forma que Educação em Direitos Humanos

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é essencial para o desenvolvimento da autonomia dos educandos no sentido de superar exclusões
de saberes, próprios ou de outrem, no tensionamento da defesa de seus direitos diante do Estado
(BOAVENTURA DE SOUZA SANTOS). Produzir suas próprias narrativas audiovisuais é um dos caminhos
possíveis do Ensino de História promover uma educação significativa que abra espaço para o efetivo
exercício da autonomia e da cidadania dos educandos da EJA.

Pandemias virtuais: as temporalidades das/nas plataformas de streaming


FRANCISMARY ALVES DA SILVA (UFSB)
Resumo:  O conceito de tempo histórico, por mais diverso ou elaborado que tenha sido proposto,
sempre teve como ponto de partida a premissa básica das relações entre tempo vivido, ou seja, o
tempo natural, e o tempo da percepção, o da consciência (KOSELLECK, HARTOG, BRAUDEL, PROST,
RICOUER, entre outros). Relações entre consciência e memória, calendário e narrativa, realidade e
construção histórica, tempo passado, tempo presente e projeção, sempre foram fatores constituintes
das noções de temporalidade e peças importantes para a construção do conhecimento histórico. Em
2020, toda uma geração de pessoas, e não apenas historiadores, tiveram que se adaptar a uma nova
forma de relação dos corpos, de relações de trabalho, de relações econômicas, de práticas de saúde
e segurança, de lazer, de acesso às informações, de ensino-aprendizagem, enfim, e, primordialmente,
de restrições do viver em comum e ampliação de vulnerabilidades socioeconômicas, de sobrevivência,
em meio ao caos causado pela pandemia gerada pela COVID-19. Nesse contexto bastante recente
e em plena efervescência, uma nova experiência de temporalidade há tempos vislumbrada parece
ser exaustivamente explorada em “tempo real”, em intensidade quase tão pandêmica quanto à da
própria crise sanitária. Desde alternativas para interações familiares a propostas de aulas remotas,
webinários, lives, temos vivenciado novas e intensas temporalidades. No âmbito educacional, a
novidade parece estar voltada ao ensino-aprendizagem dinâmicos, muito embora engessados por
velhas variáveis sociais, econômicas, políticas, científicas e humanas, nem sempre consideradas
pelas políticas públicas que buscam responder, em tempo e com ação reais, à pandemia. A presente
comunicação busca apresentar, de modo ainda bastante preliminar, reflexões sobre o contexto das
novas tecnologias de comunicação operadas por plataformas de streaming, considerando o período
pandêmico (SEVALHO, 1996 e 1997) e a partir de algumas concepções de temporalidade histórica.
Busca-se compreender como as novas experiências de virtualidade, de produção de conteúdo, seja ele
voltado para ensino-aprendizagem ou não, proporcionam uma nova concepção de temporalidade com
a qual estamos convivendo e que certamente influenciará tanto os estudos históricos, sobremaneira
o campo de batalha construído pela História Pública (ALMEIDA; ROVAI), quanto os modos de vida
entendidos, numa projeção ainda bastante incerta, como “novo normal”.

SESSÃO 02: 22/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

Justiça e moralidade: A representação da Máfia Norte-Americana em “Os Intocáveis” (1987).


VITOR BERNARDI BÜNDCHEN

Resumo: O presente trabalho objetiva apresentar “Os Intocáveis” (Brian De Palma, 1987) enquanto
obra cinematográfica representativa no escopo de abordagens existentes da Máfia Norte-Americana.
Em princípio, é essencial esclarecer que a primacial peculiaridade do organismo mafioso não está
relacionada à atividade fim do grupo, mas nos meios pelos quais os líderes orientam seus subordinados

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e alicerçam sua organização. O filme se inicia com a trilha sonora de Ennio Morricone e a apresentação
dos atores que compõem a obra. Os créditos esclarecem o panorama da cidade de Chicago em 1930.
Diversas quadrilhas lutavam pelo domínio do império bilionário de bebida ilegal e o uso de granadas e
escopetas era algo corriqueiro para impor vontades próprias. A Lei Seca Norte-Americana foi efetivada
em 1920 através do Volstead Act, sendo responsável pelo banimento da produção e comércio de
bebidas alcóolicas. A proibição da fabricação e da venda de álcool por 13 anos acabou fortalecendo
o crime organizado e dando origem a um próspero mercado negro. Estima-se que 75% da população
do país tenha se tornado cliente dos contrabandistas e neste período, quadrilhas de origem judia e
italiana dividiam o monopólio do negócio. A Lei Seca assegurou o poder e a influência da Máfia em
toda sociedade norte-americana nas décadas seguintes. Esta foi a época dos grandes chefões. A época
de Al Capone. A estrutura central do filme revela a predominância de um grupo que combate a Máfia
de Chicago nas décadas de 1920 e 1930. Deste modo, a face romântica e estilizada da organização
criminosa retratada não se sobrepõe a importância de um grupo de agentes da lei personificados em
Eliot Ness, diferentemente de “O Poderoso Chefão” (Francis Ford Copolla, 1972), obra de referência
que estabeleceu novos padrões de glamourização do crime organizado.

Cinema na Revista do Globo: o caso da crítica sob direção de Plínio Morais.


EDUARDO BARRETO DE ARAÚJO (GOVERNO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL/PREFEITURA
SANTA CRUZ)

Resumo: Esta apresentação é um breve recorte acerca do cinema na Revista do Globo sob a direção
de Plínio Morais como redator. É parte integrante de pesquisa de Doutorado acerca da crítica
cinematográfica e está vinculada ao Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Santa
Maria. Pretende-se apresentar em termos gerais a Revista do Globo, periódico criado em Porto
Alegre no ano de 1929 e que teve duração até 1967, bem como sua seção dedicada ao cinema e
especificamente o momento onde Plínio Morais (pseudônimo de Jacob Koutzii) assume como redator
em 1938. Dotada de uma estética que marcou época na história dos periódicos nacionais do século XX,
a Revista do Globo, magazine de modernidade, segundo a própria, se propôs a ser como bem defendia
um veículo de comunicação para o Rio Grande do Sul. Dentro dessa proposta de estabelecimento, a
partir logo de seu primeiro número, o cinema figura como uma das suas seções mais importantes e
elaboradas. Se valendo de todas as estratégias de publicidade, como a utilização das imagens das
grandes estrelas, a seção cresce em importância dentro do periódico e em 1939 recebe um reforço
de peso. Se até o ano de 1939 a seção de cinema não possui claramente um eixo norteador, mesmo
sendo abastecida com inúmeras reportagens e artigos, com a chegada de Plínio Morais isso muda, e
a seção Globo cinematográfico ganha um aspecto mais teórico e mais voltado à crítica de fato. Sendo
modificada a sua aparência estética e apresentando uma abordagem mais teórica em relação aos
aspectos gerais que circundam o cinema, desde a produção dos filmes, passando pelos diretores e
atores, bem como questões políticas que transcendem o puramente fílmico.
Portanto é intenção apresentar de forma breve este recorte, onde Plínio Morais assume a seção de
cinema do periódico, dando assim uma nova abordagem em relação ao cinema, e especificamente este
momento de mudança que se dá no ano de 1939. Serão apresentados aspectos gerais da pesquisa
em que este recorte está inserido, objetivos, geral e específicos, bem como resultados preliminares e
questionamentos acerca do trabalho com imagens digitalizadas.

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Que sul da Bahia é esse na tela? A noção de Nordeste no filme “Os deuses e os mortos” (1970),
de Ruy Guerra.
MICHAEL SILVA ROSENO

Resumo:  Diversas narrativas acerca da região Sul da Bahia geralmente levam em consideração a
lavoura cacaueira, produto que deu uma visibilidade a esta localidade com relevante participação
nas exportações baianas. Divulgada na literatura de Jorge Amado, Adonias Filho e outros autores, os
escritos concernentes à região ajudaram a criar representações de uma terra “(...) que apenas começava
a crescer, de aventureiros e lavradores, onde só se falava em cacau e mortes”. Terras do Sem Fim, obra
onde está contido o trecho serviu de inspiração e referência para o diretor e roteirista Ruy Guerra na
realização do filme “Os deuses e os mortos” – com filmagens em Itajuípe, Ilhéus e outras cidades do sul
baiano e que retrata a decadência da economia cacaueira na década de 30 -, objeto de estudo de uma
pesquisa em andamento no Programa de Pós-Graduação em História – Atlântico e Diáspora Africana,
sob o título “Os frutos de ouro na terra adubada com sangue: representações da identidade regional
na literatura e no filme ‘Os deuses e os mortos’”. O recorte temático escolhido para esta comunicação
visa inscrever o filme de Ruy Guerra num diálogo com os debates intelectuais do seu contexto, bem
como outras produções da época. Ismail Xavier (1997) aponta que uma das primeiras cenas do filme,
cujo cenário é um posto de gasolina, se passa em Milagres, mesmo lugar onde termina “O dragão
da maldade” – filme de Glauber Rocha que foi lançado em 1969, mesmo ano em que ocorreram as
filmagens de “Os deuses e os mortos”, indício que nos permite averiguar um diálogo entre as duas
obras. Ruy Guerra, nascido no atual território de Moçambique enquanto este país ainda era colônia
portuguesa, estudou cinema na França e adotou o Brasil como residência no final da década de 50
e foi um dos principais colaboradores do Cinema Novo, movimento que, tal qual a geração de 30 do
romance brasileiro, toma “o Nordeste como o exemplo privilegiado da miséria, da fome, do atraso, do
subdesenvolvimento, da alienação do país”, como afirma Durval Munis de Albuquerque Júnior em “A
invenção do Nordeste”. No entanto, Ruy Guerra submete as imagens desse Nordeste “a uma leitura
‘marxista’ que a inverte de sentido, mantendo-a, no entanto, presa à mesma lógica e questões”.

O “Ser Mundo” Antônio Pitanga e o sentido colonial da presença e da representação negra no


cinema: uma análise do filme Pitanga (2017)

ADRIANO DA SILVA DENOVAC (UDESC - FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA


CATARINA)
Resumo:  A presente proposta de comunicação é parte da discussão que elaboro em minha tese
e tem como objetivo, a partir da análise fílmica do ator afro brasileiro Antonio Pitanga, apontar o
discurso elaborado sobre negras e negros no cinema e também do ponto de vista do ator, pensando
em que medida se deu a atuação de Pitanga no cinema brasileiro, seu posicionamento político, suas
contribuições e debates sobre a luta antirracista e sua preocupação com a representação dos negros
e negras no cinema. Para esta comunicação vou analisar essas perspectivas com base no filme Pitanga
de 2017, que recupera no presente as memórias do artista e busca construir uma narrativa sobre esse
ator negro e seu locus frente ao racismo. A análise do filme dialogará com os campos de estudos Pós-
Coloniais e Decoloniais, uma vez que em sua trajetória cinematográfica Pitanga tenta romper com o
sentido colonial da presença e da representação negra no cinema, isso se dá também através de uma
elaboração estética com propostas de sensibilidades outras, o que permite uma problematização sobre
o papel de um cinema com perspectivas decolonias: que tenha como proposta uma descolonização
estética e a possibilidade de provocar a construção de subjetividades decolonias, aponto e discuto o

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trabalho de representação do ator como uma contribuição decolonial importante. A experiência no
mudo de Antonio Pitanga, segundo minha análise, tem articulação com essas perspectivas.

A mobilização de imagens-discursivas sobre o sertão no filme Bacurau (2019)


THAÍLLA DA SILVA SENA

Resumo: O filme Bacurau (2019) dirigido e roteirizado por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles
é ambientado em Bacurau, um povoado interiorano. Um local seco e de difícil acesso, de povo pobre
e resistente, símbolos e narrativas que nos remetem à imagem cristalizada de sertão. A população de
Bacurau passa a experimentar situações estranhas após a morte de Dona Carmelita, muito respeitada
e querida no povoado. O filme é envolto num clima de tensão, e há ao longo do desenvolvimento da
trama um jogo de quebra de expectativas do assistente sobre o lugar e seus personagens “sertanejos”.
Embora não abra mão de imagens de secura, simplicidade, resistência sertaneja, “banditismo”;
a narrativa do filme agrega a presença de tecnologias da informação, sagacidade e organização
comunitária ao ambiente e sujeitos sertanejos. É a mobilização de imagens-discursivas sobre sertão
e sertanejo no filme Bacurau (2019) que colocamos em questão. Buscamos compreender como essas
imagens e sentidos sobre o sertão são construídas no filme através do interdiscurso (a memória
discursiva, o já-dito e esquecido que sustenta todo dizer para que possa fazer sentido), procurando
explicitar seus processos de significação (ORLANDI, 2005). O filme será aqui tratado como discurso,
imagens discursivas em movimento, e abordado a partir da análise do discurso. Argumentamos que
o filme Bacurau se realiza numa repetição histórica das imagens discursivas sobre sertão: desloca,
permite o movimento porque historiciza o dizer, fazendo fluir o discurso, trabalhando o equívoco e o
possível de ser deslocado nas imagens cristalizadas (ORLANDI, 2005: 55).

Uma análise das representações da Economia do Compartilhamento em produções audiovisuais:


ensino e pesquisa em História
SÉRGIO MARTINS PEREIRA (UFSB), CRISTIANE MUNIZ THIAGO (UFSB)

Resumo: O objetivo deste trabalho é discutir os possíveis usos de dois tipos de fontes audiovisuais
como recurso para o ensino e a pesquisa em História. O ponto de partida para análise será nossa
experiência docente na disciplina “Estudos Interdisciplinares do Trabalho” ministrada desde 2016
para cursos da área das Ciências Humanas e Sociais na Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB).
Além do vínculo com a experiência da sala de aula, o trabalho busca seu referencial em autores e
pesquisas orientados pelos pressupostos teórico-metodológicos da História Social do Trabalho e
da Sociologia do Trabalho. Para a abordagem dessa temática no tempo presente, nossas reflexões
terão como um objeto mais geral o cenário recente de desenvolvimento da chamada Economia do
Compartilhamento, ou do trabalho mediado por aplicativos ou plataformas digitais, e seus impactos
sobre a realidade do trabalho no Brasil. Estudos no campo das Ciências Humanas e Sociais, que se
intensificaram na década de 2010, têm apontado a relação entre o desenvolvimento das chamadas
Economia do Compartilhamento com um curso avançado da desregulação (pública, social, estatal) não
apenas sobre as relações econômicas e laborais. Slee (2017) e Zuboff (2019) associam esse fenômeno
à atual fase do capitalismo em que o lucro privado se desvencilha das até então tradicionais formas
de controle público e social.
O material audiovisual trabalhado pode ser reunido em dois grupos. O primeiro diz respeito aos
documentários que ganharam destaque nos últimos anos ao abordarem essa nova forma de vínculo
(ou não vínculo) do trabalho a aplicativos e plataformas e outras formas de mediação tecnológica.

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Nesse tipo de documentário, a narrativa fílmica se aproxima da perspectiva acadêmico-científica ou,
por vezes, apoia-se em estudos e pesquisadores consagrados no meio acadêmico. Seja comercial
ou artística, sua produção mais voltada para um público geral apreciador ou consumidor do gênero
documental. O segundo tipo de material é representado pelas narrativas audiovisuais produzidas,
de forma mais ou menos sistemática, por atores sociais mais diretamente ligados à realidade que
buscamos reconstruir analiticamente. Destacam-se os vídeos produzidos por trabalhadores de
aplicativos, ou seus pretensos porta-vozes, que atuam como youtubers, com produção regular de
vídeos. Essa produção destina-se aos chamados “seguidores” e “visualizadores” que garantem algum
retorno econômico para os autores dos vídeos. Não obstante essa divisão um tanto esquemática
das fontes utilizadas, acreditamos que os resultados alcançados em sala de aula indicam que o apoio
do material audiovisual tem contribuído para que os objetivos que buscamos sejam atingidos: a não
dissociação entre ensino e o estímulo à produção do conhecimento histórico.

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SESSÃO 01: 21/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

A Santidade de Jaguaripe, novamente revisitada: o estado da questão e seus desdobramentos


para o estudo da catequese no Brasil colonial
MORENO LABORDA PACHECO (UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA)

Resumo:  Esta comunicação se propõe a passar em revista interpretações recentes a respeito da


Santidade de Jaguaripe, movimento religioso e político que tomou lugar na Bahia dos anos 1580. A
Santidade, de origem indígena, mas que também atraiu mestiços – mamelucos –, africanos e brancos,
já foi objeto de análises diversas, inspiradas por vias teóricas distintas e produtoras de interpretações
também distintas – por vezes conflitantes. Mas, nos últimos anos, parece ter ganhado tração a crítica
à validade daquelas que, desde os anos 1990, predominaram sobre o fenômeno. Esta comunicação
busca sondar o atual estado da questão, esforço que torna inevitável o exame da fronteira entre as
contribuições da história e da antropologia. Ao mesmo tempo, caberá a ela tentar articular o debate
em torno deste episódio, em particular, ao do processo de catequese e formação de uma certa
cristandade no Brasil colonial, de maneira mais alargada.

Sexualidade Perigosa: Tibira, o primeiro indígena vítima da “homofobia” na colônia portuguesa


no século XVII.
ANDRÉ PAULO RIOS DE SOUZA BRITO (UFRB)

Resumo: A Inquisição por mais de quatro séculos foi um dos órgãos que mais criminalizou, condenou
e assassinou centenas de pessoas. Sua legitimação vinha diretamente da Igreja Católica que designou
um formato de julgamento baseado nas mais terríveis formas de tortura dos denunciados. Por ser
um agente público e, possuir um contato direto com o rei, o Tribunal do Santo Ofício, teve um papel
importante nesse processo de “caça as bruxas”. A Sodomia, ou pecado negando, e que hoje recebe
o nome de homossexualidade era uma das práticas mais abomináveis considerada pela Igreja e até
na contemporaneidade se é condenada pela mesma. Durante muito tempo, alguns grupos indígenas
conviveram com essa prática em seu dia adia de forma mais natural possível, pois o tema sexualidade
era desconhecido nas aldeias do Brasil quinhentista. As práticas sexuais não foram perseguidas até a
chegada dos colonizadores, pois os mesmos não tinham a percepção de que o nudismo poderia ser
considerado um atentado a moral pregada pela Igreja católica e que até mesmo o sexo entre duas
pessoas era algo anormal e de cunho “terrorista” para essa população. Aliás, o conceito de religião
nem existia para essa população ainda, pois suas práticas não se enquadravam no que corresponde
ao á heresias neste momento. A associação dos povos indígenas a promiscuidade e a heresias se
reverberou nesse momento histórico justamente por essas práticas, em especial, a sodomia, serem
diferentes daquelas conhecidas no Oriente e que automaticamente causou grande desconforto entre
esses colonizadores, que aterrorizados com tais práticas começam a perseguir e matar esses homens
e mulheres partindo do princípio de que tais ações fossem demoníacas e profanas e por isso deveriam
ser exterminadas como uma espécie de controle social. As maneiras de se “converter”, “purificar”,
“consertar”... um sodomita era reproduzida de forma violenta e desumana, o índio Tibira foi um desses
que como penalidade é posto de cabeça para baixo e tem seu corpo dividido por uma bala de canhão
e uma das partes é jogada ao mar como castigo por tais práticas.

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Uma família de criptojudeus em Matoim: Os Rodrigues Antunes e a Inquisição
ANGELO ADRIANO FARIA DE ASSIS (UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA)

Resumo: Em 1591, chegaria ao Brasil a Primeira Visitação do Tribunal do Santo Ofício da Inquisição.
Capitaneada pelo Licenciado Heitor Furtado de Mendonça, percorria até 1595 as capitanias da
Bahia, Pernambuco, Itamaracá e Paraíba para coletar confissões e denúncias de comportamentos
considerados ameaçadores à pureza católica no Novo Mundo. dentre os principais grupos ameaçadas,
encontravam-se os cristãos-novos, descendentes dos antigos judeus convertidos à força em fins do
Quatrocentos. Na etapa baiana da visitação, vários membros da família Rodrigues Antunes, importante
grupo familiar radicado em Matoim, na região do Recôncavo, seriam duramente acusados de praticar
ocultamente o judaísmo, por isso denominado criptojudaísmo, proibido no mundo português desde
1497. As denúncias recaíam principalmente sobre os membros cristãos-novos da família: a matriarca
octogenária do clã, Ana Rodrigues, o marido Heitor, já falecido, seus filhos e netos. Mas também
ameaçava a honra e gerava desconfianças sobre os genros e noras cristãos velhos da família. A partir
das acusações, confissões e processos, é possível analisar as práticas religiosas familiares, e como
estas variavam com o tempo, bem como a dissolução, mesmo que temporária, das relações sociais
com a chegada da visitação, ou ainda, as estratégias do Santo Ofício na coleta de testemunhos e
encaminhamento dos casos. Os processos contra os Antunes - inclusive da matriarca, condenada à
fogueira passados mais de dez anos depois de sua morte, auxiliam na compreensão das religiosidades
e intolerâncias vivenciadas em fins do primeiro século de presença lusa na América a partir de fontes
privilegiadas para o devir do historiador das religiosidades no mundo colonial.

O Estigma do Mal sobre a Mulher e o Discurso Eclesiástico: da “Caça às Bruxas” na Europa à


Feitiçaria na América Portuguesa (XVII-XVII)
JESSICA MACHADO SILVA

Resumo:  O objetivo deste trabalho é mostrar o discurso eclesiástico como um dos legitimadores
dos fenômeno conhecido como “Caça às Bruxas” e analisar o trajeto histórico que fez da mulher a
figura estigmatizada e elevada à categoria de agente de Satã; passando pela institucionalização da
sanha persecutória a partir da Inquisição, enfatizando o estabelecimento do Santo Ofício português
e sua atuação na América portuguesa dentro de uma perspectiva que deixa evidente a relação
intrínseca entre feitiçaria e sexualidade feminina. A proposta é fazer um balanço histórico a partir
de uma abordagem que contextualmente se insere no Antigo Sistema Colonial, o que nos confere
algumas especificidades sobre o tema, pois, embora a perseguição sistemática às feiticeiras seja
uma característica da Europa Ocidental no período da Idade Moderna, nesta pesquisa há um salto
geográfico que possibilita uma análise da jurisdição do Santo Ofício português em outros domínios
intercontinentais, o chamado Novo Mundo.

Perseguição e suspeita: a trajetória de um ex-jesuíta no contexto do pós-expulsão na Bahia


FABRICIO LYRIO SANTOS (UNIVERSIDADE FEDERAL DO RECÔNCAVO DA BAHIA)

Resumo: Cipriano Lobato Mendes foi um padre secular que viveu na Bahia no século XVIII e que teve
recusado o seu pedido de habilitação para atuar como comissário do Tribunal do Santo Ofício de
Lisboa no ano de 1771. O que sua recusa tem de peculiar é o fato de ter tido como justificativa o
antigo pertencimento de Cipriano à Companhia de Jesus, no tempo em que sobreveio o decreto de
expulsão e desnaturalização de todos os jesuítas do reino e domínios portugueses (3 de setembro de
1759). Na ocasião da execução do referido decreto, vários foram os jesuítas que renunciaram aos votos

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solenes que os ligavam à ordem inaciana e optaram por continuar vivendo em terras pertencentes à
coroa portuguesa, em lugar de enfrentarem a expulsão e a prisão, em Lisboa, ou o exílio, na Itália.
Assim como outros religiosos cujas trajetórias venho investigando em um projeto de pesquisa mais
amplo, Cipriano optou por continuar seguindo a vida clerical, ingressando no clero secular. Apesar
de existirem referências significativas na historiografia acerca da expulsão dos jesuítas, muitas delas
motivadas pela passagem dos 250 anos deste episódio, poucos pesquisadores têm se debruçado sobre
o contexto das décadas seguintes, no qual vários sujeitos tiveram que se adequar à nova realidade. A
expulsão transformou os jesuítas em inimigos de Portugal e do Cristianismo e o clima de perseguição
e antijesuitismo conheceu um movimento ascendente ao longo dos reinados de D. José (1750-1777) e
D. Maria I (1777-1816). Baseando-se em documentos oriundos do Arquivo Histórico Ultramarino e dos
acervos da Mesa da Consciência e Ordens e do Tribunal do Santo Ofício, depositados na Torre do Tombo,
busca-se nesta comunicação reconstituir parte da trajetória deste ex-jesuíta como forma de lançar luz
sobre o contexto de perseguição e desconfiança instaurado na segunda metade do século XVIII em
Portugal e suas colônias. Proponho pensarmos este cenário como um desdobramento importante do
processo de expulsão dos jesuítas, transcorrido na década de 1750, no âmbito da afirmação do poder
régio e do enquadramento das instituições religiosas e seus agentes.

“Religiosos de vida santíssima e digna de louvor”: espiritualidade franciscana na América


Portuguesa (Séculos XVI e XVII).
IGOR SANTIAGO COSTA (UFBA)

Resumo: Em 1585, a Ordem dos Frades Menores fincou raízes na América Portuguesa através da criação
de uma Custódia que viria servir no auxílio ao trabalho catequético. Apesar da presença franciscana
ser perceptível desde os primeiros contatos com os nativos, só no final do século XVI é que houve uma
presença maior desses religiosos na colônia. A respeito desse momento de finco dos franciscanos na
recente conquista lusitana, foi escrita, em 1621, uma obra intitulada Narrativa da Custódia de Santo
Antônio do Brasil, assinada por fr. Manuel da Ilha. Para isso, o autor reuniu documentação nos arquivos
da Ordem e colheu informações orais dos religiosos que atuavam neste lado do Atlântico. É sobre este
livro, em especial sobre o aspecto espiritual dele, que essa pesquisa se trata. O formato e o contexto de
produção da obra atestam que ela respondia a um comando superior de registro memorialístico, que
envolvia toda ordem franciscana no período, e assim ela não deixa de nos revelar facetas importantes
das práticas espirituais dos frades. Tais relatos podem ser entendidos enquanto modelares e visavam
enaltecer a identidade da Ordem, bem como servir de exemplo para os frades e leigos que viessem ter
contato com tal produção. Além disso, através do exemplo de vida desses frades, os textos serviram
também como forma de combate a críticas e de elucidar conflitos em que os mesmos estiveram
metidos entre o Quinhentos e o Seiscentos. A presente comunicação, através da análise da construção
discursiva e em consonância com a ideia de Chartier de que devemos entender as motivações e as
implicações que estão “por trás da aparente objetividade das narrativas”, investiga as formas pelas
quais os franciscanos no Brasil dos séculos XVI e XVII foram representados, em matéria de vivência
espiritual. Para além do caráter informativo e defensivo da obra aqui estudada, foram examinados os
ideais de santidade, as virtudes dos religiosos elencados, a mística envolvida entre os frades e as suas
práticas ascéticas. Um aspecto que nos interessa é entender como esses modelos circulavam não só
entre os franciscanos que atuaram na América, mas também em outras partes do globo no mesmo
período. Desse modo, abordaremos os tópicos agenciados pela historiografia franciscana no tocante a
seus aspectos espirituais, explorando a vivência e os exemplos de franciscanos na América Portuguesa.

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O estabelecimento das estruturas do poder eclesiástico paulista em territórios de missão: o caso
da freguesia de Araçariguama
MICHELLE CAROLINA DE BRITTO (UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA)

Resumo: O enraizamento das estruturas do poder eclesiástico em São Paulo e a atuação dos párocos,
missionários e vigários da vara possibilitaram a confirmação, a preservação e o exercício da jurisdição
episcopal nas diferentes comarcas diocesanas por meio da apropriação de capelas, paróquias, núcleos
missionários e vigararias da vara, que anteriormente pertenciam ao bispado do Rio de Janeiro, à malha
eclesiástica paulista. A reorganização dos espaços de atuação do oficialato episcopal e do clero regular
empreendida por d. Bernardo Rodrigues Nogueira, primeiro bispo de São Paulo, visava legitimar
as competências (espirituais e temporais) do prelado e submeter os membros do clero regular a
autoridade episcopal. Esta comunicação discorrerá sobre as medidas de organização e estruturação da
malha eclesiástica paulista, no período de 1745-1770, por meio da análise da documentação paroquial
e da administração eclesiástica e civil, assim como a rearticulação entre as estruturas, as formas de
intervenção e a ação dos poderes eclesiásticos na evangelização e na vigilância comportamental dos
fiéis através do caso especifico da freguesia de Araçariguama.

Entre as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia e o Código do Direito Canônico:


normatização, conflitos e adaptações no laicato em Salvador - BA (1917-1924).
THAÍSE LOPES DOS SANTOS (UFBA), EDILECE SOUZA COUTO (UFBA)

Resumo: Em 1918 as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, vigentes desde 1707, deram
lugar ao Código de Direito Canônico, que determinou maior interferência dos religiosos nos assuntos
ligados aos leigos. Incutida à essas normativas, afirmou-se que houve uma decadência das irmandades
leigas no decorrer do século XX, o que pode ser questionado, visto que até os dias atuais tais associações
ainda se fazem presentes na capital baiana. Cabe, portanto, entre outras coisas, compreender as
transformações ocorridas no início do século para causar tal impressão, mas também os mecanismos
utilizados pelas associações diante do que lhes era imposto. Para tanto, realizamos uma análise
comparativa entre o Código de Direito Canônico e as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia
a fim de perceber as diferenças entre as duas legislações eclesiásticas no que diz respeito às irmandades
leigas. Além disso, atentamos para meses específicos do jornal Diário de Notícias entre 1917 e 1924,
com o objetivo de investigar a repercussão da nova legislação no jornal, onde constantemente eram
divulgadas convocações dos membros para reuniões, celebrações e eleições da mesa administrativa
das irmandades. Com isso, notamos que a partir do ano no qual o Código Canônico entrou em vigor,
para que ordens terceiras, irmandades e confrarias fossem fundadas mantinha-se a exigência de que
os ordinários locais as permitissem e aprovassem. Estes, de acordo com a nova legislação deveriam se
fazer presentes em todas as reuniões das mesas administrativas. Eram, pois, religiosos as autoridades
máximas e capazes de dissolver as associações leigas caso estas não cumprissem ou se opusessem
aos seus desígnios. Desde os tempos coloniais a Igreja Católica se fez presente e participante da
construção moral da sociedade brasileira. A recém separação entre Igreja e Estado no fim do século
XIX, aliada a proliferação de novos ideais e outras vertentes religiosas no Brasil causou reações da
instituição eclesiástica. Como consequência, a Igreja tentava aproximar a religiosidade da ortodoxia
e as associações questionadoras passaram por momentos difíceis. Dessa forma, adaptando-se
formalmente às novas medidas ou continuado a existir na ilegalidade, as irmandades leigas desafiaram
o poder de um clero reformado.

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Padres, Políticos e Mitos: estudo historiográfico comparado acerca das trajetórias de vida dos
Padres João da Boa Vista (Goiás) e Cícero de Juazeiro (Ceará), 1844-1947.
RAYLINN BARROS DA SILVA (SEDUC - SECRETARIA DA EDUCAÇÃO DO ESTADO DO TOCANTINS)

Resumo: Essa comunicação on-line tem o objetivo de historicizar e explicar, do ponto de vista de uma
análise historiográfica comparativa, as trajetórias de vida de dois sacerdotes católicos brasileiros que
viveram entre a metade do século XIX às primeiras décadas do XX: Padre João da Boa Vista e Padre
Cícero de Juazeiro. Esses dois religiosos, cada um a seu modo e nos sertões que viveram – o primeiro no
extremo norte goiano e o segundo no cariri cearense – por suas atuações na esfera religiosa e política,
terminaram por se tornar as maiores referências das suas sociedades, ambos chegando a ocupar
cargos públicos, despontaram como as maiores autoridades religiosas e políticas de suas épocas.

Leonardo Boff e as Interpretações da História do Brasil Presentes no Livro: Concluir a refundação


ou prolongar a dependência?
DANILLO RANGELL PINHEIRO PEREIRA (GOVERNO DO ESTADO DA BAHIA)

Resumo:  O teólogo e filósofo Leonardo Boff, apresentou em muitas de suas publicações escritas,
uma leitura entusiasmada do vaticano II, o interpretando apesar de não deixar de pontuar limites,
como um sopro renovador na Igreja Católica, pois possibilitou o início do diálogo desta instituição
com a sociedade capitalista moderna e seus desafios. Teve participação expressiva nos debates sobre
a Teologia da Libertação na América Latina e seus escritos, junto com os de outros teólogos latino
americanos, também inspiraram a construção de documentos do Conselho Episcopal Latino americano
(Celam) a exemplo de Puebla 1979 e Santo Domingo 1992. A proposta desta comunicação é discutir as
interpretações da História do Brasil presentes no livro deste autor com o título: Concluir a refundação
ou prolongar a dependência? O trabalho foi publicado em junho de 2018, período de acirramento das
polarizações políticas motivadas pelas disputas eleitorais que elegeram a presidência da república,
Jair Bolsonaro, político conservador, identificado com o autoritarismo e insensível as desigualdades
sociais e econômicas que afetam a maioria dos brasileiros.

SESSÃO 02: 22/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

Protestantismo e Politica na Conjuntura Brasileira


ELIZETE DA SILVA (UEFS)

Resumo: Pretendemos nesta comunicação analisar a participação de setores protestantes no


recente campo político do País. Grupos de origem reformada estão no território brasileiro desde o
período colonial, comunidades religiosas efêmeras: huguenotes franceses no século XVI e calvinistas
holandeses no século XVII, os quais duraram o tempo das invasões de franceses e holandeses na Terra
Brasilis. A partir do século XIX organizam- se igrejas e denominações protestantes, que tiveram um
lento crescimento quantitativo até as primeiras décadas do século passado. Após as eleições de 1994,
o número de políticos protestantes cresceu exponencialmente e formaram uma bancada parlamentar
composta apenas por evangélicos. Majoritariamente, a Frente Parlamentar Evangélica estava
representada por líderes da Igreja Universal do Reino de Deus e outros neopentecostais, com uma
prática clientelista, que se alinhava aos setores mais conservadores do parlamento nacional, estadual

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e municipal. Segundo o IBGE, no censo de 2010 os protestantes constituiam 42, 3 milhões de fiéis da
população brasileira e para a década de 2020 demógrafos já anunciam que os evangélicos se tornarão
maioria no Brasil. Tal crescimento quantitativo intensificou a participação na politica partidária do País.
Na conturbada conjuntura atual, a Frente Parlamentar Evangélica e líderes religiosos midiáticos, se
aliaram para eleger o atual Presidente da República. O apoio político dos evangélicos se baseia na
troca de favores no Governo Federal. Por outro lado, um setor evangélico oposicionista organizou
em 2016, a Frente Evangélica Pelo Estado de Direito, defendendo a democracia contra a cassação
da Presidenta Dilma Roussef e a instrumentalização política das Igrejas Evangélicas pelo voto de
cajado\ neocabresto. Pela primeira vez na trajetória do Protestantismo há um número relevante de
ministros e cargos de primeiro escalão, que professam as doutrinas reformadas. No atual Governo,
os “terrivelmente cristãos” têm uma postura fundamentalista e desrespeitosa frente ao preceito
Constitucional do Estado Laico. Pretendemos analisar, que fatores contribuíram para transformar
uma minoria religiosa em um setor atuante nacionalmente e o seu projeto de poder. Em tempos
de intolerância religiosa e negacionismo conhecer a trajetória política dos evangélicos é relevante
para travar o bom combate pelo conhecimento histórico, numa sociedade com um campo religioso
tão diverso. Trabalhamos com uma temática da História Recente na perspectiva da História Cultural
e interfaces com a História das Religiões, os conceitos de campo religioso e político de Bourdieu
contribuem para nortear esta pesquisa.

Expansão dos Batistas no Sul da Bahia (1909-1925)


JANETE RUIZ DE MACÊDO (UNIVERSIDADE ESTADUAL DE SANTA CRUZ)

Resumo:  O fenômeno religioso tem despertado interesse crescente junto ao meio acadêmico. Os
recortes e abordagens se apresentam de forma diversificada, sendo examinados variados aspectos
das religiões nas sociedades. A principio o objeto por excelência foi a igreja católica, mas ultimamente,
observa-se um crescente interesse dos pesquisadores por outros segmentos religiosos, em especial
por temas que envolvem às igrejas comumente chamadas “Evangélicas”, ou seja, aquelas oriundas
direta ou indiretamente do movimento denominado Reforma Protestante. Nessa comunicação
pretendemos enfocar o segmento denominado Batistas, que se estabeleceu na Bahia em outubro de
1882, organizando a primeira Igreja Batista na capital da Bahia. O estabelecimento das igrejas batistas
no estado teve inicio com a presença de dois casais de missionários americanos e um brasileiro. A
partir daí, a denominação Batista começou a se expandir espalhando-se por muitas cidades do interior
do Estado, conquistando adeptos, principalmente entre as classes mais pobres da população, até
as primeiras décadas do século XX. Segundo (PEREIRA, 2001), em 1900 já haviam igrejas batistas
fundadas em 10 capitais do país. Essa expansão era também, significativa em todo interior da Bahia.
Vários estudos têm procurado identificar, analisar e apresentar a trajetória expansionista dos Batistas
na Bahia, contudo quase todos tem se restringido a capital baiana, indo no máximo a região do
Recôncavo. São praticamente inexistentes estudos sobre os Batistas no Sul da Bahia, objeto dessa
comunicação.

Os Batistas em Santo Antônio de Jesus-Bahia (1900-1940): a participação das mulheres na


consolidação da Denominação Batista e os conflitos no campo religioso santoantoniense.
JOSÉ RICARDO JESUS RIBEIRO

Resumo: O presente trabalho tem como objetivo discutir a interiorização dos Batistas na Bahia, como
eles participaram das transformações políticas, sociais e culturais na cidade de Santo Antônio de

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Jesus, no início do século XX. Neste contexto de inserção dos Batistas no Recôncavo da Bahia dois
elementos são notórios para uma discussão. O primeiro, é a participação das mulheres no processo de
expansão da Denominação Batista, o lugar que elas ocuparam na vida eclesiástica e de como foram
forjadas suas práticas e representações nesses processos históricos. O segundo, foram os conflitos
gerados com a chegada dos missionários batistas, a propagação de suas doutrinas que gerou fortes
reações da comunidade católica e os conflitos internos, denominado de Questão Radical, movimento
emancipatório que teve participação significativa dos membros da Igreja Batista desta cidade. O
presente texto segue a perspectiva da História Cultural e História das Religiões. Metodologicamente,
o trabalho se apoia nos conceitos de representação de Chartier e de campo religioso de Bourdieu.

“A mulher sábia edifica a sua casa, mas a insensata a derruba”: um estudo sobre a participação
feminina na Igreja e família (1968-1990).
MICHELE SOARES SANTOS

Resumo:  A presente comunicação analisa a participação de uma mulher na Igreja pentecostal


Assembleia de Deus de Eunápolis, buscando compreender o motivo de sua conversão, sua atuação e
as influências da religião na percepção sobre si e na sua atuação familiar. O recorte temporal limita-se
aos anos de 1968 a 1990, período que corresponde ao processo de conversão até o desenvolvimento
da atuação da depoente na Igreja. A relevância desta pesquisa deve-se principalmente a presença
significativa da Assembleia de Deus no Brasil e a contribuição feminina no seu crescimento, compondo
a maioria do corpo de membros, especialmente na cidade de Eunápolis. De acordo com informações
fornecidas pelo site da Assembleia de Deus (A.D.) Belém do Pará, essa é uma das denominações
que mais cresce em quantidade de fiéis e em expansão territorial. Como subsídio metodológico,
a contribuição da História Cultural e História Oral é de fundamental importância. Esta pesquisa se
alicerça nos estudos de mulher, gênero e religião.

Um espaço, diferentes agentes, diversas posições: o campo religioso do bairro Feira VI – Feira de
Santana-Ba (2000-2016)
JEAN DOS SANTOS DIAS (UEFS)

Resumo: O objetivo desta comunicação é apresentar como estava estruturado o campo religioso do
Bairro do Feira VI em Feira de Santana-Ba, entre os anos 2000 a 2016, fruto de uma pesquisa em
andamento. Para tanto traçamos como objetivos específicos mapear as religiões institucionalizadas
do bairro; compreender as relações internas no campo religioso; analisar como os elementos
externos influencia na sua dinâmica interna. Esta pesquisa se insere no campo da História Cultural do
Protestantismo brasileiro com ênfase no Pentecostalismo. Entendendo as tendências de mudanças
nas identidades na atualidade nas religiões, principalmente, no Cristianismo – afunilando ainda mais
– as protestantes de vertente “pentecostal assembleiana” é notório a importância de compreendê-
las dentro de suas particularidades. Neste trabalho abordaremos a noção de campo religioso do
sociólogo Pierre Bourdieu. A partir deste conceito faremos um recorte na história do bairro Feira VI
e sua trajetória lendo-o enquanto campo religioso e tentando compreender as ações dos sujeitos
que transitavam e faziam parte destas comunidades religiosas. O diálogo com a Sociologia permite
trabalhar o conceito e contribui para o entendimento do cenário religioso brasileiro, do bairro Feira
VI - que é nosso objeto de análise -, e suas relações com os demais campos sociais. Na tentativa
de compreender esses sujeitos, imbuídos em relações sociais que dão base nas suas concepções e
visão de mundo, é necessário entender essas nuances, enquanto campo religioso. Sabendo que a

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sistematização da religião está diretamente ligada à urbanização e ao processo de industrialização
que gerou a separação entre o trabalho material e o intelectual que por sua vez, fez oposição entre
o campo e a cidade, sendo esta última o lugar de desenvolvimento do trabalho intelectual e o campo
como o lugar do trabalho material. Foi realizado um mapeamento do bairro, procurando perceber as
manifestações religiosas que nele tem; entrevistas com representantes das denominações religiosas
do campo religioso. Conforme aponta Bourdieu (2005) cada um agente do campo usa de dispositivos
tipicamente seu para se colocar nas disputas. As denominações religiosas se apropriam de suas práticas
para evidenciar sua suposta superioridade em relação às outras, verificando-se grande diversidade
no campo do Feira VI, como elementos vários na disputa por maior influência no campo religioso do
bairro. Encontramos diversos grupos religiosos, de várias matrizes. Os grupos que mais aparecem são
os protestantes com maior número neste campo. Há grupos de Matriz africana, Católicos. O campo
religioso tem se diversificado a partir de novos agentes que nele se insere a cada ano.

Relações de trocas entre Candomblés baianos e o II Congresso Afro-Brasileiro em 1937


ERIVALDO SALES NUNES (IFBA)

Resumo:  A proposta da comunicação tem o objetivo de compreender de que modo às teorias


antropológicas envolvendo estudos sobre as religiões Afro-brasileiras podem interagir com fontes
e abordagens para a elaboração de uma história social dos Candomblés Baianos. A construção social
de um lugar de práticas religiosas mais próximas das sobrevivências africanas e outras mais distantes,
marginalizadas e misturadas, são fruto de lugares discursivos, repletos de representações tanto de
ordem social, quanto religiosa. Em finais da década de 1930, a realização do II Congresso Afro-brasileiro
na cidade de Salvador, passará a ser um divisor de águas para os assuntos e debates envolvendo o
homem e a mulher afro-brasileiros, suas práticas religiosas, seus usos e costumes. A Imprensa baiana,
que tanto contribuíra e continuava contribuindo para desqualificar o Candomblé e seus praticantes,
migrará de um discurso excludente e preconceituoso para um lugar de relativa aceitação/tolerância.
Assim, reunimos elementos para afirmar que as redes de relações entre os terreiros de Candomblé na
cidade de Salvador na primeira metade do século XX estiveram parcialmente sustentada pela tese da
suposta hegemonia Nagô e fraqueza Congo-Angola. A suposta supremacia Nagô, preponderante no
imaginário afro-religioso, no caso do Terreiro Congo-Angola Bate Folha, não foi decisiva e tampouco
excludente. A projeção e a importância do sacerdote Manoel Bernardino da Paixão, fundador do
Terreiro Bate Folha, ao longo da atuação efetiva no II Congresso Afro-brasileiro, exemplifica que
outros sujeitos combateram perseguições/atos de intolerância religiosa e se destacaram na ocupação
de um espaço de poder compartilhado e não sobreposto pelas lideranças dos Candomblés Nagôs, isso
pelo menos, em finais da década de trinta.

As Representações das Religiões Afro-Brasileiras no Jornal da Folha Universal (1977-2007)


ANTONIELSON ADORNO SANTOS (UEFS)

Resumo: A proposta desta comunicação é analisar a intolerância religiosa presente no Jornal Folha
Universal da igreja Universal do Reino de Deus (IURD) contra as Religiões de Matrizes Africanas. È uma
pesquisa em andamento do Trabalho de Conclusão do Curso. O Objetivo geral é compreender como
as Religiões Afro-Brasileiras eram representadas no Jornal da Igreja Universal do Reino de Deus e
compreender como isso contribui na propagação da intolerância religiosa entre os anos de 1977 e 2007.
O primeiro ano refere-se ao de ano de fundação da IURD e 2007 o ano de aprovação da Lei n°11.635 de
combate nacional contra a intolerância religiosa. Os objetivos específicos são: Identificar quais motivos

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levam os Iurdianos a demonizar as Religiões Afro; Investigar as diferentes formas de ataques que
ocorreram em decorrência da intolerância religiosa; Mapear quais são os estados que apresentaram
maior incidência de intolerância religiosa pela IURD no Jornal da Folha Universal, bem como investigar
como são representados os adeptos das Religiões de Matrizes Africanas e como o Movimento Negro
Unificado (MNU) respondia aos ataques da IURD nas publicações do Jornal do Movimento Negro.
As fontes consultadas nesta pesquisa foram: exemplares do Jornal da Folha Universal de 1977 até
2007, disponível no acervo do Centro de Pesquisa da Religião (CPR), UEFS; os periódicos do Jornal do
Movimento Negro Unificado – MNU das décadas de 60,70,80 e 90, estas fontes possibilitaram uma
compreensão mais detalhada de como o Movimento Negro denunciava a intolerância religiosa contra
as regiões de Matrizes Africanas nos periódicos do MNU, também serviu de fonte o livro do Bispo
MACEDO, Edir. Orixás, caboclos e guias: deuses ou demônios? Rio de Janeiro: Unipro Editora, 2006. Os
aportes teóricos que foram utilizados para fundamentar a pesquisa: o conceito de Campo Religioso
do sociólogo Pierre Bourdieu em sua obra Economia das trocas simbólicas (1974); para entendermos
as prática, representação e ressignificação, utilizaremos os conceitos de Roger Chartier (1990); o de
Racismo de Kabengele Munanga (2004); os conceitos de Religião (1984) e Conversão (2005) de Rubem
Alves. Os resultados parciais apontam que a sociedade brasileira tem vivido na atualidade muitos
conflitos religiosos, que podem ser evitados com um melhor conhecimento da trajetória religiosa do
País. Esperamos que esta pesquisa no âmbito da História das Religiões, contribua para o conhecimento
da diversidade religiosa e cultural brasileira numa perspectiva histórica, identificando sua formação,
principais crenças e valores.

“Mensageiro da Paz” ou da intolerância? Uma análise do jornal da Assembleia de Deus


(2000-2014)
MARCOS OLIVEIRA DE QUEIROZ (INSTITUTO ASSOCIADOS SABER E CULTURA)

Resumo: A proposta desta comunicação é expor, através do jornal Mensageiro da Paz, as representações
da Denominação Assembleia de Deus sobre outros segmentos religiosos. É possível identificar nas
matérias divulgadas entre os anos 2000 e 2014, uma série de publicações que atacam diretamente
o Catolicismo e as religiões de matriz africana. Conversões de fiéis provenientes das religiões
mencionadas são exaltadas no Mensageiro da paz, periódico oficial da Assembleia de Deus, como
um processo de libertação de indivíduos que viviam sob o jugo das trevas, do engano e da perdição.
Compreendemos que o exclusivismo relacionado à salvação não está presente apenas na Assembleia
de Deus, mas é uma característica do próprio Protestantismo, no qual é manifestado entre as diversas
denominações que reivindicam para si a legítima posse dos “bens da salvação”. Desse modo, temos
o propósito de trazer à lume algumas reflexões, a partir de algumas matérias selecionadas, afim de
demonstrar como os conteúdos disseminados no Mensageiro da Paz contribuem potencialmente para
práticas de intolerância religiosa entre os fiéis da Assembleia de Deus que são instruídos segundo
as diretrizes das lideranças da instituição, que manifestam as suas concepções através do periódico
mencionado. O jornal Mensageiro da Paz é produzido e divulgado quinzenalmente e, a partir do
ano 2000 até 2014, identificamos um forte anti-catolicismo e demonização das religiões de matriz
africana. A primeira, geralmente referenciada em discursos sobre idolatria, e a última, atacada em
diversas matérias com termos pejorativos como “macumba”, “demônios” e/ou “espíritos malignos”.
Recorremos aos conceitos de representação, trabalhado pelo historiador Roger Chartier (1990), e
Campo Religioso, trabalhado pelo sociólogo Pierre Bourdieu (2015). Por fim, pretendemos contribuir
com o debate, no intuito de, no mínimo, provocar reflexões sobre os conteúdos que são produzidos e
consumidos entre os evangélicos.

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Religiosidade na cidade de Porto Seguro - BA: Olhares sobre a devoção a São Benedito
LAVÍNIA ALVES OLIVEIRA

Resumo: A cidade de Porto Seguro está localizada no Extremo Sul da Bahia, onde é reconhecida pelo
marco do “descobrimento” e por se tornar uma das cidades que mais atraem turistas de todo o Brasil,
fascinados pelas belas praias e a sua história local. Mas para além disso, a cultura religiosa também
está inserida neste local. Um exemplo é a devoção a São Benedito, que está presente na cidade desde
o século XVIII. Objetivo desta comunicação é relatar levantamentos feitos sobre a presença negra
na cidade de Porto Seguro – BA, através da devoção a São Benedito. O ensejo desta pesquisa surgiu
através de um projeto de Iniciação Científica, financiada pela Pró-reitoria de Ações Afirmativa da
Universidade do Estado da Bahia. O propósito do projeto foi a Investigação Histórica no Museu de Arte
Sacra de Porto Seguro: traçando a presença e participação dos afro-brasileiros na história e cultura da
cidade, iniciado em julho de 2018. O projeto atuou na análise das práticas sociais, devoções religiosas
e resistências culturais realizadas pela população afro-brasileira, entre eles a atuação da Irmandade
dentro do festejo de devoção a São Benedito, cuja presença pode ser observada nos artefatos
depositados no acervo do Museu de Arte Sacra da Misericórdia. Sendo assim, esses questionamentos e
reflexões durante o projeto de pesquisa resultaram no anseio de prosseguir com o estudo relacionado
a devoção a São Benedito, para o Trabalho de Conclusão do Curso – TCC. Diante disso, o objetivo
desta comunicação é apresentar os resultados iniciais sobre o estudo da devoção do santo negro na
cidade de Porto Seguro. Santo este, que de acordo com documentos eclesiásticos, do Arquivo Público
do Estado da Bahia – APEB, está presente na cidade desde o século XVIII. Ressaltando que, o estudo
dessa pesquisa tem como marco temporal o século XX, a partir da década de 1960 até 1970, podendo
ser alterada, já que a principal fonte são os relatos orais, conforme caminha as entrevistas, novas
informações irão surgindo.

Patrimônio Imaterial: Folia de Reis, Tradição, Identidade e Memória


ANGELO MARCOS DE SOUZA (SECRETARIA ESTADUAL DE EDUCAÇÃO DE GOIÁS)

Resumo:  Este artigo pretende propor algumas observações acerca de conceito significativo para
a compreensão do termo patrimônio imaterial, e das políticas e ações públicas atinentes a sua
salvaguarda. As descrições aqui apontadas têm como fundamento alguns textos teóricos, leis e
documentos referenciais do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Num
segundo momento o folguedo da folia de Reis é apresentado no âmbito brasileiro, como um modelo de
Patrimônio Imaterial, exaltando a importância da preservação de sua tradição, identidade e memória,
na manutenção do legado cristão da jornada dos Reis Magos. Os argumentos expostos esforçam em
elucidar alguns conceitos sobre patrimônio imaterial de modo que haja uma melhor compreensão
desse campo, bem como entender como são efetivadas as ações de patrimonialização implantadas
pelo poder público, atinentes a proteção patrimonial.

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SESSÃO 02: 22/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

Ecos da Revolução Pernambucana no noticiário Baiano


VICTOR COSTA VENTURA

Resumo: A Revolução Pernambucana, iniciada em 6 de março de 1817 no Recife, é considerada por


muitos historiadores como umas das principais revoltas ocorridas durante os anos em que o Brasil
sediou a Corte portuguesa, 1808-1820. O movimento, articulado por diferente grupos da sociedade
pernambucana, durou 74 dias, defendia a implementação de uma república e via nesse novo sistema de
governo uma forma de solucionar antigas demandas e posturas adotadas pela Corte no Rio de Janeiro.
Logo após a eclosão do movimento foram adotadas várias medidas, como a criação de um governo
provisório, a promulgação de uma Lei Orgânica, a convocação de uma constituinte, a elaboração de
uma nova bandeira e o envio de emissários para outras capitanias e outros países em busca de apoio
e também como forma de legitimar o novo governo. Como resposta, a Corte enviou tropas da Bahia
e do Rio de Janeiro para pôr fim à revolução com a morte e prisão dos insurgentes. Com papel de
destaque no processo repressivo, a participação baiana ainda é pouco explorada pelos interessados
em investigar o levante de 1817. Neste sentido, esta comunicação visa apresentar as primeiras notas de
uma investigação sobre a circulação de informações na cidade de Salvador acerca dos acontecimentos
da Revolução de 1817, buscando identificar aspectos da atuação baiana na repressão ao movimento.

Terra e trabalho: a questão indígena no Jequitinhonha na segunda parte do Século XIX


RENATA FERREIRA DE OLIVEIRA (INSTITUTO FEDERAL DO NORTE DE MINAS GERAIS)

Resumo: A proposta dessa comunicação é analisar o delineamento e os conflitos causados pela política
indigenista imperial de 1845 conhecida como Regulamento das Missões, a partir da premissa de que
a ideia de catequese a ser praticada desde então, esteve associada ao ideário de civilização e ambas
passaram a ter relação direta com a terra e com a necessidade do Estado em garantir territórios para
outras finalidades e também a mão de obra. No tocante às terras, embora o Regulamento das Missões
não fosse uma lei de regulamentação fundiária, ele era, sem dúvidas, uma das antessalas da Lei de Terras
de 1850. O Decreto reconheceu a posse da terra para os índios, mas não enquanto direito originário,
isso significa que não se estendia aos índios “bravios”, pois estava vinculada à condição de aldeado.
Isso implica dizer que o indígena não possuiria a terra enquanto originário, mas como parte de uma
política de Nação, razão pela qual os não aldeados permaneciam à margem. Ainda assim, a condição de
aldeado não garantiria o território, pois este, deveria ser demarcado em consonância com as diretrizes
do governo. Lógico que havia a real dificuldade na demarcação das terras de aldeamentos, o que
terminara por provocar inúmeros conflitos entre nativos e posseiros. Uma premissa que não se pode
perder de vista em relação ao problema indígena no Império, é a de que ele se inseriu no conjunto das
novas regras para o trabalho e para a utilização da terra como produto de mercado. A região de análise
é a composta geograficamente pela bacia do rio Jequitinhonha perpassando por duas importantes
províncias: Bahia e Minas Gerais. Os povos indígenas, que aí habitaram, genericamente conhecidos
como Botocudos, foram alvos de uma voraz política de devassamento territorial, em decorrência da
expansão agrícola e comercial da fronteira delineada pelo rio.

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Trabalhadores, manteiga e vinho: um furto nos armazéns da ferrovia Madeira-Mamoré
ANA CAROLINA MONTEIRO PAIVA (UFPB - UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA)

Resumo:  Em 1919, o furto de quinze caixas de manteiga e uma caixa de vinho dos armazéns da
Comissária, departamento da ferrovia Madeira-Mamoré, em Porto Velho, foi registrado em processos
criminais e amplamente noticiado no jornal local Alto Madeira. O acontecimento envolveu cerca de
vinte pessoas convocadas para declarações, incluindo acusados, interessados e testemunhas. Entre
os acusados e diretamente envolvidos, estavam sírios, portugueses, nordestinos e um caribenho,
que exerciam diferentes funções de trabalho como carregadores, comerciantes, guarda-livros e
empregados da Madeira-Mamoré, que transitavam entre os espaços da ferrovia – de administração
privada da Companhia ferroviária – e da cidade de Porto Velho – administrada pelo poder regional
do superintendente. A ocorrência do crime não foge à realidade, ao contrário, para Silvia Petersen
(1995), as subversões imprevistas são, do mesmo modo, os momentos de vida do cotidiano. Assim,
nos combates pela história, o que o caso pode nos dizer para além do furto de gêneros alimentícios? É
com o intuito de suscitar discussões que o objetivo deste artigo consiste em destrinchar o caso a partir
de elementos como a organização e estrutura das funções de trabalho, as relações sociais – entre
elas a de poder – e as tensões entre os prestadores de serviços, os comerciantes locais e a Companhia
Madeira-Mamoré; e, por fim, considerando a dimensão das ações furtivas na perspectiva dos embates
cotidianos pela sobrevivência e formas de enfrentamento.

Um relato de uma vida cangaceira: Jararaca invadiu, foi morto e virou santo
JÚLIO CÉSAR LIMA FERNANDES (PREFEITURA DE JOÃO PESSOA)

Resumo: As várias faces do cangaço, movimento sócio-político vivenciado pela realidade nordestina
brasileira, podem ser olhadas através de inúmeras lentes. Muitos foram os personagens que fizeram
parte desta saga que teve duração em torno de cem anos. Não se pode negar que, Virgulino Ferreira
da Silva, vulgo Lampião, foi a figura mais comentada a ilustrar a compreensão do cangaço, uma vez que
este se colocou à disposição de parte da mídia da época. No entanto, outros cangaceiros que podemos
chamar de coadjuvantes do cangaço, proporcionaram vários momentos que estão registrados nos
anais da história de vários municípios nordestinos. Entre esses “cabras”, está José Leite Santana,
conhecido pelo apelido de “Jararaca”. Entre suas andanças e façanhas ilegais, está a sua participação
na invasão ao município de Mossoró na tarde de treze de junho de mil novecentos e vinte e sete.
Este pernambucano juntou-se ao grupo de Lampião e Sabino Gomes na tentativa de empreender,
talvez a maior façanha do cangaço, invadir e assaltar uma cidade com mais de vinte mil habitantes.
Não logrando êxito, o grupo foge para as terras cearenses deixando ferido de morte o cangaceiro
colchete e aprisionado pela população o Jararaca que teve sua sentença de morte executada no
cemitério da cidade. Esse trabalho, apresenta uma breve análise de conjuntura que deu origem ao
cangaço e desemboca nas ações do povo de Mossoró durante a invasão cangaceira, e tenta trazer
para o presente uma compreensão dos sentimentos de seu povo em relação a uma figura (Jararaca),
que trouxe vários potenciais de sentimentos para posteridade como a consciência da liberdade e da
resistência.

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Intelectuais, imprensa e questão social: Visões sertanejas sobre a nação Republicana
MARIA APARECIDA SILVA DE SOUSA (UNIVERSIDADE ESTADUAL DO SUDOESTE DA BAHIA), JOSÉ
RUBENS MASCARENHAS DE ALMEIDA (UESB)

Resumo: Os estudos sobre a imprensa no Brasil apontam o protagonismo da Bahia com a criação do
segundo jornal na América portuguesa, em 1811, dois anos após a chegada da família real na América
portuguesa. No decorrer das lutas pela Independência (1822) e nas décadas seguintes, muitos foram os
periódicos produzidos na província, acompanhando os tortuosos caminhos de consolidação do Estado
imperial no Oitocentos. No caso dos sertões, tudo indica que o primeiro jornal surgiu em 1897 com a
criação d´A Penna, em Caetité, redigido pelo autodidata João Gumes. Alguns anos depois tem-se o
registro da circulação de jornais em Vitória da Conquista quando alguns indivíduos como Laudionor
Brasil, Erathosthenes Menezes e Camillo de Jesus Lima, entre outros, vão se destacar como editores,
redatores e escritores, constituindo um seleto grupo que dominava os instrumentos da escrita numa
época em que a circulação do saber e do conhecimento era bastante limitada. Esses intelectuais
denunciavam a incompletude da Nação brasileira, haja vista que, para eles, o sertão ainda precisava ser
incorporado ao projeto civilizacional. A sua atuação se assemelha a tantos outros que exerceram, por
meio dos seus escritos, uma importância fundamental na discussão sobre a formação da nação, cada
um a seu modo, de forma que o panorama ideológico e cultural vivenciado por eles não pode ser bem
compreendido sem uma análise mais detida dos diferentes aparelhos de produção e divulgação das
concepções produzidas em seu tempo e lugar. Chama a atenção, não somente as temáticas veiculadas
nesses jornais sertanejos, mas também, a formação daqueles que redigiam os periódicos. Em muitos
casos, sobressai a clareza e a racionalidade do pensamento político ao denunciarem as precárias
condições de vida da população sertaneja nas primeiras décadas republicanas.
O período de circulação desses jornais, primeiras décadas do século XX, foi marcado por amplas
transformações econômicas e políticas na conjuntura internacional e nacional. No caso específico do
Brasil, a República havia sido proclamada em fins do século anterior, em 1889, e a escravidão abolida
um ano antes. Todavia, tais mudanças não corresponderam às expectativas daqueles que, a exemplo
de alguns redatores mais engajados, pretendiam ver um país livre das mazelas do século anterior.
Muitas das suas preocupações remetem ao abandono dos sertanejos pelas autoridades políticas,
questionando o lugar ocupado por estes no projeto de nação na nascente República brasileira. A
presente comunicação propõe refletir sobre o papel dos intelectuais sertanejos a partir das suas
concepções acerca das condições sociais dos habitantes sertanejos nas primeiras décadas republicanas.

“A educação para além do capital”: ponderações sobre trabalho, alienação e luta de classes.
HEDER CLAUDIO OLIVEIRA GOMES (EDUCANDARIO CORINA AMORIM)

Resumo:  A passagem do século XX ao século XXI evidenciou a crise estrutural do capitalismo e o


aprofundamento das contradições inerentes à forma de sociabilidade. Destarte, as disparidades
sociais e econômicas entre os países imperialistas e os países do sul, bem como, as discrepâncias no
interior desses países, chegaram a um momento histórico decisivo. Nesse contexto, a fragmentação
e a fragilização do movimento operário em parâmetros mundiais possibilitaram o avanço de forças
conservadoras, reacionárias e retrógradas que afetaram – e continuam afetando – a legitimidade
da ciência, da arte e da educação. Essas três áreas da produção e reprodução do conhecimento e da
cultura - e, logo, da realidade social -, tornaram-se campos de resistência intelectual e artística e seus
representantes passaram a sofrer com a opressão, as perseguições e a censura, antes, impensáveis
(ao menos, discursivamente) dentro da lógica da realidade democrática burguesa. Esse estudo tem

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como objeto “o trabalho, a alienação e a luta de classes na obra “A educação para além do capital” de
István Mészáros”. Ao desenvolvermos essa investigação nos deparamos com o seguinte problema: “a
educação enquanto uma das múltiplas determinações da realidade social é um caminho possível para a
superação do capital e de sua lógica desumanizadora, ou, por outro lado, caminhamos inevitavelmente
para a barbárie?” Dentro de uma análise materialista histórica buscamos as matrizes e fundamentos
causais dos antagonismos presentes na sociedade burguesa, discutindo os caminhos, os impasses e os
horizontes apontados pelo autor na construção da emancipação humana.

A CULPA FOI MINHA? Mutilação de trabalhadores e justa causa nas fábricas da Azaléia na Bahia
DIANA DE SOUSA SANTOS LISBÔA (UFBA)

Resumo: O texto está alicerçado em base documental que venho analisando no doutorado, processos
trabalhistas, impetrados por trabalhadores e patrões das fábricas de calçados da Azaléia, na Bahia.
O exame dos autos evidencia exploração da mão de obra e embates trabalhistas na justiça e no chão
de unidades fabris, por trabalhadores e patrões desde 1997, ano em que a Azaléia inicia a produção
fabril na cidade de Itapetinga. Dentre as principais problemáticas relacionadas a essa empresa, têm-
se o elevado número de mutilações de seus trabalhadores, e o grande quantitativo de demissões
por justa causa. O primeiro fato fez com que em 2004, 2005 e 2008, a Azaléia fosse notificada
pela Superintendência Regional do Trabalho e Emprego (SRTE), e, em 2010, tivesse 428 máquinas
interditadas pelo órgão, por não respeitar normas básicas de segurança do trabalho. Tal interdição
teria importado na quase total paralisação de cerca de 20 mil trabalhadores empregados na unidade de
Itapetinga, e outras que dependiam de sua produção. A liberação foi somente cedida, 21 dias depois,
quando todas as recomendações do órgão do Ministério do Trabalho foram cumpridas. Em novembro
de 2008 o Programa da TV Record, Domingo Espetacular, já teria exibido uma reportagem sobre o
crescente número de trabalhadores mutilados nessas unidades. Os entrevistados destacaram, dentre
outros aspectos, o esforço da empresa em culpá-los pelas mutilações. Apesar do extenso número de
operários acidentados, a grande motivação da ida de trabalhadores à justiça foi o grande número de
justa causa aplicadas pela Azaléia, compondo cerca de 70% dos processos de minha análise. A empresa,
em geral, justificou a aplicação da punição máxima, ao quantitativo de faltas injustificadas cometidas
pelos obreiros. Em suas defesas, os operários (as), em regra, atribuíram as ausências à impossibilidade
de conseguir consultas médicas para tratar suas enfermidades, entre às mulheres, havia além dessa,
o adoecimento de filhos, ou falta de quem cuidá-los e doença de pais e conjugues. A Azaléia também
fez grande uso da punição máxima para livrar-se de funcionários adoentados pelo serviço na empresa,
emitindo o auxílio doença comum, ao invés do acidentário, para que na volta ao serviço, o empregado
não tivesse direito a estabilidade garantida em lei. A análise dos autos permite à compreensão de que
o emprego nas fábricas de calçados conferiu aos itapetinguenses, regra geral, o primeiro emprego de
carteira assinada, num modelo de produção fabril que impactou suas vidas, mas não os fragilizou, na
busca por melhores condições de vida e emprego.

Movimento dos Trabalhadores Sem Teto e a política habitacional em Brasília-DF


VAGNO BATISTA RIBEIRO (UEG)

Resumo: Enquanto organização, os movimentos sociais representam anseios da sociedade, ou


de parcelas da sociedade, que os utilizam como instrumentos de ação e modificação do
contexto histórico no qual estão inseridos. Entre os diferentes grupos que se articulam em
torno de movimentos sociais, há aqueles em que os conflitos de classe e os acordos políticos

100
são, consequentemente, canais dos movimentos para atingir seus fins. Nesse sentido,
propomos neste trabalho uma avaliação dos caminhos que o Movimento dos Trabalhadores
Sem Teto (MTST) tem realizado ao longo dos quase dez anos de lutas em Brasília – Distrito
Federal. Buscamos assim, analisar a referida questão à luz das recentes mudanças históricas
do contexto cultural brasileiro, visando não apenas analisar sua importância, mas, refletir
sobre os efeitos da atuação política dos movimentos sociais. Nessa perspectiva, o presente trabalho
pretende abordar o Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST) em Brasília - DF, e a crise
habitacional no Brasil. Para compreender o contexto dos movimentos, pretende-se realizar este
trabalho utilizando-se o método empírico bibliográfico, pelo qual se buscará uma revisão literária,
composta tanto por livros quanto matérias jornalísticas, visando relacionar os principais
ocorridos das ações sociais envolvendo o MTST frente às manobras políticas brasileiras. Por
termos como objeto de estudo sujeitos em condição de sem-teto, tomaremos como referência
empírica alguns dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, Instituto de
Pesquisa de Opinião, e de plataformas digitais do Governo Federal, que disponibilizam dados
de pesquisas e levantamentos em números de aspectos da realidade da sociedade. Argumentamos
que ao menos dois processos de longa duração interferem nessas questões, por um lado: a migração
rural às grandes cidades e, por outro, a expulsão de trabalhadores pela automação dos processos. No
universo conceitual que norteia o presente estudo, destacam-se os estudos de Fagnani (2005), Gohn
(1991), Helmann (1995), Leher e Setúbal, (2005), etc.

Memória e Representação da Luta de Classes Sob a Perspectiva da Obra Muralista de David


Alfaro Siqueiros
ANDREZA SILVA PRADO

Resumo: Marca indelével da história do México, a questão agrária – e a luta de classes advinda das
relações que a envolvem – atinge seu ápice no governo de Porfírio Dias, que governou o México
ditatorialmente por mais de 30 anos (1876 – 1911). Com a chegada de Dias ao poder em 1876, as
desapropriações de terras das comunidades camponesas e indígenas ocorreram de maneira massiva,
marcando o espraiamento das relações capitalistas no México de então, de forma a integrá-lo ao
mercado mundial. Desempossados de suas terras, os trabalhadores do campo viram-se obrigados a
vender sua força de trabalho nas minas, indústrias têxteis e ferrovias em troca de salários baixíssimos.
Tais circunstâncias foram prognósticos para a deflagração da primeira Revolução do século XX: A
Revolução Mexicana, ocorrida em 1910, cujos objetivos vislumbravam o derrube do Estado Oligárquico,
o que implicava, por sua vez, o enfrentamento da burguesia agroexportadora, com destaque para a luta
pela reforma agrária. Fato é que a Revolução Mexicana se sagrou como um dos movimentos de luta de
classes de maior impacto social, cultural e político não só na América Latina, como também no mundo
naquele início de século. Em meio ao processo revolucionário, as artes no México, sobretudo as artes
plásticas, passaram por transformações radicais, de modo que o Muralismo Mexicano é considerado
“filho” da Revolução, apresentando uma essência revolucionária e transgressora. O objetivo do
presente artigo é analisar a memória e representação da luta de classes sob a perspectiva dos murais
de David Alfaro Siqueiros e sua conexão com as transformações provocadas pela Revolução Mexicana,
partindo do pressuposto de que a obra de Siqueiros consiste em pinturas com intervencionismo
político, crítica à sociedade capitalista e que defendia os ideais comunistas, tendo, assim, um caráter
eminentemente marxista que conduz seu trabalho artístico como instrumento de militância política,
no qual a classe trabalhadora mexicana era retratada como protagonista da luta contra a exploração e
opressão burguesas. Sob tal ótica, a luta de classes conduziria à revolução proletária e a consequente

101
destruição do sistema do capital. A pesquisa ampara-se no método do materialismo histórico-
dialético, compreendendo que suas categorias centrais e seu método respondem, necessariamente,
às pretensões de compreensão do processo aqui evocado, com tudo o que representa no mundo
cultural, social e político do México de então.

SESSÃO 03: 23/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

As lutas de classes no campo da memória


ALEXANDRE DE JESUS SANTOS (SECRETARIA DA EDUCAÇÃO)

Resumo: Assim como a ideologia que se espraia para todos os complexos sociais de modo que tudo,
nas sociedades de classes, está impregnado de ideologia, as lutas mais fundamentais em torno
do controle do metabolismo social atinge não somente o complexo econômico, mas também os
complexos ideológicos, se manifestando também no campo da memória. Este, por sua vez, é um campo
de disputa que desempenha um papel crucial nas lutas de classes, pois, é nesta esfera de atuação
que será disputado a forma como os conteúdos de memória serão lembrados pelos sujeitos. A forma
como esses sujeitos vão se lembrar dos acontecimentos, se pela perspectiva das classes opressoras
ou a partir do ponto de vista da interpretação dos fatos das classes oprimidas, será determinante
para o comportamento ético dos sujeitos diante do mundo no tempo presente. Assim, todas as
memórias são, necessariamente, memórias de classes. A razão de tal afirmação encontra-se no fato
de que o sujeito não pode se autonomizar completamente em relação as determinações estruturais
da sociedade na qual se reproduz, dado que os sujeitos são, indubitavelmente, desdobramentos
necessários do conjunto das relações sociais. Neste sentido, todos os seus atos produzem memórias
que não podem ser dissociadas da sua condição material. A questão que se coloca decisiva neste
complexo de problemas é saber a partir de que perspectiva de classe as memórias serão lembradas
pelos sujeitos.

O cerrado à luz da Doutrina de Segurança Nacional: a ditadura militar e seu projeto de refundação
da agricultura brasileira (1964-1974)
JÚLIO ERNESTO SOUZA DE OLIVEIRA (UFBA)

Resumo: Objetiva-se analisar o projeto de ocupação e territorialização do cerrado brasileiro lançado


mão nos escritos geopolíticos da ditadura militar brasileira (1964-1985). Observado desde a ótica da
segurança nacional, o cerrado foi abordado por intelectuais orgânicos do regime, como Golbery de
Couto e Silva e Carlos de Meira Mattos, a partir de noções forjadas no bojo das teorias geopolíticas
e desenvolvimentistas. Duas questões estruturaram tal abordagem: a ocupação de ditos “espaços
vazios”, como o cerrado, e o controle das fronteiras nacionais. Dissertaremos sobre a primeira,
problematizando sua operacionalização por meio da noção de caificação do padrão agrícola brasileiro,
isto é, do processo pelo qual a ditadura engendrou um novo padrão nas forças produtivas no campo,
por meio da substituição do latifúndio pelo complexo agroindustrial e da estruturação jurídica e
econômica da função social da propriedade. Nessa investigação, destacamos o seguinte problema: de
que modo a ditadura militar reestruturou as relações produtivas no cerrado brasileiro, à luz das questões
abordadas nos textos geopolíticos dos referidos autores e do paradigma desenvolvimentista? Para
tanto, prescrutam-se as fontes históricas produzidas por ditos militares, além daquelas provenientes

102
dos movimentos sociais do campo, como a Comissão Pastoral da Terra (CPT), e de periódicos variados.
Importante assinalar que este trabalho não se pretende de fôlego, sendo desenvolvido de maneira
melhor acabada no âmbito de uma dissertação de mestrado.

As políticas desenvolvimentistas regionais ditatoriais e o processo de mercantilização das terras


sertanejas dos fundos de pasto
SIMONE CONCEIÇÃO SOARES DIAS (SECRETARIA ESTADUAL DE EDUCAÇÃO)

Resumo: O trabalho em questão refere-se as terras sertanejas de uso comum denominadas fundo
de pasto, que caracterizam-se como áreas abertas, geridas por associações agropastoris e utilizadas
coletivamente para a criação extensiva de caprinos e ovinos, maior fonte de renda dos moradores
dessas comunidades, bem como, para o extrativismo e beneficiamento de frutos da caatinga (umbu,
maracujá do mato e licuri). Sua origem está relacionada à ocupação do interior baiano inicialmente para
criação extensiva de gado, no século XVI, a partir da concessão de Sesmarias as famílias D’ávila (Casa
da Torre) e Guedes de Brito (Casa da Ponte). De acordo com o grupo de pesquisa Geografar (Geografia
dos Assentamos Rurais) da Universidade Federal da Bahia – UFBA, na Bahia existem atualmente 576
(quinhentas e setenta e seis) áreas de fundo e fechos de pasto, presentes em 49 (quarenta e nove)
municípios, situadas sobretudo, nas Regiões Norte e Nordeste da Bahia. A discussão em questão
refere-se ao período militar no Brasil no que tange a questão agrária, mais especificamente, as políticas
desenvolvimentistas regionais e como estas impactaram na mercantilização das terras utilizadas
coletivamente por essas comunidades de fundo de pasto, situadas sobretudo, na Região Nordeste da
Bahia. O processo em que uma categoria de bens vira mercadoria é o da mercantilização. Mercantilizar
um bem é fazer com que ele se transforme em, ou passe a funcionar como mercadoria. A terra do
fundo de pasto não estava à venda, mas as políticas desenvolvimentistas com seus créditos fartos
(para alguns) proporcionaram a grilagem de muitas delas pelo poder do capital que invadiu o campo
e o que antes tinha valor incalculável, entrou para o mercado e a relação com a terra que outrora
era permeada pela “lei do costume”, passou a ser regida pela “lei do capital”. O foco principal são as
políticas que se dedicaram ao desenvolvimento da Região Nordeste, sobretudo, das políticas gestadas
para a questão agrária que garantiram a continuidade do que a Lei de Terras de 1850 permitiu, a grande
propriedade e, de modo mais específico, o Projeto Sertanejo que impactou diretamente as áreas de
fundo de pasto.

Memória de Luta: Conflito pela posse da Terra em Feira de Santana-BA 1970-1980


LUANA CARDOSO FONSECA

Resumo:  O presente trabalho tem por objetivo apresentar a trajetória de luta dos trabalhadores
rurais do município de Feira de Santana, mais precisamente na comunidade Candeal II entre o período
de 1970-1980. Tal trajetória marcada pela disputa da posse da terra que consolidou na organização
comunitária da comunidade. Esta fica localizada no Distrito de Matinha, pertencente ao município de
Feira de Santana - Ba. A proposta da pesquisa tem o intuito de discutir a “Memória da Terra: Conflito
pela posse da terra em Feira de Santana-Ba 1970-1980”, tendo como objetivo investigar a memória
dos trabalhadores Rurais do Conflito de terra da fazenda Candeal, procurando compreender através
da memória de luta dos trabalhadores rurais as possíveis estratégias de ressignificação da luta de
classe pela posse da terra. Para isso, Utilizo como metodologia da História Oral, como método de
investigação para o desenvolvimento desta pesquisa, bem como outros tipos de documentos como
Jornais. Nesse sentido, analisar este conflito consiste na importância em pensarmos nas lutas pela terra

103
realizadas no país na segunda metade do século XX que marcam as diferentes regiões interioranas do
Estado da Bahia e consolidou na formação de comunidades dentro dos territórios. Assim, a partir da
perspectiva da história local e da história oral o presente trabalho pretende recuperar as relações mais
complexas entre o vivido e o narrado. Através da memória de luta dos trabalhadores rurais é possível
compreender o território é enquanto um espaço dinâmico constituído por relações de disputa e poder.

Detenções em Pernambuco: discursos sobre a reformulação do sistema prisional no estado (1970-


1980)
ROMERO DA SILVA NOGUEIRA (TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE PERNAMBUCO - TJ/PE)

Resumo: Este trabalho tem como objetivo dialogar sobre a tessitura de relações em torno da renovação
do sistema prisional do estado de Pernambuco, ocorrida durante a última década do regime ditatorial
civil-militar (1970-1980). Para realizar esta reflexão, utilizaremos o aporte teórico de Michel Foucault
e seus estudos sobre os dispositivos de poder, biopolítica e dominação; Michelle Perrot, na construção
de uma reflexão acerca dos sistemas carcerários através da história. Para isso, pretendemos expor as
narrativas discursivas através de uma análise dos textos legislativos, que delinearam e autorizaram tais
modificações no sistema prisional. Além dos arquivos legislativos, analisaremos os testemunhos dos
periódicos em circulação no período, a fim de identificar qual teria sido o impacto dos acontecimentos
referentes ao tema na opinião pública e como esta haveria de não apenas recebe-los, mas de direcioná-
los por também se conformar numa instituição de poder. Neste caso, contaremos com o suporte teórico
de Maria H. Capelato, acerca da influência da imprensa nas relações de poder. Convém salientar que o
presente trabalho direciona a busca, a partir da leitura e análise dos testemunhos destas instituições,
por um discurso ou mesmo de indícios de uma reflexão, ainda que embrionária, dos direitos humanos,
condições prisionais e ressocialização dos apenados.

O movimento LGBT no Brasil: reflexões sobre trajetória e lutas (1970-2000)


LUCIANA XAVIER BASTOS LACERDA (UESB)

Resumo:  O movimento LGBT vem desenvolvendo uma trajetória histórica de lutas e resistência
no mundo e no Brasil, contra as diversas discriminações, opressões e repressões producentes da
concepção hegemônica do cis – heteropatriarcado. Os enfrentamentos conduzidos pelo movimento
LGBT brasileiro, em diversos momentos da história, desde o punitivismo inquisitório ao Estado
higienista perpassando pela patologização das pessoas de gênero não-binário, até a luta contra a AIDS
e a busca pela promoção e reconhecimento dos direitos civis e cidadania, demonstram a materialização
despatriarcalizadora e descolonizadora da resistência, corroborando, com a ressignificação das
normas e da estrutura do poder decodificada nas práticas sociais. O texto abordará, em linhas gerais,
aspectos da trajetória das lutas LGBT no Brasil da década de 1970 a 2000, a partir da discussão teórica
desenvolvida na pesquisa de dissertação de mestrado, ainda em andamento, intitulada: “A luta contra a
homotransfobia em Vitória da Conquista: um estudo sobre a memória histórica da relação movimento
LGBT e poder público municipal”.

Lesbianidades: resistências, representações e subjetividades


SUANE FELIPPE SOARES

Resumo:  Esta comunicação oral busca apresentar o estágio parcial da pesquisa de doutorado que
venho desenvolvendo na UFRJ, pelo PPGHIS. Trata-se de um trabalho sobre a lesbofobia na Primeira

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República representada por meio, inicialmente, da mídia jornalística do período em que notícias sobre
o tema das lésbicas foram veiculadas em jornais. O conjunto das fontes primárias encontradas está
disponível em diversas sessões dos jornais e em periódicos de vários cunhos ideológicos, afinal, a
questão lésbica era pouco comentada, mas esteve presente, como pode ser comprovado por meio
de tais fontes. São muitas formas de lesbofobia encontradas nos discursos jornalísticos. É possível
destacar, porém, que grande parte das notícias encontra-se nas páginas policiais, ou seja, que a
figura da lésbica é sistematicamente associada ao crime. O entrelaçamento de alguns preconceitos
é perceptível, além da grande criatividade sobre o universo lésbico, evidentemente desconhecido e
apavorante. Por fim, o trabalho está em desenvolvimento e aponta apenas análises preliminares sobre
as reportagens através de um adentramento teórico incipiente na temática tanto da criminologia
quanto da Primeira República carioca.

A eterna luta pela democracia no Brasil: por que a retórica ditatorial permanece viva?
RICARDO OLIVEIRA ROTONDANO (UFPA - UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ), DANIEL SOUTO
NOVAES (FTC - FACULDADE DE TECNOLOGIA E CIÊNCIAS DE JEQUIÉ)

Resumo: A ditadura militar brasileira foi um período histórico conhecido pelas atrocidades cometidas
contra pessoas que se opunham ao regime autoritário e ditatorial instaurado, com graves violações
aos direitos humanos da população. Foram efetuadas prisões arbitrárias, torturas e assassinatos,
supostamente em prol da ordem e do bem estar da nação (CONTREIRAS, 2005). A partir do engajamento
dos movimentos sociais e da sociedade civil organizada, houve a superação deste quadro institucional,
promovendo-se o retorno à democracia. Tal processo de resgate do panorama democrático do
país veio em conjunto com a consolidação de um rol expresso de direitos fundamentais, inseridos
na Constituição Federal de 1988. A referida Carta Magna constituiu-se como mecanismo político e
jurídico de defesa contra quaisquer tentativas de violação do regime democrático brasileiro, bem
como quaisquer investidas que atentassem contra os direitos e as liberdades fundamentais das/dos
cidadãs/aos (ROTONDANO, 2015). Não obstante o regime democrático tenha sido resgatado nestas
últimas décadas, a retórica ditatorial permanece viva em determinados grupos sociais, emergindo
principalmente em situações de crise institucional e política. Nas manifestações contra a ex-presidenta
Dilma Roussef (CHAPOLA, 2014; LIMA et. al., 2015) ou na greve dos caminhoneiros (ROSA, 2018;
LONGO, 2018), ecoaram vozes e cartazes pedindo a realização de uma intervenção militar no país. Tais
grupos fortaleceram o seu discurso com a recente eleição de Jair Bolsonaro e de Antonio Hamilton
Mourão para a presidência e para a vice-presidência da república, respectivamente – visto que ambos
possuem clara posição pró-intervenção militar (MERCIER, 2020; VILELA, 2019). O presente escrito tem
como objetivo analisar os possíveis fundamentos sociopolíticos que impulsionam a crença de grupos
populares na intervenção militar do Estado como caminho profícuo para o alcance fático de anseios
sociais. Através dos métodos hipotético-dedutivo e dialético, utilizando-se as técnicas de pesquisa
comparativa, histórica, bibliográfica e documental, almeja-se problematizar a retórica ditatorial,
visando entender o raciocínio que embasa o seu desejo social por grupos de pessoas no Brasil. Mais
do que isso, realizar-se-á uma interlocução histórica, de modo a perceber como uma versão alternativa
da memória ditatorial pátria consegue se retroalimentar e disseminar suas ideias, alcançando
novos adeptos. Por fim, promover-se-á um debate acerca da possibilidade jurídica de manifestação
pública de pleitos referente à intervenção estatal e da instauração de uma ditadura militar no Brasil
na contemporaneidade. Em um Estado Democrático de Direito, haveria espaço para que o discurso
público solicitando uma intervenção militar ditatorial seja proferido?

105
SESSÃO 01: 21/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

“É tudo nosso e nada deles”: o Ensino de História e as produções de sentido para os educandos da EJA
no Sistema Penal de Salvador
FÁBIO CARVALHO DA HORA (SECRETARIA DE EDUCAÇÃO DO ESTADO)

Resumo: O espaço prisional, comumente descrito como lugar de penitencia, onde os sujeitos que infringiram
as normas do contrato social devem “purgar seus pecados”, é também o lugar previsto na Constituição
Federal Nacional, no Código Penal e na Lei de Execuções Penais, para a “recuperação” e ressocialização
destes indivíduos apenados à sociedade. A educação cumpre um papel estratégico de resgate da cidadania
e de preparação para o pós-cárcere e entre as matérias elencadas no currículo básico, a História ganha
destaque. O objetivo da nossa pesquisa é investigar os significados atribuídos pelos estudantes privados
de liberdade aos saberes históricos produzidos na dinâmica do ensino de história nas das celas de aula,
compreendendo, a formação de uma consciência histórica a partir de um processo formativo que, não
só não é neutro, mas parte integrante de um confronto entre a subjugação e resistência. Teoricamente
fundamentados em conceitos da pedagogia critica, educação em prisões, consciência histórica e operação
historiográfica escolar, entendemos que a consciência histórica não é um privilégio de alguns indivíduos
capazes de pensar a história, mas algo que faz parte do dia-a-dia do homem. Isto abre espaço para o
entendimento de que os alunos, em geral, são dotados de uma consciência histórica, pois todos os dias
são levados a lidar com diversas situações diárias que exigem reflexão e interpretação da realidade e nessa
lógica, o conhecimento histórico, como elemento da consciência, história exerce um papel decisivo em suas
vidas. Para atingir o objetivo proposto e responder à questão central deste estudo, desenvolvemos uma
pesquisa Colaborativa de abordagem Qualitativa, para valorizar a participação e o lugar de fala dos sujeitos.
Esperamos contribuir para o debate sobre a educação em prisões, fortalecê-la como direito, ampliar os
horizontes metodológicos, para a melhoria do ensino de história nesses espaços e contribuir inclusão social.

Que aprendizagem histórica é essa? Uma análise da competência narrativa de estudantes do 3º ano
do Ensino Médio
IONE MACHADO SANTOS, VALTER GUIMARÃES SOARES (UNIVERSIDADE ESTADUAL DE FEIRA DE
SANTANA)

Resumo: Neste trabalho apresentamos um diagnóstico acerca da aprendizagem histórica de estudantes


do 3º ano do Ensino Médio de uma escola pública de Feira de Santana, Bahia. Partimos da premissa de
que se pode mensurar a aprendizagem pela via da análise da competência narrativa dos estudantes, que
a partir da perspectiva de Jörn Rüsen (2011) pode ser entendida como uma operação de síntese temporal
através da qual se expressa a consciência histórica. O trabalho de investigação foi pautado a partir de
questionamentos acerca do ensino e aprendizagem da História. Dois deles são essenciais: os estudantes
estão realmente aprendendo história? Como se realiza este aprendizado? Para tentar respondê-los
um caminho metodológico foi elaborado, a partir da utilização de algumas ferramentas: aplicação de
questionários socioeconômicos; aplicação de um simulado temático com questões de Enem e Vestibular
que retratavam a condição da população negra no Brasil, desde o período colonial até os dias atuais; e, por
fim, uma atividade de produção textual, que consistiu na apresentação de sete imagens sobre a história da
população negra e foi solicitado a/os que produzissem narrativas expressando seu entendimento acerca
da temática configurada nas imagens. A análise foi feita a partir da leitura cruzada destes dados, com
destaque para as narrativas do/as aluno/as.

107
Ao todo, conseguimos 74 narrativas. Para analisá-las utilizamos um bloco de perguntas elaboradas pelos
integrantes do Grupo de Investigação em Didática das Ciências Sociais (GREDICS). Seguidamente, inspirados
na Teoria Fundamentada em Dados (Grounded Theory), as produções dos estudantes foram agrupadas em
categorias, escalonando desde aquelas que mais se distanciam de uma narrativa histórica até elaborações
que informam um maior grau de complexidade.
Em termos de resultados nota-se uma ambiguidade: os estudantes demonstram ter um bom desempenho
nas questões de Enem e vestibular, todavia, o mesmo não acontece nas produções textuais. A análise das
narrativas deixa ver que parte considerável dos textos, pouco mais de um terço (34%), sequer podem
ser classificadas enquanto narrativa histórica. Alguns não apresentam informações históricas e contexto
espaço-temporal. Outros, apesar de conter informações históricas, seguem a cronologia das imagens, que
são descritas de forma individualizada. Em geral, as narrativas indiciam fragilidades na sua estrutura, de
modo que não articulam as diferentes temporalidades, apresentam informações históricas fragmentadas
e desconexas, incoerência temática, e consequentemente inconsistências em relação às competências de
experiência, interpretação e orientação, desfecho que coloca em questão e sob suspeita a efetividade e a
qualidade da aprendizagem histórica dos/as estudantes.

O Pensamento histórico de alunos do Ensino Fundamental II acerca da escravidão africana no Brasil


LEIDIANE ALVES SOUSA DE JESUS

Resumo:  Essa comunicação apresenta uma pesquisa em andamento cujo objetivo é analisar como os
alunos do 9º ano do Ensino Fundamental II compreendem a escravidão africana e suas relações com o atual
contexto da sociedade brasileira. Localiza-se no campo do Ensino de História, dialogando com as discussões
acerca da aprendizagem histórica e do conceito substantivo de escravidão. Os Estudos que tratam desses
dois aspectos fazem parte de um campo de investigação denominado Educação Histórica.
De acordo com Albuquerque Júnior (2012, p.31) a tarefa da história na contemporaneidade “é ensinar e
permitir a construção de maneiras de olhar o mundo, de perceber o social, de entender a temporalidade
e a vida humana”. Esta concepção acerca da história deve ser evidenciada também em seu ensino, ou seja,
ao entrar em contato com a disciplina o aluno deve ser sensibilizado a refletir os processos históricos numa
concepção temporal dinâmica. Nesse sentido, o aprendizado da história ultrapassa a simples acumulação de
fatos históricos conhecidos linearmente e sem relação com a vida prática dos estudantes. Essas concepções
iniciais apresentadas aqui acerca do aprendizado histórico aliam-se na pesquisa com a importância da
abordagem do tema da escravidão africana nas aulas de história. Parte-se da premissa de que o ensino
de história necessita ter vínculo com a vida prática dos sujeitos e que sua abordagem deve considerar
temas sensíveis de seu passado e do presente. Sendo assim, pretende-se investigar essas questões, no
sentido de compreender o pensamento histórico dos alunos acerca deste passado e suas relações com o
contexto atual da sociedade brasileira. A pesquisa será realizada numa escola da rede pública do município
de Poções, com alunos do 9º ano. Entendemos que nessa etapa da escolarização os alunos já trabalharam
o tema Escravidão, sendo, portanto, possível dimensionar e analisar, com base na proposta das atividades
que deverão ser realizadas em sala de aula, o pensamento histórico construído pelos estudantes a respeito
do tema em questão. A pesquisa ainda pode contribuir para identificar se os alunos conseguem estruturar
cognitivamente o seu pensamento histórico sobre a escravidão de modo a considerá-la um processo
que envolveu a ação de diversos atores sociais com visões de mundo, perspectivas e vivências distintas
que foram em certa medida impactadas pelo sistema escravista e as diversas formas de violência, o que
torna o acesso a este passado da nossa História difícil de ser tratado, entretanto, indispensável quanto
à necessidade de compreender as questões tanto presente como também de perspectiva de futuro.

108
Pretende-se inicialmente colher as narrativas dos alunos sobre suas ideias sobre o tema em questão a
partir de aulas oficinas.

Confiabilidade nas evidências sobre o passado: o Livro Didático em questão


IZIS POLLYANNA TEIXEIRA DIAS DE FREITAS (COLÉGIO ESTADUAL LUÍS PRISCO VIANA)

Resumo: Nesse texto encontra-se o resultado de parte da pesquisa desenvolvida junto ao Programa de Pós-
Graduação em Educação (PPGED), da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). A discussão aqui
apresentada objetiva demonstrar os meios pelos quais os alunos mais confiam para interpelar o passado e
insere-se no campo do ensino da História. Tendo o aporte teórico sido cuidadosamente selecionado, entre os
autores utilizados estão: Flávia Caimi (2017); Margarida Oliveira e Itamar Oliveira (2014) que, seguramente
contribuíram com o diálogo aqui apresentado. A abordagem qualitativa foi definida como matriz teórico-
metodológica e empregamos a análise de conteúdo para o tratamento dos dados. Ressaltamos o valor
desta pesquisa por entendermos que, por meio da investigação no campo do ensino de História, é possível
identificar e analisar a compreensão das ideias históricas dos alunos – no caso de nossa investigação, mais
especificamente alunos do ensino médio – bem como, nos leva a refletir sobre os meios pelos quais eles
confiam e gostam de acessar o passado e, sobretudo, o conhecimento histórico, ajudando a deslindar os
caminhos didáticos da história.

NA TERRA DE CHICO PINTO: ideias históricas de estudantes do ensino médio sobre a Ditadura civil-
militar
IUKA LIMA CERQUEIRA, VALTER GUIMARÃES SOARES (UEFS)

Resumo:  Neste trabalho, parte de uma pesquisa mais ampla, na qual analisamos as ideias históricas
sobre Democracia e Direitos Humanos de estudantes do Ensino Médio, fazemos um diagnóstico sobre
as representações e posicionamentos de jovens sobre a Ditadura Civil-Militar. São temas relevantes e
recorrentes no atual cenário sócio-político do país, e que marcam presença tanto no âmbito do currículo
escolar quanto em vivências da cultura histórica fora da sala de aula. No caso específico, constituem os
sujeitos da pesquisa jovens de escolas públicas e privadas da cidade de Feira de Santana, Bahia.
Filiada ao campo da Didática da História, a pesquisa se pretende um desdobramento do Projeto Residente:
O observatório das relações entre jovens, história e política na América Latina. Coordenado pelo Prof.º
Luis Fernando Cerri e composto por uma equipe de pesquisadores de vários estados e cidades brasileiras,
assim como, um significativo número de países latino-americanos, o Residente tem como objetivo mapear
as representações e posicionamentos de jovens do Ensino Médio e seus professores a respeito de diversos
temas, possibilitando assim gerar diagnósticos, abordagens panorâmicas e análises comparativas sobre
a consciência histórica, a cultura histórica, a cultura política e o ensino e aprendizagem de História nos
países da América Latina, sustentados numa base de dados ampla, já construída pelos participantes da
pesquisa. Para efeito deste momento do trabalho, recortamos da base de dados do Projeto Residente
aqueles referentes à Feira de Santana, cidade historicamente afetada de forma direta pelo regime militar,
constituindo-se em palco de cassações políticas, tortura e repressão. A partir de uma amostra de 284
jovens estudantes do Ensino Médio, situados na faixa etária entre 15 e 18 anos, investigamos as ideias
históricas acerca deste período, analisando o material a partir de um tratamento estatístico que levou em
consideração o posicionamento relativamente ao regime militar, intercruzando com outras variáveis, a
exemplo do interesse pelo tema, importância atribuída à história, à religião e à democracia, percepções a
partir do gênero e da condição socioeconômica, do tipo de escola (pública de periferia, pública de centro,
particular). Os resultados preliminares apontam para a presença substantiva de elementos de uma narrativa

109
que associa a Ditadura Militar no Brasil a ideias de desenvolvimento econômico, segurança pública e a
ausência de corrupção.

O jogo das alteridades: a significância histórica dos povos indígenas entre estudantes do Ensino
Médio.
PATRICIA MOURA DE JESUS (UEFS), VALTER GUIMARÃES SOARES (UEFS)

Resumo: Estabelecer sentido, tornar a História significativa e interessante para os alunos em contexto de


escolarização é um dos grandes desafios que permeia a atividade do professor. Desafio que se amplifica
quando consideramos o cenário de crescente desvalorização das disciplinas de humanas na sociedade
e, por consequência, nas escolas. Sendo a História uma disciplina que exige um alto nível de abstração,
interessar-se por ela implica um envolvimento profundo com seus conteúdos, como também com a forma
como ela é produzida. Romper com possíveis alheamentos em relação à disciplina implica pensar a dala de
aula como espaço de construção de sentidos com os estudantes, o que requer também investigar como os
mesmos vêm significando os processos e sujeitos históricos.
Nos últimos anos, com destaque para o campo da Educação Histórica, tem-se observado avanços
significativos com relação à forma como os sujeitos tem atribuído sentido a fatos e personagens históricos
do passado, seja por conta das pesquisas que vem privilegiando a importância de se conhecer os aspectos
dos tempos passados, seja pelo interesse em resgatar as histórias dos sujeitos que por muito tempo foram
relegados a segundo plano no processo de construção do conhecimento histórico. Na esteira destes
estudos, neste trabalho apresento os resultados de uma investigação em curso acerca da significância
histórica atribuída às sociedades indígenas por estudantes do Ensino Médio de Feira de Santana, Bahia.
Utilizamos como material de análise 284 questionários referentes à cidade da base de dados do Projeto
Residente: Observatório das relações entre jovens, história e política na América Latina, a partir dos quais
recortamos e operamos um tratamento estatístico de algumas questões-chave para dimensionar o objeto,
como é o caso da participação social e política, interesse por períodos e lugares históricos, associações
feitas com a colonização da América Latina e, sobretudo, a importância que eles atribuem à história dos
povos indígenas e em relação aos direitos que asseguram a sua sobrevivência no tempo presente.

“História é nós”: significações da história por estudantes de comunidades rurais negras de Feira de
Santana.
BEATRIZ SOARES DA CONCEIÇÃO OLIVEIRA (COLÉGIO LIMITE)

Resumo: Esta comunicação apresenta resultados oriundos de trabalho investigativo realizado durante a


graduação, perguntando acerca das ideias sobre a história de moradores de comunidades negras rurais em
Feira de Santana, considerando a premissa de que o pensamento histórico é uma construção experiencial.
Os sujeitos analisados foram estudantes do 8º e 9º ano da Escola Municipal José Tavares Carneiro, localizada
no distrito de Maria Quitéria. Inscrita no campo da Didática da História, no âmbito teórico utilizou dos
conceitos de história, consciência e narrativa histórica do filósofo e historiador Jörn Rüsen. A metodologia
utilizada para a concretização da pesquisa constitui-se de etapas quantitativas, através da aplicação de
questionário, e qualitativas, com a realização de observação participante, e obtenção de narrativas dos
estudantes através da resolução de questão-problema. Dentre as narrativas selecionou-se aquelas que
compuseram a amostra que foi analisada e categorizada, segundo pressupostos da Teoria Fundamentada.
Constatou-se a presença de 5 (cinco) categorias e entre elas a que obteve o maior número de estudantes
revelou a forte presença do caráter experiencial, de um viver negro rural, nas ideias sobre a história de
parte dos sujeitos investigados. Tal constatação nos levou a especular que a constituição do pensamento

110
histórico dos estudantes investigados, em sua maioria moradores de comunidade rurais negras,
é atravessado pelo apego à memória, pela importância atribuída a oralidade, bem como por um
sentido de pertencimento à história.

SESSÃO 02: 22/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

Ensino de História e Currículo no Pibid da Uesb: um estudo sobre conhecimento histórico e prática
docente no período 2013-2017
KELVIN OLIVEIRA DO PRADO (CNPQ)

Resumo: Neste resumo são apresentados aspectos de uma pesquisa que objetiva analisar o pensamento
histórico e as relações de ensino e aprendizagem de sujeitos que passaram pelo Programa de Bolsa
de Iniciação à Docência (PIBID) de História, da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB),
ou seja, como graduandos bolsistas lidam com o conhecimento histórico e seu processo de ensino
e aprendizagem. Os referenciais da pesquisa passam pela discussão de currículo, ensino de história,
consciência histórica e pensamento histórico, tendo como base a Educação Histórica. A metodologia
sustenta-se na pesquisa qualitativa, produzidos através das narrativas dos ex bolsistas que atuaram
no Programa no período investigado. Essas narrativas foram coletadas por meio de um questionário
online, na plataforma Google Forms. Os dados foram captados por perguntas objetivas e subjetivas,
percebe-se que essa experiência é avaliada pelos sujeitos de maneiras diversas, particularmente no
tocante à práxis e pela aproximação com o campo do ensino de História. Ademais, identificar e analisar
como esses ex bolsistas compreendem a História e seu ensino, mas também como avaliam o Programa
e em que medida a experiência provocou mudanças na trajetória da formação dos indivíduos.

NAS TRILHAS DA HISTÓRIA : A Educação Patrimonial e Artística no Colégio Estadual Antônio


Carlos Magalhães
FÁBIO DOS SANTOS TEIXEIRA (COLÉGIO ESTADUAL ANTÔNIO CARLOS MAGALHÃES DE MUTANS),
CILMARA LÉDO DE ARAÚJO (COLÉGIO MODELO LUIS EDUARDO MAGALHÃES)

Resumo: O presente trabalho apresenta o percurso de execução do projeto estruturante (EPA) no


Colégio Estadual Antônio Carlos Magalhães de Mutans no Município de Guanambi-BA. É um relato
de experiência do desenvolvimento do Projeto estruturante da Secretaria da Educação do Estado da
Bahia, EPA- Educação Patrimonial e Artística-, realizado na rede estadual de ensino desde 2012. Uma
metodologia previamente definida, possibilitou sua exequibilidade na sala de aula, por intermédio de
ações voltadas para a valorização cultural, a partir das expressões artísticas dos estudantes, com vistas
ao reconhecimento e preservação do patrimônio histórico da Bahia, assim como da Memória para
constituição da História. A concepção de ensino presente neste trabalho é aquela que contribui para
a formação de estudantes enquanto sujeitos no processo de aquisição do saber, e que se reconheçam
como seres autônomos e produtores da História. Nesse sentido, foram traçadas metas e trilhados
caminhos que propiciassem novas descobertas e motivassem os educandos à busca pelo conhecimento
através da valorização do legado cultural da sua comunidade para que, por meio do reconhecimento
da História local, pudessem desenvolver o sentimento de pertencimento. No que se refere a função
social da história, sobretudo com os conceitos de História, Patrimônio e Memória, buscou-se aporte
nos referenciais de alguns autores que tratam da temática em questão, dentre os quais podemos

111
citar as contribuições de Nora(1993) e Salgado (2012). Essa experiência provocou reflexões no tocante
a prática pedagógica dos docentes envolvidos com o ensino de História, sobretudo pela riqueza
observada nas narrativas e nos álbuns produzidos pelos alunos. Os resultados obtidos resultaram
na reflexão sobre a importância de validar a realidade cotidiana desses sujeitos como princípio de
reflexão sobre a construção dos processos históricos. Além disso, analisou-se as concepções sobre
patrimônio histórico e cultural, memória e fontes históricas, possibilitando a formação sócio histórica
dos estudantes através da aprendizagem significativa, experimentando formas alternativas de se
analisar o passado, distintas das propostas pelos manuais didáticos.

O papel do ensino de História no contexto de ressignificação do tempo histórico e do avanço das


tecnologias de informação e comunicação
ADRIANA OLIVEIRA DA SILVA (IFBA - INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA)

Resumo: A forma como as sociedades compreendem e significam o tempo histórico contribui para
alterar a vida social. Se na temporalidade moderna o presente esteve à sombra de um futuro de
progresso, a contemporaneidade, desdobrada a partir das crises do século XX, mostrou-se menos
confiante no futuro. A visão teleológica deu lugar a uma outra ordem do tempo. Isto é, uma nova
engrenagem de passado, presente e futuro foi constituída. O passado não aparece mais como ponto
de orientação, mas deve ser preservado, porque o tempo pode destruí-lo. O futuro é percebido não
mais como promessa, mas como ameaça. Já o presente não é mais passagem ou expectativa. É sim, a
convergência do passado e do futuro. É um tempo em constante expansão, onde o acontecimento é
efeito das necessidades e interesses do próprio presente. Essa relação das sociedades com a passagem
do tempo, mais especificamente com a cultura epistemológica do presente, gerou mudanças na
ciência História, à medida em que o conhecimento histórico se voltou para uma hermenêutica dos
sentidos do tempo nas ações dos sujeitos. Por outro lado, essa forma de compreensão do tempo foi
influenciada pelo ritmo acelerado das transformações na área tecnológica, e, numa via um pouco mais
lenta, na linguagem. No avanço frenético das (TIC) Tecnologias de Informação e Comunicação, quase
tudo acontece no imediato e nele também se desmancha, desaparece. Isso implica na necessidade
permanente de atualização, de não se tornar ultrapassado, superado. Nesse presente em que
a obsolescência se tornou risco iminente, que papel cumpre o ensino de História? Como lidar com
identidades cada vez mais fluidas e fragmentadas do presente de simultaneidades onde o político
é cada vez mais pessoal e diz menos respeito aos projetos de transformação global? Como o ensino
de História pode contribuir para formar sujeitos questionadores, atentos e conscientes do jogo de
intenções e práticas que compõem a concepção do tempo atual? Sem dúvida, a compreensão da
dinâmica do tempo a partir do fomento à consciência histórica é um dos elementos vitais do ensino
de História e deve servir de parâmetro para a revisão de currículos, metodologias de ensino e para
as práticas educativas. Faz-se necessário articulação mais efetiva entre o conhecimento da ciência
especializada e o cotidiano da aprendizagem escolar para que as atualizações da produção científica
alcance a vida cotidiana, proporcionando o desenvolvimento da capacidade de interpretação do tempo
histórico e da competência narrativa.

O ensino de História na educação básica em Vitória da Conquista-Ba, no período Ditatorial no


Brasil, entre 1964 e 1985: reflexões preliminares.
VITÓRIA RÉGIA FERREIRA DA SILVA (SECRETARIA ESTADUAL DE EDUCAÇÃO)

Resumo: O presente texto discorre acerca de uma pesquisa de Mestrado em Educação, já em

112
andamento, e tem como objetivo: investigar como se deu o ensino de História na educação básica,
na rede pública de Vitória da Conquista - BA, durante o período ditatorial no Brasil, a partir das
memórias de professores. Percebemos que ainda há pouca produção sobre o ensino de História em
nível local, portanto, além da contribuição dada ao processo educacional, a ação dos professores
pouco aparece nos “documentos oficiais”. Contudo, esse caminho pode levar à problematização de
temas e objetos da área de ensino de História e da educação não contemplados em outras fontes,
neste caso, as escritas. Essa pesquisa está sendo norteada a partir da problemática central, qual seja:
De que forma a História foi ensinada na rede pública de Vitória da conquista no período da ditadura
civil-militar? Quais os significados das lembranças desta prática docente pelos professores de história?
Além das memórias de professores, lançaremos mão também de documentos escritos como leis, atas,
livros ponto, pareceres, jornais, diários de classe, ofícios, etc., Estamos fazendo uso de entrevistas
semiestruturadas realizadas com os atores da pesquisa, a saber: 06 (seis) professores que atuaram
na educação básica, na rede pública estadual, no colégio Instituto Euclides Dantas (IEED) e no Colégio
Estadual Abdias Menezes (CEAM), no município de Vitória da Conquista, no contexto em questão.
Esta pesquisa encontra-se em fase de desenvolvimento, portanto, ainda não há resultados conclusivos.

O passado, a roupa velha e o ensino de história: usos do passado em sala de aula.


NALLYNE CELENE NEVES PEREIRA (SECRETARIA DE EDUCAÇÃO DO ESTADO)

Resumo:  Em tempos de negacionismo histórico recorro a Belchior e suas canções que refletem a
dialética do velho e do novo diante a uma esperança na mudança que sempre vem. Em Roupa Velha
Colorida, afirma Belchior, que “o passado é uma roupa velha que não serve mais” e assim, é preciso
abandonar os velhos costumes e nos abrir ao novo, pois “precisamos todos rejuvenescer”. A dialética
presente na canção adjetiva ao passado o peso do “antigo”, do “velho” e daquilo que precisa ser
esquecido frente a sua inutilidade no tempo presente. Assim, demarca-se um conflito latente no
cotidiano da sala de aula e que, no cenário político atual, implica diretamente sobre a aprendizagem
histórica e a formação da consciência histórica dos estudantes em fase de escolarização.
Segundo Peter Lee (2006) o passado é visto por uma grande maioria de alunos como algo permanente,
como uma paisagem fixa e a verdade associada ao que se pode provar “porque é dito assim no livro” (p.
137), pois só podemos saber sobre algo se estivermos lá e como isso não é possível, cabe a História nos
contar o que aconteceu. Outro elemento a ser considerado, sobretudo em tempos de redes sociais, é
que o passado está presente em diversos outros ambientes e que podem ser acessados de diferentes
formas por nossos alunos. Assim, Lee aponta que a desconstrução desse conceito pelos estudantes
será feita quando forem capazes de construir uma compreensão da disciplina História e uma estrutura
utilizável do passado. É, portanto, sobre o uso do passado em sala de aula e a aprendizagem histórica
que esse texto se propõe a refletir, a partir do estudo sobre o Nazismo e o Holocausto em turmas
dos 3º ano do Ensino Médio tendo como referência a leitura dos livros O diário de Anne Frank e
Entre Mundos: História e Memória dos sobreviventes do holocausto, de Maria Luiza Tucci Carneiro
e Carol Colffield. A atividade foi desenvolvida durante a última unidade letiva. A leitura das obras
aconteceu em paralelo a abordagem do conteúdo em sala de aula. De acordo com Lowenthal (1989)
e Oakeshott (2013) o passado conhecido por nós já foi experimentando como presente. Sendo assim,
o que permanece sobre esse passado conhecido são os vestígios, os fragmentos que nos permite
distingui-los, em uma dimensão temporal, do tempo presente. A partir desses pressupostos teóricos
nos atrevemos a propor aos estudantes uma aproximação com passado a partir do olhar daqueles
que o viveram. O elemento central, portanto, dessa reflexão, é como se dá a aprendizagem histórica e
das possibilidades de elaboração do pensamento histórico frente ao negacionismo tão em pauta em

113
nossos dias atuais.

Ensino de História e Currículo no PIBID da UESB


JHAIMES SOUZA TEIXEIRA

Resumo: Este texto é um esforço de investigação do pensamento histórico e da prática de ensino de


professores que, tiveram experiência com o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência
(PIBID) da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), Subprojeto História, no período
2013/2017, tendo como corpus de análise dados de pesquisa qualitativa realizada com os professores
que passaram pelo programa enquanto supervisores. Essa reflexão faz parte da pesquisa de Iniciação
Científica sob a coordenação da professora Maria Cristina Pina, com financiamento da FAPESB.
Procuramos aproximar importantes considerações sobre o currículo feitas por Ivor Goodson e Michael
Apple, às contribuições da Educação Histórica, a fim de entender como os professores formulam seu
pensamento histórico, como fazem suas escolhas curriculares, como decidem sobre os significados/
importância do que aprender/ensinar em história e como traduzem em situações de ensino as
discussões acumuladas na experiência do PIBID sobre o conhecimento histórico. Para subsidiar a
abordagem também dialogaremos com trabalhos de estudiosos como Peter Lee, Jörn Rüsen, Klaus
Bergmann, Maria Auxiliadora Schmidt, Isabel Barca, Luís Fernando Cerri, entre outros, articulando
conceitos de importantes campos de pesquisa como o da Teoria da História e da Didática da História.
Assim pretendemos, dialogar melhor com profissionais da área e contribuir tanto, com os estudos
relacionados a formulação do currículo de História, quanto com o avanço de práticas assertivas de
aperfeiçoamento da docência, deixando em evidência as contradições, disputas de poder e construção
de lugares de privilégio, no lócus de composição do “o que se aprende” com o “como se aprende”.

SESSÃO 03: 23/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

História local como estratégia para ressignificar o ensino de História


HELENA ROSA MOITINHO (SEC BAHIA)

Resumo: O presente artigo discute o potencial que a história local oferece como estratégia para
dar sentido ao estudo da história. Apresenta fundamentos teóricos que asseguram a importância
desse estudo e comenta os principais desafios enfrentados por professores e historiadores
nessa tarefa. Objetiva demonstrar como a conexão entre as vivências dos estudantes - no
que se refere ao legado histórico do local onde vivem - e a disciplina de história estudada no
currículo escolar, pode se transformar em aliado do professor para ressignificar metodologias
de ensino da história. Apoia-se teoricamente em autores como Barbosa (2006), Barca (2001), Lee
(2011), Albuquerque Jr (2012), Caime e Oliveira (2010). Destaca a Educação histórica como uma
perspectiva de ensino aprendizagem que valoriza a experiência do aluno no processo educativo,
tornando-o mais produtivo e contribuindo grandemente com o desenvolvimento do pensamento
histórico dos jovens. Propõe a problematização da história local como ponto de partida para o
estudante compreender a intencionalidade imbuída nos conteúdos históricos apresentados no
livro didático e elaborar questionamentos indispensáveis tais como: o que os acontecimentos
passados têm a ver com o mundo atual? Como influenciam a maneira de viver e de pensar de
homens e mulheres de hoje? Como ajudam a explicar o que está acontecendo agora, aqui onde

114
vivo? As coisas poderiam ter sido diferentes? Considera que os questionamentos sobre a história
local são oportunidades reais para o aluno exercitar a explicação de seu raciocínio histórico por
meio da resolução de problemas semelhantes aos da ciência histórica. Assim, ele poderá realizar
uma nova leitura da realidade, direcionando seu olhar sobre os fatos históricos, construindo um
conhecimento novo, no qual perceba os nexos que conectam experiências de outros tempos,
tomando o passado como marco de referência para compreender os problemas sociais do seu
tempo. Ressalta a possibilidade de efetuar pesquisas e métodos de análises comuns ao meio
acadêmico, cujas atividades permitem que os estudantes percebam-se importantes, atribuam
maior sentido ao estudo que estão realizando, uma vez que entendem que estão fazendo história,
reconstruindo conhecimentos. Esse exercício possibilita a prática da pesquisa histórica, ou seja, a
produção do conhecimento pelos alunos.

Santiago do Boqueirão: A construção de um livro infantil sobre a História da cidade de


Santiago para os Anos Iniciais do Ensino Fundamental
PÂMELA POZZER CENTENO NUNES (PREFEITURA MUNICIPAL DE SANTIAGO)

Resumo: Este trabalho tem a proposta de criação de um material didático para ser utilizado pelos
alunos dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, como forma de auxílio em sala de aula para trabalhar
sobre a História da cidade de Santiago. O interesse por esse tema se dá no tocante de que eu, além de
ser professora do município de Santiago do componente curricular História, também sou professora
da referida cidade em Educação Infantil, atuando em regime de convocação suplementar durante
um semestre, como docente nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental e, no momento da sala de aula
ou na coordenação das Escolas ser questionada sobre a origem, povoação e outros traços históricos
da cidade, não saber responder. Visto que não sou natural da cidade, não que isso seja uma requisito
básico para conhecer sobre a história de determinada localidade, observa-se uma enorme dificuldade
em encontrar materiais que dão um aporte teórico sobre essa questão, pois há um desencontro
e desconhecimento de informações, inclusive de personagens históricas que nomeiam os espaços
públicos, ruas e praças (GONTIJO, 2018). O que noto é que, fora uma pequena parcela da população
santiaguense, que está localizada em ambientes considerados mais “eruditos” – como museus,
escolas, memorialistas –, a maior parte das pessoas não sabe sobre a sua localidade e, percebe-se
que não há pesquisas atuais feitas na cidade para fechar essa lacuna. Pensa-se por isso, no estudo
da História Local, que surge com a “Escola dos Annales, a partir da década de 1930, na denominada
Nova História e nas relações interdisciplinares entre a Geografia e a História, trazendo novas
concepções metodológicas” (ALVES, 2018, p.48), aproxima o historiador do seu objeto de estudo.
Através dessa nova metodologia, a História se tornaria mais próxima do cotidiano do estudante,
principalmente, do aluno dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental e, não consegue por conta do seu
próprio amadurecimento cognitivo compreender os conceitos históricos. Segundo Caimi (2016, p.24)
no artigo “Por que os alunos (não) aprendem História?”, devido ao não entendimento dos processos
cognitivos que ocorre um “verbalismo vazio que permeia as aulas de História, resultando ora na
passividade dos alunos, ora na sua resistência ativa frente à disciplina”. Soma-se isso ao despreparo
dos professores que atuam nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, que em sua maioria, possuem
graduação em Pedagogia, onde os conceitos específicos de cada componente curricular são apenas
pincelados e, por conta das avaliações nacionais, acabam priorizando em suas práticas pedagógicas
a Língua Portuguesa e a Matemática. Assim, este trabalho visa contribuir para o avanço dos debates
e a melhoria das práticas do profissional de História dentro e/ou fora da sala de aula.

115
REPRESENTAÇÕES SOBRE A ESCRAVIDÃO NOS LIVROS DIDÁTICOS: o que mudou
transcorridos dez anos da Lei 10.639/03?
CAIO PINHEIRO OLIVEIRA

Resumo: Considerando a centralidade do livro didático no processo de construção das


representações, essa pesquisa buscou identificar as mudanças discursivas e imagéticas nas
representações sobre a escravidão-negra impressas em livros didáticos de História publicados
nos dez anos posteriores à sanção da Lei nº 10.639/03. Com este intuito, tomou-se o livro didático
como um dos mais importantes recursos pedagógicos utilizados no ensino de História. Partiu-
se do pressuposto de que ao tornar obrigatório o ensino da História e Cultura Africana e Afro-
Brasileira nos currículos dos estabelecimentos de ensino públicos e particulares da educação
básica, a referida lei suscitou a atualização dos referenciais historiográficos que, por décadas,
balizaram as representações acerca da escravidão nos manuais voltados ao ensino de História. As
questões de pesquisa que nortearam o exercício analítico foram: no transcurso dos dez anos de
aprovação da Lei nº 10.639/03 ocorreu mudanças nas representações sobre a escravidão contidas
nos livros didáticos de história? Em que medida aos livros didáticos de história foram incorporadas
as abordagens historiográficas que rediscutem a escravidão tendo o escravo como agente da
sua liberdade no plano da resistência sociocultural? Na busca de respostas a essas questões,
foram analisados os livros que compõem a coleção História, Sociedade e Cidadania de Alfredo
Boulos Júnior, publicados entre 2003 e 2013, pois, como referenciou a bibliografia consultada
e as avaliações do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), essa coleção caracteriza-se pela
permeabilidade às propostas temáticas e alterações nas perspectivas historiográficas demandas
pela Lei nº 10.639/03. Materializado na forma de uma dissertação, o estudo inferiu que embora
não sejam quantitativamente volumosas as mudanças na maneira de se representar a escravidão-
negra nos livros analisados, a mesmas são significativas, na medida em que questionam a imagem
de passividade e selvageria atribuída aos escravos. As mudanças nas representações identificadas,
revelam sofisticados mecanismos socioculturais forjados pelos escravos na sua diuturna resistência
ao cativeiro. Desta maneira, sendo inculcadas no imaginário de professores e alunos via livro
didáticos, as mesmas tendem a contribuir para a liquidação das imagens depreciativas de negros
e negras, que, infelizmente, há século vêm povoando o imaginário das gerações submetidas à
educação escolar.

O uso do paldet como instrumento digital para discussão histórica na educação básica
MATEUS CAMPOS RANZAN (ESCOLA MUNICIPAL ZILÁ PAIVA)

Resumo: Esse artigo propõe-se a analisar e refletir sobre as potencialidades do uso da plataforma


digital padlet para o ensino da história como instrumento de debates e discussão histórica entre
os estudantes dos anos finais do ensino fundamental, especialmente nesse momento que o ensino
remoto tem sido uma realidade em muitos locais do Brasil. Dessa forma, pretende-se discutir
as potencialidades e utilizações do padlet, diversificando as atividades e enriquecendo as aulas,
buscar a participação ativa dos alunos tanto em sala de aula quanto fora dela, além de incentivar
seu posicionamento e pensamento crítico. Nesse sentido, primeiramente pretende-se explorar a
funcionalidade da plataforma, como pode ser estruturada e assim incrementar a participação dos
alunos nas aulas, mesmo remota. Em seguida analisar bibliografia especializada a respeito do uso
do padlet como ferramenta educacional, suas vantagens e limitações levantadas pelos estudos,
para então realizar um relato de como tenho utilizado o padlet para motivar o engajamento dos

116
discentes e sua participação nas tarefas, procurando mantê-los envolvidos nos temas propostos.
O Padlet é uma ferramenta digital para construção de murais virtuais colaborativos, acessíveis
através do navegador de internet de computador ou aplicativo de celular. O acesso é gratuito,
embora com algumas limitações em quantidade de murais disponíveis. Além disso, está disponível
em língua portuguesa. Nos murais é possível deixar fixado fotos, vídeos, músicas ou textos que
já estão na internet ou próprios, seja do professor, seja dos estudantes. Permite que os alunos
expressem seus pensamentos sobre um tema norteador. Funciona como uma folha de papel
online, onde é possível colocar qualquer conteúdo referente ao tema proposto, interagir e realizar
comentários nas postagens.
Atualmente há uma gama de exemplos de como o padlet pode ser utilizado nos meios educacionais,
contudo é uma ferramenta que ainda carece de estudos científicos sobre sua aplicabilidade
efetiva como facilitador do processo de ensino e aprendizagem, especialmente para o ensino
fundamental. Pesquisas apontam como as principais vantagens dessa ferramenta sua interface
amigável, o que o torna intuitivo para ser utilizado, não requerendo grande conhecimento prévio,
sua gratuidade, além de não haver necessidade de criar uma conta no aplicativo para interagir. O
padlet concede uma interação entre os educandos e os educadores ao permitir seus comentários
e criações próprias, requisitos fundamentais para uma aprendizagem significativa assim como
incentiva a criatividade dos discentes ao explorar a internet na busca de maneiras de se expressar e
realizar as tarefas. Contudo requer acesso à internet de todos os envolvidos e alguns comentários
são somente cópia da internet.

Teatro e ensino de história – Relatos de uma experiência pedagógica


IAN LOPES DE JESUS (UESC)

Resumo: O Teatro possui uma íntima relação com o processo educacional (COURTNEY, 2001),
aparecendo com maior ou menor intensidade em determinados contextos esta linguagem se
manteve próxima às práticas educacionais e de escolorização desde pelo menos a antiguidade.
No entanto, a pesquisa e a difusão de metodologias para o uso desta ferramenta ainda são
bastante escassas no ensino de história. Assim, o objetivo deste trabalho é apresentar uma
experiência pedagógica realizada entre os meses de setembro e novembro de 2019 no
Colégio Estadual Moisés Bohana através da nossa atuação no projeto de Iniciação à Docência
“Revirando Séculos – Leituras do Tempo Presente” e no Programa Partiu Estágio. Na ocasião,
em conjunto com a Professora Márcia Lago e sob a orientação do professor Carlos Alberto
de Oliveira, foi realizada a adaptação da peça Teatral “As Vespas”, escrita por Aristófanes
(dramaturgo grego). A produção e execução da peça foi realizada pelos estudantes de todas
as turmas matutinas do 1ª do ensino médio da referida escola. O processo contou ainda
com o apoio e a colaboração de comerciantes, grupos e artistas da cidade de Ilhéus. A nossa
intenção foi desenvolver um trabalho com Teatro que aproximasse os/as estudantes dos
conteúdos relativos à Grécia Antiga e ao Teatro Grego (BERTHOLD, 2014) ao tempo em que
possibilitaríamos uma experiência de produção teatral em moldes próximos aos praticados
profissionalmente. O processo contou com fases distintas, a saber: 1 – Leitura, adaptação e
submissão da peça à Coordenação Pedagógica e aos/as demais professores/as da área; 2 –
Aulas expositivas com temáticas ligadas à Grécia Antiga e ao Teatro Grego; 3 – Formação dos
núcleos e equipes de produção da peça; 4 – Realização, concepção e pós-produção.
Os/as estudantes foram divididos em 05 grupos (Produção, Cenografia, Figurino/Maquiagem,

117
Som/Iluminação e Elenco), sendo que cada um deles contava com núcleos internos para
divisão de tarefas. Cada grupo participava de uma reunião semanal no turno vespertino e/
ou nos sábados, a exceção do elenco, que realizava três encontros semanais para a execução
de jogos, testes e ensaios (BOAL, 2008). Assim, o presente trabalho visa apresentar as
dinâmicas ocorridas durante o processo de produção da peça, com vistas a colaborar com o
desenvolvimento de novas metodologias ligadas para o uso do Teatro como ferramenta para
o ensino de História.

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SESSÃO 01: 21/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

Pessoas analfabetas no pós abolição


JUCIMAR CERQUEIRA DOS SANTOS (IFBA)

Resumo: Este trabalho analisa o analfabetismo no pós abolição a partir de medidas governamentais


e de sujeitos comuns, de maneiras distintas, para combater essa condição através de algumas
frentes educacionais, como a criação de de vagas em escolas agrícolas, escolas noturnas e escolas
para “vadios”. Sobre essas medidas de escolarização e os resultados do analfabetismo no Brasil e
na Bahia que discutiremos até que ponto os discurso políticos, reportagens jornalísticas, debates
em Assembleias legislativas e os textos literários no final do século XIX e início do século XX
foram medidas efetivas de redução e combate ao analfabetismo.

O Programa Nacional de Alimentação Escolar e a formação de merendeiras: uma revisão


necessária.
CRISTINA JESUS DOS SANTOS (PREFEITURA MUNICIPAL DE ITABUNA)

Resumo: O presente trabalho propõe discutir sobre o Programa Nacional de Alimentação Escolar
(PNAE) e seus limites para uma participação mais ampla e efetiva das merendeiras, no contexto
da educação no ambiente escolar. Tomando o PNAE como a política pública mais antiga no que
se refere à alimentação de escolares no Brasil, e também como parâmetro normativo para este
assunto, o programa denomina e trata a merendeira como um manipulador de alimentos. Embora
muitos estudos apontem a importância da merendeira como profissional da educação, que
contribui para a formação de hábitos alimentares, assim como reconhecem a alimentação escolar
ser um espaço permanente de aprendizado, o programa e suas diretrizes indica cursos de formação
inicial e continuada priorizando conteúdos marcadamente técnicos como, por exemplo, higiene
pessoal, manipulação higiênica dos alimentos, e as doenças transmitidas pelos alimentos. Estes
itens constam uma obrigatoriedade no “material orientativo para a formação de manipuladores
de alimentos que atuam na alimentação escolar”.
O objetivo pautado aqui é discutir a formação continuada proposta pelo PNAE e pensar olhares
outros para uma educação mais participativa que inclua as merendeiras, bem como as/os demais
profissionais da comunidade escolar. A importância deste trabalho reside em contribuir com
a fundamentação teórica de um curso de formação voltado para merendeiras da rede pública
municipal de educação de Itabuna, que possa criar um diálogo interseccional entre o trabalho
prático e pedagógico das merendeiras. Pretende-se abordar temas transversais a realidade
cotidiana das merendeiras nas escolas como negritude, pobreza, fome, educação, conversando
com o pensamento de autoras como Ângela Davis, Grada Kilomba, Bell Hooks, Lélia Gonzalés e
tantas outras/os que discutem as relações e interseccionalidades entre gênero, raça e educação.

Apenas o ventre-livre (?): Os limites impostos à lei 2.040/1871 pelo livro didático
CAMILA SÃO JOSÉ COELHO

Resumo: Essa comunicação tem por objetivo analisar o modo como o período emancipacionista é
abordado no Livro Didático de História do 8º ano, da Coleção Historiador, de autoria de Gilberto

120
Cotrim e Jaime Rodrigues. Considerando que a emancipação da mão-de-obra escravizada já
constava na pauta das discussões imperiais desde o início do século XIX (Parron, 2011; Schultz,
2008; AZAVEDO, 1987), busca-se aqui investigar o modo como o período emancipacionista, em
especial a Lei Rio Branco, promulgada em 28 de setembro de 1871 e conhecida como Lei do
Ventre Livre, foi retratada neste livro. Conhecida por libertar o filho das mulheres escravizadas
nascidos a partir da data da sua promulgação, a Lei do Ventre é muito mais abrangente e suscita
uma série de debates e questionamentos. Assim, parte-se do objetivo de identificar e refletir
sobre as representações deste processo no material selecionado, bem como analisar se o livro
didático atende ou não aos pressupostos para a aplicabilidade da Lei 10639/03 no que diz respeito
aos caminhos e sentidos para a conquista da liberdade. Para fundamentar esta reflexão, nos
amparamos em análises doa autores anteriormente referenciados, como também de Sidney
Chalhoub, Azoilda Loreto Trindade e Nilma Lino Gomes. Como bolsista vinculada ao Laboratório
de Estudos Africanos e do Espaço Atlântico (LEAFRO), da UNEB – Campus XIII, tenho investigado
as representações da África e da diáspora em livros didáticos do Ensino Fundamental II e foi no
âmbito desta experiência que esta comunicação foi elaborada.

Questões de cor: sentidos raciais no interior baiano


DIEGO LINO SILVA E SILVA (CAPES)

Resumo:  Os vetores semânticos que constituíram a gramática racial do interior da Bahia entre
os anos 1940 e 1960 compõem o pano de fundo da comunicação. Volto-me a trajetória do
Doutor Eduardo Fróes da Motta, médico, político, mestiço e um dos homens mais ricos de Feira
de Santana no período abordado. Diante o defeito da cor, a trajetória do doutor Eduardo se
tornou um importante lugar de observação das hierarquias raciais estipuladas pela sociedade do
período, bem como das táticas mobilizadas entre aqueles que transitaram entre os gradientes
de cor existentes. A comunicação discorre sobre os sentidos raciais compartilhados na sociedade
baiana dos anos 1940 e 1950 e como eles se materializavam na trajetória dos sujeitos não brancos
naquela sociedade. Para tanto, foram investigadas as cartas trocadas entre o doutor e seu pai,
Coronel Agostinho Fróes da Motta, além de algumas notícias de jornais que envolviam o sujeito
investigado. Dialogando com o conceito de racialização de Robert Milles (2004) e, também, com
os estereótipos do pensamento colonial propostos por Homi Bhabha (2013), a comunicação
debate as tensões e disputas em torno da trajetória dos sujeitos não brancos no interior da Bahia.
Entre as conclusões apresentadas, está a constituição de identidades não brancas continuamente
vulneráveis aos referentes de dominação raci(ali)stas e frequentemente marcadas pela negação
e flagelação identitária.

A Automutilação Proveniente do Racismo entre os Muros da Escola


ANTONIO CARLOS SANTOS DE JESUS (IME - ILHÉUS)

Resumo:  Este trabalho tem como objetivo fazer uma breve análise sobre “a automutilação
proveniente do racismo no contexto escolar” e sobre a forma como ela é fortemente difundida no
imaginário social. A automutilação se tornou um assunto de cunho social e preocupante quanto ao
crescimento no âmbito escolar. Esse trabalho é uma reflexão inicial da pesquisa “automutilação
em adolescentes e jovens negros no contexto escolar” que será realizada no Instituto Municipal de
Ensino Eusínio Lavigne – IME, escola pública de Ilhéus/BA, esse estudo foi proposto pelo autor e

121
aceito no mestrado de Educação e Relações Étnico-raciais - PPGER da Universidade Federal do Sul
da Bahia – UFSB. O convívio entre os jovens serve para trocarem entre si experiências dolorosas
sobre a automutilação. Nesse universo, há uma explosão de novos conceitos e os adolescentes
se encontram inesperadamente com grandes dúvidas ao buscarem seu direito de estudar e
trabalhar, de realizar seus sonhos e projetos de vida. Diante desse contexto, os jovens se acham
despreparados, inseguros e imaturos para assumirem o protagonismo de suas vidas diante da
sociedade em que vivem. Essas incertezas da juventude são maiores na população negra devido
aos entraves sociais. A escola sempre foi vista como uma entidade neutra que trata todos de
forma igualitária. Tal igualdade não se reflete sobre sua atual função social, o que contribui com
a disparidade na sua maioria. A educação tem o poder de disseminar o pensamento ideológico
de quem conduz a sociedade. Assim, o sistema educacional estará sempre a serventia da classe
que comanda a sociedade. Trabalhamos com a hipótese de que os dilemas sociais que levam os
jovens negros a praticarem a automutilação são consequência do racismo, esses jovens convivem
diariamente com diversos sintomas angustiador de saúde mental, principalmente nas circunstancias
dos adolescentes negros: desprezo, relacionamento angustiante com a discriminação racial, de
gênero ou elementos sociais e econômicos. Os jovens negros sofrem com seus monstros internos
e não sabem a quem recorrer já que a escola também é um local de verberação e essa posição
torna os atos de racismo pouco perceptíveis. As jovens negras periféricas sofrem o estigma por
usarem mega hair, box braids, o que serve como incentivo para autoestima, e isso é o suficiente
para encadear atos preconceituosos, essas situações não são vistas ou percebidas, e quando são
percebidas passam por invisíveis. É visível que a educação do século XXI, precisa de nova roupagem
voltada para os princípios de igualdade.

O olhar dos/as professores/as sobre as relações étnico-raciais na Escola


SUELI MELO SILVA (SECRETARIA ESTADUAL DE EDUCAÇÃO)

Resumo:  Procurando refletir sobre a Educação e as relações étnico raciais na escola pública
brasileira, esta pesquisa procura analisar a percepção dos/as professores/as sobre a educação para
as relações étnico-raciais no ambiente escolar. Para isso foi necessário dar voz ao corpo docente do
Colégio Estadual Camilo de Jesus Lima, situado em Vitória da Conquista-Bahia. A opção por essa
pesquisa tem como objetivo analisar a realidade estudada com base na minha vivência familiar e
profissional como professora e gestora e nas leituras de obras que retratam o cotidiano escolar
e as relações étnico raciais, entre elas as obras de autores como Petronilha Beatriz Gonçalves
(2002), Cidinha Silva(2014), Valter Roberto Silvério (2010), Julio Groppa (1998), Eliane Cavalleiro
(2000), Kabenguele Munanga (2000), Vera Candau (2003), Paulo Vinicius Baptista da Silva (2008)
Anete Abramowicz e Nilma Lino Gomes (2010), Karina Almeida Sousa (2010), entre outros. Para
tanto, a metodologia utilizada para a realização do trabalho consistiu, em um primeiro momento,
na aplicação de um questionário com o corpo docente dos turnos matutino e vespertino com o
objetivo de perceber o conhecimento e a prática dos professores com relação à Lei 10.639/03,
modificada pela Lei 11.645/08, que tornou obrigatório o ensino da História e Cultura Afro-
Brasileira e Indígena em todas as escolas, públicas e particulares, do Ensino Fundamental Médio.
Além da realização dos encontros utilizando a técnica do grupo focal com estudantes que se auto
declaram negro/a, foram feitas entrevistas com professores/as que atuam no Ensino Fundamental
e Médio e com a gestora da unidade de ensino, com o objetivo de fazer um contraponto entre as
falas dos(as) estudantes, dos representantes do corpo docente e da gestão escolar.

122
Com base nas respostas dos(as) docentes ao questionário e nas entrevistas acerca da temática da
História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena, constata-se que a apropriação das Leis 10.639/2003
e 11.645/2008 ainda não se consolidou para esses profissionais que atuam na Educação Básica
do colégio. Apesar de conheceram a legislação e afirmarem saber da importância da aplicação
na escola, demonstram desconhecimento acerca da concretização pedagógica dessas leis pela
unidade de ensino, que deixa as discussões para serem realizadas apenas no mês de novembro,
com a culminância do projeto denominado “Novembro Negro”, ficando, muitas vezes, apenas no
âmbito cultural, sem dar ênfase a uma discussão teórica mais aprofundada sobre o tema.

As memórias autobiográficas das fundadoras da AQH e a (re)construção do discurso de


aquilombamento
RENATO PASTI (CENTRO TERRITORIAL DE EDUCAÇÃO PROFISSIONAL CETEP DO EXTREMO
SUL)

Resumo: O presente trabalho tem por objetivo analisar como as memórias coletivas, presentes
nas narrativas autobiográficas das (os) fundadoras (es) da AQH (Associação Quilombola de
Helvécia), erigiram o discurso/ação de aquilombamento. O tema de pesquisa volta-se às memórias
narrativas e busca compreender como a família, a tradição, o trabalho, as redes de sociabilidade e a
identidade constituem maneiras de educação informal que têm contribuído para o protagonismo
das lutas pela certificação de Helvécia como comunidade remanescente quilombola. Nesse
caminho interpretativo as biografias são fundamentais, pois elas incorporam elementos do
contexto histórico, ou seja, marcas do processo político, econômico, social e identitário, além
dos modos de vida e resistência significativos para compreender a mobilização da comunidade
contra os danos causados pelo avanço da indústria de celulose. Metodologicamente, a pesquisa
está pautada em análises de fontes escritas e orais, a partir das quais procuramos perceber as
correspondências entre as biografias e o processo de aquilombamento. As memórias também têm
função pedagógica, portanto, (re)constroem vínculos afetivos, conferem significados coletivos a
ações aparentemente individuais, sensibilizam e fortalecem as lutas por direitos. Nesse sentido,
a escolha da criação de um site como produto pedagógico é duplamente proveitosa. Por um
lado, atende a demanda pelo fornecimento de material pedagógico para a utilização em espaços
educacionais formais, não-formais e informais, propiciando a valorização das identidades negras,
das lutas campesinas e das expressões culturais da história local. Por outro, cumpre o papel de
comunicação nas relações entre os moradores distrito de Helvécia e a Associação Quilombola
de Helvécia, tendo em vista a mobilização permanente baseada na reconstrução das identidades
coletivas dos aquilombados.

SESSÃO 03: 23/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

Escravidão e resistência no Recôncavo Baiano: a escravização ilegal da crioula Luciana e suas


duas “crias”
JACÓ DOS SANTOS SOUZA (PREFEITURA MUNICIPAL DA CACHOEIRA)

Resumo:  O Recôncavo baiano abrigou uma das mais duradouras e resistentes instituições

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escravistas do Império Brasileiro. Suas principais vilas, como Cachoeira, Santo Amaro e São
Francisco do Conde, importantes para a economia baiana colonial e imperial, congregou números
expressivos de cativos africanos e crioulos, empregados, sobretudo, na produção em larga
escala de cana de açúcar e fumo. Não raro, a população negra precisava empregar esforços para
conquistar e defender a precária liberdade diante dos interesses e desmandos senhoriais. A
condição de liberto ou livre, entre os africanos e crioulos, não assegurava viver em liberdade,
sem riscos ou incertezas da escravização e/ou reescravização. Ao contrário, o estigma da cor
marcava e servia como definidor de lugares sociais naquela sociedade oitocentista. A experiência
da liberdade e mobilidade era constantemente ameaçada ante os espectros da escravidão. O
caso da crioula Luciana e suas duas “crias”, Clementina e Maurícia, envolvidas num drama judicial
soa revelador dos interesses espúrios tramados por indivíduos estabelecidos na Freguesia de
Muritiba, Recôncavo baiano, que se assenhorearam delas, escravizando-as, a fim de obter ganhos
pecuniários. Esta comunicação tem como propósito refletir, a partir das histórias de Luciana e suas
filhas, experiências de escravizados e libertos na conquista e manutenção da precária liberdade.
Outrossim, a história de resistência das crioulas nos tribunais demonstra a corda bamba por onde
trilhavam pessoas negras livres, expostas à insegurança da escravização, apesar de viverem num
contexto crescente de ideias que pregavam o fim da escravidão.

Escravizadas vão a justiça: meios e possibilidades de alcance da liberdade na Vila de


Canavieiras
WEMIS PIRES SANTOS

Resumo:  Nas últimas décadas observamos um crescente número de produções de pesquisas


relacionadas à escravidão Oitocentistas, diversas pesquisas direcionam-se ao estudo de ações de
liberdades, bem como, de arranjos de famílias negras no Brasil, mas ainda notamos uma ausência
de pesquisas direcionadas para o Sul da Bahia. Diante desta ausência que se têm no Sul da Bahia,
propomos este trabalho, sendo o nosso locus Canavieiras do século XIX em sua segunda metade,
direcionada para o estudo de conflitos e disputas da liberdade no juizado municipal da Vila de
Canavieiras. De acordo com o estudioso da região Gonçalves (2014) durante a segunda metade
do século XIX, os tribunais de justiças tiveram um grande aumento de processos de liberdades
impetrados, isso devido a Lei 28 de setembro de 1871, a qual possibilitou aos escravizados
oportunidades de recorrerem à justiça para obterem liberdade. Recorremos a uma diversidade
de fontes para a realização desta pesquisa, entre elas Correspondências Judiciais trocadas entre
a Câmara Municipal de Canavieiras, o Censo Demográfico de 1872, Correspondências Judiciais
de Canavieiras, sendo que a primeira e última tipologia corresponde aos anos de 1850 a 1888.
Para a análise destas fontes utilizamos o método indiciário de Ginzburg, que permite que
historiador a investigação seja conduzida ou parta de pequenas pistas ou vestígios, tornando-se
um fio condutor da mesma. Também buscamos empregar o método onomástico, que possibilitou
conhecer história de algumas escravizadas, sendo que partimos pelo nome dos senhores destas.
Buscamos analisar as vivências tidas entre senhores e escravizados, bem como ter um panorama
das relações estabelecidas na Vila no período escravista. O ponto da pesquisa se constituem
principalmente nas ações de liberdades no juizado de órfão de Canavieiras, de acordo com Grinberg
(2010), as primeiras ações de liberdades impetradas nos juizados do Brasil era direcionadas nas
leis abolicionistas de 1831 e 1872, que são as pilares para a compreensão das disputas em torno
da liberdade de negros e negras no Brasil. Segundo Silva (2007), os escravizados era indivíduos

124
considerados como seres incapazes judicialmente, ou seja, estes não tinham condições jurídicas
de iniciar uma ação de liberdade, tornando-se necessários a presença de um indivíduo de condição
livre para dar início a impetração da ação, sendo realizada por meio um curador nomeado pelo
juiz. Deste modo, o estudo tem o objetivo de apontar os conflitos e relações entre senhores e
escravizadas na Vila de Canavieiras, sinalizando alguns elementos do cotidianos como a família
negra, bem como as disputas pelas alforrias onerosas, como forma de compreender um pouco
sobre o Sul da Bahia e os arranjos familiares durante a segunda metade do século XIX.

Histórias de vida e resistência de escravizados, libertos e livres no Sertão da Bahia (1871-


1910)
ANA PAULA CARVALHO TRABUCO CAMELIER (INSTITUTO FEDERAL DA BAHIA)

Resumo: A pesquisa em andamento na Universidade Federal da Bahia propõe estudar as estratégias


de luta pela sobrevivência e as trajetórias de vida de escravizados, libertos e as populações “livres
de cor”, na região que abrange a atual Irará (antiga Purificação dos Campos), Coração de Maria,
Pedrão, Ouriçangas e Inhambupe (Nordeste da Bahia). Um dos cernes da pesquisa é analisar
trajetórias desses sujeitos da história, suas formas de resistência, laços de solidariedade e trabalho
em parte do sertão baiano caracterizado pela pequena propriedade, policultura e existência de
comunidades quilombolas, possibilitando, dentre outras reflexões, análises sobre resistência,
repressão e diálogos entre escravizados, forros e homens “livres de cor”. Diante do contexto
de aumento das tensões raciais, da crise do sistema escravista e abolição, documentos como
os registros de casamentos, batismos, inventários, testamentos, listas de habitantes, alforrias,
registros de compra e venda de escravos, registros de terras e jornais possibilitam elucidar
histórias daqueles que não apenas buscaram por sobrevivência digna junto aos seus, mas que
também usaram alianças com personalidades de prestígio político local para o alcance de seus
objetivos, lutaram pela alforria, pela posse de uma pequena propriedade ou seguiram rumo a um
dos quilombos da região.

Notas de pesquisa sobre as sociedades abolicionistas da província da Bahia na década de


1880
RICARDO TADEU CAIRES SILVA (FACULDADE ESTADUAL DE EDUCAÇÃO CIÊNCIAS LETRAS DE
PARANAVAÍ)

Resumo:  Neste texto apresento uma visão geral e preliminar das principais sociedades
abolicionistas da província da Bahia na década de 1880. O recorte temporal se justifica pelo fato de
que é justamente a partir desse momento que a campanha abolicionista ganha um novo impulso,
com a criação de diversas associações que tinha por fito a promoção da libertação de cativos e a
defesa da abolição da escravidão. As fontes utilizadas na pesquisa são em sua maioria oriundas da
imprensa periódica baiana e nacional, a exemplo da Gazeta da Bahia e do Diário da Bahia. Por meio
da análise das notícias veiculadas nos jornais, busco traçar um perfil da composição social e étnica
de seus membros; apresentar suas filiações e interesses políticos; perceber como representavam
o escravo e a escravidão; e, por fim, procuro elencar e discutir as principais estratégias de atuação
na promoção da propaganda abolicionista e na libertação dos escravizados.

O projeto substitutivo n. 546 e os debates na Assembleia Legislativa Provincial da Bahia

125
(1886-1887): emancipação, trabalho e imigração
ELIAS LIMA PEREIRA (UNEB)

Resumo: O projeto substitutivo n. 546 elaborado pelo deputado Leovigildo do Ipyranga Amorim
Filgueiras, apresentado a assembleia legislativa provincial da Bahia no início de 1886, tem como
ponto central a criação de um sistema de imigração europeia com o intuito, ao menos no projeto,
de contribuir com o processo de substituição da força de trabalho escravizada pela assalariada.
No entanto, as discussões na assembleia provincial nos levam a perceber os objetivos ali
implícitos os quais podemos citar como preponderante o objetivo civilizador que esse projeto
carrega. A imigração proporcionaria um aperfeiçoamento da condição intelectual e afetiva da
província, fazendo com que a sociedade trilhasse os rumos do progresso e fomentando as teorias
de branqueamento racial já presentes no período. Neste âmbito, partindo de uma análise crítica
dos discursos proferidos pelos deputados sobre a substituição da mão de obra escravizada e os
interesses desses sujeitos em manter seus privilégios buscaremos contribuir no debate o sobre
pós-abolição percebendo a assembleia legislativa provincial como um campo de disputa entre os
“advogados” da agricultura, em constante crise, e da indústria, que buscava dar seus primeiros
passos, discutindo a partir de uma crítica interna aos documentos os caminhos explícitos e implícitos
propostos por esses agentes políticos no referente ao lugar do negro na sociedade, visto que a
imigração vem justificar por meio de uma “qualificação” do imigrante o restrito acesso dos negros
ao trabalho assalariado e a consequência desta exclusão é potencializada pelos defensores da
agricultura e seus privilégios que já buscam adequar escravidão, que só terá um fim institucional
em 1888, a um novo modelo que agora liga estritamente o negro a necessidade da terra para
sua sobrevivência, como aponta o contrato de locação de território do deputado Leão de Caldas
Britto em 1887.

A Cor como Principio Seletivo: Empregabilidade de Crianças Negras no Serviço Doméstico em


Salvador (1889-1918)
CINTIA GLORIA LIMA (UNEB)

Resumo: A presente pesquisa tem por finalidade analisar as experiências históricas de meninas
negras no período do pós-abolição em Salvador (Bahia), nos anos de 1888 a 1920, com enfoque
principal para a compreensão de aspectos relacionados à inserção destas menores mundo do
trabalho. A entrada de meninas negras no mercado de trabalho doméstico possui motivações
diversas. Essas razões estão relacionadas a orfandade, violência, infortúnios, migrações, doenças
e a existência de uma família em condições de precariedade. Semelhante aos anúncios de compra,
venda e aluguel de escravos veiculados na imprensa durante o sistema escravista, os jornais do
pós-abolição que circularam em Salvador entre 1889 e 1918 demonstram uma grande demanda
solicitações de trabalho correlacionando cor, gênero e idade com determinadas funções. Nestes
anúncios, também, percebe-se a grande demanda pela utilização de mão de obra infantil nos
serviços domésticos na capital baiana. Como procedimento de pesquisa analisamos os anúncios
presentes seguintes jornais da imprensa baiana: A Notícia, Correio do Brasil, Diário de Notícias,
Cidade de Salvador, Gazeta de Notícias, Jornal de Notícias e O Imparcial. Adota-se aqui a perspectiva
teórica dos estudos da história social, tendo como norteadoras as reflexões de Nicolau Sevcenko
(2003), Sidney Chalhoub (1998) e Petrônio Domingues (2011). Essa pesquisa justifica-se pela sua
contribuição com o preenchimento da lacuna existente acerca da história das mulheres negras

126
no Brasil, tornando-se pertinente para a historiografia brasileira e baiana por proporcionar a
discussão sobre trabalho infantil, gênero, raça e classe. Em síntese, a documentação trabalhada
permitiu evidenciar as estratégias de enfrentamento das mulheres negras em seus diferentes
contextos.

Experiências de masculinidades entre trabalhadores no pós-abolição a partir do Recôncavo


baiano (1890-1920).
ALANNA DA SILVA DE FREITAS

Resumo: O trabalho que ora pretendemos comunicar diz respeito a um projeto de pesquisa inicial
com o qual fomos aprovados em um programa de pós-graduação. Pretendemos nesta comunicação
apresentar as principais hipóteses, alguns dos objetivos da pesquisa, bem como o quadro teórico-
metodológico, afim de suscitar debates e contribuições para nosso estudo investigativo.
Tomamos como recorte espacial a região do Recôncavo Baiano, que compunha a hinterlândia
da qual Salvador dependeu durante todo o período colonial e que possibilitou à Bahia tornar-
se, sobretudo na maior parte do XVIII – auge da produtividade dos seus engenhos de açúcar
– a segunda região açucareira mais importante da Colônia. A partir dessa região, marcada por
um passado escravista e memória social da presença negra e africana que dão o tom de sua
paisagem sociocultural, teceremos um estudo sobre os significados das masculinidades para os
homens de camadas populares no imediato pós-abolição, entre os anos de 1889 à 1920. Mais
precisamente, nosso estudo cetra-se na cidade de Santo Amaro que, ao lado de São Francisco
e outras paróquias, foi nas palavras de Schwartz o “coração do Recôncavo açucareiro e o berço
da sociedade dos engenhos” (SCHWARTZ, 1988, pp. 90), entre os séculos XVIII e parte do XIX.
As experiências de homens negros e mestiços dos setores populares são analisadas a partir do
cruzamento das categorias de gênero, raça e classe, para uma compreensão as interações sociais e
sentidos de masculinidades para estes. Delimitamos como baliza temporal 1889 a 1920 , partindo
do pressuposto de que as experiências e ações dos trabalhadores negros e mestiços atravessaram
o moldar das sociedades que se formavam naquele momento (MATTOS, 2004). O pós-abolição,
período de grandes transformações e efervescência político-social, além de um privilegiado recorte
para se pensar as relações raciais, mediante as expectativas de inserção social para os homens
recém egressos da escravidão, constitui-se enquanto um importante problema historiográfico.
Dilemas e disputas entorno do reconhecimento de sua cidadania (GOMES, 2007), dos seus projetos
de liberdade e enfrentamentos em uma sociedade extremamente racializada (FILHO, 2006;
ALBUQUERQUE, 2004) estiveram colocados para esses homens, que ao reinventarem formas
de trabalho, sociabilidades, lazer, também recriavam formas de masculinidades. Os embates e
processos históricos que se desenvolveram nesse período ganham sentido mais completo se
levarmos em conta a sua dimensão generificada também. Entendemos, portanto, as construções
de masculinidades como um lugar de conflito e de disputas, capaz de revelar aspectos novos desse
momento, onde projetos distintos de nação, de ideia de trabalho livre, estiveram em constantes
gestação e tensão.

Entre a bruxaria e a feitiçaria: O catimbó no pós-abolição do Recife (1900-1920).


ANDERSON ANTONIO DE SANTANA JUSTINO

Resumo: Pensar o pós-abolição brasileiro é refletir também acerca das manifestações culturais

127
empreendidas pelas pessoas negras nesse período. Partindo do entendimento de que o pós-1888
não significou uma condição de igualdade, muitos dos praticantes das religiões afro-indígenas
continuaram sofrendo repressões sociais após a abolição da escravidão. Apesar da Constituição
da República (1891) assegurar a liberdade de culto, na prática, os sujeitos continuavam sendo
reprimidos. Isso ocorreu, quase sempre, com base no Código Penal (1890) vigente da época.
Vistos por um segmento da sociedade como: feiticeiros, bruxos, charlatões, mágicos e etc. Essas
pessoas foram, muitas vezes, impossibilitadas da sua liberdade religiosa. No tocante ao catimbó,
essa retaliação pode ser observada a partir dos jornais que circularam no Recife nesse momento,
tais como: Diario de Pernambuco, A Província, Jornal do Recife, entre outras fontes. Além dessas,
os trabalhos dos autores CAMPOS (2001), Sweet (2007), BASTIDE (1985), SCHWARCZ (1993),
Chalhoub (2007), RIBEIRO (1952), entre outros, nos ajudaram nessa pesquisa. Procuramos
compreender a partir dessas análises como essas práticas culturais interagiram no espaço social
recifense, entendendo que, em alguns casos, esse contato contribuiu para a desconstrução dos
discursos negativos acerca do catimbó.

128
SESSÃO 01: 21/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

A afetividade no Ensino de História: apontamentos no Ensino Fundamental de uma escola


pública.
KELMAN CONCEIÇÃO DA SILVA (UNEB)

Resumo:  Este texto tem por objetivo apresentar apontamentos e análises iniciais sobre a
afetividade no Ensino de História no Ensino Fundamental nas turmas do 6º e 7º ano da Escola
Estadual Ernestina Carneiro. As observações das atividades e relações estabelecidas por mim
com meus alunos e alunas na minha prática na escola citada entre os anos de 2016 e 2019,
como regente da disciplina História em 12 turmas do 6º ano e 5 turmas do 7º ano do Ensino
Fundamental. As palavras que eu disse pela primeira vez em cada turma, a maneira dos alunos e
alunos se comportarem em sala de aula, diminuição das ausências nas aulas de História, melhor
compreensão de conceitos, mais autonomia na elaboração de fichamentos em seus cadernos,
respostas mais elaboradas em atividades, aumento da participação oral durante aulas de História,
são alguns indícios que sinalizaram que Educação e afeto caminham juntos.
Relatos dos alunos e alunas ao longo desses anos dizendo que eu ouvia o que eles diziam, falava
que a letra deles e delas estava boa, que eu queria a resposta do “juízo” deles e não do livro
me apontaram que eles se sentiram estimados positivamente pela forma como as relações e
as atividades foram desenvolvidas durante as minhas aulas de História com base no afeto. Ao
me referir ao afeto em sala de aula desejo discutir o conceito de maneira mais ampla. Tratar a
afetividade além de abraços e beijos, embora eles ocorram e sejam muito bem-vindos, mas de
variadas formas usei, e não as esgotei, de construir as relações e desenvolver diferentes atividades
com os alunos das séries iniciais do Ensino Fundamental. Pude perceber que o afeto em minhas
salas de aulas, nem sempre no ambiente escolar como um todo, foi relevante para proporcionar a
boa parte dos alunos e alunas um local onde eles queriam estar, contar sobre o filme que viram e
que tratava do tema de aula, contar que ensinou algo que seu pai não sabia. Não eram as turmas
mais quietas, nem silenciosas, mas por algumas razões, entre elas as relações de afeto que
construímos, fizeram ser turmas sempre cheias.
A partir dessas observações e inquietações iniciais, almejo trazer para o debate a importância da
afetividade do Ensino de História do 6º e 7º ano do Ensino História, buscando compreender de quais
maneiras o afeto pode contribuir para o ensino-aprendizagem, maior aproximação e interesse
pelos temas da História, tornar a escola um local mais acolhedor e construir uma educação que
realmente valorize as diferenças.

Escrevivências: ensino de história e narrativas autobiográficas na educação de jovens e


adultos
SAOARA BARBOSA COSTA SOTERO (SESI)

Resumo: Este trabalho é um recorte da pesquisa em andamento da dissertação de mestrado no


programa do ProfHistória da UNEB. Neste trabalho parto da compreensão que um dos objetivos
do ensino de História na Educação de Jovens e Adultos é que estas pessoas se autorreconheçam
enquanto sujeitos históricos, que transforma e é transformado pelos seus contextos, em uma
relação simbiótica de trocas e construções com as pessoas e o meio em que vivem. Na busca pelo

130
entendimento de como estes/as estudantes se reconhecem no mundo, estou trabalhando com
narrativas autobiográficas recolhidas no processo de diagnóstico para o ingresso no ensino médio
na EJA do SESI Retiro em Salvador- Bahia. Neste diagnóstico, chamado de Reconhecimento de
Saberes, os/a estudantes constroem um e-portfólio pessoal contando suas trajetórias desde a
infância, passando pelo presente e suas aspirações para o futuro, registrando, nestas passagens
suas experiências profissionais, sociais e as experiências de educação formal que tiveram. O
objetivo final do Reconhecimento de saberes é a construção de um plano pessoal de estudos
específico para cada estudante de acordo com a sua necessidade de construção de conhecimento.
Esta pesquisa vem se desenvolvendo a partir de uma abordagem qualitativa fenomenológica,
portanto não faz análises das narrativas, mas percebe como os sujeitos vivem os fenômenos e estes
se manifestam em sua consciência e como isto se traduz nas formas que utilizam para representar
a própria realidade, assim as histórias autobiográficas contadas pelos estudantes da EJA nos darão
outras percepções sobre o território geográfico, o tempo, as transformações sociais, os impactos
das ações humanas etc ao mesmo tempo em que desenvolvem o saber histórico, se apropriando
dos próprios saberes e da importância deles para o mundo

Entrelaçando saberes, reconstruindo práticas: o ensino de História Indígena na Educação


Básica
AUGUSTO CÉSAR DE ARAÚJO (SEC-BAHIA)

Resumo: Apresento algumas reflexões sobre o ensino de História Indígena na Educação Básica, a


partir de uma experiência pedagógica, realizada com turmas do 7º ano, no Colégio Estadual Uyara
Portugal, localizado na cidade de Feira de Santana, Bahia. Discuto o processo de reconstrução
das aulas de História, movido pela necessidade e desejo de visibilizar outras narrativas da história
dos povos indígenas no Brasil e contribuir para o “desenvolvimento” da consciência histórica
crítico-genética dos estudantes. Nesse sentido, recorri ao uso de fontes, problematizei o livro
didático e selecionei conceitos e conteúdos que possibilitassem a construção das aulas numa
perspectiva dialógica, intercultural e em consonância com a Lei nº 11.645/2008. Autores(as) como
John Monteiro (1994), Manuela Cunha (1992), Maria Paraiso (2016) , Jorn Rusen (2006), Circe
Bittencourt (2004), Maria Schmidt (2016), Luiz Cerri (2012), Vera Candau (2012), Francisco Cancela
(2016) entre outros(as) me ajudam na reflexão.

Do conteúdo aos discurso: a aula de História como discurso articulador de práticas enunciativas
ALEXANDRE BARTILOTTI MACHADO

Resumo: Pretende-se, neste trabalho, analisar em que medida o ensino – e, mais especificamente,


o ensino de História – pode ser tratado enquanto fenômeno discursivo, para, depois, em caso
afirmativo, verificarmos as especificidades de tal discurso. Para isso, nos utilizamos da tese de
Penna, Ensino de História: uma operação historiográfica escolar (2013), averiguando o que o autor
traz de novo na discussão sobre transposição didática, historiografia e operações historiográficas.
Após tudo isso feito, travamos uma discussão baseada no círculo de Bakhtin, sobretudo em
Volóchinov (2017), autor de Marxismo e Filosofia da Linguagem, e Medviédev (2010), autor de O
Método Formal nos Estudos Literários, a fim de sustentarmos algumas questões que podem ser
acrescentadas às considerações de Penna no que tange à apreensão da aula enquanto fenômeno
discursivo.

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A Educação Científica no Ensino de História: desafios e inovações didático – metodológicas
HOMERO GOMES DE ANDRADE (IFBA)

Resumo: O presente trabalho é fruto das pesquisas, estudos e reflexões da tese em desenvolvimento
no Doutorado Multi-institucional e Multidisciplinar em Difusão do Conhecimento (UFBA/UNEB/
IFBA/UEFS/Senai-Cimatec/LNCC) e trata da difusão da educação científica como uma abordagem
interdisciplinar, integradora e crítica, aplicada ao ensino de história. Nosso objetivo principal
consiste em destacar as contribuições da educação científica no ensino de história, tendo como
lócus de pesquisa o ensino médio integrado do IFBA – Campus Seabra, enfatizando como essas
práticas de ensino se configuram como fomentadoras de pensamento autônomo, ético e crítico
para os estudantes. Além disso, buscamos compreender como tais práticas são desafiadoras para a
sua implementação dentro do conteúdo programático da disciplina, e como podem ser inovadoras
do ponto de vista didático e metodológico por promoverem o pensamento multirreferencial de
disciplinas e conteúdos dentro da disciplina de história. Para tanto, a metodologia utilizada tem
como referência o estudo de caso aliado a metodologias da pesquisa social qualitativa. Como
resultados obtidos tivemos a formação de curso de extensão relativo à educação científica, a
proposição de ações com vistas a inovação metodológica para as aulas de história, bem como nos
processos avaliativos da disciplina.

SESSÃO 02: 22/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

Assim Caminha a Humanidade: A “Pré-História” no Livro Didático e a Crítica Atualizada sobre


Paleo-História e Paleoantropologia
SAVIO QUEIROZ LIMA (UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA)

Resumo: O trabalho proposto dedica atenção às representações discursivas sobre o paleolítico e o


neolítico exposto em livros didáticos, em processo histórico brasileiro e vigente, e as problemáticas
em seus discursos e representações visuais. A pesquisa é fruto da experiência docente na disciplina
História da Cultura 1 (FCH-177), da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Departamento
de História) da Universidade Federal da Bahia. A disciplina, correspondente aos estudos de
Paleoantropologia e Paleo-História, baseou o debate introdutório sobre as imagens e saberes
comumente discursados sobre o período ainda alcunhado “Pré-História”, através da produção
científica e intelectual em contraste com as perpetuações de imagens equivocadas sobre o período
em livros didáticos. Constitui-se, portanto, um relato de experiência de prática de ensino para a
crítica às imprecisas inferências no ensino de História sobre arqueologia histórica, com ênfase nas
periodizações do paleolítico e neolítico, em livros didáticos. O exercício consistiu na abordagem
crítica do material didático, seus argumentos e representações, inclusive imagéticas, em tópicos
referentes ao período ágrafo do passado longevo humano. Durante o semestre letivo, diversos
elementos foram devidamente debatidos e criticados, aproximando-se de estudos sobre uso de
imagens, Representações, Imaginários Sociais e Estudos de Gênero, enriquecendo o debate da
Arqueologia Histórica para o trato pedagógico sobre o período e uma possível renovação temática
ao ensino. A prática de ensino proposta, no preparo de discentes habilitados ao ensino sobre
Paleo-História, efetuou-se com debate oral em sala, no primeiro semestre de 2019, no semestre

132
seguinte, além do debate, a produção de fichamentos críticos sobre o material didático pesquisado
por cada discente. A proposta da pesquisa é renovar os saberes e propor caminhos mais eficientes
no tratamento do período ágrafo humano e sua importância para o ensino de História.

Livro didático de história na sala de aula: como construir o conhecimento histórico-escolar?


AIRTON FERNANDES DE MATOS FILHO (SECRETARIA DA EDUCAÇÃO DO ESTADO DA BAHIA)

Resumo:  Pretendo informar minha intenção de pesquisa a ser desenvolvida no Programa de


Mestrado em Ensino de História – PROFHISTÓRIA/UNEB. Parto da minha prática docente enquanto
professor do Ensino Fundamental da Educação Básica de uma escola pública em Salvador – Bahia.
A aula expositiva, com uso do piloto e quadro branco predominou como uma das minhas principais
práticas docentes. Certo dia, não havia piloto para prosseguir com minha aula. Percebi, nesse
momento, que estava com um problema: diante da falta do material para prosseguir, o que fazer
durante a aula?
A partir desse desafio, propus aos estudantes que fizéssemos um trabalho com a leitura do livro
didático em sala de aula. Observei que o único material disponível eram os livros didáticos que
os estudantes levavam para a sala. Pedi aos discentes do 6º ano que realizassem uma leitura
em voz alta. A medida que a leitura era feita, explicava o texto. O conteúdo era Grécia Antiga,
especificamente uma parte que abordava o “legado dos gregos” para a civilização ocidental e
apontava Hipócrates como o pai da medicina. Foi quando, questionei se eles sabiam o significado
da palavra e uma aluna confundiu o nome próprio com o adjetivo hipócrita. Então, expliquei
a diferença entre o substantivo próprio que designa um ser, no caso, Hipócrates, e o adjetivo
hipócrita, que qualifica um substantivo. Observei que os alunos, mesmo sabendo ler (decifrar
os códigos e sinais gráficos) apresentam dificuldades em desenvolver o “letramento histórico”.
Pensar historicamente é fundamental para o ensino de história e possível de ocorrer com o
indivíduo que tem domínio sobre o saber histórico escolar. Mas como é possível desenvolver essa
consciência histórica através da leitura do livro didático? Que questões estão em jogo na relação
conteúdos histórico e letramento histórico? Essas são algumas questões que pretendo refletir
nessa intenção de pesquisa: interessa investigar como a leitura do livro didático pode possibilitar
o letramento histórico.

SESSÃO 03: 23/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

O uso da literatura no ensino de história


Juliana Batista da Silva

Resumo:  A literatura se tornou um tipo especial de fonte pois é narrada pelo autor ou autora
a partir de vivências tornando-se uma ótima ferramenta para trabalhar o ensino de história.
Contudo, nosso objetivo é trazer alguns aspectos do ensino de história, através do uso da literatura,
utilizando algumas obras dos autores escolhidos para ensinar sobre alguns períodos históricos
vivenciados por eles, abordando os temas de gênero e raça como transversais. Neste resumo
iremos tratar do uso de alguns contos de Lima Barreto e da sua biografia. Iremos desenvolver
esse projeto na escola Municipal Almerindo Alves em Eunápolis na Bahia, localizada numa região

133
periférica da cidade, por isso a maioria dos alunos são pessoas desfavorecidas economicamente
e talvez alguns dos questionamentos, descobertas e situações se assemelhem com as que alguns
autores escolhidos vivenciaram em suas épocas, são alunos do 9° ano no componente de história.
Foram feitas algumas leituras para que pudéssemos através dessas demarcar os nossos sujeitos
e adquirir conhecimento sobre ensino de história, bem como sobre os personagens escolhidos.
Um desses trabalhos foi a dissertação de Carla de Moura intitulada Marias da Conceição, por
trabalhar com gênero e o seu público também era uma comunidade periférica e negra. Assim
como também foi feita a leitura da biografia de Lima Barreto escrita por Lília Schwarcz. O projeto
foi iniciado em outubro de 2019, com a finalidade de ensinar a história a partir da trajetória de
vida, atuação política e a produção literária de autores negros e negras, no período do Brasil
República. Neste resumo nos debruçaremos sobre a República Velha. Pesquisamos e separamos
as fontes históricas e um dos autores biografados foi Lima Barreto, escritor e jornalista brasileiro,
com grandes atuações na primeira República. Além de fazermos uma biografia para ser utilizada
na sala de aula também trabalharemos com os contos: O pecado e O filho de Gabriela, as crônicas:
Problema vital; A derrubada; Feminismo e o voto feminino e Uma nota, juntamente a esses contos
inserimos o diário íntimo. Alguns dos temas possíveis de serem tratados será a revolta da vacina,
a (re)existência dos negros, a educação como ato de liberdade e como era alguns posicionamento
das mulheres durante a República Velha. Ressaltamos que o projeto ainda não foi concluído.

O ensino de história através de biografias de personagens negras


MÁRCIO DOS SANTOS CARVALHO

Resumo: O presente projeto tem como finalidade o aprendizado de história em uma escola, pautado
em produções intelectuais e biográficas de personagens negras durante o Brasil republicano.
Buscamos como referências algumas dissertações no campo do ensino de história como a intitulada
de As Marias da Conceição de Carla de Moura, que aponta a importância da produção e ensino de
história negra. Para pensar Gênero e raça, bem como uma educação mais transgressora utilizamos
a Bell Hooks que discute classe, gênero, raça e educação. Hooks classificou alguns quesitos para
despertar o entusiasmos dos alunos, um deles é valorizar o a experiência de vida dos alunos nas
aulas.
O projeto é voltando para o 9º ano do ensino fundamental, para ser aplicado na disciplina de
história, na Escola Municipal Almerindo Alves Dos Santos ,situada na cidade de Eunápolis, Bahia. A
personagem escolhida nesse resumo é Laudelina de Campo Melo. E, para construir uma biografia
para ser usada como recurso didático utilizamos a dissertação de Elisabete A. Pintor que narra a
trajetória da personagem citada. Também escolhemos alguns recortes da entrevista de Laudelina,
cordel, vídeos e recortes de jornais. Assim esperamos aproximar a personagem dos alunos e sabemos
que as fontes históricas contribuem para o ensino de história, possibilitando que os alunos possam
ler a história. Conforme mencionado a personagem que trataremos nesse resumo é Laudelina Melo,
e ela foi escolhida para tratarmos da Era Vargas, com o foco nas lutas trabalhistas das empregadas
domésticas. A trajetória de Laudelina evidencia a luta trabalhista e contra o preconceito racial.
Acreditamos que essa mulher negra aproximará a história do cotidiano dos alunos, pois muitos são
filhos de empregadas domésticas negras. Através dela traremos uma protagonista negra para o
ensino de história. Contudo o projeto está em andamento, e biografia está concluída, e as fontes
(jornais, contos, crônicas, literatura, fotos, entrevista e biografia ) já foram reunidas para a elaboração
das aulas.

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Povos Indígenas e a Guerra de Imagens no Ensino de História: relato de experiências de
pesquisas e produção de bricolagens didáticas.
FRANCISCO ALFREDO MORAIS GUIMARÃES (UNEB)

Resumo:  Este trabalho se situa no contexto da pesquisa “História Indígena, Iconografia e


Bricolagens Didáticas”, desenvolvida no período de 20010 a 2019, com apoio da Capes. Analisa a
produção de bricolagens enquanto dispositivo didático no ensino da temática história e cultura
indígena, destacando a importância da formação de uma cultura visual no ensino de História,
considerando a necessidade de questionamento e superação da perspectiva positivista no uso
da iconografia indígena em livros didáticos de História. Parte das contribuições dos projetos
“Recontando a História do Índio no Brasil” e “Vivência de Etnohistória indígena”, desenvolvidos na
década de 1990, vistos como ações pioneiras na Bahia em relação à pesquisa, formação continuada
de professores e a produção de materiais e dispositivos didáticos sobre o tratamento da temática
história e cultura indígena. Assinala ainda os impactos do projeto junto a estudantes e professores
indígenas e não indígenas na Bahia, bem como em uma escola secundária portuguesa, na oficina
“Iconografia Colagens e Descolonização: recontando a história dos povos indígenas do Brasil em
livros didáticos de História de Portugal”, desenvolvida no âmbito do Estágio Doutoral, realizado
no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, em 2013.

A literatura de cordel no ensino de História: experiências na “Semana da Consciência Negra”


em uma escola pública de Belém do Pará
GERALDO MAGELLA DE MENEZES NETO (SEMEC-BELÉM/SEDUC-PA/UFPA)

Resumo:  A literatura de cordel, poesia em formato de versos rimados, surgiu no Nordeste no


final do século XIX, criada pelo poeta paraibano Leandro Gomes de Barros tendo como suporte os
folhetos. Os folhetos de cordel foram ao longo do século XX um importante meio de informação
e lazer das camadas populares, além de ser um instrumento de alfabetização. Hoje, esta
literatura é objeto de estudo de várias áreas e vista como recurso didático com grande potencial
pedagógico nas disciplinas escolares, a exemplo da História, por conta de sua linguagem acessível
e de abordar variados temas. Nesse sentido, o objetivo do presente trabalho é apresentar um
relato de experiência dos usos da literatura de cordel nas aulas de História na Escola Estadual
Ruth Passarinho, em Belém do Pará. Em novembro de 2019, durante os eventos da “Semana da
Consciência Negra”, promovemos com os alunos do 7º ano do ensino fundamental atividades
voltadas para pôr em prática as determinações da lei 10639/03, sobre a história e cultura afro-
brasileira, a partir do livro Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis, da cordelista e escritora
cearense Jarid Arraes. Utilizando versos biográficos sobre Aqualtune, Dandara dos Palmares, Eva
Maria de Bonsucesso e Tereza de Benguela, analisamos a trajetória das mulheres negras na história
do Brasil, destacando suas lutas em suas épocas. Dentre as atividades realizadas estão a produção
de cartazes e a realização de uma peça sobre a vida de Eva Maria de Bonsucesso. Entendemos
que a literatura de cordel produzida por Jarid Arraes, caracterizada pela sua militância em prol
do feminismo negro, é um recurso didático que pode auxiliar nas discussões de questões como o
racismo e gênero, contribuindo para dar visibilidade às mulheres negras, algo necessário contra
uma história predominantemente eurocêntrica e masculina. Os autores que nos embasamos
teoricamente são, dentre outros: no campo do ensino de História: Circe Bittencourt, Jaime Pinsky
e Carla Pinsky; sobre a literatura de cordel e suas potencialidades para o ensino: Ruth Terra, Márcia

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Abreu, Arievaldo Viana, Ana Marinho e Hélder Pinheiro, Franciane Lacerda e Geraldo Menezes
Neto; a lei 10639/03 e a história e cultura afro-brasileira: Nilma Lino Gomes, Kabengele Munanga,
Maria Telvira da Conceição; a questão de gênero no ensino de História: Carla Pinsky.

“Entre Marias e Joões, muitas representações: a construção das masculinidades e feminilidades


nas revistas femininas nas décadas de 1940, 1950 e 1960”
ANNA CAROLINA TOREZANI RONDA GIANLUPPI (PREFEITURA MUNICIPAL DE PEJUÇARA)

Resumo: Neste projeto para a dissertação do Mestrado, serão analisadas as representações


femininas e masculinas, ao longo das décadas de 40, 50 e 60, nas revistas voltadas para o público
feminino: O Cruzeiro, Jornal das Moças, Grande Hotel e Capricho como fontes influenciadoras de
comportamentos. A análise será feita a partir das representações sociais de gênero presentes nos
periódicos. O objetivo do projeto é trabalhar, na sala de aula, como o papel da Mulher e do Homem
foram construídos ao longo do tempo, com rupturas e permanências; identificando também nas
revistas, o movimento feminista, que influenciaria o comportamento feminino e masculino; a
discussão também passa pela presença feminina nos ambientes público e privado; mercado de
trabalho; maternidade e padrão de feminilidade. O trabalho estará pautado nas discussões das
autoras como Joan Scott, Simone de Beauvoir, Margareth Rago, Maria Izilda Matos, Joana Maria
Pedro, Carla Pinsk, entre outros autores. O que pôde ser observado, até o presente momento,
é que as revistas dividiam suas seções em colunas voltadas para as mulheres mais jovens, em
que davam dicas de comportamento, moda e relacionamentos. E colunas voltadas às mulheres
casadas, que ensinavam como deveriam cuidar de seus filhos, como entreter o marido e como
lidar com o comportamento masculino. O principal objetivo do trabalho é fazer com que as/os
alunas(os) compreendam que determinados comportamentos, hoje naturalizados, foram criados
e reafirmados ao longo do tempo, e que permanecem presentes em nossa sociedade. E que tais
comportamentos estão, portanto, entre os geradores de vários problemas enfrentados em nossa
atual realidade. E cabe a eles e elas, romperem com as amarras, do que é ser Homem e ser Mulher
no século XXI.

O ensino de História em perspectiva: percepções docentes acerca das mídias cinemáticas em


sala de aula
LUIZ PAULO DA SILVA SOARES (ESCOLA ESTADUAL DE ENSINO MÉDIO DR. AUGUSTO DUPRAT)

Resumo:  O presente trabalho tem por objetivo apresentar algumas notas referentes aos
resultados da investigação desenvolvida no Mestrado em Educação da Universidade Federal do
Rio Grande – FURG (2015-2017) titulada: Cartografando Experiências no Ensino de História: A
Mídia Cinemática como Fonte Educativa em Sala de Aula. Na mesma, buscou-se compreender quais
foram as concepções sobre as mídias cinemáticas e seu papel no ensino que foram percebidas
nos trabalhos realizados por professores no ensino de História na cidade do Rio Grande/RS. Para
tanto, utilizamos como empiria questionários semiestruturados e respondidos por 26 professores
da rede básica de ensino público e entrevistas com cinco desse grupo de professores pesquisados.
A metodologia utilizada para desenvolver a investigação foi de cunho quanti-qualitativo, cujos
dados obtidos são descritos como significativos, densos e de uma riqueza de informações.
Para realizar o desenvolvimento da investigação optamos pelo método de análise de conteúdo
proposto por Laurence Bardin (2012). Esse método, segundo a autora, tem por intuito a descrição,

136
inferência e interpretação dos materiais coletados e catalogados e consiste num conjunto de
técnicas e instrumentos metodológicos capazes de efetuar a exploração objetiva de dados,
informações e/ou narrativas, destacando-os das diversas categorias de documentos. A análise
de conteúdo foi utilizada nos dois instrumentos utilizados para coletar os dados empíricos: os
questionários semiestruturados e as entrevistas orais. E os resultados encontrados durante o
percurso investigativo revelaram a compreensão de uma mídia cinemática que se configurou como
uma fonte histórica e, como tal, capaz de desenvolver os conteúdos de História, bem como o seu
caráter educativo gerador de habilidades cognitivas, bem como, análise, interpretação, reflexão,
além de proporcionar a ampliação dos sentidos estéticos dos estudantes. A fundamentação
teórica sobre a utilização das mídias cinemáticas no ensino de História está ancorada nos autores:
Carmo (2003), Duarte (2002), Guimarães (2013). Esses autores expõem que a utilização das mídias
cinemáticas no ensino potencializa a aprendizagem. Carmo (2003, p. 72) afirma ainda que o
cinema “pode fazer o aluno se interessar pelo conhecimento, pela pesquisa, pelo modo mais vivo
e interessante que o ensino tradicional, apoiado em aulas expositivas e seminários”. Desta forma,
o cinema é um importante mobilizador de aprendizagens, propicia a reflexão, a curiosidade e a
criticidade dos estudantes. Ratifica-se, portanto, que a mídia cinemática na sala de aula é mais do
que uma ferramenta didática, pois envolve questões subjetivas, históricas, políticas que exigem
que o professor a conheça bem.

137
SESSÃO 01: 21/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

Angústias e prazeres de um parto: bastidores do estágio supervisionado


ANTONIO VILAS BOAS (UNEB)

Resumo: Eis que o dia tão esperado chegou! Depois de acompanhar aulas de alguns professores da
educação básica, (SANTA ROSA; LIMA, 2019, p. 4) visitar inúmeras escolas, participar de encontros,
como aqueles em que acontecem as atividades complementares, por exemplo, ver e rever
anotações nos rascunhos dos planos de aulas, elaborar sequências didáticas, o agora estagiário
se vê diante do momento de “tornar-se professor”. À constatação, segue-se um misto de prazer,
afinal este momento simboliza, também, mais uma etapa vencida na carreira do acadêmico e o
anunciar do quase término das idas e vindas à faculdade durante quatros seguidos anos, atividade
extremamente cansativa e onerosa para muitos. Mas, o Estágio Supervisionado se constitui,
também, em ansiedade, preocupação e por que não dizer, angústia diante de uma realidade
que demonstra as contradições entre o escrito e o vivido, o dito pelos discursos oficiais e o que
realmente acontece. (PIMENTA; LIMA, 2009, p.103). Para ter um bom desempenho não há receitas
prontas, mas sugere-se, de antemão, um olhar complexo, principalmente em relação aos alunos
de hoje, ditos pós modernos por alguns autores, portadores de um novo tipo de subjetividade
humana ― uma subjetividade pós-moderna ― que se caracteriza pela efetivação particular
da identidade social e da agência social corporificadas em novas formas de ser e de tornar-se
humano. (GREEN e BIGUN 1995). Estas são algumas das impressões deixadas pelos graduandos
do curso de Licenciatura em História, Campus XIV, acerca dos seus sentimentos, comportamentos
e ações desenvolvidos durante o período do Estágio Supervisionado. Esta comunicação oral
pretende problematizar o cotidiano vivido por duplas de alunos durante a regência no período do
estágio. Elaborado a partir da análise de seis relatórios, pertencentes a doze estudantes do curso
de História, procuramos considerar os ditos e não ditos contidos em cada parágrafo das mais de
trezentas páginas e que apontam para uma maior necessidade de planejamentos consistentes
e específicos, principalmente no tocante às sequências didáticas. Os relatos ainda enfatizam a
necessidade de um maior comprometimento, por parte dos graduandos, com as disciplinas deste
componente curricular.

Inquietações de um professor de História: dúvidas teórico-metodológicas, pedagógicas e os


limites de experiências empíricas na aprendizagem histórica.
LUCIANA DEISE SANT’ANA MAGALHÃES NEVES (SECRETARIA ESTADUAL DA EDUCAÇÃO)

Resumo: Através deste texto pretende-se fazer uma reflexão acerca da prática docente de um
historiador no Ensino Médio da Educação Básica brasileira, através da apresentação de questões
teórico metodológicas e didáticas que o aflige e ao mesmo tempo instiga o seu labor; da sua busca
de proporcionar um relacionamento de proximidade com os estudantes que seja propiciador
de um ambiente motivador do estudo histórico, bem como os limites por ele encontrado no
processo de aprendizagem. Também apresenta relatos de experimentos em atividades didático-
históricos nos quais se busca analisar suas possibilidades, resultados e limites encontrados em
sua aplicabilidade. A ideia é fomentar a consciência docente sobre a necessidade de formação
continuada no que tange às teorias historiográficas como um suporte de segurança para a sua

139
práxis em sala de aula, assegurando assim que verdadeiramente está incorrendo na formação de
um pensamento histórico em seu alunado.

Relato de Experiência no Estágio Curricular Supervisionado II (Regência nas séries finais do


Ensino Fundamental) na Educação de Jovens e Adultos (EJA)
LUCAS JOSÉ DA SILVA TAVARES (UNEB)

Resumo: Este trabalho consiste na análise da relação entre teoria e prática vivenciada durante
o componente de Estágio Curricular Supervisionado II: Regência nas séries finais do Ensino
Fundamental, desenvolvido no curso de Licenciatura em História da Universidade do Estado da
Bahia – UNEB/Campus X e aplicado em uma turma noturna do 7º Ano da EJA (Educação de Jovens
e Adultos) na Escola Municipal Bela Vista, localizada na cidade Teixeira de Freitas – Bahia, no ano
de 2018, do mês de Março ao mês de Junho. A pretensão é analisar o estágio como um espaço
de encontro entre a teoria e a prática educativa, e portanto fugir da redução desse componente
a instrumentalização do ensino, talvez pela primeira vez, e portanto fugir da rotineira redução
desse componente a uma prática instrumental, como ainda ocorre nos dias de hoje, para a partir
disso discorrer de forma subjetiva os relatos desta experiência e as implicações desta na minha
formação docente. Será levado em consideração também o fato de o estágio ter ocorrido em
uma turma de EJA, portanto será abordado aqui reflexões relacionadas a realidade do aluno
dessa modalidade de educação, tendo em vista as a diversas especificidades e complexidades que
ela possui. Utilizarei um arcabouço teórico com os seguintes autores: Pimenta e Lima (2005/06),
Freire (1996), Luckesi (2002), Hobsbawm (1998), Fonseca (2015), entre outros autores. Escolhidos
por disporem essenciais reflexões relacionadas ao Estágio Curricular, o ensino de História e a
realidade do EJA no Brasil. A metodologia tem uma abordagem qualitativa e prevê a apreciação
de questões que vão desde às leituras, debates e orientações ocorridas no âmbito do componente
curricular até as práticas docentes supervisionadas na sala de aula, apresentando também as
impressões em relação as vivências no cotidiano escolar durante o estágio fazendo correlação com
os autores utilizados para o embasamento teórico. Por conclusão, destacarei as formas como a
experiência do estágio na EJA implicou em diferentes âmbitos da minha vida, são estes: O próprio
meio universitário, pois a vivência do estágio implicou de forma direta no meu desenvolvimento
acadêmico; O meio profissional, pois interpreto o estágio como fundamental para a gênese da
formação de minha identidade profissional, possibilitando compreensão de questões relativas à
função político-social da atuação docente o que se constituiu para mim e muitos colegas enquanto
um divisor de águas; E por fim, na minha vida pessoal, tendo em vista tudo o que aconteceu na
escola, em relação aos alunos e aos professores quais possui contato e foram parte essenciais
dessa experiência.

A política de Formação Continuada de Professores na Rede Municipal de Ensino de Itabuna a


partir da LDB nº 9.424/96 (1997-2008)
MARCOS ANTÔNIO BORGES DORMUNDO NASCIMENTO (COLÉGIO JORGE AMADO)

Resumo: A partir de 1990, a discussão em torno da política de formação continuada para professores
reascendeu principalmente após a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação nº 9.394/96.
Este estudo busca identificar como se deu a implementação desta nova dinâmica educacional
na rede municipal de ensino de Itabuna, situada no Sul da Bahia, no período de 1997 a 2008,

140
considerando que coube ao Ministério da Educação e Cultura a elaboração de um conjunto de
dispositivos legais que promovessem o desenvolvimento de uma agenda de formação continuada
em nível federal, estadual e municipal. Sendo assim, foram analisados os meios e os modos
utilizados pela Secretaria de Educação e Cultura do referido município para se inserir nessas novas
diretrizes educacionais sob a perspectiva de uma formação contínua voltada ao convívio social
entre diferentes culturas, reconhecendo os valores e os direitos humanos. Assim, observaram-
se os instrumentos de aperfeiçoamentos condizentes com as reais necessidades encontradas na
experiência docente diária, que oportunizam o crescimento profissional e a formação de uma
identidade coletiva dos professores. Além disso, foi abordada uma série de fatores extraídos
daquele cotidiano educacional/ administrativo, como: as sucessões de governo, mudanças de
projetos educacionais, coordenações e demais estruturas na rede de ensino. A discussão teve por
objeto os procedimentos vivenciados na Escola Grapiúna, devido à política de Ciclos de Formação
Humana instalados na rede e a produtividade de formações contidas no seu projeto. Logo, o
presente estudo pauta-se em questionar o conteúdo, a programação, a rotina e qual o grau de
importância dado a estas formações. Acredita-se que os resultados apresentados fortalecem a
ideia de que a política de Formação Continuada precisa progredir lado a lado com os principais
sujeitos destas ações: os professores.

O papel da Comissão Departamental na realização do Estágio Supervisionado


NORA DE CÁSSIA GOMES DE OLIVEIRA (UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA)

Resumo: O Estágio Supervisionado nos cursos de licenciaturas constitui uma etapa imprescindível
no processo de formação dos alunos. Sua dimensão teórico-prática está sob a responsabilidade
das Universidades, mas são as instituições parceiras que constituem o campo real do exercício da
prática, ou seja, as unidades escolares são também corresponsáveis pela formação dos futuros
professores. Através do estágio nas escolas, os alunos passam a conhecer o ambiente profissional
nos seus mais variados aspectos. Dessa forma, o estágio compreende e expõe uma “face externa”
que implica no estabelecimento de diálogo e compromisso interinstitucionais, alicerçados em
planejamento e organização construídos por todos aqueles diretamente envolvidos na composição
das Comissões Departamental e Setoriais de Estágio, cujo foco é alinhar e mediar as demandas
oriundas dos estágios obrigatórios no interior da Universidade. Por isso, nesse artigo objetivamos
refletir sobre o estágio obrigatório supervisionado no âmbito da Universidade do Estado da
Bahia, a partir de dois aspectos importantes da Comissão Departamental de Estágio, definida no
Regulamento Geral de Estágio: o papel técnico da Comissão, no que concerne ao estabelecimento
das relações entre as instituições responsáveis pelo estágio e a sua dimensão formativa para
professores e alunos que a integram.

A Residência Pedagógica e o processo de formação docente em História


TÚLIO HENRIQUE PINHEIRO (UFVJM)

Resumo:  O trabalho busca investigar sobre a experiência de atuação do programa Residência


Pedagógica somado ao processo de formação de professores nos cursos de licenciatura em
História. O programa Residência Pedagógica tem entre seus objetivos imergir o licenciando a
prática de sala de aula, possibilitando que o discente esteja mais seguro para atuar como professor
ao fim de seu processo de formação. O programa foi implementado em 2018, e conta com diversas

141
fases de execução, desde o processo de ambientação e imersão do licenciando ao ambiente
escolar, até sua atuação no planejamento de aulas e regência. O programa possui um formato
semelhante ao Estágio Supervisionado em suas diferentes fases, com a diferença de propor
um número maior de horas de regência. Possui uma estrutura própria que coloca o residente
em ação, dando-lhe mais liberdade e autonomia para executar sua ação docente. O presente
trabalho buscará com isso, realizar uma análise sobre o funcionamento do programa desde sua
implementação até atualmente, verificando o andamento do programa em comparação com o
estágio curricular obrigatório, apontando as semelhanças e as particularidades, levantando os
pontos positivos e negativos. Pretende-se com isso, investigar quais as contribuições o programa
tem trazido aos residentes em seu processo de formação de professores de História e medir a
partir da avaliação dos residentes como o programa está alheio ao processo de formação. Com
isso, verificar o andamento do programa em conjunto com o processo formativo, também sendo
de interesse observar a opinião dos residentes para com o andamento da residência pedagógica,
possibilitando opiniões, sugestões e criticas quanto ao funcionamento do programa em relação
a sua formação docente. Tratando-se das fontes e da metodologia, faz-se uso de uma pesquisa
qualitativa a partir de questionários semiestruturados onde os residentes respondem perguntas
com base na atuação no projeto, suas experiências com o programa aliado a sua formação. Foram
propostos questionários do mesmo modo aos professores supervisores. Esta sendo realizada
pesquisa bibliográfica em materiais que abordam o tema Residência Pedagógica e formação de
professores.

SESSÃO 02: 22/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

Ensino de História, currículo decolonial e experiências antirracistas nos espaços formativos:


cabelo e corpo como símbolos da identidade negra
GISLANY NASCIMENTO COSTA (COLÉGIO MODELO LUÍS EDUARDO MAGALHÃES DE ITABUNA)

Resumo: O currículo da escola básica brasileira foi e continua sendo influenciado pela epistemologia
colonial de valorização da cultura europeia, em prejuízo das cosmovisões dos povos colonizados.
Conforme essa premissa, se realizou um projeto de discussões à luz da Educação Intercultural.
Objetivou construir um currículo decolonial praticado, segundo uma desconstrução do currículo
eurocentrado praticado. Tentaram-se romper certos silenciamentos de vozes subalternizadas que
muito contribuíram para a formação da sociedade e da cultura regional, quiçá brasileira. Assim,
o Projeto Estética Afro-brasileira, desenvolvido no Colégio Modelo de Itabuna, é uma ação de
intervenção do mestrado do PPGER/ Ensino das Relações Étnico-raciais/UFSB e propôs a discussão
de temas relacionados à diversidade cultural no Brasil, às relações étnicos-raciais e o combate aos
diversos tipos de preconceitos na sociedade brasileira. Este projeto propiciou reflexões sobre a
ressignificação da herança africana no cotidiano escolar preconceituoso na sociedade regional
e, talvez, brasileira. Objetivaram-se a desconstrução de alguns estereótipos geradores de
sofrimentos em diversos momentos do processo escolar das alunas e dos alunos afro-brasileiros.
A metodologia utilizada foi a leitura, a discussão e a produção de texto. O referencial teórico
utilizado, balizador das discussões e escrita, foi o artigo de Nilma Lino Gomes, intitulado: Trajetórias
escolares, corpo negro e cabelo crespo: reprodução de estereótipos ou ressignificação cultural.

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Os alunos do Ensino Médio das séries 2º e 3º ano com a orientação da professora de História,
autora deste resumo, construíram perguntas sobre várias questões pertinentes a estética afro-
brasileira. Desde a aceitação de si, preconceitos, gastos com cosméticos, uso de produtos químicos,
tempo na arrumação do cabelo. Após uma nova ressignificação e autoaceitação, outra ação foi
desempenhada como um ensaio fotografico dos alunos que se identificaram com o projeto.
Compreenderam-se as dificuldades no resgate da cultura e o sentimento de pertencimento afro-
brasileiro inerentes a uma aceitação do corpo e do cabelo crespo, na escolha dos acessórios, da
maquiagem, dos trajes, das pinturas artísticas, dos turbantes e das tranças. Logo, diante de certas
evidências extrapoláveis a outros contextos interculturais, proponho, nesse relato de experiência,
uma discussão sobre como desdobrar novas experiências, no espaço formativo escolar pautadas
num currículo decolonial, a partir das criativas e autocríticas vivências/resistências locais, em
detrimento do conhecimento europeizante ainda hegemônico e posto como universal. É no intuito
de promover mais subsídios a uma educação antirracista, de respeito às diferenças interculturais
que formam o povo brasileiro.

Diálogos interatlânticos entre Brasil e Angola: experiências, desafios e possibilidades na


palma da mão.
SAYONARA OLIVEIRA ANDRADE ELIAS (COLEGIO ESTADUAL DEMOCRATICO RUY BARBOSA)

Resumo:  O objetivo desse artigo é descrever como se desenvolveu o processo de criação,


organização e utilização da rede social WhatsApp como instrumento/estratégia que fomenta a
interação, a autonomia e a autoria na sala de aula, tornando os sujeitos envolvidos em agentes
ativos no processo de construção do conhecimento na sociedade contemporânea. Visando um
aprendizado colaborativo, e partindo de uma experiência dialógica entre jovens brasileiros e
angolanos: os alunos de uma escola pública de Teixeira de Freitas-BA e um grupo de escoteiros
angolanos sediado em Luanda, Angola. Espera-se que essa experiência possa proporcionar
caminhos diversos para o ensino –aprendizagem.

Trajetórias formativas no Curso de História da Universidade do Estado da Bahia (UNEB/


Campus XVIII) e a Lei 10.639/03: por uma educação antirracista.
TAMI CARVALHO HERMANO, LAILA FERREIRA XAVIER (UNEB - UNIVERSIDADE DO ESTADO DA
BAHIA)

Resumo: Em 2003 foi promulgada a Lei n°. 10.639 que versa sobre o ensino da História e Cultura Afro-
brasileira e Africana. Esta insere no debate da educação nacional, a obrigatoriedade em discutir e
reconhecer a importância da cultura negra na formação da sociedade brasileira. A lei é resultado
de lutas sociais com participação pioneira dos Movimentos Negros, que viam a necessidade
dessa discussão, uma vez que a formação do Brasil é, majoritariamente, negra e descendente de
africanos. Enfrenta-se ainda hoje, 17 anos depois da sua promulgação, o desafio de implementá-
la, em todos os níveis educacionais (GOMES, 2013). Nos espaços escolares existem resistências
em abordar os assuntos que tratam da cultura e, principalmente, das religiões de matriz africana.
Essa resistência de uma interpretação bíblica que demoniza, em especial, o candomblé (ARAUJO
e ACIOLY, 2016). Isso ocorre por vários fatores, desde uma negação do professor em abordar a
temática ou a negação da família em aceitar discutir a religiosidade para além do fundamento
judaico-cristão. Os silenciamentos que ocorrem acerca das temáticas afro-brasileiras e africanas,

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não se restringem apenas à religião, mas outros debates importantes, tais como: racismo
estrutural, feminismo negro, representatividade, lugar de fala, estereótipos, tornando-se gatilhos
para as várias formas de preconceitos, violências físicas e verbais em espaços que deveriam ser
de sociabilidade e respeito. Na rede escolar de Eunápolis problemas semelhantes puderam ser
identificados a partir de observações participativas e problematizadoras, realizadas através do
subprojeto PIBID/UNEB/CAMPUS XVIII “Entre textos, contextos e outros textos... narrativas
entrelaçadas entre linguagem e História na Educação Básica” e do componente curricular Estágio
Supervisionado I. O presente trabalho tem como objetivo analisar de que forma o curso de
História da UNEB (Campus XVIII), universidade pública que possui políticas e ações afirmativas
institucionalizadas, tem estruturado, em seu processo formativo, práticas para o rompimento
da educação racista, tomando como referência as problemáticas encontradas na Educação
Básica. É necessário refletir como universidade tem agido na formação dos futuros professores,
capacitando-os para dialogar e levantar na sala de aula situações-problema que contribuam para
superar o racismo, o preconceito e a discriminação. As fontes utilizadas foram os registros das
observações participativas e problematizadoras das aulas através do PIBID e do estágio. Também
foram analisados os projetos realizados no âmbito dos componentes curriculares que atenderam
a Lei 10.639/03. Conclui-se que a UNEB tem desenvolvido papel fundamental com seus alunos,
agindo de forma contínua para uma formação qualificada de professores de História.

Educação antirracista e a identidade racial do/a docente da Educação Básica


CARLA SANTOS PINHEIRO (PREFEITURA MUNICIPAL DE LAURO DE FREITAS)

Resumo:  A escola configura-se como espaço cujos saberes situados podem alicerçar-se em práticas
de respeito às alteridades que valorizem as diferentes vozes que ali ecoam ou conformar-se como
ambiente que as excluem e as invibilizam atuando desta forma como eficiente dispositivo de controle
racial. Neste esteio, os complexos processos que culminaram no mito da democracia racial precisam ser
compreendidos e a acomodação da percepção da identidade étnico-racial a partir do desmerecimento
da figura da população negra precisa ser confrontada e superada para que os dispositivos da Lei Federal
no 10.639/03 convertam-se em práticas nas instituições escolares com reflexos em toda a sociedade.
Tendo a identidade racial do/a professor como mote, a presente comunicação tem por objetivo discutir
e problematizar a implementação da Lei Federal no 10.639/03. Será desenvolvida com o empenho de
discussão integrada sobre educação, identidade negra e formação de professor conforme nos credencia
as pesquisas de Nilma Lino Gomes (2002, 2003 e 2017), da abordagem sobre como preconceito racial se
configura na sociedade brasileira de acordo com o pensamento de Antônio Sérgio Almeida Guimarães
(2008) e de Petrônio Domingues (2005). Os dados estatísticos atinentes ao quesito cor/raça dos/as
professores da Educação Básica em âmbito nacional (Brasil), regional (Nordeste) e estadual (Bahia),
presentes no Censo Escolar da Educação Básica e as “Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação
das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino da História e Cultura Afro-Brasileira e Africana” servirão de
fonte para o estudo na perspectiva de repensar posturas e estratégias para a concretização de uma
educação antirracista.

Um olhar sobre a disciplina de Laboratório de Ensino de História: Reflexões e Experiências


FERNANDA DE SOUZA LIMA (UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA)

Resumo: Esta comunicação tem por objetivo pensar a aula de História do Ensino Superior a partir das

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reflexões e experiências da disciplina de Laboratório de Ensino de História. Em decorrência do intenso
debatesobrequestõeseestratégiasparaoensino,oprofessordeHistóriatemtidoodesafiodedesenvolver
nos discentes uma prática pedagógica emergente capaz de tornar o processo de aprendizagem mais
dinâmico e participativo. As sugestões e reflexões apresentadas nesta comunicação são produto de uma
experiência docente na disciplina de Laboratório do Ensino de História. Essa reflexão apresenta relatos
de uma prática construída no decorrer de alguns semestres, tendo como fruto a produção didática
dos mais diferentes materiais, como cartilhas pedagógicas, visita de campo, esquemas e miniaulas
construídas a partir de discussões com os alunos. Fundamenta-se no diálogo entre diferentes autores
que defendem o ensino de História voltado para a valorização e estudo das realidades dos alunos a fim
de ajudá-los a sentirem-se participantes da História como futuros professores, e tornando significativa
sua aprendizagem. É intenção, neste trabalho, socializar as práticas experienciadas no cotidiano da sala
de aula, bem como, demonstrar os resultados das atividades dos alunos que são produtos de situações
partilhadas e compartilhadas no cotidiano da universidade.

Memória Contada
JANICLÊIDE MORENO GONÇALVES (SECRETARIA ESTADUAL DE EDUCAÇÃO-BAHIA)

Resumo: Este texto propõe a relatar e analisar uma experiência desenvolvida durante as aulas de
História - O Projeto Memória Contada. O Projeto fez parte de uma das atividades desenvolvidas
pelo PIBID/ História no Colégio Estadual Nilton Gonçalves no ano de 2017. Um dos seus principais
objetivos foi dar voz aos alunos da Educação de Jovens e Adultos, dando-lhes a oportunidade de
registrar as suas histórias/vivências, valorizando suas memórias e reforçando o seu papel enquanto
sujeitos históricos. Num primeiro momento, foi apresentada a todos os alunos a proposta do
projeto, onde eles deveriam fazer os relatos das suas histórias de vida. A partir disso, foi feita uma
seleção das histórias que seriam, posteriormente, contadas em sala de aula. O critério utilizado
para selecionar as histórias foi o da disponibilidade do aluno a contar sua história, seria de forma
voluntária. Com a seleção das histórias, os alunos foram convidados a participarem de um chá da
tarde, em um sábado, de forma não prejudicar o horário de trabalho destes estudantes, na escola
onde estudam.
Em vista disso, foi montada uma sala especialmente para este evento e um profissional da área
foi contratado para realizar a filmagem durante os depoimentos. Nem todos quiseram gravar suas
histórias, mas os jovens e adultos que optaram pelo relato, fez isto com muita emoção e orgulho, por
tudo que viveram, sua luta pela sobrevivência, dificuldades familiares. Também falaram dos seus
sonhos, da necessidade d o retorno aos estudos. Por fim, estes depoimentos foram organizados
em um pequeno documentário. Foi uma atividade que envolveu muita emoção e aprendizagem
para todos que participaram. Atividades como o “Memória Contada” proporcionam aos envolvidos
uma grande aprendizagem, que vai para além da formação e experiências profissionais. Sem
dúvidas, ouvir cada relato nos causou profundas reflexões acerca das subjetividades da vida.
Atividades assim, colaboram bastante para o desenvolvimento da aprendizagem histórica, uma
vez que, podem despertar nos alunos da EJA, sentimentos de reconhecimento da sua importância,
enquanto sujeitos históricos e do seu valor na construção da memória da sua cidade , da sua escola,
gerando co-responsabilidade com a memória. Além disso, acabam estimulando a memória afetiva
destes alunos.

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SESSÃO 01: 21/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

A colonização portuguesa e a condição dos cidadãos relatado no periódico a civilização da


África portuguesa no século XIX
EUCLIDES VICTORINO SILVA AFONSO (UNEB)

Resumo:  A historiografia tem nos oferecido bastantes informações de vários tempos,


especialmente nos períodos mais recentes, afim de compreendermos os factos do passado.
Nos referimos propriamente aqui aos estudos do sistema da colonização, oferecendo novas
abordagens históricas e com maior aprofundamento na pesquisa e métodos, que provocam
inquietações, curiosidades no que concerne à realidade da época e que nos leva a perceber como
se deu a relação entre o colonizador e o colonizado. Com os períodos imperiais e coloniais, nos
torna cada vez mais possível e próximo de compreender às sociedades da época e sua evolução,
partindo dos questionamentos que colocamos nas fontes. Segundo Wheeler e Pélissier, no mês de
julho de 1842, foi considerado ilegal o tráfico de escravos em Angola, conhecido como o tratado
Luso-Britânico que conferiu o real decreto de 1836. E para Angola se começava uma nova era
de mudança e de contacto com o mundo exterior. No entanto, este estudo, analisa as condições
dos cidadãos no século XIX relatado no periódico angolano a civilização da África portuguesa.
Buscando compreender os contextos deste período e os direitos dos cidadãos numa sociedade
colonial, entender quais eram as condições de vida da população angolana, suas limitações, lutas
e resistências a escravidão. Para esta pesquisa, além de consultarmos referências bibliográficas
secundárias, trabalhamos com fontes primarias em periódicos de 1866 a 1869 que relatam notícias
sobre África portuguesa em Angola.

Domínio e costume: a Missão Etognósica de Moçambique e o Projecto Definitivo de Código


Penal de José Gonçalves Cotta
CRISTIANE SOARES DE SANTANA (UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA)

Resumo: A partir de meados do século XIX, a administração colonial portuguesa empreendeu


uma série de tentativas de codificação dos costumes das populações de Moçambique. Porém,
dentre esses se destacou o trabalho de José Gonçalves Cotta, nomeado pelo governador-geral
Tristão de Bettencourt para realizar estudos etnográficos na colônia de Moçambique com intuito
de se elaborar um Código Civil e um Código Penal específico para os povos de Moçambique.
Visamos nesta comunicação apresentar o código como uma enquanto uma estratégia criada
pelo colonizador para promover a modelagem dos comportamentos e a docilização dos corpos
indígenas através da criminalização de determinadas práticas culturais tais como os ritos de
iniciação, crenças religiosas, festas, prática de manipulação do corpo via escarificação ou usos de
adornos e a medicalização do corpo foram elementos tornados crimes nesse contexto colonial.

Análise da produção intelectual na Soronda: revista de estudos guineenses


ISNA GABRIEL SIA (IFBA - INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DA
BAHIA)

Resumo:  Este artigo pretende analisar a produção acadêmica veiculada na Soronda: revista de
estudos guineenses, publicada com regularidade pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas,

147
na Guiné-Bissau entre 1986 e 1995, e depois novamente entre 1997 e 2004. Nesse país, grupos
de intelectuais envolvidos com o nacionalismo dedicaram-se, após a independência, a esforços de
institucionalização da cultura, relacionados aos projetos políticos que embasaram as reivindicações
por independência e que, agora, precisavam ser implementados pelo Estado em constituição.
Parte dessas iniciativas passou pela montagem de uma estrutura de pesquisa acadêmica na área
das ciências humanas, que pudessem embasar e orientar o sentido de uma série de políticas
governamentais. A Soronda é um índice privilegiado tanto para compreender o conteúdo e as
formas das questões envolvidas nos debates sobre a modernidade e o desenvolvimento na Guiné-
Bissau, como para localizar os projetos que se articulam assim como para localizar os projetos
políticos que as articulam ao conjunto mais vasto do nacionalismo e da política africana. O artigo
propõe uma abordagem sistemática do conjunto dessa produção, concentrando-se inicialmente na
quantificação e na serialização de dados referentes às vinculações sociais e políticas dos autores e
nos recortes disciplinares, temáticos, geográficos e cronológicos das contribuições, bem como na
referência a um conjunto de categorias de identificação coletiva que podem ajudar a relacionar o
debate acadêmico com os projetos políticos que disputaram o controle do Estado e se sucederam
ao longo do tempo, e suas articulações continentais mais abrangentes.

O Processo de Desenvolvimento em Angola: Causas e Consequências no Período Pós-Guerra


Civil (2002-2018)
JOSÉ FERNANDO DE MATOS (UNEB)
Resumo: O presente trabalho objetiva discutir o processo de desenvolvimento em Angola e suas
tendências do período pós-guerra civil. Para esta questão é fundamental levar em conta o fato
de o MPLA é o partido que está no poder desde a independência, ocorrida em 1975.Dessa forma,
a construção deste conceito requer uma compreensão mais ampla da vida econômica, política,
social e cultural da sociedade, o que exige outro olhar, e valores. Neste sentido, a nossa analise
mostra que Angola passou por vários processos de transição político e econômico caracterizado,
primeiro, por um modelo de economia dito socialista, entre os anos de 1975 a 1987. O segundo
modelo é caracterizado por uma economia neoliberal 1988-2000. Por outro lado, serão analisadas
as dinâmicas de outros setores, tais como: os contextos político e geográfico, bem como as
estratégias de combate à pobreza, que dependem do modelo de desenvolvimento adotado pelo
executivo angolano. Especificamente, a pesquisa visa compreender como o desenvolvimento
tem sido pensado pelo governo em Angola, notadamente no período pós-guerra civil, além de
analisar as condições mínimas de vida da população, haja vista as relações deste com o índice de
desenvolvimento humano (IDH). Por ser uma pesquisa qualitativa, ainda em fase de execução, a
metodologia está baseada na análise de fontes documentais, relatórios institucionais, além de
revisão bibliográfica.

O lugar da história e cultura de África no espaço da sala de aula no ISART: avaliação,


aprendizagem e investigação
YURI MANUEL FRANCISCO AGOSTINHO (INSTITUTO SUPERIOR DE ARTES, DEPARTAMENTO DE
ARTES VISUAIS -DAV. ISART)

Resumo: O escopo deste relato de experiência, em sala de aula, converge em três pontos: o primeiro
ponto terá como foco, avaliação da disciplina de história e cultura de África, aspectos gerais e
em relação ao docente. O segundo vai tratar sobre a representação dos conteúdos aprendidos

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face as aulas transmitidas em sala de aula. Com o terceiro ponto, pretende-se acompanhar as
trajectórias pessoais dos estudantes em torno da pesquisa orientada pelo professor. Os sujeitos
pesquisados são estudantes do segundo ano do Instituto Superior de Arte, dos cursos de Artes
Plásticas e Design de Moda. As estratégias metodológicas da pesquisa compreenderam o uso de
questionário, entrevistas individuais e coletivas, além de pesquisa bibliográfica e documental. Este
trabalho se apoiou em revisão bibliográfica especifica, além de análise de documentos alusivos a
temática, bem como entrevistas dos envolvidos no processo.

A Independência de Angola nos jornais baianos - 1975 e 1976


ANDEMBERG NONATO MENEZES DE SOUZA (COLÉGIO OBJETIVA RAMILI)

Resumo: Este trabalho procura entender as representações e os aspectos ideológicos expressos nas


notícias da imprensa baiana de 1975 e 1976, pelos periódicos A Tarde e Jornal da Bahia, a respeito
do processo de Independência de Angola. Neste trabalho objetiva-se analisar aspectos históricos,
fomentando essas informações sob os enfoques da História e das Relações Internacionais. Com a
análise crítica das narrativas dos jornais pesquisados, podem-se compreender as peculiaridades da
emancipação política do país africano, compondo-se os conflitos entre os movimentos de libertação
e os distintos projetos de poder (Estado-nação ou nações) associada, de forma dialética, à crise
política de Portugal após a Revolução dos Cravos (25 de abril de 1974). Em paralelo, no campo das
relações internacionais, aponta-se o intervencionismo dos Estados Unidos e da União Soviética em
Angola, em meio a reformulação da política externa portuguesa e constituição da política externa
angolana, que se encontravam em choque nas disputas geopolíticas do mundo bipolar. Além
disso, este trabalho situando-se o Brasil no contexto histórico, onde o governo brasileiro também
buscou interesse econômico na África, em plena Ditadura Civil-Militar (1964 - 1985), aplicando
sua política externa pragmática, resultando no primeiro país a reconhecer a independência de
Angola. Através da leitura das notícias, entrevistas, matérias e textos de opinião, buscou-se
observar aspectos ideológicos e pensamentos políticos, contradições e informações equivocadas,
bem como as linhas de pensamento que nortearam as interpretações e representações feitas
naquele ano de 1975, e no ano seguinte, a respeito do processo e consolidação emancipacionista
de Angola. Mediante o cruzamento dessas fontes com as bibliografias, objetiva-se examinar de
que forma esses elementos ideológicos ditaram os acontecimentos sobre Angola.

SESSÃO 02: 22/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

Imperialismo africano na África: o caso dos fulas visto através de Amkoullel


RODRIGO CASTRO REZENDE (UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE)

Resumo: O presente artigo tem por objetivo discutir o imperialismo fula em plena África Ocidental,
entre os séculos XIX e XX, através de uma releitura crítica da obra, “Amkoullel, o menino fula”,
de autoria de Amadou Hampâté Bâ. A articulação entre imperialismo fula sobre outros povos,
centra-se na ideia de combater o falso pressuposto de que os povos do continente africano viviam
em uma determinada harmonia, antes do colonialismo dos povos europeus, como vem sendo
propagado por vários pesquisadores brasileiros e alhures (ASANTE, 2016; CARDOSO, 2015; e

149
NASCIMENTO, 2009), os quais as categorias branco e preto tem se tornado a tônica da discussão,
como foi há muito aventado por Fanon (2008, p.40). Desde a ascensão do Império de Massina
(Macina), os fulas têm se espalhado pelas regiões que hoje cobrem os Estados Nacionais dos atuais
Senegal, do Gâmbia, do Mali e da Costa do Marfim (BÂ, 2013, p.19-46). Os fulas, embora utilizem
do islamismo para criar certas unidades administrativa e identitárias, por vezes, têm fomentado
segregações para com os povos incorporados e/ou vizinhos. A conquista de terras pelos fulas, a
partir da segunda metade do século XIX, contribuiu não apenas para o aumento dos adeptos de
Allah na denominada África Ocidental, como também para a imposição dos valores sociais desse
povo (GOMEZ, 2018, p.53).
Amokoullel traz um pouco dessa visão imperialista dos fulas e, mais especificamente, do autor,
Amadou Hampâté Bâ, que, por vezes, utiliza de certas estratégias para tanto. Em não raras
oportunidades no decorrer de seu livro, Bâ apresenta determinados e complexos atos e práticas
fulas e diz se tratar de “tradição africana”, “antiga tradição africana”, “costumes africanos” etc.
Por outro lado, os dogons são resumidos a pequenas passagens do livro. Linhas escritas quase que
de forma incidental e acidental, em que a capital do chamado “país dogon”, Bandiagara (BARROS,
2004), se apresenta “fulanizada”. Por fim, este artigo também tem por interesse discutir os ideais
imperialistas de determinados povos do continente africano para a aquisição de terras e de
imposição de suas religiões. Em específico, a mentalidade imperialista dos fulas, que aparece na
consagrada obra de Bâ.

A construção da memória social no conto Kuíto (três faces)


CLEANNE NAYARA GALIZA COLAÇO

Resumo: O entrelace entre História e Literatura se torna necessário quando o ponto de partida é
a linha de conhecimento entre a vida social e o texto literário. Nesse sentido, o conto “Kuíto (três
faces) ” que compõe a obra Momentos de Aqui (2015), do autor angolano Ondjaki, se torna o corpus
desse estudo que objetiva descortinar elementos do contexto histórico evidenciado no texto
literário, assim como de fatores externos que formam a narrativa. Nesta temos uma representação
dos conflitos que marcaram a região de Kuíto. Para este trabalho foram analisados aspectos da
literatura angolana, confrontando-as com a história deste país, sobretudo as motivações políticas
que ampliaram os conflitos ideológicos e armados, tendo em vista a compreensão do conto que
possui representações de combates fratricidas que marcaram a cidade de Kuíto em Angola.
Com base nas relações entre História, Literatura e Memória, buscou-se compreender o texto
literário como um suporte da memória, dotando a narrativa ficcional como evocação desta. Ao
trazer rememorações e aspectos ficcionalizantes, o conto delineia e pontua as consequências dos
conflitos armados por meio da voz do narrador, discutindo os fatores historiográficos no espaço
da cidade de Kuíto. Para este trabalho foram utilizadas análises do conto Kuito (Três Faces), bem
como revisão bibliográfica específica de autores que discutem pressupostos teóricos sobre a
importância da memória nas narrativas literárias e historiografia.

O estupro fomentado pelo Estado no intuito de manter uma sociedade pura e soberana
RITA DE CASSIA FERREIRA DOS SANTOS

Resumo: Este trabalho tem como objetivo fazer um estudo dentro da perspectiva de gênero que
busca entender a violência sexual como prática política e a atual situação da mulher ruandesa

150
pós a Guerra. O corpo dessas mulheres foi violado durante genocídio fomentado pela máquina
estatal, as tutsis não foram estupradas apenas por serem de outra “etnia” foram abusadas
sexualmente, sobretudo por serem do sexo feminino, pautada no conceito de gênero, que são
diferenças construídas dentro de uma sociedade que compartilha uma cultura com formato
patriarcal e associado no sexo biológico dos indivíduos, (LIPP, 2013 p, 2). Para além, o corpo da
mulher representa a reprodução da identidade, a ligação com a família e a comunidade, nesse
sentido, sua destruição sem dúvida foi uma tentativa destruir os tutsis e manter uma sociedade
pura e soberana. Faz-se necessário saber que este trabalho não irá discorrer sobre a Guerra Civil
de Ruanda em si, farei aqui um recorte específico onde existe uma interconexão entre genocídio
e violência sexual. Contudo, durante o período que compreendeu pouco mais de cem dias de
matanças, não foi apenas vidas que foram degoladas a golpes de facões, esta é a história genérica
dos fatos, atrás das cortinas, dos bastidores, existem histórias de milhares de mulheres e meninas
tutsis que tiveram seus corpos violados antes e após a morte, sendo que muitas dessas criaturas
sobreviveram para relatar ou ocultar seus traumas, momentos de terror, dor e sofrimento.
Segundo a ONU estima-se que entre 250 a 500 mil mulheres foram violentada sexualmente
durante o genocídio.

Violência Sexual Contra Mulheres na Guerra Civil de Ruanda


LUCIANE SILVA DOS SANTOS (CENTRO DE REFERÊNCIA DE ATENDIMENTO A MULHER EM
SITUAÇÃO DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR)

Resumo: Em 1994, entre os meses de abril e julho, Ruanda, um pequeno país localizado na região
dos lagos, na África central, foi palco de um triste capítulo da longa guerra civil decorrente dos
conflitos das identidades políticas consubstanciadas em tutsis e hutus. Divididos em dois grupos, os
discursos de morte e eliminação física perpetrados entre ambos passou a ser uma constante tanto
em Ruanda, como no Burundi, desde a independência destes dois países. Em 1994, no entanto,
uma componente veio agravar ainda mais o conflito, trazendo consequências que perduram até
os dias atuais. O presente estudo objetiva analisar as consequências decorrentes dos estupros
de mulheres no Ruanda, durante o período de massacres ocorrido em 1994. Neste contexto, os
grupos de milicianos e soldados, alinhados sob a identidade hutu, se utilizaram do estupro como
mecanismo de dominação e “limpeza étnica”, perpetrados por hutus contra as mulheres tutsis. No
período pós-guerra civil, Ruanda passou por um processo de reestruturação, necessitando assim
de novas medidas que geraram a participação feminina nas estruturas de liderança em diferentes
níveis, já que foram elas responsáveis pela boa parte da reconstrução do país. Para este trabalho,
foi feita revisão bibliográfica de TCC´s, monografias, dissertações, teses e bibliografia específica
sobre o tema.
Afetos, sexualidades e ressignificações nas Africa(s) e no(s) Brasil(is)
INEILDES CALHEIRO (DMMDC/MULTI-INSTITUCIONAL E MULTIDISCIPLINAR/UFBA)

Resumo: Considerando as complexidades nas formas de vida do continente africano, esse estudo


tem por finalidade refletir a respeito das diferentes formas de afetos e sexualidades ressignificadas,
em alguns desses territórios, bem como suas tradições e relações entre os gêneros, além de suas
performances. A partir de pressupostos teórico-metodológicos, este trabalho pauta-se pela
revisão de literatura focando estudos de africanos/as que trazem perspectivas da modernidade
em meio a violências de gênero e as ideias de harmonia entre os sexos, sexualidades e afetos.

151
Nesse contexto, a poligamia, o casamento, o matriarcado e o papel das mulheres e dos homens
são tomados como fenômenos que convivem com a negação das sexualidades homoafetivas, e de
como estas são invisibilizadas. “Na África não tem destas coisas” dizem as vozes que proclamam a
heteronormatividade como única possibilidade da relação de afetos no continente africano. Nos
resultados, estudos assinalam as ressignificações da tradição no trato com sexualidades e afetos
em territórios africanos; No Brasil, a cultura dita afro-brasileira é embebida de ressignificações
violentas, exploração sexual e desvalorização das mulheres que apontam para o “matriarcado
da miséria” e a poligamia da desgraça, indicando modelos pautados na infelicidade do sujeito
como tônica. É possível definir o continente africano como desprovido de homossexualidades?
É possível estabelecer homogeneidades nas diferentes culturas e povos do continente africano?
Para este trabalho foram foi utilizada revisão bibliográfica específica.

Por dentro dos sertões: escravidão e tráfico interno em tempos de comércio “lícito”, Planalto
Central de Angola – meados do século XIX
IVAN SICCA GONÇALVES (UNICAMP)

Resumo:  Com seus vários impasses, contradições e ambiguidades, a proibição legal do tráfico
atlântico de escravos nas províncias ultramarinas portuguesas em 1836 provocou uma radical
reconfiguração econômica nos territórios que correspondem à atual Angola. Limitando sua
jurisdição a faixas litorâneas do território, com algumas fortalezas espalhadas em zonas
de influência pelo interior, a administração colonial portuguesa testemunhou uma abrupta
interrupção das finanças provenientes do seu principal produto de exportação, os escravos, que
continuavam circulando intensamente, mas em redes clandestinas. Como já apontado por parte
da historiografia, não só o governo colonial, mas, principalmente, os grandes traficantes das
praças de Luanda e Benguela, mesmo não abandonando o intenso contrabando de escravos para
as Américas, passaram a investir em atividades agrícolas e extrativistas para complementar os
seus ganhos comerciais. No entanto, com a exceção do café, por quase todo o século XIX, a maioria
dos gêneros do chamado “comércio lícito” eram produzidos no interior de reinos centro-africanos
autônomos e distantes do litoral, a exemplo da cera de abelha, do marfim e da borracha. Um dos
principais eixos dessas novas modalidades comerciais do interior era o Planalto Central de Angola,
em grande parte dominado por poderosos Estados umbundu que mantiveram sua autonomia
política ao longo do século. Sendo uma das principais regiões fornecedoras do tráfico de escravos
para Luanda e Benguela, o comércio do Planalto foi protagonizado desde os últimos quartéis do
século XVIII por intermediários portugueses e africanos, os sertanejos e pombeiros, que atuavam
e residiam nas cortes dos Estados africanos e montavam grandes caravanas de carregadores para
transportar mercadorias do interior para o litoral, sendo o principal centro de atuação comercial
da região a corte do reino do Bié. A partir dos relatos diários de um dos principais líderes dessa
comunidade de sertanejos do Bié, António da Silva Porto, em especial o primeiro conjunto de seus
cadernos, redigido entre 1840 e 1869, essa comunicação pretende refletir sobre o cotidiano das
transformações sociais causadas pela reconfiguração econômica dessa região antes tão envolvida
com a economia atlântica do tráfico. Para tal, focalizaremos em duas atividades absolutamente
centrais para o balanço desse processo: o tráfico interno de escravos, tanto do interior para o
Planalto, quanto o seu inverso; e o uso da mão de obra, formada por trabalhadores dependentes
e/ou escravizados, na produção e transporte dos dois produtos principais do eixo comercial entre
o Bié e Benguela no período, o marfim e a cera.

152
Africanos no Brasil, Brasileiros na África: a trajetória dos africanos que voltaram à África
RAIMUNDO CERQUEIRA SANTOS (UNEB)

Resumo:  Este trabalho objetiva discutir a trajetória dos afro-brasileiros e africanos libertos e
alforriados, e seus descendentes à África, suas travessias do Atlântico para o Brasil, bem como suas
identidades entre culturas diferentes. Compreender a história de países africanos, principalmente
os que forneceram e acolheram os afro-brasileiros que retornaram à África, sua interrelação na
construção destas identidades é um dos objetivos deste trabalho. Este trabalho também objetiva
compreender a relação social entre a africanos e afro brasileiros e colonizadores africanos a partir
de análise historiográfica. Sabe-se que os “retornados” criaram comunidades que se destacaram,
a exemplo dos “Tabons” e “Agudás”, nos países hoje denominados Togo, Benin, Gana e Nigéria.
Um dos motivos mais impactantes que causou o retorno dos africanos libertos à África, foram as
leis de nº 9 de 13 de maio de 1835 e a de nº 14 de 2 de junho do mesmo ano. Elas foram criadas
com o intuito de criar dificuldades para a permanência de africanos no país, e regulamentava
a deportação destes. Na Costa Ocidental, no período em questão, os retornados tornaram-se
excelentes profissionais, a exemplo de pedreiros, carpinteiros, alfaiates e grandes comerciantes.
As diferenças culturais entre os retornados e os nativos, é que os primeiros queriam serem vistos
como brasileiros, no caso, Agudás e Tabom e não como iorubás ou qualquer outra etnia. Trata-
se de uma pesquisa bibliográfica com base em revisão bibliográfica e documentos existentes no
Arquivo Público do estado da Bahia.

SESSÃO 03: 23/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

Entre a roça, o caruru e o samba: memórias de homens e mulheres da comunidade quilombola


do Maracujá, Conceição do Coité-BA.
ANA CLÁUDIA DO CARMO CEDRAZ

Resumo:  O presente estudo tem como proposta refletir sobre as memórias da comunidade
quilombola do Maracujá, localizada no município de Conceição do Coité, BA. Assim, a intenção é
registrar a trajetória de sua população, as relações sociais e de família, analisando os vínculos de
trabalho e de compadrio; outras questões focalizam os seguintes tópicos: a construção de sua
identidade, a religiosidade, os costumes e as tradições desse perímetro quilombola. Por se tratar
de um estudo da História do Tempo Presente, a história oral foi o fio condutor desta pesquisa. A
vantagem do estudo da história do tempo presente, reside na circunstância de estarmos, sujeito
e objeto, mergulhados em uma mesma temporalidade, que, por assim dizer, “não terminou”.
Todavia, essa característica da história do tempo presente, traz importantes consequências
epistemológicas para o conhecimento que se deseja construir.

153
Pretos, Negros, Mareseiros ou Quilombolas? Memórias e identidades revificadas em Ilha de
Maré.
NOLIENE SILVA DE OLIVEIRA (SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO)

Resumo:  Ao desenvolver e acompanhar ações que visem o favorecimento de aprendizagens


referentes à educação das relações étnicos-raciais e quilombolas para efetivação do ensino de
História e Cultura Afro-brasileira e Africana nas escolas municipais ditas quilombolas de Ilha
de Maré, pude observar os atores envolvidos nos processos educativos e os moradores de tais
localidades, público direto do citado processo. Numa das dimensões que este trabalho se propõe
abordar, consta a identidade, sendo este o foco de grande impacto para discussões nas localidades
que compõe a Ilha de Maré. A temática da identidade tem sido um forte campus de diálogo na
academia e nos movimentos sociais, sobretudo pelo viés da afirmação do ser negro. O presente
trabalho, que compõe minha pesquisa de mestrado, objetiva discutir o deslocamento do conceito
de identidade ocorrido no espaço de Ilha de Maré como ponto de dissenso entre localidades, e
ensaia crítica à ideologia que expõe identidade como elemento dialógico de resistência-oposição
e de integração consensual. Para melhor compreensão do contexto destas identidades revificadas
além da contextualização sócio-histórica representada nos discursos dos sujeitos sociais
(educadores e moradores), esta pesquisa tem como referencial os trabalhos de vários autores que
discutem identidade, educação étnico-racial, educação quilombola e representações. Para este
trabalho foram utilizadas obras de Kabengele Munanga, Joel Candau, Nilma Lino Gomes, Ivaldo
Marciano de França Lima, dentre outros. Por fim, ao longo deste trabalho se expõe o processo de
embates e avanços sociais do constructo identitário de Ilha de Maré.

“Do chão que vem nosso sustento”: território, territorialidade e ancestralidade no Quilombo
Sambaquim
JOSÉ LUIZ XAVIER FILHO (PREFEITURA MUNICIPAL DE LAGOA DOS GATOS)

Resumo: O trabalho aborda e propõe o esclarecimento acerca da ideia de quilombo e sua origem,
dando ênfase ao Quilombo Sambaquim da cidade de Cupira - PE, em propósito de compreender e
valorizar os significados entre território, territorialidade e ancestralidade quilombola e a relação
entre eles. Na prática, a maioria das comunidades quilombolas permanece à míngua, convivendo
com a iminente possibilidade de serem extintas lentamente. Entendemos que o desenvolvimento
conceitual desses três pontos dentro do estudo da comunidade quilombola, nos dão clareza sobre
os significados da terra como um processo social. Desse modo, concentram valores (trabalho),
práticas, símbolos e a representação da ancestralidade.

UM OLHAR SOBRE ENCONTRO GERACIONAL DE MULHERES E TROCA DE SABERES: discursos


de África para práticas e costumes brasileiros.
ANA REGINA MESSIAS (UEFS)

Resumo:  Lagoa Grande é uma comunidade localizada no Distrito de Maria Quitéria, em Feira
de Santana, cidade do interior baiano. É considerada uma comunidade quilombola, e em seu
quotidiano há tensões, dinâmicas, práticas e costumes que são tidas como dotadas de uma
identidade coerente com o perfil que lhe é atribuído. Há conflitos, mas também consensos
entre os indivíduos que pertencem a diferentes gerações. Um destes conflitos diz respeito aos

154
discursos alusivos à África, responsáveis por legitimar a comunidade como enquadrada no perfil
de “quilombola”. O presente artigo objetiva discutir os conceitos utilizados por alguns autores
para compreender quilombo, geração e encontro geracional, por meio da troca de experiência
entre mulheres da comunidade acima referida. Buscar-se-á analisar conceitos para a compreensão
do encontro geracional na troca de saberes entre as mulheres quilombolas em estudo, bem como
os discursos existentes nos nativos desta comunidade, como forma de entender os modos como
os indivíduos legitimam suas práticas.

Discursos de África(s) indistintas entre práticas e costumes nas religiões de terreiro: o caso
do Jaré.
CRISTIANE ANDRADE SANTOS (UNEB)

Resumo: Este trabalho objetiva discutir o Jarê, religião de terreiro existente somente na região
da Chapada Diamantina. Centro geodésico do Estado da Bahia, a região, cuja denominação é
resultante de sua formação geológica e da atividade econômica do garimpo de diamante, que
lhe projetou no cenário mundial, é notabilizada por uma rica e exuberante paisagem, formada
por um conjunto de serras, montanhas, vales, grutas, rios e cachoeiras e uma pluralidade de
ecossistemas. A cidade de Lençóis, locus dessa pesquisa, surge na cartografia baiana em 1845
como uma vila de garimpeiros em torno da exploração comercial do diamante, atraindo uma leva
de forasteiros em busca do sonho de riqueza por meio do achado de pedras preciosas. O curso do
seu desenvolvimento é marcado por histórias fortes, repletas de realismo e imaginação, marcadas
por expressões da religiosidade do povo, pelo culto aos Santos Católicos e às divindades do
Jarê. O desenvolvimento histórico do Jarê acompanha o desenvolvimento da região das Lavras
Diamantinas, tendo como registro de origem as cidades de Lençóis e Andaraí. O Jarê é considerado
por seus poucos pesquisadores como uma religião de matriz africana e/ou afro-indígena.
Contudo, mesmo nos textos destes pesquisadores se percebe o caráter de composição existente
neste fenômeno religioso, revelando a existência de problemas de viés em suas pesquisas, e
que tendem a classificar toda e qualquer religião com determinadas características (que tenha
como performance a possessão) como sendo “de origem” “africana”. É fundamental entender as
práticas, dinâmicas e costumes como sendo permeadas por dinâmicas que fogem ao linearismo,
presente em percepções pautadas na crença numa origem indistinta, como se fosse possível uma
dada manifestação cultural ser transportada de um espaço/contexto para outro. Em fase inicial
da pesquisa para o doutorado em difusão do conhecimento, neste artigo será apresentado o Jarê,
manifestação cultural de caráter religioso ainda pouco conhecida e estudada, seu processo de
desenvolvimento na região da Chapada Diamantina e, através de revisão bibliográfica, discutir as
representações de África presentes nos discursos dos seus pesquisadores.

Têm índios, negros e africanos nas escolas? Entre estereotipias e superficialidades: as Leis
nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008 nos livros didáticos da rede municipal de ensino em Camacã
BRISA SANTANA PIRES

Resumo: A Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003, estabeleceu a obrigatoriedade do ensino da


História e da Cultura Africana e Afro-brasileira nos currículos escolares. Posteriormente, essa
norma foi alterada pela Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008, para inclusão da temática alusiva aos
povos originários, ditos indígenas. Em 17 de junho de 2004 foi instituída pelo Conselho Nacional

155
da Educação, a Resolução CNE/CP n.º 1, que aprova as Diretrizes Curriculares Nacionais para a
Educação das Relações Étnico-Raciais – DCNERER. Estas leis, portanto, compõem os principais
documentos alusivos aos temas do que se convencionou nomear por “relações étnico-raciais” no
Brasil. E a partir desta questão, tem-se os elementos para questionar sobre como este processo
sofreu gradações sob a forma de representações nas diferentes regiões do país. Este trabalho,
ainda em andamento, objetiva discutir as formas como os índios e os africanos, em seus diferentes
contextos, são representados nos livros didáticos das escolas da rede municipal de ensino de
Camacã, e de como estas representações corroboram com a retroalimentação de estereótipos
e imagens superficiais dos povos em questão. Tem-se como lídimo, para esta discussão, o
entendimento acerca da excepcional importância do trabalho conjugado entre a Educação
Patrimonial e a História como fundamentais para restabelecer imagens e representações mais
próximas entre “objeto” e “representação propriamente dita”. Este trabalho se apoiou em revisão
bibliográfica com temas específicos, bem como a análise dos livros didáticos utilizados na rede
municipal de ensino da cidade de Camacã.

Sentidos de “Africa” presentes na Lei 10639/2003 e nas DCNERERs: algumas reflexões


CINTHIA NOLACIO DE ALMEIDA MAIA (COLÉGIO ESTADUAL OCTACILIO MANOEL GOMES)

Resumo: Publicada em janeiro de 2003, a lei 10.639 estabeleceu a obrigatoriedade do ensino da


História e da Cultura Africana e Afrobrasileira nos currículos escolares. Em 2004 foram aprovadas
as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais – DCNERER, e
juntamente com a lei referida, compõem o conjunto principal de documentos alusivos ao ensino de
África na legislação brasileira. O presente trabalho tem como objetivo discutir estes documentos,
problematizando o sentido de “África” que circula em seus textos. Tal Legislação, apesar de
constituir um marco histórico importantíssimo na luta contra os preconceitos de cor existentes no
Brasil, em muitos trechos apresenta uma ideia de África pautada no essencialismo, apresentando
o continente de modo homogêneo e acrítico, como se este constituísse uma realidade una, pura,
fixa e imutável, o que pode ser ratificado quando se observa que em toda a Legislação aparecem
termos como “raiz africana”, “matriz africana”, “reconhecimento da ascendência africana”, “ensino
de História da África”, dentre outros termos. Esta análise possibilita inferir que tais documentos
surgiram imersos numa perspectiva ideológica dos movimentos sociais negros advinda do pan-
africanismo construído na segunda metade do século XIX. Este movimento de ideias e teorias,
surgido no século XIX, é fruto da “união” de ativistas negros dos Estados Unidos, Grã-Bretanha
e Antilhas, que em contato com algumas lideranças africanas impuseram ressignificações para
as representações advindas do colonialismo, a exemplo da invenção da África enquanto “lar e
pátria da raça negra”. Neste contexto de reação aos pressupostos de uma inferioridade inata
dos negros, o pan-africanismo corrobora com a idealização de uma África Mãe, habitada por
“africanos” negros e que deveria ser celebrada pelos da sua raça como sendo a pátria original. É
neste contexto que se cria a relação (quase naturalizada) entre África e negros, e que se consolida
a invenção do continente como dotado de uma essência original. No bojo dessas discussões, pode-
se afirmar que a Legislação, bem como os sentidos do continente africano que ela apresenta,
ainda reverberam ideias dos teóricos pan-africanistas, sendo necessário ter cuidado com essas
armadilhas conceituais para não incorrer no erro de reproduzir para os estudantes, representações
que retroalimentam ideias de uma África singular, negando sua imensa e real heterogeneidade.
Este trabalho, ainda em andamento, se baseia em revisão crítica de bibliografia específica, análise

156
documental das leis citadas, bem como dos discursos de docentes e discentes entrevistados ao
longo da pesquisa.

De qual África eles falam? Ensino de História da África nas escolas da rede privada de
Itaberaba.
LOURIVAL LUZ BONFIM FILHO (UNEB)

Resumo:  Este trabalho, ainda em andamento, objetiva refletir acerca das representações
existentes sobre o continente africano nos livros didáticos utilizados na rede privada do ensino
médio da cidade de Itaberaba, estabelecendo um confronto destas com as práticas, discursos
e performances dos professores destas referidas escolas. Entende-se o livro didático como
uma fonte de relevante importância na construção do conhecimento por parte dos estudantes
do período de estudo em questão. A priori, o problema que nos causa inquietação é saber se
este material por si só, atende as demandas dos alunos juntamente com as exigências da BNCC,
e se estes livros corroboram para a construção de representações balizadas em estereotipias,
contribuindo para retroalimentar versões parciais do continente africano. Destarte, entende-
se o livro didático como instrumento de apoio ao aprendizado, mas também como fonte para
o entendimento dos processos de ensino, e de como este é operado no âmbito da sala de aula.
Além disto, o objetivo final dessa pesquisa é verificar se ao concluir a citada etapa de estudos o
aluno terá condições de entender a África como um continente múltiplo, plural e diverso, com
grande diversidade de povos, nações e países, dotado de inúmeras religiões, detentor de riquezas
naturais; ou se continuará sendo representado por visões parciais e estereotipadas, em sua
maioria construídas e/ou retroalimentadas por perspectivas e visões de mundo pautadas pela
indústria cinematográfica hollywoodiana, ou por diferentes mídias balizadas pelo senso comum.
Nesta pesquisa também será observada existência de visões do continente africano pautados em
ideologias advindas de setores dos movimentos sociais negros, que estabelecem a África como
“pátria ou lugar de origem dos negros”, dotado de homogeneidades no campo da cultura, ou de
essências que o definem sob a raça. Usar-se-á como metodologia para a feitura deste trabalho, a
revisão bibliográfica específica sobre ensino de história da África, de ensino e didática, bem como
entrevistas feitas com os docentes da área de História das escolas em questão.

Das cores do saber – uma reflexão acerca da identidade africana na prática docente
ROSANE DOS SANTOS TORRES (SEEDUC)

Resumo:  O presente trabalho traz uma contribuição para a reflexão do tema envolvendo a
identidade e a cultura africanas em sala de aula. A proposta inicial é refletir sobre a história da
África e do negro como objeto de estudo no exercício da prática docente. O ponto de partida
é a Lei nº. 10.639/03, por meio da qual se busca dar maior destaque à cultura africana e afro-
brasileira. Defende-se que a aplicação efetiva da lei esbarra na resistência da comunidade escolar,
que, por vezes, vincula os conteúdos relacionados à cultura africana à imagem cristalizada de que
se trata de povos “inferiores”, herdeiros de uma religiosidade “negativa”, atrelados a formas de
trabalho pouco valorizadas. Ao abordar essa questão pretende-se trazer contribuições para uma
valorização mais efetiva das culturas africana e afro-brasileira entre os alunos da educação básica;
incentivar a comunidade escolar a explorar o tema da diversidade cultural brasileira; e colaborar
com a desconstrução de estigmas e preconceitos relacionados à identidade e cultura africanas.

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O segundo eixo de discussão é a prática efetiva em sala de aula, onde se pretende discutir os
caminhos que podem ser tomados pelos docentes para tratar o tema da cultura africana, superando
os estigmas históricos de inferioridade associados ao povo africano e seus descendentes. O mote
da discussão se dá a partir das oficinas realizadas pela autora do trabalho em sua prática docente.
Tal pesquisa se mostra relevante na medida em que se observa, entre a maior parte dos alunos,
uma resistência na recepção de temas envolvendo o cotidiano da cultura africana e a tentativa de
branqueamento de sua história pessoal. Passado mais de um século da abolição da escravatura no
país, ainda prevalece a ideia de que “homens de cor” são menos importantes socialmente. Tal fato
reafirma a perspectiva de que a escravidão deixou uma herança perversa para os descendentes de
cativos e ex-cativos: o estigma social vinculado à cor da pele.

158
SESSÃO 01: 21/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

A disciplina Estudo(s) de Problemas Brasileiros, a DSN e a tradição católica: as bases


axiológicas para a juventude universitária (1969-1974).
DAVISON HUGO ROCHA ALVES

Resumo: A presente comunicação é resultado das pesquisas em andamento feitas para a tese de
doutoramento no Programa de Pós-Graduação em História Social da Amazônia (PPHIST/UFPA) que
tem como objetivo estudar a história de uma disciplina acadêmica em tempos de ditadura militar
chamada de Estudo(s) de Problemas Brasileiros. A comunicação pretende debater a construção
curricular da disciplina EPB para o ensino superior a partir da promulgação do decreto-lei nº 869
de 12 de setembro de 1969. A disciplina EPB tinha dois elementos centrais dentro de proposta
de sua formulação, que são: a Doutrina de Segurança Nacional (DSN) e a tradição católica.
Usaremos como fonte de pesquisa as conferências ocorridas em setembro de 1969 na cidade
de Belém através da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM) em parceria
com o Ministério da Educação e Cultura (MEC) para debater o desenvolvimentismo e a segurança
nacional pensada pelos governos militares, outra fonte é o decreto-lei nº 869 de 12 de setembro
de 1969 que debate a concepção da educação moral e cívica para todas as modalidades de ensino,
a legislação educacional apresenta os valores morais e cívicos a serem usados nos diversos
espaços de formação da juventude brasileira e as notícias de jornais cariocas que apresentam
o problema da Educação moral e Cívica e sua indefinição na sociedade brasileira. O debate local
sobre a disciplina acadêmica EPB ainda está em construção dentro dos estudos historiográficos,
percebemos que existem diversas produções sobre a disciplina Educação Moral e Civismo e os
sentidos atribuídos a esta disciplina nas diversas regiões do país, no entanto, carece de estudos
aprofundados sobre a disciplina EPB no que se refere ao seu projeto de nação pensados pelos
governos militares para a juventude universitária. Por isso, recorremos aos trabalhos em torno da
EMC para compreender o projeto de educação Os trabalhos de Lerner (2013) para a compreender
a experiência da disciplina EPB na UERJ na pós-graduação, e os trabalhos de Bertotti (2015) e
Koch (2019) para compreender a experiência da disciplina EPB na graduação na UFPR e na UFRGS
são os únicos trabalhos que foram feitos sobre o tema em questão. Usaremos como referencial
teórico-metodológico as discussões em torno das disciplinas escolares e acadêmicas apontadas
por Ranzi; Oliveira (2004), Goodson (1990), Gatti Jr (2009) e Chervel (1999). O argumento central
que se quer desenvolver com essa pesquisa é que após o ano de 1968 com greves, passeata,
manifestações dentro das universidades contra os acordos MEC-USAID e as ações arbitrárias dos
reitores conversadores. Os governos militares criaram mecanismos de controle da juventude
universitária.

Celebrações cívicas no Ginásio Municipal de Serrolândia-Ba no período da Ditadura Civil-


Militar (1964-1985)
MARCONEY DE JESUS OLIVEIRA (UNEB)

Resumo: Esta comunicação tem como objetivo discutir algumas celebrações cívicas que ocorreram
no Primeiro Ginásio Municipal de Serrolândia-Ba durante a ditadura civil-militar brasileira (1964-
1985). As práticas cívicas, dentro do sistema educacional brasileiro, visavam a normatização e

160
disciplinarização do corpo estudantil, além do ufanismo patriótico que se alinhava as ideologias
do regime autoritário instaurado a partir 1964. Nascido em 1962, na recém emancipada cidade
de Serrolândia a 320 quilômetros da capital Salvador, o Primeiro Ginásio Municipal seguiu os
preceitos cívicos propostos pela ditadura civil-militar. Os desfiles, sessões solenes, hasteamento da
bandeira e cânticos de hinos patrióticos foram frequentes no cotidiano desse centro educacional,
principalmente em datas comemorativas a exemplo do sete de setembro, dia da bandeira,
aniversário da cidade etc. Além dessas datas, consideradas tradicionais, o Ginásio Municipal
celebrou entre 1971 a 1973 três aniversários da “revolução” de 1964, que tinha como único
objetivo a exaltação do próprio regime e o Sesquicentenário da Independência do Brasil em 1972.
Para a consecução desse texto, trabalhamos com a documentação do Ginásio como fotografias,
atas das celebrações cívicas, das reuniões e exame de admissão, que constituem em rico acervo
produzido no período estudado.

A tecnocracia nas diretrizes do Movimento Brasileiro de Alfabetização - Mobral (1970-1985)


LEIDE RODRIGUES DOS SANTOS (COLÉGIO ESTADUAL POLIVALENTE DE GANDU)

Resumo: O presente trabalho tem como objeto de estudo perceber a forma como a tecnocracia
aparece incutida nas diretrizes do Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral) entre os anos
de 1970 e 1985. O Mobral foi criado com intuito de alfabetizar adolescentes e adultos para, em
um período tido como breve (dez anos), erradicar o analfabetismo do país. Tendo em vista o
contexto histórico de criação e expansão do Movimento Brasileiro de Alfabetização, o país vivia
o auge do “milagre brasileiro”, cabia à educação a função de promover a formação do indivíduo
responsável pelo crescimento econômico do país. Assim, as iniciativas para educação passaram
a contar com capital estrangeiro, com orientação técnica para que pudessem desenvolver uma
educação voltada para o trabalho, tendo em vista que as reformas no campo educacional refletiam
o modelo de desenvolvimento capitalista monopolista sistematizado pelos militares durante a
ditadura. Através da lógica economicista, os técnicos assumiram importantes cargos no governo
militar e foram responsáveis pela materialização da ideologia tecnocrática. Nesse sentido, o
Brasil apresentava-se como uma grande empresa, e a educação como principal aporte para
suprir as demandas socioeconômicas impostas pelo mercado capitalista. Como justificativa, os
técnicos burocratas utilizam a teórica do capital humano para maximizar os avanços econômicos
associando-os a educação, de forma, a fazer-nos acreditar que está no sistema educacional as
mudanças e permanências necessárias para solucionar diferentes problemas enfrentados pela
nação. Dessa forma, buscamos apontar o modo em que as diretrizes operacionais (leis, decretos e
documentos reguladores) do Mobral procurou relacionar educação e desenvolvimento econômico,
característica principal dentro da perspectiva tecnocrática.

Apontamentos sobre a produção em História da Educação nas IES- BA- 2000-2019


REBECA LAÍSE SANTOS LIMA (UEFS)

Resumo: O trabalho aqui presente tem por objetivo realizar um levantamento exploratório e
inicial das pesquisas no campo de história da educação produzidas nos cursos de graduação e
pós-graduações de História na Bahia, no período de 2000 à 2019. Assim, o trabalho se propõe
em realizar um inicial apontamento sobre a historiografia da Historia da Educação, nos cursos
de História existentes na Bahia, é de fundamental importância por objetivar coletar dados para

161
a construção de levantamento atualizado da mesma destacando os temas mais abordados, os
períodos escolhidos e o lugar de produção dessas obras na historiografia baiana. A importância
deste tipo de produção, um levantamento da historiografia de um campo temático de investigação,
não apenas para elencar títulos, mas especialmente para refletir sobre os caminhos do próprio
campo, dar visibilidade à produção investigativa já existente; aos/as, pesquisadores/as; e mapear
instituições e programas.

As Classes Hospitalares no Brasil: práticas educativas que atravessaram o Atlântico (1980-


2019)
ALYNE MARTINS GOMES (SECRETARIA DE EDUCAÇÃO DO ESTADO DA BAHIA)

Resumo: Desde o início do século XVI, o oceano Atlântico foi via de transporte/tráfico de muito
mais que objetos, mercadorias e pessoas. Inserido nesse contexto, o Brasil experimentou o trânsito
de costumes, ideias, práticas e modelos educacionais. Pelo Atlântico, “navegaram”, também,
diferentes concepções educacionais, um “oceano” de metodologias e práxis que vêm sendo
descritas, estudadas e discutidas por pesquisadores e educadores em diferentes áreas. Com o
aumento dos debates sobre democratização da educação durante a Constituinte (1987-1988), bem
como a ação dos movimentos educacionais inclusivos, ampliaram-se as demandas por atendimento
educacional especial. Esta proposta de trabalho trata da Organização das Classes Hospitalares
no Brasil entre 1980 e 2019. Propõe-se a analisar, a partir do levantamento bibliográfico, de
documentos de natureza pública e jornalísticos, a implementação e desenvolvimento da educação
hospitalar, por conseguinte os desafios e as possibilidades de sua oferta aos jovens, adultos e
idosos (EJAI), em tratamentos de saúde nos hospitais de Itabuna, Bahia. Este trabalho insere-se
nos campos teóricos da História e da Educação e pretende somar aos debates sobre as políticas
educacionais, bem como a interlocução entre educação e saúde.

Treinamento de Professores para Modificar as Culturas Escolares: uma proposta da Campanha


Nacional de Educação Rural de 1947 a 1963
ELIENE RODRIGUES RAMOS

Resumo:  O objetivo desse artigo é analisar o treinamento para professores orientado pela
Campanha Nacional de Educação Rural – CNER, como recurso metodológico que possibilita
problematizar quais eram os propósitos desta política educacional direcionada para modificar
as culturas praticadas em escolas da zona rural. Para a realização desse trabalho recorremos ao
conceito proposto por Dominique Julia (2001) que define a cultura escolar como um “conjunto de
normas que definem conhecimentos a ensinar e condutas a inculcar, e um conjunto de práticas
que permitem a transmissão desses conhecimentos e a incorporação desses comportamentos”.
Para Julia (2001), analisar o papel desempenhado pela profissionalização do professor é um dos
três eixos para entender a cultura escolar, principalmente quanto aos saberes exigidos a esses
profissionais. Diante disso, é importante o diálogo com André Chervel (1990) e o estudo da
História das Disciplinas para entender a cultura produzida para escola da CNER, visto que, o autor
concebe que uma “disciplina” é “em qualquer campo que se encontre, um modo de disciplinar o
espírito, de lhe dar os métodos e as regras para abordar os diferentes domínios do pensamento,
do conhecimento e da arte”. A CNER, institucionalizada no final da década de 1940, representou
uma nova maneira de interpretar e pensar o campo utilizando a educação como veículo para

162
ensinar a ler, escrever, contar, e mais do que isso, tratava-se de cuidar de construir alicerces para
uma nova mentalidade nas populações rurais com base na integração entre comunidades rurais e
homogeneização dos comportamentos cívicos, morais, sanitários e para o trabalho agrícola. A CNER
pretendia dar ao meio rural uma interferência agressiva, substancial e de caráter permanente. O
curso de formação de professores foi um instrumento utilizado para disseminar um conhecimento
considerado válido a partir de duas modalidades: o curso para professores rurais locais em
exercício e o curso de formação para novos regentes do ensino primário rural. Os cursos possuíam
uma parte teórica que consistia em uma revisão das disciplinas do ensino primário (linguagem,
aritmética, geografia, história e ciências), acrescido de noções de pedagogia e sociologia rural,
higiene e legislação, economia doméstica, puericultura, enfermagem, trabalhos manuais e uma
parte prática. A CNER pretendia dar ao trabalhador do campo um nível mais elevado de cultura
a partir de um trabalho dinâmico de recuperação total do homem rural. A análise do currículo do
treinamento de formação de professores para a CNER permite perceber que houve uma tentativa
de renovação da educação com a incorporação de uma escola que deveria formar no aluno da
comunidade rural hábitos de vida e de trabalho para o desenvolvimento e progresso do campo.

Princípios para a constituição da cultura escolar: livros didáticos e a literatura civilizatória


em História’s do Brasil na história da Educação
CRISTINA FERREIRA DE ASSIS

Resumo: Esta proposta visa tecer considerações acerca do livro didático compreendido enquanto
importante categoria de análise e objeto de estudo para o campo da história, assim como da
história da educação em interface com a história cultural. Enquanto parte de uma pesquisa de
doutoramento ainda em decurso, essa apresentação visa suscitar algumas discussões preliminares
que envolvem o livro didático como objeto de análise da cultura escolar procurando suportes
teórico-metodológicos em Dominique Julia (2001) e Alain Choppin (2009). Nesse sentido, nossa
pesquisa se volta ao cenário político, cultural e social do Brasil dos anos 1920 aonde selecionamos
dois livros didáticos de História do Brasil voltados para o ensino secundário, de reconhecida
relevância nacional, publicados respectivamente por João Ribeiro em 1914 e por Rocha Pombo
em 1925. Nesse sentido, é preciso que as categorias tempo e espaço façam parte deste estudo no
sentido de situar a produção e divulgação dos livros no âmbito histórico e sociocultural do qual
fizeram parte. Por isso, a categoria tempo será compreendida como o período da Primeira República
brasileira incluindo-se os debates em torno da formação de uma identidade nacional e das teorias
racialistas e a categoria espaço como o campo dos discursos e sociabilidades onde João Ribeiro
e Rocha Pombo tiveram seus papeis delimitados como professores, autores de livros didáticos
e intelectuais ao lado de outras personalidades importantes da época. Com efeito, pensando
nessa sociabilidade, isto é, na circularidade de ideais no período, recorremos a instituições como
o Colégio Pedro II, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e a Academia Brasileira de Letras,
sendo estes espaços onde intelectuais estiveram à frente da escrita da história brasileira marcada,
especialmente naquele período, por uma literatura civilizatória. Compreendemos que nenhum
discurso é neutro ou isento de concepções e ideias. Por isso, nossa proposta busca suscitar
questionamentos acerca de como o debate racial, assim como os ideais republicanos estiveram
representados nos discursos presentes nesses manuais, nos apropriando nesse sentido de Roger
Chartier (2011) e pensando em como esses livros influenciaram o pensamento social de gerações
de brasileiros haja vista que as obras continuaram a ser editadas até meados das décadas de 1950

163
e 1960. Nesse entrecruzamento entre a história da educação e história cultural, pretende-se situar
o livro didático enquanto importante artefato da cultura escolar pensando não apenas na cultura
produzida pela escola quanto na influência desta para a cultura da sociedade.

A formação do professor secundário: concepção, problemas e currículo do Ensino de História


em tempos de autoritarismo
SIMONE DIAS CERQUEIRA DE OLIVEIRA (SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE FEIRA DE
SANTANA)

Resumo:  Este artigo trata da formação do professor secundário no Brasil dos anos de 1940.
Situa-se no campo da História da Educação e entrecruza a Formação de Professores (CATANI,
2016; NÓVOA, 1991, 1995) e Currículo do Ensino de História no Brasil (ABUD, 2005; NADAI,
1993; FREITAS, 2008). É parte da pesquisa de doutoramento cuja problemática foi construída em
torno do processo de constituição da formação do professor de História, compreendida desde os
conteúdos exigidos para sua entrada na profissão, por concursos públicos, até o desenvolvimento
e atualizações político-sociais e culturais para suas aulas no Ginásio da Bahia. Objetiva identificar
e discutir problemas na formação do professor secundário nos idos de 1940, problematizando
o currículo prescrito de História em tempos de autoritarismo explícito. Através da literatura
consagrada, de documentos escritos por Lourenço Filho e Gustavo Capanema, além da própria
legislação vigente, o texto inicia demarcando a concepção de formação de professores adotada
e segue com a discussão sobre elementos que consubstanciaram os problemas na formação
do professor secundário, numa interlocução entre currículo do Ensino de História e contexto
sociocultural e político da sociedade brasileira. A análise da discussão aponta para três problemas
centrais: preparação cultural, social e psicopedagógica do professorado para trabalhar com a
juventude. Este último problema é relacionado aos escassos estudos e pesquisas no Brasil, ou
que aqui chegavam à época, sobre o trato pedagógico e psicológico que se deveria ter na escola
com os jovens, parcela da sociedade fulcral aos interesses do regime autoritário Varguista. Novas
exigências conceituais sobre a aprendizagem e educação da juventude cresciam em meio a
transformações socioeconômicas e educacionais do Brasil e do mundo. A formação do professor
secundário, e o currículo do Ensino de História em especial, deveriam dar conta da preparação/
formatação da juventude aos moldes nacionalistas republicanos. Conclui-se que os repertórios
intelectual e ideológico do professor secundário assumem centralidade na construção de uma
certa compreensão de valores e de destino do homem.

SESSÃO 02: 22/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

PALAVRAS EPISTOLARES O DESVELAR DE VOZES: Narrativas em cartas de professoras e


professores, negras e negros, da escola primária em Salvador do ano de 1918
LADJANE ALVES SOUSA (PREFEITURA DE LAURO DE FREITAS)

Resumo:  O artigo objetiva possibilitar uma aproximação inicial com alguns documentos de
pesquisa para explorar a potência de análise e a viabilidade do estudo de doutorado sobre
narrativas docentes de professoras e professores, negras e negros, da escola primária no ano

164
de 1918, preservadas em cartas escritas por docentes. Nelas as professoras e os professores,
negras e negros, da escola primária, descrevem as condições do professorado, das escolas,
mas também outros conteúdos como relações domésticas, processos formativos, experiências
profissionais, entre outros. Memórias estas que evidenciam as cartas como práticas culturais que,
neste evento, se consolidam como uma das estratégias de lutas, ao que tudo indica, da primeira
greve de professores no Brasil. Algumas cartas foram exploradas e demonstram, de certa forma,
que as narrativas e trajetórias deste profissionais desvelam percursos coletivos favoráveis a
ampliação e redefinição da profissão docente. Consideramos, ainda, que a posicionalidade e o
lugar de fala na qual se encontrava a maioria das professoras e professores da escola primária
tenha sido atravessada pela interseccionalidade entre gênero, raça e classe social. O arcabouço
teórico utilizado nesta investigação será construído a partir da história vista de baixo( SHARPE,
1992), das relações entre a história social( THOMPSON, 1981, 1998) e a história cultural (
CHARTIER(2001), da teoria da análise de conteúdo de Bardin(2011) e Franco( 2005), da análise de
narrativas históricas( BASTOS e BIAR, 2015), e das contribuições sobre trajetórias profissionais de
educadores, profissão docente através de Silva ( 2004) e Nóvoa( 1992) e do lugar de fala ( RIBEIRO,
2017) e da interseccionalidade entre gênero, raça, profissão e renda a partir de Collins(1990) e
Colling(20105), e, ainda, das compreensões sobre narrativas epistolares ( REIS e LOPES, 1988).

Escritoras oitocentistas produzindo conhecimentos históricos: uma discussão para além do


cânone
JEANE CARLA OLIVEIRA DE MELO (IFMA)

Resumo: A presente comunicação debaterá a categoria de historiadora amadora (SMITH, 2003) com
vistas a ampliar o olhar acerca da historiografia oitocentista, promovendo um deslocamento que
atualmente ainda permanece centrado na produção dos homens de letras do Instituto Histórico
Geográfico Brasileiro – IHGB, para as mulheres escritoras que pontualmente gestaram obras de
cunho histórico, tais como livros didáticos, poemas épicos, biografias, autobiografias e ensaios
históricos. Textos estes negligenciados como parte integrante do processo de constituição do
campo disciplinar da História (séculos XIX e XX). Deste modo pretendemos “abrir a história” para
conhecer o papel que estas autoras desempenharam na construção do conhecimento histórico
produzido durante os oitocentos - papel este cuja trajetória ainda carece de uma maior investigação
e aprofundamento teórico-metodológico a mobilizar, por seu turno, outras categorias como o
gênero (SCOTT,1991), a história intelectual feminina (PERROT, 2005) e o memoricídio (DUARTE,
2018, BAÉZ, 2010) presente ao longo do tempo na dupla prática do apagamento dos textos de
mulheres e da expulsão das autoras do cânone historiográfico.

A historiadora e o arquivista: diálogos interdisciplinares sobre acervos, fontes e acesso à


informação na pesquisa em História da Educação
SIMONE DOS SANTOS BORGES (PREFEITURA DE FEIRA DE SANTANA), LUIS EDUARDO ABBUD
LOPES
Resumo: O artigo tem como objetivo apresentar um relato da experiência de trabalho na pesquisa
em história da educação, através da parceria estabelecida entre historiadora e arquivista, durante

165
o levantamento das fontes que embasam o trabalho da primeira, a qual no contato com o arquivista
aprende e compreende a importância dos múltiplos suportes que armazenam o documento, os
quais são denominados por nós historiadores e historiadoras como fontes, e como as tecnologias
de acesso a informação são importantes na preservação e na facilitação do acesso, por parte
dos pesquisadores, ao documento. Nessa parceria de trabalhado, fica estabelecido, também, o
entendimento de como as instituições de guarda e acervo dos suportes documentais, sobretudo
as que possuem o profissional em arquivologia, se comportam no atendimento ao pesquisador
em história da educação, facilitando ou dificultando o acesso a esses suportes, que no dizer de
Jean Glénisson são o objeto material do historiador. Para escrita desse relato nos debruçamos
sobre a história cultural a qual nos permite compreender, como afirma Chartier, enraizamentos
inteligíveis de práticas culturais, que segundo Lopes, é possível estudar em sua materialidade,
restabelecendo processos de produção, circulação e consumo, os usos e as apropriações que os
sujeitos da história atribuem aos objetos. Diante do exposto finalizamos esse relato apontando
as potencialidades que parcerias desse tipo trazem ao estudo da história da educação enquanto
campo da história, bem como o relacionamento entre esses profissionais é importante para
preservação dos documentos e da memória contida nos diferentes tipos de suportes e acervos.

Os Jardins de Infância nas teses apresentadas pelos professores públicos primário do


município de Salvador nas Conferências Pedagógicas (1913-1915)
VERÔNICA DE JESUS BRANDÃO

Resumo: O tema dos Jardins de Infância não constaram oficialmente nos quesitos escolhidos para
discussão nas Conferências Pedagógicas. O evento realizado na cidade de Salvador – Bahia nos anos
de 1913 e 1915 foi tomado para estudo na pesquisa que resultou na dissertação de mestrado que
teve como seu objeto a prática dos professores primários, na Primeira República. Nos documentos
consultados não foi possível perceber se os professores opinavam de alguma forma na escolha
dos quesitos propostos, também não foi relatado nos documentos sobre a execução do evento,
nem no regulamento que regia as atividades qual era o critério de escolha das questões. Contudo
é possível identificar uma variedade de assuntos e temas que emergem das teses escritas pelos
professores. Além das questões diretamente relacionadas com o currículo, os textos revelam
algumas das preocupações dos professores referentes a: adoção de novos métodos e processos
de ensino; o papel ou a responsabilidade da família na tarefa do ensino; a uniformidade dos
programas; as condições adequadas para a realização da tarefa do ensino, a falta de execução
da lei, a inexistência de material didático adequado, garantias de acesso e ainda, revelam o que
pensavam os professores sobre os jardins de infância. Uma análise mais cautelosa dos escritos de
alguns professores deixa explicito o seu pensamento sobre o tema. Vários dos professores que
escreveram suas teses para participar das conferências tiveram expressiva atuação no cenário
educacional baiano a exemplo de: Cincinato Franca que foi diretor do grupo escolar Rio Branco,
além de assumir outras atividades fora do campo educacional; Possidônio Dias Coelho, que foi
delegado escolar, e a professora Anfrísia Santiago, além de vários outros.

166
Aula Noturna para Trabalhadores em Feira de Santana no pós abolição (1903 a 1920).
DAIANE SILVA OLIVEIRA (IFBA - INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA
DA BAHIA)

Resumo: O objetivo desse trabalho é a abordagem do processo de instituição de uma escolarização


feirense no final no início do século XX, centralizando as práticas escolares do Professor negro
Geminiano Alves da Costa e de sua Aula Noturna para trabalhadores adultos na cidade de Feira
de Santana, Bahia de 1903 a 1920. A pesquisa tem bases nas proposições da História Social da
Educação, destacando os chamados sujeitos escolares e suas experiências cotidianas intra e extra
escola, para uma compreensão das teias de relações que nortearam as vivências do referido sujeito
como fenômeno social a ser apropriado. A proposta do trabalho que segue é uma abordagem
encaminhada para apropriação do Professor negro Geminiano Alves da Costa como um interlocutor
cultural, a partir de um levantamento dos dados sobre sua circularidade nos espaços feirenses, a
partir disso, os dados subsidiaram a pesquisa como sugere Ione Sousa (2008), na perspectiva de
olhar para os sujeitos de forma mais detida, mais distante das grandes instituições no intuito de
visualizar as minúsculas experiências de letramento, de alfabetização, seus significados para os
sujeitos envolvidos, e deixa de lado a preocupação com as grandes ideias pedagógicas e sistemas
de ensino. Para alcançar estes propósitos foi preciso aplicar o princípio de redução de escala de
observação ao estudo sobre o protagonismo de Geminiano da Costa, procurei destacar o sujeito
social nos diversos meios sociais, observando as redes de relações que ele foi tecendo no seu espaço
de experiências próximas, bem como as relações que o sujeito estabeleceu com outros âmbitos de
circulação, vivenciando experiências individuais e coletivas através de investimento de táticas para
sua própria inserção e de outros sujeitos. A partir da vivência desse sujeito buscamos evidenciar
o cenário educacional feirense no início do período republicano, marco histórico que determinou
nosso recorte, bem como destacar a identidade profissional desses sujeitos alunos dessa Aula
Nortuna para trabalhadores pobres, entrelaçadas com a do professor Geminiano da Costa.

Rumores e temores nas ações educativas do jornal “Correio Mercantil” (Salvador, 1838-1840)
FABIO VALENTE DE MORAES (SECRETARIA DE EDUCAÇÃO DO ESTADO DA BAHIA)

Resumo: Este estudo tem como objetivo geral analisar ações educativas do jornal baiano “Correio
Mercantil” em Salvador, entre abril de 1838 e dezembro de 1840, que, por intermédio do boato e da
promoção do medo, fez circular concepções em defesa da ordem e dos marcos morais e políticos
instituídos pelo Estado monárquico. Logo, a escassez local da instituição “escola” – mas, não sua
inexistência – permitiu extrairmos de um periódico aparentemente restrito ao mundo comercial,
o papel de executor de um acirrado combate ao que seus proprietários-redatores alegavam
ou endossavam ser perigoso aos grupos sociais que afirmavam representar (comerciantes,
proprietários, negociantes, empregados públicos e titulares) e estorvo a determinados modelos
de sociedade considerados virtuosos e civilizados. Desse modo, lembranças mais distantes – como
o Levante dos Malês (25 de janeiro de 1835) – e mais tenras – como a Sabinada (6 de novembro de
1837-16 de março 1838) – serviram de ingredientes insinuantes para realçar as tensões rotineiras
provenientes, por exemplo, das fugas e de uma série de manifestações públicas protagonizadas
por parte da população negra, que, mesmo legalmente proibidas ecoavam persistentes pela
cidade, muitas vezes sem intenções subversivas nítidas, todavia, avultadas nas linhas e entrelinhas
do “Correio Mercantil” como, no mínimo, potencialmente ameaçadoras.

167
Educadores, Médicos e a Materialidade Escolar: Bahia- 1870/1890.
IONE CELESTE JESUS DE SOUSA (UEFS)

Resumo: A Comunicação proposta enfoca táticas de médicos baianos em expandir seu campo de
atuação e disseminar um projeto civilizatório a partir de propostas de Hygiene Escolar a partir
de pareceres, sugestões e inspeções da materialidade escolar: edifícios, moveis e utensílios. As
noções de corpo sadio e higiênico foram utilizadas para difundir práticas médicas sobre a população
escolar infantil, divulgando representações de classe, gênero e raça, de forma interseccionalizada.
Numa perspectiva micro histórica de rastros e tessitura de discursos, como fontes são utilizados
artigos da Gazeta Médica, anúncios , relatórios de presidentes de província e de comissões da
Instrução Pública.

168
SESSÃO 01: 21/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

A escravização dos Negros de São Domingos-Haiti: e a religião católica diante do código


negro de 1685 e da Constituição Colonial de Toussaint Louverture (1685-1801).
BERNO LOGIS

Resumo: No início da primeira metade do século XVII, iniciou-se, no Novo Mundo, a colonização
francesa de São Domingos. Tal colonização envolveu pessoas de diferentes etnias, como também,
de inúmeras camadas sociais. Neste processo os negros importados da África foram considerados
a categoria social mais baixa da sociedade colonial, sendo submetidos ao trabalho escravo por
séculos. Isto ocorreu por meio de um discurso ancorado em um modo de produção escravagista,
que obteve o apoio de lideranças religiosas da época, oriundos da Igreja Católica. Esta Instituição
religiosa também foi uma das principais legitimadora da escravidão na Colônia, estando presente
em todas as esferas do cotidiano colonial. O código negro de 1685 representa o documento mais
valioso que confirma e concretiza estas ideias do sistema escravocrata, que foram amparadas por
dogmas defendidos pelo catolicismo. Por meio deste código, os escravizados foram obrigados a
obedecer aos dogmas católicos, sendo proibidos de manifestarem suas crenças e suas tradições.
Anos após o inicio da revolta dos escravizados em 1791 que obrigou os comissários (representantes
da metrópole) a decretar em 1793 a abolição geral do trabalho escravo na Ilha, Toussaint Louverture
governador geral de São Domingos, publicou a primeira constituição, em 1801. Embora seu
principal objetivo fosse garantir a liberdade de seu povo, seu posicionamento político, por meio
das recomendações expressas pela Constituição de 1801, causou indignações entre os autores e
historiadores da Revolução. Se para alguns, a Constituição de 1801 teve como proposta confirmar
a religião católica como única do Estado e, ao mesmo tempo, impor suas crenças opressoras,
para outros, a influência da religião católica nesta Constituição se manteve devido ao discurso
do Sistema Colonial internalizado e defendido por boa parte da liderança negra. Desse modo,
este trabalho objetiva analisar as influências e os impactos da religião católica no processo da
escravização na Colônia francesa de São Domingos, partindo do início da colonização em 1625 até
a Constituição de 1801. Sendo assim, nossa análise levará em consideração leis, cartas e tratados
publicados a respeito da religião na Colônia ao longo do período de 1625-1801.

Africanos e afro-brasileiros nas lutas pela independência do Brasil na Bahia


IRINEU ARANHA OLIVEIRA (SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO - IBICUÍ - BA)

Resumo: Até meados do século XX a historiografia sobre a Independência do Brasil pouco


discutira sobre a participação dos africanos e descendentes nas lutas travadas na Bahia em prol
à Independência, as primeiras discussões historiográficas sobre a Independência na Bahia foram
feitas, inicialmente, por Inácio Aciolli, contemporâneo da referida guerra, depois, nas primeiras
décadas do século XX por Braz do Amaral, e mais tarde na segunda metade do século XX por
Luís Henrique Dias Tavares, apesar da importância das discussões dos referidos pesquisadores na
historiografia da Independência na Bahia, as análises feitas por eles centraram-se principalmente
na investigação sobre a participação dos portugueses aliados de Madeira de Melo, da elite baiana
que fizera oposição ao general português, e toda a ação militar desenvolvida na guerra. Embora
seja necessário ressaltar que os escravos, libertos e homens de cor livres estão presentes nas
análises dos referidos pesquisadores, principalmente em Luís Henrique Dias Tavares, mas aparecem

170
apenas como coadjuvantes, e não como protagonistas. A partir da segunda metade do século
XX, historiadores como João José Reis, o canadense Hendrik Kraay, a educadora e pesquisadora
Eny Kleyde Farias, entre outros, desenvolveram pesquisas sobre a participação desta parcela
significativa da população baiana, africanos e afro-brasileiros, na guerra pela Independência do
Brasil na Bahia. Portanto a presente pesquisa fundamentada nestes pesquisadores, e, nas análises
das fontes investiga a participação de homens de cor livres, libertos e escravos (africanos e afro-
brasileiros) na referida guerra.

Gênero e Escravidão nos Cadernos do Promotor. Bahia. Século XVII


TACIANE DE ARAUJO SANTOS (UEFS)

Resumo: O Brasil como domínio de Portugal estava submetido a Santa Inquisição (1536- 1821),
e apesar de não ter instalado um Tribunal enviava agentes inquisitoriais para julgar hábitos ou
ações consideradas heréticas pela Santa Igreja Católica praticados por quem aqui residia.Dentro
da vasta documentação Inquisitorial, utilizo os registros presentes nos Cadernos do Promotor do
século XVII. Nos Cadernos do Promotor contém denúncias, entre outras anotações de devassas
ou diligências, e cartas que de certo modo, serviam como forma de denúncia. Podendo assim
perceber questões relacionadas a religiosidade em geral, as relações sociais, culturais e políticas na
Bahia Colonial. Através da análise dessa fonte documental buscarei discutir as relações de gênero
e escravidão, como os homens e mulheres de “cor” escravizados são apresentadas observando
nesses relatos, a forma como suas vidas eram descritas dentro desses cadernos, possibilitando
analisar as formações de redes de sociabilidade, como o catolicismo perpassava o cotidiano
colonial, a religiosidade, e como estes se utilizavam de práticas mágicas-religiosas seja elas para
bênçãos, curas, feitiçaria, os batuques, calundus, adivinhações , bolças de mandingas, formação
de objetos para a proteção. Tais atitudes transgressoras cujo homens e mulheres africanos e
afrodescendentes vinheira a ser denunciados.

As denúncias contra feitiçaria remetidas do Brasil no caderno do promotor 130


DIMAS CATAI SANTOS JUNIOR (IFBAIANO - INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E
TECNOLOGIA BAIANO)

Resumo: A percepção sobre a feitiçaria sofreu com uma intensa transformação na segunda metade
do século XVIII. Essas alterações faziam parte de um quadro mais amplo de mudanças promovidas
pelas reformas pombalinas que alcançavam o campo das consciências, das letras, da justiça, das
relações comerciais e do ensino e promoviam a migração de ideias que até pouco tempo eram
dogmáticas ao campo do erro e do atraso, devendo ser superadas e abandonadas. O Santo Ofício
foi uma das instituições que mais sentiu essa virada das consciências. Percebemos isso de maneira
mais clara entre os finais da década de cinquenta e meados de setenta com a materialização
dos novos tempos no último regimento geral de 1774. Dentre todas as transformações que
ocorreram com esse documento a que mais nos interessa foi a leitura promovida sobre feitiçaria.
Se antes entendiam que o feiticeiro podia firmar pacto demoníaco para atingir determinados fins,
naquele momento a relação de intimidade e cumplicidade entre demônios e humanos passava a
ser vista como improvável. Prevalecia a leitura de que as práticas mágicas eram promovidas por
supersticiosos e enganadores.
Essas mudanças tiveram efeito prático sobre a vida de vários africanos e seus descendentes

171
na América Portuguesa. Ocupando espaço cada vez mais considerável no quadro de denúncias
enviadas por comissários do Brasil nos cadernos do promotor desde finais do século XVII e XVIII
a leitura sobre as suas práticas mágicas sofreram influência direta dos novos posicionamentos
defendidos pela instituição. Neste trabalho tentaremos acompanhar os efeitos da mudança de
pensamento acerca da feitiçaria e como isso afetou o quadro de denúncias enviadas do Brasil.
Para tanto, faremos a análise das denúncias contra feiticeiros presentes do caderno do promotor
130 da Inquisição de Lisboa dando destaque aquelas remetidas do Brasil tentado traçar, quando
possível, o grupo de procedência, as práticas pelas quais eram acusados e as leituras feitas pelos
denunciantes sobre a ritualística empregada com objetivo de perceber como e se as novas ideias
defendidas na metrópole atingiam a colônia americana.

Navegando em outros mares: a presença luso-brasileira nos portos de Moçambique entre


1810 a 1822
CAROLINA DO NASCIMENTO DE JESUS

Resumo: Com tratado de 1810, resultado da transferência da coroa portuguesa para o Brasil, a


Grã-Bretanha conseguiu a colaboração de Portugal para a abolição do tráfico de escravizados.
Com a pressão Britânica, cinco anos depois Portugal ratifica o tratado e oficializa a colaboração
anterior comprometendo-se em proibir o tráfico feito ao Norte do equador e, em 1817, uma
convenção adicional permite a vistoria de navios suspeitos. Como resultado da proibição, existiu
um certo deslocamento que atingiu portos importantes como o da Costa da Mina e aumentou,
ainda que em pequenos números, a concorrência ao Sul. Nesse cenário, portos de Moçambique
que estavam fora do grande circuito do tráfico Atlântico, podem ter atraído alguns armadores
interessados na mudança de rota, uma vez que a concorrência seria menor e não existia o risco da
ilegalidade. A proposta dessa comunicação é discutir qual foi a dinâmica na costa de Moçambique
e a atuação luso-brasileira dentro dessa dinâmica depois do tratado, tanto traficantes que já
comercializavam escravizados na costa Oriental de África quanto os que podem para lá ter
migrado. Por independência do Brasil ter influência na presença brasileira nesse entreposto, o
recorte fica estabelecido 1822.

A liberdade como efeito colateral: tráfico, tensões e liberdade no Atlântico (1810-1813)


PAULO CÉSAR OLIVEIRA DE JESUS (UFRB)

Resumo: Nos últimos anos, as pesquisas sobre o comércio transatlântico de africanos escravizados
têm apresentado resultados animadores. Fazendo uso de novas ferramentas teórico-metodológicas
e atentos às múltiplas direções que o tema oferece, pesquisadores estão desvendando aspectos
fundamentais do comércio negreiro até então pouco explorados. Dessa forma, tais estudos têm
feito emergir gradualmente histórias das maiores vítimas desses processos, os escravizados.
Compreendendo a importância de um diálogo mais estreito com esse promissor horizonte
interpretativo, esta pesquisa busca mapear o universo de escravizados embarcados nos negreiros
que atuavam a partir do porto da Bahia e que foram apreendidos por cruzadores britânicos sob
acusação de violação dos termos do Tratado de 1810. Esta comunicação apresenta resultados
preliminares da análise dos processos resultantes das apreensões ocorridas entre os anos de 1810
e 1813, por meio dos quais se busca reconstruir parte da odisséia de um conjunto de africanos
escravizados que, de uma forma improvável, recobraram sua liberdade.

172
Maternidade e alforrias na Cidade da Bahia setecentista.
RAIZA CRISTINA CANUTA DA HORA (SECRETARIA DE EDUCAÇÃO DO ESTADO DA BAHIA)

Resumo: A presente proposta de comunicação é fruto das minhas pesquisas de doutoramento,


ainda em curso, junto à Linha de Pesquisa Escravidão e Invenção da Liberdade do Programa de
Pós-graduação em História da Universidade Federal da Bahia. Tal pesquisa tem por objetivo
geral investigar os arranjos familiares de africanos e africanas na Cidade da Bahia na segunda
metade do século XVIII, os significados e a importância atribuída a eles. Para esta comunicação,
propõe-se apresentar notas de pesquisa relativas à relações estabelecidas entre maternidade
e cartas de alforria. Investiga-se, primeiramente o que é possível observar sobre os arranjos
parentais de pessoas africanas a partir das cartas de manumissão, e, logo em seguida, o papel das
mães (escravizadas ou libertas) na conquista das alforrias de suas crianças, na Cidade da Bahia
em meados do século XVIII. Tal empreendimento realiza-se a partir das análises das cartas de
liberdade contidas nos livros de notas do tabelião referentes aos anos de 1750 a 1755.

SESSÃO 02: 22/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

“Aquela dita comarca da Bahia abunda de muitos gêneros próprios, que são de consumo da
praça de Moçambique”: o comércio entre Bahia e Moçambique no século XIX.
ANA PAULA SANTOS MARIA (UFRB)

Resumo: O comércio é responsável por movimentar diferentes mercadorias em todo o mundo e,


dessa forma, contribui para alterações significativas na lógica de vida social da humanidade. Entre
os séculos XVI e XIX, embarcações cruzaram oceanos em um fluxo contínuo de negócios,
carregadas com artigos de toda natureza – por exemplo: tabaco, algodão, mandioca, metais
preciosos, marfim, gêneros molhados e humanos escravizados. Para o Brasil, o comércio de
africanos escravizados foi, durante mais de trezentos anos, um dos mais importantes e
lucrativos ramos de sua atividade comercial. Promovendo as bases do desenvolvimento
econômico, o tráfico proporcionou ao porto da Bahia e aos comerciantes que a partir dele
atuavam a inserção de gêneros da produção brasileira no mercado africano, estabelecendo
então uma forte ligação com diferentes regiões daquele continente. Esta pesquisa, ainda em
fase inicial, apresenta impressões sobre a relação mercantil entre a praça da Bahia e os
principais portos em África. Busca também identificar as mercadorias, de produção brasileira,
que, embarcadas pela praça da Bahia, viabilizaram e portanto constituíram as relações
mercadológicas com Moçambique, país da África Austral. Na tentativa de responder a tais
questões, utilizo como fonte periódicos brasileiros que se preocupavam em abordar os
negócios da época, tais como: Idade D’Ouro do Brazil e Gazeta do Rio de Janeiro.

173
“Because we’re colored”: intelectualidade e identidade negra em Autobiography of an Ex-
Colored Man, de James Weldon Johnson (1895 – 1912)
CAIO ARRABAL FERNANDEZ JABBOUR (UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS)

Resumo: A apresentação a seguir objetiva expor a obra de James Weldon Johnson, Autobiography
of an Ex-Colored Man como parte de um processo de formação intelectual do autor, em diálogo
com suas experiências de vida. Sabe-se, através de sua autobiografia real, que Johnson foi redator
do periódico The Daily American, que circulou em sua cidade natal no estado da Flórida entre
1895 e 1896; além disso, também trabalhou como diplomata na Venezuela e, posteriormente,
na Nicarágua, além de transitar em círculos intelectuais mais reconhecidos pela historiografia
como seus contatos com Booker T. Washington e W. E. B. Du Bois. Assim, amplio as análises já
destinadas ao autor, extrapolando a circunscrição de sua obra, inserindo-a em um movimento de
complexificação das questões identitárias acerca da raça. Para isso, considero de vital importância
a existência de uma rede de intelectuais que opera através do Atlântico, sendo balizada por
pensadores caribenhos, norte-americanos, ingleses e sul-africanos. Esta problemática parte da
consolidação do cânone historiográfico que pautou os debates intelectuais acerca das questões
raciais nos Estados Unidos em três principais pensadores: Booker T. Washington, W. E. B. Du
Bois e Marcus Garvey. Todavia, estudos recentes, produzidos a partir dos anos 2000, apontam a
multiplicidade de questões e debates propostos por diversos agentes além do trio mencionado.
Neste contexto, Autobiography of an Ex-Colored Man, de James Weldon Johnson, passou a ganhar
espaço nos estudos por conferir protagonismo aos indivíduos birraciais.
Deve-se considerar também que o público-leitor estadunidense mantinha estreitas relações com
o gênero literário das autobiografias, uma vez que este fora apropriado e divulgado em larga
escala pelos movimentos abolicionistas. Partindo desta experiência de leitura, Johnson se utiliza
desse conhecimento para construir sua autobiografia ficcional, publicada de forma anônima em
1912, com o objetivo de narrar a vida de um colored e, consequentemente, seus questionamentos
acerca de seu lugar no mundo, sendo considerado ora branco, ora negro. Por fim, utilizo-me da
fonte literária e arquivos pessoais de Johnson, como recortes de jornais e críticas de jornais,
contemporâneas ao livro, para construir a apresentação.

Pós-abolição: vida e cotidiano dos ex-escravizados no Recôncavo da Bahia no século XIX


EDSON DE ANDRADE ARAÚJO

Resumo: O presente artigo tem como objetivo mostrar a vida e o cotidiano dos ex-escravizados
após a promulgação da Lei nº 3353 denominada Lei Áurea e problematizar para onde foram
essas pessoas no Recôncavo da Bahia. Metodologicamente este estudo envereda pelo campo
da pesquisa bibliográfica. Como aporte teórico conto com as contribuições de Wlamyra R. de
Albuquerque (2004), que traz o fim do escravismo no Brasil quebrando alguns paradigmas; Walter
Fraga Filho (2006), ao discutir o destino dos ex-escravizados, o que fizeram e o que pensavam
sobre a liberdade após o fim da escravidão; Antônio Risério (2004), o mesmo aborda sobre a
sociedade dada aos contatos, trocas, interpretações, sendo uma sociedade hierarquizada mas ao
mesmo tempo, francamente informal, dentre outros autores importantes para debater a temática
proposta. Os resultados a que chegamos com essa análise foi que a sociedade naquele período,
assim como o poder público, não amparou essas pessoas e que apenas a promulgação da Lei não
seria suficiente para atender aos anseios desse povo que tanto sofria e que necessitava de uma

174
política pública que amparasse e reparasse, esses indivíduos. Observamos que os ex-escravizados
encontraram muitas barreiras dificultando a sua inserção na sociedade no Recôncavo, pois para
além da promulgação da Lei, existia senhores que mantinham seus escravizados presos em sua
fazenda, assim como existia sansões para os que se encontravam “libertos”, pois o intuito era
tardar a sua circulação em meio a elite que transitava no meio urbanizado.

Mulheres negras para sala de aula: storytelling, africanas e os mundos do trabalho na Bahia
Oitocentista
CRISTIANE BATISTA DA SILVA SANTOS (UESC)

Resumo: Este trabalho discute as histórias de mulheres africanas adaptadas em narrativas didáticas


para sala de aula num espaço não-formal de aprendizagem. Quais as representações sobre africanas
e o tráfico, mulheres escravizadas ou libertas aparecem no currículo, livros didáticos e periódicos
nos discursos Oitocentistas baianos? Como elaborar um material didático para a educação
básica sobre africanas de caráter interdisciplinar, acessível e que tenha uma dimensão simbólica
de debate de conceitos como decolonialidade e interseccionalidade? O objetivo é apresentar
aspectos da diáspora africana atlântica nas vilas do sul da Bahia reelaborando as histórias de
luta, enfrentamentos e combater os silêncios persistentes na História Regional. Como resultados
de um projeto de pesquisa discuto novas possibilidades de acessar fontes e metodologia para
a inserção das históricas diaspóricas na sala de aula. Em todas as narrativas são selecionadas as
histórias de mulheres imersas nos mundos do trabalho para além da capital baiana, - muitas vezes
indo ou vindo de lá - , desvelando dinâmicas, semelhanças e diferenças com as suas vidas antes e
pois de cativeiro em suas micro histórias.

A música na escravidão: resistência cultural nas colônias espanholas e inglesas


GIOVANA ELOÁ MANTOVANI MULZA (UEM - UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ)

Resumo: Os aspectos da resistência indígena e africana à dominação europeia assumiram formas


variadas nas Américas espanhola e inglesa. Apesar das notórias distinções nas estruturas dos
sistemas coloniais implantados no amplo continente americano – especialmente em função às
diversas realidades existentes na Coroa espanhola e inglesa a partir das décadas finais dos séculos
XV –, a escravidão constituiu uma importante e até mesmo preeminente forma de mão de obra na
produção e extração de bens e gêneros naturais. Fosse mediante os povos nativos secularmente
presentes naqueles territórios ou através de comunidades trazidas a África, o “outro” não-europeu
era concebido como ser inferior e, portanto, apto aos trabalhos manuais concebidos como
vulgares. No transcurso do intervalo cronológico que compôs a escravidão nas colônias americanas
– tradicionalmente entre as centúrias quinhentistas e oitocentistas –, os povos indígenas e as
comunidades africanas acabaram por encontrar formas de resistência que amiúde se manifestaram
de maneira implícita, assumindo o aspecto de uma resistência camuflada. No presente trabalho,
buscaremos analisar o papel da música enquanto uma ferramenta de resistência nas Américas,
empregando os conceitos de infrapolítica e de “tática” desenvolvida Michel de Certeau (1998).
Entre os povos indígenas submetidos ao sistema colonial espanhol, as canções permaneciam
ditadas em língua nativa e eram integradas por elementos da cultura local. As músicas, assim,
acabaram por desempenhar a função de preservação, consistindo em uma forma de resistência
diante das tentativas de imposição dos modelos religiosos e comportamentais consagrados pelos

175
hispânicos. No que se refere aos africanos, retirados do continente-mãe e trazidos também às
Américas inglesas, os spirituals estiveram presentes nas lavouras, sendo cantados na língua inglesa
e repleta de heranças do cristianismo europeu. Essa apropriação da cultura europeia não esteve
isenta de ressignificações por parte dos escravos africanos, os quais acabaram por empregar a
música como uma espécie de esperança de liberdade frente o sistema escravocrata. As músicas,
portanto, consistiram em formas importantes de resistência frente à dominação europeia.

Propriedade Cativa inventariada na Freguesia de Santo Estevão do Jacuípe 1840-1888.


LELIANE GONÇALVES MACHADO (SEDESO)

Resumo:  O presente artigo busca analisar a propriedade cativa inventariada na freguesia


de Santo Estevão do Jacuípe no século XIX, que neste período tinha como principal atividade
econômica a produção fumageira com base na mão-de-obra escravizada. O cativo - por muito
tempo considerado um bem destinado as grandes propriedades agrícolas, privilégio de senhores
de engenho - foi significativamente utilizado nas pequenas propriedades fumageiras da referida
freguesia, ocupando expressivo espaço na composição da riqueza da mesma. Pretendemos, a partir
da análise dos inventários, apresentar a composição da população escravizada na freguesia de
Santo Estevão do Jacuípe, a estrutura da posse, e os preços a eles atribuídos. Procura-se também
perceber os impactos que as leis antiescravistas causaram na produção escravista de fumo.

SESSÃO 03: 23/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

Intelectualidade negra e a luta antiapartheid no Brasil nas décadas de 1970 e 1980 - Benedita
da Silva e Abdias do Nascimento
FABIANA VIEIRA DA SILVA (SESI-SP)

Resumo: Esta proposta de trabalho tem o intuito de fortalecer a compreensão sobre o pensamento


da intelectualidade negra no Brasil nos anos 1970 e 1980, inserindo-a na perspectiva dos estudos
da diáspora negra, com foco em duas figuras principais, Benedita da Silva e Abdias do Nascimento
e suas atuações em torno das discussões e perspectivas de luta ao nível nacional e internacional
pelo fim do apartheid. O apartheid deu possibilidade de mobilização de modo a extrapolar as
fronteiras nacionais e promover um esforço de solidariedade e que, no Brasil, valia-se de contatos
nunca cessados entre as duas regiões, permitiu uma ampla mobilização em um esforço de ação
transatlântico, mas que permitia que, a partir daqueles eventos, fossem, também, discutidas as
particularidades de cada local, permitindo a emergência de uma política global que colocou a
questão racial no centro dos debates.
O foco de análise será, então, os laços que emergem com o exterior, tendo em vista a centralidade
que tal intercâmbio teve na trajetória do negro brasileiro e a luta internacional contra o racismo.
A particularidade dos nomes selecionados – Benedita da Silva e Abdias do Nascimento –
chama atenção em decorrência das redes de sociabilidade tecidas, por atuarem nas esferas
governamentais, na militância negra, servindo como referências para outros intelectuais e
pelos pensamentos produzidos por ambos que abarcam não apenas o âmbito da política, mas,
sobretudo, como propostas que partem de elementos culturais para propor soluções antirracistas

176
em âmbito econômico, social, cultural, artístico, religioso, epistemológico sob os ideais do pan-
africanismo. A compreensão de que os esforços de luta destes dois nomes representativos de
parte da militância negra iam além da busca pela solidariedade, mas se manteve enquanto parte
da luta tendo em vista a história do negro na diáspora e a opressão ao mundo cultural negro
enquanto marca do racismo. Para além de questões que envolviam a inserção no mercado de
trabalho, por exemplo, a proposta de Benedita girava em torno do que ela chamava de resgate
ao “nosso cultural massacrado”, que deveria ser buscado, a fim de que se construísse uma nova
sociedade, reformulada em seus aspectos culturais, políticos e econômicos.

O Balanço do Reggae em Itabuna – História, estratégias e trajetória de um ritmo atlântico-


diaspórico
ROBSON RODRIGUES (PREFEITURA MUNICIPAL DE ILHÉUS)

Resumo:  O presente artigo traz considerações preliminares da pesquisa em andamento, Do


comercio etílico e ambulante ao Planeta Reggae: os percursos da cultura reggae em Itabuna
(1990 – 2000), que visa analisar o movimento reggae em Itabuna a partir dos comerciantes que
utilizavam o ritmo jamaicano para atrair clientes, bem como a consolidação do estilo musical na
cidade, com o surgimento do bloco Planeta Reggae. Este percurso, teve como ponto de partida,
o astro jamaicano Jimmy Cliff, que fez uma apresentação na cidade no início da década de 1990,
passando pelos artistas nacionais do gênero, como os cantores baianos Dionorina, Edson Gomes
e as bandas Cidade Negra e Tribo de Jah.
Os referenciais teóricos que nortearão este trabalho, apoiam-se nos autores Stuart Hall e Paul
Gilroy, visto que o objeto deste estudo está inserido na discussão acerca da diáspora africana e o
movimento Atlântico. O balanço do reggae lento e intenso aporta no Brasil, ramifica-se nas mais
diversas regiões, é recebido e reelaborado de acordo a cultura local, porém não perdendo uma de
suas principais características, o discurso de resistência e africanidade.

Imprensa e seus mecanismos: a criação de estereótipos pelos jornais da população negra e


periférica de Itabuna (1988/1991)
NATALLIE DOS SANTOS PESTANA DE OLIVEIRA

Resumo: Esse trabalho é parte de uma pesquisa de mestrado em andamento, que busca analisar
de que forma a imprensa cria e reforça estigmas e estereótipos dos bairros de população negra e
periférica da cidade de Itabuna e dos seus moradores. A cidade de Itabuna é um município de porte
médio do interior da Bahia, que hoje possui cerca de 240 mil habitantes, teve seu crescimento
desordenado, graças a sua rápida urbanização, tendo a criação de vários bairros sem estruturas no
final da década de 1970, para suprir as demandas do seu crescimento. Tais espaços eram marcados
pelos problemas relacionados a falta de serviços básicos, como falta de saneamento básico,
sem água potável, ruas não pavimentadas, sem postos de saúde, sem escolas, nem programa
de assistência social, transporte público deficitário e nenhuma estrutura de segurança pública.
A maioria de seus moradores eram pessoas pobres, trabalhadores assalariados e trabalhadores
rurais do cacau, desempregados que com as sucessivas crises da lavoura, migraram para os centros
urbanos da região em busca de empregos e acabavam tendo que sobreviver de subempregos ou
na economia informal. Na década de 1980, era comum a presença de gangues de bairro, tidas
pela polícia como sua grande inimiga. O objetivo do trabalho é compreender os mecanismos da

177
imprensa na estruturação e divulgação dos estereótipos dos locais de moradia da população negra
e pobre da cidade e como isso influencia na naturalização das violências cometidas nessas áreas.
A pesquisa se dá a partir da análise da trajetória de gangues pertencentes à bairros periféricos da
cidade, que foram cobertos pelos periódicos Jornal Agora e Diário de Itabuna, entre o período de
1988 à 1991, período em que as gangues analisadas se mantém em atividade na cidade.

A Estrada Ilhéus-Itabuna e o escoamento do cacau: a implantação do complexo rodoviário-


automobilístico no Sul da Bahia (1928-1950).
LUCIANA MARIA SANTIAGO BALDOINO

Resumo:  No início do século XX com a crescente influência do capital norte americano na


economia brasileira verifica-se uma substituição dos projetos de infraestrutura de transportes:
abriu-se caminho para a construção das rodovias em detrimento das ferrovias. No Sul da Bahia,
entre Ilhéus e Itabuna, foi projetada uma estrada de rodagem, para interligar estes municípios,
como alternativa ao escoamento do cacau realizado pela Estrada de Ferro Ilhéus a Conquista
– EFIC. Em consonância com o entusiasmo pela “opção rodoviária” idealizou-se, em 1920, a
estrada de rodagem com um trajeto mais curto que o da ferrovia, margeando o rio Cachoeira.
Considerada a “coluna vertebral” de Ilhéus, a estrada foi inaugurada, em 1928, marco cronológico
inicial desta pesquisa, com problemas de estrutura apenas solucionados a partir de 1932 quando
o Instituto de Cacau da Bahia, órgão estadual, encarregou-se da expansão da trama rodoviária
dos municípios cacaueiros responsabilizando-se pela conservação, reparação e ampliação da rede
de estradas de rodagem. Lideranças regionais afirmavam que o atraso dos municípios de Ilhéus
e Itabuna se devia à ausência de estradas que permitissem trafegar os automóveis - importados
da indústria automobilística norte-americana e uma grande novidade no Brasil - com facilidade
e o transporte das mercadorias com custos menores. A escolha da rodovia como principal via
de escoamento foi a escolha de uma fração de classe em disputa com outra, que defendia os
interesses do capital inglês no porto de Ilhéus e na EFIC. O rodoviarismo é alvo de discussões
atuais, pois se tornou o ramo hegemônico entre os modais de transportes no Brasil. Este trabalho
busca preencher lacunas sobre a implantação da infraestrutura de transportes em Ilhéus, questão
central para a economia cacaueira no período. O marco cronológico final deste trabalho é o ano
de 1950, quando o complexo rodoviário-automobilístico foi implantado, e a conexão Estado-
indústria automobilística passou a favorecer abertamente o parque rodoviário, tornado padrão de
transportes no país. Como referencial teórico aplicaremos as reflexões de Karl Marx em torno da
circulação da mercadoria e como referências bibliográficas os trabalhos de Antônio Accorsi, Flávio
Limoncic e Kátia Pontes. Utilizamos como materiais as fontes hemerográficas, iconográficas, e
oficiais, localizadas no Arquivo Público do Estado da Bahia - APEB, no Centro de Documentação
e Memória Regional – CEDOC/UESC e na Biblioteca da Comissão Executiva do Plano da Lavoura
Cacaueira - CEPLAC.

Pela exportação direta do cacau: as disputas e estratégias do Porto de Ilhéus e a presença


dos navios suecos (1924-1935).
KÁTIA VINHÁTICO PONTES (UESC)

Resumo: O presente trabalho visa o aprofundamento da discussão iniciada na tese de doutorado


“O binômio porto-ferrovia: o escoamento da produção cacaueira no sul da Bahia (1920-1947)” e

178
tem por objetivo problematizar as disputas e estratégias do Porto de Ilhéus na inserção no mercado
externo, especificamente no que tange à acentuada presença dos navios suecos. Em 1926, marco
inicial da pesquisa, o Porto de Ilhéus deu início à exportação do cacau (anteriormente realizadas
apenas pelo Porto de Salvador) produto para cujo escoamento exclusivo fora construído, com
capitais locais e nacionais, sob a influência do capital inglês. Os ingleses haviam construído na
região a Estrada de Ferro Ilhéus Ilhéus-Conquista – EFIC, responsável pelo transporte do cacau
até o porto. O primeiro embarque do cacau para exportação direta foi feito em um navio sueco, o
Falco, cargueiro de capacidade de três mil toneladas, com 100 metros de comprimento e 16 pés
de calado que partiu com 47.150 sacos com destino a Nova York. Após o Falco, seguiram-se outros
navios de mesma origem, que frequentaram o novo porto, pelo menos até o ano de 1935, marco
cronológico final deste trabalho quando o assoreamento da barra de entrada do porto causou
impedimentos e prejuízos significativos à circulação de navios. Entre eles: o Bore, o Carolina, o
Gudmundra, o Mirabella, o Anglia, o Hibernia, o Orânia, o Miranda, o Knappinsborg, o Magda,
Liguria e o Fin, fizeram diversas viagens. Portos que ingressam no mercado externo precisam de
reconhecimento nacional e internacional. Diversos os aspectos envolvidos: técnicos; jurídicos; a
introdução em rotas consolidadas; a concorrência com outros portos; a regularidade das linhas
que passarão a fazer escalas; a qualidade das embarcações que circularão; os privilégios a serem
concedidos para atrair as Companhias entre outros. O pequeno porto de Ilhéus logo enfrentou a
luta por este reconhecimento em várias frentes. A articulação com os navios suecos foi uma das
suas principais estratégias. Este trabalho se referência na bibliografia sobre portos e se vale de
fontes hemerográficas e impressas localizadas no Centro de Documentação e Memória Regional
– CEDOC/UESC e Associação Comercial de Ilhéus.

Charges e a história política na América Latina entre as décadas de 1960 e 1980


LAILA BRICHTA (UESC)

Resumo: A América é um continente histórica e profundamente híbrido culturalmente, produtora


de uma rica e variada gama de manifestações artísticas com provocações, reflexões, impactos e
proposições políticas que merecem um espaço para investigação. Da literatura ao cinema; das
artes gráficas como pintura e o grafitte urbano às charges de reportagem e os memes na rede
virtuais na web; dos mais variados estilos musicais como samba, rock, reggae e rumba às danças
como salsa, tango, forró e break. Urge analisar as sociedades latino-americanas entendendo a arte
e a cultura como elemento propositor de reflexão crítica, considerando o desenvolvimento do
capitalismo industrial como provocador de profundas mudanças no campo da produção cultural.
Essa comunicação pretende discutir a crítica social e histórica propositora pela arte gráfica satírica
como as charges. Para tanto serão abordados o argentino Quino, criador da personagem Mafalda
e o brasileiro Henfil, criador de os Fradinhos, Cumprido e Baixim, a Graúna. Pensando numa ideia
de mundo Atlântico que se conecta através do comércio e, também, por meio da circulação de
cultura, é que se pretende discutir o contexto político autoritário latino-americano entre as
décadas de 1960 e 1980, partindo da arte gráfica dos autores citados.

179
SESSÃO 01: 21/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

Práticas Culturais de Lazer: cotidiano entre os anos de 1920 e 1935.


DANILO RANIERY ALVES FREIRE (UFBA)

Resumo: Este estudo aborda sobre a configuração do lazer na cidade do Salvador compreendendo-o


enquanto prática cultural. A questão de investigação apresenta-se a partir da seguinte pergunta:
quais as relações estabelecidas entre as experiências das práticas culturais de lazer e a
organização social e urbana da cidade do Salvador, entre os anos de 1920 e 1935? O objetivo foi
analisar as relações estabelecidas entre as experiências cotidianas das práticas culturais de lazer
com a organização social e urbana da cidade do Salvador entre os anos de 1920 e 1935. Trata-
se de uma pesquisa qualitativa, descritiva e histórica, cuja metodologia possui bases na Nova
História Cultural (NHC). Para obter dados, nos debruçamos em busca de jornais, que estiveram
em circulação durante os anos de 1920 a 1935, para ter acesso a registros (textos e imagens)
sobre as práticas culturais de lazer na capital baiana. O periódico escolhido para obtenção de
dados foi o jornal “A TARDE” por sua relevância local para o período e por possibilitar a análise do
cotidiano. No que se refere ao recorte temporal desta investigação (1920 – 1935), podemos dizer
que a escolha do período a ser investigado ocorreu por dois processos que envolvem ideários de
modernidade. O ano de 1920 foi escolhido como delimitador inicial para a investigação, sobretudo
porque ali se apresenta uma tentativa de dar seguimento a um projeto recente de modernização
na cidade do Salvador, e sua propensa capacidade de viabilizar alternativas no âmbito das práticas
culturais. como delimitador final, foi crucial o reconhecimento de que o ano de 1935 marcou uma
mudança na agenda modernista baiana, principalmente em virtude de uma visão urbanística, não
mais demolidora como a que se praticou a partir de 1912 na cidade. Neste sentido, identificamos
espaços (jardins, praias, cinemas, teatros e circos, cassinos, clubes de dança, salões de organizações
da sociedade civil, bares e quiosques) e práticas (carnaval, mi-carême, festividades religiosas e
cívicas, dança e vida noturna) evidenciando uma demanda crescente dos soteropolitanos na busca
por divertimentos na capital baiana. Diante disso, ficou evidente uma forte influência dos ideais
de modernidade e civilidade, bem como, a existência de uma ampla rede de sociabilidade em
torno do lazer e que, ademais, nos possibilitou reconhecer a ocorrência de resistências simbólicas
e contradições, na forma com são abordados pelos jornais os lazeres das elites e da população em
geral.

Aspectos das práticas de lazer e a sociabilidade nos espaços públicos em Alagoinhas – BA


(1900 - 1930)
LIZANDRA DE SOUZA LIMA (PREFEITURA MUNICIPAL DE ALAGOINHAS)

Resumo:  Compreendendo os aspectos peculiares da consolidação do cenário cultural histórico


das práticas de lazer e sociabilidade, (MELO e ALVES JR., 2012; SIMMEL, 2006; CORBIN, 2001)
característicos do início do século XX, esta pesquisa tem como objetivo discutir e analisar a
apropriação e a estruturação dos espaços públicos destinado ao lazer e a sociabilidade na cidade
de Alagoinhas-BA apresentando como pergunta norteadora: Qual o processo histórico das práticas
e usos dos espaços públicos destinados ao lazer e de sociabilidade na cidade de Alagoinhas-BA
entre 1900 e 1930? Baseada na metodologia da História Cultural (BARROS, 2012; BURKE, 2005) as

181
fontes utilizadas foram o periódico O Correio de Alagoinhas e obras literárias e acadêmicas ligadas
ao objeto e período em questão. Concluímos que, mesmo sem o perfil dos conceitos atuais, as
práticas de lazer e os hábitos culturais locais foram influenciadores no processo de estruturação
dos espaços públicos urbanos. No que tange as práticas e vivências coletivas, a sociedade
alagoinhense usufruía desses espaços e dos benefícios de ações de agentes da sociedade civil que
promoviam práticas culturais diversas de lazer imbuídos das ideias de entretenimento e diversão
chegadas através da ligação férrea com algumas capitais. Mesmo as práticas habituais na natureza,
neste período, ganharam relatos carregados de um discurso próximo aos aspectos de lazer vistos
no intercâmbio cultural proveniente dessa abertura de comunicação com outros centros urbanos,
além da influência dos trabalhadores imigrantes que se estabeleceram na cidade neste período.
Em suma, vemos que o processo histórico que estrutura tais práticas trata das tensões do lazer
que transpõe os aspectos sociais e incide nas transformações do espaço da ação.

“NA MARÉ DOS CLUB’S”: Entre o crescimento urbano, a expansão das práticas sociais e
consolidação das distinções das elites em Manaus (1880-1910)
KÍVIA MIRRANA DE SOUZA PEREIRA (UNIVERSIDADE FEDERAL DO AMAZONAS)

Resumo: A vida social e urbana de Manaus no final do século XIX e início do século XX modificou-
se rapidamente com o advento da economia da borracha, promovendo uma intensa dinâmica na
cidade. Nesse sentido, novos hábitos e costumes foram implementados, dentre eles o incentivo
aos esportes, à cultura europeia e ao lazer, na busca constante pela ambígua “modernização”
e “civilidade” para agrado das elites locais. Assim, a sociabilidade de um grupo social deram-se
nos teatros, nos clubes, nas igrejas e nos cafés, possibilitando as diversões por meio das prosas,
espetáculos, danças ou esportes. Em especial, os clubes recreativos apresentam-se como
importantes espaços de interação social e fortalecimento dos vínculos pessoais, o que corrobora
para a consolidação de uma própria e distinta sociabilidade das elites na cidade. Sabendo
que os frequentadores desses espaços compunham os diferenciados grupos de organização
econômica, política, comercial e jurídica, no âmbito político-social, estas organizações tornam-
se o lugar de articulação da prática política e do exercício do poder na sociedade, emergindo
como representante de parte de seus anseios, influenciando com sua presença nas instituições
oficiais. Compreendendo também tais espaços como um campo autônomo com suas regras e
dinâmicas próprias, os interesses e práticas sociais dos agentes devem ser identificados como
formas de legitimação de poderes nos próprios clubes recreativos. Diante dessa explanação,
temos como proposta nesse Simpósio Temático apresentar as investigações sobre a expansão
dos clubes recreativos paralelo ao crescimento da cidade e consolidação de um projeto elitista.
Se, na primeira metade do século XIX, a cidade tinha poucas programações e apenas 5 sociedades
recreativas centralizadas no setor privado e cívico – como a Sociedade Recreação Amazoniense
(1854), Sociedade Ipyranga (1861), Recreação Marítima (1868), Sociedade Dramática Particular
(1868) e Club Familiar (1872) –, a partir da década de de 1880 até 1910, esse plano começa a se
reconfigurar e vemos surgir progressivamente mais 67 novos clubes. Com isso, verificamos que o
aparecimento de novos clubes na cidade mostram as diversidades de organizações identitárias e
como as pessoas participavam da dinâmica da modernidade que apresentava o modelo de atleta,
jovem, esportivo, civilizado alinhado ao agrupamento urbano e um modelo de vida em sociedade.
Para tanto, buscaremos explanar sobre o sentido organizativo, significados e interpretações dos
indivíduos a um clube e como as elites apropriaram-se desse momento e dos discursos para o

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estabelecimento de talentos, estilização de vida, ostentação de status, códigos de distinções
sociais, culto à beleza, higiene e sociabilidade como projeto modernizador.

A Dança como fenômeno cultural nos clubes sociais e recreativos da cidade do Salvador nos
anos de 1910 a 1940
VIVIANE ROCHA VIANA (UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA)

Resumo: O texto em tela provoca uma reflexão acerca da dança enquanto fenômeno cultural nos
clubes sociais e recreativos presentes na cidade do Salvador, considerando a escassez, os limites e
as exigências de uma pesquisa bibliográfica referente de caráter histórico. Para o desenvolvimento
dessa pesquisa optamos pela perspectiva da Nova História, centralmente a História Cultural, pois
as mesmas se encaixam na visão ontológica que possuímos do fazer científico. Como objetivos
buscou-se destacar o lugar da dança como fenômeno cultural nos clubes sociais e recreativos da
cidade do Salvador considerando o início do processo de modernização da cidade com destaque
para o recorte temporal de 1910 a 1940, assim como também buscou-se identificar os clubes
existentes neste período, bem como os tipos de dança praticadas nestes clubes. Como categorias
teóricas discutiram-se no texto a Dança como fenômeno cultural, as primeiras manifestações
da dança na cidade do Salvador e a modernização do centro urbano da capital baiana e os
impactos causados nos clubes da cidade. Neste sentido, os resultados encontrados apontam
que as primeiras décadas do século XX foram marcadas por resquícios de uma cultura europeia
baseada no carnaval português trazido para Salvador pela elite local na época, nele o entrudo,
brincadeira carnavalesca marcada por batalhas de rua com uso de bombas de água e farinha.
Além disso, também foi possível identificar grande influência nos ritmos africanos nas danças
praticadas nos clubes. Naquele momento a imprensa local associou o movimento do entrudo e
outras manifestações à cultura afro-festiva, colaborando para que parte da elite baiana criasse
os cortejos organizados que marcaram os primeiros movimentos do carnaval de rua da cidade
do Salvador, considerado uma festa familiar que disseminava a “ordem” e dessa forma houve
impactos nos clubes da cidade. Logo, a realização do estudo permitiu compreender que com a
modernização da cidade, mais especificamente a reestruturação do centro comercial urbano,
os clubes sofreram impactos na sua estruturação e funcionamento, passando a funcionar com
restrições de associados, tendo suas sedes deslocadas para outros espaços da cidade, bem como
alguns outros fechando suas portas, e o carnaval consolidando-se como a principal festa de rua da
cidade do Salvador nas primeiras décadas do século XX.

Os significados culturais atribuídos às vaquejadas: o “olhar” das mulheres e das matérias


jornalísticas no estado da Bahia
ADRIANA PRISCILLA COSTA CAVALCANTI (ESCOLA MUNICIPAL ROSA MARIA ESPERIDIÃO
LEITE)

Resumo: A vaquejada se desenvolveu, primeiramente, enquanto prática laboral do vaqueiro, que


se consolidava desde procurar e reunir o gado para encaminhá-lo ao curral e posteriormente
apartar e entregar aos devidos donos, até adentrar a caatinga e derrubar um animal bravio
puxando-o pelo rabo para assim, proceder os cuidados necessários. Essa atividade sempre foi
realizada por homens, mas com o tempo passou a se constituir em lócus do protagonismo de
mulheres em pistas de vaquejadas de todo o estado da Bahia, bem como de corpos que encontram

183
no espectro da beleza, enquanto rainhas de vaquejada, possibilidades outras de encenar a
sua existência. Portanto, o objetivo desse trabalho foi de descrever os significados culturais
atribuídos às vaquejadas, a partir do “olhar” de mulheres que participaram e participam da prática
na Bahia, bem como das matérias jornalísticas de jornais da capital e do interior do estado. Para
tanto, a nossa perspectiva metodológica se utilizou do diálogo entre a fonte oral, a partir do
conteúdo das entrevistas realizadas com dez mulheres, entre vaqueiras e rainhas de vaquejada,
e a fonte jornalística. Concluiu-se que a vaquejada, ao longo do tempo, ganha vários campos de
significação e ressignificação, dentre os quais, prevalecem às dimensões esportivas, de negócio
e de lazer. Assim sendo, a vaquejada começa a adentrar em um processo de esportivização com
o advento dos Parques de Vaquejada, da instituição de regras, do surgimento de categorias de
competição, do uso de cavalo de raça, da cobrança de inscrição para garantia da participação e
da criação de circuitos. Na Bahia, o marco inicial desse processo, provavelmente se consolida, a
partir da construção do Parque de Vaquejada Fernando Carneiro da Silva, em Serrinha, no ano de
1967. Agregam-se aí também outras atividades relacionadas a dimensões do lazer e estímulo ao
turismo, como: shows com artistas famosos de vários estilos musicais, o futeboi (jogo de futebol
com um boi solto no campo), o forroboi (forró com um boi solto no salão de dança) e os bolões
de vaquejada. Com o tempo, a transmissão ao vivo das competições, bem como a divulgação
maciça em sites, redes sociais e portais digitais passam a ser os principais meios de publicização
das vaquejadas, que se transformam em grandes festas de vaqueiros. Portanto, essa festa na
atualidade vem assumindo ares sofisticados e se tornando um comércio caro, um negócio, que
também gera renda e empregos em vários setores. Contudo, ainda compartilha a espontaneidade
entre os praticantes, reinventando a vaquejada de modo a estabelecer e fortalecer as relações
comunitárias mais societárias, pontificando, mesmo que contraditoriamente, negócio e a plenitude
da existência, compondo assim, um fenômeno híbrido, mas ao mesmo tempo genuíno.

Os Primórdios do Jiu-Jitsu Brasileiro em Salvador


LUAN ALVES MACHADO (UFBA)

Resumo: Este trabalho aborda o processo histórico de formação do Jiu-Jitsu Brasileiro no contexto


da cidade de Salvador, com o objetivo de identificar o movimento de formação e consolidação
da modalidade na capital baiana. Para tal fim, foi feita uma busca de dados numa perspectiva
qualitativa, por meio principalmente das fontes orais. Sendo assim, a história oral se apresentou
enquanto uma metodologia oportuna, considerando que os principais atores que vivenciaram
o período em questão se encontram vivos e dispostos a remontar esse processo. Foi feito um
cruzamento das informações levantadas, buscando entender esse cenário que se localiza entre
as décadas de 1980 e 1990. Para tanto, entrevistas semiestruturadas, revistas especializadas
e websites foram utilizados como fonte. Em linhas gerais, é possível afirmar que houveram
contatos pontuais com a modalidade na cidade em períodos anteriores. Esse processo se fixou
com a chegada de Charles Gracie na capital em 1987, que passou a lecionar a modalidade na
cidade, especificamente nos bairros Barra e Graça, e posteriormente se associou a tradicionais
mestres de Judô locais. Neste contexto, esses mestres de Judô passaram a se dedicar a estudar
e lecionar o Jiu-Jitsu Brasileiro, e foram atores essenciais no processo de fundação da primeira
Federação Baiana de Jiu-Jitsu em meados da década de 90. Essa associação entre Judocas locais e
Charles, num contexto favorável, foi a semente que germinou e garantiu que esta modalidade se
perpetuasse e fosse desenvolvida na cidade.

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“A LOS TOROS!”: As Touradas em Feira de Santana (1893-1905)
FÁBIO SANTANA NUNES (UEFS)

Resumo:  Identificam-se e analisam-se os espetáculos tauromáquicos promovidos em Feira de


Santana-BA, na transição das centúrias XIX para XX. São consideradas recomendações de Luca
(2019) e Barros (2019). Consultaram-se os periódicos: O Município e O Propulsor, respectivamente,
no Museu Casa do Sertão (Feira de Santana) e Instituto Histórico Geográfico da Bahia (Salvador),
e o livro Memórias: Arnold Ferreira da Silva (MELLO; BRITO, 2018). Companhias de touradas
percorreram o País de sul a norte, desenvolvendo trabalhos em capitais e cidades interioranas,
entre estas a urbe feirense. No segundo semestre de 1893, uma propaganda de artigo utilizado
nos dias de divertimentos públicos. Com o título Touradas, anunciava-se “lindo guarda sol”. (O
MUNICÍPIO, 1893, n. 132, p. 02). Um pequeno indício. Em novembro e dezembro de 1896, porém,
evidenciou-se a existência da tauromaquia na Cidade. Emanava de cartaz na última página de um
periódico, com letras garrafais: “TOURADAS! COMPANHIA TAUROMACHICA”. Por três finais de
semana consecutivos, foram propagandeados. Entre outras informações estava uma convocação:
“AO HIPPODROMO”. A estreia foi em um domingo, 22 de novembro de 1896. (O PROPULSOR,
20 nov. 1896, p. 04; 29 nov. 1896, p. 04; 05 dez. 1896, p. 04). Dois anos depois, um pequeno
comunicado sinalizava que brevemente teríamos uma companhia de touradas. (O PROPULSOR,
14 ago. 1898, p. 02). Não pudemos saber se as práticas tauromáquicas regressaram, as fontes
silenciam. Nos primeiros momentos do século seguinte, mais uma vez um Circo de Touros surge,
tendo o Campo General Câmara acolhido um “pavilhão armado” e, na “Estréia”, “trabalhos de
tauromachia” desenvolvidos, em abril de 1905, pelo toureador de nacionalidade espanhola Manoel
Ruiz Composto. (MELLO; BRITO, 2018, p 31); exatamente o mesmo local das tradicionais feiras
de gado, uma das maiores do Brasil no período, lugar de encontro de vaqueiros, fazendeiros,
pessoas vindas de povoados vizinhos e de rincões distantes. (SIMÕES, 2007). Nos espetáculos
tauromáquicos feirenses, identificaram-se toureiros profissionais, comprovadamente, espanhóis,
e possível presença de portugueses. Inexistem evidências de toureadoras. Não compunham as
funções touros de raça brava de lide. Vinham das fazendas da região, “bois escolhidos.” Apenas
existiram arenas armadas provisoriamente, às vezes, em espaço já projetado, o hipódromo do
Jockey Club Feirense construído de 1889 e, talvez, no primeiro semestre de 1890, pois corridas de
cavalo transcorreram em setembro. (MELLO; BRITO, 2018). Outras épocas, executadas em áreas
abertas contíguas ao traçado urbano orgânico. Conclui-se que a festa de touros não compôs uma
tradição popular em terras feirenses, pois se expressou como um divertimento mercantilizado
por companhias tauromáquicas sazonais.

Surfe, lazer e segregação nas praias da África do Sul (1976-1991)


RAFAEL FORTES SOARES (UNIRIO)

Resumo:  O trabalho investiga uma face pouco explorada do boicote esportivo à África do Sul
durante a segunda metade do século XX: o caso do surfe e do acesso às praias. Em todos os anos
entre 1976, quando foi realizado o primeiro Circuito Mundial de Surfe, e 1991, quando diversas
entidades e associações esportivas internacionais decretaram o fim do boicote esportivo à África
do Sul, foram realizadas etapas do circuito naquele país (Cornelissen, 2011). As principais fontes
utilizadas para tanto são revistas de surfe internacionais. A escolha das publicações se justifica
tanto pela relevância e circulação quanto porque, durante a vigência do apartheid, os periódicos da

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África do Sul eram vigiados e censurados pelo regime. Sendo assim, as publicações internacionais
são uma fonte privilegiada por abordarem a situação de segregação nas praias do país e o boicote
esportivo.
De forma secundária e complementar, recorro a fontes sul-africanas (sobretudo entrevistas e
memórias) e a historiografia recente produzida sobre aquele país, com destaque para as obras
do historiador Glen Thompson (2011, 2015). Neste corpus é possível identificar iniciativas locais
de desafio e combate à discriminação. O boicote esportivo à África do Sul e as reivindicações por
igualdade no acesso ao lazer e ao esporte são analisados tendo em vista o contexto da época,
que inclui as relações internacionais sob a égide da Guerra Fria (que incluía o apoio dos EUA aos
governos sul-africanos) e a ascensão do neoliberalismo.

SESSÃO 02: 22/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

Voleibol na Bahia: Entre a História e a Memória


NATANAEL VAZ SAMPAIO JUNIOR (SECRETARIA ESTADUAL DE EDUCAÇÃO)

Resumo:  O presente estudo se propõe a investigar acerca da História do Voleibol na Bahia,


identificando como se deu o processo de inserção da referida modalidade esportiva em solo baiano
e, sua consequente relevância no desenvolvimento de práticas educativas na Educação Física
escolar, mas, também, nas práticas sociais dos baianos. As possibilidades de objetos de estudos
de natureza historiográfica, nos permite atrelar o voleibol a variedade de dimensões, dentre
elas, as dimensões social e cultural, e “a História Social abre-se de fato a variadas possibilidades
de definição e delimitação que certamente interferem nos vários trabalhos produzidos pelos
historiadores que atuam neste campo intradisciplinar” (BARROS, 2005, p.2). No que tange ao
voleibol, este estudo, busca analisa-lo enquanto prática corporal e social mais difundido no
Brasil. Para tanto, estabelecemos enquanto problema deste estudo: em que situação o voleibol
chega a cultura baiana e, que instituição foi a responsável pela inserção do voleibol na Bahia? A
hipótese que temos é de que o voleibol foi introduzido na cultura baiana, através de instituições
educacionais de natureza privada, como estratégia de adesão as práticas diversificadas de
atividade física no âmbito escolar da cidade de Salvador e, posteriormente, em toda sociedade
soteropolitana. A partir desse entendimento e, reconhecendo a ascensão que o voleibol brasileiro
tem tido nas últimas quatro décadas em nível nacional e internacional, que “podemos pensar na
contribuição de um campo de estudos ao seu redor, sendo a história um dos meios para estudá-
lo” (ROCHA JUNIOR; ESPIRITO SANTOS, 2011, p.80). A partir dessa premissa, daremos o enfoque
neste estudo na História Social, por estabelecer no âmbito da historiografia, dimensões que são
trazidas à tona quando o historiador se põe a examinar um processo histórico qualquer (BARROS,
2005). Delimitaremos o universo desse estudo, a princípio, restringindo a investigação na cidade
de Salvador, por ser a Capital do Estado e, com isso, maior polo de difusão de práticas sociais,
se constituindo em um caminho possível para a chegada do voleibol na Bahia. No que tange a
baliza cronológica, pretendemos pesquisar inicialmente as quatro primeiras década do século XX,
período que antecipa a fundação da Federação Baiana de Voleibol, no ano de 1952. Para tanto,
privilegiaremos enquanto objetos de informações, os periódicos (jornais e revistas) nos arquivos
públicos e em instituições educacionais, que apontem indícios da inserção do voleibol na cultura

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baiano, e a História Oral enquanto abordagem que nos permite ter acesso a oralidade, através de
entrevistas gravadas com atores sociais que fizeram e fazem parte da história do voleibol na Bahia
e, consequentemente acesso as suas memórias.

O Galícia Esporte Clube a Questão da Identidade


PEDRO CAMARGO RODRIGUES UZÊDA

Resumo:  Fundado em primeiro de janeiro de 1933, o Galícia Esporte Clube carrega, como o
próprio nome sugere um vínculo com a imigração galega que aportou em Salvador entre o fim do
século XIX e início do Século XX. Em um contexto histórico no qual a Europa vivia uma grande crise
econômica, intensificada em espaços rurais que tiveram mais dificuldades em industrializar-se,
como por exemplo a Galícia situada na região noroeste da Espanha. Somada a isso, fuga do serviço
militar obrigatório – o que ajuda a explicar um dos motivos da maioria dos migrantes galegos
serem do sexo masculino – também é um elemento de forte expulsão desses migrantes de suas
terras.
Paralelo a isso, o Brasil vivia no final do século XIX uma crise econômica e uma pressão de caráter
externo e interno, para o fim da instituição escravocrata. Dessa maneira, a vinda da mão de obra
europeia contribuía para essa substituição gradativa do trabalho braçal e também num projeto
eugênico para o “embranquecimento da raça”. Assim, muitos italianos, espanhóis e alemães bem
como outras nacionalidades partiam da Europa no desejo de “Fazer a América”. Nesse contexto,
a Bahia e a cidade do Salvador, longe de ser o maior polo atrativo desses emigrantes, sendo esse
espaço de protagonismo ocupado tanto por São Paulo e sua forte economia não por acaso foi
alvo da migração portuguesa, italiana, espanhola e asiática; e o Rio de Janeiro, a época ainda
como Distrito Federal, responsável pela ocupação das colônias lusas, itálicas e hispânicas – desses
últimos, também majoritariamente galegos assim como no caso da Bahia mas em números
absurdamente maiores, chegando a 40 mil.
Dito isso, Salvador que em 1940 chega a ter pouco mais de 6 mil migrantes galegos, concentra um
grupo específico dessa colônia. A qual, muito graças ao sucesso no ramo de “secos e molhados”
enriquece e já em 1930 possui condição tal para uma série de instituições como o Clube Espanhol,
o Cassino Espanhol, o Hospital Espanhol e o próprio Galícia Esporte Clube.
Sendo esse último objeto de estudo uma vez que as particularidades do esporte como o seu
processo histórico de mudança do amadorismo para a cristalização do profissionalismo atrelado
a uma massificação do esporte o qual o tornava cada vez mais popular, faz do Galícia alvo de um
questionamento em torno de sua fundação e primeiros anos de vida: sendo um clube de valorização
da identidade galega ou uma forma de integrar-se à sociedade soteropolitana, participando de
um evento cívico e festivo o qual o futebol proporciona.

Do Campo da Graça à Fonte Nova: o futebol e a Bahia na década de 1940


JOSÉ ELIOMAR DOS SANTOS FILHO (PREFEITURA MUNICIPAL DE CAMAÇARI-BA)

Resumo:  O presente artigo aborda o futebol como prática esportiva inserida nos circuitos de
modernidade e transformações urbanísticas da cidade de Salvador, na Bahia, no período da década
de 1940. Esse projeto de modernização, capitaneado por um grupo político alijado do poder desde
a Revolução de 1930 e disposto a obter apoio popular, teve como um de seus efeitos a substituição
do Campo da Graça (Estádio Arthur Morais) pelo Estádio da Fonte Nova, este mais confortável e

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com maior capacidade de público. Naquele período, a Bahia (em especial a cidade de Salvador)
viveu momentos de mudanças sociais, econômicas, políticas e culturais, criando certa imagem de
um estado que se recuperava (ou tentava se recuperar) de espaços perdidos para outros estados do
Brasil após a Proclamação da República. A criação do Escritório do Plano de Urbanismo da Cidade
do Salvador (1942) teve por objetivo intensificar as transformações urbanísticas implementadas
na cidade durante as primeiras décadas do século XX, com propostas de reformulação da
dinâmica urbana (expansão da cidade para novos bairros e avenidas de vale, a exemplo). Para
o poder público, interessava expurgar do passado o que impedia a criação de um futuro com
encantamento. Essa visão ganhou força com a vitória de Otávio Mangabeira para governador nas
eleições pós-Estado Novo, reativando o anseio por certa modernidade de uma “Bahia que não teve
sorte sob o signo da ditadura Vargas” (A TARDE, 1946, p. 3). O futuro que se avizinhava deveria
pertencer ao movimento político denominado “autonomismo”, com características de “retomada,
reerguimento, reintegração, restauração e restituição [da Bahia]” (PASSOS, 2016, p. 45). Nesse
contexto político de renovação, as práticas esportivas se profissionalizavam (processo iniciado nas
décadas de 1920 e 1930) nas maiores cidades do país, com forte adesão popular, muito estimulada
pela imprensa. Na cidade de Salvador, o futebol conquistou as massas. No projeto de urbanização
do novo governo, o Campo da Graça, construído com arquibancadas de madeira e para um público
reduzido, não mais representava o equipamento esportivo das multidões urbanas em êxtase. A
pesquisa tem por fontes os jornais da cidade de Salvador, livros de atas da Câmara e Assembleia
Legislativa, leis e decretos, dentre outras. Este artigo é um desdobramento do meu projeto de
pesquisa de conclusão do curso de graduação em História da Universidade do Estado da Bahia
(UNEB), Departamento de Ciências Humanas (DCH), campus I, Salvador.

Forjando O Corpo Moderno: Rio de Janeiro e Salvador no início do século XX, um estudo
comparado
ALINE GOMES MACHADO (UFBA)

Resumo: O Rio de Janeiro e Salvador foram duas importantes cidades que marcaram a história
do país como Capitais Federais. Compartilham semelhanças e diferenças que formaram diversos
contextos políticos, culturais, econômicos e sociais nos quatro cantos do país. Salvador entre os
anos de 1549 e 1763 é a Capital Federal, palco de questões fundamentais num país continental
que política e culturalmente é fragmentado. O Rio de Janeiro assume, em 1763, o posto de capital
do país, tornando-se o centro das mais variadas discussões e produções de modelos diversos aos
quais os outros estados e cidades deveriam adotar, seguir o exemplo. No início do século XX, o
Rio de Janeiro e Salvador estavam imersas na onda de desejos e transformações modernas que se
espalhava e paulatinamente se efetivava pelo país. As condições políticas, econômicas, culturais e
científicas delineavam e, ao mesmo tempo, eram delineadas pelos ideais modernos. Assim, cada
cidade efetivava seus projetos modernizadores a partir das realidades nas quais esses elementos
estavam imersos. Neste sentido, compreendemos que o projeto de modernidade, tanto da então
capital Federal, quanto da capital baiana, envolveu bem mais que mudanças econômicas, políticas
e estruturais. Seus domínios queriam se materializar nas mais variadas práticas cotidianas, a fim de
tornar essas práticas, e seus praticantes, representações de uma sociedade moderna, civilizada. É
neste ponto que a atenção se volta para o corpo como palco, como representação de modernidade.
Assim, partimos da premissa que houve um movimento de gestação e educação do corpo a fim de
torna-lo moderno, para tanto vários aspectos da vida cotidiana como as vestimentas, as práticas

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de divertimento, práticas culturais, o cuidado com corpo, passaram a ser repensados e vigiados, a
fim de enquadrá-los dentro dos preceitos modernos. Aqui, então, estratégias são pensadas para
formar esse corpo moderno. Dentre essas estratégias, nosso foco de análise se volta às práticas
corporais, mais especificamente a ginástica. Então, nos questionamos e objetivamos compreender
como se constituiu as relações entre projetos modernizadores e as representações de corpo
moderno, tendo a ginástica como elemento educador, em Salvador/BA e no Rio de Janeiro/RJ.
Para responder essa questão e objetivo de estudos estabelecemos como metodologia a História
Comparada. Nosso marco temporal compreende as duas primeiras décadas do século XX por terem
guardados o período de elaboração e efetivação de projetos de modernidade mais concretos tanto
do Rio de Janeiro, quanto em Salvador. Como fontes, utilizamos materiais de jornais, revistas,
documentos do governo, estudos já publicados que tratem do objeto em questão. Como pesquisa
em andamento, apontamos o potencial de discussão.

A construção da ginástica em academia e sua prática em salvador entre 1975 a 1988.


AMANDA AZEVEDO FLORES (UNIVERSIDADE SALVADOR)

Resumo: O presente estudo faz parte do Programa de Pós- Graduação em Educação (PPGE), da
Faculdade de Educação, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), na linha temática Educação,
Cultura Corporal e Lazer. Entendemos que a ginástica é uma das práticas corporais de maior tempo
de experimentação no mundo, praticada em vários espaços sociais, com objetivos diferentes, com
possibilidades Diversas de execução, podendo sua prática ser realizada em diversas modalidades,
definirmos o foco dessa pesquisa nos espaços das academias se torna essencial, justo por
reconhecermos as especificidades de cada tipo de ação junto a esta atividade. A problemática
central desta pesquisa está em qual (ais) os elementos constituintes e os personagens atuantes
na construção da ação da ginástica em academia na cidade de Salvador? Tem como intuito principal
compreender a construção da ação profissional da ginástica em academia na Bahia entre os anos
de 1975 a 1988, a partir da formação e início de atuação de especialistas já graduados em cursos
na cidade. Nosso estudo trata-se de uma pesquisa histórica, com a abordagem da história oral,
utilizando de entrevistas, fontes bibliográficas, documentos oficias e documentos não oficiais. A
delimitação do interesse de estudo pelo curso da Universidade Católica de Salvador se deu pelo
fato de ser o primeiro do estado a formar professores de Educação Física a partir de 1975. O
pensamento de época dos professores e as experiências na construção da prática da ginástica em
academia, a partir de suas atuações fazem parte das excitações presentes nesse trabalho. Nesse
contexto, a partir de uma opção metodológica pela história oral, no que se refere à veracidade
dos fatos é a forma como as pessoas dão sentido ao que vivenciaram como uniram a experiência
pessoal com o contexto social, com o passado, com o presente e como essa relação se entrelaça
entre o tempo, servindo para interpretar as suas vidas e o mundo ao seu redor. O motivo que nos
levou a desenvoltura do estudo está na necessidade de pensarmos na inexistência de arquivos
acessíveis e organizados, documentos, registros e pesquisas que retratem de alguma forma e
preserve a história dessa área do saber em Salvador, buscando recuperar uma das histórias desta
área de conhecimento no estado. Como fim de analise será pautado em fontes documentais, além
de realizar entrevistas com profissionais atuantes desta temática, visando promover elementos
que de alguma forma preencham as lacunas existentes na história da Educação Física baiana.

189
Sabemos da necessidade de novos estudos e a continuação deste, que venham a apresentar novos
olhares, personagens e contextualizações, que servirão para alargar a visão da formação e das
formas de trabalho da Educação Física na Bahia e no Brasil.

O FUTEBOL DE MULHERES NA ROÇA: Mapeando essa realidade na região rural de Jequié e


municípios vizinhos
GEOVANA VIEIRA DE NOVAES

Resumo:  O futebol praticado pelas mulheres permanece, em grande parcela, na invisibilidade,


no amadorismo e na precariedade estrutural. Apesar de terem protagonizado efeitos positivos
na história do futebol no Brasil, em decorrência às suas resistências e persistências, esse esporte
ainda carece de muito incentivo, apoio e visibilidade. Nesse sentido, fundamentado nas discussões
sobre a história da mulher no esporte, este estudo irá tratar de uma realidade praticamente
desconhecida: o futebol das mulheres na roça - comumente chamadas as localizações situadas
nas zonas rurais dos municípios baianos. Objetivamos assim, mapear esse cenário na zona rural
de Jequié e Lafaiete Coutinho, regiões do sudoeste baiano. Para tanto, será feito o levantamento
de times existentes nessas locais, buscando responder a seguinte questão norteadora: desde
quando existe o futebol nessas regiões e, de modo mais sintético, quem é essa mulher que joga
futebol na roça? Se nas cidades estudos mostram as lutas das mulheres para se manter nesse
esporte, que ainda não as oferece condições reais estruturais, além do preconceito que é muito
marcante na vida das jogadoras, entender como esse cenário se desenha na região rural do
interior do sudoeste baiano é o fator que justifica a presente proposta de pesquisa que terá a
Pesquisa de Campo com opção metodológica. A hipótese do estudo consiste em que: embora
os impedimentos sempre tenham existido, acreditamos que, em diferentes espaços e tempos
históricos, as mulheres sempre praticaram futebol, inclusive nas áreas rurais. A partir desse
trabalho, pretendemos estimular novas pesquisas no sentido de identificar essa prática esportiva
das mulheres que, provavelmente, fala muito sobre nós mesmas.

Forma-representação: a noção de performance no surgimento da torcida organizada Raça


Rubro-Negra
JULIANA NASCIMENTO DA SILVA (UFRJ)

Resumo:  A contenda no futebol é rastreada no objetivo da distinção prevista na estrutura do


jogo. Arranjado em uma posição de equidade entre equipes no início do jogo, as performances
e as estratégias do futebol foram organizadas para a obtenção da vitória, que se dá na medida
em que o outro perde. Desse modo, não é equivocado afirmar que o futebol se constitui como
ritual disjuntivo, cujo corolário é a produção de novas realidades e significados. A dimensão da
performance, no entanto, não fica restrita à peleja futebolística. No cosmo torcedor, levado a cabo
pelas agremiações, está presente a perspectiva de distinção entre suas práticas e representações.
Alicerçados na constituição de um aparato simbólico, as identidades das torcidas organizadas são
construídas em uma concepção relacional, o que torna evidente a preocupação em demarcar suas
diferenças. Nesse sentido, as agremiações torcedoras promovem a incorporação de elementos
não apenas para a formulação de sua identidade, mas também para construir sua oposição ao
outro, processo esse que é contínuo e interdependente. Parte das discussões da dissertação
de mestrado, o presente trabalho pretende relacionar as formas-representações da torcida

190
organizada Raça Rubro-Negra, pensando suas performances como elemento de constituição de
sua identidade.

Questões de gênero e sexualidades no interior baiano: a prática do futebol feminino na


cidade de Guanambi-Ba
NIVALDA PEREIRA COELHO (UESB)

Resumo:  A história de luta das mulheres por espaço dentro da sociedade pode ser observada
ao longo de muitos anos. As desigualdades, sejam de poder ou de direitos, são inúmeras, isso se
justifica devido as questões de gênero existentes nas relações sociais. Assim, investigar a influência
do gênero no esporte pode trazer contribuições significativas para uma maior valorização
e reconhecimento dos espaços que podem ser ocupados pelas mulheres. Diante disso, esta
proposta tem por objetivo analisar como a prática do futebol feminino na cidade de Guanambi-
Ba incita os debates acerca do gênero e das sexualidades, bem como investigar os fatores que
as levaram a este meio, os questionamentos sobre a existência de preconceitos relacionados ao
futebol feminino na cidade, e os lugares destinados a mulher na sociedade local. Baseia-se na
metodologia da história oral que permite aos pesquisadores enriquecerem suas experiências diante
as entrevistas realizadas, pois cada indivíduo apresenta algo novo diante do objeto pesquisado.
Por se tratar de um estudo com seres humanos, a pesquisa teve parecer favorável pelo comitê de
ética e pesquisa da UESB. Os dados encontrados reforçam a luta de mulheres por reconhecimento
e valorização dentro de um espaço culturalmente dedicado ao público masculino. Estas, venceram
os empecilhos movidas pelo grande amor a prática do futebol em meio a uma sociedade marcada
por traços machistas. A conclusão para esta breve reflexão é a importância de debater questões
referentes a trajetória histórica e de vida das mulheres, seja no âmbito esportivo ou qualquer
outro que reafirme aspectos igualitários nas discussões de gêneros.

SESSÃO 03: 23/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

As Experiências de Professores “Leigos” com as Práticas Corporais no IPN


RÚBIA MARA DE SOUSA LAPA CUNHA (UNEB)

Resumo: Esta pesquisa aborda sob uma perspectiva histórica, a presença de “leigos” na função de
professores de Educação Física com práticas corporais como a ginástica e as atividades resultantes
dos desfiles cívicos realizados nas festividades escolares, numa Escola Normal rural, fundada em
1906 por missionários da Missão Central do Brasil, denominado Instituto Ponte Nova (IPN), que
teve como referência o Colégio Mackenzie (SP). Situado no município brasileiro de Wagner na
Bahia, o IPN chamado Escola Americana de Ponte Nova e passou por mudanças e acontecimentos
no campo educacional e religioso, destacou-se na formação de Professores fundamentada numa
concepção integrada aos princípios religiosos, com base na evangelização da fé e se valeu de
educação do corpo e da alma, sob um pretenso viés civilizatório. Se reconhece a influência da Igreja
Presbiteriana no Colégio, até o ano de 1971. O problema que foi apontado é este: como foram
inseridas as atividades ginásticas pelos “leigos” professores e o que isso representou no campo
dos saberes ? Nosso objetivo é identificar qual é a relação entre as proposições pedagógicas da

191
missão americana no campo da Educação Física em defesa de sua existência e permanência como
componente curricular, e as finalidades dos rituais festivos no espaço escolar enquanto “garantia”
de aprendizagens. Tal estudo se justifica a partir da necessidade de compreender como as práticas
foram construídas e quais saberes foram inseridos nas atividades curriculares além de sua relação
com as políticas sociais e ações religiosas. Como metodologia a Nova História, na dimensão da
História Oral, tendo como participantes da pesquisa, pessoas que foram ex alunos, professoras e
diretoras . Para além destes, busquei outras fontes os documentos institucionais ainda disponíveis
para análise para verificar se os nomes de Mary Ann Chamberlaine, Ella Khul e Mary Dascomb - as
primeiras missionárias que se deslocaram para dar cursos através do Trainng Scholl como forma
de padronizar os métodos e erigir uma grande nação – hiterland - no sertão para um avanço social
com vistas no modelo republicano vigente nos Estados Unidos. Elenquei (05) leigos professores
de ed física que se destacaram com suas vivências no e também usei as imagens como fontes
para reconhecer ações escolares , em datas comemorativas conforme calendário para garantir
o uso das práticas corporais como espetacularização política e social onde o “corpo” aparece
vinculado a um “lugar” da moral, da religião e do aprendizado, evidenciando o papel formativo da
ginástica na condução dos sujeitos com valores diferenciados . Enfim, a esteira de um ideal liberal
e democrático para “formar” verdadeiros cidadãos e, dar continuidade a profissão de fé.

Educação Física e Esportes em Salvador: narrativas de uma história


MARIA ELISA GOMES LEMOS (UFBA)

Resumo: O presente texto desperta um olhar crítico sobre a organização e criação do primeiro
Curso de Licenciatura em Educação Física e a formação da primeira turma na Universidade Católica
do Salvador na Bahia na década de 1970, depois de muitas décadas de participação em sua maioria
de militares, ex-atletas e ou médicos que atuavam na condução das atividades no Estado da Bahia,
quando os primeiros cursos civis foram criados em São Paulo desde 1934, e no Rio de Janeiro
em 1939, quando a Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro tinha
como objetivo ser a escola padrão na formação de Educação Física no Brasil, e apesar de naquela
ocasião já existirem outras escolas na área da EF no país. Esta história está registrada nos anos
80 na interventoria do Sr. Landulfo Alves, e este quadro nos permite considerar que talvez tenha
sido um pouco tardia como parte integrante da Faculdade de Educação da Universidade Católica
do Salvador – UCSAL a criação do primeiro Curso de Educação Física com habilitação em Técnica
de Desportos na Bahia, fundado em 27 de dezembro de 1972, mas a tarefa que demonstrava
certa urgência, talvez tenha ocorrido na época oportuna considerando as condições que o estado
oferecia a seus usuários e mais interessados os professores que claramente necessitam fazer um
curso universitário de EF. Logo, para falar sobre a primeira turma de Educação Física da UCSAL, nos
reportamos sobre as expectativas, sonhos e realidade e nos remete a discutir sobre as aspirações
e dificuldades que existiam na década de 1970 quando em Salvador – BA não existia um curso de
Licenciatura ou Bacharelado em Educação Física – EF, e reconhecemos que este apresenta apenas
uma síntese possível, e não absoluta da construção e formação da primeira turma Licenciatura
de educação Física da Bahia diplomada em 1975. O curso de Educação Física da UCSAL começou
integrado à Faculdade de Educação da Ucsal e funcionava nas dependências do Convento da Lapa
e no Campus da Federação com as aulas teóricas, e as aulas práticas aconteceram no Complexo
Esportivo Cultural Estádio Octávio Mangabeira – Fonte Nova.

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Alcyr Ferraro: Materializador da Formação em Educação Física na Bahia
ROBERTO GONDIM PIRES (UESB)

Resumo:  O Estado da Bahia, em que pese seu protagonismo na Educação nacional, seja com a
concretização da primeira Faculdade de Medicina do Brasil, seja por personagens que influenciaram
a política educacional em tempos e formas diferentes, como Anísio Teixeira, Rui Barbosa e tantos
outros, foi um dos últimos Estados da federação a materializar seu primeiro curso de formação em
Educação Física. Os esforços para tal feito na Bahia demarcam desde a década de 1930, quando
alguns Baianos foram enviados para a escola de Educação Física do exército para qualificar-se e
poder trabalhar nas escolas básicas baianas, esse movimento foi ampliado quando da constituição
do Primeiro Curso de Educação Física (1939) vinculado a uma Universidade no Brasil, na ENEFD
da Universidade do Brasil. Talvez, esse seja o marco de ampliação da formação da Educação Física
nacional, pois a política de bolsas de estudos empregada pela instituição permitiu o ingresso
de estudantes das mais variadas regiões do Brasil. Paralelamente a essa dinâmica, algumas
tentativas frustradas de Criação de um Curso de Formação em Educação Física se sucederam
na Bahia, em 1942 na interventoria de Landulfo Alves, em 1965 no governo de Lomanto Júnior,
em 1969 no governo de Luiz Viana Filho e só em 1973 o Estado ver materializado o intendo de
criação de seu primeiro curso em Educação Física, claro que vários personagens se empenharam,
mas um em particular merece uma analise destacada, pela posição que ocupou. O professor Alcyr
Naidiro Ferraro estudou na ENEFED na década de 1950 e retornou para a Bahia com o propósito
de propagar a formação adquirida, assim esteve próximo dos movimentos junto com a APEFB
quando da articulação da criação do Curso da UCSAL, e estava no colégio de aplicação da UFBA
e próximo ao reitorado da época para cristalizar o primeiro curso público da Educação Física na
Bahia. Definido o cenário, nos interessa entender as tensões existentes, as disputas internas,
assim como as convergências negociadas. Entrevistas realizadas com professores da época nos
ajudaram a compor um mosaico que nos impulsionam pensar que Alcyr Ferraro foi realmente o
materializador da Formação Profissional em educação física na Bahia.

Remexendo arquivo ¨morto¨, fotografias e lembranças: os desafios de uma pesquisa.


CARMEN LILIA DA CUNHA FARO (UEPA)

Resumo: Este texto apresenta resultados parciais da pesquisa de doutorado, cujo objetivo é (re)
construir o percurso formativo do primeiro corpo docente da Escola Superior de Educação Física
do Pará(ESEFPA) no período de 1950,1960 e 1970. Os interesses que motivaram a pesquisadora a
realizar este estudo inicialmente reporta-se à própria trajetória profissional no Curso de Educação
Física (CEDF) da Universidade do Estado do Pará (UEPA) como professora da disciplina Fundamentos
Históricos da Educação Física, do Esporte e do Lazer. Função que propiciou um contato direto
com o arquivo ¨morto¨do curso ao deparar com poucas fontes, registros e relatos sobre esses
professores. Nessa atuação, a questão problema junto às aulas e eventos da disciplina era a
dificuldade com a história desses professores e quando se conhece é apenas o nome ou uma história
superficial sobre os mesmos. Além das buscas no arquivo foram realizadas entrevistas na linha da
História Oral que registra memórias narradas através de entrevistas como fontes. A utilização
desse método de pesquisa está ligada a uma série de procedimentos técnicos e de pressupostos
teóricos conceituais (BOSI,2004; ALBERTI,2005; NEVES,2006; HALBWACHS,2006). Além de relatar
as vivências passadas, foi registrado a reconstrução da trajetória de formação desses professores

193
que estão relacionados com a docência, formação, dom, protagonismo e esquecimento com outros
aspectos da trajetória de vida. Foram identificados pontos convergentes e comuns, divergentes,
independente da trajetória de cada um, os quais identificados e interpretados como sendo de
um determinado tempo histórico em que viveram e retratam o professor de Educação Física do
estado do Pará de um período específico.

Compreensões Históricas do Esporte Baiano (1920-1940)


JOÃO GABRIEL ALVES DA SILVA DANTAS

Resumo: Compreendemos o esporte como uma das mais importantes manifestações culturais do


século XX, um fenômeno tipicamente moderno e articulado com outras dimensões sociais. Assim,
tentar compreender os diversos formatos que este ocupou no decorrer do tempo, permite-nos um
olhar sobre sua constituição e também de suas relações com a sociedade local. Sendo assim, para
este projeto lançamos a questão: quais os elementos de afirmação e ampliação da experiência
esportiva em Salvador? O objetivo é justamente poder estabelecer uma leitura acerca deste
fenômeno e a extensão de suas experiências, tomando por base pesquisas já produzidas que
apontam a constituição esportiva entre fins do século XIX e início do século XX. Sua justificativa
recai na própria importância social do esporte e a necessidade de melhor compreender sua
circulação e relação com a cidade. Como metodologia, trabalharemos com a pesquisa histórica
tendo por base a Nova História Cultural. Como fontes, lançaremos mão da imprensa baiana,
usando jornais como o Diário de Notícias, A Tarde, Jornal de Notícias, Diário da Bahia, Gazeta do
Povo, Correio de Notícias e o Correio do Brasil e revistas como Renascença, Revista do Brasil, Artes
e Artistas e Semana Sportiva, notadamente, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional
e o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. O recorte temporal se foca entre as décadas de
1920 e 1940, período indicado como o de afirmação de uma prática cultural iniciada em décadas
anteriores. Assim, como meta, se pretende ampliar e alargar estudos acerca do esporte e mesmo
da sociedade local, na perspectiva de construir um mais amplo espectro de compreensão desta
relação.

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SESSÃO 01: 21/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

Clube de Cinema da Bahia e a sua participação no campo cinematográfico nos anos 1970
IZABEL DE FÁTIMA CRUZ MELO (UNEB)

Resumo: Este artigo trata das ações do Clube de Cinema da Bahia durante a década de 1970 em
Salvador. Pretende-se a partir da descrição e análise da sua programação, composta tanto por
exibições regulares e mostras temáticas, quanto por cursos, palestras e seminários, evidenciar
a sua importância junto com o Grupo Experimental de Cinema e a Jornada de Cinema da Bahia
como vértices impulsionadores da cultura cinematográfica na Bahia durante este período, que
articulados proporcionaram além da possibilidade de acesso a uma filmografia diversa, um espaço
de formação para críticos, cineastas, produtores e técnicos, alguns ainda hoje em atividade no
cinema brasileiro.

Versão cinematográfica de O Pagador de Promessas e a Palma de Ouro


PRISCILA GODINHO MARTINS DOS SANTOS

Resumo:  Neste texto nos dedicamos à análise da adaptação da peça O Pagador de Promessas
de Dias Gomes escrita, em 1959, para versão fílmica, em 1962, dirigida por Anselmo Duarte.
Coloca-se em perspectiva a repercussão de O Pagador após o prêmio recebido em Cannes, a
Palma de Ouro. Uma importante premiação para o cinema nacional. Assim com um elucidativo
material documental de periódicos narramos como reverberou a película aqui e em outros países.
Concluímos refletindo sobre a censura durante o regime civil-militar em relação aos produtos
culturais, com destaque para os filmes e consequentemente aos seus cineastas, entrecruzando o
contexto histórico, social e político da década de 1960. A interpretação do Brasil que Dias Gomes
realiza em sua obra teatral desdobrou-se e foi perseguida pelos censores tanto no teatro como
no cinema.

Corpos urbanos na “Feira moderna”: a relação corpo-cidade no filme “Um crime na rua” de
Olney São Paulo
ALISSON OLIVEIRA SOARES DE SANTANA

Resumo: O presente estudo se propõe a analisar os corpos na cidade Feira de Santana a partir
do curta-metragem “Um Crime na Rua” (1955), de Olney São Paulo. Para isso, buscou-se analisar
a narrativa fílmica a partir dos vetores Corpo-Cidade, tais chaves potencializaram refletir
sobre as experiências e as diversas manifestações dos corpos no espaço urbano. O documento
cinematográfico analisado aqui, tem como data de produção e lançamento o ano de 1955.
Focalizando aspectos regionais da cidade, o curta-metragem apresenta um enredo policial que
vai mobilizar dois agentes investigativos na resolução de um crime cometido no centro de Feira de
Santana. Como narrativa, o filme apresenta cenas reais da vida cotidiana da cidade, possibilitando
o resgate de determinadas práticas culturais produzidas em meio a uma recente dinâmica urbana.
Ao explorarmos as representações das paisagens urbanas feitas no curta, percebe-se o como o
olhar do diretor se direcionou em trazer uma perspectiva da espacialidade da cidade e dos corpos
transeuntes. A cidade é revelada pelo diretor através de uma condição “flâneur”, caracterizando

196
seu olhar como detentor de significações urbanas. É, portanto por meio de estratégias como essa
que a narrativa do filme adquire contornos tangíveis e intangíveis, ao mesmo tempo que produzem
sentidos e sensações que operam nas subjetividades das memórias individuais e coletivas. Como
se trata de uma produção de caráter urbano, sendo realizada em espaços abertos da cidade, os
trechos da trama conseguem relatar especificidades históricas dos elementos que fizeram parte
da paisagem urbana de Feira de Santana na década de 1950. A paisagem apresentada no filme
incorpora não apenas as configurações espaciais da cidade, como também a relação entre as
pessoas que atuam no espaço urbano. Este olhar de profundidade sobre o espaço urbano vivido
fornece a Olney São Paulo um conteúdo visual que desvenda a Feira de Santana que se moderniza
dentro de um quadro de injunções socioeconômicas, formulando assim um campo imagético de
representações sobre a urbe e seus habitantes. Os corpos que também se apresentam preenchem
e interagem o tecido urbano, fornecendo atuações de grupos sociais, de situações e convenções
que são protagonizadas no meio urbano por meio de relações interpenetrantes.

Negacionismo, cinema e desinformação: proposta para pensar o Brasil do tempo presente


HANAYANA BRANDÃO GUIMARÃES FONTES LIMA (UFBA)

Resumo: A proposta deste artigo é tomar o filme Negação (2016) como ponto de partida para
propor uma reflexão sobre o negacionismo no Brasil do tempo presente que tem conquistado
cada vez mais espaço na cena pública brasileira. A obra com direção de Mick Jackson e roteiro
de David Hare, foi lançada no Brasil em 2017 e, baseia-se no livro “Denying the Holocausto: The
Growing Assault on Truth and Memory”, escrito pela da historiadora americana Deborah Lipstadt
e, publicado nos Estados Unidos, em 1993. A trama do longa-metragem gira em torno de um
processo de difamação movido por David Irving contra a pesquisadora depois que seu livro foi
lançado no Reino Unido. O processo estava baseado no impacto que as alegações apresentadas
na obra de Lipstadt teriam causado na carreira e na reputação de Irving. Como foi movido em
um tribunal britânico e o sistema jurídico inglês, nos casos de calúnia e difamação, não parte da
figura de presunção de inocência, o ônus da prova cabia ao réu. Ao final do julgamento histórico,
David Irving, que utilizava como argumento principal a falsa ideia de que as câmaras de gás nunca
teriam funcionado para exterminar os judeus, foi condenado pelo juiz do caso, Charles Gray, como
negacionista. Em sua sentença o magistrado afirma que Irving “reproduziu evidências históricas
erroneamente e as manipulou”, além de ter sido qualificado como “anti-semita e racista” e “um
polemista de direita e pró-nazista” (WREN,2000). A partir do filme é possível realizar um conjunto
de debates que perpassam pela judicialização dos fatos históricos; o papel da mídia; a liberdade
de expressão e opinião; a disseminação da cultura do ódio, especialmente nos espaços da redes
sociais, bem como, a uma parte dos processos de desinformação, aos quais se convencionou
chamar de “fakenews”. O artigo perpassa por essas questões mas se concentra especificamente
no negacionismo no caso brasileiro, a partir das eleições de 2018, suas estratégias discursivas e
nas possibilidades e desafios de enfrentamentos. Busca conceituá-lo e investiga, especialmente
a partir da atuação do governo federal, observando suas diferentes facetas, que vão desde a
negação da própria política, passando pela negação das experiências traumáticas da sociedade
brasileira, a exemplo da escravidão e com ênfase na ditadura militar, até o negacionismo dos
dados produzidos pelas Universidades e instituições de pesquisa oficiais, como o IBGE e o INEP,
a respeito de temáticas como aquecimento global, desmatamento, a fome, o desemprego, a
desigualdade, a violência policial. A pauta também avança para o negacionismo da censura, da

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violência contra o jornalistas e a liberdade de expressão, aos incidentes diplomáticos, até chegar
ao mais notório dos exemplos que se refere a pandemia do COVID-19.

Dinâmicas da memória do cinema na Bahia: A trajetória artística de Agnaldo “Siri” Azevedo


entre a lembrança e o esquecimento (1940-1960)
EDEVARD PINTO FRANÇA JUNIOR (SECRETARIA DE EDUCAÇÃO DO ESTADO DA BAHIA)

Resumo:  Agnaldo “Siri” Azevedo foi um documentarista que participou atividade da atividade
cinematográfica baiana do final dos anos 1960 até meados dos anos 1990. Contudo, nas narrativas
que abordam as décadas anteriores (Glauber Braga, Myriam Fraga, Sante Scaldaferri, Nelson
Motta), “Siri” é não é mencionado. Este trabalho visa investigar as razões do esquecimento em
torno de Agnaldo Azevedo dessas narrativas. Para tal, seguindo as pistas deixadas pelo relato de
Chico Drummond, primeiramente, vamos realizar um mapeamento das redes de sociabilidade dos
sujeitos em torno de “Siri”. Depois, vamos tentar reconstruir a inserção dele no Clube de Cinema
da Bahia. Acreditamos que esse esquecimento deve-se por dois motivos: primeiramente, a opção
pela produção de curtas-metragem, um objeto invisibilizado dentro da historiografia do cinema
brasileiro; e por fim, por ser um cineasta negro numa cidade racista.

Tempos líquidos, linguagens e História


MARCOS FERREIRA GONÇALVES (UNEB), CAIO MARCOS RIBEIRO GONÇALVES (INS)

Resumo: Não há dúvida que analisar o tempo é a matéria substancial da produção historiográfica


e é a própria vida do historiador. Também se sabe que as temporalidades podem ser percebidas
de variadas formas, extrapolando a mera cronologia de episódios. Um dos modos de perceber o
tempo e escrever sobre o mesmo se dá em diálogo com a História Cultural, desta forma, analisa-
se os sistemas de tempo de acordo com nossas construções sociais e culturais, conforme nos
indicou Peter Burke. Esta comunicação se insere neste contexto da História Cultural, percebendo-a
como uma corrente historiográfica fecunda para se pensar homens, mulheres e seus modos no
tempo e tem como objetivo analisar aspectos deste tempo que se convencionou ser chamado de
modernidade liquida, marcadamente na perspectiva de Bauman (2001). Este tempo de Bauman,
a “modernidade líquida”, foi analisado por Oliveira (2012) como uma época em que as relações
que compõem a sociedade e o mundo se encontram em um estado similar ao estado liquefeito
da matéria, flexíveis e voláteis, podendo dispensar na maioria das vezes a “liga” necessária para
manter as partes do sólido unidas. Para se fazer a análise nesta comunicação, o uso das linguagens
cinematográficas e literárias terão lugar privilegiado, em particular se lançará mão do conto, A
terceira margem do rio do escritor brasileiro Guimaraes Rosa e a película cinematográfica, Ad
Atra: rumo as estrelas oriunda do cinema norte-americano e dirigido por James Gray, entendendo
que estas produções dialogam com aspectos da modernidade liquida e merecem análises.
Parece importante salientar que enxergamos o cinema como uma arte formadora de saberes,
tão importante quanto a literatura. Por fim, as duas linguagens citadas, basilares neste trabalho
e oriundas de culturas ocidentais dispares, (filme e obra literária) observam o tempo e seus
graus de efemeridade personificado na figura paterna e em uma certa fuga deste papel social na
modernidade tardia e por este motivo a figura do pai terá considerações neste trabalho, pois, esta
persona é central nas linguagens aqui destacadas.

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Uma análise sobre a contracultura através do filme Labirinto de Paixões (1982) Pedro
Almodóvar
ISMÊNIA MEIRELES COSTA DE ALMEIDA BORGES (UNEB)

Resumo:  Após a morte de Franco, a Espanha passa por um pujante processo de modernização
cultural e política, essa transição na atmosfera cultural da época motivou as pessoas a mudança
e a conquista de novos espaços; tendências iam surgindo e se consolidando. Nesta perspectiva,
a corrente contracultural que viria a ser conhecida como Movida Madrilenha, imprimiu uma nova
perspectiva artística e atmosférica no campo sociocultural espanhol. Rebento de uma sociedade
que clamava por liberdade de expressão, artística e sexual, campos que haviam sido oprimidos
durante os quase 40 anos de ditadura franquista, regime que sujeitou o país ao conservadorismo.
O cinema de Pedro Almodóvar é fruto desse período pós franquista, e nesse sentido, seus
filmes evidenciam a liberdade de expressão, apresentando um ideal democratizador, moderno,
e dialogando com a cultura de outros países, principalmente com inspirações norte-americanas,
apresentando uma história vista de baixo, das minorias, das vozes marginais e da estética do
absurdo. Assim, a partir do filme Labirinto de Paixões, lançado em 1982, discutirei aspectos da
importância desse movimento, o impacto da Movida em grande parte da sociedade daquela época,
partindo do método da análise fílmica em conjunto com a análise da documentação existente
sobre o assunto.

SESSÃO 02: 22/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

Um Breve Debate Teórico Sobre O Sertão e As Cangaceiras Na Pornochanchada


CAROLINE DE ARAÚJO LIMA (UNEB)

Resumo: As representações das cangaceiras no cinema nacional é o centro dessa comunicação. O


objetivo do trabalho é analisar as representações sociais do sertão nordestino e das cangaceiras
a partir da teoria feminista do cinema, problematizando a imagem feminina como objeto passivo
para o olhar do sujeito masculino. O filme a ser analisado é uma pornochanchada: As Cangaceiras
Eróticas. A obra é considerada uma comédia e um thriller de aventura, onde o enredo gira entorno do
cotidiano de um bando de cangaceiros ambientados com alguns elementos da cultura nordestina.
A história se passa no ambiente inóspito do sertão, no qual, um grupo de mulheres decidem
entrar para o Cangaço motivadas por vingança e para não se tornarem escravas de “empresários
ou de marido”. Estas personagens (a cangaceiras, os(as) sertanejos(as)) são o objeto de análise do
trabalho. A breve discussão teórica que pautará a análise fílmica partiu dos questionamentos do
movimento feminista a esse modelo de cinema, que produziu uma disputa entorno das relações
de gênero nas produções cinematográficas. O artigo fará uma breve exposição do contexto
histórico que tais questionamentos ganham destaque, pós maio de 1968, onde o ceticismo em
relação as teorias totalizantes colocou a produção cinematográfica ao lado de questões alinhadas
aos direitos sexuais e reprodutivos, de combate ao racismo e a defesa do amor livre.

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Fotografias de mulheres negras, escravizadas e libertas nos séculos XIX e XX: representações
e influências que nos afetam
ELLEN KATARINE DA SILVA OLIVEIRA (UFRB)

Resumo: Minha proposta é discutir as representações das mulheres negras, escravizadas e libertas


na fotografia no final do século XIX e início do XX. A partir da análise, meu objetivo é compreender
como essas fotografias influenciaram na construção de um imaginário dessas mulheres, pensando
o quão problemático são as formas que elas foram retratadas no período em questão. Também
pretendo refletir de que modo tais representações criaram e fortaleceram imaginários que nos
impactam até hoje. Para guiar essa pesquisa que está em andamento, foram escolhidas três fotos
de fotógrafos da época, encontradas em acervos, sendo eles o italiano Augusto Stahl, o alemão
Alberto Henschel e o brasileiro Militão Augusto de Azevedo. Concluindo que essas fotografias
tiveram utilidades tanto como souvenir, com o intuito de serem vendidas como cartão postal,
quanto para serem utilizadas como documentos científicos, que servissem de comprovações para
o desenvolvimento de teorias de inferioridade racial. Segundo essas teorias, as imagens servem
de evidências da beleza e da superioridade da raça branca, enquanto, através da imagem dessas
mulheres negras, estava demonstrado o horror e a inferioridade racial das pessoas africanas e
seus descendentes nas Américas, além de outras afirmações relativas à sua sexualidade.

Sublinhando sobreposições de gênero e raça: um olhar sobre a personagem negra no


audiovisual
SANDRA SANTANA DA COSTA

Resumo: Esta comunicação tem como proposição refletir, analiticamente, possíveis significações


e tentativas de ressignificações do papel de uma personagem: mulher negra, na série brasileira
Coisa mais linda(2019), ambientada no Rio de Janeiro, na década de 50, produzida e exibida pelo
serviço de streaming Netflix. Interessa pensar, neste trabalho, o modo de construção do sujeito/
personagem negra, na narrativa, atentando para o modo como as ações da personagem constituem
processos de subjetivação marcados pela sobreposição do gênero à raça, bem como outros
marcadores sociais. Nesse sentido, será problematizado, a partir de uma teoria crítica que ampara
as diversas vozes e experiências de Mulheres Negras, o argumento dos roteiros sociais, forjados
enquanto armadilha junto às representações e expectativas, fixadas no domínio da branquidade
eurocêntrica. A série, que abre janelas para entender contextos socioculturais em profundas
mudanças, aborda, entre outras coisas, questões pertinentes à autonomia das mulheres frente
a sua libertação de padrões machistas. Esses arquétipos machistas, por sua vez, são alimentados
pelo sistema hegemônico patriarcal que, baseado em normas de gênero, limita as mulheres a
determinadas funções, por exemplo, no mercado de trabalho, além de impor definições sobre
seus direitos reprodutivos, reproduzindo a reconfiguração de modelos de comportamentos para
o que se entendia/entende como feminino, isso sem esquecer da abertura para temas-tabu como
a homossexualidade feminina. O embate das personagens que protagonizam a série frente a
estas questões, dialogam diretamente com os ideias do movimento feminista, na década de 60,
quando temos o surgimento da pílula anticoncepcional, no cenário mundial, o que dava margem
para mudanças no que se refere aos comportamentos sexuais das mulheres brancas, antes restrito
apenas às relações monogâmicas ou mesmo matrimoniais. Pensar e analisar as representações
de personagens de mulheres negras, constantemente relegadas à coadjuvância nas filmografias,

200
assim como também aos processos históricos que marcaram as formas de ver e de se fazer ver às
mulheres negras no Brasil, é um dos objetivos desta breve trabalho. É importante pontuar que a
série em questão apoia-se em um tipo de discurso feminista liberal, que tem por característica o
individualismo, e opera com base na universalização da categoria mulher. Em seus textos e roteiros,
portanto, a série age de modo antagônico àquilo que a própria produção acredita entregar para
o público quando se coloca enquanto uma filmografia que reflete, por exemplo, questões raciais.

A Memória fotobiográfica de Jorge Amado por Zélia Gattai em Reportagem Incompleta (1987)
KASSIANA BRAGA (GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO)

Resumo: Este trabalho tem como intuito discutir a primeira fotobiografia intitulada “Reportagem
Incompleta” lançada pela escritora e fotógrafa Zélia Gattai no ano de 1987.
Nessa fotobiografia publicada pela editora Corrupio, apresenta inúmeras fotobiografias
produzidas por era durante o exílio (1948-1952) na Europa até o final da década de 1980, período
em que se debruça a compor muitas imagens do esposo Jorge Amado, dos seus familiares e amigos
em diversos momentos e espaços que os acompanhou. Com esse texto, pretendemos tecer uma
reflexão acerca dessas fotografias que Zélia Gattai produziu, registrou e guardou ao longo de sua
vida. O objetivo é identificarmos as significações e as interações entre memória familiar e coletiva
através da construção dessas memórias a partir dessas imagens e das legendas contidas nessa
fotobiografia, levando em conta as histórias visuais produzidas pela autora.

A inserção feminina no mercado de trabalho chileno a partir da série televisiva Los 80


BEATRIZ DE SOUZA BRAVO (UFF)

Resumo:  O seguinte trabalho estuda a inserção feminina no mercado de trabalho durante a


ditadura militar chilena (1973 - 1990), a partir da análise da personagem Ana Herrera, da série
televisiva Los 80, más que una moda. A obra audiovisual foi produzida entre 2008 e 2014 e narra
a história sobre como uma tradicional família de classe média vive em meio à década de 1980,
caracterizada pela violência e a imposição do neoliberalismo ortodoxo. Por meio do cotidiano
do pai Juan, da mãe Ana, e dos filhos Claudia, Martin, Felix e Anita, é possível entender a época
supracitada, e como o contexto militar afetava o dia a dia dos chilenos. Ana Herrera é, no início
da série uma dona de casa, submissa ao marido e em função da família. Enquanto o dever de seu
esposo é sustentar o lar, o seu é cuidar da moradia. Essa situação é coerente ao contexto machista
vivido no Chile. A Junta de Governo instaurada em 11 de setembro de 1973 reforça o patriarcalismo
histórico chileno e utiliza a mulher como figura central para o êxito do regime, pois a mesma
teria o dever de educar os filhos segundo os preceitos dos militares. Nesse sentido, os militares
enquadram a cidadã chilena em uma concepção mãe-esposa. Entretanto, como demonstra a série
estudada, essa atuação governamental é incoerente à evolução feminina e aos fatos posteriores
à crise de 1982, que geram outras possibilidades às mulheres além de ser mãe e trabalhar no lar.
Ana Herrera demonstra essa dinâmica, já que inicialmente é dona de casa. Contudo, em 1982, com
a recessão econômica, seu marido é demitido e ela começa a trabalhar para completar a renda
do lar. Essa é a realidade de muitas mulheres que, ao entrar no mercado de trabalho, encaram
inúmeros desafios, como a oposição de seus maridos, a dupla jornada de trabalho e o machismo do
meio. Esta pesquisa, portanto, busca entender a situação das mulheres chilenas, principalmente
a entrada feminina no mercado de trabalho, a partir do cotidiano dos Herrera, em um contexto

201
de repressão, censura e mudanças econômicas, utilizando a obra audiovisual como principal fonte
histórica. A análise da série se baseia em uma vasta bibliografia teórica, que é lida conjuntamente
a uma seleção de textos sobre a ditadura militar chilena, a situação feminina, o neoliberalismo e
o mercado de trabalho.

A representação de família nas fotografias da Revista A liahona (1995-2000)


JULIANA SALES RODRIGUES (UNEB)

Resumo: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias é uma instituição religiosa cristã
oriunda do contexto de reformismo religioso dos EUA no século XIX. Para que suas crenças e
doutrinas fossem propagadas, a Igreja dos Santos dos Últimos Dias utilizou de ferramentas,
como a Revista A Liahona, para que padrões familiares, condutas morais e modos de ser e ver o
mundo fossem internalizados por seus adeptos. Diante disto, está comunicação tem por objetivo
analisar as representações de família nas fotografias da Revista A liahona, publicadas no Brasil
entre 1995 a 2000. Para alcançar este fim, a análise empreendida dialoga com outras áreas do
saber, utilizando o método da descrição densa proposto por Clifford Geertz (2008), bem como
as concepções teóricas de John Berger (1999), Boris Kossoy (2001), Peter Burke (1999) e Valter
Oliveira (2017), que contribuem significativamente para análise das fotografias dentro dessa teia
de interesses que envolve família e religião. Por fim, cabe ressaltar que as fotografias enquanto
documento histórico devem ser utilizadas para a construção da narrativa histórico-social, pois
são suportes que consolidam práticas de um grupo e normatizam discursos que podem diferir
conforme a realidade social estudada.

Invisibilidade das realizadoras na história do cinema latino-americano


LÍLIAN MOREIRA DE ALCÂNTARA (UFPE)

Resumo:  Desde a popularização do conceito “cinema latino-americano” impulsionado pelos


movimentos dos Novos Cinemas, vem sendo escrita uma História do Cinema Latino-Americano.
Com a expansão da teoria feminista do cinema na década de 1970, surgiu a necessidade de
mapeamento e reconhecimento das realizadoras nesta história latino-americana. Este artigo busca
criticar essa historiografia por perpetuar a omissão destas mulheres a partir dos documentos
consultados, como jornais, críticas e anais de festivais e refletir métodos historiográficos que
inclua a participação das mulheres no cinema, sem as colocar como apêndice da história.

Casa Brasileira um lugar de tradições e preservação


LUANA GRACE GUERRIERI ARAUJO

Resumo: Pensar a casa brasileira como um lugar de tradições e preservação, é pensar sobre o
lugar onde se constitui a família não apenas como uma residência, mas também como um espaço
permeado de sentimentos, histórias e hierarquias sociais que formam a nossa conduta perante a
sociedade. Assim, nos propormos nesse ensaio analisar a casa como um patrimônio cultural que
carrega a história de vida e as memórias de seus moradores. Para conduzirmos nossa reflexão
utilizamos de artigos de autores que abordam acerca desse tema. A partir dessa análise verificamos
que pensar a casa enquanto patrimônio é inseri-la no conjunto de bens produtores de significação
e afetividades, que guarda a memória de uma família em seus patrimônios revelados nas receitas,

202
roupas, moveis, fotografias e outros objetos.

A última despedida: uma investigação sobre a fotografia mortuária na microrregião de


Jacobina no século XX
GRAZIELA GOMES SANTANA

Resumo: Com o alargamento do conceito de fontes históricas no século XIX, o historiador pode


ampliar consideravelmente seus interesses na história da vida cotidiana, na história do corpo,
na história da cultura material, na história das mentalidades. Assim, cada vez mais as imagens
são utilizadas ao lado de testemunhos orais e textos literários como objetos de construção
da memória. Com o testemunho ocular do passado e a propensão a imortalidade, a fotografia
possibilita registrar uma espécie de biografias de pessoas comuns, de todas as fases e em diversos
momentos da vida. Elas possuem a função de documentos valiosos, com teor de afetividade. Entre
os diversos tipos de fotografias, se destaca os retratos de defuntos produzidos no momento do
seu velório e do sepultamento. Assim, este artigo investiga a produção e o consumo de fotografias
mortuárias como objetos de memória produzidas no século XX e presentes nos sertões da Bahia,
especificamente na na microrregião de Jacobina-BA. A proposta é realizada por meio de estudo
serial a partir do mapeamento e da análise de fotografia post-mortem, destacando padrões e
variações de representação do morto e suas relações com o contexto social de produção desses
artefatos iconográficos.

203
SESSÃO 01: 21/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

Mulheres negras tecendo sonhos de liberdade na cidade encruzilhada


KARINE TEIXEIRA DAMASCENO

Resumo: Neste estudo, reconstituo a experiência de duas mulheres negras enquanto lutavam pela
liberdade legal para elas si mesmas e para suas filhas e filhos pequenos, em Feira de Santana, nas
últimas décadas da escravidão. Trata-se de Maria Mardina e Maria dos Anjos que fizeram questão
de dizer que por “amor da criação e bons serviços que lhes prestaram”, o senhor João Francisco
do Rego e dona Maria Carolina do Amor Divino concederam carta de liberdade gratuita a elas e às
crianças e, por isso, desde então, passaram a gozar de liberdade, ainda que sem deixar de viver em
companhia do casal. As duas relataram, também, que, depois disso, o coronel Joaquim Ferreira
de Moraes começou a aparecer na referida residência e a pressionar seu ex-senhor para que este
voltasse atrás na concessão da alforria. Ao observar a intenção do coronel e por receio de que seu
marido fosse “iludido ou a carta fosse subtraída” por medida de segurança, a mencionada ex-senhora
mandou escrever outra carta na qual conferia novamente a liberdade para toda família, mas como
nada disso garantiu à liberdade, depois da morte do ex-senhor, o caso foi levado pelas Marias para
ser resolvido diante das autoridades judiciais. Desse modo, tais experiências funcionaram como
fios condutores que permitiram descortinar aspectos da vida de outras mulheres daquele tempo;
de outros familiares bem como de demais integrantes da comunidade negra. Para tanto, foram
analisados documentos como ações de liberdade, jornais, inventários e cartas de alforrias. A partir
de uma abordagem qualitativa das marcas deixadas por essas personagens em seu itinerário foi
possível saber que, a despeito da opressão interseccional de classe, gênero e raça; mulheres
negras – escravizadas, libertas e livres foram personagens centrais na luta pela liberdade legal
na região. A escolha teórico-metodológica utilizada para a investigação tornou possível constatar
que as especificidades da escravidão feminina influenciaram na decisão de investir na conquista
desse tipo liberdade.

ÚLTIMO ATO SENHORIAL: Alforria e família negra na Chapada Diamantina (séc. XIX)
JACKSON ANDRÉ DA SILVA FERREIRA (UNEB)

Resumo: Esse trabalho tem por objetivo principal discutir alforria, famílias negras e dominação
senhorial nos anos finais da escravidão no Brasil. Para isso, além da bibliografia específica sobre
os temas, utilizarei documentos produzidos pelo coronel Quintino Soares da Rocha e sua esposa
dona Umbelina Adelaide de Miranda. O casal Soares da Rocha, como chamarei a apresentação,
era o mais rico proprietário da vila chapadina de Morro do Chapéu na segunda metade do século
XIX. Maiores senhores de terras, gado e gente, incluindo aqui escravos e dependentes, o coronel
Quintino e dona Umbelina possuíam na véspera da morte daquele, ocorrida em 1º de maio de
1880, uma fortuna estimada em 120 contos de réis. Por parte do casal, as duas principais fontes
norteadoras para a análise são o testamento do coronel, selado em 1874, e a carta de alforria
coletiva, feita e registrada logo após a morte do senhor. Além delas, utilizarei registros de batismo,
casamento, inventários e processos criminais diretamente relacionados aos escravos e libertos
do casal. Os principais parâmetros teóricos e metodológicos são o paternalismo thompsiniano, a
micro história e a trajetória.

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Apontamentos sobre expectativas do trabalho livre nos anos finais da escravidão (região de
Feira de Santana-Ba, 1870-1888)
FLAVIANE RIBEIRO NASCIMENTO (IFBA - INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E
TECNOLOGIA DA BAHIA)

Resumo: Os debates sobre abolição da escravidão no Brasil têm apontado para a necessidade de
compreensão de como essa história nacional está intrincada num processo de industrialização
de larga escala que, se por um lado levou ao fim da escravidão em vários lugares durante o
século XIX, também implicou expansão e diferenciação de regimes escravistas noutros, como no
Brasil, onde não só observamos a persistência da escravidão, como de outras formas de trabalho
não-remunerado. Nesse sentido, analisarei como os dispositivos que compunham o programa
emancipacionista brasileiro, notadamente a partir da lei de 1870, concebiam uma ideia de
transição para o trabalho livre e de trabalho livre para trabalhadoras/es escravas/os e libertas/
os na última sociedade escravista do Ocidente. Para tanto, analisarei os protocolos de cartas de
alforria sob condição de prestação de serviços e de contratos de trabalho da região de Feira de
Santana-Ba - instrumentos de libertação e de controle do trabalho daquele contexto. Pretendo
um estudo sobre formas e condições de trabalho a que eram submetidos esses sujeitos, a fim
de compreender como se constituiu um horizonte de mercado de trabalho e os seus sentidos
históricos. Também buscarei flagrantes desse devir em jornais que defendiam o fim da escravidão
com vistas ao entendimento de como essas ideias repercutiram sobre a inserção de ex-ecravas/
os no mundo do trabalho livre. Por certo, esses aspectos ajudarão a compreender a experiência
da liberdade e do trabalho, mas também como esse programa deu lastro a um projeto de nação
além da escravidão.

As Freguesias de Salvador: Pontos de Encontro do Comércio das Ganhadeiras libertas 1850-


1888
ALINE SANTOS DE OLIVEIRA

Resumo:  Este artigo propõe estudar as freguesias, os pontos de encontros do comércio das
ganhadeiras libertas em Salvador no período compreendido entre 1850-1888. Analisamos os
registros produzidos pela Câmara municipal da cidade, como os requerimentos de Africanas
libertas, e como forma de controle social as infrações de posturas imputadas a estas mulheres.
Cabe ressaltar que a instituição regulava e fiscalizava o comércio urbano de Salvador. Deste modo
em tal registos, é possível identificar as ganhadeiras libertas desenvolvendo atividades comerciais
e prestação de serviços em diversas freguesias. Através de uma análise quantitativa, estudaremos
os censos apresentando os dados das freguesias diversas com o objetivo de identificar atuações
de trabalho das negras libertas. As freguesias da cidade baixa onde se concentrava o comércio
com destaque as freguesias da Conceição da Praia e do Pilar, nota-se a intensificação dos
trabalhos das ganhadeiras. Ressaltamos que estas estavam próximas ao porto da cidade, dele
provinha as mercadorias e gêneros alimentícios, possibilitando a efervescência do comércio
baiano. Além do comércio de varejo, o porto de Salvador assumiu um papel fundamental para a
economia local durante o século XIX, como redistribuidor de mercadorias. Nessas imediações é
possível identificar as negociações das ganhadeiras com as pequenas embarcações que atracavam
a beira mar, no intuito de sair na frente na vendagem dos gêneros de primeira necessidade. A
cidade alta também há registros, em 1849 ao censo de 1872 na freguesia de Santana, ganhadeiras

206
executando diversas funções como forma de sobrevivência. O que será reflexo para as décadas
posteriores, até os anos finais da abolição, onde constatamos diversos pedidos de licenças e
arrematação de talhos e barracas nas diversas freguesias, a atribuição de liberar os pedidos era
responsabilidade da câmara que tinha sob seu controle os dados sobre a vida e funções laborais
daquelas mulheres. A conjuntura favorecia, em decorrência de sucessivas leis abolicionistas, o que
possibilitou o aumento da mão de obra das africanas libertas em Salvador, que no seu histórico já
desempenhavam as atividades comerciais quando escravizadas. Além disso, discutiremos sobre
as habilidades de comercio, os reiterados pedidos dos locais fixos de trabalhos evidenciando os
espaços urbanos como meio integrador das trocas de solidariedades com os seus, assim como os
conflitos e as disputas diárias.

Os escravizados e a escravidão nas poesias de Castro Alves


ANTONIO TADEU SANTOS BARBOSA (COLÉGIO MARLENE TEREZINHA SOUZA SALES RIBEIRO)

Resumo:  A comunicação pretende refletir sobre um projeto em construção, que objetiva


analisar as poesias inseridas no livro Os Escravos, de autoria do poeta Castro Alves, publicado
postumamente no ano de 1883. A curiosidade em analisar as poesias de Castro Alves sobre
os negros escravizados surgiu a partir de um relato contado por Davino da Silva Figueredo –
escrivão da comarca de Curralinho (atual Castro Alves-BA) no século XIX e amigo de Castro
Alves – para o jornalista Loureiro Souza no ano de 1935, publicado no livro de Waldemar Matos,
intitulado A Bahia de Castro Alves. Segundo o relato, no ano de 1870, em Curralinho, já no
período de convalescência, ao visualizar uma leva de escravizados que estava chegando para
ser comercializada, Castro Alves se depara com uma cativa morena bem clara e questiona ao
traficante de escravizados o que aquela menina estava fazendo ali. Quando Manoel Lefundes
diz ser a menina uma escrava, o poeta questiona a sua afirmação dizendo: “[...]escrava por quê?”.
Em seguida, decide comprar a alforria da cativa e, a julgar pelo discurso de desqualificação
daquele tipo de comércio empreendido pelo traficante, transforma aquele episódio num ato
de denúncia à escravidão. Porém, após alforriar a cativa acaba a deixando sob os cuidados do
pai de um dos seus amigos que, certamente, presenciara o acontecimento. Jamais iremos saber
qual foi a intenção de Castro Alves quando decidiu deixar a alforriada sob os cuidados de uma
outra pessoa. Contudo, sabe-se que aquele era um período no qual as teorias raciais estavam
ganhando espaço na sociedade e aceitação nos meios acadêmicos brasileiros. Assim, a ideia de
inferioridade dos negros se atrelava à justificativa desses sujeitos serem escravos e não estarem
preparados para viver em liberdade devido aos maus tratos da escravidão. A análise das poesias
de Castro Alves, enquanto fonte histórica, possibilita compreender o contexto histórico e as
representações dos sujeitos sociais construída pela subjetividade do autor. Assim, para afastar o
risco de reproduzir o ponto de vista de quem produziu o documento, tornará necessário dialogar
com algumas produções historiográficas que refletem sobre escravidão, raça e hierarquias
sociais nas últimas décadas do século XIX. Dessa forma, levando em consideração o avanço da
historiografia nos últimos trinta anos, percebe-se que houve esforço por parte dos historiadores
em analisar fontes de natureza variada, a exemplo das fontes judiciais, eclesiásticas e literárias.
Todavia, principalmente quando se trata das fontes literárias, nota-se a quase não existência
de trabalhos que fazem uso da poesia como fonte histórica para a chamada história social da
escravidão. Intencionamos também refletir sobre essa questão.

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Da pequena vila à plantation: os padrões das alforrias de pia batismal e os caminhos para a
liberdade em um município em expansão – Campinas, séculos XVIII e XIX
TALISON MENDES PICHELI (UNICAMP)

Resumo: O colapso das exportações de açúcar na ilha de São Domingos, em decorrência do levante
escravo ocorrido naquela região, em fins do século XVIII, representou mudanças importantes em
alguns lugares do mundo, sobretudo nas Américas. No Brasil, a recém fundada vila de São Carlos
(antiga denominação do município de Campinas) foi uma das que mais sentiu os impactos desse
fenômeno, responsável por transformações importantes nos campos econômico, demográfico
e social ao longo de todo o século XIX. A pequena vila, cuja economia se baseava sobretudo
na produção de bens de subsistência, logo se tornou um típico centro de plantation, produtor
e exportador de açúcar e café, e dependente da mão de obra de homens e mulheres africanos
escravizados. Ainda que muitas dessas pessoas, e de seus descendentes, tenham vivido e morrido
sob o jugo do cativeiro, pesquisas têm demonstrado que suas experiências de luta pela liberdade
foram constantes e, não raro, lhes rendiam a conquista de uma nova condição jurídica, a de libertos
e libertas. Um dos principais caminhos nesse sentido foi, sem dúvida, o processo da alforria – um
processo que, longe de ter sido uniforme, sofreu alterações ao longo do tempo, a depender da
região e período em que ocorria e até mesmo do tipo de documento em que era registrado. Dito
isso, proponho apresentar parte dos resultados de minha investigação a respeito das alforrias de
pia batismal que foram lavradas nos livros paroquiais de duas freguesias campineiras, entre os
anos de 1774 e 1871. Em um primeiro momento, tenho por objetivo discutir a própria dinâmica
desse tipo de manumissão, levando em consideração a sua frequência, as condições impostas à
sua obtenção e a forma como foram registradas na documentação eclesiástica. Busco, com isso,
não apenas mostrar os padrões de alforria ao longo do tempo, mas também discorrer sobre os
significados atribuídos a esse processo pelos diferentes agentes históricos que dele fizeram parte
e como isso influenciou nas suas estratégias diante de tal prática. Interessa saber, sobretudo, a
experiência daquelas mães e pais que conquistaram a liberdade de seus filhos recém-nascidos no
ato da cerimônia religiosa do batismo. Por fim, como o recorte temporal mencionado abrange os
períodos estudados por outros autores que se debruçaram sobre o tema das manumissões em
Campinas, procuro examinar a dinâmica das alforrias de pia também em conjunto com aquelas
registradas em outras fontes de acesso à liberdade.

Escravizadas em Ações de Liberdade: o pecúlio para a compra da alforria. Recife oitocentista


- 1870 / 1880.
MARIA MARINHO HARTEN (TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE PERNAMBUCO)

Resumo: Nossa pesquisa tem como objetivo apresentar o protagonismo de mulheres escravizadas


em micro resistências na resolução dos conflitos advindos do regime escravista no Recife das últimas
décadas que antecederam a abolição. Como fonte buscamos os processos de ações de liberdades
acondicionadas no Memorial de Justiça do Tribunal de Justiça do Estado de Pernambuco. O recorte
temporal tem como marco a promulgação da Lei 2.040 de 28 de setembro de 1871, privilegiada
como amparo legal para ações movidas por escravizadas em conflitos contra o domínio senhorial,
conflito entre o direito natural de liberdades e o direito da propriedade escrava. Vestígios e
fragmentos das ações, nosso fio condutor, cruzado a notas e notícias publicitadas em periódicos
locais e ainda a historiografia recente, oportuniza a construção da narrativa onde o lugar central

208
ocupado por mulheres foge da imagem submissa que perdurou por muitos anos. Aqui apresentamos
mulheres numa sociedade de traços patriarcais, paternalista e fortemente hierarquizado, que
“ousam” buscar a arena judicial, rompendo com a invisibilidade imposta aos grupos subalternos na
luta por autonomia, mobilidade e liberdades. Ao mesmo tempo que individualmente vão criando
estratégias de sobrevivência e resistência, vão, coletivamente conquistando o direito coletivo da
abolição gradual. A fonte judicial nos apresenta como a interferência do Estado passa a ditar um
novo padrão nas relações sociais e de poder entre o domínio senhorial e escravizadas. O direito
costumeiro da “alforria concedida” exclusivamente pelo proprietário passa a ser discutida na esfera
judicial com a garantia da irrevogabilidade. O que move as mulheres escravizadas, de idades, cores
de pele e atividades diversas, têm algo em comum: o sonho e o desejo por liberdades. Rofina,
Silvéria, Luíza e Benedicta são algumas das que vivenciaram o confronto entre seus desejos e
sonhos de liberdades e os interesses do poderio senhorial em oposição ao lugar subalterno e
invisível. Suas histórias fragmentadas nas ações instiga a percepção e afastamento da imagem de
escravizadas disciplinadas e submissas, contribuindo para incluir as mulheres da condição servil na
condução da abolição de 13 de maio de 1888.

“Não pode ter lugar a alforria”: alforria e família escrava, uma conquista árdua.
ROSÂNGELA FIGUEIREDO MIRANDA (INSTITUTO FEDERAL BAIANO)

Resumo: O artigo analisa as relações entre senhores e escravos em fazendas e sítios de grande,
médio e pequeno porte da região de Monte Alto, Alto Sertão da Bahia, durante o século XIX. A
vida de muitos escravos e libertos, no convívio com seus senhores, sobretudo na luta incessante
por alforrias e para escaparem da malha do tráfico interno, pôde ser analisada através de
registros de inventários, livros de notas e ações de liberdade disponíveis em cartórios e Fórum
da pequena cidade. Por meio da ligação nominativa e estudo minucioso desse acervo documental
foi possível compreender a vida cotidiana dos diferentes escravizados que por ali circularam.
A obtenção da alforria era algo custoso e difícil de alcançar, sobretudo diante do contexto do
tráfico interprovincial, fortemente ativo na região, naquele período. Como exemplo dessas
relações estabelecidas, o texto aborda a história de Inez, escrava de Ezequiel Botelho de Andrade,
proprietário da grande fazenda Lameirão. A história de vida da escrava Inez, na luta pela conquista
da alforria e da manutenção dos laços familiares se junta à história de muitos outros escravizados
países afora, no sentido de empreender esforços contra o cativeiro.

Afonso Arinos e a República de “resíduos”: índios e negros na formação do Brasil


ZENEIDE RIOS DE JESUS (UEFS)

Resumo: Os escritos produzidos por Afonso Arinos de Melo Franco, na década de 1930, inserem-se
num conjunto discursivo que produziu imagens negativas sobre as populações negras e indígenas.
Os efeitos dessas interpretações permanecem na memória de boa parte da sociedade brasileira,
orientando suas visões acerca dos povos indígenas e negros, reforçando o racismo que estrutura
nossas relações sociais. Esse autor pode ser identificado como um dos intérpretes do Brasil que
buscou compreender o país nos conturbados anos 1930. Suas explicações acerca da formação do
povo brasileiro voltaram-se para as contribuições dos indígenas e dos negros sem romper com as
visões que sedimentaram narrativas de inferioridade e depreciação desses povos. Este estudo se
insere num conjunto amplo de trabalhos que apontam esse tipo de construção historiográfica e

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demonstra seus equívocos, seus efeitos, sua longevidade e, especialmente, a necessidade de sua
desconstrução. A disseminação de uma visão diferente sobre a história indígena e da população
negra tem sido, nas últimas décadas, um grande desafio, que exige dos historiadores, não apenas
novos olhares sobre esses povos, mas também, a identificação e desconstrução de narrativas
eivadas de equívocos e preconceitos sobre essas populações e que até hoje se fazem presentes
tanto na visão da sociedade, quanto no sistema de ensino. Nesta comunicação, demonstraremos
como Afonso Arinos de Melo Franco na década de 1930, ao analisar os problemas do Brasil e
a formação do seu povo, incluiu, em suas análises, os indígenas e os negros. Entendendo a
historiografia enquanto produto da história e, portanto, dotada de historicidade, buscamos por
meio dela, contribuir para o enorme desafio de tornar conhecida parte das ferramentas narrativas
e visuais que ajudaram a construir as versões equivocadas sobre a história dos povos indígenas
e negro, por meio do conceito de “resíduos” que embasou a crítica sobre a sociedade brasileira
e a República formulada por Afonso Arinos. É nosso interesse também, discutir como essas
formulações influenciaram o ensino da História e a produção de materiais didáticos.

SESSÃO 02: 22/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

“Capangada bruta e irresponsável”: Debates em uma folha sergipana sobre a Guarda Negra
na Bahia (1889)
RAFAEL DE OLIVEIRA CRUZ (SECRETARIA DA EDUCAÇÃO DO ESTADO DA BAHIA)

Resumo: Em junho de 1889 o marido da herdeira do trono imperial brasileiro, o conde d’Eu, realizou
uma excursão para visitar áreas do então norte do Brasil. A bordo do mesmo vapor viajava o
célebre propagandista republicano Antônio da Silva Jardim que acreditava ser uma oportunidade
de levar as suas ideias nas mesmas localidades onde o príncipe aportaria. A passagem pela cidade
de Salvador ficou famosa pela serie de distúrbios quando membros da chamada Guarda Negra
teriam atacado a comitiva republicana quando percorriam a ladeira do Taboão rumo à Faculdade de
Medicina da Bahia, no Terreiro de Jesus, famoso reduto republicano local. O pandemônio causado
entre negros tidos como monarquistas e republicanos acabou repercutindo tanto na imprensa
local quanto na imprensa de províncias vizinhas como no caso de Sergipe. O presente trabalho visa
tecer algumas abordagens a partir do periódico “O Republicano”, publicado na cidade sergipana
de Laranjeiras sobre a visita do consorte da princesa Isabel e os desdobramentos causados pela
alegada violência dos membros da Guarda Negra contra os republicanos. Argumentando-se que
não passavam de arruaceiros organizados pela polícia e que, a princesa deveria reinar “em algum
lugar da África com seus devotos súditos”, o periódico nos fornece uma série de possibilidades
de interpretação sobres as dinâmicas políticas e sociais que perpassavam nos momentos finais
da monarquia brasileira. A presente comunicação parte da perspectiva em observar as falas
produzidas por uma folha simpática à extinção da monarquia em um momento marcado pela
racialização dos discursos e pelo jogo de conflitos envolvendo as questões políticas que marcaram
o fim do Império.

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Nas Redes do Tráfico Interno: Negociantes, traficantes e pessoas escravizadas na província
da Bahia 1830-1888
VALNEY MASCARENHAS DE LIMA FILHO

Resumo:  Em meados do século XIX, no Brasil, o tráfico interno de escravos aumentou,


principalmente após a Lei Euzébio de Queiroz, de 1850, que acabou com o desembarque de
africanos ilegalmente escravizados. O tráfico interprovincial de escravos, entre as províncias
do Nordeste e do Sudeste, mobilizou muitos agentes comerciais e traficantes de escravos que
compravam cativos nas províncias da Bahia, Alagoas, Pernambuco e Maranhão, revendendo-
os com vantajosa margem de lucro nas províncias do Rio de Janeiro e São Paulo — regiões em
expansão econômica impulsionada pelas exportações de café. Esse tráfico foi feito através das
rotas interiores do Sertão e via cabotagem nos portos do Império. Em minha pesquisa estudo as
redes comerciais e pessoais estabelecidas a partir do tráfico interno na província da Bahia, tendo
em vista a resistência e a agência dos escravos envolvidos nas negociações, a articulação entre
os negociantes e firmas comerciais da Bahia, sertão e recôncavo com os de outras províncias do
império, e as transformações nesse tráfico após o fim definitivo do tráfico atlântico em 1850.
Além disso, o contexto da escravidão no período integra a análise do objeto, tais como questões
legais relacionadas à posse escrava e o crescente questionamento moral do tráfico interno. Até o
momento, foram selecionados 2.091 registros, separados entre: 1.484 registros de passaportes
— 1.184 para os anos entre 1853-54 e 300 para os anos entre 1873-7521 — e 643 escrituras da
Freguesia da Sé de Salvador — divididas entre 36 para os anos de 1840-42, 400 para os anos de
1852- 58, 172 para os anos 1871-77, e 35 para os anos finais de 1879-82. Além de processos cíveis
e crime, entre outras fontes.

Espaços rurais em transformação: economia e sociedade do Recôncavo Sul entre 1850 e 1888
ALEX ANDRADE COSTA (UFBA)

Resumo: O início da segunda metade do século XIX foi um dos períodos mais catastróficos para
algumas regiões do Brasil. Além de acontecimentos que interferiram na organização social e
mexeram no jogo político e econômico do Império, como a Lei de Terras e o fim do tráfico atlântico
de escravos, algumas regiões ainda enfrentaram crises provocadas por epidemias como a varíola
e a cólera, além dos fenômenos climáticos como as secas. Esse foi o caso da província da Bahia
que, nos anos imediatamente subsequentes a 1850, viveu uma “tempestade perfeita”. O objetivo
deste trabalho é analisar os efeitos desses acontecimentos sobre a Comarca de Nazaré, no sul
do Recôncavo da Bahia. Tratava-se de uma importante região para o abastecimento de gêneros
alimentícios de Salvador e das principais vilas do Recôncavo. Conhecida como Nazaré das Farinhas,
esta pesquisa esquadrinha como as propriedades rurais da comarca, muitas delas, até então,
dedicadas ao cultivo de mandioca e produção de farinha, passaram a se organizar após 1850, bem
como os impactos da nova realidade no campo econômico e social local.

JOAQUIM NABUCO NAS PÁGINAS DO FOLHA DO NORTE: memórias da escravidão e da


abolição (Feira de Santana, 1910-1933)
JAQUES LEONE MATOS DE OLIVEIRA

Resumo:  Este trabalho se propõe a analisar a efetivação da memória e protagonismo político

211
do abolicionista Joaquim Nabuco no jornal Folha do Norte. Através das notas comemorativas a
passagem do aniversário da Lei Áurea entre os anos de 1910 a 1933, buscamos identificar relações
entre o pensamento político de Nabuco em “O Abolicionismo” e as memórias construídas pelo
periódico sobre a escravidão e a abolição.

Considerações sobre pós-abolição em Feira de Santana e sua “feira do pessoal da roça”


MAYARA PLÁSCIDO SILVA (IFBA)

Resumo:  A feira livre do “pessoal da roça”, ocorridas às segundas-feiras nas ruas centrais da
cidade de Feira de Santana, distinguiu o município como o segundo mais importante do Estado,
em critérios econômicos. Nas primeiras décadas do século XX, a feira livre se consolidou como
acontecimento central no cotidiano citadino, pois atraía significativa população visitante, para
consumir e comercializar a diversidade de mercadorias que a feira comportava. Lugar-comum
nos estudos sobre o município, a feira livre se destaca como argumento e fenômeno explicativo
para experiências diversas de Feira de Santana, sobretudo no século XX. Contudo, convêm
destacar, conforme objetivo dessa apresentação, a organização da feira livre e, sobretudo, os/as
protagonistas desse pequeno comércio no contexto do pós-abolição em uma cidade do interior
da Bahia. A pesquisa apresentada aqui pretende destacar as experiências de homens e mulheres
negras, nascidos/as na região de Feira de Santana e cidades circunvizinhas que participavam
ativamente da feira, sobretudo como pequenos/as vendedores/as, mais não só. Conforme
documentação pesquisada, a feira era um espaço de confluência de migrantes libertos que tinham
ali profícuas possibilidades de sociabilização e sobrevivência. Convêm fazer uma leitura da feira,
portanto, a luz dos debates sobre as expectativas de liberdade da população negra, relações
de trabalho no pós-abolição, bem como das tensões raciais latentes no município de Feira de
Santana, a partir das tentativas de controle dessa população através de legislação da Intendência
Municipal. Através de um levantamento de livros de Receitas e Despesas da Intendência Municipal,
entre os anos e 1905 e 1927, foi possível acessar documentação que tratava das expectativas
de organização da feira livre e dos/as trabalhadores/as atuantes ali, construídas por membros
do Conselho Municipal. Um dos resultados dessa pesquisa foi a construção coletiva de um
livro paradidático intitulado “Feira Uma cidade Princesa” (Editora Na Carona), direcionado para
estudantes da Educação Básica de Feira de Santana de região. O segundo capítulo do paradidático
intitulado “Feira Livre”, destaca esse protagonismo de homens e mulheres negras no cotidiano da
feira livre, problematizando, dessa forma, as práticas seculares de silenciamento da população
negra nas ditas regiões “sertanejas” do Estado da Bahia.

Contendas entre Jacinto Muniz e Tacião de Tal: experiências de libertos na Freguesia de São
Thiago do Iguape no imediato pós-abolição.
ANA PAULA BATISTA DA SILVA CRUZ (ESCOLA MUNICIPAL VIVALDO BITTENCOURT
MASCARENHAS)

Resumo: A presente comunicação é um recorte da minha pesquisa de doutorado em andamento,


a qual busco compreender através do diálogo com os campos de estudos do Pós-Abolição e da
História Social da Propriedade quais táticas foram agenciadas pela população negra do Vale do
Iguape, ex-escravizados e seus descendentes, nas lutas por acesso e permanência às terras na
região . Minhas análises têm como foco o Engenho Nossa Senhora da Victória, propriedade legal da

212
família Moniz Barreto de Aragão que destaca-se por sua produtividade e diversificação industrial,
haja vista que, funcionou amiúde até 1950, passando de engenho a usina de açúcar. Os indivíduos
que dão nome a essa comunicação, Tacião de Tal e Jacinto Muniz nos idos de 1891 envolveram-
se numa querela na olaria do Engenho Victória onde trabalhavam, resultando na lesão corporal
de Jacinto que foi atingido por uma faca. Ao analisar o processo crime que dar conta dessa lesão
e cruzar as informações com os assentos de batismos da Freguesia de São Thiago do Iguape e
inventários post mortem, descobri que os sujeitos envolvidos na contenda foram escravizados,
assim como, representantes de outros núcleos familiares que aparecem no processo-crime.
Considero que recuperar experiências de libertos vivendo em comunidade na Freguesia do Iguape
no pós-abolição imediato é fundamental para reflexão acerca dos sentidos atribuídos a liberdade
no Recôncavo da Bahia, no que tange — a formação de famílias, aos mundos dos trabalhos e as
lutas por terras. É importante, sobretudo, para ponderação acerca dos motivos que levaram a
permanência da população negra, egressa do cativeiro, nos espaços onde foram escravizados e
como estes de diferentes formas batalharam pelo bem viver e por cidadania.

Tráfico interprovincial e lutas pela alforria no Sertão do São Francisco (Carinhanha- BA,
1840-1880)
SIMONY OLIVEIRA LIMA (SECRETARIA ESTADUAL DE EDUCAÇÃO DE MINAS GERAIS)

Resumo: Esta comunicação tem como objetivo discorrer acerca da luta pela liberdade observada
no território subordinado juridicamente à Freguesia de Carinhanha (BA), situada no sertão do
São Francisco, no período histórico correspondente a intensificação do tráfico interprovincial na
região (1840-1880). Procuro perceber como os escravos buscaram escapar das vendas para fora da
província da Bahia, negociando suas libertações em uma conjuntura que propiciou um considerável
aumento no valor dos cativos. Em meio a esse cenário, os escravos utilizaram de mecanismos
para conseguir a liberdade. Através de fontes como cartas de alforria e ações de liberdade, são
analisadas estratégias utilizadas por escravos que se articularam para a conquista da alforria. A
abordagem do texto considera as articulações empreendidas pelos cativos na negociação pela
liberdade e por espaços de trabalho livre, e ainda, a procura da Justiça para reivindicar o direito à
alforria – recorrendo, no último caso, à lei de vinte e oito de outubro de 1871.

“SOU LIVRE! NÃO CATIVO!”: Liberdades e reescravizações em Santo Amaro


ALINE DE JESUS SANTOS (UNEB)

Resumo:  Poder dizer e bradar que era livre, enquanto era levado amarrado para o Engenho
Caçada, era o que definia Manoel de Santa Rita, ainda que a circunstância não lhe fosse favorável.
A proposta dessa pesquisa é verificar as resistências empreendidas pelos ex-escravos perante as
práticas de reescravização ou de contestação da liberdade na cidade de Santo Amaro.
As atitudes e comportamentos dos ex-escravos, enquanto donos e possuidores da sua liberdade,
demonstram como os espaços de autonomia, ainda que mínimos, foram desejados, construídos e
estabelecidos. E na possibilidade de perderem a continuidade de suas liberdades, os ex-escravos
acionaram a justiça para que seus direitos fossem resguardados.

213
Entre histórias e representações: a linguagem como lugar de memória sobre o escravizado
Lucas da Feira, 1890-1910.
LÁZARO DE SOUZA BARBOSA (UEFS)

Resumo: O presente trabalho examinou histórias e representações elaboradas sobre o escravizado


filho de africanos, Lucas da Feira, entre as décadas de 1880 e 1920, tendo acesso a partir daí a
documentos que enunciavam fragmentos do projeto racial feirense daquele contexto. A partir
desta pesquisa, é possível indicar que as dizibilidades e as visibilidades organizadas em torno do
processo de monumentalização de Lucas são influenciadoras na produção de um escravizado
enquanto ícone do crime, enquanto representante das práticas a serem repudiadas no projeto
de civilidade feirense, logo, não foi difícil identificar Lucas da Feira erguido enquanto um
monumento do medo branco, representado de forma homogenia, não complexa, criminalizada,
empalhada, angulada tão somente pela ótica dos racialistas que teorizavam sobre os escombros
da escravidão. O interesse aqui não foi buscar boas representações de Lucas em detrimento das
que produziram sua criminalização póstuma, mas sim, situar a existência do projeto político e
racial de representação urdido em torno desse escravizado. Esse projeto deu conta de enfeixar
Lucas como personagem do medo e suas histórias na cidade de Feira de Santana, deu conta de
empalhá-lo para a repetição contínua de uma mesma história, a do crime, e mais a frente a história
de um criminoso com possibilidades de conversão dicotômica a herói. A linguagem como lugar de
memória, como arquitetura da violência mobilizada para condenar postumamente um escravizado
e fomentar imagens de controle que dessem conta de justificar as hierarquias feirenses e sua
flagrante dimensão racial.

SESSÃO 03: 23/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

Negro, operário, orador: a trajetória de Lourenço Isidoro de Siqueira e Silva


GUSTAVO ALVES CARDOSO MOREIRA (SEEDUC (RJ), MUSEU NACIONAL/UFRJ)

Resumo: Lourenço Isidoro de Siqueira e Silva, homem livre natural da Corte do Império do Brasil,
herdou de seu pai o ofício de carpinteiro naval. Para além das relações de trabalho, procurou
consolidar, nas décadas finais do século XIX, uma reputação de cidadão respeitável através da
participação em associações representativas de sua categoria, irmandades da Igreja Católica e
campanhas eleitorais. Identificado com a Diáspora Africana, ligou-se politicamente ao jornalista
José do Patrocínio e integrou os quadros da Sociedade Cooperativa da Raça Negra, fundada
em 1888 com a finalidade de ofertar aos negros brasileiros oportunidades profissionais e de
qualificação por meio do estudo. Não obstante as discriminações impostas pelos segmentos
letrados da capital do país aos trabalhadores manuais em geral e aos afrodescendentes em
particular, bem como as dificuldades financeiras derivadas da necessidade de sustentar mulher
e filhos, logrou ser reconhecido como orador operário e exerceu esta competência em variadas
solenidades oficiais. Isto não impediu que sofresse, junto com sua família, violências características
da sociedade escravista que se estenderam ao período pós-abolição.

214
A Constituição Familiar e Parentesco entre Senhores e Escravos na Freguesia de Nossa
Senhora do Resgate das Umburanas, Século XIX.
SANDRA DA SILVA CONCEIÇÃO (COLÉGIO GEORGIA SOARES NASCIMENTO)

Resumo: O presente artigo aborda sobre a constituição familiar entre senhores e mulheres escravas,
forras e livres, que se uniram através do concubinato, sendo uma relação duradoura, legitimada
pela Perfilhação dos filhos e os tempos de convivência bem como ambos sem terem nenhum
vínculo afetivo e relação sexual com outra pessoa. Aborda o contexto da criação da Escritura
Pública de Perfilhação e os direitos que cabem aos filhos nascidos das uniões ilícitas. O índice
elevado de nascimentos dos filhos ilegítimos das relações de concubinato e amancebamento. As
fontes usadas para contextualizar a constituição familiar entre senhores e mulheres cativas, forras
e livres são os documentos manuscritos como a Escritura Pública de Perfilhação, Escrítura Pública
de Perfilhação de Reconhecimento Paterno e o inventário post-mortem. O estudo tem como lócus
social a Freguesia de Nossa Senhora do Resgate das Umburanas na Província da Bahia.Os autores
para embasar o estudo são, Elaine Cristina Lopes (1998), João José Reis (1987), Isabel Cristina
Ferreira dos Reis (2001,2014,2018), Rangel Cerceau Netto (2008,2013, 2017), Adriana Dantas Reis
(2010), Robert W. Slenes (1997).

Mulheres, Resistência nos Quilombos. Bahia, séculos XVIII-XIX.


TAINARA MARGARIDA RODRIGUES MORAES (UEFS)

Resumo:  O Período Colonial brasileiro foi marcado pelo sistema escravista, onde milhões de
homens e mulheres foram retirados a força do continente africano para serem a base fundamental
nas atividades econômicas, inicialmente nas plantações de açúcar, mais adiante na mineração e na
lavoura do café. Contudo, não foi apenas nesses serviços, utilizaram a escravidão sob diversos
meios, sejam eles, nos serviços domésticos, ama de leite, escravos de ganho, até mesmo como
capitão-do-mato, que trabalhavam na captura de escravos e escravas fugidas, entre diversos
outros serviços.
Os variados estudos referentes a escravidão evidência que por onde esse sistema passou houve
resistência. Dentre as mais conhecidas temos corpo mole no trabalho, quebra de ferramentas,
incêndios nas plantações, agressão a seus senhores, havia também rebeliões individual e coletiva,
entre outros tipos. No entanto, a resistência mais típica era a fuga e formação de grupos de
escravos fugidos, mas vale ressaltar que a fuga nem sempre levava a formação desses grupos.
A formação desses grupos de escravos fugidos ocorreu por toda a América, contendo diferentes
nomes como maroons, palenques, cumbes,etc. No Brasil os mais comuns eram quilombos e/ou
mocambos.
No entanto, a historiografia tende a idealizar um estereótipo para “heróis” diretamente ligado ao
masculino. Assim, silenciando as vozes de muitas mulheres que foram importantes em diversos
processos históricos. Por isso, busco nessa pesquisa analisar na historiografia a ausência das
mulheres quilombolas da Bahia, que entre os séculos XVIII ao XIX, exerceram papeis fundamentais
de resistência na luta contra o sistema escravista, mas que sobre o estigma de gênero ficaram
na invisibilidade. Falar de resistência escrava e não lembrar de Zumbi automaticamente é quase
inevitável, revelando-se o quanto a representação da mulher fica no anonimato. Temos o caso
Zeferina, uma angolana que veio para a Bahia ainda criança na condição de escrava aparecendo nas
documentações como liderança no Quilombo do Urubu, mas acabou ficando no esquecimento. As

215
mulheres tiveram participação efetiva nas organizações dos quilombos, seu papel na manutenção
da família foi acompanhado da importância econômica na produção artesanal até mesmo no
enfrentamento às tropas escravista. Lutaram contra o patriarcado de diferentes maneiras. Muitas
juntaram pecúlio para a sua alforria e de seus descendentes. Outras chefiaram os quilombos, pois
nas documentações aparece que muitos mocambos eram liderados por reis e rainhas. Portanto
as mulheres foram fundamentais para estrutura e desenvolvimento dos quilombos. Assim, no
decorrer desta discussão procuro elencar o protagonismo dessas mulheres que estão “ausentes”
na historiografia.

Experiências de crianças escravizadas na Freguesia de São Gonçalo dos Campos, 1850-1871


MARIA CRISTINA MACHADO DE CARVALHO (UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO RIO DE
JANEIRO)

Resumo: Esta comunicação tem por objeto analisar diferentes experiências de crianças escravizadas
na freguesia de São Gonçalo dos Campos do Termo da Cachoeira, entre os anos de 1850-1871. Tais
aspectos serão analisados através de um conjunto de fontes cartoriais e das memórias/tradições
orais: como transmissão de experiências/conhecimentos/testemunhos relacionados a vida dos
antepassados, que recebem uma carga de significados uma vez que é passado por meio das
narrativas orais através das gerações. Para análise das fontes, utilizamos como enfoque teórico-
metodológico da micro-história e da história social da escravidão, compreendendo as experiências
constituídas pelas crianças escravizadas no período desta investigação.

“Meninas de casa, criadas da família”: A presença do trabalho infantil doméstico na cidade de


Ilhéus - BA , (1927 a 1943)
BRUNA CONCEIÇÃO DE JESUS

Resumo:  O presente trabalho faz parte de um projeto de mestrado em andamento, linha de


pesquisa: Experiência da Diáspora africana: Identidade, Cultura e Sociedade. O projeto é intitulado
“Meninas de casa, criadas da família: A presença do trabalho infantil doméstico na cidade de Ilhéus
- BA , (1927 a 1943)”. Seu foco principal é analisar as relações da diáspora africana com as vivências
de crianças negras e pobres que serviam como empregadas domésticas em casa de família na
cidade de Ilhéus BA , buscando identificar as heranças do processo de escravidão na realidade das
crianças negras no Brasil. O recorte temporal é delimitado a partir da promulgação do código de
menores de 1927 que foi o primeiro instrumento destinado a proteção da infância no Brasil, até
a consolidação das leis trabalhistas em 1943. Utiliza fontes jornalísticas, especificamente o Jornal
Diário da tarde de Ilhéus, com intuito de identificar em seus anúncios a presença do trabalho
infantil doméstico na cidade, atentando para as questões de cor, gênero é condição social das
crianças; para além disso investiga-se também a importância das legislações brasileira destinada a
proteção da infância e a regulamentação do trabalho em nosso país.

Mulheres forras e mobilidades sociais: Fulô do Panela da Imperial Vila da Vitória, século XIX
DIEGO SILVA MEIRA (UESB)

Resumo: O objetivo deste trabalho é analisar a trajetória das forras Maria Bernarda de Oliveira
é sua filha Euflosina de Oliveira Freitas Trindade conhecida como Fulô do Panela, mulheres que

216
viveram na Imperial Vila da Vitória durante o século XIX. A pesquisa se ampara na análise de
fontes históricas, memorialísticas e literárias, revelando o alcance da mobilidade social dessas
mulheres ao manter concubinato com homens pertencentes a elite desta região, constituindo
famílias e garantindo a elas e a seus filhos benefícios econômicos e sociais. A luz da historiografia
analisamos as discussões sobre as práticas de concubinato, conquista de alforria e mobilidade
social por mulheres escravas. Concebemos ao espaço estudado a aplicabilidade do conceito de
Sertões conectados.

‘O que é que você quer ser carroceiro’? Trabalhadores de carroças na Capital da Bahia (1866-
1873)
MONA LISA NUNES DE SOUZA

Resumo: Em 25 de agosto de 1858, a Câmara Municipal de Salvador aprovou um projeto de


posturas que regulava os serviços prestados por carroceiros e cocheiros. A Sessão foi dirigida
pelo presidente da Câmara dos vereadores, o Sr. Ernesto Rezende, e contou com a presença de
mais quatro vereadores. No entanto, os efeitos não foram imediatos, pois a regulamentação dos
carroceiros e cocheiros em Salvador passou por longo processo. Neste sentido, os indicativos
apontam que a aplicabilidade da legislação municipal que regulamentaria e controlaria tais
trabalhadores foram efetivadas a partir de 1866, momento em foi aberto o Livro de Matrícula
dos Carroceiros (1866-1873). Neste livro contém registros de 320 trabalhadores, escravizados,
livres e libertos, que grassavam com suas carroças e carros pelas angulosas ruas da cidade da
Bahia. Enfim, no cotidiano das ruas, os laboriosos carroceiros resistiam, de forma silenciosa, e, às
vezes barulhenta, as diversas interferências das autoridades públicas que tentavam controlar essa
atividade.

217
SESSÃO 01: 21/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

Índios (maravilhosamente) assombrosos na América Portuguesa do século XVI


KELVIN OLIVEIRA DA SILVA (PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL)

Resumo: Ao longo do período medieval, o contato de viajantes europeus com o Oriente suscitou
visões maravilhosas de monstros, criaturas sobrenaturais, gentes extraordinárias, riquezas
exuberantes e outros “excessos”. Esse imaginário, milenarmente gestado, perdeu força nas mentes
dos cronistas, viajantes e demais agentes europeus no contexto da colonização da América na
medida que a modernidade avançava e a valorização da experiência empírica se impunha. Ainda
assim, visões do maravilhoso persistiram, encontrando novas formas específicas de expressão
numa complexa dinâmica entre continuidades, rupturas e ressignificações. Pretende-se analisar
descrições de cronistas da América Portuguesa dos quinhentos sobre o Outro indígena, mais
especificamente aquelas que, referindo-se a situações de assombro e/ou perigo, mobilizaram
imagens maravilhosas já conhecidas em relatos de viajantes medievais, como Jean de Mandeville.
Percebe-se-á, então, a maneira como essas heranças ganharam corpo e se modificaram num novo
contexto de produção imaginária.

O processo de formação urbana da Vila sede de Porto Seguro (Séc. XVIII)


INGRID DE ARAUJO GOMES (UESC)

Resumo: O presente trabalho, que apresenta uma pesquisa em curso, tem o objetivo de analisar o
processo de remodelação urbana da vila de Porto Seguro (sede da comarca homônima) em meados
do século XVIII, enquanto espaço estratégico de fortalecimento do projeto de colonização da
região, representando um modelo a ser seguido pelas demais vilas que abrangiam o território. Tal
procedimento estava enquadrado no programa pombalino que visava colocar o Estado na dianteira
de um plano civilizador inserido na política do Diretório dos Índios de 1758, que determinava uma
“reforma dos costumes” das populações indígenas. O Diretório impunha proibições a práticas
culturais indígenas, a exemplo de morar em habitações coletivas, estabelecendo normas para
a produção de novos espaços de sociabilidades capazes de inibir a reprodução dos costumes
classificados como “bárbaros”. Essas orientações estiveram presentes num plano de reforma
urbana implementado em Porto Seguro e se tornaram objeto de intensa correspondência entre o
então ouvidor da comarca e o governador da Bahia. A partir dessas fontes, disponíveis na Coleção
Resgate – Documentos Avulsos (Bahia) do Arquivo Histórico Ultramarino, o que se busca é analisar
a forma com que se deu o processo de remodelação urbana da vila, considerando as tensões
estabelecidas entre a implantação do projeto civilizador, as imposições advindas da sociedade
envolvida e os efeitos do projeto na materialidade arquitetônica e na morfologia urbana resultante.
Propõe-se considerar também a configuração dos padrões morfológicos de matriz portuguesa e
o processo de ocupação e de organização do espaço urbano. Para tanto, serão utilizadas fontes
textuais e iconográficas, pesquisa de campo no próprio sítio do centro histórico de Porto Seguro,
além do recurso da metafonte cartográfica, ou seja, a elaboração de plantas de representação do
espaço urbano da Vila que sintetizem informações extraídas do conjunto das diferentes fontes
primárias e da pesquisa de campo.

219
A CAPITANIA DE ILHÉUS: de donataria a comarca, 1755-1777
TERESINHA MARCIS (UESC)

Resumo:  A capitania de Ilhéus no litoral sul do atual estado da Bahia compunha uma das 12
capitanias hereditárias doada pelo rei de Portugal entre 1533 a 1536. Igualmente a de Porto
Seguro, manteve o status de donataria privada até o reinado de D. José, (1755-1777) quando
foram incorporadas ao patrimônio do governo português. Qual era o conceito de uma capitania
com status privado e o funcionamento da administração política, econômica e jurídica? Quais foram
as instâncias administrativas e autoridades envolvidas no processo de sub-rogação da capitania,
no ritual de posse e na reconfiguração da administração entre 1755 a 1822. São tais questões
que se propõe analisar neste trabalho. A temática retoma as pesquisas e estudos aprofundados e
fundamentados em fontes manuscritas os desenvolvidos por Caio Adan (2009) e Marcelo H. Dias
(2011) com a intenção de revigorar a leitura do processo sub-rogação, posse e estabelecimento
da Comarca de Ilhéus, manuscritos digitalizados do Arquivo Ultramarino e disponibilizados pelo
Projeto Resgate.

Administração, política e caridade na Bahia no século XVIII: o Hospital de São João de Deus
da Vila de N. Senhora do Rosário do Porto da Cachoeira
TÂNIA MARIA PINTO DE SANTANA (UFRB)

Resumo: A compreensão dos rumos dado ao hospital de caridade da Vila de N. Senhora do Rosário
do Porto da Cachoeira - denominado Hospital de São João de Deus -, nas últimas décadas do
século XVIII, somente é possível se considerarmos a sua inserção num contexto mais amplo,
da organização administrativa e política da vila. Nesta comunicação analisaremos diferentes
discursos relativos às práticas administrativas do hospital no período em que esteve subordinado
à autoridade dos juízes de fora da vila, a partir de 1771. A análise da sua trajetória e dos sujeitos
envolvidos em sua administração no contexto aqui referido nos revela aspectos significativos
das relações religiosas, políticas e sociais locais, nos permitindo compreender as estratégias e
conflitos que envolveram os diferentes sujeitos desta sociedade.

Arquitetura setecentista em matrizes baianas: ordenamento territorial e urbanização


colonial.
JOSÉ ANTONIO DE SOUSA (SEEMG)

Resumo: A arquitetura colonial religiosa é uma marca central e indelével no processo de colonização,
desde o surgimento dos arraiais, vilas e a formação das primeiras cidades no Brasil colonial.
Tectônica, Frontispícios, adro e praça, são desse modo, elementos materiais, artísticos, históricos
e culturais, nascidos no bojo das práticas religiosas, tão típicas na formação das paisagens icônicas
de nossas cidades coloniais, a semelhança dos valores projetados por uma monarquia ibérica
pluricontinental católica no atlântico sul e que se espraiaram-se num conjunto de leis, instituições
como a câmara e jurisdições, assentados no antigo regime. A arquitetura religiosa é portanto, uma
prática jurídica, política e religiosa ressoada do antigo regime. A arquitetura de duas expressões
das matrizes baianas das irmandades, correlatas a segunda metade e fins do século XVIII, Matriz de
Santo Antônio do Urubu de Cima e Matriz de Senhora da Conceição de Macaúbas nos sertões altos
da capitania da Bahia, são dois exemplos de práticas da antiga engenharia e arquitetura no reino,

220
que acabaram por absorveram novas determinações da política pombalina ilustrada. São espaços
pios de catequização e evangelização nos dizeres de Murillo Marx, orquestrados por normas e
regimentos desde as legislações dos livros das Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia,
juntamente a outros documentos régios. As relações e os interesses entre Estado e Igreja é matéria
candente em Kátia Matoso, Silvia Lara, John Bury, entre outros, pois mostram como o império
português no ultramar fez movimentar o cotidiano desses lugares, as engrenagens responsáveis
pela colonização e urbanização, num conjunto de estratégias de ordenamento urbano, visando
uma legitimação do poder e controle territorial e das almas.

Nos caminhos do sertão de Urubu e Rio de Contas: percursos e experiências de Africanos e


seus descendentes (Século XVIII)
GABRIELA AMORIM NOGUEIRA SILVA (SECRETARIA DE EDUCAÇÃO DO ESTADO DA BAHIA)

Resumo: O presente texto trata de percursos e experiências de africanos e seus descendentes


vivenciados no chão social dos sertões baianos setecentista. Durante o processo de interiorização
da América Portuguesa, desde a segunda metade do século XVII, intensificando nas primeiras
décadas do século XVIII deu-se a expansão da colonização com a formação dos primeiros currais
e fazendas de gado nesses sertões. A documentação paroquial e cartorial guardou vestígios dos
ritmos dessa ocupação, revelando a pluralidade cultural que envolveu portugueses, africanos,
afro-brasileiros e povos nativos nas tramas e práticas em torno das conquistas territoriais e,
sobretudo, na formação de condições de sobrevivências, no guiar da vida nestas novas paragens
sertanejas. Nos caminhos entre as Freguesias de Santo Antônio do Urubu e Santíssimo Sacramento
de Rio de Contas busquei percorrer, nas entrelinhas das fontes, possíveis percursos e experiências
de africanos e seus descendentes, que estiveram presentes na formação da sociedade nascente
naqueles sertões, devido as conexões estabelecidas entre a África e a América Portuguesa por
vias do tráfico atlântico.

O ir e vir dos negros e os fazeres permitidos e proibidos (Bahia, séculos XVIII-XIX)


AVANETE PEREIRA SOUSA (UESB)

Resumo: Esta comunicação tem como objetivo discutir os impactos da legislação local camarária
sobre os fazeres dos negros em Salvador nos séculos XVIII e XIX. O foco recairá, a partir da análise
dos Códigos de Posturas, sobre a necessidade de constante vigilância de espaços, lugares, fazeres
e lazeres de escravos e libertos, que suscitassem ou possibilitassem o seu agrupamento pelos
cantos da cidade.

SESSÃO 02: 22/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

Mulheres e práticas mágicas na primeira Visitação do Santo Ofício na América Portuguesa em


fins do século XVI
BRUNA LETÍCIA LIMA ROCHA

Resumo: Desde 1536, o Santo Ofício português teve os seus papeis estabelecidos, principalmente,

221
para a manutenção da fé católica. Em seus quase trezentos anos de funcionamento, sendo
extinta em 1821, a Inquisição contou com acusações, confissões e processos inquisitoriais dos
mais diversos, mas que serão selecionados neste trabalho as confissões, pesquisadas no Livro 1
das Confissões da Primeira Visitação na Bahia; especificamente serão analisadas as práticas por
agentes femininos no contexto cotidiano do Brasil colônia. As terras portuguesas no além-mar
possuíam um cotidiano heterodoxo de relações sociais autênticas do processo colonizador, o qual
foi se construindo distante do rigor católico do reino, e estruturado, por vezes, em mulheres pretas,
brancas, e indígenas, cristãs-novas ou cristãs-velhas, que realizaram, dentro e fora do domiciliar,
papeis sociais, culturais, religiosos e, também, econômicos, contribuindo para um tecido social
de realidades desviantes da norma cristã europeia, porém essenciais à vida comum, através de
práticas mágicas; como é o exemplo de algumas cristãs-novas acusadas de atividades judaizantes
e de mulheres chamadas de feiticeiras, acusadas de compactuar com os “diabos”. As heranças
ibéricas trazidas para a colônia, desde o início do século XVI, foram inseridas a fim de incorporar-
se ao processo colonizador, em contraste com os cenários religiosos africanos e indígenas, que
mesmo diante desse quadro buscaram formas de resistir, por vezes, conscientes. A Inquisição
buscou realizar-se, no Novo Mundo, através da atuação, neste caso, do visitador Heitor Furtado
de Mendonça e notário Manuel Francisco, entre os anos de 1591 e 1593 na Bahia, intuindo-se
de fazer justiça (nos moldes colonizadores e católicos) e impedir a sobrevivência de práticas
heterodoxas e o avanço social e econômico daqueles que desviavam da fé cristã no mundo além-
mar. A manutenção cultural desses agentes, especialmente o feminino, no cotidiano da colônia,
dizia respeito à realidade social de cada praticante, a necessidade desses agentes permitia essa
manutenção.

Mulheres, poder e decisão na Bahia seiscentista: novos agentes do governo no Brasil dos reis
Habsburgo (1580-1640)
IRENE MARÍA VICENTE MARTÍN (EUI)

Resumo:  Consortes indígenas, administradoras temporárias e órfãs da Rainha: essas são as


três categorizações de mulheres que há pouco tempo conseguiram se inserir na historiografia
da História Moderna dos Impérios Ibéricos, com destaque no Brasil da Monarquia Hispânica
(1580 -1640). Partindo da obra pioneira de C. R. Boxer (1975) até pesquisas mais recentes como
BRASILHIS, o exercício ‘poder’ no Brasil dos Filipes não pode mais ser explicado sem a participação
das mulheres, tornando impossível descrever as sociedades do passado sem levar em conta suas
motivações, decisões e/ou resoluções nos planos politico e social. É certo que foram os homens
de Portugal e Castela que ocuparam a Casa da Câmara e as cadeiras na Relação da Bahia (1609).
Mas não é menos certo que nesses sessenta anos do governo dos Habsburgo houve proprietárias
de engenhos, gestoras de fazendas e portadoras de autoridade que, notavelmente, matizaram os
conceitos de poder, governo e ação no Brasil colônia do período. No entanto, seu recente sucesso
historiográfico não deve ocultar a realidade: as mulheres no Brasil do seiscentos foram, em sua
maioria, relegadas ao estatuto de esposas, mães ou filhas. Significa isto que as mulheres com
poder foram exceções? Ou, inversamente, que o “poder” tem sido tradicionalmente formulado
em termos de masculinidade pelos historiadores das elites, dos oficiais camarários ou dos
interessados na corporatividade institucional da sociedade colonial?
Participando dessa segunda hipótese, bem mais interessante, o presente trabalho analisa o rol
desempenhado por três mulheres baianas nos circuitos de poder na cidade de Salvador e seu

222
Recôncavo. Os casos de Felicia Lobo, Inés Barreto e Joana de Sá apresentam três perfis comuns
de mulheres que participaram e contribuíram para a formação das relações sociais e de poder
no Brasil setecentista. Nenhuma delas foi administradora, nem possuiu engenho nem esteve
ligada à Corte. Mas as três alcançaram uma posição de destaque na sociedade baiana através
de intrincadas estratégias relações que ultrapassaram as limitações e dificuldades impostas nas
mulheres pela era moderna. Ao fazer pleno uso do matrimônio, da procriação da descendência e a
consequente transmissão de bens, Felicia, Inés e Joana adquiriram uma posição de renome social
igual ou maior á dos vereadores, os lavradores ou os soldados do monarca. Para realizar o estudo,
quanto a metodologia, foi utilizado o método prosopográfico e de redes sociais, combinado com
estudos genealógicos e o método indutivo “from below”. Igualmente, as fontes utilizadas, além
das bibliográficas, são as da Torre do Tombo e do Arquivo Ultramarino, ao qual foram adicionadas
informações recentes obtidas do Arquivo Publico do Estado da Bahia e do Arquivo Histórico
Municipal de Salvador.

Conflitos e alianças: capitães-mores da capitania de Porto Seguro (1621-1682)


ANA PAULA SANTOS XAVIER

Resumo: O presente resumo tem como objetivo apresentar os resultados parciais da dissertação
de mestrado nomeada “Homens de armas e mando: Conflitos e alianças na capitania de Porto
Seguro”. Tendo por finalidade principal analisar a atuação dos capitães-mores nas questões
militares na antiga capitania de Porto Seguro de 1621 a 1682, bem como o impacto das ações na
vivência dos índios e colonos. Buscando compreender desse modo como eram os recrutamentos
desses oficiais, as possibilidades de mobilidade entre os agentes, assim como seus mecanismos de
promoção. Dessa forma, sendo possível reconstruir o perfil e a inserção sócio-política e econômica
destes oficiais, analisando as formas de reproduções sociais através dos quais buscavam um
melhor posicionamento no seio da sociedade colonial. As informações encontradas em diferentes
grupos de documentos passaram pela metodologia do método indiciário para perceber os
pequenos vestígios deixados por esses indivíduos e as ligações nominativas, para compreender as
relações estabelecidas por esses sujeitos a partir dos nomes que o cercam, ambos desenvolvidos
pela Micro-História. Possibilitando assim, conhecer algumas das estratégias traçadas por estes
agentes, influenciando para que fossem vistos e permanecessem como homens detentores de
mando. Por fim e necessário compreender uma localidade a partir das especificidades do seu
tempo e com isso as nomeações para os cargos dos capitães-mores atendiam a esses requisitos,
tendo as relações baseadas em interesses maiores, exemplo disso e o caso de algumas ascensões
ao posto do capitão-mor, baseadas em conflitos e intrigas.

“Sem as qualidades exigidas” - Perfil dos pretendentes não habilitados a Familiar da Inquisição
Portuguesa na Bahia Colonial (século XVIII)
CLEÍLTON CHAGA BERNARDES (UESB)

Resumo: O Santo Ofício português, em quase três séculos de existência, atuou não apenas no reino,
mas em todo o seu império. Para garantir a presença no amplo domínio ultramarino, e tão distante
dos tribunais de distrito, foi necessário a formação de uma rede de agentes, possuindo assim
uma ampla estrutura de auxiliares em toda a extensão colonial, inclusive na América Portuguesa.
Entre os cargos de oficiais, um dos mais almejados pela elite colonial no século XVIII foi o de

223
Familiar do Santo Ofício, visto que contribuía também para a promoção social dos que tinham
os pleitos atendidos. Deste modo, o trabalho que apresentamos tem por objetivo traçar o perfil
de pretendentes baianos à Familiatura, mas que tiveram suas habilitações recursadas por terem
suspeita ou rumores de serem cristãos-novos e mulatos em suas ascendências, pois a pureza de
sangue era um pré-requisito obrigatório para a concessão da carta de Familiar. A documentação
que serve de base para a pesquisa que ora apresentamos, pertence ao conjunto de Habilitações
Incompletas do Conselho Geral do Tribunal do Santo Ofício Português e corresponde a pessoas
residentes na Bahia que tentaram habilitar-se ao cargo de Familiares da Inquisição. A amostragem
que apresentamos nos fornece informações valiosas não só em relação aos laços familiares dos
candidatos, mas também relações socioculturais, econômicas e de poder de indivíduos.

Do sacro ao século, de Portugal à Bahia - venturas e desventuras de um ex-monge beneditino


e a perseverança de um Comissário do Santo Ofício
GRAYCE MAYRE BONFIM SOUZA (UESB)

Resumo: Pretendemos com a presente comunicação narrar e analisar as venturas e desventuras


de José Pereira da Cunha, nome secular do Frei José de São Pedro - português natural da Costa da
Caparica e morador em Belém de Cachoeira no recôncavo baiano - sentenciado pelo Tribunal da
Inquisição de Lisboa no Auto de fé de 13 de outubro de 1726 por crime “bigamia similitudinária”
(delito cometido quando um sacerdote contrai o sacramento do matrimônio em prejuízo do
sacramento da ordem eclesiástica). Também trataremos da persistente atuação no caso por parte
do Conego João Calmon como Comissário do Santo Ofício da Inquisição Portuguesa e Juiz dos
casamentos do Tribunal da Relação Eclesiástico da Bahia na primeira metade do século XVIII. Este
caso teve início em 1721, quando do matrimônio, na Igreja dos jesuítas de Belém de Cachoeira, de
José Pereira da Cunha com Inácia de Jesus, natural e moradora da vila de Cachoeira. O casamento
perdurou até o momento em que foi descoberto que ele era na verdade Fr. José de São Pedro,
então com 36 anos, um religioso professo leigo do Patriarcado de São Bento da Congregação de
Portugal. Julgando a gravidade do caso, o “falsário” foi preso e desterrado para o Mosteiro de
São Bento da Bahia, de onde fugiu. Em 8 de novembro de 1725, foi novamente encarcerado e, um
ano depois, sentenciado na forma costumada, tendo abjurado de leve suspeita de fé e degredado
por sete anos para Angola. Esse caso é bastante elucidativo para demonstrar a preocupação do
Comissário Calmon, que, quando da segunda prisão do Fr. José, e por considerar um delito da
alçada da Inquisição, resolve enviá-lo às autoridades inquisitoriais em Lisboa e ainda reivindicando
sua dupla função, posto que era também de juiz dos casamentos, logo, uma pessoa revestida de
dupla função: a eclesiástica e a inquisitorial. Aqui, portanto, abordaremos a heresia presumida
devido ao afronto do sacramento da ordem, as funções de um comissário, e a trajetória de vida
um ex-monge revelado por um processo inquisitorial.

Militares e milicianos na Revolta dos Búzios: identidade e mobilidade social ascendente no


final do século XVIII baiano
CELIO DE SOUZA MOTA (COLÉGIO DA PMBA/ALAGOINHAS)

Resumo: A presente comunicação tem como desiderato debater a construção de um discurso por
parte de militares e milicianos pardos em torno de uma “identidade parda positiva” na luta por
mobilidade social ascendente no final do século XVIII, na Revolta dos Búzios. Para essa investigação

224
foram usados como fontes os requerimentos de patentes, cartas patentes e os Autos da Devassa
da Conspiração dos Alfaiates dentre outros documentos. Situa-se a presente pesquisa no âmbito
da História Social, tendo a micro-história como abordagem para compreender o “microcosmo”
da “comunidade” que pertenciam esses homens e sua interação com a sociedade escravagista
baiana. Ademais, o estudo se circunscreve no dialogo com região fronteiriça da História Política,
tendo em vista que a ascensão social e construção de identidades ocorrem no âmbito das relações
de poder.

SESSÃO 03: 23/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

Circulação de pessoas e dinheiro particular entre Brasil e Portugal na segunda metade do


século XVIII
IDELMA APARECIDA FERREIRA NOVAIS (PREFEITURA MUNICIPAL DE BARRA DO CHOÇA)

Resumo:  Essa comunicação tem o objetivo de analisar o trânsito de pessoas entre Brasil e
Portugal, bem como o envio de dinheiro de particulares para a metrópole. Nesse processo, se faz
necessário entender o papel exercido pela junta do Comércio de Lisboa e da Mesa de Inspeção
do açúcar e tabaco da Bahia na segunda metade do século XVIII, principalmente com o controle e
saída de pessoas na colônia mediante as emissões de passaportes, como também os mecanismos
que possibilitavam o envio do dinheiro.

A presença de numerário na Bahia colonial (1777-1808)


AUGUSTO FAGUNDES (UEFS)

Resumo: Este trabalho tem como objetivo apresentar o nível de liquidez monetária na Bahia do
final do período colonial. Utilizando os livros de notas disponíveis no Arquivo Público do Estado
da Bahia entre os anos de 1777 e 1808, é possível demonstrar que não havia escassez monetária
na Bahia neste período. É sabido, que a historiografia tradicional, baseando-se principalmente,
em fontes oficiais e relatos de cronistas e viajantes, enfatizou excessivamente a questão da
exiguidade pecuniária como uma das características básicas da economia colonial. Os resultados
empíricos da análise documental refutam estas assertivas, e indicam que 33% do valor que
circulou nos cartórios de Salvador entre 1777 e 1808 foi de dinheiro líquido, equivalendo a cerca
de 769:562$869 réis.
A cifra acima, não é nada desprezível, principalmente quando se refere a uma economia que
foi caracterizada historiograficamente como escassa monetariamente e ultra-dependente do
crédito. Ora, se considerarmos as vendas a vista, somadas aos empréstimos de dinheiro a juros,
que eram capitais em forma de dinheiro injetados diretamente na economia, temos que quase
metade, ou exatos 44,2% da riqueza dos baianos registradas nos cartórios de Salvador, entre os
anos mencionados, circularam em forma de dinheiro.

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Dívidas e relações sociais no mercado de terras: espaço agrário são cristovense e as transações
dos engenhos Ribeira e Escurial (Sergipe, 1800-1850)
FERNANDA CAROLINA PEREIRA DOS SANTOS

Resumo: A questão central desta comunicação é compreender o funcionamento local do mercado de


terras. Para tanto, será tecido uma análise das transações de compra e venda das propriedades agrárias
da cidade de São Cristóvão na primeira metade do século XIX, considerando a trajetória dos indivíduos
envolvidos, relação entre compradores-vendedores, e motivações. O universo documental é composto
por inventários post-mortem e livros de notas que perscrutados de acordo com a microanálise e a
história social da propriedade permitem a reconstituição do espaço agrário e redes sociais locais. A
pesquisa permitiu observar que as várias vendas efetuadas nos Engenhos Ribeira e Escurial foram
forçadas, fruto da necessidade do pagamento de dívidas contraídas anteriormente, e demonstrou as
estratégias utilizadas pelos senhores para a manutenção de seu patrimônio e capital simbólico.

Expansão econômica e de povoamento e consolidação da elite em Monte Alto (alto sertão da


Bahia, 1790-1850)
DANIELLE DA SILVA RAMOS

Resumo: O presente texto traz apontamentos iniciais sobre a conjuntura de fins do século XVIII e
início do século XIX para se pensar na consolidação e perfil da elite no alto sertão. Assim, o processo
de ocupação e povoamento do Sertão, associado às descobertas das Minas de Salitre na serra dos
Montes Altos, da expansão da pecuária e de atividades agrícolas, são abordados enquanto fatores que
atraíram indivíduos de diferentes lugares a se estabelecerem nessa região. Desse modo, a formação
do que se pode chamar de elite no alto sertão, certamente, se associou a uma configuração com suas
bases na expansão do povoamento e dinâmica de abastecimento do mercado interno e externo, tendo
em vista a movimentação engendrada com a abertura de caminhos e estímulos ao desenvolvimento
agrícola. A conjuntura da primeira metade do século XIX permitiu a consolidação de fortunas e, ao que
tudo indica, o acesso a grandes extensões de terras, adquiridas com o fim das sesmarias, elevou uma
minoria de latifundiários a ocuparem lugar de destaque social, econômico e político.

Dinâmica econômica, social e política no Alto Sertão da Bahia, início do século XIX
ZEZITO RODRIGUES DA SILVA (UNEB)

Resumo: O processo de interiorização da população colonial da América portuguesa, em decorrência


da mineração e de outros vetores de ocupação dos sertões, proporcionou uma dinâmica de trocas
que se articulava em caráter regional, mas que se projetava também para outras praças do Império e
além. A crise do ouro proporcionou um realinhamento econômico com a dinamização desse mercado
interno. A transferência da sede política do Império promoveu novo reordenamento econômico,
fazendo com que alguns produtos controlados pelas praças de Lisboa e Porto se deslocassem para as
praças da Bahia, Recife, Rio de Janeiro. Isso gerou aquecimento do mercado interno e intensificação
na produção de gêneros, como o algodão que, com aumento da demanda deslocou-se do litoral para o
Alto Sertão da Bahia. Aí adaptado pelas condições climáticas, fez criou novas fontes de riquezas, tendo
por consequência a busca da autonomização política da região, com a criação da Vila Nova do Príncipe
e Santana de Caeteté. Essa comunicação visa apresentar os contornos econômicos, sociais e políticos
da criação desta vila, no interior da Bahia.

226
SESSÃO 0: 23/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

Silenciamento nas entrelinhas: A atuação feminina sob a chegada da CHESF ao Submédio do


São Francisco (1968-1994)
JOANA CLARA SILVA SANTIAGO (UEFS)

Resumo: Este trabalho objetiva discutir a construção de uma memória sobre as mulheres, com
enfoque na análise sobre a história de mulheres participantes do desenrolar das lutas sociais
travadas na região do Submédio do São Francisco, entre 1968 e 1994. O período se refere ao
processo de construção de usinas hidrelétricas na bacia sanfranciscana entre o lago de Sobradinho
e a Cachoeira de Paulo Afonso. O órgão responsável por essas construções foi a Companhia
Hidrelétrica do São Francisco (CHESF). A construção das barragens foi tangenciada pela elaboração
de representações do país sob o símbolo do progresso e desenvolvimento econômico brasileiro. O
sertão enquanto cenário potencial de produção energética e geradora de base lucrativa, tornou-se
espaço de disputas. A Chesf preocupou-se em narrar sua própria história ao se pautar na narrativa
propagandista do desenvolvimento sertanejo, o que antes parecia se mostrar inédito. A narrativa
produzida pelos homens da Chesf, desconsiderou a atuação dos trabalhadores beradeiros,
indígenas, e em especial a atuação das mulheres. O estudo sobre as mulheres, lida com a ausência
da participação da história feminina em pesquisas. Michelle Perrot (2005), apresenta a dificuldade
presente na historiografia em construir produções voltadas para as mulheres, ao justificar que
estas são historicamente deslocadas dos espaços públicos, das documentações e da participação
da vida política, pelo olhar da forma historicista de entender a História. Ao tratar de como é possível
estabelecer pesquisas em torno do feminino, a autora propõe os métodos orais, por entender
que esses lugares legitimados para documentações, como arquivos e fontes escritas, as mulheres
ainda estão ausentes, ou minimamente representadas. Essa perspectiva dialoga efetivamente
na pesquisa sobre as mulheres do Submédio, pois além de serem mulheres e estarem imersas
nessa situação, estão em região sertaneja e atuantes de movimentos sociais. Perrot conduz uma
crítica a história das mulheres no que diz respeita a fontes que permitem/permitiram construções
narrativas. Ao tratar dos arquivos do século XIX, documentos voltados para mulheres são ausentes,
com isso, a memória sobre as mulheres foi e é construída intrinsecamente a prática da oralidade
feminina. Podemos inferir que a oralidade feminina carrega em si um potencial instrumento de
resistência. A oralidade se torna elemento cultural, político e histórico das mulheres. Ao partimos
das experiências das mulheres do Submédio através de entrevistas orais e fontes documentais,
buscamos contribuir com o debate historiográfico que visa uma análise histórica preocupada com
registro, debate e memória de mulheres.

“A saída do povo daqui por essa tal de barragem”: Memória e cordel na luta dos beraderos no
Submédio do rio São Francisco 1968-1994
CAROLAINE TOMAZ SILVA

Resumo: O cenário que guarda as trajetórias históricas investigadas é o Submédio do São Francisco.
Região esta que a partir de 1950 serve de palco para uma série de consequentes mobilizações e
enfrentamentos por grupos que tiveram seus modos de fazer, viver e configurar suas existências
ameaçadas, atingidas e destituídas por medidas tomadas a contragosto pela chegada e instauração

228
da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (CHESF). Os beraderos, por vezes silenciados no
processo histórico, são os sujeitos que protagonizam o embate direto ou indiretamente contra
a CHESF. É a partir desses sujeitos que é permitido analisar e acessar por meio dos cordéis as
narrativas dos indivíduos – registradas em papel pardo – suas memórias, emergindo nos registros
os elementos em que teciam sua vidas cotidianas, através das experiências, dos elementos de
saudade, das organizações territoriais, enunciação de inquietações, reivindicações e atuação na
resistência.
A resistência popular é evocada – nessa relação nada amistosa entre o Estado e a população
ribeirinha – quando o povo vê suas vidas disputadas e em eminência de perda de identidade
engolidas por um inimigo avassalador maior que o tamanho das paredes da usina em construção.
As águas inundariam a paisagem e também a vida de ribeirinhos ameaçados por um movimento
de anexação, de dominação e asfixia dos modos de fazer camponeses. A significação dos cordéis
para o povo beradeiro aparece como forma de disputa narrativa e de aplicação sentido de suas
existências, contrariando a ideia do Nordeste como terra arrasada. Dessa forma, por intermédio
desta literatura popular ritmada, que é possível perceber tal como é constituído, símbolos,
anseios, esperanças, mobilização popular e significações da existência naquele lugar que tornar-
se-ia espaço. É a partir desta literatura marginal que elementos de saudade entoam como
movimentos mobilizadores e justificam a necessidade de uma organização popular consistente,
este que permite costurar as memórias (re)significando as existências e/ou experiências diante de
dilemas entre novas e antigas configurações de tempo, noções de territorialidade e sentimentos
saudosistas. Os cordéis conseguem interpelar o chamamento para a resistência enunciada pelo
povo das beiras do rio e exprimem a necessidade de manutenção de tradições e práticas do povo
que atua ativamente em suas próprias historicidades.

O sertão na poesia de Negrão dos Oito Baixos: o uso da literatura como fonte histórica
MARINA PINTO DOS SANTOS

Resumo: O presente artigo aborda o sertão representado na poesia de Negrão dos Oito Baixos
a partir da produção do artista na década de oitenta. Partindo da sua realidade, o compositor e
sanfoneiro, representa a área que atualmente corresponde, segundo o IBGE aos municípios de
Serrinha, Biritinga e Água Fria, segundo classificação da Secretaria de Planejamento do Estado
da Bahia corresponde ao Território do Sisal e ao Portal do Sertão, respectivamente. O artista
destaca entre os atributos de sertão por ele representado, alegria e festividades, evidenciando
eventos relacionados tradicionalmente com a zona rural, a exemplo do São João. Propõe-se
uma análise das representações de sertão com base na Nova História Cultural, na perspectiva
de Roger Chartier (1988) com ênfase no conceito de representações sociais em diálogo com
Serge Moscovici (1961). A análise parte do diálogo da História com a literatura, precisamente a
ficção e, dentro desta, a poesia, sendo o corpus, a discografia produzida na década de oitenta,
neste trabalho sendo utilizadas como fonte histórica. Além da introdução, o artigo compreende a
seguinte estrutura: a primeira parte estuda a “A poética de Negrão dos Oito Baixos (1941-1994)”,
prossegue “Conhecendo o sertão do poeta através da discografia”, faz uma discussão sobre “O
papel da ficção como fonte histórica”, evidenciando os desafios da lírica como narrativa e finaliza
com as considerações finais.

229
Mulheres do Almada: uma análise do lugar social da mulher na literatura de Adonias Filho
JACKSON NOVAES SANTOS (FACULDADE DE ILHÉUS)

Resumo: Por meio de diálogos interdisciplinares entre os campos da História e da Literatura, o presente


trabalho analisa o papel social conferido à mulher na literatura regionalista de Adonias Filho. Buscando
lançar novas contribuições ao estudo do regional, a presente proposta identifica o estado da arte dos
estudos pautados no uso das fontes literárias como alicerce para a construção de uma historiografia
regionalista. Nesse contexto merece destaque a obra de Adonias Filho e o lugar conferido à mulher
grapiúna, a exemplo da tessitura narrativa verificada no romance “As velhas”, que narra a saga de quatro
mulheres de personalidade marcante inseridas no contexto do “desbravamento” das lavouras de cacau,
com relatos sobre os primórdios de inúmeras cidades surgidas nas margens do Rio Almada, revelando,
assim, novos ângulos de análises dos sujeitos históricos inseridos nesta saga. Por meio de metodologia de
revisão de literatura historiográfica aliada as potencialidades do uso das fontes literárias, os resultados
alcançados demonstram a arqueologia do discurso regionalista presente nas obras de autores regionais,
à exemplo de Adonias Filho, podem contribuir para a emergência de novos olhares sobre o regional
e dos sujeitos históricos ainda eclipsados por um fazer historiográfico tradicional centrado na ideia de
cânone à memória das elites locais.

A Cidade de Ilhéus nas narrativas ficcionais e jornalísticas: representações de uma Bahia entre
1920-1940
IGOR CAMPOS SANTOS

Resumo: Na primeira metade do século XX a Cidade de Ilhéus, na Bahia, foi objeto de múltiplas narrativas,
que destacavam sua riqueza e suas belezas, naturais e arquitetônicas. O objetivo desta pesquisa é analisar
as representações da Cidade de Ilhéus presentes na ficção e na imprensa escrita local no período de
1920 a 1940. Sobre as narrativas ficcionais o corpus da pesquisa é formado pelos romances Cacau (1933),
Terras do Sem-Fim (1943), São Jorge dos Ilhéus (1944) e Gabriela, cravo e canela (1958) do escritor Jorge
Amado. As narrativas jornalísticas foram divulgadas nos jornais O Comércio, Correio de Ilhéus e Diário da
Tarde, publicados entre as décadas de 1920 e 1940. Estas narrativas ficcionais e jornalísticas estão sendo
tomadas como fontes na perspectiva da Nova História Cultural, considerando o processo de ampliação
das fontes para a pesquisa histórica possibilitando diálogos com outros campos do saber. No caso, trata-
se do diálogo entre História e Literatura. Por isso, a opção pelos estudos sobre as representações sociais,
na visão de Roger Chartier (1988), no seu diálogo com Serge Moscovici (1961) e na compreensão de
narrativa, de Paul Ricoeur (1983). Do ponto de vista metodológico, o artigo analisa as representações
ficcionais e jornalísticas considerando como dois tipos de narrativas que permitem a compreensão de
realidades. Por meio do método de montagem, combinam-se os traços representados sobre a Cidade
com o intuito de construir uma interpretação sobre Ilhéus entre as décadas de 1920 e 1940, sinalizando
o potencial de diálogo com a realidade representada.

Meu caro Horácio: uma análise das correspondências enviadas por Carlos Drummond de Andrade a
Horácio de Almeida (1978-1982)
BRUNO RAFAEL DE ALBUQUERQUE GAUDÊNCIO (SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO DA
PARAÍBA)

Resumo: A partir de um debate entre história, literatura e correspondência, o objetivo desta comunicação

230
é analisar um conjunto de cartas enviadas pelo poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-
1987) ao historiador paraibano Horácio de Almeida (1896-1983), no período entre 1977 e 1982,
compreendo as relações e motivações intelectuais desta amizade literária, em especial a um pacto de
auxílio de Drummond na elaboração do Dicionário Erótico da Língua Portuguesa, publicado em 1980 e
depois ampliado e lançado como o título de Dicionário de Termos Eróticos e Afins, em 1981. Dentro de
uma perspectiva da história cultural dialogaremos com estudiosos que debatem no campo literário e
historiográfico sobre correspondência e amizades intelectuais e literárias, a exemplo de Marco Antônio
Morais (2005), Michel Trebitsch (1992), Brigitte Diaz (2016) e Geneviéve Haroche-Bouzinac (2016).
Cúmplices em projetos intelectuais comuns, Horácio de Almeida teve em Carlos Drummond de Andrade
uma amizade que possibilitou uma troca de conhecimentos, relacionados ao tema da literatura e do
erotismo, sob o signo da velhice.

SESSÃO 02: 22/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

À moda militar: A historicidade do conto Sargento Garcia de Caio Fernando Abreu


RAIAN SOUZA SANTOS (GOVERNO DO DISTRITO FEDERAL)

Resumo: Esse artigo tem como objetivo analisar os processos de perda do posto e patente de alguns
oficiais militares na ditadura brasileira (1964-1985) em interface com o conto Sargento Garcia (1982) do
escritor Caio Fernando Abreu. No regime ditatorial uma série de militares que tinham práticas sexuais
homoeróticas foram alvo de caçadas moralizantes empreendidas pelos agentes ditatoriais dentro dos
quartéis, esses agentes agiam motivados por um projeto higienista de saneamento das Forças Armadas.
Ao serem pegos na caserna os militares dissidentes eram acusados do crime de pederastia e tinham
em decorrência dessa acusação, em um curto espaço de tempo, suas carreiras abortadas de forma
vexatória. A pederastia, crime de natureza militar, está incluída no rol dos crimes sexuais do Código Penal
Militar (CPM) de 1969, ou seja, para o aparato imagético e jurídico castrense a pederastia significava
de forma estreita qualquer relação homossexual, principalmente entre dois homens. Como para o
sistema classificatório dos militares, em especial no período do estado exceção, a identidade militar era
considerada essencialmente heterossexual, os militares sexualmente dissidentes foram tachados como
inimigos da pátria, assim como uma série de militantes de esquerda. Imbuída da lógica da suspeição, a
ditadura, através de seus agentes e órgãos de informação, buscavam identificar os supostos homossexuais
para expurga-los do serviço público militar, essa prática agudizou o clima inquisitorial na caserna que
historicamente já não era um espaço tolerante com as homossexualidades. Nesse contexto, de uma
negação da identidade militar homossexual, o conto Sargento Garcia, por apresentar um enredo que
trata de uma relação homoerótica entre um jovem alistado e um sisudo sargento no período ditatorial,
pode juntamente com os processos de pederastia, dar uma noção da complexidade do problema de
considerar obvia as perseguições sexuais nos quartéis e nesse sentido reforçar o contexto discursivo
e social que constrói os militares como a encarnação de um modelo de masculinidade heterossexual,
patriota, patriarcal e disciplinar. Espero que esse artigo contribua para o processo de tensionamento da
naturalização da existência de homossexuais (negados) nas Forças Armadas.

231
A Doçaria na Literatura e História no Atlântico Lusófono.
CARMOLY CARTEADO MONTEIRO LOPES FILHO

Resumo: O presente artigo proposto é um excerto dissertativo de um trabalho em construção para o


Mestrado em História da Universidade Estadual de Santa Cruz, de título “Cravo, canela e muito açúcar no
atlântico: A Doçaria na Literatura e na História dos séculos XIX e XX (1845-2010). O marco inicial do projeto
é o nascimento do escritor português Eça de Queiroz, passando por Camilo Castelo Branco, Fernando
Pessoa, Jorge Amado e José Saramago. Entendendo esse movimento com um ciclo que vai da popular
doçaria luso-brasileira ao processo de gentrificação da gastronômica. Esse recorte tem por objetivo
analisar a interseção entre a doçaria do atlântico lusófono e seus aspectos de patrimônio cultural, assim
com as relações sociais e a cultura material proveniente do seu desenvolvimento. O referencial teórico
utilizado pelo presente artigo se utilizará de autores como, Massimo Montanari, Sebastião Pessanha,
Sandra Pesavento, Eça de Queiroz, Jorge Amado, entre outros, fazendo uma discussão que passa pela
história da alimentação, a presença da doçaria nos romances ao diálogo da história como a literatura.

A literatura de viagem entre a história e a ficção: uma análise da crônica de Antonio Pigafetta
ADRIANO RODRIGUES DE OLIVEIRA (UNESP)

Resumo:  No presente estudo analisamos a narrativa de viagem de Antonio Pigafetta, marinheiro,


geógrafo e cronista italiano que acompanhou o navegador português Fernão de Magalhães em um
périplo ao redor do globo realizado entre os anos de 1519-1522. Pigaffeta registrou em pormenores
as aventuras dessa expedição em seu famoso diário, publicado em italiano no ano de 1525 com o
título de Relazione del Primo Viaggio Intorno Al Mondo. Isso posto, vale ressaltar que centralizaremos
nossa análise no contexto em que a expedição costeou o litoral brasileiro e aportou no extremo sul do
continente americano, região da atual Argentina, que a partir de então, ficaria mundialmente conhecida
como Patagônia. Nossa abordagem se concentra em examinar a relação entre a história e a ficção na
referida obra, especialmente no que tange aos elementos da construção narrativa. Assim, interessa-
nos ainda, explorar como o real e o fantástico se entrelaçam, a partir do que o estudioso francês Paul
Ricoeur (1997) denominou de uma historicização da ficção e uma ficcionalização da história. Conforme
constatamos, Pigafetta se valeu de um discurso narrativo embasado em aspectos reais, cuja pretensão
era dar um tom de veracidade ao seu relato e, dessa forma, mesclou elementos concretos com as
diversas descrições de seres fantásticos, a saber os famosos gigantes patagões. Disso resultou um texto
que apresenta todas as características da literatura fantástica, oriundas de um imaginário enraizado na
tradição antiga e medieval. Por outro lado, a crônica analisada, constitui-se de um documento de grande
valor historiográfico, uma vez que nos possibilita a compreensão do espaço geográfico e dos aspectos
demográficos do Novo Mundo na conjuntura histórica da primeira metade século XVI.

O mundo de Júlio Verne: representações de uma modernidade eficiente, confortável e melancólica


JOÃO JÚNIO NÔ DOS SANTOS OLIVEIRA

Resumo: A presente comunicação tem por intuito analisar razões, sentidos, sensibilidades e imaginários
acerca da modernidade científica e industrial do século XIX, a partir dos olhos daquele entendido como pai
da Ficção-Científica: Júlio Verne. Neste breve trabalho, busco expor uma certa sensibilidade escatológica
com relação às consequências da industrialização europeia, mais particularmente a francesa. A obra sob
análise é “Paris no Século XX”, uma das primeiras obras do gênero de nosso autor, escrita ainda em 1863

232
mas apenas publicada na década de 80 do século XX, mais de 100 anos após seu primeiro manuscrito.
Nesta, Júlio Verne conta a vida de um jovem rapaz, entusiasta das letras, admirador de Balzac e Vitor
Hugo, que se vê preso à sociedade francesa do ano de 1960; um mundo sem lugar para as ditas futilidades
da alma, onde apenas a engenhosidade da mecânica industrial, da construção civil, do maquinário fabril
e o crédito bancário tem lugar. Nosso protagonista, Michel Jérôme Dufrénoy, é por consequência um
melancólico, forçado à viver e refletir imerso em uma sociedade que lhe é hostil. A narrativa, portanto,
busca a construção de uma possibilidade estética futurista, a partir de elementos muito marcantes
dos anos mil e oitocentos na França, sob destaque a indústria, a urbanização, as intensas atividades
do mercado, a modernidade administrativa de um Estado centralizado e eficiente; responsáveis pela
edificação de um mundo determinado pelo progresso, os lucros, a praticidade, eliminando os espaços
da reflexão abstrata, bem como da transcendência artística. Portanto, é a partir da localização histórica
da obra citada que pretendo apresentar um período marcado por grandes possibilidades, repleto de
conquistas e otimismo; um lugar não mais dominado pelos desígnios da natureza ou do divino, e sim pelo
próprio homem, em contraste, por sua vez, com o intenso pessimismo e mal-estar causado pelas exatas
mesmas coisas que trazem toda a empolgação. Eis o mundo histórico representado por Júlio Verne.

Aspectos da ficcionalização da experiência palestina através do romance: aproximações entre o


vivido e o narrado, escrita e discurso
CAROLINA FERREIRA DE FIGUEIREDO (UFRJ)

Resumo: Esta comunicação pretende apresentar reflexões sobre pesquisa de doutorado em andamento,


realizada Universidade Federal do Rio de Janeiro, que tem por objetivo analisar nove obras literárias
produzidas por mulheres palestinas a partir da década de 1970 até a contemporaneidade. O estudo
parte de preocupações da teoria pós-colonial, especialmente ao abordar sujeitos marginalizados, bem
como compreender territórios e alcances da constituição histórica nacional da Palestina contemporânea,
especialmente a partir da ruptura em 1948, ano da criação do Estado de Israel, e conhecido como Nakba
para os/as palestinos/as, um processo em andamento com diversos e complexos desdobramentos.
Nesse sentido, ao propor uma leitura crítica sobre estas fontes literárias, percebe-se que as narrativas
são construídas de maneira a problematizar algum aspecto da vida palestina, sendo questões de
gênero, violência, ocupação, guerra, diáspora e exílio presentes. Nota-se, então, que todos os romances
são atravessados por uma certa experiência palestina em ‘comum’, ainda que tematizados de forma
diferenciada por cada autora. Junto a isto, a investigação sobre as relações entre história e literatura
torna-se fundamental em seus aspectos teórico-metodológicos, bem como um caminho de análise
específico para o desenvolvimento estrutural do romance palestino contemporâneo. Por exemplo,
no livro Manhãs em Jenin, da edição em inglês de 2010, Mornings in Jenin, a escritora palestina Susan
Abulhawa, ao fazer um comentário no final do livro, estabelece uma relação entre história e memória,
entre fato e ficção: informa que seus personagens são fictícios, mas que a Palestina não é, e tampouco
são os eventos históricos que coloca durante a escritura do romance. Além deste, nota-se que os
outros livros analisados, publicados pelas escritoras Sahar Khalifeh, Hala Jabbour, Liana Badr, Ibtisam
Barakat, Khulud Khamis e Hala Alyan tratam de forma peculiar as relações entre os acontecimento(s)
histórico(s) e a trama do romance, de modo a aproximar as dimensões entre história e ficção, ou o vivido
e o narrado, seja por elementos extratextuais ou por dinâmicas intratextuais. Estas questões direcionam
para um debate dentro do campo historiográfico, complexificando os conceitos que dizem respeito
ao fato histórico, memória, contexto, referencialidade e realidade. Assim, o trabalho visa discutir as
formas como se estruturam os romances palestinos sob análise, de modo a refletir sobre a construção

233
da ficcionalização do texto, as abordagens sobre a luta, resistência e sociedade palestina; bem como
as estratégias narrativas e discursivas sobre o engendramento de experiências reais e a constituição
histórica da Palestina alinhado ao cenário literário do gênero romance.

História e Literatura: as contribuições de Chimamanda Adichie para com a história recente da


Nigéria
RAFAEL BARBOSA DE JESUS SANTANA (UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL)

Resumo: O presente trabalho tem por objetivo realizar uma discussão teórico-bibliográfica referente à
ideia da literatura enquanto fonte legítima para as pesquisas históricas. Ao mesmo tempo, e não menos
importante, procura-se exemplificar a serventia histórica desse objeto social através da análise do
romance Hibisco Roxo, da autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Nesse sentido, dois aspectos da
obra terão enfoque: as violências causadas pelos processos coloniais britânicos na Nigéria em seu caráter
religioso e linguístico. Ao final do trabalho, espera-se que o(a) leitor(a), tendo percorrido os debates e
análises suscitadas, compreenda e enxergue as obras literárias enquanto fruto da humanidade, objeto de
representação social e como fonte histórica autônoma, ou seja, que não precisam de outras fontes para
serem legitimadas. Para chegarmos aos objetivos mencionados, num primeiro momento, procuraremos
conceituar, caracterizar e identificar os potenciais e limitações do campo literário, com maior ênfase
na expressão literária do romance. Oportunidade na qual será pontuada também as possíveis relações
entre História e Literatura. Autoras como Jodelet (2001), Pesavento (2003), Gallagher (2009) e Watt
(1996) serão essenciais para aprofundarmos nas referidas questões. No que tange à análise da obra de
Adichie, procuraremos dialogar com os referenciais teóricos citados e com pensadores/intelectuais que
estudam a história da Nigéria e/ou do continente africano de forma geral, como: Sow & Abdulaziz (2010),
Mustapha (2014) e Tshibangu (2010).

SESSÃO 03: 23/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

HISTÓRIA EDITORIAL E PRODUÇÃO LITERÁRIA: a editora Alfa-Omega na década de 1970


GUSTAVO ORSOLON DE SOUZA (CECOF)

Resumo: O meu objetivo no X Encontro Estadual de História é apresentar e compartilhar parte da


pesquisa que venho desenvolvendo no Programa de Pós-Graduação em História Social da UERJ/
FFP. O tema central é a história da editora paulista Alfa-Omega, fundada em 1973, na cidade de
São Paulo.
A história editorial é um campo rico, mas ainda hoje pouco explorado pelos pesquisadores. Nas
últimas duas décadas ocorreu até um certo crescimento no número de estudos acadêmicos
voltados para esse tema. Porém, ainda estamos longe de uma produção mais robusta. Conhecer
a trajetória das editoras e de sua produção literária é poder mergulhar na própria história política
do Brasil.

Tentando contribuir com esse debate que envolve política e casas editoriais, venho desde 2018
pesquisando a trajetória e a produção literária da Alfa-Omega. A editora possui um catálogo
bastante interessante, com títulos que marcaram época como, por exemplo, A Ilha: um repórter

234
brasileiro no país de Fidel Castro (1976), de Fernando Morais e Em Câmera Lenta (1977), de Renato
Tapajós.
Portanto, nesta pesquisa, pretendo analisar o seu perfil editorial, através do catálogo do ano
1984, e também uma coleção intitulada História Imediata, publicada no final da década de 1970,
em formato de revista, que trazia temas quentes para o momento e censurados pela imprensa
como, por exemplo, a Guerrilha do Araguaia; e a União Nacional dos Estudantes – UNE.

Tradução e literatura na censura joanina


MAÍRA MORAES DOS SANTOS VILLARES VIANNA (UERJ)

Resumo: O presente trabalho tem como objetivo analisar a censura que vigorou no Brasil durante
o período joanino, destacando como a tradução foi abordada pelos censores. Por meio da análise
dos pareceres e de uma revisão bibliográfica almeja-se compreender como as obras traduzidas
representavam a literatura portuguesa. Através da atuação dos censores será destacado
a importância das obras traduzidas como um mecanismo de enriquecimento da literatura
portuguesa, assim como as diferentes perspectivas sobre o conceito de tradução na época. Junto
a isso, será explorado os significados atribuídos a literatura ao longo do tempo, com a finalidade
de compreender a que os censores se referiam ao relacionarem as traduções a literatura. Além
disso, será destacado o processo de instauração do aparelho censório no Brasil após a chegada da
corte portuguesa, assim como as adaptações necessárias aos trópicos. Assim, retomar as origens
da censura portuguesa é de grande valia, pois possibilita a compreensão do modelo censório que
vigorou durante a atuação da Mesa do Desembargo do Paço no Rio de Janeiro joanino.

O feitiço de Conan Doyle: circulação dos impressos sobre Sherlock Holmes e suas leituras por
crianças e jovens brasileiros nas primeiras décadas do século XX
LEANDRO ANTONIO DE ALMEIDA (UFRB)

Resumo: Em um estudo sobre o período de 1870 a 1920 no Brasil, Gilberto Freyre afirmou que
um dos marcantes traços socioculturais da Belle Époque brasileira foi “a voga, no fim da época
em apreço, de Conan Doyle e do seu Sherlock”, e preconiza que tal ficção teria sido agente
literário da unificação da mentalidade de adolescentes brasileiros, seduzidos por aspectos da
vida moderna numa civilização. A ficção sobre Sherlock Holmes chegou ao Brasil em um contexto
de multiplicação e transformação dos suportes de narrativas entre os anos 1908-1930 (livros,
fascículos, peças, filmes, folhetins), ensejando também a popularização da ficção de detetives no
período. Sherlock Holmes era lembrado nas memórias e documentos do período como fonte de
prazer e entretenimento, sobretudo dos mais jovens, e também aparece como modelo de ação na
realidade, cujo raciocínio indiciário poderia ser aplicado a várias dimensões da vida, inclusive ser
parâmetro de policial e investigador. Tais percepções se relacionam a um contexto de urbanização
e modernização do cotidiano das cidades brasileiras, à ênfase no caráter redentor da ciência e da
técnica, os quais repercutiram na imprensa e na tentativa de reformulação da polícia segundo
os padrões europeus. Seguindo a pista deixada pelo sociólogo pernambucano, nosso objetivo
é analisar o papel da ficção policial, especialmente a protagonizada por Sherlock Holmes, na
construção de referenciais de modernidade em crianças e adolescentes brasileiros nascidos na
virada do XIX para o XX e nas primeiras duas décadas do novo século. A generalidade dessa difusão

235
concorreu para acirrar a sensação de “unificação da mentalidade” mencionada por Freyre e que
está presente em outras memórias e depoimentos. Tais fontes permitirão perceber o duradouro
impacto do Sherlock e também seus efeitos variados, os quais dependiam dos significados
atribuídos ao conteúdo dos impressos, aos efeitos da experiência de leitura e percepção de sua
utilidade. Depois esperamos, então abordar a mencionada sedução de crianças e adolescentes,
como elas construíam referenciais de modernidade a partir da leitura das narrativas sobre o
detetive Sherlock Holmes.

Desvio e desafios na escrita de Manoel Bomfim (1905-1931)


MARCELA COCKELL MALLMANN (UERJ)

Resumo:  Manoel Bomfim (1868-1932) foi um intelectual brasileiro marcado pelo engajamento
em diferentes campos (na medicina, magistério, jornalismo e política) e pela sua interpretação
do Brasil no cenário histórico da Primeira República (1889-1930), perpassando pela Belle Époque
tropical (1898-1914), conforme Needell (1993) – na capital. É atuante no Pedagogium (1896-1919),
como diretor e professor, na Escola Normal do Distrito Federal (1897-1926), na Liga Brasileira de
Higiene Mental (1924) e na Associação Brasileira de Educação (1924). Sua consistente produção
escrita revela uma singularidade desviante marcada por um contradiscurso (FOUCAULT, 2002)
em torno das justificativas dos “males” do atraso brasileiro em relação às questões de raça, da
mestiçagem e clima, apresentando como a cura a educação. Neste trabalho propomos investigar
o seu ideário de interpretação da nação e algumas questões que envolvem o campo da história
da educação em torno da higiene, da pedagogia e psicologia. Sua produção escrita, é significativa,
especialmente em relação aos livros, nos dedicaremos neste trabalho às obras: A América Latina:
males de origem (1905) O Brasil na América (1929); O Brasil na história (1930); O Brasil nação
(1931), que trazem além do contradiscurso do autor, uma análise de questões tão correntes em
relação ao debate em torno da relação entre raça e o atraso brasileiro, e também da América
Latina.

Escrita da História e infância: elogio da curiosidade científica em Ginzburg, Benjamin e


Agamben
JOACHIN DE MELO AZEVEDO NETO (UNIVERSIDADE DE PERNAMBUCO - UPE/CAMPUS
PETROLINA)

Resumo: A presente proposta de fala tem como meta discutir a abordagem temática em torno das
relações entre infância e escrita elaborada por historiadores e estudiosos da cultura como Carlo
Ginzburg, Walter Benjamin e Giorgio Agamben. Esses autores dialogaram com diferentes literatos,
desde Proust, Baudelaire e Tolstói, para evidenciarem um determinado método de interpretação
do mundo vivido no qual as sensações e as impressões sobre a realidade são transmitidas aos
leitores de forma frenética, labiríntica e anacrônica. Nesse sentido, os autores, a partir desses
debates literários, refletem sobre como essa infância do olhar, que conserva ainda a capacidade
de espanto, incertezas e estranhamento, pode ser uma alternativa epistêmica mais profunda do
que pensar fenômenos humanos a partir de esquemas tecnicistas e pretensamente neutros.

236
Perspectivas históricas sobre o romance de formação
MARCELLO DE ARAUJO PIMENTEL (UEFS)

Resumo: O romance de formação é uma indelével marca da literatura alemã. Tal estilo, destaca-se
na escrita de Goethe e Thomas Mann. Apesar de terem vivido e produzido suas obras em diferentes
períodos históricos, a tradição germânica do Bildungsroman perpassa as suas literaturas de
forma a fundamentar as bases onde assentam-se seus romances e demais escritos. A partir desse
gênero literário, representou-se lugares sociais e costumes culturais. Em Os anos de aprendizado
de Wilhelm Meister, Goethe caracteriza o processo formativo intelectual e moral de um jovem
nascido no seio da burguesia alemã. “De que me serve fabricar um bom ferro, se o meu próprio
interior está cheio de escórias? E de que me serve também colocar em ordem uma propriedade
rural, se comigo mesmo me desavim?” (GOETHE, 2017) Através deste questionamento de Wilhelm
Meister, apresenta-se ao leitor o conflito entre tradições e gerações que nunca possuíram as
mesmas formas de pensamento acerca do sentido da existência de um homem. Já em A montanha
mágica, Thomas Mann apresenta-nos a jornada formativa de um jovem burguês de Lübeck, sendo
a personagem confrontada com as grandes questões filosóficas, históricas e éticas que marcaram
seu tempo. Adeptos do romantismo, ambos os autores utilizaram em suas obras efígies de beleza
e morte, que associadas ao corpo feminino, também figuram como representantes de um ideal
artístico e estético característico de suas épocas e tradições. Através disso, iremos problematizar a
representação de mundos em conflito na narrativa ficcional e o seu evidente diálogo com a história
da Europa entre os séculos XIX e XX nas duas obras citadas acima. É, portanto, uma característica
da escrita dos dois autores dentro do gênero em questão, a problematização de estruturas
cristalizadas no meio social em face do desenvolvimento das personagens e protagonistas
de suas obras. Todavia, existem peculiaridades na escrita de cada um, as quais tem origem na
formação de cada escritor. Entre a História e Literatura, intentamos tecer uma singela abordagem
fundamentada na interlocução entre os campos da historiografia, filosofia e arte, num trabalho de
literatura comparada; evidenciando permanências, anseios mudanças na dinâmica das sociedades
retratadas, e suas culturas através da narrativa literária.

237
SESSÃO 01: 21/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

A Burguesia e a perspectiva da Revolução Burguesa no Pensamento Social Brasileiro


CARLOS NÁSSARO ARAÚJO DA PAIXÃO (INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO CIÊNCIA E
TECNOLOGIA BAIANO)

Resumo: O Brasil, ao entrar na década de 1930, apresentava-se em um contexto de esgotamento


do modelo econômico baseado na exportação de produtos agrícolas, com destaque para a lavoura
cafeeira, que era o sustentáculo da economia brasileira, provocado pelo impacto decorrente da
crise sistêmica do capitalismo internacional, desencadeada em 1929. Politicamente, o regime
oligárquico já apresentava sinais de esgotamento e sofria pressões visando a sua distensão no
sentido de ampliar a participação política dos operários, dos setores médios e mesmo de grupos não
hegemônicos no interior da classe dominante. No ano de 1930 ocorreu o movimento que derrubou
a já combalida República Liberal Oligárquica e que passou à nossa tradição historiográfica com o
nome de Revolução de 1930, e é, exatamente, neste momento, que se abre uma das discussões
mais profícuas e longevas das ciências sociais no Brasil. Após 1964, principalmente, estudiosos
da economia, da história e das ciências sociais debruçaram-se sobre 1930, buscando neste fato
uma tentativa de compreensão para as transformações que o Brasil sofreu em seus aspectos
econômicos, sociais e políticos. Aquela conjuntura foi entendida pelos economistas, historiadores,
cientistas políticos e sociólogos como um marco inicial, um ponto de viragem caracterizado pela
passagem de uma sociedade eminentemente rural e agrária, cuja hegemonia política estava nas
mãos das oligarquias agro-mercantil exportadoras, para um país cada vez mais urbano, detentor de
um parque industrial em consolidação (a despeito do seu caráter de dependência) hegemonizado
por uma burguesia associada ao capital internacional. A comunicação busca discutir as obras de
Florestan Fernandes, Caio Prado Júnior, Francisco de Oliveira, Francisco Weffort e Boris Fausto,
que, apesar das diferenças nas abordagens, apresentam temas e concepções em comum, tais como:
o conceito de “Estado de compromisso”, para caracterizar o período imediatamente posterior à
Revolução de 1930; o entendimento de que não é possível analisar a realidade brasileira, a partir
dos modelos desenvolvidos para explicar a história dos países da Europa Ocidental e Estados
Unidos, no que se refere à eclosão das revoluções burguesas e do desenvolvimento do capitalismo;
a permanência das oligarquias, mesmo após a derrocada do Estado oligárquico; a importância
do setor agrícola como gerador de divisas que seriam direcionados para o desenvolvimento da
indústrias, através de uma política fiscal e cambial industrializante. E, sobretudo, pela reflexão a
respeito das possibilidades e limites para a revolução no Brasil.

Aproximações entre História e Sociologia e o estudo das lutas sociais no Brasil


MOISÉS LEAL MORAIS (IF BAIANO)

Resumo: Uma forma da história do Brasil ser lida é a partir do estudo das lutas sociais. Tal estudo
permite analisar também como se estabeleceram as relações entre Estado e sociedade ao longo
do decurso histórico. Partindo dessa premissa, discutiremos nesse trabalho como o intercâmbio
téorico-metodológico entre História e Sociologia podem trazer potencialidades para compreender
as lutas sociais em seu conteúdo e forma, seja no contexto em que elas se materializaram, ou
no que foi legado para momento ulterior, influenciando a configuração ou reconfiguração de

239
mecanismos de coerção do Estado, do aparato legal e dos repertórios de ação coletiva.

Revisionismo histórico e juridicização do passado


FERNANDO SANTANA DE OLIVEIRA SANTOS (IFBA)

Resumo:  O objetivo principal do estudo é discutir a legitimidade de o Estado, por meio das
funções legislativa e jurisdicional, impor limites ao revisionismo histórico. Não se ignora que
rever interpretações históricas, a partir da descoberta de novas fontes ou para evidenciar atores
sociais historicamente esquecidos, por exemplo, é tarefa genuína da História. Portanto, não se
refere aqui a qualquer revisionismo, mas sim àquele que não observa a metodologia própria da
investigação história e, portanto, tende a falsear acontecimentos, desqualificando as trajetórias
de determinados sujeitos, negando ou relativizando fatos dolorosos, como o holocausto
judeu, a escravização de indígenas e africanos e a ditadura militar no Brasil. O estudo pretende
promover interlocuções entre a teoria da História e o Direito, diagnosticando pontos de tensões e
convergências acerca da temática. A possibilidade de o Estado intervir na repressão ao falseamento
da história, mesmo nesses casos mais graves, é controversa em ambas as áreas do conhecimento.
Esse debate, por vezes, fica circunscrito a questionamentos sobre a cientificidade da História,
aos riscos de se instituir uma memória oficial ou de se promover o cerceamento da liberdade de
expressão e, ainda, à impossibilidade metodológica de juízes decidirem sobre o passado. Sem
perder de vista todas essas implicações, sustenta-se que a discussão precisa ser aprofundada,
pois há questões relativas ao revisionismo histórico que transcendem o fazer historiográfico e
passam a atuar na opressão de grupos ditos minoritários, inclusive na deslegitimação de políticas
públicas, e no acobertamento de crimes contra a humanidade.

A ditadura aconteceu aqui: memórias da ditadura em Ilhéus, 1964-1985.


LUIZ HENRIQUE DOS SANTOS BLUME (UESC)

Resumo: Escrever a História como “um tempo saturado de agoras”, conforme nos deixou como
testamento político Walter Benjamin. Eis o desafio para quem pretende tratar das Histórias da
ditadura, que tem vários outros conectivos: civil-miltar, empresarial-militar, ou simplesmente
ditadura, que teve sua presença anotada nos registros históricos entre os anos de 1964-1985.
Especialmente incômodo é uma afirmação de que “a ditadura não passou por aqui”, proferida
num debate promovido pela ONG Associação Ilhéus, em 2014, em que uma professora que teve
e ainda tem influência na formação de jovens estudantes na cidade de Ilhéus reforçou não só
um silêncio sobre as ações dos governos militares na cidade, mas expressou um discurso que
vem no rol dos negacionismos e revisionismos históricos sobre o período da ditadura de 1964-
1985 no Brasil. Ao afirmar em debate público que tinha por objetivo apresentar propostas aos
candidatos ao pleito municipal de Ilhéus em 2014, a palestrante quis referendar uma memória
dominante de que não houve sequer ditadura em Ilhéus, quiçá para referendar uma perspectiva
histórica de que a população de Ilhéus é pacífica, ordeira, cumpridora de seus deveres cívicos e,
portanto, não é afeita a praticar a “subversão” e, pior, aventuras esquerdistas. Em Ilhéus, também
temos personagens que deram seu apoio explícito ao golpe e à “revolução” de 1964. Entre estes,
figuras que consolidaram-se como importantes representantes da sociedade civil na consolidação
do apoio aos governos militares. Entre estes, o então professor do curso de Direito da Faculdade
de Direito de Ilhéus, que se tornou uma importante liderança política na região, ao realizar o

240
sonho dourado das elites cacaueiras, e consolidar o projeto de construção de uma universidade
para a região, através da FUSC - Fundação Universidade de Santa Cruz, em 1974, que se tornaria a
atual UESC - Universidade Estadual de Santa Cruz, em 1992. É preciso situar na pesquisa histórica
sobre a presença da ditadura em Ilhéus e região, os sujeitos históricos que atuaram no apoio às
políticas implementadas pelos governos e na manutenção de uma memória que excluiu outras
possibilidades de memórias divergentes, dissidentes e de resistência à ditadura. Para tanto,
buscarei apresentar algumas questões que podem contribuir para outras histórias e trazer para
o debate memórias que foram negadas pelo processo histórico de “redemocratização” no pós-
ditadura na região. Para que novamente essas memórias não sejam silenciadas no processo
político na atual conjuntura em que vivemos no país, é primordial ouvir as vozes de sujeitos que
ousaram lutar contra a ditadura e que permaneceram em silêncio por muitos anos.

A transição democrática e as experiências dos comunistas em Camaçari-BA


RAFAELA DAYANE CARDOSO DE SOUZA (UEFS)

Resumo: A transição democrática brasileira foi palco de disputa entre diversos projetos– desde
o projeto que visava continuidade no poder até o que exigia a redemocratização, ou seja, fim do
regime com democracia e direitos sociais. Os militares, em que pesem as divergências internas
desenvolveram uma proposta de transição que pode ser sintetizada na consigna lenta, gradual e
segura, entretanto, a sociedade civil também apresentou diversos projetos. O Partido Comunista
do Brasil (PCdoB) na sua reorganização em 1979 traçou táticas e estratégias para o processo de
transição, do ponto de vista de sua organização interna até a relação com os movimentos de massa
do período. O Jornal Tribuna da Luta Operária foi um dos principais mecanismos do PCdoB para
reaparecer na cena política; foi um periódico de circulação nacional de 1979 a 1988 que nasceu
no interior do Comitê Central do PCdoB, influenciado pelo ascenso dos movimentos populares
e o processo de anistia. Nesse trabalho, analisaremos a atuação do PCdoB na “cidade operária”
Camaçari (Região Metropolitana de Salvador), no processo de transição. Camaçari estava inserida
na Lei de Segurança Nacional (LSN) e foi comandada por prefeito biônico por mais de uma década.
Em 1985, na primeira eleição pós ditadura, um dos dirigentes do PCdoB foi eleito prefeito. Para
avaliar essa experiência iremos recorrer a análise de Antônio Gramsci sobre partido político, ou
seja, o consideraremos de forma ampla e abrangente, não se restringindo a sua vida interna.
Ademais no que se refere as fontes, o Jornal Tribuna da Luta Operária e as entrevistas com Hilário
Leal e Luiza Maia – ambos militantes do PCdoB à época – serão nossos fios condutores para
compreender como mulheres e homens camaçarienses se movimentaram no contexto referido.
Assim, teremos uma indicação de como um partido político de esquerda atuou no processo de
transição em uma cidade que foi enquadrada na LSN e que elegeu na sua primeira eleição um
membro do PCdoB.

O Partido Comunista do Brasil (PCdoB) no sul da Bahia (1968-1973)


MAÍZA FERREIRA DOS SANTOS

Resumo: O presente trabalho tem como perspectiva apresentar considerações sobre a atuação
do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) na região sul da Bahia, em específico nas cidades que o
PCdoB desenvolveu trabalho político, são elas Camacan, Ilhéus, Itabuna e Potiraguá. As atividades

241
da militância do partido teve início no final da década de 1960 e em 1973 militantes e próximos
a organização foram indiciados, processados e alguns deles presos pela justiça militar acusados
por tentar reorganizar partido clandestino. O PCdoB começou suas atividades no sul da Bahia
no mesmo período em que a luta armada foi incorporada como estratégia política pelo partido.
Além disso, nesse mesmo contexto militantes da organização foram direcionados para a região do
Araguaia no Estado do Pará com a finalidade de iniciar os trabalhos para formação da guerrilha, na
oportunidade quadros da Bahia também foram destacados. No período de 1970/1971 o Comitê
Sul foi formado e a região cacaueira passou a receber considerável prioridade do partido naquela
conjuntura, chegando a deslocar membros da direção da regional para a localidade. Após a formação
deste comitê o campo passou a ser considerado como área prioritária para desenvolver trabalho
político, por conta disso membros de outras localidades do país e da região foram direcionados
para atuar nesses espaços, tendo como objetivo desenvolver ações junto aos trabalhadores rurais
da região cacaueira. Entretanto, é importante destacar que parte da militância continuou em
atividade na zona urbana das cidades.
Diante do exposto, esta reflexão terá como preocupação apresentar o contexto da atuação
política do PCdoB no sul da Bahia, desenvolvendo sobre o momento no qual o partido direcionou
sua atenção para o interior do Estado, assim como debateremos acerca dos elementos que
podem ter contribuído para tal definição. Neste trabalho também será possível indicar o perfil
da militância do partido na região estudada, destacando gênero, faixa etária, raça e profissão
dos sujeitos que envolveram suas vidas na construção do projeto político do PCdoB naquele
período. Para construir este texto será usado como base o processo 199/73 do fundo digital Brasil
Nunca Mais, teses congressuais, resoluções e outros documentos formulados pelo partido e seus
militantes. A partir deles será possível evidenciar os pontos indicados como questões a serem
problematizadas, demonstrando que as escolhas tomadas pelo núcleo dirigente na Bahia não
estavam desconectadas das formulações e direcionamentos feitos pelo Comitê Central.

SESSÃO 02: 22/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

A participação dos coronéis da Bahia na Revolução de 1930


ELIANA EVANGELISTA BATISTA (INSTITUTO FEDERAL DA BAHIA)

Resumo: Comunicação discute a participação dos coronéis do interior da Bahia na Revolução de


1930, desde a campanha da Aliança Liberal à centralização do poder federal no estado, sob o
governo de Juraci Magalhães, no ano de 1933. Com base na análise de cartas, telegramas e jornais
da época, demonstra-se como a atuação política desses homens do interior, conduzida pelas armas,
na Primeira República, foi substituída pelas urnas, após a vitória do movimento revolucionário de
outubro de 1930, num constante processo de acomodação política que marcou o governo Vargas
na Bahia.

242
“Capital da Seca”: o regionalismo nordestino expresso nas disputas parlamentares sobre o
Banco do Nordeste do Brasil
PEDRO LUÍS CAVALCANTE DA CUNHA (UFBA)

Resumo:  O Banco do Nordeste do Brasil (BNB), instituição de crédito com meios e fins sem
precedentes claros na história do Brasil, viraria pauta, no processo de sua implantação, de calorosas
discussões. Os temas variavam, indo desde a natureza do planejamento regional, passando pelo
debate sobre o fomento de crédito para a produção econômica, até chegar, finalmente, na natureza
das relações que o governo federal mantinha com os entes federativos localizados no “nordeste”.
Assim, o decorrer da sua tramitação no Congresso Federal e Senado (ou seja, entre 23 de outubro
de 1951 e 19 de julho de 1952) não deixou de suscitar debates que, por vezes, iam bem além da
especificidade do projeto do BNB, levantando questões mais gerais que dialogavam intensamente
com a divisão inter-regional do capitalismo à época e com os diversos interesses que as classes
econômicas dominantes viam no estabelecimento dessa nova instituição de crédito. O presente
trabalho tem o interesse de analisar como a bancada nordestina na Câmara dos Deputados reagiu
à criação do Banco do Nordeste do Brasil e os diferentes conflitos em que se envolveram para
defender os seus respectivos interesses. Assim, pretendemos avaliar como se deu a mobilização
do discurso do regionalismo nordestino (como entendido por Iná de Castro, em “O Mito da
Necessidade”) em uma situação em que cada ente federativo pertencente ao “Nordeste” precisava
disputar a primazia da condição de “ser nordestino”. Não podemos desconsiderar, é claro, que
para além da disputa meramente retórica entre os parlamentares, haviam interesses de ordem
política-econômica que motivavam a atuação desses deputados. Dessa forma, esse artigo é um
esforço de interpretação acerca dos interesses da classe dominante no Nordeste, e das disputas
entre as suas frações, acerca da tramitação do projeto de lei 1348/1951, sobre a constituição do
Banco do Nordeste do Brasil.

Conflitos e experiências na Leste Federal- BA. (1911-1950)


LUAN LIMA BATISTA (UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA)

Resumo: No presente trabalho pretende-se analisar a experiência dos trabalhadores ferroviários


da Viação Férrea Federal Leste Brasileiro (VFFLB), com ênfase nos empregados da Estrada de
Ferro Bahia ao São Francisco e Estrada de Ferro Central da Bahia, entre os anos de 1911 a 1950. A
proposta é compreender as formas de luta e organização dos trabalhadores à luz da composição
social da categoria, as condições de trabalho e os enfrentamentos com os patrões e o governo
brasileiro, atento, sobretudo aos diversos movimentos grevistas protagonizados pela categoria
desde 1911, quando ferrovias baianas ainda estavam sob o domínio dos franceses, até 1950
quando as ferrovias eram geridas pela União. Pretendemos percorrer os caminhos da Escola Social
Inglesa, com especial atenção ao conceito de experiência proposto por E. P Thompson. Quantos
às fontes utilizamos jornais como O Imparcial, O Combate, O Momento e A Hora, a relatórios da
empresa (VFFLB) e Relatórios Ministeriais.

243
Música, política e trabalho: o caso da Filarmônica Euterpe Itabunense (1922-1925)
SAMIR SANTANA DE OLIVEIRA

Resumo: É inegável que a música teve e continua tendo presença marcante na vida humana. Ela
pode ser a expressão de lutas sociais contraditórias, articuladas em uma prática política, social e
discursiva. Sua natureza é polissémica, transformando-a em algo dinâmico. Resta-nos compreender
como indivíduos em sociedade fizeram uso dessa arte. Visto isso, este trabalho pretende analisar
como trabalhadores de uma agremiação mutualista (Sociedade Monte Pio dos Artistas de
Itabuna), situada no sul da Bahia, construíram a ideia da formação de uma banda filarmônica, ao
passo em que lutavam contra a adversidade (CASTELLUCCI, 2010). Por meio das atas de reuniões
de assembleia geral e diretoria desta entidade e de periódicos, rastreando alguns detalhes, o
objetivo é compreender a motivação de criar uma banda, entendendo a relação desses sujeitos
com o poder público da cidade – que iniciava uma imposição de novos “costumes” através de leis
– e com seus associados, por meio das políticas e conflitos internos desta instituição nos anos que
antecederam a inauguração oficial do objeto a ser estudado.

“Como cidadãs e cidadãos que somos”: a luta por direitos trabalhistas da Associação das
Empregadas Domésticas da Bahia (1985-1989)
DEYSE VIEIRA QUINTO (UESC)

Resumo: Em 1985, período de reabertura política e reformulação legislativa pós-ditadura militar,


as associações de trabalhadoras domésticas ansiavam por alcançar a equiparação dos seus direitos
trabalhistas aos dos demais trabalhadores urbanos na Constituinte. Organizadas nacionalmente
desde a década de 1960, buscavam superar o estado de marginalidade jurídica onde prevalecia a
negociação entre patroas e empregadas, que não se dava de forma horizontal ou sem conflitos.
A Associação Profissional de Trabalhadoras Domésticas da Bahia, que atuava em Salvador desde
a década de 1970, se insere no movimento nacional ao participar do V Congresso Nacional das
Empregadas Domésticas do Brasil, realizado no Pernambuco em 1985. Começa então a figurar
como eixo de articulação fundamental do movimento na organização para a Constituinte e como
referência nas estratégias de mobilização da categoria. Tendo como fonte relatos das trabalhadoras
publicados em livros, as atas da Constituinte, manuais, relatórios de eventos e atas da associação
baiana, pretende-se refletir sobre as concepções que as subalternizavam, sobre o gênero, a raça
e as condições sociais dessas trabalhadoras a partir da sua entrada no movimento nacional de
trabalhadoras domésticas, em 1985 - momento em que estas se voltam para a conquista de direitos
trabalhistas na Constituinte -, até 1989, quando realizam o VI Congresso Nacional e avaliam sua
participação na Constituinte.
Invoca-se aqui o conceito de classe como categoria histórica proposto por Thompson e, dado o
caráter histórico do conceito, para compreender a realidade baiana na segunda metade do século
XX, utiliza-se o conceito de divisão sexual do trabalho a partir de Danièle Kergoat. Da mesma
forma, examina-se a questão racial, visto que o trabalho doméstico no Brasil é marcado pela
escravidão, onde mesmo no pós-abolição se mantém as estruturas hierárquicas escravistas, o
que não necessariamente determina todas as ações dos sujeitos. Opta-se então pela proposição
de Maciel Silva que, para operacionalização como recurso analítico, sugere falar em práticas
paternalistas e anti-paternalistas. Propõe-se o conceito de consubstancialidade apresentada por
Danièle Kergoat, como uma forma de leitura da realidade social em que se entrecruzam de forma

244
dinâmica e complexa o conjunto de relações sociais, o que não exime a existência de contradições
entre elas.

A chegança da MST no Pará e a luta pela terra na Fazenda Cabaceiras: a narrativa camponesa
e a luta de classes.
EMMANUEL OGURI FREITAS (UEFS)

Resumo: No artigo apresentado, pretendemos discutir a entrada do Movimento dos Trabalhadores


Rurais Sem-terra (MST) na Região Sudeste do Pará, buscando compreender os impasses e
possíveis avanços desse movimento na luta pela terra a partir do final da década de 1990. Para
tanto, utilizamos uma série de entrevistas realizadas no âmbito da produção de minha tese
de doutoramento que analisou a luta pela terra na Fazenda Cabaceiras, primeiro imóvel rural
desapropriado por trabalho escravo e degradação ambiental, com intuito de rememoração. No
Estado do Pará, a atuação já estabelecida e aguerrida do sindicalismo dos trabalhadores rurais
fez com que o processo de fixação do movimento na região de Marabá demorasse a produzir
resultados. Os membros do MST no Pará, especialmente suas lideranças, entendem que o
período que antecedeu o estabelecimento, de forma definitiva, do movimento na região pode ser
tomado como uma fase “embrionária” do que viria a ser a luta pela terra nas décadas seguintes. A
resistência dos sindicatos à necessidade de organização do movimento no estado do Pará parece
ter uma relação com as práticas já estabelecidas pelos posseiros na região e, de acordo com Leroy
(2000), apud Assis (2007, p. 121), as diferenças poderiam “criar atritos”. A primeira região em que
o MST conseguiu inserir seus métodos de organização e ocupação foi em Conceição do Araguaia,
área onde a influência da CPT era mais forte, podendo ser o fator que motivou a escolha daquela
localidade. Tratava-se, ainda, de um lugar de extrema conflitualidade e violência (ASSIS, 2007,
p.121). A primeira ocupação com participação do MST no Estado foi em Xinguara em 1989. Era
uma ocupação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Conceição do Araguaia. Entretanto, de
acordo com Brito Filho (2006), apud Assis (2007), comprovada a titularidade da fazenda, o INCRA
teria se recusado a proceder à desapropriação. Sua entrada efetiva no estado só se deu à época
da ocupação da Fazenda Cabaceiras, em um momento que o movimento fez diversas outras ações
coletivas em fazendas pertencentes às famílias tradicionais da região. A partir da escolha dos
antagonistas que simbolizavam a violência e a grilagem de terras foi possível ganhar aceitação
na região, resultando em sua territorialização no estado. O MST, ao chegar ao Estado do Pará,
deu visibilidade a algumas dimensões da organização dos trabalhadores que até então passavam
desapercebidas pelas entidades, ou que não eram destacadas como objeto da ação coletiva, entre
as quais a relação com o Estado. Constatamos que uma força criativa foi introduzida na região a
partir da chegada da “forma movimento” (ROSA, 2010) estabelecida pelo MST e das práticas de
ocupação coletiva, ou “forma acampamento” (SIGAUD, 2010).

Dona Ilda: Uma história de vida na luta por direitos


PAULA FRANCIELE MOREIRA SOUSA (UESB)

Resumo: O presente trabalho origina-se dos estudos e investigações para a elaboração do meu
TCC (trabalho de conclusão de curso), no curso de licenciatura plena em História, na universidade
estadual do sudoeste baiano (UESB). E tem como tema base os movimentos sociais, com destaque
para as militantes femininas, na cidade de Vitória da Conquista, nas décadas de 1980-1990, tendo

245
como personagem central, a atuação da ativista social Ilda do Amaral. A pesquisa se encontra na fase
inicial, servindo mais para provocar reflexões e contribuições para o se desenvolvimento. Assim,
tenho como finalidade partilhar as pontuações já realizadas nessa pesquisa. A história recente
do nosso país, têm mostrado a busca incansável dos diversos setores populares, organizados ou
não, na busca pela superação de suas dificuldades, no atendimento aos seus anseios e no respeito
aos seus direitos. Atores sociais que tem se configurado como principais espaços de luta, visando
solucionar os diversos problemas que afeta uma comunidade ou uma determinada classe social,
objetivando a defesa de direitos. Portanto, visamos os movimentos sociais como um espaço que
tem possibilitado que as pessoas individualmente assumam uma postura coletiva de luta pela
manutenção ou conquista de direitos. Neste sentido, faz-se necessário o estudo da história de
vida de militantes femininas engajadas e comprometidas com as causas populares. Militantes
que assumiram a luta nas mais diversas frentes, que para além das suas diversas demandas e
carências, tem como pano de fundo, a luta contra uma ordem baseada no patriarcalismo tão
fortemente enraizado na nossa sociedade, especialmente na cidade de Vitória da Conquista,
onde se estabelece o foco dessa pesquisa. Vitória da Conquista tem sido, historicamente, o palco
de inúmeras manifestações e mobilizações populares, em suas mais diversas áreas e das mais
diversas formas, especialmente, com uma participação ativa de mulheres.
Com esse objetivo é que me despertou o interesse pela análise da trajetória de vida da militante
Ilda do Amaral, uma militante da cidade, que iniciou sua militância ainda nos anos 70 e que ainda
encontra se ativas nos movimentos; as suas instâncias formativas em seu processo político social,
as causas assumidas, a liderança frente a associação de bairro e do movimento de ocupação
do Alto da Boa Vista, e a fundação da Creche União e Força. Portando, diante da importância e
relevância histórica das mulheres que assumiram a militância social com coragem e afinco em
busca de garantir direitos, é que se faz necessário esse estudo, tendo como foco o exemplo de
dona Ilda que assumiu a militância com destreza possibilitando assim que sua sensibilidade se
tornasse força de luta, que se configurou em forma de legado que beneficiasse a comunidade.

SESSÃO 03: 23/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

O que é o bolsonarismo? Uma tentativa de explicar o fenômeno à luz das experiências recentes
da história social e política brasileira
CARLOS ZACARIAS F. DE SENA JÚNIOR (UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA)

Resumo:  O fenômeno do bolsonarismo emergiu na política brasileira em tempos recentes,


mais precisamente a partir do processo desencadeado com o golpe jurídico-político-midiático
de 2016 e toda a desorganização institucional dele advinda. Entretanto, as raízes históricas do
fenômeno parecem articular, ao menos, dois componentes essenciais das tradições conservadoras
internacionais e brasileiras: o militarismo e o anticomunismo. Em vista disso, algumas perguntas
têm acompanhado os analistas que buscam deslindar o bolsonarismo à luz de sua história recente:
estaria o fenômeno associado à alguma espécie de fascismo? Em que medida o componente
militar oriundo da Doutrina de Segurança Nacional é um elemento formador? Que outras tradições
conservadoras estão associadas ao fenômeno? Quais doutrinas conformam sua ideologia e
intervenção política? O objetivo desse trabalho é discutir as origens do bolsonarismo, sua trajetória
246
nos últimos 30 anos e os elementos de influência que estão presentes na sua forma de existir.
Buscaremos explicar os mecanismos que permitiram a ascensão do bolsonarismo, nos marcos
de uma importante derrota das forças populares no Brasil, ao mesmo tempo apresentaremos as
obras mais influentes da corrente bolsonarista, tentando compreender por quais motivos este
movimento passou a se constituir como uma ameaça real à limitada democracia brasileira.

O que é o bolsonarismo? Uma tentativa de explicar o fenômeno à luz das experiências recentes
da história social e política brasileira
CARLOS ZACARIAS F. DE SENA JÚNIOR (UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA)

Resumo:  O fenômeno do bolsonarismo emergiu na política brasileira em tempos recentes,


mais precisamente a partir do processo desencadeado com o golpe jurídico-político-midiático
de 2016 e toda a desorganização institucional dele advinda. Entretanto, as raízes históricas do
fenômeno parecem articular, ao menos, dois componentes essenciais das tradições conservadoras
internacionais e brasileiras: o militarismo e o anticomunismo. Em vista disso, algumas perguntas
têm acompanhado os analistas que buscam deslindar o bolsonarismo à luz de sua história recente:
estaria o fenômeno associado à alguma espécie de fascismo? Em que medida o componente
militar oriundo da Doutrina de Segurança Nacional é um elemento formador? Que outras tradições
conservadoras estão associadas ao fenômeno? Quais doutrinas conformam sua ideologia e
intervenção política? O objetivo desse trabalho é discutir as origens do bolsonarismo, sua trajetória
nos últimos 30 anos e os elementos de influência que estão presentes na sua forma de existir.
Buscaremos explicar os mecanismos que permitiram a ascensão do bolsonarismo, nos marcos
de uma importante derrota das forças populares no Brasil, ao mesmo tempo apresentaremos as
obras mais influentes da corrente bolsonarista, tentando compreender por quais motivos este
movimento passou a se constituir como uma ameaça real à limitada democracia brasileira.

A Esquerda Policial: trajetória do espectro político de esquerda nas policiais brasileiras do


golpe civil-militar à contemporaneidade
EWERTON DE SANTANA MONTEIRO

Resumo: Qualquer debate acerca da vida política e das transformações sociais das quais passou o
Brasil, terão necessariamente de alguma forma, a presença, a participação de militares. Inclusive,
os militares já foram à vanguarda política do país, e todas as vezes que tivemos progresso político
eles estiveram lá. Entretanto, essa categoria social, como chamou Heloísa Fernandes (1978),
sempre associada à repressão e ao espectro político à direita, obnubilou qualquer perspectiva
ou debate em contrário, concentrando-se, mormente em sua face ditatorial e mais sombria.
Talvez essa carência se dê pela falta de interesse acadêmico, parcialmente explicável pelos
horrores perpetrados pelos militares durante a ditadura, é fato também que, como lembra
Helena Alves (2005), por conta da chamada Doutrina de Segurança Nacional, implantada aqui
pela Escola Superior de Guerra do Exército, completamente influenciados pela Doutrina Truman,
esses militares passaram por processos de expurgo, que previa que antes de qualquer coisa era
necessária uma limpeza do “público interno”, pois só após a limpeza das instituições de repressão,
estes estariam aptos ao combate aos “inimigos interno”. Segundo Moraes (2005, p. 42), “Os

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militares de esquerda se tornaram espécie em vias de extinção, por terem sofrido uma caçada e
expurgo político-ideológico sem precedentes na instituição armada do Estado brasileiro”. Ainda
no prisma da participação militar em movimentos de esquerda, ou ideologicamente afinados
com o pensamento de esquerda, Pimentel (2011, p. 07-08) salienta que “os militares de cunho
esquerdista foram perseguidos dentro da corporação, sendo acusados de “traidores da pátria”,
o que não impediu a existência de grupos de esquerda, ligados ou não ao PCB, dentro das Forças
Armadas”. Portanto, se a questão da chamada esquerda militar é um tema caro a história política
do país, embora não tão estudado quanto poderia, menos presente ainda nos estudos de nossa
historiografia é a presença ou participação de policiais nesse espectro ideológico – que chamaremos
aqui de “esquerda policial”. E assim, este trabalho suscita levantar o debater, e contribuir com a
historiografia do tema.

O gênero como categoria útil para análise do Golpe de 2016


MANOEL REINALDO SILVA REGO (REDE PUBLICA MUNICIPAL DE VITÓRIA DA CONQUISTA)

Resumo: Esta comunicação é fruto de uma reflexão sobre o Golpe midiático/judiciário/parlamentar


que destituiu do poder a presidenta Dilma Rousseff em 2016. O trabalho em questão é uma análise
do livro “O golpe da perspectiva do gênero” organizado por Fernanda Argolo e Linda Rubim e
publicando pelo Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre as Mulheres (NEIM) da Universidade
Federal da Bahia (UFBA), em 2018. Trata-se de uma abordagem sobre o impeachment a partir dos
escritos publicados em um livro que tem como tese central para deposição presidente a questão,
a perspectiva do gênero. Uma obra que em si, é polêmica. Entretanto, de grande importância para
um contexto atual em que evidencia as fragilidades da nossa democracia. Assim discutir gênero,
autoritarismo e golpe de estado passam a ser fundamental para edificar ferramentas para a
construção de um país democrático.

Atividade legislativa e política quilombola: ruralistas e os projetos no Congresso Nacional


entre 1988 e 2020
BRUNO DE OLIVEIRA RODRIGUES (UEAP - UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAPÁ)

Resumo: O presente texto tem como pretensão mapear e filiar a atividade legislativa que tramitou,
desde a Constituição Federal de 1988, no Congresso Nacional com a pretensão de regular a questão
quilombola. O foco aqui é identificar uma possível filiação ideológica aos projetos e a mobilização
de articulação entre os parlamentares em projetos políticos e de poder específicos para a questão
quilombola, com isso pretendemos vidraçar a luta dos blocos de poder que se apresentam no campo
legiferante federal. Com isso, conseguimos determinar uma certa homogeneidade no campo do
poder para a negação dos direitos étnicos-quilombolas pela “bancada ruralista” e, de outro lado,
um campo progressista, com protagonismo de partidos de esquerda e centro-progressista.

“Os sisaleiros pedem socorro”: o papel da APAEB na organização dos trabalhadores rurais
contra a crise do sisal no semiárido baiano (1990-1993)
CLEIDIANE DE OLIVEIRA LIMA

Resumo: O sisal, proveniente do México, foi introduzido no Brasil em 1903 onde encontrou clima

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favorável, consolidando-se no Nordeste brasileiro. Nos anos 1950 conseguiu alcançar produção
em grande escala e, no início dos anos 1990 era responsável pela sustentação de cerca de 1
milhão de trabalhadores rurais distribuídos em 70 municípios do sertão baiano. Mas, na segunda
metade da década de 1970 o sisal entrou em crise com o surgimento de produtos concorrentes
oriundos da indústria química, desabando os preços da fibra no mercado internacional. Diante
disso, no dia 05 de novembro de 1990, foi lançada em Valente a campanha “os sisaleiros pedem
socorro”, com a participação de mais 3000 trabalhadores da região sisaleira e diversas entidades
dos trabalhadores, representantes de órgãos ligados ao governo estadual e federal, deputados
assim como prefeitos e vereadores, na tentativa de pensar alternativas referente a crise do sisal.
As reivindicações dos trabalhadores incluíam a demanda por garantia de preços mínimos do sisal
pelo Estado acompanhada de outras pautas, como as concernentes às condições de trabalho, ou
àquelas que se referiam a direitos já garantidos em acordos anteriores com o governo federal,
desrespeitados pelo mesmo. Dessa maneira, a campanha se caracteriza por conter pautas
primariamente econômicas, mas colocava-se também a dimensão do enfrentamento político.
Mediante o cruzamento de fontes documentais e jornalística, o trabalho tem como objetivo
analisar a organização dos trabalhadores e o papel desempenhado pela Associação dos Pequenos
Agricultores do Estado da Bahia (APAEB), principal órgão de articulação dos sisaleiros frente
ao Estado, a partir de interpretações no campo teórico de classe e luta de classes por entender
que aquele confronto foi travado por sujeitos contra carência material resultante do fato de se
apropriarem de uma parcela da riqueza social de forma desproporcional, determinada por sua
condição de classe. Pretendemos também examinar as ambiguidades que a instituição se coloca
nesse processo de mobilização considerando a própria dinâmica da entidade no que diz respeito
a sua estrutura organizativa que, já nesse momento, muito se assemelha a uma empresa. De toda
maneira, é difícil afirmar com precisão, a partir das fontes, se a campanha foi considerada vitoriosa
para aqueles trabalhadores. Mas a documentação nos leva a crer que o sentimento de conquista
circulava entre os sisaleiros pois, ao longo da campanha, mesmo que todas as reivindicações não
foram atendidas, a mobilização foi avaliada como politicamente vitoriosa levando em consideração
o envolvimento dos trabalhadores durante o processo.

A Direção do Rio: para uma história das lutas sociais no Submédio São Francisco
EURELINO TEIXEIRA COELHO NETO (UEFS)

Resumo: O São Francisco não é só um curso d’água magnífico. É também um “rio de lutas”, leito
por onde correram as histórias de homens e mulheres que tiveram de aprender a lutar para não
sucumbir diante de ameaças muito mais poderosas do que as traiçoeiras corredeiras, os seres
sobrenaturais ou mesmo as enchentes do Velho Chico. A partir dos anos 50 grandes obras
hídricas e elétricas impuseram mudanças violentas no modo de viver de famílias ribeirinhas,
empreendimentos gigantescos, atraindo contingentes inéditos de sertanejos em busca de incertos
empregos nos canteiros de obras ou de oportunidades de renda nos polos de comércio de bens de
consumo e serviços que cresceram com a população. Além dos enormes empreendimentos estatais
foram atraídos muitos investimentos menores, privados e públicos, articulados de algum modo
com aquelas intervenções matriciais. O sertão não virou mar, apesar dos lagos imensos nascidos
do represamento do rio, mas se transformou profundamente. Tratamos aqui das experiências
vividas por sujeitos que se deparavam com situações novas e desafiadoras e cuja reação não se
fez esperar: vieram as lutas, agitando as águas que os construtores de barragens imaginaram

249
tranquilas, domadas. E foram muitas, com muitos protagonistas e muitas maneiras de lutar.
Diante das mudanças que afetavam dramaticamente suas vidas aqueles subalternos resistiram, se
organizaram, protestaram, reivindicaram, exigiram. Já aprendemos algo sobre como eles foram
afetados pelas grandes barragens graças ao inestimável trabalho de alguns cientistas sociais. As
perguntas que ainda precisam ser feitas não são somente sobre o que os atingiu, mas também
sobre como reagiram? Como lutaram? Mais especificamente: como se organizaram para lutar?
Quais objetivos os subalternos elegeram, como traçaram suas estratégias e como construíram
suas armas? Subalternos? O conceito é útil para identificar os protagonistas do “rio de lutas” por
duas razões. Marca, em primeiro lugar, uma situação definida por oposição aos grupos sociais que
detinham o poder sobre as decisões estratégicas e que usaram este poder de várias maneiras. O
Estado é o mecanismo decisivo e o mais evidente deste poder cujas raízes, no entanto, penetram
fundo no solo da vida econômica e social. A segunda razão deriva do desafio de dar conta da rica
heterogeneidade de grupos sociais que tomaram parte no “rio de lutas”. Não era um conjunto
humano unificado nos planos político, intelectual ou moral e nem mesmo submetido a experiências
semelhantes de exploração do trabalho, o que dificulta o emprego do conceito de classe, no
singular, para se referir a eles. O que descobrimos, no entanto, é que a história de suas lutas foi,
ao mesmo tempo, a história da construção de laços e alianças entre os diferentes grupos.

250
SESSÃO 01: 21/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

Ludificação da cultura, passados jogáveis e educação histórica – notas sobre a relevância


cultural do videogame para aprendizagem de História
HELYOM VIANA TELLES (INSTITUTO FEDERAL BAIANO)

Resumo: A Historiografia vem desenvolvendo instrumentos conceituais próprios para debater a


relação entre aprendizagem histórica e as diferentes formas de linguagem. Para os campos como a
Didática da História ou da Educação Histórica, importa a compreensão dos processos de produção
de sentido sobre o passado, a partir dos quais a consciência histórica do estudante é construída,
tornando relevante, para o educador, o estabelecimento de um diálogo com as mais diferentes
práticas, narrativas e linguagens, a exemplo dos videogames (VIANA-TELLES, 2015). Silva (2010),
por exemplo, faz uso do conceito de Didática da História para discutir as possibilidades educativas
dos jogos eletrônicos no ensino fundamental. O campo da Didática da História vai além da instrução
formal, tentando tenta dar conta dos “processos e funções da consciência histórica elaborados
pelos sujeitos a partir de orientações formais e escolares, bem como informais e extraescolares”.
Nesse sentido, leva em conta todas as formas de raciocínio e conhecimento histórico (cientifico
ou não) na vida cotidiana a exemplo da televisão, cinema, imprensa e até mesmo a interação
cotidiana, uma vez que esses fenômenos constituem a “consciência histórica”, através da dela
temos a experiência do passado e o interpretamos a História. Afirma que os jogos produzem e
fazem circular representações sobre períodos históricos, auxiliam a problematizar as relações
com as temporalidades e constroem relações com a memória de crianças e adolescentes.

Aprendizagem pela mecânica de jogo: reflexões a partir do jogo “Revolução Neolítica”


MARCELLO PANIZ GIACOMONI (COLÉGIO DE APLICAÇÃO DA UFRGS)

Resumo:  A presente comunicação reflete a partir de um formato de aprendizado histórico


específico emanado dos jogos, em que a intencionalidade pedagógica está na própria mecânica
do jogo, cujo ato imersivo de compreensão das regras e funcionamento e o próprio jogar venham
a produzir os aprendizados. Para guiar tal reflexão, apresento o jogo “Revolução Neolítica”.
Pensado para os anos finais do Ensino Fundamental, dispõe os estudantes em um tabuleiro
com casas hexagonais que simula uma paisagem com áreas de florestas, campos, pedregosas,
desérticas, férteis e água. Em cada hexágono existe uma quantidade de alimentos pré-definidas.
O jogo simula a chegada de grupos humanos neste espaço, em algum momento ao final do período
Paleolítico, buscando coletar os alimentos existentes nos hexágonos (que se exaurem) para sua
sobrevivência. Com 20 rodadas ao total, em momentos específicos são inseridas modificações na
mecânica de jogo. Na quinta rodada, abre-se a possibilidade para que os jogadores desenvolvam
tecnologias do Paleolítico e ganhem vantagens. Na décima rodada apresenta-se a descoberta da
agricultura e da pecuária via domesticação e, dispondo de dois animais ou dois cereais (coletados
anteriormente), os jogadores podem construir um curral ou uma plantação que produzem um
alimento quando ocupadas por um grupo humano. Na rodada 15 abrem-se novas tecnologias,
desta vez do Neolítico, como a domesticação de cavalos ou a irrigação, que em geral aumentam
a produtividade. O jogo finda ao final da vigésima rodada, vencendo quem possuir mais pontos
(cada grupo humano, cada curral ou plantação e cada tecnologia valem um ponto cada). A

252
mecânica conduz o jogo de forma que, nas primeiras dez rodadas haja um desenvolvimento
lento. A maioria dos recursos coletados serve apenas para a subsistência do grupo. Quando os
recursos terminam, os grupos humanos devem se movimentar pelo tabuleiro levando a própria
aldeia neste deslocamento. Isso muda com a domesticação e o desenvolvimento da pecuária e
agricultura. Currais e plantações só produzem se estiverem contínuos à aldeia, estimulando que
os estudantes não as desloquem mais. As tecnologias possuem um impacto transformador nas
ações do jogo e, consequentemente, na ação humana: é apenas a partir da sedentarização dos
currais e das plantações, além das tecnologias que aumentam a produtividade que os jogadores
conseguirão acumular alimentos para o crescimento da população. A proposta como um todo, por
mais que possua cartas explicativas, baseia-se na imersão dos estudantes no jogo, que procura
embutir em sua mecânica elementos de um processo histórico a ser desdobrado em ato de jogo.

Ensinando História e Mito através da Brincadeira


EDUARDA DORTZBACHER SCHENA (UFRGS)

Resumo:  Preparar uma aula que cative a atenção dos alunos e os façam entender o conteúdo
proposto é sempre um desafio, principalmente se levarmos em conta que lidamos com um assunto
tão abstrato quanto o tempo. Ao procurar modos de fazer a aula funcionar, os jogos didáticos
aparecem como metodologia inovadora, que trazem mudança às tradicionais aulas expositivas ao
proporem a brincadeira como método de ensino. Entretanto, esse meio de ensinar não deixa de
levantar algumas questões quanto à qualidade dos resultados que traz. Com o objetivo, então, de
analisar tais propostas, propusemos o desenvolvimento e a aplicação de um jogo de cartas com
crianças do sexto ano do Ensino Fundamental. O jogo “Mithistória” foi criado, por professores
do Colégio de Aplicação da UFRGS, através de uma pesquisa sobre história e mitos greco-
romanos, juntamente com o estudo de mecânicas de jogo e aplicado com o auxílio da observação
participante, metodologia que coloca o pesquisador em contato direto com seu objeto de estudo.
Dessa forma, podemos testar tanto os resultados que os jogos podem trazer ao processo de
aprendizagem quanto o funcionamento do próprio jogo. Esse estudo se justifica, portanto, ao
propor um jeito diferente de trazer a atenção do aluno ao conteúdo, ao mesmo tempo em que
se propõe a verificar se esse método pode mesmo agregar conhecimento à sala de aula. O jogo é
dividido em quatro naipes: história grega, história romana, mito grego e mito romano. Além dos
naipes, as cartas são divididas em 4 categorias: ser, objeto, local e ação. Cada um dos naipes possui
4 narrativas gabarito, que narram um pequeno processo histórico ou alguma passagem mítica
com coerência. A partir da possibilidade dos alunos combinarem cartas, baixarem jogos e irem
alterando os mesmos com trocas de cartas, o jogo propõe que narrativas sejam criadas entre os
elementos, sem que se misturem História e mito. Desse jeito, o jogo possibilita o passeio do aluno
entre conhecimento histórico e diferenciações entre mito e história. Mithistória funciona, assim,
como uma ponte ao aprendizado do estudante, fazendo a ligação entre jogo e conhecimento
possível (FORTUNA, 2013, p. 52). No momento em que o jogo foi colocado em prática foi possível
observar que, com a devida atenção, os alunos entenderam e se organizaram de forma rápida,
restando dúvidas que logo foram solucionadas pelos professores que ministraram a aula. Como
geralmente se nota, alguns alunos se envolveram mais com o jogo do que outros, mas nada que
colocasse o andamento da brincadeira em risco. Por fim, foi possível notar que jogo dá escopo a
novas habilidades e aprendizagens que poderiam não se manifestar em meio a uma aula tradicional,
possibilitando que o aluno participe ativamente na construção de conhecimento.

253
Jogos digitais: Ensino de História: Uma intervenção pedagógica a partir de narrativas
multiformes
ROSINEY DA SILVA DOS SANTOS (SECRETARIA DE EDUCAÇÃO DO ESTADO DA BAHIA)

Resumo: Esse artigo tem como pretensão demonstrar algumas das mais recentes propostas de
estudo sobre jogos eletrônicos e sua relação com ensino de história. Dentre essas pesquisas,
selecionei aquelas que buscam analisar a relevância das narrativas presentes nesses jogos, para
além de característica “primária” de contar a história do jogo ou de personagens, mas também
com o propósito de permitir apropriações simbólicas sobre o universo do jogo em sua esfera
temporal e cultural. Assim sendo é de grande importância a análise das narrativas denominadas
multiformes, muito presente nos jogos digitais e em outras áreas como a literatura e o cinema,
para entender sua capacidade de propiciar diferentes leituras e experiências sobre um mesmo
tema, já que acrescentam ao conteúdo da mídia (seja ela um jogo ou um filme) simultaneidade de
acontecimentos e espaço para inferências particularizadas por parte de quem lê, assiste ou joga.
Pensando em jogos eletrônicos como ferramenta de mediação da aprendizagem no contexto
proposto pela didática da história (a qual sugere a inclusão de novas linguagens ao ensino de
História) é fundamental discutir as possibilidades pedagógicas que os jogos eletrônicos oferecem,
a partir da percepção sobre narrativas multiformes, presentes nos jogos, como um elemento
capaz de propor múltiplos conteúdos numa mesma história.

A roteirização de games como prática no ensino de história


RODRIGO CARDOSO SOARES DE ARAUJO (IFSULDEMINAS)

Resumo: Nas últimas duas décadas, as interfaces entre História, de uma forma geral, e do Ensino de
História, em particular, com os games têm sido objeto de investigação de diversos autores. Entre
eles, alguns chamam a atenção para a potencialidade na utilização de jogos virtuais comerciais em
atividades práticas, no entanto, naturalmente devemos nos perguntar: como promover o jogar
de jogos digitais no interior dos espaços escolares? Os estudantes de escolas públicas possuem
amplo acesso ao universo dos games em suas casas? A dificuldade em responder tais perguntas de
forma a propiciar a efetiva utilização de jogos virtuais como material didático, não impossibilita,
por outro lado, o diálogo com tal universo. A presente comunicação tem como objetivo analisar
os resultados obtidos em atividades práticas de roteirização de games com estudantes do último
ano de cursos técnicos integrados ao ensino médio, de uma instituição federal de ensino do sul de
Minas Gerais. Diante da impossibilidade de efetivamente se dedicar a jogar no contexto de sala de
aula, a roteirização de games dialoga de forma transdisciplinar com outras áreas do conhecimento
e, principalmente, com os interesses e conhecimentos adquiridos pelos estudantes em vivências
fora da escola. Concordarmos com Cipriano Luckesi, para quem a ludicidade é uma experiência
interna do sujeito que pode ser alcançada por estímulos externos que não necessariamente
devem estar ligados ao efetivo jogar ou ao entretenimento. Nesse sentido, a liberdade criativa
no desenvolvimento dos roteiros possibilita estabelecer pontes entre as atividades escolares e as
não-escolares de forma a propiciar o efetivo engajamento discente.

SESSÃO 02: 22/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

254
Viajando pelo Tempo e Espaço do Rio de Janeiro: a produção de materiais didáticos digitais
RENAN CARVALHO WENDERROSCK (CNPQ)

Resumo: Esta comunicação visa compartilhar reflexões do projeto interdisciplinar desenvolvido na


pesquisa de Iniciação Científica na Universidade Federal Fluminense, coordenado pela professora
Maria Fernanda Bicalho, em parceria com alunos e professores de História e Geografia do Colégio
Pedro II, onde contamos com o suporte do setor de Informática Educativa. Ele é financiado pelo
programa “Bolsa Cientista do nosso Estado”, da FAPERJ. O objeto do projeto é investigar o
processo de mudança vivenciado pela cidade do Rio de Janeiro entre 1808 e 1850, período em
que se tornou sede da Corte e capital do Império português e do Brasil. Neste recorte espaço-
temporal buscamos elaborar narrativas históricas de diversos sujeitos que circulavam pela cidade,
sobretudo, dos(as) africanos(as) e afrodescendentes. Temos como objetivo último definir os
espaços e as redes de sociabilidade construídos a partir das narrativas desses sujeitos históricos.
Nossa proposta é produzir um mapa interativo, disponibilizado em forma de “aplicativo”, que
cruzará o plano atual da cidade do Rio e as plantas do século XIX. Partirmos, para a construção
dos enredos e dos “atores”, de pinturas como as de Debret e Rugendas, destacando “personagens
animados” que contarão uma história em primeira pessoa. Buscamos representar as noções do
cotidiano da cidade, destacando agentes e sujeitos históricos que contribuem para um melhor
entendimento das relações sociais então vigentes.

Reconhecemos a necessidade de incorporação dos conhecimentos produzidos na universidade e


sua aplicabilidade em ferramentas que possam ser utilizadas para a formação de novos cidadãos.
Esse projeto tem como orientação a incorporação do conhecimento científico à sala de aula
do Ensino Fundamental e Médio, tanto das escolas públicas, quanto das privadas. Viabilizar
o conhecimento histórico de forma didática é para nós uma política de extrema importância,
buscando a melhoria contínua do Ensino Básico e Universitário público e gratuito.

Consciência histórica e a procedimentalidade dos jogos digitais: narrativas históricas em Sid


Meier’s Civilization
ALEX ALVAREZ SILVA (UFOB)

Resumo: A proposta deste trabalho é a de apresentar possibilidades de compreensão da consciência


histórica a partir de jogos digitais, considerando a linguagem procedimental que estrutura
suas possibilidades lúdicas. Para tanto, tomaremos como objeto de estudo as representações
históricas veiculadas em torno da série de jogos digitais “Sid Meier’s Civilization” (1991-2020), que
se estabeleceu, ao longo de suas quase três décadas de lançamentos, como uma referência na
abordagem de uma narrativa universal da história no mercado dos jogos digitais. Sem pretender
esgotar as possibilidades de leitura das representações do passado presentes nos softwares de
jogos da série, esperamos demonstrar como, para além dos elementos textuais e audiovisuais
simbólicos que remetem à cultura histórica tematizada pelos jogos, o meio pelo qual esses
elementos são articulados na própria estrutura do jogo aponta para significações específicas acerca
do passado e, em especial, para a organização do tempo histórico ali representado. Tal estrutura,
que se constitui na linguagem procedimental característica das atividades lúdicas, prescreve as
relações causais presentes nos jogos e confere as possibilidades de interpretação de alguns de
seus aspectos como um sistema de simulação de relações simbolicamente representadas. Nossa

255
hipótese é a de que tal estrutura procedimental, ao delimitar as ações disponibilizadas à agência
do/a jogador/a, oferece um quadro para que este/a elabore suas próprias narrativas históricas
dentro dos contornos previamente estabelecidos da cultura histórica presente no jogo. Por fim,
nosso questionamento se volta para até que ponto os/as jogadores/as, ao ressignificarem suas
experiências de jogo, incorporam ou rejeitam tal enquadramento na elaboração de suas próprias
narrativas, mobilizando em suas ficções de inspiração histórica modelos de organização do tempo
histórico que contrastam ou se aproximam com aqueles disponibilizados pelos softwares.

A Cura. A epidemia da varíola na Bahia Colonial (1680-1684)


LAIS VIENA DE SOUZA (INSTITUTO FEDERAL DA BAHIA)

Resumo: 1684, ano da graça do Nosso Senhor Jesus Cristo. A Cidade de São Salvador da Bahia
se via assolada por mais um surto de bexiga - ou como conhecemos em nossos dias - varíola
(Orthopoxvirus variolae). Essa é a trama central de “A Cura. A epidemia da varíola na Bahia Colonial
(1680-1684)”.
Baseado na estrutura dos lúdicos e populares jogos de RPG (mais especificamente em D&D), “A
Cura” foi planejado e adaptado para ser utilizado como ferramenta para ensino de História em sala
de aula. Com cinco ou seis jogadores por equipe, um dado, algumas cartas mestras, a narração do
mestre/professor (a) e a sua mediação, este jogo busca consolidar conhecimentos sobre História
do Brasil e da Bahia no período colonial, desenvolver a reflexão crítica sobre a História e trazer
ludicidade ao ambiente escolar.

Crusader Kings II e a percepção do imaginário medieval através dos jogos eletrônicos


MATHEUS SILVA CARVALHO (UFOB - UNIVERSIDADE FEDERAL DO OESTE DA BAHIA)

Resumo:  O período histórico que compreende a idade média é um dos que mais despertam a
curiosidade da sociedade, as histórias de cavalaria, das guerras santas, o modelo de vassalagem,
são objetos que atiçam o imaginário da contemporaneidade de forma que diversas obras
literárias, cinematográficas e jogos de tabuleiro buscam retratar o sentimento do medievo e
suas mentalidades. Os jogos eletrônicos também tentaram encapsular tal sentimento desde
seus primórdios, sendo jogos de temática medieval bastante comuns em todas as temporadas de
lançamentos. Desses jogos muitos buscam passar o sentimento fantasioso que a sociedade tem
sobre o período medieval, com exceções de alguns jogos que tentam passar um sentimento mais
realista de como se vivia naqueles tempos.
Nesse sentido existem alguns jogos de estratégia que buscam retratar o período com uma maior
fidelidade, dada as fontes sobrevividas e consultas com historiadores que se especializam no
período medieval, é dai que surgem jogos como Assassin’ s Creed, Age of Empires II, Strong Hold,
Medieval: Total War I e II, Anno 1404, que tentam transmitir o sentimento de se viver na idade
média. É nesse sentido que Crusader Kings II busca dar um sentimento extremamente realista de
como se é a vida de um senhor feudal durante o período medieval, com o jogador podendo jogar
como conde, duque, rei ou imperador, podendo até começar como um simples conde e ascender a
sua dinastia até o controle de impérios. O jogo se sobressai sobre outros simuladores por não se
focar no apenas no papel da guerra no período medieval, mas pela profundidade que dá aos outros
aspectos da vida de um senhor no medievo, tais como a diplomacia, intriga, negócios, religiosidade
e conhecimento, de forma que cada personagem que o jogador assume o mundo pode a vir ter

256
uma forma diferente de reações as escolhas do personagem. O jogo pode durar desde a ascensão
de Carlos Magno ao trono franco em 768 até a queda de Constantinopla em 1492, e o jogador em
controle de uma dinastia que deve durar até o fim do jogo evitando a destruição. O objetivo deste
trabalho é fazer uma análise de como Crusader Kings II se utiliza do imaginário contemporâneo
sobre o período medieval para criar um universo que se assemelha ao medievo.

Representações em simulações: Sid Meier’s Civilization IV


LEANDRO OLIVEIRA FAGUNDES DE BRITO (UFOB - UNIVERSIDADE FEDERAL DO OESTE DA
BAHIA)

Resumo: Desde o grande aumento do consumo de jogos eletrônicos nos anos 1970, principalmente
com os arcades, a indústria dos jogos cresceu rapidamente, chegando a um movimento de 120.1
bilhões de dólares em 2019, segundo a firma de análise de mercado SuperData . No mesmo
ano, hollywood movimentou cerca de 42.5 bilhões de dólares . Com esse crescente aumento
de consumo, podemos perceber o aumento da cultura dos jogos mundialmente, se tornando
necessário ampliar as pesquisas que englobam os jogos eletrônicos. Nesse crescimento, nasce
a série de jogos Sid Meier’s Civilization, que revolucionou o formato TBS, (Turn Based Estrategy
ou Estratégia baseada em turnos) onde o jogador escolhe o controle de uma entre as Civilizações
disponíveis. O jogador deve então guiar uma Civilização “pelo teste do tempo”, iniciando sua
jornada em 4000 A.C, e podendo alcançar o que seria um futuro próximo de colonização espacial.
Dessa forma, o jogador não passa pela “história universal” do mundo, mas cria uma história contra
factual com os elementos do nosso mundo conhecido.
Assim, o presente trabalho busca entender como funcionam as representações criadas pelo Sid
Meier’s Civilization IV, usando como base o texto “Understanding representation in playable
simulations”, dos autores Mike Treanor e Michael Mateas, que entendem que as simulações jogáveis
criam diferentes representações. A partir disso, discutiremos como trabalhar com o conceito de
Princípios trazido pelos autores, que traz esse conceito como resposta, para que seja possível a
análise de uma simulação jogável que é capaz de criar inúmeras representações. O estado atual do
trabalho é a leitura e a conexão da bibliografia com o objeto Sid Meier’s Civilization IV.

257
Poesia e política: Feminismo, luta de classes e antirracismo em Jacinta Passos
IRACÉLLI DA CRUZ ALVES (UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE)

Resumo: Nesta comunicação minha intenção é apresentar um breve panorama da trajetória política


e literária de Jacinta Passos, sobretudo, entre os anos 1942 e 1947, momento em que ela ganhou
visibilidade na esfera pública, inicialmente em Salvador, depois em outras cidades do Brasil. A
escritora se sobressaiu tanto no campo jornalístico quanto literário, tornando-se conhecida por
suas poesias marcadas por reivindicações feministas, antirracistas e contra as desigualdades de
classe. Também se destacou como militante comunista do então Partido Comunista do Brasil
(PCB). Embora o foco seja a vida pública, por se tratar de uma mulher, os desafios enfrentados
na intersecção público-privado também compõem a narrativa. A intenção é demonstrar, como as
várias dimensões (política, intelectual e privada) se interpenetraram na vida de uma mulher que
decidiu adentrar no universo construído por e para os homens brancos.

Legisladoras e antifeminismos na década de 1970 no município de Amélia Rodrigues/BA


BRENA OLIVEIRA PINTO

Resumo: Considerando a ascensão do movimento feminista brasileiro, a partir da década de 1970,


onde houve renovação e surgimento de novas pautas e bandeiras de luta entre as mulheres,
este trabalho tem como objetivo analisar a atuação das legisladoras eleitas nesse período, no
município de Amélia Rodrigues, localizado no Recôncavo Baiano. Embora apresente um histórico
de eleição de mulheres desde as primeiras disputas, pós-emancipação, Amélia Rodrigues é
um município caracterizado pela política assistencialista e patriarcal, resquício da atividade
açucareira e escravagista que vigorou por tanto tempo nessa região. Sendo assim, este trabalho
visa compreender os espaços e narrativas que facilitaram o acesso das mulheres na política local e
analisar a atuação dessas legisladoras a partir desse referencial e cultura, considerando que todas
as vereadoras eleitas tinham em comum as atividades ligadas à educação e ao assistencialismo das
igrejas, principalmente a Católica. Para esta pesquisa, utilizaram-se como fonte as atas de registro
das sessões da Câmara de Vereadores, mas também fonte oral, em que foram entrevistadas duas
das vereadoras e o prefeito eleitos no período pesquisado, além de figuras de expressividade,
como professoras que atuaram e contribuíram nas campanhas. Para analisar a atuação dessas
mulheres é necessário compreender o espaço e o tempo em que estavam localizadas, apesar da
conjuntura nacional favorecer a projeção das mulheres em espaços de disputa e decisão e um
protagonismo na luta por direitos. Não significa, porém, que todas as mulheres que se inseriam
na política na década de 1970 se tornavam automaticamente feministas. Muitas vezes, como
no caso de Amélia Rodrigues, elas apresentavam um alinhamento muito maior com um projeto
conservador e patriarcal, do que com os ideais libertários e progressistas defendidos pela chamada
Segunda Onda do movimento feminista no Brasil. São esses contrapontos que serão objeto de
análise dessa pesquisa.

“Tire seu terço do meu útero”: Católicas pelo Direito de Decidir e o debate sobre a Teologia
Feminista
RAQUEL CARNEIRO SOARES (UNEB)

Resumo: As Católicas pelo Direito de Decidir surgem (CDD) no Brasil em 1993, o grupo feminista

259
luta contra ordens fundamentalistas que regem diversas instituições, e a favor dos direitos e a
liberdade feminina, tendo como principal bandeira a legalização do aborto. Este trabalho faz parte
do meu projeto de conclusão de curso o qual trata das CDD com o recorte geográfico em Salvador,
e com um recorte temporal nos anos 2000, sendo essa uma pesquisa em andamento. As CDD
utilizam sobretudo da Teologia Feminista a qual Pereira (2003) observa sendo uma ferramenta de
re-interpretação de velhos modelos e de construção para novas possibilidades no mundo cristão.
O objetivo é compreender as relações e enfrentamentos vivenciadas pelas CDD dentro da Igreja
Católica, visto que há uma grande invisibilidade e desconhecimento sobre o grupo e sua trajetória.
Foi utilizada a historiadora Joan Scott (1990) para entender os significados em torno do gênero e
suas relações de poder, no debate sobre teologia feminista Neiva Furlin (2011) e Nancy Cardoso
Pereira (2003) em diferentes abordagens tratam de fases, fundamentos e objetivos que compõe
a teologia feminista. O trabalho em construção é uma pesquisa qualitativa, que tem como base o
cruzamento de fontes escritas das próprias CDD, como por exemplo, suas cartilhas informativas,
e fontes orais através de entrevistas com membras e ex membras do grupo na cidade de Salvador.

Feminismos para a vida: afeto e compromisso político na produção do conhecimento feminista


VÂNIA NARA PEREIRA VASCONCELOS (UNEB)

Resumo: A luta feminista foi marcada historicamente pela defesa da vida das mulheres, com pautas
diversas, que foram se ampliando e se modificando ao longo do tempo, incorporando pessoas
LGBTQI+, negras e indígenas, entre outrxs. Os feminismos são diversos, plurais, multifacetados,
assim como o são xs sujeitxs; no entanto, tanto no Norte quanto no Sul global um processo de
negação dessa diversidade contribuiu com a invisibilidade da existência de algumas pessoas e
experiências. A partir dessas percepções, nessa comunicação pretendo: 1. Refletir sobre novas
possibilidades de construção do conhecimento feminista que nos provoque a romper com
os extrativismos epistêmicos, para que seja possível emergir pluri-racionalidades nas nossas
pesquisas. 2. Propor uma produção do conhecimento tecida a partir da vida, das práticas, das
experiências, para romper com uma ciência dicotômica que opõe razão/emoção, homem/mulher,
civilizado/primitivo, cultura/folclore, cabeça/corpo, entre outras, para que seja possível criar
cenários epistemológicos onde a emoção, os sentimentos e o afeto sejam considerados como
parte da produção de saberes e da produção das lutas.

José de Alencar e a construção do masculino em “As Asas de Um Anjo” e “Expiação”


RENATO DRUMMOND TAPIOCA NETO (COLÉGIO ESTADUAL LAURO FARANI PEDREIRA DE
FREITAS)

Resumo: O seguinte trabalho se propõe a analisar a construção das personagens masculinas no


teatro de José de Alencar, por meio de uma leitura das peças “As Asas de Um Anjo” e “Expiação”.
Lançadas em 1858 e 1868, respectivamente, os dois textos abordam o tema do meretrício, bem
como a figura da “prostituta regenerada”. Até então, a maioria dos pesquisadores que trabalharam
em cima dessas duas obras levaram em consideração apenas a representação da mulher no enredo,
deixando para segundo plano uma discussão sobre as personagens masculinas e sua participação
no comércio do prazer nas ruas do Rio de Janeiro, na década de 1850. Levando-se em consideração
o caráter pedagógico e moralizante das obras de Alencar, conforme ressalta Ana Carolina Eiras
Coelho Soares (2012), acreditamos que a composição de suas peças visavam à criação de padrões

260
de comportamento destinados não apenas para o público de leitoras, mas também ao de leitores.
No século XIX, a imagem da prostituta foi sendo construída pelo discurso médico, literário e
jurídico, na borda de instituições como a Família, o Estado e a Igreja, que relacionavam o comércio
do prazer ao vício, o não-trabalho e a prostituta como principal foco para proliferação de doenças
venéreas. Ao definir a prostituição como pecado e a prostituta como pecadora, portanto, o autor
acreditava que a razão pela qual muitas das mulheres do período acabavam aderindo a essa
prática se devia, na maioria dos casos, à influência de homens, que dependiam de seus serviços
e lucravam com eles. De acordo com Luís Filipe Ribeiro (2008), o casamento era então apontado
por Alencar como a melhor solução, tanto para as moças, quanto para os rapazes. Tal desfecho,
por sua vez, era aplicado à maioria das personagens femininas nas obras de caráter pedagógico
de Alencar, que considerava nelas o matrimônio cristão como uma possibilidade de redenção. Em
“As Asas de Um Anjo”, porém, essa conclusão gerou alguma polêmica na época entre os jornais
e a polícia, culminando na suspensão das dramatizações da peça, por considerarem seu texto
imoral e o matrimônio de uma prostituta com um homem da sociedade algo inconcebível. Dessa
forma, consideramos esse debate, travado nas páginas do “Diário do Rio de Janeiro” em 1858,
bastante relevante para se entender uma ideia de moralidade corrente no período em questão,
bem como a visão do autor sobre o ideal de comportamento masculino, que deveria ser seguido
pelo público a partir da leitura das referidas peças. Daí a importância de textos como “As Asas
de Um Anjo” e “Expiação”, que, por sua vez, nos possibilitam entender como a imagem do vício
ligado à prostituição foi traduzida para os leitores do oitocentos, bem como as representações
das relações de gênero estabelecidas do período.

Maria Quitéria nos relatos de Maria Graham: “pois o espírito do patriotismo não foi confinado
somente nos homens”
Marianna Teixeira Farias

Resumo: No meu trabalho de mestrado, dedico-me a estudar a construção da memória histórica


nos séculos XIX, XX e XXI produzida sobre Maria Quitéria de Jesus, a mulher sertaneja que se
travestiu de homem e lutou pela independência política do Brasil na Bahia, de 1822 a 1823. Para
este congresso da ANPUH, privilegiar-se-á o relato deixado por Maria Graham, britânica, escritora
e viajante no oitocentos, que foi contemporânea à guerreira, estando com ela pessoalmente na
Corte, quando foi contratada como preceptora da filha mais velha de D. Pedro I. No encontro com
Maria Quitéria, que viajou a convite do imperador em agosto de 1823 para ser condecorada, a
britânica descreve sua aparência, alguns de seus hábitos, bem como relata sua história de vida,
deixando essas informações escritas em seu diário “Journal of a voyage to Brazil and residence
there, during part of the years 1821, 1822, 1823” (1824). A escolha por analisar este relato é
justificada por algumas razões: a primeira, por conter uma riqueza nítida de detalhes sobre Maria
Quitéria, sugerindo que foi uma mulher a frente de seu tempo, mas reforçando, por vezes, um
caráter masculino em suas posturas; e a segunda, por ser este relato considerado, ainda hoje,
uma das fontes mais importantes sobre a vida da guerreira, servindo de referência para a grande
maioria dos escritos e iconografias produzidos sobre ela em sua contemporaneidade até os
séculos posteriores.

261
Pedro Porreta e Josepha: masculinidades negras e violência de gênero, Salvador, 1920-1931
ADRIANA ALBERT DIAS

Resumo: Desde os anos 1980 a capoeira se tornou objeto de estudo e pesquisa em diferentes


áreas do conhecimento científico, todavia, algumas temáticas foram por muito tempo deixadas de
lado pela maioria dos estudiosos e estudiosas do campo como uma espécie de tabu, entre eles: o
protagonismo feminino, as masculinidades, as relações de gênero e a violência contra as mulheres.
Atualmente já existem alguns trabalhos, grande parte deles na área de Antropologia, que versam
sobre a presença das mulheres e a desigualdade de gênero na capoeira na contemporaneidade.
Na História, Paula Fialho (2019) foi pioneira ao demonstrar a presença das mulheres negras na
capoeira desde o início do século XX em Salvador. Entretanto, faltam trabalhos que tratem sobre
as masculinidades e as práticas de violência contra mulheres cometida por homens capoeiras
numa perspectiva feminista e histórica. O objetivo desta comunicação é lançar algumas reflexões
que contribuam no entendimento sobre o processo de construção das masculinidades negras
no universo da capoeira e práticas de violência de gênero entre os anos 1920 e 1930 através
da análise das representações e episódios da trajetória de vida de Pedro Porreta. Parte de sua
fama de valentão e desordeiro é conhecida pela comunidade de capoeiristas na atualidade, pode
se dizer que ele é considerado uma espécie de “bamba de outrora”, admirado por não temer o
perigo e enfrentar a polícia. Porém parte de sua história foi omitida pela historiografia, a exemplo
da sua prisão por ter espancado sua amásia Josepha. Através da análise de processos criminais e
notícias de jornais envolvendo Pedro Porreta, pretendo refletir sobre as contradições na vida de
um homem negro, perseguido pela polícia e vítima de tantas agressões, que em seu cotidiano,
além de brigar com policiais, também violentou fisicamente sua própria companheira, negra e das
camadas populares como ele.

“É o pai que toma conta”: Os significados de masculinidade e paternidade nas classes


populares (Feira de Santana, Ba, 1960-1970)
ALESSANDRO CERQUEIRA BASTOS (UFBA)

Resumo: A comunicação discute as experiências e os significados de masculinidade e paternidade


vivenciados e interpretados a partir do ponto de vista de homens e mulheres oriundos dos
segmentos populares, em Feira de Santana, nos anos 1960 e 1970. Para tanto, recorremos à
abordagem microscópica mediante a qual avaliaremos alguns processos-crimes de homicídio;
tomados como janela privilegiada para acessarmos tanto as práticas cotidianas como os seus
respectivos significados. Além disso, partimos do suposto de que as masculinidades, assim como as
noções de paternidade, são produzidas historicamente, e só podem ser mais bem compreendidas
a partir das interseções não só de gênero, mas também de classe, sexualidade entre outras.Assim,
demonstramos que menos do que conceitos estanques, masculinidade e paternidade são, antes
de tudo, palco de disputas e interesses conflitantes, mas também de partilhas no seio das classes
populares feirense.

SESSÃO 02: 22/10/2020 DAS 14H ÀS 18H

262
Da lascívia dos nativos brasileiros na literatura de viagem (séculos XVI – XVII)
FERNANDO MARQUES DE MELLO JÚNIOR (FB - FACULDADE BARRETOS)

Resumo:  Durante os três séculos que se seguiram ao desembarque de Cabral nas costas do
Novo Mundo, as letras estrangeiras criaram e moldaram os contornos do que viria a ser o Brasil
e suas gentes para o habitante do Velho Mundo. A natureza do lugar, exuberante e pródiga, não
demorou a arrancar elogios dos visitantes europeus. Dotada de uma fauna e flora maravilhosas e
de difícil descrição – afinal faltava aos viajantes vocábulo adequado para descrever as maravilhas
que testemunhavam –, a natureza bondosa e selvagem do novo continente foi assunto constante
nas relações de viagem do período colonial. Paralelamente a tal construção, as letras europeias
dedicaram vários parágrafos para esquadrinhar as gentes que aqui habitavam: homens e mulheres
quase sempre desmerecedores de gozarem das maravilhas do lugar. Há, claramente, nas relações
de viajantes, a contraposição entre a prodigalidade do novo continente e a qualidade dos seus
habitantes, descritos, na maioria das vezes, de maneira pouco abonadora. Assim, os nativos
chamarão a atenção dos primeiros visitantes em virtude de seu modo de viver completamente
diferente dos vigentes na velha Europa. Bestiais, destemperados sexualmente, canibais, violentos,
desconhecedores do Santo Evangelho – para nos atermos apenas aos atributos mais mencionados
pelos viajantes –, os nativos serão objeto de análise de vários textos europeus ao longo,
principalmente, dos séculos XVI e XVII, período em que ainda não dividiam a atenção dos olhares
estrangeiros com os colonos que, aos poucos, passavam a fazer parte da paisagem do Novo Mundo.
Assim, a comunicação proposta visa analisar brevemente o que escreveram os viajantes europeus
a respeito de um dos muitos aspectos comentados da vida ameríndia: sua suposta lascívia. Dito
de outra maneira, o presente trabalho visa abordar a maneira como o comportamento sexual
dos nativos, em especial das mulheres silvícolas, foi descrito pela literatura europeia produzida
entre os séculos XVI e XVII como destemperado, lascivo e prejudicial ao corpo em virtude de
seus excessos. Por fim, é digno de nota que compreender o contexto e a maneira como se deu a
construção da imagem dos nativos e de seus hábitos pelas relações europeias – textos que, como
mencionado, criaram os contornos do Brasil e de sua gente que circularia na Europa –, pode ser de
grande valia para desnaturalizar atributos que, ainda hoje, parecem constitutivos de uma suposta
natureza da população indígena do Brasil, afinal, a elite intelectual brasileira que frequentaria
os bancos das universidades europeias ao longo do século XIX entraria em contato com as ideias
propagadas pelas relações de viagem e as divulgaria em solo brasileiro.

Higiene, medicina legal e homossexualidade na Bahia do século XIX (1850-1900)


DANIEL VITAL SILVA DUARTE (ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DA BAHIA)

Resumo:  Na produção historiográfica brasileira sobre homossexualidades, os estudos que se


ocupam deste tema no século XIX ainda são minoritários quando comparados com trabalhos que
tratam do século XX ou do período colonial. Um dos motivos apontados para esta ausência é o
exíguo número de fontes que podem ser acessadas por historiadores, e a enorme diversidade
terminológica para se referir a sujeitos que fugissem dos padrões de gênero e de sexualidade. Apesar
disto, a historiografia pertinente indica a presença de certas representações na documentação de
cunho médico e jurídico. Nesta comunicação, pretendo analisar as possibilidades da pesquisa do
tema no século XIX a partir dos meus estudos sobre o discurso médico sobre a homossexualidade
masculina produzido na Faculdade de Medicina da Bahia entre 1850 e 1900. Tenciono apontar os

263
contratempos enfrentados e as potencialidades deste campo de estudo, especialmente a partir
de uma abordagem articulada com os estudos de gênero. Para tal, este trabalho será dividido
em três momentos. No primeiro, aponto algumas das principais abordagens defendidas pela
historiografia do período; no segundo, apresentarei as fontes médicas que tratam do erotismo
e afeto entre homens organizadas em dois conjuntos, um mais aderente ao campo da higiene e
outro ao domínio da psiquiátrico e médico legal, com suas aproximações e distanciamentos; e, por
fim, de que maneira os estudos de gênero auxiliam na análise desta documentação, driblando a
diversidade terminológica e a aparente ausência de menções ao erotismo e afeto entre homens
no período.

O Grupo Gay da Bahia e a luta pelo acesso à cidadania


HENRIQUE CINTRA SANTOS (UFSC)
Resumo:  O acesso à cidadania por travestis e transexuais no Brasil encontra diversos eixos de
exclusão. Segundo Pedra (2020) tais eixos são: econômico, laboral, formativo, sociossanitário,
urbano-territorial, relacional e político. Esses processos de exclusão não apenas acometem o
acesso aos direitos para exercício pleno da cidadania pela população trans, mas promovem uma
marginalização tão sólida que uma das dificuldades centrais para a politização desses grupos está
em seu próprio reconhecimento como detentoras de direitos. A invisibilidade desses sujeitos,
produto dos eixos de exclusão, também está intrínseca ao apagamento discursivo da violência
física que incide nesses corpos e a qual, junto com a violência direcionada à população LGBTI+ no
geral, concede o título ao Brasil do país com maior número de assassinatos dos corpos dissidentes
de gênero e sexualidade. Nesse contexto, o Grupo Gay da Bahia (GGB), iniciado em 1980 e
considerado um marco no que hoje se temporaliza como a segunda onda do movimento LGBTI+
brasileiro, exerce hodiernamente protagonismo ao (re)localizar discursivamente os casos de
violência nessa população em seus relatórios anuais contabilizando as mortes de sujeitos LGBTI+
no Brasil. Dessa forma, o GGB realiza não apenas um papel central na resistência e luta política das
dissidências de gênero e sexualidade na Bahia, como projeta suas ações à nível nacional. Defende-
se aqui que ao rasgar o silêncio que reveste essa violência no país, o GGB, então, aparece como um
ator essencial na promoção de acesso à cidadania por travestis e transexuais no Brasil. O grupo
toma para si a responsabilidade que deveria ser exercida pelo Estado, o qual, tomado por uma
crescente lógica neoliberal e conservadora, se abstém de se voltar para as especificidades desta
população. Por isso, o trabalho presente busca localizar as ações do GGB como um passo inicial
essencial para se começar a extinguir os eixos de exclusão que oprimem esses corpos. Destaca-se
no trabalho a utilização dos próprios relatórios emitidos pelo GGB nos últimos anos.

Educação Inclusiva e o Projeto Escola Sem Homofobia (Programa Brasil Sem Homofobia,
2004-2011)
JHONATAN DA SILVA QUEIRÓS

Resumo: O processo de marginalização da população LGBTI tem raízes históricas. A marginalização


é um instrumento de opressão caracterizada pela dominação de classe, mas que possui também
expressa relação com a orientação sexual e a identidade de gênero. Com o objetivo de incentivar
o debate, a informação e de contribuir para o respeito à diversidade, o presente trabalho propõe-
se a tecer uma breve análise sobre as consequências da ausência de discussões relacionadas à
sexualidade nas escolas e as marcas que o estado brasileiro deixa com o silêncio e a indiferença.

264
Para fins de metodologia do estudo, será realizado uma breve discussão sobre a introdução da
temática de Orientação Sexual nos Parâmetros Curriculares Nacionais (1998) - PCN - e a partir
disso faremos uma análise do documento Escola sem Homofobia (2011). A finalidade primordial
é apontar quais são as demandas na Educação Básica que esse público anseia, suas conquistas
e horizontes junto ao Ministério da Educação. É importante apontar que a comunidade LGBTI é
um grupo de minorias que sofre bastante com a violência homofóbica, essa violência nos faz ter
condições de vida muito precárias, isso fica evidente quando há um grande índice de pessoas dessa
comunidade fora dos espaços formais de educação, em condições precárias de emprego ou em
subempregos, a marginalização constante pela segurança pública, condições de saúde psicológica,
física e emocional bastante prejudicadas por conta da violência institucional e indicadores cada
vez maiores ano a ano quando o assunto é assassinatos. Em decorrência da violência sofrida
buscam na organização de entidades representativas, organizações sociais sem fins lucrativos ou
coletivos de militância política, um canal para alcançar melhores condições de vida, que em parte
são comuns a toda classe trabalhadora - educação, saúde, transporte, moradia - e, por outro lado
os que são específicos às suas demandas.

MEMÓRIA E RESISTÊNCIA: relações de gênero e experiências de mulheres no período ditatorial


(1960-1975)
ALLANA LETTICIA DOS SANTOS (BOLSISTA CNPQ)

Resumo: Este trabalho é resultado dos estudos que estão sendo realizados para a dissertação do
mestrado, cujo o objetivo se relaciona ao estudo da História Comparada das mulheres militantes em
Portugal e no Brasil, em períodos ditatoriais. Esse estrado da pesquisa, que ora será apresentado,
visa compreender os lugares de atuação das mulheres, principalmente no Movimento Estudantil,
bem como identificar como estavam sendo estruturadas as relações de poder e as atividades que
as mulheres exerciam. A respeito de Portugal as fontes problematizadas serão principalmente
os relatos das militantes encontrados no arquivo Mulheres de Abril. No que tange ao Brasil, o
enfoque será no Relatório da Comissão de Memória e Verdade – Milton Santos, realizado em
2014, e em entrevistas, que já foram realizadas. Respeitando os limites e os cuidados relacionados
a História Comparada, pretende-se observar os eixos em que essas atuações se assemelham e
possuem diferenças nos dois países em questão, com base em seus contextos singulares. Para
analisar esses discursos narrativos, empregaremos os conceitos de memória dados pelos autores
Aleida Assman (2011), Maurice Halbwachs (2006), como também as críticas argumentadas por
Pollack (1992). Também nos interessa as observações sugeridas por Sarlo (2007). Em virtude dos
fatos mencionados, pretende-se contribuir para a apreensão das relações de gênero nos contextos
ditatórias em Portugal e no Brasil.

“Bonecas: faxina depois do desfile” – a atuação da Delegacia de Jogos e Costumes de Salvador


na prisão dos corpos dissidentes da cisheteronormativo nos anos de chumbo da Ditadura civil
militar brasileira (1968 a 1978)
KLEBER JOSÉ FONSECA SIMÕES (UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA)

Resumo:  O artigo aqui proposto apresenta os passos iniciais da pesquisa de doutorado que
desenvolvo no Programa Multidisciplinar Cultura & Sociedade da UFBA na qual almejo produzir
uma genealogia dos artivismos das dissidências sexuais e de gênero no teatro baiano durante o

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regime civil militar brasileiro, recortando um período histórico que vai de 1968 a 1984. Acionando
alguns conceitos forjados pelo campo dos estudos queer, tais como biopolítica (FOUCAULT,
1999), assujeitamento (FOUCAULT, 1982), sexopolítica (PRECIADO, 2011), heternormatividade
(BUTLER, 2001), abjeção (BUTLER, 2015), e, a partir da leitura de pesquisa nos jornais A Tarde e
Tribuna da Bahia, entre os anos de 1960 a 1988, e documentos da Delegacia Municipal de Jogos e
Costumes (DJC) da cidade de Salvador, analiso a atuação deste órgão na repreensão e prisão dos
corpos sexo e gênero dissidentes da cisheteronormatividade. Neste estudo compreendo a DJC
como um aparato tecnopolítico que tinha como função social produzir corpos abjetos por meio
da instauração da vigilância moral do comportamento da população soteropolitana legitimada
pela produção do discurso de defesa da família e do regime da cisheteronormatividade, ambos
necessários à sustentação do regime de exceção vigente no Brasil. Deste modo, a polícia se
inscrevia enquanto um aparelho social de controle e punição às práticas sexuais não procriativas e
à presença de corpos e desejos dissidentes revelando uma biopolítica na qual somente os corpos
legíveis pela matriz cisheternormativa são aceitáveis, compreendidos e reconhecidos como vidas
vivíveis, enquanto que as demais corporalidades e práticas não assujeitadas e que, portanto,
se situam como corpos impensáveis, não inteligíveis, são assimilados como abjetos e arrolados
para fora da categoria do cidadão e do humano, sendo passíveis de violências, silenciamentos,
invisibilidades e morte.

Contracultura na Bahia: algumas abordagens sobre os comportamentos dissidentes de


gênero e sexualidade
DANIELA NUNES DO NASCIMENTO (PREFEITURA MUNICIPAL DE FEIRA DE SANTANA)

Resumo: Entre as décadas de 1960/1970, após a Segunda Guerra Mundial, eclodiram no mundo,


principalmente nos Estados Unidos e na França, diversos movimentos culturais e políticos, que
se mostraram contra os valores e comportamentos da cultura hegemônica ocidental, cristã e
capitalista. Umas das características básicas do fenômeno, que foi nomeado de contracultura, é o
fato de se opor, de diferentes maneiras, à cultura vigente e oficializada pelas principais instituições
(Igreja, Estado e Família). Contracultura é a cultura marginal, independente do reconhecimento
oficial. No sentido universitário do termo é uma anticultura que teve como características principais:
valorização da natureza (ecologia); vida comunitária; luta pela paz (contra as guerras, conflitos e
qualquer tipo de repressão); vegetarianismo; respeito às minorias raciais e culturais; experiência
com drogas psicodélicas; liberdade nos relacionamentos sexuais e amorosos; anticonsumismo:
aproximação das práticas religiosas orientais, principalmente do budismo; crítica aos meios de
comunicação de massa, principalmente a televisão; discordância com os princípios do capitalismo
e economia de mercado; forma despojada e livre de expressão artística (Souza, 2014). Estas novas
formas de se expressarem e viverem em sociedade, levantada por pessoas das mais variadas idades,
principalmente jovens de classe média, chegou ao Brasil através de diversos movimentos culturais,
políticos e sociais, no período de repressão e conservadorismo, a Ditadura Militar. Esta comunicação
busca mapear, através das bibliografias existentes, como se expressaram e se organizaram
algumas das manifestações de contracultura na Bahia. Existiu uma contracultura baiana? Como
estes grupos artísticos e políticos contrariaram e se expressaram diante do conservadorismo, da
repressão, do controle e da perseguição impostos pela Ditadura? Quais os discursos, movimentos
e provocações que estes movimentos realizaram sobre as múltiplas possibilidades de vivências
de gênero e das sexualidades? De que forma os grupos artísticos e políticos da contracultura

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