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Universidade regional do noroeste do estado do rio grande do sul – unijuí

vice-reitoria de graduação – vrg


coordenadoria de educação a distância – CEaD

Coleção Educação a Distância


Série Livro-Texto

Ivo dos Santos Canabarro

teoria e métodos
da história II

Ijuí, Rio Grande do Sul, Brasil


2010
 2010, Editora Unijuí
Rua do Comércio, 1364
98700-000 - Ijuí - RS - Brasil
Fone: (0__55) 3332-0217
Fax: (0__55) 3332-0216
E-mail: editora@unijui.edu.br
Http://www.editoraunijui.com.br
Editor: Gilmar Antonio Bedin
Editor-adjunto: Joel Corso
Capa: Elias Ricardo Schüssler
Designer Educacional: Jociane Dal Molin Berbaun
Responsabilidade Editorial, Gráfica e Administrativa:
Editora Unijuí da Universidade Regional do Noroeste
do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí; Ijuí, RS, Brasil)

Catalogação na Publicação:
Biblioteca Universitária Mario Osorio Marques – Unijuí

C212t Canabarro, Ivo dos Santos.


Teoria e métodos da história II / Ivo dos Santos Canabarro. - Ijuí :
Ed. Unijuí, 2010. 70 p. (Coleção educação a distância. Série livro-
texto).
ISBN 978-85-7429-911-2
1. História. 2. Historiografia contemporânea. 3. Teoria da his-
tória. 4. Historiadores. I. Título. II. Série.
CDU : 930.2
Sumário

Conhecendo o Professor...................................................................................................5

Apresentação............................................................................................................................7

Unidade 1 – A DIVERSIDADE DO CONHECIMENTO HISTÓRICO....................................9

Unidade 2 – NOVA HISTÓRIA, COTIDIANO E HISTÓRIA CULTURAL............................23

Seção 2.1 – Algumas Perspectivas da Nova História..............................................................24

Seção 2.2 – O Cotidiano na História........................................................................................27

Seção 2.3 – A História Cultural................................................................................................30

Unidade 3 – HISTÓRIA SOCIAL, MEMÓRIA E NARRATIVA HISTÓRICA.......................37

Seção 3.1 – Dimensões da História Social...............................................................................38

Seção 3.2 – Memória e História...............................................................................................41

Seção 3.3 – Narrativa e História: a construção da narrativa histórica...................................45

Unidade 4 – IMAGEM E HISTÓRIA, REPRESENTAÇÕES E MENTALIDADES...............49

Seção 4.1 – Imagens Fotográficas e História...........................................................................49

Seção 4.2 – O Mundo Como Representação............................................................................56

Seção 4.3 – A Mentalidades e a Historiografia Contemporânea............................................59

Anexo: Algumas tendências da historiografia


no final do século 20.........................................................................................................63

Referências.............................................................................................................................69
EaD

Conhecendo o Professor
teoria e métodos da história ii

Ivo dos Santos Canabarro

Gosto muito de trabalhar com fotografias, sou fascinado pelos


elementos visuais, acredito que eles nos possibilitam o conhecimento
de outras realidades. Comecei a pesquisar os arquivos fotográficos
no curso de Graduação em História que cursei na Unijuí, pois na-
quele período fui bolsista de iniciação científica do CNPq. Depois,
no Mestrado, realizado na UFRGS, continuei a utilizar as fotografias,
aliadas aos depoimentos orais. Após concluir o Mestrado comecei a
trabalhar na Unijuí no curso de História.

O trabalho como professor no curso de História sempre esteve


aliado às atividades de pesquisa, pois considero importante que o
professor não trabalhe apenas com o saber já produzido, mas que
ele também tenha a capacidade de produzir novos conhecimentos.
Foi nesta perspectiva que fiz o curso de Doutorado na Universidade
Federal Fluminense, no Rio de Janeiro, e na Universidade de Paris
III, na França. A minha tese de Doutorado é um estudo sobre a cultura
fotográfica na Região Noroeste do Rio Grande do Sul.

Fazer pesquisas é um desafio constante, pois a cada momento


descobrimos coisas novas que nos fazem repensar os conhecimentos
produzidos. Neste sentido, considero que trabalhar com as teorias da
História é uma possibilidade de pensar o ofício do historiador, que
além de dar aulas deve desafiar-se a fazer pesquisas. Atualmente
participo de um grupo de pesquisa intitulado História e Cultura
Visual, que agrega pesquisadores de imagens de todo o Brasil. A
minha pesquisa chama-se “A História pela fotografia”, que já venho
desenvolvendo há alguns anos, mas sempre encontro questões novas
para pesquisar.

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EaD

Apresentação
teoria e métodos da história ii

O campo da teoria da História é muito amplo e complexo, pois converge para uma série bem
significativa de temáticas que dizem respeito à historiografia contemporânea. Por uma questão
didática vamos selecionar alguns temas para serem discutidos neste componente curricular.

As tendências da historiografia são múltiplas e contemplam muitas reflexões sobre o co-


nhecimento histórico, pois podemos afirmar que para cada período da História contamos com
uma determinada tendência da historiografia. A História é realmente dinâmica e acompanha a
própria evolução da sociedade, pois a cada momento ela tem de oferecer respostas às questões
que vão surgindo.

A escrita da História ou, como chamamos, da historiografia, acompanha as reflexões que


os próprios historiadores fazem sobre o conhecimento. Não existe um modelo para a escrita da
História, uma teoria única e definitiva, o que temos são estudos que apontam para uma grande
diversidade de teorias e métodos aos quais os historiadores podem recorrer para a criação do
texto histórico.

O conhecimento da historiografia ocorre a partir da leitura das obras dos historiadores,


suas posições e as teorias e métodos que cada um utiliza no momento de produção do conheci-
mento histórico. Tudo aquilo que conhecemos e que os historiadores produziram já traz consigo
uma determinada tendência teórica e mesmo que não a conheçamos profundamente o nosso
posicionamento reflete, de alguma forma, também uma tendência teórica.

O importante para nós, historiadores, não é somente reproduzir o que os outros já falaram,
é necessário conhecermos as teorias para termos um posicionamento no campo da teoria da His-
tória. Isso de imediato pode parecer um problema, pois neste campo amplo de teorias são várias
as opções. Posso escolher alguma específica ou, também posso optar por ser adepto de mais de
uma teoria? Tudo isso é possível.

Nesta diversidade de posições teóricas por onde devo começar para entendê-las com mais
profundidade? Podemos afirmar que todas têm o seu grau de importância e não devemos de
imediato julgar que uma é melhor que a outra, pois cada uma tem uma função na produção do
conhecimento. A escolha adequada vai depender do interesse que eu tenho em pesquisar, ou
seja, do meu objeto de pesquisa, mas como esse campo é muito amplo, é fundamental conhe-
cermos várias tendências para então fazer uma escolha mais compatível com que desejamos
pesquisar.

Este livro-texto está dividido em Unidades que apresentam algumas tendências teóricas.
Na Unidade 1 a discussão será baseada na diversidade do conhecimento histórico, na questão
do texto propriamente dito, bem como em alguns interesses atuais dos historiadores que tra-

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Ivo dos Santos Canabarro

balham nestes dois paradigmas: a modernidade e a pós-modernidade. Também será realizada


uma discussão mais detalhada sobre a especialização dos historiadores, pois agora cada um se
apresenta como especialista em alguma área de concentração.

Na Unidade 2 dois vamos conhecer algumas tendências que dizem respeito à nova Histó-
ria, desdobradas nos estudos sobre o cotidiano, a História Cultural e também a História Social.
Podemos contar com um limitado número de obras que discutem a problemática do cotidiano,
mas essa tendência é muito marcante na historiografia contemporânea porque os historiadores
visualizam a partir dela uma possibilidade de conhecer aspectos significativos da vida dos dife-
rentes atores sociais. A História Cultural aparece como uma tendência predominante nas últimas
décadas, pois desperta o interesse e o fascínio dos historiadores. Esta é uma história cultural
renovada, que se interessa mais pela cultura popular do que pela cultura erudita. Já a História
Social é uma velha conhecida dos historiadores, pois chegou-se à conclusão que toda História
começa pelo social; afinal, baseia-se na história dos homens, portanto, social por excelência. A
tendência atual, porém, é trabalhar com uma História Social articulada às demais dimensões
de vivência dos atores sociais.

A Unidade 3 é destinada aos estudos sobre a renomada história nova, às dimensões da


memória e também à complicada discussão sobre a sua narrativa na História. A história nova é
um campo que se evidencia a partir da influência da Escola dos Annales (França) e propaga-se
pelo mundo como uma perspectiva que abrange um conjunto de obras que discutem algumas
dimensões importantes para a historiografia contemporânea. As reflexões seguem com a perspec-
tiva de se pensar nas relações entre História e memória, salientando de imediato que a memória,
tanto a individual quanto a coletiva, constitui-se em matéria-prima para a produção do conheci-
mento histórico. No caso da memória coletiva, esta tem relevância fundamental no processo de
construção de identidades dos distintos grupos sociais. As discussões sobre o estatuto do texto
histórico perpassam todo o campo da historiografia, pois usualmente a História é apresentada
na forma de um texto. Narrar não é uma especificidade da História, mas costumamos fazer uma
classificação da narrativa numa denominação de narrativa histórica e não narrativa literária.

A Unidade 4 é composta por uma série de reflexões sobre os objetos mais contemporâneos
do ofício do historiador, a começar pela perspectiva da imagem e História, pela representação e
História e pelas mentalidades, tendências realmente complexas na construção do texto histórico.
As reflexões iniciam-se pela perspectiva da cultura visual, seguindo uma tendência que ganha
representatividade no campo da historiografia, pois é possível perceber que os historiadores
estão cada vez mais se interessando pelas fontes visuais para a produção do conhecimento. As
análises continuam apontando para a importância de se pensar em um conceito de representa-
ção na produção do conhecimento histórico. O historiador não pode fugir dessa perspectiva, que
atualmente é considerada um paradigma, e segundo a qual o discurso sobre a História pode ser
tido como uma representação. Para finalizar a Unidade vamos discutir algumas perspectivas que
evidenciam a importância das mentalidades.

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Unidade 1
teoria e métodos da história ii

A DIVERSIDADE DO CONHECIMENTO HISTÓRICO

OBJETIVOS DESTA UNIDADE

• Apresentar algumas discussões no campo da historiografia contemporânea, buscando demons-


trar que os historiadores estão cada vez mais trabalhando com uma diversidade do conheci-
mento histórico.

• Descrever os princípios que regem a historiografia contemporânea em suas peculiaridades neste


novo século, bem como demonstrar que o campo da historiografia muda os seus interesses ao
longo dos processos históricos.

Na sociedade contemporânea assistimos a uma incrível diversidade de vivência dos atores


sociais, o que influencia decisivamente na construção do conhecimento histórico, uma vez que
todas as coisas que acontecem no mundo são do interesse dos historiadores. Devemos contemplar
as múltiplas dimensões de vivência no discurso histórico, pois toda esta diversidade contempo-
rânea deve, de certa forma, fazer parte da História, e isso pode ser percebido em temporalidades
distantes do nosso tempo de vivência.

Esta questão da diversidade sempre esteve presente nas distintas sociedades, mas o dis-
curso histórico privilegiou determinadas vivências dos atores sociais considerados mais rele-
vantes que os segmentos populares e mesmo excluídos do discurso histórico. O que acontece na
contemporaneidade é que os historiadores diversificam os seus interesses e buscam resgatar as
múltiplas vivências dos distintos atores sociais, mesmo aqueles historicamente excluídos, como
os populares, pobres, negros, índios, homossexuais e demais, que sempre ficaram fora dos dis-
cursos, até os considerados marginalizados.

Se isso mostra uma nova postura por parte dos historiadores, não significa que todos devem
trabalhar com os mesmos objetos, ou seja, com os atores sociais excluídos. Temos de respeitar
os interesses dos historiadores.

Os interesses dos historiadores em trabalhar com os grupos populares influenciam na


adoção de uma nova postura teórico-metodológica, pois uma visão mais clássica da História
tradicional não oferecia um instrumental para inserir esses novos objetos. Foi realmente a partir

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do que chamamos de História vinda de baixo que se abriu esta possibilidade de trabalhar com os
populares, pois desde então teve início a criação de todo um arsenal teórico que dá sustentação
a esses novos objetos.

O que isso influencia no discurso histórico? Isso significou uma ampliação do olhar do his-
toriador, que passou a se preocupar com todos os atores sociais, sejam eles de diferentes lugares
que ocupam em relação às diversas formas de poder. Como sabemos, as escolas históricas mais
antigas não tinham esse interesse em diversificar a sua abordagem e nem inserir esses atores,
que não possuíam importância social nas distintas sociedades.

Com a ampliação do campo do historiador, o ofício deles passou a contemplar uma multipli-
cidade de objetos, abordagens e problemas, o que significa uma nova postura na construção do
conhecimento histórico. A diversidade no ofício do historiador requer toda uma apropriação em
termos teóricos e metodológicos, pois será necessário usar conceitos e categorias que ofereçam
respostas aos problemas propostos nestas novas abordagens e objetos.

Tudo o que é novo assusta um pouco os historiadores mais tradicionais e, portanto, é preciso
sair deste lugar-comum onde as coisas já estão perpetuadas, abrindo-se para novos horizontes,
pois a nossa profissão é extremamente dinâmica e acompanha os próprios movimentos da socie-
dade em que estamos inseridos. No trabalho com um objeto novo devemos mapear todas as suas
dimensões para escolhermos um conjunto conceitual que dê conta de toda a sua diversidade.

Na construção de uma abordagem é necessário dimensionar as prováveis formas de fazê-


lo em sua amplitude. Para escolher uma determinada problemática será preciso levar em conta
os interesses específicos de mostrá-la segundo uma perspectiva que contemple as suas distintas
dimensões. Assim, o trabalho de construção do discurso histórico perpassa por todo um trabalho
que vai do recorte até a narrativa histórica.

Um dos primeiros interesses dos historiadores contemporâneos é a discussão sobre o texto


histórico. Para alguns historiadores ele pode ser produto da arte, para outros ele é produto da
ciência. Essa reflexão faz parte do ofício do historiador, uma vez que o produto final da História
nos é apresentado na forma de um texto.

O texto como produto da arte é uma forma de pensar na escolha de uma linguagem apro-
priada para trazer ao leitor o trabalho de pesquisa realizado e transformado num texto. A questão
está nas escolhas mais adequadas das figuras de linguagem; apresentando-se em narrativa elas
podem aparecer de uma forma mais poética ou mais científica.

Os historiadores sempre tiveram essa preocupação de escrever um texto agradável ao leitor,


mas todo o rigor científico empregado na realização dos trabalhos tornou o texto mais pesado
para a leitura. Alguns historiadores dizem que devemos aprender com os jornalistas a escrever
de uma forma mais agradável para os nossos leitores, sem, no entanto, abandonar a precisão que

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teoria e métodos da história ii

o nosso trabalho exige. Estamos sempre nesta situação de ter de provar tudo o que escrevemos,
mas o que prova é realmente a nossa pesquisa, o texto é apenas o fruto desta. Creio, porém, que
devemos pensar nos nossos leitores e apresentar textos com uma linguagem mais direta e de
fácil compreensão ao grande público, não apenas para os iniciados em História.

O estatuto do texto histórico é realmente bem complexo, pois perpassa diferentes concep-
ções teóricas e metodológicas, tendo-se de um lado um texto mais próximo à arte e à ficção, e, de
outro, um texto com os devidos rigores científicos. Esta discussão implica a tomada de posição
por parte dos historiadores, pois estes sempre acabam se expressando pelos seus textos. Como,
no entanto, isso realmente interfere na oficina da História?

No ofício do historiador isso soa como uma exigência, ou seja, como ele vai apresentar o
seu produto final, pois muitas vezes esses textos requerem anos de pesquisa até sua apresentação
para o público. O importante a se pensar, contudo, é que esse texto sempre é fruto de um trabalho
que exige todo um esforço de pesquisa. O texto do historiador reflete toda a sua concepção sobre
a História, ele é um misto de trabalho de pesquisa com sua concepção teórico-metodológica.

Para os historiadores que se definem como modernos o texto histórico é apresentado como
uma narrativa histórica. Isso quer dizer que se utiliza da arte de narrar alguma coisa, apenas com
uma diferença fundamental da narrativa literária: ele sempre e necessariamente tem de recorrer
à pesquisa histórica para coletar os dados e transformá-los numa narrativa histórica.

Esta é uma das principais características dos historiadores modernos: eles sempre defen-
dem a existência de um real que pode ser alcançado por meio da pesquisa histórica, portanto
não escrevem a partir do nada, mas com a crença de que existiu num determinado tempo e lugar
uma determinada realidade. Isso confirma a hipótese de que se deve provar tudo aquilo que se
escreve.

Nesta perspectiva o texto histórico estaria refletindo de determinada forma de existência de


algo real, palpável, e a pesquisa dos dados seria uma prova de que o fato realmente aconteceu.
O texto seria apresentado como uma expressão daquilo que ocorreu e deveria ser o mais fiel
possível com os acontecimentos, pois o historiador constrói empregando as figuras de linguagem
mais adequadas para determinados objetos estudados.

Sempre ficaria, todavia, essa noção de que tanto o historiador quanto o seu público leitor
deveriam confiar naquilo que está escrito como uma expressão de alguma coisa que realmente
aconteceu, mesmo que o texto fosse apresentado segundo o rigor científico que a disciplina de
História exige.

Para os historiadores pós-modernos essa perspectiva já muda um pouco de concepção.


Essa crença no real já passa a ser relativizada, pois acreditam na tese do narrativismo. Isso sig-
nifica que a velha narrativa histórica cai por terra, pois o narrativismo é um pouco diferenciado

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em sua concepção. Os historiadores pós-modernos não acreditam na existência de um real fora


do texto; para eles, o real somente existe nos textos, pois pesquisam em diferentes documentos,
sejam textos escritos ou imagens, e para eles o real está no texto e não fora dele. Num primeiro
momento isso parece bem complicado, e no fundo é mesmo.

Vamos fazer uma aproximação entre os historiadores modernos e os pós-modernos: para


os primeiros o real estaria na sociedade e o texto seria apenas uma expressão desta; já os pós-
modernos acreditam que seria muito difícil pensar uma realidade fora daquilo que está escrito
no texto, existindo então para estes uma certa definição: a História começa no texto (que seria
a fonte) e termina no texto (o narrativismo). Para eles, portanto, a História somente existiria nos
textos e não num real concreto. Esses historiadores pós-modernos, que começaram a aparecer a
partir da década de 70 do século 20, não conseguiram conquistar um grande público.

A problemática do texto do historiador é uma questão ainda em aberto, pois cada um tem
o seu estilo no ato de escrever. Alguns escolhem figuras de linguagem mais elaboradas, já outros
escrevem de uma forma mais direta e objetiva. O que continua como essencial, porém, é saber
qual a base utilizada para escrever o texto, observando o seu caráter artístico ou ficcional, e
considerando que o texto do historiador sempre se remete a uma vivência histórica.

Os historiadores modernos ou racionalistas sempre defenderam esse posicionamento de


que o texto deve remeter a um real. Por outro lado, os historiadores pós-modernos argumentam
que o texto sempre tem como base um outro texto e assim por diante. Os textos, então, se cons-
troem com base em outros textos. Nesta perspectiva, onde ficaria a arte? Estaria no momento da
opção pelas escolha das figuras de linguagem, pois cada um de nós escolhe as palavras mais
coloquiais, as expressões de certa forma mais bonitas, o que não significa que devemos enfeitar
o texto, posto que ele necessita de uma certa objetividade. Já sabemos de antemão que todo
historiador tem o seu lado subjetivo, que se reflete na hora da criação do texto, por exemplo, um
historiador mais experiente que mostra uma escrita com contornos diferentes dos de alguém que
esteja recém começando na profissão.

Os diferentes estilos dos textos dão margem também para a crítica, que quando feita pelo
historiador é bem mais elaborada, pois deve-se observar uma série de itens considerados rele-
vantes na elaboração de um texto histórico. Podemos citar alguns:

1º – O texto, de preferência, deve ser escrito por um historiador profissional, e não por um ama-
dor, o qual na História é chamado de diletante.

2º – Analisar inicialmente o trabalho de pesquisa que deu origem ao texto, pois considera-se
que toda narrativa histórica tem uma sólida base de sustentação.

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3º – O texto deve ser analisado em sua importância historiográfica. Isso quer dizer que todo o
texto deve ter uma relevância para o conhecimento histórico, não deve ser uma mera espe-
culação.

4º – Analisar a obra com critérios historiográficos, em que os métodos de análise devem ser com-
patíveis com a perspectiva do conhecimento histórico, não sendo uma mera consideração
declarando se gostou ou não gostou do texto.

Ao confirmar a contribuição do texto ao conhecimento histórico estamos fazendo um exer-


cício de historiografia, ou seja, da representação da escrita. Esta é o produto final da produção
histórica, constituindo uma de suas formas usuais de apresentação.

Em um texto podemos acessar o conhecimento em suas mais variadas abordagens; é nesta


forma de expressão que o historiador mostra todo o seu potencial criativo. É na historiografia
que encontramos as mais diferentes formas de expressão, pois contamos com um conjunto de
obras, métodos, estilos e variedades de posicionamentos, isso é, o que mais influencia uma de-
terminada época.

Existem estilos mais clássicos que percorrem várias épocas mostrando o seu caráter con-
tributivo para a História, mas existem também as tendências mais transitórias que não conse-
guem permanecer por muito tempo no campo da historiografia. Podemos observar que muitos
historiadores mais experientes transitam por várias fases, mudam o seu enfoque, seus objetos
e abordagens e, dessa maneira, participam de diversas formas de expressão do conhecimento
histórico.

A historiografia contemporânea contempla essa crítica sobre a importância de suas obras


para a construção de identidades, como também uma importância cultural de seus textos histo-
riográficos. Num primeiro instante essa questão das identidades é realmente relevante no século
21, pois todos os indivíduos e grupos sociais buscam uma afirmação na sociedade e isso ocorre
a partir da definição das identidades.

Como salientamos no início da unidade, os historiadores estão mais voltados para a pro-
blemática dos populares e excluídos, uma vez que realmente esses atores necessitam de uma
afirmação de identidade, e é nesse contexto que as obras dos historiadores podem servir de base
para que eles reflitam sobre a sua importância em uma determinada sociedade. Esses grupos
geralmente têm poucos relatos escritos sobre seu “universo”, ou seja, são quase que os órfãos
da História, e isso dificulta a sua afirmação de identidade.

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Vamos imaginar um quilombo de descendentes de escravos, que procuram delimitar uma


área de reconhecimento de sua importância histórica, que tipo de documentos eles possuem?
Nada, ou quase nada. Sendo assim, neste caso o historiador deve buscar reconstituir toda a sua
história num determinado espaço, para então reconhecer a sua importância como grupo social.
Isso é um verdadeiro exercício de memória coletiva.

Não podemos pensar que a historiografia serve somente para ser lida nas escolas, pois
meramente uma disciplina obrigatória. Ela é muito mais que isso, pois deve servir como um
instrumento de construção de identidades, como matriz para um processo emancipatório. Os
grupos populares e excluídos são os mais discriminados. Por não terem a consciência de sua
importância histórica, geralmente são os que não têm sua história documentada, portanto estão
fora dos discursos escritos.

A historiografia é também instrumental, não podemos ficar meramente estudando a História


dos grandes personagens, dos grandes feitos históricos, é preciso dar a nossa contribuição para
buscar recuperar a história destes grupos sem história.

Nesse viés, a historiografia deixaria de ser tão-somente uma disciplina e passaria a fazer
parte da vida daqueles que precisam constituir-se como atores conscientes de sua importância
social, sendo também uma forma de desconstruirmos os preconceitos que foram se estabelecen-
do ao longo dos tempos a respeito dos pobres, negros, índios e demais atores excluídos. Dessa
forma, cremos que a historiografia tem muito mais potencialidades do que é possível detectar
num primeiro olhar. Nesse limiar da aprovação da profissão de historiador a nossa contribuição
social seria muito mais relevante do que simplesmente ficar repassando conteúdos.

Com a regulamentação da profissão de historiador – o projeto já foi aprovado no Senado –


vamos assistir a uma ampliação das nossas atividades. Neste sentido estaríamos adentrando em
questões que dizem respeito à preservação da memória, do patrimônio, da defesa da cidadania
e conservação dos nossos bens culturais.

O historiador não atuaria somente como transmissor de conhecimentos, mas acima de


tudo como um produtor da cultura, e nesta função teria a responsabilidade de interagir com os
diferentes atores sociais que buscam a sua identidade. A preservação do patrimônio seria uma
das atividades fundamentais da profissão, pois podemos constatar que são muito raras as polí-
ticas públicas nesse sentido, pelo contrário, assistimos diariamente a uma total depredação do
patrimônio histórico e artístico.

É necessário que o historiador conscientize os diferentes grupos da importância de se pre-


servar para garantir a identidade dos espaços construídos, ou seja, do patrimônio arquitetônico,
artístico e natural, tanto material quanto imaterial.

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A tarefa do historiador de preservar o patrimônio é uma das funções da profissão, porque


entendemos que suas atividades são de responsabilidade social, devendo estar atento para os
problemas da sociedade em que vive. A maioria dos projetos que prometem uma modernização
da sociedade não levam em consideração as políticas de preservação do patrimônio, e em nome
do progresso se modificam todos os cenários e isso fica evidente em nossas cidades, que sofrem
uma modificação constante e quase não temos mais testemunhos de como éramos no passado.

As novas gerações não conseguem visualizar quase nada do nosso passado, conhecem-no
apenas por imagens que atestam cenas de outros tempos. A tarefa de preservação do patrimônio
material é urgente e necessária, não apenas para fins turísticos, como está acontecendo, mas
principalmente para a construção da nossa identidade, pois os nossos laços com o passado nos
ajudam a entender a nossa própria história.

As pessoas ficam muito impressionadas quando vão para a Europa e conhecem prédios
com aproximadamente 500 anos, e ficam imaginando como seriam os nossos prédios com esta
idade. Parecemos tão modernos que quase não temos mais nada que lembre o passado.

Outra dimensão importante de analisar é a questão do patrimônio imaterial, o qual é com-


posto por aspectos mais subjetivos, como as nossas crenças, os nossos modos de fazer as coisas,
os nossos rituais, a sabedoria popular, enfim, todas essas questões que fazem parte da nossa
cultura e que são repassados para as sucessivas gerações. Se imaginarmos uma comunidade de
índios, perceberemos que a sua cultura basicamente pertence ao patrimônio imaterial, porque
sua sabedoria é repassada, suas formas de cura de doenças, seus rituais, suas crenças, todos os
rituais e seus significados.

Quase tudo que pertence ao patrimônio imaterial está na tradição oral e o fato de poucas
coisas estarem registradas na forma escrita dificulta muito o trabalho do historiador, porque ele
precisa recorrer a diferentes grupos para tentar recuperar esse patrimônio imaterial. Quando
nos referimos a grupos sociais como índios e negros, observamos que seu patrimônio imaterial
é quase que totalmente oral, porque a escrita é pouco utilizada por esses grupos, e em alguns
casos é inexistente. Nesta situação o historiador precisa tentar, por intermédio da memória dos
membros destes grupos, recuperar vivências que dizem respeito às diferentes formas de expres-
são de sua cultura.

A memória também é algo fundamental, pois sua recuperação significa uma forma de iden-
tidade dos indivíduos e grupos. O trabalho de recuperação requer todo um cuidado de seleção
de elementos e situações que realmente representem suas verdadeiras formas de expressão. Em
muitos casos pode haver uma distorção e mesmo um esquecimento, pois a memória pode ser
utilizada ideologicamente para fins de impor o poder de algum grupo sobre os demais.

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Não podemos cair na ilusão de que somos um povo sem memória. Isso foi uma manipula-
ção para esquecermos os períodos autoritários que tivemos no Brasil, uma tentativa de apagar a
repressão que sofremos e também uma forma de não julgarmos os nossos ditadores pelas atro-
cidades que cometeram contra a população brasileira. Temos memória, sim, e ela é importante
para nós. Não queremos viver do passado, mas ele não foi apagado da nossa memória, queremos
manter o que conhecemos para não repetirmos os mesmos erros do passado.

A memória é fundamental para a afirmação da nossa identidade. Nesse sentido o histo-


riador deve operar com muita habilidade, porque alguns grupos não gostam de assumir a sua
identidade como classe excluída ou pobre. As pessoas têm vergonha de sua situação social, e
vivem numa ilusão criada pelos meios de comunicação de que para sermos importantes deverí-
amos ter certos bens, morar em determinados locais, etc. Essa é uma ilusão forjada para apagar
a identidade de alguns grupos.

As tarefas do historiador realmente são complexas e exigem uma formação bem consistente
para que ele não fique preso a preconceitos ou mesmo que não reproduza falsos valores sociais.
Para tanto é preciso ter em mente essa complexidade da sociedade contemporânea. Devemos
estar atentos para o desafio que a profissão nos impõe, para sermos capacitados a dar respostas
às questões que vão surgindo ao longo do trabalho, porque para trabalharmos com determinados
grupos sociais é necessário ter uma visão bem abrangente de seus problemas.

Podemos constatar que muitos estudantes de História não estão preparados para assumir
a função de historiador porque se mostram muito apegados a preconceitos em relação a deter-
minados grupos sociais. Nestes casos é mais adequado trabalhar como professor e não como
pesquisador. A tarefa do historiador e pesquisador exige uma postura teórico-metodológica, um
entendimento da cultura para poder entender um determinado contexto, e acima de tudo ter
consideração pelo grupo com o qual está trabalhando.

Ao historiador é imprescindível conhecer a historiografia, que é a sua matéria-prima. É


preciso ter uma base bem consistente para então percorrer um caminho que apresenta muitos
desafios, porque ao longo da pesquisa as questões vão surgindo, e precisamos dar respostas
significativas para então ter condições de estabelecer um certo diálogo entre o que pesquisamos
e o que teoricamente está posto.

As atividades, contudo, não se restringem à pesquisa e ao ensino da História. Elas vão


além disso, pois podem estar relacionadas à preservação mesmo à construção da cultura em
todas as dimensões possíveis e imagináveis. É nesta dimensão da cultura que devemos prestar
mais atenção, porque muitas vezes as expressões que estamos acostumados a vivenciar podem
pertencer à cultura dos grupos dominantes.

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É preciso também recuperar expressões da cultura dos grupos populares, pois estes são a
maioria na sociedade. Além disso, estes grupos também produzem cultura, eles não são apenas
consumidores das coisas prontas, ou seja, não são meramente alienados, mas existe esta ten-
dência de fazer com que esses grupos consumam uma cultura de massa, algo pronto e acabado.
Existe uma produção destes grupos, pode ser algo ainda muito incipiente e que eles próprios
têm certo receio de revelar, mas o historiador deve estar atento a questões que não são mostradas
num primeiro momento.

Ao mesmo tempo que se discute o reconhecimento da profissão de historiador e suas devidas


atribuições, podemos perceber cada vez mais um processo de especialização desse profissional,
principalmente daquele que trabalha em universidades. Os historiadores que trabalham em
universidades geralmente se especializam em uma determinada área dentro da História. Em
decorrência, publicam artigos e livros sobre sua temática específica e trabalham suas disciplinas
acadêmicas também neste seu domínio de conhecimento.

A especialização é uma tendência na sociedade contemporânea, pois assistimos em todas


as áreas a um processo de concentração num determinado tema. Isso pode ser uma faca de dois
gumes: se por um lado temos bons especialistas, por outro corremos o risco de perder uma visão
mais global da nossa profissão.

Essa tendência chegou à História e cada vez temos mais especialistas que fazem questão
de trabalhar em sua área específica, o que acabou deixando o campo da História cada vez mais
fragmentado, criando uma série ilimitada de tendências. Hoje contamos com especialistas em
diferentes áreas, como historiador da cultura, da antiguidade, de gênero, da imagem, do patri-
mônio, enfim, essas especialidades e subespecialidades proliferam constantemente.

A criação das especialidades tem gerado um número crescente de pequenas ilhas na His-
tória, algumas tão isoladas que perdem a conexão com as outras. É fundamental no processo de
especialização que essa pequena parte tenha alguma ligação com o seu contexto de pertencimen-
to. No momento em que isolamos o nosso tema corremos o risco de perder suas interconexões,
pois a priori, todo objeto necessariamente pertence a um determinado universo e nós somente o
recortamos por uma questão didática, para melhor entendê-lo e aprofundá-lo.

A sociedade como um todo, tanto a do presente quanto a do passado, é constituída de


tessituras sociais, ou seja, de relações que se entrelaçam, portanto o nosso tema sempre per-
tence a uma totalidade de relações que não podem ser ignoradas quando da sua abordagem. O
recorte do tema sempre é feito para a realização de um processo de verticalização, ou seja, de
aprofundamento. Se não houver isso o tema fica na forma horizontal, sem nenhuma perspectiva
de aprofundamento.

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EaD
Ivo dos Santos Canabarro

Na historiografia podemos contar com um universo de obras de todos os tipos, algumas bem
verticais, e outras meramente horizontais. Por isso se discute a profissionalização do historiador
para que a obra que tenha o nome de “história” seja realmente um trabalho aprofundado e não
uma simples descrição de alguma coisa. Os historiadores amadores geralmente trabalham nesta
dimensão da horizontalização, portanto apresentam meras descrições.

A questão da especialização, contudo, parece mais complexa do que se possa imaginar.


Segundo José D’Assunção Barros (2004), a especialização não é um problema recente, já há
algum tempo vem sendo percebida no campo da historiografia. O autor salienta que esse fato
pode ocasionar uma perda da cultura mais humanística, mais completa e mais complexa. Isso
para nós historiadores é significativo, pois atualmente se exige muito de um historiador que ele
tenha uma ação mais efetiva na sociedade. Se perdêssemos essa noção mais humanística, esta-
ríamos mais num campo técnico e creio que não é isso que queremos para a nossa profissão, ou
seja, formar pessoas tecnocratas.

A fragmentação do conhecimento torna a História cada vez mais compartimentada, o que


pode ser sinal de uma perspectiva mais vertical, mas ao mesmo tempo mais específica. Os gran-
des manuais de História parece que perderam a sua importância, pois atualmente são raras as
obras que tratam de História Geral ou História do Brasil, isso ficou mais limitado aos manuais
para o Ensino Fundamental.

No mundo acadêmico assiste-se a uma fragmentação muito grande do conhecimento, é


preciso um exaustivo exercício de reflexão para conseguir estabelecer relações entre as partes.
Cada obra, porém, contribui de forma particular para a historiografia. Essa tendência à especia-
lização também acabou afetando os antigos historiadores, os quais têm se voltado a trabalhar
com temas específicos, muitos deles inclusive mudando o seu posicionamento teórico.

A História parece estar dividida em lotes, cada um com sua especialidade e suas subes-
pecialidades, e cada vez mais aparecem novos fragmentos. Ainda não sabemos como isso vai
repercutir na historiografia: ou teremos um grande ganho ou uma total compartimentalização.

Os historiadores costumam falar em dimensões da História Social, História Cultural ou


Econômica, mas essas dimensões possuem seus pontos em comum, ou seja, todo o objeto tem um
pouco de cada uma delas, pois na sociedade todas essas dimensões ocorrem ao mesmo tempo.

Assim sendo, no processo de construção do conhecimento histórico não podemos perder a


perspectiva de que tudo que podemos definir como História pertenceu a uma determinada so-
ciedade, e no momento da construção do objeto ele, de uma forma didática, é isolado para então
permitir um maior aprofundamento, ou como já mencionamos anteriormente, para promover a
sua verticalização.

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EaD
teoria e métodos da história ii

A perspectiva de pensar a forma de construção do conhecimento histórico exige do historia-


dor o domínio de uma certa noção de como o campo da História está didaticamente organizado.
Cabe ressaltar que essa forma de organização do campo da História é mais uma possibilidade
de entendimento de uma perspectiva didática, pois a construção do conhecimento requer uma
prévia organização das nossas ideias.

O conhecimento não é um amontoado de coisas sem nenhuma lógica, é preciso um domínio


prévio de historiografia para então nos lançarmos nesta atividade que vai exigir do historiador
um verdadeiro exercício de construir alguma coisa que realmente represente uma determinada
expressão histórica. A narrativa histórica exige toda uma formulação baseada em determinadas
balizas que são obtidas com a pesquisa histórica. Nesse sentido o fruto do trabalho, que é o tex-
to histórico, resulta de todo um investimento por parte do historiador que vai formular alguns
problemas que serão respondidos ao longo do texto.

Como já havíamos comentado, o texto histórico é sempre o resultado de um trabalho que


exige uma investigação histórica, uma perspectiva teórico-metodológica até a sua apresentação,
que é a narrativa histórica. Embora possamos escolher um objeto bem específico, o importante
é que ele remeta aos sistemas históricos de uma determinada sociedade e não seja um mero
fragmento isolado de tudo, que ele tenha verticalização suficiente para compreendermos seus
significados na própria historiografia.

Para fins didáticos o campo da História encontra-se dividido em dimensões, abordagens e


domínios. Esta divisão nos auxilia a compreender como podemos situar o nosso objeto de pes-
quisa nestas especialidades e subespecialidades. José D’Assunção Barros (2004, p. 20), explicita
como podemos entender as divisões do campo da História da seguinte forma:

1 – DIMENSÕES:

1.1 – História social

1.2 – História da Cultura Material

1.3 – Geo-História

1.4 – História Demográfica

1.5 – História Política

1.6 – História Cultural

1.7 – História Antropológica: Etno-História

1.8 – História das Mentalidades: Psico-História

1.9 – História do Imaginário

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Ivo dos Santos Canabarro

2 – ABORDAGENS:

– Com relação às fontes:

2.1 – História Serial

2.2 – História Oral

2.3 – História do Discurso

2.4 – Arqueologia

2.5 – História Imediata

2.6 – História Quantitativa

– Com relação ao campo de observação:

2.7 – História Local

2.8 – História Regional

2.9 – Micro-História

2.10 – Biografia

3 – DOMÍNIOS:

3.1 – História da Sexualidade

3.2 – História da Arte

3.3 – História das Ideias

3.4 – História do Direito

3.5 – História da Religião

3.6 – História da Vida Privada

3.7 – História Urbana

3.8 – História Rural

3.9 – História das Massas

3.10 – História dos Marginais

3.11 – História das Mulheres

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teoria e métodos da história ii

Segundo este autor, o campo da História apresenta-se bem amplo, inclusive podendo
alocar várias formas de abordagens, domínios e dimensões, todas com a finalidade didática de
melhor perceber como um mesmo objeto de pesquisa pode ter mais de uma dimensão, de uma
abordagem e de um domínio.

Neste sentido é importante ressaltar que todo o objeto deve ser alocado no campo da His-
tória para então percebermos como será o nosso trabalho para a pesquisa e escrita da História.
O exercício de alocar o objeto no campo da História nos auxilia a pensar a perspectiva teórica,
que pode ser realizada para desenvolver o nosso trabalho, e a partir do momento em que temos
uma definição de uma teoria já estamos nos situando dentro da historiografia.

Esse é um passo fundamental para iniciarmos qualquer trabalho de pesquisa acadêmica.


É necessário que a definição teórica seja um dos nossos pontos de partida para a realização do
trabalho, pois somente na teoria teremos uma baliza para orientar os rumos que devemos tomar
para seguir a pesquisa e sua posterior verticalização, ou seja, seu aprofundamento. Um dos
pontos que define o trabalho do historiador profissional é a utilização da teoria, pois geralmente
os amadores não recorrem a ela em seus trabalhos.

Inicialmente devemos selecionar uma determinada dimensão para o nosso objeto, que
na maioria dos casos pertence a uma delas ou mais de uma, dependendo do objeto, todas essas
dimensões citadas são possibilidades de se pensar, de forma didática, como seria uma possível
divisão de vivências na sociedade. Podemos observar que elas são divididas para nos auxiliar a
entender um posicionamento, pois nas sociedades todas elas acontecem ao mesmo tempo.

Para dar prosseguimento ao trabalho de pesquisa é fundamental que se tenha presente


uma forma de trabalhar com as fontes de pesquisa, e para isso é necessário estabelecer uma
determinada metodologia, por exemplo, história oral é uma metodologia e não uma dimensão
de vivência.

Então a abordagem diz respeito a como vou trabalhar com minhas fontes e também o meu
campo de observação. Por exemplo, se eu vou fazer uma abordagem local ou regional, esta é uma
definição necessária para delimitar meu trabalho. E finalmente, o domínio pode ser quanto aos
ambientes e objetos e também quanto aos agentes sociais, como exemplo, mulheres ou marginais.
Isso vai definir os atores sociais com os quais eu pretendo trabalhar.

Os atores sociais são nossos personagens principais. Atualmente não se dá muita ênfase
aos grandes personagens, mas a esses protagonistas anônimos da História, essas pessoas que
raramente apareciam nas obras dos historiadores. Por uma questão didática é sempre recomen-
dado que se pense no objeto de pesquisa em suas dimensões, abordagens e domínios, o que
auxilia muito no processo de construção do conhecimento.

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EaD
Ivo dos Santos Canabarro

Nesta unidade conseguimos visualizar a complexidade da historiografia contemporânea


com seus objetos de pesquisa mais evidentes que compõem o campo da História. A historiogra-
fia é realmente complexa, pois ela acompanha o próprio movimento da sociedade, e o que os
historiadores trabalham reflete sempre os problemas contemporâneos, nos quais, muitas vezes,
é buscado resgatar no passado sua historicidade.

Contemporaneamente os objetos mais clássicos estão cedendo espaço para os mais inu-
sitados, os que representam a expressão destes atores sociais que geralmente eram esquecidos
pelo discurso historiográfico. A construção do conhecimento a partir destes novos objetos requer
uma nova visão teórico-metodológica, visando a incorporar outras dimensões de vivências, com-
plexificando a construção da historiografia.

O trabalho de construção do conhecimento exige uma reflexão sobre a importância de si-


tuar o objeto de estudo nas dimensões, nas abordagens e nos domínios, pois é fundamental que
o historiador profissional perceba que para iniciar o texto histórico sempre e necessariamente é
preciso um referencial teórico muito consistente.

A partir de uma definição teórica tem início realmente o trabalho de pesquisa, posto que
somente a teoria é capaz de nos dar respostas para as questões que vão surgindo ao longo da
nossa investigação. Podemos partir de determinados pressupostos, pois existe uma reflexão
teórica na historiografia, mas é necessário situá-la num determinado pressuposto para, a partir
deste, elaborar as nossas hipóteses até se chegar à narrativa histórica.

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Unidade 2

NOVA HISTÓRIA, COTIDIANO E HISTÓRIA CULTURAL

OBJETIVO DESTA UNIDADE

• Nesta Unidade as abordagens estarão direcionadas para os estudos sobre a nova História,
como ela se insere no discurso dos historiadores a partir das reflexões pioneiras da Escola dos
Annales, na França, e sua posterior divulgação pelo restante do mundo.

AS SEÇÕES DESTA UNIDADE

Seção 2.1 – Algumas Perspectivas da Nova História

Seção 2.2 – O Cotidiano na História

Seção 2.3 – A História Cultural

A nova História foi responsável pela divulgação de novos e inusitados objetos de pesquisa,
trazendo para a historiografia um universo bem mais abrangente de atores sociais e suas dife-
rentes situações de vivência.

Os estudos sobre o cotidiano contribuem decisivamente para uma verdadeira verticalização


de alguns objetos históricos, pois este cotidiano é uma dimensão de vivência de todos os atores
sociais. Desta forma, a história passou de uma grande narrativa para uma outra dimensão, em
que os atores sociais se alocam em suas próprias experiências.

A História cultural trabalha com tudo o que está relacionado com a cultura; este é seu ob-
jeto por excelência. Convém salientar que os trabalhos focalizam mais a questão da diversidade
cultural, do hibridismo e uma tendência muito forte em enfocar a cultura popular, deixando um
pouco de lado a cultura mais clássica, tendo em vista que esta já é frequentemente abordada
em vários trabalhos.
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Ivo dos Santos Canabarro

Seção 2.1
Algumas Perspectivas da Nova História

A expressão nova História começou a ser empregada na França no fim da década de 70 do


século 20. Mais precisamente em 1978 foi lançada uma coleção com o nome de “La Nouvelle
Histoire” (A nova história), organizada por Jacques Le Goff, Roger Chartier e Jacques Revel. Esta
coleção foi criada no seio da Escola dos Annales, mas nem todos os historiadores eram adeptos
dessa nova tendência na História.

Havia muita crítica a essa nova História, pois alguns a acusavam de ser uma História com
um lado publicitário, com uma linguagem bem voltada para a mídia. Os historiadores que esta-
vam mais interessados em trabalhar com a etno-história (História Antropológica) e psico-história
integravam uma corrente que clamava pela renovação do campo da História, deixando de lado
alguns princípios considerados mais conservadores.

Com a nova História os Annales tornaram-se alvo da imprensa, pois suas obras tinham um
valor que interessava ao grande público. Jacques Le Goff passou a ter um programa de rádio
para divulgar o trabalho da escola, que era chamado de “As segundas-feiras da História”. Este
programa de divulgação da História era voltado para o grande público, e os historiadores davam
entrevistas divulgando as suas obras. Na televisão também os historiadores apareciam com fre-
quência nos programas, participando de debates históricos, políticos ou literários.

Toda essa movimentação foi decorrente da obra lançada em 1978, essa verdadeira enciclo-
pédia intitulada A Nova História, pois nela estavam contemplados artigos que discorriam sobre
as noções de estrutura, a longa duração, História imediata e demais conceitos e categorias que
vão mapear o campo da História.

Os objetos de estudo da nova História são os mais variados e inéditos, e o cotidiano apare-
ce com uma possibilidade de trabalhar outras dimensões de vivência dos atores sociais. A nova
História também representa uma crítica aos velhos padrões de se escrever a História, pois foi
muito criticada a tendência de se cultivar as grandes personalidades, e voltou-se para o homem
comum, os populares e suas lutas pela sobrevivência.

Foi desenvolvida uma crítica feroz aos modelos mais conservadores de se escrever a História,
aos muitos erros cometidos para se escrever a história econômica e a alguns que a consideravam
como determinante nos sistemas históricos. A crítica maior, no entanto, foi feita realmente no
intuito de combater essa importância significativa que muitos autores davam ao culto da perso-
nalidade em História, ou seja, da história dos grandes personagens como figuras centrais para
conduzir os caminhos do desenvolvimento das sociedades.

24
EaD
teoria e métodos da história ii

Para construir uma nova História, porém, há necessidade também de formar um historiador
mais comprometido com essa nova perspectiva. Este deveria proceder arquitetando as hipóteses,
para, a partir daí, construir as possibilidades do conhecimento. Os acontecimentos históricos não
são coisas físicas simplesmente tiradas dos documentos, é preciso analisá-los nas articulações que
estes têm com os sistemas históricos. É quase que uma fabricação em sua abordagem, pois so-
mente com o auxílio das hipóteses que estes vão se constituir como uma perspectiva histórica.

O historiador é quem constrói o seu objeto de pesquisa a partir de um conjunto de docu-


mentos de naturezas variadas, tais como: textos escritos, objetos, fotografias, imagens, entrevistas
e demais fontes disponíveis, todas com a finalidade de responder as suas interrogações. A isso
podemos denominar de história-problema, pois o historiador levanta um problema do passado
para ser respondido no presente, coloca-se no lugar de um analista e não de um mero narrador,
por consequência a História construída por ele é uma interpretação racional dos dados.

É uma perspectiva histórica que busca não somente um conhecimento cronológico e


homogêneo, mas um que levante os problemas pelos quais os atores sociais passaram em uma
determinada sociedade, pois de antemão já sabemos que a vida não é algo linear em todas as
sociedades e os problemas sempre existiram e muitos ainda continuam até os dias atuais.

A nova História também tem algumas questões semelhantes com o marxismo. No verbete
de Guy, ele observa que algumas teses centrais da nova História estão no germe do marxismo.
As questões dizem respeito à Historia global, que parece ser superada nesta tendência, pois no
marxismo isso estaria alocado na concepção de modo de produção ou de formação econômica
e social.

O próprio método quantitativo já era adotado por Marx em seus estudos, mas o ponto
que mais se aproxima do marxismo é a perspectiva de se trabalhar com novos atores sociais, os
homens considerados vulgares, pois ali já se analisava a questão dos proletários no marxismo, e
a nova História vai privilegiar esses atores vulgares em vez das individualidades marcantes. A
nova História se aproxima ainda mais do marxismo ao entender a História de maneira coerente,
total e dinâmica.

Uma das perspectivas da nova História é trabalhar com os grandes espaços e as grandes
massas históricas, que sofrem uma influência significativa da escola geográfica francesa e da
Geografia-histórica braudeliana, com destaque sempre para a longa duração. Neste sentido a
História não seria meramente descritiva, mas permitiria colocar novas questões e avançar nos
processos interpretativos.

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EaD
Ivo dos Santos Canabarro

A isso podemos denominar de História-problema, pois não estaríamos apenas no nível


de descrição, mas partiríamos para a interpretação, considerando que é necessário estabelecer
sempre uma determinada problemática para ser respondida no decorrer dessa interpretação. Os
historiadores da nova História consideram que é preciso uma produção rigorosa da História, com
todos os métodos disciplinares que exige o processo de produção de conhecimento.

A perspectiva de se trabalhar com o global volta com muita evidência na nova história,
mas isso já vinha ocorrendo desde a segunda geração dos Annales. Era uma preocupação de
Braudel, de se trabalhar com diferentes perspectivas do tempo (curta, média e longa duração).
O mesmo autor alertava que era preciso evocar diferentes cadências do tempo histórico num
tempo único.

Essa perspectiva global da História, porém, não foi uma prática de todos os historiadores
adeptos da nova História. Alguns optaram por atuar na perspectiva da longa duração, porque
trabalham com séries documentais mais complexas, permitindo desta forma recompor longas
temporalidades. Os historiadores entendem que a realidade histórica pode ser decomposta em
subsistemas, entre os quais pode-se estabelecer as devidas articulações, mas isso é permitido
somente com as séries documentais.

A questão de se trabalhar com séries documentais é fundamental para a verticalização do


objeto de pesquisa, pois contando com um volume maior de documentos podemos fazer as devi-
das relações de uns com os outros, o que permite entender as conexões existentes nos sistemas
históricos. As comparações são possíveis de serem realizadas com essas séries documentais,
pois cada parte constitui-se como um conjunto de dados precisos, que são entendidos a partir
da aproximação com os outros.

Na nova História foram reinventadas ou recicladas muitas fontes documentais, inclusive


algumas consideradas esgotadas. A diversidade de documentos realmente é impressionante, pois
segundo Le Goff, temos uma multiplicidade deles: escritos de toda espécie, documentos figura-
dos, produtos de buscas arqueológicas, documentos orais, entre outros. Toda esta diversidade de
documentos vem acrescentar dimensões significativas à produção do conhecimento histórico.

Podemos também citar o folclore como fonte, que era visto como uma curiosidade. O filme
também pode ser fonte; segundo Mac Ferro, ele pode ser uma contra-análise da sociedade.

A utilização de novos documentos também exige uma crítica apurada a eles. Isso deve
ficar bem claro no processo de pesquisa, porque os documentos não devem servir apenas como
ilustração do texto, mas principalmente como fontes para a interpretação. Os historiadores devem
se munir também de instrumentos metodológicos de qualidade, não basta apenas ter um stock
de documentos, é preciso estabelecer uma análise de cada documento em particular.

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teoria e métodos da história ii

O foco da nova História realmente é outro, os historiadores se interessam mais pela periferia
em vez do centro, trabalham com marginais, desviados, feiticeiras, prostitutas, excluídos, enfim.
A noção de real é ampliada, pois o imaginário, os sonhos coletivos, as construções ideológicas
passaram a compor as obras dos historiadores, trabalha-se com o vivido e com o imaginado.

Seção 2.2

O Cotidiano na História

O cotidiano na História apresenta-se como mais uma possibilidade de entendimento dos


sistemas históricos, aparece como um dos novos objetos de investigação. Vamos nos basear em
Jacques Le Goff (1986) e em Agnes Heller (1996), pois estes dois autores, embora de escolas muito
diferentes, nos dão perspectivas importantes para tentarmos mapear algumas possibilidades de
entendimento do cotidiano na História.

O texto de Le Goff (1986), sob o título “A história do cotidiano”, é fundamental para a


análise feita na Escola dos Annales e a influência desta na nova história. Já o livro de Agnes
Heller (1992) “O cotidiano e a história”, marca a influência da historiografia alemã nos estudos
históricos contemporâneos.

Jacques Le Goff inicia o texto afirmando que o cotidiano já tem uma história, embora
somente na atualidade ele apareça com mais destaque no campo da historiografia. Já no fim
século 18 alguns livros faziam referências aos usos e costumes, à vida privada e outros temas
relacionados. Esta perspectiva histórica nasceu como a pequena história da necessidade de se
criar um contraponto para os fatos da grande história, era uma possibilidade de dar lugar na
história aos homens sem qualidade, do gosto por um certo exotismo.

Esta perspectiva já era encontrada na obra de Heródoto na Antiguidade e mais tarde nas
obras de Voltaire, o qual tentou situar o cotidiano no centro da História. As tentativas quase que
isoladas de se referir ao cotidiano resultaram de uma perspectiva de se trabalhar com a cultura.
Mais tarde isso voltaria na história antropológica.

A história do cotidiano vem aparecendo há algum tempo entre os historiadores, estando


na moda entre o público leitor que se interessa por essa visão da História, apontada como um
dos novos interesses nesta área. Convém salientar que realmente a história do cotidiano tem
como foco as pessoas comuns, pois os instrumentos de trabalho são os mais variados possíveis
e procura-se por toda a parte indícios de vivência destes povos.

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EaD
Ivo dos Santos Canabarro

Um exemplo clássico é a arqueologia, que atualmente se interessa muito mais pelos objetos
dos populares do que pelos grandes monumentos. Pode-se observar que as escavações arqueo-
lógicas interessam-se pelos bairros habitacionais, pelos instrumentos de trabalho, os utensílios,
o mobiliário das pessoas modestas, o ambiente familiar e os jogos populares; os historiadores
estão centrados na estética dos objetos da vida cotidiana.

O resgate dos populares na história do cotidiano representa uma certa democratização da


História, Lucien Febvre já defendia o direito dos humildes à História, pois a expansão da cultura
popular contribuiu para aumentar os atrativos do estudo do cotidiano. Os estudos sobre o coti-
diano são influenciados pelo interesse da cultura material, da história das mentalidades, além
da psicologia coletiva. Tudo isso faz parte de uma nova concepção da História e no cotidiano
encontram espaços para estudar os lugares comuns e as sensibilidades difusas na sociedade.

É no cotidiano que se vive plenamente o corpo, tanto masculino quanto feminino, por isso
são estudadas as representações coletivas do corpo, a saúde, a doença, os exercícios físicos, a
sexualidade, pois é realmente no cotidiano que o corpo assume todo o seu significado.

Os estudos sobre o cotidiano são muito variados, alguns autores se interessam mais por
mostrar questões como a alimentação e sua importância, e por isso analisam a importância da
alimentação e do vestuário para algumas sociedades, considerando esses aspectos mais impor-
tantes que algumas questões ligadas à política e à administração.

Podemos observar que alguns autores trabalharam com os códigos de posturas, com as
maneiras de se portar à mesa, nos manuais de cortesia e de civilidade. Um grande historiador,
Michel Foucault, afirmou em algumas obras que o asilo, a prisão e os hospitais eram lugares
privilegiados para se compreender o cotidiano e suas devidas transformações, bem como os seus
sentidos.

Como podemos observar, os lugares cotidianos são os mais variados possíveis, não se res-
tringem ao espaço doméstico, mas segundo alguns autores são também o asilo, o hospital e outros
lugares de sociabilidade. As fontes igualmente são as mais distintas, a História quantitativa e a
História serial são utilizadas para os estudos sobre o cotidiano.

Jacques Le Goff faz a seguinte interrogação: “Mas o que é verdadeiramente esse cotidia-
no histórico?” A resposta é complexa, mas vamos tentar reproduzir algumas das considerações.
A primeira premissa do autor é indagar se o cotidiano é um domínio próprio da História, um
capítulo novo à nova História. Nesta História tradicional arrumada em gavetas, ele vem após
o econômico, o social, o político e o cultural, ele vem antes ou depois de tudo isso? Essa é uma
questão para os historiadores pensarem.

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EaD
teoria e métodos da história ii

Nas observações de Alphonso Dupront, o cotidiano é o verdadeiro “humus de que se ali-


menta a grande história”, isso já coloca o cotidiano como um nível da História. Ou ainda segundo
Claude Lévi-Strauss, uma roupagem mais sofisticada, a parte de frialdade que existe no seio de
toda a sociedade quente.

Os historiadores fazem muitas críticas a obras que levam o nome de cotidiano, mas que, na
realidade, não têm nada mais definido do que realmente sua dimensão histórica. Le Goff obser-
va que o cotidiano somente tem valor histórico e científico no seio de uma análise dos sistemas
históricos, os quais contribuem para explicar o seu funcionamento.

Um dos autores que melhor conseguiu explanar o cotidiano foi Mach Bloc, na sua obra
A sociedade feudal, mais precisamente no capítulo sobre as formas de sentir e de pensar. Há
muitas obras que levam o título, mas não conseguem expor sua definição, e o autor afirma que
uma verdadeira história do cotidiano deve ser bem conduzida, ou seja, deve ser uma história-
problema e não meramente descritiva.

A história do cotidiano leva sempre em consideração a memória, pois esta tendência é


diferente da grande história, uma vez que é no cotidiano que se revelam os sentimentos de du-
ração nas coletividades e nos indivíduos, o sentimento daquilo que muda e do que permanece.
A história do cotidiano não é uma fotografia da realidade, mas é uma representação, é mais uma
visão da história que atribui a cada ator e a cada elemento da realidade histórica um papel no
funcionamento dos sistemas que permite decifrar a realidade.

Para Agnes Heller (1992) o cotidiano é apresentado como um lugar de vivências nos
sistemas históricos. Vamos citar algumas considerações da autora para melhor entendermos o
seu posicionamento, lembrando que ela pertence à historiografia alemã, um pouco diferente da
Escola dos Annales, na França. Heller faz a seguinte afirmação:

A vida cotidiana é a vida de todo o homem. Todos a vivem, sem nenhuma exceção, qualquer que seja
o seu posto na divisão do trabalho intelectual e físico... A vida cotidiana é a vida do homem inteiro;
ou seja, o homem participa da vida cotidiana com todos os aspectos de sua individualidade, de sua
personalidade. Nela colocam-se em funcionamento todos os seus sentidos, todas as suas capacidades
intelectuais, suas habilidades manipulativas, seus sentimentos, paixões, idéias e ideologias... A vida
cotidiana é, em grande medida, heterogênea; e isso sob vários aspectos, sobretudo no que se refere
ao conteúdo e à significação ou importância de nossos tipos de atividades. São partes orgânicas da
vida cotidiana: a organização do trabalho e da vida privada, os lazeres e o descanso, a atividade social
sistematizada, o intercâmbio e a purificação (p. 17-18).

Segundo as observações de Agnes Heller, o cotidiano é um espaço configurado por suas


atividades e interações. A autora situa precisamente o campo de atuação do homem no cotidia-
no e isso nos auxilia a entender algumas perspectivas mais pontuais sobre o cotidiano. É im-

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portante ressaltar, porém, que existem muitas críticas às obras que se intitulam cotidiano, mas
não apresentam uma definição mais precisa que daria uma possibilidade de entendermos essa
nova dimensão da História no campo da historiografia contemporânea. Cabe lembrar que é na
França que os estudos mais significativos são realizados. No Brasil a coleção História da Vida
Privada colocou como subtítulo em seu primeiro volume o termo cotidiano, talvez para revelar
uma tendência no Brasil também.

Seção 2.3
A História Cultural

A História Cultural aparece na historiografia como uma expressão que valoriza todas as
dimensões da cultura, ou seja, aborda toda a diversidade cultural existente nas sociedades,
tanto as do passado quanto as do presente. A historiografia tem mostrado que a especificidade
da História cultural ainda é muito complexa quando pensada nos esquemas tradicionais, pois a
cultura perpassa todas as dimensões de vivências, o que torna difícil isolá-la em um determinado
campo do conhecimento.

Também não poderia ser classificada como uma disciplina isolada, pois o cultural pode ser
entendido como um campo multi e interdisciplinar. Alguns historiadores defendem a ideia de
que é possível definir alguns objetos culturais, não sendo aquilo que sobra das demais dimen-
sões, porque o cultural abrange todo o fazer humano, portanto algo bem complexo de definir
e de colocá-lo num campo isolado. Sendo assim, o cultural faz parte de todas as dimensões de
vivência, devendo ser estudado integrado aos demais campos.

O cultural é por excelência complexo, restando impossível a separação de cultura e Histó-


ria, mas tem se procurado nestes últimos anos uma possibilidade de mapeamento das práticas
culturais e suas apropriações nas distintas sociedades. Os primeiros historiadores a trabalhar com
História Cultural procuraram fazer uma aproximação com a História Social e com a História das
Mentalidades. Neste sentido apresentaram uma série de novos objetos e temas, desde a história
do cotidiano até as abordagens feitas por Michel Foucault.

Todas estas novidades começaram a ser chamadas de nova História Cultural. A segunda
tendência procurou trabalhar com uma História Cultural mais voltada para os estudos sobre as
práticas e representações sociais, aproximando o social do cultural com a linguagem.

A História Cultural tem muito mais interesse em abordar uma noção de cultura plural,
ou seja, trabalhar com a diversidade, aproximando-se da nova História e do cotidiano, pois tem
pretensão de pesquisar mais a cultura popular do que a cultura clássica.

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teoria e métodos da história ii

Para alguns historiadores a História Cultual tem como foco principal trabalhar com todos
os produtos intelectuais, mentais e espirituais de determinada sociedade. Outros já defendem
a ideia de que também deveria trabalhar com a cultura material, com todos os objetos materiais
produzidos nas sociedades. A cultura material geralmente é trabalhada pelos arqueólogos e mu-
seólogos; sendo assim, o historiador deveria obter conhecimentos mais específicos para trabalhar
com esses objetos culturais.

Faz-se faz necessário, todavia, pensar o cultural inserido na dimensão do social. Essa
abordagem causa um grande debate e mesmo críticas à História Cultural, que para alguns, es-
taria deixando de lado esta perspectiva. Muitos historiadores da História Cultural criticam essa
omissão do social, originando-se, segundo eles, uma História Cultural alienada. Historiadores
como Jeanin, Hobsbawm, Chartier, além de Mandrou, Duby e Guizburg, compartilham a ideia
de que a História Cultural deve sempre levar em consideração as dimensões do social.

A questão da ideologia também se aproxima da História Cultural. Alguns historiadores de


tendência marxista defendem a ideia de que ela tomou o lugar da ideologia, pois já no caso da
História das mentalidades a ideologia parecia ter sido substituída por esta tendência.

A discussão parece ter uma outra dimensão, pois o que se analisa é se o ideológico pode
fazer parte ou não da cultura, mas ressalta-se que ele não é necessariamente sinônimo do cul-
tural. Esta também é a visão de historiadores da cultura e das mentalidades.

Encontramos historiadores que ainda fazem essa aproximação entre ideologia e cultura, mas
devemos estar atentos para não corrermos o risco de tratá-las como sinônimos. Os historiadores
marxistas são os mais críticos desta corrente, pois consideram fundamental uma abordagem
ideológica também nas dimensões da cultura.

Alguns historiadores da cultura incluem a questão da ideologia em suas obras, e muitos que
trabalham com os sistemas simbólicos estão mais próximos das ideologias. Os sistemas simbólicos
são alvo de observações de muitos historiadores da cultura; definições como valor simbólico, força
do simbólico, poder simbólico e materialidade do simbólico são expressões comuns utilizadas
para se estudar os fenômenos culturais de modo geral. Esse mesmo simbólico, no entanto, parece
ser um problema presente nos mais diferentes espaços do território cultural.

Não poderíamos deixar de lado as relações entre História Cultural e História Social, pois
existe, na realidade, uma série de tensões entre ambas. Alguns historiadores afirmam que a
própria História Cultural provém da História Social. Na realidade foi surgindo um conjunto de
tendências até se chegar à História Cultural, tais como: história vista de baixo, história da cultura
popular, entre outras, todas com intenção de trabalhar com o cultural, desta forma ficando cada
vez mais difícil reduzir a cultura ou o cultural à noção de ideologia.

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EaD
Ivo dos Santos Canabarro

Percebeu-se que aumentou consideravelmente o estudo das práticas culturais, bem como
tudo o que está relacionado à vida cotidiana e também à cultura material. A História Cultural vem
aos poucos mudando de método, passando de uma História quantitativa para a micro-história
e, neste sentido, procurando uma verticalização de seus objetos, na medida em que permite um
recorte mais específico e um maior aprofundamento.

A questão da linguagem aparece na oficina da História e na História Cultural com mais


força e os historiadores concordam que a linguagem é fundamental, mas nem tudo se reduz a
ela, ou seja, nem tudo é linguagem. A construção da realidade é basicamente simbólica, mas o
social não é totalmente constituído de símbolos. Nas observações de Falcon (2002), a História
Cultural tem uma tríplice abordagem:

1º – A antropologia social: a antropologia vem sendo cada vez mais utilizada pelos historiado-
res, uma verdadeira apropriação. Um dos antropólogos mais lidos é Geertz, que passou a
ser quase uma referência obrigatória entre os historiadores da cultura, principalmente suas
observações sobre a descrição densa ou espessa, sendo uma descrição da ação em contexto.
Geertz trouxe o problema da interpretação das culturas para o plano antropológico de análise
e tem fascinado muitos historiadores. Peter Burke vê com algumas restrições esse modelo
antropológico, mas julga necessário conhecer as interrogações e conceitos antropológicos
que são importantes para os historiadores. Por outro lado, Roger Chartier adverte que é
preciso fazer algumas restrições.

2º – A teoria literária: nesta tendência podemos encontrar como centro a questão da narrativa, a
qual aparece com frequência em textos de vários historiadores que discutem a importância
da narrativa e sua volta aos estudos históricos. Já nas observações de Jameson, o ponto de
vista literário revela uma tensão entre a análise daquilo que o texto significa e a análise
de como ele funciona, constituindo uma diferença entre interpretação e funcionamento ou
entre unidade e diferença. A linguística também aparece com um ponto fundamental, pois
os historiadores procuram superar a ingenuidade tanto quanto a transparência dos textos e
também compreender a análises dos discursos.

3º – O caso da política: os historiadores destacam a propensão a um certo retorno da política


aos estudos históricos. Segundo Roger Chartier, constitui-se um exagero essa reivindicação
de um lugar do político para a História, pois não se pode afirmar a radical autonomia do
político; não é o caso de substituir a chamada determinação econômica pela determinação
do político. Já para Rémond, existe a plausibilidade de mostrar tanto a especificidade do
político quanto sua relativa autonomia. Como vimos, duas posições diferentes.

A História Cultural tem seus objetos e métodos próprios é papel de cada historiador estabe-
lecer os seus no momento da pesquisa. Segundo as observações de G. Duby, a História Cultural
tem como proposta observar no passado, em meio aos movimentos de conjunto de uma civiliza-

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EaD
teoria e métodos da história ii

ção, os mecanismos de produção dos objetos culturais. Como podemos observar, é um trabalho
realmente relevante. Por sua vez, Jacques Le Goff observa alguns limites da História Cultural,
afirmando que esta carece de conceitos específicos e operatórios, aproximando-se da literatura
e da arte. Na realidade não se constituiu nem no domínio do quantitativo nem no qualitativo.

Quanto à questão dos objetos, podemos visualizar algumas possibilidades, conforme Fran-
cisco Falcon (2002, p. 99-100):

1º – Visões de mundo. Sistemas de valores e normas ligados às necessidades econômicas, sociais


e políticas da sociedade, sua influência sobre o conhecimento cotidiano, científico e artístico
e sobre as atitudes e os modos de vida.

2º – Política cultural. As concepções das diferentes classes e camadas sociais e dos diversos
movimentos e correntes.

3º – Atividades institucionais. Na difusão da cultura material e intelectual (ensino, edição, im-


prensa, rádio, TV, igrejas e organizações sociais; a língua como meio de comunicação).

4º – Intelectuais. Seu papel/função como difusores da cultura e sua realização/concretização.

5º – Ciência. Condições de existência, resultado e funções no cotidiano, no desenvolvimento da


sociedade, da consciência cotidiana e das ideologias.

6º – Literatura e artes. Condições de existência, resultados, funções e influência sobre a consci-


ência cotidiana, as ideologias, as atitudes e os modos de vida; a imagem da sociedade e do
homem e seus produtos.

7º – Cultura material e intelectual da vida cotidiana das diversas classes, camadas e grupos
sociais. Principais características.

8º – Tradição e inovação cultural de uma época. Valores que se transmitem ou que desaparecem:
período em que causa a evolução global de determinado povo e (ou) da humanidade.

Como podemos observar, os objetos são os mais variados possível, permitindo-nos mapear
todo o campo do cultural. No entendimento de G. Duby, a História Cultural deve se concentrar
nas observações em torno do conceito de “produção cultural”. Para ele o historiador deve dar
atenção ao conjunto da produção cultural e às relações que possam existir entre os aconteci-
mentos. Já para Le Goff a História Cultural deve estar próxima a uma Antropologia histórica,
devendo concentrar suas atenções nas histórias específicas das ciências, da literatura e das artes,
mas acima de tudo dever situar-se no interior de uma História mais global.

Para ilustrar os caminhos da História Cultural vou destacar três obras importantes que nos
auxiliam a entender melhor o seu surgimento e seus desdobramentos. A primeira delas é a obra
de Lynn Hunt, A nova história cultural, (1992), uma das primeiras obras de História Cultural

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Ivo dos Santos Canabarro

traduzidas para o Português. Trata-se da Historia Cultural nos Estados Unidos e constitui-se em
uma coleção de textos, um deles de Roger Chartier. É considerado um livro clássico, pois aborda
desde as origens da História Cultural até os exemplos de casos.

O segundo livro é de Roger Chartier, A história cultural: entre práticas e representações


(1990). A obra foi lançada em Portugal e somente mais tarde chegou ao Brasil. O livro aborda a
versão francesa da História Cultural dando ênfase às questões relacionadas às práticas e repre-
sentações na História Cultural. Chartier é considerado um dos precursores da História Cultural
na França.

O terceiro livro é mais recente, de Peter Burke, Variedades da história cultural (2000). Esta
obra discute os desdobramentos da História Cultural, como diz o próprio título, e as variedades
dessa área de conhecimento.

No Brasil, a partir dos anos 90, a História Cultural começou a se propagar, principalmente
nos cursos de pós-graduação, em que foram criadas linhas de pesquisa nesta área. Uma das
precursoras da História Cultural no Brasil foi a historiadora já falecida Sandra Jatahy Pesavento,
iniciando a discussão na universidade e depois criando um grupo de estudos em História Cul-
tural, o qual conta atualmente com um grande número de adeptos e que promove a cada dois
anos um encontro nacional para discutir as tendências e trabalhos.

Algumas destas discussões estão sintetizadas na obra organizada pela autora, História
Cultural: experiências de pesquisa (2003). Esta obra é muito importante para a História Cultural
no Brasil, pois reúne uma série de artigos de vários historiadores brasileiros e suas concepções
sobre o cultural, salientado as suas experiências de pesquisas.

Nesta Unidade você pôde perceber algumas considerações sobre a nova História, o cotidia-
no e a História Cultural, todas tendências novas para a historiografia. E como são campos ainda
complexos, exigem um trabalho muito cuidadoso para sua efetivação como pesquisa histórica. A
começar pela nova História e sua importância fundamental para a renovação do conhecimento
histórico no sentido de trazer novos métodos para a oficina da História.

Esta tendência surgida a partir da Escola dos Annales na França conseguiu romper com
algumas perspectivas conservadoras no sentido de trazer para a História novas dimensões de
vivências dos atores sociais. A sua contribuição mais decisiva foi a ampliação da noção de fonte
documental, pois abriu-se para novas fontes, contemplando a diversidade de objetos estudados.
Já a questão do cotidiano na História é a tentativa de dar visibilidade àqueles que não tinham o
direito à História, os homens comuns que não eram contemplados no discurso histórico.

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teoria e métodos da história ii

É nesta perspectiva do cotidiano que se contempla essas dimensões dos populares, do coti-
diano de vivência de uma variada gama de atores e situações de vida que não estavam presentes
na grande História. Na realidade o cotidiano aparece como um verdadeiro contraponto desta
grande História. A terceira perspectiva é da História Cultural, uma tendência também recente
na historiografia, mas que já ocupa um espaço significativo nos estudos históricos.

Esta tendência está mais voltada a trabalhar com a diversidade cultural, com a cultura das
classes populares, em oposição a uma historiografia mais preocupada com a cultura clássica. Em
síntese, estes três campos estão mais interessados em trazer para o discurso histórico os atores
sociais que não tinham direito à História, o que é muito significativo para nós, historiadores.

Síntese da Unidade 2

Nesta Unidade procuramos iniciar seus estudos sobre a nova


História, o cotidiano e a História Cultural, todos pertencentes ao
novo campo da historiografia contemporânea. Os estudos sobre a
nova História revelam que esta nova tendência é um das formas de
expressão na historiografia que atualmente consegue abarcar uma
expressiva quantidade de obras que atendem os novos interesses
dos historiadores. Os estudos sobre o cotidiano contemplam uma
dimensão historiográfica que permite a inserção dos excluídos
na História, é um contraponto à grande e tradicional História. As
dimensões da História Cultural nos propiciam um entendimento
de todas as dimensões da cultura, com muita ênfase para a cultura
popular.

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Unidade 3

HISTÓRIA SOCIAL, MEMÓRIA E NARRATIVA HISTÓRICA

OBJETIVO DESTA UNIDADE

• Abordar questões sobre a História Social e seus desdobramentos, a importância da memória


para a construção do conhecimento histórico e finalmente as perspectivas da narrativa na
História.

AS SEÇÕES DESTA UNIDADE

Seção 3.1 – Dimensões da História Social

Seção 3.2 – Memória e História

Seção 3.3 – Narrativa e História: a construção da narrativa histórica

A História Social vem sendo ultimamente revisitada porque é considerada o princípio da


construção do conhecimento histórico. A História aborda os homens, portanto é fundamentalmente
social; as demais dimensões são decorrentes do social. As abordagens da História Social são as
mais variadas possível, com uma aproximação com a Sociologia e também com a Antropologia,
aproximando-se das Ciências Sociais para completar a sua abordagem.

A memória pode ser entendida como matéria-prima para a construção do conhecimento


histórico, principalmente a memória coletiva, que pode ser considerada uma possibilidade de
construção das identidades. Para os historiadores a memória é fundamental para a preservação
das identidades dos grupos, bem como dos acervos produzidos ao longo da História, que servem
como indícios para a construção do conhecimento.

A narrativa pertence ao gênero literário, e tem o seu próprio estatuto, mas nós, historia-
dores, a utilizamos para escrever a História e, nesse sentido, a entendemos como uma narrativa
histórica, a qual contempla algumas particularidades que vamos discutir nesta unidade.
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Ivo dos Santos Canabarro

Seção 3.1
Dimensões da História Social

As dimensões da História Social são muito amplas, pois contemplam a diversidade do


mundo social, dos grupos sociais e suas articulações em diferentes dimensões das experiências.
Já no fim do século 19 clamava-se por uma perspectiva mais social da História e alguns histo-
riadores criticavam a História política e pleiteavam por uma História mais coletiva, ou seja, que
contemplasse o mundo social.

No século 19 a História tinha uma influência muito grande de Ranke (História metódica),
e os historiadores criticavam que os escritos históricos se interessavam pelos grandes persona-
gens que se situavam em cima das montanhas. Os críticos de Ranke queriam uma História mais
ampla, que contemplasse toda a sociedade e não somente os grandes homens. O historiador
Frederick Jackson Turner dizia no século 19 que era preciso contemplar todas as esferas da ati-
vidade humana e que nenhum setor da vida social pode ser entendido isoladamente dos outros.
Isso já expõe a importância de se trabalhar com as articulações sociais que compreendem todas
as atividades humanas.

A proposta de uma História Social mais articulada surgiu no começo do século 20, pois em
1912 James Harvey Robinson já falava em uma nova História. Dizia ele que se trataria de uma
História interessada em todas as atividades humanas e trabalharia com as ideias da Antropo-
logia, da Economia, da Psicologia e da Sociologia, e isso já era um prenúncio de uma História
interdisciplinar.

Essas observações de Robinson constituíram críticas muito severas ao tradicionalismo da


História metódica, que era prática na época e foi somente na década seguinte que na França
surgiu a Escola dos Annales para dar uma resposta crítica à História metódica.

Foi realmente na década de 20 que a História Social teve sua maior mudança. Com o
movimento comandado por Marc Bloch e Lucien Febvre foi lançado um manifesto por um novo
tipo de História. Ambos fundaram a revista Annales d’Histoire Économique et Sociale (Anais de
História Econômica e Social), na qual faziam críticas severas aos historiadores tradicionais, prin-
cipalmente da Escola Metódica, e aos positivistas. Os historiadores opunham-se ao predomínio
da História política e clamavam por uma História mais social.

O objetivo da revista era publicar textos que abordassem uma História mais ampla e mais
humana, a qual iria abranger todas as atividades humanas e estaria menos preocupada com a
narrativa de eventos políticos e com os grandes personagens da História. Os historiadores dos
Annales estariam mais preocupados com as estruturas e não com os fatos, pois os metódicos
sempre escreviam sobre os fatos predominantemente políticos.

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teoria e métodos da história ii

Com os Annales a História Social adquire um novo status, pois passa a contemplar com
mais frequência a oficina da História, dos grandes acontecimentos e dando prioridade as grupos
sociais. Isso realmente mudou a perspectiva histórica, deixando de lado os grandes personagens.
Os grupos sociais foram destacados, seus traços particulares e as relações de dependência ou de
oposição que mantinham entre si.

Era realmente uma revolução para a História Social, a qual incorporou a noção de estrutura
em detrimento dos fatos isolados, até então o foco dos historiadores. No decorrer das gerações
dos Annales, porém, a História Social vai adquirindo novas configurações e com Ernest Labrous-
se é feita uma aproximação com a Economia, marcando a questão da interdisciplinaridade, tão
peculiar desta escola.

A História Social nessa escola não escapou à fragmentação dos objetos e dos campos, mar-
cando decisivamente seus rumos até a atualidade. Já na segunda geração dos Annales, Fernand
Braudel fez uma aproximação entre a História e a Sociologia, e defendia que ambas deveriam
ficar próximas, porque os praticantes das distintas correntes entendiam que deveriam tentar ver
a experiência humana como um todo.

A História Social vai muito além da França e adquire contornos significativos nos Estados
Unidos e também no Brasil. Os historiadores estão cada vez mais preocupados em mostrar as
relações entre esta e a teoria social, ou seja, é sempre fundamental uma base teórica muito con-
sistente. Nessa primeira metade do século 20, no entanto, a História Social sofreu transformações
em diferentes países. Cada vez mais os historiadores estavam se dando conta de que é um campo
fundamental para o entendimento das diversas dimensões de vivências.

As discussões são fundamentais para estabelecer um referencial teórico, na maioria das


vezes interdisciplinar, para dar conta desta dimensão do social. Estas discussões chegaram ao
Brasil ainda na primeira metade do século 20, e foi na obra de Gilberto Freire que esse debate
interdisciplinar ganhou maior evidência.

Gilberto Freire estudou nos Estados Unidos com o famoso antropólogo Franz Boas, e teve
a sua formação marcada pela interdisciplinaridade. Ele pode ser apresentado como sociólogo e
também como historiador social. Suas obras mais marcantes abordam a História Social do Brasil,
a maioria delas publicadas na primeira metade do século 20. Podemos destacar: Casa-Grande
e Senzala (1933), Sobrados e Mocambos (1936) e Ordem e Progresso (1955). Como historiador
social Gilberto Freire sofreu algumas críticas pelo fato de tentar generalizar alguns dados da
História regional de Pernambuco como sendo a História de todo o Brasil.

Sua obra mais conhecida, Casa-Grande e Senzala, tem repercussões até na atualidade, pois
trata da família patriarcal brasileira e o poder exercido dentro do engenho colonial. A crítica feita à
obra seria a falta de conflitos étnicos existentes no Brasil Colonial, os quais o livro não aborda.

Segundo Peter Burke (2002), a obra de Gilberto Freire é tão significativa que pode até ser
comparada com a de Fernand Braudel, pois ambos mantinham contato quando este trabalhava
na Universidade de São Paulo na década de 30.

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Ivo dos Santos Canabarro

Gilberto Freire foi revolucionário para sua época, pois já discutia questões relacionadas
com a história do idioma, história da comida, história do corpo, história da infância e história da
habitação, tudo isso articulado ao mundo social. Essa originalidade de Freire pode ser constatada
nas suas obras, consideradas pioneiras da nova História. Freire também foi inovador nas fontes
de pesquisa, utilizando jornais para escrever a História Social e adaptando a pesquisa social a
seus objetivos históricos.

O legado de Gilberto Freire é muito importante para o entendimento dos desdobramentos


da História Social no Brasil, mas é evidente que as críticas são posteriores às obras, pois naque-
le contexto historiográfico elas são consideradas pioneiras em sua abordagem. Este exemplo
de Gilberto Freire é fundamental para os desdobramentos da História Social no Brasil, pois as
grandes mudanças nesta perspectiva social foram realmente feitas na Europa.

Uma das obras mais clássicas sobre História Social é o trabalho de Norbert Elias (1939), no
livro O processo civilizador, no qual o autor aborda a questão dos refinamentos dos hábitos que
os tornariam sujeitos civilizados. A obra ainda é uma referência para os estudos nos dias atuais.
Por ser uma área interdisciplinar, a História Social influencia as demais áreas de conhecimento,
pois seu objeto, que é o mundo social, deve ser pensado a partir de várias perspectivas.

Podemos citar o caso de muitos antropólogos sociais, como Clifford Geertz (1980) e Mar-
shall Sahlins (1989), os quais adotaram uma dimensão mais histórica em seus estudos. Essas
perspectivas são recíprocas, pois na História Social muitos historiadores também usam dimensões
abordadas na Antropologia e na Sociologia. A partir destas perspectivas passou-se a empregar
expressões tais como: Sociologia Histórica, Antropologia Histórica e Economia Histórica, incor-
porando a história nestas áreas.

A História Social utiliza-se da teoria social para embasar as suas obras, mas essa teoria é
interdisciplinar, uma vez que as mudanças sociais também são objeto de estudo de antropólogos
e sociólogos. Com isso, cada vez mais se voltam as atenções sobre o mundo social, como objeto
de estudos articulados com as demais dimensões sociais. Os historiadores de todas as partes do
mundo estão interessados em transferir seus interesses de uma História política tradicional para
a História Social.

Nesse processo de mudança faz-se necessário observar que é na articulação da História


como a teoria que nós teremos os maiores ganhos em termos de historiografia, pois sem teoria
não conseguimos avançar para nenhuma parte e continuaríamos a praticar uma História tradi-
cional.

Alguns historiadores utilizam as teorias simplesmente para responder suas perguntas mais
imediatas, e não fazem uma reflexão mais aprofundada da sua importância como subsídio para
direcionar seus estudos. Outros estão mais comprometidos com uma reflexão mais consistente,
enriquecendo a prática da História, e isso pode ser constatado nas últimas gerações de histo-
riadores.

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EaD
teoria e métodos da história ii

O trabalho interdisciplinar vem se destacando em praticamente todas as áreas. Isso signi-


fica que historiadores, antropólogos e sociólogos devem procurar questões em comum em torno
dos objetos selecionados, deixando de lado a disputa de posições. Em alguns casos foi possível
detectar que essas aproximações interdisciplinares davam-se em momentos em que alguns se
apropriavam de conceitos já um tanto quanto ultrapassados em algumas áreas do saber, o que
significa que o diálogo necessita se aprofundar naquilo em que cada área tem de mais atual.

É importante salientar que os historiadores sociais não devem ficar circunscritos somente à
Antropologia e à Sociologia, precisam ampliar seu espectro teórico e sua metodologia no objetivo
de aprofundar os seus objetos de pesquisa. Uma outra aproximação possível seria a Geografia,
uma grande aliada da História, pois essa disciplina vem mudando muito nos últimos anos e
oferecendo novas perspectivas teóricas.

Os historiadores podem se apropriar de conceitos da Geografia tais como: a teoria do lugar


central, a teoria da difusão espacial de inovações ou a teoria do espaço social, todas elas muito
apropriadas para a História Social. Essa perspectiva interdisciplinar, todavia, é mais ampla do
que se possa imaginar. Podemos também contar com a teoria literária, que pode auxiliar historia-
dores, antropólogos e sociólogos a entender as convenções literárias dos seus textos, pois todos
atuam nesta perspectiva de produzir textos como resultado de seu trabalho.

A História Social é um campo muito amplo e já se encontra dividida em grupos segundo


os seus objetos de pesquisa. Podemos salientar dois amplos grupos, um deles mais interessado
em discutir as principais tendências dentro da área, e outro grupo com estudos de caso, geral-
mente objetos de menor relevância. O importante, porém, é salientar que a História Social sofreu
uma grande mudança já no começo do século 20 e com a Escola dos Annales, na década de 30,
essa mudança foi mais significativa, pois desbancou a História política do centro das atenções
e criou-se uma nova perspectiva da História Social. Aqui no Brasil essa virada foi sentida na
historiografia, pois muitos historiadores brasileiros tomaram contato com essas leituras ou foram
estudar no exterior e trouxeram essas novas perspectivas para a historiografia brasileira.

Seção 3.2
Memória e História

A memória é a matéria-prima para a construção do conhecimento histórico, como referencial


sobre o passado, tanto dos grupos quanto dos indivíduos, e conservar a memória é fundamental
para a construção da nossa identidade. Nas observações de Jacques Le Goff (1996) a memória
tem como propriedade conservar certas informações, remetendo-nos em primeiro lugar a um
conjunto de funções psíquicas, às quais o homem pode acrescentar impressões ou informações
passadas, ou que ele define como passadas.

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EaD
Ivo dos Santos Canabarro

Nesta definição Le Goff (1996) destaca com mais precisão a memória individual, mas po-
demos também defini-la como coletiva, ou seja, a memória dos grupos. O autor continua suas
afirmações observando que determinados aspectos do estudo da memória no interior de qualquer
uma destas ciências podem evocar de forma concreta traços e problemas da memória histórica
e social.

Nas análises de Pierre Nora (1997), o autor destaca essas diferenças entre memória e
História. O autor salienta que a memória é a vida, sempre carregada por grupos vivos, e que ela
sempre está em evolução, aberta à lembrança e ao esquecimento, sendo vulnerável a todos os
usos e manipulações. Nora faz as devidas comparações entre memória e História, considerando
que a História é a reconstrução sempre problemática e incompleta do que não existe mais. E por
outro lado a memória é um fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente, e a História,
uma representação do passado. A memória não se acomoda a detalhes que a confortam, ela se
alimenta de lembranças vagas, telescópicas, globais ou flutuantes, particulares ou simbólicas,
mostrando-se sensível a todas as transferências, cenas, censura ou projeções.

Nas observações de Maurice Halbwachs (2004), a memória emerge de um grupo que ela
une. Ou seja, há muitas memórias, tantas quantas for o número de grupos, sendo por natureza
múltipla e desacelerada, coletiva, plural e individualizada. A memória se enraíza no concreto,
no espaço, no gesto, na imagem e no objeto. E a História somente se ligaria às continuidades
temporais, às evoluções e às relações das coisas. O autor faz mais uma comparação, observando
que a memória é um absoluto e a História só conhece o relativo. Também observa que a memória
coletiva é um quadro de analogias, e é natural que ela se convença de que o grupo permanece
e permaneceu o mesmo porque ela fixa sua atenção sobre o grupo. O que mudou foram as rela-
ções ou contatos do grupo com os outros. A obra de Halbwachs é dedicada à memória coletiva
e à memória dos grupos.

A memória coletiva sempre foi posta em jogo, pois os grupos que a detêm sempre estão
ligados a disputas de poder. Desta forma pode-se perceber que foram se formando senhores
da memória e do esquecimento, sendo isso uma preocupação dos grupos, das classes e dos in-
divíduos que dominaram e continuam dominando as sociedades. Da mesma forma, também o
esquecimento e os silêncios da História são reveladores desses mecanismos de manipulação da
memória coletiva.

Fica evidente que o estudo da memória social é fundamental para abordar os problemas do
tempo e da História, pois a memória tanto pode permanecer em evidência como pode ser conde-
nada ao esquecimento. Nos estudos sobre a memória histórica é indispensável estar consciente
das diferenças entre as sociedades de memória essencialmente oral e as sociedades de memória
essencialmente escrita, pois ambas possuem diferenças fundamentais em suas concepções sobre
a História.

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EaD
teoria e métodos da história ii

A oralidade comporta elementos significativos da memória, mas com grande possibilidade


de se perder dados significativos para a construção da história. Isso pode ser constatado nas so-
ciedades tribais sem escrita, como no caso dos índios, em que a memória é preponderantemente
étnica. No caso dos escravos e seus descendentes também era predominante uma cultura oral e
atualmente encontra-se uma grande dificuldade para o reconhecimentos dos lugares de memó-
rias, como no caso dos quilombolas que lutam pelo reconhecimento de seus espaços.

O aparecimento da imprensa no mundo ocidental deu-se no século 19, pois na China ela
existia antes. Foi uma grande evolução para a memória, uma vez que as informações puderam
circular com mais facilidade, pois anteriormente os manuscritos tinham uma circulação mais
limitada e ficavam circunscritos a determinados grupos sociais.

Com o surgimento do texto impresso o leitor foi posto em presença de uma memória coletiva
muito ampla, explorando os escritos de diferentes formas, de acordo com sua visão de mundo.
Com isso foi possível ampliar também a memória individual, pois na imprensa o indivíduo poderia
se colocar como transmissor de um determinado conhecimento. No impresso pode-se conjugar
memória coletiva com memória individual, pois sempre representam de determinada forma o
que um grupo pensa a respeito da sociedade.

As definições do termo memória são bem mais antigas, uma vez que na Idade Média foi
criada a palavra mémoire, já no século 11. No século 13 surge o memorial (que dizia respeito a
contas financeiras) e em 1320, mémorie, no masculino, designando um “mémoire” ou seja, um
dossiê administrativo. A memória, contudo, adquire sua grande dimensão a partir da Revolução
Francesa (1789), pois foram criadas festas para celebrar os triunfos desta revolução na sociedade
francesa, e com isso os calendários evidenciavam os dias comemorativos que deveriam recordar
os dias festivos.

A partir da França foram expandidos para o mundo inteiro esses dias comemorativos dos
triunfos que marcaram os grandes acontecimentos políticos em cada país. As comemorações
ganharam novos instrumentos e suportes, tais como: moedas, medalhas, selos de correios, e no
século 19 toda a estatuaria, monumentos, placas de paredes, placas comemorativas e demais
adornos celebrando os grandes feitos ou homenageando os grandes homens que fizeram a His-
tória e que deveriam ficar guardados na memória.

O mais importante não foram os monumentos, mas principalmente os lugares da memória,


como os arquivos públicos e os museus, que seriam, a partir de então, os grandes guardiães da
memória. Foram criados na França os Arquivos Nacionais e o Museu do Louvre, estendendo-se
após pela Europa a criação, principalmente de museus, considerados lugares privilegiados da
memória coletiva.

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EaD
Ivo dos Santos Canabarro

Jacques Le Goff (1996) observa duas manifestações importantes nos séculos 19 e 20 de


celebração da memória coletiva. O primeiro, em 1840, foi o surgimento da fotografia, destacando
que esta revolucionou a memória, multiplicando-a e democratizando-a, dando uma precisão e uma
verdade visuais nunca antes atingidas, permitindo guardar a memória do tempo e da evolução
cronológica. O segundo momento ocorreu no século 20, com o fim da Primeira Guerra Mundial,
quando em vários países foi construído um túmulo ao soldado desconhecido.

No século 20 a utilização da tecnologia dá uma outra impressão à memória, primeiro com


o uso das calculadoras, que podem armazenar valores numéricos para a construção da História
serial, mas o mais revolucionário foi a introdução do computador, constituindo uma verdadeira
revolução documental, armazenando dados por meio da construção de bancos de dados.

O banco de dados passa a ser considerado um novo lugar de memória, pois consegue ar-
mazenar um número muito grande de informações essenciais para a construção do conhecimento
histórico. O uso da tecnologia, principalmente da informática, permitiu a ampliação do acesso à
memória, uma vez que os arquivos estão digitalizando os seus acervos, sendo possível acessar
a documentação sem necessariamente ir ao arquivo, garantindo ao pesquisador a possibilidade
de ampliar o seu uso das fontes.

Nesse cenário, é a memória coletiva que mais nos interessa para a construção do conhe-
cimento histórico, porque essencialmente ela é a memória dos diferentes grupos que compõem
a sociedade. A memória coletiva está ligada também às formas de comportamentos, às mentali-
dades, estando assim bem próxima da nova História que trabalha com esses domínios.

Busca-se também um trabalho interdisciplinar na medida em que se aproxima da Psicologia


e da Antropologia, pois trabalha-se com os povos selvagens que mantêm uma memória étnica
essencialmente oral e nesta perspectiva a Antropologia oferece um instrumental teórico bem
consistente. As pesquisas apontam para a necessidade de abordar o salvamento e a exaltação
da memória coletiva nos acontecimentos ao longo do tempo. Assim, busca-se essa memória nos
textos e nas palavras, nas imagens, nos gestos, nos ritos e nas festas, ou seja, é um direcionamento
do olhar histórico sobre estes objetos.

Nas observações de Pierre Nora (1997), existem verdadeiros lugares de memória onde
ela pode ser observada, vivida e pesquisada, tais como: arquivos, bibliotecas, museus, lugares
monumentais como os cemitérios, a arquitetura, lugares simbólicos como nas comemorações,
as peregrinações, os aniversários ou os emblemas, lugares funcionais como nos manuais, as
autobiografias ou as associações. Todos estes memoriais têm a sua história.

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teoria e métodos da história ii

Também não podemos esquecer os verdadeiros lugares da História, aqueles onde se deve
procurar a sua produção e os criadores e denominadores da memória coletiva, tais como: Estados,
meios sociais e políticos, comunidades de experiências históricas ou de gerações, levadas a cons-
tituir os seus arquivos em função dos usos diferentes que fazem da memória. As enciclopédias
também podem ser consideradas lugares de memória.

Le Goff (1996) observa que a memória coletiva faz parte das grandes questões das socieda-
des desenvolvidas e daquelas em via de desenvolvimento, das classes dominantes e das classes
dominadas, lutando todas pelo poder ou pela vida, pela sobrevivência e pela promoção. A me-
mória é fundamental para a construção das identidades, tanto individuais quanto coletivas. O
autor observa que a memória coletiva não é somente uma conquista, é também um instrumento
do poder. Para finalizar, observa que a memória cresce onde a História por sua vez a alimenta,
procura salvar o passado pra servir o presente e o futuro. Devemos trabalhar de forma que a
memória coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens.

Seção 3.3

Narrativa e História: a construção da narrativa histórica

A narrativa histórica perpassa por importantes discussões na atualidade. São vários pontos
de vista que abordam essa dimensão da escrita histórica. Muitos historiadores falam inclusive
na volta da narrativa e outros criticam, afirmando que ela sempre esteve presente no ofício do
historiador. A narrativa, antes de ser histórica propriamente dita, é um gênero literário.

Segundo definição constante no livro de Peter Sedgbwick, Teoria Cultural de A a Z (2003.


p. 228), “uma narrativa é composta de relações estruturadas entre coisas como os acontecimentos
narrados, a seqüência histórica em que eles aconteceram, a seqüência temporal apresentada na
narrativa, a perspectiva e o tom do narrador, a relação entre o narrador e seu público e atividade
do próprio narrador”.

Nesta perspectiva a narrativa apresenta as sequências das questões narradas. Para o histo-
riador é fundamental apresentar a temporalidade dos seus objetos. O historiador Roger Chartier
(1994) observa a diferença entre narrativa literária e narrativa histórica: a narrativa histórica se
distingue da literária porque nesta o autor imagina os acontecimentos e personagens, e naquela
o historiador baseia-se em provas e em indícios do passado. Em síntese, o historiador de certa
forma tem de provar o que ele escreve.

45
EaD
Ivo dos Santos Canabarro

É em Roger Chartier (1994), que vamos encontrar algumas respostas mais eficientes para
a questão da narrativa. Este autor observa que a História se inscreve na classe das narrativas e
identifica os parentescos fundamentais que unem todas elas, sejam reais ou ficção. A narrativa
histórica já discutida no polêmico texto de Lawrence Stone (O ressurgimento da narrativa: refle-
xões sobre uma nova velha história – 1991) é muito contestado por historiadores.

Chartier (1994) faz o seguinte comentário: A primeira permite considerar uma questão
mal colocada, o debate travado em torno do suposto retorno da narrativa, que para alguns teria
caracterizado a História nesses últimos anos. Como na verdade poderia haver um retorno ou
redescoberta onde não houve nem partida nem abandono. Essa crítica de Chartier é fundamen-
tal para o entendimento de que a narrativa nunca foi abandonada, ela sempre foi a forma de
expressão escrita na História.

Chartier (1994) observa que atualmente as narrativas têm mudado a sua abordagem em
detrimento das narrativas mais clássicas. Assiste-se nos dias de hoje à emergência das narrativas
biográficas e da micro-história, que são formas de narrativas mais particularizadas e não têm
mais as mesmas preocupações das grandes narrativas. Com isso o autor alerta que é importante
recuperar as propriedades específicas da narrativa histórica em relação às outras.

As narrativas estão organizadas em camadas de um discurso que compreende em si mesmo,


sob a forma de citações, que constituem efeitos da realidade, como materiais que fundamentam o
conhecimento histórico. As observações de Chartier (1994) são fundamentais para pensar a nar-
rativa histórica em sua especificidade separando-a da narrativa literária, mas o mais importante
é pensar que a narrativa nunca saiu da oficina da História, e o que agora se assiste é um novo
tipo de narrativa, não mais a metanarrativa (grande narrativa) e sim a narrativa mais próxima
da micro-história.

Jörn Rusen (2001) ressalta que o pensamento histórico, em todas as suas formas e versões,
está condicionado por um determinado procedimento mental de o homem interpretar a si mesmo
e seu mundo: a narrativa de uma história. O autor continua as observações afirmando que narrar
é uma prática cultural de interpretação do tempo, que a plenitude do passado torna-se presente
com a História, que pode ser caracterizada como uma narrativa.

Desta forma, a História torna-se passado/presente por princípio da narrativa, havendo sem-
pre uma lógica narrativa. O autor esclarece, ainda, que a narrativa foi concebida como um modo
de elucidação próprio à explicação histórica, portanto ela aparece como uma forma de expressão
do conhecimento histórico, tendo assim suas próprias formas de apresentação.

Rusen dá continuidade as suas afirmações destacando que o princípio da narrativa pas-


sou a ser um tema no debate teórico na História quando se tornou necessário levar em conta a
especificidade do pensamento histórico ao se tratar do padrão de racionalidade da explicação

46
EaD
teoria e métodos da história ii

científica. A narrativa pode ser reconstruída como modo de explicação; sendo assim, a análise
da narrativa evidencia que narrar é um tipo de explicação que corresponde a um modo próprio
de argumentação racional.

Desta forma, narrar passou a ser visto como uma prática cultural elementar e universal de
constituição de sentido expressa pela linguagem. A narrativa precisa ser concebida como uma
operação mental de composição de sentido e ponderada quanto a sua função constitutiva do
pensamento histórico.

O autor destaca a especificidade da narrativa histórica, afirmando que esta não é sempre
e basicamente histórica (histórico significa aqui que o passado é interpretado com relação à ex-
periência). A especificidade da narrativa histórica está em que seus acontecimentos articulados
narrativamente são entendidos como tendo ocorrido realmente no passado. Rusen incrementa
suas afirmações lembrando que para a narrativa histórica é decisivo que sua constituição de
sentido se vincule à experiência de tempo, de forma que o passado possa se tornar presente no
quadro cultural de orientação prática da vida contemporânea.

Para este mesmo autor, a narrativa histórica precisa superar-se como narrativa para poder
convencer como constituição histórica de sentido no horizonte das experiências modernas do
tempo. Em nossos dias a narrativa histórica só convence quando é significativa para a História.
Pode-se concluir que a narrativa aparece como uma forma de apresentação do conhecimento
histórico, nunca abandonando a oficina da História, apenas mudando de perspectiva, deixando
de lado as metanarrativas e transformando-se em pequenas narrativas mais próximas da micro-
história.

Síntese da Unidade 3

Nesta Unidade estudamos alguns desdobramentos da História


Social nos estudos históricos contemporâneos e pudemos perceber
que esta dimensão da História passou por várias mudanças desde
o fim do século 19 até a atualidade. A História Social é a primeira
dimensão da História, porque é a História dos homens, portanto
essencialmente social. Todas as demais dimensões surgem a partir
do mundo social. Também destacamos a importância de Gilberto
Freire como um dos grandes historiadores sociais brasileiros. Sua
obra foi pioneira nos estudos sobre os diversos atores sociais que
compõem o mundo colonial brasileiro. Continuamos as discus-
sões abordando as questões relativas à memória, principalmente
a memória social, a qual pode ser considerada matéria-prima

47
EaD
Ivo dos Santos Canabarro

para a construção do conhecimento histórico. A memória também


serve como elemento de constituição da própria identidade, ser-
vindo como uma forma de libertação da sociedade, pois devemos
construir a memória de todos os atores sociais comprometidos
nos processos históricos. E por último estudamos o ato de narrar,
ou seja, de constituição e apresentação do próprio conhecimento
histórico, pois a maioria dos textos históricos é apresentada sob
a forma de narrativa, mais especificamente de narrativa históri-
ca, a qual é diferente da narrativa literária, pois narra algo que
realmente aconteceu num determinado tempo e espaço, estando
comprometida com a experiência histórica.

48
Unidade 4

IMAGEM E HISTÓRIA, REPRESENTAÇÕES E MENTALIDADES

OBJETIVO DESTA UNIDADE

Abordar as dimensões sobre o uso das imagens para a construção do conhecimento his-
tórico, a importância das representações e a problemática das mentalidades na historiografia
contemporânea.

AS SEÇÕES DESTA UNIDADE

Seção 4.1 – Imagens Fotográficas e História


Seção 4.2 – O Mundo Como Representação
Seção 4.3 – A Mentalidade e a Historiografia Contemporânea

A utilização das imagens é procedimento muito recente na historiografia, uma vez que
elas geralmente eram empregadas para ilustrar o texto escrito. Atualmente elas são fontes, o que
significou uma grande revolução documental, pois as imagens conseguem retratar situações que
não estão contempladas nas fontes escritas e orais.

As representações são fundamentais para se pensar na História cultural. Os historiadores


afirmam que o próprio conhecimento histórico é uma representação, portanto elas constituem-se
como dimensões no próprio mundo social, o qual pode ser dividido entre práticas e representações.
Para finalizar, a questão das mentalidades é uma dimensão muito complexa da historiografia,
pois é um campo ainda sem uma definição precisa, mas que ocupa um lugar importante nos
estudos históricos contemporâneos.

Seção 4.1
Imagens Fotográficas e História
A fotografia como uma fonte visual começa a ser trabalhada com mais ênfase na França, a
partir da terceira geração dos Annales. Le Goff e Nora avançam nas discussões sobre os novos
problemas, as novas abordagens e os novos objetos, atribuindo à fotografia o caráter de fonte
documental e resgatando sua importância para o trabalho de reconstrução do passado. Ao mesmo
tempo, dá credibilidade às pesquisas realizadas sobre a história social da fotografia.
EaD
Ivo dos Santos Canabarro

Para Le Goff (1995b), a fotografia está entre os documentos essenciais para se fazer História,
por consistir em provas de que algo aconteceu. O autor observa que a fotografia permite conhe-
cer a riqueza da vida, mesmo sendo realista, porque o próprio realismo é também uma criação.
A fotografia representa uma inegável expressão do indivíduo, da face, do retrato e, também,
expressão da vida ordinária do camponês. A imagem mostra toda a riqueza do simples ato de
ver, por ser um texto visual que exprime a plenitude do humanismo. Le Goff finaliza salientando
que, se existem provas concretas do passado, a fotografia é uma delas.

O historiador Pierre Nora (1977) esclarece que, a partir dos anos 70 do século 20, o texto
visual, principalmente a fotografia, começava a fazer parte da escrita da História. O autor salienta
que o alargamento da História, propiciado pela “nouvellle histoire”, influencia na valorização do
arquivo visual. Paralelamente a isso, a ideia de testemunha passa a ser entendida como noção
de traço e o não escrito começava a dilatar o domínio da História.

Nora entende a fotografia como um instantâneo extraído do movimento permanente, uma


mostra representativa de uma realidade distante, um analogon do que foi o passado, uma relação
de descontinuidade decorrente de uma mistura de distância e de aproximação. Deste modo, cabe
ao historiador perceber o valor da diferença do que se apresenta e o movimento que continua a
existir. Naturalmente, esse é um longo trabalho que exige muita erudição na restituição de um
objeto histórico.

Apesar do entusiasmo de historiadores conceituados, tais como Le Goff e Nora, pouco


foi feito em relação ao emprego das fotografias para a construção do conhecimento histórico.
Em recente texto publicado na Revista Études photographiques (2001) com o sugestivo título
“L’histoire par la photographie”, os autores observam que têm sido realizados muitos trabalhos
sobre a história da fotografia, mas pouco se discutiu sobre a história pela fotografia, devido aos
raros pesquisadores que se dedicam à análise de arquivos fotográficos. Esta discussão também
está presente em algumas obras de historiadores brasileiros, os quais procuram salientar esta
diferenciação e/ou aproximação entre a história da fotografia e a história pela fotografia.

A historiadora Maria Inez Turazzi (1995) observa que, do ponto de vista historiográfico, a
fotografia enseja uma multiplicidade de temas pouco explorados. Salienta que tanto no Brasil
quanto no exterior a maioria das coletâneas de fotos relaciona-se a algum tema específico, pre-
dominando os trabalhos em que a fotografia é o próprio objeto de pesquisa. A autora prossegue
sua análise enfatizando que a escassez de estudos sobre a história da fotografia no Brasil dificulta
o desenvolvimento de novos trabalhos historiográficos.

Nesse contexto, Turazzi argumenta que a falta de pesquisas nesta área específica dificulta
a tarefa do historiador em realizar a contextualização das fotografias e em estabelecer as relações
com outros aspectos da vida social. Consequentemente, torna-se difícil escapar das abordagens

50
EaD
teoria e métodos da história ii

compartimentadas, isto é, baseadas no ordenamento espacial, cronológico ou onomástico. Para


a autora, essas tendências seriam complementares, na medida em que auxiliam o trabalho de
contextualização da imagem.

As observações de Turazzi, feitas no início da década de 90, referiam-se a um conjunto


de obras disponíveis naquele período, contudo atualmente este quadro alterou-se com as novas
publicações, tanto no Brasil quanto no exterior.

Outros autores brasileiros que trabalham com fotografias apontam as limitações e as difi-
culdades neste domínio específico. Segundo Kossoy (1989), é necessário o estabelecimento de
algumas diferenças teóricas, relativas aos objetos de investigação da história da fotografia como
na história através da fotografia. No primeiro caso, o autor salienta que é um estudo sistemático
da fotografia como um meio de comunicação e expressão em seu processo histórico. Afirma que é
importante conhecer os artefatos representativos dos diferentes períodos, a tecnologia utilizada e
os estilos e tendências de representação vigentes em um certo momento histórico. Também con-
sidera fundamentais as circunstâncias ligadas ao processo que originou a imagem, além do seu
uso enquanto testemunho visual, em suas diferentes aplicabilidades ao longo de sua história.

No segundo caso Kossoy observa que a história pela fotografia é o emprego da fotografia
do passado nos diferentes gêneros da História, e mesmo em outras áreas das ciências, nas quais
os pesquisadores venham a se utilizar desta fonte plástica como instrumento de apoio à pesquisa
e de conhecimento visual do passado.

Kossoy salienta que as duas distintas vertentes de investigações têm em comum a utiliza-
ção dos “próprios documentos fotográficos” como fontes básicas para a pesquisa. Neste sentido,
entrecruzam-se respeitando, obviamente, os objetos específicos de investigação de cada uma
das vertentes.

O emprego da fotografia para a construção do conhecimento histórico é também um dos


objetos de pesquisa da historiadora Ana Maria Mauad em um de seus artigos denominado Atra-
vés da Imagem (1996), no qual questiona a relação da História com a fotografia. A autora aponta
dois caminhos para discutir a questão. O primeiro seria tomar a direção da história da fotogra-
fia, salientando que, recentemente, além de inventariar os processos de evolução das técnicas,
tem-se buscado compreender a inserção social da imagem. Para tanto Mauad analisa o que se
convencionou chamar de “circuito social da fotografia”,1 observando que este compreende todo
o processo de produção, circulação e consumo das fotografias. O segundo caminho sinalizado
por Mauad vai no sentido de compreender o lugar da fotografia na História.

1
Para maiores detalhes sobre o circuito social da fotografia pode-se consultar a obra organizada por: Fabris, Annateresa. Fotografia (Usos
e funções no século XIX). São Paulo: Edusp, 1988.

51
EaD
Ivo dos Santos Canabarro

Entende-se, portanto, que a fotografia se insere em um determinado momento da História e,


ao mesmo tempo, serve como fonte para a sua reconstituição. Neste viés About e Chéroux (2001)
concebem que, teoricamente, a História poderá cruzar a fotografia, pois esta é constitutivamente
histórica, dando uma forma tangível aos fatos e registrando elementos do passado, isto é, um ar,
um gesto, um olhar, uma tensão, que os outros documentos dificilmente contemplam. Na pers-
pectiva de que a História pode cruzar a fotografia, faz-se necessária a percepção deste duplo
sentido de orientações da história da fotografia enquanto suporte para a história pela fotografia.
Essas, antes de tudo, são vertentes complementares que recorrem à fotografia como fonte visual
e estabelecem especificidades em termos de problematização do objeto de estudo.

As atuais discussões e produções sobre a história social da fotografia ultrapassam os limites


de uma história da fotografia que visava apenas ao conhecimento das técnicas, à importância
de alguns fotógrafos, aos artefatos da imagem e outras observações muito específicas sobre a
mesma. Pode-se contar com uma série de obras de historiadores que investigam a fotografia
inserida socialmente, situada em seu contexto histórico de pertencimento.

Autores franceses como Michel Frizot, André Gunthert, Michel Pouvert, Georges Didi-
Huberman, Clément Chéroux, André Rouillé, dentre outros, procuram investigar a fotografia
como um produto social, considerando as mediações entre a imagem e a sociedade e a maneira
pela qual a fotografia retrata a sociedade e as relações sociais.

A configuração de uma história social da fotografia perpassa pela compreensão de que,


em primeiro lugar, a fotografia é um produto social e a sua construção pelo fotógrafo revela as
demandas de diferentes grupos sociais. Estes mesmos grupos podem utilizar-se da fotografia para
divulgar e legitimar o seu poder em um determinado momento e como forma de divulgação e de
imposição de representações sociais, sendo estas matrizes para as práticas sociais, que podem
interferir na construção de modelos ideais de comportamentos a serem seguidos pelos demais
grupos de uma sociedade.

Esta forma impositiva de legitimação das representações, por intermédio das fotografias,
serve também como um meio importante para a constituição da identidade, tanto individual
quanto coletiva.

Frizot (2001), a partir de análises realizadas em várias obras, delineia a história social da
fotografia, separando-a da história da arte. O autor pondera que a história da arte foi construída
com nomes de grandes artistas, definindo tendências quase generalizadoras. No caso da história
da fotografia, de acordo com ele, é preciso voltar a pesquisar informações mais consistentes a
respeito da vida dos fotógrafos, recolher as imagens não apenas como uma vaga colocação delas
no mundo e procurar saber as motivações e as intenções presentes no momento da produção
das imagens.

52
EaD
teoria e métodos da história ii

Este historiador (2001) define a fotografia como um documento e, especificamente, um


documento histórico, pois pode ser datada e constituída com as particularidades do instante
de tomada; neste sentido, representa um fragmento da História geral e um índice provante. O
autor observa que, para alguns, a fotografia é uma visão objetiva do mundo, uma maneira de
inventariar, enquanto para outros é uma visão totalmente subjetiva, e o fotógrafo é visto como
um artista que compõe a fotografia com a realidade e desta se apropria a fim de melhor mostrar
a si próprio.

Além disso, Frizot (2001) enfatiza que é preciso desacreditar esta dicotomia documento/
arte para melhor insistir a respeito da variedade das práticas e sobre os usos intencionais que
sustentam a produção de fotografias.

O mesmo autor acredita que, para melhor entender a história social da fotografia, é preci-
so, num primeiro momento, reconstruir a história dos fotógrafos, situando a obra destes em seu
tempo, não apenas enquanto continuidade, mas com certa arqueologia de toda a produção, a
tecnologia empregada e a linguagem fotográfica de cada época.

É necessário também perceber as implicações e as ações dos fotógrafos em um determi-


nado momento, no sentido de observar como a sociedade, em sua totalidade, é implicada pela
fotografia e como os fotógrafos selecionam ou exacerbam as modalidades de ser dos atores sociais
ou das situações fotografadas.

Frizot (2001) também considera que a análise da imagem fotográfica depende de uma outra
mediação, estabelecida individualmente e definida por cada autor, manifestando um ponto de
vista que é histórico, confrontando o olhar do fotógrafo e do espectador em suas diferentes varia-
ções temporais e espaciais. Nesse sentido, adentrando no campo de análise das representações
visuais, as quais podem apresentar diferentes significados ao longo de sua historicidade.

A noção de cultura fotográfica ainda é uma discussão muito recente no Brasil, tanto entre os
historiadores quanto entre os demais cientistas sociais que trabalham com imagens fotográficas.
Diante disso, é um grande desafio propor este estudo específico sobre esta noção, ao mesmo tempo
que se espera contribuir para o entendimento das múltiplas formas de expressão da cultura.

As primeiras discussões, iniciadas por Maria Inez Turazzi (1998) em seu texto Uma cultura
fotográfica destacam que a cultura fotográfica é uma das formas de cultura, evidenciada pelo
argumento de que a fotografia foi e ainda é um recurso visual importante e eficaz para a forma-
ção do sentimento de identidade, tanto individual quanto coletiva. É também um dos meios que

53
EaD
Ivo dos Santos Canabarro

materializa a “visão de si, para si e para o outro” e uma visão do outro e de nossas diferenças.
Nas constatações da mesma autora, a cultura fotográfica é uma das formas de cultura2 inserida
em uma dimensão maior do universo cultural.

A mesma autora entende que a cultura fotográfica constitui-se em diferentes dimensões,


possuindo um alto grau de complexidade, a começar pelos produtores da fotografia. Turazzi
(1998) afirma que a mesma cultura refere-se a toda bagagem profissional dos fotógrafos, podendo
incluir os equipamentos, as escolhas formais e estéticas e as diferentes tecnologias empregadas
na produção da imagem. Neste momento das argumentações, pode-se aproximá-la da concepção
de Michel Frizot (2001), que destaca a importância de se fazer uma certa arqueologia da obra
dos fotógrafos, situando-a em uma determinada temporalidade.

A cultura fotográfica também revela a importância da fotografia como uma prática social,
incorporada há mais de um século e meio ao modo pelo qual se representa o mundo e a nós
mesmos. Salienta-se que esta cultura tornou-se parte importante da experiência visiva moder-
na. A mesma autora ainda argumenta que uma cultura fotográfica se expressa nos usos e nas
funções da fotografia, na construção das representações imaginárias associadas ao conteúdo ou
na utilização dessas imagens em uma sociedade.

A complexidade da cultura fotográfica está relacionada à diversidade dos atores sociais


que a produzem. Sobre isso Turazzi alerta que essa forma de cultura não pode ser compreendi-
da apenas pelas figuras de fotógrafos importantes, mas por profissionais de diferentes espaços
e temporalidades. Esta cultura não se restringe às imagens de lugares consagrados, tais como
arquivos, museus, jornais ou grandes coleções privadas.

A cultura fotográfica de uma sociedade forma-se pela incorporação da fotografia em todos


os domínios da vida social, ou seja, no artesanato popular, nas crenças religiosas e políticas, nas
sociabilidades familiares, urbanas e outras, enfim, comporta toda a produção fotográfica de uma
sociedade.

A cultura fotográfica pode ser compreendida como uma modalidade da cultura que par-
ticipa diretamente na construção da memória, tanto individual quanto coletiva. Assim sendo,
a fotografia apresenta-se como elemento privilegiado para a materialização da memória, pois
segundo Jacques Le Goff (1996), ela possibilita a multiplicação e a democratização da memória,
conferindo precisão e verdade que as demais fontes não conseguiriam. Como suporte da memória,

2
Importante observar que a expressão uma das formas da cultura é, ao mesmo tempo, uma possibilidade de entender as variedades
culturais presentes em toda a sociedade. Para maior esclarecimento conferir Peter, Burke. Variedades da história cultural. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2000.

54
EaD
teoria e métodos da história ii

as coleções fotográficas são fundamentais para a construção e preservação da memória coletiva.3


Assim, toda a produção imagética constitui um patrimônio cultural que permite conhecer as
singularidades dos grupos retratados.

O trabalho de preservação da memória coletiva no Noroeste do Rio Grande do Sul pode ser
constatado nas coleções fotográficas e demais documentos do acervo do Museu Antropológico
Diretor Pestana (MADP). Nesse local estão alocados diferentes arquivos, que comportam tanto
fontes visuais quanto verbais, as quais revelam questões significativas para a construção da
historiografia do RS. O arquivo da imagem e do som abriga coleções fotográficas, documentos
audiovisuais e depoimentos orais, ou seja, grande parte das novas fontes de pesquisa. Nesse
arquivo estão alocadas as coleções Família Beck e Eduardo Jaunsem.

A Coleção Família Beck é constituída por negativos e imagens que foram produzidas desde
a chegada da família na região, em 1896. O MADP iniciou a organização da coleção a partir de
1982, inicialmente adquirindo parte dos negativos em vidro da produção da família; mais tarde
o fotógrafo Alfredo Adolfo Beck fez doação, ao referido Museu, de grande parte do material uti-
lizado desde que seu pai, Carlos Germano Beck, iniciou o trabalho como fotógrafo.

Assim, foram doados equipamentos fotográficos, dentre os quais câmaras, material utiliza-
do para a revelação, químicos, objetos utilizados no laboratório, material bibliográfico e alguns
utensílios pertencentes ao atelier da família. Com a morte de Alfredo Adolfo Beck, em 2003, a
família doou algumas imagens que faziam parte de seu acervo particular. A coleção conta com
aproximadamente 10 mil negativos, a maioria em vidro e parte em celulose, imagens reveladas
(7.500) e muitos negativos ainda não revelados, o que vai aumentar significativamente o número
de fotografias.

A Coleção Eduardo Jaunsem começou a ser organizada pelo MADP no final da década
de 70 e constitui-se em negativos e imagens produzidas a partir de 1914 no Brasil. A doação ao
Museu foi feita aos poucos. Em 1978 ocorreu uma significativa doação de 2.626 negativos, a
grande maioria de vidro e alguns deste revelados, iniciando um projeto que visava à identifica-
ção das imagens.

Na década seguinte, em 1982 e 1983, o MADP realizou um projeto em parceria com a


Funarte, tentando recuperar as fotografias e os negativos dos fotógrafos que atuaram na cidade,
aumentando, nesses anos, o número de doações de material fotográfico. Em 1982 recebeu como

3
A importância da memória para a sociedade pode ser constatada no livro de: Bosi, Ecléia. Memória e sociedade: Lembranças dos velhos.
São Paulo: Compainha das Letras, 1994, no qual a autora procura discutir a construção social da memória, situa o papel dos velhos
nesta construção que pode trazer importantes contribuições para o entendimento da sociedade a partir de diferentes atores sociais.

55
EaD
Ivo dos Santos Canabarro

doação 618 fotografias de Eduardo Jaunsem, no ano seguinte, 1.339 negativos em vidro e 135
flexíveis, respectivamente. Atualmente estão catalogados 2.369 fotografias e 5 mil negativos
acondicionados de acordo com as normas técnicas de preservação.

Seção 4.2
O Mundo Como Representação

O mundo como representação é um conhecido texto de Roger Chartier publicado na França


em 1989 e posteriormente no Brasil em 1991. Este texto é um verdadeiro manifesto pelo uso das
representações no conhecimento histórico, ele insere-se em uma dimensão da História Cultural
que trabalha essencialmente com representações.

Os trabalhos que se utilizam das representações são interdisciplinares, pois a representação


faz parte do mundo social, sendo um objeto de estudo que interessa a muitos pesquisadores em
diferentes áreas das Ciências Sociais, mas é realmente na História Cultural que as representações
adquirem toda a sua plenitude, pois como matrizes das práticas sociais eles são fundamentais
para o entendimento do homem na sociedade. Muitas vezes na História Cultural elas aparecem
como representações sociais ou como representações simbólicas, seus significados são decifrados
no próprio mundo social.

A metáfora “o mundo como representação” é muito sugestiva para nós historiadores, pois
a partir desta afirmação podemos perceber que a representação faz parte do discurso histórico,
ela é uma forma de expressão de alguma coisa, tem a ver com a realidade, mas não é um retrato
fiel dela, portanto é uma forma de expressão de algo com a qual tem alguma correspondência.
Nesta perspectiva os historiadores argumentam que o discurso histórico é uma representação
porque ele não é exatamente como algo realmente aconteceu, serve mais como uma interpreta-
ção da realidade.

Esta perspectiva de entender o discurso histórico como uma representação é uma possibili-
dade de ver as questões mais subjetivas do conhecimento histórico, porque para a sua construção
é preciso de indícios (documentos), que são parciais, fragmentários, e nos concede uma visão da
realidade, pois não conseguimos recuperar tudo como realmente aconteceu.

Vamos explorar os detalhes do texto de Chartier (1991), pois se ele é tão famoso na Europa
vamos procurar entendê-lo em seus detalhes. A primeira constatação do texto é de que neste
cenário de crise das Ciências Sociais a História continua muito vigorosa, pois sempre está se
renovando, conseguindo novas alianças nesse processo de interdisciplinaridade. A História

56
EaD
teoria e métodos da história ii

sempre apresenta descobertas novas, novos objetos, novas abordagens, enfim, cada vez mais se
aproximando das dimensões de vivências dos atores sociais, construindo novos territórios para
o historiador.

Nesse cenário a questão da representação aparece com muita força, pois dentre os caminhos
apontados pelos historiadores foi assinalado que as práticas são produzidas pelas representações,
muitas vezes contrárias e em confronto, as quais dão sentido aos indivíduos e grupos. Sendo
assim, as representações conseguem trazer à tona a questão do sentido, pois o conhecimento
histórico sempre está em busca do sentido das coisas e mesmo dos discursos que são empregados
pelos historiadores.

A questão do sentido é perceptível na representação, pois o discurso histórico está sempre


em busca de dar sentido aos seus enunciados, a História está permeada pelas práticas e represen-
tações e isso constitui-se na essência do conhecimento histórico. É realmente no campo cultural
que as representações aparecem com maior evidência, pois os seus significados são plausíveis
de serem entendidos.

Ao lado das representações estão as apropriações. Sendo assim, Chartier (1991) observa que
a apropriação visa a uma História Social dos usos e das interpretações, referidas as suas deter-
minações fundamentais e inscritas nas práticas específicas que as produzem. Neste sentido, ao
mesmo tempo que se produzem as representações elas podem ser apropriadas por determinados
atores sociais. Os grupos com maior poder produzem representações mais fortes, que acabam
sendo incorporadas pelos demais grupos que não têm o poder.

Na História Cultural geralmente trabalhamos com as representações sociais e identida-


des, bem como com as representações simbólicas. As representações são subjetivas, ou seja, não
comportam um grau elevado de objetividade, estando estas próximas a uma história que trabalha
com os discursos.

Chartier (1991) destaca que as representações realmente têm força para impor uma deter-
minada forma de ver o mundo, e observa que as representações coletivas são como matrizes das
práticas construtoras do próprio mundo social. Afirma também que mesmo as representações
coletivas mais elevadas só têm existência e são verdadeiras na medida em que comandam atos.
Isso influencia diretamente na força das representações, pois realmente elas são importantes no
mundo social, capazes de comandar atos, ou seja, aquilo que era simplesmente uma represen-
tação passa a ser uma prática social.

O mesmo autor (1991) continua suas observações afirmando que as representações cole-
tivas são mais esclarecedoras que o próprio conceito de mentalidades, pois permitem entender
os significados das questões mais subjetivas vividas no mundo social. A representação também

57
EaD
Ivo dos Santos Canabarro

permite explicar melhor as práticas que visam a reconhecer uma identidade social, desta forma
os representantes, tanto de instâncias coletivas quanto indivíduos singulares, marcam de modo
visível e perpétuo a existência do grupo, da comunidade ou da classe.

É possível constatar que quem se representa de alguma forma possui um determinado poder
de se impor sobre os demais. Dessa forma a construção das identidades sociais são o resultado de
uma relação de força entre as representações impostas pelos que detêm o poder de classificar e
de nomear e a definição de aceitação ou de resistência que cada comunidade produz. Por outro
lado, essa questão do poder confere a representação que cada grupo possui de si mesmo, fazendo
reconhecer-se pelas suas representações e pelo seu poder na sociedade.

Esta questão do poder dos grupos em impor suas representações como sendo as mais ver-
dadeiras e legítimas sobre os demais grupos vai gerar uma verdadeira luta de representações.
Chartier (1991) afirma que ao trabalhar com as lutas das representações, cuja questão é o orde-
namento, portanto a hierarquização da própria estrutura social, e nesta perspectiva, a História
Cultural separa-se da História Social, formando um novo campo na História.

A História Cultural vai se dedicar mais às estratégias simbólicas que determinam posi-
ções e relações que cada classe estabelece para seus grupos na tentativa de construção de sua
identidade.

Chartier (1991), ao definir possibilidades de representações, vai recorrer ao “Dicionário


Universal de Furetière”, no qual encontra duas definições para a palavra representação, as duas
importantes para o discurso histórico. São elas:

1º – Por um lado a representação faz ver uma ausência, o que supõe uma distinção clara entre o
que representa e o que é representado.

2º – Por outro lado é a apresentação de uma presença, a apresentação pública de uma coisa ou
pessoa.

A primeira concepção é a mais significativa para o discurso histórico, porque a represen-


tação é o instrumento de um conhecimento mediato que faz ver um objeto ausente uma imagem
capaz de repô-lo em memória. Esta é a definição mais presente no discurso histórico, pois não
temos a coisa exatamente, temos uma ideia ou uma imagem que possa estar em seu lugar. Um
exemplo clássico seria uma fotografia: não temos o sujeito aqui na nossa presença, mas temos a
sua imagem, portanto toda a imagem é uma representação.

Um exemplo de ideia é quando consideramos que tais sujeitos, por serem favelados, são
marginais. Isso é uma representação, porque nem todos que vivem em favelas são marginais.
Uma representação simbólica que todos conhecemos é a cruz de Jesus Cristo: ela é o símbolo do
cristianismo. Algumas representações simbólicas são universais, outras são mais regionalizadas,
mas em todas as sociedades temos as representações, seja por ideias ou por imagens.

58
EaD
teoria e métodos da história ii

Para entendermos as representações é preciso entendermos também a cultura, porque em


cada cultura existem suas representações específicas, portanto seria na História Cultural que
encontraríamos os pressupostos para o entendimento das representações e seus significados.

Para alguns historiadores o discurso histórico é uma representação, para outros a História
contém representações, mas não se limita a elas. Esse é um debate muito polêmico na atualidade,
isto é saber se a História é ou não é uma representação. Vamos ficar na possibilidade de que a
História trabalha com práticas sociais e representações, portanto comporta representações, mas
não se limita a elas. Esta talvez seja a maior complexidade do discurso histórico na atualidade.

Seção 4.3
A Mentalidades e a Historiografia Contemporânea

O conceito de mentalidade é algo recente na historiografia, pois começou a ser utilizado


no começo do século 20 para designar os comportamentos e as atitudes coletivas. Este conceito
foi ampliado primeiro pela Antropologia para designar pejorativamente comportamentos consi-
derados primitivos, com toda uma perspectiva de comparar a mentalidade do homem primitivo
com a de uma criança.

Na historiografia esse conceito aparece mais tarde que na Antropologia, foi utilizado para
designar atitudes mentais de uma sociedade, valores, sentimentos, imaginário, medos, verdades,
portanto todas as atividades inconscientes de uma determinada sociedade. As mentalidades
estão bem mais próximas do cotidiano, são seus elementos culturais. As mentalidades estão
ligadas à longa duração, ou seja, elas mudam muito lentamente, quase não se percebe as suas
mudanças.

Com a Escola dos Annales as mentalidades começaram a ser trabalhadas pelos historiadores.
Desde o início da Escola apareceram os primeiros historiadores a trabalhar com as mentalidades,
como Lucien Febvre e Marc Bloch. Na década de 60 as mentalidades voltam a ocupar lugar de
destaque na Escola. Historiadores como Philippe Ariès, George Duby e Jacques Le Goff produzem
muitas obras sobre esta temática, abordando com mais ênfase o período medieval.

As obras destes autores procuram abordar as mentalidades de forma interdisciplinar,


aproximando-se da Antropologia e da Psicologia social. Realizam uma aproximação com a Etno-
logia para estudar as sociedades primitivas, numa dimensão que pode ser denominada de Etno-
história. Jacques Le Goff trabalha de forma bem interdisciplinar, aproximando as mentalidades
da Etno-história e também da Psicologia social.

59
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Ivo dos Santos Canabarro

Jacques Le Goff (1995b) faz uma análise bem minuciosa a respeito do campo das mentali-
dades, enfatizando que o próprio conceito de mentalidades é muito complexo para ser detalhado,
ele parece um conceito novo mas, ao mesmo tempo, já ultrapassado. O autor cita a obra pioneira
de Marc Bloch (Os reis taumaturgos), que abordou a mentalidade religiosa da Idade Média,
descobrindo uma gama de crenças, práticas, magias milenares, outras recentes nascidas no seio
de uma civilização. Enfatiza que o historiador deve aproximar-se do etnólogo visando a alcançar
o nível mais estável e mais móvel das sociedades. Trabalha com o estudo dos ritos, das práticas
cerimoniais, as crenças, os sistemas de valores. O historiador das mentalidades deve também
se aproximar do sociólogo para trabalhar com o coletivo, pois a mentalidade de um indivíduo
histórico é justamente o que ele tem em comum com outros homens de seu tempo.

O historiador das mentalidades também se aproxima da Psicologia Social, pois esta se


ocupa com as noções de comportamentos ou de atitudes que são essenciais para este campo de
trabalho. As mentalidades e a Psicologia Social trabalham com os estudos sobre a criminalida-
de, sobre os marginais, sobre os desviados nas épocas passadas, bem como com as opiniões e
comportamentos eleitorais. Tanto as mentalidades quanto a Psicologia Social trabalham com o
método da História quantitativa, permitindo entender as escalas de atitudes. Os historiadores
das mentalidades perguntam-se se ela se constituir como uma estrutura. A resposta é que a his-
tória das mentalidades situa-se no ponto de junção do individual com o coletivo do longo tempo
e do cotidiano do inconsciente e do intencional, do estrutural e do conjuntural, do marginal e
do geral.

Le Goff (1995b) observa claramente que o nível da história das mentalidades é aquele
do cotidiano e do automático, é o que escapa aos sujeitos particulares da história, é aquilo que
César e o último soldado de suas legiões, São Luís e o camponês de seus domínios, Cristovão
Colombo e o marinheiro de sua caravelas têm em comum. Le Goff discute o papel do historiador
das mentalidades enfatizando o seguinte:

A história das mentalidades obriga o historiador a interessar-se mais de perto por alguns fenômenos
essenciais de seu domínio: as heranças, das quais o estudo ensina a continuidade, as perdas, as rup-
turas (de onde, de quem, de quando vem esse hábito mental, essa expressão, esse gesto?); a tradição,
isto é as maneiras pelas quais se reproduzem mentalmente as sociedades, as defasagens, produto do
retardamento dos espíritos em se adaptarem às mudanças e da inegável rapidez em que evoluem os
diferentes setores da história. Campo de análise privilegiado para a crítica das concepções lineares a
serviço da história. A inércia, força histórica capital, mais fato referente ao espírito do que à matéria, uma
vez que esta evolui freqüentemente mais rápido que o primeiro. Os homens servem-se das máquinas
que inventaram conservando as mentalidades anteriores a essas máquinas. Os automobilistas têm um
vocabulário de cavaleiros; os operários das fábricas do século XIX, a mentalidade dos camponeses, seus
pais e avós. A mentalidade é aquilo que muda mais lentamente. História das mentalidades, história
da lentidão na história (1995b, p. 72).

60
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teoria e métodos da história ii

O estudo da história das mentalidades exige uma verdadeira revolução documental, pois é
necessário realmente garimpar nos documentos para encontrar as pistas que se constituem em
utensílios mentais. Os documentos são os mais variados possível. Le Goff (1995b) observa que
tudo é fonte para o historiador das mentalidades, desde documentos de origem administrativa
até aqueles de origem material, tais como: túmulos, monumentos, objetos de uso pessoal, ferra-
mentas de trabalho, ritos funerários, enfim, todos os textos e monumentos.

O método quantitativo parece ser bem importante para a história das mentalidades. Outras
fontes privilegiadas são as empregadas pela Psicologia Social. São documentos que testemunham
os comportamentos, os desvios de comportamento, tudo que pode esclarecer a mentalidade co-
mum dos atores sociais. Também os documentos artísticos e literários são fontes privilegiadas
para a história das mentalidades, principalmente as representações que compõem os diferentes
imaginários.

Os lugares para se imaginar as mentalidades são os mais diversos possível; desde a Ida-
de Média os palácios, os mosteiros, os castelos, as escolas, os pátios eram os centros onde se
forjavam as mentalidades. Mais tarde, com o capitalismo, o mundo popular também modela
mentalidades e na sequência as mídias eram lugares de difusão das mentalidades, as imagens,
as pinturas, lugares de divulgação destas. As mentalidades mantêm relações com as estruturas
sociais, em cada sociedade existem várias mentalidades. A coexistência de várias delas em uma
mesma época e num mesmo espírito é um dos dados delicados, porém essenciais, da história
das mentalidades.

Le Goff (1995b) enfatiza que a história das mentalidades não pode ser feita sem estar estrei-
tamente ligada à história dos sistemas culturais, sistemas de crenças, de valores, de equipamento
intelectual, no seio dos quais as mentalidades foram elaboradas, viveram e evoluíram. A história
das mentalidades é essencialmente coletiva, não se desliga das estruturas e da dinâmica social,
podendo ser considerada um elemento capital das tensões e lutas sociais. Existem mentalidades
de classe ao lado de mentalidades comuns. Apesar de a história das mentalidades se apresentar
com um caráter vago, ela encontra-se em via de se estabelecer no campo problemático da História,
e hoje desempenha o papel de uma História diversa, e consequentemente a ser construída.

A história das mentalidades no Brasil está sendo construída, mas são raríssimas as obras que
enfocam esta tendência. Um dos pioneiros foi Sergio Buarque de Holanda com a sua obra Visão
do Paraíso, publicada em 1959, a qual aborda a questão da colonização e os mitos e crenças que
os portugueses trouxeram para o Brasil. Já mais tarde, nos anos 80, foi lançada a obra de Laura de
Mello e Souza O diabo e a terra de Santa Cruz, a qual é uma obra de história das mentalidades.
Nela é abordado o cotidiano das pessoas que colonizaram o Brasil, trabalhando as representa-

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EaD
Ivo dos Santos Canabarro

ções de inferno e paraíso na colônia brasileira. Uma outra obra interdisciplinar que aproxima a
História da Antropologia é o trabalho de Lilia Moritz Schwacz com a publicação As barbas do
imperador, que aborda essa questão simbólica dos significados das barbas do imperador.

Síntese da Unidade 4

Nesta Unidade visualizamos as relações da fotografia como fonte


para a produção do conhecimento histórico. A fotografia, assim
como as demais imagens, foram utilizadas por muito tempo na his-
toriografia como ilustração do texto. As imagens são importantes
fontes para a produção do conhecimento porque elas nos permitem
adentrar no cotidiano dos atores sociais, nos revelam questões e si-
tuações inéditas que não aparecem nas fontes escritas. No conjun-
to das imagens as fotografias são fontes privilegiadas, pois revelam
os atores sociais em suas práticas e representações, portanto, suas
vivências e seu imaginário. As representações aparecem para dar
um novo contorno ao conhecimento histórico, pois muitos histo-
riadores afirmam que o discurso histórico é uma representação;
outros, porém, alegam que a História se utiliza de representações,
mas não se resume. As representações sociais são fundamentais
para o entendimento de como as diferentes sociedades estruturam
seus discursos, ou seja, a partir das práticas e das representações.
A história das mentalidades é uma das novas possibilidades de
se trabalhar com a parte mais sensível das sociedades e alguns a
definem como história das sensibilidades, pois tem como objetivo
trabalhar com os sentimentos coletivos, com as atitudes dos atores
perante a vida. As mentalidades são muito complexas para serem
trabalhadas, mas se mostram fundamentais para o entendimento
desta parte que não é abordada na historiografia mais tradicional.
As mentalidades situam-se na dimensão do cultural e nos permite
visualizar sensibilidades mais subjetivas.

62
Anexo

Algumas tendências da historiografia


no final do século 20

– Interrogações atuais dos historiadores:

1 – sobre as narrações orais e escritas;

2 – os indivíduos e sua cultura;

3 – as práticas ordinárias;

4 – o imaginário;

5 – o lugar das minorias na História.

– Os historiadores têm a necessidade de definir uma problemática, situação que vêm desde a
fundação dos Annales, com Lucien Febvre e Marc Bloch nos anos 30, pois foram quase pio-
neiros nesta tentativa de estabelecer uma história problema. Evidencia-se também a neces-
sidade constante da pesquisa arquivística e a utilização de novas tecnologias (por exemplo a
informática).

– Nos anos 90 – os historiadores profissionais dedicaram-se à escrita de muitas obras coletivas,


como: História da vida privada, História das mulheres, História dos jovens e outras, algumas
destas também realizadas no Brasil. Aumentou consideravelmente o número de revistas es-
pecializadas na reflexão sobre a História, inclusive no Brasil, onde a maior parte dos cursos
de Mestrado e Doutorado em História possuem suas próprias revistas.

– Os historiadores preocupam-se em estabelecer regras e interrogações científicas em relação


às outras Ciências Humanas e Sociais.

– Observa-se um retorno ao político – obras que trabalham com o imaginário político e as repre-
sentações.

– No final dos anos 90, o livro Passados Recompostos, de Dominique Julia e Jean Boutier, aborda
os novos rumos da historiografia:

1 – Novos objetos: atitudes coletivas e cultura, história do imaginário, mitologia e outros.

2 – Novas abordagens: análise das sociabilidades, dos lugares da memória, história do tempo
presente e outros.
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Ivo dos Santos Canabarro

– A questão da narrativa: a narrativa histórica emergiu fortemente na perspectiva de uma nar-


rativa científica – influência da linguística e de historiadores norte-americanos. Procurou-se
tirar a narrativa das margens das principais reflexões, influência de Paul Veyne, François
Dosse e outros.

– A questão do discurso: o discurso da História tem sido, nos últimos anos, objeto de uma verda-
deira discussão. Historiadores como Antoine Prost, Roger Chartier e Jacques Revel procuram
avaliar o sentido do estilo literário de algumas obras na historiografia, revelando-se uma influ-
ência bem significativa, pois as Ciências Sociais e Humanas preocuparam-se durante muito
tempo em constituir-se como “ciência”. Antoine Prost observa que a ciência histórica não diz
o verdadeiro sobre o real – mas sobretudo o verdadeiro sobre um real.

– Pensar o indivíduo na história

Os historiadores interrogam-se qual o local dos indivíduos na concepção da escrita da


História e observam que é difícil apresentar a função e o local dos atores sociais, a capacidade
do historiador de apresentar as práticas desses atores, suas representações e suas crenças indi-
viduais.

Nos anos 80 procurou-se entender o lugar do sujeito na História, tentando reafirmar o lugar
do político, do evento ou da biografia. Nesse propósito, Michel Foucault desenvolveu uma crítica
no sentido de entender a sociedade de maneira global. Foucault levou a pensar que o indivíduo
é um ser consciente, intencional, cujas ações podem ser descritas de forma coerente.

– A história é plural?

– Cultura e práticas sociais – por Roger Chartier

As representações do passado são preocupações presentes na obra de Chartier, que pertence


a um grupo que trabalha com História Cultural, uma História de apropriações, representações
e práticas sociais, uma História da construção dos significados.

Para Chartier, a História Cultural é o estudo das descontinuidades e das diferenças, é so-
bretudo inserida na própria historicidade. O autor entende a História como científica, a partir
de algumas constatações:

1 – A produção de objetos determinados: o historiador constrói sempre o seu objeto – o passado


não é um objeto de análise em si – é preciso construí-lo como tal.

64
EaD
teoria e métodos da história ii

2 – As operações: as operações significam que a História não se reduz a uma simples narração.
Existem operações específicas que vão da identificação e da construção das fontes, seu modo
de tratamento – serial – estatístico – micro-história – até o jogo de validação ou rejeição de hipó-
teses que permitam a interpretação. As operações são próprias do trabalho do historiador.

3 – As regras: as regras permitem controlar as operações evocando a ideia de um saber que é


considerado verdadeiro, partindo do princípio de que em um dado momento uma comunidade
aceita a validade ou invalidade de seus enunciados. O estatuto da História é resumido em:
produção de objetos, operações e regras de controle.

– História e representação – por Michel Vovelle

A história das representações insere-se nos anos 80 na história das mentalidades e no


começo dos anos 90 na História Cultural. A partir de numerosas fontes documentais procura-se
analisar as atitudes perante a vida, a família, a morte e a redescoberta dos sentimentos.

O conceito de representação foi empregado no começo do século 20 por Durkheim e Marcel


Mauss, os quais o introduziram no vocabulário sociológico. O emprego sistemático da noção de
representação pelos historiadores caracteriza uma etapa recente na pesquisa, a começar pelo
artigo de Roger Chartier (O mundo como representação – 1989), o qual apresentou-se como um
manifesto, e também na obra de Alain Corbain (1992).

Pelo viés da história das mentalidades, que teve início pelas obras de autores como Ge-
orges Lefevre, Marc Bloch, Lucien Febvre, Robert Mandrou, George Duby e Philippe Ariès, os
quais tratavam das representações coletivas mesmo que o termo não aparecesse em seus es-
critos. Desejavam compreender, além dos condicionamentos e das relações que regiam a vida
dos homens, a imagem que estes faziam, a atividade criativa que eles aplicavam em termos de
imaginário, o qual poderá condicionar as condutas humanas, reformulando a questão de fatores
determinantes de sua evolução.

– A história cultural por Alain Corbain

Para Alain Corbain é uma história que trabalha com os afetos, as emoções, as pulsões e
paixões, procurando entender as hierarquias sensoriais dos sistemas de percepção, de aprecia-
ção das emoções. A História Cultural, para este autor, também trabalha com palavras, imagens
e símbolos, ambiciona a reconstrução das práticas culturais em termos de recepção, invenção e
lutas de representações. Salienta a importância de Roger Chartier, que baliza e delimita o campo
de uma disciplina.

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– A palavra das pessoas ordinárias – por Arlette Farge

Arlette Farge trabalha com os arquivos judiciários, fazendo ressurgir a trajetória das pala-
vras de homens e mulheres ordinários, a violência, o sofrimento, a humilhação. Sua obra situa-se
no quadro da história das mentalidades, particularmente sobre a história da criminalidade, a
marginalidade, os pobres, as emoções populares, as formas de rejeição das normas. Trabalhou
com Michel Foucault, que lhe mostrou o rigor e a sensibilidade encontrados nos arquivos (A
desordem das famílias – 1982).

A autora constrói seus objetos a partir de palavras, os fragmentos das palavras, os compor-
tamentos, os microeventos. Para ela, algumas palavras são singulares, permitem reconstruir as
narrativas extravagantes, os desejos bem ordinários. Procurou perceber como o povo entra em
ação perante o momento revolucionário e como são pensados como sujeitos.

Farge trabalha com objetos pouco representados na História. Um dos problemas enfren-
tados é como articular o singular ao coletivo, como pensar esta articulação, que é histórica.
Procurou entender a questão do sofrimento físico e moral, tentando desvendar os mecanismos e
dispositivos que provocaram a violência, a continuidade da violência e o sofrimento das pessoas
ordinárias.

– Os atores na história por Antonie Prost

O autor alerta que não existe história sem atores. Os atores sociais produzem suas formas
de racionalidade e objetividade, cabendo ao historiador realizar a explicação histórica de como
os atores se interessam pelas representações que podem também justificar a conduta dos ato-
res. É necessário o entendimento de discursos e ações e suas ações diretas com o contexto de
pertencimento, como também a relação com a história pessoal (educação, profissão, etc.). Prost
observa que é preciso ter o entendimento dos caminhos diferentes entre as condutas coletivas e
as condutas individuais, pois existem ator singular e atores no plural. Cita alguns dos grandes
atores coletivos: a burguesia, os camponeses, a classe trabalhadora, etc.

– A emergência da micro-história por Giovani Levi

A micro-história apresenta-se como um verdadeiro laboratório de uma nova História So-


cial, cujos modelos se inspiram na etnometodologia e no interacionismo simbólico, que propõe
uma compreensão das sociedades a partir de estudos das práticas cotidianas e das relações entre
indivíduos.

– Como concebes o ofício de historiador atualmente? Por Jacques Le Goff

O historiador atualmente tem um triplo dever: a pesquisa, o ensino, e o que eu chamaria


de popularização ou divulgação (vulgarization). A pesquisa se faz a partir de documentos, se
a gente não os conhece não se pode ir muito longe. O contato com o documento e seu estudo

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teoria e métodos da história ii

crítico são os caminhos indispensáveis, sobre os quais faz-se os questionamentos. O historiador


faz sempre a narrativa de um momento dado, mas uma narrativa problematizada. Infelizmente
muitos historiadores escrevem simplesmente para recontar. O historiador tem o dever de difundir
o seu conhecimento, fazer com que os jovens aprendam a História.

Não somente apreender os fatos e os eventos, é preciso conhecer um certo nome, mas
sobretudo apreender o sentido histórico. As sociedades humanas e os indivíduos conhecem as
evoluções em um tempo que não é irracional, mesmo no desenvolvimento dos conflitos é preciso
mostrar as estruturas aos alunos. Alguns historiadores não ensinam o que não seria importante,
a gente ensina o que é obrigado a ensinar.

Enfim, o historiador professor-pesquisador tem o dever de auxiliar na divulgação da His-


tória. E por isso os historiadores são chamados pela mídia, editores, imprensa, rádio e televisão.
A História permite compreender de onde nós viemos, o que foi o passado, ou o que nós somos,
e esclarecer as situações que nos propomos. A História não dá lições, nem prevê o futuro, mas
ela esclarece as coisas. Eu creio que devemos desenvolver uma dessas três atividades para nos
apresentamos como historiadores.

Tradução livre feita por Ivo Canabarro.

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