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Grupo I

Lê atentamente o poema seguinte.

DACTILOGRAFIA
Traço sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano,
Firmo o projeto, aqui isolado,
Remoto até de quem eu sou.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,


5 O tic-tac estalado das máquinas de escrever.

Que náusea da vida!


Que abjeção esta regularidade!
Que sono este ser assim!

Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros


10 (Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância),
Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,
Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,
Eram grandes palmares do sul, opulentos de verdes.

Outrora…

15 Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,


O tic-tac estalado das máquinas de escrever.

Temos todos duas vidas:


A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos num substrato de névoa;
20 A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.

Na outra não há caixões, nem mortes.


Há só ilustrações de infância:
25 Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;
Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.
Na outra somos nós,
Na outra vivemos;
Nesta morremos, que é o que viver quer dizer.
30 Neste momento, pela náusea, vivo na outra...

Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,


Se, desmeditando, escuto,
Ergue a voz o tic-tac estalado das máquinas de escrever.
Fernando Pessoa, Poesia de Álvaro de Campos (ed. Teresa Rita Lopes), Lisboa, Assírio & Alvim, 2013, p. 485.

1. Indica a localização do eu lírico e refere o seu estado de espírito.


2. Apresenta uma interpretação plausível para o verso «Temos todos duas vidas» (v. 17), tendo em
conta a globalidade do poema. Fundamenta a tua resposta com transcrições pertinentes.
3. Menciona as temáticas do poema e reconhece duas características estilísticas ou linguísticas da
poesia de Campos aí presentes.

o
Mensagens 12. ano 1
Grupo II
Nas respostas aos itens de escolha múltipla, seleciona a opção correta.
Escreve, na folha de respostas, o número do item e a letra que identifica a opção escolhida.

Lê atentamente o seguinte texto.

Sacrifício freudiano1
Falamos de Pessoa, e às vezes esquecemo-nos da importância de Teixeira de Pascoaes. Foi com ele
e com os saudosistas que Pessoa começou a colaborar, ao alcançar a plena maturidade como escritor.
Muito cedo, porém, Pessoa chegou à conclusão de que o Saudosismo2 não oferecia bases
suficientemente sólidas para a tarefa de regeneração que se tinha imposto, e expressou a sua rutura,
5 sem negar a admiração pelo poeta Pascoaes e sem deixar de concordar, tal como ele preconizava, que
essa regeneração devia partir da Poesia (enquanto caminho privilegiado para o conhecimento da
realidade para além da sua superfície fenomenológica) e que deveria ser realizada por um Poeta.
Sabe também quão extraordinário será o trabalho desse Poeta, que deverá assumir toda a poesia
(portuguesa, europeia e outra) e que, para isso, vai precisar de toda uma galáxia de poetas. Dado não
10 existirem fora dele, acabaria por reduzi-los aos que no seu interior vinham representando o seu
singular «drama em gente». Mas, antes, devia sacrificar freudianamente o pai − Pascoaes.
E assim, na magnífica ficção ou encenação da sua noite de glória de 1914, iriam aparecer no palco,
de maneira tão natural como necessária, os seus heterónimos maiores à volta do mestre, Caeiro. No
poema X do Guardador de Rebanhos, consuma-se poeticamente o sacrifício, numa paisagem que
15 sempre imaginei como um longo fade-out 3 cinematográfico da baixa lisboeta com o fundo da serra do
Marão.
Sem a sombra do pai, Pessoa já pode iniciar o seu caminho de perfeição e redenção. E assim se vão
seguindo os anos de euforia até ao desaparecimento de Caeiro e ao exílio de Ricardo Reis, enquanto
António Mora tenta, em vão, erguer um sistema filosófico, fundamento do projeto pessoano, aliado à
20 poesia dos poetas que, assumidos, absorvidos e sublimados, deverão engendrar o Poeta definitivo, o
novo Euforion4, o Supra-Camões.
Desse magnífico edifício, nem os alicerces se mantêm de pé: só pedras, tijolos, montes de cal e
areia, fragmentos inacabados de estruturas de ferro e formigão. Fragmentos, fragmentos de
fragmentos, fragmentos de fragmentos de fragmentos. Campos envelhece ao tempo que Pessoa se
25 deixa envelhecer através dum Bernardo Soares definitivamente configurado para a ocasião, e ambos se
agarram à nostalgia e à construção e à contemplação ensimesmada de um novo edifício − uma nova
realidade, já a única consistente para Pessoa − feita só de sonhos e de palavras.
Perfecto E. Cuadrado, in O Editor, o Escritor e os seus Leitores, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2012, p. 92.

1
Freudiano: relativo a Sigmund Freud (1856-1939), neurologista e psiquiatra que fundou a psicanálise.
2
Saudosismo: movimento estético e literário, religioso e filosófico, de carácter nacionalista, ocorrido em Portugal no primeiro
quartel do século XX, de que foi mentor Teixeira de Pascoaes, que consubstancia uma atitude humana perante o mundo que
tem como base a saudade, considerada o grande traço espiritual definidor da alma portuguesa.
3
Fade-out: técnica cinematográfica que consiste no escurecimento da imagem até ao seu desaparecimento.
4
Euforion: gramático e poeta grego (275 a.C. – 200 a.C.), autor de obras que refletiam grande erudição. Alcançou
notoriedade por ter escrito breves poemas, ou épicos ou de temáticas mitológicas pouco conhecidas, que apresentavam como
principal arquétipo os poemas homéricos, procurando surpreender e maravilhar o leitor.

o
2 Mensagens 12. ano
1. O rompimento de Fernando Pessoa com o Saudosismo de Teixeira de Pascoaes deveu-se,
segundo o autor,
(A) à consciência da maturidade alcançada enquanto escritor.
(B) ao distanciamento entre os fundamentos deste e o seu ideal de regeneração.
(C) ao desejo de afirmação como criador de princípios exclusivos.
(D) à total discordância com as bases do seu pensamento.

2. A posição de Pessoa era conciliadora com a proposta de Pascoaes, no que concerne ao meio pelo
qual se daria a regeneração, a Poesia, por ser
(A) realizada por um Poeta.
(B) aquele um profundo conhecedor do Saudosismo.
(C) o meio primordial de explicitação e de conhecimento da realidade.
(D) um dos muitos meios de acesso ao conhecimento da realidade.

3. Com o poema X de O Guardador de Rebanhos,


(A) surgem os heterónimos à volta do Mestre.
(B) dá-se a noite de glória do Poeta.
(C) dá-se o afastamento total de Pascoaes.
(D) dá-se o sacrifício de Caeiro.

4. O projeto do «Supra-Camões», do «Poeta definitivo», emergiria da fusão de um sistema filosófico


com
(A) a poesia de Caeiro e de Reis.
(B) a sublimação dos heterónimos.
(C) o projeto de António Mora.
(D) o novo Euforion.

5. O autor do texto, com a associação do projeto pessoano a um «magnífico edifício» (l. 22), do qual
nada restaria a não ser escombros, recorre a uma
(A) gradação.
(B) hipérbole.
(C) metonímia.
(D) metáfora.

6. O aspeto gramatical em «E assim se vão seguindo os anos de euforia até ao desaparecimento


[…]» (ll. 17-18) expressa
(A) uma situação genérica.
(B) uma situação iterativa.
(C) um valor perfetivo.
(D) um valor imperfetivo.

7. A reiteração da palavra «fragmentos» (ll. 23-24) contribui para a construção da coesão


(A) frásica.
(B) interfrásica.
(C) lexical.
(D) referencial.
o
Mensagens 12. ano 3
8. Indica o referente do pronome sublinhado em «tal como ele preconizava» (l. 5).

9. Classifica a oração sublinhada em «Sabe também quão extraordinário será o trabalho desse
Poeta» (l. 8).

10. Refere a função sintática do segmento «de um novo edifício» (l. 26).

Grupo III

Lê as seguintes considerações.
Perante este Campos decaído, cosmopolita, melancólico, devaneador, irmão do Pessoa ortónimo no
ceticismo, na dor de pensar e nas saudades da infância ou de qualquer coisa irreal, compreende-se que
seja o único heterónimo que comparticipe da vida extraliterária de Fernando Pessoa.
Jacinto do Prado Coelho, Unidade e Diversidade em Fernando Pessoa, Lisboa, Editorial Verbo, 1987, p. 65.

A partir destas palavras, apresenta o teu ponto de vista sobre a vida cosmopolita e a fase
melancólica de Campos, propondo algumas formas de menorizar os obstáculos do quotidiano.

Escreve um texto, devidamente estruturado, de duzentas a trezentas palavras.

Fundamenta o teu ponto de vista recorrendo, no mínimo, a dois argumentos e ilustra cada um deles
com, pelo menos, um exemplo significativo.

Observações:
1. Para efeitos de contagem, considera-se uma palavra qualquer sequência delimitada por espaços em
branco, mesmo quando esta integre elementos ligados por hífen (ex.: /dir-se-ia/). Qualquer número conta
como uma única palavra, independentemente dos algarismos que o constituam (ex.: /2017/).
2. Relativamente ao desvio dos limites de extensão indicados – entre cento e vinte e cento e cinquenta
palavras –, há que atender ao seguinte:
 um desvio dos limites de extensão indicados implica uma desvalorização parcial (até 5 pontos) do
texto produzido;
 um texto com extensão inferior a oitenta é classificado com zero pontos.

FIM

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