Você está na página 1de 13

13/04/2020 A Burguesia Nacional e a Crise Brasileira

MIA > Biblioteca > Mário Alves > Novidades

A Burguesia Nacional e a Crise


Brasileira
Mário Alves

Dezembro de 1962

Fonte: Revista Estudos Sociais, Volume IV - Nº 15 - Dezembro 1962, Diretor: Astrojildo Pereira.
Transcrição: Alfredo dos Santos.
HTML: Fernando A. S. Araújo.
Direitos de Reprodução: licenciado sob uma Licença Creative Commons.

Com os acontecimentos de agosto de 1961, rompeu-se a relativa estabilidade


política dos anos recentes e o Brasil entrou em um período de sucessivas crises de
governo, de agudos choques entre as forças que detém o Poder, de manifestações
cada vez mais frequentes e enérgicas do descontentamento das massas. O sentimento
de euforia, que predominava em amplos setores das classes dominantes durante o
quinquênio “desenvolvimentista” de Kubitschek, cedeu lugar a um crescente temor
diante do agravamento dos problemas econômicos, das tensões políticas e dos
antagonismos sociais.

Contrariamente ao que supõem alguns analistas da situação, a crise institucional


brasileira não é um fenômeno de superfície, mas uma enfermidade que tem causas
profundas e reflete a necessidade de mudanças radicais na estrutura econômico-social
do País. As raízes da crise estão na dependência do País ao imperialismo, nas relações
de produção arcaicas no campo, no vertiginoso processo inflacionário e em todos os
problemas estruturais que se agravaram nos últimos tempos, como decorrência do
próprio crescimento das forças produtivas. O que estamos presenciando hoje é a
consequência de um desenvolvimento deformado, que se processa sem a eliminação
dos fatores de subjugação e atraso da economia brasileira, mas ao contrário, dentro
das limitações impostas pelo imperialismo e pelo latifúndio. Em tais condições as
novas forças produtivas necessitam romper os entraves à sua marcha inexorável.
Aprofundam-se as contradições fundamentais da sociedade. Manifestam-se na
superestrutura política os sintomas da aproximação de um processo em que as classes
dominantes - como dizia Lênin - “já não podem governar como antes”. Daí a
necessidade de analisar os choques dentro do Estado brasileiro não como a colisão de
interesses personalistas, mas como expressão de conflitos mais profundos.

Ao se aguçarem as contradições básicas da sociedade, estende-se e radicaliza-se


a luta contra o imperialismo e o latifúndio, eleva-se a consciência e a atividade política
das massas e tornam-se mais prementes as mudanças na estrutura econômico-social
do País, o que não pode deixar de influir nas posições dos diversos setores das classes
dominantes, gerando divergência dentro do bloco heterogênico das forças que

https://www.marxists.org/portugues/alves/1962/12/burguesia.htm 1/13
13/04/2020 A Burguesia Nacional e a Crise Brasileira

constituem o Estado. O exame do alinhamento das forças políticas, nas recentes


crises, contribui para esclarecer o conteúdo de tais divergências.

Os círculos dirigentes do PSD e da UDN, assim como outros agrupamentos que


compõem, em conjunto, a maioria do Parlamento, esforçam-se por impedir a
realização de qualquer mudanças necessárias ao progresso do País, por manter
o status quo que assegura os privilégios das forças retrógradas - os latifundiários mais
atrasados e a burguesia agente do imperialismo - cujos interesses representam na
arena política. Todavia, não mantém diante dos problemas atuais uma posição
absolutamente uniforme. Parte destas forças compreende que, nas presentes
condições do Brasil e do mundo, torna-se inviável e contraproducente a oposição e
toda e qualquer ideia de reforma. Sua luta contra as reformas admite, portanto, certa
margem de transigência, com o objetivo de torná-las puramente formais e inócuas,
incapazes de operar transformações reais. Este setor, mais numeroso entre as forças
reacionárias, denomina-se a si próprio de “centrista”, para diferenciar-se da
extremada ala direita dirigida por homens como Carlos Lacerda, ala que opõe a
qualquer compromisso e atua como brigada de choque da reação. Em seu conjunto,
estas forças representam o que há de mais obsoleto na estrutura econômico-social e
se encontra em franco declínio, do ponto de vista histórico.

O Estado brasileiro não é hoje, porém, quanto ao seu conteúdo de classe, idêntico
ao que era logo após a II Guerra Mundial, quando foram lançadas as bases do atual
sistema constitucional. Como decorrência do desenvolvimento capitalista e, em
particular, do processo de industrialização, aumentaram sensivelmente nos últimos
anos a participação e a influência da burguesia nacional no aparelho de Estado,
imprimindo-lhe a marca de sua natureza dúplice e conciliadora(1).

Esta camada da burguesia, cujos representantes no plano nacional são,


fundamentalmente, os círculos dirigentes do PTB, o presidente João Goulart e a forças
políticas a ele ligadas, é favorável ao que denomina “reformas de base”, a certas
medidas de caráter político, econômico e financeiro com as quais espera solucionar os
problemas nacionais sem uma alteração radical da estrutura econômico-social. O
motivo básico que determina esta política é, evidentemente, a aspiração a impulsionar
o desenvolvimento econômico capitalista. Como o capital monopolista estrangeiro e a
propriedade latifundiária representam, em certa medida, obstáculos a este
desenvolvimento, a burguesia nacional, em defesa de seus interesses de classe, trata
de impor-lhes restrições. Embora sua posição não seja revolucionária, porque não visa
à eliminação radical destes fatores de atraso do País, não pode deixar de levá-las a
atritos com o imperialismo e as forças da reação. Com o mesmo objetivo de favorecer
o desenvolvimento capitalista é que esta camada da burguesia procura orientar a
política externa do País, utilizando em função de seus interesses a nova situação
mundial, o crescente poderio dos países socialistas, o debilitamento do imperialismo,
fenômenos como o despertar das nações africanas e a Revolução Cubana. A política da
burguesia nacional é condicionada, igualmente, pela necessidade de levar em conta as
aspirações anti-imperialista e democráticas das massas populares. Não com o objetivo
de atender efetivamente a estas aspirações, mas com a intenção de realizar
concessões parciais ao povo, atenuar o seu descontentamento em face dos problemas

https://www.marxists.org/portugues/alves/1962/12/burguesia.htm 2/13
13/04/2020 A Burguesia Nacional e a Crise Brasileira

que se agravam, desviá-lo do caminho revolucionário e manter dentro dos limites


convenientes aos seus interesses e classe as mudanças já inadiáveis.

Se bem que seja levada, na defesa de seus próprios interesses, a entrar em atrito
com o imperialismo e as forças reacionárias, a burguesia nacional não é capaz de
realizar uma política no sentido de romper efetivamente com o sistema imperialista,
dado que a ele está vinculada pela sua condição de classe exploradora. Tanto na
política externa como nos problemas internos, dispõe-se a cumprir os compromissos
fundamentais que atrelam o Brasil ao imperialismo, ainda mais quando sente como
ameaça aos seus privilégios o avanço do socialismo no mundo. Esta contradição
essencial determina a natureza dúplice da burguesia nacional e marca toda a sua
política conciliadora. Sendo interessada na realização de reformas, alia-se em certa
medida, aas forças que lutam pelo progresso e a libertação do País, participando,
como um setor vacilante, da frente nacionalista e democrática. Mas é incapaz de
encabeçar uma luta revolucionária pelas transformações anti-imperialistas e
antilatifundiárias, porque receia que a luta de massas se converta em revolução
popular e afete seus interesses de classe exploradora. Sente, à luz da experiência
mundial, e especialmente do exemplo cubano, que um programa radical dirigido
contra a dominação dos monopólios e a grande propriedade agrária só pode ser a
bandeira de um movimento revolucionário em que as massas exploradas da cidade e
do campo, em um país como o Brasil, terão que assumir um papel decisivo. Daí a sua
tendência constante a chocar-se com o imperialismo e as forças reacionárias, mas, ao
mesmo tempo, a solucionar estas disputas através de compromissos.

Entre os fatores que condicionam a conduta política da burguesia nacional, não se


deve omitir a própria ação do imperialismo norte-americano. Compreendendo o papel
ascendente deste setor capitalista no Estado brasileiro, as tendências da nova situação
mundial, assim como a elevação da consciência nacional na América Latina após a
Revolução Cubana, os círculos monopolistas dos Estados Unidos procuram formular
uma tática mais flexível nas relações com as classes dominantes de nosso País.
Esforçam-se por ampliar a base social de sua dominação, através de um compromisso
com os setores políticos que representam a burguesia nacional, considerando que a
velha oligarquia vinculada ao latifúndio e subserviente ao capital estrangeiro perde
rapidamente a influência sobre o povo e já não constitui um suporte firme para a
sustentação de seus interesses. Esta concepção refere-se não apenas ao Brasil, mas a
toda a América Latina, e representa um dos fundamentos da “Aliança para o
Progresso”.

Os homens que formulam a atual política latino-americana do Departamento de


Estado tomam como ponto de partida o fato de que os povos do nosso continente
anseiam por mudanças profundas e tendem para as soluções revolucionárias. Em vista
disso, condicionam o programa financeiro da “Aliança para o Progresso” à realização
de reformas em nossos países, e buscam apoio em setores dirigentes capazes em
empreendê-las, supondo que assim poderão amainar as tensões sociais e garantir a
estabilidade política necessária ao seu domínio. Eis porque o presidente Kennedy,
Chester Bowles e outras personalidades norte-americana, ao mesmo tempo que
insistem na necessidade de reformas — sobretudo a agrária e a tributária — criticam
os círculos dominantes latino-americanos que a elas resistem. Em conferência
https://www.marxists.org/portugues/alves/1962/12/burguesia.htm 3/13
13/04/2020 A Burguesia Nacional e a Crise Brasileira

realizada no “National Press Club” de Washington, durante a qual expôs a estratégia


da “Aliança para o Progresso”, disse Teodoro Moscoso, diretor da secção latino-
americana do Departamento Internacional de Desenvolvimento do governo dos
Estados Unidos:

“Cabe-nos também a tarefa de nos assegurarmos de que [a Aliança] não


seja desviada pelos elementos da estrema direita, contrários à reforma
social, às reformas que temem por acreditarem que seriam o fim de seus
privilégios e riquezas.”

E, depois de recordar que, na Carta de Punta del Este, os países da América Latina
assumiram o compromisso de fazer as reformas agrária e tributária, acentuou:

“Estou perfeitamente ciente dos tremendos ajustes que muitos países terão
que fazer para cumprir as obrigações que contraíram, e da força dos grupos
que talvez tentem fazer malograr as reformas em diversos países... Os
membros da tradicional classe dominante que dão seu apoio à Aliança e aos
seus objetivos nada tem a temer: aliás, estou certo de que estes, em
proporção crescente, serão os que tomarão a iniciativa para modernizar seu
país. Porém, os que tentarem fazer malograr a Aliança terão muito a temer,
não dos Estados Unidos, mas de seu próprio povo” (“Aliança para o
Progresso, instrumento de revolução”, em O Estado de São Paulo, 25/2/62).

Contudo, os imperialistas não perdem de vista a natureza contraditória da


burguesia nacional, sua tendência a defender os próprios interesses através de
medidas nacionalistas, e receiam sua inclinação a ceder diante da pressão das forças
populares. Por isso, ao mesmo tempo que procuram atrair essa camada da burguesia
a um compromisso, utilizam seus vínculos políticos e econômicos com a velha
oligarquia reacionária e entreguista para manter sob fogo constante os setores que
representam a burguesia nacional, organizam e financiam campanhas anticomunistas
para tentar impedir a unidade das forças nacionalistas e democráticas, atemorizam os
representantes da burguesia nacional, apontando-os como instrumentos da esquerda,
e tudo fazem para obrigá-los a capitular ante as exigências dos monopólios
estrangeiros.

★★★
O sentido dúbio e conciliador da política realizada pela burguesia nacional no
Poder é evidenciado por todo o curso dos acontecimentos a partir da crise do ano
passado. Enquanto continuam a proclamar sua disposição de promover reformas, as
forças que cercam o Sr. João Goulart mantêm posição ambígua em relação aos
problemas básicos e limitam-se a propor tímidas mudanças, acompanhadas de
concessões ao imperialismo e à reação.

Cabe examinar, em primeiro plano, o verdadeiro significado da atual política


externa, que adquiriu certos contornos novos desde o governo Jânio Quadros. A
realidade demonstra que a presente atitude dos círculos dirigentes brasileiros, nesse
terreno, conquanto se diferencia da posição tradicional de completa submissão aos
ditames do imperialismo, não constitui e expressão dos legítimos anseios de
https://www.marxists.org/portugues/alves/1962/12/burguesia.htm 4/13
13/04/2020 A Burguesia Nacional e a Crise Brasileira

independência do povo, mas um reflexo dos contraditórios interesses de classe da


burguesia nacional. Este setor dominante trata de sacar proveito da nova situação
mundial, da marcha ascendente do sistema socialista e do debilitamento sensível do
bloco imperialista, com o objetivo de ampliar os mercados consumidores e
fornecedores do País, aumentar seu poder de barganha em relação aos círculos
monopolistas dos Estados Unidos e da Europa e pressioná-los com vistas a obter
maiores concessões. Eia a razão básica que explica os aspectos positivos da atual
política do Itamarati, tais como o estabelecimento de relações diplomáticas e
comerciais com os países socialistas, a defesa dos princípios de autodeterminação dos
povos e de não-intervenção, inclusive em relação a Cuba, e a aproximação com os
países não-alinhados em questões como a do desarmamento. Coincidem estas
posições com aspirações manifestas do povo brasileiro, e contribuem objetivamente
para a causa da manutenção da paz, merecendo por isso estímulo e apoio. Isto não
significa, entretanto, que o Brasil já realize uma política externa independente, como
apregoam os porta-vozes oficiais. As relações exteriores do País continuam a ser
mantidas, fundamentalmente, nos quadros da dependência ao imperialismo, ainda
que essa dependência seja configurada em moldes mais adequados à nova realidade
do País e do mundo. Permanece o governo brasileiro subordinado aos dispositivos do
Tratado do Rio de Janeiro, do Acordo Militar Brasil-Estados Unidos e de outros
compromissos internacionais, que violam a soberania do País e o transformam em
peça do sistema político-militar controlado pelo imperialismo norte-americano através
da OEA. A mais recente comprovação disso foi o voto brasileiro favorável ao bloqueio
de Cuba, ato que converteu o Brasil em cúmplice da agressão norte-americana, não
obstante todas as declarações em defesa dos princípios de não intervenção e
autodeterminação e a ressalva apresentada contra o emprego de força armada numa
invasão da Ilha.

Sendo a espoliação do Brasil pelos monopólios imperialistas a base material em


que se assenta sua condição de País dependente, não se pode conceber uma política
de independência efetiva que não tenha por fim suprimir aquela espoliação.
Entretanto, a política seguida em relação aos interesses monopolistas estrangeiros
pelo presidente Goulart e os setores que representa se, de um lado, preconiza
algumas restrições que não afetam essencialmente a sua posição na economia
brasileira, de outro lado oferece-lhes garantias e incentivos.

Em discurso no almoço que lhe foi oferecido pela American Chamber of Commerce
for Brazil, às vésperas de sua viagem aos Estados Unidos, declarou o Sr. João
Goulart aos representantes dos trustes americanos em nosso País, referindo-se aos
seus investimentos, que “é também natural que sejam resguardados de garantias, a
fim de que possam ser aplicados em escala crescente” (Correio da Manhã, 24 de
março de 1962). Todo o sentido desse pronunciamento consiste em apelar para uma
atitude compreensiva dos imperialistas quanto à necessidade de uma “solução de
entendimento” para questões como a seleção dos investimentos estrangeiros, a
regulamentação de remessa de lucros e o problema das empresas alienígenas
concessionárias de serviços públicos. Por ocasião de sua visita aos Estados Unidos,
com o objetivo evidente de tranquilizar os círculos oficiais norte-americanos acerca de
seus propósitos reformadores, reafirmou nitidamente tal orientação no comunicado
conjunto que assinou com o Sr. Kennedy:
https://www.marxists.org/portugues/alves/1962/12/burguesia.htm 5/13
13/04/2020 A Burguesia Nacional e a Crise Brasileira

“O presidente do Brasil manifestou a intenção de seu governo de manter


condições de segurança que permitirão ao capital privado desempenhar o
seu papel vital no desenvolvimento da economia brasileira. O presidente do
Brasil declarou que, nos entendimentos com as companhias para s
transferência das empresas de serviço público para a propriedade do Brasil,
será mantido o princípio da justa compensação com reinvestimento em
outros setores importantes para o desenvolvimento econômico do Brasil. O
presidente Kennedy manifestou grande interesse por essa orientação”
(Íntegra do comunicado no Jornal do Brasil de 5 de abril de 1962).

Em essência, não se cogita de suprimir a espoliação dos monopólios estrangeiros,


mas de substituir investimentos imperialistas considerados impopulares por outros
menos hostilizados pela opinião nacional, mas nem por isso menos nocivos. Quem o
diz ostensivamente é o próprio Sr. João Goulart, no discurso que pronunciou perante o
Congresso dos Estados Unidos:

“Em matéria de serviços de utilidade pública, há certas áreas de atrito que


convém eliminar, tanto mais quanto, por um fenômeno natural, além de
incompreensões entre o poder concedente e concessionários, não raro
geram equívocos entre países amigos” (Texto completo no Jornal do
Brasil de 5 de abril de 1962).

Essa atitude conciliadora dos atuais círculos governantes em face do capital


monopolista estrangeiro materializa-se nas negociações em curso para conclusão de
um Acordo para Garantia de Investimentos entre o Brasil e os Estados Unidos,
segundo o qual o Brasil selecionará investimentos privados norte-americanos que
serão garantidos pelo governo ianque. Anunciado por ocasião da visita de Teodoro
Moscoso ao nosso País, este Acordo constitui, em conformidade com as declarações
por ele prestadas à imprensa, “uma espécie de seguro para o investidor dos Estados
Unidos, visando a defendê-lo de encampações, entraves à remessa de lucros e até
mesmo da desvalorização da moeda”. Em tais condições, não é de estranhar a posição
de Pilatos assumida pelo Sr. João Goulart diante da lei que estabelece certas restrições
à remessa de lucros das empresas estrangeiras, aprovada no Parlamento por
exigência do movimento anti-imperialista. Em face do protesto dos grupos
monopolistas e do próprio embaixador Lincoln Gordon, criticando acintosa e
publicamente o que denominou “limitações arbitrárias” e “esterilização do capital
estrangeiro”, o presidente da República recusou-se a sancionar a lei e devolveu-a ao
Congresso para que fosse por este promulgada, assinalando em seu texto, de modo
evasivo, a existência de “imperfeições” e contradições”.

Uma concepção que baseia o desenvolvimento do País nas inversões de capital


imperialista e nos créditos norte-americanos não pode servir de fundamento a uma
política externa independente. Soa falso o conceito de “independência” aplicado à
atual conduta do Itamarati pelo Sr. Sant Tiago Dantas, quando o ex-ministro das
Relações Exteriores, ao falar na cerimônia de instalação da Comissão Coordenadora da
Aliança para o Progresso, declarou:

https://www.marxists.org/portugues/alves/1962/12/burguesia.htm 6/13
13/04/2020 A Burguesia Nacional e a Crise Brasileira

“A Aliança para o Progresso é um dos principais objetivos de nossa política


exterior no presente momento. Através dela, em primeiro lugar, a visão que
temos de nosso próprio desenvolvimento assume caráter de programação
global, superando definitivamente a etapa dos projetos isolados, e passando
a considerar em conjunto os aspectos econômicos e sociais de nosso
desenvolvimento” (Jornal do Brasil, 14 de junho de 1962).

Enquanto o governo brasileiro continua subordinado “a visão que temos de nosso


próprio desenvolvimento” à programação e aos créditos da Aliança para o Progresso,
sem mobilizar plenamente os recursos internos por meio de reformas profundas que
atinjam o sistema de espoliação imperialista e a estrutura latifundiária, sem explorar a
fundo as grandes possibilidades para a obtenção de assistência econômica e técnica e
para a expansão de nossas relações comerciais no campo socialista e em outras áreas,
o comércio exterior mantém-se estagnado, elevam-se nossos compromissos cambiais,
avoluma-se o déficit do balanço de pagamentos e aumenta a dependência financeira
do Brasil em relação às potências capitalistas, o que acarreta evidentes limitações à
sua soberania política.

Em relação ao problema agrário, cuja importância é básica para o


desenvolvimento independente do País, não é menos ambígua a posição das forças
políticas que representam a burguesia nacional. Não obstante seus reiterados
pronunciamentos em favor da reforma agrária, o Sr. João Goulartsempre se exprimiu
em termos dúbios sobre o conteúdo dessa medida. Ao discursar na Paraíba, afirmou
que

“a reforma agrária que compreendo, que prego e que o Brasil exige, não é a
que consistiria em transformar trabalhadores em proprietários e
proprietários em trabalhadores, mas a reforma que, atendendo a uns e a
outros, permita associar a todos com direitos e com deveres humanos
fixados no esforço conjunto pelo bem-estar da coletividade” (Íntegra do
discurso em A Noite, de 30 de julho de 1962).

O que promete o presidente da República é, portanto, uma pretensa reforma


agrária que “atenda” igualmente aos camponeses e aos latifundiários, que “associe” os
explorados da terra e seus exploradores, contentando a todos sem descontentar a
ninguém. Como porta-voz da burguesia nacional e dos latifundiários aburguesados, o
que pretende, na realidade, é conter as lutas das massas camponesas, ludibriá-las
com o mito de “paz social” e desviá-las do caminho revolucionário, talvez em troca de
algumas concessões superficiais.

Ao analisar os dados da realidade e o pensamento dos intérpretes mais conspícuos


da burguesia nacional, não se pode deixar de concluir, portanto, que a política de
conciliação com o imperialismo e o latifúndio é inerente a esta camada capitalista, à
sua natureza de classe. Cabe rejeitar a interpretação, difundida pelos próprios
representantes desse setor da burguesia nos meios de esquerda, segundo a qual as
atitudes de compromisso da burguesia nacional são simples manobras táticas,
fenômenos puramente transitórios, resultantes de uma correlação de forças
desfavorável em face ao imperialismo e do latifúndio.

https://www.marxists.org/portugues/alves/1962/12/burguesia.htm 7/13
13/04/2020 A Burguesia Nacional e a Crise Brasileira

Alegam o presidente Goulart e outros líderes da burguesia que o principal entrave


à realização das reformas reside no sistema parlamentarista, porque este fraciona os
poderes, dilui a autoridade governamental e impossibilita a execução eficaz de um
programa administrativo. Colocam, assim, como objetivo primordial, a realização do
referendo sobre a forma de governo, com o qual esperam derrubar o sistema
parlamentar. O retorno ao presidencialismo, afirmam, é o caminho para
transformações progressistas no País. Esta argumentação, entretanto, oculta a
essência da questão, já que a solução dos problemas nacionais não depende de uma
simples opção entre parlamentarismo e presidencialismo. O obstáculo fundamental às
mudanças na estrutura econômico-social não está na forma de governo, mas na
composição de classe dos órgãos do Poder, na política de conciliação com o
imperialismo e o latifúndio. Dado que se baseavam no compromisso entre a burguesia
nacional e as forças da reação e do entreguismo, governos presidencialistas como os
de Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros também se revelaram incapazes de realizar
modificações que conduzissem a um curso independente e progressista da vida
nacional. Assim, o verdadeiro sentido da luta pelo presidencialismo para o Sr. João
Goulart e as forças a ele ligadas, consiste em fortalecer os poderes em mãos da
burguesia nacional e dos latifundiários aburguesados. Essa luta não pode deixar de
provocar choques entre o presidente da República e as cúpulas reacionárias que
dominam a maioria do Congresso, pois o regime parlamentarista lhes assegura um
considerável poder de decisão nos assuntos governamentais. Mas a restauração do
presidencialismo não assegura, por si só, uma ruptura da política de compromissos
com o imperialismo e o latifúndio. O predomínio da burguesia nacional no Poder,
através do sistema presidencial não significaria a mudança de sua natureza dúplice e
conciliadora.

★★★
A política de compromisso entre o setor da burguesia partidário de reformas e a
velha oligarquia a serviço do latifúndio e do imperialismo leva a que permaneçam sem
solução os problemas candentes do País. Continua a manifestar-se, cada vez mais
aguda, a contradição entre a exigência popular de mudanças e a incapacidade dos
círculos governantes de realizá-las. Em consequência, as recentes crises de governo
revelaram a intervenção crescente das massas na vida política, desfraldando suas
próprias bandeiras de luta e demonstrando maior combatividade. Os trabalhadores e
amplas camadas do povo não se conservam à margem dos choques entre as classes
dominantes, como o comprovam os movimentos de resistência democráticas, durante
a tentativa golpista do ano passado, e as duas greves políticas ocorridas este ano.
Embora tais movimentos fossem realizados, em grande medida, com o sentido de
apoio às posições do presidente Goulart, desenvolveu-se em seu interior a tendência a
uma ação independente, destacando-se cada vez mais, como objetivo central, a luta
por um governo nacionalista e democrático, e manifestando-se ataques à atitude
conciliadora do presidente da República e das forças que o seguem. É inegável que as
ações de massas, particularmente as greves políticas de julho e setembro,
representaram uma contribuição decisiva no sentido de aprofundar a luta contra as
forças reacionárias e impedir a concretização de seus desígnios.

https://www.marxists.org/portugues/alves/1962/12/burguesia.htm 8/13
13/04/2020 A Burguesia Nacional e a Crise Brasileira

Em face das lutas de massas, revela-se mais uma vez a atitude vacilante da
burguesia nacional e sua tendência ao compromisso com o inimigo. O Sr. João
Goulart procura apoiar-se no movimento operário de democrático, tendo em vista
utilizá-lo como instrumento de pressão sobre as forças retrógradas. Toda via, quando
estas se inclinam a um acordo para evitar uma derrota decisiva e manter posições, o
presidente da República e seu grupo conciliador tratam de paralisar as ações de
massas e amainar a luta contra a reação. Assim ocorreu nas crises de julho e
setembro de 1962, quando o Sr. João Goulart tentou impedir por todos os meios a
deflagração da greve geral, pois a luta dos trabalhadores por reformas efetivas por um
governo nacionalista e democrático poderia dificultar os conchavos em que se
emprenhava junto à maioria parlamentar reacionária.

A experiência das recentes crises demonstra que a ação das massas, sobretudo do
movimento operário organizado, ganha a significação de um fator de primeira
grandeza na vida do País e abre a perspectiva de serias mudanças no quadro político.
Eis porque os dois agrupamentos das classes dominantes consideram perigoso o
prolongamento de seus entrechoques, como ocorreu em agosto de 1961 e julho de
1962, temendo a radicalização da luta de massas e a precipitação de um processo
revolucionário. Tanto as forças retrógradas, que desejam a manutenção do statu quo,
como a burguesia nacional, que aspira algumas reformas, mas não a uma
transformação profunda da estrutura econômico-social, envidam esforços para
concluir um compromisso, com o intuito de impedir que os acontecimentos tomem
aquele rumo.

O agravamento da situação política reflete-se no interior das forças armadas, onde


as contradições existentes no aparelho do Estado manifestam-se sob a forma de
conflitos entre os chefes militares, ao mesmo tempo que se intensifica a atividade
política entre a oficialidade e a tropa. Ficou evidente nas últimas crises que o
presidente Goulart, acionando o dispositivo militar como instrumento de pressão sobre
a maioria do Congresso, esforçou-se simultaneamente para conter essa ação dentro
dos limites de uma política de compromisso. Transparece o receio dos círculos
dirigentes quanto a uma intervenção militar que rompa as fronteiras da conciliação
entre as classes dominantes e agrave bruscamente e instabilidade política,, pois
temem ambas as facções que seja este o caminho para uma atuação mais vigorosa
das massas trabalhadoras e populares. Sem embargo, continua presente a
possibilidade de pronunciamentos militares, capazes de aprofundar os conflitos que se
processam no País.

Como consequência do agravamento das contradições da estrutura econômico-


social, da elevação da consciência política de extensas camadas do povo e da
desmoralização crescente dos elementos burgueses mais conciliadores, acentua-se em
um setor da burguesia nacional a tendência a formular de modo mais radical a
exigência de reformas. Sua expressão mais destacada é o Sr. Leonel Brizola, cuja
pregação anti-imperialista lhe tem assegurado uma posição de liderança de
importantes correntes populares. Não obstante, o ex-governador gaúcho mantém-se
nos quadros do sistema de forças que tem à frente o presidente Goulart e, ainda que
represente nesse sistema a ala mais radical, permanece comprometido com a política
de conciliação.
https://www.marxists.org/portugues/alves/1962/12/burguesia.htm 9/13
13/04/2020 A Burguesia Nacional e a Crise Brasileira

Deste modo, os acontecimentos demonstram que os atritos entre os dois setores


das classes dominantes não excluem a tendência à conciliação, mas a conciliação não
elimina os motivos que geram novos atritos. Não significando um rompimento
decidido com os fatores de atraso e dependência do País, a política de conciliação que
se realiza à custa dos interesses do povo, conduz inevitavelmente a um novo
agravamento dos problemas e gera novas crises, embora possa assegurar por algum
tempo certo entendimento entre os círculos dirigentes e relativa estabilidade política.

A manutenção do compromisso entre os dois setores das classes dominantes não


significa, contudo, que deixem de ocorrer deslocamentos na correlação de forças
políticas. Esta vem sendo modificada gradualmente, com a sensível tendência ao
fortalecimento da burguesia no Poder. O presidente Goulart e as correntes que
representa tratam de consolidar e ampliar suas posições, montando um dispositivo
militar e apoiando-se no movimento de massas, sobretudo no movimento sindical,
como meio de pressão sobre as forças reacionárias da maioria parlamentar. Ao
sobreviverem as crises de governo de julho e setembro de 1962, as cúpulas
retrógradas do PSD e da UDN foram colocadas sob o fogo cruzado da pressão militar e
popular, sendo obrigadas a fazer concessões. Os compromissos em torno da
constituição dos gabinetes Brochado da Rocha e Hermes Lima já se realizaram em
bases diversas do acordo concluído em setembro de 1961: a burguesia nacional
fortaleceu suas posições, tanto no poder executivo como nas forças armadas.
Ademais, a aprovação da emenda que fixa a data do plebiscito para 6 de janeiro
representa um recuo do Parlamento diante do Sr. João Goulart e das focas que o
cercam. Entretanto, a formação de gabinetes de confiança do Presidente da República
não conduziu a qualquer alteração básica na política de conciliação. Embora alguns
ministros sejam figuras notoriamente vinculadas ao movimento nacionalista,
permanecem em postos de governo elementos ligados aos interesses monopolistas
estrangeiros, são mantidas as normas ditadas pelo Fundo monetário Internacional em
nossa política econômico-financeira, aceleram-se os planos da Aliança para o
Progresso e a dubiedade continua a marcar nossa política externa.

Os resultados j[a conhecidos das eleições de 7 de outubro não assinalam uma


alteração substancial da disposição de forças no plano político, mas há indícios de
fortalecimento das correntes reformistas lideradas pelo Presidente da República,
sobretudo no que se refere à composição da Câmara dos Deputados. A derrota
de Carlos Lacerda na Guanabara e a eleição de Miguel Arraes em Pernambuco
representam êxitos consideráveis da frente nacionalista e democrática, embora as
forças reacionárias lograssem assegurar o controle dos governos de importantes
Estados como São Paulo e Rio Grande do Sul. Os fato indicam que apolítica de
conciliação continuará a expressar-se através da aliança do PTB com as chamadas
forças “centristas” do PSD e de outros partidos, aliança que já conduziu ao
compromisso em relação ao plebiscito e, na medida em que isto dependa se seus
promotores, poderá conduzir a outros conchavos em torno do futuro sistema de
governo e das “reformas de base”. Semelhante conluio nãop pode merecer senão a
repulsa das forças populares, interessadas em profundas mudanças na vida do País.

★★★

https://www.marxists.org/portugues/alves/1962/12/burguesia.htm 10/13
13/04/2020 A Burguesia Nacional e a Crise Brasileira

O consenso quase geral hoje existente em torno da necessidade de reformas


encobre diferentes posições das classes sociais quanto ao conteúdo, ao sentido e ao
alcance dessas transformações. Antes, quando as contradições eram menos agudas, a
simples atitude “pró” ou “contra” as reformas, em geral, era suficiente para definir os
campos em choque. Agora, porém, já não é possível limitar-se a falar das reformas,
em termos abstratos, porque as classes dominantes e o próprio imperialismo norte-
americano procuram empunhar também a bandeira das reformas e fim de enganar o
povo com soluções ilusórias e assegurar seus privilégios. O dever das forças
revolucionárias, em particular do proletariado, não é, portanto, deixar-se embalar por
palavras sonoras em torno de “reformas de base”, no plano geral, mas definir
concretamente quais as reformas necessárias ao povo e lutar pela sua consecução,
combatendo as pseudossoluções arquitetadas pelas forças reacionárias “centristas” e
as manobras de conciliação de burguesia nacional com o inimigo.

Os revolucionários que se situam do ponto de vista do marxismo-leninismo


compreendem a importância da luta pelas reformas da sociedade. Ao pugnar por
soluções parciais de caráter imediato, ainda dentro do atual regime, a classes operária
e ouras forças progressistas tem como objetivo golpear as posições do imperialismo e
dos seus sustentáculos internos, acumular forças no campo anti-imperialista e
antilatifundiário, modificar a correlação de forças em favor do povo e preparar, assim,
condições para as transformações revolucionárias exigidas pela presente etapa
histórica. O marxismo não concebe o desenvolvimento social como se este consistisse
unicamente no salto para um novo regime, mas como um processo em que a
revolução é precedida de mudanças graduais dentro da velha ordem. Não é senão
infantilismo revolucionário o gesto do radical pequeno-burguês que se nega a tomar
conhecimento da necessidade de reformas, considerando toda luta nesse terreno
como oportunismo. A conduta revolucionária consiste em ver nas reformas passos
necessários no caminho da revolução e utilizá-las acertadamente para ganhar forças,
debilitar o inimigo e acelerar o advento das mudanças revolucionárias. Evidentemente,
isto exige que a luta pelas reformas seja travada sempre em função dos objetivos da
revolução, e não como um fim em si mesmo, como uma atividade mesquinha e
pragmática de quem se satisfaz com os pequenos êxitos do dia a dia, sem orientar-se
para as grandes perspectivas do futuro.

Na situação atual do Brasil, negar-se a lutar pelas reformas, a pretexto de admitir


apenas as soluções revolucionárias, seria renunciar à ação política capaz de impor
reveses às forças da reação e fortalecer a frente anti-imperialista e democrática. Seria
isolar-se do povo e abandonar as massas à influência dos que pretendem iludi-las com
soluções falsas e enganadoras. Seria renunciar ao papel de vanguarda da revolução,
embora sob a capa de uma fraseologia revolucionária. De outro lado, porém, ao travar
a luta pelas reformas, é necessário distinguir claramente quais são as mudanças
imediatas susceptíveis de aprofundar a luta contra o imperialismo e o latifúndio e
conduzir à acumulação de forças revolucionárias. Estas não devem confundir sua
posição com a dos reacionários “centristas”, que falam em reformas de base para
esvaziá-las de qualquer conteúdo efetivo, nem com as dos elementos da burguesia
nacional que são partidários de certas reformas, mas estão sempre dispostos a
barganhar com a reação e reduzi-las a tímidas mudanças aceitáveis pelo inimigo.
Aplaudir o Sr. João Goulart e sua grei, apenas porque pregam as “reformas de base”,
https://www.marxists.org/portugues/alves/1962/12/burguesia.htm 11/13
13/04/2020 A Burguesia Nacional e a Crise Brasileira

sem definir o seu conteúdo, seria o mesmo que identificar-se com a política
conciliadora do setor nacionalista burguês. Cumpre, ao contrário, desmascarar a tese
da Aliança para o Progresso, tão grata ao Presidente da República e a outros
representantes da burguesia nacional, de que as reformas devem ser feitas para
impedir a revolução, bem como a ideia oportunista, defendida pelos nacionalistas “de
esquerda”, de que as reformas já são a própria revolução. Só assim será possível
ganhar as massas para a luta por reformas que se tornem um instrumento de
aceleração, e não uma manobra de retardamento do processo revolucionário.

Situado nestes termos o problema das reformas, evidencia-se a razão pela qual
um governo nacionalista e democrático, capaz de empreender soluções efetivas para
os problemas do povo, não pode ser baseado em um compromisso entre a burguesia
nacional e as forças do conservadorismo “centrista”, esquema que tem prevalecido,
com nuanças variáveis, na composição dos gabinetes parlamentaristas do Sr. João
Goulart, e se expressa ultimamente no acordo PTB-PSD. Deverá ser um governo de
coalizão onde estejam representadas as forças integrantes da frente única contra o
imperialismo e o latifúndio, não apenas a burguesia nacional, mas também aquelas
que dão a maior contribuição, na luta de massas, para as vitorias contra a reação: os
operários, os camponeses, a intelectualidade revolucionária, as camadas médias. Os
últimos episódios revelam que, em virtude da tendência a conciliar com o inimigo,
inerente à burguesia nacional, um governo que se constitua apenas com a
participação desta força não pode inspirar confiança ao povo nem realizar um
programa efetivo de frente única.

Esta análise nos conduz a uma dupla conclusão.

Sendo o objetivo principal de luta revolucionária, na atual etapa, isolar e derrotar


as forças que representam o imperialismo e o latifúndio, é necessário unir em função
dessa tarefa todos os que possam contribuir, em maior ou menor grau a meta
comum: desde o proletariado, os camponeses, a intelectualidade e a pequena
burguesia, que formam a base do movimento pela libertação e o progresso, até a
burguesia nacional, que é uma força conciliadora. Os choques que se processam entre
os dois setores das classes dominantes devem ser utilizados para aprofundar a luta
contra as forças reacionárias. Seria um erro sectário, de fundo subjetivista, não
perceber as contradições existentes entre a burguesia nacional e as forças do
imperialismo e do latifúndio e, partindo a identificação entre estes dois setores, não
explorar suas contradições para fazer avançar o movimento anti-imperialista e
antilatifundiário e criar condições para a formação de um governo nacionalista e
democrático.

Contudo, uma acertada política de frente única em relação à burguesia nacional


não pode consistir em simples apoio às suas posições. Segundo os fatos evidenciam,
esta camada da burguesia procurar utilizar o movimento de massas a fim de exercer
pressão sobre as forças retrógradas e arrancar-lhes concessões, mas,
simultaneamente, tende a entrar em conciliação com estas em detrimento dos
interesses do povo. Assim, o combate à política de compromisso entre o setor
burguês, representado pelo Sr. João Goulart, e as forças reacionárias, constitui uma
das componentes fundamentais da ação das forças revolucionárias na luta contra o

https://www.marxists.org/portugues/alves/1962/12/burguesia.htm 12/13
13/04/2020 A Burguesia Nacional e a Crise Brasileira

imperialismo e o latifúndio. Como seria possível alijar do Poder os grupos que


representam os interesses antinacionais, e constituir um governo nacionalista e
democrático que realize reformas efetivas sem derrotar a política ambígua, que
favorece o inimigo, realizada sistematicamente pela burguesia nacional? Causaria
danos consideráveis à causa da revolução uma conduta que, partindo da
incompreensão do caráter dúbio e conciliador da burguesia nacional, identificasse as
posições da classe operária e das forças populares com os interesses do setor burguês
representado pelo presidente Goulart. Tal conduta contribuiria para que os
trabalhadores e o povo mantivessem uma atitude passiva diante da política burguesa
de conciliação com as forças reacionárias, ou figurassem como simples massa de
manobra nos planos da burguesia nacional para assegurar seus privilégios mediante
uma componente com a reação e o imperialismo. Significaria, em última análise, uma
posição de cumplicidade em relação a esses planos.

Em face da grande complexidade do quadro político do País, a política de alianças


da classe operária não é um problema simples, sobretudo quando a burguesia
nacional tende a aumentar sua participação no Poder, através de choques e,
simultaneamente, de compromissos com o imperialismo e o latifúndio. Nestas
condições, que garantia pode haver de que a luta pela libertação e o progresso seja
vitoriosa, e não frustrada, durante largo período, pela conciliação com o inimigo? Esta
garantia só pode consistir na unidade mais sólida e na mobilização mais intensa das
forças básicas da revolução brasileira, das grandes massas trabalhadoras e populares
- os operários, os camponeses, os estudantes, os intelectuais progressistas, a
pequena burguesia radical. Somente a ação unida destas forças e, em particular, dos
operários e camponeses, poderá conduzir o amplo movimento nacional e democrático
a golpear profundamente a dominação imperialista e a estrutura latifundiária, fazendo
fracassar as manobras de conciliação realizadas pela burguesia nacional, setor
vacilante deste movimento.

Início da página

Notas de rodapé:

(1) O conceito de “burguesia nacional”, já consagrado na ciência social marxista, caracteriza a parte da
burguesia dos países coloniais e dependentes que não desempenha o papel de agente do imperialismo.
Assim a define o Programa do PCUS, aprovado em seus XXII Congresso: “A burguesia nacional tem, por
sua própria natureza, um duplo caráter. Nas condições atuais, a burguesia nacional das colônias,
antigas colônias e países dependentes, não comprometida com os círculos imperialistas, está
objetivamente interessada na conquista dos objetivos fundamentais da revolução anti-imperialista e
antifeudal. Por conseguinte, não se esgotaram ainda seu papel progressista e sua capacidade para
participar na solução dos candentes problemas nacionais. Entretanto, à medida em que crescem as
contradições entre os trabalhadores e as classes possuidoras e se agrava a luta de classes dentro do
país, a burguesia nacional demonstra cada vez maior propensão a entrar em acordo com o imperialismo
e a reação interna” (Programa del PCUS, Ediciones en lenguas extrajeras, Moscou, 1961, p. 49).
(retornar ao texto)

https://www.marxists.org/portugues/alves/1962/12/burguesia.htm 13/13