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Alarme Falso: A Pandemia da Gripe Suína[1]

Pandemia como Ideia de Negócio


[Um escrito contestando os conflitos de interesse no sistema de saúde]

Wolfgang Wodarg

“Para aumentar as vendas das suas pílulas e vacinas contra a influenza, as


empresas farmacêuticas influenciaram cientistas e normas em órgãos responsáveis
de sistemas de saúde públicos para colocar governos mundo afora em um estado de
alerta. Elas levaram os governos a aplicar escassos recursos de saúde em
estratégias ineficientes de vacinação, e a sujeitar milhões de seres humanos
saudáveis ao risco de efeitos colaterais desconhecidos por causa de vacinas
insuficientemente testadas...”

Assim dizia o texto da proposta que, sob o título “Pandemia Falsa – uma ameaça para a
saúde”[2], requisitava ao Conselho da Europa uma investigação sobre os processos que
levaram por primeira vez a uma declaração de pandemia por parte da Organização
Mundial de Saúde (OMS), em Genebra. Uma “pandemia” que já no fim do verão europeu
de 2009 era reconhecível como uma gripe inofensiva, mas que continuou, 2010 adentro,
sendo retratada pela OMS, por muitos especialistas nacionais e muitas mídias como uma
epidemia perigosa.

Alerta por causa de um alarme falso

A iniciativa junto ao Conselho da Europa pareceu ser a única possibilidade de se atrair a


atenção do público para um desenvolvimento equivocado que já havia se tornado
aparente alguns anos antes. A declaração de uma “pandemia” no dia 11 de junho de
2009, pela diretora-geral da OMS, Margaret Chan, foi a gota d’água.

Além do relator do Conselho da Europa, meu colega Paul Flynn[3], foram especialmente
as investigações dos jornalistas Deborah Cohen e Philip Carter, do British Medical
Journal (BMJ), bem como os cientistas Tom Jefferson (The Cochrane Collaboration) e
Peter Doshi (Johns Hopkins University), que desde muito cedo foram ao fundo da
questão.

Entrementes, depois que surgiram muitas publicações sobre o tema da pandemia do


H1N1, que o relatório de avaliação da OMS ficou disponível e que quantidades enormes
de vacinas e medicamentos antigripais estão se deteriorando, sendo vendidas a países
pobres e, em maior parte, sendo destruídas, eu gostaria de apresentar aqui como é que
foi possível se chegar a tal incerteza dos serviços de saúde nacionais e do público
mundial, e quais atores e organizações contribuíram para isso por detrás das cenas.

1 Wolfgang Wodarg. Falscher Alarm: Die Schweinegrippe-Pandemie. In: Mikkel Borch-Jacobsen (editor). Big
Pharma. Piper, 2015. p. 310 ff.
2 PACE [Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa], Documento 12110, 18 de dezembro de 2009.

Pandemia falsa – uma ameaça para a saúde. Moção para uma recomendação apresentada pelo Sr.
Wodarg e outros. [http://assembly.coe.int/nw/xml/XRef/Xref-XML2HTML-
en.asp?fileid=12720&lang=en. Acesso em 4 de julho de 2020.]
3 Conselho da Europa, Assembleia Parlamentar [COE/PACE], Documento 12283, 7 de junho de 2010. The

handling of the H1N1 pandemic: more transparency needed. [O lidar com a pandemia H1N1:
necessita mais transparência.] Relatório do Comitê de Assuntos Sociais, de Saúde e Familiares. Relator: Sr.
Paul FLYNN, Reino Unido, Grupo Socialista. [https://assembly.coe.int/nw/xml/XRef/Xref-DocDetails-
EN.asp?FileID=12463&lang=EN. Acesso em 4 de julho de 2020.]
Os órgãos de saúde, a OMS, a indústria farmacêutica enquanto protagonista na área
econômica, a ciência com as suas sociedades profissionais, institutos e especialistas, a
mídia – sem a qual não teríamos notado nada disso tudo –, e não por último a política,
que tem de se preocupar tanto para que haja uma economia próspera quanto com a
liberdade da ciência e da mídia e com a saúde da população – todos têm sua parcela de
responsabilidade nesse desenvolvimento.

A gripe: um acontecimento corriqueiro

Antes da minha eleição para o Parlamento Federal [da Alemanha], em 1994, eu fui
diretor de um serviço de saúde pública no norte da Alemanha.[4] Prevenção e combate
de doenças infecciosas, a epidemiologia delas, os prós e contras da vacinação, e o
aconselhamento da população e de instituições responsáveis faziam parte da minha
rotina diária.

Houve anos, como 1986 ou 1990, em que um número especialmente grande de pessoas
se queixou das assim chamadas infecções “gripais”[5], com febre, dores e sobretudo
problemas respiratórios. Às vezes até mais de 10% da população eram mais ou menos
afetados.

Como não havia qualquer observação sistemática da epidemiologia de infecções gripais


sazonais, eu elaborei um instrumento próprio para estimação desse perigo de infecção.
Uma das minhas colegas recebeu a tarefa de ligar cada segunda-feira de manhã para os
mesmos médicos, pediatras, hospitais, empresas, escolas, jardins de infância e órgãos
públicos e fazer sempre as mesmas perguntas já previamente acordadas. Nós
perguntávamos sobre faltas por motivo de doença e sobre casos de doença com os
sintomas típicos de enfermidades respiratórias agudas acompanhadas de febre, e
deixávamos que fosse estimado se tais casos haviam ocorrido pouco, frequentemente ou
muito frequentemente, e como o número de casos havia se alterado desde a última
entrevista. Com a ajuda dessa sentinela caseira era possível, em uma manhã, estimar de
forma relativamente confiável se na região se disseminava uma infecção gripal.

Desse modo, os cerca de 150.000 moradores podiam se informar se, por exemplo,
jardins de infância ou escolas deveriam ser fechadas, a quem qual vacina era
recomendada, ou se seria melhor o prefeito adiar a sua recepção de ano novo, para que a
doença não se espalhasse também na prefeitura.

“Gripe” tem muitos patógenos – mas só o [vírus] influenza interessa à indústria

Existem algumas pesquisas que estimam qual o grau de participação que os diferentes
vírus têm em tais infecções gripais. Isso também é importante porque aquilo que
normalmente corre na boca do povo como “gripe” faz tempo que nem sempre é uma
gripe verdadeira. Conforme afirmações de Tom Jefferson[6], não passam de 10% as
doenças assemelhadas à gripe que são causadas por vírus influenza dos tipos A, B ou C.

4 Nota do Tradutor (N.T.): No município de Flensburg, no período de 1981 a 1994.


https://de.wikipedia.org/wiki/Wolfgang_Wodarg. Acesso em 6 de julho de 2020.
5 [Infecção “gripal”] é aqui usado como sinônimo para “Influenza-Like-Illness”, ILI [enfermidade

semelhante à influenza]; outras fontes agrupam essas doenças sob o conceito de Infecções Respiratórias
Agudas (ARI [Acute Respiratory Infections]. Até aqui falta uma conceitualização mundialmente válida.
(Veja relatório [de] Tom Jefferson [pelo link na nota 6].)
6 Apresentação técnica de Tom Jefferson em 29 de março de 2010 no Comitê [de Assuntos] Sociais e de

Saúde da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa em Paris. [Vídeo da audiência, incluindo


apresentação de Tom Jefferson (a partir de 38:42), e declaração escrita dele, além de outros documentos
pertinentes à audiência, estão acessíveis para baixar em: http://assembly.coe.int/nw/xml/News/News-
View-EN.asp?newsid=2827. Acesso em 6 de julho de 2010.]
Portanto, medicamentos contra influenza, como Tamiflu®, da firma Hoffmann-La Roche,
ou Relenza®, da GlaxoSmithKline (GSK), mas também as vacinas contra „gripe“, de
qualquer modo só poderiam oferecer proteção – se realmente fossem efetivos – em
poucos casos dessas enfermidades, que em geral ocorrem nas estações frias. Os
rinovírus, coronavírus, RSV [vírus sinciciais respiratórios] ou outros vírus não bem
observados produzem quadros sintomáticos semelhantes. Contra esses, entretanto, só
há o costumeiro tratamento sintomático, e nenhuma vacina.

Transformistas virais circulam ao redor da Terra

Quanto ao três tipos verdadeiros de influenza, deve-se ainda dizer que eles – como aliás
também outros vírus – precisam sempre se equipar com novos invólucros, ou seja,
novas estruturas de superfície, para que consigam ludibriar os seus hospedeiros. Vírus
gripais que são reconhecidos pelo nosso sistema imunológico não têm chance de se
multiplicar. Esses processos de adaptação genética nos micro-organismos transcorrem
com grande velocidade, de forma que quase a cada ano precisamos contar com vírus de
influenza que aparecem de “roupa” nova. Esse também é o motivo pelo qual as vacinas
contra influenza sempre visam mais de um dos vírus circulantes, e em geral deveriam
preparar nosso sistema imunológico com três diferentes antígenos de superfície.[7]

Se quiserem sobreviver, os vírus de influenza devem então viajar pelo globo e estar
sempre de novo construídos de outra forma (“reassortant”). No inverno australiano já se
pode estimar quais subtipos e variantes estão a caminho, e que meio ano depois irão
trazer insegurança ao hemisférico norte – e vice-versa.

No final de abril de 2009, a OMS publicou um plano em fases que, no mais, fez
precisamente essa característica se tornar, a partir da fase 4, um desencadeador
importante do alarme de uma pandemia mundial.[8] Portanto, se seguíssemos a OMS,
teríamos praticamente uma pandemia duradoura. Em resposta à minha pergunta a esse
respeito para o Sr. Fukuda, o representante da OMS na audiência em Estrasburgo, ele
assentiu com a cabeça e disse que isso poderia ser o caso totalmente, mas que essa
questão seria averiguada.

A OMS se deixa comprar

A OMS, enquanto sentinela mais elevada de epidemias, prestou anteriormente muitos


serviços no combate e eliminação de doenças infecciosas, e também teve uma atuação
heroica contra a ameaça no 1 à saúde. Sem a luta muito enérgica liderada por Gro
Harlem Brundtland contra o lobby do tabaco e seus venais protagonistas na ciência,
mídia e política, não teríamos agora o instrumento altamente efetivo da convenção-
quadro internacional [para o controle] do tabaco.

No fim dos anos 1970, a OMS se posicionou heroicamente contra a crescente supressão
da amamentação em países em desenvolvimento devida à indústria do leite em pó, e em

7 N.T.: “Antígenos sobre superfícies celulares são designados de ‘antígenos de superfície’. Eles são
empregados, entre outros, no desenvolvimento de vacinas contra patógenos ou tumores, ou são averiguados
antes de uma transfusão de sangue ou de transplantes de órgão, para prevenir uma reação imune contra
grupos sanguíneos estranhos.” Citação extraída e traduzida de: https://de.wikipedia.org/wiki/Antigen.
Acesso em 5 de julho de 2020.
8 Pandemic Influenza Preparedness and Response: A WHO Guidance Document [Preparação e

Resposta para Pandemia de Influenza: um Documento de Orientação da OMS]. Genebra, Organização


Mundial de Saúde, 2009, p. 27.
[https://www.who.int/influenza/resources/documents/pandemic_guidance_04_2009/en/. Acesso em 21
de setembro de 2020.]
favor da elaboração de uma lista de medicamentos essenciais, aos quais os países pobres
também deveriam ter acesso garantido. Ambos os projetos incomodaram os lobistas das
indústrias afetadas sediados nos EUA. A esse respeito, os EUA consideravam os seus
interesses econômicos como mais importantes do que a saúde pública, e em protesto
cortaram a sua parcela de financiamento da OMS.[9]

A economia tem um código inalterável: ela vive da competição pela venda do máximo
possível de produtos e serviços com o objetivo da maior obtenção possível de ganhos
privados. Também as corporações farmacêuticas produzem seus medicamentos ou
vacinas primariamente não porque doentes precisam deles, e sim porque eles devem ser
comercializados com lucro. Elas são, em maioria, sociedades de capital, e devem fazer o
que os seus investidores esperam delas: multiplicar o melhor possível o capital investido
nelas. Por isso, só se consegue fazer com que tais empresas se envolvam nos problemas
de saúde dos países pobres quando elas também esperam um proveito próprio.

De qualquer forma, a OMS estava cronicamente com o caixa apertado e era vista por
muitos apoiadores estatais como uma obrigação incômoda. Em conformidade com a
diretiva do Global Compact [Pacto Global] do secretário-geral da ONU, Kofi Annan,
também a diretora-geral da OMS, Gro Harlem Brundtland, começou a fazer propaganda
para uma parceria público-privada (PPP) na saúde [em Inglês, Public Private Health
Partnership – PPHP] e, em 2001, expressamente convidou no Fórum Econômico de
Davos os chefes de corporações ali reunidos para uma parceria. Ela falou de uma
excelente possibilidade para troca de experiências práticas, que poderia inspirar as
empresas a outros envolvimentos públicos. Ela ficaria feliz de apoiar tal iniciativa em
favor da OMS.[10]

O Centro Transnacional de Recursos e Ação (Transnational Resource & Action Center –


TRAC, www.corpswatch.com) havia publicado já em setembro de 2000 um relatório
alarmante com o título “Tangled up in Blue”[11], no qual foi alertado sobre o exercício de
influência estranha ao sistema, por parte de grande corporações multinacionais como
Bayer, Rio Tinto, Shell, Aventis, Novartis e outras, sobre as organizações da ONU.

Também em uma avaliação publicada pela própria OMS sobre as suas PPPs na saúde,
com o título “Parcerias público-privadas na saúde: uma estratégia para a OMS”[12], foi
insistentemente alertado pelos autores Kent Buse e Amalia Waxman sobre os possíveis
prejuízos de tal cooperação para a saúde pública e a credibilidade da OMS. Os autores
apresentaram exemplos de conflitos de interesse e de exercício de influência, e já então
recomendaram máximo cuidado e grande transparência no trabalho conjunto com esses
parceiros muito mais fortes da economia.

A Big Pharma redefine doença

9 Godlee F. Conflicts of interest and pandemic flu [Conflitos de interesse e gripe pandêmica]. BMJ
2010;340:c2947- doi: 10.1136/bmj.c2947 pmid: 20525680.
[https://www.bmj.com/content/340/bmj.c2947. Acesso em 21 de setembro de 2020.]
10 N.T.: Página do link original indisponível. Página arquivada em:

https://web.archive.org/web/20050411233930/http://www.who.int/director-
general/speeches/2001/english/20010129_davosunequaldistr.en.html. Acesso em 28 de junho de 2020.
11 Tangled up in Blue - Corporate Partnerships at the United Nations [Enrolado em Azul – Parcerias

Corporativas nas Nações Unidas]. [Link atualizado: https://corpwatch.org/article/tangled-blue. Texto em


pdf pode ser baixado em: https://www.corpwatch.org/sites/default/files/Tangled Up In Blue.pdf. Acessos
em 28 de junho de 2020.]
12 „Public–private health partnerships: a strategy for WHO“. Bulletin of the World Health Organization,

2001, 79: 748–754.


A Big Pharma naturalmente não deixou passar as possibilidades de uma
instrumentalização da OMS para os seus próprios interesses. Desde aquela época, o
lobby dos medicamentos se sentou junto à mesa em Genebra e conseguiu, de forma
efetiva, que surgissem novos mercados de venda dos seus medicamentos, e que os seus
monopólios de patentes não fossem colocados em questão por estados pobres ou por
países emergentes. A indústria também fez os comitês normativos da OMS serem
integrados de especialistas relacionados com ela. Desse modo, foi possível a ela exercer
influência direta sobre definições válidas globalmente, segundo as quais um distúrbio ou
uma doença são vistos como requerendo tratamento ou não.

Assim, o lobby dos medicamentos foi responsável, por exemplo, pela redução dos valores
normativos de pressão arterial, de forma que o número de necessitados de tratamento
disparasse.[13] Para a indústria de medicamentos, a influência sobre a definição de
valores normativos é uma opção muito atraente de expandir os seus mercados. Por
exemplo, só nos EUA, a redução dos valores normativos de colesterol de 240 para 200
mg/dl levou a um aumento de 86% no número de “necessitados de terapia” – um
enorme negócio para os fabricantes de estatinas e outros redutores de colesterol.[14]

O truque da influência sobre normas de saúde com abrangência mundial através de


especialistas comprados aparentemente se mostrou tão bom, que ele então também
podia ser usado em assuntos da influenza. A direção da OMS tinha, pelo menos nos
primeiros anos, clareza dos conflitos de interesse fundamentais entre saúde pública e
economia, e sempre de novo tentou neutralizar conflitos de interesse através de contra-
medidas administrativas. Por fim, entretanto, sob a direção da Dra. Margaret Chan, a
prática desses controles se transformou cada vez mais em uma farsa, como fica claro
pelo relatório do British Medical Journal de 2010.[15]

Fear Mongering[16] – fazer negócios com a ajuda da mídia sensacionalista

Consegue-se os maiores preços para os medicamentos quando os pacientes procuram


pelo último fio ao qual se agarrar – ou seja, quando eles, no seu medo e necessidade,
estão dispostos a dar seus bens por algo que talvez ainda lhes prometa alívio ou
recuperação. Doentes de câncer, ou outros pacientes com medo ou com problemas que
os afligem cronicamente, são assim o grupo-alvo preferido da indústria de
medicamentos.

Mas quando os pacientes não têm medo, é preciso justamente provocar isso neles
através de reportagens sensacionalistas, comentadores acríticos e imagens
perturbadoras. Como sabemos desde a gripe aviária, essa estratégia aparentemente
funciona também através de um desvio passando pela política, que então se vê forçada a
encomendar pílulas e vacinas para a sua população amedrontada.

13 888 médicos de família e especialistas, farmacologistas e cientistas de 58 países publicaram na internet


no dia 16 de março de 1999 uma carta para a diretora-geral da OMS, a Sra. Gro Harlem Brundtland, na
qual expressaram as suas preocupações com os baixos valores-limite de pressão arterial determinados
pela OMS: “Receamos que as novas recomendações sejam usadas para encorajar uma maior utilização dos
medicamentos anti-hipertensores, com grandes custos e reduzidos benefícios.” [Página do link original
indisponível. Página em Português arquivada em:
https://web.archive.org/web/20100419105728/http://www.uib.no/isf/letter/portugues.htm. Acesso
em 28 de junho de 2020.]
14 Welch, Gilbert et al. Overdiagnosed. 2011, p. 24.

15 BMJ 2010;340:c2912. [Cohen, Deborah; Carter, Philip. WHO and the pandemic flu “conspiracies”.]

https://www.bmj.com/content/340/bmj.c2912.extract. [Acesso em 30 de junho de 2020.]


16 A disseminação de medos infundados.
Aqui, a mídia de massas adquire grande significância como auxiliar de marketing do
ramo farmacêutico. Políticos estão primariamente interessados em manter o seu poder.
Por isso, eles precisam sempre prestar atenção ao que a maioria dos seus eleitores
supostamente esperaria deles. Quando uma campanha de marketing de medo consegue
gerar tanto medo na população que esta majoritariamente espera da política uma
intervenção salvadora, então os negócios são certos e a cotação das ações sobe. No caso
de conflitos militares, são as cotações da indústria de segurança e de armamentos; e com
perigos de epidemias, quem lucra é o ramo farmacêutico, que se especializou em tais
“auxílios emergenciais”.

Não por acaso que James Murdoch, um filho do magnata da mídia Rupert Murdoch, foi
indicado, em maio de 2009, para a diretoria do fabricante de vacinas contra a gripe e do
[medicamento] Relenza®, GlaxoSmithKline.[17] De fato, o medo permite não apenas um
aumento na demanda de medicamentos, mas também na tiragem e nos índices de
audiência das mídias que difundem esse medo.

Por que veterinários desempenham um papel principal no teatro com a influenza?

Os especialistas que estão na folha de pagamento da indústria farmacêutica às vezes


parecem se digladiar em uma verdadeira disputa em torno da sua versão do patógeno
mais apropriado para os fins de fear mongering [espalhar medo]. Nisso, especialistas
provenientes da medicina veterinária sempre de novo desempenham um papel
principal. Isso é compreensível, pois os estábulos da criação intensiva de animais são
paraísos para os vírus. Ali reinam condições que desde os tempos da gripe espanhola
dificilmente ainda se encontram em populações humanas.

Naquela época, em tempos de fome e nos abrigos dos miseráveis ao final da Primeira
Guerra Mundial e logo após, em muitos países viviam pessoas debilitadas e famintas,
frequentemente apinhadas em abrigos de massa sem higiene, que ofereciam aos vírus
influenza um meio de cultura ideal para a multiplicação e disseminação deles. E foi
somente muito depois, após a Segunda Guerra Mundial, que também as temidas
complicações de uma infecção viral aguda por infecções secundárias bacteriais ou por
tuberculose, ficaram controláveis por meio de antibióticos.

Na criação intensiva industrial de animais, relativamente nova, e especialmente


naqueles países onde o controle oficial é corrupto ou inexistente, existem hoje em dia
condições de vida muito favoráveis para os vírus e patógenos. Uma infecção por
exemplo com os vírus H5N1, de gripe aviária, raramente encontra aí defesas
imunológicas competentes. Além disso, que oportunidade os animais teriam de
desenvolver uma imunidade contra patógenos, quando eles em geral só vivem poucas
semanas ou meses até o abate? Até mesmo porcos de engorda não vivem mais do que
três quartos de ano. Por isso, empresas farmacêuticas e veterinários têm aqui um vasto
mercado e poderiam, sem grandes discussões éticas, acumular suas experiências na
criação intensiva de animais, que já por motivos higiênicos é mantida isolada do público.

Nessas instalações com milhares de animais, os veterinários estão em casa. Aqui, eles
vacinam e vendem antibióticos à vontade. Desenvolvimentos de resistências e perigosos
germes patogênicos provêm sobretudo desses criadouros da nossa perversa produção
de alimentos. Na criação intensiva de animais, especialmente de aves, há muito mais
vacinas contra os mais diferentes vírus do que na medicina humana. Em parte, essas
vacinas são constituídas de vírus vivos enfraquecidos (atenuados) que, entretanto,

17GSK Annual Report 2010 [Relatório Anual GSK 2010]. [Link atualizado:
https://www.gsk.com/media/2691/annual-report-2010.pdf. Acesso em 30 de junho de 2020.]
dentro das condições da criação intensiva de animais, podem recombinar-se[18] e com
isso readquirir a sua função patogênica original.

Sob tais circunstâncias, e especialmente quando os criadores de aves estão


imunodeficientes ou pouco protegidos, sempre de novo ocorrem zoonoses. Fala-se de
zoonose quando uma doença que propriamente só ocorre em animais é transmitida para
seres humanos, mas na qual a transmissão de humano para humano não é a regra.

Na primeira tentativa de fazer negócio com o medo, foi-nos dado a acreditar, partindo de
veterinários da OMS, que casos isolados de tais zoonoses, coletados na Ásia e noutros
lugares, deveriam ser entendidos como o provável começo de um perigoso alastramento
do patógeno influenza A do subtipo H5N1 na espécie humana.

Albert Osterhaus, veterinário e virologista da Universidade Erasmus, em Roterdã, é o


presidente do conselho administrativo do fórum de especialistas ESWI [European
Scientific Working group on Influenza – Grupo de Trabalho Científico Europeu sobre
Influenza], financiado pela indústria farmacêutica. Ele gosta de se denominar Dr. Gripe, e
o seu laboratório de alta segurança é conhecido pela sua coleção de vírus exóticos e
perigosos. É devido a ele e aos seus colegas de ramo que nos é dada a impressão de que
os vírus preservados nas coleções deles são o maior problema de saúde da sociedade
mundial.

Por quê? Sobre isso escreve Philip Alcabes no seu best-seller “DREAD”[19]:

“Espera-se que nos preparemos para uma pandemia de algum tipo de influenza
porque as sentinelas da gripe, as pessoas que vivem de estudar o vírus e que
precisam atrair recursos contínuos para seguir estudando-o, precisam convencer as
agências de financiamento sobre a urgência de se lutar contra uma praga que
virá.”

O desertor como sentinela máxima de epidemias

O especialista que em 2005 se destacou como sentinela máxima de epidemias da OMS foi
o veterinário Dr. Klaus Stöhr, oriundo do leste da Alemanha, que de 2001 a 2006
trabalhou como coordenador do programa global da influenza e, então, como
conselheiro sênior no desenvolvimento de vacina para pandemia de influenza na OMS.
Após isso, em 2007 ele mudou direto para o produtor de vacinas Novartis®.

Ele e os seus especialistas em influenza da OMS já haviam, dois anos antes, apostado de
forma embaraçosa no cavalo errado. Nessa ocasião, na virada de ano 2002-2003, teriam
sido relatadas várias infecções respiratórias agudas na província chinesa de Guangdong,
das quais algumas foram então observadas em março de 2003 pelas sentinelas de gripe,
durante a viagem delas por Hanoi, Hong Kong ou Singapura. Os casos suspeitos pela
OMS como sendo de doença do H5N1 (o patógeno da gripe aviária), que não chegavam a
mil casos[20], foram depois descritos como sendo infecções de coronavírus.

18 Reverter-se geneticamente.
19 Philip Alcabes. Dread: How Fear and Fantasy Have Fueled Epidemics from the Black Death to the
Avian Flu [Pavor: Como o Medo e a Fantasia Alimentaram Epidemias da Peste Negra à Gripe Aviária].
Public Affairs. ISBN: 978-1586486181.
20 [WHO. Severe Acute Respiratory Syndrome (SARS) - multi-country outbreak – Update [Síndrome

Respiratória Aguda Grave (SARS) – surto em múltiplos países – Atualização].


https://www.who.int/csr/don/2003_03_16/en/. [Acesso em 1o de junho de 2020.]
Já então, as narrativas da OMS diziam mais sobre a forma de observação da ocorrência
da doença do que sobre a própria situação epidemiológica descrita. Certo é que medidas
simples de higiene, como lavar as mãos ou o isolamento temporário de infectados,
conseguiram com muita rapidez conter localmente e acabar com uma iminente
“pandemia de SARS”.

Na gripe aviária, foram sobretudo os fornecedores de inibidores de neuraminidase, ou


seja, de Tamiflu® e Relenza®, que lucraram com a criação de pânico pelo especialistas da
OMS. Quando a administração Bush estocou Tamiflu por cerca de 1,5 bilhões de dólares
para proteger a população norteamericana do evocado perigo, logo veio a público que
um proeminente membro dessa administração havia, não em pequena medida, lucrado
pessoalmente com esse negócio. Tratava-se do ministro da defesa norteamericano
Donald Rumsfeld, que antes da sua posse no cargo ainda era presidente da diretoria, e
depois continuou como grande acionista, do gigante farmacêutico Gilead Sciences,
detentor da patente do Oseltamivir e com isso concedente da licença do muito lucrativo
Tamiflu®, da Hoffmann-La Roche. Também a corporação francesa Sanofi-Aventis lucrou
nesse negócio com o medo. Na sua comunicação de 6 de março de 2006, ela anunciou:
“Sanofi fornece matéria-prima para o Tamiflu”.[21]

Depois que o veterinário e sentinela-chefe de epidemias da OMS, Klaus Stöhr, ficou


alardeando em frente às câmeras da imprensa mundial sobre aves migratórias que iriam
disseminar a gripe aviária por todo o globo, ficou-se procurando desde o Mar Báltico até
o Mar Mediterrâneo por aves selvagens mortas que pudessem ser consideradas vítimas
do H5N1. Foram encontrados aqui e ali alguns exemplares, que então, em seu triste
estado, enfeitaram as capas da imprensa sensacionalista. O argumento de ornitólogos
famosos[22], de que justamente aves doentes de gripe não conseguem mais voar longos
trechos, e portanto não entram em questão como disseminadores da epidemia, não
conseguiu, na ocasião, chegar até a imprensa. Também o fato de que a cada ano tais
vítimas de gripe ficam para trás congeladas, mas ninguém até então mostrou interesse
em pesquisar aves mortas tão intensivamente, não encontrou eco algum. Entrementes,
há provas conclusivas de que foram antes as transmissões através de veterinários,
criadores e ração os meios pelos quais o patógeno H5N1 conseguiu causar grandes
estragos em alguns rebanhos de animais em criações intensivas.

Últimos preparativos para a “pandemia”

Em 1981, após a extinção da varíola, o Regulamento Sanitário Internacional (RSI) [em


Inglês, International Health Regulations – IHR] aprovado em 1969, ao qual a maioria dos
países se sujeitou voluntariamente, foi relaxado ainda mais e passou a regulamentar, em
vez das seis epidemias iniciais, ainda só três possíveis epidemias: a peste, a cólera e a
febre amarela. Durante os anos 1999 a 2009, a parceria público-privada na saúde, recém
saída do forno, trabalhou, com a participação da indústria em diversos grupos de
trabalho da OMS, em planos muito mais abrangentes para a coordenação global da
defesa contra epidemias.

Já em abril de 1999 também foi lançada a pedra fundamental para as campanhas de


influenza dos anos seguintes. O documento “Plano para a Pandemia de Influenza: O Papel
da OMS e Diretrizes para o Planejamento Nacional e Regional” [„Influenza Pandemic
Plan: The Role of WHO and Guidelines for National and Regional Planning“] foi elaborado
por especialistas financiados pela indústria juntamente com o Grupo de Trabalho

21 Trata-se do ácido chiquímico, uma matéria-prima importante para a fabricação do componente ativo do
Tamiflu®. [Página do link original indisponível.]
22 [Blog de Klemens Steiof sobre o tema da pandemia da gripe aviária, em Alemão.]

http://steiof.blogspot.de/2006/04/schreiben-vom-632006.html. [Acesso em 4 de julho de 2020.]


Científico Europeu sobre Influenza (ESWI). O ESWI é uma organização financiada pelas
empresas de medicamentos[23], que têm um grande interesse econômico no assunto.
Essa organização pretensamente científica empregou e pagou especialistas renomados
como Neil Ferguson, biomatemático do Imperial College, de Londres, Arnold S. Monto,
ex-presidente da Sociedade Epidemiológica Americana, Albert Osterhaus, veterinário e
virólogo na Universidade Erasmus, de Roterdã, Jonathan Van‐Tam, professor de
proteção da saúde na Universidade de Nottingham e há muitos anos funcionário da
Roche e da Beecham Smith Kline, e o funcionário do Instituto Robert Koch e
epidemiologista de infecções Walter Haas.

Todos estavam ou estão intensivamente envolvidos na preparação contra pandemias da


OMS. Se fossem aqui listados todos os especialistas em pandemia com ligações
econômicas com a indústria farmacêutica, resultaria uma lista muito longa. As
publicações inicialmente mencionadas do Conselho da Europa, do BMJ [veja nota 15] e
do relatório final do Comitê de Revisão da OMS (Relatório Fineberg, abril de 2011 [veja
nota 35]) fornecem abundantes informações a respeito.

De 1999 até hoje, inúmeras reuniões e rodadas de especialistas tiveram lugar e


produziram protocolos. Diz-se que todos os participantes tiveram que documentar por
escrito, individualmente, os seus conflitos de interesse antes das reuniões. Entretanto,
esses documentos são assunto da maior importância e foram, tanto quanto possível,
mantidos em sigilo pela OMS com relação a investigações. Da prática de transparência,
não se vê nada aí.

Em 2005, a Assembleia Mundial da Saúde finalmente aprovou o Regulamento Sanitário


Internacional então vigente (IHR 2), que entrou em vigor em 2007. Ele obrigava todos os
países-membro que não tivessem expressamente feito outra opção, a seguir as medidas
ditadas pela OMS em caso de uma pandemia. Entre essas também se encontram, em
especial, as medidas contra uma pandemia de influenza.

Ao mesmo tempo, os países-membro da OMS eram solicitados a realizar planejamentos


nacionais de pandemia. Na maioria dos países, isso foi iniciado em 2005-2006, sob a
marca da gripe aviária e da comunicação da OMS, de que “dessa vez ainda saímos ilesos,
mas...”.

A excitação do lobby da influenza desde a SARS e a gripe aviária impulsionou esse


trabalho.[24] Sob o título de trabalho “Preparação para Pandemia” [Pandemic
Preparedness], a partir de 2007 quase tudo girou somente em torno dessa doença,
contra a qual a indústria prometeu fornecer antídotos. No final, em maior parte se
tratava ainda apenas de quem e quando se fabricaria essas substâncias, e a quem e por
que preço poderiam ser fornecidas. E por último, também os países mais pobres
deveriam ter “acesso ao progresso”.

23 N.T.: Página do link original indisponível. Página arquivada com informações sobre financiadores da
ESWI, em 14 de novembro de 2009:
https://web.archive.org/web/20091114105308/http://www.eswi.org/who-are-we/eswis-sponsors.
Acesso em 2 de julho de 2020.
24 [No original, em Francês:] OMS, Règlement sanitaire international. 2005, 2ème édition, p. vii.

[Traduzindo do Inglês (não encontrei a 2a ed. em Português): OMS, Regulamentação Sanitária


Internacional (International Health Regulations). 2005, 2a ed., p. 1:] “Depois de extenso trabalho
preliminar sobre a revisão pelo secretariado da OMS, em consulta próxima com países-membro da OMS,
organizações internacionais e outros parceiros relevantes, e com o impulso criado pela emergência da
síndrome respiratória aguda grave (a primeira emergência de saúde pública global no século XX), a
Assembleia de Saúde estabeleceu em 2003 um Grupo de Trabalho Intergovernamental, aberto a todos os
países-membro, para revisar e recomendar um esboço de revisão do Regulamento para a Assembleia de
Saúde.”
O redemoinho midiático em torno de um perigo do H5N1, nunca provado como ameaça
para seres humanos, foi suficiente para colocar em movimento o navio-tanque da
pandemia. Praticamente nenhum representante de agência nacional de saúde ou
cientista envolvido nesse processo teve chance, contra o mainstream [a corrente geral]
maciçamente fomentado pela indústria farmacêutica, de parar esse meganegócio. Os
conflitos de interesse de virologistas, biomatemáticos e outros especialistas envolvidos
foram arquivados e ignorados.

O lema dali em diante foi: A próxima pandemia com certeza virá – só não podemos dizer
ainda como, quando e onde.

A política é cobrada

Simultaneamente, esse processo recebeu muito vento a favor de todos aqueles que,
através da excitada discussão midiática sobre vírus, estimação de riscos, efetividade de
vacinas, resistências, capacidades de produção e diferentes preferências sobre
distribuição de vacinas etc., repentinamente puderam ficar sob os holofotes da
publicidade.

Também os líderes da política participaram. A chanceler alemã, Sra. Merkel, doou a cada
um dos dois fabricantes de vacinas, Novartis e GlaxoSmithKline, dez milhões de Euros
em dinheiro dos contribuintes para ampliação da capacidade de fabricação de vacinas
para a pandemia. O presidente Sarkozy voou para o México em início de março de 2009
para estar ali junto com seu colega mexicano Calderón na assinatura do contrato sobre
uma nova fábrica de vacinas contra a gripe no valor de 100 milhões de Euros, poucos
dias antes da irrupção da gripe suína.

Enquanto por quase todo o mundo se seguia os especialistas da OMS e, por causa da
ameaça de uma possível pandemia anunciada por ela, reelaborava-se os planos de
catástrofe[25], a indústria farmacêutica investiu – conforme declarações dos seus
representantes na audiência do Conselho da Europa em Estrasburgo – cerca de quatro
bilhões de dólares no desenvolvimento e disponibilização de medicamentos e vacinas
para o esperado acontecimento.

Em julho de 2009, durante a última semana de sessões do Parlamento Federal alemão,


eu solicitei à ministra da saúde alemã Ulla Schmidt, em uma reunião da bancada do
partido, que ela não caísse no engodo e recusasse as 50 milhões de doses de vacina
reservadas. Na ocasião, ela ouviu meus argumentos apresentados publicamente, calou-
se e, depois, assegurou à imprensa que ninguém deveria ter medo de que não haveria
vacinas suficientes.

Então, no verão de 2009, por meio de várias publicações em mídias internacionais, eu


não somente alertei sobre o “negócio com o medo”, como também apontei que, no caso
das vacinas encomendadas, tratava-se de um medicamento de emergência liberado
especialmente para um caso de catástrofe, em cujo licenciamento através da Agência

25 No plano nacional de pandemia da Alemanha, Parte I, de maio de 2007, pode-se ler: “Uma pandemia de
influenza (fase 6 da OMS) é, sob o aspecto do gerenciamento geral de crise, uma situação catastrófica de
longa duração e abrangendo múltiplos países. Antes de mais nada, entram em ação os mecanismos previstos
de proteção contra infecções e para combate de epidemias. Entretanto, uma pandemia de influenza é – como
também outras situações de catástrofe – um evento danoso que, de um lado, caracteriza-se por uma
sobrecarga da infraestrutura inicialmente disponível para o seu enfrentamento; e que, de outro lado, causa
tais danos duradouros, que as condições de vida de numerosas pessoas são ameaçadas ou destruídas. Por
isso, as estruturas de gerenciamento de crises e de catástrofes implantadas pelo país e pelos estados para
situações de catástrofe são utilizadas também em uma pandemia.”
Europeia de Medicamentos naturalmente foram levadas em conta outras considerações
de risco, e aceitos padrões de segurança inferiores do que para vacinas normais.

Já nos anos de 2007 a 2009, governos em todo o mundo negociavam com a indústria de
vacinas sobre alocação suficiente de vacinas para o pior dos casos, e fecharam contratos
sobre as quantidades a serem fornecidas e os preços, cujo sigilo foi contratualmente
estipulado. Entretanto, no final do verão de 2009, alguns dos contratos vieram a público
através de denunciantes [whistleblowers].

Foi o caso, por exemplo, de contratos franceses e alemães. As condições ali acordadas se
tornaram mais tarde objeto de crítica pública, porque continham termos muito
favoráveis para as empresas farmacêuticas: extensas isenções de responsabilidade,
preços elevados para coadjuvantes patenteados alegadamente necessários e, acima de
tudo, uma cláusula que deveria fazer os contratos entrarem automaticamente em vigor
quando a OMS declarasse a fase 6 do alarme de pandemia.

Portanto, o desencadeador, o disparador de um dos maiores e melhor preparados golpes


de marketing da indústria farmacêutica foi colocado nas mãos da OMS e, dentro desta,
nas da diretora-geral e do Comitê de Emergência que a aconselha.

Empresa privada apresenta uma história fotogênica

Depois que tanto trabalho de preparação foi feito e os negócios mundo afora pareciam
estar bem encaminhados, só faltava ainda uma pandemia. Mas não foi preciso esperar
muito por ela. Agentes de uma empresa chamada VeratectTM, fundada somente em 2007
e especializada no rastreamento de perigos de epidemias e outros problemas, entraram
em ação.[26] Preciso deixar em aberto quem pagou a operação deles.

Segundo os relatórios da empresa, desde 30 de março de 2009, depois que um advogado


canadense, que antes teria estado no México, recebeu tratamento em Ottawa por causa
de uma pneumonia, a empresa procurou por uma origem suspeita. Por que exatamente
esse caso, dentre as muitas pneumonias após uma estadia no exterior, foi objeto de tal
investigação minuciosa, permanece um enigma na história das epidemias.

Logo os narizes farejadores dos EUA encontraram uma agência de saúde próxima de
uma firma de criação de porcos no planalto em torno de Veracruz [no México], que havia
relatado ao jornal local “Imagen del Golfo” um aumento suspeito de 15% nas doenças
respiratórias e infecções gastrointestinais.

Os agentes especiais da empresa examinaram detalhadamente esse relato acionando


autoridades mexicanas, e conectaram-no, à maneira de um serviço secreto em uma
espécie de rastreamento por varredura, com todos os boatos e notícias no México que
com ele se encaixassem.

26“Na Veratect, operamos dois centros de operação nos Estados Unidos (um na área de Washington DC e
outro em Seattle, WA) que oferecem detecção e rastreamento de eventos de doenças infecciosas animais e
humanas globalmente. Ambos os centros de operação seguem organizacionalmente o modelo do nosso
Serviço Nacional de Meteorologia, usando uma metodologia distinta inspirada pelas comunidades de
desastres naturais e de meteorologia. Nossos analistas lidam com informações em idiomas nativos
vernáculos e foram extensamente treinados na sua disciplina, que inclui interpretação de informações com
especificidade cultural. Atualmente temos parceria com 14 organizações, que nos fornecem observações de
campo diretas em 238 países. Somos uma organização de detecção e rastreamento de eventos em tempo
quase real, articulada com múltiplas fontes e com anos de experiência nessa disciplina.” Perfil e relatório da
empresa: [Página do link original indisponível.] http://mundo.paralax.com.mx/noticias/69-
influenza/104-influenza-ne-mexico-linea-de-tiempo.html. (Acesso em agosto de 2012, 9:05h.
Entrementes, a fonte original lá informada só carrega uma página vazia.)
Ao mesmo tempo, esses “achados” foram ao longo de três semanas muito difundidos e
intensificados em mídias e na internet, até que o CDC [Centers for Disease Control and
Prevention – Centros de Controle e Prevenção de Doenças, dos EUA] e a OMS também se
ocuparam da questão.

No dia 23 de abril de 2009, o pessoal da Veratect ainda se queixava: “Muitos dos clientes
da Veratect, inclusive canadenses, perguntam por que ainda não foi emitido um alerta
pelos EUA para sensibilizar a sua comunidade de assistência à saúde.” Em 24 de abril, veio
por fim o comunicado: “Veratect continua a processar um aumento dramático nas
notícias sobre a situação no México. A OMS solicita acesso ao sistema Veratect. Veratect
está ciente de amostras laboratoriais do México positivas para “gripe suína” H1N1, um
novo vírus. A mídia mundial agora está ciente da situação no México. O CDC emitiu um
comunicado de imprensa, como também a OMS.”

Agendamento [Agenda Setting] Calculado

A partir disso, as mídias sensacionalisticamente foram atrás de tudo o que podia ser
relacionado à “gripe suína”, chamada assim pelos caçadores de epidemias nos locais. Em
20 de maio de 2009, GlaxoSmithKline, o fabricante da vacina Pandemrix® para a
pandemia, de pronto admitiu oficialmente o especialista midiático James Murdoch como
diretor associado na sua diretoria. Seu colega de diretoria[27] (desde 2007 na GSK), o
epidemiólogo e diretor do Imperial College de Londres, Sir Roy Anderson, anunciou já
em 1º de maio, em uma entrevista memorável da BBC[28]: “a pandemia da gripe suína já
começou”.

A essa altura, com grande espanto eu comecei a olhar toda a situação mais de perto.
Quando o cientista corrupto[29] Sir Roy Anderson emitiu o seu sinal de alarme com
aparência de sério, o seu colega institucional, o biomatemático Neil M. Ferguson,
igualmente já antes subornado pelos fabricantes de vacinas Baxter, GSK e Roche, deixou
os seus computadores calculando. Para a indústria que estava à espera de uma
pandemia, ele fez um lançamento direto para as mesas do Comitê de Emergência de
Margaret Chan na OMS, então trabalhando febrilmente.

Em 11 de maio, em um trabalho publicado por ele e seus colegas da Colaboração para


Avaliação Rápida de Pandemia [Rapid Pandemic Assessment Collaboration] da OMS, esse
mágico da matemática, a partir de algumas centenas de supostos casos das perturbadas
sentinelas de saúde mexicanas e dos números de passageiros das agências de turismo
mexicanas, computou um cenário de disseminação que produziu resultados muito
preocupantes para todos aqueles que ou não entendiam nada de epidemiologia, ou não
queriam entender.[30] Parece realmente ser muito difícil tornar algo compreensível a
alguém cujo salário depende de ele não entender isso.

27 As funções e os rendimentos abundantes de ambos os membros da diretoria, assim como os ganhos


econômicos da divisão de vacinas relacionados com as suas atividades, estão publicados com agradecida
franqueza no relatório anual da corporação [de 2010]. [Link atualizado:
https://www.gsk.com/media/2691/annual-report-2010.pdf. Acesso em 6 de julho de 2020.]
28 A entrevista completa [em áudio, intitulada Swine flu pandemic 'has started'], disponível para baixar na

seguinte página em 26/05/2012, não está mais acessível:


http://news.bbc.co.uk/today/hi/today/newsid_8028000/8028295.stm.
29 Corrupção, segundo a Transparency International, é: o mau uso de poder recebido em confiança para a

obtenção de vantagens ou uso pessoal.


30 Ferguson, Neil M. et al, DOI: 10.1126/science.1176062 [Pandemic Potential of a Strain of Influenza A

(H1N1): Early Findings (Potencial Pandêmico de uma Variedade de Influenza A (H1N1): Achados Iniciais)].
[Material de apoio online:] www.sciencemag.org/cgi/content/full/1176062/DC1. [Artigo publicado:
https://science.sciencemag.org/content/324/5934/1557.long. Acessos em 4 de julho de 2020.]
Esse número de casos relativamente pequeno como base para um cenário de pandemia
me pareceu suspeito, porque já com apenas 150.000 habitantes na minha jurisdição, eu
tinha de contar com até mais de 15.000 casos de doença durante um surto de gripe.
Como é que epidemiologistas sérios puderam chegar a disparar um alarme de pandemia
global com menos de mil casos em uma população de 110 milhões (somente na região
metropolitana da Cidade do México vivem mais de 20 milhões de pessoas)? Isso não
tinha como estar certo.

As oscilantes tentativas da OMS para descrever uma pandemia

Através de uma reportagem do jornalista Frank Jordans para a agência Associated Press
[AP][31], a minha atenção foi direcionada para um segundo truque, pelo qual uma gripe
normal de cada ano agora deveria ser inflada como uma pandemia perigosa. Na época da
ação no México, as rodadas secretas de especialistas no quartel general da OMS em
Genebra simplesmente alteraram a norma para “pandemias”, tal como os especialistas
da Big Pharma já haviam feito com sucesso para a pressão sanguínea ou outras
enfermidades. Como a gripe era inofensiva demais para ser uma pandemia segundo a
leitura de até então, eles simplesmente retiraram dos critérios de pandemia os
parâmetros sobre a gravidade e mortalidade da doença.

Em 19 de maio de 2009, com o título “Nações instam OMS a mudar critérios de pandemia”
[Nations urge WHO to Change Criteria for Pandemic], Frank Jordan relatou sobre uma
conferência de imprensa da OMS com o representante de Margaret Chan, o ex-
funcionário do CDC Dr. Keiji Fukuda. Ele escreveu:

“Dezenas de países demandaram que a Organização Mundial de Saúde alterasse


seus critérios para declarar uma pandemia, dizendo que a agência precisa
considerar quão letal um vírus é – não apenas o quanto ele se espalha pelo globo.
Temendo que uma declaração de pandemia da gripe suína possa desencadear
pânico em massa e devastação econômica, Inglaterra, Japão, China e outros
pediram na segunda-feira que o órgão mundial prosseguisse com cuidado antes de
soar seu alerta. Alguns citaram as consequências custosas e potencialmente
arriscadas, tal como mudar de uma vacina de temporada para uma pandêmica,
sendo que até aqui o vírus parece ser brando.”

Nessa conferência, Fukuda acalmou os representantes nacionais que levantaram


dúvidas dizendo que esses argumentos ainda seriam considerados a fundo. Entretanto,
nada foi alterado na criticada nova definição dos critérios de pandemia.

Tom Jefferson, da Cochrane Collaboration, se deu ao trabalho de analisar os diferentes


critérios com os quais a OMS descreveu uma pandemia. A descrição que ele ainda em 4
de maio de 2009 encontrou nas páginas da OMS e conseguiu documentar, dizia:

“Uma pandemia de influenza ocorre quando surge um novo vírus de influenza


contra o qual a população humana ainda não tem imunidade, resultando em uma
epidemia mundial com enorme número de mortes e de doenças. Com a
intensificação do transporte global, bem como da urbanização e de condições de
superpovoamento, epidemias devidas aos novos vírus de influenza provavelmente
podem se espalhar pelo mundo rapidamente.” (Destaques de Tom Jefferson.)

31N.T.: Nations Urge WHO to Change Criteria for Pandemic [Nações instam OMS a mudar critérios de
pandemia]. Página do link original indisponível. Página arquivada em:
https://web.archive.org/web/20100102045924/http://cnsnews.com/news/article/48316. Acesso em 4
de julho de 2020.
Subsequentemente, encontrou-se na mesma página:

“Uma doença epidêmica ocorre quando há mais casos dessa doença do que o
normal. Uma pandemia é uma epidemia mundial de uma doença. Uma pandemia de
influenza pode ocorrer quando surge um novo vírus de influenza contra o qual a
população humana ainda não tem imunidade........ Pandemias podem ser tanto
brandas quanto severas em termos da doença e morte que causam, e a gravidade
de uma pandemia pode mudar no decurso dessa pandemia.”

No total, Tom Jefferson, em seu relato perante o Comitê Social[32] da Assembleia


Parlamentar do Conselho da Europa em 29 de março de 2010, citou onze diferentes
formulações da OMS, cada uma das quais descrevia no que consiste uma pandemia, ou
seja, continha uma definição de pandemia.

As investigações dele e de Peter Doshi foram a melhor prova da correção da minha


acusação, de que a OMS teria alterado a definição de pandemia “just in time” [bem na
hora], para possibilitar os desejados negócios aos parceiros da indústria de remédios.
Por motivos a mim não conhecidos, no verão de 2001 Peter Doshi pode publicar no
boletim da OMS um artigo[33] no qual ele apresentou o evidente engodo de forma
exculpatória sob o lema “fechando a brecha”.

A OMS avalia a si mesma

Em 22 de novembro de 2010, depois de uma reunião da OMS nos prédios de luxo de


empresas privadas na praça Pariser Platz, em Berlim, quando eu subitamente me vi ao
lado da Sra. Dra. Margaret Chan no bufê frio, não pude evitar me dirigir a ela. Eu me
apresentei como aquele que iniciou as investigações no Conselho da Europa, e perguntei
a ela por que a OMS compareceu somente uma vez às audiências da Assembleia
Parlamentar, e depois se recusou a dar mais informações. A Sra. Chan ficou visivelmente
surpresa com esse encontro inesperado, mas de pronto soube me enquadrar. Ela me
pegou pelo braço e me levou para o lado por dez minutos, para me dizer, primeiro, que
eu estava completamente errado com a minha ação, e que a própria OMS iria agora
constituir um comitê de revisão, para evitar tais conflitos no futuro.

Eu estava bem ciente desses planos e já havia expressado críticas claras a respeito na
minha homepage[34], que eu então repeti para ela: “Se você designar o Prof. Van Tam, de

32 N.T.: Isto é, o Comitê de Assuntos Sociais, de Saúde e Familiares.


33 L’insaisissable définition de la grippe pandémique [A elusiva definição de pandemia de influenza]. Bull
World Health Organ, 2011;89:532–538 | doi:10.2471/BLT.11.086173.
34 N.T.: Página do link original indisponível (em 30 de junho de 2020). Comunicações do autor

relacionadas à questão foram encontradas em outras páginas, conforme segue:

1. Página arquivada do website de Dr. Wodarg, contendo uma aparente chamada de artigo intitulada “Não
aprendeu nada: a OMS deixa planos de ‘pandemia’ serem avaliados por gerente das indústrias
farmacêuticas” (tradução do Alemão), datada de 18 de novembro de 2010.
https://web.archive.org/web/20150627043048/http://www.wodarg.de/gesundheit/index_2010.html.
Acesso em 30 de julho de 2020. Aparente chamada de artigo (aqui traduzida do Alemão):

“Um Instituto da Universidade de Nottingham, sob a direção do Professor Jonathan Van Tam, deverá
investigar para a OMS até que ponto ‘planos de preparação e medidas de prevenção’ existentes para
influenza ‘se mostraram efetivos e apropriados’.
Com Van Tam, a OMS coloca um bode como jardineiro, pois assim ela permite que um ex-funcionário
de alto cargo na Roche, GSK e Sanofi-Aventis tire lições para elas sobre a falência da ‘pandemia’. A
diretora-geral, a Sra. Chan, comporta-se como se nunca tivesse havido acusações de corrupção por causa
da colaboração entre Big Pharma e a OMS.”
Nottingham, para a tarefa de conduzir essas investigações, você colocará o bode como
jardineiro e a OMS ficará completamente desacreditada”, expliquei para ela. Ela só
respondeu que faria isso ser averiguado.

As averiguações dela devem ter me dado toda a razão, porque o funcionário de longos
anos da Roche e da Beecham Smith Kline não recebeu a incumbência.

O comitê de revisão, sob a direção do epidemiologista Harvey V. Fineberg, dos EUA, foi
visto pelo público de forma igualmente muito crítica, já que de novo eram membros dele
alguns especialistas notoriamente conhecidos da área, com conflitos de interesse e
ligações com a indústria farmacêutica. O relatório do comitê[35] foi apresentado pela Sra.
Chan à Assembleia Mundial da Saúde no dia 5 de maio de 2011. No seu resumo
[abstract] é avaliado o procedimento da OMS na Influenza H1N1 de 2009/2010:

“A OMS atuou bem de muitas maneiras durante a pandemia, confrontou


dificuldades sistêmicas e apresentou algumas limitações. O comitê não encontrou
evidência de malfeitoria.”

A saúde, e não a economia, deve ter prioridade

Até hoje, a Organização Mundial da Saúde, ainda dependente de recursos privados, não
demonstrou que trabalha em considerar seriamente as regras e critérios de confiança[36]
que lhe foram entregues pelos representantes de 47 parlamentos europeus, e muito
menos que trabalha para colocá-las em prática. Apenas a AMS [Assembleia Mundial da
Saúde], a assembleia dos representantes governamentais e dos financiadores da OMS,
poderia realizar isso. Até aqui, entretanto, parece que para eles a o avanço da economia
deles e das suas empresas farmacêuticas é mais importante do que a saúde da população
mundial.

2. Página do blog de Paul Flynn, tópico “Big Pharma judges Big Pharma” [A Big Pharma julga a Big
Pharma], 22 de novembro de 2010. https://paulflynnmp.typepad.com/my_weblog/2010/11/missing-
frill.html. Acesso em 30 de julho de 2020. Citação de Dr. Wodarg no tópico (aqui traduzida do Inglês):

“Em 15 de outubro de 2010, a Organização Mundial de Saúde (OMS) anunciou uma avaliação
científica da sua estratégia de ‘pandemia’. O Prof. Jonathan Van Tam e o seu Instituto na Universidade de
Nottingham (Reino Unido) foram designados como parceiros da OMS para essa delicada missão.
A OMS não parece estar incomodada que o avaliador, o Prof. Van Tam, tenha trabalhado para a
Roche (Tamiflu), a Aventis Pasteur MSD (Sanofi Aventis) e a SmithKline Beecham (GSK) como Diretor de
Assuntos Médicos, e tem sido um Líder-chave de Opinião (KOL [Key Opinion Leader]) no negócio
multibilionário de ameaçar o mundo com “pandemias” de gripe aviária e gripe suína.
Ainda que essas ameaças pandêmicas logo se revelaram como ficção científica ou ideias de
marketing de alguns especialistas de indústrias farmacêuticas bem pagos, pessoas como Van Tam foram
extremamente bem-sucedidas em favor dos seus financiadores. Elas conseguiram moldar as estratégias de
gripe da OMS e de todos os países que as escutaram.
Agora, na sua posição como especialista em saúde pública na Universidade de Nottingham, a OMS
novamente pediu a ele para ‘avaliar como atividades de preparação ajudaram na resposta à pandemia de
2009 (H1N1), identificando boas práticas para o futuro e áreas em que apoio continuado ou adicional da
OMS ainda é necessário.’ O Prof. Van Tam anunciou que planeja apresentar seu relatório no final de 2010.
O Conselho da Europa examinou a pandemia ‘falsificada’ da OMS, e o parlamentar britânico Paul
Flynn, do partido trabalhista, apresentou em junho último um relatório bem acolhido, que culpou a OMS
por ocultar fatos importantes e abrir a porta para interesses da indústria, com isso sacrificando a sua
independência e o seu importante papel como uma definidora de padrões para a saúde mundial.
Ignorando os parlamentares europeus que insistiam em mais transparência, a OMS continua com as
suas perigosas relações com especialistas financiados pela indústria, e parece estar imune ao protesto
público.”
35 WHO. A64/10, Sixty-Fourth World Health Assembly. Provisional agenda item 13.2, 5 de maio de 2011.

[https://apps.who.int/gb/ebwha/pdf_files/WHA64/A64_10-en.pdf?ua=1. Acesso em 21 de setembro de


2020.]
36 N.T.: Contidos no relatório da investigação conduzida no Conselho da Europa. Ver nota 3.
Nem na OMS e tampouco em outros órgãos administrativos das Nações Unidas existe
uma possibilidade direta de controle com exame de arquivos ou com a instituição de
comissões de investigação através de grupos parlamentares. Enquanto a indústria
farmacêutica tem representação nos órgãos decisórios da OMS e possui um crachá de
acesso interno, os legítimos representantes democráticos esperam diante de portas
fechadas. Nós confiamos o nosso bem mais importante, a nossa saúde, à Big Pharma e ao
sistema financeiro, para fazerem dinheiro. Se não mudarmos nada, eles continuarão se
aproveitando disso de forma inescrupulosa.

Na próxima “campanha de medo” – e novamente já se pode notar preparativos iniciais


dos “especialistas” bem conhecidos da área[37] –, haverá ainda menos confiança nas
sentinelas de epidemias do que até aqui. Nossa desconfiança continua justificada.

* * *

37Vom Terrorvirus zur Mutation des Schreckens [Do vírus do terror à mutação do medo]. Ärztezeitung, 24
de julho de 2012. [Link atualizado: https://www.aerztezeitung.de/Medizin/Vom-Terrorvirus-zur-
Mutation-des-Schreckens-346381.html. Acesso em 28 de julho de 2020.]