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Aluna: Ana Caroline Valadares de Azevedo

Disciplina: SOC1311
Turma: 2NA
G1

Por meio do capítulo 3 do livro de Michael Banton, “A Racialização do Mundo”,


estudamos o surgimento do “racismo científico” do século XIX que forjou a
classificação dos seres-humanos em “tipos raciais”.

1.       Com base no que Banton discorre sobre Robert Knox (Escócia, 1791-1862),
descreva o que é “raça” no pensamento do século XIX (entre 200 e 800 palavras);

Termos como “raça”, “classe” e “nação” foram criados, primeiramente na Europa, para
ajudar na interpretação de novas relações sociais e dessa forma, se tornaram modos de
categorização responsáveis por classificar indivíduos e coletividades, procurando
distinguir uns e outros, nativos e estrangeiros, naturais e “exóticos” etc. E foram sendo
cada vez mais aplicadas à medida que os europeus tomavam conhecimento da existência
de um crescente número de pessoas que pareciam ser diferentes deles. É de se pensar até
de uma forma limitada, acreditar que essas categorias foram criadas nos século XV e
XVI no contato entre brancos e negros nas viagens de exploração a América, visto que é
partir do processo de industrialização dos europeus (seu continente atravessa em
primeiro lugar nesse processo) que a imposição de tais categorias sociais aos povos
passou a ser difundida e assim, inconscientemente, adotaram tais categorias como suas
também. Vale ressaltar que os países europeus construíram sua identidade nacional a
partir de uma identidade racial e a maneira como se contava a historia desde o Império
romano, final do século XVI ate o século XIX, era a partir de uma divisão de “raças”,
ou seja, a ideia de “raça” era de extrema importância dentro da Europa, principalmente
nas relações internas.

Desde o século XVI já começa a circular uma determinada concepção de “raça” dentro
da Europa que é diferente do conceito de “raça” do século XIX (Inglaterra como
idealização de uma “raça”: anglo-saxões). O termo era utilizado no sentido de linhagem,
ou seja, as diferenças derivavam das circunstancias da sua historia e embora se
mantivessem através das gerações, não eram fixas. Os europeus usavam “raça” para
designar qualquer grupo humano com ascendência comum. Várias aristocracias
pensavam que eram descendentes de conquistadores de outra terra com “sangue”
superior – por exemplo, os descendentes dos normandos na Inglaterra. Ou seja,
pensavam que eram “raças” superiores aos povos que dominavam.

A partir do século XIX, ocorre uma mudança importante no modo de conceituar “raça”
e o termo passa a significar uma qualidade física intrínseca. Os indivíduos pertencentes
à “raça” seriam biologicamente determinados (algo do organismo dessas pessoas). Até
então, essa palavra era usada para designar a descendência comum de um conjunto de
pessoas. Nesse momento, em seu sentido mais biológico, o termo “raça” começa a levar
em consideração as particularidades físicas e biológicas dos distintos grupos sociais e se
torna um meio de classificar as pessoas e grupos por características supostamente inatas.
Sendo assim, introduz o conceito biológico de “raça” e de certa forma, uma
hierarquização das “raças”, um racismo científico. Uma doutrina baseada em dividir a
sociedade em uma série de tipos raciais diferentes e permanentes.

Muitos autores, especialmente da Europa e dos EUA, formularam ideias sobre as


características do pensamento racial no decorrer do século. Robert Knox é apresentado
por Banton (1979) como um desses intelectuais. O autor expõe que o pensamento racial
de Knox possui quatro características:

“As principais características da doutrina da tipologia racial eram quatro, e podem ser vistas com clareza
nos trabalhos de Knox. A primeira é a de que as variações na constituição e no comportamento dos
indivíduos devem ser explicadas como a expressão de diferentes tipos biológicos subjacentes de natureza
relativamente permanente; a segunda afirma que as diferenças entre estes tipos explicam as variações nas
culturas das populações humanas; a terceira diz que a natureza distinta dos tipos explica a superioridade
dos europeus em geral e dos arianos em particular; a quarta explica que a fricção entre as nações e os
indivíduos de diferente tipo tem a sua origem em caracteres inatos” (Banton, Michael. 1979. p.68)

Knox acreditava que as raças humanas eram diferentes umas das outras, isto é, que
havia diversidade entre os seres humanos, no entanto, defendia a tese da superioridade
do branco sobre os demais povos. Ou seja, podiam ser diferenciadas uma das outras,
mas a branca seria permanentemente e inerentemente superior a todas, pois deveria
haver uma inferioridade física e, consequentemente, psicológica nas raças escuras.
Tinha também o ideário de que a raça era determinante na história humana e que o
caráter humano deriva da natureza da raça a que pertence, seja no âmbito individual ou
nacional.

O século XIX evidencia o termo “raça” como algo decisivo na constituição do


indivíduo, ou seja, que o define em todos os sentidos. Com a introdução de significados
políticos e sociais, surge uma associação entre as características físicas e morais e a
“raça” se torna um fator fundamental na constituição dos países, pois a capacidade dos
indivíduos de formarem sociedades será ditada por ela.

“(...) a idéia de raça do século XIX insinuou-se na tapeçaria da história mundial e adquiriu um significado
político e social que é largamente, embora não completamente, independente do significado que pode ser
atribuído ao conceito de raça na ciência biológica” (Banton, Michael. 1979. p. 16-17)

Tanto no plano do desenvolvimento político, quanto no social, econômico, material etc


haverá um vinculo e certa dependencia em relação a ideia de “raça”. Por serem os
pontos centrais para se estabelecer o grau de civilização dos povos, todos os avanços
pertinentes a essas áreas definirá também o grau de “civilização”. Ou seja, quanto
maior o avanço em determinada area de desenvolvimento da sociedade, maior o grau
de “civilização”. E a Europa converte a si mesma, em base comparativa para o mundo,
o modelo de organização social civilizada.
Atualmente, tais posicionamentos não possuem a validade científica que tiveram no
transcorrer dos séculos XIX e durante boa parte do século XX. A noção fundamental
dessa forma de raciocínio, hoje não é mais uma categoria central de análise da
sociedade e dos individuos que a constituem. A “raça” como fator de distinção para os
diferentes grupos sociais vem sendo substituída pela noção de Etnia.
O conceito sociológico de raça surge logo depois explicando que existem nas relações
humanas, relações desiguais a partir de preconceito racial. Esse preconceito que é
explicável culturalmente, socialmente. “Raça” e “Etnia” se misturam e assim,
características biológicas, físicas se unem a características culturais, o que dará inicio
ao racismo cultural. Não existe mais o conceito biológico de raça, mas as concepções
raciais permeiam as relações humanas.

BANTON, Michael. A ideia de Raça. Lisboa; Edições 70. São Paulo: Martins Fontes
(distribuidor). 1979.

No texto "O domínio da etnicidade: as questões-chave", os autores Philippe


Poutignat e Jocelyne Streiff-Fenart desenvolvem uma série de reflexões sobre os
conceitos de etnia e de etnicidade.

2.       Disserte sobre o conceito de “etnicidade” de Frederik Barth apresentado


pelos autores: “A etnicidade é uma forma de organização social, baseada na
atribuição categorial que classifica as pessoas em função de uma origem suposta,
que se acha validada na interação social pela ativação de signos culturais
socialmente diferenciadores” (entre 200 e 800 palavras).

Segundo Barth, essa definição mínima de etnicidade permite designar o campo de


pesquisa atribuído pelo conceito de etnicidade. Ou seja, o estudo dos processos
variáveis e nunca finalizados pelos quais os indivíduos identificam-se e são
identificados pelos outros, na base de dicotomizações (Nós/Eles) que são estabelecidas
pela origem comum e firmadas nas interações sociais/raciais. No entanto, esse campo
apresenta problemas-chave que independente da abordagem utilizada, são recorrentes
quando se trata sobre etnicidade. São esses: a atribuição categorial, as fronteiras do
grupo que servem de base para a dicotomização, a fixação dos símbolos identitários que
fundam a crença na origem comum e o conjunto de processos pelos quais os traços
étnicos são realçados na interação social.

A partir de algumas teorias, Philippe Poutignat e Jocelyne Streiff-Fenart constatam que,


a etnicidade se refere a um conjunto de atributos ou de traços como a língua, a religião,
os costumes, próximo à noção de cultura. Sendo esta, um fato social dotado de uma
importância universal e invariante. É no processo de interação cultural entre os grupos
sociais que as “fronteiras étnicas” ganham importância como um elemento primordial
que caracterizará o movimento das relações e a sua demarcação simbólica.

Segundo Poutignat e Streiff-Fenart, de acordo com a concepção de Barth, são as


fronteiras sociais que merecem atenção quando se discute etnicidade e os seus
fenômenos. A pertença étnica não pode ser determinada senão houver uma relação e/ou
uma linha de demarcação entre os membros e os não-membros. Ou seja, para que a
noção de grupo étnico tenha um sentido, é necessário que os atores sociais pertencentes
aquele determinado grupo, se deem conta das fronteiras que marcam o sistema ao qual
acham que pertencem e para além dos quais eles identificam outros atores implicados
em outro sistema social. No entanto, não é algo exterior que os denomina, mas suas
percepções a partir de si próprios, baseados numa autoatribuição de características e
categorias étnicas (Nós/Eles). Essa percepção do étnico a partir de categorias
diferenciadoras ajuda a perceber que o grupo social étnico forma-se nas representações
e nos sentidos estabelecidos com o mundo e com o outro.
As “fronteiras étnicas” persistem apesar do movimento de pessoas que as atravessam,
pois as distinções de categorias étnicas não dependem de uma ausência de mobilidade,
contato e informação. A interação em um sistema social, não leva a seu
desaparecimento por mudança e/ou aculturação, isto é, as diferenças culturais podem
permanecer apesar do contato inter-étnico e da interdependência dos grupos. Dessa
forma, a identidade étnica se constrói a partir das diferenças e da alteridade que
caracterizam os grupos sociais, a partir do processo dinâmico de interação entre
fronteiras. Ou seja, não é o isolamento ou a abdicação à interação com outros grupos
sociais que irão criar a consciência de pertença e a identificação do sujeito com o seu
grupo, mas sim a comunicação das diferenças das quais os indivíduos se apropriam para
estabelecerem “fronteiras étnicas”, pois as identidades são criadas e recriadas a partir
das relações com outros grupos. As “fronteiras étnicas” são produzidas e reproduzidas
pelos atores sociais a partir das interações sociais e a despeito de sua fluidez e
dinamicidade, as diferenças intergrupais, não são apagadas, mas sim
politicamente/socialmente construídas e performadas na forma de se vestir, na moradia,
nos padrões de moralidade pelos quais as ações são julgadas, na língua etc. As
identidades étnicas são construídas interativamente e estão longe de serem essenciais,
pois são situacionais e dinâmicas.

Vale ressaltar que com o passar do tempo, as “fronteiras étnicas” poderão desaparecer,
reformar-se ou manter-se. Elas também poderão se tornar mais flexíveis ou mais rígidas.
As “fronteiras étnicas” são mais ou menos fluidas, moventes e permeáveis e nunca são
oclusivas. A força de uma “fronteira étnica” pode continuar constante mesmo se
ocorrerem mudanças ou transformações internas ou de sua própria natureza.

Para Barth, portanto, uma identidade étnica não coincide necessariamente com um
modo de vida específico nem com um grupo real de pessoas, mas tem a ver com a
natureza da escolha de uma identidade étnica em meio a outras escolhas de identificação
possíveis.

BARTH, Fredrik. Grupos étnicos e suas fronteiras. In: POUTIGNAT, Philippe &
STREIFF-FENART, Jocelyne. Teorias da etnicidade. Seguido de grupos étnicos e
suas fronteiras de Fredrik Barth. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1998 [1969].
O texto de Stuart Hall desenvolve reflexões sobre a identidade cultural no mundo
contemporâneo e sobre como, em um mundo globalizado e aparentemente
homogêneo, existe, paradoxalmente, uma forte presença de grupos étnicos.

3.       Nesse contexto de discussão, o que é “racismo cultural” e “contra-etnia”


segundo o autor? (entre 200 e 800 palavras)

Stuart Hall (2006) ao criticar a homogeneização cultural, coloca em questão todo o


processo de globalização, seja no reforço das identidades locais, do processo desigual
das relações de poder, da ocidentalização da cultura e da dominação global ocidental.

O autor remonta um cenário crítico em torno da noção de identidade nacional que temos
e que, na verdade, construímos e “representamos” e critica os modos de perceber as
identidades culturais nacionais, que, muitas vezes, soam como formas naturais e
neutras. As culturas nacionais se constituem em uma das principais fontes de identidade
cultural e pensamos neste tipo de cultura como se fosse parte de nossa natureza
essencial. No entanto, as identidades nacionais não são coisas com as quais nascemos,
mas são construídas e transformadas no interior das representações.

O autor retrata que a globalização tem um efeito deslocador das identidades centradas e
fechadas de uma cultura nacional. Esse efeito pluralizador altera as identidades fixas,
tornando-as menos fixas, plurais, mais políticas e diversas. Em virtude disso, diversos
deslocamentos ocorreram no interior dessas identidades culturais nacionais,
promovendo o foco para identidades locais e regionais, assim como um hibridismo das
culturas originado pela migração dos povos.

O fenômeno das migrações pós-segunda guerra mundial aliado com a “mensagem” do


consumismo global, faz com que as diferenças e as distinções culturais, que até então
definiam a identidades, sejam reduzidas, provocando um “enclave” étnico minoritário
no interior dos estados-nação do Ocidente que leva a uma “pluralização” de culturas
nacionais e identidades nacionais. E em um mundo de fronteiras dissolvidas com essas
migrações, há também uma fascinação com a diferença e com a mercatilização da etnia
e da alteridade, atribuindo um novo interesse pelo local que produz novas identificações
globais e novas identificações locais.
Citando Kevis Robins, o autor fala sobre essa dialética das identidades, apontando para
dois efeitos produzidos por esse movimento: "Tradição" e “Tradução”. O primeiro, diz
respeito à tentativa das nações em "recuperar sua pureza anterior e recobrir as unidades
e certezas que são sentidas como tendo sido perdidas" (p.87) e o segundo, é quando as
nações "aceitam que as identidades estão sujeitas ao plano da história, da política, da
representação e da diferença e assim, é improvável que elas sejam outra vez unitárias ou
“puras”" (p.87). Dessa forma, as nações oscilam entre manter (a tradição) e transformar
(a tradução), o que afeta diretamente as novas (ou velhas) formas de identidade cultural.
É nesse movimento/deslocamento que emerge a concepção de culturas híbridas (entre a
tradição e a tradução) como um dos diversos tipos de identidades no que o autor chama
de: modernidade tardia.

O autor relata ainda que o fortalecimento das identidades locais pode ser visto na
posição defensiva adotada por membros dos grupos étnicos dominantes que se sentem
ameaçados pela presença de diferentes culturas. Como no caso do Reino Unido e a
criação do “Inglesismo” na tentativa de reconstruir uma identidade única. E é com esse
exemplo que Stuart Hall (2006), formula o que ele vai chamar de “racismo cultural”,
evidente em partidos políticos e movimentos políticos mais extremistas presentes em
toda a Europa Ocidental. Há um racismo cultural e de exclusão que tenta unificar as
identidades e filtrar as ameaças à experiência social como consequência dessa dialética.
E como reação ao racismo cultural, há uma construção de fortes contra-etnias, como por
exemplo, a ortodoxia religiosa e o separatismo politico (entre alguns setores da
comunidade islâmica, por exemplo).

A globalização está tendo efeitos em toda parte, incluindo o Ocidente, e a “periferia”


também está vivendo seu efeito pluralizador, embora em um ritmo mais lento e desigual
por conta da lógica capitalista. A tendência em direção à “homogeneização global” tem
seu paralelo num poderoso revival da etnia (são mantidas na lógica do mercado),
algumas vezes híbridas ou simbólicas, como também exclusivas ou essencialistas. No
geral, em um efeito contraditório permanente. Algumas identidades gravitam ao redor
da “tradição”, outras ao redor da “tradução” e essa oscilação está se tornando cada vez
mais evidente no plano global, segundo o autor.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11a ed. Rio de janeiro:


dp&a; 2006.