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Editora
Léa Carvalho
Capa
Design: MaLu Santos | Ilustração: Luisa Argolo Maia
Projeto gráfico
MaLu Santos
Revisão
Danielly Pereira Santos
Ilustrações
Luisa Argolo Maia

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO


SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
A228f
Aguiar, Diego
O fascismo brasileiro : surgimento e ascensão do bolsonarismo /
Diego Aguiar ; [ilustração Luisa Argolo Maia]. - 1. ed. - Rio de Janeiro : Mundo
Contemporâneo, 2020.

112 p. : 21 cm.
Inclui Bibliografia
ISBN: 978-65-86290-06-6

1. Fascismo - Brasil. 2. Brasil - Política e governo - Século XXI. 3.


Bolsonaro, Jair, 1955-. I. Maia, Luisa Argolo. II. Título.
20-67070 CDD: 320.5330981
CDU: 329.18(81)
CAMILA DONIS HARTMANN - BIBLIOTECÁRIA - CRB-7/6472
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Impresso no Brasil
Para todos aqueles que me fazem suportar
a cruel “dádiva” da existência.

Para todos aqueles que buscam superar


as opressões do tempo presente.

Para a nossa castigada democracia.


Nós vos pedimos com insistência:
Nunca digam – Isso é natural.
Diante dos acontecimentos de cada dia.
Numa época em que reina a confusão,
Em que corre o sangue,
Em que se ordena a desordem,
Em que o arbitrário tem força de lei,
Em que a humanidade se desumaniza…
Não digam nunca: Isso é natural.
A fim de que nada passe por ser imutável.
Sob o familiar, descubram o insólito.
Sob o cotidiano, desvelem o inexplicável.
Que tudo que seja dito ser habitual
Cause inquietação.
Na regra é preciso descobrir o abuso.
E sempre que o abuso for encontrado,
É preciso encontrar o remédio.
(...)

Bertolt Brecht
SUMÁRIO

PREFÁCIO, 08

INTRODUÇÃO, 10

PASSADO MÍTICO: O CULTO À DITADURA MILITAR DE 1964 , 27

(IR)REALIDADES ALTERNATIVAS, 36

VÍRUS CHINÊS: A MATERIALIZAÇÃO DO ANTICIENTIfiCISMO, 46

IDENTIfiCAÇÃO TRIBAL, 61

A POLÍTICA BRASILEIRA DO “NÓS E ELES”, 71

O DESDÉM PELOS DIREITOS HUMANOS E O CONSEQUENTE


ATAQUE AOS GRUPOS MINORITÁRIOS, 79

UM ANTIDEMOCRÁTICO ELEITO DEMOCRATICAMENTE, 90

“COINCIDÊNCIAS RETÓRICAS”? , 99

CONCLUSÃO, 108

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁfiCAS, 111


PREFÁCIO

N a esteira da tradição interpretativa do Brasil, O Fascismo


Brasileiro: Surgimento e Ascensão do Bolsonarismo, de Diego
Aguiar, é uma potente descrição do momento histórico do Brasil
relacionado à eleição ao exercício do mandato do presidente Jair
Bolsonaro. O autor aponta diversas aproximações entre Bolsonaro,
bem como todo o movimento que o sustenta, com o fascismo.
Trata-se de um livro que compõe, junto a obras como Formação do
Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Júnior, e O Brasil na História,
de Manoel Bomfim, um esforço de compreensão dos problemas do
Brasil, inclusive os seus paradoxos.
Diego Aguiar mobiliza um vasto corpus de análise constituído,
especialmente, por textos jornalísticos em um investimento de
descrição-interpretação do tempo presente, sem, no entanto,
abandonar as ancoragens históricas que permitem compreender
continuidades e rupturas. Dessa forma, os eventos antidemocráticos
brasileiros sumarizados no livro são interpretados à guisa da
regularidade histórica que oferece os seus contornos, perimindo,
assim, as suas distintas expressões temporais que podem ser
generalizadas numa matriz narrativa do fascismo brasileiro: o
bolsonarismo. Com as retomadas históricas, o autor almeja alertar
o leitor sobre a expressão do fascismo no Brasil a fim de não repetir
passados desastrosos como aqueles relacionados à Alemanha de
Adolf Hitler.
Para o autor, o bolsonarismo, entendido como um movimento
político amplo, é calcado na dicotomia “nós” e “eles”, típica dos
regimes fascistas: é ultranacionalista, é autoritário, é anticientífico e
persegue grupos políticos minoritários, como os LGBTQI+, a
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população negra, os povos originários e os imigrantes. Enfrentando


tal dicotomia, o autor apresenta um diagnóstico do bolsonarismo
que desnuda o caráter apologético das ideologias que o sustentam.
Professor de história e filosofia de escolas do Sertão da Bahia e
pesquisador de campos disciplinares das ciências humanas e sociais,
o autor produz um livro coerente e com múltiplas influências, que
pode ser lido por sujeitos de diferentes contextos, educacionais ou
não. Com estilo fluido e sem perder o rigor descritivo, os capítulos
desta obra apresentam cenas com uma interessante maestria,
combinando apontamentos da filosofia, das ciências sociais e da
análise de discurso, ainda que seu autor não gaste tempo com
descrições de procedimentos metodológicos que permitiram que o
seu texto emergisse com a pujança dos grandes intérpretes. Portanto,
a sua sensibilidade é marcada também por questões que atravessam
os labores diários dos professores da educação básica e dos
pesquisadores das ciências humanas e sociais.
O autor conclui a sua obra apresentando duas etapas para ruína
do bolsonarismo: o combate às forças neofascistas e a construção de
uma frente ampla de partidos de oposição afinados ao processo
democrático e atentos à necessidade de uma grande reforma no
modelo representativo.
No futuro, daqui a algumas décadas, espero poder sentar numa
poltrona e reler este texto como retrato de um tempo que
constrangeu, violentou e matou muitos (de Covid-19 e de outros
males), mas que também nos instigou a buscar modos inventivos
para existir enquanto Estado democrático de direito.

Professor Dr. Elizeu Pinheiro da Cruz


Professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB)
Mestre em Ensino, Filosofia e História das Ciências (UFBA)
Doutor em Ciências Sociais
pela Universidade Federal da Bahia (UFBA)
INTRODUÇÃO

O ano é 2020. Jair Messias Bolsonaro, 65 anos, adentra no seu


segundo ano de mandato presidencial no Brasil. O caos de um
mundo pandêmico, tomado pela Covid-19, mistura-se ao caos
social, político, econômico e cultural, o que faz com que milhares
de brasileiros percam seus empregos, seus direitos básicos e,
infelizmente, suas vidas. Em meio a tudo isso, os cidadãos, já
cansados de lutar contra um vírus, sentem-se obrigados a lutar
contra mais um inimigo invisível, a ascensão do fascismo, que a
cada dia se materializa nas ideias e nas ações do governo Bolsonaro.
Os contextos sociais do Brasil da segunda década do século XXI
abriram inúmeras possibilidades para que os tempos mais cruéis da
história se repetissem. A nação brasileira emendou a crise
contemporânea do capitalismo mundial com uma interminável crise
política que, dentre tantos acontecimentos e processos que
desrespeitaram todas as noções de ética e moralidade, levou a
presidente Dilma Rousseff (PT) ao processo de impeachment no ano
de 2016, o segundo em menos de 20 anos de eleição direta. A
democracia moderna nunca esteve tão ameaçada.
O contexto de “terra arrasada”, reverberado além do normal pela
grande mídia, trouxe como consequência para o país a formação de
cidadãos extremamente descontentes com os rumos tomados pela
sociedade brasileira. A partir disso, o imaginário do brasileiro
construiu uma série de inimigos em comum, que precisavam ser
combatidos de qualquer modo e a qualquer custo. O governo da
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então presidente Dilma Rousseff simbolizava uma dessas ameaças,


principalmente por ser representante de uma posição política à
esquerda, lida por muitos como uma aproximação ao comunismo,
inimigo primeiro e mais mortal. Então, iniciaram-se movimentos
contrários a esse governo, estes legitimados pelo Estado democrático
de direito, defensor da pluralidade de ideias e da livre manifestação,
porém tais movimentos começaram a fugir do que se espera de um
protesto democrático e passaram a exprimir atitudes que
ultrapassavam os direitos garantidos pela Constituição.
Os protestantes, em sua maioria vestidos de verde e amarelo,
ecoavam gritos de ordem e pediam a saída da presidente eleita. Nesse
meio, eram visualizados pedidos por intervenção militar e a defesa do
Ato Institucional número 5, principal instrumento de repressão na
ditadura de 1964, instaurada no Brasil por meio de um golpe de
Estado. Além disso, inúmeros protestantes faziam apologia à morte e
ao estupro de Dilma Rousseff, referenciando a ideia de que os
protestos assumiram um caráter antidemocrático e, sobretudo, anti-
humano.
As vozes ecoadas nas ruas ganharam espaços significativos na
estrutura política brasileira, fazendo com que deputados e senadores,
responsáveis pelo poder legislativo brasileiro, começassem a debater
a possibilidade de uma intervenção no poder executivo. Figuras
como Eduardo Cunha (MDB), presidente da câmara de deputados
entre os anos de 2015 e 2016, e Michel Temer (MDB), então vice-
presidente da República, ganharam notoriedade na tentativa de
depor a presidente Dilma Rousseff. O impeachment começava a
tomar corpo.
A Operação Lava Jato1 também se fez presente nesses contextos,
sendo responsável por investigar, de maneira parcial, alguns dos

1. A Operação Lava Jato teve início em 17 de março de 2014 e foi responsável


pela investigação de crimes relacionados à corrupção ativa, corrupção passiva,
lavagem de dinheiro, organização criminosa e recebimento de vantagem indevida.
São mais de 70 fases operacionais e mais de mil mandatos de busca e apreensão,
de prisão temporária, prisão preventiva e condução coercitiva. Entre os
investigados estão grandes nomes da política nacional, empresários, empreiteiros
e banqueiros.
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maiores escândalos de corrupção já existentes em toda história do


Estado brasileiro, que envolvia políticos, banqueiros, empresários e
empreiteiros. Vários bilhões de reais foram lavados e, em consequência
dessa operação, os brasileiros se revoltaram ainda mais com a
política nacional. Os maiores nomes políticos sentiram a necessidade
de modificar algumas estruturas, haja vista que a operação da Polícia
Federal tomava proporções gigantescas e recebia apoio significativo
da população. Seria necessário “estancar a sangria”, “mudar o
governo”, “construir um grande pacto nacional”, “com o supremo,
com tudo”i, conforme defendeu o influente senador Romero Jucá
(MDB) em ligação com o ex-presidente da TRANSPETRO Sérgio
Machado. Nessa movimentação, percebe-se o protagonismo do
Movimento Democrático Brasileiro (MDB), partido político
extremamente contraditório e sem a mínima condição de se colocar
como detentor da moralidade.
O caminho seria a deposição de Dilma Rousseff e a posse de
Michel Temer, este que teria a responsabilidade de defender os
interesses políticos dos governantes do popular “centrão”, grupo
político de centro-direita formado por figuras de grande
reconhecimento no cenário nacional, filiados a partidos políticos
como o MDB, PTB, PP, Solidariedade, PRB, PROS, entre outros.
Assim, sob a acusação de crime de responsabilidade fiscal, em 02 de
dezembro de 2015, Eduardo Cunha aceitou o pedido para a
abertura do processo de impeachment, feito pelo procurador de
justiça aposentado Hélio Bicudo e pelos advogados Miguel Reale
Júnior e Janaina Paschoal. Iniciava-se, então, um dos processos
políticos mais controversos da história do Brasil.
O Brasil estava em chamas com manifestações a favor e contrárias
ao impeachment. A análise dos acontecimentos da época permite
afirmar que o julgamento da então presidente fugiu das reais
acusações acometidas contra ela. Os manifestantes que apoiavam a
deposição da presidente levantavam diversas bandeiras, mas
nenhuma delas versava sobre os citados crimes de responsabilidade.
A corrupção se tornou o principal ponto defendido por esses
manifestantes, os quais afirmavam efusivamente que os problemas
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enfrentados pelo país eram de total responsabilidade do Partido dos


Trabalhadores (PT), naquele momento representado, principalmente,
por Dilma Rousseff, isenta de qualquer acusação de corrupção até
nos dias atuais. Faz-se necessário entender o real valor moral dos
conflituosos protestos contra a presidente Dilma Rousseff.
Immanuel Kant (2002) afirma que o valor moral de uma ação
deriva de sua máxima e não das suas consequências. Levanto essa
ideia para explicar algumas variações dessa interminável crise
política que assola o Brasil: a máxima das ações morais dos
protestantes auxiliou na construção da imagem de um “mito”,
consequência direta do delírio coletivo de pessoas que acreditam
fielmente na existência de um complô contra os valores da família,
da pátria e de Deus. Nesse contexto, a cadela do fascismo brasileiro
liberou estrogênio como há muito tempo não era visto. Os
problemas políticos brasileiros estavam muito além da corrupção.
As votações para o impeachment foram abertas. Segundo o
levantamento feito pelo portal de notícias UOLii, apenas 16 dos 367
deputados favoráveis ao dito processo citaram as pedaladas fiscais e
o crime de responsabilidade, motivos pelos quais a presidente estava
sendo julgada. As redes discursivas fugiram da lógica esperada e,
quem assistiu à votação televisionada na TV aberta em rede
nacional, percebeu que Dilma Rousseff estava sendo julgada por
outros fatores que não eram previstos no julgamento inicial. Deus,
família e pátria dominaram os motivos dos votos favoráveis, porém,
além destes, aniversários, ameaças comunistas, médicos, maçons e
Israel também foram citados. A jovem democracia estava agonizando
e, ao que parece, o fascismo se consolidava como substituto
principal e ideal.
A votação se encerrou na câmara de deputados com 367
deputados favoráveis ao impeachment, 137 contrários e, ainda, sete
abstenções e duas ausências. Um voto em específico assumiu um
certo grau de protagonismo naquele dia: Jair Messias Bolsonaro,
deputado pelo Partido Social Cristão (PSC), votou favorável ao
impeachment homenageando Carlos Brilhante Ustra, torturador,
ex-chefe do DOI-CODI entre os anos de 1970 a 1974, principal
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órgão de repressão política da ditadura militar do Brasil, ocorrida


entre os anos de 1964 e 1985. De forma sádica e irônica, Bolsonaro
proferiu as seguintes palavras:
Nesse dia de glória para o povo brasileiro, tem um nome
que entrará para história nessa data, pela forma como
conduziu os trabalhos nessa casa. Parabéns, presidente
Eduardo Cunha! Perderam em 1964. Perderam agora em
2016. Pela família e pela inocência das crianças em sala
de aula que o PT nunca teve. Contra o comunismo! Pela
nossa liberdade! Contra o Foro de São Paulo! Pela memó-
ria do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor
de Dilma Rousseff! Pelo Exército de Caxias! Pelas nossas
Forças Armadas! Por um Brasil acima de tudo e por Deus
acima de todos, o meu voto é sim.iii

O pequeno discurso do ex-deputado Jair Bolsonaro é carregado


de mensagens fortes, antidemocráticas e com indicativos de que sua
mente é carregada de um ideário fascista. Antes de tudo, nesse voto,
faltou a Bolsonaro o respeito aos Direitos Humanos e à integridade
da pessoa humana, uma vez que Carlos Brilhante Ustra torturou
centenas de pessoas acusadas de serem contrárias ao regime militar.
Dilma Rousseff é reconhecidamente uma das vítimas do período; a
ex-presidente relatou por diversas vezes que foi castigada com
choques elétricos, palmatórias e diversas torturas psicológicas apenas
por ser contrária ao regime ditatorial e militante de movimentos de
esquerda que lutavam pela democratização do Brasil. Bolsonaro é
um fã declarado da ditadura militar no Brasil, vista por ele e por
seus apoiadores como um movimento legítimo de defesa do país
contra a ameaça do comunismo, o inimigo de sempre.
Antes do período pré-eleitoral de 2018, a participação política
de Jair Messias Bolsonaro na história do Brasil é praticamente nula,
reduzida apenas a falas extremistas em seus poucos discursos no
plenário e em suas muitas participações em programas televisivos de
entretenimento e fofoca. Foi deputado entre os anos de 1991 a
2018, exercendo incríveis sete mandatos em um regime democrático
que tem como princípio básico a alternância do poder.
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A quantidade de anos em que exerceu o mandato não significou


produção. Bolsonaro foi um mero espectador na legislatura brasileira,
tendo em 27 anos de mandato apenas dois projetos aprovados na
câmara, porém recusados pela presidência. A maioria dos seus
projetos não versava sobre áreas prioritárias do Brasil, como a saúde
e educação, uma vez que essas duas áreas tiveram apenas três
projetos apresentados por Bolsonaro, todos recusados.
A biografia de Bolsonaro, apresentada de modo muito reduzido,
levanta algumas importantes questões, sendo a principal delas a
seguinte: como um deputado com tão poucas contribuições para o
Brasil conseguiu ocupar a principal cadeira executiva do país? São
inúmeras respostas possíveis para a resolução dessa questão,
entretanto, pensando de modo estrutural, a eleição de Bolsonaro faz
parte de um contexto mundial de crescimento de ideologias de
extrema direita que culminaram nas eleições de chefes políticos de
posições nada moderadas, a exemplo de Donald Trump nos Estados
Unidos, Viktor Orban na Hungria e Recep Tayyip Erdogan na
Turquia.
O populismo de direita, em crise desde a derrubada do
nazifascismo, voltou a ganhar adeptos e notoriedade nos regimes
políticos ao redor do mundo, defendendo bandeiras pouco
democráticas e nada inclusivas. Em comum, apresentam a defesa
dos valores nacionais, religiosos e familiares, todos esses, segundo
eles, ameaçados pelo avançar das ideologias esquerdistas/comunistas,
que deturparam todas as noções de moralidade e civilidade.
Para os direitistas, existe uma guerra cultural, na qual, acredita-se,
que o marxismo é impregnado nas múltiplas ideologias educacionais
e políticas, transformando todas as pessoas em marionetes de Marx.
Eles seriam as vítimas de toda a opressão esquerdista e precisariam,
por isso, assumir o controle do Estado para combaterem a total
desordem social.
Perceba que a invenção de uma ameaça comunista precisou ser
readaptada, uma vez que a acusação de que os comunistas preparavam
guerrilhas para atacar a estabilidade da pátria foi derrubada com o
passar dos anos, quebrando a principal teoria conspiratória do
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fascismo. Agora, o inimigo não é mais material, mas ideológico;


diversos teóricos representantes de uma direita extremista
desenvolvem discursos que versam sobre a imposição do pensamento
marxista nas escolas e nas universidades, vistas por eles como
centros de formação comunista. Na tentativa de provarem a
existência do inimigo vermelho, esses ideólogos precisaram readaptar
uma teoria refutada pelo fator temporal, visto que os anos se
passaram e o comunismo não se consolidou como um antagonista.
Dentre os ideólogos citados, destaca-se a figura de Olavo de
Carvalho, pensador da contemporaneidade com fortes contribuições
nos estudos da astrologia, lido pela direta brasileira como um guru,
responsável por guiar Bolsonaro ao poder. As ideias de Olavo se
fizeram presentes na campanha eleitoral do então candidato à
presidência, orientando os pensamentos e as ações de toda a equipe.
Para o ideólogo, o Brasil é um país tomado pela esquerda que
precisa urgentemente reconstruir seus valores. As escolas brasileiras,
segundo ele, foram invadidas pelo pensamento de Antônio Gramsci,
Paulo Freire e Karl Marx, com o claro objetivo de formar brasileiros
militantes do comunismo. Por isso, seria necessário levantar uma
verdadeira guerra cultural contra esse sistema de opressão, punindo
professores subversivos e reconstruindo todo material didático e
toda estrutura escolar. Essas ideias culminaram em movimentos
como a Escola Sem Partido, motivador de vários atos de censura e
punição a inúmeros educadores brasileiros.
As longas crises no modelo de gestão brasileiro foram estufas
para o crescimento de ideologias não democráticas, extremistas e
com fortes indícios fascistas. Para resolução dos intermináveis
conflitos que assolavam nossa fragilizada democracia, era preciso a
emergência de um líder potente, defensor das bandeiras da família
brasileira e conservador dos costumes que fizeram do Brasil um país
forte. As soluções para a melhoria do Brasil também deveriam ser
simples e diretas, uma vez que a população, cansada de política, não
aguentava mais os discursos burocráticos, carregados de teoria e
ausentes de prática. A criminalidade, por exemplo, não vinha sendo
resolvida com políticas públicas focalizadas na diminuição da
desigualdade social e inserção do brasileiro nos processos educacionais
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e políticos. Armar a população parecia mais fácil e cômodo: até


porque, para muitos, bandido bom é bandido morto.
Historicamente, os contextos de crise são ideais para o surgimento
de ideologias fascistas. Os políticos com esses ideais se utilizam da
fragilidade do Estado para vender os seus discursos combatentes,
colocando-se como salvadores de toda a pátria. A população, grande
parte desempregada e sem os seus direitos básicos garantidos,
torna-se presa fácil. Como exemplo, podemos citar a ascensão do
Partido Nazista Alemão dentro da República de Weimar (1919 –
1933), fragilizada pela necessidade de reconstrução da Alemanha
depois da I Grande Guerra Mundial (1914 – 1918) e pela quebra
da Bolsa de Valores (1929) e, ainda, a tomada do poder italiano
pelo Partido Nacional Fascista (PNF) em 1922, que colocou Benito
Mussolini no controle de uma Itália devastada pela I Guerra
Mundial.
Os indicadores sociais do Brasil na segunda década do século
XXI também não eram os melhores. O desemprego e os altos
índices de criminalidade auxiliaram no estado de revolta de boa
parte da população. Alguns dados do principal órgão de estatísticas
do país, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), são
relevantes para a análise da situação brasileira pré-Bolsonaro: 1) em
2014, a taxa de desemprego no Brasil era de 6,9%, já em 2017,
12,5% da população brasileira estava sem trabalho, um aumento
significativo de 6,2 milhões de habitantes; 2) em 2017, 40,8% dos
trabalhadores no Brasil estavam na informalidade, um acréscimo de
1,2 milhão em relação a 2014; 3) muitos brasileiros também
entraram nos índices relativos à pobreza; baseados nos marcos
propostos pelo Banco Mundial, no ano de 2017, o número de
pessoas pobres no Brasil chegou a 54,8 milhões, um acréscimo de
2 milhões de pessoas em relação a 2016; 4) de 2016 para 2017, os
brasileiros na extrema pobreza foram de 13,5 milhões para 15,2
milhões, atingindo uma parcela de 7,4% da população.
É importante evidenciar que os números que mostram a
desigualdade social, um dos grandes causadores do sofrimento
vivenciado pelos pobres, não são utilizados por governos com ideários
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fascistas. Falar sobre desigualdade social é ideia de comunista que


acredita nas possibilidades de exclusão das classes sociais. A taxa de
desemprego é explorada, principalmente, sob o ponto de vista do
empregador, este que, geralmente, pertence à classe média e alta. Os
discursos de Bolsonaro quase sempre recaíram sobre aquele que
emprega, o “cidadão de bem” que vem perdendo constantemente a
capacidade de gerar renda e emprego para o avanço do país. A
existência de pobres e desempregados é contada apenas sobre o ponto
de vista de quem tem uma maior condição de sobrevivência, uma vez
que essas taxas são apenas consequências da não valorização do
empregador no Brasil, o que aconteceu, novamente, por culpa do PT.
O portal de notícia G1 criou um monitor da violência para
analisar as taxas de criminalidade no Brasil. Os dados realmente
mostram um avançar dos crimes violentos no país, o que alimentou
ainda mais os discursos sobre a necessidade de modificar esse
panorama. Seguem alguns dados: 1) O número de homicídios no
Brasil subiu progressivamente entre os anos de 2015 e 2017, período
de nascimento bolsonarismo: em 2015, ocorreram 55.492 homicídios
em solo brasileiro; em 2016, 57.842; e em 2017, 59.128.
Os dados são realmente assustadores, porém comprovam que a
violência do Brasil nunca foi uma novidade e que não necessariamente
estava associada ao governo da presidente Dilma Rousseff. As
hipóteses para o crescimento da violência no Brasil são várias, bem
como as soluções para essa problemática, todavia, para o bolsonarismo
recém-chocado, o problema era o Partido dos Trabalhadores e suas
políticas comunistas; a solução seria a matança dos “bandidos” e o
armamento da população. Bolsonaro representava por completo
todos esses anseios. O discurso do bolsonarismo é demasiadamente
apegado à violência, sendo ambos inseparáveis em suas completudes.
Os contextos apresentados foram favoráveis para o levantar de
ideologias fortes, com discursos prontos e representados por um
líder central, responsável por ser o símbolo da reconstrução de uma
terra arrasada, sem valores definidos, tomada pela criminalidade e
desemprego. O Brasil, em meio a uma crise política, social e
econômica sem precedentes, visualizava, então, o despontar de Jair
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Messias Bolsonaro, representante dos anseios de uma população


indignada com o estado de calamidade vendido pelas instituições
políticas e midiáticas e desinformada dos males que poderiam
acontecer com a eleição de um governo de ideais antidemocráticos
e próximo ao campo ideológico do fascismo.
A citada crise política culminou no processo de impeachment de
Dilma Rousseff, finalizado no Senado Federal no dia 31 de agosto
de 2016, com 61 votos favoráveis e 20 votos contrários. Também
no Senado, os parlamentares recusaram a inabilitação de Dilma para
o exercício de cargos públicos, referenciando a ideia de que a
intenção era “apenas” a sua retirada do cargo de presidente. O
“grande acordo nacional” estava consolidado, colocando no poder
Michel Temer, uma das principais lideranças do Movimento
Democrático Brasileiro (MDB) e investigado por diversos crimes
contra o patrimônio público. O inimigo era o PT e, até então, ele
estava controlado.
Michel Temer governou o Brasil de 31 de agosto de 2016 até
primeiro de janeiro de 2019. Foi ele o responsável pela transição do
golpe consolidado para um novo governo democrático, que seria
decidido nas eleições do final de 2018. Mesmo curto, o período de
Temer no poder foi tenso, sobretudo para aqueles mais pobres, uma
vez que duas grandes reformas foram iniciadas nesse período: a
reforma trabalhista e a reforma da previdência, ambas responsáveis
por retirar direitos básicos da população mais carente. Além disso,
o governo Temer ficou marcado por ser o mais impopular da
história, uma vez que as pesquisas apontaram que 74% da população
o consideraram ruim ou péssimo, fruto, principalmente, das
denúncias de corrupção que não paravam de cair sobre ele.
Logo quando Temer assumiu o cargo de chefe máximo do
executivo, a transição presidencial já tinha se tornado um dos
principais assuntos do Brasil. Os jornais começavam a apresentar os
cenários da eleição presidencial de 2018 e, surpreendentemente, um
deputado com, até então, pouca notoriedade política – Jair Bolsonaro
– despontava nas pesquisas como um dos favoritos. Concomitantemente,
mais uma crise moral assolava a política brasileira, com o principal
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chefe político da nação sendo grampeado pela Polícia Federal por


acordos suspeitos com grandes empresários brasileiros. Em sete de
março de 2017, em ligação telefônica com Joesley Batista, dono da
JBS (empresa do ramo alimentício) e acusado de inúmeros crimes,
Temer diz: “Tem que manter isso aí, viu?”, depois do empresário
afirmar que naquele momento ele tinha uma ótima relação com o
deputado Eduardo Cunha (MDB), que o livraria de possíveis
delações. Novamente, as faces do “grande acordo nacional” eram
reveladas.
Em 30 de março de 2017, Eduardo Cunha foi condenado pela
Operação Lava Jato por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e
evasão de divisas. O principal articulador do processo de impeachment
de Dilma Rousseff, que votou a favor desse processo clamando a
Deus por misericórdia para a nação brasileira, perdeu seu mandato
e foi condenado a 15 anos e quatro meses de reclusão.
O brasileiro, visualizando cenas como essa todos os dias nas
principais redes de comunicação do país, formou a opinião de que
a política brasileira não tinha mais jeito e, por isso, fazia-se
necessário encontrar um representante que negasse todas essas
concepções de política e que condenasse efusivamente qualquer
padrão que beirasse os processos políticos vivenciados no período
em questão. Para muitos, a radicalização seria o único caminho.
Então, o novo cenário político brasileiro foi se desenhando com
traços parecidos àqueles que grafaram o feixe de varas na história da
Itália no pós-guerra.
Cinco candidatos ganharam destaque nas eleições presidenciais de
2018. Jair Bolsonaro, Fernando Haddad, Ciro Gomes, Marina Silva
e Cabo Daciolo, este último relevante pelas pérolas religiosas
fundamentalistas que soltou ao longo de todo campanha, retrato do
avançar das ideologias evangélicas frente à política brasileira, também
presentes na figura de Jair Bolsonaro. Os quatro primeiros candidatos
apareciam com números significativos nas pesquisas eleitorais, sendo
eles representantes de bandeiras políticas bem definidas.
Marina Silva (REDE) sempre esteve associada aos interesses
ecológicos, ganhando destaque pela ampla defesa da biodiversidade
brasileira. Ciro Gomes (PDT) se colocou na eleição presidencial
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como um candidato responsável por representar uma via alternativa


para além da polarização que definiu os rumos da política brasileira
contemporânea; se vendeu como um candidato de ampla experiência
política, sem desvios morais e pronto para governar o Brasil.
Fernando Haddad (PT) substituiu Luís Inácio Lula da Silva na
corrida presidencial.
Lula, ex-presidente e um dos políticos de maior notoriedade do
mundo, foi condenado por corrupção e lavagem de dinheiro em um
processo que até hoje abre inúmeros questionamentos, uma vez que
muitos acreditam que a sua condenação esteve associada ao contexto
político do ano de 2018 – Lula chegou a liderar diversas pesquisas
eleitorais antes de sua condenação. Além disso, esse processo
possibilitou a criação de um novo mito na sociedade brasileira, o
juiz federal Sérgio Moro, visto por muitos como implacável contra
qualquer tipo de corrupção. Posteriormente, Moro assumiria um
cargo ministerial no governo Bolsonaro, o que levantou ainda mais
questionamentos sobre o processo que condenou o ex-presidente
Lula. O Brasil não é e nunca será para amadores.
Por fim, temos o candidato eleito, Jair Messias Bolsonaro, 38º
presidente da República brasileira. Alguns contextos que marcaram a
ascensão de Bolsonaro ao poder já foram tratados por esse texto,
porém alguns outros fatores merecem destaque. Durante a campanha,
o então candidato se envolveu em diversas polêmicas, muitas delas
ligadas à proliferação das fake news, massificada com o avançar das
redes sociais de comunicação. Jair Bolsonaro participou de uma
disputa muito acirrada com Fernando Haddad, candidato escolhido
por Lula como representante do Partido dos Trabalhadores. A disputa,
por várias vezes, saiu dos padrões aceitáveis e éticos da democracia.
Bolsonaro se colocou como responsável pela defesa dos valores
da família brasileira e, com base nessa questão, muitas notícias falsas
foram criadas com o intuito de favorecer esse candidato. Duas
dessas notícias são marcantes durante o processo eleitoral:
1) Jair Bolsonaro, ao vivo no maior programa jornalístico
brasileiro – Jornal Nacional –, apresentou um livro denominado Kit
Gay que, segundo ele, seria distribuído nas escolas caso o PT
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Adobe Garamond, Geared Slab e Conduit
Impresso em papel alta alvura 75g, primavera de 2020