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outubro 28, 2020 | Categoria: Notícia assedio-e-precarizacao-
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Artigo – Re exões
sobre a venda das
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com destaque para a
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Alves, em São Francisco
do Conde, na Bahia
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Petrobrás aprova
dividendos sem lucro
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PLR para os
trabalhadores
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proposta de regramento
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da PLR 2021 e
mobilização dia 11
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indica-rejeicao-da-
Reportagem da Revista Marie Claire
proposta-de-
(https://revistamarieclaire.globo.com/Mulheres-do-
regramento-da-plr-
Mundo/noticia/2020/10/em-alto-mar-ou-terra- rme-petroleiras-
2021-e-mobilizacao-
enfrentam-solidao-assedio-e-precarizacao.html), publicada nesta terça-
dia-11-contra-
feira, 27, dá visibilidade às lutas das trabalhadoras petroleiras em um
punicoes/)
“ambiente absolutamente machista”, como relata Andressa Delbons,
Black Friday: Petrobrás
operadora da Reduc e diretora da FUP. Coordenadora do Coletivo
coloca à venda o maior
Nacional de Mulheres Petroleiras, ela é uma das cinco trabalhadoras da
campo terrestre do país
Petrobrás que foram ouvidas pela revista.
em mega liquidação da
Leia a íntegra da reportagem: Bacia SE/AL
(http://www.sindipetroba.org.b
Em alto mar ou terra rme, petroleiras enfrentam solidão, assédio e friday-petrobras-
precarização coloca-a-venda-o-
[Reportagem e ilustração: Revista Marie Claire maior-campo-terrestre-
(https://revistamarieclaire.globo.com/Mulheres-do- do-pais-em-mega-
Mundo/noticia/2020/10/em-alto-mar-ou-terra- rme-petroleiras- liquidacao-da-bacia-se-
enfrentam-solidao-assedio-e-precarizacao.html)] al/)

Ao chegar para o primeiro dia de trabalho como técnica de operação da


Petrobras em uma re naria em Manaus, Elita Balbino Azevedo, 34 anos,
realizava um sonho. Depois de seis meses de curso de formação, a
engenheira de produção não via a hora de ir a campo. “Na primeira vez
que entrei em um laboratório químico da Petrobras, meus colegas falaram
que eu parecia uma criança na Disney”, diz. “Sou apaixonada por química
industrial e é um privilégio poder contribuir diretamente para o PIB do
país.”

Apesar do deslumbramento, logo de cara percebeu que enfrentaria


di culdades. Elita ouviu do supervisor que ele era obrigado a recebê-la ali,
mas que não concordava com a presença de mulheres no
ambiente.”Respondi que eu tinha sido aprovada em um concurso público,
então não era ele que ia me impedir de fazer nada”, conta.

/
Apenas em 2000 foram abertos concursos públicos para o posto de
técnico de operação, o que aumentou o espaço para mulheres nessa
função. “Até então só homens eram contratados, por ser uma função que
exige esforço físico: subir e descer escada de marinheiro, abrir e fechar
válvulas pesadas. Para você ter uma ideia, quando as primeiras mulheres
chegaram na re naria, cinco anos antes de mim, nem banheiro feminino
tinha”, recorda Elita. Ainda hoje, mulheres são apenas 16% do quadro de
funcionários da Petrobras.

A empresa, por meio de sua assessoria de imprensa, diz que o registro


mais antigo de admissão de mulheres no cargo de técnico de operação
data de 1975 e que não há qualquer restrição à contratação das
pro ssionais: “A representatividade feminina na Petrobras de 16% ocorre
principalmente em função do desequilíbrio, presente na sociedade como
um todo, entre homens e mulheres nas carreiras STEM (da sigla em inglês:
Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática). Há avanços recentes,
principalmente nos cargos da alta administração. Na diretoria executiva,
mulheres ocupam duas das oito cadeiras. E, nos últimos dois anos, o
número de gerentes executivas aumentou de cinco para onze”.
.
A função de técnica de operação é considerada perigosa e envolve
diversos riscos: a exposição ao benzeno, um composto tóxico e
cancerígeno, e ao alto ruído das máquinas. Além disso, trabalhar na
exploração de gás e petróleo signi ca lidar com produtos in amáveis.
“Estamos literalmente trabalhando em cima de uma bomba”, diz Elita, que
está há 10 anos no polo de Urucu, no meio da oresta amazônica. “A
minha atribuição é extremamente técnica. Trabalho em uma planta de
processamento, onde o gás natural é separado em porções que podem
virar o gás de automóvel ou de cozinha, por exemplo. Tomo conta do
processo da unidade, monitoro equipamentos como bombas,
compressores, veri co as temperaturas de cada processo”, explica.

Elita já passou por inúmeras situações de assédio ao longo dos quase 15


anos de carreira. Desde episódios como o de um chefe que pediu a ela
que passasse um cafézinho para a equipe ou então o de um colega que foi
entregar um documento e aproveitou para alisar sua coxa em direção à
sua vulva. Teve também a vez em que Elita criticou o enxugamento do
quadro de funcionários durante uma reunião e o chefe reagiu de forma
violenta: “Ele cou muito nervoso e veio para cima, quase encostando a
cabeça dele na minha. Aí foi uma confusão grande”. Depois disso, Elita foi
afastada e cou três anos em uma função administrativa – como uma
forma de punição, diz ela. Desenvolveu crises de ansiedade e precisou de
acompanhamento psicológico por seis meses.

Quem trabalha em plataformas passa temporadas longe de casa. A escala


geralmente é em turnos de 8h, de 14 dias de trabalho em alto mar para 21
de folga. Com a pandemia, foi aumentado para 21 dias de trabalho e o

/
mesmo período para descanso, em turnos de 12h. Esse regime de
trabalho é especialmente difícil para as mulheres com lhos.

É o caso de Monique*, 34, que atua como técnica de segurança em uma


unidade na Bacia de Campos, litoral de São Paulo. Mãe de um menino de
3 anos e de uma menina de 2, a rma que o maior desa o é car longe
deles. Com a pandemia, passou a car mais dias embarcada e as crianças,
em casa sem escola. Os familiares que ajudavam a cuidar deles moram
longe e, por causa da Covid-19, não podem mais se deslocar. O marido
trabalha à noite. Da embarcação, e pelo celular, Monique entrevista
possíveis babás e administra as demais necessidades da casa. “É uma
sobrecarga imensa”, diz ela. “Hoje sei que preciso de ajuda psicológica.
Sinto vontade de quebrar uma perna para não ter que embarcar de novo e
deixar meus lhos. Sou dona de casa à distância. Minha lha ca bem,
mas tem medo de qualquer pessoa sair de perto dela. Meu lho não fala
comigo, ca com raiva de mim enquanto estou aqui. Tento fazer chamada
de vídeo e ele fala que não quer conversar comigo, nem me ver.”

Monique conta que quando entrou na pro ssão, com 22 anos, era tratada
pelos colegas como “boneca” até conseguir se impor pela primeira vez – e
aí passar a ser vista como “louca”, “mal amada” e “chiliquenta”. “É um
caminho muito longo até propor uma ideia e ser escutada, não arregar só
porque estão todos contra você. Ficam todos comendo pipoca e
esperando que eu cometa algum erro”, diz ela.

“Teve uma vez que embarcou um colaborador para fazer manutenção nos
equipamentos da minha área. Eu precisava acompanhar esse serviço e ele
já chegou com má vontade de trabalhar, cava perguntando se era eu que
precisava acompanhar, visivelmente incomodado. No m faltavam alguns
equipamentos no relatório dele. Questionei e ele disse que simplesmente
não deu tempo e que não ia fazer. Falei que então não ia assinar o
relatório e aí ele subiu o tom, cou agressivo. Falei que não adiantava
gritar, não ia chancelar o serviço feito pela metade. Aí ele saiu da sala me
xingando, fazendo escândalo”, conta.

Monique diz também que “cantadas” por parte dos colegas são
frequentes. “Um rapaz me achou no Facebook e cou me mandando
mensagem. Essa vez foi ruim, me deu medo. Ele cava falando que não
conseguia trabalhar porque pensava em mim o dia inteiro, que sonhava
comigo. Falei para ele parar e car longe de mim. Aí ele continuou, eu
bloqueei ele, e ele desembarcou logo depois. Muito desconfortável.”

Segundo Andressa Delbons, 33, técnica de operação na re naria de


Duque de Caxias (Reduc), RJ, dirigente do Sindipetro Caxias e
coordenadora do Coletivo de Mulheres da FUP (Federação Única dos
Petroleiros), a entidade não recebeu nenhuma denúncia formal de assédio
e por isso não há um levantamento dos casos. “Quem te disser que nunca
foi assediada está mentindo. É um ambiente absolutamente machista.
/
Quando comecei, recebia diversos convites desnecessários. Ouvi de
colegas que eu não precisava trabalhar, que podia car enfeitando o
ambiente.”

Andressa conta que a principal conquista do coletivo, criado em 2012, foi


a extensão da licença paternidade de 5 para 20 dias. Agora lutam para
que seja equivalente à licença maternidade, de 6 meses. Também
conseguiram assegurar espaços de amamentação em boa parte das
unidades da Petrobras e a redução de jornada para lactantes. “Criar o
coletivo foi importante porque o ambiente sindical é ainda mais masculino
do que o petrolífero. Até pouco tempo atrás, não tinha mulher dentro do
sindicato. Hoje, já temos um número proporcional de mulheres na direção.
As políticas de gênero passaram a ganhar mais importância”.

> Leia também: Petroleiras mandam o recado: “Fresca é água, mulher aqui


é trabalhadora e merece respeito” (https://www.fup.org.br/ultimas-
noticias/item/25986-petroleiras-mandam-o-recado-fresca-e-agua-
mulher-aqui-e-trabalhadora-e-merece-respeito)

Paula*, técnica de segurança de uma empresa terceirizada em uma


plataforma na Bacia de Campos, fez parte de uma equipe com outras três
mulheres por 4 anos. Em uma reunião com o gerente, reivindicou
melhorias nas condições de segurança e ouviu como resposta que ele
deveria então simplesmente trocar aquela equipe por uma formada
somente por homens. “Nesse século acontecer algo assim foi a coisa mais
ridícula que já ouvi de um líder”, diz.

As petroleiras entrevistadas pela reportagem denunciam uma piora


drástica nas condições de trabalho ao longo dos últimos anos e um
quadro de adoecimento mental generalizado dentre os trabalhadores,
agravado na pandemia da Covid-19. A maior parte preferiu falar sob
anonimato por temer retaliações da Petrobras. Elas descrevem uma “caça
às bruxas” dentro da empresa. Um dirigente sindical do Sindipetro Caxias
foi punido com uma suspensão após conceder entrevista ao jornal O
Globo em junho deste ano, na qual a rmou que a explosão ocorrida na
Reduc naquele mês foi causada por falhas de manutenção e inspeção na
tubulação da unidade de destilação.

A Petrobras alega que o funcionário foi punido por descumprir a norma


de con dencialidade de informações relativas a investigações do acidente.

A empresa também nega a precarização das condições de segurança das


unidades: “Pelo contrário, podemos citar o aprimoramento do programa
de auditorias internas de segurança operacional com o objetivo de
combater desvios de segurança. Também tornamos mais rígidos os
padrões de segurança para atividades de mergulho e de aviação, entre

/
outras. As manutenções preventivas, realizadas justamente para evitar
acidentes, são realizadas em intervalos de tempo de nidos conforme
regulamentação e as características de cada unidade”.

Foram registrados ao menos dois suicídios de trabalhadores do setor


neste ano: um petroleiro de uma re naria da Bahia em setembro e outro
no Rio de Janeiro em outubro, que estava em isolamento no quarto de
hotel um dia antes de embarcar, conta Marcelo Juvenal Vasco, da
secretaria de saúde da FNP (Federação Nacional de Petroleiros). “Temos
muitos casos de trabalhadores depressivos e dependentes químicos. Não
só pela condição do trabalho em si, mas também pela exposição a
substâncias químicas que absorvem pelas vias aéreas e cutâneas. Existem
estudos que evidenciam que essa exposição pode levar a transtornos
mentais”, diz.

A Petrobras a rma possuir um programa de treinamento e palestras com


enfoque em saúde mental, e uma equipe multidisciplinar para
atendimento. No período de pandemia, a empresa disponibilizou um canal
interno para atendimento psicológico de forma remota e individual. Elita,
no entanto, diz que as equipes de atendimento foram reduzidas e
praticamente não embarcam mais, e o canal é pouco divulgado. O mesmo
é dito por outra entrevistada, sob anonimato: “O serviço é absolutamente
insu ciente, principalmente nas áreas operacionais. Esse programa de
treinamento e as palestras com esse enfoque eu desconheço”.

Monique conta que já viu uma colega desembarcar de uma plataforma


com camisa de força, em surto. Foi afastada e nunca mais voltou ao
trabalho. Também já passou por uma unidade, no ano passado, em que
quatro funcionários estavam com síndrome do pânico.

Segundo ela, o começo da pandemia foi particularmente difícil: “Não


tenho nem palavras para descrever. Todo mundo em casa e a gente tendo
que embarcar, sem máscara, sem vacina, sem saber quem está
contaminado. Não tinha transporte para irmos e voltarmos das
plataformas. Hoje estamos bem, me sinto segura. Mas no começo
ninguém sabia que tipo de medida de proteção tínhamos que tomar”.

Elita foi contaminada com a Covid-19 no primeiro embarque. Ao contrário


de alguns colegas infectados, ela não precisou ir para a UTI, mas ainda
hoje sofre com as sequelas da doença. “Sentia muita dor no peito, na
cabeça, no corpo todo. Precisei de repouso constante. Depois tive uma
crise renal, z tomogra a, expeli as pedras, mas os médicos suspeitam
que tenha sido efeito colateral da doença.”

Paula conta que os espaços de lazer nas plataformas foram fechados por
questões sanitárias, prejudicando ainda mais a saúde mental dos
trabalhadores. “A gente passa 12 horas trabalhando e 12 horas dormindo.
Trabalhamos com metas, com prazos, sob muita pressão o tempo inteiro.
Com esse desgaste, o trabalhador começa a sentir incapacidade, nessa
/
carga excessiva de trabalho de 12 horas. Um bom pro ssional não quer
atingir meta, quer o serviço feito com qualidade. O trabalho em
con namento não é para qualquer um. Vai acumulando até chegar no
nível de estresse limite. O cliente não quer saber disso, só das metas. Você
é só mais uma peça. Se não trabalha feito robô, não serve. Essa
desvalorização que nos adoece.”

Os cortes de gastos na estatal provocaram a diminuição no quadro de


funcionários mas não no volume de trabalho, o que leva a situações de
acúmulo de funções, denunciam os sindicatos. Com a pandemia,
trabalhadores do grupo de risco foram afastados, diminuindo ainda mais o
pessoal. Em meio à privatização de unidades da empresa, vivem sob a
incerteza de serem transferidos para outras localizações e áreas de
atuação.

Entre janeiro de 2019 e julho de 2020, a Petrobras abriu 48 processos de


vendas de ativos, uma média de 2,5 por mês, de acordo com o Dieese
(Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos).
A média era de 1,4 por mês durante o governo Michel Temer e 0,4 por
mês no último mandato de Dilma Rousse , segundo reportagem da Folha
de S. Paulo.

Sandra*, que trabalha como técnica de operação na Re naria Presidente


Getúlio Vargas (Repar), no Paraná, conta que, com a implementação do
chamado estudo de O&M (Organização e Método), em 2017, a equipe foi
reduzida em 40%. A metodologia do modelo, segundo ela, é questionada
por especialistas da área de segurança do trabalho, e foi utilizada pela
direção da Repar para justi car a redução do pessoal. Por causa disso, ela
passou a monitorar mais operações ao mesmo tempo.

Em uma ocasião, percebeu e conseguiu conter por uma questão de


minutos o aumento repentino na pressão de gás sulfídrico em um
equipamento. “O risco de acidentes geralmente é controlado, no entanto
com a sobrecarga esse tipo de evento torna-se mais frequente. Acidentes
na indústria química têm um alto potencial de risco e uma possível
contaminação poderia ter matado não só os funcionários, mas também
quem vive nos arredores da re naria”, diz Sandra.

Para Elita, é uma questão de tempo até um acidente grave acontecer:


“Faltam materiais, manutenções são declaradas mesmo sem a troca de
todos os componentes, as unidades estão sucateadas. Equipamentos
estão envelhecendo. Uma tubulação corroída, com vazamento, pode levar
a uma explosão. A gente pode perder uma vida e todas ao mesmo tempo”.

*Nomes foram trocados a pedido das entrevistadas

Publicado em Sistema Petrobrás (https://www.fup.org.br/ultimas-


noticias/itemlist/category/835-sistema-petrobras)

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