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MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. São Paulo: Cultrix, 1974.

Ficha 1
Nota – Comédia
“No transcurso dos séculos, a comédia sofre natural metamorfose até chegar à fisionomia que
ostenta modernamente. Em parte, por isso e em parte devido a fatores intrínsecos, a noção de
comédia tem sido objeto de longas e discutíveis análises. Para Aristóteles (op. cit., 1449 a 32),
define-se como “imitação de homens inferiores; não, todavia, quanto a toda a espécie de
vícios, mas só quanto aquela pare do torpe que é ridículo. O ridículo é apenas certo defeito,
torpeza anódina e inocente; que bem o demonstra, por exemplo, a máscara cômica, que, sendo
feia e disforme, não tem expressão de dor’. Ao passo eu para um moderno estudioso do
assunto, ‘a comédia não é coextensiva com o com o ridículo, embora o ridículo ocupe larga
parte da comédia’ (Elder Olson, Tragedy and the Theory of drama, 1966, p. 161). Este, vai
mais longe, esta[p. 92]belecenedo uma distinção sutil: ‘o cômico inclui ações e personagens
que não são nem ridículas nem mesmo engraçadas (funny), mas simplesmente alegres (gay) e
espirituosas (witty) (op. cit., loc. cit.). Por outro lado, é de hábito fundar as características da
comédia em oposição à tragédia. O confronto, porém, somente se torna eficaz tomando as
duas espécies teatrais em termos absolutos, uma vez que, no plano das minúcias, é impossível
uma discriminação nítida e categórica [...] É de crer, portanto, que a comédia há de ter por
base a frequência e predominância de alguns componentes, sem embargo de poderem também
comparecer no âmbito da tragédia, mas de forma secundária. Primeiro de tudo a comédia
procura aproximar-se da vida real, de modo a detectar lhe certos aspectos, precisamente os
que provocam riso. Na rotina diária, o riso desponta sempre que algo de inesperado ocorra,
quebrando as nossas expectativas consagradas. Por exemplo: uma pessoa que, escorregando e
caindo, desfaz por momentos a normalidade da postura, da vestimenta, etc. O riso deflagra em
razão da incongruência ou da ruptura, ainda que breve, das regras estabelecidas pelo uso. A
comédia explora justamente esses instantes, em eu o imprevisto da ação gera o ridículo ou a
surpresa espontânea. De fato, a comédia registra e desenvolve as ações humanas em que a
lógica é momentaneamente desobedecida: a desordem que leva ao riso (p. 91-92) [Nota sobre
comédia]

Ficha 2
Ironia
“Vário campo semântico abrange o vocábulo ‘ironia’. Na origem, designava a arte de
interrogar, com vistas a provocar a ‘maiêutica’, ou o surgimento das ideias.” (p. 295)
[nota ironia]

**“na tragédia grega, a ironia manifestava-se quando o desejo do protagonista era frustrado
pelos deuses ou pelos desígnios insondáveis do alto: correspondia, no caso, à ironia do
destino.” (p. 295)
[nota ironia, o que acontece com as cenas finais de Jacques, importante]

“Modernamente, o termo assumiu o indeciso contorno de figura de pensamento e de palavra.


De modo genérico, a ironia consiste em dizer o contrário do que se pensa, mas dando-o a
entender. Estabelece um contraste entre o modo de enunciar o pensamento e o seu conteúdo.
De onde aproximar-se da antífrase. A ironia funciona, pois como processo de aproximação de
dois pensamentos, e situa-se no limite entre duas realidades, e é precisamente a noção de
balanço, de sustentação, num limiar, a sua característica básica, do ponto de vista da estrutura.
Por isso mesmo, pressupõe eu que o interlocutor não compreenda, ao menos de imediato:
escamoteado, o pensamento não se dá a conhecer prontamente. Quando, porém, o fingimento
empalidece e a ideia recôndita se torna direta, acessível à compreensão instantânea do
oponente, temos o sarcasmo. Neste caso, a ambiguidade permanece, mas de forma grosseira e
violente. Por outro lado, a ironia resulta do inteligente emprego do contraste, com vistas a
perturbar o interlocutor, ao passo que o sarcasmo lança a mão da dualidade para aniquilá-lo. A
ironia é uma forma de humor, ou desencadeia-o, acompanhada de um sorriso; o sarcasmo
induz ao cômico e ao riso. A ironia parece respeitar o próximo, tem qualquer coisa de
construtivo, enquanto o sarcasmo é demolidor, impenitente. Mais ainda: a ironia depende do
contexto; fora dele, o seu efeito desaparece, tragado pela obscuridade resultante; o sarcasmo,
por sua vez, não se condiciona tão estreitamente ao ambiente psicológico e verbal no qual se
move.” (p. 295)

Ficha 3
sátira
“Modalidade literária ou tom narrativo, a sátira consiste na crítica das instituições ou pessoas,
na censura dos males da sociedade ou dos indivíduos. Vizinha da comédia, do humor, do
burlesco e cognatos, pressupõe uma atitude ofensiva, ainda quando dissimulada: o ataque é a
sua marca indelével, a insatisfação perante o estabelecido, a sua mola básica. De onde o
substrato moralizante da sátira, inclusive nos casos em que a invectiva parece gratuita ou fruto
do despeito. Não obstante a comédia grega primitiva ostentar traços de sátira (denominados
diatribe).” (p. 470)
[nota sátira]

“Identificada ao princípio com a poesia, ou o verso, posteriormente a sátira impregnou obras


teatrais e a prosa de ficção; a própria épica não escapou ao seu influxo. Durante a Idade
Média, a cantiga de escárnio e maldizer e o teatro popular atestam-lhe a presença; a partir do
século XVI, o conto, a novela e o romance entraram a cultivar a sátira, como na novela
picaresca e de cavalaria, as narrativas filosóficas ou/e de costumes, de Rabelais, Voltaire,
Swift, Fielding e outros. O Romantismo, apesar do seu pendor para os derramamentos
sentimentais, permitiu o desabrochar de obras satíricas, mas com um à-vontade específico das
novas tendências em arte. E esta situação permanece até os nossos dias: a sátira continua a ser
cultivada, ainda que de maneira difusa e ocasional” (p. 470)
[nota sátira]

“Em qualquer de suas variedades ou instrumentos, a sátira caracteriza-se por usa efemeridade:
tende a envelhecer e a perecer com os eventos que a suscitaram; obra de momento,
desvanecida a conjectura que lhe motivou o aparecimento, a sátira perde sentido e força à
medida que o tempo passa. Raramente uma obra satírica resiste ao desgaste dos anos: para
tanto, é preciso que a causa do ataque satírico persista ao longo de todas as transformações
sociais, ou que a diatribe surpreenda uma falha inerente ao ser humano | contra a hipocrisia da
sociedade coeva permanece viva numa série de aspectos” (p. 470 - 471)
[nota sátira]

“Por outro lado, a postura satírica guarda o seu contrário: a sátira esconde um temperamento
hipersensível que se indigna contra tudo que ofenda as razões da sensibilidade e que a defende
sob o escudo da sátira; no interior do satírico há sempre uma sensibilidade aguda que prefere
a ofensiva ao recolhimento para evitar de ressentir-se com o meio ambiente, ou que,
malferida, se volta implacavelmente contra o agressor” (p. 471)
[nota sátira]