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AG.REG. NA PETIÇÃO 9.

216 DISTRITO FEDERAL

RELATOR : MIN. DIAS TOFFOLI


AGTE.(S) : JOSE GOMES FERREIRA FILHO
ADV.(A/S) : CLEBER LOPES DE OLIVEIRA E OUTRO(A/S)
AGDO.(A/S) : TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL
ADV.(A/S) : SEM REPRESENTAÇÃO NOS AUTOS

DECISÃO:
Vistos.
Cuida-se de pedido de tutela cautelar antecedente, aqui autuada
como Petição, em que se postula a suspensão da eficácia de decisão
proferida pelo TSE e que confirmou a cassação do requerente, do cargo
de Deputado Distrital.
Segundo consta dos autos, em sessão do dia 6/10/20, o Tribunal
Superior Eleitoral negou provimento ao recurso interposto pelo
requerente e confirmou o acórdão regional que determinara a cassação de
seu mandato, com base em abuso de poder econômico.
Discorreu, a seguir, sobre referido julgamento, para aduzir que as
preliminares arguidas foram rejeitadas, inclusive aquela referente ao não
reconhecimento da extemporaneidade da AIJE, a representar superação
da jurisprudência, e que, portanto, deveria observar o princípio da
anualidade.
Concluído o julgamento, foi aprovado pedido do representante do
Ministério Público eleitoral, no sentido de que a Corte regional fosse
imediatamente comunicada do resultado do julgamento.
Dadas as peculiaridades do caso, foi apresentada, perante o TSE,
medida cautelar antecedente, para suspender a eficácia da decisão, a qual
foi rejeitada.
Aduziu que, muito embora ainda não tenha sido publicado o
acórdão em tela, há matérias pendentes de devido esclarecimento, a
justificar a interposição dos embargos de declaração que pretende
apresentar.
Defendeu o cabimento desta ação, baseada no poder geral de
cautela, destacando o perigo de dano iminente, consistente em seu
afastamento do exercício do cargo para o qual foi eleito.

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Ademais, também houve, nos autos, discussão acerca da licitude


de prova obtida por meio de gravação ambiental realizada por um dos
interlocutores, sem o conhecimento do outro, em matéria eleitoral, que
já teve a repercussão geral reconhecida por esta Suprema Corte e terá o
mérito oportunamente apreciado.
Entendeu igualmente violado o princípio do Juiz Natural, dada a
não participação, no julgamento efetuado pela Corte regional, da
Desembargadora Presidente da Corte, fato a macular o resultado a que se
chegou.
Sustentou, assim, haver suficiente plausibilidade jurídica nas
argumentações apresentadas, a demonstrar a plena viabilidade do apelo
extremo a ser interposto nos autos.
Também aduziu padecer referida decisão de exequibilidade
imediata, dada a ausência de balizamento concreto acerca da destinação
dos votos, defendendo, assim, a concessão de efeito suspensivo ao
recurso de embargos de declaração, ainda a serem opostos perante aquela
Corte Eleitoral.
Em 14/10/20, neguei seguimento ao pedido por entender que a
jurisdição cautelar da Corte não teria, em tese, sido inaugurada.
Contra essa decisão, a defesa apresentou tempestivo agravo
regimental, mediante o qual destaca o estado de excepcionalidade da
medida, que decorre da manifesta plausibilidade de suas alegações, a
justificar a atuação excepcional deste Supremo Tribunal, frente à ilicitude
de prova obtida por meio de gravação ambiental
O agravante assevera que a utilização da gravação ambiental como
prova foi objeto de discussão pelo Tribunal Regional Eleitoral/DF e
submetida ao Tribunal Superior Eleitoral no recurso defensivo, teve a sua
repercussão geral reconhecida nos autos do RE nº 1.040.515 (Tema nº 979),
de minha relatoria.
Afirma o defensor do requerente que o extraordinário paradigma
trata justamente da necessidade de autorização judicial ou não para
legitimar gravação ambiental realizada por um dos interlocutores ou por
terceiro presente à conversa, apta a instruir ação eleitoral.

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Reitera, dessa forma, “a existência de matéria constitucional a


legitimar a atuação do STF no exercício do Poder Geral de Cautela do
relator, ainda que de modo excepcional.”
Consigna, ainda, o viés constitucional consubstanciado no fato de o
Tribunal Superior Eleitoral ter, em tese, alterado a sua jurisprudência a
respeito da tempestividade da ação de impugnação de mandato eletivo,
aplicando o novo entendimento sem observar o art. 16 da Constituição da
República, segundo o qual “[a] lei que alterar o processo eleitoral entrará
em vigor na data de sua publicação, não se aplicando à eleição que ocorra
até um ano da data de sua vigência.”
Por essas razões, o agravante defende o risco concreto de se tronar
irreversível o grave prejuízo a que estaria submetido.
Pleiteia, assim, o provimento do recurso para que seja acolhida a
tutela cautelar de suspensão dos “efeitos da decisão do TSE até, ao
menos, a interposição de recurso extraordinário, momento no qual será
aberta nova possibilidade para o Agravante formalizar o pedido de
atribuição de efeitos suspensivos”.
É o relatório.
Decido.
De fato, não houve publicação do acórdão proferido pelo TSE,
mediante o qual foi negado provimento ao recurso ordinário, que
confirmou a cassação do mandato de Deputado Distrital do requerente.
Por sua vez, preconiza o art. 1.029, § 5º, do CPC que a competência
da Corte para a apreciação do pleito de concessão de efeito suspensivo
está compreendida entre a publicação da decisão de admissão do recurso
e a sua distribuição. In verbis:

“Art. 1.029. O recurso extraordinário e o recurso especial,


nos casos previstos na Constituição Federal, serão interpostos
perante o presidente ou o vice-presidente do tribunal recorrido,
em petições distintas que conterão:
(...)
§ 5º O pedido de concessão de efeito suspensivo a recurso
extraordinário ou a recurso especial poderá ser formulado por

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requerimento dirigido:
I – ao tribunal superior respectivo, no período
compreendido entre a publicação da decisão de admissão do
recurso e sua distribuição, ficando o relator designado para seu
exame prevento para julgá-lo;
(...)”

Não obstante, o Supremo Tribunal Federal reúne precedentes que,


de há muito, admitem a suspensão de decisões de Tribunal Superior,
quando evidenciado de plano o risco de dano irreparável ou de difícil
reparação. Cito, a título de exemplo:

“AÇÃO CAUTELAR. CONCESSÃO DE EFEITO


SUSPENSIVO A RECURSO DA COMPETÊNCIA DA CORTE.
MEDIDA LIMINAR. DEFERIMENTO. PRESENÇA DOS
REQUISITOS DO FUMUS BONI IURIS E DO PERICULUM IN
MORA. MANDATO ELETIVO. CASSAÇÃO. LEI
COMPLEMENTAR Nº 64/90. CONTROVÉRSIA A RESPEITO
DA EXIGÊNCIA DO TRÂNSITO EM JULGADO PARA A SUA
EXECUÇÃO. RELEVÂNCIA DA MATÉRIA. 1. Medida Liminar
para conferir efeito suspensivo a recurso da competência do
Supremo Tribunal Federal. Não obstante a dicção das Súmulas
635 e 634, subsiste a excepcionalidade prevista no artigo 21,
IV, do RISTF que, ante a iminência de risco de dano
irreparável ou de difícil reparação, permite ao magistrado o
deferimento da pretensão cautelar para manter-se com plena
eficácia o ‘status do quo’ da lide. 2. Suposta prática de captação
de votos, ocorrida entre a data do registro da candidatura até o
dia da eleição. Representação eleitoral julgada procedente após
a eleição, diplomação e posse do candidato. Mandato eletivo.
Cassação. Observância do disposto no artigo 15 e nos incisos
XIV e XV do artigo 22 da LC 64/90. Plausibilidade da tese
jurídica sustentada e viabilidade do recurso extraordinário.
Medida liminar deferida e referendada pelo Pleno da Corte”.
(AC nº 509-MC, Tribunal Pleno, Relator o Ministro Eros Grau,
DJ de 8/4/05 – grifos nossos).

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Em caso semelhante, chamo à atenção para a decisão do Ministro


Gilmar Mendes na Pet. nº 7.551, proferida sob a égide do novo Código de
Processo Civil. Na oportunidade, Sua Excelência destacou que,

“[e]m situações excepcionais, o Supremo Tribunal Federal


admite a atribuição do efeito suspensivo, desde que presentes,
simultaneamente, os seguintes requisitos: plausibilidade
jurídica do pedido e risco iminente de dano irreparável ou de
difícil reparação.
Destaco que não desconheço o teor do art. 1.029, § 5º, do
novo Código de Processo Civil, segundo o qual este Tribunal
somente seria competente para apreciação da causa após a
admissão do recurso extraordinário. Entretanto, por tratar-se
de discussão que envolve soberania popular, o imediato
cumprimento da decisão importaria no afastamento do
governador e na realização de novas eleições, tornando inócuo
o provimento jurisdicional superveniente. Já antes do NCPC,
este Tribunal admitia a suspensão de decisões de instâncias
inferiores, em casos teratológicos, com base no poder geral de
cautela. Nesse sentido cito decisão do Pleno desta Corte:
(…)
Nesses termos e levando em consideração o poder geral
de cautela, está presente a competência do STF para analisar a
suspensão dos efeitos da decisão do Tribunal Superior.” (DJe
de 9/4/18 – grifos nossos)

Legitimada está, portanto, a competência da Corte para, na espécie,


analisar os requisitos do pedido de liminar, frente ao poder geral de
cautela atribuído ao Estado-Juiz.
Poder esse que, na visão do conceituado jurista Renato Brasileiro de
Lima, destina-se “a autorizar a concessão de medidas cautelares atípicas,
assim compreendidas as medidas cautelares que não estão descritas em
lei, toda vez que nenhuma medida cautelar típica se mostrar adequada
para assegurar, no caso concreto, a efetividade do processo."

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(BRASILEIRO DE LIMA, Renato. Código de Processo Penal Comentado.


Salvador. JusPodivm: 2017. p. 765 - grifos nossos)
Ultrapassada a questão do cabimento excepcional da medida -
amparado em julgados da Corte, verifico, após uma detida reanálise dos
autos, a presença do binômio necessário ao acolhimento da cautelar
almejada.
Isso porque, como ressaltado no relatório inicial, a cassação do
mandato do requerente pelo TRE/DF, confirmada pelo TSE em recurso
ordinário eleitoral, teve embasamento probatório extraído de gravações
ambientais realizadas por funcionários do requerente, que foram
entregues ao autor da ação de investigação judicial eleitoral (AIJE).
A esse respeito, confira-se excerto proferido pelo acórdão do
regional eleitoral no julgamento a ação em questão:

“Na inicial, o Representante trouxe cópias de 2 (dois)


áudios que teriam sido gravados por funcionários da empresa
que estavam indignados com a situação, sobretudo pelo fato de
estarem sendo monitorados em seus direitos de livre exercício
do voto. Nos áudios, cujo interlocutor seria o senhor Douglas
Ferreira Laet, representante da empresa na qualidade de
gerente operacional, concita os funcionários a demonstrar
gratidão ao seu proprietário por seus empregos e salários. Diz
que a lealdade dos trabalhadores seria aferida por meio dos
votos dados ao Representado, uma vez que a empresa já tinha
conhecimento das seções eleitorais a que cada um dos
funcionários pertencia.” (fl. 50 do edoc. 12 – grifos nossos)

Como já ressaltado, a utilização da gravação ambiental como meio


de obtenção de prova para o processo eleitoral está sub judice na Corte,
acobertado pela sistemática da repercussão geral (Tema 979),
precisamente no RE nº 1.040.515/SE, de minha relatoria.
A ementa do caso diz o seguinte:

“Direito Constitucional. Direito Eleitoral. Ação de


Impugnação de Mandato Eletivo - AIME. Prova. Gravação

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ambiental. Realização por um dos interlocutores sem


conhecimento do outro. Jurisprudência do Tribunal Superior
Eleitoral no sentido da ilicitude dessa prova, sob o fundamento
de que há a necessidade de proteção da privacidade e da honra.
Gravação ambiental que somente seria legítima se utilizada em
defesa do candidato, nunca para o acusar da prática de um
ilícito eleitoral. Suportes jurídicos e fáticos diversos que
afastariam a aplicação da tese de repercussão geral fixada, para
as ações penais, no RE nº 583.937. A temática controvertida é
apta a replicar-se em diversos processos, atingindo candidatos
em todas as fases das eleições e até mesmo aqueles já eleitos.
Implicações para a normalidade institucional, política e
administrativa de todas as unidades da Federação. Repercussão
geral reconhecida.”

Não dúvidas, pelo menos neste exame de cognição não exauriente,


quanto à densidade constitucional de uma das teses trazidas pelo
agravante, pois a decisão definitiva a ser tomada pelo Supremo Tribunal
Federal no Tema nº 979, poderá impactar no resultado do julgado que
redundou na cassação do mandato do requerente e foi confirmado pelo
Tribunal Superior Eleitoral, sendo certo, ademais, que o caso concreto
evidencia, a meu sentir, situação de identidade com o recurso
extraordinário paradigma.
Inegável, assim, a configuração do fumus boni juris.
De outra parte, o periculum in mora está consubstanciado na
espécie no fato de que a discussão guarda estrita relação com a soberania
popular (CF, art. 14), sendo que a preservação da decisão de cassação do
mandato do requerente já cumprida esvaziará qualquer provimento
jurisdicional superveniente em recursos desprovidos de efeito
suspensivo.
Assim, ante existência do risco potencial de dano irreparável,
recomenda-se, ainda que de forma precária, acolher a pretensão cautelar
para, nos dizeres do Ministro Eros Grau, “manter-se com plena eficácia o
‘status do quo’ da lide.” (AC nº 509-MC, Tribunal Pleno, DJ de 8/4/05)
Por essas razões, zeloso quanto risco de dano irreparável aos direitos

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PET 9216 AGR / DF

políticos do requerente e à soberania popular (CF, art. 14), RECONSIDERO


a decisão anteriormente proferida para dar prosseguimento a esta Pet.
Ademais, forte no poder geral da cautela, uma vez atendido os seus
requisitos, DEFIRO medida liminar para suspender a execução do
cumprimento do acórdão da Corte eleitoral até o julgamento definitivo
deste incidente.
Comuniquem-se, com urgência, pela via mais expedita, o Tribunal
Superior Eleitoral e a Câmara Legislativa do Distrito Federal.
Após, abra-se vista à Procuradoria-Geral da República.
Publique-se.
Brasília, 29 de outubro de 2020.

Ministro DIAS TOFFOLI


Relator
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