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José Barros D’Assunção: Capítulo 2

2.1- Dois tipos de Introdução:

* Uma “Introdução” junto da “Delimitação Temática”, ou seja, um item/capítulo único.

* Uma “Introdução” e uma “Delimitação Temática” que estejam separadas, e esse é o


caminho mais indicado pelo autor. São dois capítulos com essa escolha.

* “Introdução”: deve apresentar de maneira sintética e sucinta o conteúdo do Projeto de


Pesquisa.

* A “Introdução” deve ser boa ou certeira visando alguma agência de fomento ou


investimento, para que os avaliadores se interessem pelo trabalho do pesquisador, e leiam os
demais capítulos mais detalhados, assim como que seja entendido de maneira esperada, e para
isso, esse capitulo deve ser “um microcosmo” do Projeto como um todo, ou seja, deve resumir
ao máximo todas as informações e detalhes que vão ser debatidos mais profundamente em
seus respectivos capítulos

* Num Projeto de História: a “Introdução” deve contemplar, de maneira resumida, o


Tema com suas peculiaridades, com seu espaço e tempo definidos, as fontes ou
documentos principais, os caminhos metodológicos e teóricos a serem seguidos, e algum
detalhe quanto às justificativas ou viabilidade da Pesquisa, ao passo que todos esses itens
devem ser resumidos com um ou dois parágrafos.

*Se o pesquisador optou por fazer a “Introdução”, o próximo capitulo vai falar de seu Tema
ou Objeto de Pesquisa, esse que seria o primeiro capitulo de fato do Projeto, e carrega os
títulos de “Delimitação Temática”, “Apresentação do Problema” ou “Objeto de Pesquisa”, em
que esse capitulo tem por meta explicar o que vai ser trabalhado ou pesquisado.

2.2- O “recorte temático” diante de suas motivações sociais e intradisciplinares:

*Alguns fatores combinados que interferem na escolha de um tema ou objeto: o interesse do


pesquisador, a importância dada ao tema pelo pesquisador, a viabilidade ou
possibilidade do estudo, e originalidade ou caráter inédito da pesquisa. Mas há outros
fatores que se juntam aos citados anteriormente, amiúde nem sempre percebidos pelo próprio
pesquisador, como por exemplo, a pressão de sua sociedade, tempo, visões ou paradigmas em
vigor dentro da disciplina na qual a sua pesquisa está presente, da Instituição da qual o
pesquisador faz parte e do grupo de seus colegas, virtuais ou concretos.

* Os interesses coletivos na pesquisa: É uma estratégia pertinente conhecer os limites e as


conseqüências sociais e epistemológicas do tema a ser trabalhado por parte daquele
pesquisador que quer fazer de seu Projeto algo viável, ainda devendo reconhecer que o êxito
na boa recepção de seu projeto está ligado à habilidade do pesquisador em convergir seus
interesses individuais com os da sociedade, da mesma forma que já foi dito que um tema ou
objeto de pesquisa tem que ser relevante tanto ao seu autor quanto aos seus contemporâneos,
que são potenciais leitores e beneficiários de sua pesquisa. Então entra frase célebre, dita por
Benedetto Croce e reafirmada por Lucien Febvre, que é “toda história é contemporânea”, ou
seja, estamos fazendo um trabalho com a visão do nosso próprio tempo, e ainda versamos
sobre alguma temática que é relevante aos nossos concidadãos, e não somente a nós, assim
como é evidente que todo historiador escreve com base em idéias e valores de sua época.

* A relevância social do tema: O que se estuda ou investiga já foi ou será visto como
irrelevante em determinado momento ou época, então vemos o tema “Mulher”, que no século
XIX não tinha muita visibilidade, mas passou a ser estudado por muitos historiadores na
segunda metade do século XX, em virtude dos movimentos feministas, do lento ingresso das
mulheres no mercado de trabalho, do reconhecimento universitário e político quanto às
minorias e maiorias oprimidas, e afins. Além disso, foi nesse momento em que as ausências
historiografias em relação às mulheres foram preenchidas por historiadores com tendências
diversas, bem como as próprias mulheres do século XX começaram a ser historiadoras, oficio
majoritariamente masculino, e assim nasceram obras dedicas a figuras femininas e a história
das mulheres em diversos volumes. Então, vemos o estado relativo dos temas, em que podem
ser ignorados em um momento pela historiografia, e futuramente podem ser dignos de estudos
e pesquisa, e assim percebe-se a interferência da sociedade quanto aos temas e investigações.

* As pressões éticas e políticas: Enquanto algo delicado, as escolhas éticas lidam com uma
faceta mais complicada do trabalho histórico, em que esse lado ético sofre com interferências
não muito ligadas à “ética” em comparação com a “politica”. Colocar a ética na pesquisa é
uma das preocupações mais plausíveis que devem chegar ao pesquisador ainda no começo,
em que vemos dois casos hipotéticos, um em que o cientista que pense na possibilidade de
clonar pessoas tem que pensar nas implicações sociais disso, e o outro caso fala de um físico
que libera energias de átomo tem que pensar nas possibilidades de uso de suas descobertas por
parte da indústria armamentista, a fim de não ter que recorrer ao argumento vil de
“neutralidade”, como se não fosse responsabilidade dele o que vai ser feito com suas
pesquisas.

* Perguntas como “a que interesses servem o meu produto?”, “quais as futuras implicações do
que agora escrevo?”, “que caminhos aqui se abrem e que caminhos aqui se fecham?”,
“contribuo para um mundo melhor, ou pelo menos mais divertido?” são pertinentes, e é
aceitável que o historiador se questione quanto às responsabilidades ligadas a leitura da
História que ele cria ou faz. “História com consciência história”. Há também o “politicamente
correto”, uma construção social ou da sociedade, enquanto que o cuidado em relação aos
conceitos de “eticamente adequado” e “politicamente correto” devem enriquecer o trabalho e
não imobilizar o mesmo, da mesma forma que o tempo vivido é o maior avaliador de um
objeto de estudo, e então vemos que já houve diversos temas e visões sensíveis que puderam
ser trabalhadas depois que os acontecimentos “esfriaram” ou passaram. Então, vemos o caso
do atentado terrorista em 11 de setembro de 2001, onde não seria possivel que um
pesquisador abordasse aquele episódio naquele momento, visto a tragédia e as mortes que
dele resultaram, e então, apenas com o passar dos anos, tal fenômeno começou a ser estudado.
Assim, o autor chama a atenção para o distanciamento critico (temporal) em relação à questão
ética com um trecho de Roberto da Matta, cuja mensagem é defender a importância do
distanciamento temporal, por meio da qualidade “fria” ou passada que o evento já acontecido
carrega.

* As condutas disciplinares que existiram em alguma época também exerceram pressão nos
pesquisadores, que viram isso ou não, e assim, vemos que o paradigma (uma visão dominante
ou altamente popular) de uma ciência como a História perpassa por todos os seus intelectuais
sem ser vista, mesmo com as diferenças entre os diversos lados da historiografia e com uma
resistencia contra esse paradigma. Com isso, vemos a historiografia do século XIX,
marcadamente politica, que falava do desenvolvimento dos Estados Nacionais europeus,
sendo basicamente uma narrativa linear ou factual sem qualquer análise, cujo ponto de vista
estava ligado com o poder estabelecido naquele momento, o que fazia dela uma “História
Institucional”. Essa situação muda com a emergência da Escola dos Annales fundada em
1929, cuja marca central foi estabelecer uma abordagem conhecida como “História-
Problema”, relacionada com maneira pela qual se formam o objeto de estudo e o discurso do
historiador. O sentido da “História-Problema” lida com uma história questionadora, formada
por hipóteses e investigações profundas, e não mais uma história eventual e descritiva. Karl
Marx ainda no XIX teria sido um percussor dessa nova modalidade de História, quando lidava
com o problema da luta de classes e sua inserção em um modo de produção especifico.

* Os historiadores, a partir dos Annales, tinham a missão de analisar, compreender e decifrar


as comunidades do passado, então, era preciso formar um problema para conduzir o
pensamento historiográfico que seria feito, assim como, levantar o debate feito em torno do
problema que foi escolhido. Neste sentido, não existiam motivos para que descrevesse e
narrasse os fatos da Revolução Francesa, e com isso, o historiador deveria recortasse uma
problemática dentro do tema amplo que é a Revolução Francesa. Com isso, vemos que o
“problema” virou um recorte que deveria ser feito dentro de um “tema”, e junto disso, o
pensamento historiográfico seria conduzido pelas hipóteses, e não mais pelo desejo de narrar
ou descrever. A criação de problemáticas virou uma noção elementar nessa nova abordagem
historiográfica.

* Na História do século XX uma grande variedade visões passou a existir, como a “história
vista de baixo” ou “história das massas”, e com novas temáticas surgindo, outras iam
sumindo, como foi o caso das biografias de grandes vultos, apesar de esse gênero ter mostrado
um regresso, mas de forma diferente, por meio das “biografias problematizadas”, em que os
autores buscas falar das diversas faces da sociedade por meio da vida de algum homem
importante. Além disso, os campos da História se alargaram, indo até as mentalidades e a
“história do tempo presente”, assim como a História passou a incorporar métodos de outras
disciplinas, como a Lingüística, Antropologia e a Psicanálise, fenômeno esse que relegou a
história politica ao segundo plano. Com tudo isso, pudemos ver que os temas e problemas
escolhidos para as pesquisas não são escolhas individuais dos historiadores, visto que
elementos como a sociedade, a faculdade e a comunidade historiadora mostram seu papel de
conceber os temas possíveis os quais podem ser escolhidos pelos historiadores. A
historiografia, segundo Michel de Certeau, está inscrita num “lugar de produção” bem visivel.

2.3- As escolhas que dependem mais diretamente do pesquisador:


* O pesquisador deve se questionar se gosta do tema do qual vai versar, visto que é
desanimador trabalhar com algo com o qual não nos identificamos, e ainda correria o risco de
fazer um trabalho apenas para ganhar um titulo que apenas seria lembrado pelo próprio
pesquisador. Assim, é importante ter um interesse na hora de escolher um tema a ser
estudado.

* A importância do tema é delicado, visto que o pesquisador se encontra em alguns


questionamentos quanto à importância do tema em relação à sociedade, sendo legitimo o
pesquisador se perguntar acerca do interesse que uma pesquisa pode ter ao meio social, e que
a relevância que o pesquisador atribui a seu tema esbarra com os critérios de importância que
chegam até ele por meio da sociedade ou de sua faculdade, da mesma forma que não pode
achar alguma outra temática “irrelevante” por meio de critérios que ele mesmo adotou. O
pesquisador deve encontrar um tema que faça com que ele fique em paz consigo e com a sua
sociedade. Além disso, não existem parâmetros oficiais para classificar a importância de um
tema, mas o que existe é um consenso que a importância deve ser pensada por aqueles que
querem fazer uma produção cientifica.

* Outra parte do trabalho a ser pensada é a viabilidade, visto que por mais que gostemos do
tema e o consideramos como relevante, não vale de nada se ele não foi possivel, e com isso
devemos nos perguntar se a documentação pode ser estudada, se pode ser acessada caso
existente, se há teoria e correntes que ajudem o pesquisador na pesquisa, e se não houver, será
que pesquisador pode dar conta de criar uma teoria para trabalhar com o tema, e se a
documentação for num idioma com qual o pesquisador não tem familiaridade. Ou em outras
palavras, o meu tema é possivel de ser estudado ?. Além disso, existe o fantasma do
ineditismo que assombra a escolha dos temas, pois é esperado das escolhas algum nível de
originalidade, já que pesquisar algo que já foi feito não tem justificativa.

* A originalidade não precisa ser no tema em si, mas a inovação pode vir nas hipóteses,
fontes, metodologias, ou balizas teóricas, e o tema já visto tantas vezes pode ser interpretado
de uma nova perspectiva, ainda com as mesmas fontes. Com isso, o pesquisador não deve ver
na originalidade um tema que nunca fora estudado. O exemplo de inovação num caminho já
estudado é o livro A conquista da América, de T. Todorov, autor que conseguiu estudar um
tema e problemas já vistos diversos vezes por outros antes dele, cujas fontes foram usadas por
Todorov. A inovação de Todorov, dentro da teoria e metodologia usadas, foi o uso de novas
possibilidades de análise do discurso e da análise semiótica, enquanto que sua abordagem
teórica, que criou de maneira original conceitos como “alteridade”, de mais ineditismo para
esse livro que é referência nos estudos da Conquista da América. Com isso, não podemos
buscar um tema nova, mas sim estudar um tema velho com uma abordagem nova.

* Também há a especificidade do tema, sempre confrontada com a tendência do pesquisador


em escolher temas muito gerais ou amplos, visto que a experiência ainda não o ensinou a ver
que um tema, para que seja possivel, deva sofrer recortes

2.4- Recortando o Tema:

* O “tema” é um assunto qualquer do qual se queira desenvolver ou versar, então o autor


coloca o tema “violência urbana” como exemplo. Esse tema em particular não poderia entrar
numa monografia ou tese de mestrando, pois precisa de mais especificidade, e com isso, o
autor apresenta um exemplo, que é “Os discursos sobre a violência urbana nos jornais
populares do Rio de Janeiro nos anos 1990”, um tema esse bastante especifico.

* História da América não é um tema, em muitas vezes é vista como “campo de estudos”,
enquanto que a “Conquista da América”, ainda que específico, também não se enquadra como
um tema, pois é um “assunto” do qual pode sair um tema mais delimitado, tendo que sofrer
recortes. Um tema seria “a alteridade entre espanhóis e nativos mesoamericanos durante a
conquista da América, nas primeiras décadas do século XVI”, tema escolhido por Todorov,
no qual estão presentes os recortes mais particulares, que são o espaço (região central do
continente americano), um tempo (as primeiras décadas do século XVI), e um problema, que
é a “alteridade ou “choque cultural entre ambas as civilizações. Com isso, é fundamental que
em História o tema de pesquisa tenha um recorte espaço-temporal bem delimitado, o que
corresponde a focar num assunto geral dentro de um campo mais limitado. Assim, o autor
explica que não se estuda o “islamismo” em si, mas sim se recorta esse assunto bem amplo,
em que chegamos a algo como “o islamismo fundamentalista no Afeganistão do final do
século XX”, ao passo que o espaço é o Afeganistão, e o tempo o fim do século XX, da mesma
forma que um problema a ser encaixado nesse tema poderia ser “as restrições à educação
feminina no islamismo fundamentalista do Afeganistão do final do século XX”, assim sendo,
o autor coloca o “problema” como esse “recorte final”, algo muito especifico e que suscita
uma pergunta ou questionamento a ser investigada pelo pesquisador.
* O autor apresenta alguns temas bons ao modelo “História-Problema”, como “as restrições à
educação feminina no islamismo afegão de fins do século XX”, e explica que o “problema”
seria uma questão ou indagação potencialmente presente dentro do tema optado, cuja
resolução é a maior meta da pesquisa, e esse “problema” acompanha um sentido interrogativo
ou de pergunta, e como exemplo, ele seleciona o tema “Alteridade na conquista da América”,
do qual faz a seguinte indagação: “qual a contribuição do choque cultural para a
implementação de uma conquista espanhola da Meso-América tão rápida e com um número
tão reduzido de homens?”. No tema “islamismo afegão”, poder-se-ia recorrer ao seguinte
problema: “quais as funções sociopolíticas que motivaram a restrição à educação feminina no
islamismo afegão do final do século XX?”

* O “problema” não precisa vir em forma de indagação, mas seu sentido deve ter um sentido
de pergunta, sendo “as funções sociopolíticas que motivaram a restrição à educação feminina
no islamismo afegão do final do século XX?” um exemplo de problema que tem sentido de
pergunta, mas aparece em forma de declaração. Com isso, o autor afirma que a inserção de
uma problemática é fundamental para a historiografia universitária e ao oficio do historiador
profissional.

* O tema, segundo o autor, não precisa ter apenas um problema, visto que pode ser permeado
por uma série de problemas ou um problema que leva em dois ou três questionamentos,
pegando “a repressão à educação feminina no islamismo afegão do final do século XX”,
exemplo do qual explica que nenhuma repressão é gratuita, já que tem motivos políticos,
econômicos e sociais, suscitando um primeiro problema, que seria ligado às razões sociais
que criam a repressão à educação feminina no mundo afegão, da mesma forma que não há
repressão que não crie resistência, e outra indagação seria ligada com as formas de resistência
das mulheres afegãs em relação à repressão.

* De maneira geral o autor afirma que um tema bem delimitado conta com três aspectos
imprescindíveis: o recorte espacial, o recorte temporal e o problema, os quais devem estar
explicados de maneira adequada na “Delimitação Temática”.

2.5- Recorte espácio-temporal:


* A delimitação correta de um periodo histórico a ser estudado é a questão mais importante a
qualquer historiador, e a escolha de qualquer tempo histórico não pode ser gratuita, então é
inútil querer estudar os anos finais de algum regime ou governo, visto que a escolha de um
recorte temporal deve ter em mente um número redondo (10 ou 100 anos), mas sim um
problema a ser investigado ou um tema a ser estudado.

* O que define o recorte temporal é a “problemática”, e não alguns anos escolhidos em


virtude de critérios comemorativos, da mesma forma que uma tese de História não pode ficar
presa por recortes governamentais, em que um recorte relacionado ao “Brasil de JK” não
dialogue com os limites exatos do problema a ser estudado, questão essa que ocorre com o
recorte espacial, já que não tem muita lógica ao problema histórico escolhido ligar sua
geografia a um país, estado ou cidade. Um tema pode passar por dois governos diferentes e
por duas regiões administrativas também.

* O autor afirma que o historiador de formação universitária está acostumado a delimitar seu
objeto ligado às imagens congeladas como a do “espaço nacional” ou “tempo dinástico”, no
caso há casos como “Portugal durante o reinado de Dom Dinis” ou “Egito de Ramsés II. Esse
modelo de espaço-tempo limitado pelos critérios nacionais e pela duração dos governos,
talvez uma herança da historiografia politica do XIX, se alastra na História que visa círculos
fora da universidade.

* O autor salienta que, sempre que for possivel, o problema investigado pegue um recorte que
começa na metade de um governo e vá até a primeira metade do próximo governo, ou que
pegue duas nações, ou até mesmo duas regiões de dois países diferentes, enquanto que a
delimitação de um lugar pelo pesquisador não esbarra necessariamente com um recorte
governamental ou estatal, visto que pode ser escolhido por motivos culturais, antropológicos
ou econômicos. Com isso, o autor chama a atenção a esse alerta, na medida em que não tem
sentido começar de uma idéia de que o melhor recorte esbarra com um governo, nação ou
cidade.

* Algo análogo ocorre com as teses cujo tema é a obra de algum autor ou artista, em que a
obra de Machado de Assis ou a produção iconográfica de Debret não tem nenhum valor
enquanto uma história problematizadora, visto que o estudo da obra de Machado de Assis tem
mais sentido no campo da Literatura, ao passo que na História um recorte que aborde
momentos diferentes apenas tem sentido se o problema conectar esses momentos com os
momentos sociais e políticos diferentes. Com o exemplo “a representação da sociedade
brasileira nas litografias de Debret (1816-1831), o autor explica que o problema recortado fala
da captação dos tipos sociais brasileiros pela visão européia de Debret, e também foi evitado o
recorte temporal limitado ao governo de D. João VI, visto que vai até 1831, ultimo ano do
Primeiro Reinado. Além disso, pode ser feita uma comparação das estratégias de
“representação social” usadas por Debret e Taunay, para ver se ambos possuem pontos em
comum que permitam falar de um “olhar europeu”, ou se houveram experiências diferentes
entre eles. Assim a comparação esses dois pintores pode virar uma problemática histórica bem
interessante.

*Os exemplos que lidam com as decisões quanto ao recorte temporal são infinitas, já que um
mesmo tema pode se abrir a diversos problemas plausíveis, em que cada um deles vai levar a
um recorte que lhe mais adequado. Então o autor fala que a necessidade de criar um problema
dentro da pesquisa historiográfica deve ser levantada junto do “espaço” escolhido pelo
historiador, e, neste sentido, o próprio espaço deve ser problematizado, pegando como a obra
máxima de Fernand Braudel, que é O Mediterrâneo e o mundo mediterrânico na época de
Felipe II, revolucionário em relação ao tratamento do “tempo”, pois apresentou a articulação
de diferentes temporalidades no tempo histórico, em que a delimitação do tema de pesquisa
não obedece a critérios nacionais, mas sim ao mundo mediterrâneo, uma construção
historiográfica de um espaço que é econômico, social, demográfico e cultural. O recorte
espacial colocado no primeiro volume da obra está atrelado ao “tempo longo”, duração em
que as continuidades são visíveis, assim como os aspectos estruturais, e as mudanças mais
demoradas que de longe dão a criar uma história quase imóvel quanto às interações entre os
homens e a natureza. Algo desse porte não poderia ser replicado nas realidades de mestrado e
doutorado, visto que os empreendimentos de Braudel exigiram quase vintes anos de sua vida,
e os estudantes não possuem todo esse tempo disponível, assim como vemos o caso de Pierre
Chaunu, que escreveu 10 volumes distribuídos pela obra Sevilha e o Atlântico.

2.6. Recorte serial e “recorte na fonte”:

* Existe o “recorte serial”, em que o objeto é recortado não em virtude de uma realidade
histórica relacionada a um recorte espaço-temporal, mas em virtude de uma série de fontes e
documentos selecionada pelo pesquisador, cujo expoente é a obra citada de Pierre Chaunu. Na
“História Serial”, quem estipula o grupo de fontes é o pesquisador, grupo que interessa o
historiador, da mesma forma que François Furet a definia em termos da formação do fato
histórico em séries de fontes parecidas e comparáveis, ou como o próprio autor afirma, estar-
se-ia “serializando” o acontecimento histórico a fim de estudá-lo em suas repetições e
mudanças num periodo amiúde tido como a “longa duração”, visto que as longas e médias
durações é que predominaram nos primeiros trabalhos de História Serial, estes que estavam
situados na História Econômica e Demográfica e combinados com a visão da História
Quantitativa, malgrado existe a possibilidade de fazer uma história seriada dentro da curta
duração.

* O autor afirma que as possibilidades oferecidas pelo tratamento seriado levam a uma
ampliação de alternativas quanto ao recorte historiográfico, pois as séries singulares feitas
pelos pesquisadores não se encaixam com as periodizações convencionais preestabelecidas,
em que fazer uma série seria uma recriação do tempo e assumir esse tempo como
“construído”. Apesar disso, o autor afirma que escolher a História Serial pressupõe a escolha
de um problema condutor bem especifico, problema esse elementar na criação da série, e com,
isso, a História Serial se encontra com a História-Problema. A História Serial segue esse
modus operandi: faz uma análise da realidade social por meio da série forma por um certo
problema, da mesma forma que o historiador serial tem como estudo a série, assim como que
a “série” pode ser os fatos repetitivos que podem avaliados de forma comparativa, e também
uma documentação parecida.

* François Furet e Michel Foucault: o primeiro fala de uma suposta serialização dos
acontecimentos históricos que possuem uma repetição entre si, enquanto que o segundo
afirma que a História Serial escolhe seu objeto a partir de um grupo de fontes oferecido por
ela mesma. O autor afirma que a documentação de cunho administrativo, estatístico,
testamentário, policial e cartorial tem uma preponderância no trabalho serial, mas a
documentação em série também lida com fontes literárias, iconográficas, e práticas
relacionadas coma História Oral. Além disso, existe a possibilidade de se fazer uma série sem
um tratamento quantitativo (números), mas sim ter uma abordagem mais qualitativa, cujo
interesse reside em perceber tendências, repetições, variações, padrões usuais e debater o
documento ligado em uma série mais vasta. Como exemplo, pegamos o livro de Gilberto
Freyre, que reuniu como série documental dentro do estudo da Escravidão no Nordeste os
anúncios nos jornais, em que os senhores anunciavam a fuga dos cativos falando das
descrições e traços dos escravos, ressaltando traços físicos que falavam das atitudes
relacionadas com a dominação escravista. Assim, os escravos não são o seu tema, mas o
“escravo nos anúncios dos jornais”, assim sendo, o objetivo de Freyre foi recuperar um
discurso do escravo por meio de uma série que esbarra com os jornais estudados pelo mesmo,
ao passo que ele procurou nessa série ver uma recorrência de padrões de representação mas as
singularidades e mudanças, e implicitamente nesses padrões de representação, os padrões de
relações sócias que os criavam.

* O autor afirma que é interessante perceber que o recorte documental pode ser uma
possibilidade para que o pesquisador delimite seu tema, e com o recorte definido, está
definido o tempo especifico importante para aquele recorte problemático e documental no que
tange sua singularidade. Assim, voltamos ao livro de Chaunu, cujo recorte foi colocado entre
1504 até 1650, na medida em que o ano de 1504 foi quando a documentação da “Casa de
Contratação de Sevilha” lhe permite fazer um estudo estatístico, enquanto que em 1650 foi
quando a documentação não lhe deixou fazer uma avaliação quantitativa dos fatos. Então, o
autor coloca o recorte serial enquanto um recorte na documentação, mas também existem
outras formas de recortar o tema por meio da fonte, em que o historiador pode querer estudar
uma obra única, muito recorrente na História das Idéias e da História Social das Idéias.

2.7- Articulando recortes:

* O autor explica que nem sempre o tempo historiográfico pode ser conduzido ou contado
linearmente em uma narrativa ou descrição histórica, em que desde Braudel o historiador tem
a possibilidade coloque em seu trabalho uma “dialética das durações”, e em suas obras,
Braudel juntou três durações diferentes, a longa, a média e a curta durações. Assim, o autor
que lembrar que algum objeto de estudo precise de um tratamento complexo do tempo, e com
isso, ele usa o exemplo de algum pesquisador que quer investigar o envolvimento da Igreja
com a questão social da terra em um fato particular da História do Brasil, ou de maneira mais
particular, numa terra delimitada temporal e espacialmente. Então, esse pesquisador pode
querer escrever um grande capitulo contextual para situar seu fato histórico mais particular
num processo de longa duração e depois um capitulo voltado para seu objeto de estudo,
envolvendo um processo singular, numa terra particular e dentro de uma realidade politica
particular, em meio a sujeitos políticos e grupos sociais escolhidos de forma especifica. O
autor coloca o periodo estudado situado em algum momento da Ditadura Militar.
* Com isso, o primeiro capitulo teria como recorte a longa ou média duração passando por
vários períodos da História do Brasil, tendo como função permitir que se coloque o processo
de curta duração marcado pelos fatos políticos dentro de um processo social e institucional de
tempo maior. Assim, ficaria uma dúvida quanto ao recorte do tema, ou seja, teria que se optar
pelo de longa duração ou o de curta, e a partir disso, o autor responde que o recorte contemple
o de curta duração ou o do objeto especifico, assim, o recorte escolhido seria o da Ditadura
Militar.

*Outra ambigüidade acontece quando uma documentação está presente num tempo, mas fala
de fatos que ocorrem num tempo diferente, ou seja, fala de algo que fora de seu tempo: então
o autor escolhe um caso hipotético de se querer estudar a Revolução de Avis entre 1383 e
1384 pela Crônica de Dom João I, escrita por Fernão López, que teria nascido em 1378 e
morrido em 1460, autor esse que escreveu esse texto alguns anos depois dos eventos que
escolheu narrar. Com isso, o autor se indaga quanto ao recorte a ser colocado no
Projeto, se é o das fontes ou dos eventos, respostas que está no “problema” a ser
estudado: o que vai ser estudado é a Revolução de Avis em si enquanto um
acontecimento político ou o discurso posterior quanto a esse fato? Qual seria a
finalidade: estudar um movimento social, a recepção desse movimento ou a
representação desse movimento social? Se for o caso, o autor vê como mais adequado
que o recorte temporal seja o das fontes, no caso a época de Lopez, mas se o pesquisador
quer estudar a revolução, o recorte temporal deve ser a duração daquele fato.

* Outro caso: será que o pesquisador quer estudar a Guerra do Peloponeso ou a visão de
Tucidides quanto a esse conflito? Ou será que o pesquisador quer remontar pela
História Oral as barbaridades dos campos de concentração nazistas ou decifrar a
memória dos horrores nazistas construída de maneira complexa pelas vitimas
entrevistas pelo historiador.

*O mais elementar é que o historiador tenha bem definido para si qual é o seu verdadeiro
objeto, da mesma forma que se seu objeto é de uma natureza complexa de tal modo que
mereça ser melhor explicada