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TESTES DE AVALIAÇÃO

Português, 12.º ano


Fernando Pessoa, Bernardo Soares – Livro do Desassossego

GRUPOI (100 PONTOS)

Lê o texto.

Releio passivamente…
Releio passivamente, recebendo o que sinto como uma inspiração e um livramento, aquelas frases
simples de Caeiro, na referência natural ao que resulta do pequeno tamanho da sua aldeia. Dali, diz
ele, porque é pequena, pode ver-se mais do mundo do que da cidade; e por isso a aldeia é maior que a
cidade…
5
“Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura.”
Frases como estas, que parecem crescer sem vontade que as houvesse dito, limpam-me de toda a
metafísica que espontaneamente acrescento à vida. Depois de as ler, chego à minha janela sobre a rua
estreita, olho o grande céu e os muitos astros, e sou livre com um esplendor alado cuja vibração me
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estremece no corpo todo.
“Sou do tamanho do que vejo!” Cada vez que penso esta frase com toda a atenção dos meus nervos,
ela me parece mais destinada a reconstruir consteladamente o universo. “Sou do tamanho do que
vejo!” Que grande posse mental vai desde o poço das emoções profundas até às altas estrelas que se
refletem nele, e, assim, em certo modo, ali estão.
15 E já agora, consciente de saber ver, olho a vasta metafísica objetiva dos céus todos com uma segurança
que me dá vontade de morrer cantando. “Sou do tamanho do que vejo!” E o vago luar, inteiramente
meu, começa a estragar de vago o azul meio-negro do horizonte.
Tenho vontade de erguer os braços e gritar coisas de uma selvajaria ignorada, de dizer palavras aos
mistérios altos, de afirmar uma nova personalidade vasta aos grandes espaços da matéria vazia.
20 Mas recolho-me e abrando. “Sou do tamanho do que vejo!” E a frase fica-me sendo a alma inteira,
encosto a ela todas as emoções que sinto, e sobre mim, por dentro, como sobre a cidade por fora, cai a
paz indecifrável do luar duro que começa largo com o anoitecer.

SOARES, Bernardo (2013), Livro do Desassossego. Lisboa: Assírio e Alvim, pp. 83-84.

Apresenta, de forma bem estruturada, as tuas respostas aos itens que se seguem.

1. Divide o texto em três partes lógicas, explicitando a ideia-chave de cada uma delas. (20 PONTOS)

2. Indica dois traços do perfil de Bernardo Soares, fundamentando a tua resposta com exemplos.
(20 PONTOS)
3. Comenta o valor da repetição da expressão “Sou do tamanho do que vejo!” ao longo do texto.
(20 PONTOS)
B

Lê as estâncias 80, 81 e 82 do Canto VII de Os Lusíadas. Se necessário, consulta as notas.

80 Agora, com pobreza avorrecida,


Por hospícios1 alheios degradado;
Agora, da esperança já adquirida,
De novo, mais que nunca, derribado;
Agora, às costas escapando a vida2,
Que dum fio pendia tão delgado,
Que não menos milagre foi salvar-se
Que pera o Rei judaico3 acrescentar-se.
1. hospícios: locais onde se acolhem viajantes,
necessitados e doentes.
81 E ainda, Ninfas minhas, não bastava 2. v. 5: alusão ao naufrágio de Camões, no
Que tamanhas misérias me cercassem, mar da China.
Senão que aqueles que eu cantando andava 3. Rei judaico: Rei de Judá que, sabendo
Tal prémio de meus versos me tornassem: que ia morrer, pediu a Deus mais
quinze anos de vida.
A troco dos descansos que esperava, 4. capelas: grinaldas.
Das capelas4 de louro que me honrassem, 5. engenhos: talentos; saberes.
Trabalhos nunca usados me inventaram,
Com que em tão duro estado me deitaram!

82 Vede, Ninfas, que engenhos5 de senhores


O vosso Tejo cria valerosos,
Que assi sabem prezar, com tais favores,
A quem os faz, cantando, gloriosos!
Que exemplos a futuros escritores,
Pera espertar engenhos curiosos,
Pera porem as coisas em memória,
Que merecerem ter eterna glória!
CAMÕES, Luís de (2011). Os Lusíadas. Porto: Porto Editora, p. 265.

Apresenta, de forma bem estruturada, as tuas respostas aos itens que se seguem.

4. Mostra de que forma a reflexão sobre a vida pessoal do poeta é concretizada nas duas
primeiras estâncias. (20 PONTOS)

5. Explicita a crítica social presente na terceira estância. (20 PONTOS)


G R U P O II (50 PONTOS)

Lê o texto.

“Porque eu sou do tamanho do que vejo”


“Porque eu sou do tamanho do que vejo”, porque sou do tamanho do que a minha vista alcança,
tanto posso ser um gigante ao olhar a ampla planície alentejana, onde o horizonte se perde e todos
os sonhos se tornam possíveis, como uma pequena formiga, se apenas olhar para o meu umbigo,
os meus problemas e a vida daqueles que me rodeiam.

5 Centrarmo-nos em nós, na nossa própria vida, é uma opção tão válida como qualquer outra, mas
tolda-nos a visão ao não confrontarmos as nossas ideias e opiniões com as dos outros, ao ignorarmos os
seus pontos de vista e, sobretudo, ao não considerarmos a essência da sua existência humana enquanto
seres que, tal como nós, têm anseios, têm sonhos e, essencialmente, têm direito a existir na plenitude
da sua dignidade.
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Esta frase foi pintada nos muros do Parque de Saúde de Lisboa, e pertence ao poema “O guardador
de rebanhos” de Alberto Caeiro, o heterónimo de Fernando Pessoa que valoriza a natureza e a simplic-
idade da vida. Representa a dicotomia entre a vida na cidade e a vida na aldeia, defendendo Caeiro que,
nas cidades, os prédios impedem de ver o horizonte, pelo que, no campo, na sua aldeia, a possibilidade
de ver “quanto da terra se pode ver do universo” é bem maior e, como tal, também ele próprio pode ser
15 bem maior.
Esta afirmação pode naturalmente ser questionada, porque, sabemos, não são os prédios que nos
impedem de ver, mas a nossa própria incapacidade de levantar os olhos para o céu e descobrir, também
aí, o universo, ou de, mantendo os olhos no que nos rodeia, descobrir a beleza e os estímulos de que
necessitamos para sermos mais do que do tamanho do que vemos e conseguirmos ser do tamanho do
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que sonhamos, do tamanho do que desejamos realmente ser. E é quando olhamos mais além de nós,
da nossa vida, da nossa família, do nosso trabalho ou estudo que verdadeiramente nos podemos tornar
do tamanho incomensurável do universo.
Todas estas frases e palavras que me encontram na rua são também uma outra forma de me ajudar
a ver mais além, a refletir sobre alguns temas em que nunca tinha verdadeiramente pensado ou que me
25 conduzem a novos caminhos e novos pensamentos, como quem desenrola o fio de Ariadne para en-
contrar o caminho na descoberta do que há em mim.
E conhecermo-nos a nós próprios é fundamental para conhecermos os outros e com eles partilharmos
uma visão mais fraterna da vida, seja seguindo os ensinamentos de Buda, de Krishna, de Alá ou de
Deus, porque quem tem fé consegue sempre ver mais além.
LEITÃO, Maria Eugénia. “Porque eu sou do tamanho do que vejo” [Em linha].
Sol/Sapo, 11-05-2016 [Consult. em 07-11-2016, adaptado].

Nas respostas aos itens de escolha múltipla, seleciona a opção correta.

1. A afirmação “Porque eu sou do tamanho do que vejo” (l. 1) (5 PONTOS)


(A) é utilizada de acordo com o sentido original.
(B) tem como intuito demonstrar a cultura literária da autora.
(C) é objeto de refutação ao longo do texto.
(D) é reinterpretada pela autora, constituindo o ponto de partida da argumentação.

2. O tema predominantemente desenvolvido no texto é (5 PONTOS)


(A) a dicotomia cidade/campo. (B) a simplicidade da vida.
(C) a reflexão sobre o mundo que nos rodeia. (D) o autoconhecimento.

3. De acordo com a autora, devemos (5 PONTOS)


(A) confrontar as nossas perspetivas com as dos outros.
(B) centrarmo-nos em nós.
(C) relegar para segundo plano a essência da existência humana.
(D) valorizar a natureza e a simplicidade da vida.

4. Nas linhas 10-11, as aspas são utilizadas para delimitar (5 PONTOS)


(A) uma citação. (C) um comentário irónico.
(B) um título. (D) um empréstimo.

5. O referente de “Esta afirmação” (l. 16) é (5 PONTOS)


(A) “Porque eu sou do tamanho do que vejo” (l. 1).
(B) “nas cidades, os prédios impedem de ver o horizonte” (l. 13).
(C) “quanto da terra se pode ver do universo” (l. 14).
(D) “não são os prédios que nos impedem de ver, mas a nossa própria incapacidade de levantar os olhos
para océu” (ll. 16-17).

6. O adjetivo “incomensurável” (l. 22) significa (5 PONTOS)


(A) indefinível. (C) que não se pode compreender.
(B) omnipotente. (D) que não se pode medir.

7. A oração “quem tem fé” (l. 29) classifica-se como subordinada (5 PONTOS)
(A) adverbial comparativa. (C) substantiva relativa.
(B) substantiva completiva. (D) adjetiva relativa restritiva.

8. Identifica o valor aspetual veiculado no enunciado “Esta frase foi pintada nos muros do Parque
de Saúde de Lisboa” (l. 10). (5 PONTOS)

9. Identifica a função sintática desempenhada pelo constituinte “Caeiro” (l. 12). (5 PONTOS)

10. Identifica o valor do modificador “que me encontram na rua” (l. 23). (5 PONTOS)

G R U P O III (50 PONTOS)

Redige uma apreciação crítica da pintura de René Magritte. O teu


texto deverá conter entre duzentas e trezentas palavras e consistir
na descrição sucinta do objeto, acompanhada de comentário crítico.

Observações:
1. Para efeitos de contagem, considera-se uma palavra qualquer sequência delimitada
por espaços em branco, mesmo quando esta integre elementos ligados por hífen (ex.:
/dir-se-ia/). Qualquer número conta como uma única palavra, independentemente dos
algarismos que o constituam (ex.: /2017/).
2. Relativamente ao desvio dos limites de extensão indicados – um mínimo de duzentas e
um máximo de trezentas palavras –, há que atender ao seguinte:
• um desvio dos limites de extensão indicados implica uma desvalorização parcial (até 5
pontos) do texto produzido;
• um texto com extensão inferior a oitenta palavras é classificado com zero pontos.