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A mitologia do corpo

Gabriela Salvador
Mestre em Artes Cênicas
Dançarina, Pesquisadora e Arte-educadora.

Resumo: O presente artigo discute a relação entre o corpo do ator-bailarino e a mitologia a


partir das pontes psicofísicas existentes entre inconsciente, criação artística e corpo.
Buscaremos refletir sobre essas relações considerando que o corpo do ator-bailarino pode
criar símbolos “mitológicos”. A partir da análise dos mitos e dos arquétipos, segundo os
desdobramentos dos estudos de Carl Gustav Jung, e dos estudos do corpo como gerador
unidade psicofísica, refletiremos sobre os possíveis caminhos que estabelecem essa
relação que, por sua vez, acontece no corpo do ator-bailarino, tanto no ato de criação
quanto em cena.

Palavras-chave: corpo, mitologia, símbolos

Estudos de diferentes áreas do conhecimento nos mostram o crescente


interesse pelo corpo soma1, ou seja, o corpo entendido como um organismo complexo, em
processo de construção, reconstrução e de ação ativa. Assim, o corpo é visto como um
constante “gerúndio” que vai se construindo a cada novo instante de experiências e relações
com outros corpos, com outros objetos e com o mundo.
O estudo da mitologia também passa por um processo semelhante, no sentido de
que o mito, antes considerado como um subproduto da mente ignorante de nossos
ancestrais é, atualmente, entendido como um processo de reconhecimento da atuação do
homem na sociedade. A mitologia passou de alegoria para uma das maneiras de o homem
se relacionar consigo, com o mundo, e com o inconsciente individual e coletivo2 de toda a
humanidade, sendo um caminho para o homem construir e compreender seus pensamentos
e, assim, seguir estruturando (também em gerúndio) sua identidade.
Podemos afirmar que a mitologia3, como parte do inconsciente da humanidade, é
também parte da soma, ou seja, parte do corpo que se mantém nesse fluxo de constante

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Soma aqui é um conceito que entende que não se separa o corpo físico do corpo psíquico, emocional e
espiritual. O corpo que é soma está em constante troca com o ambiente, com a sociedade, com a cultura e com
as experiências por ele vividas.
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Segundo estudos da psicologia analítica Junguiana, nosso inconsciente está dividido em camadas e, cada vez
que mais nos aprofundamos nessas camadas, encontramos níveis mais profundos, impessoais ou coletivos, ou
seja, estruturas, imagens e pensamentos que estão ligados a conceitos universais, e não, regionais ou pessoais.
Portanto, o inconsciente coletivo é a herança das vivências das gerações anteriores e compartilhadas por toda a
humanidade.
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Entendemos mitologia como sendo a revelação das atividades criadoras de seres sagrados (deuses, heróis,
etc.), que mostram a sacralidade da criação e da transformação do universo em que vivemos. Essas histórias,
que normalmente são datadas de tempos muito remotos, estão inseridas no inconsciente da humanidade, sendo
consideradas elementos presentes em todas as culturas, refletindo ou ditando comportamentos das sociedades
que fazem parte.
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reconstrução a partir dos mais variados encontros que estabelece. Como coloca Keleman
(2001), “os mitos evocam o nosso self mais profundo, mais íntimo, uma estrutura somática
com muitas camadas de forma que conferem profundidade e dimensão ao nosso corpo”.
A partir da relação entre corpo e mito, podemos concluir que o artista cênico
pode construir um olhar diferenciado sobre o corpo e sobre seu trabalho na cena. A começar
porque a própria cena, a partir do ponto de vista somático, se torna uma constante
preparação para a próxima cena – recriação da cena na própria cena – e também porque o
corpo vai se ‘resignificando’ a cada experiência, memória, sensação e emoção física,
psíquica e a cada novo encontro com o mito.
A partir dessa concepção, podemos dizer que a arte, em suas variadas
manifestações, carrega sempre consigo uma porção de mitologia; afinal, quando o artista
cria, ele coloca em sua obra uma gama imensa de suas impressões objetivas e subjetivas,
criadas a partir da soma, em que a mitologia está presente e atuante. Neste contexto, Gilles
Deleuze (1981) observa que o artista nunca começa uma obra a partir de um vazio, ele
carrega consigo tudo o que está em trânsito em seu corpo, em seu universo pessoal ou
coletivo:
É um erro dizer que o pintor está diante de uma superfície branca. A crença
figurativa advém deste engano: de fato, se o pintor estivesse diante de uma
superfície branca ela poderia reproduzir um objeto exterior que funcionasse
como modelo. Mas não é assim. O pintor tem muita coisa na cabeça, ou a
sua volta, ou no atelier. Portanto tudo o que há na sua cabeça ou à sua
volta já está na tela, mais ou menos virtualmente, mais ou menos
atualmente, antes que ele comece a trabalhar. [...] Em suma, é preciso
definir todos esses “dados” que estão sobre a tela antes que o pintor
comece seu trabalho. E entre tais dados, uns são obstáculos, uns uma
ajuda, ou mesmo os efeitos de um trabalho preparatório.
(DELEUZE,1981,p.45)

Portanto, na obra de arte estão implícitos esses “dados sobre a tela” e devemos
lembrar que, segundo Carl Gustav Jung4, a construção de nossas impressões sobre o
mundo vai muito além do que conseguimos alcançar com nossa consciência superficial.
Muitas das nossas memórias, lembranças e sensações estão transitando em nosso
inconsciente, seja no individual ou no coletivo, e a mitologia também transita neste lugar.
O pensamento mitológico que é não linear, atemporal e, muitas vezes, subjetivo,
pode ser relacionado com a criação artística, a qual também apresenta essas
características, pois ambos, de uma maneira geral, tratam de temas arquetípicos e

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Carl Gustav Jung (1875-1961) foi um psiquiatra suíço, fundador da psicologia analítica (ou Junguiana). Jung
abordou significativamente a mitologia em seus estudos, fornecendo muitos dos conceitos presentes neste
artigo.

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humanos. Assim, os mitos caminham juntos com o trabalho artístico à medida que falam do
humano e que atravessam a criação, deixando suas marcas e seus símbolos. Como afirma
Moura (1998), “tanto a arte quanto a mitologia não separam nada do homem nem o homem
de nada.”
Assim, se, para Jung, o mito é a conscientização de arquétipos do inconsciente
coletivo - ou seja, é um elo entre o consciente e o inconsciente coletivo bem como as formas
simbólicas através das quais o inconsciente se manifesta - corporificar um mito é dar forma
ao inconsciente e, assim, trazer para o corpo físico o que atravessa a mente e a história da
humanidade há séculos, desde que o homem se viu, pela primeira vez tentando explicar o
mundo5.
A tela vazia, citada por Deleuze, não é vazia e, como tela cheia que é, carrega
também as histórias da humanidade. As histórias que ouvimos, lemos e até mesmo aquelas
que conscientemente não sabemos que existe. Tudo está ali, no corpo.
O corpo cria símbolos com sua memória, sua história, e com sua mitologia. Em
um livro que é a reunião de vários colóquios ministrados sobre mito e corpo, Keleman e
Joseph Campbell nos mostram possíveis caminhos para a compreenssão desta relação
entre corpo e mito. Campbell nos esclarece:

Para mim, a mitologia é uma função da biologia[...] um produto da


imaginação da soma. O que os nossos corpos dizem? E o que eles estão
contando? A imaginação humana está enraizada nas energias do corpo. E
os orgãos do corpo são determinantes dessa energias e dos conflitos entre
os sistemas de impulso dos orgãos e a harmonização desses conflitos.
Esses são os assustos de que tratam os mitos. (CAMPBELL, 1999,p.25).

Podemos estender essa compreenssão de mito para as artes cênicas, afinal, os


conflitos entre os sistemas de impulsos dos orgãos e a harmonização desses conflitos
devem estar presentes ativamente tanto no ato de criar quanto no ato de encenar; tanto no
corpo do atista quando ele está em cena, quanto no corpo do espectador que o assiste.
Essa premissa não é nova e está sendo aplicada há muito tempo, em muitas
práticas de preparação e treinamento de atores e dançarinos. As chamadas práticas (ou
técnicas) psicofísicas de trabalho corporal – já estudadas e aplicadas por diretores,
dramaturgos e coreógrafos ao longo da história do teatro e da dança, como
Stanislaviski(1863-1938), Grotovoski (1933-1999) e, citando um exemplo da dança
brasileira, Klauss Vianna (1928-1992) - ajudam o ator-dançarino a entender, fisicamente, o

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Ver em Eliade (1972) Acredita-se que as primeiras narrações míticas aconteceram ainda na pré-história, quando
o homem buscava explicações “lógicas” para sua existência no planeta.

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seu corpo em processo e a dar vasão para as imagens que atravessam seu corpo, sejam
elas consideradas ‘guardadas’, ‘armazenadas’ ou mesmo ‘ativas’ no corpo do artista. Aqui,
vale lembrar que o conceito de ‘guardar’ ou ‘armazenar’ imagens é um conceito bastante
Junguiano, e que quando falamos em soma, não consideramos que esse guardado seja
‘morto’, ‘inativo’, ‘inerte’ e sim, algo que está vivo e em plena atividade, em constante troca
com o passado e o com o presente e que prepara o futuro.
A partir dessas técnicas somáticas o artista percebe que seu corpo não usa
apenas seus limites físicos e mecânicos para a criação, deixando que as imagens que
trânsitam em seu corpo brotem, emanem, fluam em forma de símbolos mitológicos corporais
(sejam esses símbolos literais, arquetípicos ou sensoriais) e, esses símbolos ganham forma
no corpo a partir de gestos e de movimentos.
Podemos arriscar dizer que esses símbolos mitológicos que emanam do corpo
do artista cênico podem também ser os responsáveis por algumas associações, sensações
e experiências mitológicas que o espectador tem em relação à cena. Tal fato pode ocorrer
porque a relação do espectador com o espetáculo também pode ocorrer de maneira
somática e, conseqüentemente, mitológica à medida que os arquétipos são mais, ou menos
trabalhados pelo dançarino e à proporção que o tempo, o espaço, e os temas míticos –
entre outros muitos fatores presentes na relação entre espectador e artista - penetram na
compreensão corporal do espectador.
O espectador recebe com seu corpo o que lhe é dado pela cena. As imagens e
os símbolos atravessam seu corpo, transformando seus sentidos, seus pensamentos, suas
sensações e emoções e, assim, a mitologia acontece, também de maneira somática, no
corpo do espectador.
Quando introduzimos a mitologia, os símbolos e as percepções mitológicas de
forma dinâmica e resignificativa na construção dos espaços de experiências do artista
cênico e do espectador, damos inicio a uma reflexão sobro o corpo mitológico. Os mitos são
o contato com o sagrado, são parte do que constrói o pensamento da humanidade e dos
arquétipos, e integram-se e confundem-se com o próprio conceito de arte, abrindo os
múltiplos universos corporais e canais de sensação e percepção do artista, promovendo,
assim, um trabalho com um corpo que é soma e que dinamiza as forças que o atravessam.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AZEVEDO, Sonia Machado de. O papel do corpo no corpo do ator. São Paulo: Ed
Perspectiva, 2009

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CAMPBELL, Joseph. Mitos, sonhos e religião, nas artes, na filosofia e na vida


contemporânea. Trad. Ângela Lobo de Andrade e Bali Lobo de Andrade. Rio de Janeiro: Ed.
Ediouro, 2001.

DELEUZE, Gilles.Francis Bacon: lógica da sensação.Trad. Roberto Machado. Rio de


Janeiro: Ed Zahar, 2007.

ELIADE, Mircea. Mito e realidade. Trad. Paola Civelli. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1972.

GREINER, Christine. O Corpo: pistas para estudos interdisciplinares. São Paulo: Ed.
Annablume.2005

JUNG, Carl Gustav. O espírito na arte e na ciência. Trad. Maria de Moraes Barros.
Petropolis. Ed. Vozes, 1985

KELEMAN, Stsnley. Mito e corpo, uma conversa com Joseph Campbell.Trad. Denise Maria
Bolanho. São Paulo:Ed Summus, 2001.

MOURA, Tarcísio. O mito, matriz da arte e da religião. In As razões do mito. Regis Moraes
(Org). Campinas. Ed. Papirus, 1988.