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Caminhos de definição

JOSÉ FERNANDO GUIMARÃES


1
Matéria do olhar

2
1.

No inverno, a luz é ocre no calor

de um sol tão raso quanto as folhas

abandonadas quando se acende

a lareira e as mulheres,

as mais velhas,

ainda repousam encostadas

ao vidro, levemente adormecidas no agasalho

do coração.

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2.

Como as casas, a luz tece a pele

do pó, essa finíssima língua

de veludo perdendo-se

por dentro da penumbra,

conquistando-a.

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3.

Essa que, suspensa, gira

na gravidade de um centro

desenhado na transparência

do seu peso:

a luz. Que dói. E julga

o olhar.

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4.

Ei-la, a que olha

em suspenso. Podia ser

um ramo quase florido

de tão agreste. Mas não. É

a luz, a que enlouquece

as pétalas ao rasgar desprevenida

raiz que, dilacerada, tarda

e envelhece.

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5.

Há algo de noturno na palavra poética, algo que pertence intimamente à própria

sombra da noite. Trata-se, por assim dizer, de um trabalho de levedar, como se

faz com o pão – ou no fabrico do vidro. Mas sempre de forma quase apagada,

onde a luz raro entra. Porque, quando entra, é para mostrar a fulguração do que

era indizível, tão escondido andava de nós ou de si próprio. Assim, as coisas mais

ínfimas vão crescendo dentro do corpo – do olhar. Desmesuradas, um dia têm de

abrir-se sobre si mesmas, fabricar-se enquanto o seu próprio real – mostrar-se.

Por isso, quando se impõem diante de nós, são como um estranho. Irredutíveis,

são um olhar de outro modo – aquela mínima dobra de sombra que nos habita.

7
6.

Vidro e fotografia

assemelham-se. A textura

é porosa, algures mais embaciada,

como a nervura

de uma folha. E, além da ínfima

película que os protege,

rostos e paisagens são o suporte

na gravidade que os habita.

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7.

Quando virado para o vidro, o nascer

do sol é do lado do coração. Não é que seja

importante. Trata-se, apenas, de uma constatação,

como dizer que a luz rompe as mais finas veias

das mãos, que desbota os móveis,

a caligrafia. Tudo por causa da poeira

tecida pelas coisas, tão leve

quanto o vidro ou o sol,

ou mesmo o coração.

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8.

No inverno, o silêncio é tão opaco

como o vidro. Embaciado, é pulsar

de coisas, daquelas que jamais abandonarão

o seu lugar, a sua íntima

ordem, para que sejam habitadas

pelo olhar da sombra.

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9.

O lugar está deserto. Um que outro animal

é-lhe rasto nos trilhos rasgados

pela água corredia de uma mina

distante. Trata-se de um lugar

de inverno, daqueles talvez a norte,

ou do vidro quando a mão o percorre

do outro lado, do lado do poente.

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10.

Também as coisas se olham

em segredo. Cria-se, assim,

um intervalo. O lugar, esse, permanece

resguardado na respiração

das coisas abandonadas

ao próprio peso. E fechadas.

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11.

Noite adiante, a casa está

silenciosa na penumbra

das coisas, surpreendendo

o seu peso um tudo nada

adormecido, não ferindo sequer

a sua postura, o seu lugar

de vida ou essa respiração

tranquila, um bafo

tão suave que se abre sobre o vidro

para que a manhã venha inaugurar

o silêncio.

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12.

Acende-se a luz e as coisas saem

da penumbra onde o seu peso

figura memória. Alguém podia

dizer: – «Anoitece por dentro

da tarde e é inverno». Os pastores regressam

com o rebanho ao redil. Lá fora

o vento é agreste, atanaza ainda a carne

do gado já recolhido. Nas casas de granito,

mesmo as mais distantes,

as lareiras invadem de sombras

as paredes, os utensílios

de cozinha, as mãos. Na mesa,

o comer de ocasião: pão ainda morno,

algumas nozes, aguardente

bravia. Podia-se falar também das toalhas

de linho tosco ou da fala das famílias

sobre as geadas, da escassez

do vinho nos lagares ou de outras urgências

incontidas. E a história tece-se aqui, no peso

das imagens, no seu íntimo fogo

junto ao vidro que as há-de fixar.

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13.

Há algo que contorna as coisas. É certo

que elas estão aí,

irredutíveis. Falamos delas

e dizemos: casa, livros,

mão. É certo que fazem sombra,

deixando a penumbra como lugar

de recolhimento. Mas qual o seu peso,

afinal? Na lisura da madeira,

as veias anunciam a tempestade

enquanto a penumbra se enreda

sobre si mesma. Esta é a casa,

um lugar de morte.

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14.

A minúcia posta nos objetos era em demasia: febril, dilacerante. Abordava-os nas

margens, a ponto deles só reter os contornos. Não lhe interessava conhecê-los.

Tão-só fixar o seu perfil, a sua vaga anatomia. É claro que havia algo de

demencial nesta usura. Seria que o simples facto de os tocar lhe restituía o fulgor

de uma posse prestes a perder-se? Se assim fosse, era da ordem do desejo que

se tratava. Mas se, pelo contrário, fosse a busca do lugar certo, daquele em cujo

perímetro os objetos se podem abandonar ao seu próprio peso? No limite, era do

conhecimento que se tratava. Aí onde luz, mão, sombra são o outro nome do

olhar.

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15.

Correm rios pelo olhar. As suas águas são mansas – ainda que, por vezes, se

tornem tumultuosas. Trata-se de águas antiquíssimas, as primeiras. Por isso, é o

olhar tão límpido. E mesmo quando se embacia, não deixa que outros o

reconheçam. Ao contrário das paisagens, o olhar tolda-se por dentro, lá bem no

fundo, onde olhar e dizer são uma e a mesma coisa.

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16.

Os barcos estão parados

pelo rio. Aguardam

um vento que os conduza

a qualquer porto

onde a sombra das águas

ou das amarras

esconda o seu peso

de madeira envernizada

e doce. Por isso, o rio é apenas

ardor, cintilação de imagens

onde o peso é, súbito, silhueta,

indício de águas

gentias. Como as aves,

as migratórias.

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17.

Param os barcos numa rota

que os atravessa todos os dias

da madeira ao leme,

enquanto as gaivotas indicam

a direção dos cardumes. Peixes

e barcos são, agora, sombra,

apenas sombra e areia.

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18.

É difícil o ofício da definição. A memória,

por exemplo: esta é a imagem

que devia figurar no espelho. Contudo,

ténue, a humidade embacia

o vidro. Trata-se de um fenómeno

da ciência: uma película de vapor de água

que cresce dentro do olhar,

escurecendo-o, breve. Resta, como nitidez

do vidro, a memória.

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19.

A definição levanta problemas

insanáveis: as mãos das mulheres

de uma certa idade e ofício

são estranhamente finas,

daquela matéria íntima das nervuras

de algumas folhas,

e a sua maneira de agarrar

os objetos é quase meiga,

insegura. Trata-se de uma simples

constatação. Mas, mesmo assim,

atingirá o centro da definição

ou apenas a sombra

dos cabelos destas mulheres,

essa ligeira trama que desce sobre o olhar

e o incendiou outrora?

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20.

Diziam os antigos: – «Às vezes, a chuva inunda as pastagens,

carrega de frio os corpos, mesmo o dos bichos». Por isso, os homens

usavam camisolas de lã puída e um suspiro fundo

com que aqueciam as mãos, desabafando. O tempo era, então,

de lareira, de gestos adormecidos. À noite

iluminavam-se. Jogavam cartas e bebiam vinho. Mas, isso era dantes. Agora,

só de passagem a chuva inunda o coração.

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21.

Enuncie-se o espaço da distância,

a descrição. Havia uma casa

grande, como nos contos de infância

onde as rosas declinam os jardins

e o chá se derrama nas toalhas

de linho, a horas certas. Havia paredes

cobertas por um papel desbotado,

descolado, e um teto com relevos

de gesso, estalados pelo tempo. Aí

foi desvendada a limpidez do olhar

e as suas sombras súbitas,

como só quase os frutos são capazes

de o fazer. Hoje, o peso

do lugar é outro: apenas matéria

do olhar.

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22.

À medida que o dia cresce, o mar centra-se

sobre si, apesar do curso irregular das ondas

destinadas ao peso da areia

e das mulheres. Límpidas,

rasgam as corolas imprevistas da água,

o seu íntimo cristal facetado

nas arestas do horizonte,

os cabelos enlouquecidos pelas algas,

pelo vento. Quando, distantes

na auréola da maresia, regressam,

a sua alma é uma imensa escarpa

banhada por um sol negro. Por isso, as mulheres,

como o mar, são sílabas

entreabertas à tempestade; e o seu rumor,

de tardio, é prenúncio da tarde

que, declinada, se insinua.

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23.

É um olhar atento a um segredo,

perto. As suas mãos aplicam-se. Discretos,

os olhares acabam por se cruzar

sem que nada mais daí resulte,

a não ser a própria constatação. As ondas

crescem, avassalam os corpos e,

no regresso desprendido dos olhares,

um sorriso alaga a tarde

que, obstinada, é maré cheia. Os olhos são verdes,

claríssimos. E o dia fende-se.

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24.

– «Ela ainda não chegou». E o uso do pronome

pessoal, distancia o corpo, obscurece o apelo

do nome, arrefece a voz. Junto à areia,

ela caminha pelo vento agreste

como quem se apercebe, de repente, que vai morrer. O odor

da maresia, suspeita-se, inebria-a,

é-lhe desejo, indiferença à passagem tardia das aves,

das crianças. Quando se volta para o mar,

surpresa, deixa-se cegar por aquela luminosidade

tão próxima do sangue daquele corpo

em sobressalto. Abandonada, recupera-se no fulgor súbito

da cegueira, dessa névoa suspensa

que só a sombra há-de contemplar. Lentamente,

inicia o regresso ao nome,

à voz. E a areia é apenas um sulco

percorrido.

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25.

E a mulher irrompeu no sonho, entranhando-se

no delírio. Não era bem uma máscara,

antes alguém jovem, visto de perfil, os lábios perdidos

nas sílabas que fundam a noite, invocando

tardiamente um prenúncio de manhãs indecisas

no prumo de um sol arredado pelo inverno. Com a violência

das marés, a mulher mordeu o sangue, arrepanhou o linho

adormecido, entrando pelo sono dentro, inquietando a alma

do repouso, para que a noite mais não fosse do que um relâmpago

atravessado no interior da pupila, no seu sulco

de águas desmedidas,

desamparadas. Não fosse o sobressalto do corpo, e mulher

e sonho seriam sinónimos incendiados.

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26.

Insidiosa, inscreve-se na pele, no sangue

até ser opacidade capaz de cegar

o corpo. Resta, ainda, o olhar

sobre outros corpos, as suas margens

de feltro. Aí fixa-se um percurso

naquilo que deixam adivinhar. É, então, que a mulher surge

no perímetro dessa melancolia,

desnudando-se. Algures as gaivotas rasam

a nudez num cheiro intenso

a maresia. Podia ser inverno, haver tempestades

no mar e os barcos estarem parados

no estuário. Não é assim,

todavia. Os corpos das mulheres dizem-no,

nos sobressaltos do sangue. Caminham

lentas, as roupas justas, os olhos

incendiados. Além disso, o vento percorre

as palavras que as bocas calam, cala a febre

das mãos que ardem, cheias. E o seu peso,

do tamanho do mundo, resgata a voz

empalidecida, fulmina o corpo,

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invocando-o. É tempo de semear, de sulcar

a terra, de escolher os frutos. As mães preparam-se

para o rebentamento das águas, a pele resgatada

pelas veias, pelo ardor do parto

breve. Como é difícil lavrar

um corpo que se oferece iluminado

no abandono de panos leves, tão leves

quanto a nudez. As aves passam mais uma vez

num céu de sombras. E a cegueira é assombramento

que sulca a pele, que incendeia

o sangue, que, prenhe, inunda

a memória. É primavera. Nem sequer

faz calor. Os corpos, exaustos, adormecem. Na dobra do lençol,

outros corpos passam, outras estações,

outras memórias. Será assim que se caminha para a morte?

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27.

À beira de si próprio, no perímetro

do que usualmente se chama estado

de alma, desce pelas margens

do espírito. É esconso,

o caminho. Um tudo nada agreste,

desolado. Talvez por causa da chuva,

da tristeza que se aproxima

das janelas. Apesar da primavera,

o vento passa rápido pelas árvores

e desconhece se as aves

já regressaram. O sol ainda não chega

para aquecer as mãos. E o que acontece lá fora,

para além do vidro,

vai minando o torpor, tornando-o quase

insuportável. Por isso, o espírito,

tal como as nervuras das folhas,

se concentra sobre si, alheio

a qualquer voz que o possa surpreender,

trespassado por uma indiferença

próxima dos frutos desamparados

30
que vão sulcando a terra. Eis uma razão de peso

para a dor. E para as colheitas.

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28.

[a propósito das instalações de James Lee Byars]

Partia como quem chega. Perseguia-se. Era volúpia,

ouro, memórias. Sabia, contudo,

que a morte também está nos pigmentos,

mesmo os das pedras preciosas. E experimentava-se

como incêndio e sombra, a dos espelhos

que preservam as tendas. Era um xamã. Conhecia

a cor da sua morte.

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O desenho da voz

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1.

Acaso a poesia é matéria, matéria

do olhar que resta dos dias,

infiltrando-se pela noite

dentro? Lugar de sombras, enuncia

o que hesita entre penumbra e luz

que, crua, desvenda o pó, as manchas

das palavras sobre o vidro. E é percorrendo-o

que descobriremos, um dia, o peso

da transparência, aí

onde as palavras hão-de passar

para o outro lado dos espelhos

e, tranquilas, refletir-se na sua ausência.

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2.

Quando enunciada, a palavra

é corpo – e convoca o tempo

que uma ferida demora a cicatrizar,

outras palavras, a pele

que as defende na margem de sombra

da sua demarcação: apenas um esboço

prestes a perder-se, um soluço,

uma lágrima, um desenho,

o longínquo desenho da voz.

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3.

A palavra já existe no poema

antes dele ser poema

e dela ser palavra. É uma névoa

difusa, um acumular de sílabas e sílabas

rasgadas. Olha-se para um corpo

feminino. – «O desejo é esse corpo

ou o olhar que o percorre»? Com as palavras

sucede o mesmo: fundo é o poema,

não as palavras

que o compõem. Todavia, as palavras,

as que toldam o olhar na escrita do poema,

são vertigem, uma síncope

de palavras. E no nada que antecede o poema,

nesse instante onde cada sílaba descobre

o seu peso, em que cada palavra se mede

com outra, nesse momento de loucura

súbita, o desejo é o corpo feminino,

aquele que cega. E é da cegueira,

da sua dádiva quase impossível,

que irrompe o ser que a palavra anuncia.

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4.

Com o seu manto, a palavra resgata

o vazio. Não um qualquer vazio,

mas o que nos antecede, o que nos encaminha

para a morte. Nesse entrelaçar,

a palavra é vermelha, um alvoroço

de sangue, um estremecimento

de pão que, mesmo sobre a mesa, é sol, semente

na vertigem das colheitas. Também o ciclo

das videiras, de tão verde, é feroz

no desenlace que suporta. Como feroz é a palavra,

aquela que liga, ligando-se.

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5.

– «Era a palavra ou a sua sombra»? Há sempre,

sob a palavra, a pergunta. Como sob a pergunta,

a sombra. Entre uma e outra, o poema

vacila. Olhemos para aquela rapariga que o verão

desnuda. Está cheia de si, das cores ternas

da tarde, do rumor das águas. Mínimo dizer,

entranha-se na procura. Também a palavra

se persegue. E, perseguindo-se,

é conceito. A sombra habita-a. A pergunta inaugura-a.

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6.

O corpo centra-se sobre si e, na humildade

desse centrar-se, encontra olhares

que, idos, são o peso da memória

que o infiltra. Todavia, o corpo é dócil,

procura os sons de outrora, os seus legítimos

contornos. Com eles edifica-se

e, edificando-se, conquista o interior

do tempo, encontra-se

em si. E dá-se aos outros

e aos que, sendo mortos, lhe inauguram a morte.

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7.

O rosto olha-se no rosto que o envolve. E nesse olhar-se

olhando, o rosto é confronto. Dobra-se sobre si, questiona

o sentido do outro rosto, esse segredo. Diante de si,

o rosto é apenas um indizível

abandono. Até que um outro rosto o inaugura,

o resgata da morte. Aí, nesse momento em que a palavra

nasce, o olhar incendeia-se, sobe desamparado à boca,

rasga-se. E, rasgando-se, dá-se.

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8.

Encoste-se o ombro ao dia até que este seja só

assombração e o ombro, devido ao ritmo

que o satura, seja um conceito

desamparado. Apesar de ombro e dia viverem

uma tensão íntima, há uma altura

em que se distanciam, para se recuperarem no caminho

que transportam. Aí, nesse ponto, começa a luz.

42
9.

Desconheço o alfabeto das lágrimas, o seu talhe

de veludo. Como desconheço qual a sua cintilação, o íntimo

rubor. Das lágrimas apenas sei que caem,

quase sempre desamparadas. E que rasgam sulcos no rosto,

nas mãos que as acolhem. Que, acolhendo-as, buscam

o seu sentido para sempre perdido.

43
10.

Busca-se na infância a infância, a que permitiu

o grito. E a busca perturba a claridade

da noite. Brusca, a infância é uma ferida,

um rasto desamparado. Nesse modo de vir, a infância

dá-se. E, dando-se, caminha pela imagem

dentro. Que não é bem uma imagem,

antes um suspiro, como quando se encontra algo

familiar, ainda que alheio e tardio.

44
11.

No exterior a água, a que alaga

cavando sulcos fundos. Sendo

a água em demasia,

esses sulcos são ruturas, lentos

movimentos de agonia,

de afogamento. Apesar do seu interior

aveludado, como só a água o consegue

ser, mesmo no inverno, onde árvore alguma poderá

recolher-se no seu desenho.

45
12.

O poema caminha pelas palavras

dentro, as palavras

inaugurais. – «Libera me», disse alguém

que se aproximou do poema,

das palavras por dentro das quais o poema

caminha. – «Libera me». E a súplica,

como qualquer súplica, não pode ser enunciada

sequer. Assim, Libera me é apenas

isso: Libera me. E a poesia,

como a súplica, é o indizível.

46
13.

Nada dói mais do que o olhar. Dobrado sobre si,

persegue a vertigem do assombro, centra-se na sua secreta

miopia. Quando, terrível, a fala lhe surge,

é apenas sinal de desamparo, embaciamento

da retina. Sobre a alma fala o olhar. E a penumbra? Ou o seu limite,

a sombra da cegueira?

47
14.

O que é a cegueira senão o interior

da alma, o seu espelho

arruinado? O poema caminha

ao encontro do leitor, é certo. O leitor

abre o livro a medo e, com a mão

subitamente quente, segue o fio

das palavras. É um rio,

esse fio de palavras,

prestes a transbordar do seu leito

para o leito do leitor, que, mais uma vez

a medo, fecha o livro, essa comporta

da desmesura. Apenas nesse instante, o leitor

nota a cegueira que o invadiu, a partir de dentro

das palavras que estão agora ocultas

e, ocultas, configuram a alma do leitor.

48
15.

Vira-se a alma do avesso

e o que se encontra? Há muito

que a sua pele não é suave

como veludo, quente até,

apenas opacidade,

silêncio. Não aquele silêncio

das manhãs de verão,

carregadas de pólen, vento,

um vento macio,

envergonhado. Antes um silêncio anterior

a qualquer silêncio, ao mais ínfimo

rumor, um silêncio

petrificado. Assim a alma, o seu destino.

49
16.

A poesia assemelha-se à cristalografia. Escolhe-se a palavra

certa, num primeiro gesto desordenado, obrigando-a

a girar sobre si, enquanto a caligrafia vai desenhando,

nos contornos da página, uma voz

ainda pouco audível. Cristal ínfimo de sons,

as suas faces, limadas a partir de dentro, são o percurso

de um corpo suspenso na margem

da página, procurando o eixo que sintetiza

um percurso. Diz-se, por exemplo, flor. E

se as pétalas surgem pacificadas,

se o pólen aveluda a pele,

as raízes são subtraídas à terra

e transportadas para o poema. Ressentindo-se,

a flor é assombramento e, não fosse ser conceito, caminharia

para a morte. Assim, o corpo

que a desenha na margem do poema

e que, inseguro, procura o conceito que o há-de resgatar.

50
17.

É maio. Chove. Como um resto, o dia erra

entre a luminosidade agreste e a condensação

da luz. A pupila cerra-se na solidão das coisas, delimita-as,

até as desfigurar. Nem sempre maio é assim,

o leitor sabe-o. Desconheço aquilo que o destino há-de tecer,

como desconheço o leitor que, de súbito, se abriga nas margens

da página, indicando o caminho a seguir. Um e outro estão atentos

à coloração das sombras que invadem o coração. E

a dificuldade no uso preciso do adjectivo mostra como a palavra

erra, como procura o sol, o mar, uma mulher. Também

a palavra está isolada no poema, suspensa

da sua própria sombra, que olhar algum

resgatará. À sua volta outras palavras confluem,

tentando abri-la ao mundo. Uma mulher pega na palavra

e reconforta-a, como se de um filho se tratasse. Diz-lhe

como o tempo passa, e com ele o ciclo das marés,

o declinar do sol. Diz que jamais seremos resgatados

no limite que a própria palavra não acolhe. Então, insuspeita,

a palavra reconquista o seu peso. Rasura a fala

que a sustenta e, com ela, o leitor.

51
18.

– «Agora e na hora da nossa morte». E, na intimidade

da prece, o dia torna-se mais claro. Não é que a oração

tenha sido decisiva, restituindo a tranquilidade

ao olhar, às mãos. Não. Este agora, presente na morte,

confronta-nos com o limite. Por isso, se uma mulher irrompesse

aqui e agora, dizendo: – «O mar é a superfície mais dilacerada,

mais dilacerada que o vento», enunciava uma prece. E

se a mesma mulher, desvairada pela paixão, se deitasse na areia

molhada, afagando os cabelos, como quem figura

um círculo, não seria, afinal, o agora e na hora da nossa morte? Entre

a orla da praia e o horizonte, o mar continua-se. Na areia, a mulher

é um destino alucinado. Talvez seja noite e os medos atravessem a brisa

ainda quente. Talvez a mulher tenha adormecido. E, com ela, o poema.

52
19.

Será a cor, a mancha? Ou

esse secreto elevar do gesto

a uma configuração para sempre

destronada? Lugar de verdade,

a pintura resvala do avesso da realidade

para a tela, numa procura

obstinada. É certo que a cor indicia

a cegueira que o gesto

continua. Também a tela

prolonga o olhar secreto. Todavia, na intimidade

do olhar, o gesto é pura suspensão,

como a cor pura erosão

que mão alguma poderá conter. Assim, nada mais resta

na pintura, senão a ausência

que se há-de revelar.

53
20.

O arquiteto pensa o espaço

através da arquitetura. E, na amplitude

do rasgão, tenta desvendar

a memória, os recantos

mais secretos do projeto. – «É a lógica

do predador», dizem. Que página e casa

não suportam. Daí a tristeza

que vai minando os arquitetos. Página

e casa permanecem, assim, incólumes,

apenas esboço. O secreto peso do lápis.

54
21.

Uma mulher caminha pela areia. É verão. Uma ruga

no vestido ameaça-a levemente de nudez,

a ponto de o fragor das ondas, o íntimo labor

da noite ser um eco, por enquanto invisível,

do desassossego da mulher. Leva as sandálias

na mão e os pés sulcam a areia

a medo, como quem se aproxima do voo das aves,

do limite do mar. É, então, que uma voz,

desconhecemos se da mulher

se doutrem, diz muito baixo: – «Amo-te». E

tudo se transforma. O vestido da mulher é, em si mesmo,

a nudez, como os seus pés, a comissura dos lábios,

cansados da areia, da noite. Por instantes, a mulher olha

para trás, para o limite das ondas, e interroga

a sua nudez. No limite mais fundo de si, a mulher

reconhece que a este paredão outros acabarão por se impor,

sempre mais além, na trajetória que os seus pés

nus convocam – o nosso olhar que, desprevenido, cai

até às mãos, à ruga do vestido, apercebendo-se de como a nudez

é o limite da morte.

55
22.

Olho a mão, a sua ambígua sombra. Sei

que mão, sangue, sombra são um todo,

percorrendo, inquietos, os veios da madeira

até repousarem junto à página. Só então a luz vibra,

a prumo, e o desejo corre ao sabor da pele,

dos lábios. Sussurrantes, inauguram os dias,

as palavras que hão-de fulminar os corpos, o verão

das sílabas, do musgo. É nessa teia

que as mulheres amanhecem, limpando o olhar

do olhar dos outros. O seu corpo ergue-se,

luminoso – o sangue encandeia as pálpebras,

a sua ligeira penumbra; a voz é nítida,

dolorosa. Como o vento, nos bosques, em torno das árvores,

da areia – limite insuspeito das marés,

do corpo das mulheres. Porque as mulheres são o outro nome

para musgo, sílabas, corpo abandonado

no estio. É certo que o desejo as invade,

nada mais restando do que a súbita metáfora,

a areia, a árvore. Cumpre à mão colhê-la.

56
23.

O que é a mão quando pousada

sobre o livro, sobre o curso

do tempo? Sombra derramada

pela página, é um súbito fulgor

de veias, sinais, um voo de aves

aturdidas pelo peso da madeira. Mas,

na evidência da resposta, pergunte-se

outra vez e talvez a pergunta

se cinda. É, então, que a mão fica visível

enquanto o olhar se mantém distante,

quase adormecido. O calor, entretanto,

marcou a página.

57
24.

A mão encaminha-se para a mão

que sustem o rosto e nesse gesto

o rosto fecha-se apaziguado

pelo calor da mão que o sossega

quando mão e mão se encontram

e a ternura cresce iluminando o esboço

onde rosto e mão são testemunho

estremunhado.

58
25.

A pele perturba a tranquilidade

dos sentidos, a abertura

da íris. Daí parto. Desconheço

a urgência mas procuro

outra pele, as marcas

deixadas, os sinais de algo

que regressa sempre

à pele. E quando, tardios, chegarem,

apenas dirão: – «Caminha-se

como quem pensa que se conhece

pelo caminho. Mero engano, porém».

59
26.

A que, rasa à terra, rasura,

aguçando a memória. Dos mortos

diz-se que são idos, num perpétuo

ir que magoa as mãos,

a água. Deles conhecemos a morada

e a ausência da palavra. Por isso, o seu silêncio

perturba-nos no limite

da fala. Prepara-nos.

60
27.

Cavos, cavam a simetria

da terra, o seu rigor

orvalhado. São doutros tempos,

os mortos. A sua presença

é simples, quase

um sussurro. Os olhos

foram outrora claros,

como claras foram as veias

que lhes riscaram as mãos,

um dia. Da água,

tudo sabem. E do vento,

das urzes. E mais secretamente

de nós, sua sombra fugaz.

61
28.

Nos seus cabelos de pó, os mortos aguardam

a palavra crua, a que desperta, e seguem

o prumo da terra, esse calor

tranquilo que lhes é alheio. É um momento

breve que nada pode reter, um respirar

das pálpebras, porque o coração tarda

e as mãos não encontram

outras mãos. Algumas pétalas,

um fio de água, uma sombra,

um fruto de uma estação qualquer, isso sim. E,

súbito, atinge-me o assombro

dos mortos. Que pedem silêncio,

apenas.

62
29.

São estranhos, os mortos. Recordo-os, por vezes,

justificando assim a morte, o rasto de cinzas

que deixaram aberto. Recordar

é partilhar o pão, o vinho, a solidão. Sei

que não podem levar sequer o alimento à boca,

mas a sua presença esconde o peso

da terra, contorna o jardim

da melancolia. Pegamos numa flor

e dizemos: – «Eis o peso das mãos,

das pálpebras, as que adormecem

quando o inverno se instala em nós». E no interior

do gesto, a voz ganha uma outra transparência,

uma outra sabedoria que só os mortos compreendem,

resgatando-nos. Daí a sua fala avulsa,

hesitante nas sílabas. Quando dizem,

por exemplo: – «A noite é o nosso maior desassossego. Sombria,

ladeia-nos, precipita-se na boca, não nos deixa a incandescência

de gestos bruscos, apaixonados», o silêncio cresce,

cambaleia nas mãos e nas pálpebras,

tecendo-as para a morte. Os bichos conhecem esta penumbra

63
e, silenciosos, indicam o limite dos seus contornos,

que são os nossos também.

64
30.

Como o vento, a neve cai

em si. E cai num poema

onde as aves caíam,

naquela estação em que eram queda. Mas,

ao contrário das aves,

a neve cai e apaga o rasto,

a sombra mais íntima

do andar. Como o vento,

capaz de turvar o olhar,

de sufocar a respiração

que atravessa as coisas. E,

caindo, a neve sulca o vento,

fere as aves, as que não migraram

para o poema.

65
31.

Quando, no seu ténue início, a tarde teima em ser manhã

ainda, a névoa que a povoa, povoa também o interior

da alma, enquanto as mulheres caminham pela orla

do verão, desprevenidas como sempre. Aro da roda

das estações, julho, como as mulheres, é um perfil

apenas, uma imagem que alaga

o olhar. As mãos podem, então, abeirar-se

do mar, dessa mínima música, levá-la

aos lábios e inaugurar a tarde no esplendor

de um sol capaz de ferir. Como as mulheres em julho.

66
32.

Por vezes, julho é assim: lugar da névoa

que corrói as coisas tão desamparadas

quanto a palavra. Silencioso, ei-lo que se fecha

em espera. Até que uma onda qualquer lhe seja luz plena.

67
33.

Têm os seios pequenos resguardados

pelos cabelos, pelas mãos

num acaso de ternura. São duas adolescentes

deitadas, as pernas tocando-se

no calor da tarde que estremece os corpos

no encontro, delineando o caminho

que mãos e cabelos vão compondo. Por momentos,

são o ardor da areia que as aconchega,

um veio arável. E, timidamente, sorriem.

68
34.

Os dias seguem-se e, no seguir-se,

induzem o tempo na ilusão

da ida que o habita. Mas,

o tempo não vai, não. Só os dias

e, com eles, a nossa imagem

desprotegida. Tão desprotegida

quanto os dias que a constroem

para, num gesto brusco e diligente,

a dilacerarem num risco atento

ou numa confirmação tardia. Resta

comprar mais agendas ainda

para que os dias sigam o seu percurso

inexorável junto ao papel, ao lápis

que os há-de rasurar.

69
35.

Recebi um email sobre uma obra de Richard Hamilton, Just

what is it that makes today's homes so different,

so appealing? e a pop britânica. É certo que as casas são hoje diferentes,

moderadamente apelativas. Ou não são? Num compasso de espera,

que é também de esquecimento,

não se encontram por enquanto as veias de melancolia que rasgam o email

e toldam o olhar. Porque a melancolia centra-nos,

separa-nos do outro que acabou agora mesmo de anunciar o dia,

o calor do mar. Sulca-se o mar para sempre,

mesmo quando não estamos junto ao mar,

e a sua orla é apenas um pretexto para a dádiva. Como o horizonte,

por onde erra o olhar. Olhar é construir um sentido, é percorrer a pele

de um corpo e um corpo não se deixa aprisionar

facilmente. Também o email, melancólico, foge

por entre os dedos, atravessa a inquietude

das mãos, o silêncio que dilacera a casa. Uma casa é lugar

de morte e a sua penumbra estonteia os dias,

obscurece o sol. Quando o sol declina, a amplidão

do silêncio é maior como se, de súbito, alguém tivesse saído,

encostando a porta muito devagar. Há dias assim,

mera penumbra de folhas; outros são mais terríveis,

70
como quando chega um email e não se consegue decifrar

um rosto. Resta caminhar ao encontro do mar

para que, fulgurante, a vertigem seja o encontro. Aí, o olhar desembacia-se

e a luz é demais, capaz de cegar,

de enlouquecer o perímetro das pupilas. É altura de regressar

a casa. As cortinas ainda preservam a luminosidade. E

as mulheres? Terão finalmente alcançado

a paz? Na porta, a chave sublinha a melancolia

que povoa a casa. No seu limite, as árvores desenham o silêncio,

forram o seu interior, o interior do mar, das mulheres

que, entretanto, se abeiraram da praia. O sol está vermelho

para o lado do mar e a areia não sustenta os passos

que a sulcam. Sente-se o cheiro ardente da maresia,

a dilatação das narinas. E o desejo é tão agreste

que desenha um corpo, acentuando a melancolia,

o silêncio. Abra-se, então, outra vez o correio

e deixemos o olhar perder-se. No ecrã, como no mar, as vagas repetem-se

e um rosto é uma imagem desfocada. Afinal,

as mulheres não voltaram da praia

pacificadas. Apenas um vestido fino desenha a sua presença,

a sua nudez. E os seus gestos contagiam.

71
36.

Abandonados no seu silêncio,

nem sequer podendo partilhar

a solidão daquela prateleira,

entretecem-se de pó. Recolhidos,

acolhem a sombra que os enlaça

e deixam estrias que mão

desprevenida há-de resgatar. E,

resgatando, trazer à luz. Puída,

a madeira é testemunho. O livro

também.

72
37.

Percorrendo-o, inquieta mão abre o livro à luz

que o definirá no ângulo certo

de cada página. Tarefa das mãos, que perseguem

uma navalha. E a labuta impõe-se. Mesmo que a mesa

permaneça oculta, o sangue corre rápido, apenas

olhar. Nas suas margens entreabertas, o livro é uma silhueta

alheia ao tremeluzir das mãos, do vento

que o vai levar um dia para outro livro, cativo

do que o silêncio encerra. E a escuridão também.

73
38.

Alguém disse: – «A página, essa que amedronta,

apesar de limpar o olhar». E, dizendo-o,

recolheu-se em silêncio,

em medo. No seu limite, a página continuou

a ser página, um deslumbramento

de sombras. Porque a página, essa que acolhe,

justifica tudo, já não havendo sequer lugar

para o medo. Aí, página e morte equivalem-se.

74
75
Rumor de sulcos

76
1.

Não há paisagem, apenas rumor.

77
2.

Uma voz chama – e desconheço o apelo. Sei, apenas, que a voz chama. Como

quem diz: – «Era uma vez». Mas, ninguém pode narrar uma história para sempre

perdida. Ninguém pode dizer agora: – «Era uma vez». São palavras incapazes de

sulcar o poema – iniciá-lo sequer. Porque o poema é vidro, poalha de vidro.

Perdição. Um gesto, quem sabe. Talvez um segredo.

78
3.

Como definir a tristeza de Deus? Uma leve

cintilação do manto junto à alma? Das mãos

sei o percurso, mesmo quando chegam ao rosto, estremecendo

o sono. Da alma nada sei. Nem mesmo o brilho

que a possa anunciar – a coroação.

79
4

Mesmo assim, a morte foi-lhe dolorosa

presa. Indecifrável

caminho. Que, fechados em si,

os altares pontuam. Em luto,

que é modo de memória. Mais tarde,

muito mais tarde, querer-se-á fulgor

do crer. Se possível.

80
5.

Estão tristes, as aves. Nem sequer do voo

a curva podem esboçar. Paradas, são sombra, peso,

o da tristeza que as corrói.

81
6.

Alinhados estão. E nessas linhas

a que se obrigam,

a madeira é tão-só abrigo,

sulco aberto pelo conceito

implicado. Lá fora,

a batalha aguarda,

guardando-se junto à terra. E,

ao guardar-se, é apenas contenção,

estudo, olhar

olhando-se. Perdição?

82
7.

Da terra estabelece apenas a geometria

que a pedra desenha, cumprindo-se

no ciclo da erosão. «É, dizem, um geómetra

intranquilo, ele». Inclinado sobre si,

é a partir de propriedades minerais

da aridez que constata: – «A poeira, deslumbrando, cega».

83
8.

Concentra os músculos, o ar

que o movimento concita. Ave

ou barco, podia ser. Não assim,

ele. Abstrata, a sua secura

é apenas suspensão

que o exercício há-de rasgar. A vertigem

ilumina-o, então,

encandeando-o. Recolhe-se. Na arena,

restam os sulcos, o ardor

impossível de configurar.

84
9.

Como desviar a atenção da luz

a ponto de ser apenas interior

como um espelho que acaba

de se desembaciar? De Deus,

o rosto é só penumbra. Sombra

na sombra que o habita. Como

iluminá-lo? Como trazê-lo

à luz que nos cerca,

escurecendo-a? Rasgando o dia

até que a ferida seja a essência

de Deus? E a luz,

o caminho da sua ausência?

85
10.

A ardósia, o giz. Esse apego sem nome

que a caligrafia obscurece. Na noite,

uma voz chama. O apelo é tardio,

inconsequente. Como fechar

um livro, desenhar na humidade

do vidro. É tarde. E tarda. Um nome

acorda, entretanto. Ardósia? Giz? Um outro nome

sem nome?

86
11.

Quando a mão pousa na mão

aturdida revela-se

incapaz de suster a caligrafia

que começa a escurecer, caindo

para fora da página, na mesa,

na casa. É a hora de fechar

as portadas. Hesitantes,

os bichos são quase atenção,

a penumbra de que as mãos

ainda são capazes.

87
12.

A casa é assombrosa desolação. Os tetos

vão caindo. As escadas não conduzem a lado

algum. Nem sequer a clarabóia ilumina. Apenas

as pombas persistem no seu desígnio: o desenho

da casa. Onde nada há para desenhar. Nem no desenho

ferido do estuque. Ou nas fendas das tábuas,

onde o caminho se nega. Este é o círculo da desolação, aí

onde os olhos se deixam cegar pela poeira

e as mãos ficam aturdidas. Será possível

o regresso? Da infância, sabe-se que não. E da vida?

88
13.

No inverno, a água corta os pulsos, inquieta

o coração. É certo que o sangue ferve

atribulado. E a alma é apenas sombra, exíguo lugar

de luz. Que o inverno declina sobre a pedra,

água sendo.

89
14.

Junto à campa, a campa – eis o desígnio. Pode-se discutir o perfil desse desígnio.

Mas, isso não interessa agora. Junto à campa, a campa. Rasa. Porque a rasura

da campa é, apenas, um estar rés à terra. Como quem diz: – «A terra é lugar».

Nada mais. Sol, vento, chuva são o que nos habita. Também o mar, os campos.

Mas, destes, os mortos já não se lembram. Lembram-se, sim, do sol, do vento, da

chuva. E da erosão dos sentidos. Do fulgor dos dedos, agora adormecidos. Tão

adormecidos quanto eles. Por isso, ave alguma diz o seu olhar. E, as que o dizem,

ficam paradas, suspensas no movimento das asas. Ei-la – a morte que chega

onde sempre foi.

90
15.

– «E acabaram por morrer». É assim que o nó se desata num gesto

nem sempre tranquilo. Ou que as mãos se desunem humildes

no seu calor brando. Que, uma vez o nó desatado, não é bem calor,

antes renúncia.

91
16.

É um veio de sangue que cicatriz alguma pode estancar. Nesse tumulto,

a respiração é transparência do corpo que se entrega. Murmúrio

de águas, as mais profundas. Vida, a que se há-de cumprir

e, cumprindo-se, ser ferida até que, nas suas sombras,

o ardor seja uma outra sombra, a derradeira.

92
17.

Frio e geada pegam-se às mãos, ao olhar

enevoado como os montes, apesar do fulgor

das árvores, dos regatos

que, desabridos, procuram o nó

que as silvas não conseguem desenhar. O caminho

da floresta é ambíguo. E dele, em rigor,

não somos capazes de regresso. Daí o peso

que turva. Chegar, então, neve ao rosto não ilumina,

rasga.

93
18.

Imaculada, a noite silencia a noite,

rumor de terra, arfar de bichos. E, em tal silêncio,

os contornos das coisas atingem a intimidade

que lhes é penumbra, rasto

impreciso, a própria definição de noite.

94
19.

– «E se acaso morresse

em novembro»? Íntimo,

suspende-se no ar o cheiro

das colheitas, do que resta

de arar a terra. O frio

não trespassa as mãos

ainda, nem embacia

o olhar. Por isso,

quando os camponeses

se abeiram da lareira,

enunciam este desígnio: – «Ali,

sobre a madeira, o linho,

o alimento. Mais perto de nós,

a morte». E descobrem-se.

95
20.

Este é o leitor, aquele que lê o poema,

tingindo os dedos. Negra é a tinta e o poema

que se insinua queimando as veias,

o coração, destrançando o sangue,

o vermelho do sangue, subitamente

negro, tão negro que a atenção

é sombra e o poema apenas mancha

que a folha absorve,

circunscrevendo-a. No seu perímetro,

outro poema se insinua,

outro destroço a ler.

96
21.

Interpela os veios de água, o silêncio

onde aquele gesto, pura cintilação da vara, é um sulco

estremunhado que a terra há-de suster.

97
22.

Apenas um rumor, no início – pássaros ou árvores, alguma abelha tardia. Que

fixam a paisagem. Depois, um crescendo – canto, chama. E cinzas, como se

fossem ninhos abandonados para sempre. É, esta, a altura das colheitas. De

escrever o poema, como quem se despede. – «Até amanhã», diz alguém na

vindima, na debulha do milho. – «Boa noite», responde alguém dentro do poema.

Na terra seca, a poeira sobe, abstrata. Tão abstrata como o gesto de fechar uma

janela, de dizer adeus.

98
23.

A sombra é o único modo de dizer até amanhã.

99
24.

Tristes são os biógrafos e guardam-se

num estranho recato, que não é paz sequer,

antes convulsão. Que ouvido os levará

a um coração de sombras, um ido pulsar

de vida, um jardim tardio

onde flor alguma se há-de erguer

para o sol? Nem mesmo as rosas. Meticulosos,

desfolham-nas, quando ainda é verão

e a terra um sulco arável e guardam-nas secas,

nos livros dos mortos, que das rosas aguardavam

uma gota de orvalho, a incandescência

das pétalas, o cheiro a terra

lavada pelo vento que a noite solta. Da terra,

pelo fim da tarde, agora que é inverno,

sobem os castanhos adormecidos

das videiras, das árvores, e tudo se recolhe

100
na paisagem, mesmo os animais,

mesmo os mortos

a biografar, ocultos nos seus segredos,

que mão alguma desvendará

um dia. E aguardam

a primavera, o rasgar

da terra, uma fenda. Aí são felizes. Nas raízes

circulam até ao mais alto do alto. E, se acaso Deus

lhes é aparição, cerram as pálpebras, que ardem

de desespero. As mãos, também. Por isso,

livro algum podem soletrar ou percorrer, pesados

de terra e cinzas. E esperam. Esperam água

e sol, dia e noite, orvalho

e vento que os há-de incendiar

ou pacificar. Sabem que nada lhes resta

ou lhes resta tudo, nessa ausência corroída pelo sangue

do tempo. E, apesar disso,

esperam. Nem que seja uma rosa,

101
uma uva, o seu fulgor. Que é deles,

também. E, por momentos, adormecem,

incapazes de sonhar, que as nuvens são velozes

e a trovoada tarda. E Deus é uma sombra

que não os atormenta

sequer. Muito menos os biógrafos.

102
25.

Os adolescentes morrem agora, agora

mesmo, por dentro do olhar

alucinado. É uma morte trágica,

heróica. Especialmente agora. Estudam

as falácias e morrem no inverno, quando o sexo

se esconde um pouco mais. Talvez mães

e avós não compreendam

a herança, o peso

da alucinação. Nem eles, ocultos

pela noite. A noite protege-os

na ronda do escuro,

do breu. Não assim mães

e avós: incendeiam-lhes as mãos

com as suas mãos, até que o quarto seja um rasto

de esplendor. E guardam-lhes os olhos

103
e o coração. E eles não vêem nem sentem. Possuídos,

são tentados. E ignoram que a tentação é um degrau para o mais alto

do alto, onde encontram a amada,

que se lhes nega, por enquanto. Por enquanto

arfam como os animais, presas inconsequentes

do destino. E estão sós. Tão sós

como a paisagem. Tão sós como a melancolia

que os alucina. Mão alguma lhes pode valer,

então. Procuram um lábio, a palavra

radical e indizível, a que transporta

o tempo, esse coágulo

da perdição. E sofrem. Até que o olhar

do outro os resgata. E, súbito, compreendem

o peso das colheitas, a essência

do olhar. Estão, agora, desprevenidos. Mãos

tocam mãos, diferentes das de mães e avós. E

os lábios procuram vezes sem conta

a palavra perdida para sempre. É, então, a hora

104
da revelação. E da morte que os aconchega, como outrora

as mães, as avós.

105
26.

[a propósito de Jovem mulher nua diante de um espelho, de Giovanni Bellini, 1515]

Está nua, ou quase, de costas viradas para a paisagem. Não é, pois, o exterior

que a concentra. Antes qualquer coisa ao nível do olhar – um olhar perdidamente

triste, desprevenido. Está nua entre dois espelhos. No leito, uma mensagem

aberta, abandonada. Diante de si, no mais fundo de si, que a pintura não

consegue revelar, um espelho remete para outro espelho, um braço remete para

outro braço. E o rosto declina-se numa espera, que o diadema no cabelo acentua.

Há algo que dialoga, contudo. O lenço no cabelo e as nuvens. O tecido que lhe

esconde o sexo e o leito. Como quem diz: – «É algo de fora que condiciona algo

de dentro». E, entre esse fora e esse dentro, o perfume marca a suspensão do

gesto. Como se fosse o olhar do amado que a há-de surpreender.

106
27.

Em ti, dentro de ti, no mais fundo de ti, és nascimento e morte. Eis o peso que te é

hóspede. Que te é testemunho.

107
108
Regresso a casa

109
I

110
1.

O alquimista transmuta o ouro em osso

e atira-o ao cão que o percorre com os dentes

afiados de melancolia. Como naquela gravura

onde o anjo é pura suspensão, pulsar

aterrado de sangue. Não aqui, neste lugar,

onde o cão é clarão na noite, súbito incêndio

da pedra.

111
2.

Não. Não era caçador, sequer

de pássaros. Antes, o intérprete

do voo, do calibre do bico, do desígnio

das asas quando o dia amanhecia. Dos pássaros

sabia tudo. A medida justa do húmus e da água. A dimensão

da vertigem. Recolhia-se, então,

e tudo anotava numa página avulsa. A sua caligrafia

era minúscula. Minuciosa a interpretação. Que os pássaros

ignoravam. E os outros animais.

112
3.

Ensinei ao cão o que é um livro,

essa película que cobre os ossos

da tarde, quando escurece

e o silêncio desce sobre o canil

como quem sublinha uma palavra

dentro da leitura. Ensinei-lhe

tudo. Os sulcos do lápis

e da borracha. O rumor

das páginas, em repouso

sobre o lado esquerdo. O mais negro,

como o cão sabe, sempre que se deita

cansado de ossos, apaziguado

por uma qualquer busca

que justifica apenas a vida. Assim a leitura.

113
4.

Como rasgar uma janela sobre o mar? Não aqui,

nas vinhas, nos montes onde o cão se demora

nos regos de água e quer abocanhar

borboletas brancas, pássaros, o fulgor

do tojo. Aqui, rasgar uma janela sobre o mar é a definição

da distância. Junto ao mar, todavia,

onde a areia é um arrepio de areia,

rasgar uma janela não é uma tarefa

árdua. Basta aguardar a maré cheia

ou aquilo que as mãos acolhem

e devolvem. De facto, também as mãos

são abrigo, casa.

114
5.

Estou sentado e olho a casa,

o seu esboço, que as aves cumprem

ou as mãos que colhem o milho

numa sofreguidão de espigas. Setembro

é um mês triste. As abelhas passam

num voo aturdido. A aragem surpreende

a tarde. A água cai minuciosa. E o pulsar

da terra entranha-se, entranhando-nos. Resta

um pequeno gesto. Estar sentado, por exemplo.

115
II

116
1.

Não sei onde está o cão, se por ali,

no canil, se mais além, no portão. Mas, estou triste

por não o ter aqui. Não é bem triste,

antes vazio, vendo-me a afagá-lo na ternura que o ergue

num gesto quase matricial, quase

enevoado de água e luz, a que perdura

no meu ver-me a mim e ao cão que, entretanto, foi desenterrar

um osso enquanto a noite cai

ocultando o gesto, até ser só além, frio

coalhado que o negrume acentua e o cão me dá

quando deitado no chão é apenas arfar, solidão

de bicho da terra rilhando um osso.

117
2.

O nevoeiro alagou o monte, mordendo

a cor. E o ribeiro é espelho

desfocado. Nada é como nas manhãs frias

de sol em que as teias de aranha desenham

uma filigrana de névoa, translúcida

ao olhar atento. Tudo a chuva descentrou. Mesmo

a vida que persiste. A minha e a do cão.

118
3.

Dos pombos apenas sei que não atravessaram

o campo no momento em que me debrucei

sobre mim, neles pensando, diante da verdura

abandonada do que resta do outono. Também o cão se debruça

no portão, encolhendo as patas, ladrando

a ternura que o enche no gesto que o pelo

recolhe. Atento, o corpo é a dimensão

da morte. Nas suas margens, pombos e cão são o fulgor

da terra. Haverá outro caminho de regresso

a casa? Ou a casa, como as árvores, é apenas cintilação

tardia de cores, mapa da penumbra

onde cão e pombos resistem?

119
4.

Afinal, os pombos voltaram. E o cão

também. Uma asa ou latido perturba

as folhas, abre um caminho. Um caminho simples,

nítido. Será o nosso?

120
5.

Do voo dos pombos, o sol negou-me

a observação. Apenas um bater de asas

assombrado por qualquer

predador. Um gavião? Eu? Desconhecia

o sentido da fuga. Voltei para casa. Afaguei

o cão. Todavia, as mãos eram suspeita

de tempestade. Quando viria? Estava preparado?

121
6.

Com o cão compreendi. Vive-se morrendo, as mãos fechadas

num medo que medo nem é, antes cansaço, um cansaço

tardio. Como quem se deita desprevenido na terra e colhe

uma flor, segue o rasto de um animal, o caminho

da casa. A casa é frágil. Nas suas margens, a palavra arrefece. Também a geada

arrefece os campos, inundando-os de ouro, minúsculas gotas

que a manhã atordoa e os passos calcam. Por isso, o cão tenta inaugurar

o caminho, a vertigem do deslumbramento. E nós refreámo-lo. É tarde. Qual

o caminho da casa? Desconhecemos. O cão não.

122
7.

Nada percebo de minas, capelas,

poços, coisas da água, enfim. Apenas sei

que a água escorre debaixo da terra, rasgando-lhe sulcos

nessa consciência líquida, aturdida. Como uma flor

tardia. Ou uma memória que se enrodilha no corpo,

ferindo o sangue.

123
8.

Quando o deixo, o cão sabe-se triste,

triste me sabendo. Apesar da tristeza

de um, mais funda, não ser a do outro. – «Regresso

breve», digo. O cão, todavia, nada sabe disso. E esconde-se num canto

do portão, ocultando-se

à presença de si e ao correr do tempo.

124
9.

Da ronca, o silvo não o deixou atracar. A geada

cobria o porão e os mastros eram sombras

desfocadas. Mesmo as mãos desconheciam o caminho

do cordame, de tão enregeladas. Era inverno. E navegar era encontro

com a névoa. Lançou a âncora

e ave alguma voou. Impossível aportar. Suspenso

de âncora e paredão diluídos na distância,

ficou. Talvez amanhã. O cão tinha o pelo húmido,

frio. Carícia alguma o conseguia acalmar. E ele e o cão

mudos. Apenas o silvo da ronca avisando. O inverno

é deserto de inícios. Nem um grito muito suave

que se pudesse alcançar. Tudo era estranho. Tudo

tardava. Naquele mar por ele desenhado. Como sulcá-lo?

125
10.

Deitado sobre si, as patas recolhidas, não é modo de dormir

mas de salto, o focinho rondando o imprevisto. É o instinto,

a defesa da casa que o inverno arrefece

quando o fogo esmorece, semeando o negrume. Há que o atiçar

e aquecer a alma. A nossa e a do bicho, os olhos semicerrados na vertigem

quente que a terra sempre soube manter em nós

que da alma apenas sabemos o sinónimo.

126
11.

E aqui estou, debruçado no murete enquanto as pombas debicam a terra

e o mais ligeiro rumor lhes é inquietação, bater de asas

aturdido. Mais um ano. E o cão tarda. Como tardam

as vinhas, os campos, os montes. Dezembro é um mês

ingrato, carregado de castanhos e caçadores

furtivos. Aguardam a presa como se a si próprios

se aguardassem, num qualquer modo de aguardar próximo

da morte. Ensimesmados, campos, vinhas, montes são atenção,

o íntimo despertar que outros meses hão-de trazer. Os pássaros

voam. E as folhas. Os cartuchos da perdição. Dezembro é assim,

uma lura, um grito, um estampido. Um regresso

a casa, sem caça na cintura. Um desperdício

consentido. Resta olear a arma. Encostá-la aos dias e adormecer.

127
12.

Um dia hei-de morrer, e a casa e o cão comigo. Não este,

que há-de morrer sem eu morrer com ele. Um que há-de vir no ardor

que os bichos transportam. Dir-lhe-ei, então: – «Lembras-te»? E

ele não se lembra, porque lembrar-se não é modo de ser cão. Daí o abandono

da pergunta, tão abandonada como hei-de ficar quando este cão morrer,

o de agora. Assim o diz o livro, aquele comprado em segunda mão.

128
13.

Confrontei o cão. No seu modo de compreender, compreendeu. Mais tarde,

foi perseguir um pássaro negro, as asas da noite

sem asas. Chovia. E era inverno. Nos montes,

o silêncio era um rumor acastanhado. Que o cão temia sem o saber.

129
14.

Prepare-se a viagem, o deslizar das sombras quando o dia

amanhece. Prepare-se a viagem ao fim do dia. E,

quando se regressar, se acaso se regressar,

os olhos incendiados e a boca transida, erga-se mais uma vez a vela

da partida, mesmo que não se abandone o cais, e parta-se

para o alheamento ou para a revolta, aí onde tudo se justifica numa justificação

de sangue. Porque o sangue fala mais alto, tão alto quanto a vertigem

ou o delírio em que nos encontramos, encostados

a qualquer escotilha respirando a humidade do corpo

que nos parece alheio. Mas, nada nos é alheio. Nem mesmo a morte. Ou o cão,

o meu.

130
15.

Quando me debruço no murete sobre o campo, sinto saudades de mim

e de mim com o cão, aturdido que fico sempre por esta névoa

de geada, ligeiros cristais na erva que o cão rilha, enquanto a bruma

sobe ao céu, um céu apenas céu, telha de casa

com musgo, pássaros. No alpendre, o inverno concentra-se, impedindo

o descanso. E a escuridão da noite torna-se o último fôlego

da lavoura. É, então, que o cão entra em casa, acolhendo-se

na pedra da lareira. E assim ficámos. O cão

e eu. Pensámos o que terra e mão fabricam quando o sono começa

a descer. Nada nos perturba. Nem mesmo o outro. A lua. O ladrar dos cães.

131
16.

O último dia do ano é um dia triste. Não é bem triste. Cinzento,

cheio daquele nevoeiro que nos entra até ao fundo da alma,

inquietando-a. Apesar da alma nem sequer existir. E o último dia

do ano não ser o último dia do ano, que é coisa que não existe

também. São passagens para a velhice, para o sono. É a altura

de chamar o cão e andar pelos montes. Aí não há o último dia

do ano. Há nascer e morrer. É tudo.

132
17.

Sentado no alpendre por entre este sol de inverno, limpa-se a arma, o cão

ao lado. Tudo é uma questão de perseverança. Montar o ardil, visar a presa,

interpelar o cão, que se abeira do mistério sem mistério da caça

para abocanhar as presas de um destino que lhes é fatal, tão fatal

quanto dos gaviões o voo ou a mão que acaricia

a coronha. Resta dependurar a caça na cintura e regressar

a casa. No alpendre, o cão espera-nos já. Também

ele vai ter a sua recompensa. E, depois da ronda, dormir tranquilo.

133
18.

No mistério insondável do mistério,

nem mistério há, apenas delírio

das coisas, como no trilho atravessado

por algumas mulheres, gasto o coração

dentro da velhice negra que há-de abdicar

do trilho por onde também eu e o cão somos

regresso aturdido do que nos resta.

134
19.

Enevoou-se o céu de noite e nuvens,

nuvens de chuva. Enevoou-se. E,

no enevoar-se, trouxe fantasmas de noite

e nuvens. Que não são fantasmas sequer,

mas sombras, as sombras das coisas

por onde passamos quando há noite e nuvens

e um ligeiro ardor de chuva e vento.

135
20.

Vivemos feridos por um nome, um vento ligeiro

de outono quando as folhas caem

e nós com elas. Vivemos desamparados na inscrição

do nome, apesar do nome ser outros nomes. Porque um nome

é um modo de olhar e dizer. Uma ligeira inquietação,

um arrepio.

136
21.

Chove. Chove em mim e no cão, atento

à lavoura, ao modo como as árvores vergam

e as folhas caem. Nas mãos, um fio de água

desenha um inverno de névoa, a que apela ao ardor

da lã, ao fogo na lareira. Recolho-me. Na penumbra,

a mesa aguarda. Abro um livro,

ao acaso. Na sua sombra, o mesmo fio de água

que sulca o inverno de névoa. O mesmo frémito. As folhas

estão castanhas, um castanho escuro. No chão,

o cão dorme.

137
22.

Olho os montes, essa rudeza também de pedra. E tudo

tem sentido. Mesmo a morte. Os bichos morrem. E as mãos

ficam puídas. Ou o olhar. Dizer é, então, a palavra

interior, a que revela um ligeiro estremecer

da lã, o silêncio enternecido do tear. Aconchego

a samarra, também ela puída. E continuo pelos montes,

o cão ao lado.

138
23.

Este é o cão, o que dorme enquanto se faz noite

na leitura. Dormindo, ainda acorda bichos,

vida. Enquanto as páginas se sucedem como os dias,

a negro. É altura de mudar a página. Também o cão

muda de sítio.

139
24.

Talvez a morte seja silêncio apenas, ausência

do mais ligeiro rumor. Por isso, caminho

pelos montes e colho flores

para os meus mortos, dando-lhes o peso

de serem vivos, ainda. Ao meu lado,

o cão olha-me.

140
25.

Como construir o poema, assim? Apenas

silêncio no mais absoluto silêncio,

um gesto desprendido como quando se fecham

as portadas e o cão entra. E o poema seria

mais um silêncio na casa, como o estalar

da madeira ou a cal que vai ruindo

nas juntas. Uma melodia íntima

que só o cão podia ouvir. Ou eu,

depois de morto. O poema, então,

já não era poema, apenas respiração

das coisas, hálito da memória

prestes a perder-se.

141
26.

Fecho o livro sobre a mesa. Ler

é como guardar nas cortes alimento

para o gado. Cheira a terra,

aos caminhos dos montes

no fulgor do dia. De noite

tudo se mistura e os caminhos

deixam de o ser. Todavia, a leitura indica-os

ou o poema. Acaso o sabe o livro?

142
27.

Dos pássaros pouco sei. Apenas sei

que voam, rasgando a superfície da água

num voo que é um bordado

tardio, atordoando o cão, que conhece as migrações

dos equinócios, o seu poder. E a natureza,

como a palavra, é agora um imenso silêncio,

uma promessa.

143
28.

De tanta chuva, a terra sufoca quase

e nós com ela, numa miséria que não é da terra

sequer e que os astros ignoram. Ou o cão,

habituado ao motim das estações,

da vida. Que nos sonegam. Para quê, então, palavras

que abafam? Antes o trilho

dos montes ou palavras tão límpidas como água

e que gesto algum há-de roubar à página,

à boca.

144
29.

Olho-me no poema que não é poema

ainda, antes um rasto que ilude a timidez

das mãos. E, olhando-me, sei que em rigor a palavra

destrança os nós, ilumina a sombra. Digo: – «Na sombra

da sombra, a luz». Será este o caminho do poema?

145
30.

Num rasto de lama, a chuva entristece

as mãos. Maio tem sido assim: urzes

e mais urzes, ervas

daninhas, as que estrangulam

o hálito da terra. No lume, a mão é apenas

vestígio da lenha e as cerejeiras recusam

a púrpura. Como abrir a cama?

146
31.

Naquele campo, além, o milho foi crescendo

por dentro do verão. Ou o contrário. Está alto,

desprevenido na névoa matinal e maduro,

tão maduro como a morte,

um dia. O gado suspeita-o.

147
32.

Passo a passo, a vida passa num passar

que não o é, antes como as veias

quando se incendeiam por dentro e transformam

o poema num pulsar prestes a silenciar-se, a recolher-se

na página. Também o cão o sente,

assim. É um pico de luz, um ardor. E o silêncio regressa,

absoluto.

148
33.

Da morte pouco sei. Sei que morremos

e deixamos gestos em suspenso

muito para além do limite. Que não é herança,

não. Antes marulhar de água, donde o cão se abeira

na evidência.

149
34.

Falemos de cães. Dos que nos cercam

o coração, até ser uma folha seca,

como esta, caída no trilho,

onde se podia escrever

a negro: – «Falemos de cães,

da sua melancolia». Porque tristes

são os cães, e adormecem

iluminando-nos. É o secreto apelo

do trilho. Todavia, ao aqui,

vêm hesitantes entre mão

e campos, onde houve colheitas

que, no inverno, são peso oculto

doutras mãos. Por isso, os cães correm

pelos campos. E buscam algo

que não podem sequer nomear: um animal,

um rego de água e, no rego de água,

150
a erva húmida cheirando a outro animal

no trilho. Que não é do cão. Nem do outro

animal. Nem nosso. Porque o trilho,

como a melancolia,

é um rumor na paisagem. Resta o poema,

se é que o há.

151
35.

Antes de se deitar, o cão roda sobre si uma vez

e outra e outra, uma ronda da noite onde a terra é grave

gesto. Colhê-lo, assim, é dádiva. Que ele me dá

adivinhando a senda do poema.

152
36.

Regresso a casa. O caminho é estreito, sinuoso,

um trilho apenas, rasgando-se pelos montes. Os cães ao lado

e sol e frio que este é um mês de geadas

que tudo queimam. Tudo menos o trilho. Até o olhar

queimam, não a partir de fora, mas por dentro, o pulsar

que procura pouca coisa, enquanto se faz noite e o frio rasga,

desabrido. Também ler é assim: desamparo.

153
37.

Em modo de chuva, a melancolia caiu. Obscureceu

tudo. Mesmo o círculo que o cão desenha

por dentro do calor e que vai ser chama

outra vez. Porque os cães sentem o peso

da gravidade e, inquietos, percorrem o círculo

no movimento que o próprio círculo figura. Deitam-se. E

a melancolia dissipa-se. Quase opaca,

uma névoa molha-lhes ainda o pelo. Adormecem.

154
38.

Para quê tantas palavras, as que assombram

as margens do poema? Uma vinha

é uma vinha, ora verde, carregada de sol

e mosto, ora castanha, quase seca,

como se a geada a tivesse corroído

por dentro. E uma ramada é uma ramada,

ali, no caminho da presa, junto ao campo

onde os cães correm diante de esteios

perdidos no tempo. Não fossem os cães. Ou alguns passos

de labuta.

155
39.

De noite, o cão encosta-se ao sono,

protegendo. Como as mães. E um dia

morrem. A mãe, primeiro. Meses depois

o pai. Pouco antes, perguntei-lhe: – «Como cultivar

os campos, a sombra das árvores»? Absorto,

nem respondeu. Era noite. E já não desfiava os sonhos.

156
III

157
1.

A família – o que é uma família? Mãos dispersas que acenam da morte

quando as rosas ainda estremecem pelo outono, como os cães

espolinhando-se da chuva, salpicando mortos e vivos? Os mortos,

mortos estão, e os vivos, estão vivos. Nada mais. Porta

estreita observa-os no testemunho, mortos e vivos. No outono,

as chuvas caem e as aves, as folhas. E os mortos. Ensimesmados,

sustam o rasto aos cães e a quem os segue,

como quem segue o fulgor da vida, esse novelo

ainda por desenvencilhar. É isto uma família, o que nos enreda

até à morte, estreita porta? Ou a porta estreita é a dos trilhos que nos ensarilham

os passos, das ervas que nos assolam

as mãos? Nuns e noutros, a ausência principia. Mesmo com os cães

ao lado. Sobretudo com os cães ao lado. Que nada questionam,

vida ou morte. Quando a pressentem, vão para longe

e quedam-se na terra, ainda e sempre quente

158
e húmida. Deixam-se. E, nesse abandono, testemunham a sua morte

quando gesto algum se dá às mãos, essa palavra outra

para memória. É tudo. Uns morrem. Outros ficam. E sofrem,

não do que lhes foi dádiva em gesto por cumprir,

nem de saberem que os cães hão-de morrer

com eles. Mas, da ausência.

159
2.

Na paisagem desapareceu o mar

e fez-se treva, um túnel, talvez,

que o comboio atravessa com indiferença,

pulso desatado em olhar tardio. E a paisagem

é isto. Uma estação alheia a qualquer estação,

mesmo de passagem.

160
3.

A névoa eleva-se acima das árvores, dos montes,

além. No outono, esta é a paisagem, o olhar

mais interior. Como os trilhos onde bichos e homens

passam, certos de que qualquer centro é um equívoco.

161
4.

Ei-los que dormem, os cães, como barcos encalhados

num lençol de areia, a quilha adornada olhando o céu

na prece tardia dos mestres. Não assim, os cães, que desconhecem o olhar

de Deus. Conhecem trilhos e encostas, erva alta e ribeiros,

e são um risco na paisagem, à noite, por entre a névoa. Ei-los fendendo

o ar de encontro ao olhar dos homens. Que dormem como os cães,

procurando, às vezes, uma imagem cintilante, o silêncio

da terra. Todavia, no silêncio da terra não há culpa sequer,

apenas um pulsar. Como o pulsar dos barcos, fixos na mudança

das marés, cada vez mais no fundo, onde quilha e silêncio

são o mesmo gesto, um gesto anterior ao perdão, que os cães conhecem

no regresso a casa.

162
5.

Quando nasci era pequeno e nada sabia,

apenas de uma vaca, diziam, o leite pulsava na boca

em gomos de espuma. Era uma dádiva. Como a primeira palavra: mar,

gaivota, areia,

não sei bem. Cresci tateando as coisas,

molhando as mãos, os joelhos, o cabelo que o vento secava

pela tarde. Nevava na manhã

onde nasci. Ou era eu que nevava pela neve fora,

que é uma forma de gemer. Mais tarde,

a neve nevou no espanto, iluminou-o em silêncio,

ao contrário do noticiário que o avô ouvia

no rádio e eu marulhava e ele sem se irritar. Nunca se irritou

comigo. Comprávamos, na lota, peixe embrulhado em jornal

e descíamos do eléctrico, descíamos

para o mar. Uma vez, o avô foi atropelado por um eléctrico

163
e olhei para dentro da culpa, onde eu ia crescendo

como as rosas no desamparo do avô. E como as rosas,

reparei mais tarde no outono que as desfolha

e a mim, apesar de ali, nas vides,

haver uma rosa em botão. Mas esta rosa é tardia,

como eu que, da caminhada com os cães, regresso limpo de culpas,

apenas memória que calo no poema.

164
6.

Tudo dorme, apesar

da música, da chuva

na tarde, iluminando

a erva onde os cães

ao aqui, aqui vieram

ao encontro das mãos

que se dirigem para a terra,

para o afago ao primeiro,

a cadela, meio corpo

quanto ao cão, também

afagado. E, agora, tudo dorme

no cansaço. A música,

a chuva, a erva. Em silêncio,

se é que o há,

no ido da corrida e das mãos.

165
7.

Na terra, a água ilumina os mortos, o seu bordão

aturdido, tão aturdido como os cães perseguindo

alguns bichos, os que laceram o fulgor

da erva sulcada por regos de água,

em rega. Por aí passo, os cães comigo, enlameando-me

no poema que mão alguma possui, nem mesmo

os mortos, presos ainda ao seu bordão no momento

que lhes foi tão soberano quanto o poema.

166
8.

Olho os cães. Os cães

olham-me. E o olhar,

mais do que olhar,

ternura é. Vindo,

acaso a morte se ilumina

neste modo de olhar?

167
9.

Sangram as vides no labor do corte junto ao pé, onde

outras vinhas hão-de tomar a seiva que outrora

as aconteceu. Envelheceram. E pilhas de lenha guardam-se

para o lume, onde pão e calor hão-de subir ao linho,

pasmado o vinho, este, o que escorre um nada pelas mãos

que o acolheram. Em esplendor, os cães atentam minucioso

estudo, inebriando a terra. E as patas.

168
IV

Do leitor

169
1.

Este é o poema, uma lâmina prestes a sacrificar

o leitor. Que ignora o poema,

o sacrifício. Do leitor apenas se sabe

que neste momento fechou

os olhos, enquanto vira uma folha mais,

uma do início. Sente, agora, que algo

quente escorre pelas mãos. Olha-as,

atento. Desconhece o porquê do sangue nas mãos. Como desconhece

que a cegueira é poema súbito.

170
2.

O leitor, como os bichos, é pobre

em mundo. Acarinhou, outrora, mulher,

casa, desenho abandonado

no regaço, filho,

imagens enevoadas, enfim. Como o poema

que soletra dedo a dedo.

171
3.

O leitor adormece por dentro

do poema, enredado no que o aturdiu. Leitor

e poema são, então, a mesma coisa,

um bicho, talvez,

por entre tédio. Das origens,

o leitor nada sabe e é demasiado tarde

para o saber. Mesmo que o poema o revele. Ou

um tédio tão profundo que tudo alaga.

172
4.

O poema é um poema,

um bicho. E o leitor

envolve-o de memórias

atordoadas. Disso, nada sabe

o poema. Das origens,

sim. No refúgio da página,

o silêncio que os dedos levantam

é indicador.

173
5.

O leitor lê o poema e, fechando o livro, lê-se, ainda

que não se entenda, nem entenda o poema. Todavia,

nos restos que a leitura do poema e de si mesmo cumprem, o leitor

cede, incapaz da pergunta, a que paira nas margens da página,

dos dedos: – «Que cicatriz acolhe o poema»?

174
6.

Quando o leitor morrer um dia, o nada há-de invadir

as veias, esvaziá-las do aí. E o mundo há-de ser ausência

onde outrora houvera trilhos e bichos com o leitor. Nada

resta. O corpo di-lo. E um outro leitor que não pode estender

a mão, a que segura o livro naquele instante.

175
7.

Entre pedra e rosa, um pouco de terra

que a rosa declina no tempo certo

da declinação que nem declinação é,

antes vertigem que torna o ar

mais aveludado, trabalho da seiva,

das abelhas. E os olhos cerram-se

por instantes, adiando a resposta

que pergunta alguma formulou,

porque por entre, por qualquer entre,

dirá muito depois o leitor,

a morte aguarda.

176
8.

Cada poema vai desnascendo

na palavra que foi outrora memória

da terra. Suspensa na poeira, a palavra

erra, procura noutras palavras

a palavra decisiva. Em vão. Insegura,

a palavra recua, a medo. – «Serei, ainda, o eco

do abismo, o eco onde nada se diz,

ainda que seja rumor

de origem»? E o leitor, afastando-se,

nem sequer a abriga.

177
178
No silêncio, a poeira

179
1.

Como a água, o silêncio contorna

a palavra, fecundando-a. Entre terra

e página, a palavra vai crescendo

indecisa na sua figura, apenas som estilhaçado

no olhar aturdido dos bichos. Porque

não lhes é palavra. Antes poeira,

silêncio. E o poema é-se esboço. E assim

permanece. Nas mãos.

180
2.

Junto às mãos, a sombra que se retrai

e com ela o poema por entre os bichos

no caminho que dito algum desvendará. Ambíguas

são as mãos, aí, e pouco poderão colher. O poema

irrompe, então. Apenas tremor,

até ser tarde na noite. Caminho

e bichos desconhecem-no. Nós, também.

181
3.

Como os cães, o poema anda ao lado. Abre-se

ao mundo num tremor de bicho. Por vezes,

foge. Mas, volta. E fica, as palavras

inquietas. Um dia, porém, não regressa. A poeira atravessou-o

ali mesmo, nas suas margens

rendidas a um outro, o que procura

a palavra mais nítida em silêncio.

182
4.

Dantes o leite coalhava num rendilhado

de natas, uma aranha de leite

que nem o coador podia colher. E o leite para ali ficava

em espera, alagando-se tanto quanto a vasilha. Disso

pensa-se saber algo, se é que se sabe. E a leiteira, esse feitiço

da rodilha? Acaso sabia algo

desse entrançado de pétalas amanhecidas

no feno orvalhado? Os bichos tinham acordado,

entretanto. E o leite. Isso sabe-se.

183
5.

Uma centopeia caiu por dentro do sono

e adormeceu, confundindo noite

e dia nos seus passos repetidos,

tão repetidos como a morrinha,

a que não lava água

nem pedra. Teias de aranha, isso sim,

apesar de agarradas ao corpo

quando um ramo nos toca, ao de leve, no caminho

dos bichos. É, então, alvorada ou ocaso?

184
6.

Morto, o focinho ensanguentado. E ninguém o arreda, ainda eriçado

como as rosas sufocadas por um vento mais agreste, quando o verão

anoitece à hora da ceia. E é triste. Nos casebres celebra-se o pão e o vinho,

a almotolia ao lado, junto do braço que escurece nas sombras

da culpa, onde as mulheres se encostam, parideiras

em luto. Dantes, as mulheres eram luto, a solidão mais funda

da terra a que se abriam descalças. Como quem diz: – «Em nudez,

sou-me bicho». Mesmo quando passavam por entre a luz das rodas

de um carro de bois. Que podia ter morto o ouriço ou estremunhar

as rosas. Mas, isso era dantes. Quando a dor era súbita

dor a mais e a morte encontro com um definitivo adivinhado.

185
7.

Deu-se, o estranho, aos cães

que buscam o caminho da palavra,

a que diz. Em silêncio, escutam. E

o movimento é a palavra a desvelar-se. Além,

uma pedra, uma abelha,

um homem. Donde vem? De que fronteira? Não

se sabe. Caminha, apenas,

as mãos ao lado do corpo enlutado

pelas estações, pelo azul de um céu

de pássaros, que os cães buscam, como buscam

um ribeiro, uma pedra, uma abelha, um humano,

o estranho.

186
8.

Quando da noite vem o breu, fecha-se a casa

que se recolhe nas pedras, um arco de luar,

apenas, derramado na senda dos passos

hesitantes por entre a sombra

do que se oculta na sombra da sombra. Aí, a luz.

187
9.

No outono, das folhas a ferrugem tresmalha-se na terra

que se oculta em névoa, num castanho de névoa e respiração

de bichos que convocam meditação, febre,

e a palavra é, aí, por entre o silêncio

e arde.

188
10.

No outono ousa-se desfolhar os mortos, pétala

a pétala, folha a folha, osso a osso. E os mortos são aí no linho

da palavra, a que nos deixa as mãos vazias, enquanto

dos montes os lobos descem, os olhos

estrelados, alheios à neve que oculta

o trilho e arde no rosto. Inútil acender

uma tocha. Os cães sabem o caminho. Os mortos,

também.

189
11.

E se chovesse apenas por dentro, encharcando

os ossos, alagando o que se infiltra no calor

das veias e não tem nome? – «Eis a tempestade

que me é para sempre nos contornos

da boca», dizia-se. E adormecíamos no interior

do poema como os bichos,

aguardando, guardando apenas.

190
12.

A chuva floriu por dentro o corpo

arável, o sangue, os ossos que convocam o lugar

da pedra, a memória

da água onde rosas e bichos ousam beber

desprevenidos como o poema

que só o é nesse olhar de sombra.

191
13.

Que luz se abre por dentro

dos ossos, quase água

amanhecida, a que lavra

os campos e espanta o olhar

dos bichos? Que luz

ou vinho abrindo-se

no silêncio? No sangue,

ainda adormecido,

que palavra desperta?

192
14.

Com a tempestade, não é a paisagem

que se embacia – é o olhar,

súbita espera. De quê? De quem? Acaso

da paisagem, uma outra? Do estranho

que passou, um dia, no trilho? Da chuva

e do vento que paisagem e estranho sulcaram

até ser noite no olhar dos bichos

e a palavra névoa?

193
15.

O vinho trespassa o sangue

como a seta do anjo, o osso

que inebria os cães, súbito

fôlego apenas aberto. Depois,

muito depois, o silêncio

e, dentro do silêncio,

a palavra, a que chama.

194
16.

No verão, o calor acende a boca,

mesmo a dos montes. E,

de repente, as árvores são esboços

na paisagem. Que a água impede

a custo, enquanto os bichos fogem

em lume e o barulho cresce. O calor

também. E as mãos enchem-se

de fuligem. E não conseguem suster

o desenho que as foi.

195
17.

Debaixo da língua, o silêncio,

um silêncio de bichos, ténue névoa

que mãos e boca cala com ferido gelo,

ferido fogo. Fogo e gelo são, aliás, a mesma coisa:

frutos maduros que embebedam.

196
18.

Habita-te a palavra que se abrirá na palavra a vir

ainda ao poema, e o teu olhar hesita como o dos cães

quando a palavra lhes é língua

anterior a qualquer língua, não ao poema,

que é palavra de bichos concentrados em mundo.

197
19.

E, em pobreza, os deuses foram. Há muito,

mesmo muito. Só pele e osso, os seus cavalos foram

testemunhas. Fecharam a inominável porta

da palavra e mergulharam no rio

do esquecimento. Nem moeda lhes era boca

ardida em febre. Com que nos contagiaram. Apenas

cavalos e outros bichos ignoram tanto ouro

esbanjado. A melancolia é-lhes palavra vã.

198
20.

E se, um dia, os deuses viessem,

mera insurreição de si a si mesmos,

os frutos amadureciam outra vez e bichos

e mulheres deitavam-se na terra

para dar à luz? A palavra havia de ser regresso

como um raio sombrio. Todavia, lá na mortalha,

nada os pode anunciar. Nem frutos, nem bichos,

nem mulheres. Nem, sequer, o poema.

199
21.

De névoa profunda, enevoando-se por dentro

do borralho. E uma espécie de tristeza

ácida atravessa-o. Fecha-se, enquanto aguarda. Ao redor,

os bichos dormem. Mas, desenho algum surte.

200
22.

– «Regresso a essa água que me foi poço

primordial, sou para sempre na origem

das origens, onde é indefeso o pensar, essa aresta

afiada de pedra», diz o estranho. E aproxima-se

cada vez mais da sombra das coisas, esses contornos

sem peso. Como caminhar, assim, para o poço,

para a raiz? Como trilhar esse caminho

sem regresso? Ele olha-se. Mais além, o silêncio

das batalhas entontece-o. – «Eu sou. Os espelhos

apenas são fantasmas». É noite. Noite silenciosa,

tão antiga como poço, raiz. Que não são espelhos. O espelho

é um ido que bafo e ferrugem testemunham. – «Eu sou no aí,

no trilho, um bicho no trilho. Nada mais. Todavia, a palavra,

a palavra do aí é-me. E na palavra ergo-me como um cavalo

encantado. Nada mais me resta. Nem poço, nem raiz. Apenas

201
o regresso a casa, onde o poema é luz, seja meio-dia

ou meia-noite». Mas, poema algum se responde

na pergunta: o que é a verdade do ser? Ou talvez

responda. No que funda em surdina. Como quem fecha as portadas

e acende o fogo. Deitados, os cães aguardam. E o poema também.

202
23.

Enquanto os cães ladram, o breu ilumina-se,

iluminando teias de geada e noite suspensas no ladrar. E

o sono vem lento às mãos, emaranha-se

na penumbra. É este o lugar da casa. O ladrar dos cães funda-o

no poema.

203
24.

Morrer assim, por entre os cães, não é bem morrer,

antes acabar. Hão-de cobrir o corpo, aquecê-lo

na espera do testemunho que o acabado

não testemunha. Os cães, sim. E hão-de fundar assim

a morte, esta, a vir.

204
25.

Não é este o caminho nem aquele, caminho suspenso é,

corroído pela ferrugem, como quando se diz: - «Até

um dia», que é quando se regressa

por dentro da partida. No inverno, banhada em ouro

é a viagem. Nada a perturba. Nem sequer a geada

no caminho, o nevoeiro que o interdita. Nem a sombra dos bichos

quietos em pobreza. Pedras traçam a figura

de um poço, água dando-se

em cegueira. Como regressar assim?

205
26.

Névoa é chuva no pelo dos bichos, no olhar

que grave desce à terra, aos sulcos de água

vidrados pela geada noite dentro,

gretados. Também gretados estão os lábios,

as mãos, percorridos que foram pelo vento

do abandono. É manhã. O fumo sobe. E o poema.

206
27.

Água infiltra-se na ferrugem da pedra, a que ilumina

quando o temporal é negrume a eito sobre a casa. No cais,

as barcaças sustêm-se no peso de âncoras e cordame, faíscas de madeira

raspando o convés. De tanto ranger, resguardam-se apenas,

apesar do limo por onde escorregam redes

e outros instrumentos do ofício, um que outro caranguejo

esquecido. Retiram-se. As casas, não. Nem nós,

nelas. Nem os bichos. Nem algum poema inacabado, como todos os poemas o

são

quando se afasta a mão.

207
28.

Nada mais a dizer. Nem um ténue sussurro no caminho

das mãos quando afagam os cães, essa neblina do olhar

dentro do olhar, uma forma de cegueira

atenta, prestes a romper e descer às mãos

que para ali andam, inconsequentes como também inconsequente

na página, a palavra que arde e a página com ela. Tudo se perde

em ausência. Qualquer caminho. Qualquer sussurro. Qualquer poema.

208
29.

E se a mão ficasse para sempre entre o vidro

e a portada, acaso embaciava o vidro com a humidade

trémula que a manhã revela? Mas a mão é atenção

ao logro. E quando sobe à boca é cabedelo,

língua de areia onde se guardam gaivotas, barcos

e um que outro remo perdido.

209
30.

E se a mão, intranquila, fechasse o livro pela noite

dentro e as aves fossem a atenção das árvores? Podadas,

fruteiras e vides são marcos para os bichos e uma que outra sombra,

uma que outra gota de orvalho. E o vento passa. No beiral recolhem-se

as palavras, não o milho. Aguardam. E meditam. Um dia

a eira será incêndio. E a boca com ela.

210
31.

Esta é a sombra dos que sulcaram a terra

um dia e nunca alcançaram o mar,

o deserto. O silêncio habita-os. E nem o musgo altera a cor

das palavras. São sombras por entre sombras. Todavia,

estremunhados, regressam aqui por dentro da palavra

que lhes é caminho. E iluminam-se por instantes.

211
32.

Já o rosto não é o rosto

que o desenhou

um dia. Nem as mãos

as mãos, as veias alheias

ao calor, à atenção

que estala os ossos

da casa, cobrindo-a

de poeira. Tudo isto é antigo

e mesmo o antigo não é o antigo

que foi. Resta encostar o corpo

ao corpo e, indiferente no absoluto

da indiferença, ser espera,

acolhimento.

212
33.

Dentro da vidraça, em silêncio, a ramagem sacudida

da poeira que lhe foi um dia. A ela e à vidraça,

que é ramagem ou tão-só vidraça? E a ramagem? Varridas pelo vento,

vidraça e ramagem são apenas um tremor

que o vento sustém. Um reflexo. Um eco. Paisagem

ou iluminura num livro de horas.

213
34.

O vento levanta a poeira, derreando

o olhar. E os caminhos fecham-se

em tosca roda, figura próxima

da geometria. Em si, no mais fundo

de si, os bichos são profundo

espanto, tão profundo quanto o do vento,

que é sopro.

214
35.

Um sussurro de linho, um fio

de lâmina chamam-me e neles chamam-me

os mortos. Apontam as mãos, essas cerzideiras

de palavras abrindo-se, como quem apela

ao que há de vida e de morte

em mim. Um lençol. Uma navalha. E pouco mais.

215
36.

Empilha-se a lenha, esse bordado

de farpas, e encosta-se o machado

a um lado do arrumo. A lenha lembra livros

afastados das estantes, essa parede sombria

das casas, onde os sublinhados são pó,

teias de aranha. Que crescem pelos cantos

da casa, até mesmo no jardim, pétalas suspensas

de orvalho, minúsculas gotas de um coração tão pequeno

como o do inverno. Agora é assim. Chove, venta

e o frio traz a geada, a que queima as mãos

junto à mesa. Aí o livro concentra-se. Procura

o ângulo apropriado à luz,

ao olhar. Até que a noite caia sobre a página e a escureça,

a torne opaca. Mais opaca que os veios da madeira

afagados pela mão ao cortar

216
o pão. Os livros, esses, são avessos à lâmina,

ao linho, suspensos que são. Apenas alvorecer

e labor os resgatam. Também o lume no fogão. E uma boca

de mulher.

217
37.

Gretadas pela geada, as mãos, esses galhos de vides

onde há meses as uvas aqueceram as aves, doem. Também

os trilhos, as pastagens cevadas pelos bichos. Tudo se fecha,

não só as portas do curral,

da casa que lhe foi por cima, um dia,

mesmo por cima da palha, a que aquece.

218
38.

«Descansa, o último ter sempre te foi a morte. Porque

silêncio. Carta lacrada por anel de sinete

em fogo. Como as vestes brancas da infância

antes de infância plena ser na água

que purificou as vestes uma vez mais para a infância se abrir

como uma rosa». Fechou o livro. Era um livro antigo, espécie de missal

bordado com iluminuras, onde a palavra era definitiva. Ser palavra ronda o

abismo,

o sopro que tudo habita. Pouco depois, silêncio. Na poeira

do deserto, o lacre é ferida, um imenso uivo da terra.

219
39.

São imensos lamentos de sombras e sombras pela pedra

e os oficiantes vaga prece oficiam, ofuscados por essa luz

tão ténue, tão pouco evidente quanto Resta

in pace, que se afasta até ao adro

onde um andarilho erra por dentro do nevoeiro

acabado de descer sobre a liturgia,

apagando-a. E à capela, também. Só agora o imperativo se assume, humilde

memória de pobreza.

220
40.

As esporas da servidão ferem o dorso

do que se deu em agonia e morte. Sangra. E a saliva,

esse coágulo mais denso do que o sangue,

desvenda os dentes cerrados em dor

e espanto. Tarde compreendeu

que os deuses também se abatem. Como os cavalos. Depois,

muito depois, sela e linho esfarrapados,

há-de atravessar um campo qualquer, alheio às sílabas da cor

que o salvaram para sempre. Agora, só agora pode regressar

a casa. Ressurreição foi a palavra para casa,

escolhida por ele.

221
41.

Tão opaco este silêncio que nem sequer a poeira

o atravessa. É como paredão de rio dentro

do rio, uma barcaça despedaçada

pela corrente. Apesar dos sulcos de luz

que os morcegos cruzam diante da noite. E do canto

dos crentes: – «Dentro do silêncio, o silêncio

de Deus, o que morreu há muito, quando o nada

nada era ainda». E, em definitivo, nada nos espera. Talvez

um acaso.

222
42.

Neva. E escorre pelos montes a água que os poços abrem

na tristeza do poema. Porque qualquer poema é triste. Como os bichos, fugindo

de ruídos furtivos. Há caçadores que atiram ao estremecer

das urzes. No verão, ao do milho. Que é alimento

e, às vezes, rasto em sangue vivo. Também por entre a página.

223
43.

Na água, o limo cresce de dia para dia

até ser uma toalha puída

tecida por chuva, vento, restos

de folhas, poeiras que se infiltram no silêncio das paredes

onde a água se cala e se lhe vai agarrando o limo

como uma raiz até ao fundo do tanque,

contaminando-o. Compreende-se, assim,

que um tanque seja sinónimo

de tristeza. E não espelhe a nossa face.

224
225
Em sombra de sombra

226
1.

[a propósito de Nossa Senhora com o Menino e dois anjos, de Álvaro Pires de Évora, segunda

década do século XV]

Não sei donde vieram. Apenas sei

que, deles, as vestes confinam

nas dobras levemente ondulantes

em finos traços de pigmento

a ouro cravejado. Uma almofada mostra

que continuam para além

da tela, apesar do seu olhar

nunca se cruzar. As mãos, essas, tocam-se

em aconchego, como quem diz: – «Este é o meu filho,

o Ungido». – «Esta é a minha mãe,

a Dolorosa». E nada mais dizem. Do futuro

nada sabem – e, acaso saibam,

nada dizem. São apenas um fio oculto

que a pintura desvenda.

227
2.

[a propósito de O tango de Satanás, de Béla Tarr, 1994]

A rapariga disse-lhe: – «Sou mais forte do que tu». E rodou

pelo chão vezes sem conta, ela, o gato

e nuvens de pó tão puídas quanto a aldeia

devastada por um passado tão aturdido quanto o gato preso

num saco de rede donde nem sequer os peixes fogem, se peixes há

caindo com a chuva, e se acaso a lama os encharca

como encharca a roupa que não há-de ficar enxuta

pela noite dentro em que os sonhos nem sonhos são, apenas

insuficiência, não por dentro de nós, mas no uso das mãos

e do olhar que, como as mãos, é dor – a que fere de morte.

228
3.

[a propósito de As harmonias de Werckmeister, de Béla Tarr, 2000]

Da composição sempre estudou a harmonia

à semelhança do movimento da esfera

celeste em torno de Deus, que lhe foi mestre

na divina proporção dos cálculos

desvendados pelos sábios que, iluminados

pelo olhar, o preteriram mais tarde,

achando-se Deus tão desolado quanto a baleia

embalsamada pelo chão daquela praça incendiada

num gesto de revolta, que não é harmonia, não,

mas pura exaltação, usurpação mesmo.

229
4.

[a propósito de Criação de animais, de Vasco Fernandes, 1506-11]

A diagonal é o dito da pintura, resplandecente na brancura

que transcende um sol de meio-dia em que pássaros afogueados

cantam pelas árvores como se folhas fossem

caindo pelo castelo de um rei inseguro na nudez

das mãos que suspendem o movimento dos animais

junto aos pés descalços. A cena é esta. E podia ser pobreza,

a pobreza que habita os animais, a quem as cores infinitas do manto

nada dizem. Mas não. A coroa impõe-se. E a brancura ajoelhada

do cavalo, junto ao qual um mastim é apenas sombra

e pergunta: – «Como ser feliz assim»?

230
5.

[a propósito de uma gravura de Gustave Doré, séc. XIX]

O cavalo sabe-se em morte, apesar de não enxergar

a nudez esfarrapada do linho e da armadura

tingida pelo sangue do cavaleiro. As palas impedem-no

e, além disso, não lhe é trejeito virar a cabeça

em suspeita. Até porque também sabe

que o cavaleiro vai morrer, as mãos segurando escudo

e elmo trespassados. Talvez a batalha o avise

ou o caminho estreito daquela ponte

que leva à ponte levadiça, como era traço

de arquitetura e estratégia. Por isso, sobre o fosso

há-de despenhar-se em dor pelo cavaleiro

consigo mesmo na morte. Fora das muralhas,

o desalento cresce. E uma lágrima, essa pétala

da melancolia, cai desprevenida das ameias. É altura de mandar

abrir a porta da traição, cumprindo-se massacre e luto.

231
6.

Levava uma cadeira para ver a chuva

enlamear-se – perdendo, assim, algo que lhe fora

até há pouco. Era criança,

ainda. E a transparência fenómeno estranho,

alheio mesmo. Como o movimento aparente

do sol ou a interpretação das fases da lua

através de duas letras, o D e o C,

subitamente contradição pura, matéria

da hermenêutica, da interpretação de um todo

que se ia esbatendo noite dentro. Como quando diante de uma teia

de aranha. Era a teia ou a aranha que declinavam com o dia,

fazendo-se tão alto luto?

232
7.

[a propósito de um busto de Elisabeth Siddall, estudo preparatório para Ophelia,

de John Everett Millais, c. 1850]

Tem a cabeça encostada à ausência

evidente na folha debruada

a branco – um lençol tardio

em que o cabelo acentua a morte

em êxtase súbito, tão súbito quanto o abandono

que percorre o corpo, convidando a aí ficar

quando se entra no esboço, que é modo de iniciar

o ofício de compreender o delírio, essa ferida

que se entranha lentamente como uma sombra caída

no deserto – onde as palavras secam

não se dando os mortos as mãos.

233
8.

[a propósito de A lição de anatomia do doutor.Nicolaes Tulp, de Rembrandt, 1632]

E o bisturi vai rasgando a pele, descendo

cada vez mais no corpo da anatomia até se deter

em estudo compenetrado ao rés da tela. Podia ser uma qualquer

lição. Mas não. O chapéu de abas largas, imaculadamente

negro, contrasta com a brancura

cor de cera do cadáver aberto que todos testemunham

como se fossem morcegos estonteados

cumprindo a ronda da noite

melancolicamente. A mesma melancolia que atravessa

o doutor Nicolaes Tulp, apesar do branco que sobressai

da capa que, em rigor, é da mesma cor do chapéu,

e da mão erguida como se segurasse

um pince-nez. Todavia, a mão segura apenas

o olhar extasiado dos estudiosos que, como o morcego

diante da luz, é só atenção

para com um cadáver que podia ser o seu,

limpo de impurezas e caminhando para a perfeição

que livro e mestre sublinham na lição.

234
9.

[a propósito de Laus Veneris, de Burne-Jones, 1873-75]

Tamanho desamparo trespassa o corpo

que nem sequer a coroa

abandonada sustem, nem mesmo as servas

circunspectas no ofício

artístico, enquadradas pela janela

aberta por onde cavaleiros de passagem olham

atentos. Hão-de seguir viagem e morrer

em qualquer batalha que nos é estranha

ou, então, prisioneiros do canto

das sereias, dos encantos de Vénus,

que louvam em segredo. Retirado,

o aposento da rainha prende-lhes o olhar

obsessivamente. Talvez a lassidão

dos gestos, aquele pescoço aberto

a certos lábios, a flor abandonada

pelo chão lhes desvende o caminho

sombrio da renúncia, esse sinónimo longínquo da morte

e do amor que o desejo, sôfrego, une.

235
10.

Prepara-te, mulher. Escolhe uma fita

negra para o cabelo e veste roupas

escuras, cor da noite

mais cerrada. O amado morreu. Desvairado,

atravessou os portões

da morte. E, por onde o rodado

da quadriga ia, tudo definhava

como que queimado

naquele preciso instante. Foi o muito amor

que o perdeu nesse jardim

tardio. Agora, exalado o último

suspiro, a cabeça inclinada

na direção da pira, o testamento

cai-lhe das mãos, tão abandonado

quanto ele. Repara bem. Aí fala da memória

do teu corpo. E da tristeza destes cavalos,

aqui mesmo, rentes ao poema.

236
11.

[a propósito de A morte de Marat, de Jacques-Louis David, 1793]

Aquele verde toca o olhar atento

de tão opaco, quase intimidade

que a morte desvela no abandono

da cabeça, como se estivesse adormecido,

não fosse a ferida e a faca ensanguentada

no chão, ou salpicos de sangue pelo braço

e umas dedadas na carta de Charlotte Corday,

cuja revolta foi punida na guilhotina. De que valeu

a morte daquele corpo trespassado

pela doença? – perguntava-se Simone Evrard

diante do patíbulo. Antes de morrer naquela água

ensanguentada e fria, prendeu com firmeza a pena

com que escrevia, uma outra jazia ao seu lado,

junto do tinteiro, pensando nos escritos,

na biblioteca, nos relógios. Talvez Simone

fosse a guardiã dos seus bens,

quem sabe? – pensou por momentos

tão breves quanto a revolução que se ia apagando

237
em si. Era o ano dois. E o cinzento esverdeado

da parede, confrontando o verde opaco

da colcha, sublinha a dedicatória

que a peça de madeira, tal obelisco, ostenta: «À Marat,

David». Charlotte, essa, é um espectro

que a carta pintada torna presente. Para sempre.

238
12.

Esta ideia de poema tem-se mantido tão enevoada quanto

certas manhãs de inverno. E, como o sol, recusa-se

a abrir. Escreve-se

por exemplo: morte – mas é-se incapaz de concluir a frase até

porque morte é deslaçar, como doença,

essa surpresa que se infiltra na pele, saturando

o sangue. E depois? Haverá agulhas

para coser o tecido de que é feito o poema

e o espanto que o transporta? Haverá mãos que o acolham

na sua verdade? Lá longe, perto do horizonte, aves encaminham-se

com uma qualquer mensagem obscura

que nunca conseguiremos decifrar até

porque somos nós próprios o indecifrável

dessa mensagem. O sol, entretanto, abriu. É meio-dia.

239
13.

Percorram-se atentamente os veios

da madeira. São doces, dizem

as mãos aplainadas pela melancolia

que a resina, para sempre perdida,

declina. Uma porta bate, talvez a da cozinha,

com aquele ruído baço. É inverno

e Deus perdeu-se. Não na névoa. Não. Nem na poeira

que o vento lança. Perdeu-se de si, como a madeira

empenada se perdeu da casa. E nem sequer um fio

de sangue, quem sabe se de alguma farpa

mais viva, o fez voltar atrás,

a si. A dor sempre lhe foi alheia.

240
14.

Agora que o início, início é e o fim

fim há de ser, abandone-se

o pendão. A derrota fere-nos

até ao osso e a noite

nem noite é sequer. Diante

do desastre, o cansaço oculta-nos

de nós mesmos, os que foram

outrora demanda – disse

o cavaleiro – inconsequente.

241
15.

Que mão te pode colher agora

que estás desprevenida

e o silêncio contorna as folhas

depois da poda? Que mão

te pode colher agora

até ao osso? O desenho

original, esse, mantêm-se

pela adivinhação adentro,

breve faísca.

242
16.

Crê-se, por vezes, que somos

para sempre. Não,

não o somos. Nem

os bichos. Morrem

pelas manhãs de um mês

qualquer por entre os secretos

contornos das estações

vizinhas. Na primavera

hão de regressar. Ou noutra estação

qualquer. Somos, assim,

a sua chegada

em suspenso. E depois? Acaso,

outra vez, pura perda hão de ser?

243
244
Nota

Estes poemas, ordenados pela data da conclusão de cada livro em que se

integram, foram escritos entre 1985 e 2022. Corrigidos agora, uma vez mais,

visam a tal versão definitiva, se é que a há.

Por outro lado, a estes poemas apenas se juntam, enquanto corpo poético, os de

Aí a sombra: o dizer (ed. Caminho, Lisboa, 1990), escritos antes de 1985. E mais

nenhuns.

245
Índice

1. Matéria do olhar

2. O desenho da voz

3. Rumor de sulcos

4. Regresso a casa

5. No silêncio, a poeira

6. Em sombra de sombra

7. Nota

246
247

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