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Finanças Públicas

Interdependência
Orçamental na UE
Sumário
8. Interdependência orçamental na UE:
8.1. Vantagens e inconvenientes das regras orçamentais numa união
monetária
8.2. O caso concreto da União Europeia
8.2.1. Tratado de Maastricht
8.2.2. Pacto de Estabilidade e Crescimento
8.2.3. Desempenho orçamental na União Europeia

Bibliografia básica:
Pereira et al. (2012), Economia e Finanças Públicas, cap. 15, pp. 545-579.

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(Direito - 2º ano) 2
8.1. Vantagens e inconvenientes das regras
orçamentais numa união monetária

A política orçamental deve ou não ser centralizada?


Devem ser impostas regras à sua condução numa união
monetária?
Argumentos a favor da imposição de regras à condução da PO:
I. A acumulação de défices orçamentais para absorver choques
negativos pode dar origem a problemas de sustentabilidade da
dívida.
II. Países com dívidas excessivamente elevadas geram
externalidades negativas aos demais países da união monetária
porque pressionam para a alta as taxas de juro na união
monetária.

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(Direito - 2º ano) 3
Dívida Pública em % do PIB
180

160

140

120

100
Grécia
80 Portugal
60 Espanha
40 Irlanda
20

0
1970
1972
1974
1976
1978
1980
1982
1984
1986
1988
1990
1992
1994
1996
1998
2000
2002
2004
2006
2008
2010
2012
Fonte: Comissão Europeia, AMECO.

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(Direito - 2º ano) 4
8.1. Vantagens e inconvenientes das regras
orçamentais numa união monetária

Argumentos contra a imposição de regras à condução da política


orçamental:
As externalidades negativas mencionadas no 2º argumento não
se verificam se os mercados de capitais forem eficientes.
o Neste caso, o aumento da dívida de um país para valores
insustentáveis não pressiona as taxas de juro dos demais
países no sentido da alta, apenas aumenta o prémio de
risco associado à dívida pública desse país.
Não é fácil fazer cumprir as regras estabelecidas.

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(Direito - 2º ano) 5
8.2. O caso concreto da UE

O Tratado de Roma em 1957 instituiu a Comunidade Económica


Europeia (CEE).
A terceira e última fase da União Económica e Monetária (UEM)
teve início em 1/1/1999.
A fixação das taxas de conversão entre as moedas nacionais
dos países participantes e o euro.
A condução de uma política monetária única.
Sistema Europeu de Bancos Centrais (SEBC)
Define e executa a política monetária única.
Inclui o Banco Central Europeu (BCE) e os 27 bancos
centrais nacionais da União Europeia.
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(Direito - 2º ano) 6
8.2. O caso concreto da UE

O BCE e os 17 bancos centrais nacionais dos países


participantes constituem o Eurosistema.
1/1/1999: 11 iniciais, onde se inclui o Banco de Portugal
1/1/2001: Grécia
1/1/2007: Eslovénia
1/1/2008: Malta e Chipre
1/1/2009: Eslováquia
1/1/2011: Estónia

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(Direito - 2º ano) 7
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(Direito - 2º ano) 8
8.2. O caso concreto da UE
Tratado de Maastricht (Tratado da União Europeia)
Aprovado em 1991 e ratificado em 1993, após a aprovação
pelos Parlamentos de todos os países.
Definiu os critérios de convergência que os países devem
cumprir para passarem à 3ª fase da UEM.
Os países participantes foram selecionados em Maio de 1998,
com base nos resultados económicos de 1997.
o 11 países: Alemanha, Áustria, Bélgica, Espanha, Finlândia,
França, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Países Baixos e
Portugal.
o Dinamarca, Inglaterra e Suécia optaram por ficar de fora.

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(Direito - 2º ano) 9
8.2. O caso concreto da UE
Critérios de convergência:
A taxa de inflação não poderia superar em mais de 1.5 pontos
percentuais a média das três taxas de inflação mais baixas.
o Objetivo: estabilidade de preços.

A moeda nacional teria que ter pertencido ao Mecanismo de


Taxas de Câmbio do Sistema Monetário Europeu na banda
normal de flutuação durante os dois últimos anos e não ter sido
desvalorizada durante este período.
o Objetivo: evitar desvalorizações de última hora.

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(Direito - 2º ano) 10
8.2. O caso concreto da UE
A taxa de juro nacional de longo prazo não poderia superar em
mais de 2 pontos percentuais a média das taxas observadas
nos três países com menor inflação.
o Objectivo: evitar grandes diferenciais nas taxas de juro,
que levariam os capitais a fluírem para o país com taxa de
juro mais elevada.
Critérios ao nível da política orçamental:
o Peso da dívida pública no PIB inferior a 60%
o Peso do défice inferior a 3%.

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(Direito - 2º ano) 11
8.2. O caso concreto da UE
O Conselho Europeu de Dublin (1996) procurou assegurar
condições de estabilidade para além do início da terceira e última
fase da UEM através do:
Pacto de Estabilidade e de Crescimento:
Destinado a garantir uma gestão sã e duradoura das
finanças públicas nacionais dos países participantes no euro.

Novo Mecanismo de Taxas de Câmbio (MTC2):


Visa garantir a estabilidade nominal das taxas de câmbio
entre o euro e as moedas dos países não participantes.

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(Direito - 2º ano) 12
8.2. O caso concreto da UE
O Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC)
Entrou em funcionamento com o início da UEM (1/1/1999).
Impõe regras à condução da política orçamental na UEM.

Tanto o tratado de Maastricht como o PEC parecem ter sido


elaborados mais de acordo com a visão de que a política
orçamental deve ser conduzida com regras numa UM do que com
a ideia de flexibilidade das políticas orçamentais.

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(Direito - 2º ano) 13
8.2. O caso concreto da UE
O PEC foi alvo de duras críticas:
Arbitrariedade dos valores de referência: 3% e 60%.
O referencial para o défice é igual para todos os países pelo
que não tem em atenção o peso da dívida pública em cada
país.
Limita o funcionamento dos estabilizadores automáticos da
política orçamental.
Não dá incentivos suficientes para a adoção de políticas
orçamentais mais restritivas em épocas de expansão.
Não tem em consideração o nível de desenvolvimento do país.
...

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(Direito - 2º ano) 14
8.2. O caso concreto da UE
Foi reformulado em 2005:
As regras foram flexibilizadas e os prazos inerentes ao
Procedimento do Défices Excessivos foram alargados.
Maior atenção às características específicas de cada país e às
circunstâncias económicas em que o PEC é implementado.

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(Direito - 2º ano) 15
8.2. O caso concreto da UE
O PEC tem duas componentes principais:
Componente preventiva:
Objetivo orçamental a médio prazo;
Na definição de objectivos é tida em consideração a
situação específica da economia de cada país;
Trajetória de ajustamento para o objectivo de médio prazo.
Cada Estado-membro deve apresentar à Comissão,
Anualmente, um Programa de Estabilidade e Crescimento
para os próximos 4 anos
Semestralmente (Março e Setembro), o Reporte dos
défices excessivo.
A Comissão faz recomendações sobre cada programa
Servem de base aos pareceres do ECOFIN (após consulta do
Comité Económico e Financeiro).

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(Direito - 2º ano) 16
8.2. O caso concreto da UE
Procedimento dos Défices Excessivos (PDE)
Dívidas públicas superiores a 60% e défices superiores a
3% são considerados excessivos a menos que:
Decorram de uma circunstância excecional não
controlável pelo Estado-membro e que tenha um
impacto significativo na situação das finanças públicas.
Resultem de uma recessão económica grave.
São tidos em conta outros factores pertinentes e os
efeitos de reformas estruturais que impliquem uma
deterioração da situação orçamental no curto prazo

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(Direito - 2º ano) 17
8.2. O caso concreto da UE
A Comissão analisa o respeito da disciplina orçamental com
base tanto no critério do défice como no da dívida.
Um país cujo défice/dívida seja considerado excessivo será
sujeito a uma recomendação do ECOFIN
o Que deve ser implementada num prazo de 6 meses.
o Caso não o faça, podem ser aplicadas sanções 16 meses
após a verificação do défice excessivo:
− Depósito não remunerado de 0,2% do PIB e mais 0,1%
por cada ponto acima dos 3% até ao limite global de
0,5%;

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(Direito - 2º ano) 18
8.2. O caso concreto da UE
Este depósito será convertido em multa se o défice excessivo
se mantiver.
o Em regra, o prazo para a correção de um défice excessivo é
de um ano;
o Anualmente, o esforço orçamental mínimo de redução do
défice deverá ser de 0,5% do PIB, em termos corrigidos de
variações cíclicas e líquidos de medidas pontuais, e o prazo
final para a correção do défice excessivo deve ser fixado
tendo em conta esse esforço orçamental mínimo.
− O Conselho ECOFIN pode também decidir aplicar
sanções não monetárias.

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(Direito - 2º ano) 19
Decisão do Conselho ECOFIN relativa à existência de
um défice excessivo

Estados-membros
Défice > 3% do PIB Défice < 3 % do PIB
Fase 1

enviam dados do
e/ou e
orçamento à
dívida>60% do PIB Dívida <60% do PIB
Comissão Europeia

Ausência de risco de défice excessivo:


- rácio do défice é excepcional e
temporário e próximo do valor de
referência; O procedimento
- o rácio da dívida está a diminuir não é iniciado.
suficientemente aproximando-se do valor
Comissão de referência a um ritmo satisfatório
Fase 2

Europeia
prepara
Risco de um défice excessivo
um
relatório.
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(Direito - 2º ano) 20
Risco de um défice excessivo.

O parecer e a recomendação da O parecer do Comité Económico e


Fase 3

Comissão Europeia são apresentados ao Financeiro é apresentado ao


Conselho ECOFIN Conselho ECOFIN.

Decisão do Conselho
ECOFIN
A decisão é tomada por maioria
Fase 4

Existe qualificada (2/3). Na votação Não existe


défice participam todos os membros da UE, défice
excessivo quer pertençam ou não à área euro, excessivo
incluindo o Estado membro em
causa.
Fase 5

Recomendação do Conselho O procedimento


ECOFIN ao Estado-membro. é encerrado

Fonte: Boletim Mensal do BCE – Maio de 1999, pág. 57 Finanças Públicas - 2012/13
(adaptado) (Direito - 2º ano) 21
Procedimentos que se seguem à Decisão do Conselho
ECOFIN relativa à existência de um défice excessivo
A recomendação do Conselho ECOFIN é apresentada ao Estado-membro
Fase 6

O Conselho ECOFIN avalia a eficácia das decisões anunciadas

O Estado-membro não adopta medidas O Estado-membro adopta medidas


Fase 7

eficazes: o Conselho ECOFIN pode tornar eficazes: o procedimento é suspenso. A


públicas as suas recomendações e notificar Comissão Europeia e o Conselho ECOFIN
o Estado-membro para que tome medidas. acompanham a aplicação das medidas.

O défice excessivo As medidas não são O défice


O défice
mantém-se: o aplicadas: o Conselho excessivo é
excessivo é
Fase 8

Conselho ECOFIN ECOFIN notifica o corrigido: o


corrigido: o
aplica sanções ao Estado-membro procedimento é
procedimento é
Estado-membro participante para que encerrado.
encerrado.
participante. tome medidas.

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(Direito - 2º ano) 22
O défice excessivo O défice As medidas não são O défice
mantém-se: o excessivo é aplicadas: o Conselho excessivo é
Conselho ECOFIN corrigido: o ECOFIN notifica o corrigido: o
aplica sanções ao procedimento é Estado-membro procedimento é
Estado-membro encerrado. participante para que encerrado.
participante. tome medidas.

As medidas são aplicadas: o procedimento é suspenso.


Fase 9

A Comissão Europeia e o Conselho ECOFIN continuam a


acompanhar a sua aplicação

As medidas mostram-se inadequadas: o O défice excessivo é


Fase 10

défice excessivo mantém-se. corrigido:


O Conselho ECOFIN aplica sanções ao o procedimento é
Estado-membro participante. encerrado.

Fonte: Boletim Mensal do BCE – Maio de 1999, pág. 58

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(Direito - 2º ano) 23
Procedimento dos défices excessivos em curso
(artigo 104 do Tratado)
Decisão do Conselho s/ a
Data do relatório da Data limite para
País existência de défice
Comissão (Art. 104.3) correcção
excessivo (Art. 104.6)
Dinamarca 12/05/2010 13/7/2010 2013
Chipre 12/05/2010 13/7/2010 2012
Bélgica e Itália 7 / 10 / 2009 2 / 12 / 2009 2012
Rep. Checa, Alemanha, Holanda,
7 / 10 / 2009 2 / 12 / 2009 2013
Áustria, Eslovénia e Eslováquia
Polónia 13 / 5 / 2009 7 / 7 / 2009 2012
Portugal 7 / 10 / 2009 2 / 12 / 2009 2014
Roménia e Lituânia 13 / 5 / 2009 7 / 7 / 2009 2012
Malta 13 / 5 / 2009 7 / 7 / 2009 2011
França 18 / 2 / 2009 27 / 4 / 2009 2013
Letónia 18 / 2 / 2009 7 / 7 / 2009 2012
Irlanda 18 / 2 / 2009 27 / 4 / 2009 2015
Grécia 18 / 2 / 2009 27 / 4 / 2009 2014
Espanha 18 / 2 / 2009 27 / 4 / 2009 2013
Ano financeiro
RU 11 / 6 / 2008 8 / 7 2008
2014/15
Hungria 12 / 5 / 2004 5 / 7 /2004 2012

http://ec.europa.eu/economy_finance/economic_governance/sgp/deficit/index_en.htm
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(Direito - 2º ano) 24