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DECOLONIALIDADE E ENSINO DE FILOSOFIA

Janiel de Oliveira Santos

Email: Janiel.uefs@gmail.com

Na academia, principalmente na área de filosofia a presença insurgente e


necessária de temas e propostas relacionadas às relações étnicas raciais vem se
tornando um privilégio e um respiro oferecido por alguns professores que sentem a
necessidade de realizar o exercício das relações étnicos raciais aliadas ao ensino
aprendizagem, apesar dessa nova realidade se apresentar de forma real, esse
enfrentamento ainda gera muita tensão no sentido politico da aplicação do currículo de
filosofia, que mesmo garantido por lei, para acontecer na pratica é necessário ainda a
sensibilização das áreas de filosofia para aplicação da interdisciplinaridade do currículo
de filosofia para as relações étnicos raciais. Essa mesma proposta na educação básica
ainda se dá forma lenta por alguns motivos, como a dificuldade da mesma de encontrar
uma infraestrutura escolar capaz de pensar e aplicar os temas da educação para as
relações raciais, problemas de formação que envolvem a falta das diretrizes da lei
10.639 e o afastamento silenciado das competências das instituições em promover
espaço para que seja possível realizar um trabalho que envolva conexões diretamente
apropriadas para as questões raciais dentro e fora do ambiente escolar.

Entre outros enfretamentos essa realidade vai começando a mudar a partir de


projetos de iniciação a docência. O principal guia de educação do ensino de filosofia
além do plano de curso é o livro de didático de filosofia e este não contempla os temas
relacionados às relações étnicos raciais, essa problemática é apontada por vários estudos
que estão surgindo na academia e também pode ser relatado facilmente pelos
profissionais da educação básica como veremos ao longo deste trabalho, dessa forma
esta demanda acaba sendo abordada por outros projetos. A escola que passava a contar
apenas com “20 de novembro” ,“13 de maio” ao receberam dos programas como o
PIBID e o RP encontraram um suporte para trazer de forma coerente os temas
relacionados as relações étnicos raciais. Contudo ainda é necessário que as relações
étnicos raciais faça parte do currículo da escola básica, dando utilidade as leis que o
amparam, este trabalho nos chama a atenção para alguns aspectos sutis e despercebidos
nessa trajetória formativa, por exemplo, os livros didático de Filosofia trabalham muito
bem os conteúdos de Filosofia relacionando com temas transversais da
contemporaneidade, mas o seu viés se norteia com a ideia de uma sociedade única igual,
idealizada pelo colonialismo , cuja fundamentação ideológica exerce e impera o racismo
estrutural, sobre essa visão de mundo colonialista iremos aborda-lo e analisa-lo para
entender quais suas consequências no ensino aprendizagem de filosofia, precisamos
pensar outras formas de inserir o conteúdo critico filosófico que permita o alunado a ir
além do conteúdo filosófico. A ideia é utilizar o ensino de filosofia dentro da realidade
local, onde esse aluno possa consequentemente se apropriar da filosofia para superar sua
realidade, e sair desse lugar de não ser no seu devir negro, posto pelo colonialismo, cujo
o racismo define o papel social das pessoas pretas e assim superar essa condição,
promovendo as populações negras e originarias oportunidades iguais nessa sociedade.

Decolonialidade
 "Enquanto a história da caça ao leão
for contada pelos caçadores, os leões serão
sempre perdedores"

PROVERBIO AFRICANO

Decolonialidade é uma definição ampla que remete a eventos e atos de


resistência politica e epistêmica das populações Amefricanas e Afrodiaspóricas,
principalmente através da população negra e indígena brasileira, cujo objetivo se dá
principalmente pela libertação de processos que a colonialidade reproduz historicamente
através de suas lógicas econômicas, politicas, cognitivas, da existência, da relação com
a natureza tal como o filosofo Quijano aponta:

A colonialidade é um dos elementos constitutivos


e específicos do padrão mundial de poder capitalista. Se
funda na imposição de uma classificação racial/étnica da
população do mundo como pedra angular do dito padrão
de poder e opera em cada um dos planos, âmbitos e
dimensões materiais e subjetivas, da existência social
cotidiana e da escala social. Origina-se e mundializa-se a
partir da América (Quijano, 2000, p. 342).
. A Decolonialidade é um termo que entre outras possibilidades pode ser
entendida como reflexão teórica sistematizadas principalmente por intelectuais latinos,
é uma síntese das práticas históricas de resistências dos movimentos sociais emergente
frente ao colonialismo, portanto é um modus operandi de pensar estratégias para
transformar a realidade opressora, compreendendo o jogo politico que envolve as
relações de poder, elaborando os caminhos para compreender os aspectos sociais e
políticos, possibilitando transformação social no seu sentido amplo de desenvolvimento
através da libertação alienante, gerando e possibilitando intervenções e privilegiando
esse fazer contra colonial baseando-se em autores que representam uma postura política
de resistência essa sistematização apesar de apresentar aspectos teóricos fundamentados,
foram categorizados por teóricos da academia, mas sua gênese epistemológica é
necessariamente fruto dos movimentos sociais que tencionam o sistema político
heteronormativo e branco, essa modo de resistir confronta a realidade epistêmica,
produzindo forças e permitindo a luta que constituem corpos e territórios..

A Decolonialidade enquanto um projeto politico acadêmico ultrapassa os


murros da academia, pois se alia a luta politica, O plano acadêmico da Decolonialidade
apresenta estratégias de transformação da realidade, sistematiza a colonialidade em suas
consequências, publicitando historicamente a colonialidade do poder, do ser e do saber,
permite que as populações subalternizadas pela modernidade/colonialidade passem a se
fortalecer dos seus direitos legais e ganhem força social de luta, uma vez que legitima o
que na pratica os movimentos já fazem, dessa forma se discutem questões de gênero,
raça, sexualidade, território através de outro olhar, não mais dentro do normatividade
colonialista que nós definiu papeis sociais, mas a partir de nós mesmo, construindo
nosso próprio corpo/território neste espaço e tempo.

A Decolonialidade já vem sendo produzida no Brasil há mais de 50 anos nas


vozes principalmente de corpos que estão na frente dos movimentos organizados e
ultimamente tem sido algo que a academia passou a dar atenção devido as
problemáticas de ataques as conquistas das populações negras e indígenas, pois o
racismo que estrutura a sociedade brasileira começou a ser ver ameaçada pelo levante
racial que vem ocorrendo principalmente na américa através dos movimentos políticos,
queria trazer uma citação de uma filosofa brasileira Lelia Gonzáles onde a mesma
expressa de maneira notória o que poderia ser “esse fazer” da Decolonialidade cito:
“Ora, na medida em que nós negros estamos
na lata de lixo da sociedade brasileira, pois assim o
determina a lógica da dominação, caberia uma
indagação via psicanálise. E justamente a partir da
alternativa proposta por Miller, ou seja: por que o
negro é isso que a lógica da dominação tenta (e
consegue muitas vezes, nós o sabemos) domesticar? E
o risco que assumimos aqui é o do ato de falar com
todas as implicações. Exatamente porque temos sido
falados, infantilizados (infans, é aquele que não tem
fala própria, é a criança que se fala na terceira pessoa,
porque falada pelos adultos), que neste trabalho
assumimos nossa própria fala. Ou seja, o lixo vai falar,
e numa boa.” ( Revista Ciências Sociais Hoje, Anpocs,
1984, p. 225)

Seguindo as orientações de Lélia Gonzáles, a estrutura que produz a logica


racista da nossa sociedade nos coloca população negra e indígena em condições de
subalternidade, na dialética da colonialidade como os dominados e nos retira todos os
direitos de cidadania de maneira subjetiva em seus métodos, mas bem material em seu
retrato social, basta ver quem morre e quem são os grupos étnicos que mais sofrem
nesse país, e isso precisa ser analisado como uma enfermidade social produzida pela
Branquitude e sua colonialidade e pra além disso é imprescindível uma análise
psicanalítica, pois as consequências da modernidade/colonialidade vêm causando
problemas para nossas populações negras e indígenas, Portanto como diz Lélia
Rodrigues é a hora do outro falar, de assumirmos a nossa fala, sair da terceira pessoa,
pois dentro da colonialidade parte do nosso atraso se dá devido a nossa história ter sido
contada através da visão de mundo Branca, colonialista e Lélia faz isso de maneira
decolonial quando traduz nosso pensar através de conceitos produzidos pela
Branquitude se posicionando através deles, pois a colonialidade não produz essa
dialética, ela apenas fala do outro negando sua voz, seu ser, se colocando como dono da
verdade e do conhecimento, então nesse processo de resistência que aqui estamos
chamando de decolonial, chegou a hora de assumirmos a nossa própria fala, nossa
própria história, nossa própria ciência e fortalecer a luta contra o epistemicidio
resgatando nossa ancestralidade seja de África ou de nossa própria experiência
diaspórica e latino indígena.

Referências bibliográficas :

BALLESTRIN, L. América Latina e o giro decolonial. Revista Brasileira de Ciência


Política, Brasília, n.11, p.89-117, 2013.

BERNARDINO-COSTA, Joaze; MALDONADO-TORRES, Nelson; GROSFOGUEL,


Ramón (Orgs.). Decolonialidade e pensamento afrodiaspórico.Belo Horizonte:
Autêntica,

GONZALES, LÉLIA In: Revista Ciências Sociais Hoje, Anpocs, 1984, p. 223-244.

QUIJANO, A. Colonialidad y modernidad/racionalidade. Perú Indígena, Lima, v.12,


n.29, p.11-20, 1992

QUIJANO, Aníbal (2000). “Colonialidad del poder y clasificación social”. Journal of


world-systems research, v. 11, n. 2, p. 342-386.

SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES, Maria Paula (Org.). Epistemologias do


Sul. São Paulo: Cortez, 2010.