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MILLIET, Sérgio. “A Sociologia Norte-Americana”.

O Observador Econômico e
Financeiro, Rio de Janeiro, ano 8, n.102, p. 84-87, julho 1944. Disponível em:
http://bndigital.bn.br/acervodigital/observador-economico/123021. Acesso em: 13 fev. 2020.
P.84 “[...] O EN0RME desenvolvimento das ciências sociais nos Estados Unidos,
atraindo para os sociólogos norte-americanos as atenções do mundo culto,
provocou nesses últimos tempos violenta reação contra seus métodos e sua
prudência Censurou-se-lhes o excesso de objetivismo, sobretudo alegando que uma
ciência que tem o homem como elemento de estudo não pode pretender uma
olímpica impassibilidade. Naturalmente tais objeções partem dos discípulos ou
simpatizantes dos grandes filósofos europeus e em particular dos de Marx, Scheeler
e Manheim”. (MILLIET, 1944, p.84).

“[...] Em relação aos sociólogos norte americanos já observamos que não


pretenderam alcançar a objetividade absoluta. Apenas procuraram escoimar, na
medida do possível, suas pesquisas das falhas da dedução filosófica”. (MILLIET,
1944, p.84).

“[...] A sociologia que, apesar das intenções cotidianas, continuava ligada à


filosofia e prêsa às especulações doutrinárias, com os norte americanos adquire as
características de uma ciência experimental. -Larga a matemática para cair na
física, e na física de laboratório. Evidentemente dêsse modo os resultados logo se
amesquinham e o leigo, ansioso por soluções globais para os problemas do mundo,
soluções que se haviam vislumbrado em Comte e seus seguidores, sente-se
decepcionado. Mas a sociologia, como a entendem os norte americanos, não visa
soluções imediatas, porém o conhecimento dos processos sociais”. (MILLIET,
1944, p.84).

“[...] Por outro lado, ciente como está das influências de ordem cultural agindo
sôbre as nossas atitudes (no que se aproxima das especulações de Manheim) atenta
permanentemente para o possível “viez"das éticas que nos guiam”. (MILLIET,
1944, p.84).
P.85 “[...] Mesmo melhor das boas vontades não consegue evadir-se desse etnocentrismo
resultante de tal estado de coisas. O cientista tem por dever limpar o terreno em que
pisa, táboa raza de tudo o que pode empurrá-lo a dedução generalizadora e
perigosa. O cientista precisa ser um cético. E um modesto”. (MILLIET, 1944,
p.85).

“[...] Observava-me um amigo que, para saber da miséria, não era preciso levantar
estatisticas complicadas, nem fazer pretensiosos inquéritos: bastava andar pelas
ruas. Esquecia-se esse amigo de que os não governos andam pelas ruas e só olham
através de informantes interessados. Sem o conhecimento impessoal das situações
não se legisla com acerto”. (MILLIET, 1944, p.85).

“[...] Em matéria social a ciência aplicada tem outros nomes e outros meios. Ela
chama-se "política”, "serviço social”, "administração”. Acontece que o mais das
vezes essa ciência aplicada vive em completo desentendimento com a ciência pura
esta, entretanto, é que se dirigem as censuras de impotência. Acontece mesmo que a
ciência aplicada nem sequer leva em conta a existência da ciência pura. Os
governos quase sempre prescindem dos sociologos. São os governos que estão
errados e não os sociologos”. (MILLIET, 1944, p.85).

“[...] Temos ainda que apontar como características da sociologia ensinada nos
Estados Unidos a adoção rigorosa do método indutivo e a fixação de uma
terminologia precisa”. (MILLIET, 1944, p.85).