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Desenvolvimento humano segundo Piaget

Generalidades
Ao Jean Piaget (1896 – 1980), de nacionalidade suíça, devemos uma obra
pioneira no âmbito do desenvolvimento cognitivo. Formado em biologia e
publicando o seu primeiro trabalho científico (sobre moluscos) pouco depois dos
10 anos de idade, Piaget começou a trabalhar no laboratório de Alfred Binet,
inventor do primeiro teste de inteligência, em 1918. Durante a tarefa rotineira de
medir os resultados dos testes, Piaget detectou uma certa uniformidade no
modo como crianças pertencentes a diversas faixas etárias “passavam” ou
“falhavam” em várias secções dos testes. As crianças da mesma idade tendiam
a cometer o mesmo tipo de erros. Pensou que na resolução dos testes as
crianças mais jovens – já todas em idade escolar – poderiam estar a seguir um
modo de pensar distinto do das crianças mais velhas.

Piaget aprofundou o seu estudo sobre o desenvolvimento intelectual das


crianças, observando-as e entrevistando-as (praticou o método clínico e a
observação naturalista) incidindo a sua atenção nos seus próprios filhos – desde
o momento que nasceram foram pacientemente observados.

Piaget dava à sua teoria o nome de epistemologia genética porque procurava


compreender a génese do conhecimento e realizar a adaptação à realidade.

A sua obra inovadora alterou a forma de ver o desenvolvimento intelectual desde


a infância até à adolescência. Hoje em dia ou se refuta ou se aprofunda parte do
seu legado. Este foi muito influente no campo da pedagogia e da elaboração dos
currículos escolares.
Piaget pesquisou e escreveu nos seguintes campos: Biologia, Filosofia,
Psicologia, Lógica, Sociologia, Teologia e História da Ciência, além de Física e
Matemática.

Docente: dr. Artur Américo Chanjale


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Princípios gerais da teoria de Piaget


Quando no âmbito da Psicologia do desenvolvimento se fala de
desenvolvimento cognitivo o primeiro nome que surge é o de Jean Piaget.
Interessado pelo estudo da génese e evolução do conhecimento, Piaget chegou
a seguintes conclusões:

1- O desenvolvimento intelectual implica mudanças qualitativas. A


criança não é um adulto em miniatura, dotado do mesmo equipamento
básico mas com menos aptidões ou com aptidões menos desenvolvidas.
Para Piaget há uma diferença qualitativa entre o adulto e a criança quanto
ao modo de funcionamento intelectual.

2- O conhecimento é uma construção activa do sujeito. O


desenvolvimento cognitivo não consiste na recepção passiva da
informação proveniente do meio nem na pura e simples actualização de
um potencial genético e na aplicação de estruturas e esquemas dados a
priori. O construtivismo de Piaget supera quer o empirismo quer o
inatismo. Exceptuando alguns esquemas reflexos simples o que há em
nós? A necessidade de conhecer, ou seja, de adaptação ao meio.
Conhecer é construir estruturas que possibilitam tal adaptação. Como se
formam essas estruturas? Mediante a actividade do sujeito no confronto
com o meio. Construtivismo significa assim que, tendo em conta o
processo de maturação, construíamos a nossa compreensão da
realidade.

3- O desenvolvimento cognitivo é descontínuo, qualitativamente


diferenciado, processando-se ao longo de momentos distintos
denominados estádios.
Segundo Piaget, pensamos e raciocinamos de forma qualitativamente
diferente em diferentes fases do desenvolvimento intelectual (cognitivo).

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Todos percorremos uma sequência estruturalmente invariante de quatro


períodos qualitativamente distintos, ou seja, não podemos saltar estádios
nem passar por eles numa ordem diferente. Não obstante, pode variar a
idade em que atingimos cada estádio.

A organização do desenvolvimento segundo estádios significa que a ordem


de progressão não varia e que todos os seres humanos seguem uma
previsível séria de transformações.

Os estádios estão integrados, isto é, as novas aquisições são integradas na


estrutura anterior, organizando-se agora uma nova estrutura
hierarquicamente superior.

Investigações recentes indicam que os estágios não são tão estanques como
se pensava e que podemos encontrar algumas características de um estádio
no anterior e no seguinte. Assim, as idades médias de início e fim de cada
estádio são meras referências teóricas.

Como se processa o desenvolvimento cognitivo? Os instrumentos e os


processos fundamentais.
Piaget, influenciado pela sua formação em Biologia, via o desenvolvimento
cognitivo à imagem dos processos biológicos. A necessidade de conhecer é
um impulso inato, uma manifestação particular da necessidade de
sobrevivência. Como só sobrevivemos adaptando-nos ao meio, o
desenvolvimento cognitivo é uma forma de adaptação ao meio. A adaptação
cognitiva ao meio implica mudanças estruturais que aumentam as
probabilidades de sobrevivência do organismo individual. Para compreender
esse processo adaptativo é necessário compreender quatro conceitos
fundamentais da teoria de Piaget: esquema, assimilação, acomodação e
equilibração.

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Esquema
Esquema é uma sequência bem definida de acções físicas ou mentais. Um
esquema é qualquer conjunto de acções coordenadas com objectivo bem
definido. Por exemplo, mamar ou manipular objectos são esquemas. O
esquema é móvel no sentido de que pode funcionar em várias situações e
em diferentes objectos. Esquemas, portanto, são estruturas cognitivas de
adaptação que permitem a coordenação de acções para fim específico em
diferentes maneiras e em diferentes condições.

O indivíduo ao nascer é portador de esquemas de acção, que representam


possibilidades de o organismo actuar no meio, visando à sua sobrevivência.
Apresenta, no entanto, poucos esquemas de acção. Os esquemas são
bastantes flexíveis, podendo modificar-se e associar-se para enfrentar
situações inéditas para as quais seriam ineficientes em sua forma originária.

A variação dos esquemas de acção de indivíduo para indivíduo é que vai


formar as diferenças individuais.

O desenvolvimento individual pela aprendizagem realiza-se por meio dos


esquemas de acção que, de início, se destinam à conservação da vida e,
depois, ao enriquecimento da mesma.

O indivíduo, de início, enfrenta a realidade com os esquemas de acção inatos


ou originários. Como estes são poucos e os objectos e as situações,
múltiplos, não há esquemas de acção específicos para todas as situações.
Assim, eles têm de se modificar e mesmo se associar, a fim de adquirirem
especificidade para situações insólitas para os esquemas de acção
originários.

Inicialmente a acção do recém-nascido é puramente motora. Mais tarde, no


entanto, a acção motora interioriza-se e passa a ser representativa,

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psicológica. Em verdade a vida psicológica não é mais do que representação


interiorizada do comportamento motor. Falar ou pensar são formas
substitutivas de acção motora.

Quanto maior for a interiorização, maior será a possibilidade de se


constituírem novos esquemas de acção (pela modificação e associação dos
inatos), aumentando as possibilidades de assimilação do mundo exterior de
situações inéditas ou de fenómenos diferenciados.

Assimilação
Assimilação se refere à tentativa, feita pelo sujeito, de solucionar uma
determinada situação, utilizando uma estrutura mental (esquema) já formada,
isto é, a nova situação, ou o novo elemento é incorporado e assimilado a um
sistema já pronto. Exemplo: a partir do momento em que a criança aprende a
subir escadas saberá fazê-lo em qualquer circunstância. O mesmo exemplo
vale para a aquisição de outros comportamentos motores, como correr,
andar de bicicleta, chutar a bola, varrer a casa, etc. Ou ainda, se a criança
passou a dominar as quatros operações aritméticas básicas (somar, subtrair,
multiplicar, dividir) saberá fazê-lo, sempre que solicitada. Ou mesmo, se
aprender o caminho que vai de sua casa à escola, poderá ir sozinha à escola
todos os dias.

A assimilação implica sempre um mínimo de acomodação.

Acomodação
Acomodação é um processo psicológico de alteração dos esquemas de
acção para que possa haver assimilação de novos e diferentes factos do
mundo exterior, para os quais a vida mental não possui esquemas de acção
específicos. Suponhamos que uma, que aprendeu a andar de triciclo, se

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depare com outro veículo que guarde algumas semelhanças com o primeiro,
porém contenha elementos novos que a criança desconhece, como por
exemplo bicicleta. Nesta situação a criança tentará agir com o segundo
veículo da mesma maneira como fazia com o primeiro, e não obterá sucesso.
Estará usando um processo de assimilação, isto é, de tentar solucionar a
situação nova com base nas estruturas (esquemas) antigas. Este processo
não será eficiente, pois estas estruturas são inadequadas e insuficientes para
este novo elemento. O sujeito tentará então novas maneiras de agir, levando
agora em consideração as propriedades específicas daquele objecto. Isto é,
irá modificar suas estruturas (esquemas) antigas para poder dominar uma
nova situação. O processo de modificação de estruturas antigas com vista à
solução do novo problema, chama-se acomodação. E no momento em que a
criança conseguir dominar o segundo veículo, diremos que se acomodou a
ele e, portanto, adaptou-se a esta nova exigência da realidade.

A acomodação quando acarreta modificações:

a) Na espécie, chama-se evolução;

b) No homem, individualmente, aprendizagem.

Equilibração
Equilibração é o processo pelo qual se estabelece um equilíbrio entre as
estruturas cognitivas (esquemas ou capacidades do indivíduo) e as
exigências do meio.

Em várias situações não há nem acomodação nem assimilação. Se não sei


alemão não tentarei dar sentido à conversa entre dois alemães.

Fases do desenvolvimento
Fase sensório-motora (0 – 2 anos)

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Esta primeira fase assiste ao estabelecimento das bases indispensáveis para


a formação das estruturas lógicas da inteligência.

A criança parte de reacções sensoriomotoras que se vão organizando e


adaptando progressivamente às solicitações do mundo exterior.

Primeiro mê de vida:
As primeiras semanas de vida da criança destina-se a desenvolver
coordenação entre os reflexos inatos, como seguir objectos móveis com
olhos, tentar agarrar os mesmos, etc.

Assim, a criança somente põe em prática os seus reflexos inatos, que são os
seus únicos esquemas de acção.

De 1 aos 4 meses
A criança começa a coordenar as suas reacções. Por exemplo o movimento
das mãos coordena-se com o dos olhos, uma vez que volta o olhar em
direcção a um ruído, tenta alcançar objectos, bem como os agarra e os
chupa, levando-os à boca, etc.

É também o estágio das reacções circulares, em que a criança passa a


repetir um movimento que tenha dado certo, como, por exemplo, jogar a
cabeça para trás a fim de ver coisas familiares.

Dos 4 aos 8 meses


A criança começa a prever as consequências de suas acções,
desenvolvendo assim uma intencionalidade rudimentar. Costuma repetir
actos que tenham produzido consequências satisfatórias para ela, em
desenvolvimento a esta forma de agir expressa acima.

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A criança pode esticar a perna para alcançar um boneco suspenso no berço,


bem como começar a procurar objectos perdidos de vista.

Dos 8 aos 11 meses


A criança é capaz de procurar um objecto que lhe seja apresentado e, a
seguir, escondido (aquisição da noção de permanência dos objectos).

Começa a distinguir os meios dos fins, bem como aplicar reacções


aprendidas para atingir certas metas. Assim, por exemplo, poderá remover
obstáculos para atingir um objecto.

Dos 11 aos 18 meses


A criança desenvolve a experimentação e a exploração e se mostra
interessada em novidades.

Pode deixar cair objectos para observar a queda e seus efeitos, puxar
brinquedos com cordões e usar vara para empurrar coisas.

Dos 18 aos 24 meses


A criança é capaz de pensar em objectos e acontecimentos não
imediatamente observáveis e reagir aos mesmos. Pode também, inventar
novos meios para consecução de objectos, por meio de combinações
mentais, como trazer para si, com auxílio de uma vara, objecto, distante,
mesmo sem nunca ter visto esta operação.
Já é capaz de brincar com base no “faz-de-conta”.
Fase pré-operatória (2 – 7 anos)
A existência de representações simbólicas vai permitir à criança poder usar
uma inteligência diferente.

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O pensamento corresponde a uma acção interiorizada, assente na


capacidade de simbolização, e não na acção imediata e directa, como no
período sensorio-motor. A criança passa a poder representar objectos ou
acções por símbolos.

Ao falar, ao brincar de faz-de- conta, ao desenhar, exerce a função simbólica,


pois vai representar uma coisa por outra.

A principal característica desta fase, ao nível de pensamento é o


egocentrismo. O egocentrismo define-se pelo entendimento pessoal que o
mundo foi criado para si. Pela incapacidade de compreender as relações
entre as coisas a criança não compreende o ponto de vista do outro porque
se centra no seu ponto de vista. A criança é autocentrada.

Este egocentrismo, que é muito marcado no começo desta fase, vai sofrendo
uma parcial descentração à medida que nos aproximamos da fase seguinte.

O egocentrismo está presente em frases como: há vento porque estou com


muito calor; a noite vem quando é para ir a cama; a lua segue-me...

Entre os 2 aos 7 anos, distinguem-se dois sub-fases:

- O pensamento pré-conceptual ou de exercício da função simbólica (cerca


dos 2 aos 4 anos);

- O pensamento intuitivo (cerca dos 4 aos 7 anos).


No primeiro sub-fase (pensamento pré-conceptual) domina um pensamento
mágico, onde os desejos se tornam realidade, sem preocupações lógicas,
uma imaginação prodigiosa que permite tudo explicar.

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Outras características mentais de um pensamento mágico estão presentes


neste sub-fase:

Animismo - atribuição a objectos inanimados de emoções e pensamentos.


Assim, a criança bate à mesa onde se magoou, diz à boneca que tem que
comer a sopa toda ou afirma que o sol lhe sorriu. Desenha a lua e o sol como
uma cara.

A linguagem reflecte este animismo: o sol levanta-se, o sol deita-se.

O animismo também vai decrescendo: crianças mais velhas podem atribuir


vida já não a todos os objectos mas, por exemplo, àquilo que mexe, como o
vento e a chuva;

Realismo – sem preocupação de objectividade, a realidade é construída pela


criança. Se no animismo ela dá vida às coisas, no realismo dá corpo, isto é,
materializa as suas fantasias. Se sonhou que o lobo está no corredor, pode
ter medo de sair do quarto;

Finalismo – as acções interessam pelos resultados práticos. As crianças


estão sempre a questionar os adultos; no entanto, embora se diga que estão
na “idade dos porquê”, nesta idade procura-se, sobretudo, saber “para quê”.

Não nos podemos esquecer que as coisas têm, como finalidade, a própria
criança, dado o seu egocentrismo. Assim, o monte é em declive para ela
poder correr.

Artficilismo – é a explicação dos fenómenos naturais como se fossem


produzidos pelos seres humanos para lhes servir como todos os outros
objectos: o sol foi aceso por um fósforo gigante; a praia tem areia para nós
brincarmos.

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O pensamento infantil nesta fase é sincrético, isto é, de uma forma global e


confusa, não diferencia o essencial do superficial, a parte do todo, o
particular do geral.

Os raciocínios são associações na base da fantasia onde se passa de uma


situação particular para outra: a mãe não está no quarto; logo, está na sala
de jantar. O Pedro faltou, está doente.

A criança tem dificuldade em apreender conceitos gerais, como os de


espaço, tempo e velocidade.

O pensamento intuitivo (segunda sub-fase), que surge a partir dos 4 anos,


já com uma certa descentração cognitiva, vai permitir solucionar alguns
problemas e possibilitar muitas aprendizagens. No entanto, este pensamento
é irreversível, isto é, a criança está sujeita às configurações perceptivas sem
compreender a diferença entre as transformações reais e aparentes. A
criança vai poder frequentemente classificar e seriar objectos por
aproximações sucessivas, embora sem uma lógica de conjunto.

A criança não tem a noção de conservação de matéria sólida.

Fase das operações concretas (7 – 11/12 anos)


Na fase das operações concretas, a criança tem um pensamento lógico com
a capacidade de fazer operações mentais. Isto é, a criança organiza o
pensamento em estruturas de conjunto e os seus raciocínios lógicos são
também reversíveis.

Por volta dos 8 anos a criança adquire a noção de conservação da matéria


líquida.

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Existem outras conservações que advêm posteriormente, como a do peso


(cerca dos 9 anos) e, mais tarde ainda, a do volume (cerca dos 11 anos).

Nesta fase observa-se também o declínio do egocentrismo e a


reversibilidade do pensamento.

Fase das operações formais (11/12 anos em diante)


A fase das operações formais começa dos 11 a 12 anos e atinge o seu
desenvolvimento máximo por volta dos 15 a 16 anos.

Esta fase caracteriza-se por um pensamento abstracto e pelo exercício de


raciocínios hipotético-dedutivo. Assim, o adolescente desprende-se do real,
sem precisar de se apoiar em factos, pode pensar abstractamente e deduzir
mentalmente sobre várias hipóteses que se colocam: é capaz de resolver
problemas através de enunciados verbais.

O adolescente exercita ideias no campo do possível e pensa sobre o


pensamento. São estas capacidades que vão permitir definir conceitos e
valores, assim como estudar determinadas disciplinas como filosofia.

Bibliografia:

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DAVIDOFF, L. L. Introdução à Psicologia. 3ª Edição, São Paulo, Markron


Books, 2001.

MILICE, R. S. M. M. Psicologia. Nova edição, Porto Editora.

NÉRICI, I.G. Didáctica: Uma Introdução. 2ª Edição, Editora Atlas S. A. 1989.

RAPPAPORT, F. D. Teorias do Desenvolvimento: conceitos fundamentais.


São Paulo, Editora Pedagógica e Universitária, ltda, 1981.

RODRIQUES, L. Psicologia 12º ano. 4ª Edição, Lisboa, Plátano Editora,


2003, 1º Volume.

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