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RELATÓRIO TECNICO

“Estudo hidrogeológico e avaliação das potencialidades de


captação de agua de abastecimento humano na população de
Kamupapa (Namibe)”

MIGUEL A. GONZÁLEZ ALONSO


CP-Geo

LUBANGO, MARÇO 2018

ÍNDICE

ÍNDICE......................................................................................................................................................2
1. – INTRODUÇÃO............................................................................................................................3
2. – METODOLOGIA.........................................................................................................................3
3. – DIAGNOSTICO DAS FONTES DE AGUA EXISTENTES: KAMUPAPA, MUNICÍPIO
DE BIBALA, NAMIBE............................................................................................................................4
4. – DADOS E INFORMAÇÃO HIDROGEOLÓGICA.....................................................................6
5. – AVALIAÇÃO E RECOMENDAÇÕES........................................................................................11

Estudo de hidrogeologico de Kamupapa, prov Namibe. 2


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1. – Introdução.
O presente estudo pretende estimar a quantidade dos recursos hídricos
disponíveis na localidade de Kamupapa, Municipio de Bibala, Provincia de
Namibe.

Visando definir os pontos com maior potencialidade de agua, desde o ponto


de vista hidrogeológico.

O dia 1 de março de 2018 se tomaram os dados dos pontos de agua no


terreno. Após forem contrastadas com a informação bibliográfica compilada e
as imagens de satélite disponíveis.

A análise e valoração da informação compilada são fundamento deste parecer


técnico sobre os recursos hídricos disponíveis e nos permite emitir as
recomendações incluídas no presente relatório.

2. – Metodologia.
Para a realização do estudo se considerou a metodologia a seguir:

1. Inventario das captações e fontes de água existentes. Diagnostico da


situação actual das captações, infraestructuras, equipamentos...

2. Estudos hidrogeológicos e técnicos:


 Recopilação de informação básica: cartografia, geologia, geormofologia
hidrologia, relevo e climatologia.
 Foto interpretação das imagens de satélite dos terrenos onde se localiza
a captação para o abastecimento de água.
 Estudo geológico de detalhe, em base à geologia existente.

3. Analises e avalição da informação. A integração da informação obtida


sobre o terreno é decisiva na hora de nos aproximar para definir o
sistema aquífero, suas relações, recarga, hidrodinâmica... que permite
definir as alternativas mais viáveis para a captação de água.

4. Conclusões e recomendações. Depois de avaliadas as principais


variáveis hidrogeológicas da zona alvo, se extraíram as conclusões e
recomendações a considerar na elaboração do projecto.

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3. – Diagnostico das fontes de agua existentes:


Kamupapa, município de Bibala, Namibe.

Durante o dia 1 de Março de 2018 foi realizado o levantamento no terreno dos


pontos de agua mais relevantes da localidade.

As coordenadas geográficas dos pontos de água localizados são:

Lugar Latitude Longitude Altitude


FURO1 14° 32.508'S 13° 25.514'E 840 msnm
BARRAGEM 14° 33.013'S 13° 25.881'E 853 msnm

Na imagem 1 de satélite tem se marcado os principais pontos de água nos


arredores de Kamupapa.

Imagem 1: situação dos principais pontos de água existentes nos arredores de N’Dongue.

A população de Kamupapa actualmente se abastece de um furo de agua com


bomba manual “volanta” nomeado como: “FURO1”.

O “Furo1” está situado perto da ribeira do riacho seco que percorre ao Oeste
da população. O furo tem uma profundidade de 45,70 m e não seca, mas, a
seca acumulada dos últimos anos faz que, durante a seca o caudal se reduza
muito e o nível de agua no furo recupera a devagar.

Como fonte alternativa de subministro de água a população acostuma a


escavar buracos no leito do riacho por donde flui água a escassa
profundidade, mas a seca continuada dos últimos anos tem provocado uma

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redução drástica do nível de água e consequentemente uma maior dificuldade


de obter agua do leito do riacho.

Fotografias 1 e 2: “FURO1” e sedimentos aluviais na ribeira do riacho próximo ao furo.

A uma distancia aproximada de 1,5 kms, a jusante do furo anterior, no mesmo


riacho existe um açude de pedra que serve como armazém de agua para
abrevar o gado (nomeado como “BARRAGEM”). Ainda que durante a visita a
albufeira da barragem continha agua das chuvas recentes, na imagem 1 de
satélite se aprecia que está assoreado e permanece grande parte do ano seco.

Fotografias 3 e 4: Açude e albufeira com água armazenada das chuvas recentes.

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Fotografias 5 e 6: Ponto marcado na planura aluvial a jusante da albufeira do açude.

4. – Dados e informação hidrogeológica.

4.1. HIDROLOGIA

Os rios do litoral Sul de Angola entre o rio Coporolo e o rio Cunene, são rios
temporários que só escoam água durante os esporádicos episódios de chuvas,
que acostumam a ser torrenciais. Os depósitos sedimentares dos leitos dos
rios podem conter reservas importantes de água, que se estão alimentados
pelas nascentes do planalto podem garantir a disponibilidade de agua durante
as secas acumuladas. Também os abanicos aluviais formados no sopé de
monte podem conter quantidades apreciáveis de água subterrânea. Ver
imagem 2.

Os terrenos graníticos e ígneos se caracterizam por uma permeabilidade


baixa, donde o fluxo de agua subterrânea se concentra: no perfil de alteração
da rocha, nas falhas ou fracturas e nos contatos litológicos entre diferentes
formações. Falhas e contactos geológicos são facilmente identificados na
imagem de satélite e interpretados como zonas com maior potencial hídrico.

A zona de estudo está situada no sopé do planalto angolano, na parte media


da bacia hidrográfica do rio Bentiaba, com precipitações escassas
concentradas em esporádicos episódios de chuvas torrenciais, típicas de zonas
áridas, que permitem supor uma pobre recarga dos aquíferos, limitada aos
terrenos pouco consolidados, alterados e permeáveis.

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Imagem 2: geologia e hidrologia do Sudoeste de Angola.

Kamupapa encontra-se na bacia hidrográfica do rio Bentiaba, com umas


características hidrológicas marcadas por uma grande variabilidade espacial e
temporal.

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As escassas precipitações se produzem nos meses de novembro a abril, com


uma marcada estiagem entre os meses de maio a outubro, o que se suma ao
grande contraste de precipitações entre seu percurso alto (planalto) donde
superam os 1.000 mm/ano e o percurso baixo (litoral) que não atingem os
200 mm/ano, com um valor médio de 648 mm/ano (ver imagem 3).

Imagem 3: bacia hidrográfica do rio Bentiaba.

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4.2. CLIMATOLOGIA

A população de Kamupapa se encontra 20 km ao Norte de Bibala e a 60 km


de Lubango. Por em quanto o porto de Namibe fica 160 km ao Sudoeste. As
gráficas de precipitação e evaporação de Lubango e Namibe a seguir:

Imagem 4: Precipitação Media e Máxima Mensal e Precipitação Anual e Media Anual para
Lubango, valores em mm (fonte INAMET).

Imagem 5: Evaporação Potencial Media, Mínima e Máxima Mensal e Evaporação Anual e


Media Anual para Lubango, valores em mm (fonte INAMET).

Imagem 6: Precipitação Media e Máxima Mensal e Precipitação Anual e Media Anual para
Namibe, valores em mm (fonte INAMET).

Imagem 7: Evaporação Potencial Media, Mínima e Máxima Mensal e Evaporação Anual e


Media Anual para Namibe, valores em mm (fonte INAMET).

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A situação geográfica da população, entre as duas cidades de Namibe e


Lubango a uma altitude de 800 metros sobre o nível do mar, no sopé de
monte permite inferir umas baixas precipitações anuais, que resultam em um
importante déficit hídrico da região, que significa uma escassa recarga dos
aquíferos.

4.3. GEOLOGIA

Os terrenos que compõem este área, compostos por rochas metamórficas e


ígneas, têm baixa permeabilidade e capacidade de armazenamento. As águas
subterrâneas vão a circular preferentemente pelas descontinuidades: perfil de
alteração, falhas e contatos entre distintas formações da rocha. Estas
estruturas geológicas muitas vezes se refletem nas morfologias lineares do
relevo.

Kamupapa

Imagem 8: Geologia regional de Kamupapa, Província de Namibe.

Conforme á imagem 8 extraída da Carta Geológica de Angola 1:1.000.000


(ING-1988), Kamupapa esta situado sobre Gnaisses do Grupo superior do
Arcaico Inferior (AR21), que na zona de estudo afloram migmatizados, sendo
de composição tonalitica e plagiogranitica.

A 2,5 km ao Este da população, aflora a formação ígnea do Arcaico Superior


(γAR2) composta principalmente por granitos biotíticos, formando relevos

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importantes que superam os 1.470 msnm, salvando um desnível superior a


600 m em menos de 4 km de distancia.

O alto desnível entre Kamupapa e os relevos vizinhos permitem a leitura


geomorfológica da imagem 9 donde se contornam os abanicos aluviais
(“aluvial fun” em ingles) depositados no sopé de monte dos granitos biotíticos.

Imagem 9: Fotointerpretação dos arredores de Kamupapa (Abanicos aluviais em Verde).

Os sedimentos recentes que conformam os abanicos aluviais, devido á sua


gênesis torrencial estão compostos por materiais pouco selecionados, pelo que
tem baixa permeabilidade, más tem uma gradiente de fluxo subterrâneo das
águas mais elevado e um potencial hídrico superior que os terrenos
metamórficos ou graníticos.

5. – Avaliação e recomendações.

O potencial hídrico dos arredores da população de Kamupapa é escasso e


limitado pelos diferentes contextos hidrogeológicos identificados:

1. As aguas que fluem pelos gnaisses e granitos tem baixa permeabilidade


e escasso potencial hídrico, se concentram: no perfil de alteração da
rocha, nas falhas e nos contactos com outras formações geológicas.
Isso junto, com a baixa recarga aquífera associada ao clima semiárido
da zona, supõe que, neste tipo de terrenos, a produção dos furos
positivos raramente supera 1.000 l/h.

2. Os sedimentos recentes (Quaternarios) que conformam os abanicos


aluviais, depositados no sopé de monte, devido á sua gênesis torrencial
estão compostos por materiais pouco selecionados, pelo que tem baixa

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permeabilidade, más permitem o fluxo das águas subterrâneas melhor


que os terrenos metamórficos ou graníticos. A situação na zona de
descarga dos relevos graníticos permite supor uma alimentação do
aquífero durante todo o ano, com potencial de regulação multianual.
Com tudo os caudais nos casos favoráveis estão entre 1.000-3.000 l/h.

3. Os depósitos aluviais dos rios, conformados por terrenos recentes não


consolidados, tem a máxima permeabilidade e potencial de produção,
com caudais > 10.000 l/h, mas é preciso valorar a superfície de recarga
e a capacidade de armazenamento para avaliar a disponibilidade nas
épocas de seca. No caso de Kamupapa a superfície dos depósitos
aluviais é reduzida e a recarga pobre, pelo que a quantidade de água
pode ser deficitária em épocas de seca.

Do anteriormente exposto se deduzem as recomendações a seguir:

A. A situação do furo existente “Furo1”, sobre o aluvial do rio,


próximo de uma falha geológica e com boa produção de agua,
permitem supor um alto potencial de captar água subterrânea
nos terrenos adjacentes, pelo que se considera como opção
possível perfurar um novo furo por perto, no ponto com
coordenadas:

Lugar Latitude Longitude Altitude


Kamupapa_prop1 14° 32.475'S 13° 25.504'E 837 msnm

Propõe-se perfurar o novo furo até os 80 m de profundidade,


mas com precaução de parar a perfuração se atravessar níveis
de águas altamente mineralizadas. A profundidades >45 m, a
conductividade da água deverá ser controlada durante a
perfuração.
Durante a perfuração se deve prestar especial atenção ás
diferentes formações geológicas e lençóis aquíferos
atravessados, para definir o desenho final do encamisado.

B. A zona próxima á “Barragem”, situada jusante do açude,


formada por sedimentos aluviais que repousam sobre os
sedimentos dos abanicos aluviais considera-se um enclave
óptimo para a perfuração de uma nova captação, se propõe o
ponto com coordenadas:

Lugar Latitude Longitude Altitude


BARRAGEM_prop2 14° 33.025'S 13° 25.889'E 853 msnm

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Imagem 10: Foto satélite e perfil topográfico dos pontos de perfuração marcados.

Propõe-se perfurar um novo furo até os 100 m de profundidade,


mas com precaução de parar a perfuração se atravessar níveis
de águas altamente mineralizadas. A >60 m de profundidade, a
conductividade da água deverá ser controlada.
Durante a perfuração se deve prestar especial atenção ás
diferentes formações geológicas e lençóis aquíferos
atravessados, para definir o desenho final do encamisado.

O ponto marcado tem a vantagem de permitir a conexão por


gravidade até a escola e o núcleo principal da população.
Mediante a implantação de um reservatório de regulação em
um terreno rochoso elevado existente no traçado da aductora.
Além o ponto da “Barragem” esta distante 1.200 m do furo
existente o que garante que a interferência entre lençóis
aquíferos é mínima e permite um ponto alternativo de
abastecimento de agua para a população distante do actual.

Lubango, 6 de Março de 2018.


Miguel Alonso
Hidrogeólogo

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