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Referência bibliográfica: ROLLEMBERG, D. ​As trincheiras da memória​.

A Associação
Brasileira de Imprensa e a ditadura (1964-1974). ROLLEMBERG, D; QUADRAT, S. ​A
Construção Social dos Regimes Autoritários​. Legitimidade, consenso e consentimento no
século XX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.

Objetivo do texto: ​“O objetivo do artigo é, então, recuperar as discussões internas, nos dez
primeiros anos da ditadura, na ABI, que se tornou, com a OAB e a CNBB, símbolo da
resistência no pós-1979; acompanhar a diversidade que desapareceu ou se diluiu,
posteriormente; compreender as posições em suas ​ambivalências para melhor perceber o que
foram a vivência da instituição sob o regime de exceção e a sua memória” (ROLLEMBERG,
2011, p. 105).

Tese do texto: ​“Inspirada em Laborie, diria que a ABI não foi, primeiro, defensora dos
militares e, depois, resistente à ditadura, como o foi Ulysses Guimarães. A recuperação das
discussões e embates, cujo eixo foi a liberdade de expressão e de jornalistas, até o
desencadeamento do projeto de abertura política Geisel-Golbery, indica que esteve bem mais
próxima do ​penser-double ​do que da ​trincheira inexpugnável.​ Não era coesa, abarcava
embates que desapareceram na memória. Mas, sobretudo, era ambivalente, capaz de ser a
favor e contra os governos militares ao mesmo tempo. Assim, se a ABI denunciava as prisões
de jornalistas, perseguidos por suas ideias, atuava para que fossem libertados, mantinha
relações com os governos militares, os celebrava em homenagens, banquetes etc. e
identificava-se com os valores e princípios que os definiam (ROLLEMBERG, 2011, p. 132).

Anotações:

Introdução

➨ Memória de conciliação:
- Movimento da própria sociedade de ​digerir​ o período ditatorial;
- Mito da resistência, negando o autoritarismo como produto da sociedade;
- A partir da ​anistia​, silenciava-se sobre o fato de que muitos civis ajudaram em sua
realização e se beneficiaram do Golpe de 1964.
Memória coletiva e processo de abertura

➨ Linhas interpretativas sobre a redemocratização brasileira:


1. Tendência geral em enfatizar o papel dos movimentos sociais de oposição,
compreendidos como fundamentais para a derrocada dos militares. Nessas
interpretações, é enfatizado a suposta aversão da sociedade brasileira ao autoritarismo
e a relação com o Estado, força meramente coercitiva, é sempre unidimensional (Ex:
Bernardo Kucinski).
2. Chave de leitura mais sofisticada: atenção às divergências internas aos militares;
problematização do projeto de abertura política como uma resposta à crise do milagre.
Diferentemente da primeira tendência, aqui os movimentos sociais não têm posição de
destaque, sendo reconhecido com maior peso o papel da “linha dura”. Apenas com o
movimento sindical, surgido em 1978, teriam os militares perdido o controle do
processo de abertura democrática (Ex: Francisco Carlos Teixeira da Silva).
3. Tentativa de explicação tendo foco nos conflitos dentro da corporação militar,
evidenciando as disputas entre diferentes projetos. Dentro dessa chave de leitura,
reconhece-se continuidades entre o período ditatorial e o contexto brasileiro após a
transição, possíveis devido ao controle dos militares durante todo o processo de
entrega do poder aos civis (estes sendo indivíduos próximos dos próprios militares).

➨ Consolidação da primeira linha interpretativa na memória coletiva:


- Correspondência com as aspirações e demandas de “coesão nacional”;
- Movimentos sociais de apoio ao regime esquecidos ou interpretados de forma
simplista; centralidade dos movimentos de oposição, pois estes demonstraram a
inclinação “natural” da sociedade para a democracia.

➨ Investigação que visa compreender o que está além de campos perfeitamente definidos
como “resistência” ou “apoio”.
- Insuficiência da escolha entre o “a favor” ou “contra”: importância de se estudar a
zona cinzenta​ e o ​penser-double​ (Pierre Laborie);
- Ausência de oposição​ (Henry Rousso).
- Atenção ao ​argumento do desconhecido​.

Lugares de resistência

➨ Instituições de oposição ao regime durante a transição;


- Consenso construído pela memória em torno da “resistência democrática”.

As trincheiras da memória

➨ Relação ambivalente com a ditadura:


- A defesa da liberdade de imprensa e o repúdio à prisão de jornalistas não
pressupunham uma atitude hostil frente ao governo e, inclusive, coexistiam com
homenagens às suas figuras centrais (Costa e Silva);
- Incorporação de símbolos do imaginário dos governos militares - ou utilizados por
eles - pela ABI (Dia da Bandeira, Semana do Exército, “Revolução de 1964” e
“terrorismo das esquerdas”);
- Reação positiva à posse de Emílio Médici, indicando afinamento com muitos dos
ideais de “progresso nacional” dos militares.
- Participação da ABI da festa de comemoração do Sesquicentenário da Independência
do Brasil, em 1972. “A comemoração do 1822 celebrava, na verdade, o presente, o
próprio regime, os militares e a ​independência econômica,​ seu grande mérito”
(ROLLEMBERG, 2011, p. 115).
- A ​anistia foi interpretada pela instituição, numa visão muito próxima da do regime: o
que selaria a “tranquilidade da nação, coesa, fraterna, harmônica” (ROLLEMBERG,
2011, p. 120).

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