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Recensao Crítica

Autor: Jacinta fernanda Miquitaio Castigo


Mestrado em Avaliação Educacional
Email: jacas1711@gmail.com

Resumo
Na obra em análise, Durkheim faz uma clara teorização em torno do papel moral do sistema
educativo. Isto porque a escola ou educação é que tem o papel de cuidar e transmitir os valores que
dizem respeito à sociedade. Como o autor começa, dizendo que a educação é algo eminentemente
social, pois, a observação pode prová-lo. Antes de tudo, em toda sociedade há tantas educações
específicas quanto meios sociais diferentes. Por isso quando se olha para o universo educacional,
ele é definido com base na respectiva necessidade social a que diz respeito, nesta linha para o autor
em análise, a educação tem uma textura autoritária e não tão democrática.

Palavras -chaves: Educação, pedagogia, sociedade, valores e crianças.

Análise crítica
No presente trabalho, vai se fazer uma análise crítica da seguinte obra “Educação e
Sociologia de Émile Durkheim. Cujo a composição gráfica desta recensão crítica é seguinte: título
do texto, autor do texto, resumo do texto, síntese das ideias do autor e enquadramento dos pontos
levantados para realidade moçambicana. E por fim, consta a referência bibliográfica.

Segundo o autor, cada sociedade alimenta um certo ideal humano. É este ideal “ que é o pólo da
educação”. Para o autor, “a educação é a acção exercida pelas gerações adultas sobre aquelas que
ainda não estão maturas para a vida social. Ela tem como objectivo suscitar e desenvolver na
criança um certo numero de estados físicos, intelectuais e morais exigidos tanto pelo conjunto da
sociedade politica quanto pelo meio especifico ao qual ela esta destinada em particular”.
(DURKHEIM, p.53-54) A educação é uma socialização da geração jovem, isto é, ele concebe a
educação como a experiência, hábitos e costumes das gerações passadas que são transmitidas a
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gerações actuais. Sem a civilização, o homem seria apenas um animal, foi através da cooperação e
da tradição sociais que o Homem se tornou Homem.

Ora, com excepção de tendências vagas e incertas que podem ser atribuídas a hereditariedade, ao
entrar na vida, a criança, traz consigo sua natureza pessoal e o “ser egoísta e associal”, será tarefa
da educação lhe mostrar a sua capacidade ou potencialidade escondidas. Abrindo nela o caminho
para uma vida regulada em uma sociedade. Isto é, a educação cria um novo ser no homem e esta
virtude criadora é, alias, um privilégio específico da educação humana. (DURKHEIM, p.55)
“A hereditariedade transmite os mecanismos instintivos que garantem a vida orgânica e, nos
animais que vivem em sociedade uma vida social e bastante simples. Mas ela não basta para
transmitir as habilidades que a vida social do homem supõe, habilidades complexas demais para
poderem materializar-se sob a forma de predisposições orgânicas”. (DURKHEIM, p.56)
Portanto, as características especificas que distinguem o homem são transmitidas por uma via
social, isto é, a educação, visto que é um ser social. Se criar uma pessoa constitui actualmente um
objectivo da educação e se educar consiste em socializar, vamos portanto concluir que, segundo
Durkheim, é possível individualizar socializando este é, no fundo, o seu pensamento. Pode-se
discutir sobre a maneira como ele concebe a educação da individualidade. Porém, sua definição da
educação provem de um pensador que, em nenhum momento ignora ou subestima o papel ou o
valor do indivíduo.
A educação desempenha acima de tudo uma função colectiva e tem como objectivo adaptar a
criança ao meio social no qual ela está destinada a viver, é impossível que a sociedade se
desinteresse de tal operação.
DURKHEIM levanta a seguinte questão: se a sociedade constitui o ponto de referência para a
educação dirigir a sua acção, como ela poderia ficar ausente desta última? DURKHEIM, aponta a
necessidade da sociedade “lembrar ao professor ideias e sentimentos” que devem ser arraigados
durante a formação das crianças (DURKHEIM, p.62). Posto isto, é função da educação, promover
ou proporcionar uma “ comunhão de ideias e de arbitrariedades ou vontades individuais”
(DURKHEIM, p.63). Pois não cabe ao Estado criar esta comunhão, mas sim verificar os princípios
essenciais, fazer com que eles sejam ensinados nas escolas (DURKHEIM, p.64).
De facto, já vimos que a educação tem como objectivo substituir o ser individualista e associal que
somos ao nascermos por um ser inteiramente novo. Ela deve nos conduzir a deixarmos para trás a
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nossa natureza inicial: esta é a condição para que a criança se torne Homem. Ora, só podemos nos
superar através de um esforço mais ou menos caro.
É importante a percepção de que a liberdade deriva da “ autoridade bem aplicada”, pois segundo
DURKHEIM, ser livre “significa ter autocontrole e agir guiado pela razão e cumprir seu dever’’
(DURKHEIM, p.73).
Segundo DURKHEIM, a criança deve, portanto, estar acostumada a reconhecer a
autoridade na palavra do Educador e a respeitar a sua superioridade. Esta é a condição para que
mais tarde a reencontre sem sua consciência e acate o que ela prescrever (DURKHEIM, p. 73)
Durkheim também define a educação como “uma coisa”, ou, em outras palavras, “um facto”.
Em realidade, em todas sociedades, ele observa uma educação. Conformemente a tradições,
hábitos, regras explícitas e implícitas, em um determinado contexto de instituições, com uma
aparelhagem própria sob a influência de ideias e sentimentos colectivos. O autor nesta obra at fala
de alguns modelos educacionais, como da idade média, renascimento e outros com objectivo de
mostrar que não existe uma educação ideal.
Segundo ele: “(…) na verdade, cada sociedade, considerada em determinado momento de
seu desenvolvimento, tem um sistema de educação que se impõe aos indivíduos como uma força
geralmente irresistível” (DURKHEIM, p.47-48).
Na segunda parte da sua obra, DURKHEIM trata da natureza e método da pedagogia. Educação é
a acção exercida nas crianças pelos pais e professores, a pedagogia é algo completamente diferente,
ela consiste “não em acção, mas sim em teorias”, maneiras de conceber a educação, não de pratica-
la. A pedagogia consiste em uma maneira de reflectir sobre a educação (DURKHEIM, p.75).
O autor traz-nos três motivos que justificam o carácter científico da educação que são: a
possibilidade de observar factos que já concluímos, a homogeneidade dos factos que faz com que
haja possibilidade, de estabelecer níveis para enquadra-los, classifica-los, e o interesse em conhecer
factos, os quais tais objectos de interesse estão implícitos (DURKHEIM, p.77).
“De facto, a educação vigente em determinada sociedade é considerada em determinado momento de sua evolução é
um conjunto de práticas, maneiras de agir e costumes que constituem fatos perfeitamente definidos e tão reais quanto
os outros fatos sociais” (DURKHEIM, p.78).
Outro aspecto que chama a atenção nessa obra de DURKHEIM, é que ele reforça a relação
educação / sociedade ao dizer que não é possível alguém tentar impôr determinada educação a um
filho que não obedeça ao jogo de regras vigentes na sociedade.
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“Não adianta acreditar que podemos educar nossos filhos como quisermos. Somos obrigados a seguir as regras
reinantes no meio social em que vivemos. A opinião nos impõe este comportamento, e a opinião é uma força moral
cujo poder opressivo não é menor do que o da força física” (DURKHEIM, p.78).

Olhando ainda para as teorias pedagógicas DURKHEIM, diz que consistem em reflexões
diferentes, pois não busca o mesmo objecto e nem empregam os mesmos métodos (DURKHEIM,
p.83). Observa que seu objectivo não seria uma descrição do que existiu, do que seria a ciência da
educação. Poderia ser uma a arte na medida em que a arte seria “todo atributo de uma reflexão que
não é ciência” mas o autor define o termo “arte” tudo aquilo que é “prática pura sem teoria”
(DURKHEIM, p.83-84).
Segundo DURKHEIM, Uma arte é um sistema de maneiras de agir adequadas a fins
especiais e resultantes ou de uma experiência tradicional transmitida pela educação ou da
experiência pessoal do individuo. Só se pode adquiri-las mexendo com as coisas sobre as quais a
acção deve ser exercida e agindo por si mesmo. Sem dúvida pode acontecer de a arte ser guiada
pela reflexão, mas a reflexão não é um elemento essencial da arte, visto que ela pode existir sem
esta última” (DURKHEIM, p.85).

Olhando para o que DURKHEIM diz concebe-se a educação sem estar condicionada
verdadeiramente a existência de uma pedagogia. Mas o que se torna inevitável é que a reflexão
sobre uma prática educativa, “processo de acção”, acaba sempre por adquirir um status futuro de
teoria. A pedagogia “reflecte sobre os sistemas de educação” (não os estuda cientificamente) para
fornecer ao educador, ideias que possam de alguma forma dirigi-lo (DURKHEIM, p.86).
Durkheim dá ênfase a possibilidade da pedagogia como teoria prática, apoia-se sobre a ciência da
educação e sociologia. No primeiro caso, para “saber o que a educação deve ser” isto é, sua
natureza, já com relação ao papel do pedagogo, seria o de reduzir ao mínimo as chances de erro a
partir da junção de factos intuitivos com máximo de método (DURKHEIM, p.88). A pedagogia
tem a seguinte importância: diminuir a disparidade do desgaste entre sistemas escolares e
necessidades actuais, restabelecidas a harmonia entre ambos, um “ auxiliar constante e
indispensável da educação” (DURKHEIM, p.89).
Apesar de que cada dia a pedagogia tem ganhado cada vez mais força sendo elemento
indispensável, é importante referenciar o seguinte: o pedagogo não deve construir de alto a baixo
um sistema de ensino, como se já não existisse um antes dele, devendo, ao contrario/ empenhar-se
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sobre tudo em conhecer e compreender o sistema de sua época - esta é a condição para que esteja
apto a usa-lo com discernimento e julgar o que esta errado nele (DURKHEIM, p.91).
Entender um sistema de ensino também implica em acção diagnostica para poder modificá-lo em
uma perspectiva futura, observar aspirações para outros / novos ideais educativos no contacto de
realidade escolar (DURKHEIM, p.92). Mas ele lembra que: só a história do ensino e da pedagogia
permite determinar as metas que a educação deve buscar a todo momento. No entanto é na
psicologia que cabe procurar os meios necessários a realização destas metas (DURKHEIM, p.95),
existe uma relação entre a pedagogia e a sociologia.
Na última parte da sua obra, DURKHEIM mostra que é a pedagogia e as práticas educativas que
deveriam apenas servir para que as aptidões humanas não se perdessem ou de alguma forma
“atrofiassem” pela inactividade. Uma ideia de que “ o educador nada teria a acrescentar a obra da
natureza, não criando nada novo” (DURKHEIM, p.100).
Visto que a psicologia que tem a responsabilidade humana, a concepção era a de que apenas ela
bastaria a pedagogia e a função do pedagogo (DURKHEIM, p.100). Mas é importante observar a
influência da sociedade na formação humana. Ela “não somente eleva o tipo humano à dignidade
de modelo para o educador reproduzir, como também o constrói, de acordo com suas necessidades
(DURKHEIM, p.107).
Para DURKHEIM, o ideal pedagógico é fruto da sociedade, pois é ela que “ traça o retrato do
homem” que devemos ser, retrato no qual se reflectem todas as particularidades da sua
organização” (DURKHEIM, p.108).
O papel da sociologia é determinar os fins que a educação deve buscar “( DURKHEIM, p.114).
Segundo DURKHEIM:
“(...) já que os fins sociais da educação são sociais, os meios pelos quais estes podem se alcançados devem
necessariamente ter o mesmo carácter. E, de facto, dentre todas as instituições pedagógicas, talvez não haja nenhuma
que não seja análoga a uma instituição social, cujos aspectos principais ela reproduz de forma reduzida em como que
abreviada. Tanto na escola quanto na cidade, impõem-se uma disciplina. As regras que fixam os deveres dos alunos
são comparáveis as que prescrevem a conduta dos homens feitos” (DURKHEIM, p.116).
Devemos sempre nos concentrar no estudo da sociologia , pois é somente nela que o pedagogo vai
encontrar os principios da sua investigação. Mesmo sabendo que a psicologia aponta ao pedagogo
formas para agir sobre o indivíduo (DURKHEIM, p.118). é assim que o autor termina a sua obra,
pois para ele a sociologia pode fornecer um “ corpo de ideias directivas” que constituem como “
alma de nossas praticas”. isso resume de certeza toda relação entre educação e sociologia , isto é,
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a sociologia da um sentido dirigido a acção da educação, o que é uma condição obrigatória para
que esta acção seja fecunda.

Será que os problemas levantados pelo autor tem enquadramento na realidade


moçambicana?
Olhando a tendência do autor, quase em toda obra, para ele a educação visa a construção de um
conjunto de conhecimentos, valores e habilidades a pessoa humana como indivíduo, com vista a
manter os valores que identificam uma determinada sociedade. E ainda, Durkheim faz transparecer
a proposta de uma educação diferenciada de acordo com os estratos sociais. Analisando nesta
perspectiva, para Moçambique ficaria bastante difícil em falar em igualdade de oportunidades se
por exemplo, a classe operária receber uma educação diferente da educação das classes abastadas,
numa sociedade bastante desigual seria uma verdadeira ampliação do fosso, isto porque
desenvolvimento de conhecimento seria diferenciado.

Outro aspecto trazido pelo autor que, em Moçambique seria mesmo problemático, é que o autor
transfere quase a totalidade do processo educativo para a instituição escolar com o pretexto de
evitar anomalias sociais e manter efectivamente à estrutura orgânica desta sociedade, sendo que a
aprendizagem é um processo contínuo, não é uma tarefa exclusiva da Escola, o processo é muito
mais amplo do que isso, as comunidades, as famílias e as respectivas autoridades corporizam o
sistema educativo, por isso a escola em Moçambique envolve esses actores de forma activa.
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Bibliografia

DURKHEIM, Émile: Educacao e Sociolog. S/edição, Editora Vozes, 2011, Rio de Janeiro / Brasil.