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QUEM

FUNDAÇÃO JOSÉ SARAMAGO MENSAL OUTUBRO 2020

DIZ É
QUEM
´
À MESA DA
HISTÓRIA/OS
ESCRITORES
PERANTE O
RACISMO
BLIMUNDA 99
Editorial
A PRAGA
Leituras
SARA FIGUEIREDO COSTA
Estante
ANDREIA BRITES E SARA FIGUEIREDO COSTA

À MESA DA
HISTÓRIA SARA FIGUEIREDO COSTA
A CASA DA ANDREA
ANDREA ZAMORANO

QUEM DIZ
É QUEM É
And the winner is... / Espelho Meu
ANDREIA BRITES

OS ESCRITORES
PERANTE O RACISMO
JOSÉ SARAMAGO
AGENDA
Epígrafe
JOSÉ SARAMAGO
blimunda n.º 99 outubro 2020 Fundação
José Saramago
DIRETOR
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EDITORIAL
A PRAGA
Em 1996, num texto intitulado «Os escritores perante
o racismo», que se publica na secção Saramaguiana desta
edição da Blimunda, José Saramago escrevia sobre o papel
que os escritores, e, mais do que estes, todos, deveríamos
assumir perante a praga do racismo. Hoje, passados mais
de vinte anos, continua a parecer inverosímil que tenhamos
de continuar a afirmar-nos como anti-racistas. Mas a
História, com exemplos que chegam de várias pontos do
mundo, cada vez mais, é preciso que o digamos, continua a
demonstrar-nos que essa é uma tarefa inacabada.
Falando deste rectângulo, que continua a ser o último
ponto de chegada do que muito de mau acontece pelo
mundo, temos assistido nos últimos anos ao crescimento
das manifestações de discriminação, seja através de
pinturas em paredes, das palavras de titulares de cargos
públicos, que por obedecerem à constituição deveriam
ser impedidos de os manter, ou de acções que resultam
em ataques físicos ou na morte de cidadãos que sofrem
pelo único facto de terem uma cor de pele diferente ou
por estarem do lado oposto de quem alimenta a praga.
E também por tudo isto é claro que o racismo estrutural
existe, está aí, sempre esteve. O que durante muito tempo
não se afirmava por ser “politicamente incorrecto” volta a
sair à rua com uma força que alguns julgavam inimaginável.
Na Fundação José Saramago levantamos a voz
contra a praga e até ao final de 2020 dedicamos a nossa
programação regular ao tema do anti-racismo. E fazemo-
lo ouvindo quem o estuda, quem o sofre, quem o denuncia.
Porque o silêncio é uma forma de conivência.
SARA FIGUEIREDO COSTA
LEITURAS

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A poesia de Louise Glück
«Al tratar Troya se cuestiona
si la guerra es un pasatiempo
masculino, 'un juego pensado
para eludir cuestiones profundas
espirituales'».
No suplemento Babelia, do diário espanhol El País,
Andrea Aguilar assina um texto sobre a poesia de Louise
Glück, a mais recente distinguida com o Prémio Nobel da
Literatura, um galardão que a Academia Sueca lhe atribuiu
«pela sua inconfundível voz poética que, com austera
beleza, torna universal a existência individual», como se
lia no comunicado que acompanhou o anúncio do prémio.
No texto de Aguilar, percorrem-se os vários livros da poeta
norte-americana, traçando-se algumas linhas temáticas
e estilísticas e cruzando a biografia com a escrita. «Los
versos de Glück no son confesionales, aunque su vida
y su biografía latan ahí mismo. Nacida y criada en un
suburbio de Long Island, su padre, —una presencia velada
y recurrente en sus poemas a quien define como “plomo”
atado a los tobillos de su madre—, inventó un cuchillo,
un detalle que como han apuntado varios críticos parece
tener un sentido especial tratándose de una poeta que
tan bien disecciona el mundo. Estudió en Sarah Lawrence
y en Columbia, pero no se graduó en ninguna de las dos
prestigiosas universidades. Padeció anorexia nerviosa y
tiene un poema titulado “Dedicación al hambre”. El mundo
clásico y los mitos —como ocurre con otra de las grandes
poetas norteamericanas Anne Carson— han sido uno de
sus grandes temas. Al tratar Troya se cuestiona si la guerra
es un pasatiempo masculino, “un juego pensado para eludir
cuestiones profundas espirituales”. Glück es capaz de
narrar la historia, de acercarla y alejarla e introducir crítica,
reflexión y sentimiento.» 4

Coragem e medo
«Poucas coisas têm sido tão
necessárias quanto a coragem,
aliás, num mundo que faz do
medo e da morte suas faces mais
frequentes».
A partir de uma história de Eduardo Galeano sobre o
medo e o seu modo de nos invadir, o escritor brasileiro
Julián Fuks assina a sua habitual crónica no site UOL,
reflectindo sobre o presente de todos os medos e sobre
a necessidade de clarificar alguns conceitos, para não
nos perdermos de vez: «A vida, o que ela quer da gente é
coragem, citaríamos a mais célebre frase de Guimarães
Rosa e cairíamos na estrada, dispostos a retomar tudo o
que nos roubou o inexorável medo da morte. Mas não,
os tempos simples, os tempos heroicos, se alguma vez
existiram, já pertencem ao passado. Hoje, sair ou não
sair da gaiola pressupõe um cálculo complexo de riscos
pessoais e comunitários, cujo resultado final envolve
o dano possível que infligiremos ao outro no ansiado
exercício da nossa liberdade.» A coragem parece precisar
de um incentivo, mas talvez mais importante seja precisar
o que se entende por coragem, em vez de confundir ideias
que promovem mais violência do que garantem igualdade:
«Coragem é mais uma entre as palavras que perdemos
num debate público que insiste em se brutalizar. Tornou-se
bordão vazio de empreendedores, ou exortação repetida
ao infinito por intrépidos conselheiros motivacionais. Em
sua pior face, tornou-se algo mais atroz: é a palavra que
impera no autoelogio dos desbocados, dos prepotentes,
dos despóticos. Creem-se corajosos os que alardeiam
velhos dizeres preconceituosos, os que emprestam sua voz
à replicação de equívocos históricos, realizando com sua
falsa coragem nada mais que a propagação do medo. É o
ponto exato em que a coragem se converte em opressão,
em que coragem e covardia se tornam uma coisa só,
indiferenciável. Mas não, não é aceitável que o termo se
deixe assim conspurcar, não cabe abdicar sem luta de
uma palavra forte e valiosa. Poucas coisas têm sido tão
necessárias quanto a coragem, aliás, num mundo que faz
do medo e da morte suas faces mais frequentes — ou, mais
precisamente, num país que adotou o medo e a morte
como políticas de Estado. Cumpre, então, estabelecer a
clara distinção entre coragem e violência, entre coragem e
irresponsabilidade.» 4

Audre Lord no Brasil


«Precisamos dizer quem somos
com nome e sobrenome, como
nos ensinou Lélia Gonzalez, para
que o racismo não nos nomeie
como João urubu, chocolate, nega
fulana, Maria preta».
Uma das últimas edições do suplemento cultural brasileiro
Pernambuco dedica o tema de capa a Audre Lord e
Cidinha da Silva escreve sobre a recepção crítica desta
autora no Brasil, onde as primeiras traduções surgiram
no início deste século. «A propósito, Jess Oliveira, uma
das várias profissionais negras convidadas pelas editoras
Bazar do Tempo, Elefante, Relicário e Ubu para chancelar
as publicações, afirma na apresentação de A unicórnia
preta, volume traduzido por Stephanie Borges, ser
“imprescindível que recebamos a poesia de Lorde como
continuidade e extensão de nossos legados na diáspora”. E
prossegue: “Audre é nossa irmã, não uma grande novidade
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do norte, tampouco um produto editorial”. Compreendo
a intenção do discurso afirmativo, principalmente no que
concerne à crítica à transformação de autoras insurgentes
como Lorde em “produto editorial”, da mesma forma
que conseguiram transformar a comunista Angela Davis
em ídolo pop durante sua passagem pelo Brasil em
2019; contudo, assinalo um descuido no entendimento
da hierarquia não opressora, aquela precedência no
tempo que configura autoridade e que aceitamos com
naturalidade. O trabalho artístico e o pensamento de
Audre Lorde, tal como o pensamento de Lélia Gonzalez,
Luiza Bairros, Beatriz Nascimento, Clementina de Jesus,
Carolina Maria de Jesus, Maria Firmina dos Reis, Ruth
Guimarães, Ivone Lara, Jovelina Pérola Negra, Iyá Stella de
Oxóssi, Tereza Santos, Makota Valdina, Mercedes Batista,
Marlene Silva, Mãe Beata de Yemonjá, Elizeth Cardoso,
e das que ainda estão entre nós, como Sueli Carneiro,
Leda Maria Martins, Assata Shakur, Angela Davis, Bell
Hooks, Ochy Curiel, Denise Ferreira da Silva, Conceição
Evaristo, Alaíde Costa, Léa Garcia, Leci Brandão, entre
outras, não são “continuidade e extensão de nossos
legados na diáspora”. São fundamento. Elas são as raízes
a partir das quais nós, mulheres negras mais jovens
de diferentes gerações, brotamos. Nós é que somos a
continuidade e extensão do legado delas na diáspora,
um legado que, repito, é fundamento.» O ensaio, longo
e muito documentado, percorre as muitas dimensões
da obra de Audre Lord, com elas dialogando a partir das
muitas realidades brasileiras, sempre com os movimentos
sociais em pano de fundo: «Precisamos ler Audre Lorde
porque ela nos ensina o fundamento da autodefinição.
Nós, mulheres negras, devemos dizer ao mundo quem
somos, não o contrário. Nesse mundinho de disputas
de representatividade, digo, de caçada às pessoas
representativas que legitimem os novos projetos do
pensamento velho que ocupa lugares de poder e decisão,
essa lição faz ainda mais sentido. Nesses tempos e lugares
precisamos dizer quem somos com nome e sobrenome,
como nos ensinou Lélia Gonzalez, para que o racismo
não nos nomeie como “João urubu”, “chocolate”, “nega
fulana”, “Maria preta”. Cumpre-nos, também, definir como
devemos ser apresentadas, por meio das credenciais
relevantes para nós mesmas e não para os interesses dos
interlocutores que se locupletam de nossa presença preta
em certos lugares.» 4

Pandemia e desigualdades
«O Brasil concentra 77% das
mortes de gestantes e puérperas
pela doença registradas no mundo.
O risco de morte das mulheres
negras tem sido quase duas vezes
maior do que o das brancas».
Na revista brasileira Quatro Cinco Um, Márcia Lima
escreve sobre o modo como a pandemia de COVID-19
tem sido um elemento intensificador de desigualdades
há muito presentes. Dois excertos: «Esse cenário
distópico tem nos levado a apresentar alguns dos piores
indicadores internacionais relacionados à pandemia.
Soa como um projeto de manutenção das desigualdades
sociais construídas de forma interseccional: raça e etnia,
classe e território, gênero e sexualidade se intercruzam
na produção das desigualdades sociais e na distribuição
de poder na sociedade. Na condição de quem investiga,
leciona e escreve há trinta anos sobre a temática das
desigualdades raciais e de gênero no Brasil, vejo-me
perplexa. Essa perplexidade vem do fato de que, mesmo
diante de mais de 100 mil mortes, o projeto em curso
vem para tornar ainda piores essas desigualdades. Essa
conjuntura destacou as fragilidades do acesso à saúde
no país, especialmente dos mais pobres e negros,
mostrando os impactos da pandemia sobre nossas
desigualdades. Mas não se trata apenas da esfera da
saúde. Os âmbitos do trabalho, da educação, da renda, da
violência doméstica e da violência policial têm revelado e
aprofundado nossas desigualdades.»
«A interface raça, gênero e saúde revelou inúmeras
situações dramáticas, uma delas na saúde reprodutiva. É
digna de nota a reportagem da jornalista Claudia Collucci,
publicada em julho na Folha de S.Paulo, que demonstra
que o Brasil concentra 77% das mortes de gestantes e
puérperas pela doença registradas no mundo. Com esse
estudo, concluiu-se que o risco de morte das mulheres
negras tem sido quase duas vezes maior do que o das
brancas. O tema da saúde reprodutiva sempre foi item
de destaque na agenda das feministas negras. Demandas
por políticas de equidade racial no SUS são de longa
data. Entretanto, alguns avanços — como a inclusão
do quesito raça/cor nos repositórios de informações do
sus e a criação do Programa Nacional de Saúde Integral
da População Negra — são limitados pelo processo de
implantação e gestão das políticas, como, por exemplo, os
problemas de subnotificação. As desigualdades materiais
— relacionadas a acesso a produtos e recursos — são as
que mais se evidenciam em análises e pesquisas sobre o
tema. Circunscritos ao mercado de trabalho e à renda, os
resultados das investigações demonstram que as clivagens
étnico-raciais e de gênero aumentam a vulnerabilidade
desses grupos, em especial das mulheres negras.» 4
SARA FIGUEIREDO COSTA
LEITURAS
Cristais de diamante
e farpas de carvão

CARBONO
ALEX GOZBLAU
FLAN DE TAL
A colecção elemeNtário, da editora Flan de Tal,
nasceu para assinalar os 150 anos da criação da tabela
periódica pelo cientista russo Dmitri Mendeléev, em
1869. O modelo que representa os elementos químicos
conhecidos, fornecendo informações sobre algumas
das suas características, é um dos instrumentos que nos
permite organizar o modo como percebemos o mundo,
mesmo que não consigamos ver a olho nu muitos dos
itens elencados.
Alex Gozblau integra esta colecção com Carbono,
um livro sobre o elemento que integra o grupo 14 da
tabela periódica. Dependendo das condições, o carbono
pode existir sob a forma de diamante ou ser apenas uma
massa dura, ainda que facilmente erosiva, que suja as
mãos que a tocam. Sob a forma de grafite, o carbono
permite riscar traços no papel e é essa a primeira relação
que se estabelece entre as imagens criadas por Gozblau
e o elemento químico que lhes serve de ponto de partida.
A preto e branco, tirando partido das sombras, do
contraste e do efeito de dispersão – que permite criar
zonas “sujas” em muitas imagens, onde o carvão parece
ter-se espalhado em pequenas partículas – as imagens
que estruturam este livro surgem acompanhadas de
pequenos textos, quase legendas, estabelecendo-se
entre ambos uma relação poucas vezes unívoca, sempre
desencadeadora de possibilidades interpretativas, de
leitura e, sobretudo, de associação livre. São frases
que parecem adágios, sortilégios, breves comentários
sobre a existência e o seu desnorte. E são igualmente
fragmentos, como se cada página nos concedesse o
privilégio de um acesso, mesmo que efémero, a histórias
de outras pessoas, que não sabemos como começaram,
nem como acabarão. E num modo não isento de
melancolia, marcado sobretudo pela possibilidade de
reconhecimento, esse acesso acaba por ser também às
nossas histórias.
Falhanços assumidos, como o do pássaro caído no
chão e o texto forçando a lembrança de uma suposta
vitória prévia, contrastes que insinuam o medo, como o
da imagem de um homem e uma criança de mãos dadas
(pai e filho?), acompanhada por um texto que declara
que «Seremos sempre capazes de um pouco mais de
horror», notificações regulares sobre a impossibilidade
de parar o tempo – e, inevitavelmente, a morte –, de
todos esses fragmentos que inevitavelmente integramos
naquilo a que chamamos mente se faz este Carbono. «"A
partir daqui, somos inimigos", disse ao seu passado.»
O texto acompanha a imagem de uma mão segurando
no cabo de um espelho, reflectindo uma boca aberta
(Falando? Gritando?). Nada mais nos é dado a ver ou a
ler e a relação com as imagens anterior e posterior não
estabelecem uma sequência narrativa. Podemos criá-la,
apoiados no reconhecimento de algumas personagens
em diferentes vinhetas, na frequente referência ao
passado, ao tempo que passa, aos ecos sempre presentes
entre memória e quotidiano. Com tantas declinações
materiais possíveis, o carbono é uma poderosa metáfora
para a nossa cabeça cheia de camadas e para a nossa
decadência física, ilustrando igualmente todos os
lampejos de grandiosidade, as ilusões de eternidade,
os sonhos que umas vezes se concretizam e outras se
estilhaçam. Existimos em tudo isso, parece, e as formas
nobres como o cristal diamantino também pode ser
carvão ganham aqui um significado que ultrapassa a
arrumação de elementos numa tabela. Afinal, organizar
o modo como percebemos o mundo nunca é um gesto
concluído.
ANDREIA E S T A N
BRITES
SARA FIGUEIREDO T
COSTA E

LAS COSAS COMO SON


Y OTRAS FANTASÍAS
PAU LUQUE / ANAGRAMA
Cruzando os mundos da arte e da moral, o filósofo catalão
Pau Luque reflecte sobre a autonomia dos criadores e as
muitas esquinas que fazem desta uma questão com mais
perguntas do que respostas. Com este livro, o autor venceu a
última edição do Prémio Anagrama de Ensaio.
CONTOS ARREPIANTES
DA HISTÓRIA DE
PORTUGAL: IDADE
MÉDIA MEDONHA
RUI CORREIA, ANTÓNIO F. NABAIS
HÉLIO FALCÃO / NUVEM DE TINTA
Em pequenos capítulos se contam episódios sangrentos,
intrigas, jogos de poder e curiosidades de alcova que,
carecendo de verificação factual, contribuem para uma ideia
mais ampla da Idade Média em Portugal. Desde a ocupação
árabe até à crise de 1383-1385, narram-se momentos dos
diversos reinados da Primeira Dinastia, em tom coloquial e
muito acessível. A espaços, tecem-se comentários sobre a
violência da época, alerta-se para arbitrariedades e injustiças
e ainda se estabelecem paralelos com o presente histórico
como ferramenta de aproximação ao tema. As ilustrações
roçam a caricatura e o vermelho e negro dão ainda mais
força à crueldade e ao terror que se explora como gancho
para prender a atenção dos leitores.
MULHERES
INVISÍVEIS
CAROLINE CRIADO PEREZ
RELÓGIO D'ÁGUA
Vencedor do Royal Society Science Book Prize 2019, este
livro traça um percurso por dados de diferentes indústrias,
serviços e valências – da medicina aos cintos de segurança
dos carros, do tamanho dos telemóveis aos modos de
assumir o que é e não é trabalho – , a autora mostra que o
mundo continua a ser construído por e para homens.
POESIA
LUÍS MIGUEL NAVA
ASSÍRIO & ALVIM
Reunião da obra poética de Luís Miguel Nava, autor
português desaparecido em 1995, incluindo alguns poemas
inéditos e vários dispersos. Como se lê na introdução de
Ricardo Vasconcelos, responsável por esta edição, «a
relevância da edição da Poesia que agora se apresenta
é de assinalar por não só incluir todos os poemas que o
autor publicou em vida, mas também por trazer a público
um conjunto muito substancial de textos inéditos ou
parcialmente inéditos […], que são apresentados devido
à sua qualidade e ao facto de contribuírem para uma
compreensão mais global da escrita de Nava.»
O LIVRO DAS MINHAS
EMOÇÕES
STÉPHANIE COUTURIER
MAURÈEN POIGNONEC / JACARANDÁ
Se o título o indica, a capa inventaria as emoções que
povoam o álbum. A narrativa que serve de pano de fundo
à exploração dos vários estados de espírito acompanha a
protagonista ao longo de uma semana. A cada dia, uma
emoção despoletada por uma situação quotidiana: uma
amiga que não quer brincar, um fato de banho para a irmã,
um passeio de bicicleta sem rodinhas, um lobo de uma
brincadeira que regressa na hora de dormir, um encontro
com amigos no parque. Para cada emoção, um pequeno e
ternurento monstro e um conselho para reagir à emoção que
se instala. Em alguns casos, o livro traz janelas que permitem
ver a alteração de humor de Ema, depois de resolver a
questão interior que a perturba. Mas não apenas de emoções
negativas vive a menina e também o orgulho e a alegria a
brindam com a sua presença.
OS RAPAZES
DE NICKEL
COLSON WHITEHEAD
ALFAGUARA
Depois de A Estrada Subterrânea, onde as rotas de fuga
dos escravizados nos Estados Unidos da América eram
o cenário central, Whitehead regressa com um romance
que acompanha a amizade de dois rapazes presos num
reformatório norte-americano que, por trás da fachada
de rigor e correcção, esconde uma verdadeira câmera de
horrores.
OS ÚLTIMOS MIÚDOS
NA TERRA: O ALÉM-
MUNDO CÓSMICO
MAX BRALLIER / DOUGLAS HOLGATE
PRESENÇA
Continua, neste quarto volume, a saga dos últimos miúdos
na Terra. Agora que sabem da existência de uma colónia de
humanos escondida na Estátua da Liberdade e que convivem
em perfeita harmonia e diversão com um grupo de monstros
amigáveis, nova peripécia se avizinha. Uma vilã humana ao
serviço do grande monstro ancestral que tudo fará para os
destruir não dará tréguas ao grupo para levar a cabo uma
missão destruidora. O ritmo continua acelerado, com Jack a
narrar no momento do acontecimento. Apesar da agitação
permanente, do perigo constante, o protagonista ainda tem
tempo para tecer comentários sobre os pares: Quint, o seu
melhor amigo e inventor de excelência, June, a sua paixoneta
e Dirk, o mais forte de todos. Em suma, tudo continua sem
desvios para júbilo dos seguidores da saga.
TODAS AS CARTAS
CLARICE LISPECTOR
ROCCO
Selecção de um conjunto de cartas, de entre as muitas
que Lispector escreveu ao longo da vida, onde se incluem
destinatários como João Cabral de Melo Neto, Rubem Braga,
Lêdo Ivo, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Nélida
Piñon, Lygia Fagundes Telles, Natércia Freire ou Mário de
Andrade. Algumas já haviam sido publicadas em diversos
volumes, mas cerca de centena são inéditas.

E
S
T A N T E
àsara
figueiredo

mesa
costa

da
his-
tória
à mesa da História

Foi com Cinco Séculos à Mesa


que Guida Cândido se revelou
ao grande público, num livro
cheio de belas imagens que
oferecia aos leitores um
percurso pela história da
cozinha portuguesa a partir
de uma mão cheia de livros
de receitas – do Livro de
Cozinha da Infanta D. Maria
de Portugal a O Livro de
Mestre, de João Ribeiro. Antes
disso, já a autora desbravava
os caminhos da gastronomia,
sempre cruzados com os
da história, da cultura, da
economia e da sociedade.
à mesa da História

Investigadora na Universidade de Coimbra, a alimentação e


tudo o que com ela se relaciona, das práticas da vida quotidiana às
mesas de festa, do cultivo e da recolha aos períodos de carência,
tem sido o seu objecto de estudo nos últimos anos. Sobre a Figueira
da Foz, onde reside, co-organizou (com Margarida Perrolas) um
receituário que reflete as mesas de todas as classes sociais e através
do qual se descobrem as artes da pesca, a agricultura, as influências
culturais e os hábitos que foram integrando o gosto local (A Nossa
Mesa: receituário gastronómico da Figueira da Foz, 2015). Já depois
de Cinco Séculos à Mesa, publicado em 2016 e premiado como
Livro do Ano pela Portugal Cookbook Fair, Comer Como Uma
Rainha (2018) percorria o receituário real entre os séculos XVI e
XX, mostrando o que se comia nas reais mesas portuguesas, tendo
vencido o prémio de Literatura Gastronómica 2019, atribuído pela
Academia Internacional de Gastronomia.
A abordagem da autora não passa pela simples transmissão de
receitas culinárias ou pelo ensinar a cozinhar este ou aquele prato.
Não é que essa vertente esteja ausente dos seus livros, e quem
seguir as receitas terá o seu esforço degustativo recompensado,
mas o trabalho de Guida Cândido é o da pesquisa aturada por
entre a história e as muitas histórias da gastronomia portuguesa,
com atenção às influências transmitidas e recebidas e com um
olhar muito particular sobre a importância da memória, os muitos
patrimónios familiares associados à comida e a certeza de ser a
mesa um lugar de afectos partilhados. A Blimunda conversou com
a autora a propósito do seu novo livro, A Vida Secreta da Cozinha
Portuguesa (D. Quixote), que mergulha nos arquivos da história
gastronómica para encontrar as primeiras versões atestadas de
algumas das receitas que compõem o nosso paladar comum. Entre
à mesa da História

o arroz-doce vindo da mesa dos monges de Tibães e o coelho à


caçador registado por João da Matta, há muito para cozinhar e
provar. E há, sobretudo, muitas histórias para conhecer e relações
nem sempre imediatas que se estabelecem entre o fogão, a mesa e a
comunidade que os utiliza.

Depois de percorrer os livros de receitas feitos em Portugal


(em Cinco Séculos à Mesa), agora recorre a essa bibliografia
para encontrar as primeiras versões registadas de certas
receitas que definem, de algum modo, uma ideia de «cozinha
portuguesa». Como nasceu este livro?
O livro nasceu de forma muita espontânea em conversas
informais com muitos profissionais da área da história da
alimentação, da gastronomia, da culinária e da restauração. Fui-me
apercebendo que os conhecimentos sobre as origens e identidades
da dita cozinha tradicional portuguesa eram campo fértil na
manutenção de equívocos, dúvidas, incertezas, especulações, mas
também muitos fundamentalismos. Em 2018 tinha editado o Comer
como uma Rainha, que abarcava um universo muito particular da
mesa régia e da cozinha refinada. Tinha em mente um novo projeto,
bem distinto desse, mas acabei por ser empurrada para este tema que
agora abordo, precisamente porque eu própria fiquei mais desperta
para todas essas questões e dúvidas e queria respostas. No Cinco
Séculos à Mesa ancorei a pesquisa em cinco tratados fundamentais
da culinária, um por cada século. Na presente publicação, precisei
de 18 livros de cozinha para contar esta história que, obviamente,
carece de continuidade e aprofundamento uma vez que a seleção
de 50 receitas é redutora... por economia de espaço, fica, assim, a
possibilidade do volume II num futuro próximo.
à mesa da História

Ficamos a saber que até ao século XIX, a ideia de uma


cozinha portuguesa com características definidoras (e,
portanto, capazes de a distinguirem de outras cozinhas)
era pouco estável, havendo mesmo quem registasse a
nossa maior queda para a imitação do que vinha de fora,
nomeadamente de França... Apesar disso, sempre se
comeram alguns dos pratos aqui referidos, por vezes desde
há muito tempo, mesmo que os registos não os tenham
«apanhado» antes. Afinal, parece que não havia noção –
sobretudo junto das classes mais abastadas e letradas, as
que tinham acesso a refeições elaboradas e com espaço
para a inovação e as que podiam registar receitas em livros –
dessa «cozinha portuguesa», ainda que ela existisse. É assim?
A questão é sensível e de difícil resposta. No campo da história
não podemos fazer afirmações que não sejam baseadas em fontes.
Ora, neste particular, e concretamente em termos de receituário,
as afirmações válidas que podemos fazer estão obrigatoriamente
relacionadas com os livros de cozinha, com as receitas escritas.
Assim, embora seja provável e legítimo pensar que as receitas
que se preparavam não seriam apenas as que se registaram em
livros, não o podemos provar. A democratização do livro é algo
historicamente recente. Da época medieval não temos nenhum
livro de cozinha. É preciso entrarmos na época moderna para
termos conhecimento do que se praticava na cozinha de corte
com o mais antigo livro de cozinha português, o designado Livro
de Cozinha da Infanta D. Maria (datado do XVI). É de 1680 o
primeiro livro impresso em Portugal, e de apenas um século
depois o segundo. Um hiato enorme. Esta escassa produção não
caldo
verde
coelho à
caçadora
cozido à
portuguesa
arroz
doce
à mesa da História

nos permite inferir sobre a generalidade da cozinha portuguesa.


É um registo que está confinando a um grupo social privilegiado
que consome, por regra, o que se consome nas restantes cortes
da Europa, à época. Existem, no entanto, outras fontes indiretas
que nos permitem conhecer os alimentos que são consumidos
pelas populações, como as pragmáticas, a legislação sinodal, e
mesmo os textos dramatúrgicos de que é um bom exemplo a
Compilação de Gil Vicente, e tantos outros que nos dão conta
dos alimentos, mas não nos informam sobre a sua preparação.
Todavia, das receitas que selecionei, 1/5 encontram-se em fontes
até ao século XVII, umas mais alteradas que outras. Não chegam
a 2/5 as codificadas no século XX. As restantes estão nos séculos
intermédios. Esta amostragem pode ser reveladora que, de facto,
parte desse receituário que temos como tradicional e com que nos
identificamos, remontam a tempos bem recuados e já eram uma
escolha dos grupos com acesso ao livro e à escrita.

Neste livro distingue-se o momento em que uma determinada


receita surge registada num livro de cozinha da eventual
primeira vez em que tal receita foi confeccionada – o caso
do escabeche, por exemplo, mas também de muitos outros
pratos e técnicas. Era frequente estas receitas chegarem aos
livros quando há muito faziam parte da tradição culinária?
Como é que isso acontecia, ou seja, como é que estes
autores, sobretudo os mais antigos, decidiam a inclusão de
uma determinada receita que provavelmente já conheciam
há muito?
Não tenho como responder a esta questão. Tal como afirma, e
é muito importante ressalvar, este estudo indica apenas e tão só o
à mesa da História

primeiro registo escrito conhecido dum conjunto de receitas. Nada


indica que não possam ser consumidas antes, e até de forma muita
expressiva. A sua inclusão ou exclusão dos manuscritos e livros
não encontra resposta que não seja no campo da especulação. Se
atentarmos no que nas nossas casas se passa, podemos supor que
em muitas circunstâncias registamos as receitas especiais, dos
dias festivos, as que não são usuais na mesa do quotidiano. Não
por acaso, em muitos cadernos de cozinha de receitas de família,
o que sobressai é a doçaria, associada essencialmente aos dias de
festa, como o Natal. Ou, noutras ocasiões, receitas que envolvem
questões técnicas mais elaboradas e que, nessa medida, não são
praticadas no dia a dia e por isso não se fixam com a mesma
facilidade dos pratos comuns.

A ideia de tradição invoca-se muitas vezes associada a uma


determinada forma de fazer algo, normalmente aquela
que melhor conhecemos, mas a tradição é mais maleável
do que o nosso apego leva a crer e a origem daquilo que
conhecemos pode estar muito longe do que imaginamos.
Concorda?
Sem dúvida. Temos muita dificuldade em recuar mais do que as
cozinhas das nossas avós, no limite, das nossas bisavós. São essas
memórias que perpetuamos e que julgamos imutáveis. Dificilmente
encaramos com facilidade a hipótese de antes ser de outra forma.
Essa é a nossa herança gastronómica e somos muito fiéis a essa
matriz. O que gera equívocos porque as diferenças regionais são
enormes, moldadas elas também pelos aspetos sociais e económicos
dos diferentes grupos sociais. Ora esse conjunto de diversidades
e particularidades cria a ideia que, tradicional, é o que se faz em
à mesa da História

nossa casa e quando nos deparamos com outras variações de uma


mesma receita, tendemos a questionar a sua veracidade e a rejeitar.
Levanta-se a questão do que se entende por cozinha tradicional?
Qualquer afirmação convicta de originalidade e pertença de diversos
pratos associados ao que se infere por tradicional, deverá ser alvo de
interrogação e validação da sua interpretação. No mais, a questão
basilar assenta na definição do próprio termo tradicional. A palavra
tradição, e tudo o que ela encerra, decorre essencialmente da
propagação de um uso, durante um longo ciclo, constituindo um
património que insiste em viver na memória coletiva e que se revela
em normas sociais atuais, ainda que muitas vezes com um caráter
pontual. São práticas culturais, populares, religiosas, familiares e,
inevitavelmente, gastronómicas.

Este apego à tradição no que à culinária diz respeito


pode ser também um modo de nos apegarmos àquilo a
que poderíamos chamar identidade? Até que ponto o que
cozinhamos e o modo como comemos têm um papel nesta
identidade?
Enraizados no espaço e no tempo, os processos alimentares
de um território são reveladores de um estado da sociedade
e, consequentemente, das suas mentalidades. Constituem,
bem entendido, heranças daqueles que viveram antes de nós e
testemunhos de modos alimentares anteriores. Os pratos que se
consideram património cultural e gastronómico de um território
têm a particularidade de criar vínculos e sentimentos de pertença
a um local, a uma comunidade. Resgatam o passado e perpetuam a
memória num exercício que visa a continuidade no presente e que
se deseja no futuro.
à mesa da História

As tradições que mantemos, as questões alimentares


relacionadas com as festividades e os ciclos da vida são um
repositório de saberes, crenças, hábitos e costumes que importa
analisar e salvaguardar. Constituem hábitos que perpetuam
lembranças e recordam a necessidade de preservar valores e
conhecimentos. A transmissão oral ou escrita de usos e costumes
culinários com práticas conservadas por ação da memória,
adquirem um valor ritual e simbólico.

Todas estas receitas foram experimentas por si? Que


dificuldades surgem na sua confecção, pensando que
as nossas cozinhas domésticas mudaram muito e que as
técnicas e processos podem não estar adaptados ao que
temos à disposição?
Excelente questão. Muitas pessoas me colocam essa questão.
As receitas que selecionei, no geral, não apresentam dificuldade
de confeção para a generalidade das pessoas. As nossas cozinhas
evoluíram bastante, mas isso só vem facilitar alguns processos.
Claro que tem de se ter em conta essa evolução e adaptar tempos,
sobretudo. Quanto aos ingredientes, também não existem muitas
excentricidades que não estejam ao nosso alcance. Preparei a
maioria das receitas. Tive ajuda de cozinheiros profissionais em
algumas não por uma questão de dificuldade, mas por economia de
tempo para ter os conteúdos preparados atempadamente e porque
me agrada sempre poder envolver outras pessoas neste processo
de conceção e concretização de um livro. No caso, além de bons
profissionais são, igualmente, bons amigos e pessoas que acreditam
na importância da defesa da nossa herança gastronómica,
praticando-a nas suas cozinhas.
à mesa da História

Esta ideia de juntar uma vertente de pesquisa histórica e


cultural com a apresentação das receitas propriamente
ditas, criando um livro que não é o simples livro de receitas,
mas que também não é um livro encerrado na história
gastronómica, mas talvez um híbrido, chamemos-lhe assim,
tem sido constante no seu trabalho. Porquê? O que a faz
juntar os dois «discursos»?
Recordo-me que quando publicámos o Cinco Séculos à Mesa,
durante uma reunião de equipa antes do lançamento, discutia-se
a questão da localização do livro em loja. A minha editora tinha
algumas dúvidas se o deveriam encaminhar para as prateleiras da
História ou para a Gastronomia. Como bem diz, são híbridos e esse
registo é o que formaliza de alguma forma os domínios que me
interessam. Por um lado, existe uma vertente muito clara da minha
posição enquanto investigadora e que é uma parte absolutamente
imprescindível neste trabalho. Por outro, consigo agregar a essa
componente que considero diferenciadora nestas publicações, a
vertente prática que é mais imediata na apreensão pelo público. Na
generalidade, muitas pessoas cozinham... eu também. A cozinha,
a preparação das refeições está presente no meu quotidiano e a ela
dedico uma parte significativa do tempo. Aprecio a preparação das
refeições, na mesma medida, agrada-me a partilha da mesa com
os que me são próximos. No fundo é também a possibilidade de
poder trabalhar uma área em que não tenho formação técnica, a
culinária e aplicar a sensibilidade e o gosto pela composição, o food
styling e a fotografia. Trata-se de uma trilogia camiliana: «Coração,
Cabeça e Estômago». Considero que é um casamento feliz.
Resgatando de novo um título do nosso Camilo Castelo Branco,
espero que sejam pelo menos «Doze Casamentos Felizes»!
Nasci na Azinhaga:
sentimentalmente
somos habitados por
uma memória.

Exposições
livraria
biblioteca
auditório

Terça a sábado
Abr a Set —
10h às 13h / 15h às 19h
Out a Mar —
10h às 13h / 15h às 18h
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A Casa da Andrea

QUEM TEM
MEDO DE JP
CUENCA?

Andrea Zamorano
Infelizmente, como diria Barthes, «a linguagem humana
é sem exterior: um lugar fechado. Só se pode sair dela pelo
preço do impossível: pela singularidade mística…» São as
frases, os versos, os textos, as parábolas atreladas a metá-
foras, metonímias, personificações ou até paródias que do-
tam a linguagem de significações novas, às vezes poéticas
outras espirituais embora todas permitam ao indivíduo ul-
trapassar o limite do sentido literal. É a linguagem figurada
que cruza a fronteira do denotativo.
Imaginem São João dizendo, «no princípio era o Verbo,
e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus». Como sa-
bemos, ninguém pode ser um verbo, muito menos um ver-
bo que se pretende um substantivo, mais ainda, em «nome
próprio». É a metáfora que nos permite compreender que
não estamos a falar apenas de uma unidade de significação
gramatical mas antes de Jesus, e que Jesus é Deus.
No exercício da sua liberdade individual, religiosa e de
culto, aqueles que professam a fé bíblica baseiam-na no seu
livro sagrado que consagra narrativas figurativas de beleza,
de crueldade, de vida, de morte e até de questionamen-
to quantos os critérios da justiça divina, como no caso do
Livro de Jó. Não é possível retirar a literatura da Bíblia tal
como é possível retirar a metáfora da literatura.
Por isso não é crível que um líder religioso não com-
preenda um texto no sentido figurado. Tal como são capa-
zes de os entender, do mesmo modo compreendem que o
autor JP Cuenca não pretendia que nenhum pastor da Igre-
ja Universal do Reino de Deus fosse literalmente enforcado
quando publicou na sua conta do Twitter «o brasileiro só
será livre quando o último Bolsonaro for enforcado nas tri-
pas do último pastor da Igreja Universal».
A construção é uma subversão do sentido estrito e per-
mite extrapolar uma primeira interpretação, levando-nos
para outras camadas de significação. Originalmente a frase
não é do autor, ele apropriou-se de uma frase de Jean Mes-
lier, do século XVIII, parodiada inúmeras vezes ao longo da
J
P

C
U
E
N
C
A
história — «O homem só será livre quando o último rei for
enforcado nas tripas do último padre» — para exercer o seu
direito de indignação e de liberdade de expressão diante
da possibilidade de promulgação de uma lei que favorece
instituições religiosas com um perdão fiscal, com a anula-
ção das dívidas tributárias das igrejas.
Ao parafrasear Meslier, a publicação foi o ponto de
partida para uma perseguição levada a cabo por mais de
cento e vinte pastores da Igreja Universal do Reino de Deus
que exigem indemnizações por danos morais, o valor to-
tal ultrapassa os dois milhões de reais. A ação aparenta ser
concertada, e é dispersa por pequenas localidades do Bra-
sil e por diferentes líderes religiosos de forma a dificultar a
defesa plena, podendo acarretar enormes prejuízos finan-
ceiros ao autor. Os reclamantes declaram terem sido ata-
cados na sua fé e que o discurso do autor incita o ódio e à
violência, negando a literariedade do texto.
O pragmatismo nefasto de uma religiosidade enclau-
surada em púlpitos que busca fundamentos bíblicos para
justificar o que é da sua conveniência não esvazia de signi-
ficação o aspecto figurativo, literário do texto. A reação é,
em boa medida, coerente com o comportamento que finge
acreditar no sentido literal de um texto que não é da sua
conveniência.
Nesta perspectiva, «a fé move montanhas» — não for-
malmente, convém clarificar — mas ocupa esquinas; salas
de estar das casas; aluga lojas; constrói templos; atravessa
oceanos; e envia missionários para outros países; adquire
mansões, carros de luxo e jóias; influencia a política, ape-
sar da Constituição proibir a «dependência ou aliança» de
autoridades do Estado com os líderes religiosos; tenta es-
quemas legais para evitar o pagamento de impostos; inti-
mida e persegue de forma pérfida quem critica práticas da-
nosas dos que também fingem compreender o significado
da própria fé . «E a luz resplandece nas trevas, e as trevas
não a compreenderam.»
QUEM
DIZ É
QUEM
andreia
brites
Identidade e género
têm vindo a ganhar
uma crescente
importância no debate
social. A edição de
álbuns ilustrados
sobre o tema começa a
refletir a tendência de
liberdade e direito à
consciência e afirmação
identitária. No último
semestre três títulos
vieram trazer novos
contributos para uma
leitura plural.
quem diz é quem é

Discriminação

Oliver Button é uma menina tem data de edição


original em 1979, nos EUA. Chega agora a Portugal pela
mão da Kalandraka, que há muito vem colmatando diversas
lacunas na área do álbum ilustrado (Maurice Sendak, Leo
Lionni, Eric Carle...). Narra a história de um rapaz cujos
gostos e comportamentos não se enquadravam no estereótipo
masculino: não gostava de desportos, preferia ler, desenhar,
e adorava dançar. Inicialmente, o pai do menino tentava
combater as suas brincadeiras convencendo-o a jogar com
outros rapazes. A mãe, percebendo que Oliver nunca praticaria
um desporto coletivo mas, ao invés, se entusiasma com a dança,
inscreve-o numa turma de dança e sapateado. Daqui para a
frente o leitor assiste à discriminação dos outros rapazes, que
quem diz é quem é

lhe chamam menina ao mesmo tempo que Oliver passeia os


seus sapatos de dança ao ombro, numa atitude de afirmação. O
mais interessante na progressão da acção é assistir à mudança
silenciosa dos pais, que nunca o discriminam frontalmente
mas claramente não se sentem confortáveis com as suas
escolhas. Todavia, apoiam as aulas de dança e orgulham-se
verdadeiramente da sua exibição do concurso de talentos.
O apoio dos mais próximos, bem como o das raparigas da
escola, e o sucesso da sua prestação no dito concurso, que não
vence, são o ponto de viragem para Oliver garantir o respeito
dos pares. A esperança e a mensagem positiva não deixam de
por o dedo na ferida: as ilustrações acrescentam emoções ao
texto, discreto nos juízos. A sensação de perseguição pelos
comentários sussurrados ou o medo e a angústia da impotência
perante uma roda de rapazes mais velhos narram-se nas
ilustrações de contornos carregados e enchem as páginas de
força. A contrastar com as expressões de Oliver neste ambiente
hostil, o brilho do seu largo sorriso quando dança, quer na
aula quer quando treina para o concurso, numa sequência de
vinhetas que reiteram a sua determinação. O equilibrio formal
do álbum fá-lo ultrapassar o tempo em que nasceu e que ali
se reconhece sobretudo pelo vestuário, pelas molduras das
ilustrações e, eventualmente, pela paleta de cores. Tudo o resto é
atual mesmo que com outra roupagem discursiva: pais, colegas,
agressão verbal. Haverá mais rapazes em aulas de dança, haverá
menos rapazes preconceituosos, haverá mais famílias menos
formatadas para o estereótipo de género?
quem diz é quem é

À data da sua edição original, o livro foi alvo de polémica e


censura, e o seu autor só muitos anos mais tarde declarou que a
narrativa tinha origem na sua própria biografia. Embora Tomie
dePaola tenha ficado conhecido e reconhecido por outro livro,
Strega Nona (1975), o primeiro de uma série que tem como
protagonista uma simpática avó com poderes mágicos e uma
secreta receita de pasta italiana, Oliver Button é uma menina
foi o primeiro título destinado ao público infantil a aproximar-
se do termo gay, segundo o New York Times, no obituário
dedicado ao escritor a 31 de Março. No original, o título é mais
forte que a tradução portuguesa: Oliver Button is a Sissy pode
ser traduzido, numa gíria menos polida como Oliver Button
é um maricas. Sissy tem maior amplitude do que menina e o
efeito da ofensa pode ser mais grave. A tradução não só aligeira
uma possível leitura mais violenta como provavelmente
também não encontra outro termo suficientemente amplo
para designar o contexto de agressão a que o protagonista
estava sujeito. Por outro lado, o título português levanta uma
ambiguidade que não era de todo tratada ou assumida, a do
género enquanto identidade e não apenas enquanto orientação
sexual. Assim, a escolha editorial para a tradução pode retirar
alguma força à expressão original mas coloca novas questões
ao leitor. Tudo nesta narrativa assenta no comportamento que
se determinou que os meninos deveriam ter e que os definiria
como indivíduos do género masculino. Oliver Button era
vítima de preconceito porque não era forte fisicamente, era
inábil para o desporto e gostava de dançar.
quem diz é quem é

Elogio

Outra perspetiva completamente diferente é-nos dada por


O Jaime é uma sereia (Jessica Love, Fábula). Distinguido
com o Bologna Ragazzi Award na categoria de Opera Prima
(primeira obra) em 2019, este álbum acompanha Jaime numa
ida à piscina com a avó. À saída cruzam-se, num transporte
público, com três pessoas vestidas de sereias. Desde logo o
menino dá asas à imaginação e logo se transforma ele também.
Chegados a casa, a avó desaparece rumo ao banho e Jaime
tem ao seu dispor o tempo e os meios para operar realmente a
transformação. A reacção da avó é surpreendente e poderosa,
reiterada pelo suspense que o passar da página provoca. Mas
confirma-se a naturalidade da aceitação quando é a própria
que decide levar o menino ao desfile. Aqui nunca se usa
nenhum termo programático. Sereia é suficiente. Senão
vejamos: é factual que existe um desfile em Coney Island
desde 1983 com o nome Mermaid Parade. Este desfile
conta com milhares de participantes que, no sábado mais
próximo do solestício de Verão, desfilam pelas ruas de
Coney Island com trajes inspirados no mar e na mitologia
que lhe está associada, da qual se destacam as sereias. Não
sendo um festival com uma intenção política não lhe está
quem diz é quem é

associada nenhuma manifestação em defesa da identidade de


género ou nenhum destaque ao travestismo. Efetivamente,
a ilustração não atribui às sereias que se cruzam com Jaime
corpos masculinos, embora num ou noutro ângulo o leitor
esforçado possa ter dúvidas. Todavia, a questão não é a do
modelo e sim a do desejo próprio. Pouco importa se são
mulheres quem desfila de sereias ou se também há homens
a fazê-lo. O importante é que Jaime queria ser uma sereia,
vestiu-se como uma e a avó corroborou o desejo do neto sem
hesitações. Porque não pode ser ele uma sereia e sair à rua
de braço dado com a anciã com os lábios pintados, de colar
ao peito e com uma longa saia com cauda? Porque não pode
quem diz é quem é

a criança fruir desse desejo e encontrar outros e outras que


lhe servem de modelo, ou que partilham o mesmo desejo?
Passo a passo a história leva o leitor por um caminho em que
se confronta com o seu próprio juízo, da surpresa à aceitação,
passando pelo elogio da avó. A parca informação textual
acerca desta relação familiar ou de qualquer rotina leva a
que o leitor discorra sobre os afetos e o conhecimento que a
avó tem do neto através da ilustração. É na forma dedicada
como a avó olha para (pelo) neto, seja ela retratada em que
perspectiva for (de lado, de frente ou de costas) que reside o
segredo daquela naturalidade. Outro elemento simbólico é o
do sonho do menino quando vê as sereias no metro: depois
da sua transformação em sereia e da explosão de cor e formas,
um grande peixe azul vem ter consigo e oferece-lhe um colar.
A cena repetir-se-á quando a avó, trajando um vestido com
o mesmo padrão azul, dá a Jaime um colar para completar a
indumentária, perante o espanto do rapaz. Jaime é uma sereia
não é uma denúncia, como Oliver Button é uma menina. É um
elogio do amor, do respeito e da liberdade, um elogio à criança
que sonha e age, um elogio à avó que compreende e reage, e
um elogio ao lugar onde sempre pertencemos, seja este onde
for. Jaime não só pode vestir a pele que queria como pode ver
tantas outras pessoas a vestir a mesmíssima pele. E esse detalhe
tem uma relevância determinante para a identidade de cada
um e uma.
quem diz é quem é

Discorrer sobre o assunto

Como se explica a crianças (e não só) o que é identidade de


género? Como se explica que aparência e identidade podem não
corresponder aos modelos que nos habituámos a considerar?
Um álbum minimalista, de título mais abstracto do que o
conteúdo que se oferece ao leitor vai dando pistas a perguntas
que também faz. Joana Estrela, a autora de Menino, Menina
(Planeta Tangerina) tem vindo a dedicar-se ao tema, sendo o
seu livro Os Vestidos do Tiago um título de referência apesar de
circular fora das cadeias livreiras, em livrarias independentes e
feiras gráficas. Agora, tudo se centra em desmontar os limites
e as fronteiras de género. A cor associada a rapazes e raparigas
muda de referente para as bolas de um gelado numa taça,
ladeado por duas crianças igualmente rosadas. Já o bebé laranja
quem diz é quem é

deitado na cama de grades bem pode ser menino ou menina.


Tudo é explorado, desde o adjetivo feminino e masculino ao
adjetivo neutro terminando em a, com vista a demonstrar
com exemplos o contrário do que herdamos como definido,
correto e normal. Depois de passar pelas cores, por tamanhos
de cabelo e pela falsa dicotomia futebol e dança (interessante
o paralelo com a dança que Oliver Button adorava em 1979),
chega o momento de se colocar ao leitor uma primeira pergunta
ontológica: «Precisas de saber se é rapariga ou rapaz?» para
logo em seguida se responder abrindo caminho noutra direção:
«Só olhando nem sempre és capaz.» Há nesta chamada de
atenção algo de precioso: desvia-nos da resposta afirmativa
ou negativa que é difícil de dar. Precisamos ou não? Sempre?
Nunca? A ilustração sustenta as questões e as respostas com
exemplos e estes exemplos clarificam posições. Na página em
que se afirma que nem sempre é possível reconhecer o género
biológico, estamos na praia e ao longe alguém faz surf. Não é
possivel perceber. Entramos num novo passo do livro: o de que
a identidade de género nem sempre se reconhece na aparência
física da pessoa. Avançam-se possibilidades híbridas que apelam
à liberdade de cada um poder ser masculino ou feminino.
Finalmente, chega-se ao terceiro ponto deste programa: «E se
não é nem uma coisa nem outra?/ A resposta não está debaixo
da roupa.» A recta final afunila e o texto volta a dirigir-se ao
leitor para lhe dar a liberdade e o direito de escolher, seja o que
for, de entre uma multiplicidade cruzada de identidades. O
tema não é simples, bem pelo contrário, e Joana Estrela condu-
lo com se fosse, entre a rima do texto que alimenta uma cadência
quase naïf e as ilustrações a lápis de cera que também simplificam
e conferem leveza aos exemplos e à sua relação com o verso a
que correspondem. O tom dialógico assume igual relevância
na aproximação ao leitor pelo que o álbum cumpre o objetivo
de desmistificar pela simplicidade. «Não é aliás à toa que este
é o último dos três títulos a ser apresentado e explorado aqui.
Através de Menino, Menina é mais fácil voltar a Oliver e Jaime,
pelo menos mais claro. Claro que não é necessário catalogar
cada uma das experiências, cada um dos perfis, como se a uma
qualquer categoria pertencessem. Ainda, regressar aos dois
primeiros álbuns faz-nos reconhecer nos seus finais as palavras
providenciais de Joana Estrela: «Só tu te conheces melhor que
ninguém.//... e segues o caminho que mais te convém.» Assim foi.
AND
THE WINNER
IS...
PRÉMIO SPA AUTORES 2020
Ciclone – diário de uma montanha-russa, com texto
de Inês Barahona e Miguel Fragata e edição da Orfeu
Negro, foi o vencedor da edição de 2020 dos Prémios
SPA Autores na categoria de melhor livro linfantojuvenil.
O diário a quatro vozes, ilustrado por Mariana Malhão,
dá conta de um tempo adolescente em quatro décadas
distintas, tendo em comum uma montanha russa. Na
origem do livro está um espetáculo de teatro, criado pela
mesma dupla de autores e que foi levada à cena com o
título de Montanha-russa.
AND THE WINNER IS...
PRÉMIO SPA AUTORES 2020

Os outros livros nomeados foram Napoleão Benjamin


Pirueta — o menino Lupa, com texto de Isabel Zambujal
e ilustração de Rachel Caiano, edição da Oficina do Livro
e O avô Jacinto e os macaquinhos do sótão, escrito por
Sofia Fraga e ilustrado por Sebastião Peixoto, editado
pela Minotauro.
ESPELHO MEU
ANDREIA BRITES

EU VOU SER
JOSÉ JORGE LETRIA / ANDRÉ LETRIA
PATO LÓGICO
 As portas fechadas guardam mistérios.
Escondem acessos, quadros vivos, cenários
reconhecíveis ou totalmente inesperados. As portas
das casas estão no pódio do mistério. É sabido.
Quem nunca caiu na tentação de espreitar por uma
frincha ou, perante a sucessão de impossibilidades,
imaginou tudo o que se passa para além daquela
parede e daquela passagem exclusiva?
O que talvez não se imagine commumente é uma
panóplia de excentricidades a ocupar as habitações
por trás de cada lanço de escadas de um prédio.
O desafio está lançado e o leitor surpreende-
se nas sucessivas descobertas que a protagonista
gentilmente partilha. A menina vai parando nos
degraus da escada junto a cada porta. As pequenas
marcas ao redor servem o propósito da efabulação
assertiva e convicta. Se cheira sempre a peixe
quando se passa por ali, naquele apartamento
«vivem felizes o pirata e a sua amada». Também há
lugar para outras figuras curiosas, artistas de circo,
um vampiro, ou uma família de ladrões. A contrastar
com o exótico ambiente inacessível dos vizinhos do
prédio, em sua casa tudo é normal. Tanto quanto a
realidade precisa da fantasia. Porém, o twist final
oferece ao leitor uma surpresa, agora que a menina
já dorme.
A narrativa sincopada acompanha o ritmo
da protagonista, ora avançando para a porta
seguinte, ora parando no momento da descrição
dos habitantes de cada fração. A ilustração tem
um papel essencial na narrativa, revelando o
contraste dos patamares e das respetivas portas
com os interiores das habitações. A alternância
de cores, cada uma identificando os moradores, a
profusão de detalhes e a exuberância dos espaços
leva ao abrandamento pelo olhar que se detém.
As páginas duplas, totalmente preenchida por
estes seis espaços (são seis andares até à casa da
protagonista, que fica no 7.º e último) contam, por si
só, seis histórias únicas. É esse afinal o propósito da
menina. E o dos leitores, contagiados.
ÉS IMPORTANTE
CHRISTIAN ROBINSON
ORFEU NEGRO
 O texto pode ser um poema. Repartidos pelas
páginas ilustradas, os eventuais versos respiram
lentamente e dão ênfase a uma cadência regular,
como um pêndulo que se afasta e retorna ao ponto
de partida. Importa provar a importância daquele
a quem o texto se dirige e esse é o ímpeto das
palavras.
Tamanha afirmação, de tão simples que é, corre
o risco de trazer uma justificação pobre, didática,
superficial, dogmática, panfletária. Christian
Robinson desvia-se de perigos iminentes e opta
por uma viagem paralela através da ilustração.
Para além da cadência do texto, o álbum apresenta
dois movimentos crescentes e decrescentes: o
da dimensão individual no mundo e o da própria
cosmogonia fundadora da vida. O grande exemplo
do desenvolvimento da vida no planeta Terra serve
de imagem figurada para este eixo paradigmático do
presente que se estende universalmente a qualquer
um. Por isso é, na história da origem da vida, tão
importante todo e qualquer desvio, todo e qualquer
comportamento, toda e qualquer resistência. Destes
atos renasce a vida, mesmo quando o meteorito cai
na Terra e os dinossauros se extinguem. Mesmo aí
há um recomeço, há um inseto, um ser insignificante
ao olhar de muitos que deixa uma marca e resiste.
No entanto, na ilustração (e tudo isto se passa
ao nível do discurso visual) o inseto não volta a
aparecer, apenas um ponto negro, essa partícula
ínfima no mundo que pode ser qualquer um, e
pode por isso ser qualquer um de nós em qualquer
geografia ou momento. O texto refere a resiliência,
a solidão, a liberdade de escolha, a ilustração o
estar com o outro e o ser sempre único.
Nesta poética de aproximação e afastamento, de
observação e participação, os cenários e as figuras
são acessíveis, reconhecíveis e empáticos a olho nu.
Tudo o resto se processa em sensações impressivas
e releituras. Christian Robinson é também autor dos
álbuns Gaston e Outro, ambos editados em Portugal
pela Orfeu Negro.
sara
ma
Os escritores

gui
perante josé

ana
o racismo saramago
os escritores perante o racismo

Aí está o
racismo,
aqui estão
os escri-
tores. A questão parece bastante
clara à simples vista: sendo o racismo uma expressão
configuradora, e até agora inseparável, da espécie humana,
com raízes tão antigas, provavelmente, como o dia em
que se deu o primeiro encontro entre hominídeos ruivos e
hominídeos negros; presumindo os escritores, por sua vez, de
serem e merecerem ser os guias espirituais da nossa confusa
humanidade, mesmo se, por ela lhes ter virado as costas,
deixaram de estar em moda os maître-à-penser — a resposta
a uma interpelação a eles dirigida seria, provavelmente,
a redacção de um milésimo manifesto, de uma milésima
os escritores perante o racismo

condenação do racismo e da intolerância xenófoba, subscrita


por todos os escritores deste nosso prolixo mundo, do primeiro
ao último, se é que para eles também existe, algures, uma
classificação por pontos, como a dos tenistas, que só precisa
de olhar a tabela para saberem quanto valem...
Desgraçadamente, estas coisas não são tão simples,
por muito abundante que tenha sido, nos últimos tempos, a
produção de tais documentos condenatórios, que, deixando
invariavelmente intacta e irremovida a causa do protesto,
para pouco mais servem que rebustecer a boa imagem
que de nós próprios queremos ter. O problema não estará
tanto em discutir sobre a necessidade de proclamar aos
quatro ventos o que os escritores deveriam fazer contra o
racismo e a xenofobia — estaríamos, neste caso, no domínio
das puras obviedades —, mas em começar por averiguar
se o racismo e a xenofobia, nas suas diversas expressões
(desde a degenerescência violenta de aspirações nacionais
histórica e culturalmente justificadas, até à ameaçadora
ressurreição de doutrinas mais recentes de exclusão,
perseguição e morte), não estarão a beneficiar dos
silêncios da tribo literária, aproveitando o vazio resultante
do alheamento social defendido por muitos escritores, em
nome de critérios de liberdade e independência intelectual
alegadamente superiores, que os levaram ao que chamam
o seu compromisso pessoal exclusivo com a escrita e com a
obra. Por outras palavras: trata-se de saber se os escritores
de hoje, que, por indolência do espírito ou insuficiência da
vontade, renunciaram a um papel interventivo, estarão
os escritores perante o racismo

decididos a manter-se indiferentes ao que está sucedendo


à sua porta, vivendo por conta própria, tanto nas acções
como nas omissões, a inumana «regra de ouro» de Ricardo
Reis, aquele outro-eu classicizante de Fernando Pessoa que
um dia escreveu, sem que a mão lhe tremesse e a face lhe
corasse de vergonha: «Sábio é o que se contenta com o
espectáculo do mundo...»
Todas as causas do racismo foram já identificadas,
desde a proposição política de objectivos de apropriação
territorial, dando com pretexto supostas “purezas
étnicas” que frequentemente não duvidam adornar-se
com as névoas do mito, até à crise económica e à pressão
demográfica, que, não carecendo, em princípio, de
invocar justificações exteriores à sua própria necessidade,
contudo não as desdenham se, num momento agudo
dessa mesma crise, for considerado útil o recurso táctico
a tão adequados potenciadores ideológicos, os quais, por
sua vez, num segundo tempo, poderão vir a transformar-
se em móbil estratégico autossuficiente. Infelizmente, os
surtos de racismo e xenofobia, sejam quais forem as suas
raízes históricas e as suas causas próximas, encontram,
em geral, facilitadas as suas operações de corrupção das
consciências públicas e privadas, entorpecidas, umas e
outras, por egoísmos pessoais ou de classe, logo eticamente
diminuídas, paralisadas pelo temor cobarde de parecerem
pouco «patrióticas» ou pouco «crentes», segundo os casos,
em comparação com a insolente propaganda racista ou
confessional que, aos poucos, vai despertando a besta
os escritores perante o racismo

que dorme dentro de nós, até a fazer saltar à luz do dia —


para a intolerância, para a violência, para o crime. Nada
disto deveria surpreender-nos, e contudo, uma vez mais,
com desconcertante ingenuidade, se não com censurável
hipocrisia, andamos por aí a perguntar-nos como foi
possível ter regressado a praga depois de a termos julgado
extinta para sempre, em que mundo terrível estamos,
afinal, vivendo, quando pensávamos ter progredido tanto
em cultura, civilização e direitos humanos.
Que esta civilização — e não me refiro somente ao
que denominamos civilização ocidental, mas a todas,
desenvolvidas ou atrasadas,  que estão sofrendo o choque das
rápidas transformações do nosso tempo, tanto as científicas
e tecnológicas como as morais e axiológicas —, que esta
civilização está a chegar ao seu termo, parece não oferecer
dúvidas a ninguém. Que entre os escombros e avatares dos
regimes e dos sistemas — socialismos pervertidos e capitalismos
perversos — começam a esboçar-se recomposições novas
dos velhos materiais, eventualmente articuláveis entre si, ou,
ainda que ligados pela lógica de ferro da interdependência
económica e da globalização informática, prosseguindo com
estratégias aperfeiçoadas os conflitos de sempre — tudo isto
parece ser, igualmente, bastante claro. De um modo muito
menos evidente, talvez por pertencer ao que denominarei,
metaforicamente, as ondulações do espírito humano, creio
ser possível identificar na circulação das ideias um impulso
tendencialmente dirigido a um novo equilíbrio, a uma
«reorganização» axiológica que deveria supor, a par do pleno
os escritores perante o racismo

exercício dos direitos humanos, uma redefinição dos seus


deveres, hoje tão pouco estimados, passando a colocar-se,
ao lado da carta dos direitos do homem, a carta imperativa
e indeclinável das suas obrigações. Ora, se não me equivoco
demasiado, esta reflexão que parece querer despontar no
meio das nossas perplexidades, teria de começar por proceder
ao reexame e crítica de alguns conceitos correntes, apesar de
esplêndidos e generosos, que fazem parte, por contraste e em
enganadora antonímia, daquele universo vocabular em que
reinam, efectivamente, como sombrios e terríveis astros, a
xenofobia e o racismo. Refiro-me, em particular, à tolerância,
essa palavra que tem feito correr rios de tinta, tantos como a
sua contraria e irredutível inimiga — a intolerância.
Dizem-nos os dicionários que «tolerância» e «intolerância»
são conceitos extremos e incompatíveis entre si, e, por este
modo os definindo, concitam-nos a situar-nos, com exclusão
de outras alternativas, em um daqueles dois polos, como
se, além deles, não pudesse existir outro espaço, o espaço
do encontro e da solidariedade. Desse espaço não temos
a palavra identificadora, não temos, para chegar a ele, a
bússola, a carta de rumos. Mas, se não está nos dicionários
a palavra, é só porque não possuímos a consciência que a
teria feito nascer, é só porque não levamos no coração o
sentimento que lhe conferiria uma definitiva humanidade:
parafraseando remotamente Marx, direi que os homens
não podem, antes do tempo certo, criar as palavras de que,
sem o saberem, ou não querendo ainda sabê-lo, vitalmente
já estavam necessitando... Ponderadas as situações,
os escritores perante o racismo

observados os comportamentos, que é a tolerância senão


uma intolerância ainda capaz de vigiar-se a si mesma, mas
temerosa de ver-se denunciada aos seus próprios olhos, sob
a ameaça do momento em que as novas circunstâncias lhe
arranquem a máscara que outras circunstâncias, de sinal
contrário, lhe haviam colado à pele, como se aparentemente
fosse já a sua própria? Quantas pessoas, hoje intolerantes,
eram tolerantes ainda ontem?

Que papel
poderá en-
tão desem-
penhar o
escritor, esse a quem
parece ter sido definitivamente retirada a antiga missão,
tacitamente compreendida e reconhecida pela sociedade, de
os escritores perante o racismo

abrir caminho às verdades possíveis? Que dirá, que escreverá


ele, se cada vez se vem tornando mais óbvia a impotência da
literatura, de cada obra literária e de todas elas juntas, para
influir de modo profundo e permanente na vida social? Se as
sociedades não se deixam transformar pela literatura, se, pelo
contrario, é a literatura que se encontra hoje assediada por
sociedades que não lhe pedem mais do que as fáceis variantes
duma mesma anestesia do espírito, isto é, a frivolidade e a
brutalidade, como poderemos fazer intervir socialmente a
voz e a acção dos escritores, ao  menos daqueles a quem
o compromisso com a escrita, absoluto ou relativo seja ele,
não fez esquecer as suas obrigações,  relativas e absolutas,
de cidadãos?
Publicar artigos, dar entrevistas, fazer conferências,
são tarefas que decorrem daquilo que é o acto central do
escritor: escrever. Com independência da natureza, exigência
e singularidade da obra a que o escritor decidiu consagrar a
vida – ou, em palavras menos solenes, o tempo, o talento e a
paciência -, apetece dizer que todas as ocasiões deveriam ser
aproveitadas por ele para glosar, já com pacíficos motivos, o
dito de Cícero, quando no fim do seus discursos, viesse ou não
a propósito, exigia a destruição de Cartago. As Cartagos de
hoje chamam-se Intolerância, Xenofobia, Racismo, e nunca
serão vencidas se não empenharmos no combate, escritores
e não escritores, aqueles mesmos ingredientes com que se
faz a obra literária – a paciência, o talento e o tempo, por
esta ordem ou outra qualquer.
os escritores perante o racismo

Mas, dos escritores, convoquemos sobretudo a esta luta


a concreta figura de homem ou de mulher que está por trás
dos livros, não para que ela ou ele nos digam como foi que
escreveram as suas grandes ou pequenas obras (o mais certo
é não o saberem eles próprios), não para que nos eduquem ou
guiem com as suas lições (que muitas vezes são os primeiros
a não seguir), mas para que simplesmente se nos mostrem
todos os dias como cidadãos deste presente, ainda que,
como escritores, creiam estar trabalhando para o futuro.
Não se pede que retomemos (se para tal não encontramos
no nosso foro íntimo motivos nem razões) os caminhos
de natureza sociológica, ideológica ou política que, com
resultados estéticos variáveis, levaram ao que se chamou
literatura comprometida – mas que tenhamos a honestidade
de reconhecer que os escritores, em grande maioria, deixaram
eles próprios de comprometer-se, e que algumas das hábeis
teorizações com que hoje nos envolvemos acabaram por
construir-se como escapatórias intelectuais, modos mais ou
menos brilhantes de disfarçar a má consciência, o mal-estar
de um grupo de pessoas – os escritores, precisamente – que,
depois de se terem proclamado a si mesmas como farol do
mundo, estão acrescentando agora, à escuridão intrínseca
do acto criador, as trevas da renúncia e da abdicação cívicas.
Que boas estrelas estarão cobrindo
os céus de Lanzarote?

A Casa
José Saramago
Aberta de segunda a sábado, das 10 às 14h. Última visita às 13h30.
Abierto de lunes a sábado de 10 a 14h. Última visita a las 13h30 h.
Open from monday to saturday, from 10 am to 14 pm.
Last entrance at 13.30 pm.

Tías-Lanzarote – Ilhas Canárias, Islas Canarias, Canary Islands


www.acasajosesaramago.com
outubro

Até 15 de Novembro
Ilustração de Marta
Monteiro
Exposição de trabalhos originais da autora de Sombras e de vários
livros em co-autoria, como Um Dia de Loucos (com texto de Walter
Benjamin) ou Limericks (com texto de Edward Lear).
Coimbra, Livraria do Convento de São Francisco. 4
Até 15 de Novembro
Delibes
Exposição bio-bibliográfica dedicada ao escritor e jornalista Miguel
Delibes, assinalando o centenário do seu nascimento. Madrid,
Biblioteca Nacional de España.4
Até 28 de Novembro
A Bombordo; Os Robustos
e Descontinuados
Exposição que reúne desenhos inéditos de André Lemos, autor
com obra vasta e dispersa sobretudo por publicações de cariz
independente. Lisboa, Livraria Tinta nos Nervos. 4
Até 3 Janeiro 2021
Galdós en el laberinto
de España
Exposição com mais de uma centena de fotografias de Benito Pérez
Galdós assinala o centenário do escritor espanhol. Madrid, Museo de
la Real Academia de Bellas Artes de San Fernando. 4
Até 29 de Janeiro
Voll-Damm Barcelona
Jazz Festival 2020
Com uma programação espalhada por vários meses, para evitar
concentrações de público, o Festival de Jazz de Barcelona inclui
concertos de Brad Mehldau, Sílvia Pérez Cruz e Ute Lemper, entre
muitos outros. Barcelona, vários lugares. 4 UTE LEMPER
Até 2 de Maio 2021
Alfredo Cunha, 50 Anos
de Fotografia
Percurso pela longa carreira de um dos mais reconhecidos fotógrafos
portugueses. Porto, Centro Português de Fotografia. 4
5 a 15 de Novembro
A Quinta dos Animais
Espectáculo de Tonan Quito, a partir de George Orwell, pensado para
um público infantil e inserido no ciclo dedicado ao tema do poder que
o Teatro LU.CA tem vindo a programar. Lisboa, Teatro LU.CA. 4
11 a 14 de Novembro
FINTA
26.ª edição do Festival Internacional de Teatro ACERT, este ano
contando sobretudo com projetos e companhias portugueses e das
comunidades do Estado Espanhol. Tondela, ACERT. 4
NELSOM MOTTA

11 a 15 de Novembro
FliPoços
No ano em que completa 15 anos, o Festival Literário de Poços de
Caldas, que costuma abrir a temporada de festivais literários no Brasil,
transfere-se para o on-line. A programação inclui conversas, palestras
e oficinas. 4
14 Novembro
Conversas de Café:
Zeferino Coelho
É um dos mais respeitados editores da língua portuguesa e estará
à conversa com o público para falar do seu percurso, dos autores
que tem editado e do que mudou quando José Saramago, até há
poucos anos editado por si, ganhou o Nobel da Literatura. Viseu,
Teatro Viriato. 4
Publicar artigos, dar entrevistas, fazer
conferências, são tarefas que decorrem
daquilo que é o acto central do escritor:
escrever. Com independência da
natureza, exigência e singularidade da
obra a que o escritor decidiu consagrar
a vida — ou, em palavras menos solenes,
o tempo, o talento e a paciência —,
apetece dizer que todas as ocasiões
deveriam ser aproveitadas por ele para
glosar, já com pacíficos motivos, o dito de
Cícero, quando no fim do seus discursos,
viesse ou não a propósito, exigia a
destruição de Cartago. As Cartagos de
hoje chamam-se Intolerância, Xenofobia,
Racismo, e nunca serão vencidas se não
empenharmos no combate, escritores
e não escritores, aqueles mesmos
ingredientes com que se faz a obra
literária – a paciência, o talento e o
tempo, por esta ordem ou outra qualquer.

José Saramago