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AUSÊNCIA QUE SE FAZ PRESENÇA: LUTO, MEMÓRIA E RESISTÊNCIA NA OBRA DE DORIS

SALCEDO

Mônica Vaz da Costa


Escola de Belas Artes - UFMG
monicavaz@gmail.com

Na quarta-feira, 6 de novembro de 1985, o Palácio da Justiça da Colômbia, no centro


de Bogotá, é tomado por 35 guerrilheiros do M-19 (Movimento 19 de Abril), matando dois
seguranças ao chegar ao edifício e mantendo reféns as pessoas que se encontravam nele.
O M-19 nasceu em 1974 como reação ao que seus membros consideravam fraude nas
eleições de 19 de abril de 1970, em que foi derrotado o candidato do movimento político
ANAPO (Aliança Nacional Popular, ao qual pertenciam alguns dos fundadores do M-19). Em
1985, a guerrilha teria idealizado a tomada do Palácio de Justiça em retaliação a supostas
falhas do governo do então presidente Belisario Betancur em cumprir os acordos de paz que
havia assinado no ano anterior. Esse fracasso do processo de paz abalou uma trégua firmada
entre o governo e a guerrilha em agosto de 1984.
Após três horas da ocupação pelos guerrilheiros, sem esperar ordens do presidente,
as Forças Militares invadiram o local em que se encontravam cerca de 350 pessoas, entre
magistrados, funcionários, visitantes e guerrilheiros. Mais de mil soldados formaram parte da
equipe designada para combater os 35 guerrilheiros. Além de tanques de guerra dentro do
edifício, os militares usaram armamento pesado, explosivos, franco-atiradores que
disparavam constantemente contra o palácio do lado de fora e helicópteros que metralhavam
a fachada. No confronto morreram 98 pessoas. Além disso, houve desaparição forçada de 13
pessoas, todos funcionários da cafeteria do prédio e visitantes retirados do edifício,
supostamente por militares que suspeitaram que eles teriam algum envolvimento com a
guerrilha. Três corpos de mulheres foram identificados em 2015, 30 anos após o confronto, e
muitos ainda estão desaparecidos.
Existem várias versões para as motivações do M-19 para invadir o edifício e sobre o
envolvimento das Forças Armadas na execução e nos desaparecimentos forçados dos reféns.
No entanto, nem juntando todas as versões – dos sobreviventes, das testemunhas, dos
guerrilheiros, dos militares – haverá uma versão única daquele trágico evento, porque falta a
mais importante: a versão dos mortos e dos desaparecidos.
Em 6 de novembro de 2002, às 11h35, cadeiras começam a descer a fachada do Palácio
da Justiça no exato momento em que o primeiro segurança foi morto em 1985. Lenta e
sistematicamente, as cadeiras foram suspensas de acordo com hora da morte que consta no
relatório da autópsia de cada pessoa assassinada. Em Noviembre 6 y 7 (fig. 1), Doris Salcedo
presta homenagem a todos aqueles que estavam no palácio, naquele mesmo dia, 17 anos
antes: testemunhas e vítimas da violência na Colômbia perpetrada tanto pelo Estado quanto
pelo movimento guerrilheiro. A artista não diferencia as vítimas: magistrados, civis e
guerrilheiros são representados pela mesma cadeira de madeira, objeto doméstico criado a
partir de noções ergonômicas, que acolhe de maneira igual a todos os corpos e atende à
mesma função: sentar para exercer as atividades comuns a todos nós – comer, trabalhar,
descansar, acolher o corpo – e que na obra da artista perde essa função. Portanto, mesmo
ausentes, existem rastros de pessoas em cada cadeira, e a ideia dos sujeitos se faz presente.
Nancy Princenthal observa: "[...] não há armas de qualquer tipo no trabalho de Doris Salcedo
e não há qualquer representação dos perpetradores". 1 De fato, não são exibidos os corpos
assassinados, os tiros disparados, os instrumentos de violência, o sangue derramado, nem
mesmo fotografias dos rostos dos desaparecidos. No entanto, estão impregnados em sua
ação, mas só são acessados por meio da memória de quem observa. Mesmo sendo um evento
traumático para os colombianos, a artista tinha a impressão de que ninguém se sentia afetado
pela brutalidade do confronto de 1985, até as cadeiras começarem a ocupar a fachada do
Palácio da Justiça, quando transeuntes lhe relataram o que faziam 17 anos atrás no momento
do conflito e como se lembravam daquele episódio violento. 2 Seu trabalho é, portanto, um
poderoso gatilho capaz de disparar lembranças que foram propositalmente esquecidas, um
gesto que Judith Butler chama de "deslembrar" (disremember), que é o esquecimento

1
PRINCENTHAL. "Silence seen". In: PRINCENTHAL; BASUALDO; HUYSSEN, 2000. p. 40.
2
A artista fala sobre esse e outros trabalhos em conversa com Elaine Scarry, moderada por Mary Schneider, à
ocasião da abertura da exposição "Doris Salcedo: The Materiality of Mourning": Lecture – Doris Salcedo
Materiality of Mourning, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=yFe5oRC4Dms. Acesso em 25 de
julho de 2018.
proposital, uma negação intencional da verdade. 3 Salcedo procura manter viva a memória
coletiva sobre a qual pouco ou quase nada se falava até aquele momento e tornar público o
luto pelos "deslembrados".
Figura 1 – Noviembre 6 y 7

Fonte: https://br.pinterest.com/pin/184788390937875238/

Como uma arqueóloga que busca por objetos esquecidos, perdidos sob camadas de
terra, Salcedo escava em busca de lembranças adormecidas – em alguns casos
propositalmente abandonadas – e mantém viva a memória suprimida dos colombianos nesse
trabalho que pode (e deve) ser considerado como um ato de luto, de homenagem e de
celebração daqueles que perderam suas vidas. Ela considera imoral esquecer o massacre e
acredita que nós, os vivos, temos responsabilidade não só com o futuro, mas também com o
passado, e cabe à arte resgatar essas memórias abandonadas e recontar o episódio violento

3
Judith Butler discorre sobre Disremember, trabalho de Doris Salcedo (2014), e sobre o termo empregado pela
artista no título. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=9o9_ZP2Z7aI&feature=youtu.be. Acesso
em 15 de novembro de 2018.
a fim de retomar a dignidade perdida. 4 Salcedo parece nos dizer: "Estas vidas também devem
ser lembradas e enlutadas." Seu posicionamento está alinhado com as palavras de Jacques Le
Goff sobre a relação entre passado, presente e futuro e de como a memória está relacionada
com a construção de uma sociedade democrática. Segundo ele, "a memória, na qual cresce a
história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir ao presente e ao
futuro. Devemos trabalhar de forma que a memória coletiva sirva para a libertação e não para
a servidão dos homens." 5 Para que sejam livres, senhores de suas histórias, os sujeitos devem
problematizar o passado, articulá-lo com o presente e compreender os contextos em que
estão inseridos, sem a incumbência de somente descrevê-lo, para que, então, seja possível
vislumbrar o futuro. Assim, a memória é um poderoso instrumento na construção da
identidade individual e coletiva sendo, portanto, um eficiente objeto de poder: aquele que
organiza, registra, edita e conta a "história oficial" domina os sujeitos e as sociedades e ainda
determina quais vidas são passíveis ou não de luto.
Logo, a ação de Doris Salcedo no Palácio da Justiça é uma importante manifestação de
resistência frente ao esquecimento, àqueles que não desejam recontar tal episódio, 6 às vozes
oficiais. É uma resistência à violência sofrida pelos mais diversos setores da sociedade
colombiana como um evento diário. É preciso fazer o pequeno (porém efetivo) gesto
individual de se lembrar. Lembrar para resistir, lembrar para se afirmar.
No dia 11 de outubro de 2016, 14 anos depois, a artista retorna à Plaza de Bolívar em
Bogotá – onde está situado o Palácio da Justiça –, importante espaço de manifestações e de
mobilizações políticas da capital colombiana. Salcedo foi impulsionada pela incredulidade
diante do resultado do plebiscito ocorrido poucos dias antes (no dia 3 de outubro) em que foi
votado o acordo de paz entre o governo e o grupo guerrilheiro FARC (Forças Armadas
Revolucionárias da Colômbia), prevalecendo o "não" por uma pequena diferença: dos 37% da
população que compareceram às urnas, 50,2% rejeitaram o acordo de paz, contra 49,8% que
votaram favoráveis. Diante do resultado, a artista escreve com cinzas em pedaços de tecido

4
Idem.
5
LE GOFF, 2003. p. 471.
6
A Comissão da Verdade colombiana publicou, somente em 2009 – 24 anos após o confronto –, um relatório
sobre o caso.
branco com 2,5 metros de largura 1.900 nomes de vítimas da violência naquele país. Os
tecidos foram costurados entre si e, ao final de 12 horas, ocuparam o chão da praça.
Figura 2 – Sumando Ausencias

Fonte: http://www.semana.com/amp/criticas-a-la-obra-de-doris-salcedo-sumando-
ausencias/498873
Foto: Sara Malagón

A ação coletiva Sumando Ausencias (fig. 2) homenageia vítimas do conflito político


armado colombiano iniciado em 9 de abril 1948, após o assassinato do então candidato à
presidência Jorge Eliécer Gaiatan, e que perdura há décadas entre os partidos conservador e
liberal e a guerrilha armada, colocando a sociedade civil à mercê do confronto armado.
Escrever os nomes de cerca de 2000 mortos significa identificar, e portanto humanizar, os
números frios e impessoais em que essas vítimas foram transformadas. Mais uma vez, não há
diferenças entre aqueles que perderam a vida: todos são representados sobre o mesmo
tecido, de igual tamanho, com o mesmo material – cinzas – que representam o pó "de onde
viemos e para onde retornaremos". 7 Dar-lhes nomes faz com que, ainda que seus corpos
estejam ausentes, se façam presentes na praça e na lembrança daqueles que sobreviveram e
sobrevivem diariamente ao conflito. A escrita atua como importante mecanismo de

7
“Com o suor do teu rosto comerás teu pão, até que te tornes ao solo. Pois dele foste tirado. Pois tu és pó e ao
pó tornarás.” Gênesis 3, 19. E também: “Tudo caminha para um mesmo lugar; tudo vem do pó e tudo volta ao
pó.” Eclesiastes 3, 20.
perpetuação da memória. De acordo com Rosani Ketzer Umbach, no antigo Egito a escrita era
vista como "o meio mais eficiente contra a segunda morte, a morte social, o esquecimento". 8
Doris Salcedo retoma essa prática com intuito de fazer com que esses sujeitos sejam
lembrados e que se façam presentes na praça e na história colombiana. Grafar seus nomes é
resistir ao esquecimento, mas também tomar para si e para aqueles que participaram da ação,
ainda que de maneira simbólica, o poder de contar uma parte da história daquele país –
mesmo que dolorosa – e retira das forças de poder a voz única que se encarrega de contar a
história oficial. Mais uma vez, Le Goff fala sobre a importância e a urgência de se dominar e
contar o próprio passado:

[...] a memória coletiva foi posta em jogo de forma importante na luta das
forças socias pelo poder. Tornar-se senhores da memória e do esquecimento
é uma das grandes preocupações das classes, dos grupos, dos indivíduos que
dominaram e dominam as sociedades históricas. Os esquecimentos e os
silêncios da história são reveladores destes mecanismos de manipulação da
memória coletiva (LE GOFF. Op. cit.. p. 422).

Assim, aquilo que se opta por esquecer e também por se lembrar, ou seja, editar o
passado, nos diz, portanto, a respeito daquele que escreve e nos conta os fatos e muito pouco
sobre aqueles que, de fato, viveram, sobreviveram e morreram. As reais testemunhas não têm
voz na história oficial.
Nas duas ações apresentadas neste breve artigo, e como observamos no conjunto de
sua obra, Salcedo não diferencia os mortos: são todos vítimas da mesma violência que assola
políticos liberais e conservadores, guerrilheiros e sociedade civil. A dor e o sofrimento da
perda que afligem parentes e conhecidos das vítimas são iguais, a morte e o luto são iguais
para todos. A artista não problematiza ou propõe soluções para o conflito armado, não se
posiciona politicamente ao lado dos liberais ou dos conservadores. Ainda assim, seu trabalho
é extremamente político, não no sentido partidário, mas no sentido de questionar os
contextos sociais vivos e de instigar as comunidade a refletir sobre eles. Para ela, cabe à arte
também a função de lidar com as variáveis que atuam, modificam e marcam as sociedades.
"Estando em um país violento, você não pode agir como se a violência não estivesse

8
UMBACH. "Violência, memórias da repressão e escrita". In: SELIGMAN-SILVA; GINZBURG; HARDMAN. 2012. p.
217.
acontecendo", Salcedo diz em depoimento para o Museu de Arte Contemporânea de
Chicago. 9 A violência há muito tempo está posta e faz-se necessário e urgente falar sobre ela.
Ao tratá-la como tema e não como contexto, a artista, longe de "banalizar o mal", estabelece
um outro meio para refletirmos, ainda que sem propor soluções, a respeito do contexto
colombiano. Judith Butler encontra na arte esse espaço de reflexão sobre a violência:

[...] embora nem a imagem nem a poesia possam libertar ninguém da prisão,
nem interromper um bombardeio, nem, de maneira nenhuma, reverter o
curso da guerra, podem, contudo, oferecer as condições necessárias para
libertar-se da aceitação cotidiana da guerra e para provocar um horror e uma
indignação mais generalizados, que apoiem e estimulem o clamor por justiça
e pelo fim da violência (BUTLER, 2015. p. 27).

Reconhecer e compreender a situação de violência é, portanto, o primeiro passo para


combatê-la. Cabe ao artista trazer à tona aquilo que lhe afeta e modifica, denunciar o que se
pretende esquecer e esconder, o que as forças de poder não querem que se manifeste. Não
sofrer com esses trabalhos, não se deixar afetar por eles, apontaria um anestesiamento ou
falta de empatia. Mas não daquele que mostra, e sim daquele que vê.
Doris Salcedo encontra nas vítimas da violência o lampejo, o brilho de esperança para
a resistência no momento de perigo que se faz constante na Colômbia. 10 Ela busca no passado
mecanismos para resistir no presente. Dá voz aos que foram silenciados e esquecidos para
que uma outra história seja contada: a história dos vencidos.

REFERÊNCIAS:

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da
cultura. Obras escolhidas; v. 1. São Paulo: Brasiliense, 1994.

BUTLER, Judith. Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto? Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2015.

CORNELSEN, Elcio Loureiro; VIEIRA, Elisa Maria Amorim; SELIGMANN-SILVA, Márcio (org.).
Imagem e memória. Belo Horizonte: Rona Editora: FALE/UFMG, 2012.

9
Entrevista disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=xdt2vZ9YpwE&list=LLl1hska-
8PN5gWn6gCzMU7A. Acesso em 25 de julho de 2018.
10
BENJAMIN, 1994. p. 224.
LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas: Editora da Unicamp, 2003.

PINI, Ivonne. Fragmentos de memória: los artistas latinoamericanos piensan el pasado.


Bogotá: Universidad Nacional de Colombia; Universidad de Los Andes, 2001.

PRINCENTHAL, Nancy; BASUALDO, Carlos; HUYSSEN, Andreas. Doris Salcedo. Londres:


Phaidon Press Limited, 2000.

SELIGMANN-SILVA, Márcio. A escritura da memória: mostrar palavras e narrar imagens. In:


Terceira Margem, Revista do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura, Ano VI,
n. 7, 2002.

UMBACH, Rosani Ketzer. Violência, memórias da repressão e escrita. In: SELIGMAN-SILVA,


Márcio; GINZBURG, Jaime; HARDMAN, Francisco Foot (org.). Escritas da violência: o
testemunho. vol. 1. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2012.

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