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UNIDADE CURRICULAR: GLOBALIZAÇÁO, CIDADANIA E IDENTIDADES

CÓDIGO: 41027

DOCENTE: Ana Paula Beja Horta/Maria Paula Oliveira

A preencher pelo estudante

NOME: Sandra Cristina Gomes de Carvalho

N.º DE ESTUDANTE: 1200516

CURSO: Ciências Sociais

DATA DE ENTREGA: 14/05/2020

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TRABALHO / RESOLUÇÃO:
“Economic production and trade increasingly take place on a transnational level, while
populations are still bound within nation-states by the instruments of citizenship and
sovereignty”. Yasemin Soysal (1994: 14)

Castles e Davidson (2000) defenderam que, os conceitos de Estado-nação e cidadania se estavam


a tornar normas globais. Verificaram que, o grosso da população mundial vivia, no final do sec. XX,
com normas constitucionais e estruturas institucionais típicas de Estados-nação democráticos. Isto
significava que o grosso da população mundial era, legalmente, definida como cidadãos e não como
súbditos em monarquias ou ditaduras. O rápido desenvolvimento do modelo Estado-nação teve
uma influencia significativa na politica nacional e nas relações internacionais. Analisaram, também,
os grandes desafios que a globalização e a mobilidade populacional internacional colocaram à
conceção de cidadania do Estado-nação.

É importante perceber, neste contexto e tentativa de análise que, no pós Guerra Fria, deixou de
existir uma divisão Leste-Oeste e passou a existir uma divisão Norte-Sul onde ambos os blocos
são dominados, apenas, por uma nação: os EUA, a superpotência. Surgem referencias a um “novo
império”. Mas, esta divisão demonstra que existem áreas de exclusão social no Norte e de
prosperidade no Sul logo, não é absoluta. Esta emersão de uma nova ordem global foi
caracterizada, por Castles, como o sistema hierárquico do Estado-nação. à variação de poder dos
Estados, a vários níveis, e que conduziu a uma hierarquia de direitos e liberdades dos seus povos,
Castles caracterizou como cidadania hierárquica.

Ser cidadão implica pertencer a uma determinada comunidade nacional. Significa ter direitos e
deveres como parte integrante do Estado-nação de que se é cidadão. É ter:

 direitos civis: direito à vida, à liberdade, à propriedade, à igualdade;


 direitos políticos: ser ator participante no destino da sociedade;
 direitos sociais: educação, trabalho, salário justo, saúde, …
Apesar de tudo, esta realidade de direitos não se aplica, nem de perto nem de longe, na nova
ordem global pois, continuam a existir milhões de pessoas/residentes em muitos países, vindos de
outros países “estrangeiros” e/ou “problemáticos”, impedidos de se tornarem cidadãos nesses
países de destino por razões legais ou sociais. Por todo o ocidente, a origem de classes ou sexo
ainda são elementos limitantes e segregadores de direitos. Ou seja, nos Estados-nação, a
cidadania é um tema dotado de grande diferenciação, facto que acompanha as civilizações desde
tempos remotos. Apesar de grandes conquistas, como o sufrágio universal, conseguidas à custa
de lutas bastante duras ao longo dos tempos, embora sejam Estados-nação democráticos, estes,
são ainda bastante ambíguos na sua atuação perante a cidadania. Vejamos a contradições que
mais se evidenciam:
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1. Inclusão/exclusão – já referida anteriormente, a inclusão de pessoas como cidadãos de
pleno direito em detrimento da exclusão de muitas outras pessoas;
2. Cidadão/cidadão nacional – decorrente da contradição anterior, remete para as diferenças
tidas em conta apesar de, na teoria liberal, todos os cidadãos devem ser pessoas livres e
iguais. Este facto leva a uma separação entre direitos e obrigações politicas tal como, a sua
pertença a grupos sociais específicos tendo em conta etnia, religião, classe social,
localização, ou seja, leva a estratificação social. O carater universal da esfera politica entra
em conflito com a formação do Estado-nação, onde a possibilidade do individuo se tornar
cidadão depende da sua filiação ou integração numa comunidade nacional especifica. O
Estado-nação resulta da combinação entre uma unidade politica que controla um
determinado território – Estado, e uma comunidade nacional (povo ou nação) que tem o
poder de impor a sua vontade politica dentro desse mesmo espaço. Então, um cidadão tem
que ser membro de uma nação, logo, cidadão nacional. Concluindo, esta contradição só
poderá deixar de existir se for esquecida a história da distinção étnica.
3. Cidadão ativo/Cidadão passivo – refere-se a um conflito base entre a teorias radicais-
democráticas e conservadoras acerca da importância dos direitos e das obrigações. A
primeira teoria de contrato social incluía cidadãos passivos a quem era reconhecido direito
de proteção em actividades ilegais, mas estes tinham como obrigação obediência à
autoridade estatal. A segunda teoria social implicava a extensão dos direitos políticos a todas
as pessoas e a criação de condições sociais e económicas a todas as classes por forma a
que pudessem participar ativamente na sociedade. Surgiu a ideia de “terceira via” (Giddens,
1998) como resposta social-democrata à dificuldade de defender o Estado-providência num
contexto globalizante. A ideia de igualdade entre classes é abandonada em prejuízo das
politicas de “inclusão social”.
4. Cidadão soberano politico/cidadão-guerreiro – evidenciada pela ligação existente entre
“sufrágio universal” e “serviço militar obrigatório” pois, o direito de voto estava estritamente
ligado ao dar a vida pela pátria. Entretanto, o serviço militar deixou de ser obrigatório o que
foi considerado uma ameaça à consciência cívica. Luta por um país o seu filho, homem,
patriota. O ideal do cidadão-guerreiro era sexista, racista, xenófobo.
A globalização e a migração desafiam a cidadania do Estado-nação devido a factos como:

 A globalização afeta e enfraquece a autonomia do Estado-nação pois, quebra a ligação


poder/local - a dinâmica dos mercados transcende fronteiras e os Governos locais perdem
poder dentro de portas;
 A globalização condiciona e enfraquece os ideais nacionais dos vários países. Os
nacionalistas temem a perca do nacionalismo devido à facilidade de movimentação
patrocinada pelo mundo dos transportes e das telecomunicações;
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 A globalização representa um brutal aumento da mobilidade das populações: temporária ou
permanente, económica ou de refugiados, individual ou familiar, trabalho qualificado ou não
qualificado; diferenças culturais e marginalização estão intimamente ligadas neste contexto;
 A globalização altera a noção de espaço social pois, devido aos transportes e
telecomunicações, os migrantes mantem ligações com as suas raízes. Surgiram as
comunidades transnacionais, que mantem ligações e atividades regulares em vários países
e fora das suas fronteiras nacionais.
Existe o transnacionalismo de cima para baixo – atividades inerentes a sociedades ou empresas
multinacionais. E, existe o transnacionalismo de baixo para cima – atividades inerentes a iniciativas
populares do tipo grassroots, levadas a cabo pelos imigrantes e os seus conterrâneos no país de
origem. Surgiram alterações comportamentais e culturais no vários Estados-nação.

Esta diversidade cultural colocou os Estados-nação numa dualidade: por um lado a capacidade de
aceitar o Outro, de aceitar a diferença através da cidadania, o que representa o perigo da perca de
coesão e de identidade nacional. Por outro lado, o facto de ter que partilhar o “bolo social” com
outros grupos, o que representa uma ameaça aos trabalhadores locais. A polarização social
originada da reestruturação económica e das politicas de privação e liberalização não favorece os
direitos das minorias e transforma-os na desculpa ideal para a crise social que se vive.

Ora, o encontro de todos estes fatores originou tanto a ascensão como a queda do multiculturalismo
pois, com tais dilemas o grosso dos países de imigração têm vindo a mudar as suas politicas de
imigração e cidadania, inclusive, as suas Constituições. Em 1973, no pós “crise do petróleo”, os
Governos da Europa Ocidental adotaram politicas de “emigração zero”. Com a queda da ex. URSS,
os Estados tentaram construir uma “Europa-fortaleza”. Em 1985, o Acordo de Schengen, criou outra
dualidade: uma área de livre movimento, mas apertou as fronteiras externas. Em 1997, o Tratado
de Amesterdão, introduziu normas conjuntas de emigração e asilo na EU até maio de 2004, mas
estas têm tido uma difícil aplicação prática devido aos receios dos Governos dos Estados-Membros
enquanto Estados-nação.

Podemos, assim, concluir que, apesar da enorme evolução social nos países ocidentais, apesar de
todos os regulamentos e normas colocados em pratica pelo vários Estados-nação, apesar de
muitos países fazerem por esquecer as diferenças e ter uma abordagem moderna e inclusiva, o
nacionalismo vem sempre ao de cima. Exemplo disso mesmo é a atual realidade com migrantes e
refugiados do oriente, mais propriamente do mundo árabe onde o estigma do mundo Muçulmano
ou do Estado Islâmico tem feito com que vários países cerrem fronteiras ou o caso dos EUA com
o México em que se erguem muros para evitar a constante fuga de povos carenciados e oprimidos
rumo à procura de uma vida com alguma esperança.

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Bibliografia:

 Giddens, Anthony. 2000. O Mundo na Era da Globalização. Lisboa. Presença.


 Stephen Castles (2008), A Nação e o Império: As Hierarquias da Cidadania na Nova Ordem
Global. In Carvalhais, I.E. (org.). 2008, Cidadania no Pensamento Político Contemporâneo,
Estoril: Principia.
 Soysal, Yasemin (1994). Limits of Citizenship. Migrants and postnational membership in
Europe, Chicago: University of Chicago Press

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