Você está na página 1de 33
@ Ano 12, Nimero 18 * Setembro 200% CMPre 4 Curva Curva Curva® Est Flora Siissekind “Curva curva curvi xpr toma aqui como modelo figural da forma narra a em Carlos Drummond de Andrade, 6, na verdade, um trecho do pendiltimo verso de Corporal’, poema incluido ema falta que ama, de 1968. Nele se intensifica, por meio de io vocabular, nao apenas a vist petig io, segundo a pei das ondulag feminina, que orientam o exerefeio sspectiva do poeta, es constilutivas da anatomia wia narrativa ¢ forma postica em Drummond deseritivo no texto, ma etamente, a percepcao em eco daalta incidéncia ular deste elemento geométri oem parti ~ a curva —na sua obra, Sugerindo-se tanto uma investigagaio do fem quanto das relagdes ent continuidade, stasis e ritmo, lirica e nar- raliva no seu processo de e: Econfigurando-se, simultaneamente, nesse exereicio de observagio do corpo feminino, tanto uma estrutura mével fa pe dade, refors a), quan- parabola). nha), uma seq arepet igo (curva curva ¢ Define: harrativizaga anatomi ve racdo (curvatu °, portanto, um processo de gemi t mas desdobrado, por sua ado a deserigao, uma espécie de movimento obri- Sat6rio de auto-retri Oacento na mobilidade nao deve, Ho entanto, obscurecer o fato de Corporal” ter sua tOnia, de fato, na des crigao. Se se daa ver como arabesco, inelinag’ objeto é uma figura de mu- r que, todavia em descanso, na, CUPY coxas que se transvertem emt ritmos 0 corpo parecendo “dangar repou- sando”, Ou, como se lé na peniiltima nile finda o movi: estrofe do pocma: mento, 1 ‘inea a parabola, isee/ espont enseada cum circulo, um seio, m fluir, o da linha’, O que af ocorre gragas a pinterruptamente, /a modu tensio entre o corpo em repouso eos ritmos, as eurvas ¢ parbolas que o habi- fam, emprestando uma narratividade aessa imobilidade plicia inte: sub-t aparente, E parecendo apontar, indireta- mente, para as formas de modulagio nar- soba ativa qu pectos diversos, se apre- m1, na obra postica de Drummond, como espécies de desdobramento poten- mi ‘a, ativa mesmo nos I nizados por movimentos de mater cial, de dobra dina seus textos a rigor “mais liricos” ou orga st ‘io e fixacio do instante presente do dis curso ou da subjetividade. * Este ensaio foi escrito original édlito, da Cole volume, and jo Archives| dedicado a Drummond nok A compreensio dessa dobra narrativa na dicgao postica drun no entanto, envolve principio, a consideragio do seu pré- prio rabalho como prosador, Ao lado do registro de um rastro muituo da li prosa, eda pre das intet egdes perceptiveis entre as cronieas ¢ fiegdes, de um lado, ¢ 0s poe mas, de outro. Ao lado, igualmente, da consideragio dos recursos narrativos pri vilegiados por ele nos textos em prosa e im como da mai nos poomas. As apela qual essa dupla orientagio da sua obra foi enfocada tanto pela er pelo prop 0 poeta Prosa em dois tempos Dois comentarios dirigidos dir dos, com inte Drummond, e regis detrésd te pro tos de Geadas, por interlocutores bastan- mos, se bem que com graus di jade, sublinham uma co cia persistente dos efeitos de prosae da orientagio arrativa na trajetéria poo tica drummondiana mesmo antes de ele iniciar o trabalho regular no Correio da que, de 1954 1969, 0 populariza ivamente como cronista. ira dessas refe neias, em geral tratada de modo anedstico, tem como contexto uma conversa dos anos do Bar do nediagde Ponto” por alguns integrantes do grupo modernista mineiro, Conversa que, re- Jembrada e relatada parei Imente por ta ao Didrio de Minas de 1g de outubro de 1952, daria Emilio Moura em entre’ particular énfase a uma discordineia tre Pedro Nava e Drummond — o que fo- ra motivado por uma avaliagao de Nava sobre a orientagio literdria ea trajetéria fatura do amigo. P depois de ler e reler dois poemas entio reeém conelut- dos por Drun oespanto agrado do pocta, Nava teria dit abe de uma coisa, Carlos? Estio bons, é claro, mas o seu forte io ha diivida™, 0 outro comenté 6 mesmo a prosa. o.ligado a contento epistolar, pode ser encontrado em carta deg de junho de 1951, enviada ao pocta por dofio Cabral de Melo Neto, enti ser- vindo, como diplomata, no eonsulado pam brasileiro em Londres. 0 poeta pet Iueano, trés dias depois de receber um exemplar dos Contos de aprendis, comenta oluna de ia que, se tivesse critica na imprensa, nao desperdiga essa oportunidacle para empreender 1 balango na obra drummo: “Este livro de prosa, ¢ sua prosa, i Vir para tontar mostrar certas coisas de ia", assinalaria Cabral, \¢ao de Drummond aos dois co- mentirios vai da negagio direta a uma aparente indiferenga, A resposta imediata 4 Pedro Nava, segundo a versio de Emilio Moura, foi uma réplica qua “Pois vord esti enganado. O que sou é eca: o deixando de ser poeta’s, A veeméncia nj curiosa A 6poca, tendo em vista produ- Go drummondiana até ent io. A comegar dos tempos do Colégio Anchicta, quando escreveu secretamente uma novela pro- lagonizada por uma formiga filésofa quando se divertia transportando refe- réncias poéticas para a prosa, como fez 1 Apud John Gledson, Poesia e Poética de Carlos Drummond de Andrade, Sio Paulo, Livra Cidades, 1981. pg 2 CL, Correspondéncia de Cabral com Bandeira e Drummond. Org, Flora Siissekind. Rio de Janeiro, Nova Fronteita/ Fundagio Casa Rui Barbosa, 2001, p.238, gApud Gledson, op. cit. p55; com “O Corvo", de Edgar Alan Poe, no- texto “Extraordinsria Visi © “Cireulo Vicioso” mach: “Conversa Fiada’,ambas divulgadas em 1g 6 jornalzinho do colégio. E passando tan- liano c \laptagae em “Auror to pelas colaboragdes no Jornal de Minas ©. depois, no Didrio de Minas, onde tr: thai hog vs, eseritos qu a por quase dez a o como {a a pensar em reunir en Jo“ Preguiga”, quanto pelos contos publicando aqui e ali, Eo easo de Simples que Recome “Aquele Pobre Des ia Mart “Morrer leira, mpressos na Hlustracdo Bras divulgado na revista Radium, da Faculdade de Medicina, ou “Joaquim no Telhado”, com o qual ganha- ria o primeiro prémio, de 50 mil réis,em Concurso da revista Novela Mineirat Acrescente-se a isso nao s6 a edigio, O gerente 1951, do volume Contos de aprendis, mas, sobretudo gular como cronista, da década de 1920 & fm 1945, dla sua nove em extensio do seu trabalho re- de 1980, sublinhando-se, em particular, a longa colaboracio com os didrios ca cas Correio da Manhd e Jornal do Brasil © as diversas coletineas de escritos de Jomal e de erdnieas re de Confissdes de Minas, Passeivs na Ilha e Fala, Amendocira ao p6stumo Moca dei- tada na grama. E como tradutor, pelos enredos dra dai as suas versbes para “Dona Rosita, a Solteira’, de Garcia Lorca, “O P Azul", de Maeterline de Seapino’, de Molire, Ma las em livros, inda, o seu interesse, naticos, issaro “As Artimanhas. de modo es- pecial, pela prosa de fiegio, De que sio 5 tradugdes de As exemplares a 4 CL. Cangado, dosé Maria. Os Sapatos de Orfeu: Biograjia de Carlos Drummond de Andrade. Paulo, Seritta Editorial, 1993. p93 iyagées perigosas, de Choderlo: Laclos, feita por conta prépri quer encomenda,e publicada em 1947 p la E ou de Fome, de Knut Hamsen, de Os camponeses, de Balzac, ¢ jitora Glob dovolume dl fugitiva, de Em busea do tempo perdido, de Proust Nd A erdniea © a0 conto parece jus cacao regular de Drummond ar tente de tanto 0 privilégio dessa ve a por Nava (ao pensar nas indic do ami es da atividade liter. 0 até entdo), num momento ainda anterior ae ia, sua primeira io de Alguma poe: colet 3, de 1930, quanto, nea de po mais adiante, a sugestio, por dodo Cabral de Melo Neto, de que a prosa seria uma cesso & poesia drum: via privilegiada de se, porém, a varia mondiana. Observ hierdrquica implicita nas consideracbes de ambos, emitidas com cerea de tre décadas de distancia No caso de Nava, quase se descarta 0 Drummond poeta em prol do prosador. Node prosa como subsidisria do s o, pensa-se a eu trabalho: poético propriamente dito, que ja contava nto com sete livros publicados (Hdguma poesia, Brejo das almas, Sentimento do mundo, José, A rosa do povo, Novos poemas, Claro enigma). Funcionando, n io cabralis asua $0, na avali de acesso a sua obra, prosa como v iva inde- como uma alternativa expre pendente. E, sobretudo, como uma espé ie de manifestagio suplementar daquilo 10 “esti- que Cabral identificava entao e¢ lo” —“exploragio, estudada e consegui- n Drummond. Conquista que, no entanto, o proprio poeta mais velho parecia, de certo modo, rejeitar: “Nao hé 5 Cl. Correspondincia de Cabral com Bandeira e Drummond, p.238. SS 166 set mais triste clogio qu isto éde X!"6 “Nao 6 preciso a { talvez,a julgar pela inexisténcia de uma carta-respost (0 de Cabral ter fica do aparentemente sem maior desdobra- nediata, 0 coment mento reflexivo ou cia dir por parte de Drummo ‘oncorda {vista se barra a si mesma Esse siléncio epistolar nao significa, po- rém, que Drummond nfo se voltasse para as préprias escolhas no campo da prosa. Pelo contrério, a cada nova coletinea, di- reta ou indiretamente, cost zare apontar para alguns de seu caracteristicos, muitos deles cle constitutivos igualmente do seu método postico. Estabelecendo, tas prévias, ora no interior dos relatos e issim, ora em no- erénic: como parimetros dos seus exer- ios em prosa, assim como de alg dos desdobramentos e interferéncias tre relato e poesia em sua obra, uma espé= cie de ondulagao entre aventura e roteiro, noticia e ficgio, épico e prosaizagio, con- temporaneidade e rememoragao, ao lado dda perspectiva cronista e de uma dindmica formal pauta- “nem longe nem perto”? do dana convivéncia potencialmente contra- ditéria entre movimento livre e formali- s vezes, se configu como um confronto plistico entre sinuo- zagio, que, mu sidade e contragio, curva ¢ concha. Nesse sentido ¢ significativo que, ja em Contos de aprendis, de 1g ao volume, alguns prin gstenfatizas- se, na nota prévi 6 Cf.Carlos Drummond de Andrade. fos”. IN: Andrade, Ca yond de. Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1979. p. 845-848. 7 Andrade, Carlos Dru tos Lite nond de. Poesia Completa Prosa. p-96¥. cipios distintivos de un va peculiar, "Nas hi conta A6rias que ele nos ado me nos, o que me pret diaaatencio a ponto de fascinar-me", lé-se A guisa de introdugio ao livro, “nao era o enredo, o desfecho, a moralida do, e sim um aspeeto particular da narta~ tiva, ar posta de um personage, o tn de um incidente, a cor d chapéu’s, Observagi jam ecoa- li- odutéria, Jue s eri das, onze anos depois, desta vez nu vro de poema noutra nota sem assinatura direta, mas atribuida a Drummond. Trata-se da breve sintese des Lig mentari critiva anexada a primeira edigao de do de coisas, que se aproxima dos co- aos Contos de aprendis sobre- tudo nos pargrafos referentes aos poe- mas narrativos e as “reminiscéneias de autor” incluidos no livro. “Sao contadas inalaa estérias vero-imaginsi “Nota da Editora’, “sem, contudo, o me- nor interesse do narrador pela fabula, que sé 0 seduz por um possi E, quanto &s meméria a-se operagio dupla: redugio, “ao minimo de anotagdes",¢ recorte ujeito cl signifiea- do extranoticial”: “o objeto visto de relance, como reduzido aespelho"™. 0 detalhe, mais do que a progres do quea trama, funcionando, a seu ver, como elemento narrative de fato determinante: eis 0 que assinala a nota a Contos de aprendis. 0 que se manifesta diretamente nos contos que compoem acole nea, E de modo particularmente plarna ina Mari e impat que aproxima amen ja de Lurdes ¢ 0 velho Ferreira, 0 vereador Valdemar e 0 8M. Ibid, p.807 Carlos Dr Rio de Janeiro, Flitora Nova Aguilar, 2003, p. 456 gAndrad mond de, Poesia Completa. Preso em fuga, o menino ca senhora sol a em agontia, vespectivamente em “Conversa de velho com crianga”, “Camara e eadeia” e “A doida’; no misté- rio dos sinais além-timulo em “Flor, Telefone, Moca” ¢ da suavidade com que Samuel comia dedos de senhoras em “O gorente’; na dominane fe éniby ininas no relato de um percurso de em “Extraordinaria conversa com uma senhora di inhas relagde no descompasso entre o ritmo da personagem Dasdores ¢ o do relégio No conto “Presépio”, Simpatias, mistérios, descomp: —"Onde te ccurvas, fatores pa ocullas, preedria sintese™ — que recor tam e orientam as fiegoes drummondia- nas, Inclusive aquelas imbricadas aos poemas. Inclusive os exercicios postico- dominam certos harrativos nos quai objetos (a pedra,a mesa, o piano, 0 s (amoga-fantasma, 0 boi, o embrulho indescritivel) sentimentos particu (0 medo, a falta, a solidariedade), ele- mentos que se transformam em prinei- pios de enquadramento dos relatos. Nao, ni Yestido, a flor, o edificio), presenga ares o me barra a vista", lé-se em “Opaco’, “A vista se barra a si me: O detathe funcionando simultaneamente como delimitagio e como uma espécie rico no interior do pro- no. Eapon- tando, igualmente, para um movimento sintese de campo din: cesso narrativo drummondii de configuragio, concentragio formal, em meio, no entanto,& seqiien- cialidade, a sucessio temporal, a0 fluxo préprio a narrativa. nC IN; Poesia Completa p.126. le Andrade, Poesia Completa los Drui de Andeade, Nosso Temp 12 Carlos Dru e Prosa, p.a73274 Nao é de estranhar, ido, que, num de seus livros de erdnicas, Drummond tenha escolhido justamente ¢ acadeira de balango como figura eapaz de dar conta do seu processo narrative, assim como da forma de leitura requerida por ele, Pois, como se lé no prélogo ao fi vro, trata-se de um mével ¢ paz de conj tas, no sentido da localizagio, da stasis, ¢, simultanea- paz pouso”, “a con- mente, de um perpetuum mobiles: tanto de favorecer 0 "r templagao da vida’, quanto de manter “o prazcr do movimento". Nem é de es- igualmente, que a opgio drum- mondiana pelas formas breves da prosa — o conto, a cronica, o comentario: faga- novimentos de expansio, de uma s acompanhar, por vezes, de alguns ‘io de textos, também curtos, folhetineseas imas que, como glos con- tinuayam, por d © mote langado emalguma de suas crdnicas. Por vezes é um personagem que retorna — como Greta Garbo ou como oneto em algumas das historias de Fala, Amendoeira —; por vezes se fa vocada com de-uma figura inventada e freqi B uma mascara do cronista; por vezes € como “Joa ncia, ndio”, quase um tom que se repete — como nos ‘casos” que se seguem em Cadeira de balanco; ou uma perspectiva idéntica que unifica um conjunto de textos, como do paladar” na séri “O eéu da boca’. Por vezes hi um desdo- ada“meméri. bramento episédico e é a historia mesma que se alonga e se vé submetida a viradas © viradas, a eronica se avizinhando da novela, como em *A bolsa’,"O caso dos discos voadores no Leblon’, 151 Ibid, p. 1235, s004 “Histéria do animal incdmodo", “Histéria do cidadio no pode .“Duas mulheres”, “Cartas de estimagao", e em tantas ou- tras nas coletine eqiténcias present de Carlos Drummond de Andrade. ses textuais, desdobram tos de Exp alguma trama ou homogeneizagdes ag de tom ou ponto de vista levado o cronista P intertextuais ubem Braga, certa vez, ao falar de Fala, Amen- docira, a sugerir que, “bem pensando", que te o livro “poderia ser u na novela ou peque- 7 no romance de costume Seqiiéneias de erdnicas que se avizi nham, por outro lado, de algumas produzidas na poesia drummo E que se ancoram, por sua vez, ora lugares (Itabira, Rio de Janeiro), per- sonagens que retorn: er (como o pai, Robinson Crusoe, Carlitos, Camses), ora em pereursos cumpridos numa suces- sio de textos (lembre-se de "Lanterna magica” em Alguma poesia), ora em pocmas mais longos (como "A histé marginal Clorindo Gato"), ou em conjunto de episédios ou quadros, como Quixote e Ouonde é um as vinte e uma segies de Sancho, de Portinari ponto de vista, um modo dominante de enquadramento, que funciona como ni- cleo narrative de um conjunto textual, De que é exemplar a perspectiva memo- lista que interligaria parcela significa tiva dos poemas do Drummond pés- Boitempo, fazendo da ten: lado, registro lirico, te mento, ¢, de outro, os fios narrativos da lembranga, o elemento de unifi tre 0s livros Boitempo, Menino antigo ¢ Esquecer para lembrar. fio entre, de um po presente, frag- 14Apud Antonio Candido, ‘Drummond prosator” IN: Hecortes, S20 Paulo, Companhia das Letras, 1993 pas. Se essas tensdes entre detalhe ¢ sucessao, resumo ¢ movimento, texto singular e seqiiéneia, cumprem papel determinant na configuragio de mmondi uma postican alas sea crescentaria uma preocupagio jerada com o tom, com um modo de reflexao “om estado de créniea"s, de conver 'sa.em tom nm or, nos quais épico, aventura e prosaizacao; acontecimento, matéria comemorativ rotina pudes- sem manter uma copresenga, O que se manilestaria di ctamente, por um lado, na domi ia da cronica na sua obra em prosa, sobretudo desde meados da déeada de 1950. Ese converteria, igual- mente, em item regular dessa poctica exposta fragmentariamente em prélogos © em alguns textos. Como na “auséneia *, no “exereicio sem gem de “pass ivagagio", aspectos por meio dos quais de pretensi método"®, na cio", o cronista autodefine a prépria escrita em Passeios na Ilha. Como na énfase iter “modesto” dos escritos, na jade de alormentar o leitor’, ape nas “aqui e ali”, recordar-the “a condigho humana’”, expressos na nota prévia ao livro Bolsa GA Vida. Ou como na “simpatia evimplice”, voltada para 0 ‘ser comum”, que orientaria os textos de Caminhos de Jodo Brandéo. Esse “tom de conversa", a despr tensio, 0 “oficio de rabiscar sobre as coisas do tempo", nio se restringiriam, porém, & sua prosa, E serviriam, ao con- 0, le exigéncia comum aos contos 15 Andrade, Carlos Drummond de. Poesia Completa ¢ Prosa, p14. G1. Ibid. p. 963, 7 ML bid, pngg, 18. bid, p.gty. ecrdnicas e ao seu trabalho postice. aico-cireunstancial, exten- sobre a qual Drummond leteria indiretamente, tomando mediata a obrade Gongalves Dias, em artigo inelufdo em como refer Confissies de Minas, e,de modo mais ecarne™ —, direto — “absorvo epop regis munho do tempo presente e com a redefinigo da poesia narrativa num dos “Apontamentos Literati em Passeios na Ilha. ndo a preocupagao com o test * reunidos: Nesse sentido, opondo, em “0 Sor- riso de Goncalves Dias", o poema imbiras” As “Sextilhas de Frei Antio”, os ver Gio", 0 “didatismo”,o cardter,a seu ver de “poesia de instituto hist6rico", do 6pico inacabado gongalvino, ao *sorriso”, 0 “ofeito ligeiramente cémico™ obtido, por Goncalves Dias no segundo poema, Drummond privilegiaria as “Sextilh Pois, assinalaria ele, “Goncalves Dias ainos apresenta 0 edificante e 0 épico debaixo de um certo pitoresco, que Ihe reduz.as proporgdes, humani Necessidade de redim nsionamento do épico que nao se limitaria A poesia narrativa romantica, estendendo-se literatura contemporinea, conforme assinala o poeta nos seus “Apontamentos terdrios", Poi io ha” propria- mente um “tempo de epopéia’, e sim cos" ou no, o fundamental, sen “poetas 6 de acordo com a avaliagao drummondia- n estaria na capacidade de “extrair los Drummond de Andrade, “Made In; Poesia Completa. Rio de Janeiro, 20 Ch Madura Editora Nova at Andrade, Carlos Drummond de, Poesia Completa 9% e Prosa, p. 2a Id. Ibid, SS eo mais, set alimento do contempora ido, como do passado ou do ro", - ono do passado ou do futur leh Daf ter feito do “gosto do cotidiano"** eda convergéncia entre escritae ci cunstaneia, ou, nas palavras do poeta, tinea entre “notic io notic ‘ o“palpavel” ¢ 0 “imaginério"®, “0 que acontecen” e“o que nio aconteceu"™, : entre “o real” ¢ 0 “real dentro do real”**, outros dos aspectos fundamentais ao seu método literdrio de modo geral, e nao apeni a prosa, entre mate A convergénci apr centre experién- nquanto orienta- 1 trabalho, nao sente e matéria pocti cia ¢ narrativizagio, gdes metédicas no fo pelo pocta, mas, de modo diverso, por n registradas regularmente apenas jos de seus criticos. “Ea cireunstin- mu ", comentaria, nesse sentido, Joao ci Gaspar Simbes sobre Drummond, “que slimenta as suas melhores poesias™. Essa "poesia do tempo presente”, como assinalou Otto Maria Carpeaus, “transfor- mando qualquer assunto em matéria pos ico” tica’®’, eo poeta fazendo do “pro 25 ld. Ibid, p. 1013. 24 Candido, Antonio. “Inquietudes na Poesia de Drummond. IN: Vérios Eseritos.3* ed. So Paulo, Cidades, 1995. p-128- 45 Andrade, Carlos Drummond de. Poesia Completa ¢ Prosa,p.1395- 6 Md. bid, p 1295. 27 Id. Ibid, p. 28 ld, Ibid. 2g Simoes, Joo Gaspar. “Carlos Drum Andrade e a Poesia de Sénia (org). Carlos Drummond de Andrade, Colegio Fortuna Critica, 24 ed Rio dedan Civilizagio Brasieita, 1978, p95 30 Carpeaurx, Oto Mara, “Fragmento sobre Carlos Dr AN: Brayner Sia (or) Carlos Drummond de Andrade. Colegio Fe Critica 2% ed. Rio de Janciro, nond de Andrad nao “negagio” — diria Sérgio Bu de Holanda Poctico”s mas sima “condigio do m sua obra. O transito dessa diego prosaica ede processos de narrativizacao, e de tensionam {Jetalhe, resumo eseqii cia, pelas eranicas ¢ pelos Poemas drummondianos, ai ila, 0 abandono, por parte do poeta, tanto da d como “possi entre prosa e poes! ilidades exclu: coextensivas", que costuma sus os “du sistemas expr quanto da exclusao do modo nari por meio da qual se tem identificado genericamente o potti incluindo-se, ainda, recursos ¢ motives ‘0. Nesse transito que interconectam ¢ evi noeco de um modo expressive no outro. Lembre-se, nesse sentido, do tema Tobinsoniano, recorrente na poesia de Carlos Drummond de Andrade, ¢ fundamental também a.um livro de crdnicas como Passeios na Ilha, por exemplo. Ou dos relatos de viagem sob forma d ronica ou poema, ce no primero caso, “Contemplacao de Ouro Preto” ou “Viagem de Sabara no segundo, as quatro se¢i “Lanterna mégi “Revelagio do subiirbio", por ex: nda, um uso freq ies de ‘a” ou um poema como, mplo. nite em comum, 2.1978. p85 que. Posie et Revit: Une Mhétorique des Genres. Patis, José Cs 5M. Ibid ¥ Ler, a respeito, a“Introdlug 14,1989, P-3 ul de Andrade", de Silvia de, Santiago (IN: Andrade, Carlos Dru Poesia Completa. Rio de Janeiro, Editora Aguilar, 2002, em especial p. XXL ess). acto, algumas vezes auto- irdnica (como no “nobre Dr ond” 7 que vale“menos que um plebeu”, de *Aristocracia’), outras vezes envolvendo - reforgo a uma prosaizagio de tom —"o Kaaaio hho dela/ est batendo asas, seu , ,ou a.um processo de fieeiona- ia “adeus, composigio/ que um . se chamou Carlos Drummond de Andrade” — ¢ “Drummond usa imagem do poeta. frias vezes 0 seu nome, Carlos, para indicar 0 persona- gem dos poemas"s, comenta Antonio ndidoe “Inquictudes na poesia de Drummond”, Em geral no interior de apéstrofes presentes desde Alguma rlos! ser gauche Sete Faces’, de *Carrego povsia, desde 0 “Vai, Ci na vida", do “Poema de passando pela pergu Comigo” — "0m Carlos! Nao respond ido te cham: ” —e pela ae reiterada auto-referéncia melancélic em “Nao se Mate” — “O amor no ese tt Jaanin- no claro, /é sempre triste, m io diga ns sabe nem saberd lho, Carlos,/ mas guém,/ ningw E, também no que se refore a essas uli > nome nos textos, nao se aturas” a essas inclusdes elas, do prop) trata de recurso exclusive *< Telefonema, Moga”. “Muito obrigada, seu CDA 1a vizinha que nao quis dar o nome" em Caminkos de Jodo Brandao. As iniciais aludindo direta- mente, 0s poemas. so de flor los, eu preveni que muito triste”, 1é-se no conto “Flor, diz “ui i, a0 modo como aparecia, mui- tas vezes, o nome do cronista no jornal “Quando encontraris, Carlos, a chave de outra criatura?", pergunta-se, por si vez, o narrador de “Conversa de Velho com 172 > snd Ci na presentificagio autoral, a vizin anga”, sublinhando, com essa repenti- entre conto e erd1 Contos de aprendis. E.avizin| mais uma vei ios “Carlos a prosa ea poesi Essa proximidade parece ainda se in- tensificar quando se pensa na relevanci ia do modo narrative em ambas as formas. de expressio na obra de Drummond. Relevo por vezes sublinhado — nao sem }or — por meio de algumas formulas € pretéritos propositads ionais, Ha repeti¢ trutural & composigio, de hu nte conven cion 0, es Nos diureos tempos” no flatua poema do mesmo nome de rosa do povo; hé a expres- sio “Um dia — faz muito, muito tempo" com que se inicia “O Poema da Bahi: ito”, do li- que nio foi es vro Amar se aprende m amando; 0 “Era manhi de setembro" de um dos poe- mas de O amor natural; o“Era uma ver um czar naturalista/ que eagava homens’, como nos primeiros versos de “Anedota Biilgara’, em Alguma poesia: ver um homem que comia dedos de se- auma icial de “O Gerente”, in- nhoras’, frase i cluido em Contos de aprendis; 0 Era uma ver um Alejjadi tinha mio, / raiva.e cinzel, lai de*0 Voo sobre as Igrojas”. E hi de Boitempo denominada "Mais que Perfeito”, na ho/ nao tinha dedo, nao 0 tinha’, ainda, nesse sentido, toda a sec bal su: qual a referéncia a este tempo ve linha a distancia temporal e 0 carater de passado remoto dos poemas incluidos na primeira parte do livro. Este relevo narrativo se mostra per- ceptivel até mesmo onde, a rigor, parece Ondas, sinuosidades se apresentam como sinais de lemporalizagdo ausente, Como nas formas femininas em repouso de um poema como “Corporal”, cuja ondulagio natural, no entanto, acabaria transformando, sob um olhar amorosamente atento, uma i ‘itmo. Ou como bilidade aparente em ago no Alto da Boa Vista’, de Passeios na Ilha, por exemple. Ai,a propria deserigao da regio, q meio a uma parada para reflexio, se des dobra entre sintese e pereurso, “contra- Ho" e “sinuosidade”, a ondulagio do caminho funei onando como guia geogré fico de narrativi o. Am Jo que — tambémacontece noutra crdnica, “Ventania’, na qual a “zombaria ruidosa’, a*bulh balo” de um “deslocamen- do vento", o “em to surdo”, de uma “flutua- onde, a prinespio, ha penas estabi idade, inéreia, alguém prestes aadormecer. Ondas, flu- ades, para emprega imagens drummondianas, que, tanto na sua prosa, quanto na sua poesia, se apre- is de te sentam como sin poralizagio, figuragdes de formas por vezes pouco aparentes de narratividade Sub-repticia ou direta, a recorréncia narrativa, ao lado do relevo da circuns- tancia eda ten cia, aspectos que transitam entre as vé- i entre detalhe e seqiién- rias espécies literarias trabalhadas pelo recurso de fato meté- poeta, se mostr dco (se bem que submetido a inflexdes, por vezes a torgées, diferenciadas), na obra de Drummond, processo funda- l, sob pressio épica e dic da forma postica. no seu caso, para a determin Poesia e Narrativa Nao que o aspecto prosaico ea te narrativa nfo tenham sido objeto de eserut arte dos estudiosos da io por obra drummondiat ise ass entre os quais inalaram os comentérios de Carpeauy, Joao Gaspar Simd Buarque de Holanda sobre o peso da circunstancia na sua poesia. das, nes Jo privilegi terferéncias mrituas, no seu cas tre postico e pi porvezes, como os poemas em prosat® do primeira ico. O que resultaria, 's literdrias mistas, m espé Drummond, divulgados com certa fre- qiiéne 0 Para Todos, do Rio de Janeiro, com eco finissecular matizado e sob influéneia direta ¢ cons- ciente de Alvaro Moreira, ou como a produgio que o poeta autoclassifi sa’ tal no periddi em livro de 1967, de “versipr a conjugagio entre pratica cotidiana da erdnica e exereicio postico na sua obra partir em especial dos anos 1960. Ou, segundo a explicacio do proprio Dew 1. "Cronicas que transfer para o verso comentirios ¢ divagagies mo a chamé-las de dla prosa, Nao me an poes ser, Entao, vers ixaram de a. Prosa,a rigor d prosa’ 36 Mista compl Bibliografia Comentada de Carlos Drummond de Anulrade figr8-1g30) (io de. José Olymnpio Fundagio Casa de Rui Barbosa! INL-MEC, 1980), onganizada por Fernando Py. Leiam-se,a respeito.0 artigo “Os poemas em prosa de Dru dessas publieagdes se acha na nento Literirio"Minas Arnaldo Saraiva (Suph Gerai 7 de dane rode 1970). €70s pri critos de Deas 0 oncl eo Modernismo”, prim capitulo de Poesia e postica de Carlos Drummond dde Andrade, de John Gledson os Drummond de. Poesia eta, p. 508. na verdade, poueas tentat 's global da produ ul drummondiana em prosa. Pai "Drummond prosador”, publicado por Antonio Candido na Revista do Brasil om 1g84..Ai, mesmo chamando a atengio 8, para um “trinsito de mao dupla’®’, para uma “interpenetracio de poesia, erdni nica; na sua croni a, poe poesia” —, para am jogo coma na trajet sta fiegio, uma mistura de géneros ¢ sua “variada singularidade literdria de Drummond, Antonio Candido enfatizaria, igualmente, um movimento caracteristico de singularizagio, con base na diferenga entre linguagem refe- rencial e figurada e numa gradagao das tenses préprias ao processo de formal 0 levado a cabo pelo escritor nesses s poemas parte n divi “ea prosaa parte mais distendi- recolhen Candido, da”, ao, um papel peculiar, e “indispensivel”, abendo, a seu ver, & prosa de fi na obra de Drummond, “na medida em que constitui o ponto intermédio na ga- ima que vai da poesia & crdnica”®. Pensando, poré mente, 1, especific nas relagdes entre prosa e poesia, nar- rativo e litico, no interior da poesia drummondiana, Antonio Candido subli- nharia, em “Inquietudes na poesia de Drummond’, que, distinguindo-s outros modernistas, voltados também, para o prosaico, para o cotidiano, mas om busca de epifanias e momentos posti- cos, "ele, a0 contrério, procede a uma 38 Candido, Antonio, ‘Drummond prosador’ p14 39 ML. Ibid, p.1g, Go WL Ibid. qu. Abid, pag ano4 aed fecundagio ea uma extensio do fato, achegarau epopéia da vida o qual procuraria “apre idual na matha das ¢ a espécie de disereta nt mporanea”® n nider o destino humana em iros da sociedade moderna”, E que teria em poemas como "Morte do leiteiro”, Desapareeimento de L Porto”, "Morte no avido” exemplos par- ticularmente si ieativos, segundo ido, desse processo de * nsfigu- facio do cotidiano” caracter icoa Drummond. E, também, da ligagio recor- rente entre “estruturas es- pecificamente pocticas, com funcao propria’, © tendéncia ao relato, em obra, resultando numa ti- pologi a diferenciada e com al- nari iv0-poemati- guns desdobramentos esbocadosa titulo de cexemplo, por Candido, em “1 Poi Drummond’, diz Candido, h ‘ummond prosador”, “na poesia de um gosto nto narrativo, acentuado pelo ele desde a tonalidade de ‘romance’ popular ("Caso do vestido’) até 0 poom: (‘Morte do leiteiro”), com matizes am pela efabulaca (10 Padre © a Moga") €0 relato com pro- oti que pass mareada pessoal ("Morte no avi") abrangéncia dessa a0 lo dimensio narrat \go da obra poé- tica de Drummond nao tem sido, no et tanto, a perspecti Nem se tém extraido, de modo geral, de a erftica mais habitual. Drummond’, p.139, ‘yl. bid, p28. 44 Candido, Antonio.“ O narrativo apenas como uma fronteira discursiva a ndo aparece interna leraga mentos fundam rente aly re Jo do processo drummondiano io reco om . pare nteira io apenas como h i dire » ao cotidiano, ao munde social, mas como foco tensional constitutive, como fator de tempora fio, de fg; contraste com o movimento d ritmica e concentrac forma que cos gio lirica. Nao que se nha deixado de registré-lo, al, isso se da, sobretudo, em fungio de um ou outro texto ou nygular da tra- jet6ria do pocta. Lembrem-s sentido, alguns aponta- mentos criticos relevantes sobre e presenga do far tor narrative na poesia drummondiana. Lembre-se, em Lira ¢ iz Costa Lima mo modo de, via tempo vivido, a Histéria se revelar na poesia drummondiana‘s, Ou Fran Achear* tratando, por exemplo, d rodigiosa efi a’ de do “Viagem na Familia” como um “travelling”, a ma- neia narra io Esplendor’, defi neira da narrativa cinematogréfica, ou sublinhando 0 “andamento narrativo” Cost 4500. L na poesia de Carlos Drummond de Andrade” 2.70 prinetpio-corros IN; Lira e Antilira, Rio de Janeiro, Civilizagio 11968, po isco Achean Carlos Drummond de Publifotha, 2000, de “A maquina do mundo”. Ou, ainda, José Guilherme Me