Você está na página 1de 4

HABEAS CORPUS Nº 609474 - PA (2020/0222080-3)

RELATOR : MINISTRO NEFI CORDEIRO


IMPETRANTE : EDUARDO DA SILVA SEOANE E OUTROS
ADVOGADOS : LUANA MIRANDA HAGE LINS LEAL VIEGAS - PA014143
LUCAS SÁ SOUZA - PA020187
FERNANDO ALBERTO CAVALEIRO DE MACEDO BARRA -
PA027046
THAMMYZE VERGOLINO PINHEIRO - PA025092
IMPETRADO : TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PARÁ
PACIENTE : EDUARDO DA SILVA SEOANE (PRESO)
CORRÉU : JOSÉ NILSON TEIXEIRA
CORRÉU : CARLOS DAVILA BITENCOURT
CORRÉU : GLAUCIA RODRIGUES BRASIL OLIVEIRA
INTERES. : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PARÁ

DECISÃO

Trata-se de habeas corpus, com pedido de liminar, impetrado contra decisão de


indeferimento do pedido liminar no writ de origem.
O impetrante foi condenado pela prática dos crimes tipificados nos artigos 180,
caput; art. 288 – A; art. 158, § 1º e art. 250, § 1º, todos do Código Penal, à pena de 20
anos e 4 meses de reclusão e ao pagamento de 701 dias-multa, a serem cumpridos em
regime inicialmente fechado, decretando a sua prisão preventiva por ocasião da sentença.
Alega a defesa, em síntese, ausência de de fundamentação idônea e concreta
da sentença onde decreta o claustro preventivo, e, portanto, nega-lhe o direito de recorrer
em liberdade. Ressalta que o paciente respondeu em liberdade a todo o processo criminal
mas que, no dia 24/08/2020, foi surpreendido em uma blitz, momento no qual foi preso e
encaminhado para a Delegacia de Polícia de Anapu-PA.
Requer, liminarmente e no mérito, a revogação da prisão preventiva ou sua
substituição por medidas cautelares alternativas.
É o relatório.
DECIDO.
A teor do disposto no enunciado da Súmula n. 691 do Supremo Tribunal Federal
e plenamente adotada por esta Corte, em princípio, não se admite a utilização de habeas
corpus contra decisão negativa de liminar proferida em outro writ na instância de origem,
sob pena de indevida supressão de instância.
A despeito de tal óbice processual, tem-se entendido que tão somente em casos
excepcionais, quando evidenciada a presença de decisão teratológica ou desprovida de
fundamentação, é possível a mitigação do referido enunciado.

Edição nº 0 - Brasília,
Documento eletrônico VDA26534793 assinado eletronicamente nos termos do Art.1º §2º inciso III da Lei 11.419/2006
Signatário(a): NÉFI CORDEIRO Assinado em: 04/09/2020 17:41:13
Publicação no DJe/STJ nº 2988 de 09/09/2020. Código de Controle do Documento: 6fda5d9d-14ae-4f4a-9ea2-04cc2b3303fe
Na origem, a liminar foi indeferida nos seguintes termos (fls. 173-174):
Trata-se de Habeas Corpus com pedido de liminar, impetrado em favorde
EDUARDO DA SILVA SEOANE, apontando como autoridade coatora o Juízo
deDireito da Vara Criminal da Comarca de Tucuruí, tendo como objeto suposto
constrangimento ilegal nos autos da ação penal nº 0016754-71.2017.8.14.0061.
Aduz o impetrante que o paciente foi condenado pela prática dos crimes tipificados
nos artigos 180, caput; Art. 288 – A; Art. 158, § 1º e Art. 250, § 1º,todos do CP, à
pena de 20 (vinte) anos e 04 (quatro) meses de reclusão e 701(setecentos e um) dias-
multa, a serem cumpridos em regime inicialmente fechado, decretando a sua prisão
preventiva por ocasião da sentença.
Afirma que o coacto está sofrendo constrangimento ilegal em seu direito de ir e vir
alegando, em suma, ausência de justa causa e fundamentação idônea e concreta da
parte da sentença que decretou a custódia cautelar, negando-lhe o direito de recorrer
em liberdade e suficiência das medidas cautelares diversas da prisão. Ressalta que o
paciente respondeu em liberdade a todo o processo criminal, sendo surpreendido no
último dia 24/08/2020, em uma blitz, quando foi preso e encaminhado para a
Delegacia de Polícia de Anapu-PA, onde permanece custodiado.
Requer, por fim, a concessão do direito de recorrer em liberdade e,subsidiariamente,
a aplicação de medidas cautelares do art. 319 do CPP.
É o relatório.
EXAMINO.
Pretende, a impetração, a revogação da prisão preventiva do paciente alegando
constrangimento ilegal em seu status libertatis, em razão da falta de fundamentação
idônea da parte da sentença que decretou a custódia.
Depreende-se dos autos que a sentença penal condenatória foi proferida, no dia
19/09/2018, condenando o paciente pela prática dos crimes tipificados nos artigos
180, caput; Art. 288 – A; Art. 158, § 1º e Art. 250, § 1º,todos do CP, à pena de 20
(vinte) anos e 04 (quatro) meses de reclusão e 701(setecentos e um) dias-multa, a
serem cumpridos em regime inicialmente fechado, sendo determinado, ao final, a
decretação da sua prisão cautelar,negando-lhe o direito de recorrer em liberdade,
considerando a necessidade de garantir a ordem pública e a aplicação da lei penal,
diante da gravidade e diversidade das condutas perpetradas pelo paciente e corréu
Carlos Davila Bitencourt, ao longo de considerável período de tempo nos municípios
de Tucuruí e Pacajá, bem como a fim de evitar a reiteração criminosa, conforme
fundamentado pelo juízo singular.
Analisando os autos, em uma análise ainda primária do feito, entendo inviável a
concessão da medida liminar requerida pelo impetrante, eis que não afastou o
periculum in libertatis e o fumus comissi delicti inerentes ao deferimento da liminar.
Outrossim, verifico que o deslinde da questão exige um exame mais acurado dos
elementos de convicção, bem como constato que o pedido se confunde com o próprio
mérito do writ, razão pela qual reservo-me para melhor apreciação durante o
julgamento definitivo e mais aprofundado da matéria.
Ante o exposto, indefiro a liminar pleiteada, nada obstando que o entendimento
venha a ser modificado por ocasião do exame de mérito do presente writ.
Consta da sentença condenatória (fl. 174):
[...].
No que concerne aos sentenciados CARLOS DAVILA BITENCOURT e
EDUARDO DA SILVA SEOANE, muito embora tenham respondido a maior
parte do processo ou todo ele em liberdade, a prolação de sentença condenatória

Edição nº 0 - Brasília,
Documento eletrônico VDA26534793 assinado eletronicamente nos termos do Art.1º §2º inciso III da Lei 11.419/2006
Signatário(a): NÉFI CORDEIRO Assinado em: 04/09/2020 17:41:13
Publicação no DJe/STJ nº 2988 de 09/09/2020. Código de Controle do Documento: 6fda5d9d-14ae-4f4a-9ea2-04cc2b3303fe
impondo a ambos o cumprimento de longa penas em regime inicialmente
fechado põe em risco a aplicação da lei penal, pois torna provável a fuga de
ambos do distrito da culpa, a fim de se esquivarem da aplicação da lei penal.
Ademais, os sentenciados foram condenados nesta sentença pela prática de diversos
crimes e em diversos momentos, gerando a certeza, dessa forma, de terem por
reiteradas vezes violado a ordem pública pondo em risco a paz social, agindo a
revelia da lei em total desrespeito a ordem imposta.
Não se trata de um delito isolado levado a cabo pelos sentenciados, mas de diversas
condutas criminosas perpetradas durante período relevante nesse município de
Tucuruí e no de Pacajá/PA.
Assim, a prisão preventiva também se faz necessária para salvaguardar a ordem
pública, impondo um óbice a reiteração criminosa.
Ressalto novamente não se tratar de mero exercício de futurologia, mas sim da
formação de um pensamento dedutivo lógico baseado em fatores concretos.
As medidas cautelares não se firmam em juízo de certeza, mas de grande
probabilidade, tomando os devidos cuidados para a não ocorrência de um resultado
lesivo cuja ocorrência é previsível. No caso, a medida cautelar em questão busca
resguardar a aplicação da lei penal. ame a probabilidade de fuga da ré, conclusão
baseada no quantum da pena fixada, no regime inicial de cumprimento de pena e na
tentativa clara dos réus de se furtarem da aplicação da lei penal durante a instrução
processual. Tem também o objetivo de resguardar a ordem pública, pelas razões já
expostas acima.
Firmadas tais considerações. DECRETO A PRISÃO PREVENTIV A dos
sentenciados C ARL OS DAVI LA BITENCOURT e EDUARDO DA SILVA
SEOA NE.
[...].
Como se vê, consta do decreto a necessidade da custódia apontando que a
prolação de sentença condenatória impondo a ambos o cumprimento de longa penas em
regime inicialmente fechado põe em risco a aplicação da lei penal, pois torna provável a
fuga de ambos do distrito da culpa, a fim de se esquivarem da aplicação da lei penal.
Sendo assim, não se apontou qualquer elemento do caso concreto para justificar a
prisão, fazendo afirmação genérica e abstrata sobre a gravidade dos crimes pelos quais o
paciente foi condenado, além de presunções e conjecturas, evidenciando a ausência de
fundamentos para o decreto prisional.
A propósito do tema, confiram-se os seguintes precedentes:
PROCESSUAL PENAL E PENAL. HABEAS CORPUS. SUPERAÇÃO DA SÚMULA
691/STF. PRISÃO PREVENTIVA. RECEPTAÇÃO. FUNDAMENTAÇÃO ABSTRATA.
FALTA DO REQUISITO OBJETIVO PREVISTO NO ART. 313, I DO CPP.
ILEGALIDADE. PRESENÇA. HABEAS CORPUS CONCEDIDO, COM EXTENSÃO
AOS CORRÉUS DA AÇÃO PENAL.

1. In casu, o decreto de prisão não traz qualquer motivação do caso concreto, fazendo
referência à gravidade do delito em abstrato ou de genérica regulação da prisão
preventiva, bem como sustenta a medida pela presença de indícios de autoria e
materialidade, o que indica a ausência de fundamentos para o decreto prisional.

2. Obsta a manutenção da constrição cautelar o fato dos acusados terem sido denunciados
pela prática do crime tipificado no art. 180, caput, do Código Penal cuja pena máxima é de 4

Edição nº 0 - Brasília,
Documento eletrônico VDA26534793 assinado eletronicamente nos termos do Art.1º §2º inciso III da Lei 11.419/2006
Signatário(a): NÉFI CORDEIRO Assinado em: 04/09/2020 17:41:13
Publicação no DJe/STJ nº 2988 de 09/09/2020. Código de Controle do Documento: 6fda5d9d-14ae-4f4a-9ea2-04cc2b3303fe
anos inatendido, portanto, o requisito objetivo previsto no art. 313, I do CPP.

3. Havendo identidade fático-processual do paciente e corréus da ação penal, na medida em


que a fundamentação do decreto prisional é comum, sem que tenham sido apontados
quaisquer elementos subjetivos aptos a obstar a aplicação do art. 580 do CPP, deve o referido
dispositivo ser aplicado de ofício para soltura dos acusados.

4. Habeas corpus concedido, para soltura do paciente EDUARDO VILELA DA SILVA, e,


de ofício, aplicação o artigo 580 do CPP para estender a ordem de soltura aos corréus da
ação penal MARCO ANTONIO FARDIN e GEORGES SAMIR EL CHAWICHE, o que
não impede nova e fundamentada decisão cautelar penal, inclusive menos gravosa do que a
prisão processual, por decisão devidamente fundamentada. (HC 389.328/SP, Rel. Ministro
NEFI CORDEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 23/05/2017, DJe 30/05/2017).

PENAL E PROCESSUAL PENAL. HABEAS CORPUS. CRIMES CONTRA A RELAÇÃO


DE CONSUMO. ART. 7º, IX, Lei 8.137/90. FALSIFICAÇÃO, CORRUPÇÃO,
ADULTERAÇÃO OU ALTERAÇÃO DE SUBSTÂNCIA OU PRODUTOS
ALIMENTÍCIOS. ART. 272, §1º-A, CP. INEXISTÊNCIA DE PERÍCIA TÉCNICA.
AUSÊNCIA DE PROVA DA MATERIALIDADE DELITIVA. FALTA DE JUSTA
CAUSA PARA A PERSECUÇÃO CRIMINAL. ORDEM DENEGADA.

1. A venda de produtos impróprios ao uso e consumo, nocivos à saúde ou com valor


nutricional reduzido, constituem delitos que deixa vestígios, sendo indispensável, nos termos
do artigo 158 do Código de Processo Penal, a realização de exame pericial que ateste a
materialidade delitiva, não bastando, para tanto, mero laudo de constatação. Precedentes.

2. Restando apenas a imputação do crime previsto no art. 359, o qual não preenche o
requisito objetivo disposto no art. 313, I, CPP, pois a pena máxima correspondente é de
detenção de 2 anos, impõe-se a necessidade de revogação da prisão preventiva com
relação a um dos corréus, pois os demais já se encontram em liberdade.

3. Recurso em habeas corpus provido, para determinar o trancamento da ação penal em


desfavor dos recorrentes quanto aos delitos previstos nos arts. 272, § 1º-A, CP, e art. 7º, IX,
da Lei 8.137/90, e conceder a soltura ao recorrente JONAS RICARDO PIRES, o que não
impede nova e fundamentada fixação de cautelar penal diversa da prisão. (RHC 45.171/SC,
Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 03/05/2016, DJe
12/05/2016).

Não se tendo no tema, divergência nesta Sexta Turma do Tribunal, desde logo
deve ser reconhecida a ilegalidade.
Ante o exposto, defiro a liminar para a soltura do paciente EDUARDO DA
SILVA SEOANE, que não resta por esta decisão prejudicado, o que não impede a fixação
de medida cautelar diversa da prisão, pelo juízo de piso, por decisão fundamentada.
Comunique-se.
Solicitem-se informações.
Após, ao Ministério Público Federal para manifestação.
Publique-se.
Intimem-se.
Brasília, 02 de setembro de 2020.

MINISTRO NEFI CORDEIRO


Relator

Edição nº 0 - Brasília,
Documento eletrônico VDA26534793 assinado eletronicamente nos termos do Art.1º §2º inciso III da Lei 11.419/2006
Signatário(a): NÉFI CORDEIRO Assinado em: 04/09/2020 17:41:13
Publicação no DJe/STJ nº 2988 de 09/09/2020. Código de Controle do Documento: 6fda5d9d-14ae-4f4a-9ea2-04cc2b3303fe