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A importância da ilustração na literatura para a

infância

A primeira impressão que uma criança tem de um livro é geralmente moldada


pelas imagens contidas nele. Livros infantis ilustrados combinam a literatura
com a arte. Nesses livros as ilustrações são tão importantes no relato da
história quanto o texto. Portanto, quando compartilhamos livros ilustrados com
crianças, a fim de melhorar a sua experiência de leitura devemos dar tanta
atenção às ilustrações quanto ao texto.

Devemos envolver a criança na escolha do livro, de preferência oferecendo


várias opções com ilustrações atraentes, que ela se interesse em
explorar. Antes de começarmos a ler o livro propriamente, podemos passear
pelas páginas, folheando-as, olhando as ilustrações e discutindo o que vemos.
As ilustrações permitem à criança explorar sua imaginação e fazer conexões
com os personagens e eventos que vê retratados no livro. Quando a criança
consegue se conectar mais com personagens e eventos através das ilustrações,
o livro torna-se mais real para ela.

"A ilustração para a infância tem um papel fundamental na educação do olhar.


Se as habituarmos a ver boas imagens, serão adultos com um olhar mais
culto", diz Eduardo Filipe, um dos comissários da Ilustrarte, a Bienal
Internacional de Ilustração para a Infância. Para entendermos a importância do
livro ilustrado pode fazer-se a analogia:“é a primeira galeria de arte que uma
criança vê”.
Quer um filho mais atento ao mundo? Dê-lhe
livros!

Na a VII edição da Bienal Internacional de Ilustração para a Infância (Ilustrarte)


que decorreu no Museu da Eletricidade, em Lisboa, o Expresso falou com
especialistas na matéria, que explicam a importância do livro ilustrado.

Uma das maiores e mais prestigiadas ilustradoras dos últimos tempos, a checa
Eva Pekárková, resume o valor do livro ilustrado numa frase só. Diz ela que
"um livro ilustrado é primeira galeria de arte que uma criança vê". De facto é
assim. Mas é ainda muito mais. A ilustração é apelativa por natureza. E é por
isso a primeira aproximação da criança ao livro, à história, à fruição e à arte.
Nesse sentido funciona como um meio absolutamente livre e de acesso fácil
capaz de trabalhar como nenhum outro objeto a educação do gosto.

Num sentido ainda mais lato, a ilustração infantil é uma plataforma essencial
para o desenvolvimento da criança, quer em termos cognitivos, quer no que
respeita à sua adesão à leitura e à descoberta. É fundamental também para a
criação de uma base cultural mais sólida e de um apetite pelo conhecimento.

"A ilustração para a infância tem um papel fundamental na educação do olhar.


Se as habituarmos a ver boas imagens, serão adultos com um olhar mais
culto", diz Eduardo Filipe, há anos um dos comissários da Ilustrarte, com Ju
Godinho.

Um trabalho de Violeta Lópiz

OS BONECOS QUE NOS MARCARAM


Ju vai mais longe e passa à história da ilustração, ou mais precisamente à
história dos livros infantis ilustrados: "Os livros ilustrados são chamativos e
oferecem à criança duas leituras. Uma é a da história propriamente dita, outra
é uma leitura visual dessa mesma história, o que em determinados livros se
torna primordial." Vejam-se aqui os exemplos de livros como "O Principezinho",
de Antoine de Saint-Exupéry, ou "Alice no País das Maravilhas", de Lewis
Carroll, e perceba-se como mais do que tudo são as imagens gravadas na nossa
memória que nos fazem lembrar o enredo.

Ilustração de Claudia Palmarucci

Há modelos mais corriqueiros mas que também fixamos. Os livros da Anita por
exemplo, também têm uma imagem de marca, mas são muito mais ligeiros. E
por aí fora... "Acho que as crianças têm que ver tudo, ou seja, não deve haver
limitações à leitura de diferentes tipos de ilustração, mesmo daquelas que
fogem à regra que a Disney praticamente implantou. Há pais que o fazem.
Filmes da Disney ou são bons ou são comerciais de mais," adverte Ju Godinho.
"Oferecer aos mais pequenos ilustrações variadas é mais racional. Tudo faz
parte da formação do gosto. Não nos fez mal ver os livros da Anita, nem da
Disney", continua Eduardo Filipe.

Para os dois especialistas em ilustração infantil é de bom senso ver tudo. "Isso
aplica-se a qualquer arte. Na música é igual. A criança tem que ser exposta aos
mais variados tipos de música. Se só ouvir música pimba, será um jovem
adulto que só gosta de música pimba. Tem que se educar naturalmente o
gosto, e provavelmente mais tarde ela fará uma escolha." Por que não deixar
uma filha ter barbies ou não ter jogos de computador?, questionam. "Tudo faz
parte do crescimento e em doses q.b."
Obra de Jesus Cisneros

A ERA DA IMAGEM
Num tempo em que a leitura está a cair em desuso, em que os tablets e os
smatphones tomam o lugar do livro, sabemos que só em certos núcleos
familiares, e com algum esforço, eles se tornam um hábito. O que é preciso
então para que a ilustração infantil consiga agarrar a criança? "Estamos na era
da imagem, sim, a história passou de facto a ser minorada, mas, pelo contrário,
a ilustração passou a ter um papel ainda mais decisivo e utilitário." É ela,
acreditam Eduardo Filipe e Ju Godinho, que ajuda ainda mais à paixão pelo
livro. E aqui entenda-se o livro como objeto. Livros de autores, livros muito
particulares, que levam os pais tantas vezes a perguntar se serão mesmo livros
para crianças, pois não os entendem. Estão sempre à espera de modelos mais
infantilizados. Só as crianças é que não. "É de criação pura que se trata", diz
Eduardo. "E para ela as crianças têm as suas referências muito presentes,
através de jogos e brinquedos que têm - e nenhuma imagem as choca. Estão
mais abertas e menos condicionadas."

O ANTES E O DEPOIS DA ILUSTRAÇÃO


A evolução na ilustração para a infância deu um salto gigantesco. "Há 20 anos
usava-se muito o deformado, imagens deformadas. Agora está a reaparecer o
estilizado, a linha, o desenho pela linha, onde nem há o colorido. A gravura está
na moda, quer a verdadeira, quer a digital. Isto do ponto de vista da técnica.
Quanto às cores, elas são diretas, primárias, não há espaço para matizes",
explicam. O que significa que o desenho é mais conceptual, mais depurado do
que aquela fantasia a que estávamos habituados.

Mais uma ilustração da italiana


Palmarucci

A casa também está na moda, não será por acaso. O arquétipo de casa é o
primeiro desenho que a criança faz: um quadrado com o triângulo e a chaminé.
Depois vem a árvore, o sol, flor, a nuvem, o mar, a figura humana.

Os ilustradores selecionados para a Ilustrarte 2016 - um total de 50 entre 1700


inscritos, oriundos de 72 países - pegaram nesse arquétipo e trabalharam-no
numa diversidade incrível. Destaque para os trabalhos da espanhola Violeta
Lópiz, que ganhou o primeiro prémio da bienal, mas também para a belga
Ingrid Gordon, ou para a obra de Jesus Cisneros, também espanhol, e ainda
para a italiana Claudia Palmarucci. Nota ainda para quatro portugueses:
Catarina Sobral, Daniel Moreira, Joana Estrela e Teresa Lima.