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UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MOÇAMBIQUE

Centro de Ensino à Distância


Manual do Curso de Licenciatura em Ensino da Língua Portuguesa
Linguística Descritiva do Português II

Código: P0189
Módulo único

24 Unidades
Direitos de autor (copyright)
Este manual é propriedade da Universidade Católica de Moçambique, Centro de
Ensino à Distância (CED) e contém reservados todos os direitos. É proibida a

duplicação ou reprodução deste manual, no seu todo ou em partes, sob quaisquer


formas ou por quaisquer meios (electrónicos, mecânico, gravação, fotocópia ou
outros), sem permissão expressa de entidade editora (Universidade Católica de
Moçambique-Centro de Ensino à Distância). O não cumprimento desta advertência é
passivel a processos judiciais.

Elaborado Por: dr. Lourenço Covane,

Licenciado em ensino da Língua Portuguesa pela UP.


Colaborador do Curso de Licenciatura em ensino da Língua Portuguesa no Centro
de Ensino à Distância (CED) da Universidade Católica de Moçambique – UCM.
Universidade Católica de Moçambique
Centro de Ensino à Distância-CED

Rua Correia de Brito No 613-Ponta-Gêa

Moçambique-Beira
Telefone: 23 32 64 05
Cel: 82 50 18 44 0

Fax:23 32 64 06
E-mail:ced@ucm.ac.mz

Website: www.ucm.ac.mz

Agradecimentos
A Universidade Católica de Moçambique-Centro de Ensino à Distância e o autor do
presente manual, dr. Lourenço Covane, agradecem a colaboração dos seguintes
indivíduos e instituições:

Pela Coordenação e edição do Trabalho: dr. Armando Artur (Coordenador do


Curso de Licenciatura em Ensino da
Língua Portuguesa);

dr. Cardoso Augusto Nhambirre


Pela Revisão Linguística: (Docente na UP).

Pela Revisão do Módulo: dr. Andrade Henrique (Docente na UP).


Centro de Ensino à Distância

Índice
Visão geral 5
Bem-vindo à Linguística Descritiva do Português II..................................................5
Objectivos da cadeira.....................................................................................................5
Quem deveria estudar este módulo.............................................................................6
Como está estruturado este módulo?.........................................................................6
Ícones de actividade.......................................................................................................7
Habilidades de estudo....................................................................................................7
Precisa de apoio?...........................................................................................................8
Tarefas (avaliação e auto-avaliação)...........................................................................8
Avaliação..........................................................................................................................9

Unidade 1: Domínio da Sintaxe e Semântica do Português: Frase e Enunciado


10
Introdução 10
Sumário..........................................................................................................................12
Exercícios.......................................................................................................................12

Unidade 02: Aspectos linguísticos da organização textual 13


Introdução 13
Sumário..........................................................................................................................16
Exercícios.......................................................................................................................16

Unidade 03: Gramaticalidade e aceitabilidade 17


Introdução 17
Sumário..........................................................................................................................19
Exercícios.......................................................................................................................19

Unidade 04: Aspectos da interacção verbal em Português 21


Introdução 21
Sumário..........................................................................................................................24
Exercícios.......................................................................................................................24

Unidade 05: Relações gramaticais, esquemas relacionais e ordens de palavras


26
Introdução 26
Centro de Ensino à Distância

ii Sumário..........................................................................................................................28
Exercícios.......................................................................................................................28

Unidade 06: A estrutura da frase simples do tipo declarativo 29


Introdução 29
Sumário..........................................................................................................................30
Exercícios.......................................................................................................................31

Unidade 07: Frases imperativas 32


Introdução 32
Sumário..........................................................................................................................35
Exercícios.......................................................................................................................35

Unidade 08: Frases interrogativas 36


Introdução 36
Sumário..........................................................................................................................39
Exercícios.......................................................................................................................39

Unidade 09: Frases exclamativas 40


Introdução 40
Sumário..........................................................................................................................42
Exercícios.......................................................................................................................42

Unidade 10: Frases optativas 43


Introdução 43
Sumário..........................................................................................................................45
Exercícios.......................................................................................................................45

Unidade 11: Construções de clivagens 46


Introdução 46
Sumário..........................................................................................................................48
Exercícios.......................................................................................................................48

Unidade 12: Tempo e aspecto 49


Introdução 49
Sumário..........................................................................................................................51
Exercícios.......................................................................................................................51

Unidade 13: O ASPECTO (Tipologia aspectual) 52


Introdução 52
Centro de Ensino à Distância

iii Sumário..........................................................................................................................54
Exercícios.......................................................................................................................54

Unidade 14: O aspecto na frase 55


Introdução 55
Sumário..........................................................................................................................57
Exercícios.......................................................................................................................57

Unidade 15: Os tempos gramaticais (o presente e operadores aspectuais) 58


Introdução 58
Sumário..........................................................................................................................60
Exercícios.......................................................................................................................61

Unidade 16: Sequencialização dos tempos 62


Introdução 62
Sumário..........................................................................................................................63
Exercícios.......................................................................................................................63

Unidade 17: Modo 64


Introdução 64
Sumário..........................................................................................................................67
Exercícios.......................................................................................................................67

Unidade 18: Modalidade (verbos modais) 69


Introdução 69
Sumário..........................................................................................................................70
Exercícios.......................................................................................................................71

Unidade 19: Aspectos sintácticos da negação 72


Introdução 72
Sumário..........................................................................................................................75
Exercícios.......................................................................................................................75

Unidade 20: A concordância negativa 76


Introdução 76
Sumário..........................................................................................................................77
Exercícios.......................................................................................................................78

Unidade 21: Orações completivas finitas 79


Introdução 79
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iv Sumário..........................................................................................................................81
Exercícios.......................................................................................................................82

Unidade 22: Orações completivas não finitas 84


Introdução 84
Sumário..........................................................................................................................86
Exercícios.......................................................................................................................86

Unidade 23: Orações relativas( restritivas e apositivas) 88


Introdução 88
Sumário..........................................................................................................................89
Exercícios.......................................................................................................................90

Unidade 24: Orações relativas sem antecedente expresso 91


Introdução 91
Sumário..........................................................................................................................92
Exercícios.......................................................................................................................92
Centro de Ensino à Distância

Visão geral

Bem-vindo à Linguística Descritiva do


Português II

Você tem em suas mãos o módulo da cadeira de


Linguística Descritiva do Português II. A presente disciplina,
cujos conteúdos se centram nos domínios da Sintaxe e da
semântica do Português, é uma continuidade, de uma
larga e complexa cadeira, que começa com a Linguística
descritiva do Português I (fonética, Fonologia e
Morfologia).
Com efeito, a Linguística Descritiva do Português II tem
como pano de fundo dotar o estudante de ferramenta
básica de Sintaxe e Semântica, à luz das novas teorias de
linguagem, facto que lhe permitirá, como futuro professor,
ensinar com correcção a Língua Portuguesa.

Objectivos da cadeira

Quando terminar o estudo de Linguística Descritiva do


Português II, o estudante (cursante) será capaz de:

Objectivos
 Adquirir bases teóricas sólidas que lhes permitam o
desenvolvimento das suas capacidades na pesquisa dos
fenómenos de variação linguística do Português

 Utilizar a Língua Portuguesa com correcção, tendo em


atenção a variação linguística nos discursos orais e escritos
dos aprendentes.
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Quem deveria estudar este módulo

Este módulo foi concebido para todos aqueles Estudantes


candidatos ao Curso de Licenciatura em Ensino da Língua
Portuguesa, que devido a sua situação laboral, não têm a
oportunidade de poder estar num sistema de ensino
totalmente presencial. Espera-se que os futuros professores
de Português possam ensinar esta língua com correcção,
tendo em atenção a variação linguística nos discursos orais
e escritos dos aprendentes.

Como está estruturado este módulo?

Todos os manuais das cadeiras dos cursos oferecidos pela


Universidade Católica de Moçambique-Centro de Ensino à
Distância (UCM-CED) encontram-se estruturados da
seguinte maneira:

Páginas introdutórias

Um índice completo.

Uma visão geral detalhada da cadeira, resumindo os


aspectos-chave que você precisa conhecer para
completar o estudo. Recomendamos vivamente que leia
esta secção com atenção antes de começar o seu estudo.
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Conteúdo da cadeira
A cadeira está estruturada em unidades de aprendizagem.
Cada unidade incluirá, o tema, uma introdução , objectivos
da unidade, conteúdo da unidade incluindo actividades de
aprendizagem , um sumário da unidade e uma ou mais
actividades para auto-avaliação.
Outros recursos
Para quem esteja interessado em aprender mais,
apresentamos uma lista de recursos adicionais para você
explorar. Estes recursos podem incluir livros, artigos ou sites
na internet.
Tarefas de avaliação e/ou Auto-avaliação
Tarefas de avaliação para esta cadeira, encontram-se no
final de cada unidade. Sempre que necessário, dão-se
folhas individuais para desenvolver as tarefas, assim como
instruções para as completar. Estes elementos encontram-
se no final do manual.
Comentários e sugestões
Esta é a sua oportunidade para nos dar sugestões e fazer
comentários sobre a estrutura e o conteúdo da cadeira. Os
seus comentários serão úteis para nos ajudar a avaliar e
melhorar este manual.

Ícones de actividade

Ao longo deste manual irá encontrar uma série de ícones


nas margens das folhas. Estes ícones servem para
identificar diferentes partes do processo de aprendizagem.
Podem indicar uma parcela específica de texto, uma nova
actividade ou tarefa, uma mudança de actividade, etc.
Centro de Ensino à Distância

Habilidades de estudo

Caro estudante, procure reservar no mínimo 2 (duas) horas


de estudo por dia e use ao máximo o tempo disponível nos
finais de semana. Lembre-se que é necessário elaborar um
plano de estudo individual, que inclui, a data, o dia, a hora,
o que estudar, como estudar e com quem estudar (sozinho,
com colegas, outros).

Lembre-se que o teu sucesso depende da sua entrega,


você é o responsável pela sua própria aprendizagem e
cabe a se planificar, organizar, gerir, controlar e avaliar o
seu próprio progresso.

Evite plágio.

Precisa de apoio?

Caro estudante:

Os tutores têm por obrigação monitorar a sua


aprendizagem, dai o estudante ter a oportunidade de
interagir objectivamente com o tutor, usando para o efeito
os mecanismos apresentados acima.

Todos os tutores têm por obrigação facilitar a interação. Em


caso de problemas específicos, ele deve ser o primeiro a
ser contactado, numa fase posterior contacte o coordenador
do curso e se o problema for da natureza geral, contacte a
direcção do CED, pelo número 825018440.

Os contactos so se podem efectuar nos dias úteis e nas


horas normais de expediente.
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Tarefas (avaliação e auto-avaliação)

O estudante deve realizar todas as tarefas (exercícios),


contudo nem todas deverão ser entregues, mas é
importante que sejam realizadas. Só deverão ser entregues
os exercícios que forem indicados pelo Tutor. Isto, antes do
período presencial.

Podem ser utilizadas diferentes fontes e materiais de


pesquisa, contudo os mesmos devem ser devidamente
referenciados, respeitando os direitos do autor.

Avaliação

A avaliação da cadeira será controlada da seguinte


maneira:

 Três (3) Trabalhos realizados pelos estudantes,


sendo divididos em três sessões presenciais de
acordo com a programação do Centro.
 Dois (2) Testes escritos em presença e um (1)
exame no fim do ano.
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Unidade 1: Domínio da Sintaxe e Semântica do Português: Frase e Enunciado

Introdução

É importante que, depois de várias vezes termos falado, ao


longo da cadeira, acerca da frase e enunciado, distinguir
os conceitos de frase e enunciado, procurando tornar clara
a sua utilização.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

 Distinguir frase do enunciado;

Objectivos  Definir proposição.

Embora designem objectos metalinguísticos teoricamente diferentes,


não raro vermos utilizar, indiferentemente, os termos frase e enunciado.
É verdade que, por vezes, podemos aplicar os dois termos a uma
mesma sequência linguística, dependendo da perspectiva teórica em
que nos situamos. Há casos, porém, que seria errado fazer tal
confusão.

O enunciado e a frase são sequências linguísticas que derivam de uma


ou mais proposições. O que será, então uma proposição? A proposição
corresponde uma estrutura abstracta construída por uma relação entre
um predicado e os seus argumentos. Ela exprime um estado de coisas
– real ou imaginário, concreto ou imaginário – que, na acepção mais
Centro de Ensino à Distância

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lata do termo, pode ser definido como uma relação entre os objectos
que caracterizam um objecto.

A sequência linguística que deriva de uma proposição é uma


proposição ou enunciado, e a sua análise exige a convergência de
conceitos dos domínios da sintaxe e da semântica que determinam que
da proposição <comprara, rapaz, livro> resulte, entre muitas outras, a
sequência o rapaz comprou um livro, mas não a sequencia um livro
comprou o rapaz.

A frase é determinada por princípios que regem a sua boa-formação


sintáctico semântico. Podemos considerar que as sequencias seguintes
são bem-formadas, isto é, são frases do português:

a. O Sílvio está comer um chocolate.

b. O Sílvio come um chocolate.

c. O Sílvio estava a comer um chocolate.

d. O Sílvio estará a comer um chocolate.

Poderemos igualmente afirmar essas sequências são enunciados?

Uma sequência linguística é um enunciado se os valores das


categorias gramaticais que o afectam, número, género, caso, tempo,
modalidade, determinação em geral, permitem localizar o estado de
coisas expresso pela proposição em relação ao parâmetro abstracto de
situação de enunciação. Esse estado de coisas passa, assim, a ser
um acontecimento linguístico construído na e pela enunciação, podendo
corresponder ou não não a um acontecimento extralinguístico, real ou
imaginário, concreto ou abstracto.

Analisando as sequências acima indicadas: pode dizer-se que a


sequência a. é um enunciado, uma vez que há construção linguística de
uma valor de quantificação e de um valor temporal. Esse acontecimento
é localizado temporalmente como simultâneo da própria enunciação.

Em relação a b., c., d., embora sejam frases bem formadas, não
enunciados. Não podemos, efectivamente, dizer se o acontecimento
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construído é único ou único, nem podemos localizá-lo no tempo.

Porém, adequadamente contextualizadas, essas sequências podem ser


enunciados:

a. O Sílvio come um chocolate logo ao almoço.

b. O Sílvio come um chocolate quando chega da escola.

c. O Sílvio estava a comer um chocolate quando eu cheguei.

d. O Sílvio estará a comer um chocolate quando eu chegar.

Estas sequências são todos enunciados. a. Corresponde um


acontecimento único, localizado temporalmente como posterior à
enunciação; b. tem um valor iterativo (ou habitual), isto é, corresponde a
uma classe de acontecimentos que se repetem regularmente um
identificado de vezes. c. Corresponde a um acontecimento único,
localizado temporalmente como simultâneo de um segundo
acontecimento (expresso por quando eu cheguei), que, por sua vez, é
anterior à enunciação; d. Corresponde a um acontecimento único,
localizado como simultâneo de um segundo acontecimento (expresso
por quando eu chegar), que é posterior à enunciação

Sumário

A frase e o enunciado são sequências linguísticas que


derivam de uma ou mais proposições.

Exercícios

1. Distinga a frase do enunciado. Dê 4 exemplos para


cada caso.

2. Refira-se à diferença que reside nas sequências que,


a seguir, se colocam:

a. O Gil estava a jogar a bola quando o irmão


chegou.
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b. O Gil estava a jogar a bola.

3.O que entende por proposição?

Unidade 02: Aspectos linguísticos da organização textual

Introdução

Nesta unidade pretende-se que o estudante desenvolva,


ainda mais, conhecimentos sobre a interacção entre o
locutor e o alocutário.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

 Distinguir a textualidade da aceitabilidade;


 Estabelecer distinções entre os vários elementos que
Objectivos
produzem a coesão textual.

Os falantes quando usam a língua não produzem palavras


isoladas, desligadas umas das outras e do contexto
situacional. Pelo contrário, tanto os produtos resultantes do
uso primário da língua na situação básica da conversa
como os que resultam do uso da língua escrita em
situações não pessoais, tanto os produtos de um só locutor
como os que resultam de uma actividade colaborativa são
todos objectos dotados de sentido e unidade.
Nesta ordem da unidade dos produtos é usual utilizar-se os
termos textualidade para designar o conjunto de
propriedades que uma manifestação da linguagem humana
deve possuir para ser reconhecida como um texto. As
propriedades da textualidade são: aceitabilidade, a
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situacionalidade, a intertextualidade, a informatividade


e a conectividade.
Aceitabilidade refere-se à atitude do alucutário/ouvinte/leitor
que consiste em considerar que uma dada configuração de
elementos linguísticos que lhe cabe interpretar é uma
unidade dotada de sentido.
Aos factores que fazem com que um texto seja reconhecido
para uma dada situação, explícita ou recuperável. A
situacionalidade pressupõe os participantes como sujeitos
situados, bem como todos os factores reguladores da
interacção verbal, denomina-se situacionalidade.
Intertexualidade designa a relação entre um determinado
texto e outros textos relevantes, que fazem parte da
experiência do locutor/escritor e do alocutário/ouvinte.
A informatividade, outra propriedade da textualidade que
se refere ao grau de incertezas das ocorrências textuais.
Finalmente, a conectividade é uma propriedade que se
revela quando as interpretações de uma dada ocorrência
forem semanticamente interdependentes com uma outra.
Por exemplo, se esse animal respira por pulmões, não é
peixe.
Todos os processos de sequencialização que asseguram
uma ligação linguística significativa entre os elementos que
ocorrem na superfície textual podem ser encarados como
instrumentos de coesão. Tais produtos podem ser
classificados da seguinte forma:

Os mecanismos de coesão frásica que asseguram uma


ligação entre elementos linguísticos que ocorrem a nível
sintagmático e oracional, na superfície textual: os que
asseguram nexos sequenciais entre núcleos,
especificadores e complementos, como a ordem de
palavras, e fenómenos de concordância; os que asseguram
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a identificação (ou recuperabilidade) da estrutura de


argumentos de um dado predicador, marcando a relação
gramatical que cada argumento mantém, na superfície, com
o predicador; fenómenos de concordância que exprimem,
através de marcas idênticas de pessoa e número, ou de
género e número, entre sujeito e verbo, sujeito e predicativo
do sujeito entre objecto directo e predicativo do objecto
directo.

Coesão temporal, a sequencializacão dos enunciados


deve satisfazer as condições sobre a localização temporal.
Inclui-se a utilização de tempos verbais, expressões
adverbiais ou preposições de valor temporal e datas.
Exemplo, (i) De manhã, foi visitar a cidade. À tarde, demos
um passeio pela baía. (ii) O João telefonou ontem para
marcar uma reunião para a próxima semana

Coesão referencial, propriedade de qualquer texto em que


se assinale, através da utilização de formas linguísticas
apropriadas, que os indivíduos designados por uma dada
expressão são introduzidos pela primeira vez no texto, já
foram mencionados no discurso anterior, se situam no
mesmo espaço físico perceptível pelo locutor ou pelo
alocutário, existem ou não objectos únicos na memória
destes.

Coesão lexical opera por contiguidade semântica, isto é,


as expressões linguísticas que entram numa relação de
coesão lexical caracterizam-se pela co-presença de traços
semânticos idênticos ou opostos: destacam-se, neste tipo
de coesão, a substituição por sinonímia, ex: a criança caiu
e desatou a chorar. O miúdo nunca mais aprende a cair,
disse a empregada - antonímia, ex: disseste a verdade?!
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Essa história é uma mentira pegada – hiperonímia,


hiponímia, ex.: gosto muito de peixe. Então sardinha,
adoro.

Sumário

Na interacção entre o locutor e o alocutário dá-se a


produção de enunciados. Estes enunciados constituem
“produtos coesos internamente e coerentes com o mundo
relativamente ao qual devem ser interpretados.

Exercícios

1. A fim de que o texto seja reconhecido como tal, ele


deve comportar determinadas propriedades. Nomeie-
as.
2. Apresente os elementos da coesão textual.

3. Que entende por conexões inferenciais e por


frases contrastivas.
4. Defina a coesão lexical.
5. Distinga, dando exemplos para cada caso, a coesão
temporal da referencial.
6. Em que consiste a coesão exofórica e a coesão
endofórica (ou co-referência)?
7. Nomeie os elementos da coesão lexical.

a) Diga em que consiste a reinteracção.

a. Distinga, dando exemplos para cada caso,


estrutura temática de estrutura informacional.
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Unidade 03: Gramaticalidade e aceitabilidade

Introdução

Tal como já o dissemos, a performance não é um reflexo


fiel da competência, pode ser que um determinado falante
produza enunciados relativamente não aceitáveis, mas
reconhecidos por outros. Nesta unidade, porém,
abordaremos profundamente, a relação entre a
gramaticalidade e aceitabilidade.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

 Relacionar os conceitos de gramaticalidade e aceitabilidade

Objectivos

Para que uma sequência, numa situação concreta, seja aceitável, isto
é, perfeitamente produzida e compreendida, não basta que ela seja
gramatical. A gramaticalidade de uma sequência é condição necessária,
mas não suficiente, para a sua aceitabilidade. Perturbações de
memória, nervosismo, cansaço, dificuldades de concentração,
deficiência auditiva, ruído exterior, e muitos outros factores de natureza
psíquica podem ser responsáveis por performances com diferentes
graus de aceitabilidade, podendo mesmo atingir a inaceitabilidade.

Gramaticalidade e aceitabilidade são conceitos bem distintos. A


gramaticalidade, associada à competência do falante-ouvinte, é
independente de toda a utilização efectiva. A aceitabilidade, associada
Centro de Ensino à Distância

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à performance, depende do tipo de situação – ou situação de produção,


ou da situação de reconhecimento – uma vez que podem ser diferentes
os factores extralinguísticos que, num caso condicionam a performance.

Quanto à gramaticalmente, numa sequência ou é não-agramatical.


Quanto. Quanto à não-gramatical, pode considerar que há vários graus.
Observando as sequências a. b. c. d., verificamos que a primeira é
gramatical – é uma frase – e que as restantes três são mal-formadas,
isto é, não frases do português:

a. O rapaz aprecia o livro.

b. *O rapaz amedronta o livro.

c. *O rapaz desmaia o livro.

d. *O rapaz cão o livro.

Quanto à aceitabilidade, parece haver, entre o perfeitamente aceitável e


o inaceitável, um contínuo de graus de aceitabilidade. Assim, por
exemplo a frase: o rapaz de quem o professor falou conseguiu o
emprego, é perfeitamente aceitável. A frase: ? o rapaz de quem o
professor que o director convidou falou conseguiu o emprego, é
menos aceitável e a frase: ?? o rapaz de quem o professor que o
director que o reitor nomeou convidou falou conseguiu o emprego,
é menos inaceitável.

Já o dissemos que, para que uma frase seja aceitável, ela tem de ser,
antes de mais nada, gramatical. Em determinados tipos de
performance, porém, encontram-se frases não gramaticais que, no
entanto, são aceitáveis no contexto particular em que são produzidas.

(i) As mesas do Café endoideceram feitas...

(ii) Caiu-me agora um braço...olha lá vai ele valsar vestido de


casa, nos salões do Vice-Rei...

A não gramaticalidade, é neste caso, de natureza sintáctico-semântica:


no léxico do português, os predicadores endoidecer e valsar não
seleccionam sujeitos caracterizados pelo traço [-animado], como mesas
Centro de Ensino à Distância

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e braço, respectivamente. Mas, no contexto literário em que se


encontram, aqueles versos, podem receber interpretações que
correspondem a um contínuo de aceitabilidade.

(iii) Este é o modo José de rosnar a vida.

Descontextualizada, a sequência iii levar-nos- ia a rejeitar a sua


aceitabilidade. No português, a palavra José não faz parte da classe
das palavras que modificam o nome modo.

Sobre a não-gramaticalidade resultante da ocorrência de um objecto


directo (a vida) seleccionado por um verbo que é intransitivo (rosnar a
vida), poderíamos fazer um comentário semelhante. Em ambos os
casos, a não-gramaticalidade é de natureza sintáctico-semântico.

Sumário

A gramaticalidade de uma sequência é condição


necessária, mas não suficiente, para a sua aceitabilidade.
Perturbações de vária ordem e outros factores de natureza
física ou psíquica podem ser responsáveis por
performances de diferentes graus de aceitabilidade,
podendo mesmo atingir a inaceitabilidade.

Exercícios

1. Refira-se à gramaticalidade e aceitabilidade das


seguintes frases:

a. Considero o rapaz inteligente.

b. Considero o rapaz que fez esta intervenção


brilhante na conferência de imprensa inteligente.
Centro de Ensino à Distância

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c. Considero inteligente o rapaz que fez esta
intervenção brilhante na conferência de imprensa.

d. Craveirinha é um escritor.

e. O Craveirinha é um escritor.

f. O Moçambique é um país extenso.

g. Moçambique é um país extenso.

h. O livro desmaia na cadeira.

i. Sonhos vermelhos dormem debaixo de uma


mangueira.

2. Diferencie aceitabilidade, da agramaticalidade e da


ambiguidade.
Centro de Ensino à Distância

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Unidade 04: Aspectos da interacção verbal em Português

Introdução

Nesta primeira unidade, pretende-se que o estudante


reflicta sobre a importância que o contexto situacional
assume na determinação do significado de um enunciado.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

 Nomear os elementos definidores da interacção


verbal;
Objectivos
 Definir actos ilocutórios;
 Estabelecer distinções entre os vários elementos do
processo.

A linguagem é um fenómeno social por excelência, o seu


uso é uma acção conjunta que envolve a produção de
sentido por parte de quem fala e a compreensão por parte
de quem ouve e, embora o cenário básico da interacção
verbal seja o da conversação que se faz frente à frente, o
uso da linguagem envolve várias outras esferas.

A interacção verbal é uma forma de interacção social. O


tipo de relação social estabelecido a partir de relações de
semelhanças ou dissemelhanças entre locutores, regula, à
partida, o processo interaccional.
A relação social desenvolve-se em cenários específicos a
que cada processo de interacção é, por sua vez, sensível.
Existem na relação social, os cenários: pessoais e
Centro de Ensino à Distância

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impessoais e, além destes, segundo H. (Clark), existem


cenários institucionais, normativos ficcionais e
mediatizados e privados.
Às situações em que as trocas verbais entre os locutores
são mais frequentes e livres como acontece, por exemplo,
quando se conversa sobre qualquer assunto, se troca
opiniões ou se discute entre amigos dá-se o nome de
cenários pessoais.
São cenários impessoais ou menos pessoais situações
que envolvem audiências que, em princípio, pouco entram
em diálogo com o locutor, exemplo: a intervenção feita
numa assembleia, sermão ou aula dada pelo professor.
As entrevistas realizadas nos meios de comunicação social,
dos interrogatórios levados a cabo nos tribunais ou
discussões travadas no decorrer de uma aula fazem parte
dos cenários institucionais. Aqui, as trocas podem ser
espontâneas, mas os assuntos são regulados pela pessoa
que assume o controlo da situação.
Nos cenários normativos, as trocas e as palavras a proferir
são, de um modo geral, fixadas antecipadamente. É o caso
das declarações proferidas pelos noivos no acto de
casamento, dos juramentos em tribunal, etc. Os cenários
normativos constituem um subgrupo dos cenários
institucionais.
Nos cenários ficcionais, os locutores podem expressar
valores e intenções que podem não coincidir com os seus.
Os locutores assumem papéis de outros personagens,
fazem de, ou fingem ser outra pessoa, num contexto que
não é o seu ou não é real.
Nos cenários mediatizados, alguém assume o papel de
descrever, reproduzir ou anunciar a outro algo que foi
proferido por um terceiro. Por exemplo, um jornalista do
Centro de Ensino à Distância

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telejornal relata os principais acontecimentos do dia que lhe


foram anteriormente descritos por outras fontes. Neste
caso, estes estão, de certo modo relacionados com os
cenários ficcionais.
Por último, nos cenários privados, o locutor é interlocutor
de si próprio, isto é, o locutor não tenciona que alguém o
venha escutar ou compreender. Exclama, murmura,
argumenta para si próprio.
É comum ouvir ao longo da nossa socialização “ é feio
apontar alguém a dedo”. Existem instrumentos naturais dos
gestos que todos usam para indicar objectos de desejo ou
chamar a atenção para os lugares, etc. Estes instrumentos
têm correspondentes em expressões deícticas das
línguas naturais.
As expressões deícticas têm como função apontar, indicar
referentes no interior da situação ou contexto onde são
usadas e, por essa razão, ficam dependentes desse mesmo
contexto para a interpretação plena das referências
pessoais, espaciais e temporais que comportam.
As expressões deícticas pessoais indicam os participantes
e os protagonistas na situação de interacção, exemplo: eu,
tu, você, vocês, eles. Por sua vez, localizações
reconhecíveis no interior do contexto em que ocorrem
podem ser representadas por expressões deícticas
espaciais, do mesmo modo que as expressões deícticas
temporais apontam para intervalos de tempo identificáveis
em função da relação que mantêm com o tempo da própria
enunciação.
A interpretação plena das expressões deícticas envolve, por
princípio, uma interpretação presencial, uma vez que é a
presença no contexto que permite identificar protagonistas
e a sua localização e percursos no tempo e no espaço.
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24

Vejamos o exemplo que se segue.


Vem cá logo, para veres os móveis que eu comprei ontem.
É facilmente interpretado como convite formulado por um
locutor (eu), dirigido ao seu interlocutor (tu) para que se
desloque (vem) posteriormente (logo) ao local onde se
encontra o locutor (cá), com intuito de o interlocutor ver os
móveis que o locutor comprou no dia anterior ao momento
em que profere o enunciado (ontem).
Esta capacidade que alguns dos elementos lexicais
contidos em enunciados têm para indicar ou apontar
pessoas , lugares e tempo revela-se em diversas classes
de palavras, nomeadamente através de preposições,
advérbios, verbos e pronomes que se encontram
disponíveis na língua para assumir tais funções, no plano
de interacção verbal.
A linguagem é utilizada sempre quando se pretende
realizar algo ou atingir um determinado fim.

Sumário

A relação social desenvolve-se em cenários específicos a


que cada processo de interacção é, por sua vez, sensível.
Existem na relação social, os cenários: pessoais e
impessoais e, além destes, segundo H. (Clark), existem
cenários institucionais, normativos ficcionais e
mediatizados e privados.

Exercícios

1. Explique, resumidamente (sem exceder dez linhas)


a importância do uso da linguagem.
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25

2. Identifique, exemplificando, os vários cenários que


envolvem a interacção verbal.
3. O que entende por Dêixis?
a) Fale da importância que os Dêixis
desempenham nas relações interpessoais.
4. Identifique nas frases que se seguem os dêixis ou
expressões deícticas:
a. Olha ali um passarinho!
b. Agora estou a ouvir música e mais logo vou ao
cinema.
c. Logo vem cá!
d. Pede imediatamente desculpas!
Interprete-as.
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26

Unidade 05: Relações gramaticais, esquemas relacionais e ordens de palavras

Introdução

Vamos, agora, tratar da unidade em que se descrevem as


relações gramaticais dos constituintes na frase simples e a
ordem linear segundo a qual os mesmos ocorrem nas
frases declarativas do português, matéria iniciada na
Linguística Descritiva I.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

 Definir as propriedades do sujeito;


 Definir os elementos sintácticos da frase;
Objectivos
 Identificar a tipologia de predicadores.

Vejamos os seguintes exemplos:

a) O jornalista contou a novidade aos amigos.

b) *A novidade aos amigos o jornalista contou.

Repare que a) é uma frase básica do português que pode caracterizar-


se sintacticamente, numa primeira abordagem, como uma sequência
em que:

(i) Cada constituinte tem uma sequência da relação gramatical;

(ii) Os constituintes ocorrem segundo uma ordem linear;

Mas, b) não obedece a estrutura sintáctica do português.

De um modo geral, em línguas como o português, a relação gramatical


final dos constituintes é o principal factor que determina a ordem linear
da sua ocorrência, ora vejamos, uma oração contém dois termos
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27

fundamentais: o predicado, o constituinte ou sequência formado pelo


predicador e pelo(s) seu(s) interno(s), e o sujeito, o constituinte que
satura o predicado ou, por outras palavras, o argumento externo do
predicador.

Testes para a identificação do sujeito

(i) O constituinte com relação gramatical de sujeito pode ser


substituído pela forma nominativa do pronome pessoal, se for
de natureza nominal ou por uma forma tónica neutra do
pronome demonstrativo em posição pré-verbal, se for de
natureza frásica.

(ii) Pode constituir-se uma estrutura clivada em que o sujeito


ocorra em posição de contraste e os restantes constituintes
mantenham a posição que ocupavam.

(iii) Pode construir-se uma estrutura pseudo-clivada segundo o


esquema Quem /o que SV ser SU, consoante o sujeito seja
[+hum] ou [-hum]

(iv) Pode formular-se uma interrogativa sobre o constituinte com


relação gramatical de sujeito o esquema Quem/O que SV?,
consoante este argumento seja [+hum] ou [-hum],
constituindo o sujeito a resposta mínima não redundante.

Testes para a identificação do predicado

(i) O predicado constitui a resposta a uma interrogativa da forma


SU fez o quê?/ O que se passa com SU?, consoante o tipo de
verbo que ocorre na pergunta.

(ii) O predicado pode ocorrer em posição de contraste numa


pseudoclivada, segundo o esquema O que faz/ acontece a
SU/ se passa com SU é predicado.

(iii) O predicado pode ser anteposto, antecedido do advérbio lá,


deixando como cópia na posição original o núcleo verbal.
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28

(iv) O predicado pode ser recuperado em construções de


despojamento da forma e o SU também /mas o SU não .

Sumário

Na maioria das línguas do mundo as combinações de


palavras em frases declarativas (isto é, asserções
afirmativas ou negativas) obedecem a uma das três
seguintes ordens básicas: SVO (ordem verbo-medial: o
sujeito precede o verbo e este os seus complementos),
VSO (ordem verbo-inicial) e SVO (ordem verbo-Final).

A língua portuguesa é uma língua verbo medial. Isto não


significa que todas as frases declarativas do Português
correspondam ao padrão.

Exercícios

1. Caracterize sintacticamente a frase básica do


português.
2. Defina o domínio sintáctico de predicação.
3. Construa duas frases empregando, num caso, um
predicador adjectival, e noutro, um predicador
nominal.
4. Distinga predicador do sujeito, predicado verbal e
predicativo do complemento directo.
5. Defina Sujeito, Objecto Directo, Objecto Indirecto
Relações gramaticais Oblíquas.
6. Justifique a proeminência sintáctico-semântica do
Sujeito.
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29

Unidade 06: A estrutura da frase simples do tipo declarativo

Introdução

Lembre-se de que nas unidades anteriores deste módulo


tratámos vários aspectos relacionados com o domínio da
frase, estamos, por isso, agora, em condições de relacionar
muitas considerações feitas e de analisar a estrutura das
frases simples e complexas do português. Especificamente,
nesta unidade vamos analisar a estrutura da frase do tipo
declarativo.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

 Definir o conceito de frase simples do tipo declarativo;

Objectivos  Aplicar testes de identificação do SN e SV das frase declarativas.

Nas frases básicas do Português é possível considerar a existência de


dois constituintes imediatos: O SN e o SV1.

Sujeitos Nulos e consequências sintácticas.

a. Eu comprei um livro.

b. Comprei um livro.

1
Ver os testes de identificaçã o dos constituintes na unidade II
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30

As duas frases apenas diferem na presença/ausência do sujeito


pronominal. A existência de uma flexão verbal basta para recuperar,
em português, de sujeitos nulos ou subentendidos.

O mesmo não acontece para os seguintes:

a. Cantava muito naquele Verão.

b. Corria por montes a vales.

Nestes casos vale a contribuição de informações adicionais do


contexto linguístico ou situacional.

O sujeito subentendido é um sujeito pronominal não realizado e que


precisa de ser legitimado( pela flexão – FLEX) e identificado pelos
marcas/traços de pessoa e número da Concordância.

Sujeitos nulos expletivos

Vejamos os exemplos

a. Choveu imenso este Outono.

b. Há cachorros quentes

c. Parece que vamos ter eleições.

Sujeito nulo “indeterminado ou de referência arbitrária

a. Dizem que vai haver eleições

Inversão livre do sujeito.

a. Muitos operários trabalharam.

b. Trabalharam muitos operários.

Sumário

Frases do tipo declarativo são frases cujas propriedades


gramaticais podem exprimir qualquer tipo de acto ilocutório.
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31

“Vários aspectos sintácticos das frases declarativas em


português são explicáveis pela proposta da categoria
funcional Flexão e pelo movimento do verbo para essa
categoria. Por outro lado, o português é uma língua de
sujeito nulo e como tal é caracterizado por ter sujeitos nulos
e expletivos, por exprimir o sujeito indeterminado com o
verbo na 3.ª pessoa do plural, pela existência de se
impessoal/nominativo e por ter inversão livre de sujeito” .

Exercícios

1. Dada a seguinte frase declarativa: A Maria viu o


filme.

a) Pronominalize o SN1 ;

b) Aplique o teste de clivagem;

c) Formule uma interrogativa de instanciação em que


ocorra o SN sujeito da frase em questão.

“As frases não sequências lineares de palavras mas


obedecem a uma estrutura hierárquica em que há
constituintes que por sua vez se formam de outros até se
chegar ao nível da palavra.” Mateus, et al, (2003:436).
Comente a afirmação
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32

Unidade 07: Frases imperativas

Introdução

As imperativas são um outro tipo de frases que, como os


outros, iremos analisar a sua estrutura. Nesta unidade,
além de nos prendermos com a definição, vamos fazer
referência aos tempos e pessoas gramaticais exibidos
por este modo, seus tipos e modos com os quais se
relaciona.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

 Identificar a estrutura das frases imperativas;

Objectivos  Distinguir imperativas directas das indirectas;

 Caracterizar o sujeito das frases imperativas

Em português europeu este modo exibe apenas presente e possui duas


únicas formas verbais, que ocorrem exclusivamente em fases
afirmativas: a da segunda pessoa do singular e a da segunda pessoa
do plural.
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33

“As imperativas são todas as frases que expressam um acto ilocutório


directivo, ou seja, aquelas com que, através do seu enunciado, o locutor
visa obter no futuro imediato a execução de uma determinada acção ou
actividade por parte do ouvinte, ou alguém a quem o ouvinte transmita o
acto directivo”. As imperativas podem ser directas ou indirectas. Nas
imperativas directas o ouvinte é o destinatário do acto ilocutório
proferido. Pelo contrário, nas indirectas, ele é tipicamente o veículo de
transmissão do acto ilocutório do locutor e o garante do cumprimento da
acção expressa.

A seguir se apresentam diferentes formas de frases imperativas,


conforme a sua força ilocutória:

(i) cala-te!

(ii) Vamos a calar imediatamente!

(iii) Que ninguém!

(iv) Calou!

(v) A calar depressa!

(vi) Não fumar!

(vii) Diz-lhe que se cala imediatamente!

As formas na primeira do plural ocorrem quando o locutor se inclui


entre os destinatários do acto ilocutório. Este assume então o valor
do conjuntivo:

a. Cantemos!

Nas formas negativas, o imperativo é suprido pelo conjuntivo:

a. Não cantes

b. Não te vás embora

O infinitivo, na sua forma invariável, é especialmente usado quando


o destinatário do acto ilocutório directivo não específico. Exemplo:

a. Virar à esquerda!
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34

b. Apertar os cintos de segurança!

O gerúndio pode igualmente ser usado para exprimir o imperativo,


como mostra o exemplo a seguir:

a. Andando!

De ponto de vista sintáctico, podemos distinguir as frases


imperativas directas das indirectas.

As frases imperativas directas são frases independentes, as


indirectas ocorrem em domínios de subordinação.

De ponto de vista discursivo, as frases imperativas envolvem o


locutor e o ouvinte. Nas imperativas directas esse ouvinte é o
destinatário do acto ilocutório proferido. Pelo contrário nas
indirectas, ele é tipicamente o veículo de transmissão do acto
ilocutório do locutor e o garante do cumprimento da acção expressa:

a. Traga-nos o café, por favor! (imperativa directa)

b. Não te sentes nessa cadeira! (imperativa directa)

c. Diz-lhe que nos traga o café, por favor! (imperativa indirecta)

d. Convence-o a não se sentar nessa cadeira! (imperativa indirecta)

Nas frases imperativas o sujeito designa preferencialmente o


ouvinte, pelo que maioritariamente o verbo marcas da 2ª pessoa ou
da 3ª, correspondendo estas últimas aos casos em que o ouvinte é
interpelado com a forma de tratamento da 3ª pessoa.

O sujeito nas imperativas não está usualmente expresso.

Em relação aos complementos clíticos nas frases imperativas, há


que referir que diferentemente do acontece com outras línguas, as
frases no modo imperativo em português europeu apresentam o
padrão básico usual de colocação de pronomes clíticos. Ou seja
ocorrem enclíticos ao verbo, depois das marcas de flexão de pessoa
e número:
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35

a. Ex: traz-mo já.

b. Não mo traga já. No caso da presença da negação pré-verbal.

Sumário

Nesta classe são incluídas, frases que exprimem pedido,


exortação, conselho, instrução.

Exercícios

1. Distinguir as frases imperativas directas das


indirectas.

2. Explique a agramaticalidade das seguintes


ocorrências em frases imperativas:

a) *Só me traz o livro aqui!

b) *Já o traz!

c) *Não cantes!

d) *Não te vai embora!

e) *Meninos, lavarem as mãos imediatamente!

3. Caracterize o sujeito em frases imperativas.


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36

Unidade 08: Frases interrogativas

Introdução

Com esta unidade, pretendemos que o estudante


desenvolva o seu domínio pelas frases do tipo interrogativo.
Neste caso particular, vai, nesta unidade, estudar os tipos
de interrogativas e as condições da movimentação do
morfema-Q nas interrogativas (movimento-Q).

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

 Identificar e caracterizar as interrogativas;

Objectivos  Distinguir interrogativas totais das parciais.

As interrogativas constituem a expressão de um acto ilocutório directivo,


através do qual o locutor pede ao seu alocutário que lhe forneça
verbalmente uma informação de que não dispõe.

As interrogativas podem ser de dois tipos: totais e parciais. Importa


referir ainda as interrogativas “tag”.

 As interrogativas totais (ou de sim/não).

Ex.: O António telefonou? / Telefonou o António?

As interrogativas totais são formuladas com o objectivo de obterem,


da parte do alocutário uma resposta afirmativa ou negativa

Há, no entanto, interrogativas totais que exibem o pronome


interrogativo. O foco da interrogação incide sobre um constituinte ou
sobre a própria relação de predicação. Nestas, distinguem-se as:
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37

(i) interrogativas em que o foco é marcado quer por meios


prosódicos quer por meios sintácticos, como a clivagem,
respectivamente:

a. A Inês vai a Lisboa AMANHÃ?

b. É amanhã que a Inês vai a Lisboa?

c. Amanhã é que a Inês vai a Lisboa?

(ii) Interrogativas com diversos tipos de expressões


adverbias:

a. Vais a Lisboa de comboio?

b. O congresso decorre próxima semana?

(iii) Interrogativas com expressões quantificadas:

a. Estiveste em Lisboa muito tempo/pouco tempo?

 Interrogativas parciais ( ou de instanciação)

Estas interrogativas caracterizam-se pela presença de constituintes


interrogativos (pronomes, adjectivos ou advérbios interrogativos).

São constituintes interrogativos os seguintes morfemas, palavras ou


sintagmas Q:

(i) Especificadores nominais: que, qual, quanto:

Exs.:

a) Que vinho trago?

b) Quais livros compraste?

(ii) Expressões nominais (SN)

Exs.:

a) Que fazes?

b) Quem veio à vossa graduação?

(iii) Morfemas interrogativos com valor adverbial: onde/ aonde,


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38

quando, por que/porque, como.

Exs.:

a) Onde vais

b) Por que demoraste muito?

 Interrogativas “tag”

Uma interrogativa “tag” é uma forma de retoma de uma frase produzida


no discurso anterior.

Exs.: 1

a) Vocês lembra-se, não se lembram?

b) Vocês lembram-se, não é verdade?

c) Vocês lembram-se, não é assim?

d) Vocês lembram-se, não?

Exs.: 2

a) Vocês não lembram-se, não se lembram?

b) Vocês não lembram-se, não é verdade?

c) Vocês não lembram-se, não é assim?

d) Vocês não lembram-se, não?

Note-se que depois de uma declarativa negativa, não pode ocorrer a


primeira das construções:

Ex.: *Vocês não se lembram, não se lembram?

Depois de uma declarativa negativa, não pode ocorrer uma interrogativa


“tag”

Exs.: *Vocês não se lembram, lembram-se?


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39

Sumário

Esta tipologia de frases refere-se à expressão de um acto


ilocutório directivo, através do qual o locutor pede ao seu
locutor que lhe forneça verbalmente uma informação de que
não dispõe.

Exercícios

1. Diferencie, exemplificando, as interrogativas totais


das parciais.

2. Caracterize as interrogativas “tag”.

3. Em que consiste a hipótese de Movimento Q nas


interrogativas?

4. Exclua da lista que se segue a frase interrogativa mal


construída. Justifique.

a) Perguntei o que os meus amigos fizeram.

b) Perguntei o que fizeram os meus amigos.

c) Perguntei que os meus amigos fizeram

d) Perguntei que fizeram os meus amigos.

e) Perguntei que é que os meus amigos fizeram.


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40

Unidade 09: Frases exclamativas

Introdução

No conjunto da tipologia de frases que se pretende estudar


este ano, enquadra-se o tipo exclamativo, o qual desde já o
caro estudante passa a aprofundá-lo.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de

 Identificar as propriedades que distinguem as exclamativas totais


das parciais.
Objectivos

1. As exclamativas totais distinguem das parciais por duas


propriedades:

a) São frases não elípticas;

b) Não ocorre nelas nenhum movimento de constituinte específico


na sintaxe.

Este tipo de exclamativas pode ser assinalado exclusivamente por


processos prosódicos. Ex. a) Ela é liiiiinda! b) O BAR-CO É UM ES-PE-
TÁ-CU-LO!

As exclamativas totais podem ainda ser assinaladas por uma


combinação de meios prosódicos com outros indicadores gramaticais
ou com indicadores lexicais:

(i) A ocorrência da sequência é que seguida do imperfeito do


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41

indicativo: ex: Isso é que era bom!

(ii) A ocorrência de núcleos funcionais de grau. ex.:

a) Ela é tão linda!

b) O João come tanto!

(iii) Presença de negação expletiva( isto é de uma marcador de


negação que não funciona como operador negativo, pelo que a
frase é interpretada como afirmativa). Ex.

a) Então ele não diz que faltar ao teste?!

(iv) A ocorrência de se condicional seleccionando o imperfeito do


imperfeito, combinado ou não com negação expletiva. Ex.

a) Ainda se ele fosse simpático!

2. Exclamativas Parciais

As exclamativas parciais incluem frases elípticas e não elípticas. As


exclamativas parciais elípticas podem constituídas por:

(i) nomes simples antecedidos ou não de adjectivos valorativos.


Exs.: a) palermice! b) Linda menina!

(ii) Por expressões adjectivais. Exs.: a) Espantoso! b) tanta


gente! C) tão antipático!

As exclamativas não elípticas têm comum a presença de uma


palavra de grau modificando um nome, um adjectivo ou um
advérbio, seguida de uma frase encabeçada pelo complementador
que.

Exs.:

a) Tanto disparate que ele diz!


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42

b) Tão bem que ela cantou!

Exclamativas de- Q

São formas de exclamativas parciais: Tanto nas exclamativas


parciais não elípticas como nas elípticas podem ocorrer sintagmas-Q

A. Não elípticas:

a) Que problemas ele não teve de enfrentar!

B. Elípticas:

a) Que linda que ela é!

b) Quantos disparates ele diz!

As exclamativas podem ser totais ou parciais, consoante a


exclamação tiver por escopo toda a frase ou apenas um constituinte. As
parciais, por seu turno, podem ser elípticas e não elípticas.

Sumário

Tanto nas exclamativas parciais não elípticas como nas


elípticas podem ocorrer sintagmas-Q.

Exercícios

1. Refira-se às propriedades que distinguem as


exclamativas parciais das totais.

2. O que entende por exclamativas parciais elípticas.

3. Caracterize as exclamativas-Q
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43

Unidade 10: Frases optativas

Introdução

Comummente, as gramáticas tradicionais apresentam


quatro tipos de frases a que fizemos referência nas
unidades anteriores. Porém, vamos apresentar-lhe, as
frases optativas, as quais se distanciam das exclamativas
por exprimirem desejos do locutor.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

 Caracterizar as frases optativas;

Objectivos  Distinguir frases optativas das exclamativas.

As frases optativas podem ser: não elípticas e elípticas.

As frases optativas realizam actos ilocutórios expressivos


de um tipo particular: exprimem desejos do locutor, razão
pela qual são muitas vezes parafraseáveis por frases
complexas que têm como verbo superior optativo.

exs.:

a. Que ele seja feliz!

b. Que a guerra acabe depressa!

c. Desejo que seja feliz!

d. Espero que a guerra acabe depressa!

As frases optativas podem ser elípticas e não elípticas.

As frases optativas não elípticas exibem tipicamente o


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44

verbo no modo conjuntivo. Quando os complementadores


que e se estão presentes a ordem de palavras é canónica:

a. Se (ao menos) ele fosse feliz!

b. Se a guerra acabasse!

c. Que eles se atrevam!

d. Que se cuide!

As frases não elípticas podem ser introduzidas por fórmulas


operativas específicas ( ex.: Deus queira que, queira Deus
que, Deus que permita, oxalá).

a. Deus queira que ela seja feliz!

b. Queira deus que a guerra acabe depressa!

c. Deus permita que eles se salvem!

d. Oxalá ele seja feliz!

Na ausência do complementador ou de fórmula operativa,


as frases optativas não elípticas exibem a ordem VS. Ex.

a. Pudesse eu ajudá-lo!

b. Acabem-se todas as guerras!

Um caso particularmente interessante de ordem não


canónica é o de frases optativas não elípticas com verbos
copulativos. Ex.:

a. Abençoados sejam os simples!

b. Amaldiçoados sejam os mal-feitores!

As frases optativas elípticas são do tipo apresentados


abaixo:

a. Abençoados os pobres de espírito!

b. Malditas as segunda-feiras!

c. Honra aos heróis!


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d. Justiça para todos!

Sumário

As frases optativas realizam actos ilocutórios expressivos


de um tipo particular: exprimem desejos do locutor, razão
pela qual são muitas vezes parafraseáveis por frases
complexas que têm como verbo superior optativo.

Exercícios

1. Defina actos ilocutórios expressivos.

2. Apresente 4 (quarto) frases optativas da sua autoria.

3. Elabore (4) fases optativas introduzidas por fórmulas


operativas específicas.

4. Dê (2) exemplos de frases optativas elípticas da sua


autoria.

5. Caracterize as frases optativas não canónicas com


verbos copulativos
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46

Unidade 11: Construções de clivagens

Introdução

Depois de termos estudado as relativas, vamos tratar, nesta


unidade, das construções de clivagem. Assim, pretende-se
que o estudante efectue testes para identificar se um dado
constituinte constitui ou não argumento interno de um
verbo.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

 Identificar e compreender os testes de identificação


de um argumento interno de um verbo;
Objectivos
 Diferenciar os tipos de construções de clivagem.

O português admite um elenco de construções de clivagem


ilustrados pelos exemplos que se seguem. Ex.1

a) Foi o queijo o que o corvo comeu.

b) Foi o queijo que o corvo comeu.

c) O que o corvo comeu foi o queijo.

d) O queijo foi o que o corvo comeu.

e) O queijo é que o corvo comeu.

As frases apresentadas partilham a propriedade de terem


condições de verdade idênticas à frase o corvo comeu o
queijo.
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47

O constituinte o queijo, argumento interno do verbo comer,


é posto em destaque, ocorrendo ora à direita ora à
esquerda de uma forma do verbo. Os processos de
clivagem ilustrados fazem com que o constituinte posto em
destaque seja interpretado como foco quantificacional.

Nas construções de clivagem, o constituinte em posição de


destaque identifica o subconjunto exaustivo de elementos
de um conjunto contextualmente dado e, fixa o referente do
elemento vazio presente no constituinte que contém o verbo
da frase simples correspondente. Ex.2

a. Foi na Feira do Livro onde eu comprei este dicionário


de verbos.

b. Foi na Feira do Livro que eu comprei este dicionário


de verbos.

c. Onde eu comprei este dicionário de verbos foi na


Feira do Livro.

d. Na Feira do Livro foi onde eu comprei o dicionário do


livro.

e. Na Feira do Livro é que eu comprei este dicionário de


verbos

f. Eu comprei este dicionário de verbos na Feira do


Livro.
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48

Sumário

Além das clivadas, ocorrem ainda em português as


chamadas Pseudo-clivadas invertidas de é que e Semi-
Pseudo-Clivadas Básicas.

Em todas as construções de clivagem, o constituinte que é


posto em destaque, denomina-se constituinte clivado.

Exercícios

1. Diferencie, exemplificando, as construções de clivagem,


Pseudo-clivadas invertidas e semi-pseudo-clivadas básicas;

2. O que entende por constituinte clivado?


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49

Unidade 12: Tempo e aspecto

Introdução

Tem sido difícil entender, ou melhor, estabelecer


claramente a distinção entre TEMPO e ASPECTO, uma vez
que ambos parecem referir-se a um mesmo conceito. Na
verdade, eles são bem distintos. Se por um lado, é
importante compreender os conceitos de tempo de
enunciação e tempo do enunciado, por outro, não é menos
importante entender que entre estes dois tempos existe o
ponto de referência, que é intermédio entre aqueles dois.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

 Estabelecer a distinção entre TEMPO e ASPECTO;


 Identificar os recursos veiculadores de valores
Objectivos
aspectuais.

Qualquer falante do Português quando ouve ou lê fases


como as que se seguem, interprete-as, obviamente, como
descrevendo situações localizadas no passado, no presente
e no futuro:

i. O Presidente visitou a UCM.

ii. O Presidente visita a UCM.


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iii. O Presidente visitará a UCM.

Embora a situação descrita por cada uma das frases seja a


mesma (a visita do Presidente a UCM), as frases podem ter
valores de verdade diferentes devido à localização temporal
da situação induzida pelo tempo gramatical utilizado. Em i.
a situação está localizada num intervalo de tempo anterior
ao ponto da fala ou momento da enunciação. Em ii. a
situação descrita sobrepõe-se ao ponto de fala, uma vez
que o intervalo de tempo em que se localiza o ponto de
evento e o ponto da fala têm momentos comuns. Em iii.
a situação descrita está localizada num intervalo de
tempo posterior ao ponto da fala.

Ora, reparemos outra situação:

a. Às nove horas, o João comeu uma maçã.

b. Às nove horas, o João comia uma maçã.

Embora as duas situações descritas se encontrem


localizadas no passado é diferente o modo como são
apresentadas a sua estrutura interna. Com efeito, em a). a
situação descrita ocorre no intervalo de tempo denotado
por Às nove horas localizado no passado. Mas em b). a
situação é descrita globalmente, isto é incluindo o
processo preparatório envolvido (a fase inicial da situação,
o ponto de culminação ( isto é, a mudança de estado, de
lugar ou de posse de uma das entidades envolvidas) e o
ponto resultante ( neste caso, a maçã estar comida), a
descrição apresentada em b. focaliza apenas o processo
preparatório.

Os casos (i, ii, iii) e (a, b) mostram claramente não só as


diferenças entre a categoria linguística, tempo e a categoria
aspecto, mas também os pontos comuns entre elas.
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51

É importante, todavia, perceber que, apesar da diferença


entre as duas categorias linguísticas, elas partilham sempre
pontos de contacto, na medida em que podem operar com
o mesmo tipo de conceitos temporais, o de intervalo.
Por outro lado, certos advérbios podem funcionar com valor
aspectual ou temporal, o mesmo acontece com alguns
tempos verbais que podem introduzir alterações aspectuais.

Sumário

De um modo geral, o tempo serve para localizar as


situações expressas nas línguas em diferentes tipos de
enunciados, portanto, a forma mais comum de determinar
essa localização é feita através de tempos verbais. Porém,
o aspecto transmite informações sobre a forma como é
perspectivada ou focalizada a estrutura temporal interna de
uma situação descrita pela frase, em particular, pela sua
definição.

Exercícios

1. Explique em que reside a diferença entre tempo e


aspecto.
2. Em que reside a dificuldade de distinguir a categoria
linguística tempo da categoria linguística aspecto?
3. Nomeie, exemplificando, outros recursos que
igualmente podem veicular valores aspectuais.
4. Distinga, dando um exemplo para cada caso,
eventos dos estados; processos dos pontos.
5. Identifique o ponto comum entre o tempo e o
aspecto.
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52

Unidade 13: O ASPECTO (Tipologia aspectual)

Introdução

Como ficou dito na unidade anterior, é bastante difícil


delimitar o conceito do Aspecto com o do Tempo, nesta
unidade, pretende-se que o estudante adquira um
conhecimento mais aprofundado acerca desta categoria
linguística.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

 Caracterizar estados e eventos;


Objectivos
 Distinguir processos culminados dos da culminação.

O aspecto, por seu turno, fornece informações sobre a


forma como é perspectivada ou focalizada a estrutura
temporal interna de uma situação descrita pela frase, em
particular, pela sua predicação. As gramáticas confluem
quanto à importância da necessidade da distinção que há a
fazer entre o evento e estado como base para a
compreensão da tipologia aspectual.
Em português, assim como em outras línguas, para além da
natureza semântica dos predicados, as informações
aspectuais distribuem-se pelos afixos que contêm também
informação temporal, e também através da combinação de
vários elementos associados aos anteriores, como sejam
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53

certos adverbiais e a natureza sintáctico-semântica dos


sintagmas nominais, em particular dos que constituem
complementos subcategorizados.

Os eventos podem ser télicos ou atélicos. Cada tipo pode


ter ou não duração. Os eventos télicos, por seu turno,
podem ser chamados processos culminados e
culminações.
Os estados lexicais têm pontos de contactos com os
processos, mas se distinguem destes por não serem
dinâmicos, não admitem pausa (intervalo) no todo
homogéneo. Os estados podem ser: faseáveis e não
faseáveis. Os primeiros podem ocorrer em construções
progressivas (estar a + Infinitivo) e os segundos não.
Os pontos são eventos temporalmente indivisíveis e que se
distinguem das culminações por não admitirem um estado
resultante. Para compreender melhor, interprete as frases
que se seguem.

(i) A Maria escreveu o relatório. (processo


culminado)

(ii) A Maria ganhou a corrida. (culminação)

(iii) A Maria espirrou. (ponto)

(iv) A Maria trabalhou. (processo)

Os estados lexicais têm algo em comum com os processos,


pois são também atélicos, não delimitados por natureza e
homogéneos. No entanto, distinguem-se dos processos por
não serem dinâmicos. Acresce que os estados não
admitem qualquer tipo de pausa (intervalo) no todo
homogéneo, enquanto os processos as admitem.

(i) A Maria trabalhou.


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54

(ii) A Maria está doente.

Repare que enquanto estar doente não admite qualquer


pausa, sob pena de deixar de ficar doente, trabalhar admite
pequenos intervalos na actividade sem que isso ponha em
causa o próprio processo.

Sumário

Uma primeira distinção a fazer é entre eventos e estados


tendo por base a diferença entre situações que são
dinâmicas – os eventos, e situações estáticas – os estados.

Exercícios

1. Nomeie os diferentes processos por que se


distribuem as informações aspectuais
2. Diferencie Eventos dos Estados.
a) Dê exemplo de um evento télico.
b) Que entende por ponto. Exemplifique.
3. Defina estados lexicais.

4. Qual a diferença entre estados faseáveis e não


faseáveis. Ilustre com um exemplo para cada.
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55

Unidade 14: O aspecto na frase

Introdução

Nesta unidade, estão propostos conteúdos que lhe ajudarão


a compreender melhor a natureza do Aspecto. As questões
de iteratividade, perfectividade. Pela sua relevância para
a interpretação de enunciados da língua, esse assunto será
ainda recapitulado várias vezes e em variados contextos
frásicos, o que lhe vai permitir uma vez mais o melhor
discernimento destes conceitos.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

 Relacionar o aspecto com os tempos naturais do


Português.
Objectivos

Em línguas que não apresentam qualquer marca específica


de Aspecto, como o português, o Aspecto é influenciado por
vários factores. Os factores que vamos considerar são os
morfemas usualmente considerados temporais, os
operadores aspectuais e a natureza semântica dos
complementos.

É importante salientar para esta unidade, o Pretérito


Perfeito Composto que apresenta características aspectuais
particulares em português. Este não marca perfectividade
mas uma duração que tem início (não claramente
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56

delimitado) no passado e perdura no presente, à qual,


consoante o tipo de situação e a construção em que ocorre,
está associada uma leitura de iteractividade, por vezes
apoiada por expressões adverbiais. Esta particularidade do
português só se observa se o auxiliar se encontrar no
Indicativo, pois no Conjuntivo a leitura altera-se, embora a
anterioridade se verifique em relação a um ponto de
perspectiva temporal (Passado, Presente ou Futuro). Veja
os exemplos:

(i) O Manuel tem visitado a avó.

(ii) Não me espanta que o Manuel tenha visitado a


avó.

Repare que a primeira frase exemplifica o efeito aspectual


de interactividade (O Manuel fez visitas várias vezes), que
teve início no passado (não delimitado), mas que continua
no presente e possivelmente no futuro. Tal leitura não
ocorre na segunda frase, pois só uma visita teve lugar no
passado.

Quando o ponto de perspectiva temporal não é o momento


da enunciação, as frases com Pretérito Perfeito composto
deixam também de ter uma leitura iterativa:

(i) Quando a Ana chegar a casa da Maria, já o Rui a


tem visitado.

(ii) Sempre que a Ana chega a casa da Maria, já o


Rui a tem visitado.

Veja que na frase (i) o ponto de perspectiva temporal é o


futuro, estabelecido pela oração temporal, e em (ii) a
leitura é de habitualidade marcada pela construção
sempre que e não Pretérito Perfeito Composto.
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57

Sumário

Em línguas que não apresentam qualquer marca específica


de Aspecto, como o português, o Aspecto é influenciado por
vários factores. Os factores que vamos considerar são os
morfemas usualmente considerados temporais, os
operadores aspectuais e a natureza semântica dos
complementos.

O efeito aspectual de iteratividade parece estar relacionado


com o facto de a duração estabelecida pelo Pretérito
Perfeito Composto ser bastante vaga, não quanto ao seu
início como em relação ao termo.

Exercícios

1. Diferencie os termos iteratividade e perfectividade.

2. Sempre que a Ana chega a casa da Maria, já o Rui a


visitou.

a. Interprete a frase no que diz ao seu valor aspectual.


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58

Unidade 15: Os tempos gramaticais (o presente e operadores aspectuais)

Introdução

Nesta unidade, pretende-se analisar as informações


temporais que veiculam algumas incidências aspectuais ou
modais. Porém, apresenta-se diferenças entre tempos
simples e compostos.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

 Identificar as especificidades do Presente.

Objectivos

Do ponto de vista aspectual, o presente do Indicativo


apresenta a interessante característica de só ser um tempo,
pelo menos parcialmente sobreposto ao tempo da
enunciação, com estados. Com eventos observam-se
alterações aspectuais, com algumas restrições quanto à
culminações, processos culminados e pontos. Veja os
exemplos:

(i) A Maria fuma.

(ii) A Carla corre.

A leitura preferencial é a de estado habitual.

Com processos culminados, o Presente é raramente


utilizado sem adverbiais de quantificação (todas as
semanas, muitas vezes) ou de duração do evento (em x
tempo)
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59

(i) O Manuel lê um livro todas as semanas/em duas


horas

(ii) O Manuel faz o almoço muitas vezes/em meia


hora.

Em frases com culminações, as formas de Presente são


pouco usuais, a não ser nos casos em que temos relato
directo, ou quando adquire iteratividade (ou habitualidade)
através de um adverbial de quantificação.

(i) Neste momento, a Carla corta a meta!

(ii) O Rui ganha a corrida sempre/todos os anos.

Outro aspecto que se pode referir ,ainda, no tocante aos


tempos gramaticais são os operadores aspectuais de
construção com verbos de operações, tais como estar a,
começar a, continuar a, acabar de, andar a +infinitivo.

(i) A Maria está a ler o jornal.

(ii) A Maria começou a ler o jornal (às 10 horas).

(iii) *A Maria começou a ser alta.

(iv) O miúdo continua a ser simpático.

(v) A Maria deixou de ser simpática.

(vi) *O Manuel anda a ser alto.

Repare que as frases (i) (ii) são perfeitamente naturais e


aceitáveis. A primeira é aceitável por ser um estado
faseável, e a segunda a sua aceitabilidade depende da
presença da localização temporal (às 10 horas). Nas frases
(iii) e (vi), a não aceitabilidade deve-se ao facto de ser alto
ser um estado não faseável.
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60

Quadro com alterações aspectual

Estar a Estados faseáveis Estado Progressivo

eventos
Andar a Estados faseáveis Estado habitual ou
frequentativo
eventos
Começar a Estados faseáveis Estado pontual

eventos
Continuar a Estados Estado não faseável

eventos processo
Deixar de Estados Estado não faseável

eventos Evento+ estado


cessativo
Parar de Processos Evento pontual+
(estado cessativo)
Processos
culminados
Acabar de Processos Culminado/(processo
culminado)
Processos
culminados

Sumário

A maior parte de gramáticas são confluentes na ideia de


que “o pretérito perfeito composto não marca
perfectividade e nem claramente tempo passado, mas
antes, a duração de uma situação iniciada no passado e
que continua no presente (da enunciação). Podendo ter
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61

uma leitura de iteratividade, por vezes apoiada por


expressões adverbiais...”

Exercícios

1. Que significa dizer: Pretérito perfeito ou pretérito


imperfeito?
2. Enuncie as características/particularidades do
presente na sua relação com o Aspecto.
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62

Unidade 16: Sequencialização dos tempos

Introdução

Nesta unidade, debruçar-nos-emos sobre análise da


relação entre os tempos e as frases complexas. Esta
relação é concomitante à interpretação temporal que
algumas formas verbais implicitam. A forma mais simples
de dizer, enquanto os tempos das frases simples
identificam de um modo geral um tempo localizado em
relação ao momento da enunciação, tal não acontece em
muitas frases complexas e por isso não só há restrições
quanto à ocorrência de tempos nas duas orações como
pode haver leituras diversas.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

 Descrever as relações temporais associadas às


frases complexas.
Objectivos

Vejamos os exemplos:

(1) A Maria foi ao cinema.


(2) O Rui disse que a Maria foi ao cinema.
(3) Quando a Ana chegou, a Maria foi ao cinema.
(4) O Jorge vai saber que a Maria foi ao cinema no dia
anterior.
(5) A Rita está doente.
(6) O Rui disse que a Rita está doente
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63

Comparando (1) com (2)-(4) nota-se que na frase simples o


tempo passado é relativo ao momento da enunciação, mas
que em (2) e (3) há uma sucessão de eventos, embora
mantendo-se uma informação de passado. Porém, a Maria
foi ao cinema é anterior ao tempo da principal em (2) e
posterior ao da temporal em(3). Em (4), o tempo da
principal e o adverbial induzem a leitura de que a Maria foi
ao cinema no dia anterior ao Jorge saber, podendo ser
posterior ao tempo da enunciação, o que se pode verificar
acrescentando, por exemplo, o adverbial daqui a dois dias à
oração principal. Neste caso o pretérito perfeito perde a sua
relação deíctica com o tempo da enunciação.

Sumário

Os tempos das frases simples identificam de um modo


geral um tempo localizado em relação ao momento da
enunciação, tal não acontece em muitas frases complexas
e por isso não só há restrições quanto à ocorrência de
tempos nas duas orações, como pode haver leituras
diversas.

Exercícios

1. Que diferenças mais marcantes se podem


estabelecer entre os tempos em frases simples e em
frases complexas?

2. Que leitura pode fazer das frases abaixo, tendo em


conta os conhecimentos adquiridos acerca da
sequencialização dos tempos.

(i) A Rita está doente.


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64
(ii) O Rui disse que a Rita está doente.

Unidade 17: Modo

Introdução

Nesta unidade vamos fazer uma abordagem a volta da


relação existente entre o modo com a modalidade, matéria
introduzida na unidade anterior.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

 Descrever as especificidades do conjuntivo;

Objectivos  Identificar as diversas formas de expressão do imperativo;

 Nomear as formas naturais dos modos.

Os Modos relacionam-se com a modalidade de diferentes maneiras.


Com efeito, o Imperativo relaciona-se com a modalidade deôntica e os
outros modos estabelecem diversos nexos em grande medida com
modalidades epistémicas.

O modo imperativo distingue-se dos outros modos na medida em que


se especializou na expressão da modalidade deôntica, relacionada com
a ordem. Este modo só apresenta formas para as segundas pessoas do
singular e do plural, sendo substituído nos outros casos por formas do
conjuntivo, nomeadamente a primeira pessoa do plural e a terceira do
singular e do plural. Quando se trata das formas negativas, o modo
imperativo é também realizado em todas as pessoas pelo Conjuntivo.

Como já o dissemos, este modo está especializado na expressão da


Centro de Ensino à Distância

65

ordem através de suas variadas formas.

Ora vejamos outras formas que veiculam ordem ou


instrução/informação, convite e súplica, respectivamente:

a. Não matarás.

b. Agora fazes o que te mandei.

c. Apresentar armas!

d. Andando!

e. Segue em frente até ao cruzamento

f. Anda cá ver este programa.

g. Deixa-me esta sossegada.

Futuro e Condicional

Por vezes, considera-se que o Condicional é um modo, mas já mais


raro é considerar que o futuro também o pode ser. Vejamos os
seguintes exemplos:

a. Haverá vinte anos que tenho luz em casa.

b. A esta hora a Maria já estará em casa.

c. A Maria terá dito não gosta de cinema.

d. Ainda não chegou. Terá perdido o comboio.

Ora, em qualquer dos casos descreve uma forma de introduzir no


enunciado uma fonte de incerteza. Não se trata de uma referência a
um tempo futuro ao ponto de fala. A confirmar isto está o contraste
que se pode estabelecer com exemplos paralelos, em que o futuro
simples deu lugar ao Presente e o Futuro Composto ao Pretérito
Perfeito Simples. Ora vejamos:

a. Há vinte anos que tenho luz em casa.

b. A esta hora a Maria já está em casa.


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66

c. A Maria disse que não gosta de cinema.

d. Ainda não chegou. Perdeu o comboio.

No que concerne ao modo condicional, convém salientar que este modo


é frequentemente expresso pelo Futuro Simples e Composto. Na
verdade, em português europeu, a referência a um tempo posterior ao
fala é expresso por outros meios e o Condicional está a ser substituído
em vários contextos do Imperfeito do Indicativo.

O outro par de modos a que podemos nos referir é o de


Indicativo/Conjuntivo. A sua distinção é bastante complexa, por duas
razões, nomeadamente: inexistência de correspondência entre eles. As
ocorrências dos diferentes nem sempre parecem ter uma relação
directa com os distintos tipos de modalidade, na medida em que
tradicionalmente o Conjuntivo está associado ao domínio da incerteza,
dúvida, eventualidade, pode surgir em construções em que, pela sua
natureza, esperaríamos o modo Indicativo e vice-versa.

O modo Indicativo é o modo preferencial das frases simples, da maior


parte das coordenadas e ainda da oração principal em muitas frases
complexas, enquanto o modo Conjuntivo, embora possa surgir em
contextos onde aparece o Indicativo, este está especializado
construções de subordinação.

Em frases simples:

a. Talvez a Maria nos venha visitar.

b. A Maria vem talvez visitar-nos.

Em frases coordenadas.

a. Gostes ou não gostes da sopa, vais comê-la.

Ainda nas coordenadas, o modo Conjuntivo pode ocorrer em


frases completivas:

a. A Maria espera que o Rui chegue a horas


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67

Em frases relativas:

a. O Jorge, chega sempre a horas, traz a encomenda.

b. A criança que bebe/beba leite é mais saudável.

Em frases subordinadas Adverbiais:

a. Ele volta/voltou para que todos fiquem/ficassem contentes.

b. Se a Maria estiver em casa, vamos visitá-la.

Sumário

Os modos relacionam-se com a modalidade de diferentes


maneiras. Com efeito, o Imperativo relaciona-se com a
modalidade deôntica e os outros modos estabelecem
diversos nexos em grande medida com modalidades
epistémicas.

Exercícios

1. Nomeie os modos fundamentais do português.


2. Apresente as diversas fórmulas de expressão do
imperativo.
3. O modo imperativo comporta certas particularidades
em relação aos demais. Quais?
4. Nomeie, exemplificando, as outras formas de
expressão de ordem, sem o recurso ao imperativo.
5. Identifica as modalidades a que o modo conjuntivo
se encontra associada.
6. O modo conjuntivo pode aparecer em frases
simples e coordenadas. Mas, é sobretudo em
construções de subordinação (frase complexa) que
se valoriza. Comente a afirmação, apresentando
exemplos.
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68

7. Apresente, dando exemplos para cada caso, os


tempos do conjuntivo.
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69

Unidade 18: Modalidade (verbos modais)

Introdução

Com esta unidade, pretende-se que o estudante adquira


bases sólidas sobre a categoria gramatical modalidade.
Falará do valor modal (modalidade) de um enunciado como
resultado da localização da relação predicativa em relação
ao parâmetro, sujeito da enunciação.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

 Identificar verbos modais e de sentido modal;

Objectivos  Nomear as diversas formas de expressão da


modalidade;

 Definir modalidade.

Do ponto de vista linguístico, podemos considerar que a


modalidade é a gramaticalização de atitudes e opiniões dos
falantes. Esta abordagem tão vaga evidencia que se trata
de um fenómeno de grande amplitude, pois não só existem
numa língua formas diversas de expressar um mesmo tipo
de modalidade como também uma expressão pode
apresentar diferentes modalidades.

Os conceitos modais podem ser expressos nas línguas


naturais através de uma grande variedade de formas. A
maneira mais comum é através de verbos modais como
poder e dever, mas também através de verbos como
saber, crer, permitir, obrigar, precisar de, ter de.
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70

Advérbios de frase como possivelmente,


necessariamente, provavelmente e adjectivos como
possível, capaz também apresentam sentido modal.
“Os domínios de possibilidade e necessidade são variantes
paradigmáticas, que se realizam em quatro domínios ou
tipos: modalidades internas ao participante, externa ao
partcipante, deôntica e epistémica. Na modalidade
interna ao participante, apesar do seu comportamento
sintáctico, podemos incluir aqui não só poder como ser
capaz de para possibilidade e precisar e necessitar a
necessidade”.
Na modalidade externa ao a participante incluem-se poder
para possibilidade e dever e ter de para necessidade.
No que diz respeito à modalidade deôntica, os verbos
poder, dever e ter são também os utilizados, quer se trate
de permissão ou obrigação directa ou relatada.
Os verbos modais que exprimem modalidade epistémica
são dever e poder, porém ter de e ser capaz de podem
também surgir com esta leitura em certos contextos.

Sumário

Os conceitos modais podem ser expressos nas línguas


naturais através de uma grande variedade de formas. A
maneira mais comum é através de verbos modais como
poder e dever, mas também através de verbos como
saber, crer, permitir, obrigar, precisar de, ter de.
Advérbios de frase como possivelmente,
necessariamente, provavelmente e adjectivos como
possível, capaz também apresentam sentido modal.
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71

Exercícios

1. Defina o conceito de modalidade.


2. Apresente uma listagem das diversas formas de
expressão da modalidade.
3. Dê um exemplo para cada caso.
4. Nomeie os tipos de modalidade existentes.
5. Explicite, exemplificando, a relação entre os verbos
modais poder e dever e a negação
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72

Unidade 19: Aspectos sintácticos da negação

Introdução

Nas línguas naturais, a negação constitui uma operação


que permite denotar quer a inexistência da situação ou
entidade originariamente reportadas por essa unidade, quer
o valor oposto da propriedade ou quantidade por ela
designadas. Nesta unidade pretende-se que o estudante
reflicta sobre os aspectos sintácticos das construções
negativas.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

 Identificar os marcadores de negação;

Objectivos  Compreender o mecanismo de colocação dos


marcadores de negação nas frases do português.

O valor negativo ou positivo presente nas expressões


linguísticas do português denomina-se polaridade. Esta
pode ser negativa ou positiva. A polaridade negativa, ao
contrário da positiva, requer explicitamente a presença de
elementos negativos.

Os marcadores negativos são núcleos que negam as


unidades sobre que têm escopo. O português europeu
apresenta três marcadores de negação fundamentais que
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73

ocorrem em domínios estruturais diversos – não, nem e


sem.

Exemplos:

a) Nós não comprámos esse livro.

b) O réu declarou-se não culpado.

c) Podes gritar à vontade, pois eu nem te ouço!

d) Não fomos nem ao cinema nem ao teatro.

e) Eles partiram para férias sem se despirem de nós.

f) Eles partiram para férias sem que se despedissem


de nós.

Para além dos sintagmas negados através de marcadores


de negação existem outros que devem a sua natureza
negativa à presença de quantificadores negativos, que
podem por si sós ou em combinação com nomes formar
uma expressão negativa. Exemplos:

a. Ninguém gosta de ser maltratado.

b. Nada satisfaz o Pedro.

c. Nunca se soube aposição exacta do navio


naufragado.

d. Nenhuma pessoa gosta de ser maltratada.

A posição dos marcadores de negação

Na negação frásica, a posição canónica do marcador de


negação não é no início do constituinte que exprime o
predicado. Ex:

a. Os países não têm assumido as suas obrigações na


preservação do ambiente.
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74

b. A que aula não vai o Pedro?

Mas não pode ocorrer nestas posições:

a) *Telefonou ninguém não durante a sua ausência.

b) A que aula vai o Pedro não hoje?

Não, enquanto marcador de negação frásica, forma com o


verbo que precede uma unidade sintáctica que não pode
ser fragmentada.

No âmbito da negação frásica, o marcador negativo sem


funciona como um complementador. Ocorre, pois, antes de
qualquer outro elemento da frase subordinada que introduz.
Ex.:

a. Ele saiu de casa sem a Ana ter reparado nisso.

b. Essa criança sem que tenha motivos para o fazer.

O marcador coordenativo nem aplica-se tanto a sintagmas,


como mostram os seguintes exemplos: [Nem o Pedro nem
o António] leram esse livro; [Nem nós fomos sair] [ nem a
Micaela nos veio visitar].

O mesmo se passa quando os sintagmas coordenados por


nem são pós-verbais e um marcador de negação frásica
está presente. Ex.:

a. Elas não falaram nem ao João nem ao António.

b. Elas não falaram ao João nem ao António.


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75

Sumário

Os marcadores negativos são núcleos que negam as


unidades sobre que têm escopo. O português europeu
apresenta três marcadores de negação fundamentais que
ocorrem em domínios estruturais diversos – não, nem e
sem.

Os marcadores de negação padrão em português europeu,


precedem o constituinte que negam mas também pode
ocorrer noutras posições.

Exercícios

1. Explique a agramaticalidade das seguintes construções:

a) *Nenhuma criança não viu esse filme.

b) *Nem todas as pessoas não apreciam filmes de


banda desenhada.

c) *O João não viu a Maria, não viu?

2. Diga quais são os quantificadores negativos que conhece


e, enuncie algumas propriedades de sua colocação frásica.
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76

Unidade 20: A concordância negativa

Introdução

Depois de termos estudado os aspectos gerais acerca da


negação, nesta unidade, a última desta cadeira, referir-nos-
emos, especificamente, à concordância nas frases
negativas.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

 Dominar regras de concordância negativas nas


frases do português;
Objectivos
 Identificar os tipos de concordância negativa.

À propriedade que algumas línguas têm de permitir, em


certas circunstâncias, a ocorrência num mesmo domínio
sintáctico de mais de um constituinte negativo, sem que por
isso a frase seja mal-formada ou as diferentes instâncias de
negação se cancele umas às outras e a expressão
linguística passe a ser interpretada como positiva, designa-
se concordância negativa.

a) Ninguém diz nada nunca.

b) Ele não cumprimentou ninguém.

c) [Nem nós nem ninguém] foi ouvido nessa história!


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77

d) [O não cumprimento de nenhuma das normas


comunitárias] colocaria o país numa situação muito
difícil.

À operação que permite interpretar os diferentes


constituintes negativos como manifestações de uma mesma
unidade negativa complexa chama-se Absorção Negativa.

Os casos de Concordância Negativa em português


caracterizam-se por envolverem num mesmo domínio
negativo, um ou mais sintagmas quantificadores sob o
escopo de um marcador de um marcador de negação.

Ex. Ele não cumprimenta a ninguém.

Devido às chuvas torrenciais, os agricultores ficaram [sem


nada].

A Concordância Negativa pode ser através de fronteiras


frásicas, ou seja, pode envolver mais de um domínio
frásico, designado de Concordância Negativa à Longa
Distância.

Ex.:

a. Não quero ver ninguém.

b. Não quero que o Pedro veja ninguém

Mas, não pode ocorrer nestas sequências:

a. *Quero ninguém

b. *Quero ver que o Pedro veja ninguém.

As frases apresentam concordância negativa nos domínios


frásico e sintagmático.
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78

Sumário

À propriedade que algumas línguas têm de permitir, em


certas circunstâncias, a ocorrência num mesmo domínio
sintáctico de mais de um constituinte negativo, sem que por
isso a frase seja mal-formada ou as diferentes instâncias de
negação se cancele umas às outras e a expressão
linguística passe a ser interpretada como positiva, designa-
se concordância negativa.

Exercícios

1. Apresente as propriedades da concordância


negativa em domínio frásico.

2. O que entende por Concordância Negativa em


domínio frásico?

3. Identifique as propriedades da Concordância


negativa.

4. O que é Absorção Negativa?


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79

Unidade 21: Orações completivas finitas

Introdução

As frases completivas são, na tradição luso-brasileira,


denominadas integrantes. Nesta unidade, ocupar-nos-emos
do estudo, particularmente, das completivas finitas.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

 Identificar e caracterizar frases completivas finitas;

Objectivos  Indicar as relações gramaticais do sujeito e do


objecto directo nas completivas finitas.

As frases podem ocupar posições de tipo diferente nas


frases superiores de que fazem parte. Quando ocupam
posições destinadas a argumentos, isto é, posições
ocupadas tipicamente por expressões nominais,
denominam-se substantivas.

Uma vez que são argumentos de verbos, nomes e


adjectivos da frase superior, este tipo de frases
subordinadas denominam-se completivas ou integrantes.

Conforme a categoria sintáctica a que pertence o item


lexical que selecciona a completiva, este recebe a
designação de completiva de verbo. Ex.: [F Fsub [ Que ele
não nos tenha cumprimentado] surpreende-me].

Completiva de nome. Ex.: [F [ É verdade [ Fsub que ele não


colaborou no trabalho]].
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80

Completiva de adjectivo. Ex.: [F [ Ele responsabilizou-se por


[Fsub terminar o relatório]].

A subordinação completiva é um dos granes tipos de


subordinação, caracterizável pelo facto de a frase
subordinada constituir um argumento de um dos núcleos da
frase superior, tendo por isso, uma distribuição aproximada
da das expressões nominais.

Ex.

a. [Os críticos disseram [ que o filme ganhou o festival]].

[ SN isso]

As completivas:

Mateus, et al (2003), fala de completivas finitas e não


finitas.

As completivas finitas, independentemente de serem


seleccionadas por verbos, adjectivos ou nomes, tal como já
vimos, têm uma propriedade em comum: i. o verbo ocorre
numa forma finita do indicativo ou do conjuntivo: EX. Os
críticos disseram [ Fsub que esse filme ganhou o festival].

Os críticos desejam [ Fsub que esse filme ganhe o festival].

As completivas finitas seleccionadas por verbos


declarativos podem ser introduzidas pelos
complementadores que e se.

a. O júri vai decidir [ Fsub que atribui prémio este ano].

b. O júri vai decidir [ Fsub se atribui prémio este ano].

Particularidades no uso das completivas finitas

No uso dos falantes, observam-se com frequência casos de


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adição ou supressão de uma preposição antecedendo a


completiva finita, em contextos em a gramática não legitima
tal adição ou supressão. À adição da preposição,
denomina-se dequeísmo.

Ex.: *“ O secretariado Europeu 1992[...] faz, através do


presente aviso, de que pretende contratar [...] três
funcionários[...]”

O fenómeno inverso é a supressão da preposição que


introduz legitimante uma completiva finita. A preposição
suprimida é frequentemente de e o fenómeno tem sido o
queísmo.

Ex.: ?”os responsáveis pela campanha, desejos os que o


convívio resultasse num sucesso, não pararam de
telefonaram para as casas das mais conhecidas figuras do
palco”.

Sumário

“As completivas finitas desempenham determinados papéis


sintácticos ou gramaticais, como: sujeito, objecto directo,
oblíqua.

As frases completivas finitas são, na maioria, introduzidas


pelo complementador que. As completivas finitas
seleccionadas por verbos de inquirição e por verbos
dubitativos e intrinsecamente negativos têm como elemento
introdutor o complementador se. Neste último caso, têm
uma interpretação semelhante à de interrogativas indirectas
totais.

Vejamos alguns exemplos:


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a) Os críticos disseram [ Fsubque esse filme ganhou o


festiva].

b) É claro [Fsub que ele colecciona biombos japoneses].

c) Todos lhe perguntaram[se ele afinal vinha à festa].

d) Não sei[Fsub se o João vem à festa].

As completivas podem ser substituídas podem ser


identificadas por testes de substituição. a) As completivas
com a função sintáctica de sujeito podem ser substituídas
pelo pronome demonstrativo invariável isso em posição pré-
verbal. Isso surpreende-me; b) com a função sintáctica de
objectivo directo podem ser substituídas pelos pronomes
demonstrativos isso e –o: O João sabe isso/O João sabe-
o, c) as completivas que funcionam como complementos
preposicionados de verbos e adjectivos podem ser
substituídas pelo pronome demonstrativo isso precedido da
preposição relevante. Ex. Ele responsabilizou-se por isso,
d) as completivas que funcionam como complementos
preposicionados de nomes podem ser substituídas pelo
determinante demonstrativo variável esse precedendo o
nome que selecciona a completiva. Ex. Agrada-me essa
proposta.

Exercícios

1. Identifique os modos que podem ser seleccionados


pelas frases superiores das completivas.

2. Diferencie, exemplificando dequeísmo e queísmo.

3. Atente nas seguintes frases:

a. *[F [FsubQue ele não nos tem cumprimentado]


surpreende-me].
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b. *[F Ela sabe [Fsubque me possa telefonar]].

Explicite a agramaticalidade das frases indicadas.

4. Fale resumidamente das características das


completivas.
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Unidade 22: Orações completivas não finitas

Introdução

As completivas não finitas, quer sejam seleccionadas por


verbos, nomes ou adjectivos, apresentam o verbo no
infinitivo, flexionado ou não. Esta particularidade distingue
esta tipologia das completivas finitas, já vistas na unidade
anterior.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

 Identificar e caracterizar as completivas não finitas.

Objectivos
As completivas não finitas, quer seleccionadas por verbos,
nomes ou adjectivos, apresentam o verbo no infinitivo,
flexionado ou não.

Ex: o João lamenta [os pedreiros não terem concluído a


obra].

Foi uma surpresa [elas terem chegado ontem de


Maputo].

As completivas não finitas infinitivas canónicas


caracterizam-se por exibirem o verbo no infinitivo não
flexionado ou infinitivo flexionado. As infinitivas canónicas
não substituíveis por orações gerundivas.
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85

O infinitivo flexionado não pode ocorrer em todos os tipos


de infinitivas canónicas: Ex: Os miúdos querem [irem (eles)
acampar no próximo fim-de-semana].

A distribuição do infinitivo flexionado nas infinitivas


canónicas é condicionada por dois factores: (i) ocorrência
da completiva no contexto de um atribuidor de Caso; (ii)
estatuto temporal da oração infinitiva.

“Os atribuidores de Caso que legitimam completivas com


infinitivo flexionado podem ser: a flexão finita da frase que
contem o núcleo lexical que as selecciona, quando as
completivas têm a relação gramatical de sujeito; uma
verdadeira preposição ou um marcador causal
preposicional, em completivas verbais, adjectivais e
nominais com relações gramaticais oblíquas; um verbo com
traço causal acusativo, em completivas verbais com relação
de objecto directo.”

As completivas com infinitivo flexionado nem sempre


mantêm a ordem canónica SV. Ex. [Os miúdos terem
chegado cedo a casa] surpreende-nos.

É incrível [nós ainda não sabermos a decisão].

Exemplos de completivas não finitas:

a) Os pais disseram aos miúdos [para vir(em) para casa


cedo].

b) Foi uma surpresa [elas terem chegado ontem da


Rússia].

As frases completivas com infinitivo gerundivo.

Os verbos perceptivos podem seleccionar como


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complemento frases infinitivas preposicionadas.

Ex.:Eu vi [os miúdos a devorarem o doce] / Eu vi [os


miúdos a devorar o doce]. Estas construções podem
parafraseávis em: Eu vi [os miúdos a devorando o doce] /
Eu vi [os miúdos que devoram o doce].

Para além da comutatividade com o gerúndio, a construção


de infinitivo Gerundivo caracteriza-se pelas seguintes
propriedades: a) o infinitivo flexionado e o não flexionado
encontram-se em variação livre. Ex. Eu vi [os miúdos a
devorarem o doce] / Eu vi [os miúdos a devorar o doce]; b)
a sequência à direita do verbo perceptivo forma um único
constituinte, como se conclui do seu comportamento sob
Topicalização e Pseudo-Clivagem e em pares pergunta-
resposta. Ex. [Os miúdos a devorar(em) o doce ], eu não vi
[-]

Foi [os meninos a devorar (em) o doce] que eu vi.

Sumário

Os precedentes das completivas não finitas são


preposições e não complementadores, tal como acontece
como nas completivas finitas. As completivas não finitas
canónicas podem exibir o verbo no infinitivo flexionado ou
não flexionado.

Exercícios

1. Caracterize as completivas não finitas.

2.Explique a agramaticalidade das seguintes frases:


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a) * Os miúdos querem [irem acampar no próximo
fim-de-semana].

b) *Precisamos de [sabermos o prazo de entrega do


exercício de Linguística do Português III].

Diga como ficariam?

Identifique os factores de que depende a distribuição do


infinitivo flexionado nas infinitivas canónicas.

4. Fale das propriedades da construção de infinitivo


Gerundivo.
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Unidade 23: Orações relativas( restritivas e apositivas)

Introdução

Lembre-se que na Linguística Descritiva do português I


vimos as orações relativas. Nesta unidade, pretende-se que
o estudante faça uma consolidação acerca deste
subconjunto de subordinativas.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

 Distinguir as relativas dos restantes tipos de


subordinação;
Objectivos
 Distinguir as restritivas das apositivas;

 Identificar as relativas com antecedente expresso;

 Identificar a natureza do antecedente das restritivas e


das apositivas.

As relativas são orações iniciadas pelos pronomes


advérbios ou adjectivos relativos. Existem relativas sem
antecedente expresso, mas também existem relativas com
antecedente nominal e, elas são de dois tipos: as relativas
restritivas ou determinativas e as relativas apositivas,
explicativas ou não restritivas.

Vejamos os seguintes exemplos:

a) Maputo, que é a capital de Moçambique, é uma


cidade com uma luz especial. [apositiva]

b) O António, que faz anos amanhã, regressou do


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estrangeiro. [apositiva]

c) Comprei um livro que me custou 200 meticais.


[restritiva]

d) A hipótese que me apresentaste ontem é


interessante. [restritiva].

As relativas com antecedente expresso são constituintes do


SN e ocupam nele posições típicas de adjectivos
atributivos.

a) [SN os miúdos mais rápidos] estão a brincar no


recreio.

b) [ SNA conferência interessante] teve lugar no


Ginásio da Universidade.

As orações relativas que restringem a referência do seu


antecedente, denominam-se restritivas (ou
determinativas ou não apositivas), uma vez que
funcionam como modificadores restritivos.

Ex: [ SN Os miúdos] [ que acabaram o trabalho]] estão a


brincar no recreio.

[SN [O livro] [ que comprei ontem]] foi muito caro.

[SN O amigo] [ a quem oferecemos o CD com a banda


do shine]] adorou a prenda.

Sumário

As relativas apositivas ou explicativas exprimem um


comentário do locutor acerca duma entidade denotada por
un SN, o antecedente da relativa. Ao contrário das
restritivas, não contribuem para a construção do valor
referencial da expressão nominal que antecedem.
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Exercícios

1. Relacione, exemplificando, as completivas das


restritivas.

2. Classifique as seguintes frases:

a) A hipótese de que me venhas a apresentar


aquele tipo agrada-me.

b) A surpresa que tu me fizeste foi linda.

c) É uma surpresa que o filme tenha ganho o


festival

d) Assusta-me a notícia de que o planeta está


aquecer

e) O Luís, com quem saí, é muito simpático.

3. Apresente frases da sua autoria: (i) 1 frase completiva;


(ii) 1 frase restritiva e; (iii) 1 apositiva. Diga em que reside a
diferença entre elas.
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Unidade 24: Orações relativas sem antecedente expresso

Introdução

No conjunto das orações relativas encontram-se as


relativas sem antecedentes ou relativas livres. Ocupar-nos-
emos, nesta unidade, de analisar a estrutura e natureza
destas orações.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

 Identificar e caracterizar as relativas sem


antecedente expresso ou relativas livres.
Objectivos

Os morfemas-Q, independentemente das relações


gramaticais e do papel temático que a oração pode
desempenhar em relação ao predicado, têm funções
sintácticas na oração a que pertencem:

(i) De sujeito: Quem vai ao mar perde.

(ii) De objecto directo: Recebi quem tu


recomendaste.

(iii) De oblíquo: Onde eu moro é agradável.

Por não se tratar de relativas com antecedentes expresso


há, nestas orações, restrições quanto ao uso dos morfemas
relativos: cujo e o qual não podem ser empregues.

O pronome quem é usado quer como sujeito quer como


objecto directo referido a humanos.
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Quando surge uma preposição a anteceder o morfema-Q,


há duas situações que podem ocorrer: ou a preposição
pertence só à oração superior ou a preposição pertence
simultaneamente à oração encaixada e à oração superior.

Sumário

Dando conta de muitos aspectos sintácticos e semânticos


mais relevantes das orações relativas. Além das orações
com antecedente nominal, restritivas e apositivas, há ainda
relativas sem antecedente expresso.

Exercícios

 Classifique as orações presentes nas frases abaixo:

a) Dei subsídio a quem precisava.

b) Pensei muito acerca de quanto me disseste.

c) Onde eu moro é agradável.

Identifique nas frases (a) e (b) o valor sintáctico


do morfema-Q

 O que entende por orações relativas sem


antecedente?
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Bibliografia:

CAMPOS, M.H. & XAVIER, M.F. Sintaxe e Semântica do Português,


Universidade Aberta, 1991ª;

FARIA, I.H. et.al. (org.). Introdução à Linguística Geral e Portuguesa.


Lisboa, Editorial, 1996;

MATEUS, M.H.M. Gramática da Língua Portuguesa., 5ª edição revista


e aumentada, Lisboa, Caminho, 2003;

MATEUS, M.H.M.et al. Gramática de Língua portuguesa, Lisboa,


Caminho, 1994;

RAPOSO, E.P. Teoria da Gramática. A faculdade de Linguagem,


Lisboa, Caminho, 1992.

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