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ANASTASIA, Carla.

Vassalos rebeldes: violência coletiva nas Minas na primeira


metade do século XVIII. Belo Horizonte: C/Arte, 1998.

Introdução

→ [pp-09-27] Dado que as sociedades padecem de inerente conflito, por que os motins
não são uma constante? Seguindo a teoria de Georg Simmel, a autora enfatiza as
“formas acomodativas” que asseguram a paz [15]. Nas Minas setecentistas quais eram
essas formas e o que representava uma ameaça a sua viabilidade? Na primeira metade
do século XVIII, momento em que a Coroa Portuguesa percebeu a “necessidade” de
substituir os “dispositivos do exclusivo metropolitano, pouco eficientes na região”, e
estabeleceu uma estratégia de controle delegando autoridade a burocratas, a paz local e
as próprias determinações metropolitanas passaram a depender do consenso do
funcionalismo. O príncipe delegava essas tarefas a terceiros, com o risco dessa
burocracia se autonomizar, criando “mais de um polo de poder”, “focos locais de poder”
[17], e gerando “contextos de soberania fragmentada” ( “Nestes contextos, atores coloniais
acumularam recursos de poder suficientes para enfrentar, com relativa eficácia, a ordem pública,
‘fragmentando’ a soberania metropolitana sobre a região, em princípio absoluta” ) [24]. Teria
sido exatamente isso que ocorreu em Minas Gerais no período assinalado. A metrópole
não apenas se tornou uma espécie de refém dos interesses dos burocratas coloniais,
como desrespeitá-los levava a motins. Era necessário administrar os “conflitos intra-
autoridades” para “manter a previsibilidade da ordem político-social na Capitania” [16].
A maneira de realizar esse objetivo consistia em respeitar as “regras do jogo colonial”,
tendo a metrópole o cuidado de não abusar do poder nem da fiscalidade. Enfim,
deveriam ser mantidos os “procedimentos justos por parte da Coroa” [23]. Portanto,
quando as revoltas eclodiam, eram pela reabilitação das “formas de acomodação”
tradicionais. Elas visavam “restaurar o equilíbrio tradicional” entre as comunidades
coloniais e a metrópole [24].

CAP-I: Tradição e regresso: os motins das primeiras décadas do século XVIII

→ [pp-31-43] O capítulo busca estabelecer os parâmetros das revoltas. Por exemplo,


assinala que “os problemas eclodiam quando, nas vistorias, o Superintendente detectava
a ocupação irregular dos morros e tentava reintegrar as lavras à Real Fazenda” [32]. As
revoltas, no geral, explicitavam “a dificuldade que tinham as autoridades em impor regras
sem respeitar aquelas estabelecidas no convívio das comunidades. Foram revoltas
claramente reativas, nas quais os mineradores não pretendiam colocar em cheque as regras
estipuladas para o jogo colonial, mas tão somente lutavam para garantir a manutenção de
determinados procedimentos, inaugurados no alvorecer das minas e, em geral, considerados
razoáveis pela sua população” [33, grifo meu]. Além destas revoltas, assemelhadas às tax
rebellions, havia os “conflitos intra-autoridades na Capitania, em especial aqueles que opõem
os interesses dos Senados das Câmaras e das comunidades e os dos magistrados portugueses.
Estes enfrentamentos foram extremamente frequentes nas Minas durante a primeira metade do
século XVIII” [37]. Casos houve em que as duas fontes de sublevação se manifestaram
em conjunto. Anastasia os denomina de “casos híbridos”, tais como a Sedição de Vila
Rica (1720) e os motins do Sertão do São Francisco (1736) [41].

CAP-II: Mascarados fascinorosos: a Sedição de Vila Rica

→ [pp-45-59] Alertado pelo Conde de Assumar de que as câmaras ultramarinas


prestavam um desserviço na recolha dos tributos referentes à mineração, o rei de
Portugal decidiu retirar delas essa atribuição, delegando a tarefa a ministros fieis que
atuariam por meio das casas de fundição a serem construídas no ano de 1719, alterando
a forma de cobrança do quinto [46]. Em reação, os mineradores alegavam que as casas
de fundição teriam três consequências danosas aos seus interesses: desorganizariam o
sistema de créditos arraigado na região aurífera, encareceriam os custos de produção e
aumentariam as taxações [47]. Ou seja, a novidade alteraria as regras do jogo colonial:
“para a população da Capitania, não era justo o pagamento do ‘quinto rigoroso’, uma vez que
o trabalho do ouro revela-se excessivo e dispendiosa a aquisição de negros” [52]. “Tratando
desta situação difícil dos mineradores das Gerais, os oficiais da Câmara de Vila Rica
justificaram ao Rei a revolta de 28 de junho de 1720 pelo crescente endividamento da
população e a sua dispersão pela capitania, o que gerava desordens” [54].
Arregimentados pelos “cabeças”, insurreições eclodem com o fito de não transformar a
situação vigente. O governador da capitania, Conde de Assumar, acusava a câmara de
coadunar com a baderna, devido ao que Anastasia conclui que a soberania real em Vila
Rica havia se fragmentado. Inclusive, a recusa da alteração das tradicionais regras do
jogo, expressada pelos populares por intermédio da violência, era vista por Assumar
como uma estratégia dos poderosos locais para tomar os principais postos de comando
dos representantes (correias de transmissão) da coroa. “A face propriamente rebelde da
sedição, aquela que caracterizamos como referida às formas políticas coloniais, explicitou-se
com a presença de Pascoal de Silva Guimarães e Manoel Mosqueira da Rosa em Vila Rica, os
quais tentavam persuadir o governador de que os conflitos só cessariam, uma vez que eles
ocupassem os postos mais importantes da Comarca. O objetivo, claramente explicitado, dos
potentados era o de tomar os lugares do Conde Governador e do Ouvidor Geral da Comarca”
[55]. Segue-se que as revoltas ocorreram em meados de 1720, cessando somente quando
da repressão generalizada promovida por Assumar, incluindo o esquartejamento de
Felipe dos Santos.

CAP-III: Potentados e bandidos: os motins do Sertão do São Francisco

→ [pp-61-83] “Os motins resultaram do repúdio dos moradores do noroeste de Minas ao


estabelecimento, em fevereiro de 1736, da taxa de capitação no Sertão do São Francisco e se
generalizaram a partir dos entendimentos entre a gente miúda e os grandes potentados” [61,
grifo meu]. Região dinâmica importante para o provimento das zonas mineradoras de
Minas e Goiás, o Sertão do São Francisco havia gozado de histórica autonomia até a
década de 1730, quando a Coroa portuguesa ponderou discipliná-lo [62]. A resistência
dos moradores locais, estes de origem paulista, foi imediata. Lá se havia formado
poderosos potentados à margem da rede administrativa metropolitana, os quais deveram
sua força à grande riqueza que possuíam e à imunidade tributária que, historicamente,
galgaram [67]. Dada a baixa arrecadação de ouro nos anos de 1730, o Conde Assumar
empreendeu costurar a região nas malhas oficiais, prescrevendo para o Sertão do São
Francisco o imposto da capitação. Para tanto, ordenou, em 1735, para cada distrito o
estabelecimento de uma Intendência [69]. “Apesar das precauções de Martinho de
Mendonça [responsável por organizar a recolha do imposto] e das disposições especiais
para a cobrança da capitação no noroeste mineiro, os sertanistas não aceitaram a presença do
comissário André Moreira de Carvalho. A autonomia dos poderosos do Sertão ficaria
seriamente comprometida com a presença das novas autoridades instituídas para a cobrança do
imposto. A resistência da gente miúda em pagar a taxa recém-estabelecida e as ameaças ao
poder político dos potentados do Sertão foram responsáveis pela eclosão e generalização dos
motins” [71]. Combinavam-se, portanto, elementos de tax rebellion e de “soberania
fragmentada” [74]. As desordens explodiam em razão de o imposto ser percebido como
injusto pela população e da intromissão do governo oficial nos domínios dos
potentados. Ressalte-se que a revolta identificava nos funcionários coloniais a fonte do
abuso, poupando a figura do rei [75]. Após repressões e condenações de inúmeros
sublevados, o imposto da capitação foi estabelecido em 1736 [81].

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