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CENTRO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BATISTA

CURSO DE TEOLOGIA

WEVERSON FERRARI

A ELEIÇÃO NA ÓTICA PENTECOSTAL,


REFORMADA E DOS BATISTAS BRASILEIROS

VITÓRIA
2017
WEVERSON FERRARI

A ELEIÇÃO NA ÓTICA PENTECOSTAL,


REFORMADA E DOS BATISTAS BRASILEIROS

Trabalho apresentado à disciplina de Teologia Sistemática II,


do Curso de Teologia, do Centro de Educação Teológica
Batista do Espírito Santo.

Professor: Antonio C. G. Affonso

VITÓRIA
2017
3

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO..............................................................................................................4

1. A VISÃO REFORMADA...........................................................................................4
1.1. DEPRAVAÇÃO TOTAL..........................................................................................5
1.2. ELEIÇÃO INCONDICIONAL..................................................................................7
1.3. EXPIAÇÃO LIMITADA OU EXPIAÇÃO DEFINIDA...............................................7
1.4. VOCAÇÃO EFICAZ DO ESPÍRITO OU GRAÇA IRRESISTÍVEL.........................8
1.5. PERSEVERANÇA DOS SANTOS.........................................................................9

2. A VISÃO PENTECOSTAL......................................................................................10
2.1. INCAPACIDADE NATURAL................................................................................11
2.2. ELEIÇÃO CONDICIONAL....................................................................................11
2.3. EXPIAÇÃO ILIMITADA OU REDENÇÃO UNIVERSAL.......................................12
2.4. GRAÇA RESISTÍVEL...........................................................................................12
2.5. DECAIR DA GRAÇA............................................................................................13

3. A VISÃO BATISTA.................................................................................................14

CONCLUSÃO.............................................................................................................15
A CORRUPÇÃO HUMANA E A GRAÇA DO CHAMADO..........................................15
A RESPOSTA DE FÉ..................................................................................................16
CONSIDERAÇÕES FINAIS........................................................................................18

REFERÊNCIAS...........................................................................................................19
4

INTRODUÇÃO

O objetivo primário do presente trabalho é apresentar a diferença de visão entre a


doutrina reformada e a pentecostal, e compará-las com a posição das igrejas
batistas da Convenção Batista Brasileira.

Entretanto, uma análise preliminar das doutrinas reformadas e pentecostais revelou


que o estudo fatalmente se encaminharia para a análise das diferenças entre as
duas cosmovisões principais que tratam da doutrina da Eleição: o Calvinismo e o
Arminianismo, isso porque, o termo “reformado” é aplicado comumente aos
alinhados com as ideias de João Calvino, enquanto que as igrejas pentecostais
tendem a seguir as ideias de Jacó Armínio.

Embora a doutrina da Eleição tenha sido desenvolvida por vários teólogos desde
Agostinho até Karl Barth, as formulações contrastantes de João Calvino e Jacó
Armínio são as que abordam com maior clareza suas questões básicas. Os
calvinistas apregoam a “graça irresistível”, e os arminianos, a “graça preveniente”. A
posição de João Calvino é monergista, visto que, para ele, a salvação depende
única e exclusivamente da decisão divina, independentemente da vontade humana;
não existindo, portanto, o livre-arbítrio libertário, conforme a posição arminiana. Já
Armínio é sinergista, porque considera a coparticipação do homem com Deus na
salvação.

Após apresentar essas duas visões, no capítulo 3 analisaremos como a Declaração


Doutrinária da Convenção Batista Brasileira se posiciona em relação a elas.

1. A VISÃO REFORMADA

A Reforma produziu diversos movimentos associados aos seus grandes líderes. A


maioria deles concordam substancialmente entre si quanto aos “solas”, entretanto
havia entre eles diferenças expressivas (p.e. a diferença entre calvinistas e
arminianos). Com o passar do tempo, o nome “reformado” foi se associando mais e
5

mais aos calvinistas, de maneira que, de maneira genérica, os termos “reformado” e


“calvinista” são usados hoje como similares.

A doutrina de Calvino baseia-se fundamentalmente nas seguintes declarações de


Paulo: “Porque os que dantes conheceu, também os predestinou […]. E aos que
predestinou, a esses também chamou […]” (Rm 8.29,30); “E nos predestinou para
filhos de adoção por Jesus Cristo […], nele, digo, em quem também fomos feitos
herança, havendo sido predestinados conforme o propósito daquele que faz todas
as coisas […]” (Ef 1.5,11). Compreendendo haver predestinação para a salvação,
segue-se a lógica de que quem a obteve jamais incorrerá no risco de perdê-la.

Os seguidores de Calvino organizaram a teologia por ele proposta nos 5 pontos


básicos abaixo, posteriormente explicados:

 Depravação total;

 Eleição incondicional;

 Expiação limitada ou expiação definida;

 Vocação eficaz do espírito ou graça irresistível;

 Perseverança dos santos.

1.1. DEPRAVAÇÃO TOTAL

O termo “depravação total” é usado pelos reformados para designar o estado dos
seres humanos de corrupção na totalidade do seu ser, não existindo assim nenhuma
parte que não tenha sido tocada pelo pecado. Tanto a mente, a vontade, como o
corpo estão afetados pelo mal. Outro termo utilizado para descrever essa situação
caída é a “depravação radical” (no sentido de “raiz” ou “âmago”), uma vez que o
pecado está enraizado no âmago do ser humano e não apenas exterior à vida. 1
1

SPROUL, 2001, p.43,44.


6

Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque
a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o
bem, não há nem um sequer. (Rm 3.10-12)

Se a raiz já está corrompida, decorre que o ser humano é corrompido desde o seu
nascimento, antes mesmo de ter “consciência” de seus atos. Não nos tornamos
pecadores em consequência de nossos pecados, mas pecamos porque nossa raiz é
pecadora: “Pecamos porque somos pecadores, e não o contrário”.

Por causa dessa condição, a Bíblia atribui ao homem vários vereditos de


condenação: “mortos em nossos delitos e pecados” (Ef 2.1); “vendidos à escravidão
do pecado” (Rm 7.14); “prisioneiros da lei do pecado” (Rm 7.23) e “por natureza
filhos da ira” (Ef 2.3).

Tal condição não havia em Jesus; não havia nele a corrupção radical. Uma vez que
ele fora concebido em Maria pelo Espírito Santo, a sua raiz não era a de Adão, mas
sim a do próprio Deus.

Essa perfeição tornava Jesus verdadeiramente livre. Ele de fato, tinha o “livre-
arbítrio”. Já o ser humano oriundo de Adão encontra-se em estado de “escravidão”
ou “morte”, isso quer dizer, cego, surdo, mudo, impotente e leproso espiritual, e por
isso, insensível à graça comum e impedido de sequer apreciar as coisas de Deus e
muito menos ainda de salvar-se: “não há quem entenda, não há quem busque a
Deus” (Rm 3.11). Outros versos que sinalizam neste sentido são: Jr 13:23; 7:18; 1Co
2:14; Ef 1:3-12 e Cl 2:11-13.

Para ser tirado desse estado de morte espiritual, é necessário o poder transformador
do Espírito Santo, uma vez que é Deus quem vivifica o homem: “Ele vos deu vida,
estando vós mortos nos vossos delitos e pecados” (Ef 2.1). Se assim não for – ou
seja, se Deus não tomar a iniciativa de ressuscitar espiritualmente o homem e
infundir nele a fé salvadora – o homem continuará morto eternamente.

Tal situação é comparável com o afogamento de alguém que não saiba nadar: ele
continuará a se debater até afogar-se completamente, a não ser que alguém de fora
– que não esteja se afogando – estenda o braço e o salve.
7

1.2. ELEIÇÃO INCONDICIONAL

Eleição incondicional é a doutrina do calvinismo segundo a qual, ao criar o mundo,


Deus escolheu algumas pessoas para a salvação, de acordo com seus próprios
propósitos e sem levar em conta a virtude, o mérito ou a fé nessas pessoas.

Para os reformados, a eleição de Deus é a manifestação de sua soberania, uma vez


que Ele não tem a obrigação de salvar ninguém, sejam homens ou anjos decaídos.
Argumentam que a eleição não pode basear-se em decisões ou respostas dos seres
humanos, porque até esses são frutos da graça soberana dEle, inclusive a fé, a qual
é dom de Deus ao homem, não do homem a Deus.

Os versos utilizados para fundamentar esta doutrina são os seguintes: Ml 1:2-3; Jo


6:65; 13:18; 15:6; 17:9; At 13:48; Rm 8:29, 30-33; 9:16; 11:5-7; Ef 1:4-5; 2:8-10; 2Ts
2:13; 1Pe 2:8-9; Jd 1:4.

1.3. EXPIAÇÃO LIMITADA OU EXPIAÇÃO DEFINIDA

De forma geral, as denominações protestantes defendem que a expiação de Cristo


apesar de ser suficiente para pagar pelos pecados de toda a humanidade não tem
validade para os não-crentes (ou seja, é suficiente para todos, mas é eficiente
somente para alguns).

Porém, para os reformados, a oferta da expiação para a raça humana é ainda mais
limitada: ela não está disponível para todos, mas apenas aos eleitos. Esse ponto de
vista é uma consequência direta da eleição incondicional através da qual uns são
predestinados para a salvação enquanto outros para a condenação.

Um outro termo utilizado para esta doutrina é “expiação definida”, no sentido de que
os que gozarão dela são apenas os que já haviam sido definidos previamente.
Tomando o termo neste sentido, não seria possível que a expiação estivesse
dependente do livre-arbítrio do homem, pois Cristo foi sacrificado para redimir Seu
povo e não para tentar redimi-lo.2

2
8

Os versos normalmente utilizados para defender a Expiação Limitada são: Jo


17:6,9,10; At 20:28; Ef 5:15; Tt 3:5.

1.4. VOCAÇÃO EFICAZ DO ESPÍRITO OU GRAÇA IRRESISTÍVEL

O termo “vocação eficaz” refere-se ao chamado de Deus que, por seu soberano
poder e autoridade produz seu designado e ordenado efeito 3. Esse efeito desejado é
o de regenerar o pecador da morte espiritual. Por isso é também chamado de “graça
irresistível”.

Antes da vocação eficaz ser recebida, nenhuma pessoa tem inclinação para
aproximar-se dEle, porém, como o chamado divino é sempre eficaz, Ele sempre
operará imediatamente a mudança interior da disposição da alma do pecador o qual
responde com fé.

Não se pode confundir, entretanto, o chamado interior, com a pregação do


Evangelho. Esta é a vocação exterior de Deus, a qual é ouvida audivelmente tanto
por eleitos como por não-eleitos. A este chamado, os seres humanos têm a
capacidade de resistir e recusar, além disso, ninguém responde à vocação exterior
com fé sem que esta vocação seja acompanhada pela vocação eficaz do Espírito
Santo no interior

Os textos usados para fundamentar esse entendimento são os seguintes: Jr 3:3;


5:24; 24:7; Ez 11:19; 20; 36:26-27; 1Co 4:7; 2Co 5:17; Ef 1:19-20; Cl 2:13; Hb 12:2.

1.5. PERSEVERANÇA DOS SANTOS

Também chamada de doutrina da “segurança eterna”, a doutrina da perseverança


dos santos ensina que se alguém possui a fé salvadora, nunca irá perdê-la; se vier a
perder, é porque de fato nunca teve. O texto de 1Jo 2.19 leva a esse entendimento:

SPROUL, p.66,68

SPROUL, p.60.
9

“Eles saíram do nosso meio; entretanto, não eram dos nossos; porque, se
tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco; todavia, eles se
foram para que ficasse manifesto que nenhum deles é dos nossos” (1Jo
2.19).

Segundo os reformados, o que está em vista não é a capacidade do homem em


perseverar, apesar deste estar regenerado, mas sim a promessa de Deus em
preservar os eleitos. O texto de Fp 1.6 parece complementar esta ideia:

“Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há
de completá-la até ao dia de Cristo Jesus” (Fp 1.6).

Conclui-se que a “perseverança” é fruto unicamente da graça divina, uma vez que é
Deus quem cuida para que a obra que Ele começou alcance seu objetivo, ou seja,
que os propósitos da eleição não sejam frustrados. Esse entendimento está
presente no texto de Romanos 8.30,39:

“aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses
também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Rm
8.30)

“[…] nada poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus,
nosso Senhor” (Rm 8.39)

Assim, não há possibilidade de apostasia e, consequentemente, conclui-se que os


apóstatas, na verdade nunca nasceram de novo. Nesse aspecto, faz sentido
observar que Jesus orou pela restauração de Pedro, mas não pela de Judas, que
desde o princípio era o “filho da perdição” (Jo 17.12) e sobre o qual repousava a
profecia da traição (At 1.16).

Outras passagens usadas para fundamentar essa doutrina são as seguintes: Is


54:10; Jo 6:51; Rm 5:8-10; 8:28-32, 34-39; 11:29; Fp 1:6; 2Ts 3:3; Hb 7:25.

2. A VISÃO PENTECOSTAL

Em contraposição à doutrina da “graça irresistível”, de Calvino, o teólogo holandês


Jacob Armínio (1560-1609) defendeu a “graça preveniente” ou “graça preparatória”,
por meio da qual o homem é capaz de cooperar com Deus e responder a Ele para a
salvação. A graça preveniente reverte os efeitos do pecado de Adão.
10

Armínio também era contra a doutrina do supralapsarianismo4. Ele defendia que


Adão não caíra por decreto de Deus, nem por estar destinado a cair, nem por ter
sido deserdado por Deus, mas por mera permissão de Deus. Essa ideia não está
vinculada a nenhuma predestinação, nem à salvação ou à morte, mas à providência,
a qual é distinta e oposta à predestinação de Calvino 5. Para Armínio a predestinação
está ligada à presciência de Deus, ou seja, Deus predestinara o homem a ser salvo
em Cristo por ter presciência de que Adão cairia.

Os seguidores de Armínio redigiram um documento chamado Remonstrância,


resumindo em cinco pontos sua rejeição ao calvinismo:
 Incapacidade natural
 Eleição condicional
 Expiação universal
 Graça preventiva
 Perseverança condicional
A maioria dos pentecostais tende ao sistema arminiano de teologia tendo em vista a
necessidade do indivíduo em aceitar pessoalmente o Evangelho e o Espírito Santo 6.
A seguir, esses cinco pontos são detalhados.

2.1. INCAPACIDADE NATURAL

Neste ponto há convergência entre o arminianismo e o calvinismo. Ambos


concordam que a condição humana é de total depravação, entretanto há diferenças
entre estes dois sistemas doutrinários: diferentemente dos calvinistas, os arminianos
defendem – baseados em Rm 3.9-24 – que o homem é capaz de fazer o bem e
4

Supralapsarianismo. Do latim lapso, “pecado”, e supra, “antes”. Doutrina segundo a qual Deus teria preordenado o pecado de
Adão.

OLSON, 2001, p.264 apud BRUNELLI, 1999, p.264.

HORTON, 1996, p.35.


11

acertar em questões da vida que não digam respeito à sua capacidade moral diante
de Deus.

Embora a queda de Adão tenha afetado seriamente a natureza humana, as pessoas


não ficaram num estado de total incapacidade espiritual. Todo pecador pode
arrepender-se e crer, por livre-arbítrio, cujo uso determinará seu destino eterno. O
pecador precisa da ajuda do Espírito, e só é regenerado depois de crer, porque o
exercício da fé é a participação humana no novo nascimento. (Is 55:7; Mt 25:41-46;
Mc 9:47-48; Rm 14:10-12; 2Co 5:10)

2.2. ELEIÇÃO CONDICIONAL

Segundo a doutrina arminiana, Deus escolhera as pessoas para a salvação antes da


fundação do mundo baseado em Sua presciência e não na sua soberania. Ele previu
quem aceitaria livremente a salvação e predestinou os salvos. A salvação ocorre
quando o pecador, tocado pela Graça, escolhe a Cristo. O pecador deve exercer fé,
para crer em Cristo e ser salvo. Os que se perdem, perdem-se por livre escolha: não
quiseram crer em Cristo e, por isso, rejeitaram a graça auxiliadora de Deus. (Dt
30:19; Jo 5:40; 8:24; Ef 1:5-6, 12; 2:10; Tg 1:14; 1Pe 1:2; Ap 3:20; 22:17)

2.3. EXPIAÇÃO ILIMITADA OU REDENÇÃO UNIVERSAL

Para os pentecostais, a “expiação ilimitada” defendida pelos reformadores dá peso


maior à soberania de Deus em detrimento de Seus outros atributos, além de ferir a
obra redentora de Cristo, invalidando assim o que a Bíblia diz acerca do alcance da
Sua obra expiatória7.

O sacrifício de Cristo torna possível a toda e qualquer pessoa salvar-se pela fé. Só
serão salvos os que creem nEle – todos os que creem, serão salvos. (Jo 3:16;
12:32; 17:21; 1Jo 2:2; 1Co 15:22; 1Tm 2:3-4; Hb 2:9; 2Pe 3:9; 1Jo 2:2)

BRUNELLI, 1999, p.260.


12

2.4. GRAÇA RESISTÍVEL

Antes de discorrer sobre a “graça resistível”, é importante ter conhecimento de outro


termo doutrinário: a “graça preveniente”. A graça preveniente (no sentido de
“preceder”), é o favor de Deus em providenciar as condições necessárias para a
conversão e tornar possíveis o arrependimento e a fé. Essas condições incluem o
chamado de Deus, a iluminação e capacidade do homem em corresponder a esse
chamado. Tanto calvinistas como arminianos creem na graça preveniente, porém a
interpretam de maneira diversa: os calvinistas a interpretam como irresistível e
eficaz, ou seja a pessoa em quem ela opera irá crer e arrepender-se para salvação;
já os arminianos a interpretam como resistível, pois as pessoas são sempre capazes
de resistir à graça de Deus. Esse modo arminiano de interpretar a “graça
preveniente” é chamada de “graça resistível”.

“Graça resistível”, é então a doutrina que defende que, apesar de Deus desejar a
salvação do homem e de conceder-lhe as condições para que isso ocorra, ele [o
homem], sendo livre, pode resistir aos apelos da graça. Se o pecador não reagir
positivamente, o Espírito não concederá vida. Por isso, por poder [o homem] frustrar
a vontade de Deus para sua salvação, diz-se que a graça de Deus não é infalível
nem irresistível.

Para os arminianos, a ordem dos eventos da salvação está apresentada em Ef 1:13,


argumentando que é necessário primeiro ouvir o Evangelho (“Palavra de Deus”), o
qual é uma condição para se poder crer, que, por sua vez, é uma condição para
receber o selo regenerador do Espírito. A fé vem através de ouvir a Palavra do
Evangelho (Rm 10:17).

Outros textos usados para defender esta doutrina são: Lc 18:23; 19:41-42; Ef 4:30;
1Ts 5:19.
13

2.5. DECAIR DA GRAÇA

Embora também defendam que ninguém pode roubar a salvação de alguém que
decidiu-se por Cristo, os arminianos entendem que, a pessoa pode ainda resistir ao
Espírito Santo e apostatar da fé, perdendo assim sua salvação. 8

Para os arminianos, assim como foi necessário do homem uma resposta para que
lhe fosse concedida a salvação, Deus requer a cooperação para que ela permaneça
no crente. Disso se segue que o homem pode, subsequentemente, deixar de
cooperar com Deus, de tal forma que a obra de Deus não realize seu fim e o homem
caia da graça. Deve-se notar que o livre-arbítrio é definido pelos arminianos como o
poder de escolhas contrárias, ou seja, a capacidade de escolher qualquer coisa,
sem nenhuma predeterminação. As ações das pessoas são indeterminadas.
(FERREIRA, 2007, p.718)

Em resumo, embora o pecador tenha exercido fé, crido em Cristo e nascido de novo
para crescer na santificação, ele poderá cair da graça. Só quem perseverar até o fim
é que será salvo. (Lc 21:36; Gl 5:4; Hb 6:6; 10:26-27; 2Pe 2:20-22)

3. A VISÃO BATISTA

Em relação à soteriologia, a Declaração Doutrinária Batista Brasileira apregoa o


seguinte:

FERREIRA, 2007, p.718.


14

VI- Eleição
Eleição é a escolha feita por Deus, em Cristo, desde a eternidade, de
pessoas para a vida eterna, não por qualquer mérito, mas segundo a
riqueza da sua graça.1 Antes da criação do mundo, Deus, no exercício da
sua soberania divina e à luz de sua presciência de todas as coisas, elegeu,
chamou, predestinou, justificou e glorificou aqueles que, no correr dos
tempos, aceitariam livremente o dom da salvação. 2 Ainda que baseada na
soberania de Deus, essa eleição está em perfeita consonância com o livre-
arbítrio de cada um e de todos os homens. 3 A salvação do crente é eterna.
Os salvos perseveram em Cristo e estão guardados pelo poder de Deus. 4
Nenhuma força ou circunstância tem poder para separar o crente do amor
de Deus em Cristo Jesus.5 O novo nascimento, o perdão, a justificação, a
adoção como filhos de Deus, a eleição e o dom do Espírito Santo
asseguram aos salvos a permanência na graça da salvação. 6
1 Gn 12.1-3; Ex 19.5,6; Ez 36.22,23,32; 1Pe 1.2; Rm 9.22-24; 1Ts 1.4
2 Rm 8.28-30; Ef 1.3-14; 2Ts 2.13,14
3 Dt 30.15-20; Jo 15.16; Rm 8.35-39; 1Pe 5.10
4 Jo 3.16,36; Jo 10.28,29; 1Jo 2.19
5 Mt 24.13; Rm 8.35-39
6 Jo 10.28; Rm 8.35-39; Jd 24

Em resumo, os pontos defendidos pelos batistas são:

 A decisão de salvar ou não o homem é soberana da parte de Deus

 A salvação é pela Graça Divina e não por mérito humano;

 Deus elegeu predestinou todo homem a ser salvo em Cristo.

 Todo homem tem o livre-arbítrio de aceitar ou não a Graça oferecida por


Deus;

 A salvação do crente é eterna.

Observa-se que os batistas assumiram uma posição intermediária entre o


Calvinismo e o Arminianismo. O esquema a seguir ilustra como os batistas se
posicionam em relação a essas das doutrinas:

A VISÃO REFORMADA A VISÃO PENTECOSTAL


Depravação total Incapacidade natural
Eleição incondicional Eleição condicional
Expiação limitada Expiação ilimitada
Graça irresistível Graça resistível
Perseverança dos santos Decair da graça
15

CONCLUSÃO

Após expor os pontos centrais das doutrinas calvinista (ou reformada), arminiana (ou
pentecostal) e a adotada pela CBB, este autor entende que esta última porpõe uma
interpretação equilibrada dos pontos fortes das duas primeiras.

Uma analogia que pode trazer luz para este entendimento calvinista-arminiano típico
dos batistas brasileiros é a passagem na qual Jesus anda sobre as águas (Mt 14.22-
36).

A CORRUPÇÃO HUMANA E A GRAÇA DO CHAMADO

No início da referida passagem, Jesus insiste para que os discípulos entrassem no


barco e se dirigissem para o outro lado do lago, onde os encontraria. Pela
madrugada, durante uma agitação no mar, Ele foi até eles caminhando sobre as
águas. Após Ele se identificar, Pedro pediu a Jesus para que o chamasse para perto
de si.

O pedido de Pedro pelo chamado de Jesus se fundamenta no fato de que ele – o


Chamado – é que tornaria possível Pedro andar sobre a água (e mais, ir até Jesus).
Havia no apóstolo uma disposição inicial de sair do barco onde encontravam-se
todos. Mas foi apenas após o “sim” de Jesus que foi aberta tal possibilidade. Sem
esse Chamado, Pedro não teria condições de alcançar Jesus, ou em outras
palavras, de aproximar-se do divino. É o chamado de Jesus que torna possível a
transposição do abismo que separa o homem de Deus.

Pedro e os demais apóstolos encontravam-se em uma situação difícil no barco. Ao


ver Jesus, desejou a segurança nEle encontrada. Estar com Jesus, significava para
Pedro, livrar-se do risco de naufragar. Assim também se encontra o ser humano
corrompido pelo pecado, porém, profundamente desejoso da comunhão divina.

Jesus poderia ter chamado ou não a Pedro. O fato deste ter pedido pelo Chamado
não elimina a Graça Divina, por dois motivos: em primeiro lugar, porque não foi uma
ordem, ou seja, Jesus o fez por inteira vontade e poderia até ter-se negado a fazê-lo;
16

e em segundo lugar, não houve mérito algum em Pedro, uma vez que a sua súplica
apenas revela o desejo (ou a necessidade) dele em deixar o barco que estava em
situação de risco e migrar para uma situação de segurança junto a Jesus que
mostrava-se impassível diante das intempéries do tempo.

A revelação divina ainda é Graça e o desejo de livrar-se da corrupção em que nos


encontramos para compartilhar da comunhão divina não pode ser confundida como
mérito.

A RESPOSTA DE FÉ

Após o Chamado de Jesus Pedro lançou-se às águas na certeza de que, ainda que
esta ordem fosse racionalmente absurda, ele conseguiria chegar até Jesus. Pedro
mostrou possuir uma fé verdadeira (ainda que pequena e vacilante): ele lançou-se
no desconhecido, no não-natural. Sua ação revelou que ele cria que seria possível.
Isso é que defendia Kierkegaard:

Kierkegaard estabeleceu de forma contundente a diferença entre a


abordagem "objetiva" de Deus e do cristianismo e a abordagem “subjetiva".
Na primeira. Deus e o cristianismo são tratados como fatos ou verdades
objetivas e podem ser apreendidos sem paixão alguma, de maneira
meramente histórica, filosófica ou científica. Na abordagem subjetiva, eles
são tratados como verdades e realidades existenciais com as quais o
indivíduo se relaciona de maneira apaixonada num salto de fé. Essa
ideia ficou sintetizada na célebre máxima de Kierkegaard: “Verdade é
subjetividade”. Diferente do tratamento intelectual da verdade objetiva, a fé
cristã requer uma apropriação interna, o que configura um risco
intelectual. Portanto, o objeto da fé cristã é uma ofensa à razão (1Co
1.1ss). (MILLER, 2011, pp.21-22 – grifo nosso)

A CERTEZA DA SALVAÇÃO

Embora o caminho estivesse aberto e Pedro já experimentasse a sobrenaturalidade


de caminhar sobre as águas, ele teve medo por causa do vento e da agitação das
águas.

O medo de Pedro é razoável se considerarmos que a sua causa não fora a falta de
fé em Jesus, mas sim a mudança de foco: Pedro temeu diante das dificuldades. Mas
sua fé em Jesus ainda perseverava e mostrou-se clara no seu grito de desespero:
“Salva-me, Senhor” (vs.30).
17

A certeza expressa por Pedro em seu grito de desespero é a mesma demonstrada


por todo aquele que experimenta a salvação, uma vez que ao receber o perdão de
seus pecados e tornar-se membro da família divina ele pôde ver “de dentro” o maior
milagre acontecendo. Diante de tal evidência, não há mais como duvidar do poder
divino.

Entretanto, assim como ocorrera com Pedro, o temor pode vir a ser realidade na
vida de qualquer um que experimentou a graça salvadora a partir do momento em
que deixa de olhar para Cristo e passa a confiar em nossa própria força.

A certeza, porém, na providência divina e no seu poder permanecem inabalados.


Isso ocorre porque a experiência da salvação é real, de forma que sua mente não
consegue negar, ainda que desejasse. E nisso reside a certeza da salvação: é
impossível ao crente negar aquilo que ele acredita.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Do exposto, verifica-se que há claras e profundas diferenças entre os pontos de


vistas calvinista e arminiano, embora ambos fundamentem suas doutrinas na
mesma Bíblia. Evidentemente, é de se esperar que como afirma Pinheiro, “quando o
infinito cruza com o finito surgem questões impossíveis de serem respondidas a
contento a partir de nossa perspectiva finita. Entre esses podemos citar […]
infinitude da soberania de Deus e a liberdade de escolha da imago Dei[…]”.
(PINHEIRO, 2014)

Diante desse desafio, todo cuidado em evitar extremos deve ser tomado. Neste
ponto, entendo que a visão batista além de equilibrada, condiz com o que se espera
de um Deus amoroso, justo e fiel segundo é pregado de capa a capa na Bíblia.

Os extremos propostos pelas duas escolas doutrinárias apresentadas produzem


efeitos legalistas nocivos nos crentes: a doutrina da predestinação absoluta dos
calvinistas conduz à arrogância doutrinária e à frieza espiritual, enquanto que o
decair da graça arminiano escraviza o crente na medida em que sua salvação passa
a ser medida pela sua santidade.
18

Essa posição de equilíbrio dos batistas tem resultado numa denominação com forte
ardor missionário a fim de alcançar o maior número possível de pessoas através da
pregação do Evangelho aos povos, adornado pela alegria de um povo que
reconhece a liberdade conquistada por Cristo e que escolheu livremente se santificar
e cumprir a ordem de seu mestre não por medo, mas pelo desejo de ser santo como
Ele é santo e pelo amor àquele que ofereceu sua vida em favor da humanidade.
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REFERÊNCIAS

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