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HOBSBAWM, Eric. A era dos impérios.

CAP – XIII – “Da paz à guerra”

A PAZ DURADOURA

“A paz era o quadro normal e esperado das vidas europeias. Desde 1815 não houvera
nenhuma guerra envolvendo as potências europeias. Desde 1871, nenhuma nação
europeia ordenara a seus homens em armas que atirassem nos homens de qualquer outra
nação similar”.

“Nos anos 1900, a guerra ficou visivelmente mais próxima e nos anos 1910 podia ser e
era considerada iminente. E, contudo, sua deflagração não era realmente esperada. Nem
durante os últimos dias da crise internacional - já irreversível - de julho de 1914, os
estadistas, dando os passos fatais, acreditavam que realmente estivessem dando início a
uma guerra mundial. Uma fórmula seria com certeza encontrada, como tantas vezes no
passado”.

“Assim, para a maioria dos Estados ocidentais, e na maior parte do tempo entre 1871 e
1914, uma guerra europeia era uma lembrança histórica ou um exercício teórico para
um futuro indefinido. A principal função dos exércitos em suas sociedades durante esse
período era civil”.

CORRIDA ARMAMENTISTA

“Em suma, o comércio internacional moderno da morte já estava bem encaminhado.


Contudo, a guerra mundial não pode ser explicada como uma conspiração de fabricantes
de armas, mesmo fazendo os técnicos, com certeza, o máximo para convencer generais
e almirantes, mais familiarizados com paradas militares do que com a ciência, de que
tudo estaria perdido se eles não encomendassem o último tipo de arma ou navio de
guerra. Não há dúvida de que a acumulação de armamento, que atingiu proporções
temíveis nos últimos cinco anos anteriores a 1914, tornou a situação mais explosiva.
Não há dúvida de que havia chegado o momento, ao menos no verão europeu de 1914,
em que a máquina inflexível que mobilizava as forças da morte não poderia mais ser
estocada. Porém a Europa não foi à guerra devido à corrida armamentista como tal, mas
devido à situação internacional que lançou as nações nessa competição”.

O PROBLEMA DAS ORIGENS

Pode-se falar de “culpa de guerra”? No caso, como se pregou depois, a Alemanha foi a
responsável pelo confronto iniciado em 1914? A resposta é não. Na verdade, “nenhum
governo de potências importantes, nem os mais ambiciosos, frívolos e irresponsáveis,
queria uma guerra de grandes proporções”. O problema era que a guerra ia se tornando
inevitável. Mas por quê? A resposta para essa pergunta “repousa na natureza de uma
situação internacional em processo de deterioração progressiva, que escapava cada vez
mais ao controle dos governos”. Em primeiro lugar, a Europa estava se dividindo em
dois blocos, encabeçado pelo recém-formado Império Alemão (1864-1871), de um lado,
e pela França, derrotada na Guerra Franco-prussiana (1870), de outro. A consolidação
de blocos revelava uma crescente rivalidade. Mas por que isso levou à guerra? “Três
problemas transformaram o sistema de aliança numa bomba-relógio: a situação do fluxo
internacional, desestabilizado por novos problemas e ambições mútuas entre as nações,
a lógica do planejamento militar conjunto que congelou os blocos que se confrontavam
[...] e a integração de uma quinta grande nação, a Grã-Bretanha, a um dos blocos”. Esta
última nação se uniu ao bloco antialemão entre os anos 1903 e 1907. “A origem da
Primeira Guerra Mundial pode ser melhor entendida acompanhando-se o surgimento
desse antagonismo anglo-germânico”. Note-se que era surpreendente que a Grã-
Bretanha escolhesse o lado de franceses e russos, haja visto as disputas imperialistas que
empreendiam. “Como e por que se produziu essa surpreendente transformação?”.

Em primeiro lugar, porque o jogo da diplomacia internacional mudou. Se a Inglaterra


havia se acostumado com a sua indiscutível hegemonia, pedindo somente que as demais
nações europeias permanecessem em paz, no final do século XIX outros atores entraram
efetivamente em cena. Principalmente, era preciso conter o avanço alemão, o que
implicava a costura de alianças. Em segundo lugar, o antagonismo inglês ante a
Alemanha foi fomentado pelo surgimento de uma economia capitalista mundial.
Porquanto o crescimento econômico se atrelasse, à época, ao auxilio do Estado, as ações
econômicas do Estado ganharam conotações políticas, transformando a “luta
econômica” em luta entre nações. A política protegia a economia e a economia
reforçava a política, sempre, é claro, no âmbito de cada nação. Portanto, ocorreu um
processo de correspondência entre poder econômico e político, refletindo, também, em
poder militar. Esse processo não acarretaria “uma redistribuição de papéis no cenário
internacional”, questiona Hobsbawm. Obviamente, sim. Ele faria com que os Estados
passassem a disputar as assim chamadas “zonas de influência”, a não ser que os mesmos
Estados se colocassem limites. Mas, dado que a política e a economia estavam unidas, a
peculiaridade dessa correspondência é justamente não tê-los quando conflui para a
acumulação capitalista. Isso levou a disputas nas áreas coloniais do globo, disputas
essas provocadas pelo “ânimo expansionista e conquistador” das nações europeias, por
seu “imperialismo”. Sobretudo a Alemanha reivindicava um espaço maior de atuação no
mundo, alegando seu crescente desenvolvimento econômico, que encontrava
dificuldades cada vez maiores para prosseguir. Sendo assim, a política de Estado exigia
novas áreas de exploração que fizessem expandir a economia capitalista alemã.
Todavia, como disputar a hegemonia global com os ingleses? Como se tornar uma
potência e se colocar em condição de fazer a guerra, se fosse o caso? Ora, equiparando-
se militarmente com seu maior rival. A Alemanha unificada, com sua nova classe
média, assim o fez, construindo uma grande esquadra de guerra situada no Mar do
Norte, bem de frente para a Inglaterra. “Mesmo se a esquadra de guerra alemã não
fizesse absolutamente nada, inevitavelmente imobilizaria navios britânicos,
dificultando, ou até impossibilitando, o controle naval britânico sobre águas
consideradas vitais - como o Mediterrâneo, o Oceano Índico e a orla do Atlântico. O
que para a Alemanha era um símbolo de status internacional e de ambições mundiais
indefinidas, para o Império Britânico era uma questão de vida ou morte”. Destarte, com
seus novos interesses globais, a Alemanha passava a ser ameaçadora para a Inglaterra.
“Não admira [, portanto,] que a Grã-Bretanha considerasse a Alemanha o mais provável
e perigoso de seus adversários potenciais. Era lógico que se aproximasse da França e -
uma vez o perigo russo minimizado pelo Japão – da Rússia, ainda mais porque a derrota
russa destruíra, pela primeira vez na memória das pessoas ainda vivas, o equilíbrio entre
as nações do continente europeu que os chanceleres britânicos tinham dado por certo
durante tanto tempo. Este fato revelou que a Alemanha era a força militar dominante na
Europa, de longe, a mais temível. Esses foram os antecedentes da surpreendente
Tríplice Entente anglo franco-russo”, formada em 1907 para contrapor a Tríplice
Aliança, costurada em 1882.

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