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Resenha crítica do documentário “O Dilema Das Redes” da Netflix

O Dilema das Redes é um documentário da Netflix escrito por Davis


Coombe, Vickie Curtis e dirigido por Jeff Orlowski. Por meio de depoimentos de
ex-funcionários de empresas midiáticas como Google, Facebook, Pinterest,
Twitter, Youtube, Instagram e de profissionais e estudiosos das redes sociais, o
documentário mostra o impacto das redes sociais na vida dos indivíduos, na
sociedade e na política governamental, além das estratégias utilizadas por
essas plataformas para fazer com que as pessoas se conectem e fiquem
viciadas no uso. 
Ao longo da obra, Tristan Harris, ex-designer do Google, cita que “Se
você não está pagando pelo produto, então você é o produto”. Os aplicativos
são mantidos por anunciantes, os quais, após fazer o anúncio, ganham
consumidores. Além disso, para ter mais certeza sobre o ganho de consumidor,
os anúncios são mostrados para usuários específicos que se assemelham com
o perfil da loja. Isso porque, quando o usuário utiliza as redes sociais, além
dele passar as informações de nome, cidade, aniversário, cada atividade
realizada no meio virtual é estritamente monitorada e registrada, obtendo mais
informações sobre cada um.

Dessa forma, quanto maior o tempo que se passa nas redes sociais e
maior o engajamento com o conteúdo, mais anúncios o usuário irá consumir e,
consequentemente, maior será o lucro dessas companhias. Por isso, conforme
o avanço científico e estudos sobre psicologia e neurociência, as redes sociais
criaram mecanismos que as tornam ainda mais viciantes, gerando distúrbios
nos usuários, os quais ficam escravizados emocionalmente. Segundo Tristan
Harris, existe uma técnica chamada “reforço positivo intermitente” que é
amplamente utilizada nas redes sociais e cujo objetivo é criar um hábito
inconsciente que mantenha as pessoas ansiosas para consumir. No caso do
design das redes sociais, a técnica pode ser visualizada no conteúdo que
parece infinito.

Nesse cenário, é importante ressaltar que, apesar da situação não ter


sido pensada intencionalmente pelos criadores das plataformas, esses
mecanismos criados pelas redes sociais para que os conteúdos sejam
mostrados especificamente de acordo com o perfil de cada usuário não se
restringem aos anúncios. Isso também ocorre com publicações sugeridas sobre
diversos temas. Um dos mais evidentes é a política, já cada usuário acaba
sendo fechado em sua própria bolha ideológica. Tal situação, especialmente
nos últimos tempos, tem contribuído para o aumento do radicalismo político
com base em campanhas montadas nas próprias redes. E, sem um consenso
em torno do que é verdade, de uma base comum de informações, há uma
separação, cada vez maior, dos usuários em grupos que não dialogam. 

Outrossim, agravando tal problema, as redes sociais não possuem


ferramentas próprias de regulamentação para separar notícias verdadeiras das
mentirosas. Dessa forma, mesmo que não tenham muito sentido, notícias
falsas são passadas adiante por muitos usuários. Na maioria das vezes, pelo
apelo emocional que carregam, o alarde que trazem e identificação em quem
as lê. No documentário, é citado que no Twitter as fake news (notícias falsas)
tem uma taxa de divulgação seis vezes mais rápida que as notícias comuns. 

Outro aspecto muito bem trabalhado no documentário são os


transtornos mentais que decorrem, assim como já citado, da escravização
emocional dos usuários pela criação de mecanismos que tornam as redes
sociais cada vez mais viciantes. Para Jonathan Haidt, psicólogo social, as
redes possuem relação direta com o crescimento dos casos de ansiedade e
depressão, principalmente entre crianças e adolescentes. Conforme o número
de curtidas e comentários positivos se torna excessivamente importante, os
usuários se tornam dependentes tanto da exposição de suas vidas quanto da
validação dos outros. No documentário, isso é ilustrado com o caso de uma
menina que tem um episódio de depressão depois de receber uma crítica sobre
uma característica física. 

Mediante tantos problemas supracitados, o dilema das redes é muito


mais complexo do que se pode imaginar. O que era para ser algo benéfico para
a população mundial, acabou saindo fora do controle e causando problemas
graves como risco à democracia e exorbitante taxa de suicídio entre
adolescentes. Portanto, a solução necessária seria ter legislações mais rígidas
acerca dos crimes relacionados à esfera digital, algo que é muito difícil, pois a
tecnologia, Internet e redes sociais avançam de forma muito acelerada, o que
difere das legislações, que necessitam de tempo para serem elaboradas.
Ademais, como dito, não há somente um problema a ser tratado, assim sendo,
deve-se fazer um estudo para cada problema encontrado e investigar meios
para suas respectivas soluções regulamentadas. Outro tópico, é que na medida
que tantas adversidades são difundidas, grande quantidade de lucro vem
sendo gerado para essas empresas, ou seja, dificulta ainda mais uma
mudança, já que é o modelo de negócios implantado, que as fazem crescer
ainda mais.

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