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FACULDADE DE ENSINO SUPERIOR DE LINHARES – FACELI

BACHARELADO EM DIREITO

CAMILA CARDOSO BASSI

A SELETIVIDADE PENAL NA LEI Nº 11.343/2006, A DENOMINADA LEI DE


DROGAS: UMA ANÁLISE SOBRE OS CRITÉRIOS QUE DISTINGUEM O
USUÁRIO E O TRAFICANTE.

LINHARES

2020
CAMILA CARDOSO BASSI

A SELETIVIDADE PENAL NA LEI Nº 11.343/2006, A DENOMINADA LEI DE


DROGAS: UMA ANÁLISE SOBRE OS CRITÉRIOS QUE DISTINGUEM O
USUÁRIO E O TRAFICANTE.

Projeto de pesquisa apresentado ao curso de


Direito da Faculdade de Ensino Superior de
Linhares – FACELI, como requisito parcial para
avaliação e também, como diretriz para
produção do trabalho de conclusão de curso.
Orientador: Prof. Mestre e Doutor Antônio César
Machado da Silva.

LINHARES

2020
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 03

2 TEMA ..................................................................................................................... 04

2.1 OBJETO .............................................................................................................. 05

3 PROBLEMA ........................................................................................................... 07

4 HIPÓTESE ............................................................................................................. 08

5 OBJETIVOS ........................................................................................................... 09

5.1 OBJETIVO GERAL ............................................................................................. 09

5.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS ............................................................................... 09

6 METODOLOGIA .................................................................................................... 10

7 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA .................................................................................. 12

8 CONCLUSÃO ........................................................................................................ 15

REFERÊNCIAS......................................................................................................... 16
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1 INTRODUÇÃO

Com a entrada em vigor da nova Lei de Drogas (Lei nº 11.343/2006) no ordenamento


jurídico brasileiro deu-se início a diversas discussões sobre os critérios que devem ser
utilizados para tipificar o agente como usuário ou traficante. Essas discussões se
originaram a partir do § 2º do art. 28, da Lei supramencionada que, ao elencar
parâmetros que devem ser analisados pelo juiz para saber se a droga se destina ao
uso pessoal ou não, se pautou na subjetividade.

O principal fator para que esses critérios sejam considerados subjetivos é que a Lei
nº 11.343/2006 não estabelece a quantificação exata de droga para que o crime deixe
de ser o de uso e passe a ser o de tráfico, ocorrendo então a análise das
circunstâncias pessoais e sociais do agente para realizar essa tipificação.

Assim, feito essas considerações, o presente projeto de pesquisa visa analisar os


critérios que distinguem o usuário e o traficante a fim de comprovar que a Lei de
Drogas estabelece tais critérios de forma subjetiva e que, por isso, não há parâmetros
que sejam seguros para distinguir quem pratica crime de tráfico (art. 33, caput) e quem
pratica crime de uso (art. 28, caput).

Tal temática é de grande importância e deve ser questionada, pois a falta de


parâmetros objetivos para realizar essa diferenciação concentra nas mãos dos juízes,
e também na dos policiais que realizam as abordagens, o poder de decidir em qual
das duas tipificações o indivíduo se encaixa, evidenciando-se assim, a seletividade
penal da Lei de Drogas.

Essa situação descrita é muito prejudicial, pois quando pautada na subjetividade as


decisões judiciais não possuem uniformidade e isso causa insegurança jurídica para
os agentes que praticam os verbos previstos na Lei de Drogas e que, por esse motivo,
a ela devem se submeter. Assim, este estudo tem como finalidade demonstrar a
necessidade da criação de critérios objetivos que consigam diferenciar o autor do
crime de tráfico e do crime de uso, para que a tipificação e a penalidade a ser aplicada
a eles sejam compatíveis com a conduta.
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2 TEMA

A temática que se pretende abordar é a Lei nº 11.343, de 23 de agosto de 2006,


denominada de Lei de Drogas (ou Lei de Tóxicos), que veio substituir as Leis nº
6.368/1976, de 21 de outubro de 1976 e 10.409/2002, de 11 de janeiro de 2002,
conhecidas como Lei de Entorpecentes.

A nova Lei versa sobre inúmeras situações que tem relação com drogas: institui o
Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas – SISNAD, prescreve medidas
a serem tomadas para que haja prevenção do uso indevido dessas substâncias e, que
quando os usuários já se enquadrem como dependentes, eles recebam a devida
atenção e sejam reinseridos socialmente.

Também se estabeleceu normas repressivas à produção não autorizada das referidas


substâncias e ao tráfico ilícito de drogas, definindo os crimes que são derivados
dessas condutas. Nota-se que a Lei trouxe regramento tanto para os usuários de
drogas ilícitas, quanto para os que as trafica.

Quanto aos usuários, esses não são mais criminalizados com pena privativa de
liberdade e restrição de direitos, recebem advertência sobre os efeitos das drogas,
podendo sofrer medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo,
e prestar serviços à comunidade (art. 28, I a III, da Lei nº 11.343/2006).

Para determinar se a droga se destina ao consumo pessoal, o art. 28, § 2º, traz como
critério a ser observado pelo juiz, a natureza e a quantidade da substância apreendida,
o local a as condições em que se desenvolveu a ação, as circunstâncias sociais e
pessoais, bem como a conduta e aos antecedentes do agente. Critérios esses
fundamentados na subjetividade, visto que cabe a autoridade analisar o caso concreto
e decidir se os critérios para que o agente seja considerado usuário, e não traficante,
estão ou não presentes.

Em relação ao tráfico e à produção não autorizada, houve um agravamento na


penalidade dessas condutas. A comercialização das substâncias ilícitas se equipara
aos crimes hediondos, com exceção do tráfico privilegiado (art. 33, § 4º, da Lei nº
11.343/2006), sendo imposta pena de reclusão, sem direito a fiança, indulto, sursis,
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graça, liberdade provisória e substituição da pena privativa de liberdade por restritiva


de direitos.

2.1 OBJETO

O presente estudo tem como objeto a figura do usuário e do traficante de drogas na


Lei nº 11.343/2006, o tratamento penal diferenciado que recebem, conforme o
envolvimento que possuem com as drogas, e os critérios que os distinguem (art. 28,
§ 2º).

O usuário de drogas é definido no art. 28, caput, da Lei de Drogas, como aquele que
guarda, adquire, tem em depósito, transporta ou traz consigo, para consumo pessoal,
drogas sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar.
Nota-se que é necessário que a destinação seja para consumo próprio, se for para
terceiro, a prática se enquadra como tráfico (art. 33, caput).

A penalidade aplicada ao usuário, na Lei nº 6.368/1976, era de detenção de 6 (seis)


meses a 2 (dois) anos, e pagamento de 20 (vinte) a 50 (cinquenta) dias-multa. A nova
Lei de Drogas substituiu as penas de detenção e multa, por advertência sobre os
efeitos das drogas, prestação de serviços à comunidade e medida educativa de
comparecimento à programa ou curso educativo, não cabendo em nenhum caso, nem
mesmo em flagrante, a aplicação da pena privativa de liberdade.

A figura do traficante de drogas encontra-se no art. 33, caput, da Lei de Drogas, sendo
considerado como o que Importa, exporta, remete, prepara, produz, fabrica, adquire,
vende, expõe à venda, oferece, tem em depósito, transporta, traz consigo, guarda,
prescreve, ministra, entrega a consumo ou fornece drogas, mesmo que gratuitamente,
sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar.

A pena aplicada ao traficante foi aumentada pela nova Lei de Drogas, passando de 3
(três) a 15 (quinze) anos de reclusão, e multa de 50 (cinquenta) a 360 (trezentos e
sessenta) dias-multa, penalidade prevista na Lei nº 6.368/1976, para de 5 (cinco) a 15
(quinze) anos, e multa de 500 (quinhentos) a 1.500 (mil e quinhentos) dias-multa.

Verifica-se que os verbos “guardar, adquirir, ter em depósito, transportar ou trazer


consigo” estão presentes na classificação nos dois crimes, o do art. 28, caput e o do
33, caput. Porém, enquanto crime de uso, há a exigência de que a prática dos verbos
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seja para o consumo pessoal, havendo grande diferença quanto ao tipo do tráfico, que
é a comercialização da substância.

Entretanto, para que o agente tenha a tipificação correta em relação a sua conduta, e
lhe seja imposto as penalidades adequadas à sua ação, devem ser observados uma
série de critérios, que de forma objetiva, consiga distinguir quem praticou crime de uso
e quem praticou o crime de tráfico. No § 2º, do art. 28, da Lei nº 11.343/2006, o
legislador estabeleceu alguns critérios para determinar se a droga se destina ao
consumo pessoal. O referido parágrafo do artigo dispõe que:

§ 2º Para determinar se a droga destinava-se a consumo pessoal, o juiz


atenderá à natureza e à quantidade da substância apreendida, ao local e às
condições em que se desenvolveu a ação, às circunstâncias sociais e
pessoais, bem como à conduta e aos antecedentes do agente (BRASIL,
2006).

Porém, vê-se que esses critérios não são satisfativos e nem capazes de enquadrar
corretamente o fato à norma, pois são pautados na subjetividade, o que acaba
gerando verdadeiras injustiças.
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3 PROBLEMA

Nota-se, observando o que foi levantando anteriormente, que os critérios que são
utilizados para diferenciar usuário e traficante são discriminativos e não satisfatórios,
pois a Lei 11.343/2006 não traz parâmetros suficientes para que essa distinção seja
feita.

A referida lei não faz menção sobre a quantidade específica de drogas para realizar
essa diferenciação e, não aborda preceito específico capaz de determinar os limites
para se definir o consumo, deixando para o Estado e seus representantes a escolha
em cada caso. Assim, os fatores determinantes para essa escolha são, em sua
maioria, pautados na raça, cor, condição social e pessoal do indivíduo.

A partir dessa prerrogativa observa-se que o princípio da igualdade na justiça penal


não é aplicado/respeitado, sendo a Lei de Drogas destinada apenas para a população
marginalizada, reforçando a seletividade penal existente no ordenamento jurídico, o
que gera na sociedade a sensação de impunidade e insegurança jurídica,

Surge assim, uma problemática: De que forma a falta de critérios objetivos para
diferenciar o usuário do traficante prejudica o indivíduo que praticou fato típico previsto
no art. 28, caput, da Lei nº 11.343/2006?

.
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4 HIPÓTESE

Sabendo que a Lei de Drogas leva em consideração o local e as condições sociais


para determinar a diferença entre usuário e traficante, o Estado, que se encontra em
conformidade com a referida lei, não hesita em responsabilizar as populações mais
pobres e marginalizadas pelo tráfico de drogas no Brasil, ficando evidenciada a
existência da seletividade da norma.

Dito isso, percebe-se que o fato de o art. 28, § 2º, da Lei nº 11.343/2006 não ter
parâmetros objetivos, mas sim subjetivos, para definir quem é usuário e quem é
traficante, importa na prática de uma seletividade penal que tem início na abordagem
realizada pelo policial e continuidade até o caso ser julgado pelo magistrado. Essa
falta de parâmetro objetivo gera insegurança jurídica quanto a imputação correta do
crime de uso e do crime de tráfico ao indivíduo.

Neste sentido, em análise ao artigo supramencionado, Nucci (2007, p. 308) dispõe:

Naturalmente, espera-se que, com isso, não se faça um juízo de valoração


ligado às condições econômicas de alguém. Ex.: Se um rico traz consigo
cinco cigarros de maconha, seria usuário porque pode pagar pelas drogas.
Entretanto, sendo o portador pessoa pobre, a mesma quantidade seria
considerada tráfico. [...] Ilustrando, de modo mais razoável: aquele que traz
consigo quantidade elevada de substância entorpecente e já possui anterior
condenação por tráfico evidencia, como regra, a correta tipificação no art. 33
desta Lei. [...] o agente que traz consigo pequena quantidade de droga, sendo
primário e sem qualquer antecedente, permite a conclusão de se tratar de
mero usuário [...]. Não há entre os critérios o predomínio de uns sobre os
outros, tudo a depender do caso concreto.
Visto que o poder aquisitivo da agente apreendido, pode facilmente oferecer
uma visão final equivocada de classificação, ou seja, o agente com poder
aquisitivo menor deve ser automaticamente condenado por tráfico de drogas?
Ou um o agente com poder aquisitivo maior, mesmo portando uma grande
quantidade de drogas deve ser tido como usuário?

Diante de todo o exposto, nota-se que a Lei de Drogas mostra-se insuficiente, pois
não há, corretamente, como identificar um agente usuário e um agente traficante, e
isso certamente gera insegurança jurídica, causando prejuízos a sociedade e ao
indivíduo, pois o que pratica verbos do crime de tráfico pode ser considerado como
usuário e quem faz uso pode ser apreendido com traficante, para efeitos da lei.
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5 OBJETIVOS

5.1 OBJETIVO GERAL

Comprovar que a Lei de Drogas (nº 11.343/2006) estabelece critérios subjetivos para
a classificação de quem é usuário de droga (art. 28, § 2º), não havendo parâmetros
seguros para diferenciar o usuário do traficante, ou seja, quem pratica crime de uso
(art. 28, caput) e quem pratica crime de tráfico (art. 33, caput), sendo clara a
seletividade da referida lei penal e a insegurança jurídica causada por esses fatores.

5.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS

- Analisar a história da legislação antidrogas e sua evolução no Brasil até a atual Lei
nº 11.343/2006;

- Definir o que é droga;

- Analisar o art. 28, § 2º;

- Diferenciar os conceitos de usuário de traficante;

- Avaliar os critérios que são utilizados para identificar o usuário;

- Levantar questões que geram a insegurança jurídica devido à falta de critério


distintivo entre usuário e traficante.
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6 METODOLOGIA

A metodologia é, conforme descreve Santos (2010, p. 16-17), “a explicação de como


o tema será tratado, ou seja, os caminhos percorridos para chegar aos objetivos
propostos e o plano adotado no desenvolvimento”. Em complemento, Marconi e
Lakatos (2002) explicam que os critérios a serem utilizados para escolher o tipo de
pesquisa que será realizada variam conforme o que o pesquisador pretende
comprovar, levando em consideração as diferentes condições, interesses e objetivos
delineados para isso.

Assim, para se atingir os objetivos estabelecidos no tópico anterior, a pesquisa será


elaborada utilizando como método a pesquisa bibliográfica e a pesquisa documental,
apresentando estudo de doutrinadores, artigos, jurisprudências e outras fontes de
matéria penal que defendem a necessidade da criação de critérios objetivos para a
correta distinção das figuras do art. 33, caput, e art. 28, caput, da Lei nº 11.343/2006,
e também, que a falta desses critérios pode ocasionar a atribuição equivocada do
crime de tráfico ao agente usuário ou o inverso.

A pesquisa bibliográfica, sendo uma fonte secundária, possui como finalidade levantar
estudos já publicados sobre determinado assunto, para que a partir deles seja
realizada uma nova análise sobre o objeto da pesquisa, podendo com isso se alcançar
uma conclusão diferente das encontradas anteriormente. Cervo, Bervian e Silva
(2007, p. 61), a conceituam como “o procedimento básico para os estudos
monográficos, pelos quais se busca o domínio do estado da arte sobre determinado
tema”.

Desse modo, será utilizado na presente pesquisa doutrinas de autores com


importantes posicionamento sobre a temática abordada, dentre elas, “Leis Penais e
Processuais Comentadas” (2007), de Guilherme de Souza Nucci, e “Drogas: Aspectos
Penais e Processuais Penais (Lei 11.343/2006)” (2007), de Samuel Miranda Arruda.

Também será de grande importância para a construção da pesquisa a análise de


artigos científicos, tais como: “Seletividade penal na Lei de Drogas - Lei n.
11.343/2006” (2014), da autora Gabriella Talmelli Godoy, e “A evolução da legislação
brasileira sobre drogas” (2010), de Victor Pereira Avelino.
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Diferente da pesquisa bibliográfica, a pesquisa documental se baseia na coleta de


dados em sua forma original, extraídos de documentos, sejam eles escritos ou não,
sendo então considerada uma fonte primária, pois “[..] yale-se de materiais que não
recebem ainda um tratamento analítico, ou que ainda podem ser reelaborados de
acordo com os objetos da pesquisa” (GIL, 2002, p. 45).

Assim, o estudo da Lei nº 11.343/2006, atual Lei de Drogas, terá fundamental


importância para a elaboração da pesquisa, vez que é nela que se encontra a
definição do crime de uso e de tráfico e os critérios para distingui-los. Também terá
grande relevância a análise da história da legislação antidrogas a partir das Leis nº
6.368/1976 e 10.409/2002, e sua evolução no Brasil até a atual Lei nº 11.343/2006.

Ainda, será pertinente levantar jurisprudências acerca da temática abordada com a


finalidade de verificar como os juízes e desembargadores estão aplicando a Lei de
Drogas (Lei nº 11.343/2006) sem, no entanto, utilizar critérios objetivos para realizar
a distinção de quem pratica o verbo do art. 28, caput, e do art. 33, caput, da lei
supramencionada.
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7 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

A revisão bibliográfica é o que torna possível fundamentar todo o estudo, dando a ele
validade e credibilidade. O seu objetivo é o de nortear a pesquisa, produzindo uma
revisão dos estudos já realizados sobre o tema abordado, coletando desses materiais
informações que possuam relevância para o embasamento do trabalho.

A fundamentação teórica a ser utilizada para a realização da pesquisa contará com


obras que tenham como conteúdo o assunto aqui abordado, qual seja, a Lei de Drogas
(Lei nº 11.343/2006), os critérios de distinção entre a figura do usuário de drogas e do
traficante e a seletividade penal contida neles.

Inicialmente faz-se importante analisar o posicionamento de Nucci (2007, p. 308)


acerca do assunto:

Naturalmente, espera-se que, com isso, não se faça um juízo de valoração


ligado às condições econômicas de alguém. Ex.: Se um rico traz consigo
cinco cigarros de maconha, seria usuário porque pode pagar pelas drogas.
Entretanto, sendo o portador pessoa pobre, a mesma quantidade seria
considerada tráfico. [...] Ilustrando, de modo mais razoável: aquele que traz
consigo quantidade elevada de substância entorpecente e já possui anterior
condenação por tráfico evidencia, como regra, a correta tipificação no art. 33
desta Lei. [...] o agente que traz consigo pequena quantidade de droga, sendo
primário e sem qualquer antecedente, permite a conclusão de se tratar de
mero usuário [...]. Não há entre os critérios o predomínio de uns sobre os
outros, tudo a depender do caso concreto.
Visto que o poder aquisitivo da agente apreendido, pode facilmente oferecer
uma visão final equivocada de classificação, ou seja, o agente com poder
aquisitivo menor deve ser automaticamente condenado por tráfico de drogas?
Ou um o agente com poder aquisitivo maior, mesmo portando uma grande
quantidade de drogas deve ser tido como usuário?

Diante disso, nota-se a crítica que Nucci faz sobre a utilização de critérios de
diferenciação que se baseiam nas condições pessoais e sociais do agente, e também
nos seus antecedentes criminais, para tipificar uma conduta. Ou seja, quando pobre
é considerado traficante e quando rico é mero usuário.

Nesse mesmo sentido é o posicionamento de Arruda (2007, p. 31):

Tais critérios precisam ser aplicados com especial atenção. Não nos parece
adequado que sejam levados em consideração os ‘antecedentes’ ou a
‘conduta social’ do agente como elementos idôneos à verificação da
ocorrência de um ou outro delito. Tomando-se essa orientação ao pé da letra
serão condenados e presos por tráfico os ‘suspeitos de sempre’, não sendo
lícito partir de uma posição pré-concebida de que havendo praticado um delito
de tráfico, aquele agente forçosamente voltará a cometê-lo, ou mesmo que
tenha mais propensão ao ilícito do que qualquer outra pessoa. Cria-se assim
uma rotulação perigosa dos indivíduos. Deixa-se de analisar o fato criminoso
objetivamente para realizar uma apreciação subjetiva do agente.
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Em complemento a esta ideia, Karam (1993) identifica que a falta de oportunidade no


mercado de trabalho, a família desestruturada, o baixo nível de escolaridade,
situações essas presentes entre os que se encontram em classe social inferior, são
características desfavoráveis e não causas da criminalidade, características essas
que são associadas as circunstâncias da traficância, determinando quem será
selecionado pela sociedade para ocupar o lugar de criminoso.

Essa seletividade penal é nítida nos crimes previstos na lei em análise, tendo em vista
que determinadas pessoas são escolhidas pelo sistema penal para exercer o papel
do traficante e outras para o papel do usuário, levando em consideração a sua posição
dentre as classes sociais. Sobre isso, fazendo uma análise ao § 2º do art. 28, Lins
(2009, p. 252-253) dispõe que:

A atenção, no momento de averiguação destes critérios, quando a autoridade


estiver diante de um sujeito miserável, é imperiosa. A análise deverá ser
sopesada levando em consideração, sim, a sua realidade e problemática
social, mas não para imputar ainda maior lesão ao cidadão, fazendo com que
a sua condição social sirva não só de mola propulsora ao encaminhamento
ao uso de drogas, bem como seja a própria navalha, apta a lhe proferir novo
golpe. A miserabilidade econômica e social de um indivíduo não pode se
tornar, ao mesmo tempo, o motivo de seu sofrimento diário e o argumento
para concebê-lo como criminoso, sob pena de estar-se a violar a própria
política de prevenção trazida pela Nova Lei de Drogas que resguarda uma
proteção acrescida aos vulneráveis.

Outro ponto a ser analisado é que não há previsão em nenhum dispositivo legal sobre
qual seria a quantidade específica de droga para distinguir a classificação do traficante
e a do usuário, ficando o agente a mercê da escolha da tipificação que é feita pelo
Estado e seus representantes. Na falta desse critério objetivo, essa escolha então é
realizada pautada em preconceitos, seja ele pela cor, classe social ou localização em
que o autor foi apreendido. Desse modo, mesmo que o agente seja apreendido com
pouca quantidade de droga, se ele for negro, pobre e morar em uma favela, a sua
ação será tipificada como sendo a de traficância. Em relação a esse assunto, Roxin
citado por Bitencourt (2017, p. 53) aborda:

Como não há critério em dispositivo legal que especifique como se distingue


a classificação entre o usuário e o traficante (não menciona quantidade
específica de droga); a seleção fica à deriva, subsume-se ao arbítrio dos
representantes do Estado. Estes selecionam, em função do estereótipo do
autor, a partir de características como: raça, cor, classe social; como o agente
se enquadrará, no tipo penal do tráfico ou do uso de drogas. Assim, se um
indivíduo for marginalizado, o autor, mesmo em posse de pequena
quantidade de droga, será concebido como tendo o dolo de venda. Assim,
será enquadrado como traficante.
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Pedrinha (2009) também segue esse posicionamento, defendendo a necessidade de


haver critérios que estabeleçam a quantidade exata de droga necessária para tipificar
o crime de tráfico, a fim de que não venha a ocorrer arbitrariedades por parte dos
representantes do Estado.

Os diversos posicionamentos sobre os critérios de distinção entre o traficante e o


usuário na nova Lei de Drogas aqui expostos, demonstram que a análise e aplicação
errônea do § 2º, do art. 28, da lei mencionada, pelos representantes do Estado, pode
causar aos destinatários dela graves consequências. Isso porque, em razão das
características físicas e sociais desses agentes, e por serem vistos como uma
população marginalizada descumpridora costumeira da lei, eles são enquadrados,
com base nesse estereótipo, como autores do crime de tráfico, crime esse, que
apresenta penalidade bem mais gravosa do que o crime de uso.
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8 CONCLUSÃO

A pesquisa a ser realizada tem como propósito comprovar que os critérios


diferenciadores previstos no § 2º, do art. 28, da Lei nº 11.343/2006, que são utilizados
pelo juiz no momento de proceder com o enquadramento do fato à norma penal, não
são parâmetros seguros, pois são pautados na subjetividade, o que causa
insegurança jurídica nas decisões judiciais.

Também se objetiva demonstrar que a Lei de Drogas se mostra seletiva e


discriminatória quando prevê que as circunstancias sociais e pessoais são fatores
determinantes para caracterizar alguém como traficante, sendo assim evidente a
necessidade da criação de parâmetros objetivos para distinguir o binômio usuário-
traficante.

O interesse sobre essa temática surgiu com a leitura mais crítica do art. 28, § 2º, da
Lei nº 11.343/2006, onde foi percebido que os critérios ali previstos não são aptos
para realizar a correta tipificação em relação ao crime de uso e ao crime de tráfico,
pois são totalmente subjetivos, se tornando um mero instrumento para que os
representantes do Estado criminalizem uma classe social determinada.

Assim, o tema foi escolhido para dar enfoque a essa discussão, evidenciando que a
análise das circunstancias sociais e pessoais do agente, para determinar se a droga
se destina a consumo pessoal ou não, é mera oportunidade de se exteriorizar o
preconceito, que é pautado na classe social, raça e cor, nas abordagens policiais e
nas decisões judiciais.

Em vista disso, ao final da pesquisa que será realizada, busca-se confirmar a hipótese
de que a repressão penal contida na Lei de Drogas incide sobre a personalidade e
modo de vida do agente, e não sobre o verbo praticado. Para isso, serão utilizadas a
pesquisa bibliográfica e a pesquisa documental, a fim de se realizar o levantamento
de diversos materiais jurídicos acerca do tema e dos conteúdos que o complementem,
como doutrinas, legislações e jurisprudências.
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REFERÊNCIAS

ARRUDA, Samuel Miranda. Drogas: aspectos penais e processuais penais (Lei


11.343/2006). São Paulo: Método, 2007.

AVELINO, Victor Pereira. A evolução da legislação brasileira sobre drogas.


Jus.com.br, 2010. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/14470/a-evolucao-da-
legislacao-brasileira-sobre-drogas>. Acesso em: 13 maio 2020.

BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de direito penal: parte geral 1. 23. ed. São
Paulo: Saraiva, 2017.

BRASIL, Lei nº 6.368, de 21 de outubro de 1976. Dispõe sobre medidas de prevenção


e repressão ao tráfico ilícito e uso indevido de substâncias entorpecentes ou que
determinem dependência física ou psíquica, e dá outras providências. Diário Oficial
[da] República Federativa do Brasil, Brasília, 22 out. 1976. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L6368.htm>. Acesso em: 27 abr. 2020.

BRASIL, Lei nº 10.409, de 11 de janeiro de 2002. Dispõe sobre a prevenção, o


tratamento, a fiscalização, o controle e a repressão à produção, ao uso e ao tráfico
ilícitos de produtos, substâncias ou drogas ilícitas que causem dependência física ou
psíquica, assim elencados pelo Ministério da Saúde, e dá outras providências. Diário
Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, 14 jan. 2002. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/2002/L10409.htm>. Acesso em: 27 abr.
2020.

BRASIL. Lei nº 11.343, de 23 de agosto de 2006. Institui o Sistema Nacional de


Políticas Públicas sobre Drogas - Sisnad; prescreve medidas para prevenção do uso
indevido, atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas;
estabelece normas para repressão à produção não autorizada e ao tráfico ilícito de
drogas; define crimes e dá outras providências. Diário Oficial [da] República
Federativa do Brasil, Brasília, 24 ago. 2006. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11343.htm>. Acesso
em: 29 abr. 2020.

CERVO, Amado Luiz; BERVIAN, Pedro Alcino; SILVA, Roberto da. Metodologia
científica. 6. ed. São Paulo: Prentice Hall, 2007.

GODOY, Gabriella Talmelli. Seletividade penal na Lei de Drogas - Lei n. 11.343/2006.


<https://jus.com.br/artigos/27071/seletividade-penal-na-lei-de-drogas-lei-n-11-343-
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KARAM, Maria Lúcia. De crimes, penas e fantasias. 2. ed. Niterói: Editora Luam,
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LINS, Emmanuela Vilar. A nova lei de drogas e o usuário: a emergência de uma


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<http://books.scielo.org/id/qk/pdf/nery-9788523208820-16.pdf>. Acesso em: 21 maio


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