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3º Curso Virtual de Teologia do Corpo – 2010 ____________________________________________________ 1

Cristo se Refere ao Coração Humano


Introdução 4. A seguir traduzimos um trecho de rodapé do
tradutor, Michael Waldstein, justificando o uso do
1. No tema anterior voltamos ao ―princípio‖, e termo ―desejar de forma redutiva‖:
vimos como no coração do homem e da mulher no
plano original de Deus não havia maldade nem 5. ―De acordo com João Paulo II, o desejo sexual
pecado, e como sua relação ―em uma só carne‖ e o prazer sexual são, em si mesmos, bons. A
era reflexo do seu chamado à comunhão, já que palavra ―desejo‖ pode ser utilizada em sentido
eram imagem e semelhança de Deus. Porém, positivo. No namoro e no casamento, não é
quando Adão e Eva desobedeceram a Deus, o apenas moralmente legítima, como boa e santa,
pecado entrou no mundo. Esse é o período em que em conformidade com o significado esponsal do
vivemos, o período ―histórico‖, teologicamente corpo. O ―desejo‖ também pode ser utilizado em
falando. Mas esse período não é marcado só pelo um sentido negativo para designar um tipo
pecado. É marcado também pelo mistério da redutivo de desejo no qual a outra pessoa se torna
Redenção que Cristo veio nos trazer. Portanto, o um mero instrumento para o prazer, contrário ao
ciclo do ―Homem Histórico‖ trata de dois significado esponsal do corpo. O ―desejo‖, em
aspectos: o homem corrompido pelo pecado um sentido negativo, surge quando um homem ou
original, e ao mesmo tempo o homem redimido uma mulher não consegue ver a atratividade
por Cristo. completa ou plena da outra pessoa, e reduz esta
atratividade somente à atratividade do prazer
2. O ciclo de audiências chamado ―Cristo se sexual. O fato de isolar e ver somente o desejo
Refere ao Coração Humano‖ é o mais longo, sexual é que dá origem ao vício da luxúria. No
consistindo em 40 audiências gerais feitas pelo desejo luxurioso ou concupiscente, vê-se a outra
Papa João Paulo II entre 16 de abril de 1980 e 6 pessoa de modo redutivo, como simples
de maio de 1981. instrumento ou meio para o prazer sexual. Para
evitar a impressão que Jesus (de acordo com a
3. Lembremo-nos que o Papa, em cada um dos compreensão de João Paulo II) estaria
ciclos, tem presente as palavras do Concílio condenando o desejo sexual em si, adicionaremos
Vaticano II: ―Jesus Cristo revela plenamente o algumas vezes, como lembrete, certos adjetivos
homem a si mesmo‖(Gaudium et spes, 22:1). entre colchetes logo após a palavra ―desejo‖:
Portanto, tudo começa pelo Novo Testamento, [luxurioso], [concupiscente], ou [redutivo].)."1
pelas palavras de Cristo.

À Luz do Sermão da Montanha


As palavras de Cristo
6. Este enunciado constitui uma das passagens do
Sermão da Montanha, em que Jesus Cristo faz
“Ouvistes que foi dito: „Não cometerás uma revisão fundamental do modo de
adultério‟. Ora, eu vos digo: todo aquele que compreender e cumprir a lei moral da Antiga
olhar para uma mulher com o desejo Aliança. Assim, portanto, Cristo apela para o
[luxurioso] de possuí-la, já cometeu homem interior, e o faz mais que uma vez e em
adultério com ela em seu coração.” (Mt 5, diversas circunstâncias. (TdC 24)
27-28)
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Pág. 225 na tradução de Michael Waldstein, de título ―Man
and Woman He Created Them‖, Pauline Books, Boston,
2006.

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7. O homem, a quem Jesus se refere aqui, é interioridade humana e ao mesmo tempo se refere
precisamente o homem "histórico", aquele cujo ao "outro". (TdC 28)
"princípio" e "pré-história teológica" traçamos na
precedente série de análises. Mais diretamente, ele 12. A vergonha, que sem dúvida se manifesta na
é aquele que escuta, com os próprios ouvidos, o ordem "sexual", revela uma dificuldade específica
Sermão da Montanha. (...) Este homem é, em em perceber a essencialidade humana do próprio
certo sentido, "cada" homem, "cada um" de nós. corpo. ―Fiquei com medo, porque estava nu‖. Por
(TdC 25) meio destas palavras revela-se certa fratura
constitutiva no interior da pessoa humana, uma
ruptura da unidade espiritual e somática original
do homem. Este se dá conta pela primeira vez que
seu corpo cessou de beber da força do espírito,
que o elevava ao nível da imagem de Deus. A sua
vergonha original traz em si os sinais de uma
específica humilhação comunicada pelo corpo.
Esconde-se nela o germe daquela contradição, que
acompanhará o homem "histórico" em todo o seu
caminho terrestre, como escreve São Paulo: "Sinto
prazer na lei de Deus, de acordo com o homem
interior. Mas vejo outra lei em meus membros, a
lutar contra a lei da minha razão‖ (Rom 7, 22-23)
– (TdC 28)
8. O "coração" é esta dimensão da humanidade,
com que está ligado diretamente o sentido do
13. A vergonha (pudor) imanente, e ao mesmo
significado do corpo humano, e a ordem deste
tempo sexual, é sempre, ao menos indiretamente,
sentido. Trata-se aqui, tanto daquele significado
relativo. É a vergonha da própria sexualidade ―em
que, nas precedentes análises, chamamos
relação‖ a outro ser humano. (TdC 28)
"esponsal", quanto daquele que denominamos
―procriador‖ ou ―gerador‖. (TdC 25)
14. O homem tem vergonha do corpo por causa
da concupiscência. Mais exatamente, ele tem
vergonha não tanto do corpo, e sim mais
A Vergonha “Entra em Cena” - precisamente da concupiscência: tem vergonha
O Significado da Vergonha do corpo guiado pela concupiscência. (TdC 28)
9. Falando sobre o pecado original, diz o Papa:
―Pondo em dúvida, no seu coração, o significado
mais profundo da doação, ou seja, o amor como
motivo específico da criação e da Aliança
original, o homem volta as costas para Deus-
Amor, ao "Pai". Em certo sentido, lança-O para
fora do próprio coração‖. (TdC 26)

10. ―Então os olhos de ambos se abriram, e, como


reparassem que estavam nus, teceram para si
15. A vergonha tem significado duplo: ela
tangas com folhas de figueira.‖ (Gen 3, 7) Em
indica a ameaça ao valor [original do corpo e
tudo isto, a "nudez" não tem apenas significado
do homem], e ao mesmo tempo ela preserva
literal, não se refere só ao corpo, não é origem de
interiormente esse valor. (TdC 28) Se, por um
uma vergonha referida só ao corpo. Na realidade,
lado, a vergonha revela o momento da
o que se manifesta através da "nudez" é o homem
concupiscência, ao mesmo tempo pode em
destituído da participação no Dom, o homem
primeira mão fornecer armas ou meios contra as
alienado do Amor que tinha sido a fonte do dom
conseqüências da concupiscência. (TdC 31)
original, fonte da plenitude do bem destinado à
criatura. (TdC 27)
16. Esta vergonha confirma que foi destruída a
capacidade original de se comunicarem
11. A vergonha, cuja causa se encontra na
reciprocamente a si mesmos, de que fala Gênesis
própria humanidade, é ao mesmo tempo imanente
2, 25. (...) É como se a sexualidade se tornasse
e relativa: manifesta-se na dimensão da
"obstáculo" na relação pessoal do homem com a

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mulher. (...) A necessidade de se esconder ante o significado esponsal do corpo, e tanto menos se
―outro‖ mostra a fundamental falta de confiança, torna sensível ao dom da pessoa. (TdC 32)
que já em si aponta para o colapso da relação
original ―de comunhão‖. (TdC 29) 23. O "desejo" [luxurioso] de que Cristo fala
em Mateus 5, 27-28 aparece no coração
17. À luz da narrativa bíblica, a vergonha sexual humano de muitas formas: nem sempre é
tem o seu profundo significado, que está evidente e manifesto, às vezes é obscuro, de
conectado precisamente com a incapacidade de maneira que se passa como "amor", embora
satisfazer a aspiração de realizar, na "união mude o seu autêntico aspecto e obscureça a
conjugal do corpo", a comunhão recíproca de limpidez do dom. Isto quer dizer que devemos
pessoas. A mulher, cujos "desejos a arrastarão desconfiar do coração humano? Não! Quer
para seu marido" (Gen 3, 16), e o homem, cuja somente dizer que devemos permanecer no
resposta a tal instinto, como lemos, é de "dominá- controle dele. (TdC 32)
la" (Gen 3, 16), formam indubitavelmente o
mesmo par humano, o mesmo matrimônio de
Gênesis 2, 24, e até mesmo a mesma comunidade
de pessoas: todavia, são agora alguma coisa de
diverso. Já não são apenas chamados à união e
unidade, mas também ameaçados pela
insaciabilidade daquela união e unidade. (TdC
30)

O Homem da Concupiscência

18. Esta verdade, sobre o homem "histórico", de


universal importância, para a qual nos orientam as
palavras de Cristo tiradas de Mt 5, 27-28, parece
24. O "corpo" não cessa de estimular os desejos
estar expressa na doutrina bíblica sobre a tríplice
por união pessoal, precisamente por causa da
concupiscência. Referimo-nos aqui ao conceito
masculinidade e feminilidade ("Teus desejos te
enunciado da primeira Epístola de São João 2, 16-
arrastarão para teu marido"), por outro lado e ao
17: ―Porque tudo o que há no mundo — a
mesmo tempo a concupiscência dirige a seu modo
concupiscência humana, a cobiça dos olhos e a
estes desejos; isto é confirmado pela expressão
ostentação da riqueza — não vem do Pai, mas do
"Ele te dominará" (Gen 3, 16). Agora, a
mundo.‖ (TdC 26)
concupiscência da carne orienta esses desejos para
a satisfação do corpo, muitas vezes às custas de
19. A tríplice concupiscência, incluída a do corpo,
uma autêntica e plena comunhão das pessoas. A
traz consigo uma limitação do próprio significado
partir do momento em que o homem "domina" a
esponsal do corpo, de que o homem e a mulher
mulher, a comunhão de pessoas —feita de plena
eram participantes no estado da inocência
unidade espiritual dos dois sujeitos que se dão
original. (TdC 31)
reciprocamente— é substituída por uma relação
mútua diferente, isto é, uma relação de posse do
20. O homem da concupiscência não domina o
outro como um objeto do próprio desejo. (TdC
próprio corpo do mesmo modo, com igual
31) A relação de dom transforma-se em relação
simplicidade e "naturalidade" como o fazia o
de apropriação. (TdC 32)
homem da inocência original. (TdC 28)

21. Entretanto, o significado esponsal do corpo


não se tornou totalmente estranho àquele coração: Mandamento e Ethos
não ficou nisso totalmente sufocado por parte da
concupiscência, mas só habitualmente ameaçado. 25. A sucessiva etapa da nossa análise deverá ser
O "coração" tornou-se um campo de batalha de caráter ético. O Sermão da Montanha, e em
entre o amor e a concupiscência. (TdC 32) particular a passagem que escolhemos como
centro das nossas análises, faz parte da
22. Quanto mais a concupiscência domina o proclamação do novo ethos: o ethos do
coração, tanto menos este experimenta o Evangelho. (TdC 34)

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26. As palavras do Sermão da Montanha e axiológica pode verificar-se, segundo as


consentem-nos estabelecer um contato com a palavras de Cristo, já no âmbito do "olhar" ou,
experiência interior deste homem [―histórico‖]. antes, no âmbito de um ato puramente interior
Com a categoria do "coração", cada um se expresso pelo olhar. (TdC 40)
identifica de modo singular, mais ainda que pelo
nome. A imagem do homem da concupiscência 31. A mulher começa a existir intencionalmente
diz respeito acima de tudo ao seu [ser] interior. como objeto para a potencial satisfação da
necessidade sexual inerente à masculinidade.
27. Detenhamo-nos um pouco na expressão que, Embora o ato seja completamente interior,
segundo Mateus 5, 27-28, efetua de certo modo a encerrado no "coração" e expresso só pelo "olhar",
transferência ou a deslocação do significado do nele dá-se já uma mudança (subjetivamente
adultério do "corpo" para o "coração". São unilateral) da intencionalidade mesma da
palavras que se referem ao desejo. Cristo fala da existência. (TdC 41)
concupiscência: "todo aquele que olhar para uma
mulher com o desejo de possuí-la". Essa é a 32. Como acontece muitas vezes no Evangelho,
expressão que precisa ser analisada em detalhe também aqui encontramos certo paradoxo. Como,
para se compreender o enunciado como um todo. de fato, pode haver "adultério" sem se "cometer
(...) O homem de que fala Cristo no Sermão da adultério", isto é, sem o ato exterior, que permite
Montanha —o homem que olha "para desejar"— é reconhecer o ato proibido pela Lei? (...)Ao
indubitavelmente o homem da concupiscência. entender o "adultério no coração", Cristo
(TdC 38) considera não apenas o real estado jurídico do
homem e da mulher em questão. Cristo faz com
28. O olhar exprime o que está no coração. O que a avaliação moral do "desejo" dependa acima
olhar exprime, diria eu, o homem completo. Em de tudo da dignidade pessoal do homem e da
certo sentido, o homem através do olhar revela-se mulher; e isso é importante seja quando se trata de
exteriormente e aos outros; sobretudo revela o que pessoas não casadas, seja —e talvez mais ainda—
percebe no "interior". quando são cônjuges, mulher e marido. (TdC 42)

33. É significativo que Cristo, quando fala do


objeto de tal ato [de olhar com concupiscência],
não sublinha que seria no caso "a mulher do
próximo", ou a mulher que não é a própria esposa,
mas diz genericamente: uma mulher. (...) O
adultério "no coração" não é cometido só porque o
homem "olha" desse modo [luxurioso] para a
mulher que não é sua esposa, mas precisamente
porque olha desse modo para uma mulher.
Também se olhasse deste modo para a mulher que
é sua esposa cometeria o mesmo adultério "no
coração". (TdC 43)

29. O "Desejar" [luxurioso], ou o "olhar com 34. A concupiscência que nasce como ato interior
desejo [redutivo]", indicam uma experiência do muda a própria intencionalidade do existir da
valor do corpo em que o seu significado esponsal mulher "para" o homem, reduzindo a riqueza do
cessa de ser esponsal, precisamente por causa da perene chamado à comunhão de pessoas
concupiscência. (...) Portanto, quando o homem unicamente à satisfação do "impulso" sexual do
―deseja‖ e "olha com desejo" (como lemos em Mt corpo. Tal redução faz com que a pessoa (neste
5, 27-28), ele experimenta mais ou menos caso, a mulher) se torne para a outra pessoa (o
explicitamente a ruptura com o significado do homem) acima de tudo um objeto para a possível
corpo, que (segundo já observamos nas nossas satisfação de seu próprio "impulso" sexual. O
reflexões) está na base da comunhão das pessoas. homem que "olha" de tal modo, como escreve Mt
(TdC 39) 5, 27-28, "se utiliza" da mulher, da sua
feminilidade, para satisfazer o próprio "instinto".
30. O "desejo" nascido precisamente da Mesmo que não o faça em um ato exterior, já
concupiscência da carne passa sobre as ruínas do tomou essa atitude no seu íntimo. Um homem
significado esponsal do corpo para satisfazer só o pode cometer tal adultério ―no coração‖ mesmo
impulso sexual do corpo. Tal redução intencional com a própria esposa, se a trata apenas como

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objeto para a satisfação de impulsos. (...) Não é maniqueístas no pensamento e na atitude. (TdC
possível chegarmos a essa segunda interpretação 45)
das palavras de Mt 5, 27-28, se nos limitamos à
interpretação puramente psicológica da
concupiscência, sem ter em conta aquilo que “Mestres da Suspeita”
forma o seu específico caráter teológico. (TdC
43) 41. Na hermenêutica de Nietzsche, o juízo e a
acusação do coração humano correspondem, em
certo modo, ao que na linguagem bíblica é
O Coração – Acusado ou Chamado? chamado "soberba da vida"; na hermenêutica de
Marx, ao que foi chamado "concupiscência dos
35. Se nas palavras analisadas do Sermão da olhos"; e na hermenêutica de Freud, pelo
Montanha o coração humano é "acusado" de contrário, ao que é chamado "concupiscência da
concupiscência (ou se é posto em guarda contra carne". (TdC 46)
aquela concupiscência), simultaneamente
mediante as mesmas palavras é ele chamado a 42. O significado do corpo é, em certo sentido, a
descobrir o sentido pleno daquilo que no ato de antítese da libido freudiana. (TdC 46)
concupiscência constitui para ele um "valor não
suficientemente apreciado". (TdC 45) 43. As palavras de Cristo segundo Mateus 5, 27-
28 não nos permitem parar na acusação contra o
36. Uma segunda questão surge de mãos dadas coração humano e colocá-lo em estado de suspeita
com essa, uma questão mais ―prática‖: Como contínua, mas devem ser entendidas e
alguém que aceita as palavras de Cristo no interpretadas sobretudo como apelo dirigido ao
Sermão da Montanha ―pode‖ e ―deve‖ agir? (TdC coração. Isto deriva da própria natureza do ethos
44) da redenção. A redenção é uma verdade, uma
realidade, em cujo nome o homem deve sentir-
37. O homem "histórico" valoriza sempre, a seu se chamado, e "chamado com eficácia". (TdC
modo, o próprio "coração", assim como julga 46)
também o próprio "corpo": e assim passa do pólo
do pessimismo ao pólo do otimismo, da
severidade puritana ao permissivismo
contemporâneo. (TdC 44)

Maniqueísmo

38. O maniqueísmo via a fonte do mal na matéria,


no corpo, e proclamava portanto a condenação de
tudo o que no homem é corpóreo. E como no
homem a corporeidade se manifesta acima de tudo
através do sexo, a condenação era estendida ao 44. As palavras de Cristo testemunham que a
matrimônio e à convivência conjugal, e a todas as força original (portanto, também a graça) do
outras esferas do ser e do atuar, em que se mistério da criação se torna para cada um deles
exprime a corporeidade. (TdC 44) força (isto é, graça) do mistério da redenção. Isso
concerne a própria "natureza", o próprio substrato
39. As pessoas, portanto, procuravam descobrir – da humanidade da pessoa, os mais profundos
e às vezes viam – tal condenação [do corpo] no impulsos do "coração". (TdC 46)
Evangelho, encontrando-a onde foi pelo contrário
expressa exclusivamente uma exigência particular
dirigida ao espírito humano. (TdC 44) O Ethos da Redenção do Corpo
40. A interpretação apropriada das palavras de 45. É indubitavelmente um ethos "novo". É
Cristo, segundo Mateus 5, 27-28, como também a "novo", em confronto com o ethos dos homens do
"prática" na qual se realiza sucessivamente o Antigo Testamento. É "novo" também com
autêntico ethos do Sermão da Montanha, devem respeito ao estado do homem "histórico",
ser completamente livres de elementos posterior ao pecado original, isto é, a respeito do
"homem da concupiscência". (TdC 49)

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sentido Paulo exorta os leitores de sua carta a se


46. No Sermão da Montanha, Cristo não convida considerarem ―livres da lei‖, e ainda mais, que
o homem a voltar ao estado da inocência original, sejam livres com a liberdade pela qual Cristo ―nos
porque a humanidade deixou-a irrevogavelmente fez livres‖. (TdC 52)
atrás de si, mas chama-o a reencontrar as formas
vivas do "homem novo". (TdC 49) 51. Em primeiro lugar, a pureza é uma
―habilidade‖, ou, na linguagem tradicional da
antropologia e da ética, é uma atitude. E nesse
Pureza como “Vida segundo o Espírito” sentido é uma virtude. O que temos aqui é uma
habilidade prática que permite ao homem agir de
47. A análise da pureza é complemento um modo definido, e ao mesmo tempo a não agir
indispensável das palavras de Cristo no Sermão da de modo contrário. A pureza obviamente deve ter
Montanha (―Aquele que olhar para uma mulher suas raízes na vontade, nos próprios fundamentos
cobiçando-a desordenadamente já cometeu do agir consciente do homem. (TdC 54)
adultério em seu coração...‖). (TdC 50)
52. O Espírito Santo, segundo as palavras do
48. O sentido mais amplo e geral de pureza Apóstolo, entra no corpo humano como no
também está presente nas cartas de São Paulo. Ele próprio "templo", nele habita e opera unido aos
observa uma oposição e tensão entre a ―carne‖ e o seus dons espirituais. Entre estes dons, conhecidos
―Espírito‖. (TdC 50) ―Pois o que a carne deseja é na história da espiritualidade como os sete dons
contra o Espírito, e o que o Espírito deseja é do Espírito Santo , o mais congenial à virtude da
contra a carne: são o oposto um do outro, e por pureza parece ser o dom da "piedade" (eusebeía,
isso nem sempre fazeis o que gostaríeis de fazer‖ donum pietatis). (TdC 57)
(Gálatas 5, 16-17).
53. A pureza, como virtude, ou seja, capacidade
de "manter o próprio corpo com santidade e
respeito", aliada com o dom da piedade, como
fruto da permanência do Espírito Santo no
"templo" do corpo, realiza nele tal plenitude de
dignidade nas relações interpessoais, que Deus
mesmo é nisso glorificado. A pureza é glória do
corpo humano diante de Deus. É a glória de Deus
no corpo humano. (TdC 57)

Conclusão
49. A carne, então, para S. Paulo, não deve ser
54. Seguindo a referência que fez Cristo ao
identificada com o sexo ou o corpo físico. Na
"princípio", dedicamos uma série de reflexões aos
verdade, está mais perto do sentido Hebreu de
relativos textos do Livro do Gênesis, que tratam
personalidade física – o ―si mesmo‖, incluindo os
precisamente daquele "princípio". Ao mesmo
elementos físicos como veículos da vida exterior.
tempo, é preciso todavia considerar, entender e
O termo ―carne‖, para São Paulo, indica não
interpretar a mesma verdade fundamental sobre o
apenas o homem ―exterior‖, mas também o
homem, o seu ser de varão e de mulher, no prisma
homem ―interiormente‖ sujeito às coisas ―do
de outra situação: isto é, daquela que se formou
mundo‖. O homem que vive ―segundo a carne‖ é
mediante a ruptura da primeira aliança com o
o homem voltado apenas para o que vem ―do
Criador, ou seja, mediante o pecado original.
mundo‖: é o homem ―sensorial‖, o homem da
Convém ver tal verdade sobre o homem —varão e
tríplice concupiscência. (...) Para Paulo a vida
mulher— no contexto da sua pecaminosidade
―segundo a carne‖ se opõe à vida ―segundo o
hereditária. E é precisamente aqui que nos
Espírito‖ não apenas no interior do coração do
encontramos com o enunciado de Cristo no
homem, mas se expande no campo das obras (ver
Sermão da Montanha. (TdC 58)
Gal 5, 19-23). (TdC 51)
55. Qual é esta verdade? Indubitavelmente, é uma
50. O homem encontra sua justificação não apenas
verdade de caráter ético e, portanto, afinal, de uma
observando preceitos individuais da lei do Antigo
verdade de caráter normativo. "Não cometerás
Testamento, mas sua justificação vem ―do
adultério". A interpretação deste mandamento,
Espírito‖ (de Deus), e não ―da carne‖. Nesse
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dado por Cristo, indica o mal que é necessário ________________________________________


evitar e vencer — precisamente o mal da
concupiscência da carne — e ao mesmo tempo Perguntas para estudo
indica o bem a que a vitória sobre os desejos abre
caminho. Este bem é a "pureza de coração", de 1. O Papa escolheu começar esta seção com o trecho:
que fala Cristo no mesmo contexto do Sermão da ―Ouvistes que foi dito: Não cometerás adultério. Eu
Montanha. (TdC 58) porém digo-vos que todo aquele que olhar para uma
mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela no
56. Mas as palavras de Cristo são realistas. Não seu coração‖ (Mt. 5, 27-28). Porque o Papa disse que
não deveríamos temer a severidade das palavras de
tentam fazer o coração humano voltar ao estado
Cristo sobre a luxúria?
de inocência original, que o homem deixou para
atrás de si no momento em que cometeu o pecado 2. Você poderia dizer algumas consequências da
original; pelo contrário, indicam-lhe o caminho entrada da concupiscência na relação homem –
para uma pureza de coração, que lhe é possível e mulher?
acessível também no estado da pecaminosidade
hereditária. (TdC 58) 3. Como o homem vê seu corpo depois do pecado
original?

4. Porque a maioria das pessoas pensa a moralidade


cristã como uma lista opressiva de normas? O que
significa estar ―livre da lei‖?

5. Você já escutou alguma vez que Cristo nos dá um


―poder real‖ para experimentar a sexualidade como o
desejo de amar como Deus ama? Você acredita nisso?

6. O que significa a luta entre carne e espírito? E o


que significa ―ethos‖ da redenção?

57. Deste modo, a pureza, no sentido de 7. Por que o maniqueísmo e a interpretação da


temperança, desenvolve-se no coração do homem suspeita são visões equivocadas?
que a cultiva e tende a descobrir e a afirmar o
sentido esponsal do corpo na sua verdade integral.
(Sugere-se enviar as respostas para daniel@teologiadocorpo.com.br)
Esta mesma verdade deve ser conhecida ____________________________________________
interiormente; deve, de certo modo, ser "sentida
com o coração", para que as relações recíprocas © Texto elaborado pela equipe Teologia do Corpo - Brasil
do homem e da mulher — e mesmo o simples exclusivamente para fins didáticos, contendo trechos das
olhar — readquiram aquele conteúdo catequeses do Papa. As citações das catequeses TdC seguem
autenticamente esponsal dos seus significados. a numeração de Michael Waldstein (ver quadro de referência
em separado) As citações bíblicas são da tradução da CNBB.
(TdC 58)