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BOLETIM SOBRE DIREITOS HUMANOS

Rede Moçambicana de Defensores de Direitos Humanos


Maputo, 17 de Maio, 2020 Número 16 Português I www.cddmoz.org

4º DIA DO JULGAMENTO DO “CASO MATAVELE”

Dono da Toyota Mark X diz que


emprestou a viatura ao amigo e “irmão
em Cristo” Nóbregas

A
o quarto dia, o Tribunal Judicial de Gaza con- No lugar de Manganhe poderia estar a responder
cluiu as audições dos arguidos acusados de o edil de Chibuto, Herinques Machava, o verdadei-
assassinar Anastácio Matavele, inquirindo o ro titular da viatura. Quando seu nome foi colado
inspector Justino Muchanga, chefe de armamento ao homicídio, o “camarada Machava” reagiu afir-
na sub-unidade da Unidade de Intervenção Rápida mando que já tinha vendido a Mark X ao Ricardo
(UIR), e o professor de formação Ricardo Manganhe, Manganhe, seu subordinado no município de Chi-
dono da Toyota Mark X usada no atentado. buto, faltando apenas a troca de titularidade. E as-
sim escapou da acusação do Ministério Público e comprado os randes, mas o dono da viatura queria
cumpriu-se mais um capítulo do longo roteiro de- o valor em meticais. Então, tive que voltar a trocar
senhado para afastar qualquer motivação política os randes por meticais e depositar na sua conta”,
no crime hediondo cometido a uma semana das justificou.
eleições gerais de 2019. Passados 36 dias depois de comprar a Toyota
Aliás, a própria história da compra da viatura é Mark X, Manganhe deu-a de empréstimo ao ami-
sui generis. Na sexta-feira, Manganhe contou que go e “irmão em Cristo” Nóbregas Chaúque, um
em Abril do ano passado foi ao Millennium bim so- dos operativos mortos em acidente de viação que
licitar um crédito de consumo para a compra de se seguiu ao assassinato de Matavele. Disse ao tri-
material de construção e de uma viatura. Mas só bunal que aquela não era a primeira vez que Nó-
no dia 29 de Agosto pagou ao Henriques Machava bregas pedia a viatura para cuidar de assuntos fa-
200 mil meticais pela Toyota Mark X, faltando por miliares, e sendo um “irmão em Cristo” nunca se
liquidar 50 mil. Questionado pela juíza Ana Liqui- preocupou em saber de que assuntos se tratava.
dão porquê razão levou quase quatro meses com Quando o guião da narrativa parecia impecável,
dinheiro na conta para comprar a viatura, Manga- eis que surge a primeira contradição com os depoi-
nhe respondeu que o plano era adquirir o carro na mentos dos operativos Edson Silica e Euclídio Ma-
África do Sul, por isso precisou de muito tempo pulasse: Manganhe disse que passou a viatura ao
para cambiar meticais por randes. Nóbregas no dia 5 de Outubro na cidade de Chi-
Mesmo na posse dos randes, ele não mais viajou buto, num acto não testemunhado por terceiros. E
para África do Sul e preferiu comprar a viatura em que foi o próprio Nóbregas que tirou a Toyota Mark
Chibuto, cidade onde reside e trabalha. O tribunal X, porque estava habilitado para conduzir.
não o questionou porquê desistiu do mercado sul- Entretanto, Silica (motorista do pelotão) já tinha
-africano e em que circunstâncias tomou conheci- avançado que no dia 5 de Outubro foi convidado
mento de que o presidente do município estava a pelo colega Nóbregas para ir buscar a viatura que
vender a viatura. estava estacionada perto de uma escola, na cidade
À pergunta sobre a forma de pagamento, res- de Xai-Xai. “Quando chegamos, ninguém estava
pondeu que foi através de depósito na conta de no local e não sei quem tinha deixado a viatura.
Machava, domiciliada no Millennium bim. “Porquê Nóbregas entregou-me as chaves, entramos na
não transferiu o valor, se os dois têm contas no viatura e fomos ao encontro dos outros colegas”,
mesmo banco”, questionou o tribunal. “Eu já tinha contou Edson Silica, na audição de quarta-feira.

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Questionado porquê não foi Nóbregas a levar o matrícula”. Tempo depois de tomar conhecimento
carro, Edosn Silica respondeu que o colega não es- dos factos, Manganhe desligou os telemóveis por-
tava habilitado para conduzir. E mais: tanto Edson que “estava a receber muitas chamadas de pessoas
como Mapulasse contaram que passaram quase que queriam saber o que teria acontecido”. Após
todo o dia 5 de Outubro na companhia de Nóbre- uma pergunta de insistência, respondeu que desli-
gas na cidade de Xai-Xai, e não falaram de uma gou os telemóveis porque “estava traumatizado”.
viagem do colega a Chibuto. Mas não foi pelo trauma que Manganhe não pro-
Manganhe contou ao tribunal que soube que a curou saber das circunstâncias em que o seu carro
sua viatura tinha sido usada para o cometimento do foi usado no crime e mais tarde se envolveu em
assassinato e mais tarde se envolvido em acidente acidente mortal: “Não tive nenhuma acção porque
através de colegas de serviço que viram a informa- sabia que seria chamado pelas estruturas. A Polícia
ção nas redes sociais. “Eles viram imagens do aci- tinha estado no local do acidente e, através do titu-
dente e reconheceram a minha viatura através da lar da viatura, iria chegar até mim”.

Inspector Justino, o último a saber das ocorrências

Está há 32 anos nas fileiras da Polícia e é o res- lasse e Edson Silica em Setembro, mas ninguém do
ponsável pelo arsenal da UIR em Gaza. Seu depoi- arsenal notou a demora na sua devolução.
mento revelou fragilidades no sistema de controlo Ao assinar a devolução de armas, Justino Muchan-
das armas naquela sub-unidade das forças espe- ga sabe que violou o regulamento interno que, en-
ciais. O controlo é feito através do livro onde são tretanto, não existe na versão escrita. “Quando os
registadas as saídas e as entradas das armas. O ar- agentes que levantaram as armas estão impossibi-
meiro em serviço regista no livro o número da arma litados de fazer devolução, é o comandante do pe-
solicitada ou devolvida e as respectivas horas, e o lotão ou da companhia quem o deve fazer. Agapito
agente assina o livro, tanto no acto de levantamen- não estava e Tudelo não podia assinar porque esta-
to como na devolução. “Quem sabe do destino va suspenso”, explicou, sem precisar a hora em que
das armas é o comandante do pelotão. Nós só re- o comandante da companhia do GOE foi suspenso.
gistamos o levantamento e a arrecadação de armas Só no dia 10 de Outubro é que ficou a saber que
e não entramos em questões operacionais”. as armas tinham sido usadas no assassinato de
Nos autos, consta que na noite de 6 de Outubro, Mataleve, quando foi chamado para a Procurado-
Agapito Matavele e Euclídio Mapulasse foram ao ria da Província de Gaza. “O que fez, de seguida?
arsenal tentar levantar armas diferentes daquelas Falou com o seu superior hierárquico? Pediu que
que lhes foram atribuídas. “Quem estava em ser- ele falasse com o SERNIC? Pediu que se abrisse
viço era o colega Daniel Carlos Maússe. Ligou-me uma investigação para esclarecer quando e em que
a informar que dois colegas do GOE estavam a circunstâncias é que aquelas armas foram levanta-
solicitar as armas que são usadas pelos oficiais de das?”, questionou Flávio Menete, um dos advoga-
permanência. Eu disse que não devia dar”, contou, dos do assistente da família Matavele. O inspector
negando, porém, que o episódio tenha acontecido Justino não fez nem uma nem outra coisa.
na véspera do assassinato de Matavele. As perguntas do antigo bastonário da Ordem dos
Apesar de ter sido uma solicitação estranha, o Advogados forçaram Elísio de Sousa a quebrar o
inspector Justino assumiu que nada fez para ob- silêncio: “Eu não me quero meter, não é meu cons-
ter esclarecimento: não procurou saber porquê os tituinte. Mas ele está a ser maltratado e o tribunal
“colegas do GOE” queriam armas diferentes, nem está a ser passivo. Acho que está a haver injustiça”,
com os próprios, nem com o respectivo comandan- atirou o defensor dos polícias que respondem em
te; e não participou o caso aos seus superiores hie- prisão preventiva.
rárquicos. Terminado o interrogatório dos arguidos, o jul-
Sobre o assassinato de Matavele, contou que to- gamento retoma próxima semana com a audição
mou conhecimento 24 horas depois, uma vez que dos declarantes. Terça-feira é o dia reservado para
estava de folga no dia 7 de Outubro. E foi no dia 8 os familiares da vítima; quarta-feira serão ouvidos
de Outubro que assinou a devolução de duas pis- agentes da UIR e Zacarias Chichongue, o homem
tolas de marca Norinco. “Recebi instruções do che- que distribuiu capulanas, camisetas e bonés da
fe de Estado-Maior para assinar o livro como forma Frelimo aos implicados no homicídio; na quinta-fei-
de confirmar que as armas deram entrada. Quando ra será a vez dos familiares dos dois agentes que
cheguei as armas já estavam no arsenal e eu não perderam a vida no acidente e, finalmente, na sex-
sabia que tinham sido usadas no crime”. As duas ta-feira serão “outros declarantes”, nas palavras da
pistolas tinham sido solicitadas por Euclídio Mapu- juíza Ana Liquidão.

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INFORMAÇÃO EDITORIAL:

Propriedade: CDD – Centro para a Democracia e Desenvolvimento


Director: Prof. Adriano Nuvunga
Editor: Emídio Beula
Autor: Emídio Beula
Equipa Técnica: Emídio Beula , Agostinho Machava, Ilídio Nhantumbo, Isabel Macamo, Julião Matsinhe,
Janato Jr. e Ligia Nkavando.
Layout: CDD

Contacto:
CDD_moz
Rua Eça de Queiroz, nº 45, Bairro da Coop, Cidade de Maputo - Moçambique
E-mail: info@cddmoz.org
Telefone: 21 41 83 36
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