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LICENCIATURA PARA GRADUADOS / R2

EM ARTES VISUAIS

FRANCIELE MENEGUCCI

Educação para as Relações Étnicos Raciais: uma abordagem sobre


raça, racismo, educação e a Lei 10.639/03
OCAUÇU, AGOSTO DE 2020

FRANCIELE MENEGUCCI

Educação para as Relações Étnicas Raciais

Trabalho de Educação para as Relações Étnicas Raciais,


apresentado para obtenção no Curso de Licenciatura da Uniplena
Educacional sob orientação da Professora Coordenadora Bianca
Gomes

OCAUÇU, AGOSTO DE 2020


SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO 04
2 DESENVOLVIMENTO 04
2.1 COMPREENDENDO CONCEITOS IMPORTANTES A PARTIR DE
KABENGELE MUNANGA 04
2.2 O PAPEL DA EDUCAÇÃO E DA LEGISLAÇÃO NO COMBATE AO
RACISMO 10
3 CONCLUSÃO 13
REFERÊNCIAS 13
1 INTRODUÇÃO

Este trabalho de pesquisa traz uma revisão bibliográfica contextualizada


sobre as principais definições e conceitos a respeito do tema Educação para as
relações étnico raciais.
Na primeira seção aborda-se o entendimento sobre importantes conceitos
relacionados aos conceitos de raça, etnias, racismo e a sociedade brasileira a partir
de um fichamento do texto do autor, professor e antropólogo negro Kabengele
Munanga.
Na segunda seção aborda-se o contexto da implementação das discussões
sobre raças, minoriais, multiculturalismo, pluralidades respeito e proteção das
diferenças e minorias frente ao papel da educação.

2 DESENVOLVIMENTO

2.1 COMPREENDENDO CONCEITOS IMPORTANTES A PARTIR DE KABENGELE


MUNANGA

Compreender as relações étnico-raciais no Brasil indica a necessidade de


estudar e validar a percepção de autores e pesquisadores negros como protagonistas
de suas histórias, assim, no início deste trabalho buscou-se revisar os escritos do
antropólogo Kabengele Munanga, professor brasileiro-congolês, especialista em
antropologia da população afro-brasileira, com foco nos estudos sobre o racismo na
sociedade brasileira. Kabengele é graduado pela Université Oficielle du Congo e
doutor em Antropologia pela Universidade de São Paulo.
Em seu texto “Uma abordagem conceitual das noções de raça, racismo,
identidade e etnia” o professor doutor Kabengele Munanga explica que a palavra raça
tem origem no italiano razza e latim ratio, cujo significado engloba os termos sorte,
categoria e espécie. Sua aplicação deu-se na zoologia e botânica para a classificação
de animais e vegetais, já no latim medieval o conceito abrangia descendência e
linhagem, referindo-se a um grupo com ancestrais e traços físicos semelhantes. O
sentido atual da palavra, que indica a diversidade humana foi empregado por François
Bernier em 1684 (MUNANGA, 2003).
Munanga (2003, p. 1) explica que nos séculos XVI-XVII, o termo raça é
empregado na distinção de classes francesas, nas quais os Francos eram chamados
de nobres, de origem germânica e sangue “puro”, enquanto Gauleses, eram
considerados a Plebe e aptos a serem dominados pelos outros, “o conceitos de raças
“puras” foi transportado da Botânica e da Zoologia para legitimar as relações de
dominação e de sujeição entre classes sociais (Nobreza e Plebe)” ainda que não
existissem variáveis morfo-biológicas entre os indivíduos.
A dominação dos impérios europeus no século XV afirmou as diferenças
entre nós e eles, e buscava na teologia e na descendência de Adão encontrar a
humanidade nos outros. No Iluminismo do século XVIII o conceito de raça passa a ser
usado para designar esses outros como diferentes, culminando em disciplinas como
História Natural da Humanidade, Biologia e Antropologia Física. Esse processo
construiu uma infeliz hierarquização e racialismo. Nesse contexto, a cor da pele foi
instituída um mecanismo de classificação e separador das chamadas raças, ainda
hoje presentes no “imaginário coletivo e na terminologia científica: raça branca, negra
e amarela” (MUNANGA, 2003, p. 3).
A cor da pele corresponde a maior ou menor concentração de melanina e
menos de 1% dos genes humanos são responsáveis pela cor da pele, dos olhos e
cabelos e, posteriormente, estendidos a outras características como a forma do nariz,
dos lábios, do queixo, do formato do crânio, o angulo facial. No século XX, os avanços
em genética permitiram descobrir que estavam no sangue critérios mais contundentes
para a divisão em raças originando dezenas de raças, sub-raças e sub-sub-raças. Os
progressos nas ciências biológicas validaram que “a raça não é uma realidade
biológica, mas sim apenas um conceito alias cientificamente inoperante para explicar
a diversidade humana e para dividi-la em raças estancas. Ou seja, biológica e
cientificamente, as raças não existem” (MUNANGA, 2003, p. 5).
Porém, o problema da categorização em raças encontra-se no fato de os
naturalistas dos séculos XVIII e XIX indicarem relações entre os diversos patrimônios
genéticos a hierarquias de valores entre as denominadas raças, relacionando os
traços biológicos “às qualidades psicológicas, morais, intelectuais e culturais”,
impondo que os humanos brancos eram superiores aos negros e amarelos em beleza,
inteligência, honestidade e criatividade

mais aptos para dirigir e dominar as outras raças, principalmente a


negra mais escura de todas e consequentemente considerada como a
mais estúpida, mais emocional, menos honesta, menos inteligente e,
portanto, a mais sujeita à escravidão e a todas as formas de
dominação (MUNANGA, 2003, p. 5).
Tal classificação originou a raciologia, uma teoria pseudo-científica que se
expandiu no início do século XX com características doutrinárias cujo objetivo era
legitimar a dominação racial. Seu conteúdo expandiu-se dos círculos acadêmicos
para a sociedade ocidental, retomados por regimes nacionalistas como o nazismo,
validando genocídios na Segunda Guerra Mundial (MUNANGA, 2003).
Assim, Munanga (2003) afirma que o conceito de raça é uma categoria
etnosemântica que carrega em sua ideologia preceitos de relação de poder e
dominação, no aspecto semântico seu conceito é influenciado pelas relações de poder
evidentes, fazendo com que a percepção de negros, brancos, amarelos e mestiços
mudem de acordo com as diferentes localidades geográficas. No imaginário coletivo
das diferentes populações as divisões raciais se perpetuam na forma de raças sociais
que mantem os racismos populares.
Alguns biólogos anti-racistas chegaram até sugerir que o conceito de raça
fosse banido dos dicionários e dos textos científicos. No entanto, o conceito persiste
tanto no uso popular como em trabalhos e estudos produzidos na área das ciências
sociais. Estes, embora concordem com as conclusões da atual Biologia Humana sobre
a inexistência científica da raça e a inoperacionalidade do próprio conceito, eles
justificam o uso do conceito como realidade social e política, considerando a raça
como uma construção sociológica e uma categoria social de dominação e de exclusão
(MUNANGA, 2003).
A questão mais importante do ponto de vista científico não é apenas
observar e estabelecer tipologias, mas sim principalmente encontrar a explicação da
diversidade humana. Antes de Darwin e seus predecessores (Lamarck), a
representação do mundo tido como criado, era estática e imóvel. As variações entre
os organismos tinham uma explicação metafísica. Mas Darwin demonstrou a partir
dos princípios da seleção natural (A Evolução da Espécie,1859), que os organismos
vivos evoluíram gradativamente a partir de uma origem comum e se diversificaram no
tempo e no espaço, adaptando-se a meios hostis, diversos e em perpétua
transformação. A variação dos caracteres genéticos, fisiológicos, morfológicos e
comportamentais hoje observados, tanto entre as populações vegetais e animais
como humanas, correspondem em grande medida a um fenômeno adaptativo
(MUNANGA, 2003).
Exemplos: uma pele escura concentra mais melanina que uma pele clara,
pois protege contra a infiltração dos raios ultravioletas nos países tropicais; uma pele
clara é necessária nos países frios, pois auxilia na síntese da vitamina D. Graças aos
progressos da ciência e da tecnologia, a adaptação ao meio ambiente não precisa
mais hoje de mutações genéticas necessárias no longínquo passado de nossos
antepassados (MUNANGA, 2003).
Sabe-se hoje que a diversidade genética é fundamental à sobrevivência
dos humanos e pode ser socialmente vantajosa se observada pela ótica igualitária
para que as pessoas escolham modos de vida variados conforme suas disposições
naturais, pautada pela igualdade e respeito das individualidades, das diversidades
culturais e étnicas enriquecendo a multiplicidade humana.
Munanga (2003, p. 7) explica que o conceito de racismo foi criado por volta
de 1920, a partir de uma variedade de entendimentos que até dificultam seu combate.
A partir das relações entre raça e racismo, este

seria teoricamente uma ideologia essencialista que postula a divisão


da humanidade em grandes grupos chamados raças contrastadas que
têm características físicas hereditárias comuns, sendo estas últimas
suportes das características psicológicas, morais, intelectuais e
estéticas e se situam numa escala de valores desiguais

Por este prisma vincula-se a crença de hierarquização racial e em relações


entre as características físicas e as morais, intelectuais e culturais, assim, o racista
encara o outro como inferior por suas peculiaridades culturais, lingüísticas, religiosas
e que estas estão vinculadas às diferenças físicas e biológicas. Munanga (2003)
afirma que o racismo tem origem mítica e histórica, sendo a primeira a passagem
bíblica sobre Nóe e seus três filhos Jafé (ancestral da raça branca), Sem (ancestral
da raça amarela) e Cam (ancestral da raça negra), que teria Cam sido amaldiçoado a
escravidão por ter zombado de seu pai. Outra origem é a classificação científica
oriunda das diferenças físicas. No século XVIII, Carl Von Linné fez uma classificação
racial humana acompanhada de uma escala de valores que sugere a hierarquização:
Americano, Asiático, Africano e Europeu, onde os Europeus agrupavam
características positivas em detrimento das demais, principalmente dos africanos.
Essa classificação perpetuou-se coletivamente mesmo com os avanços científicos,
ainda que sem comprovação alguma.
Nos anos 1970, o progresso científico desmistificou a racialidade, no
entanto, o foco central do racismo deslocou-se contra mulheres, homossexuais,
pobres rotulando como racismo comportamentos de injustiça e rejeição pelas
diferenças. Essa ampliação do termo pode levar ao apagamento da questão dos
negros, visto que não somente esses teriam sido vítimas (MUNANGA, 2003).
Munanga (2003) pontua que o apartheid na África do Sul em 1948
demonstra um deslocamento do eixo do racismo, nublado por um projeto político
manipulado para parecer respeitar as diferenças étnicas e culturais que na realidade
se configura como segregação e ainda hoje é usado para separar imigrantes dos
países árabes, africanos e outros dos países do Terceiro mundo, a partir dos anos 80.
No final dos anos 1990 e início dos anos 2000 o racismo já não usa do
conceito biológico de raça para pontuar diferenças entre pessoas, mas as categorias
mentais que sustentam essas diferenças estão enraizadas histórico e culturalmente,
na forma de raças fictícias, às vezes denominadas como etnias para melhorar sua
aceitabilidade léxica (MUNANGA, 2003).
Em nosso tempo, as reinvindicações das vítimas de racismo têm se
intensificado pois este não recuou socialmente, tomando a forma de racismo
construído com base nas diferenças culturais e identitárias.

Devemos, portanto observar um grande paradoxo a partir dessa novo


forma de racismo: racistas e anti-racistas carregam a mesma bandeira
baseada no respeito das diferenças culturais e na construção de uma
política multiculturalista. Se por um lado, os movimentos negros
exigem o reconhecimento público de sua identidade para a construção
de uma nova imagem positiva que possa lhe devolver, entre outro, a
sua auto-estima rasgada pela alienação racial, os partidos e
movimentos de extrema direita na Europa, reivindicam o mesmo
respeito à cultura “ocidental” local como pretexto para viver separados
dos imigrantes árabes, africanos e outros dos países não ocidentais
(MUNANGA, 2003, p. 11).

Hoje o racismo encontra-se de fato implícito nas sociedades, o que é


denominado racismo estrutural. No Brasil, durante muito tempo, o mito de uma
democracia racial baseada em sincretismo e mestiçagem coibiu a formalização de
ações afirmativas que visassem diminuir as diferenças e proporcionar oportunidades
iguais, tornando morosa também a implantação do multiculturalismo nas esferas
educacionais (MUNANGA, 2003).
Munanga (2003, p. 12) explica que o termo raça se relaciona ao padrão
biológico, enquanto etnia é sócio-cultural, histórico e psicológico, assim nas
sociedades as diferenças raças (branca, negra, amarela) podem agrupar diversas
etnias.
Uma etnia é um conjunto de indivíduos que, histórica ou
mitologicamente, têm um ancestral comum; têm uma língua em
comum, uma mesma religião ou cosmovisão; uma mesma cultura e
moram geograficamente num mesmo território. Algumas etnias
constituíram sozinhas nações. Assim o caso de várias sociedades
indígenas brasileiras, africanas, asiáticas, australianas, etc.. que são
ou foram etnias nações.

Munanga (2003) explica que a territorialidade africana foi desfeita e


reconstruída na conferência de Berlim (1884-1885). Assim, grandes territórios étnicos
como o iorubá se encontra dividido hoje como Repúblicas de Nigéria, Togo e Benin,
entre tantos outros.
Munanga (2003) diz que a substituição do termo raça por etnia em nada
muda a situação das vítimas da hierarquização social pois perpetua discriminações
ainda que sob pretextos das diferenças ou identidade cultural, o esquema ideológico
que subentende a dominação e a exclusão permanece. Muitas vezes os racistas de
apropriam e manipulam discursos sobre etnias e identidades conforme seus
interesses.
Munanga (2003) usa em seus trabalhos os termos “Negros” e “Brancos” ou
“População Negra” e “População Branca”, por considerar que o conceito de raça e
etnia são ideologicamente manipulados. A etnia não é estática, elas evoluem e
desaparecem, outras surgem. Não há no Brasil uma única cultura branca e uma única
cultura negra e que regionalmente podemos distinguir diversas culturas no Brasil.
Assim, a identidade nacional deve considerar identidades individuais,
grupais e coletivas, que deve atentar-se para multiplicidade da formação do povo
brasileiro, considerando as interconexões entre suas matrizes culturais. Muitas vezes
o conceito de democracia racial brasileira tenta ocultar a ocorrência dos conflitos que
marcaram e marcam a nação presentes em ocorrência de racismos, preconceitos
étnicos, discriminações, exclusões. Essa noção se prestou a mitigar as desigualdades
socioeconômicas e a situação de miséria que seria derivada da união de um povo
mestiço, marcado por grupos selvagens indolentes, preguiçosos e submissos.
Quando se fala em “identidade étnico-racial negra” é preciso consciência
de que trata-se de uma identidade política que busca transformar a situação das
populações negras no país, que faz oposição a identidade mestiça unificadora que
tem o propósito de manter as estruturas hierárquicas.
2.1 O PAPEL DA EDUCAÇÃO E DA LEGISLAÇÃO NO COMBATE AO RACISMO

Alguns estudiosos escrevem que no Brasil, quanto mais próxima a


aparência de um indivíduo com o padrão branco, atenua o preconceito sofrido, assim,
quanto mais negro são os traços do indivíduo maior o preconceito sofrido.
Telles (2003), escreve que a classificação brasileira que varia de branco a
negro utiliza três sistemas: o dos censos, usado pelo IBGE, utiliza um continuum que
vai de branco a negro, que fomentam as distinções sociais populares sobre “raça”; o
sistema popular que emprega termos classificatórios como marrom, negão, moreno,
entre outros e o sistema adotado pelo movimento negro que utiliza apenas as
categorias de branco e negro.
A sociedade brasileira vive o contraste das sociedades modernas que do
prisma legal indica que todos são iguais e num prisma econômico e social fomenta
desigualdades com origem na renda, instrução, cor da pele, gênero, status, entre
outros marcadores de diferença que tornam o pensamento liberal sobre a igualdade
de oportunidades uma irrealidade tendo em vista as barreiras que perpetuam as
desigualdades no ambiente escolar, profissional e político.
Os dados estatísticos brasileiros apontam que a raça e a cor são relevantes
na produção de desigualdade no país quanto à escolaridade, salários, diferenças de
rendimentos e cargo ocupados. Quanto ao acesso à educação, as diferenças também
se acentuam quanto ao analfabetismo, tempo de permanência na educação básica e
acesso ao ensino superior. Os dados revelam que os indígenas tem a maior taxa de
analfabetismo no Brasil.
A população negra e jovem tem menos acesso ao ensino superior que os
brancos ainda que as ações afirmativas e o Programa Universidade para Todos
(PROUNI) tenham contribuído muito na redução da desigualdade (CHARÃO, 2014).
As pesquisas que abordam a raça e a cor revelam desigualdades no
sistema educacional e servem de suporte para o pleito de políticas públicas e contra
posicionamentos que dizem não existir discriminação no Brasil.
A educação deve ser mais um mecanismo de combate ao racismo na
sociedade brasileira e, para isso precisa promover em seu currículo a educação para
a diversidade.
O preconceito racial gera estigmas e estabelece uma visão negativa e má
de todas as associações com as pessoas e a cultura negra, suas formas de ser, existir
e significar no mundo. “As elaborações preconceituosas [...] são reproduzidas dentro
do espaço escolar, local onde paradoxalmente se atribui, na atualidade, a
responsabilidade pela promoção de valores de respeito pelas diversidades”
(PEREIRA, 2014, p. VI).
Por isso, a partir de 1995, o Movimento Negro lutou por mudanças, e
algumas ações foram tomadas pelo governo federal, “como a revisão de livros
didáticos que apresentavam imagens estereotipadas de negros e indígenas”, além
disso, passaram a ser criadas leis no âmbito municipal prevendo a obrigatoriedade do
ensino da história da África, bem como a criação de cursos formativos sobre o assunto
para os profissionais (PEREIRA, 2014, p. VI).
No ano de 2003, a Lei nº 10.639 foi aprovada pelo governo federal
brasileiro, obrigando a inclusão nos currículos escolares, das escolas públicas e
privadas, de conteúdos referentes à história e à cultura afro-brasileiras. No entanto, a
situação ainda é precária, inúmeras cidades não adotaram conteúdos escolares sobre
a história e da cultura afro-brasileiras e indígenas e muitos docentes não possuem
formação que contemplem as exigências da lei (PEREIRA, 2014).
Dessa forma, conhecer e ensinar as histórias e culturas africanas, afro-
brasileiras e indígenas, aliadas aos componentes curriculares é uma das mais
eficientes formas de combater o preconceito e promover a igualdade. Além do
cumprimento da lei, trata-se de reconstruir a sociedade de forma democrática em sua
extensão educacional, superando o eurocentrismo.
A Lei nª 10.639, de 9 de janeiro de 2003 foi sancionada pelo Presidente da
República Luiz Inácio Lula da Silva e traz artigos como:
Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio,
oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e
Cultura AfroBrasileira.
§ 1ª - O Conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo
incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos
negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da
sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas
áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.
§ 2ª - Os Conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira
serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial
nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras.
Art. 79-B. O calendário escolar incluirá o dia 20 de novembro como
“Dia Nacional da Consciência Negra” (apud SANTOS, 2005).

A educação antirracista sugere abarcar termos como o multiculturalismo e


a diversidade. O conceito de multiculturalismo emerge no cenário globalizador do
século XX, caracterizado pelos intercâmbios culturais e conflitos étnicos, raciais e
culturais que daí insurgiram. Se por um lado surgia a homogeneização cultural, do
outro, as minorias reclamavam sobre a dissolução identitária. Assim, as diásporas
(coloniais ou contemporâneas) promoveram o convívio de diferentes grupos,
mostrando a necessidade de proteger as identidades.
O multiculturalismo limita-se ao cenário político, mas adentra-se na
educação e artes. Emergiram discussões sobre o papel dos Estados na proteção às
minorias, “grupos socialmente oprimidos e que estão submetidos a vários tipos de
violência e exclusão” não limitando-se ao número de sujeitos, pois no caso do Brasil,
os negros são a maioria em números. Relaciona-se então a uma repartição desigual
do poder entre grupos que compõem a sociedade (FIGUEIREDO; ALBUQUERQUE,
2015). Os principais aspectos do multiculturalismo são expressos para a educação
como:
a) crítica aos saberes escolares impregnados de uma visão
etnocêntrica e de estereótipos;
b) pensa a educação a partir de uma ruptura com um saber escolar
que privilegia os grupos dominantes;
c) crítica à prática pedagógica e às orientações curriculares
estruturadas pela ideologia do monoculturalismo, que apresenta e
universaliza apenas uma cultura, a ocidental;
d) ênfase no reconhecimento da diversidade;
e) trabalha as seguintes questões: machismo, racismo, preconceitos,
discriminações, entre outros;
f) procura reorganizar o currículo e as práticas pedagógicas para tratar
a diversidade (FIGUEIREDO; ALBUQUERQUE, 2015, p. 120)

A partir desse breve panorama é possível compreender a conotação


política do multiculturalismo. No Brasil, a abordagem multicultural na educação
ocorreu por meio de pressão internacional por políticas de combate ao racismo. Nesse
contexto surgiram os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) com proposta
curricular refletida a partir do multiculturalismo e da redemocratização na década de
1990.
Os PCNs abordaram as diferenças e a pluralidade cultural, bem como para
a coexistência pacífica e democrática dos grupos sociais. Porém, intelectuais e
lideranças negras vislumbraram armadilhas no tema transversal intitulado Pluralidade
Cultural se esse estivesse desconectado do debate sobre os direitos e lutas sociais.
Assim, os movimentos sociais e negros trouxeram ao campo político e acadêmico, “a
proposta de uma Educação Étnico-racial, antirracista e voltada à diversidade cultural.
Essas nomenclaturas passaram a dominar os discursos pedagógicos, sobretudo a
partir da promulgação da Lei 10.639/03” ((FIGUEIREDO; ALBUQUERQUE, 2015,
120).

3 CONCLUSÃO

Neste artigo de revisão buscou-se conhecer e apresentar importantes


conceitos relacionados à educação para as relações étnico-raciais, entendendo que
este é um dos temas transversais mais relevantes na sociedade brasileira ainda
marcada pelos vestígios da escravidão, desigualdade e violência pelo preconceito
racial.
A educação para as relações étnico raciais não envolve somente a questão
dos afrodescendentes e afro-brasileiros, mas de todas os indivíduos que fazem parte
de grupos ditos minoritários, como indígenas e nordestinos.
A lei 10639/2003 trouxe grandes avanços e dezessete anos depois muito
se construiu em consonância com políticas públicas e ações afirmativas que
facilitaram o acesso e a permanência dos negros no itinerário educacional e formativo.
A consolidação dessa lei passa ainda pela necessidade de sua abordagem
em cursos de formação docente e incentivos à realização de projetos integradores
que abordem o tema, entendo que a educação é fundamental na proteção das
identidades e culturas, bem como, na instauração de uma sociedade mais igualitária.

REFERÊNCIAS

CHARÃO, Cristina. O longo combate às desigualdades raciais. IPEA. Instituto de


Pesquisa Econômica Aplicada. Igualdade Racial. Disponível em:
http://www.ipea.gov.br/igualdaderacial/index.php?option=com_content&view=article&
id=711, acesso em 11 de novembro de 2014.

FIGUEIREDO, Janaina de, ALBUQUERQUE, José Lindomar C. EDUCAÇAO, RACISMO E


ANTIRRACISMO. São Paulo: UNIFESP, 2015.

MUNANGA, Kabengele. Uma abordagem conceitual das noções de raça, racismo,


identidade e etnia. 2003. Disponível em: https://www.geledes.org.br/wp-
content/uploads/2014/04/Uma-abordagem-conceitual-das-nocoes-de-raca-racismo-
dentidade-e-etnia.pdf. Acesso em 18 de ago. 2020.
PEREIRA, Amilcar Araujo (Org.). Educação das relações étnico-raciais no Brasil:
trabalhando com histórias e culturas africanas e afro-brasileiras nas salas de aula.
Brasília: Fundação Vale, 2014.

SANTOS, Sales Augusto dos. A LEI Nº 10.639/03 COMO FRUTO DA LUTA ANTI-RACISTA
DO MOVIMENTO NEGRO. In: SECAD Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e
Diversidade (orgs.) Educação anti-racista: caminhos abertos pela Lei Federal nº 10.639/03.
Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e
Diversidade, 2005.

TELLES, Edward. Racismo à brasileira: uma perspectiva sociológica. Tradução Ana


Arruda Callado, Nadjeda Rodrigues Marques e Camila Olsen. Rio de Janeiro:
RelumeDumará. 2003.