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LICENCIATURA PARA GRADUADOS / R2

EM ARTES VISUAIS

FRANCIELE MENEGUCCI

Educação Prisional: Jovens em Privação da Liberdade

OCAUÇU, SETEMBRO DE 2020


FRANCIELE MENEGUCCI

Educação Prisional: Jovens em Privação da Liberdade

Trabalho de Educação Prisional: Jovens em Privação da


Liberdade, apresentado para obtenção no Curso de Licenciatura da
Uniplena Educacional sob orientação da Professora Coordenadora
Bianca Gomes

OCAUÇU, SETEMBRO DE 2020


SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO 04
2 DESENVOLVIMENTO 04
2.1 INCLUSÃO E RESSOCIALIZAÇÃO
2.2 AÇÕES DE EDUCAÇÃO PRISIONAL E LEGISLAÇÃO 07
CONCLUSÃO 08
REFERÊNCIAS 09
1 INTRODUÇÃO

Neste trabalho de pesquisa elaborou-se uma revisão bibliográfica acerca


da educação prisional de jovens e adultos em privação de liberdade.
A metodologia adotada foi a revisão teórica baseada em livros e artigos
científicos e o objetivo geral é abordar aspectos significativos sobre a inclusão e
ressocialização, passando pelo entendimento do sistema prisional e aspectos
objetivos e subjetivos da vida nas penitenciarias.
Na primeira seção descreveu-se como alguns autores relevantes na área
abordam a educação como forma de inclusão e ressocialização, conjecturando sobre
as especificidades do processo educacional no cárcere e estabelecendo relações com
a Educação de Jovens e Adultos (EJA), que acaba sendo aplicada nesse contexto de
ensino devido às características dos alunos.
Na segunda seção abordou-se em algumas iniciativas nacionais e
internacionais sobre educação prisional e apresentou-se as legislações brasileiras que
resguardam o direito à educação.
Ao final, conclui-se que educar na prisão é tão complexo a própria
existência desses espaços na sociedade e que apenas com o fortalecimento conjunto
de políticas públicas em educação, economia, trabalho e renda pode-se mudar o
cenário desolador da população carcerária.

2 DESENVOLVIMENTO

2.2 INCLUSÃO E RESSOCIALIZAÇÃO

O espaço prisional pode ser objeto de muitas reflexões que permeiam o


direito e a educação. Educar indivíduos em privação de liberdade pressupõem
contradições no próprio sistema, visto que, educar indica transformar, ao passo que a
cultura das prisões visa a adaptação do sujeito à vida em cárcere. Questiona-se então
como educar de forma libertadora num espaço onde Onofre (2015, p. 241) descreve
que “isola-se para (re)socializar, pune-se para reeducar”.
Onofre (2015, p. 241) cita Foucault (2009, p. 218), ao descrever a
ineficiência das prisões e o dilema social que não tem perspectivas de outros sistemas
“[...] conhece-se todos os inconvenientes da prisão, e sabe-se que é perigosa, quando
não inútil. E, entretanto, não ‘vemos’ o que pôr em seu lugar. Ela é a detestável
solução, de que não se pode abrir mão [...]”.
A ação criminosa não permite a projeção de sociedades sem prisões, as
pessoas comentem crimes mais ou menos violentos e a sociedade preocupa-se em
isolá-los e em tentativas de recuperação. É neste sentido que Cunha (2010) escreve
que a sociedade não é apta a resolver o causa as ações criminosas como a miséria,
a falta de educação, empregos e vida digna. Tem-se nas prisões brasileiras mais um
mecanismo de desumanização, que abafa qualquer intenção ressocializadora. Parte
significativa dos sujeitos encarcerados tem histórias de vida marcadas pela violência
e miséria.
Uma reflexão importante aos educadores e pedagogos é justamente
pensar a educação neste contexto e qual seria o modelo mais assertivo e significativo
para os reclusos? A isso, Ireland (2011) apud Onofre (2015) escreve que um modelo
unificado não é ideal, visto as diferenças locais e culturais.
A educação prisional ocorre no contexto da Educação de Jovens e Adultos,
assim deve ser pensada para além do tempo e do espaço das prisões, considerando
as perspectivas futuras dos sujeitos. Assim como em qualquer espaço de educação,
é necessário considerar as experiências, conhecimentos e expectativas, no foco das
ações educativas.
Sendo o processo de educação contínuo, é preciso repensar o significado
dado à (re)educação do aprisionado. Trata-se de um processo de educação que se
modifica em sua natureza, em sua forma, mas que continua, sempre, processo
educativo. Apesar das ações passadas serem a causa do estado de encarceramento,
não é possível e nem indicado que elas não sejam contextualizadas ou que devam
ser esquecidas pois, são parte do indivíduo e constituem sua história de vida. Para
muitas destas pessoas é preciso ressignificar o papel da educação, visto que em suas
experiências pregressas a trajetória escolar não foi prazerosa, saudável e não
promoveu bem-estar. Assim, não se pode mimetizar um cenário que não funcionou
anteriormente.
Trata-se então de elaborações que possam “[...] motivar essas pessoas a
ponto de ver na educação uma possibilidade de emancipação ainda na condição de
encarceradas [...]”. (PEREIRA, 2011, p. 45). Ao mesmo tempo, em que não é função
exclusiva da educação a ressocialização, pois este papel cabe ao sistema prisional,
sendo assim, a educação é uma das proposições, mas só gerará impactos positivos
se associadas a uma série de outras políticas e programas.
A educação, principalmente a de jovens e adultos, faz uso das experiências
anteriores dos alunos, suas preferências e conhecimentos num processo de produção
de sentido a partir das vivências em sala e ressignificação de saberes. Quanto aos
conteúdos, apesar de não existir um modelo singular, é fato que os conhecimentos
devem propiciar aplicação e emancipação, sem renunciar às subjetividades. Não
numa perspectiva de simplificação, mas de unicidade com as realidades ali
encontradas.
No próprio contexto prisional, ainda serão encontradas “minorias nas
minorias” quando se depara com a realidade indígenas, negros, homossexuais e
transexuais. A educação deve colaborar na construção e reconstrução desses
sujeitos, fomentando a elaboração de projetos e narrativas pessoais.
Arroyo (2011) explica que ao falar das perdas, arrependimentos, fúria e
outros sentimentos, abre-se um espaço de produzir novas perspectivas de futuro. São
importantes também as proposições de currículos adaptáveis que possam incluir as
diferenças no próprio sistema.
Onofre (2015) sugere que,

Transportar para o interior das escolas das unidades prisionais


conhecimentos construídos por e para homens livres é um caminho
que nos mantém em nossa zona de conforto. Este conhecimento pode
e deve ser levado, mas em dimensão diferente – em um processo de
busca da temática significativa para eles. Nesse sentido, sugerimos
uma EJA em prisões pautada nos ideais de educação popular e que
tenha o homem e a vida como centros do processo educativo, em que
o aprender a ler, a escrever e interpretar perpassem esse movimento
de (re)construção da cidadania e da dignidade humana (ONOFRE,
2015, p. 252).

Dessa forma, os educadores em contextos prisionais precisam transpor a


dupla exclusão, da sociedade e do sistema educacional, pois, dados do Conselho
Nacional de Justiça apontam que “dos 726,7 mil presos em todo o país, 70% não
concluíram o Ensino Fundamental, 92% não terminaram o Ensino Médio, 8% são
analfabetos e menos de 1% ingressou ou tem diploma do Ensino Superior”. Além
disso, nem 13 % dos reclusos estão inseridos em ações de educação (CENTRO DE
REFERÊNCIA, 2020, n.p). Tal direito está resguardado na Lei de Diretrizes e Bases
da Educação (LDB).
2.2 EDUCAÇÃO PRISIONAL E LEGISLAÇÃO

O Programa de Escolas Associadas da Organização das Nações Unidas


para a Educação, a Ciência e a Cultura (PEA-Unesco) agrupam duas escolas em
prisões no Brasil, buscando trazer oportunidades de aprendizagem e sociabilidade,
baseadas no sistema EJA, trazendo ainda a abordagem sobre cidadania, direitos
humanos e as variadas nuances de vida desses sujeitos (CENTRO DE REFERÊNCIA,
2020.
A legislação brasileira prevê que a cada doze horas de aula exista a
diminuição de um dia na pena, aplica-se também a leitura de livros, onde, a cada livro
lido e após a execução de uma prova há a diminuição de uma semana de pena
(CENTRO DE REFERÊNCIA, 2020).
Um exemplo é a E.E. Padre André Albert Coopman, localizada em
Palmares, no estado de Pernambuco. Nesta unidade, junto ao presídio Dr. Rorenildo
Da Rocha Leão, há cinco salas de aula, biblioteca e banheiros. Dos 820 detentos,
acumulados em uma prisão projetada para 74, 347 reclusos com 18 a 70 anos estão
matriculados em dez turmas. São executados diversos projetos que abordam, entre
outros “a educação para os direitos humanos, aprendizagem intercultural, com a
valorização das tradições, culinária local, e variações linguísticas complementam o dia
a dia dos educandos” (CENTRO DE REFERÊNCIA, 2020, n.p).
A educação prisional está vinculada ao sistema EJA, que por si só é
marginalizado pelas políticas educacionais, com menor investimento. Muitas vezes a
própria sociedade enxerga no EJA uma regalia a pessoas que não se dedicaram no
tempo correto aos estudos, ainda que essa visão seja de quem teve muitas
oportunidades, isso se acentua quando aplicado aos detentos.
Compreendendo que essas pessoas vivem de forma singular dentro da
rigidez das penitenciarias e que carregam lacunas educacionais, os currículos e
metodologias precisam ser adaptados com o objetivo de atingir a permanência e o
êxito.
Outra questão é a formação dos professores imersos nesses sistemas,
muitas vezes não optaram por este alunado, mas foram levados pelas circunstâncias
profissionais. Neste caso, é necessário que sejam alocados nessas escolas prisionais
aqueles profissionais que possuem interesse e formação para isso. Assim, é preciso
que existam políticas públicas que incentivem os docentes a buscarem formações
continuadas para atuar nesse cenário prisional.
A Lei Nº 7.210, de 11 de julho de 1984 que Institui a Lei de Execução Penal
trata no CAPÍTULO II, Artigo 10, sobre a Assistência, apontando que é dever do
Estado fornecer assistência educacional aos internos com o propósito de diminuía a
criminalidade e propiciar o retorno à sociedade (BRASIL, 1984). A palavra educação
é mencionada treze vezes no documento desta lei. No Artigo 17, são previstos que,

Art. 17. A assistência educacional compreenderá a instrução escolar e


a formação profissional do preso e do internado.
Art. 18. O ensino de 1º grau será obrigatório, integrando-se no sistema
escolar da Unidade Federativa.
Art. 19. O ensino profissional será ministrado em nível de iniciação ou
de aperfeiçoamento técnico.
Parágrafo único. A mulher condenada terá ensino profissional
adequado à sua condição.
Art. 20. As atividades educacionais podem ser objeto de convênio com
entidades públicas ou particulares, que instalem escolas ou ofereçam
cursos especializados.
Art. 21. Em atendimento às condições locais, dotar-se-á cada
estabelecimento de uma biblioteca, para uso de todas as categorias
de reclusos, provida de livros instrutivos, recreativos e didáticos
(BRASIL, 1984, p. 5).

Esta lei é complementada por outras como a Resolução nº 2, de 19 de maio


de 2010, trata das Diretrizes Nacionais para a oferta de educação para jovens e
adultos em situação de privação de liberdade nos estabelecimentos penais e o
Decreto nº 7.626, de 24 de novembro de 2011 institui o Plano Estratégico de Educação
no âmbito do Sistema Prisional.
No quesito legal, existem normas e leis que preveem, garantem e instruem
sobre o direito à educação de indivíduos em unidades prisionais, no entanto, sendo a
educação um conceito subjetivo e, tradicionalmente, deixado em segundo plano no
país, muitas ações educacionais voltam-se somente a terapia ocupacional para evitar
o ócio dos presídios, sem o compromisso real e consubstanciado com a promoção da
emancipação e formação profissional.

CONCLUSÃO

Os textos e autores abordados nesta pesquisa indicam que educar


indivíduos encarcerados, no contexto das unidades prisionais, passa por aspectos
como os investimentos em políticas públicas sobre educação, trabalho e renda que
possam diminuir a extrema desigualdade e pobreza no Brasil, responsáveis diretos
pelo elevado volume da população carcerária.
Além disso, ao propor a educação prisional resguardada legalmente, é
preciso então pensar um currículo no âmbito da EJA porém adequado à peculiaridade
da vida em reclusão nas prisões. Mais do que em qualquer cenário, nesse a educação
precisa ser contextualizada com a vida e aspirações os sujeitos. Ainda que suas
histórias envolvam perdas e violência, vidas marcadas pelo insucesso escolar, as
histórias de vida e conhecimentos prévios precisam ser contextualizados e
ressignificados.
O currículo deve promover a educação crítica e emancipatória, não apenas
a formação técnica descontextualizada. Assim, a literatura, direitos humanos e
cidadania precisam ser abordados junto ao ensino profissionalizante, preparando para
dos desafios da ressocialização.
Os profissionais envolvidos como professores também precisam ser
escolhidos e alocados a partir de formações continuadas específicas pois devem ser
capazes de trabalhar as subjetividades desses sujeitos. Muitas vezes docentes
despreparados são atribuídos a essas escolas.
É preciso por fim, superar os preconceitos enraizados para que essas vidas
se reconstruam, como previsto na legislação.

REFERÊNCIAS

ARROYO, M. G. O saber de si como direito ao conhecimento. In: ARROYO, M. G.


Currículo, território em disputa. Petrópolis: Vozes, 2011, p. 279-257

CENTRO DE REFERÊNCIA EM EDUCAÇÃO INTEGRAL. A educação prisional no


Brasil. Disponível em: https://educacaointegral.org.br/reportagens/educacao-
prisional/. Acesso em: 19 set. 2020.

CUNHA, E. L. Ressocialização: o desafio da educação no sistema prisional feminino.


Cad. Cedes, Campinas, v. 30, n. 81, p. 157-178, maio-ago. 2010.

FOUCAULT, M. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. 36. ed. Rio de Janeiro:


Vozes, 2009.

IRELAND, T. D. Educação em prisões no Brasil: direito, contradições e desafios. Em


Aberto, Brasília, v. 24, n. 86, p. 19-39, nov. 2011. [Dossiê Educação em prisões,
organizado por IRELAND, T. D.].
BRASIL. Lei nº. 7.210, de julho de 1984. Lei de Execuções Penais – LEP Disponível
em: http://www.dji.com.br/leis-ordinárias. Acesso em: 19 de set, 2020.

ONOFRE, Elenice Maria Cammarosano. Educação escolar para jovens e adultos em


situação de privação de liberdade. Cad. CEDES, Campinas , v. 35, n. 96, p. 239-
255, ago. 2015. Disponível em :
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-
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PEREIRA, A. A educação-pedagogia no cárcere, no contexto da pedagogia social:


definições conceituais e epistemológicas. Revista Educação Popular, Uberlândia,
v.10, p.38-55, jan./dez., 2011.