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Oficina de poesia

carlito azevedo

outubro / 2020
aula 2

9 de outubro de 2020
xin liu – 4 imagens e uma indagação
Quando foi a última vez que você chorou?
Quando foi a última vez que você chorou? Eu chorei ontem de manhã. Uma
colega abandonou nosso projeto de repente. Apesar de ser só uma contrariedade
no trabalho, derramei algumas lágrimas depois de desligar a chamada. Só posso
agradecer por ela não ter notado ao telefone. Lágrima é o fluido sem-vergonha no
escuro. Uma criança chora para sobreviver; Adulto se encharca de fraqueza.

Lágrimas são secreções, sintomas e sinais. Nós choramos de dor ou alegria, amor
ou perda, às vezes por uma cebola. Elas rolam pelas faces, deixando os olhos
vermelhos e trilhas de manchas. Independente das causas, a lágrima é gerada
por três camadas no filme lacrimal:

Lípido, aquoso e mucinas.

Eu tentei entender essas camadas de tristeza, enquanto chorava todos os dias


durante um mês em 2015. Levei frascos de lágrimas para laboratórios e analisei
o que havia dentro. Elas foram secas, queimadas, reagiram a produtos químicos
e adquiriram cores diferentes. Eu não saberia dizer o que era mais cansativo,
colocá-las para fora ou analisá-las por dentro.

Um mês depois, recebi minha receita:

Água: 97,56% Proteína: 7905,9ug / ml PH: 7,62 Glicose: 0 mg / ml


Na +: 151,6 mM K +: 19,5 mM

Misturando adequadamente estes compostos, fiz uma grande jarra de minha


lágrima e uma instalação bombeando a lágrima para fora.
Convidando as pessoas a tocarem nela.

Eu me perguntava, eu sentiria o toque nas minhas faces?

Alguém que visitava a exposição certa vez me perguntou, você está triste?

Imaginei, podemos sentir o mesmo.

Quero convidar você a ganhar uma garrafa da minha lágrima e as regras são simples:

Envie-me um vídeo de 30 segundos de você mesmo chorando em troca de uma


garrafa da lágrima artificial que preparei. Eu tenho trinta garrafas.

Aqui está meu e-mail: tearbottles@voidvision.com

Espero por você.

(Tradução: Catarina Lins)

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fluxos, repetições, velocidades

Anne Boyer
(eua, 1973)

O que parece a cova mas não é


sempre cair num buraco, depois dizer “ok, essa não é sua cova, saia desse
buraco”, sair do buraco que não é a cova, cair num buraco outra vez, dizer “ok,
essa também não é sua cova, saia desse buraco”, sair desse buraco, cair em outro;
às vezes cair num buraco dentro de um buraco, ou muitos buracos dentro de
buracos, sair deles um depois do outro, depois cair de novo, dizer “essa não é
sua cova, saia do buraco”; às vezes ser empurrada, dizer “você não pode me
empurrar para dentro desse buraco, ele não é minha cova”, e sair com a cabeça
erguida, depois cair de novo num buraco sem ninguém empurrar; às vezes cair
num conjunto de buracos cujas estruturas são previsíveis, ideológicas e muito
antigas, cair frequentemente nesse conjunto de buracos estruturais e impessoais;
às vezes cair em buracos junto com outras pessoas, com outras pessoas dizer
“essa não é nossa cova coletiva, saiam desse buraco”, todas juntas saírem do
buraco juntas, mãos e pernas e braços e escadas humanas umas das outras para
sair do buraco que não é a cova coletiva mas que só dá para sair juntas; às vezes
cair por vontade própria num buraco que não é a cova porque na verdade é
mais fácil do que não cair num buraco, mas depois de estar lá dentro, perceber
que não é a cova, acabar saindo do buraco; às vezes cair num buraco e ficar ali
definhando por dias, semanas, meses, anos, porque embora não seja a cova,
mesmo assim é muito difícil sair e você sabe que depois desse buraco só tem
outro e mais outro; às vezes examinar a paisagem de buracos e desejar um
buraco final de alta qualidade; às vezes pensar em quem caiu em buracos que
não são covas mas talvez seria melhor se fossem; às vezes contemplar com anseio
demais o buraco final enquanto tenta evitar os provisórios; às vezes cair e sair
obedientemente, com perfeita bravura, dizer “vejam com que maestria e espírito
eu me levanto de novo do que parece a cova mas não é!”

(Tradução: Rafael Mantovani)

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Não estou escrevendo
Quando não estou escrevendo eu não estou escrevendo um romance chamado 1994
sobre uma jovem
mulher de uma cidade provinciana que tem um emprego em um centro empresarial
recortando e
colando o tempo. Não estou escrevendo um romance chamado Nero sobre a
artista-estrela no espaço. Não estou escrevendo um livro chamado A Melancolia de
Kansas City. Não estou escrevendo a continuação de A Melancolia de Kansas City
chamada Maldoror das Putas. Não estou
escrevendo um livro de filosofia política chamado Questões para Poetas. Não estou
escrevendo memórias escandalosas. Não estou escrevendo um livro de memórias
patético. Não estou
escrevendo memórias sobre poesia ou amor. Não estou escrevendo memórias de
pobreza, cobrança de dívidas ou bancarrota. Não estou escrevendo sobre a vara
de família. Eu não estou escrevendo memórias porque memórias são para os proprietários
e nem estou escrevendo memórias sobre proibições de memórias.

Quando não estou escrevendo memórias eu também não estou escrevendo poesia de
qualquer tipo
nem poemas contemporâneos em prosa ou de outra forma, nem poemas em fragmentos,
nem poemas apertados ou compactos, nem afrouxados ou conversacionais,
nem poemas conceituais, nem poemas virtuosísticos empregando muitos tipos diferentes
de dispositivos eufônicos, nem poemas com epifanias e nem
poemas sem epifanias, nem poemas documentais sobre os últimos momentos políticos,
nem poemas carregados de alusões à teoria crítica e música popular.

Eu não estou escrevendo “Estação Antocha” por Anne Boyer e certamente


não estou escrevendo “Nadja” por Anne Boyer, no entanto, gostaria de escrever “Dívida”
por Anne Boyer, no entanto, eu também não estou escrevendo “A Ideologia Alemã” por
Anne Boyer e nem escrevendo um roteiro chamado “Espartaquistas”.

Não estou escrevendo considerações a meu respeito mais miseráveis que as de Rousseau.
Não estou escrevendo considerações mais inocentes que as de Blake.

Não estou escrevendo poesia épica apesar de gostar do que Milton disse sobre poetas líricos
beberem vinho enquanto poetas épicos devessem beber água em uma tigela de madeira.
Eu gostaria de beber vinho em uma tigela de madeira, ou beber água
direto de uma garrafa vazia de vinho.

Eu não estou escrevendo um livro sobre compras, o que é uma mulher fazendo compras.
Eu não estou escrevendo relatos de sonhos meus ou de qualquer outra pessoa.
Eu não estou escrevendo reconstituições históricas de nenhuma literatura duracional.

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Eu não estou escrevendo coisa alguma que alguém me tenha pedido ou que esteja
esperando,
nem um ensaio poético ou qualquer tipo de ensaio, nem uma resposta de mesa redonda,
nem respostas de entrevistas, nem escrevendo motes para que escritores mais jovens
desenvolvam,
nem meus pensamentos sobre crítica literária ou canções populares.

Eu não estou escrevendo uma nova constituição para a república de nenhuma história.
Eu não estou escrevendo um testamento ou um boletim médico.

Não estou escrevendo posts no Facebook. Não estou escrevendo notas de agradecimento
ou de desculpas.
Não estou escrevendo anais de conferência. Não estou escrevendo
resenhas de livros. Não estou escrevendo sinopses.

Eu não estou escrevendo sobre arte contemporânea. Eu não estou escrevendo relatos das
minhas viagens. Eu não estou escrevendo resenhas para a “The New Inquiry” e nem
artigos para a “Triple Canopy” e nem escrevendo para a “Fence”. Não estou
escrevendo anotações diárias das minhas leituras, atividades e ideias. Não estou
escrevendo ficções científicas sobre o problema da ideia de autonomia
na arte e nem ficções científicas problematizando uma sociedade
com apenas uma lei que é o consentimento. Eu não estou escrevendo histórias baseadas

nas ideias de histórias não escritas por Nathaniel Hawthorne. Não estou escrevendo perfis
para sites de relacionamento. Não estou escrevendo comunicados anônimos. Não estou
escrevendo
livros didáticos.

Eu não estou escrevendo a história desses tempos ou dos tempos passados ou de tempo
futuro algum
e nem mesmo a história dessas visões que estão comigo os dias todos
e as noites todas.

(Tradução: Isabella Martino)

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Gordon Lish
(eua, 1934)

Eu disse, “Mas foi agora mesmo que passou”. Eu disse, “Foi agora mesmo, não faz
nem um minuto que passou”. Eu disse, “Espera aí, você não pode me dizer o que foi?”

Ela disse, “Não há ninguém aqui que possa fazer isso agora”. Ela disse, “Você sabe
que horas são agora?” Ela disse, “Eu sinto muito, mas só temos a turma da noite
aqui, só temos a turma da noite agora”.

Eu disse, “Nós ficamos sem o som. Nós tivemos que ficar sem o som”; Eu disse,
“Com toda a franqueza, qual é o problema que isso pode causar, afinal de contas?”

Ela disse, “Certo”. Ela disse, “Mas francamente”. Ela disse, “Todos nós gostaríamos
de poder ajudá-lo – mas honestamente, eu honestamente francamente sinto muito, a
resposta vai ter de ser esta mesma, vai ter de ser mesmo não”.

Eu disse, “Não”. Eu disse, “Não”. Eu disse, “Nós estávamos aqui arrumando, minha
mulher e eu estávamos aqui arrumando a bagagem”. Eu disse, “Amanhã”. Eu disse,
“A partir de amanhã, nosso filho começa a acampar”. Eu disse, “Você entende o que
eu quero dizer quando eu digo que o menino vai ter de levantar de manhã cedo para
acampar: Por isso o volume”, eu disse, “você não entende o que eu quero dizer?” Eu
disse, “Ele está dormindo, o menino está dormindo, e a mãe dele e eu tivemos que
passar a noite inteira arrumando as coisas, por isso é que o som, foi por isso que
tivemos de deixá-lo bem baixo”. Eu disse, “vem cá”. Eu disse, “Dê uma olhada aí e
pergunte a alguém – seja legal, vamos”.

Ela disse, “Eu sinto muito, senhor – isto é uma coisa que eu lhe digo que não se pode
mesmo fazer”.

Eu disse, “Nós só estávamos com a imagem”. Eu disse, “Pergunte”. Eu disse, “Você


não pode perguntar?” Eu disse, “O que foi aquilo?”

Ela disse, “É impossível. Não há ninguém que possa responder agora. Só temos a
turma da noite agora. O que o senhor vai ter que fazer é ligar de novo quando o
pessoal autorizado voltar”.

Eu disse, “Está certo, mas eu não acho que você me entendeu ainda. Eu não pude
acreditar. Como é que eles podem mostrar uma coisa dessas, pessoas fazendo uma
coisa dessas? Será que você mesma, que você mesma não viu? Foi tão inacreditável.
Eu estou lhe pedindo, você tem que fazer isso por mim, você tem que encontrar
alguém aí e perguntar. Porque esse é o único jeito no mundo que eu tenho de saber

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o que era aquilo, eu não podia ouvir o que era aquilo. Como é que eu posso dormir
depois de uma coisa dessas? Você acha que as pessoas podem dormir depois de uma
coisa dessas? Ah, espere aí, você deve ter ouvido, eles devem ter falado. Alguém aí
deve ter ouvido o que eles falaram. Um de seus apresentadores, provavelmente, ou
que tal um engenheiro? Eu disse, “Tudo o que eu estou realmente lhe pedindo é que
faça alguma coisa por favor, por favor pergunte”.

Ela disse, “Realmente está fora do meu alcance. O senhor acha mesmo que há
alguém aqui que possa fazer isso pelo senhor? Não há ninguém aqui que possa fazer
isso pelo senhor. É uma dessas coisas que a essa hora é quase toda automática, é
quase tudo na base do teipe. Tudo o que o senhor pode fazer é ligar de novo. Ligue
de novo pela manhã, eles vão ajudá-lo, basta dizer para eles de novo pela manhã o
que foi que o senhor diz que viu”.

Eu disse, “Fique na linha mais um pouco, não desligue agora, só mais um pouco.
Escute só um segundo – é sério, por favor. Você tem que levar isso em consideração,
eu vou ter que descobrir o que foi. Você já levou em consideração que foi agora
mesmo, que foi agora não faz nem um instante? Seja legal, camarada – por favor,
pergunte a alguém que provavelmente ouviu. Você tem certeza de que sabe do que é
que eu estou falando? Das notícias de agora, foi apenas há um instante e no minuto
seguinte logo depois que eu vi, eu peguei logo o telefone, logo que eu vi”. Eu disse,
“Eu estou lhe pedindo, eu estou realmente lhe pedindo, eu vou ter que ficar andando
pra lá e pra cá a noite inteira se ninguém me ajudar a descobrir o que foi aquilo”.

Ela disse, “Não há nada que possa ser feito a uma hora dessas. O senhor vai ter que
ligar de novo. Ligue logo às nove. Vai ter gente aqui às nove. De agora até lá não dá
nem mesmo seis horas.”

Eu disse, “Mesmo assim, mesmo assim”. Eu disse, “E se uma criança estivesse vendo
aquilo? Ninguém parou antes para avaliar o que é que era? Vocês aí nunca olham?
Ninguém se importa em perder tempo com isso? Eu disse, “Não me diga que essas
coisas nunca são conferidas antes que vocês aí toquem pra frente e botem no ar”.

Ela disse, “Era só uma reportagem, senhor. Eram só as notícias”.

Eu disse, “Você não está entendendo ainda – sobre o som, sobre o som, meu filho
passou a noite inteira a mil de tão excitado que estava porque vai acampar amanhã.
Dá para ver porque ele não podia pegar no sono? Este é o motivo pelo qual ele não
podia pegar no sono. O menino não conseguia mesmo pegar no sono, e aí ele pegou
no sono, mas nós tivemos que ficar acordados até arrumar todas as coisas dele, e
foi por isso que minha mulher e eu tivemos que deixar o som baixo, porque ele
precisava dormir e descansar bastante para a viagem até o acampamento, mas ainda
ficamos acordados até altas horas arrumando as coisas dele, ajeitando e ajeitando

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a sacola, e foi aí que aconteceu quando eu estava examinando a sacola, foi aí que
aconteceu, eu sabia que estava na hora do noticiário, e então eu dei uma olhada”. Eu
disse, “Realmente, não é lá grande coisa, não vai matar você, não vai matar ninguém
– porque eu lhe juro de coração que eu não podia acreditar naquilo que eu estava
vendo” Eu disse, “Faça uma única exceção, e me diga o que foi aquilo”.

Ela disse, “Eu já disse, era só uma reportagem no meio do noticiário. Uma coisa na
prisão – alguma coisa numa prisão – eram só alguns prisioneiros soltos numa prisão
em algum lugar, alguma coisa sobre reféns numa prisão em algum lugar, algum tipo
de problema numa prisão em algum lugar”.

Eu disse, “Onde? Qual foi o problema nessa prisão? Em qual prisão, onde?”

“Ah”, ela disse, “Onde?”, ela disse. “Então o senhor só quer saber onde”, ela disse.

Eu disse, “Sim – é isso – eu quero saber onde. É isso mesmo”, eu disse, “me diga
onde era a prisão”.

“Peru”, ela disse. Ela disse, “Eles disseram Peru”.

(Tradução: Duda Machado)

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Gonzalo Rojas
(Chile, 1917-2011)

Adeus a holderlin
Já não se diz oh rosa, nem
somente rosa a não ser com vergonha: vergonha
de que? De exagerar
umas pétalas, a
beleza de umas pétalas?

Serpente se diz em todas as línguas, isso


sim se diz, serpente
para traduzir mariposa porque também a
frágil está proscrita
do paraíso. Computador
se diz com fartura nas festas, computador
por pensamento.

Lira? o que será


lira? houve
alguma vez algo parecido
com uma lira? uma garota
de cinco cordas por exemplo ruiva, alta, ébria, levíssima,
possessa da beleza cuja
transparência dançava?

Que canto nem canto, agora se exige outra


beleza: menos alucinação
e mais droga, muito mais droga. Que história é essa de
acentuar o E de Érato, ou de Perséfone? Aqui se trata
de outro quartzo mais coerente sem
farsa fáustica, nem
Coro das Mães, acabou-se
o coro, o ditirambo, o célebre
êxtase, o Outro, com
Maldoror e tudo, o sedoso e
voluptuoso do polvo, não há
epifania além do orgasmo.

Tampouco é possível nomear as estrelas, esvaziadas


como foram de seu fulgor, mortas,
errantes, já sem enigma,

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decifradas até às vísceras pelos
instrumentos que voam de galáxia em
galáxia.

Nem é tão fácil ler na fumaça o


Desconhecido; não há Desconhecido. Abriram a
tampa do prodígio do
cérebro, nada havia senão um pouco
de pestilência no coágulo do
Gênesis alojado ali. Voou o esperma
do assombro.

(Tradução: Carlito Azevedo)

Desocupado leitor
Devo informá-lo que ultimamente tudo é ferida: a moça
é ferida, o cheiro
de sua formosura é ferida, as grandes aves negras, a imediatez
do real e do irreal tramados no fulgor de um mesmo espelho
gemedor é ferida, o sete, o três, tudo, qualquer desses
números da dança é
ferida, a barca
do encantamento com Maimônides ao timão é ferida, aquele
dezembro 20 em que me cortaram de minha mãe é ferida, o sol
é ferida, Nosso Senhor
sentado ali entre os mendigos com essa túnica irreconhecível pelo cautério da
psicanálise é
ferida, o
Quixote
a seco é ferida, o vendaval
aberto do Golfo contra a rocha alta é
ferida, serpente
perfurante do Princípio, mar
e mais mar de um lado a outro, Kierkegaard e
mais Kierkegaard, broca
e como consequência ferida; a
prenhez como prenhez na preciosidade da sua taça é
ferida, o ócio
do velho rio intacto onde dormem imóveis os mesmos peixes
velocíssimos é
ferida, a Poesia
gravada a fogo nos microssulcos do meu cérebro de menino é ferida, o vazio
de 1.67 exato em metros de rei é ferida, o êxtase

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de estar aqui falando sozinho no belíssimo deste pensamento de
neve é
ferida, a evaporação
da data de mármore com o pai lá dentro
debaixo dos cravos é
ferida, o carrossel
borrado que flui e flui como outro rio de pó e
outras
máscaras
que vi em Pequim dependurada na velha rua de Cha-Ta-lá
cuja identidade comercial de 2.500 anos de droga e ataúdes ridentes
não se discute, é
ferida; a cama enfim
que comprei lá, com dois espelhos para navegar, é ferida
a
perversão
da palavra ninguém que sopra das galáxias é ferida, o Mundo
antes e depois dos Urais é
ferida, a fileira
de linhas sem outra coisa além desta visão
sem ressurreição é ferida. Cumpre
então informá-lo que ultimamente tudo é ferida.

(Tradução: Eric Nepomuceno)

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interregno:

Entrevistador: A arte é livre no capitalismo atual?


Didi-Huberman: Hoje, o artista se tornou a própria figura da liberdade.
De uma certa maneira, é ainda mais livre que o patrão. Não tem horários
marcados, faz o que quer. Falo, evidentemente, de um artista reconhecido.
Ele chega num museu, diz que quer uma parede vermelha e se manda
imediatamente pintar. É uma figura de liberdade e de autoridade, mas no
interior do funcionamento capitalista, e aí a coisa começa a se complicar.
Pasolini fazia uma reflexão a Andy Warhol: “Você foi tão longe na vanguarda
que entrou no território do seu inimigo. Esqueceu a linha de conflito. O que
significa sua liberdade para você, o artista Warhol, enquanto tudo ao seu
redor está privado de liberdade? Para que serve ser o único livre? Não serve
para nada”. Portanto, a liberdade e a autoridade do artista hoje, infelizmente,
são fetiches, coisas que escondem a ausência de liberdade de todos os outros.
Isso não está certo. Felizmente, acontece de artistas se darem conta disso e
procurarem estratégias para falar da falta de liberdade dos demais.

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Duas cartas de Rosa Luxemburgo a Sophie Liebknecht

Breslau, antes de 24 de dezembro de 1917.

Sonitchka, meu passarinho, fiquei tão contente com a sua carta! Queria
responder imediatamente mas tinha muito o que fazer, e precisava de grande
concentração, por isso não pude dar-me a esse luxo. Então preferi esperar uma
oportunidade, pois é muito melhor poder tagarelar com você à vontade.

[...]

É o meu terceiro Natal no xadrez, mas não considere isso tragicamente. Estou
calma e alegre como sempre.

[...]

Ontem fiquei muito tempo acordada – agora não consigo dormir antes da uma,
mas preciso ir para cama às 10 porque a luz é apagada –, e então no escuro
sonho com diversas coisas. Ontem então pensava: como é estranho eu viver
permanentemente numa alegre embriaguez, sem nenhuma razão particular.
Assim, por exemplo, estou aqui deitada nesta cela escura, num colchão duro
como pedra, enquanto à minha volta, no edifício, reina a habitual paz de
cemitério; parece que se está no túmulo. Através da janela desenha-se no
teto o reflexo do bico de gás ardendo a noite inteira em frente da prisão. De
tempo em tempos ouve-se o ruído surdo de um trem que passa ao longe, ou
então, bem perto, debaixo das minhas janelas, o pigarro da sentinela que, com
suas botas pesadas, dá alguns passos lentos para desentorpecer as pernas. A
areia estala tão desesperadamente sob esses passos que todo vazio e a falta de
perspectivas da existência ressoam na noite úmida e sombria. E aqui estou
deitada, quieta, sozinha, enrolada nos véus negros das trevas, do tédio, da falta
de liberdade, do inverno – e, apesar disso, meu coração bate com uma alegria
interior desconhecida, incompreensível, como se debaixo de um sol radiante
estivesse atravessando um prado em flor. No escuro, sorrio à vida, como seu
eu conhecesse algum segredo mágico que pune todo mal e as tristes mentiras,
transformando-as em luz intensa e felicidade. E, ao mesmo tempo, procuro uma
razão para essa alegria, não encontro nada, e tenho que sorrir novamente – de
mim mesma. Creio que o segredo não é outro senão a própria vida; a profunda
escuridão noturna é bela e suave como veludo, basta saber olhar. No estalar
da areia úmida sob os passos lentos e pesados da sentinela canta também uma
bela, uma pequena canção da vida – basta apenas saber ouvir. Nesses momentos
penso em você. Gostaria tanto de passar-lhe essa chave mágica para que você
percebesse sempre, em todas as situações, o que há de belo e alegre na vida,
para que também você viva na embriaguez, como que caminhando por um
prado cheio de cores. Longe de mim a ideia de contentá-la com ascetismo, com

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alegrias imaginárias. Concedo-lhe todas as verdadeiras alegrias dos sentidos. Só
gostaria de dar-lhe também a minha inesgotável serenidade interior, para não me
preocupar mais com você, para que andasse na vida com um manto de estrelas
protegendo-a de tudo que é mesquinho, banal e angustiante.

Você colheu no parque de Steglitz um lindo buquê de bagos negros e rosa-


violeta. Os bagos negros podem ser de sabugueiro – seus bagos pendem
em cachos pesados e densos entre grandes feixes de folhas pinuladas, você
certamente conhece – ou, mais provavelmente, de alfena: panícula de bagos,
elegantes, graciosas, eretas, e folhinhas verdes, compridas e finas. Os bagos rosa-
violeta, escondidos sob folhas bem pequeninas, podem ser de nespereira anã;
na realidade, eles são vermelhos, mas neste período da estação, já demasiado
maduros e começando a apodrecer, têm frequentemente uma aparência violeta
avermelhada; as folhinhas parecem-se com as do mirto, pequenas, afiladas na
ponta, o lado de cima verde escuro, semelhante ao couro, o de baixo rugoso.

Soniucha, você conhece o poema de Platen, “Verhängnisvolle Gabel” [Garfo


fatal]? Você poderia enviá-lo ou trazê-lo? Karl mencionou uma vez que tinha lido
em casa. Os poemas de George são bonitos; agora sei de onde vem o verso “e sob
o murmúrio do trigo erubescente” [Umd unterm Rauschen rötlichen Getreides...]
que você sempre recitava quando íamos passear no campo. Você poderia copiar
para mim, quando for possível, o novo “Amadis”? Gosto tanto desse poema –
naturalmente graças ao lied de Hugo Wolf –, mas não o tenho aqui. Você continua
lendo a Lenda de Lessing? Retomei a História do materialismo, de Lange, que
sempre me estimula e restaura. Gostaria tanto que você a lesse um dia desses.

Ah! Sonitchka, passei aqui por uma dor violenta. No pátio onde passeio chegam
muitas vezes carroças do exército, abarrotadas de sacos ou túnicas velhas e
camisas de soldados, muitas vezes manchadas de sangue…; são descarregadas,
distribuídas pelas celas, consertadas, novamente postas nas carroças para
serem entregues ao exército. Outro dia, chegou uma dessas carroças, puxada
não por cavalos, mas por búfalos. Era a primeira vez que via esses animais de
perto. São mais fortes e maiores que os nossos bois, têm a cabeça chata, chifres
curvos e baixos, e uma cabeça totalmente negra, de grandes olhos meigos, que
lembra a dos nossos carneiros. Vêm da Romênia, são um troféu de guerra...
os soldados que conduziam a carroça diziam ser muito difícil capturar esses
animais selvagens, e ainda mais difícil utilizá-los para carregar fardos, pois
estavam acostumados à liberdade. Foram terrivelmente maltratados até
compreenderem que perderam a guerra e que também para eles vale a expressão
“vae victis” [ai dos vencidos]... Só em Breslau deve haver uma centena desses
animais; acostumados que estavam às ricas pastagens da Romênia recebem
ali uma ração parca, miserável. Trabalham sem descanso puxando todo tipo
de carga e com isso não demoram a morrer. Há alguns dias então uma dessas
carroças cheia de sacos entrou no pátio. A carga era tão alta que os búfalos não

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conseguiam transpor a soleira do portão. O soldado que os acompanhava, um
tipo brutal, pôs-se a bater-lhes de tal maneira com o grosso cabo do chicote
que a vigia da prisão, indignada, perguntou-lhe se não tinha pena dos animais.
“Ninguém tem pena de nós, homens”, respondeu com um sorriso mau e pôs-
se a bater ainda com mais força… Os animais deram finalmente um puxão e
conseguiram transpor o obstáculo, mas um deles sangrava… Sonitchka, a pele
do búfalo é proverbialmente espessa e resistente, e ela foi dilacerada. Durante o
descarregamento, os animais permaneciam imóveis, esgotados, e um deles, o que
sangrava, olhava em frente e tinha, na cara escura e nos olhos negros e meigos,
uma expressão de uma criança em prantos. Era exatamente a expressão de uma
criança que foi severamente punida e que não sabe por qual motivo, por que, não
sabe como escapar ao sofrimento e a essa força brutal… eu estava diante dele, o
animal me olhava, as lágrimas saltaram-me dos olhos – eram as suas lágrimas.
Ninguém pode sofrer mais por um irmão querido do que eu sofri na minha
impotência com essa dor silenciosa. Como estavam longe, perdidas, inacessíveis,
as pastagens da Romênia, essas pastagens verdes suculentas e livres! Como
tudo lá era diferente, o brilho do Sol, o sopro do vento, como eram diferentes
os belos cantos dos pássaros ou o melodioso chamado do pastor. E aqui – esta
cidade estrangeira, horrível, o estábulo sombrio, o feno mofado, repugnante,
misturado com a palha apodrecida, os homens desconhecidos, assustadores, e –
as pancadas, o sangue que corre da ferida aberta… Oh! meu pobre búfalo, meu
pobre irmão querido, aqui estamos os dois tão impotentes e mudos, mas somos
só um na dor, na impotência, na saudade. Entretanto os prisioneiros agitavam-se
em volta do carro, descarregavam os pesados sacos e arrastavam-nos para dentro;
já o soldado enfiara as mãos nos bolsos das calças e percorrendo o pátio com
grandes passos, ria e assobiava baixinho uma canção da moda. Diante de mim a
guerra desfilava em todo o seu esplendor.

Escreva logo.

Abraços, Sonitchka,

Sua R

Minha caríssima pequena Soniúcha!

Sua querida carta chegou ontem pontualmente no Primeiro de Maio. Ela e


o sol, que brilha há dois dias, fizeram tão bem à minha alma ferida. Pois nos
últimos dias meu coração doeu tanto, mas agora vai ficar bom outra vez. Se o
sol continuasse assim! Agora fico quase o dia todo lá fora, passei em torno dos
arbustos, percorro todos os cantinhos do meu jardinzinho e encontro todo tipo

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de tesouros. Pois então, ouça: ontem, Primeiro de Maio, veio ao meu encontro –
adivinhe quem? – uma radiante borboleta-limão novinha! Fiquei tão feliz que meu
coração estremeceu todo. Ela pousou-me na manga – eu uso um casquinho lilás,
e talvez a cor a atraia -, então borboleteou para o alto e se foi por cima do muro.
À tarde encontrei três bonitas peninhas diferentes: uma cinza-escuro de uma
pega parda, uma cor de ouro de uma emberiza citrinela e uma cinza-amarelada
de um rouxinol. Aliás, temos aqui muitos rouxinóis, já na manhã do sábado antes
da Páscoa ouvi um, e desde então ele vem todo dia ao meu jardinzinho e pousa
no alto do álamo branco. Guardei as peninhas para a minha pequena coleção em
uma bonita caixinha azul: também tenho nela peninhas que encontrei no pátio na
Barninstrasse – de pombos e galinhas e também uma azul, lindíssima, de um gaio-
comum de Südende. A “coleção” ainda é muito pequena, mas gosto de examiná-la
de vez em quando. Agora já sei a quem a darei de presente.

Mas hoje de manhã descobri uma violeta bem juntinho do muro ao longo do qual
passo a caminho do jardim, uma violeta bem escondida! A única em todo o meu
jardinzinho. Como é mesmo o que diz Goethe?

Ein Veilchen auf der Wiese stand,


Gebückt in sich und unbekann;
Es war ein herziges Veilchen!

Fiquei tão feliz! Estou enviando-a junto com esta carta, e dei nela um leve beijo,
espero que lhe leve meu amor e minha saudação. Será que chega ainda com um
pouco de frescor?...

E hoje à tarde encontrei a primeira vespa! Uma bem grande com um casaquinho
de peles novinho e brilhante e um cinto dourado. Ela zumbia um baixo grave e
também pousou primeiro em meu casaquinho, depois descreveu um grande arco
no alto e foi embora do pátio. – Os brotos das castanheiras estão bem grandes,
rosados e cheios, brilhando de tanto sumo, em algun dias soltarão as folhas que
se parecem tanto com mãozinhas verdes. Você ainda se lembra como, no ano
passado, nós parávamos diante de castanheiras como essas, com folhas novinhas,
e você gritava num desespero engraçado: “Rrosa! (sim, você arrasta os ‘rr’ ainda
mais do que eu), que vamos fazer? Que vamos fazer com tanto encanto?”

E ainda outra descoberta me deixou feliz hoje. Abril passado eu chamei vocês dois


às pressas pelo telefone, talvez você ainda se lembre, para irem comigo às 10 horas
da manhã ao Jardim Botânico ouvir o rouxinol que dava um verdadeiro concerto.
Então nos sentamos nas pedras, calados e escondidos atrás de um espesso arbusto
junto de um fio de água corrente; mas depois do rouxinol ouvimos de repente
um grito lamentoso, monótono, que soava mais ou menos como “gligligligliglic!”.
Eu disse que aquilo soava como algum pássaro do pântano ou da água, e Karl
concordou comigo, mas não pudemos descobrir de modo algum quem era ele.
Imagine que um dia desses ouvi aqui nas redondezas de repente o mesmo grito

21
lamentoso, de manhã bem cedo, e meu coração começou a bater de impaciência,
de finalmente descobrir quem canta assim. Não tive sossego até que hoje descobri:
não é uma ave aquática, e sim o ‘torcicolo’, uma espécie de pica-pau cinzento. Ele é
pouca coisa maior que um pardal, e tem esse nome porque quando se vê em perigo
tenta assustar o inimigo com gestos cômicos e revirando a cabeça. Ele se alimenta
apenas de formigas que junta com sua língua grudenta, feito um tamanduá. Por isso
os espanhóis o chamam de ‘hormiguero’ – o pássaro das formigas. Mörike, aliás,
escreveu um poema cômico muito bonito sobre esse pássaro, que Hugo Wolf também
musicou. Para mim, foi como receber um presente ter descoberto como se chama
o pássaro com a voz lamentosa. Talvez você possa escrever isso ao Karl, seria uma
alegria para ele.

O que estou lendo? Principalmente livros sobre ciências naturais: geografia das
plantas e dos animais. Ontem eu estava justamente lendo sobre as causas do
desaparecimento das aves canoras na Alemanha: é o crescente cultivo racional
dos bosques, dos jardins e da lavoura que lhes destrói pouco a pouco as condições
naturais de nidificação e alimentação: árvores ocas, florestas virgens, matagais,
folhas murchas no chão dos jardins. Doeu-me tanto ler isso. Não pelo que o canto
significa para as pessoas, foi a imagem da silenciosa, incontível decadência dessas
pequenas criaturas indefesas que me provocou tanta dor ao ponto de me fazer
chorar. E me fez lembrar de um livro russo do professor Ziber sobre a decadência
dos pele-vermelhas na América do Norte, que li ainda em Zurique: exatamente
da mesma maneira foram eles expulsos pouco a pouco de sua terra pelos homens
civilizados e entregues a uma decadência muda, cruel. Mas é claro que devo
estar doente para que tudo me abale tão profundamente. Ou então, sabe de uma
coisa? Tenho às vezes a sensação de não ser verdadeiramente um ser humano, e
sim algum pássaro ou outro animal em forma humana malograda; no fundo eu
me sinto muito mais em casa num pedacinho de jardim como aqui ou no campo
entre vespas e a relva do que num congresso do partido. Para você posso dizer
tudo isso sem preocupação: você não vai farejar logo uma traição ao socialismo.
Você sabe que eu, apesar de tudo, espero morrer a postos: numa batalha urbana
ou na penitenciária. Mas o meu eu mais profundo pertence antes aos chapins-
reais que aos “camaradas”.

Abraços,
Sua R

22
Paul Celan

Estás deitado em total escuta


cercado de arbustos, de flocos de neve.

Vai ao Spree, vai depois ao Havel,


vai até os ganchos do açougueiro, vai
às maçãs em suas varetas vermelhas
da Suécia.

Chega a mesa com seus presentes,


E contorna um Éden –

O homem ficou feito uma peneira, a mulher,


a porca, teve que se virar nadando,
por si, por ninguém, por todos –

O canal Landwehr não vai murmurar.


Nada
estanca.

[Agora as informações que nos são passadas por Peter Szondi no ensaio “Éden”,
sobre este poema de Celan:

“Estás deitado em total escuta


cercado de arbustos, de flocos de neve.”

(Szondi informa que no livro “Homenagem a Peter Hutchel”, este poema vinha
acompanhado de uma nota: “Berlim, 22-23/12/1967”.
O que já torna menos obscuros o “estás deitado” e os “flocos de neve”: o poema
foi escrito na noite de 22 para 23 de dezembro, na noite anterior à noite de natal,
e em Berlim, onde normalmente há neve. Szondi informa ainda que nessa
ocasião, a única vez em que Celan esteve em Berlim, o poeta ficou hospedado
na Academia das Artes, em um quarto cujas amplas janelas de vidro davam para
um bosque: “cercado de arbustos, de flocos de neve”.)

“Vai ao Spree, vai depois ao Havel,


vai até os ganchos do açougueiro, vai
às maçãs em suas varetas vermelhas
da Suécia.”

(O Spree e o Havel são dois rios que cruzam Berlim. Quanto aos ‘ganchos do
açougueiro’, Szondi fala que, entre outros lugares, Celan visitou Plötzensee,
prisão em Berlim onde milhares de pessoas foram mortas por guilhotina,

23
machado ou enforcamento, e que de fato tinha ganchos de açougueiros
para prender os corpos. Na página “Plötzensse” da Wikipédia lemos, por
exemplo, que “Em setembro de 1943 foram programadas para um mesmo
dia 300 decapitações. Os carrascos, já sem forças, escorregavam nas poças de
sangue, e encerraram os trabalhos ao fim de 186 execuções. As autoridades
retomaram as 114 restantes no dia seguinte”, quanto às maçãs espetadas em
varetas vermelhas da Suécia, Szondi informa que Celan também visitou a
Feira de Natal, que tinha barracas de todos os países, e viu, na loja da Suécia,
a tradicional natalina coroa de varetas vermelhas onde são espetadas maçãs.
Desnecessário explicar o efeito de choque conseguido entre os corpos
espetados em ganchos sobre um mar de sangue e as maçãs (vermelhas)
espetadas em varetas (vermelhas) na festa de natal.)

“Chega a mesa com seus presentes,


E contorna um Éden – ”
(A mesa de natal com presentes é auto-explicativa. Já o Éden merece de Szondi
não só muitas palavras, como dá título ao seu ensaio. Szondi informa que
como Celan não havia trazido livros e havia lhe pedido algo para ler, deu-lhe
o recém-lançado livro “O assassinato de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht.
Documentos de um crime político”. Hotel Éden é o nome do hotel onde foram
torturados e mortos Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. Conta Szondi que
passou de carro com Celan pelo prédio onde existiu este hotel e mostrou que em
seu lugar há agora um prédio de apartamentos de luxo que se chama “Éden”. A
referência a Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht é mais explícita, mas ao mesmo
tempo cifrada, na estrofe seguinte.)

“O homem ficou feito uma peneira, a mulher,


a porca, teve que se virar nadando,
por si, por ninguém, por todos – ”
(Cito o ensaio de Szondi: “A estrofe faz referência a Karl Liebknecht e Rosa
Luxemburgo – embora seus nomes não apareçam nela – com dois fragmentos de
frases tomados das atas do processo reproduzidas no volume de documentos. A
testemunha Walter Alker, ao ser interrogado, declarou que quando ele próprio
perguntou se o doutor Liebknecht já estava realmente morto, lhe haviam
respondido “que Liebknecht havia ficado cheio de buracos como uma peneira”.
E um dos assassinos, o caçador Runge, relatou que sobre Rosa Luxemburgo se
havia dito: “A velha porca já está nadando”.)

“O canal Landwehr não vai murmurar.


Nada
estanca.”
(Trata-se do canal onde lançaram o corpo de Rosa Luxemburgo.)

24
Susana Thénon
(Argentina, 1935-1991)

onde é a saída?
– desculpe?
– perguntei onde é a saída
– não
não há saída
– mas como se eu entrei?
– claro
lembro de você
e além disso a vejo
mas saída
saída não há
viu?
– mas não pode ser
vou sair por onde entrei
– não
já está muito tarde
desde as dez a entrada está proibida
e além disso o que você quer? que me façam uma lavagem cerebral
por deixar uma pessoa sair
pela entrada?
– escute
deve haver uma maneira de chegar à rua
– já perguntou em informações?
– sim
mas me mandaram vir aqui
– então
e eu estou dizendo que não há saída
– onde é o telefone?
– vai ligar para quem?
– para a polícia
– aqui é a polícia
– mas você está louco? aqui é uma sala
de concertos
– isso até certa hora
depois é a polícia
– e o que vai acontecer comigo?
– depende do delegado de plantão
se for o Loiácono
ele pode deixar barato

25
e em menos de alguns dias você está fora
– mas isso é uma loucura
onde estão as outras pessoas?
– setor de detidos
primeiro subsolo
– por que
estão fazendo
isso?
– vamos tia
não me diga que nunca foi a um concerto

(Tradução: Angélica Freitas)

26
Leslie Kaplan

O amor é redondo
Mas o que é esse sujeito que surge assim correndo, dentro da escuridão, num
estacionamento, cheio de carros, cuidando deles, falando com eles, Desfaz,
dona, ele usa um rabo de cavalo para atar seus longos cabelos louros, usa
um bigode que desaba sobre os lábios, ele pensa que é um viking ou o quê,
tem o rosto meio vermelho, tem traços rudes, cansados, olheiras enormes,
mas ele é bem ágil debaixo de sua jaqueta, ele salta os obstáculos, adora
Bogart, a classe, a elegância e o preto e branco, ele procura um lugar numa
lanchonete, pede um cachorro-quente, uma cerveja e um café, ele ouve o
que lhe diz o cara ao seu lado, o cara ao seu lado se chama Morgan, já ele se
chama Seymour, Seymour Moskowitz, o cara ao seu lado está só, nisso aliás
ele não está só, mas ele é só Morgan, Morgan Morgan, sua mulher morreu e
ele é um pouco vesgo, Você quer que eu cante, que eu recite uns versos?, e ele
o faz, o mundo está cheio de gente comum, era preciso matar toda essa gente
comum, ele cospe, a existência humana é de deixar qualquer um maluco,
e durante todo esse tempo em que não desgrudamos os olhos de cima de
Morgan se pode ver Seymour que o está ouvindo e a questão permanece: o
que é esse sujeito?, finalmente, ele se levanta, sai, deixa para trás Morgan que
conversa agora com a garçonete, minha mulher tinha sardas como você, pelo
corpo todo, ah cai fora, me deixa em paz, e Seymour vai arrumar confusão
em um bar, não demora consegue ser chutado de lá, não é nada difícil, difícil
mesmo é compreender o que é esse sujeito, ele poderia ser insuportável, mas
aí é que está ele não é, ele vai visitar a mãe, ele leva flores enormes para ela,
ela o recebe correndo, ela corre dentro do apartamento igualzinho a como
ele corre no estacionamento, na rua, na vida, ela grita eu te amo, eu preparei
uma carne, você quer comer um pouco, o que são essas flores, são amor, só
isso, no avião rumo à Califórnia ele se senta ao lado de uma mãe terrível
que quer obrigar sua filhinha a comer, e faz ameaças, e diz que é para o seu
bem, Se você não comer você vai ficar feia, é o amor amor amor que faz o
mundo girar, e agora Seymour some de cena mas até agora não há resposta
para a questão, o que é esse sujeito, será que há palavras suficientes, as
palavras certas, para responder, e então Minnie entra em cena, ela também
adora Bogart, ela vai vê-lo com uma amiga um pouco mais velha, ela adora
cinema, mas o cinema engana, são só imagens, a vida não é assim, a vida é
o quê, ninguém sabe, estamos em cheio dentro dela, estamos todo o tempo
e sem trégua em cheio dentro dela, estamos transbordando, como sair da
confusão?, em todo o caso não é necessário se defender, ou fugir, ou evitar,
é mais ou menos isso o que Seymour diz a Minnie quando ele a salva de um
tipo horroroso, que fala o tempo todo, que a afoga em palavras falsas além da
conta, palavras que não são palavras, mentiroso escroto, e Seymour oferece

27
uma carona para Minnie em seu caminhão, mas ela não quer saber de nada,
o que é esse sujeito, ele a persegue, ele buzina, ela tem medo, compreende-
se, mas o que é a vida? é uma porrada, uma violenta bofetada que a derruba
no chão quando ela volta para casa um pouco bêbada da casa de sua amiga,
ah é Jim seu amante ciumento que trai a mulher com ela, Eu te amo, ela não
acredita nisso, a mulher tampouco, a mulher de Jim tenta se matar, sórdido
final da história com Jim, e Seymour salva Minnie outra vez, ele a leva para
tomar sorvete, mais tarde ele a coloca na cama, Dorme, Minnie, você dorme
bem, você dorme incrivelmente bem, quanta ternura, mas a palavra ternura
não serve, a palavra ternura não é suficiente, talvez terna ternura, dócil
doçura, mas aí é muito açucarado, ele é gentil, ele é Seymour Moskowitz,
gentil e obstinado, furioso, mas furioso com o quê, furioso com essa mulher
que diz não o tempo todo, enquanto ele sabe que é sim, sim, sim, sim ao
encontro, sim à vida, primeiro dizer sim, é com o sim que se compreende,
depois, é com o sim que se pode dizer não, sim ao céu estrelado e ao Danúbio
azul, sim a dançar num estacionamento, ela diz: Eu não quero dançar, e ela
dança, em geral é a mulher quem diz sim, Yes, I say yes, mas isso depende,
quando se tem uma mãe baixotinha que fica gritando é fogo, no final a mãe
de Seymour previne a namorada, ele é feio, é uma nulidade, ele trabalha
num estacionamento, a mãe quer guardá-lo só para si, ah o amor, que força é
preciso, foi preciso, para Seymour resistir a esse bloco de amor materno, a esse
rochedo de amor materno, ele fica melhor sem o bigode, ele raspa o bigode
para Minnie, ele bate a cabeça na parede, ele faz pé firme, ele lhe diz que quer
casar com ela, ele se casa com ela, o que é esse sujeito, e essa mulher, que ele
persegue, caça, empurra para a frente, carrega, obriga, força, persuade, quer
absolutamente, quer mais que tudo, à qual ele em resumo se sabe condenado,
essa mulher que ele ama de cara assim que a vê, essa mulher que ele decide
amar e ama, e essa mulher, o que é essa mulher?

(Tradução: Carlito Azevedo)

28
Bernardo Atxaga
(País Basco, 1951)

A morte e as zebras
Nós éramos 157 zebras
a galopar pela planície ressequida,
eu corria atrás das zebras 24, 25 e 26,
à frente da 61 e da 62
e de súbito fomos ultrapassadas com um salto
pela 118 e a 119,
ambas a gritar rio, rio,
e a 25, muito feliz, repetiu rio, rio,
e de súbito a 130 alcançou-nos
a correr e a gritar, muito feliz, rio, rio,
e a 25 deu uma guinada à esquerda
à frente da 24 e da 26
e de súbito eu vi o sol no rio cintilante
cheio de salpicos faiscantes
e a 8 e a 9 passaram por mim
a correr na direção contrária
com as suas bocas cheias de água
e as pernas molhadas e os peitos molhados,
muito felizes, a gritar, vamos, vamos, vamos,
e eu de súbito colidi com a 5 e a 7
que também vinham a correr na direção contrária
mas a gritar crocodilo, crocodilo,
e então a 6 e a 30 e a 14 passaram por nós
muito assustadas, a gritar, crocodilo, crocodilo, vamos, vamos, vamos,
e eu bebi água, bebi água cintilante
cheia de salpicos faiscantes e sol,
crocodilo, crocodilo, gritou a 25, muito assustada,
crocodilo, repeti eu, voltando para trás;
e correndo muito assustada na direção contrária
colidi de súbito com a 149 e a 150 e a 151
que vinham a correr e a gritar, muito felizes, rio, rio,
crocodilos, crocodilos, gritei-lhes eu, muito assustada
com a minha boca cheia de água
e as pernas molhadas e o peito molhado.
Continuei a galopar pela planície ressequida
atrás da 24 e da 26
à frente da 60 e da 61

29
e de súbito vi, de súbito vi um espaço
entre a 24 e a 26, um espaço
e continuei a galopar pela planície ressequida
e de novo vi o espaço, de novo o espaço, entre a 24 e a 26
e de súbito saltei e preenchi o espaço.

Nós éramos 149 zebras


a galopar pela planície ressequida,
e à minha frente estavam a 12, a 13
e a 14, e atrás de mim
a 43 e a 44.

30
1 poema de Zbigniew Herbert

Tentativa de dissolver a mitologia


Os deuses reuniram-se num acampamento nos arredores da cidade. Zeus
fez um de seus costumeiros discursos arrastados e tediosos. Em suma: era
necessário dissolver a organização; já bastava de conspirações ridículas; era
tempo de entrar na sociedade racional e de alguma maneira se ajeitar. Atena
choramingava num canto.

É importante destacar que os últimos rendimentos foram divididos de forma


equânime. Poseidon estava otimista. Bramiu, afoito, que para ele estava tudo
muito bem. A pior situação era a dos guardiões dos rios regulados e florestas
derrubadas por madeireiras. Em segredo, todos contavam com os sonhos,
mas ninguém queria tocar no assunto.

Nenhuma conclusão foi tirada. Hermes se absteve na votação. Atena


choramingava num canto.

Noite alta, voltaram para a cidade, com documentos falsos nos bolsos e um
punhado de moedas de cobre. Quando atravessavam uma ponte, Hermes
jogou-se dentro do rio. Os outros o viram se afogando, mas ninguém tentou
salvá-lo. As opiniões se dividiram quanto à questão de saber se aquilo era um
mau agouro ou, pelo contrário, um bom sinal. Fosse como fosse, era o ponto
de partida para alguma coisa nova, ainda não definida.

(Tradução: Paulo Henriques Britto)

31
oficina
Vitor Barros

sentido — que é sentido — clareia sem esclarecer


[ou: desdiar-se] [ou ainda: quem tem medo do escuro?]

“Wirklich, ich lebe in finsteren Zeiten!”1 (B. Brecht)


“este dia / este perverso dia / que veio depois de ontem” (P. Leminski)

Aos contemporâneos

no início do dia
faltava a luz
era noite teimosa
teimava em não dia-ser

quedou-se assim
este estranho dia
em que a noite, enfim, viu-se
sem ter que a si inverter

1 “Verdade, vivo em tempos sombrios!” — B. Brecht, Os póstumos [Die Nachgeborenen], Trad. A. Vallias.

33
Augusto Britto

las casas, las cartas y los enigmas


subindo as escadinhas do oráculo
uma carta virada para baixo
um mistério deitado no segundo degrau
uma mensagem esperando contato

a carta virada é um coringa


colorido
dois degraus acima há outro
já com rosto exposto
um coringa
esse mais roto

cada um de nós fica com uma carta


e seguimos
um pouco perdidos
procurando nosso destino
em um mapa

você me diz que é difícil se localizar


para quem pulou a etapa de engatinhar
e eu digo que sei me localizar muito bem
se eu tiver o mapa no meu celular

quando chegamos aonde queríamos


tomamos um café
falamos sobre poesia
lemos alguns poemas sobre amor, organização e enigma
e isso faz você lembrar um poema que você escreveu
mas você não lê
lê antes o enigma na minha xícara
o vulcão submarino
a baleia com rabo de dinossauro e chifre de unicórnio
– a borra do café, afinal, é bem bonita

no outro dia reencontro a carta em meu bolso


que louco
é um três de ouros
mas o espanto dura pouco:
tolo de mim
achar que cartas em poemas
serão sempre as mesmas

34
*

No fumódromo
Uma fumaça
Social
Parece não incomodar ninguém
(Parece até deixar alguns mais bonitos)

Aqui em casa
Sentado no tapete
Encostado na parede
Acendo um cigarro
E meu cachorro me odeia

35
Bárbara Mançanares

um cemitério de trens costura as distâncias


de terra e sal.
a essa cicatriz que emerge
chamamos fronteiras.

ainda que eu alimente os peixes com escalas 1: 100.000


e escute impaciente uma voz recalcular trajetos
suas dobraduras me sujeitam.

hasteio meu corpo no silêncio tracejado do seu corpo


coloco meus pés em nascentes, bacias, vegetações rasteiras
minha língua áspera na sua pele vincada
como se por não saber ler mapas
perdesse a saída para o mar.

36
Camila Assad

Translation Server Error in two scenes


CA: CAMILA ASSAD
AC: ANÍBAL CRISTOBO

Take 1

CA: Carlito fez uma leitura daquele diálogo com as demais turmas e foi
engraçado porque recebi mensagens de colegas mulheres dizendo que houve
certo machismo da sua parte em impor suas ideias sobre as minhas.
AC: Oh não, não era isso. Agora vão pensar que eu sou um monstro.
CA: É a questão da edição, a maneira como eu cortei a conversa para dar
destaque apenas ao principal, acaba deslocando do contexto.
AC: Mas você sentiu isso? Que sou um homem europeu heterossexual sendo...
como se diz?...impositor.
CA: Claro que não. Acho que há o olhar viciado de um editor. E lembremos
sempre que um argentino não é um europeu!
AC: Jajajaja. Mas não gosto que pensem que fui grosseiro.
CA: Não foi o caso. A minha edição não te favoreceu. Na conversa técnica se
oculta os papos sobre os dentes dos filhos, a alimentação dos gatos, o vento que
bate na janela pela manhã e enfim...
AC: Eso parece un poema: los dientes de nuestros hijos /el pelo de nuestros gatos
negros/el viento que golpea la ventana...
CA: Um poema bem ruinzinho, rs. E esse é o olhar viciado do poeta que enxerga
versos em todas as coisas que existem no mundo.

Take 2

CA: Preciso de ajuda!!


AC: Ay ¿qué pása ahora?
CA: Nada sério, sou latina, sou dramática.
AC: Y poeta!
CA: Traduziram um poema meu pro espanhol e eu detestei.
AC: jajajaja. Excelente título!
CA: olha o original

37
Os relâmpagos nascem
no mesmo lugar 
que os arcos íris 

a dor
e o alívio da dor
vêm do mesmo lugar

AC: OK
CA: Agora o que ele traduziu:

Nace um rayo
en el mismo lugar que el arcoiris

El dolor
y alivio del dolor
vienen del mismo lugar

AC: Horrível, o poema deve ficar tipo assim, peraí:

Los relámpagos nacen


en el mismo sitio que el arcoíris

El dolor
y el alivio del dolor
vienen del mismo sitio

Você pode botar lugar ao invés de sitio se preferir, mas eu acho que lugar tem uma
conotação mais física, de uma existência de um espaço concreto, Sítio, eu acho que
ele te permite pensar em uma coisa menos definida e mais abstrata, que no caso
del dolor y el alivio del dolor funciona melhor. Se é do mesmo lugar fica parecendo
um espaço concreto, local concreto, sabe? E sítio fica mais indeterminado. Eu digo
que deveria ir assim, um pouquinho mais abstrato, do que se referir a um espaço
geográfico.
CA: Ah sim. Mas eu prefiro lugar por uma questão pessoal, vocabulário afetivo.
Em português do Brasil sítio é zona rural onde as vacam pastam e galinhas ciscam,
diferente da palavra em português de Portugal ou em espanhol. Mas na minha
cabeça de menina provinciana sítio tem sempre essa conotação negativa, esse local
isolado e bucólico, com os cachorros latindo, algo melancólico que eu não gosto.
AC: Esquece de você. Você nada tem a ver com o poema. Mesmo se ele é seu, você
não é dele.
CA: <3. Parece que ele jogou no google tradutor, sabe?

38
AC: Tomara! Explicar uma tradução assim otherwise é sempre difícil.
CA: Geralmente é o que acontece, né? Quem tem a sorte de conversar cara a cara
com seu tradutor ou autor a ser traduzido? Num café e coisa e tal...
AC: Verdade.
CA: Pensa na sorte que temos da comunicação instantânea! E no diálogo entre
vivos! É por causa disso que pessoas se matam achando que vão chegar a um paraíso
e encontrar 72 virgens... por um pequeno erro de tradução. No original seriam 72
uvas passas. Quem se mata por uva passa? O mundo é um lugar mais perigoso por
erros de tradução, pensa nisso...
AC: Hahaha. Ótimo! Mas assim não vão dizer que você está fazendo islamofobia?
CA: Meus avós são libaneses, eu tenho bastante lugar de fala.

39
Gabriel Gonzalez

caso ocorram reações paradoxais


lembre-se compartimos um olho
o outro é ilha havaiana ou olho de cama
no outro um olho mugido
papos e trapos
há cascos nos passos
no tempo o espaço
e nos ciscos a certa visão

um minuto de silêncio
começa o jogo.
zero a zero.
tudo igual e tudo o mesmo.
os times na cancha descolorida, é canja.
vinte e dois homens desacordados, vinte e dois homens pela pelota
bate e rebate o furo do plano, a barra que corta
tudo igual e sem marcação
a bola na bola do meio do campo
no esteio do meio, o jogo arrasta
no esquerdo do pé, ampulheta gaga.
trave, pelota, goleiro, trave
zero a zero
começa o jogo.
tudo igual e tudo o mesmo.

40
I.
dizem que pra todo
corpo há um corvo
eis que a noite em plumas
bica o que descansa:
agora, agora
a noite cisca,
bate asas
eram essas o
rodo do mundo?

II.
dizem dos números o baralho da vida,
quem algum num perdeu para as cartas,
pro bicho. é sabido de bichos
a estima de membros.
às vezes, negamos os nossos negamos
também os números, o instinto, a lida.

III.
dizem que só se é livre no não.
como josé sobre a greve da morte:
a soma de menos e um
como toda morte da morte é vida:
o produto de menos e um
enquanto os números ensinam o duplo
mordisco de bico no chão.

41
Flavio Correa

Alma
Os trilhos têm alma. Feitas de aço,
sustentam toneladas de matéria.

Os violinos também têm.


E podem cair durante uma execução musical.

Os canhões, as espingardas.
Lisas ou raiadas, explodem à pólvora.

A viga, o sinete de carta,


o fole, o fumo de corda, o negócio.

Os sapatos, vejam, carregam a alma


para todos os lugares.

E a escada a protege em seu vão.

No ser humano: a curva


entre o calcanhar e o joanete.

O mundo é cheio de almas,


ainda que não possamos enxergá-las.

42
Tátia Rangel

nesse remexer das vontades, líquidos


escorrem lubrificando os olhos, lavando o
rosto, deixando escapar um riso
deixando
um pouco de cor encobre os lábios,
guarda palavras que se sufocam entre os
dentes, um arroto criativo faz som
murmúrios solares
nessa inesperada escrita, linhas se
traçam em fuga, borram a margem
escapam
não há mais compromisso
nem com o sentido
nem com a moral

escrita

43
Marco de Menezes

Nenhures e Garatéia
era uma dupla de pedreiros
contratada por meu pai
para serviços vários
como
erguer a mureta lateral
que dá para a pequena horta
rebocar a parede do galpão
salpicando-a
levantar duas pernas de concreto
para a mesa de limpar peixe e cortar carne
encaixar o gradil na parte frontal da casa
calçar o caminho na parte de trás
em meio às couves

ao chegar
de manhã cedo
traziam um esprí altaneiro
e uma charla sem cancelas
mas após o almoço
sempre retornavam
sonolentos e opacos
sujeitos a pequenos acidentes
e como que assaltados
por estranhos presságios

uma tarde
uma revoada de caturritas
encantou
ao que se chamava Nenhures
e ao que se chamava Garatéia
e ambos se pareceram um só
entre as ripas de madeira
as cintas e as contravergas

ao que se chamava Garatéia


uma caturrita teria dito
que era a morte
e que espalhava
sementes curvas de asbesto

44
nos lindes e nas guildas
nos charcos e nos molhes
onde paisanos cindiam
e bem ali esperavam
uns zacarias cinábrios

ao que se chamava Nenhures


uma caturrita teria dito
que a vida mesmo
cujos préstimos são convocados
nas cerimônias de batismo
e nas salas de tortura
é esse engano de fantasma
que carpe o ar da cartilagem
e rompe-lhe
para não que ela cante
e sim que ela fale

45
Raíssa Varandas

Com o perdão de Heiner Müller


Franz Kafka tentou negar o sobrenome paterno
talvez, por isso, tenha terminado perpetuando-o
mantenho seu nome na assinatura para garantir a despossessão
nossa tríade resumida a uma única linha
ali, ficamos atados para fins burocráticos:
abrir uma conta no banco
pedir orientações ao gerente
preencher o cadastro no oftalmologista
informações rotineiras
a diluir, na constância, qualquer história que se possa contar
sobre a incrível coincidência que existe
no fato de dividirmos um nome
tivesse, você, escolhido outro estado
tivesse, minha mãe, voltado para o interior
tivesse, você, se filiado ao partido errado
tivesse, minha mãe, recusado Karl Marx
tivesse, você, ficado na Bahia
tivesse chovido naquela noite de março
e sua prole seria outra
seus litígios seriam outros
meu tempo seria outro
e a minha assinatura
existira apenas nos devaneios de pequenas aranhas fiandeiras
a sonhar padrões nas teias de refúgio

Assumir o nome do pai é o modo mais sutil de matá-lo


sentar-se à cabeceira da mesa
evitando que a sombra paterna permaneça ali
ditando as conversas permitidas no almoço ou jantar
cortando todo assunto referente
ao útero
ao sexo
ao abandono
com a mesma precisão
com a qual reparte a carne malpassada
com o mesmo prazer
com o qual bebe o sangue que resta no fundo do prato.

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Mantenho seu nome como um amuleto
para evitar que me chame durante o sono
que reivindique uma parte qualquer do sangue
que corre nas minhas veias
alimentando os meus órgãos
enrubescendo as minhas bochechas
irrigando o endométrio até que seus netos se percam
meu sangue
que, apenas por mera casualidade, carrega uma parte sua
e contém, na solidez dissimulada, a potencialidade
de te mapear
decifrando sua verdadeira alcunha
tal como nas histórias infantis
em que só se expulsa aquilo que se pode nomear.
O esconjuro é mesmo o reverso do batismo.

Memorizo os ritos para te expurgar:


emular seus gestos durante a minha infância
aprimorá-los na vida adulta
ligar apenas duas vezes por ano

guardar o livro roubado


pelo prazer mesquinho
de imaginar um espaço vazio na sua estante

Mantenho seu nome por força do hábito


até que, descendente após descendente,
nossa linhagem se esgarce
nossas biografias se percam
e apenas genealogistas dedicados
estejam aptos a nos rastrear.

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Duda Las Casas

Na praia da Ursa
sem esfihas
as bolas de Berlim são doces
no meu português
chamamos no sonho as bombas
a sombra do coqueiro
e pagamos caro para alugar barracas
Na sua praia
procura-se
água morna
tapar o vento
secar ao sol
percebe-se
pela areia
Na cova do vapor
ninguém
sente
fome

48
Giovana Maldalosso

Sala de estar
Volto para casa dos meus pais
vinte anos depois.
Minha mãe uma matriosca,
a tinta descascando,
larga e estranha
portanto dentro as mulheres que conheci.
Meu pai no canto da sala,
o couro todo craquelado,
os pés gastando o tapete.

Me olho no espelho,
tampouco sou cômoda nova.
Perdi o brilho.
Nas minhas gavetas tudo se mistura,
às vezes não acho palavras,
nomes de atores,
cidades,
datas de nascimento.

Sentamos à meia luz.


Meu pai range,
minha mãe estala os nós.
Tiro xícaras das minhas portas.
Como vocês andam?
O que têm feito?

O presente é pó
caindo na madeira.

Minha mãe prefere o acúmulo dos anos,


poeira espessa
para lambuzar os dedos.

Ela lembra a forma absurda


como perdi
meu primeiro dente.

Sua casca se abre.


Enxergo minhas conhecidas lá dentro.
Falam,

49
riem,
fazem vibrar
o espaldar e os braços
do seu companheiro.

Sinto amor pelos dois,


quero tocá-los,
mas não sei mais como,
perdi o jeito.

Resolvo ficar por mais tempo.


Desbotar junto,
me sentir peça de novo,
voltar a relaxar no encaixe
intricado
do riso
e também do silêncio.

50
Thaís Oliveira

Vibrato
Foi quando
nos calamos

suspensos no
suspiro do
silêncio

a pele da
quietude
suamos
num rastro
que tocou
a nuca desse
intervalo

me vi envolta
no hálito
de nossa
mudez

você me amou
e eu te amei

no esbarro
de nossas
afonias

ressoamos
na saliva
da palavra
não dita

nesse hiato
sem ui
nem ai
des-encontro
vocálico

51
consoante a pausa:
a causa de
todo o ato

antes mesmo
do fato

...

Repartição pública
Quando liga o ventilador
o alívio maior é da
folha
que se liberta
da resma

e voa

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Caio Moreira

Nenúfar
Agarro minha luneta mágica e, feito um voyeur, te vejo e vigio compenetrado do
alpendre da varanda. Aproximo a lente e descubro que ampliado o nenúfar nada
mais me diz sobre as formas da planta. AUMENTO. De perto, como um quadro
de Monet ou uma fotografia de Karl Blossfeldt, a flor arrepiada me apresenta
um outro mundo. Uma síntese misteriosa que oscila entre a ponte japonesa de
um quadro impressionista e as formas originárias da flor. Um ovo se abrindo
numa casca de brigadeiro. Olho por mais de 3 minutos e tenho a visão do bem.
Tua qualidade, ser bem mais que um sim ou o céu da Catedral de Brasília. Com
a outra lente, vem a visão do mal. Teu defeito: ficar por demais parado, qual
um barco entorpecido flutuando pelo lago do jardim. Bem ou mal, melhor ver
o nenúfar com próteses do olhar. Mil coisas ele diz. Tem um outro que se diz
vitória-régia, musa da Amazônia que o turista aprendiz enxergou nas lagoas
serenas por detrás das embaúbas e nos rincões do silêncio. Só maravilhas? Que
nada. Engruvinhada e espinhenta, nem inseto nela pousa. Pegue a flor e a fera
morde raivosa, sangue escorrendo da palma da mão. De longe, é a princesa das
hileias e dos nenúfares; de perto, o perfume que desespera e dá náuseas. Essa
vitória mistura, assim, dois mistérios: o sublime e o abjeto dos exageros da flor.

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Diego Rebouças

farol
para Bruna Corazza

mas de manhã a vela apagada


no centro do prato

o gato não se conforma:


reduziram seu leite a mero oceano

coadjuvante de um farol aposentado


e, no centro dessa afronta,

reparem no pavio, como ele desce até embaixo,


cabo telegráfico a registrar as vibrações

de minha fome e enviar para espiões


escondidos onde? onde?

oculto sob um sofá, do alto da torre


de um armário, o felino a tudo vigia,

noite e dia: a qualquer momento sobrevirá

a verdade – é tudo uma questão


de saber esperar

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Bruna Corazza

5 e 23
Nos confins do sistema solar
está o motivo das minhas semanas a seco
sem saber de onde tirar água

Minha pele faz pequenos rachos


e agora estou na sala de espera
porque talvez esteja ficando careca

Tomo todas as vitaminas do grupo B


e outras cápsulas no meio do meu bom dia
Duas ampolas de sangue demonstraram
que a ferritina não aumentou em nada

O meu corpo já não sabe lidar comigo


e as células se escondem em caixinhas
e esperam o melhor momento para voltar a funcionar
Já não se reconhecem mais e meu corpo
é o meu manicômio

A dermatologista especializada em couro cabeludo


parece que usa peruca
e me faz chorar ao pensar nas agulhas que
vão entrar na minha cabeça

penso em perguntar se dói


porque nem tudo que sangra dói
às vezes só sangra mesmo

Ela me olha com os olhinhos puxados


e diz que o quanto antes melhor olhe as fotos

Mas, Éris, aquela safada


vem soltando o caos
e entregando a maçã de ouro
e comendo prazerosamente seu cachorro-quente
numa sexta-feira
na pista de boliche.

meu bem, não chores


hoje tem oficina de carlito

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