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ESCOLA ESPAÇO DE RESISTÊNCIA:1 manter o que for possível e rever

o que for necessário2


“Onde quer que haja mulheres e homens, há
sempre o que fazer, há sempre o que ensinar,
há sempre o que aprender”. Paulo Freire
“Semear. Sem pensar que a colheita te
pertence. Sem pensar que a terra te pertence.
Sem pensar que a semente te pertence.
Semear sabendo que a colheita virá um dia.
Sabendo que o importante não é colher, mas
que a colheita um dia virá”.
A Lanterna/SP/nº05

Introdução3
Não da para fazer nada, não se quer fazer nada ou só vejo o que quero?
Em 1988 no Centro de Cultura Social já se discutia a criação de um
espaço educacional destinado à pedagogia libertária. Desde então,
convivendo com professores no CCS escuto de parte de alguns, afirmações
do tipo: “deixo os alunos fazerem o que quiserem, até se pendurar no
lustre”; “na escola não existe nada que possamos fazer”. Alguns professores
universitários passaram a defender que a escola é um espaço de dominação
onde nada de “libertário” pode ser realizado.4
Esse é um ponto de vista, existem outros, entre esses, o que a
escola, seja pública ou privada, em seus mais diferentes níveis, não é
somente um espaço de dominação, mas também de resistências; é do
aprendizado dessas formas de resistência que podem surgir formas menos
hierárquicas, mais flexíveis e horizontais de organização escolar e social.

1 Desde 1989 defendo e pratico essas sugestões, a igual tempo, tento criar um grupo dentro
do movimento anarquista para reflexão, desenvolvimento de materiais e organização sobre
a questão educacional na escola publica estatal. No momento estou junto com um
companheiro do Nelca/Guarujá tentando implementar esse grupo.
2 Maurice Joyeux
3 Novamente no processo de construção desse texto dois companheiros e amigos foram

imprescindíveis, Jose Damiro Moraes Professor Doutor em Educação e Edvaldo Vieira da


Silva Doutor em Ciências Sociais, agradeço imensamente a ambos, ainda assim todas as
ideias aqui apresentadas são de minha única e exclusiva responsabilidade
4 Lembrando Ivan illich sobre a desescolarização, algo que mesmo em uma futura sociedade

libertaria não é dado como um ponto definitivo, algum tipo de organização escolar poderá
existir, sempre organizada a partir de outras bases.
Com isso não quero fazer a defesa da escola pública estatal ou
privada, porém não podemos descartar esse importante espaço de
organização e luta.

Escola: Dominação/Reprodução X Resistência/Superação


De fato, é a relação capital/trabalho no processo de produção, o
núcleo principal de todas as relações sociais, afinal, a hegemonia nasce na
fábrica e reflete-se na escola. O processo social traz consigo profundas
contradições, à educação também, e está igualmente sujeita às mudanças.
A educação pode desmascarar e aguçar a consciência dessas contradições
denunciando-as criticamente e negando-lhes legitimidade.
O educador é agente de reprodução social, e pelo fato de sê-lo,
também é sujeito de contestação e crítica. O predomínio das funções de
reprodução e crítica professoral depende mais do movimento social e
dinâmica da sociedade, fora dos muros escolares.
A ideologia da classe dominante é aceita e incorporada
naturalmente como desejo, objetivo, status quo, etc, voltada para formar
um indivíduo consumidor, tipo: consumo (ostento) logo existo5, porém, o
desenvolvimento de outro tipo de discurso que se contraponha ao da classe
dominante pressupõe o constante esforço de reflexão critica contra a
inércia e espontaneidade dessa forma de razão.
Para que essa reflexão critica passe a ser elemento gerador de
novas concepções de mundo que se contraponha à dominante, é
necessário definir e assumir suas opções.
Entre essas, o esforço de resistência e luta que passa pelos
princípios que norteiam sua ação, defini-los, defende-los é parte do
processo de resistência para avançar na luta por transformação pessoal e
coletiva. Isso não se dará espontaneamente, é o resultado de um longo
processo, tomada de consciência de si, de reconhecer-se pertencente a
uma determinada classe social, de contestação, e principalmente
organização.
Importante é observar a importância da correlação de forças, nem
sempre elas nos são desfavoráveis, em muitas oportunidades nos
convidam, obrigam à ofensiva, à crítica mais contundente, propondo
alternativas mais ousadas, jamais esquecendo os princípios que norteiam

5 Sugestão Jose Damiro


essa ação: postura individual,
federalismo (rede), ética (não
violência, solidariedade,
fraternidade) e autogestão.
O educador a partir de sua prática
político-pedagógica, primeiro
convida outros profissionais e
educandos a terem uma postura

crítica, questionadora e contestadora do conhecimento, sendo ele mesmo


um investigador, um instigador à pesquisa, desestabilizando e
desestruturando, pode, transformar a sala de aula, a escola e o bairro num
grande laboratório.

Da democracia representativa para a democracia direta


A escola pública estatal está submetida a uma legislação que entre
outros aspectos garante a gestão participativa, democrática e transparente.
Exige qualidade de ensino que é avaliada através de mecanismos externos
como avaliações de alunos, do ambiente escolar e dos profissionais que
nela atuam. Segundo Malatesta, a DEMOCRACIA é a forma menos nefasta
de administração da sociedade, o governo do povo é uma mentira que
acorrenta sempre um pouco o mentiroso e limita seu bel prazer6. O "povo
soberano" é telespectador, as decisões são tomadas em nome do povo,
porém muitas vezes são contrárias ao povo, mas pensar que se é livre,
mesmo não sendo verdade, é melhor que saber e aceitar a escravidão como
algo justo e inevitável.
Os mecanismos existentes na legislação contribuem para ações que
possibilitam a efetivação dessa democracia que tambem é representativa,
pois a participação se dá atraves de eleição.
Como todo mentiroso está preso a sua mentira, essa visão
democrática da escola, por mais falacioso que seja, permite exercicios que
possibilitam o aprendizado e apontem para a democracia direta.
Entramos então nos aspectos mais complicados dessa
argumentação: Como? Com quem? Quando?

6MALATESTA. Anarquia e outros escritos. Pag. 90. GUERIN, D; MALATESTA, E; BAKUNIN, M;


KROPOTKIN, P; ENGELS, F; (1986). O Anarquismo e a Democracia burguesa.; Global, SP.
Como educador e
anarquista nossas ações são
norteadas por princípios: que
cada um se assuma
enquanto indivíduo; lute por
uma vida livre e autônoma,
liberdade vivenciada de
forma responsável, levando
em conta a solidariedade,
apoio mútuo, fraternidade,
pilares da nossa concepção
ética/moral.

Essa liberdade só se realiza na igualdade econômica e liberdade


política dos outros, com quem nos associamos para organizar a gestão das
atividades que nos dizem respeito, ou seja, autogestão, ação direta, enfim,
democracia direta.
Essa organização precisa proceder em rede, de baixo para cima, do
simples para o composto, do indivíduo para o coletivo, da associação local
para as demais, sejam locais, regionais, nacionais ou internacionais.
Para concretizarmos nossa utopia, meios e fins (opções políticas e
pedagógicas) precisam estar de acordo, não é possível aceitar uma ditadura
ou guerra (violência) como um meio (mau) necessário, quando o que se
busca é uma sociedade mais justa, igualitária, fraterna, enfim socialista
libertária.

Ideias e Ação
Para expor essas ideias vou apresenta-las como acredito que são e
uma forma de vivencia-las.
Ao nível federal, estadual ou municipal existe um currículo oficial,
que explicita o que tem de ser ensinado e apreendido, como e quando
realizar. Temos outras opções com a parte diversificada desse currículo,
currículo real. Esses governos não estão na sala de aula, nos corredores,
pátios, etc, assim também existe o currículo oculto, aquilo que, apesar de
não documentado ou prescrito, felizmente de fato é praticado.
Com cuidados, parte do currículo oficial pode ser aplicada. Porém,
sou pelo currículo real e oculto, da escolha dos conteúdos socialmente
relevantes que tragam questões importantes da ciência e do contexto
específico dessa comunidade. Para essas definições é importante fazer uma
pesquisa dos interesses dos alunos, como também apresentar sugestões
considerando os problemas da comunidade; contextualizando os assuntos
trabalhados fará com que tenham mais sentido e menos resistências.
Assim, é necessário trabalhar esses conteúdos com estratégias
diversificadas, diferentes fontes e linguagens, propor experimentos e
pesquisas de campo com procedimentos científicos para levantamento de
dados, análise, produção e apresentação dos resultados; usar diferentes
instrumentos de avaliação que permitam a cada um expressar o que
compreendeu da melhor forma, utilizando os mais complexos como, entre
outros, o portfólio, fichas individuais de acompanhamento, que
contribuirão para a autoavaliação.
Do mesmo modo, é necessário gerir a sala de aula consultando os
alunos quanto a melhor forma de organizar, realizar e avaliar os trabalhos,
tendo em mente que o educador é um facilitador entre o aluno e o
conhecimento, não o senhor absoluto das certezas e saberes. Ações
coletivas com pequenas inserções ou projetos de pesquisa temáticos de
caráter interdisciplinar mais extenso envolvendo profissionais, alunos, seus
responsáveis e outros moradores do bairro. O educador da escola pública
estatal precisa se submeter a uma avaliação feita pelos alunos, ver a
aceitação do seu trabalho, sentir-se mais seguro, rever o que for necessário
e dar o exemplo para outros profissionais.
O Governo não esta na sala de aula; se demonstrarmos que
garantimos o aprendizado dos conteúdos socialmente relevantes, das
habilidades e competências necessárias, nós teremos menos resistências e
mais adesões ao projeto.
Essas são algumas características essências do trabalho do
educador, onde o foco é o aluno, temos de instigá-los a se organizarem
existe uma legislação que garante o Grêmio Estudantil.
A fórmula clássica é a disputa eleitoral acreditando que isso é
aprendizado politico. Ledo engano. Cada escola pode ter seu próprio
estatuto, abandonar as “diretorias” e ater-se à “Comissão de gestão”,
enxugar os cargos para 1º e 2º secretario, tesoureiro e secretario de atas,
os demais compõem as comissões de trabalho necessárias.
Por exemplo, uma escola com 12 salas e 3 períodos pode
inicialmente ter dois alunos por turma no grêmio, o que já garante o
Conselho de Representantes de sala com ampla participação. Cada período
escolhe entre os participantes seus representantes, e entre esses, se
escolhe os que irão compor a comissão de gestão. As faixas etárias são
diferentes e nem
sempre terão
disponibilidade para
estarem presentes em
outros períodos, dessa
forma, garantimos que
cada período tenha
seu grupo trabalhando
suas questões
específicas.

Aquelas situações que forem de ordem mais geral são discutidas


pela comissão de gestão composta por alunos dos três períodos.
Nossa sugestão para organização do Grêmio parte de conceitos
semelhantes ao do trabalho do educador, ou seja, tudo se inicia pela
percepção dos problemas, do planejamento, das estratégias para supera-
los, das formas de avaliação para saber o que esta dando certo ou não e
replanejar.
Existem outras iniciativas, estímulos como clubes de leitura,
atividades esportivas ou culturais que são um passo para ações maiores, um
ou dois temas de pesquisa por ano que mobilizassem os alunos, seus
responsáveis e moradores do entorno, finalizando com uma exposição
aberta a comunidade.
Um dos grandes problemas das escolas é a forma como os conflitos
interpessoais são tratados, por que não procurar parceiros nas
Universidades ou ONGS e realizar cursos para professores e alunos e criar a
figura do aluno mediador de conflito?
Enfim, estimular os alunos a serem protagonistas de fato, sair da
condição de telespectadores para atores principais, exercitarem a
democracia direta e dessa forma ter um aprendizado mais significativo para
toda vida.
Esse estímulo é importante para ir além da sala de aula;
recentemente a legislação no estado de SP retrocedeu, agora, a escola tem
autonomia relativa o que coloca a necessidade de mais trabalho para
mobilização para ganhar na correlação de forças.
As Instituições Auxiliares participam na gestão da escola, por
exemplo, no Conselho de Escola (CE) se discute e aprova-se questões
significativas da vida escolar.
É necessário estimular alunos,
seus responsáveis e outros
profissionais para que dele
participem; são eleitos
por seus pares, mas podem
propor que seja aberto a
participação de todos, ainda
que restringindo o direito a
voto aos eleitos.

A Associação de Pais e Mestres (APM) perdeu muito de sua


importância por conta de restrições que o Estado estabeleceu para atender
a sua politica assistencialista. Ela fiscaliza todas as verbas repassadas à
escola e decide a aplicação das que forem fruto de ações da própria escola.
O Conselho de Escola a APM são espaços imprescindíveis para o processo.
Considerando a carência de espaços nas periferias para prática de
esportes e ações culturais, é importante, sem depender ou esperar pela
ação governamental, se organizar para abrir as escolas nos finais de
semana, ainda que não em todos, oferecendo gratuitamente os mais
diferentes tipos de atividades; trabalhar para atrair e ganhar a confiança
dos frequentadores.
É fato que muitos professores trabalham em mais de uma escola,
muitas vezes próximas, é fundamental realizar o que for possível em cada
uma delas, colocar alunos, seus responsáveis e os profissionais em contato
nessas diferentes escolas, por exemplo, levando as exposições de uma
escola para outras, também, para discutirem coletivamente os problemas
comuns que afetam a todos, criando fóruns de organização que vão além
da escola onde trabalha para associar-se a outras na mesma localidade.
Na medida em que essas iniciativas avançam, propor a criação de
núcleos de grêmios estudantis, conselhos de escola e APMs primeiro com
as que estão mais próximas, depois por bairro e regiões; ter um calendário
de reuniões, fazer o levantamento dos problemas comuns, discutir,
organizar, realizar.
Lembremos que os jovens que estiverem no ensino fundamental
nível I, muitas vezes terão de cursar o nível II e o médio em outra escola, no
mesmo bairro, esse contato permitirá aos pais conhecerem melhor as
escolas, terem um contato maior com os educadores, bem como, a se
inserirem mais rapidamente no processo de luta para garantir as conquistas
necessárias para a escola e a comunidade.
A escola é um espaço de grande rotatividade de alunos e
professores, o que apresenta resultados positivos num momento, pode não
se apresentar noutro; isso também será um aprendizado para o militante
que sabe o que deseja realizar com suas ações.
Essas sugestões não são em si libertárias, não faremos a autogestão
da sala de aula da escola pública estatal; são passos para a organização
local, a organização para a luta. Dentro dos limites que existem radicalizar
em direção ao máximo de democracia direta, passo essencial para voos
mais altos, para atingir uma sociedade mais organizada, participativa, justa
e fraterna. É necessário iniciar com pequenas inserções e crescer até o
ponto possível. Esse é um projeto para a vida toda.
Apesar de trabalhar em uma escola publica estatal não desejo
reforma-la, melhora-la para su melhor inserção no sistema, isso será
consequência também de um trabalho bem realizado, mas reconhecer nela
condições de organização para a luta que temos de travar em todos os
espaços e momentos.
Poderia ter citado aqui vários dos grandes autores anarquistas do
passado e mais recentes, das experiências mais significativas da educação
libertária, aqueles que as conhecem, verão algumas delas aqui
apresentadas. Como dizia Maurice Joyeux, manter o que for possível e
rever o que for necessário, só dessa forma manteremos essas ideias e ideais
vivos e desafiantes a essa ordem instituída nem sempre sutilmente brutal
que aí está.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
JOYEUX, M. Reflexões sobre a anarquia. São Paulo, Terra Livre e Archipelago: 1992.
MALATESTA, E. A anarquia e outros escritos, Brasília, Novos tempos: 1987.

Antônio Carlos de Oliveira. Autor dos livros: Os Fanzines contam uma história sobre
os punks, Rio de Janeiro, Achiamé: 2006. Projetos pedagógicos - práticas
interdisciplinares, São Paulo, Avercamp: 2005. Professor da rede estadual de
ensino de SP desde 1989, professor coordenador em escola estadual desde 2005.