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Romantismos em disputa

por Francisco Braga

Os românticos percebiam-se desta forma. Uma forma plural. Assim, não é possível localizar um
romantismo específico, sendo mais correto falarmos em romantismos. Para este grupo, o(s)
romantismo(s) era(m) um fenômeno real de manifestação de um sentimento nacional. Todavia,
devemos lembrar que a forma através da qual esses indivíduos se auto-conceituavam demonstrava
determinado mundo social – lembremos que o auto-reconhecimento conceitual não se faz de forma
autônoma, relacionando-se sempre a realidade sociais dinâmicas. O romantismo, aqui, deve ser,
portanto, compreendido como um movimento estético contraditório em seu interior – abarcando
percepções filosóficas plurais mesmo mantendo certa unidade que critica direta ou indiretamente o
estabelecimento de uma sociedade moderna nos modelos capitalistas instaurados até então, criticando,
assim também, a sociedade e a política conturbada do momento. Dessa forma, o conceito de
romantismo não pode ser compreendido sem a ideia das revoltas, combates e revoluções tão presentes
no século XIX. Essa ambivalência, criada e motivada pelos próprios autores, levou o século XX

Vale ressaltar que a crítica de Wagner a autores como Meyerbeer e Mendelssohn se encontra plena de
antissemitismo o que subjetiva etnocentricamente sua visão artística.

a ler as atitudes românticas apenas como filosoficamente relevantes, esquecendo as origens político-
sociais desse momento. Com esta visão embaçada do fenômeno, os românticos passaram a ser vistos
sem seu motivador político-social, sendo pensados como a primeira classe artística que romperia com a
política. Essa característica equivocada, entretanto, ainda impera em significativa parte dos livros de
análise e alguns poucos pensadores, demonstram que o que realmente ocorre com o romantismo é uma
nova forma de leitura da realidade, leitura essa que ainda privilegiava, mais do que as anteriores
inclusive, as atitudes políticas e sociais. Esse debate estético entre os dois grupos demonstra, no final das
contas, um debate filosófico, cultural, político e, acima de tudo, social profundo do valor da arte.

Percebemos que, apesar de manter certa unidade, os românticos procuram formas plurais de atingir
seus públicos e seus ideais. O século XX aprendeu a fazer uma leitura no mínimo equivocada do
romantismo musical presente no século XIX, unindo todos os atores: Schumann, Brahms, Wagner, Liszt e
quaisquer outros no mesmo grupo, esquecendo suas diferenciações pessoais. Em certa medida, as
divisões na música durante o século passado foram tão profundas que acabam transformando essa
pluralidade de interpretações do romantismo em certa característica unitária, o que acaba esvaziando e
relativizando a possibilidade dos objetos.

Mais do que compreender a música como fenômeno do espírito humano como a maioria dos
pensadores do XIX e XX quiseram, é plenamente possível compreender as manifestações artísticas como
fenômenos ligados diretamente às representações sociais, dessa forma, a arte – no nosso caso, a música
– passa a possuir uma estruturação social, bem como uma função social mesmo que inconsciente.

Bibliografia

Sobre a estrutura social da música, conferir: SILBERMANN, Alphons. Estructura Social de la Música.
Madrid: Taurus Ediciones, 1962.

Uma ampla variedade de autores vem definindo as possibilidades de função social da arte, todavia, Ernst
Fischer ainda se mantem como um dos principais representantes desta discussão. Cf.: FISCHER, Ernst. A
necessidade da arte. 3ed. Rio de Janeiro: Zahar editores, 1971.