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Lisa Marie Rice


Paixão Perigosa
Série Dangerous 03

Sentimentos matam mais rápido que balas. Essa era a crença de Drake. Uma lenda, um
renegado, um implacável e poderoso enigma, que não era compreendido por ninguém, mas era
temido por todos. Viktor "Drake" Drakovich dirige um império de bilhões de dólares, e não
mostra misericórdia para com os muitos inimigos que não paravam diante de nada, para
destruí-lo. Ele é um homem sem amor e sem fraquezas, até... Grace Larsen tira o fôlego de Drake
a primeira vez em que ele a vê, e rapidamente se torna sua obsessão. Nunca antes ele queimou
por alguém do jeito que deseja esta artista assombrosamente bela, que é atormentada por
sonhos perturbadores. Ele anseia possuí-la, protegê-la, levá-la a novos patamares de excitação
sensual e arrebatadora liberação. Mas entrar no mundo de Drake significa tornar-se um alvo.
Seus implacáveis e sanguinários inimigos estão ansiosamente esperando que ele exponha seu
ponto fraco. E o preço de sua paixão pode ser a sua vida.

Feito do inglês
Envio do arquivo: Gisa
Tradução e Revisão Inicial: Rose
Revisão Final: Valdirene
Formatação: Greicy
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Lisa Marie Rice
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Serie Dangerous 03

Comentário da Revisora Val: Apesar de ter lido sobre o Drake no livro 1, nunca pensei que
essa estória seria sobre ele. Li o resumo, comecei a revisão, e nem assim percebia que era aquele
Drake. Porque ele é o mocinho mais improvável sobre o qual já li. Em minha opinião, ele sequer é
um mocinho. É um homem duro, que vive à margem da lei e não se importa com isso. Construiu
um império com atitudes ilegais e está habituado a comprar tudo o que quer. Paga para ter
mulheres e sexo, e não paga pelo amor porque não sabe o que é, nem se interessa por ele. Até
que conhece Grace. Ela é a típica mocinha, uma artista, doce, amável, sensível e em perigo. Ele a
salva e a leva com ele. Se envolvem, e apesar de apaixonado, nem assim deixa de ser duro e
autoritário. Em uma relação totalmente improvável, ela, que é totalmente sozinha no mundo, se
entrega completamente para um homem que ela acredita ser perfeito e que a protege como nem
mesmo seus pais o fizeram. Realmente ela não se importa com quem ele é. Destrói suas defesas e
ele de repente se vê apaixonado e disposto a fazer tudo por ela. A estória é linda, mas foge um
pouco dos padrões considerados politicamente corretos. Perto do fim, Drake se transforma no
homem que qualquer mulher gostaria de ter em sua vida.

Prólogo

Manhattan
12 de Novembro

Sentimentos matam mais rápido que balas.


Esse ditado foi repetido à exaustão pelo ex coronel do exército russo Dmitri Rutskoi a suas
tropas.
Era verdade.
Mantenha seu dedo no gatilho na mira do menino bonitinho de cabelos escuros. Por quê?
Porque embora ele não pareça ter mais que oito anos, a próxima coisa que você percebe é o
menino bonitinho empunhando uma AK-471 e transformando você em um hambúrguer de carne
humana.
Aquela agradável vovozinha usando a burca? Ela tem sete quilos de explosivos amarrados
em sua grossa cintura, apenas esperando o momento de ir para Allah2 e levá-lo com ela.
E o que dizer sobre a África? Todo um exército de pequenos meninos com pouco mais de
doze anos, carregando suas AK-47 maiores que eles e usando amuletos que eles pensam os
tornam indestrutíveis, dispostos a te abater apenas por cruzar seu caminho.
O mundo inteiro é seu inimigo.

1
Fuzil/espingarda, criado em 1947 e produzido na União Soviética.
2
Alá, é a palavra utilizada no árabe para designar Deus.

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Por isso Rutskoi ensinou seus homens a serem cruéis e sem sentimentos porque os
sentimentos são mortais. Podem fazê-lo vulnerável, fazer com que você hesite ao ser chamado á
ação, sentimentos o tornam fraco, em vez de forte.
O sentimento mais mortal de todos é o amor por uma mulher. É como ter uma espada
diretamente apontada para o coração.
Rutskoi nunca imaginou a possibilidade de usar uma mulher para derrubar Drake. Victor
Drakovich não tinha fraquezas humanas, com certeza, não as mulheres. Ele não confiava em
ninguém, não tinha amigos e não amava ninguém.
Ninguém nunca vira Drake com uma mulher no braço.
É claro que não.
Drake era inteligente. Ele sabia que uma mulher seria uma fenda em sua armadura, uma
responsabilidade. Ele sobrevivera a cinco tentativas contra sua vida nos últimos dez anos, nunca
mostrando nenhum ponto fraco.
Rutskoi estava triste porque seria ele quem derrubaria Drake. Não tinha que ser assim. Ele
viera para a América com a intenção de ser parceiro de Drake e não para matá-lo.
Ele sempre foi fascinado por Drake, desde que o conheceu como um jovem tenente do
exército russo na Chechênia há quinze anos atrás. Várias eram as versões sobre Drake. Ele era
russo, era ucraniano, era do Cazaquistão, do Tajiquistão. Ninguém realmente sabia. Ele apenas
surgiu de algum lugar durante a década de noventa, um homem jovem extremamente inteligente
e imensamente forte, que construiu um poderoso império que cobria todo o globo.
Drake fornecia armas e munição tanto para a Obshina, a máfia chechena, como para o
exército russo que a combatia. Quando o fornecedor de armas de Moscou fugiu, Rutskoi voltou-se
para Drake e o achou totalmente confiável. Drake entregava o que prometia, precisamente na
data e exatamente no lugar combinado, tudo em perfeito estado de funcionamento. E ele ainda
tinha sua própria frota de aviões e navios para efetuar as entregas.
Drake era uma lenda viva. Um homem que negociava em linha reta, mas se transformava
num vicioso inimigo se fosse enganado.
Rutskoi não tinha nenhuma intenção de enganá-lo. Na verdade, ele queria, a sua maneira,
ajudar Drake. Ao deixar o exército russo, Rutskoi foi diretamente para os Estados Unidos, onde
Drake havia fixado residência.
Drake era um dos mais ricos e poderosos homens do mundo, vivendo agora na mais rica e
poderosa nação do mundo. Rutskoi queria um bocado para si, nada mais.
E por que não? Drake montou sozinho uma empresa de vários bilhões de dólares. Como
qualquer bom general, ele precisava de um tenente. E quem melhor que Rutskoi, que conhecia
todo o negócio a partir do zero e tinha profundos contatos de longa data desde a África passando
por toda a massa de países que costumava ser conhecida como União Soviética?
Era um novo mundo agora e neste novo mundo um homem tinha que sonhar grande e
assumir riscos. Ele estava pronto.

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Rutskoi tinha feito um grande negócio com armas e poupado mais de um milhão de dólares.
Ele pegou a metade disso e veio para Nova Iorque um mês atrás. Passou o mês todo numa suíte
do Waldorf Astoria, familiarizando-se com a realidade de Drake.
América – ah, América. Tão doce e deliciosamente decadente, mas limpa e eficiente mesmo
assim. Não havia nenhum prazer impossível de comprar – tudo embrulhado, limpo e higienizado e
pagável com cartão de crédito. Rutskoi se chafurdou nisso. Afinal ele merecia. Os longos e duros
anos em um exército empobrecido, as condições sub humanas a que fora exposto na guerra da
Chechênia, o perigo constante – tudo esquecido.
Quem poderia lembrar tempos difíceis em uma cama macia com uma mulher ainda mais
macia embaixo de você? No final do mês, atualizado e pronto para ir, Rutskoi contactou Drake.
Drake não era nada além de rápido e eficiente. A reunião foi marcada para o dia seguinte.
Maravilha. Rutskoi podia sentir o poder se mover através dele. A segunda metade de sua
vida estava prestes a começar. Ele sobreviveu ao pior que a vida poderia jogar sobre ele e tinha
saído mais forte. Logo seria rico, poderoso e temido, o segundo no comando de um imensamente
rico, poderoso e temido homem.
Ele estava indo ao topo da equipe com um mestre do universo.
Ainda podia recordar a emoção febril que sentiu quando a limusine o deixou em frente ao
edifício de Drake. Sabia como manter impassível sua expressão – Deus sabe que ele tinha bastante
experiência em lidar com generais bêbados e incompetentes – mas por dentro estava eufórico.
Demorou meia hora para Rutskoi passar pelos seguranças de Drake, o que naquele
momento o agradou. O homem era invencível, inexpugnável. Cada camada de segurança foi
executada com um profissionalismo perfeito e educado, pelos guarda-costas de Drake. Esse era o
grande momento. Ele imaginou que o único outro homem que poderia ser assim tão bem
protegido, seria o Presidente dos Estados Unidos, que, sem dúvida, era menos poderoso em seu
mundo que Drake no dele. O mundo de Drake não era uma democracia.
Finalmente, Rutskoi foi conduzido para uma sala com uma porta que se fechava como um
cofre de aço atrás dele.
Ah. O cheiro de couro, bom uísque e excelentes charutos. O perfume da grande sala o
atingiu antes que seus olhos se adaptassem a semi-escuridão do ambiente. Apenas algumas luzes
estavam acesas, mas a impressão era de uma enorme sala com um teto muito alto. E conforto.
Tudo foi construído para o conforto de um homem. Poltronas grandes de couro, tapetes altos e
grossos. Um caro matiz de decantadores de cristal e umificadores para charutos em madeira e
latão.
—Entre, — veio uma voz profunda de dentro. E lá estava ele. Drake.
Rutskoi não se impressionava nem se assustava facilmente, mas Drake o deixou assustado e
impressionado ao mesmo tempo. De estatura média, ele era extremamente forte. Suas enormes
mãos e pés estavam cheios de calos amarelados. Rutskoi tinha visto Drake dar socos tão duros em
um homem que parecia que o homem foi atingido por uma bala. Ele também tinha visto Drake
massacrar um homem com um chute.

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Drake era adepto de SAMBO, SAMooboronaBez Oruzhiya, a arte marcial russa de se


defender sem armas, numa mistura com o kickboxing francês. Ele era o melhor no combate corpo
a corpo. Simplesmente colocava seu adversário no chão e o demolia. E era assustadoramente
inteligente. Era como se estivesse conectado a algum sistema de inteligência secreta que apenas
ele tinha acesso. Ele nunca foi pego de surpresa, nunca.
A história contava que a morte de Ahmed Masood no dia dez de setembro de 2001 foi um
sinal claro o suficiente para que Drake iniciasse o desmantelamento imediato de seus tentáculos
sobre sua cadeia de suprimentos para o Talibã.
No dia 12 de setembro de 2001 Drake já tinha mudado toda sua empresa para os Estados
Unidos e se unido à CIA para afunilarem o envio de armas para a Aliança do Norte. Depois disso
ele nunca mais vendeu outra arma para o Islã ou para o Jihad.
Embora estivesse em cada lista internacional de bandidos, procurado pela ONU e Interpol,
tornou-se intocável, protegido pelos norte-americanos. Seus pilotos tinham gelo correndo nas
veias. Eram eles que transportavam armamentos para os soldados americanos no Iraque e para
voar sobre Bagdá diariamente, só pilotos com gelo nas veias ou completamente loucos que não se
importavam com o perigo.
Quando Drake se levantou, cada pelo no corpo de Rutskoi se eriçou. Ele engoliu seu medo e
pavor empurrando-os para longe. Rutskoi tinha que se mostrar a Drake como um igual ou isso não
daria certo.
—Sente-se Dmitri, —Drake disse e ouviu educadamente tudo que ele tinha a propor. A
próxima coisa que ele disse, discretamente, foi “Saia”, depois de Rutskoi explicar o que queria.
Sem pressionar sequer um botão ou fazer qualquer sinal, o guarda-costas de Drake veio e o
acompanhou para fora. Ele literalmente foi jogado porta afora por dois enormes guarda-costas.
Rutskoi jurou vingança, mas era difícil se vingar de alguém que sequer tinha notado sua
presença. Rutskoi espalhou que pagaria cinquenta mil dólares por informações que o ajudasse a
conseguir a cabeça de Drake. Depois sentou e esperou. E esperou. E esperou. Estava claro que
Drake pagava tão bem a seu pessoal que cinquenta mil dólares não era incentivo suficiente. Ou
isso, ou eles estavam com medo. Provavelmente ambos.
Rutskoi estudou, esperou e planejou ser o segundo no comando em vão, então esperou mais
um pouco até que recebeu uma chamada. Não qualquer chamada. A chamada. Aquela que
mudaria sua vida. Finalmente o dinheiro usado como isca tinha agarrado em algo. Rutskoi deixou
um endereço do hotmail e recebeu umas mensagens anônimas.

Se você quer informações sobre Drake, transfira cinquenta mil dólares para esta conta.

Na parte inferior do e-mail um número de conta, cujas letras iniciais direcionavam para um
banco na Suíça.
O banco de Rutskoi nas Caymans foi rápido e eficiente. Meia hora depois de transferir o
dinheiro ele recebeu outro e-mail exatamente com o que procurava.

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Drake desliza para fora de seu edifício na primeira e terceira tarde de terça-feira de cada
mês, sem guarda-costas, e tem feito isto regularmente, por um ano.

Havia vários anexos no e-mail. Com as mãos tremendo, Rutskoi os abriu e – lá estava a
informação que precisava. Melhor ainda – informação sobre uma fraqueza de Drake.
Até que enfim! Um furo na armadura de Drake, direto no coração do homem.
Drake visitava uma famosa galeria de arte em Lexington duas vezes ao mês. De todas as
coisas que Rutskoi sabia sobre Drake a paixão pela arte não era uma delas. O fato de que ele fosse
duas vezes ao mês a uma galeria de arte não era notícia de tirar o fôlego.
Não, o incrível era que, mês após mês, Drake nunca tinha entrado na galeria. Ele ficava lá
fora, na escuridão de um beco e observava o que se passava no interior da galeria por uma
pequena janela, observando das sombras. O que acontecia nestes dias específicos em que Drake
observava a galeria era que, regular como um relógio, uma jovem artista, Grace Larsen, entrava na
galeria para apresentar seu novo trabalho.
Um trabalho que era adquirido pontualmente por um comprador desconhecido. Cada
maldita peça. Há um ano, um advogado que representava uma empresa em Aruba, comprava, por
telefone, todos os trabalhos produzidos por Grace Larsen, sem jamais regatear preço.
Rutskoi reconheceu o nome da companhia. Era uma das muitas empresas de fachada que
Drake utilizava para o transporte aéreo. Drake estava comprando os quadros, não havia a menor
dúvida sobre isso.
Não era de surpreender que o dono da galeria aumentasse em trezentos por cento o preço
do trabalho de Larsen em comparação ao ano anterior. E ainda assim tudo era vendido. Para um
único comprador.
Rutskoi foi clicando através dos anexos, impaciente, tentando descobrir como usar essa
informação. Então ele ficou parado. E olhando.
Ah.
Havia cinco anexos, JPEGs com fotos do artista. Rutskoi recostou-se na poltrona, satisfeito.
Agora sim ele começava a entender. Ele estava olhando diretamente para o ponto fraco de
Drake, para uma fraqueza que finalmente o faria cair.
Rutskoi sentiu a adrenalina correr por suas veias quando se inclinou mais para perto da tela
para dar uma boa olhada nas fotos. Depois de analisar cada uma, ele as imprimiu e examinou
cuidadosamente cada foto.
Grace Larsen era uma mulher extraordinariamente atraente, de estatura mediana, magra,
mas não magra como tantas mulheres em Manhattan. Seu cabelo era ruivo, ondulado, modos
refinados, pele perolada. Ela tinha um tipo antiquado de beleza. Ela era, sem dúvida, o motivo
porque Drake estava comprando todo o seu trabalho e porque ficava, duas vezes ao mês, do lado
de fora em um beco observando por uma pequena janela, sem guarda-costas.
Para vê-la.
Embora fosse estranho pensar em Drake... Qual era mesmo a palavra que os americanos
usavam? Encantado. Drake não era homem de se encantar, depois de tudo. Tudo que ele queria

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ele conseguia, utilizando quaisquer meios que fossem necessários. Não existia nada que ele não
pudesse ter. Se queria a mulher, tudo o que deveria fazer era comprá-la. Por que esperar lá fora,
num beco, exposto desta forma, por algumas horas no mês, apenas para vê-la?
Ela não parecia usar maquiagem e suas roupas eram comuns, porém nela, maquiagem era
quase supérflua e não necessitava que roupas enfatizassem sua beleza.
Ela parecia absolutamente natural, com seus olhos silenciosamente belos, sérios, sem
pintura e sem contraste. Não era em nada o tipo de Drake. Entretanto, se pensasse bem, quem
sabia qual era o tipo de Drake? Quem sabia se ele tinha um tipo?
Drake poderia pagar as melhores, e, embora a mulher fosse impressionante, não existia
nada nela que a classificasse como uma “qualquer”. Rutskoi tinha comprado mulheres o
suficiente para estar familiarizado com o tipo. Aquele tipo de mulher que olhava o relógio e os
sapatos de um homem antes de olhar seu rosto. Aquele tipo de mulher que era viciada em Tiffany
e Armani exatamente como os vândalos da rua eram viciados em crack.
Essa mulher não tinha, de jeito nenhum, esse olhar. Ela não parecia ser cara e nem estar no
mercado para ser comprada.
O que Drake estava pensando? Com seu dinheiro, ele poderia ter as mulheres alinhadas em
torno de si esperando pacientemente na fila para atendê-lo do jeito que ele quisesse. Podia ter um
harém inteiro, com mulheres treinadas para transar com ele em todas as posições possíveis,
exatamente como ele gostava. Não existia nada de sexual que ele não pudesse comprar.
Ficar nas sombras no frio de um inverno em Manhattan ou no forno fumegante do verão de
Manhattan por uma ou duas horas por mês, sem seu guarda-costas, sem qualquer garantia que
fosse, apenas para o vislumbre de uma mulher... era uma loucura.
Tudo sobre a mulher retornou com uma negativa. Nenhuma droga conhecida. Não havia
vida sexual que o informante descobrisse, com homens ou mulheres. Houve um pagamento com
cartão de crédito uma vez, de três centenas de dólares para uma conhecida loja que qualquer
matrona elegante de Manhattan teria rido.
Rutskoi abriu novamente as fotos e olhou para ela.
Por que arriscar? Drake era a pessoa mais preocupada com segurança que Rutskoi jamais
conhecera. Mais do que qualquer cidadão da máfia russa. Mais do que Putin.
Por que o risco de estar indefeso durante várias horas por mês? O que poderia tanto valer a
pena? Drake ficava vulnerável não só enquanto estava no beco, mas também enquanto se
locomovia para lá e para cá.
Pelo quê? Por quê?
Não podia ser pelas pinturas ou aquarelas. Ele já estava comprando-as. Sempre que queria
tinha acesso às pinturas. Não, era mais que trabalho artístico. Tinha que ser pela mulher.
Drake queria ser capaz de olhar a mulher sem ser visto. Para se arriscar tanto, ele devia estar
obcecado. E não podia se dar ao luxo de mostrar sua obsessão aos outros. Seus funcionários eram
leais, era verdade, mas a lealdade, em seu mundo, podia ser comprada. Veja o informante. Ele
tinha acabado de abrir um enorme buraco na blindagem da segurança de Drake com míseros
cinquenta mil dólares.

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Então aqui estava Drake, obcecado por uma linda mulher que não tinha conhecimento de
sua existência, completamente indefeso, várias horas por mês. Se pegasse a mulher, poderia
forçar Drake a desistir de seus negócios, poderia matá-lo bem como à mulher e se tornar o
homem mais poderoso do mundo. Tudo em um só golpe.
Era isso.
A decisão estava tomada. Era quinta-feira. Ele poderia ter tudo no lugar em poucos dias. Na
próxima semana poderia estar sentado na cadeira de Drake, o rei do mundo.
Rutskoi pegou o telefone. Era hora de recrutar um parceiro.

Capítulo 1

Beco fora da Galeria de Arte Feinstein


Manhattan
17 de Novembro

Sentimentos matam mais rápido que balas, o antigo ditado do exército russo passou
rapidamente pela cabeça de Viktor “Drake” Drakovich quando ouviu o barulho atrás dele. Era
quase inaudível. O som fraco de metal contra couro, tecido raspando em tecido e o sussurro suave
de um clique metálico.
O som de uma arma sendo retirada do coldre e a trava de segurança sendo desligada. Ele
ouviu uma variação destes sons milhares e milhares de vezes ao longo dos anos.
Ele sabia há um ano que este momento chegaria. Era só uma questão de quando, não se.
Ele tinha caminhado de encontro ao cano do revólver, conscientemente, contra todos os instintos
de seu corpo completamente fora de controle, por um ano inteiro.
Desde sua selvagem infância nas ruas de Odessa ele sobreviveu às condições mais brutais
imagináveis, repetidas vezes, justamente por ser cauteloso, por não se expor desnecessariamente,
por sempre estar consciente da segurança, sempre.
O que ele vinha fazendo desde o ano passado era o equivalente a um suicídio.
Não me sinto assim, porém.
Eu sinto como... como a própria vida.
Ele podia se lembrar do segundo em que sua vida mudou. Total, completa e
instantaneamente.
Estava em sua limusine, separado de Mischa, seu motorista, pelo vidro blindado. Ele nunca
conversou no carro, sempre usando o tempo para trabalhar com a papelada. Fazia anos que ele
próprio dirigiu a qualquer lugar por prazer. Os carros serviam para ir do ponto A ao ponto B
quando ele não podia voar.

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As janelas eram muito escuras. Por segurança, claro. Mas também porque tinha se passado
um longo tempo desde que o mundo exterior o interessou o suficiente para olhar para fora da
janela pela paisagem que passava.
O pesado Mercedes S600 blindado estava parado no trânsito. O semáforo continuava seu
ciclo de cores, verde-amarelo-vermelho, verde-amarelo-vermelho, e outra vez, mas o tráfego
estava parado. Alguma coisa tinha acontecido lá na frente. O ressoar das buzinas impacientes
filtradas através das paredes de vidro à prova de balas de seu carro soavam como se viessem de
longe, como o zumbido de insetos.
Uma motocicleta costurou entre os carros como uma enguia na água. Um motorista ficou
tão enfurecido com a visão da moto fazendo progresso que se inclinou para fora da janela
mostrando o dedo do meio no ar. Ele gritou algo, a saliva voando de sua boca.
Drake fechou os olhos com nojo. Mesmo na América, onde havia ordem, abundância e paz –
mesmo aqui havia agressão e inveja. Os seres humanos nunca aprendiam. Eram como crianças
violentas, petulantes, gananciosas e fora de controle.
Era uma sensação antiga, que remontava a sua infância, tão familiar para ele como a
sensação de suas mãos e pés. Os seres humanos eram falhos, vorazes e violentos. Ele lucrava com
isso, era a coisa mais próxima a uma crença que ele tinha e essa forma de agir tinha-lhe servido
bem durante toda a vida.
Estranhamente, porém, ultimamente este tipo de pensamento lhe tinha feito... impaciente.
Irritado. Querendo se afastar de tudo. Ir...para outro lugar. Fazer outra coisa. Ser outra pessoa.
Se houvesse um outro mundo, ele iria emigrar para lá. Mas havia apenas este mundo,
repleto de pessoas gananciosas e violentas.
Sempre que se encontrava neste estado de espírito, que era cada vez mais frequente
ultimamente, tentava sair fora disso. Esse tipo de humor era uma excelente maneira de ser morto.
Inquieto, ficou olhando as planilhas sobre o colo. Era um contrato de dez milhões de dólares
para fornecer armas a um soldado do Tajiquistão, o primeiro, do que Drake esperava ser, vários
negócios com o autodenominado “General”. Havia petróleo recém descoberto no feudo do
general, um maldito lago abaixo da terra seca e árida e, em geral, era o tipo de negócio que o teria
empolgado, pois Drake esperava que muitos negócios se seguissem a este primeiro.
Anos atrás, se nada mais, o pensamento teria lhe dado muita satisfação. Agora, não sentiu
absolutamente nada. Era um negócio. Ele fecharia o negócio e obteria um grande lucro. Nada que
não tivesse feito milhares de vezes antes. Olhou para o contrato até que suas vistas se turvassem,
tentando despertar seu interesse no negócio. Ele não se interessou, o que era amedrontador. O
mais alarmante ainda era o vazio maçante em seu peito enquanto refletia sobre sua indiferença.
Inquieto, olhou para a direita. Esta parte de Lexington estava cheia de livrarias e galerias de
arte, as vitrines mais agradáveis e menos grosseiras do que as lojas com suas estúpidas roupas
extravagantes uma quadra abaixo.
E foi então que ele viu.
Pinturas. Uma parede cheia delas, juntamente com uma aquarela e alguns desenhos. Tudo
dolorosamente lindo, de um talento extraordinário.

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Embora as janelas do carro fossem escuras, a galeria estava bem iluminada e cada obra de
arte tinha sua própria iluminação, de modo que Drake tinha como dar uma boa olhada em todas
elas, parado no engarrafamento de Manhattan. E de qualquer maneira, sua visão era a de um
atirador de primeira linha. Ele fez algo que nunca tinha feito antes. Ele abriu sua janela. A boca do
motorista se abriu. Drake sacudiu o olhar para o espelho retrovisor. A boca do motorista fechou-se
e seu rosto assumiu uma expressão impassível.
O carro foi instantaneamente invadido com o cheiro dos gases de escapamento e a
cacofonia alta de uma fila de trânsito em Manhattan.
Drake ignorou tudo completamente. O importante era que tinha uma melhor visão das
pinturas agora. A primeira pintura que ele viu o deixou sem fôlego. Uma imagem simples - uma
mulher sozinha ao pôr do sol em uma praia muito vazia. A grandeza do mar, as cores do pôr do
sol, o granulado da praia - todos os detalhes tecnicamente perfeitos. Mas o que veio a partir da
superfície da pintura, como o vapor saindo de um ferro quente foi a solidão da mulher. Poderia ter
sido o retrato do último ser humano na face da terra.
A Mercedes foi um pouco para a frente e depois parou. Ele nem percebeu.
As pinturas eram como pequenos milagres na parede. Um brilhante vaso com flores
silvestres e uma brochura sobre a mesa, como se alguém acabasse de chegar do jardim. Um
homem pensativo refletindo-se em uma vitrine. Mãos delicadas de uma mulher segurando um
livro. A obra era realista, delicada, surpreendente.
Drake não tinha maneira de julgar a obra de arte em termos técnicos, tudo o que sabia era
que cada trabalho era brilhante, perfeito, tocando-o de uma forma como nunca fora tocado antes.
O carro andou dez metros à frente trazendo outra seção da parede ao alcance da vista.
A última pintura na parede lhe deu um solavanco.
Era o perfil esquerdo de um homem pintado em tons terra. O rosto do homem era duro,
forte, de queixo quadrado, sem sorrir. Seu cabelo escuro estava cortado tão curto que a cabeça
era visível por baixo, exatamente como Drake usou em campo, sobretudo no Afeganistão. Longe
de ter a menor esperança de água corrente, ele raspou o cabelo e o pelo do corpo, a única
maneira de evitar piolhos. O rosto do homem não se parecia exatamente com ele, mas o retrato
tinha o olhar dele – duro, cruel e inflexível.
Correndo da testa sobre a bochecha alta e para o maxilar, perigosamente perto do olho
esquerdo, tinha uma cicatriz irregular, como um raio gravado na carne.
Ato reflexo, Drake levantou a mão para seu rosto, lembrando.
Ele era um rato de rua perambulando pelas ruas de Odessa e dormia em qualquer porta no
meio do inverno rigoroso. Algum calor saía pelas frestas da porta, permitindo-lhe dormir sem
medo de morrer de frio nas temperaturas abaixo de zero.
Esquelético, vestido em trapos, era a presa perfeita para os marinheiros que chegavam em
terra depois de meses trabalhando em turnos brutais no mar, bêbados cambaleantes pelas ruas.
Marinheiros que não tinham uma foda por muito tempo e não se importavam em foder menino
ou menina, desde que conseguissem se desafogar.

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Drake foi acordado abruptamente com o hálito fétido de dois marinheiros russos invadindo
seu rosto. Um dos marinheiros tinha uma faca na garganta de Drake, enquanto o outro baixou as
calças, já puxando um longo pênis fino com a ponta vermelha.
Drake era um lutador de rua, a luta estava entranhada nele e lutava melhor quando próximo
ao chão, em luta de solo. Ele nasceu com essa habilidade e a tinha adestrado pela observação e
prática. Ele trançou as pernas, apertando o homem com a faca e o derrubando no chão, em
seguida, atirou-se nos joelhos do segundo homem, cujos movimentos estavam prejudicados por
ter as calças arriadas. O segundo homem caiu pesadamente no chão, sua cabeça batendo no
asfalto quebrado com um estalo enjoativo.
Drake voltou-se para o primeiro homem que tinha se levantado e segurava a faca na frente
dele como um perito, a borda para baixo. As chances de sobreviver em uma briga de faca,
desarmado, eram ridiculamente baixas. Drake sabia que tinha que equilibrar as chances logo.
Rápido, faça algo inesperado.
Ele atirou-se para frente em direção à faca. A lâmina cortou seu lado esquerdo do rosto, mas
o movimento de surpresa afrouxou o aperto do marinheiro. Drake arrancou a faca da mão dele e a
enfiou nos olhos do homem, até o cabo.
O marinheiro caiu como uma pedra.
Drake estava sobre ele, ofegante, o sangue escorrendo sobre o rosto do homem, em
seguida, puxou a faca para fora do crânio de seu atacante e limpou-a na jaqueta esfarrapada do
homem.
Pegou as facas de ambos. Uma delas era uma nozh razvedchika, uma faca de escoteiro. A
outra era genuína da Finlândia, rara naquelas partes do mundo e muito valiosa. Trocou as duas ao
longo da praia de Odessa por duas armas, uma Skorpion e um AK-47, incluindo munição e
vendidos mais baratos porque eram roubados.
Ele tinha começado seu caminho.
Mais tarde, logo que pôde, fez uma cirurgia plástica nas cicatrizes brancas irregulares que
tinha no lado esquerdo do rosto. Era conhecido por ser capaz de se misturar em praticamente
qualquer ambiente, podia tornar-se invisível, mas uma cicatriz muito óbvia era como uma
bandeira, algo que ninguém esquecia. Tinha que ser apagada.
O cirurgião era bom, um dos melhores. Não havia nada visível agora do lado esquerdo de
seu rosto. Além de si mesmo, só o cirurgião podia lembrar a forma da cicatriz, muito distante. Mas
lá estava ele em uma pintura em uma galeria em Manhattan, a meio mundo de distância e duas
décadas depois. Por mais insano que soasse, a cicatriz na pintura era a mesma cicatriz que o
cirurgião eliminou tantos anos atrás.
O tráfego de repente diminuiu e a Mercedes andou suavemente para frente. Drake
esmurrou o botão no console central para poder falar com o motorista.
—Senhor? — Mischa parecia assustado pelo interfone. Drake raramente falava enquanto
eles estavam viajando.
—Vire a direita no cruzamento seguinte e me deixe descer após duas quadras.

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—Senhor? — Desta vez a voz do motorista parecia confusa. Drake nunca saiu do carro no
meio do caminho. Ele entrava em um de seus muitos veículos na garagem de seu prédio e descia
em seu destino. O motorista caiu em si. Drake nunca tinha que repetir-se com seus homens. —
Sim senhor—, respondeu imediatamente o motorista.
Uma vez fora da limusine, Drake continuou andando na direção do carro até que
desapareceu no tráfego, então entrou em uma loja nas proximidades. Dez minutos depois,
convencido de que não estava sendo seguido, dobrou de volta para a galeria de arte, tendo
deixado sua jaqueta Boss de oitocentos dólares, calças Brioni, o suéter e o lenço de cashmere
Armani e ter comprado um casaco barato de mangas compridas, camiseta de algodão, jeans,
boné, óculos escuros e relógio. Ele estava tão certo como possível que estava irreconhecível e que
ninguém o seguia.
A galeria de arte estava quente depois do frio da rua. Drake ficou parado perto da porta
absorvendo os aromas de perfumes caros misturados com resina e solvente.
Ao som do sino sobre a porta, um homem saiu de uma sala segurando uma caneca de
porcelana sobre a qual pairava um vapor doce de chá de canela.
—Olá e bem vindo. — O homem transferiu a caneca da mão direita para a esquerda e
ofereceu sua mão. — Meu nome é Harold Feinstein. Bem vindo à galeria Feinstein.
O sorriso parecia verdadeiro, não o sorriso de um vendedor. Drake vira muitas coisas de
pessoas que sabiam quem ele era e os recursos que possuía. Tudo o que podia ser vendido,
incluindo seres humanos, foi oferecido a ele, com um sorriso.
Mas o homem que segurava sua mão não podia saber quem ele era e não se presumia que
fosse rico. Não vestido do jeito que estava.
Drake tomou a mão estendida cautelosamente, sem se lembrar da última vez que apertou a
mão de um homem. Raramente tocava outras pessoas, nem mesmo durante o sexo. Normalmente
utilizava as mãos para manter seu tronco para cima e longe da mulher.
A mão de Harold Feinstein era suave e bem cuidada, mas com um aperto
surpreendentemente forte.
—Dê uma olhada em volta. —Insistiu ele. —Não há necessidade de comprar. A arte nos
enriquece a todos, sendo nossa, ou não.
Sem parecer estudá-lo, Feinstein percebeu suas roupas baratas e sua impossibilidade de
comprar, mas não ficou incomodado com isso. Insólito, em um homem do comércio.
Os olhos de Drake observaram a parede e Feinstein falou amigavelmente:
—Essa é minha mais recente descoberta, — ele disse, acenando com a mão livre. —Grace
Larsen. Notável olho para o detalhe, perícia técnica incrível, pinceladas perfeitas. Controle de
claro-escuro nas gravuras. Bastante notável.
O artista era uma mulher? Drake concentrou-se na pintura. Homem, mulher, quem quer que
fosse o artista, o trabalho era extraordinário. E agora que ele estava aqui podia ver uma parede
lateral, invisível da rua, que estava repleta de gravuras e aquarelas.
Ele parou na frente de um óleo, um retrato de uma mulher velha. Ela era curvada, grisalha,
cabelo puxado para trás em um coque, o rosto queimado de sol, as mãos nodosas de grande

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esforço físico, com um vestido de algodão barato. Ela parecia como se fosse descer da pintura,
ajoelhar-se sobre o solo e começar a esfregar o chão.
No entanto, ela era linda, porque a artista a enxergou tão bela. Uma mulher específica, o
epítome de um burro de carga do sexo feminino, o tipo que transformou o mundo juntamente
com seu trabalho. Drake viu aquela mulher em milhares de casas, trabalhando nos campos ao
redor do mundo, varrendo as ruas de Moscou. Todo o sofrimento e a força da raça humana
estavam logo ali, em seus ombros inclinados e olhos cansados.
Incrível.
A porta atrás dele soou quando alguém entrou na galeria.
Feinstein esticou-se para olhar e seu sorriso se ampliou.
—E aqui está a própria artista. —Ele olhou para Drake vestido em suas roupas pobres. —
Tome seu tempo para apreciar as pinturas, — disse gentilmente.
Drake sentiu-lhe antes de vê-la. Um cheiro doce, como a primavera e o sol, e não um
perfume. Completamente fora de lugar nas emanações de Manhattan. Seu primeiro pensamento
foi: Nenhuma mulher pode viver com aquele cheiro.
—Olá, Harold, — ouviu uma voz de mulher dizer por trás dele. Eu trouxe alguns desenhos
feitos com tinta da Índia. Pensei que você poderia gostar de olhar. E terminei o beira-mar. Fiquei
acordada a noite toda para fazer isso. —A voz era suave, extremamente feminina, com um sorriso
nela.
Seu segundo pensamento foi, Nenhuma mulher pode viver com essa voz. A voz era suave,
melódica, parecendo uma nota de diapasão3, reverberando por ele tão fortemente que ele
realmente tinha que se concentrar nas palavras.
Drake virou-se – e olhou fixamente.
Todo seu corpo congelou. Ele se viu absolutamente incapaz de se mover por um segundo,
dois, até que conseguiu se livrar da paralisia por pura força de vontade.
Alguma coisa, algum instinto atávico de sobrevivência presente em seu DNA o fez se afastar
para ela não poder vê-lo de frente, mas ele possuía uma excelente visão periférica e observou
atentamente como a mulher, Grace, abria uma grande pasta com seus desenhos e começou a
colocá-los com precisão sobre uma mesa de vidro enorme. Então ela desenrolou o que parecia um
carretel de papel de dez polegadas de largura.
Porra. A mulher era... requintada. Mais do que bonita. A beleza não era nada hoje em dia.
Qualquer tipo de beleza, por mais perfeita que fosse, podia facilmente ser comprada. Os
americanos tinham recursos para o melhor de tudo. As meninas cresciam com boa nutrição,
dentistas, bons cirurgiões plásticos, cabeleireiros, dermatologistas. Parecia que todos tinham bons
dentes, cabelo saudável, pele clara. Tudo isso não era nada, porque todas essas coisas podiam ser
compradas.

3
Instrumento metálico em forma de forquilha, que serve para afinar instrumentos e vozes através da vibração de um som musical
de determinada altura.

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Ela não era muito alta. Pernas longas, pescoço comprido, dedos longos e flexíveis. Ela virou-
se ligeiramente, mais com a graça de uma bailarina do que a força de um atleta. Seus cabelos na
altura dos ombros pareciam ter sido lavados recentemente, mas não por um cabeleireiro. Lavados
e deixados para secar ao ar. Não havia perfeição, exceto por seu brilho e as cores de um
amálgama de cobre e castanho claro. Ela se moveu para baixo de um refletor do teto e seu cabelo
ganhou vida, uma explosão de cores brilhantes.
Ela estava sorrindo para Feinstein, mas havia um ar de melancolia ali, uma tristeza, como se
tivesse olhado no coração do mundo muitas vezes e o tivesse encontrado frio e escuro.
Drake reconheceu aquele olhar. Ele via o mesmo olhar no espelho todas as manhãs.
Ela estava sem adornos, sem maquiagem, sem joias, sem roupas extravagantes. Mas assim
era como deveria ser, porque ela era quase extravagantemente bela. Qualquer jóia seria
simplesmente para desviar o olhar da pele de porcelana, dos olhos verde-azulados, das altas
maçãs do rosto perfeito, da boca cheia, sensual.
O ar fresco soprou acompanhado de uma campainha. Três pessoas entraram na galeria, dois
homens e uma mulher. Eles foram imediatamente atraídos para as obras de arte nas paredes,
plantando-se na frente das telas com sons de huummm.
Eram uma cobertura maravilhosa para ele.
Circulando lentamente, sem fazer qualquer ruído, Drake chegou até onde ficava em linha
reta de visão do que Grace estava mostrando ao dono da galeria, folheando os desenhos.
Milagres. Isto é o que ela estava mostrando ao proprietário. Fodidos milagres, cada um.
Desenhos de praticamente tudo sob o sol. A mulher parecia desenhar tudo o que aparecia
em sua linha de visão e, em seguida, como se o mundo não fosse suficiente para sua imaginação,
havia algumas fantasias, como um dragão no topo de uma colina, tão finamente desenhado como
qualquer clássico chinês.
Dois meninos no Central Park. Um policial a cavalo, com as costas eretas, olhos para frente,
pronto para qualquer coisa. Um vendedor de cachorro-quente olhando para o lado com um leve
sorriso no rosto. Um vaso de cristal numa explosão de rosas vermelhas, uma pétala caindo... um a
um ela os colocou na mesa para Feinstein, que os examinava cuidadosamente, seu rosto não
demonstrando nada, mas se Drake fosse dono da galeria ele teria pulado de alegria antes de abrir
o talão de cheques.
Claro que essa não era a maneira de se fazer negócio e ninguém melhor que ele sabia disso.
Você tem que jogar com calma e nunca mostrar sua mão neste tipo de jogo. Nunca deixar as
emoções interferirem numa transação comercial. Mas este tipo de arte estava fora de qualquer
forma de comércio. Era mágica pura.
Mas havia mais por vir.
Ela foi abrindo uma extremidade do que tinha enrolado embaixo do braço, entregou para
Feinstein e, em seguida, começou a caminhar para trás, desenrolando a tela e sorrindo quando os
olhos de Feinstein se arregalaram. Nenhum dos dois prestava atenção nele, então Drake deu uma
boa olhada, esquecendo-se de respirar por um segundo.

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Eles estavam desenrolando o litoral de Manhattan, construído em detalhes arquitetônicos


na tinta preta. Na tela que ia se desenrolando, cada curva de cada edifício, preciso, perfeito. Ele
reconheceu cada centímetro do trabalho e podia ver até mesmo seu próprio edifício. Apenas o
último andar estava visível, a cobertura onde ele morava. Em detalhes perfeitos. Nunca vira nada
parecido.
Será que ela passou meses em algum barco ancorado, desenhando? O notável era a fineza
dos traços, sem nenhum erro. Ela acabou de desenrolar e segurou o final da tela. Tinha pelo
menos doze metros com cada detalhe perfeito.
Os três recém-chegados se reuniram em torno da tela, soltando exclamações de oohh e
ahhh, caminhando lentamente ao longo dela, os olhos colados à linha costeira em miniatura,
apontando edifícios familiares. Feinstein puxou um pouco mais o desenho para que eles pudessem
ver melhor e Drake quase teve um ataque cardíaco. Porra, um pouco mais de pressão e o papel se
rasgaria e algo precioso e insubstituível estaria perdido.
Drake mal se segurou para não atacar o dono da galeria. Ele teve que conscientemente
congelar seus músculos e esperar que Feinstein percebesse que tinha que puxar o papel apenas
com energia suficiente para mostrar a obra e não com força para rasgar.
Caso contrário Drake iria cortar suas mãos fora.
Opa. Desde quando ele tinha este tipo de pensamento? O homem era corpulento, idoso,
com as mãos macias manchadas pela velhice. O dono de uma galeria de arte, pelo amor de Deus.
Drake não atacava civis e certamente não iria atacar um senhor idoso, principalmente aquele que
tinha sido especialmente gentil com ele e era amigo da notável artista.
Mas ainda assim, por um segundo, quando pensou que o milagre estampado na tira de
papel seria destruído, pôde sentir suas mãos se fechando em torno do pescoço do homem e tudo
mais. Feinstein não teria durado um segundo. Drake sabia agarrar o pescoço de um homem desde
que tinha dez anos e só melhorou com os anos.
O trio andava ao longo da faixa indicando pontos de referência, a excitação em suas vozes.
—Franco, —a mulher ronronou, os lábios pintados de vermelho formando um ‘O’ ao final, —
este simplesmente ficaria divino em seu escritório, não? Ao longo de toda parede amarela.
—Si cara. — Franco balançou a cabeça admirado. —Eu poderia colocá-lo numa moldura
simples, para não ofuscar a clareza das linhas. A giorno.
Não! Meu! Drake apertou firmemente os lábios ou teria gritado as palavras.
Elas repercutiram em seu peito, rolando como enormes pedras de granito, forçando para
fora de sua caixa torácica.
Meu.
Ele não conseguia se lembrar da última vez que desejou algo tão ardentemente.
Ele era rico por um longo, longo tempo agora. Não havia nada de material que não pudesse
comprar. Nada. Recebera uma oferta para ter seu próprio país, uma diminuta ilha, um pedacinho
de terra mal se erguendo acima da água, mas ainda assim, um país lhe foi oferecido.

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Ele possuía um arranha-céu em Manhattan, além de vilas espalhadas pelo mundo todo.
Tinha aviões caros, carros caros, roupas caras, mulheres caras, porém ultimamente o sexo não lhe
interessava muito.
Fazia anos que não sentia essa queimação dentro do peito, que significava estar cobiçando
algo. Em sua infância, a queimação era particularmente forte no inverno, quando queria uma sala
quente. E sempre queimava quando sentia o cheiro de um restaurante e seu estômago vazio
roncava.
Era dessa forma que ele queimava agora. Ferozmente. Mas isso foi há muito tempo atrás,
em uma outra vida. Assim, a intensidade desse desejo tomou-o completamente de surpresa, o eco
da necessidade desesperada de uma criança na mente de um homem.
As coisas se reposicionaram em sua cabeça, este novo querer que queimava,
completamente inesperado, tornando-se completamente dele. Era como se o próprio conceito de
desejo houvesse desaparecido de sua vida e ele agora o saudava de volta, com um pouco de
cautela. Um velho inimigo que, de alguma forma, se transformou em amigo.
Olhou para as paredes e sabia que tinha que ter tudo aquilo para ele. Óleos, aquarelas,
desenhos. Tudo. Tudo tinha que ser dele, não havia outro jeito.
Teria que ser feito de forma anônima, através de um de seus muitos advogados, usando
uma de suas empresas de fachada.
Virou ligeiramente a cabeça para onde Grace Larsen observava os três patronos e Feinstein,
com os lábios levemente arrebitados. Ele tinha a nítida impressão de que ela não sorria muito. O
que ele entendia perfeitamente porque também não sorria muito.
As nuvens cinza de inverno do lado de fora deviam ter partido, porque de repente ela estava
repleta de luz, fazendo brilhar a pele, realçando um jogo incrível de cores no cabelo brilhante. Ela
estava no centro do retângulo de luz pintado no chão de madeira, como se estivesse num palco.
Feinstein estava começando a enrolar a tela de volta. Ele olhou para ela e disse: —Bem feito,
minha querida. Bravo.
Sua cabeça inclinou-se apenas um instante, um cavaleiro aceitando os elogios de um rei
justo.
A palavra minha rugiu na cabeça de Drake novamente, reverberando, quase o pegando de
surpresa.
Ao longo de toda sua vida, desde que ele desejava coisas, nunca quis pessoas. Nenhuma
especificamente.
Ele não tinha amantes, tinha parceiras sexuais.
Não tinha amigos, tinha funcionários.
Contratou os melhores profissionais em suas áreas, pagava-lhes mais do que o preço de
mercado e os deixava fazer o que melhor sabiam.
As mulheres iam e vinham, raramente permanecendo em sua vida por mais de uma ou duas
noites. Ele não pagava por sexo. Não precisava. As mulheres que vieram para sua cama entendiam
muito bem o que ele poderia oferecer. O agradecimento era enviado no dia seguinte em forma de
um presente da Tiffany, Fendi ou Armani, escolhidos em rotação.

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Ter uma mulher em sua vida, por mais que ele quisesse, era loucura.
Ele tinha várias camadas de segurança por uma razão. Ele tinha inimigos. Miseráveis inimigos
cruéis, alguns que remontavam há mais de vinte anos. Uma mulher com quem ele se preocupasse
teria um enorme alvo pintado em sua testa, uma maneira rápida e fácil de pôr abaixo suas
defesas. Ela seria o alvo mais fácil do mundo.
Não existia uma mulher viva que estivesse disposta a viver embaixo de seu pesado cobertor
de segurança, nunca sendo capaz de caminhar sozinha, nunca podendo fazer suas próprias
compras, nem mesmo autorizada a ir a um passeio, porque ele com certeza nunca deixaria sua
mulher ser um alvo.
E qual seria a graça de ser capaz de comprar todas as roupas e joias que quisesse e nunca ser
vista com elas?
Sem mencionar a possibilidade de filhos.
Deus, apenas a ideia de ter um filho o fez suar. Ele viu muitas crianças morrerem de forma
violenta. Ficaria louco se tivesse uma criança sua neste mundo frio e violento, um alvo para
alguém procurando vingança.
Então ele tinha encontros seguros, muito sexo seguro com parceiras ocasionais e isto era o
mais próximo que chegava de outro ser humano. Tinha poucas lembranças das mulheres que
passaram por sua cama. Se ele fechasse os olhos se lembraria de alguns pequenos detalhes. Uma
tatuagem na parte inferior do seio. A púbis depilada. Joelhos bonitos. Esse tipo de coisa.
E era apenas isso. Alguns detalhes das mulheres. Não conseguia se lembrar de seus nomes
ou suas vozes. Mal podia se recordar de seus rostos, mesmo logo após o sexo.
Mas ele se lembraria de sua face. Ah, sim. Cada detalhe.
Tudo em Grace era tão perfeito. Simplesmente... perfeito. Grandes olhos da cor do mar, o
cabelo que parecia ter mil tonalidades numa profusão de brilho, pele pálida, perfeita.
E um ar de melancolia em tudo isso.
Ela o enfeitiçara. Ela não sabia de sua existência, mas preencheu sua vida em um instante.
Grace Larsen era seu nome e ela vinha a Galeria Feinstein cada tarde de terça-feira, duas
vezes ao mês, como Drake descobriu rápido o suficiente. Quando chegou em casa deixou seu
negócio de lado para saber tudo sobre ela. Assim, a cada tarde de terça-feira em que ela aparecia,
Drake também estava lá. Em um beco, nas sombras, escondido e sozinho, olhando por uma
pequena janela que só lhe fornecia uma estreita visão da galeria e lhe proporcionava vislumbres
isolados de Grace.
Isso era loucura, uma insanidade, mas ele não poderia ficar afastado nem se tivesse uma
arma apontada para sua cabeça.
E agora era uma das tardes em que ela estava lá.
Ele estava a ponto de pagar o preço extremo por sua loucura.
O som de um corpo se movimentando. Ele tinha uma excepcional audição e foi capaz de
triangular a posição. Cerca de um metro atrás dele e um pouco à sua direita.

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O tempo passou em câmara lenta embora seu corpo se movesse mais rápido do que se
pensava, instintiva e violentamente. Ele ainda tinha frações de segundos antes de o gatilho ser
puxado, tempo suficiente para retirar-se de qualquer trajetória possível.
Drake era um lutador de chão. Ele caiu instantaneamente para o concreto frio manchado de
óleo. Quem quer que fosse o homem, Drake sabia que estava concentrado exclusivamente no tiro,
portanto, o equilíbrio não seria sua prioridade com toda a atenção de seu corpo focada em seus
olhos e mãos.
Provavelmente não estava nem sentindo ou percebendo os pés.
Drake treinara a si mesmo para estar ciente de todas as partes de seu corpo em combate,
mas sabia que a velocidade era a chave. Caiu e disparou sua perna; seu calcanhar enganchou no
pé do atirador e levou o homem para baixo com uma chave de pé.
Ele aprendeu SAMBO com um dos mestres russos. Uma vez que colocava o adversário no
chão, o homem era seu.
O homem balançou e caiu. Ele era alto como Drake instintivamente calculou a partir da
origem do som, mas era mais pesado do que Drake imaginou. O homem caiu de mau jeito, direto
sobre o joelho esquerdo de Drake. Uma explosão de dor veio através do joelho, quente, quase
insuportável. Por um segundo ele se questionou se quebrara o joelho, em seguida, expulsou o
pensamento. Se tivesse quebrado não havia nada que pudesse fazer agora.
Ele achava que não tinha fraturado. Conhecia a dor de lesão profunda e não era dessa forma
que estava doendo. Era apenas dor. E a dor podia ser ignorada.
Drake tinha o homem em uma meia guarda, o cotovelo contra seu pescoço, mas não podia
bloquear a parte inferior do corpo do homem com a perna ferida. Embaixo da jaqueta grossa de
seu oponente Drake podia sentir que ele era grande, com músculos sólidos. Incomum para um
atirador, e sua maldita má sorte.
Apesar de menos volumoso, Drake era forte e apto. Suas mãos eram muito fortes depois de
uma vida de judô. Grunhindo, suando, levou a mão direita para baixo onde o atirador estava
segurando a arma, tentando arrancá-la dele.
O atirador era forte, mas Drake era ainda mais forte.
Cavou seu polegar nos tendões do pulso do atirador sentindo o músculo no osso, em
seguida, sob seus dedos. Apertou com toda sua força desviando o cano da arma e ouvindo o
assobio dos disparos que atingiram a parede de tijolos e a janela de vidro, os escombros caindo
sobre eles.
Drake quebrou o pulso do homem e levantou a arma apontando para cima. Era uma SIG
P229. Uma porta lateral se abriu, um retângulo alongado de luz que incidia sobre a viela suja.
Duas pessoas estavam na porta com outros dois homens por trás delas.
Uma mulher pálida, bonita, com o cano de uma Beretta 84 apontado para sua cabeça e um
filete de sangue escorrendo pelo lado do rosto. O homem que segurava a arma contra sua cabeça
era alto, de cabelos compridos. Atrás dele outros dois homens de aparência latina, menores, mas
não menos cruéis. Capangas.

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As apostas estavam todas feitas. Porque a mulher com o sangue escorrendo pelo rosto era
Grace Larsen.
—Solte a arma. Agora. — A voz do latino era fria, ligeiramente rouca.
Drake hesitou. As armas dele iam além da SIG. Tinha uma Glock 19 no coldre em seu ombro
e uma Tomcat na cintura, mas entregar a SIG ia contra todos os instintos que possuía. Se ele
queria tirar Grace Larsen e ele próprio dessa situação com vida, precisaria de todas as vantagens
que poderia obter.
—Jogue, — o homem rosnou. Ele apertou o braço em torno do pescoço de Grace. Suas
narinas estavam brancas e abertas, seus lábios se tornando azuis. Ele estava cortando seu
oxigênio.
Drake poderia arrancar fora o braço do homem com um tiro. Não seria a primeira vez. Mas
não podia garantir que o homem não atingisse Grace ao menos uma vez antes de ser morto.
—Jogue.
Drake abriu a mão e deixou a SIG cair no chão.

Capítulo 2

Galeria Feinstein
17 de Novembro

—Seu admirador secreto vai amar este, —disse Harold Feinstein a Grace, segurando uma
tela em tons pastéis. Ela trabalhou nela um dia inteiro, sem comer, sem beber, parando apenas
para ir ao banheiro, trabalhando febrilmente para capturar os mesquinhos raios de sol de inverno
que passavam através da claraboia.
Ela vira a imagem quando acordara, ao se aproximar da janela para levantar os vidros. Uma
gaivota, que escapou do oceano para o concreto de Manhattan, as penas de um branco puro no ar
poluído da cidade, suas grandes asas abertas, montando guarda ao lado de um edifício construído
com tijolos do século XIX.
O edifício em frente a seu apartamento estava velho e desgastado, na lista a ser demolido
em breve, com velhas madeiras apodrecidas fechando as janelas, a porta da frente quebrada, um
lugar que ninguém mais amava. Pronto para morrer.
Em contraste, o pássaro resumia a novidade, a liberdade, a leveza – a capacidade de
simplesmente pegar e levar os problemas terrenos. Observou, em transe por alguns minutos,
como o pássaro revelava em seu voo, girando no céu acima da rua, leveza e graça. Totalmente
desumano e ainda assim simbolizando o melhor do espírito humano.
Quão duro trabalhou para capturar esse momento mágico de liberdade absoluta.

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Harold colocou o desenho com reverência sobre a grande mesa de vidro no centro da
galeria, ao lado das aquarelas que ela trouxe, alinhando seu trabalho como soldados coloridos. Era
um ritual que eles vinham seguindo por bem mais que um ano, desde que entrara em sua galeria
com um portfólio embaixo do braço e cento e cinquenta dólares em sua conta no banco.
Harold tocou a borda do papel com o dedo indicador e, em seguida, moveu-se para tocar
uma aquarela da neve da semana passada no Central Park.
—Ele vai amar este, —Harold murmurou. —E eu vou amar vendê-los a ele. —Seus olhos
reluziam atrás de seus óculos grossos. —Vou aumentar o preço novamente. Ele não vai reclamar.
Não quando ele ver isso.
Grace tentou não sorrir. — Harold, você não sabe se é ele ou ela. O homem que compra meu
trabalho em nome de outra pessoa é um advogado, pelo amor de Deus. Seu cliente pode ser
qualquer um, homem, mulher. Pode até ser um marciano, pelo que nós sabemos.
E o que importava quem era o cliente do advogado, ele ou ela, que estava comprando toda
obra de Grace e sequer titubeava quando Harold aumentava os preços? Após anos de luta,
tentando se estabelecer como artista, finalmente conseguia se manter com sua arte e ganhar
dinheiro fazendo isso. Depois de viver como estudante tendo que economizar sempre, ainda
sentia uma emoção enorme cada vez que verificava seus extratos bancários.
Quem estava comprando seu trabalho virou sua vida do avesso. Ela realmente não se
importava que quem quer que fosse que comprava seu trabalho não o expunha em lugar nenhum.
Harold disse que, normalmente, quando uma única pessoa comprava todo o trabalho de um
artista, a intenção era fazer uma enorme exposição para divulgação e investimento. Porém seu
cliente mantinha seu trabalho em segredo. Fora do país, ao que parecia.
Grace não se importava. Não estava no negócio para se tornar famosa. Era uma artista
porque não podia ser qualquer outra coisa, não e manter-se saudável. Tinha péssimas lembranças
de demissão em empregos temporários, como por exemplo, o de vendedora, onde tentava seduzir
mulheres a comprar coisas que considerava as mais absurdas e inúteis.
—Ah. Ele mais uma vez. — Harold parou e pegou um retrato. Um pequeno retrato completo
frontal em óleo de um homem forte com destaque em seus olhos escuros e cabelos curtos
escuros. Discreta e poderosa, uma cicatriz branca irregular descia ao longo de seu rosto. —
Diferentes, mas o mesmo. —Os olhos de Harold eram astutos quando se inclinou para ela. —Os
pesadelos voltaram?
Grace desviou os olhos, envergonhada ao recordar uma vez, quando esgotada por não
dormir, confessara a Harold os pesadelos que tinha, muitas vezes.
Não propriamente pesadelos, nem sempre. Sonhos vívidos apenas... muito – cheios de cor e
som. Muitas vezes mergulhado em perigo e mágoa. Tão completamente ao contrário da calma
progressão de seus dias, suas noites eram gravadas em sangue e turbulência.
Muitas vezes sonhara com um homem. O mesmo homem, sempre, embora cada vez em
situações distintas. Nunca via claramente seu rosto de qualquer forma, apenas ásperos
vislumbres, como se através de um espesso nevoeiro.

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Um queixo forte, nariz estreito, olhos escuros. De dia, quando tentava capturar a imagem do
homem no papel, seus traços pareciam derreter. Cada retrato que ela fez dele era diferente. As
únicas coisas comuns a todos os homens eram as características duras, olhos escuros, cabelo curto
escuro e uma cicatriz branca como um raio do lado esquerdo de seu rosto.
Ela viu-o muitas vezes pelas costas, indo embora. E toda vez que ele se afastava havia um
forte sentimento de perda e dor no ar. Nunca conseguia correr atrás dele, embora ela quisesse.
Sempre se via envolta numa espécie de paralisia horrível, própria do mundo dos sonhos.
Os pesadelos eram devido ao estresse, ela sabia disso. Leu todos os livros sobre o assunto,
porque ir a um analista estava fora de questão. Não tinha tempo ou até mesmo, a inclinação.
O que o psiquiatra podia dizer que ela já não soubesse? Que vinha de uma família altamente
disfuncional? Ora, não havia segredo nisso. Que o abandono do pai quando tinha nove anos, o
declínio e indiferença da mãe marcaram sua infância? Que estava tão imersa em sua arte porque
não se encaixava bem no mundo? Qual era a novidade nisso?
Não, análise seria um enorme desperdício de seu tempo e dinheiro. Grace pensava ter uma
boa leitura de si própria. Sobre o que poderia ou não fazer.
—... Molduras?
Oh! Deus, ela tinha feito isso novamente. Sair de si mesma quando alguém estava falando. E
esse alguém era ninguém menos que Harold. Ele cuidara dela, é verdade. Ele podia ser um
estranho para seu único filho, mas a tratava como uma filha amada. A amizade entre ambos
cresceu a ponto de se tornarem grandes amigos. Na realidade, Grace provavelmente falava mais
com ele nas poucas horas que passava a cada mês na galeria do que fazia com qualquer outra
pessoa.
E Grace também era consciente de que cada centavo que ganhou veio através dele. Não
ouvir enquanto ele falava com ela era incrivelmente rude e – pior – estúpido.
—Desculpe, Harold, eu não estava prestando atenção.
Ele deu sua risada característica, colocando uma mão sobre seu ombro.
—Não se preocupe minha cara. Onde quer que vá quando isso acontece, deve ser um lugar
muito mais interessante do que minha conversa sobre molduras e tonalidades.
Grace sorriu, envergonhada. Molduras e tonalidades eram pontos importantes em seu
trabalho. Harold trabalhava arduamente para garantir que cada pintura, aquarela, óleo ou
desenho fosse apresentado da melhor maneira possível.
Embora também fosse verdade que seu comprador misterioso ia abocanhando tudo que ela
produzia, não importando tons ou molduras.
—Venha. — Ele disse suavemente. —Deixe-me fazer uma xícara de chá. Chá era o remédio
de Harold para quase tudo.
—Ok, eu vou. — Grace se virou ao som da campainha da porta. Clientes. Ela se afastou um
pouco. Clientes significavam vendas para Harold. Eles poderiam ter seu chá depois.
Apenas que... eles não se pareciam com possíveis compradores de arte. Na verdade,
pareciam perigosos.
Grace retornou para o lado de Harold.

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Ela morava sozinha em Nova Iorque e conhecia o olhar dos homens perigosos o suficiente
para que nunca se visse em apuros, porque conhecia o bastante para evitar os lugares perigosos
onde eles costumavam se reunir. A galeria de arte Feinstein era o último lugar na terra em que iria
pensar em termos de problemas deste tipo.
Mas o problema estava andando pela porta, agora em direção a eles.
Três homens, um alto, de costas largas, com pele ruim, vestido com um casaco de couro
preto longo, os outros dois mais baixos, um vestido em um caro terno de lã e o outro com jeans e
jaqueta. Entraram na galeria em fila indiana, os passos ecoando no chão de madeira, depois se
espalharam, como se estivessem cobrindo território.
Não eram parecidos, mas trocaram um frio olhar de ameaça olhando para Harold e ela,
como tubarões para peixinhos no aquário.
Algo frio e desagradável acabara de entrar na galeria brilhante e civilizada de Harold. Aqui
dentro, tanto ela como Harold podiam esquecer, por um momento, o mundo lá fora, abrigados
em meio a arte e chá.
Mas agora o mundo exterior estava aqui, alinhado na frente deles como pistoleiros
aguardando o sinal para disparar. Houve um momento de silêncio completo e total, os três
homens olhando para eles, a ameaça vindo em ondas visíveis. Seu coração disparou forte, soando
alto em seus ouvidos, como um tambor.
Grace se aproximou de Harold numa tentativa instintiva de protegê-lo, embora não
houvesse nada que pudesse fazer contra três homens com aquele olhar. Mas Harold era tão
vulnerável, tão frágil. Ele era idoso e tinha um problema cardíaco.
Ela tocou em seu ombro e podia sentir que ele estava tremendo.
Pelo menos ela era jovem e forte. E tinha uma lata de spray de pimenta na bolsa. Apertou a
alça da bolsa, disfarçadamente dedilhando e abrindo o fecho. A lata ficou acessível em um bolso
lateral. Não há sentido em ter uma arma se você tem que cavar até o fundo de uma bolsa para
encontrá-la.
Depois de respirar profundamente, Harold levantou-se e olhou para os homens:
—Posso ajudá-los, senhores? — disse. Ela ficou muito orgulhosa dele por sua voz firme.
As coisas aconteceram tão rápido que ela não teve tempo de reagir.
Inconscientemente esperava que eles respondessem à pergunta de Harold. Os séculos de
civilização perambulando em seu DNA exigiam, antes de qualquer ação, uma resposta. Qualquer
coisa de ruim que os homens estivessem trazendo para dentro da galeria seria feito depois de
responder a pergunta feita a eles.
O que aconteceu não teve nada a ver com civilização. Saiu direto das cavernas. Nenhuma
palavra foi dita. Chocante, o homem de casaco de couro se adiantou perfurando o rosto de Harold
e, em seguida, saiu para o lado, enganchando um braço grande em volta do seu pescoço num
movimento suave.
Harold caiu no chão como uma marionete cujos fios foram cortados. O sangue saía de sua
boca e seu nariz ficou sujo de sangue com cada respiração ofegante.

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Serie Dangerous 03

Com um grito Grace se lançou em direção a ele, porém foi brutalmente reprimida pelo braço
enorme em volta do pescoço, segurando-a com tanta força que estava cortando-lhe o ar. Ela levou
as mãos em forma de garra para a manga de seu casaco, mas não conseguia encontrar apoio
contra o couro fino e duro embaixo do antebraço.
O homem apertou mais, levantando-a até que os dedos dos pés mal conseguiam tocar o
chão, apertando tanto que ela viu estrelas dançando na frente dos olhos. Por dentro estava
gritando, lutando desesperadamente para chegar a Harold, mas estava presa como uma boneca e
apenas o som estridente de um gemido escapou de seus lábios.
Um aro metálico gelado foi apertado contra sua têmpora. Ela virou ligeiramente a cabeça
para entender o que era.
Uma pistola. Uma enorme arma preta, assustadora, apontada contra sua cabeça.
—Pare, — o homem disse simplesmente. Sua voz era profunda, gutural, desumana, com
aquele tom de comando total. Não havia nada que ela pudesse fazer. Em mais trinta segundos
estaria inconsciente de qualquer maneira, por falta de oxigênio.
A resistência era apenas inútil, mas, se ela abrigava alguma esperança de ajudar Harold, era
necessário que estivesse consciente e de pé.
Ela se acalmou imediatamente.
—Bom,—o homem resmungou, recompensando-a soltando ligeiramente a pressão contra
sua garganta. Seus pés tocaram o chão no mesmo momento em que sua garganta sofreu um
espasmo, chiando com o ar queimando seu caminho de volta a seus pulmões. Se estivesse livre,
teria dobrado o corpo para frente em um esforço para respirar melhor, mas o homem a manteve
presa pelo pescoço, deixando-a saber exatamente quem era o chefe.
O cano da pistola apertou sua testa até que a pele rasgou. Um filete de sangue quente
escorreu pelo canto do rosto.
Com cada golfada de ar ela respirava uma combinação nauseante de suor espesso
sobreposto por uma colônia para homens. A combinação era tão horrível que estava quase
arrependida de poder respirar novamente.
Fora da janela um homem de negócios passava apressado, o vento chicoteando seu cabelo.
Algumas gotas de chuva pesada caíram na calçada e ele colocou a pasta de couro sobre a cabeça
para se proteger da chuva.
Ele poderia estar na lua por toda a ajuda que oferecia.
Um dos homens, após consultar o relógio, disse para o homem vestido com casaco de couro.
—É hora.
O homem simplesmente a levantou novamente e, mais compacta e disciplinada que uma
tropa militar, os três homens – o de casaco de couro segurando-a como se fosse uma boneca
desmembrada sendo levada num passeio pelo parque, caminharam juntos e rapidamente para
uma porta lateral, que Grace sabia, dava para um beco, uma saída lateral da galeria. Uma vez
ajudara Harold a descarregar algumas caixas por ali, era um beco escuro, o contraponto da selva
urbana suja e feia com a arejada e bem iluminada galeria.

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Serie Dangerous 03

Havia uma pequena janela na parede norte da galeria, com vista para o beco. Ela olhou pela
janela e ofegou. Dois homens estavam lá fora, um apontando uma arma grande e preta na cabeça
do outro. O homem que segurava a arma era alto, pesado, com longos cabelos castanho-
avermelhados e sua vítima era mais baixa, com as costas largas, com cabelos escuros e curtos.
O homem de cabelos compridos com a arma na mão apertou o dedo no gatilho. Grace ficou
horrorizada ao pensar que estava prestes a testemunhar um assassinato a sangue-frio. Se pudesse
teria gritado um alerta para a vitima, mas mal tinha ar suficiente para respirar. E mesmo se
pudesse gritar, o som não atravessaria a espessura da janela.
Instintivamente, porém, lutou contra o homem que a segurava, tentando fazer algum tipo
de som que alertasse o homem lá fora.
Talvez se ela chutasse a parede...
A vítima de cabelos escuros de repente desapareceu e Grace paralisou, atordoada. Ele
estava lá e então... não estava. Ele simplesmente desapareceu.
O tonto que a segurava virou-se para frente, juntamente com os outros dois bandidos, na
pequena janela. A visão do beco era clara e podia ver que o homem não tinha desaparecido.
Simplesmente caíra no chão como uma pedra. Ela pensou que ele havia sido baleado, mas parecia
que... Oh! Meus Deus, sim. Ele não estava fora do jogo. Ele estava lutando. No chão.
E ganhando também, pela aparência da briga. Ele deu algum golpe complicado em seu
agressor que o deixou totalmente paralisado.
As pernas da vitima estavam apertadas em torno da cintura do atacante e ele segurava seu
pescoço na curva do cotovelo, apertando. Uma das mãos desceu para tirar o revólver do atacante,
que chutava loucamente, como um porco no matadouro, mas nada que ele fez conseguiu
desalojar o homem de cabelos escuros. A arma caiu no chão e o homem moreno a pegou,
manuseando-a com familiaridade.
Um dos bandidos chutou a porta que dava para o beco e o homem que estava segurando
Grace a colocou em sua frente até que se encontrassem na soleira da porta, iluminados pela luz
que vinha da galeria.
Os dois homens que estavam no chão olharam para cima, ambos respirando com
dificuldade, forçando os músculos.
—Solte a arma. Agora. — A voz do homem que a segurava era rouca, como se ele não
falasse muito, com um forte sotaque hispânico. Ergueu o braço até que os pés dela estivessem
novamente balançando. Todo o lado direito de seu rosto estava coberto de sangue agora. Ela
podia sentir o cheiro escuro e metálico de seu próprio sangue. —Largue isso ou eu atiro na cabeça
dela.
Deus. Vendo o ataque, no beco, ela tinha, por um segundo, esquecido completamente do
homem que apertava seu pescoço com uma arma apontada para sua cabeça. Ela começou a
tremer. Não tinha ideia de que era a vitima do ataque. Como podia seu trabalho ser uma ameaça?
Ele bateu nela com o revólver e ela percebeu que seu coração estava um segundo longe de parar
para sempre.

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Serie Dangerous 03

Torceu o corpo no aperto de seu captor tentando se livrar dele, agora desesperada para
fugir. Não tinha oxigênio suficiente em seu cérebro para fazer planos, só sabia que não iria morrer
sem brigar.
O braço em volta de seu pescoço era como aço, os músculos que podia sentir ao lado e ao
longo de suas costas eram duros e grossos. O peso dele superava o dela em, pelo menos, cem
quilos. Lutar era loucura.
Mas a parte animal dela recusava-se a morrer sem lutar. Grunhindo, arranhou novamente o
braço em volta de seu pescoço e chutou tão duro como podia suas canelas, mas tudo que
encontrou foi algo duro e inflexível. O homem usava botas acima dos joelhos.
Oh! Deus, ela ia morrer. Aqui e agora. Todas as coisas que deixara de ver em sua vida, todas
as pinturas que queria criar, a música que queria ouvir, os passeios que queria fazer – já era tarde
demais.
—Jogue, — disse seu algoz rudemente.
O homem de cabelos escuros manteve seu olhar fixo no bandido sem pestanejar, sob a
chuva que caía e jogava uma neblina no beco.
Sua visão estava falhando, luzes giravam em frente a seus olhos. Havia uma maçante
escuridão nas bordas de suas vistas. Seu atormentador disse novamente.
— Jogue.
Jogar o quê? O que ele estava falando?
Um barulho no chão. Seu algoz não estava falando com ela. Ele abordou o homem de
cabelos escuros que jogou a arma no chão oleoso e sujo que tirara de seu pretenso assassino. Ele
se levantou lentamente.
O homem disse calmamente.
— Solte-a. Tinha uma voz profunda e calma, com uma pitada de sotaque. —Ela vai morrer
sufocada assim.
—Suas outras armas primeiro.
O homem de cabelos escuros colocou a mão dentro de sua jaqueta e tirou um revólver.
Segurou-o cuidadosamente pelo cano.
—A trava de segurança está ligada, como você pode ver. Agora, deixe-a respirar. —
Surpreendentemente, o comando na voz calma foi suficiente para o braço em torno de seu
pescoço afrouxar. Seus pés arranharam, tocaram o solo pela primeira vez no que pareciam horas.
Grace respirou profundamente num chiado, esperando não ser seu último suspiro. Embora o
braço houvesse afrouxado o agarre, a arma ainda era uma sólida presença em sua cabeça. Ela
ainda estava tão perto do homem que a prendia que podia sentir suas vibrações enquanto ele
falava.
—O resto de suas armas, —ele disse para o homem de cabelos escuros.
A arma saiu da sua cabeça, o cano frio correndo horrivelmente pelo pescoço, arrastando
para baixo sobre o braço e foi parar em seu cotovelo.
—Ou então eu faço um buraco em seu cotovelo. E outro no ombro. Vou explodir seu braço
direito. Primeiro um, depois o outro. E então sua rótula. Ela vai morrer pedaço por pedaço.

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Grace estava tremendo tanto que seus dentes faziam barulho. O tom baixo do homem era
prosaico, não ameaçador, o que tornava tudo ainda mais horrível. Ele poderia estar pedindo uma
bebida num bar e não ameaçando matá-la aos poucos.
O medo criou um lamento gelado em sua mente. Olhou ao redor freneticamente, querendo
saber se esta seria sua última visão sobre esta terra.
Um beco sujo na chuva, luz turva de um lado, a escuridão úmida no outro. Um de seus
poucos amigos, Harold, por trás dela no chão, ferido, se já não estivesse morto com o golpe. E
quatro homens, todos violentos, todos perigosos, todos armados. Eles queriam algo do homem de
cabelos escuros e, loucamente, a estavam usando para obtê-lo.
Embora pressentisse o perigo que vinha dos três homens que invadiram a galeria, não sentia
o mesmo perigo vindo do homem de cabelos escuros que foi atacado. A ameaça que ele irradiava
estava fortemente centrada no homem que a segurava.
—Vá em frente. —O homem que a segurava rosnou. A arma bateu terrivelmente contra o
seu cotovelo. —Dê-me uma desculpa para atirar.
Grace olhou para o homem que a apertava. Ele estava sorrindo para o homem de cabelos
escuros. Ele nunca olhou para ela. Ela tinha um sentimento horrível, quase como se não existisse
para ele. Ela era como uma ferramenta pendurada no braço, útil para obter algo que ele queria, de
nenhuma importância intrínseca. —Estou esperando. Espero que você me dê a desculpa para
matá-la devagar e pouco a pouco. Eu vou aproveitar.
Sem dúvida que sim. A crueldade estava gravada em cada linha de seu rosto.
O homem de cabelos escuros colocou a mão em sua cintura puxando uma arma de trás dele.
Movendo-se lentamente, colocou a arma no chão.
—Facas, — seu algoz disse asperamente. —E não me diga que você não tem nenhuma.
Em um segundo, duas facas afiadas e reluzentes caíram no chão.
Sei que você carrega uma Karambit. Fora com ela.
Uma faca curva, afiada quase cirurgicamente, caiu no chão num piscar de aço.
O homem que a segurava resmungou.
O atacante no chão se levantou, estremecendo, com um sorriso de vitória. Ele foi superado
em uma luta, mas agora as probabilidades estavam a seu favor.
—Vire-se, — O homem que a apertava, grunhiu ao homem de cabelos escuros.
Grace soltou um suspiro alto no beco. O homem de cabelos escuros estava desarmado e
indefeso. Eles já tinham tentado matá-lo uma vez e agora estavam a caminho de terminar o
serviço.
Ela não tinha ideia de quem ele era, mas sentia-se ligada a ele de alguma forma. Ele abriu
mão de suas armas para protegê-la. Ela não tinha ideia se ele poderia ganhar em uma luta contra
quatro homens, mas a forma como lutou provou que não morreria facilmente, não sem infligir um
grande dano. O homem de cabelos escuros sabia como se defender, para não mencionar o fato de
que era um pequeno arsenal ambulante.

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Talvez ele fosse um cara ruim, também, como os outros quatro. Talvez ela tivesse tropeçado
em algum tipo de guerra de territórios de traficantes de drogas ou algo assim. Talvez eles fossem
da máfia.
Ela podia acreditar nisso com certeza sobre os quatro homens, mas achava difícil acreditar
nisso para o homem de cabelos escuros, por alguma razão especial, seu cérebro privado de
oxigênio, via que ele tinha um olhar diferente.
Quem era ele não importava, ele irritou os criminosos e na teoria que o inimigo do seu
inimigo é seu amigo, ela estava do seu lado. Como ele estava do lado dela. Ele se permitiu ser
desarmado e ia provavelmente morrer, agora, para poupá-la.
Não. Cada célula do seu corpo rejeitou a ideia. Ele não ia morrer, abatido como um animal.
Ela não deixaria. Além do mais, no instante em que ele morresse, ela estaria morta também. Ela
viu o olhar dos bandidos. Eles não eram do tipo que deixavam testemunhas para trás.
Junto com algum oxigênio, um pulso elétrico percorreu-lhe, vindo do solo, dando-lhe força.
Não estava pronta para morrer. Não aqui, neste beco sujo, e não agora, a dois meses de seu
vigésimo oitavo aniversário. E nem ele ia morrer. Ela encontrou seus olhos, o castanho mais
profundo que já tinha visto. Seu olhar era claro, direto e triste.
Grace pegou seu olhar, desejando que ele olhasse para ela, para seguir os seus
pensamentos, lançando os olhos para a bolsa. Ele pôde ver que o fecho estava aberto. Ela olhou
deliberadamente para sua bolsa, para ele e para o homem que a segurava. Uma e outra vez.
Ele entendeu. A ligeira aura de resignação e derrota se foi. Grace observou como ele se
transformou em um guerreiro, bem diante dos seus olhos. Seu peito largo expandido quando
tomou respirações profundas, como os nadadores antes de fazer um mergulho a distância. Sua
postura mudou, tornou-se elástico como se equilibrado na ponta dos pés. Os outros homens
pareciam ignorar a mudança. Estavam exultantes, certos de que ganharam esta batalha, e não
estavam prestando atenção.
O que foi perfeito.
Grace não tinha ideia de quão bom lutador era este homem, mas estava disposta a arriscar
tudo para descobrir. E se ele não podia ganhar de quatro homens, ela preferia morrer com um tiro
na cabeça tentando escapar do que pela lenta tortura.
—Ei! —Disse o homem que a segurava contra ele. —Você me ouviu! Vire-se agora, seu
fodido, ou eu atiro e vou mandar um pedaço dela até aí.
O homem com o casado de couro estava distraído com o drama. Como todos os valentões,
apreciava o controle, imaginando a vitória antes que acontecesse, simplesmente porque era
impensável perder. Ela conhecia pessoas como ele, que amava o exercício avassalador do poder
sobre os outros, porque isso alimentava seu ego. E o ego dele estava inchado agora, apontando
uma arma para uma mulher, diante de um homem desarmado. O tipo de probabilidades que o
grosseirão amava.
Grace podia senti-lo relaxar, deixar cair sua guarda, pronto para apreciar os próximos
minutos. Era um negócio feito, na medida em que ele estava pouco preocupado.
Por cima do seu cadáver.

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Serie Dangerous 03

Ela esperou um pouco, permitindo que a aderência do casaco de couro afrouxasse mais, deu
um aceno de cabeça para o homem, esperando que ele compreendesse, enfiou a mão na bolsa
com um movimento rápido como um raio, trouxe o tubo de pimenta até a cara do homem e
esguichou tudo em seus olhos.
Seus gritos podiam ser ouvidos até em Nova Jersey. A grande arma preta caiu no chão
enquanto ele levava as mãos aos olhos, morrendo de dor e raiva.
O que ela viu ao lado foi inacreditável. O homem de cabelo escuro se moveu quase rápido
demais para que ela pudesse enxergar. Antes que sua mão estivesse na frente do rosto do homem
de casado de couro, ele estava no ar, girando, chutando com o pé e golpeando seus adversários.
Mal pousou levemente em seus pés antes de golpear novamente.
Grace cambaleou para trás, esperando que o homem de cabelos escuros soubesse o que
estava fazendo, porque ela acabara de colocar sua vida em suas mãos.
O homem com o casaco de couro a mataria se colocasse as mãos nela de novo.
Eles caíram como árvores derrubadas: um-dois-três-quatro. Ela ainda não havia registrado o
que viu quando o homem se endireitou, e, respirando normalmente, sem perder o fôlego, tirou
algo elegante e preto do bolso e falou por alguns momentos, numa língua que ela não entendia e,
em seguida, o guardou.
O homem do casaco de couro estava deitado no chão em posição fetal, seus gemidos
desesperados buscando ar ecoando nas paredes do beco. O homem que atacou o de cabelo
escuro estava do seu lado, os olhos girando. O homem de terno de lã estava imóvel, inconsciente,
seu braço dobrado em um ângulo não natural. O homem de jaqueta reluzente tinha ossos brancos
aparecendo através de seu jeans, o sangue se acumulando embaixo dele. O chute quebrou seu
fêmur. Ele estava sangrando muito, a chuva jorrando a água vermelho-sangue debaixo dele para
os esgotos.
Grace estava na chuva, chocada e tremendo.
O homem de cabelos escuros olhou para os quatro homens por um segundo, seu rosto frio e
distante, então calmamente inclinou-se e agarrou seu pescoço com uma torção eficiente de suas
mãos enormes. Ela conseguiu ouvir o crack da cartilagem, quatro vezes. Então, ele calmamente
pegou suas duas armas e suas facas.
Grace se inclinou, pronta para vomitar as tripas para fora, quando uma mão forte agarrou
seu braço.
—Nós não temos tempo para isso, — disse o homem de cabelos escuros. —Desculpe.
Ela se endireitou e olhou-o em cheio no rosto, fazendo uma careta, esperando um monstro,
esperando ver a brutalidade e selvageria. O que viu em lugar disso era uma espécie de gentileza
cansada que parecia muito com remorso.
—Eu sinto muito. — Sua voz profunda era baixa quando ele passou a mão enorme em torno
de seu braço. —Por tudo. Mas agora temos que ir.
Embora sua voz fosse calma, ele movia-se rapidamente. Em um momento, estavam na boca
do beco, saindo para a rua. Ele ainda tinha a mão em torno de seu braço. Não estava segurando

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Serie Dangerous 03

com força suficiente para machucar, mas parecia ser capaz de empurrar para frente através da
chuva como se tivesse rodas em vez de pés.
Em um instante, estavam na calçada e o homem estava verificando a rua com cuidado, o
tipo de verificação que um soldado faria ao terreno inimigo.
O sino sobre a porta da galeria tocou e Harold apareceu na porta. Ele agarrou o batente para
se apoiar. Um olho estava inchado e fechado e seu rosto estava ensanguentado. Ele piscou, então
a viu. O coração de Grace apertou quando viu as emoções em seu rosto. Sua mão livre se
estendeu para ela, tremendo, metade dentro e metade fora da porta.
—Grace. Oh meu Deus, você está viva. —A voz trêmula de Harold estava fraca, quase
inaudível pela chuva.
As lágrimas correram de seus olhos. Harold, seu amigo. Ela adiantou-se e foi travada pela
mão forte do homem de cabelos escuros em torno de seu braço.
Ela encontrou seus olhos.
—Deixe-me ir. — Queria gritar, mas sua voz saiu num sussurro rouco. Puxou sua mão, mas
era como puxar contra um pilar de aço. Ele não ia deixá-la ir.
—Grace, — Harold tremeu, a mão estendida.
Cada músculo em seu corpo estava tenso e tremendo, incluindo os músculos em sua
garganta. Ela tinha que tossir para falar.
—Por favor. — Ela tremia tanto que mal podia suportar. —Deixe-me ir até ele. Ele está
ferido, precisa de ajuda.
A chuva caía com força agora, movendo-se em lâminas de água pela rua. Ela estava
encharcada e gelada até aos ossos. Estava assustada e queria chegar a Harold agora. Se ela estava
com medo e sofrendo, ele estaria duplamente.
O homem moveu seu corpo para que ele estivesse entre ela e a rua. Seus ombros eram tão
largos que não podia ver ao seu redor, ele bloqueava sua linha de visão. Ele examinou os edifícios
em volta novamente.
A chuva estava fazendo o sangue correr pelo rosto de Harold, sua camisa branca salpicada
de cor rosa pálido, revestindo seu esparso cabelo cinza contra o crânio. Ele balançava.
—Ah, meu Deus. — O coração de Grace estava batendo forte. Colocou a mão sobre o
homem, onde ele estava segurando seu braço, a mão tão grande que dava a volta em torno de seu
braço com casaco e tudo, e quase arrancou a mão dela do calor. Ele estava fora no frio congelante,
mas a sua enorme mão estava tão quente que parecia um ferro contra o casaco molhado. —
Deixe-me ir até ele, por favor.
Outro puxão, as mãos do homem apertando ainda mais forte, e de repente... Harold
desapareceu. Ou sua cabeça o fez. No lugar onde sua cabeça estivera, existia agora uma névoa
rosa dissipando rápido na chuva. Metade de um segundo depois, Grace estava de bruços na
calçada e um homem de uma tonelada estava sobre ela. Algo estava assobiando, buracos surgiam
no pavimento, nas paredes da galeria. Fragmentos de concreto caíam sobre ela.
Grace ficou tão chocada, que levou segundos para perceber que os estalidos eram tiros.

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Serie Dangerous 03

—Maldição. Um atirador de elite. —A voz profunda e baixa estava falando em seu ouvido
direito, tão perto que podia sentir o sopro do seu hálito. Ele levantou e puxou-a de perto do meio-
fio, até que estivesse descansando contra o para-choque dianteiro de um veículo grande e preto.
—O bloco do motor deve segurar uma bala. Fique aqui e não se mova.
Outro estalido soou e seu corpo pesado parecia ter levado um solavanco.
Grace levantou um pouco a cabeça para olhar para ele. Ela não processou as suas palavras
de maneira alguma. Olhou para trás, para a rua, onde uma coleção de roupas manchadas ia se
alastrando através da porta de entrada da galeria, as águas da chuva lavando a roupa que estava
vermelha, ficando rosa, e seguindo para a sarjeta. Nada disto fez qualquer sentido, principalmente
os restos de seu melhor amigo, uma massa de carne despedaçada rosa e cinza.
—Harold, — ela sussurrou, sua voz tremendo tanto que mal conseguia articular.
—Está morto, —disse o homem brutalmente. —Agora temos que ficar vivos. Não, caramba.
—Ele trouxe um braço como ferro sobre suas costas. Ela tentava levantar-se cegamente,
colocando as mãos trêmulas no chão para erguer-se até... para ir até Harold.
Para fazer alguma coisa.
—Fique aí, caramba, — o homem sobre ela assobiou. Uma grande mão cobriu a parte de
trás de sua cabeça e apertou até que seu rosto estava deitado no asfalto áspero. Ela assistiu a
grandes gotas de chuva cair e saltar para cima do concreto, sua mente completamente em branco,
vazia.
O homem pesado em cima dela mexeu-se e começou a falar em uma voz baixa, profunda e
urgente. O que ele estava dizendo? Fosse o que fosse, não havia resposta possível dentro dela.
Estava muito chocada para entender mais do que algumas palavras aqui e ali. Atirador de elite a
oeste... ao lado de Lexington, na janela do segundo andar, provenientes de Park...
Levou alguns segundos para perceber que ele não estava falando com ela, mas em um
celular. Estava discutindo algum tipo de estratégia. As palavras voavam em sua cabeça. A única
coisa que penetrou a névoa em sua cabeça era o tom calmo e profundo de sua voz, a segurança.
Poderia ser um homem discutindo o menu da refeição noturna. Era incrível pensar que a voz
vinha de um homem debaixo de um tiroteio.
Até seu corpo estava calmo. Sua jaqueta deve ter sido aberta, porque ela podia sentir o calor
do seu peito largo em suas costas. Sua pulsação era forte e constante, ao contrário da sua, que
parecia um martelo, batendo selvagem e alto em seu peito. A respiração dele era calma, regular,
enquanto ela estava engolindo em grandes sorvos o ar que a sufocava e queimava seus pulmões.
Um clique e o celular foi fechado.
As lágrimas corriam pelo seu rosto, perdidas na chuva.
—Meus homens estão chegando. — A voz profunda e calma ao lado de seu ouvido
novamente. Era uma loucura, mas de alguma forma, sua voz a acalmou, pelo menos um pouco. —
Eu vou tirar você daqui, eu prometo.
Uma mão enorme se colocou ao lado de seu rosto na calçada. Ele estava segurando uma
arma grande e preta, com aparência oleosa. Outra coisa que chamou sua atenção. Uma grande

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Serie Dangerous 03

piscina de vermelho escuro se formando embaixo dela, espalhando-se e tornando-se rosa na


chuva.
Ela levou um tiro! Oh meu Deus, ela levou um tiro!
Grace parou de respirar por um momento, tentando fazer um balanço através de seus
sentidos despedaçados. Estava congelando, deitada em uma poça de água tingida de vermelho,
sua bochecha contra o pavimento bruto, tentando respirar, embora o homem em cima dela
pesasse uma tonelada. Estava com frio, chocada e aterrorizada.
Mas não estava ferida.
A quantidade de sangue que agora estava fluindo livremente para dentro das calhas era de
um ferimento grave e não estava vindo dela. Não era possível. Ela sentiria um ferimento dessa
profundidade.
—Você está...— Sua voz não saía de jeito nenhum. Ela tentou de novo. —Você está ferido.
Ele grunhiu em resposta e encolheu os ombros, o movimento enviando uma nova onda de
vermelho na calçada.
Grace lançou um olhar para cima, tentando avaliar o quanto ele foi ferido. Deus, se ele
estava morrendo, o que poderia fazer?
Mas ele não parecia estar morrendo. Seu rosto não mostrava de nenhuma maneira que
estava ferido. Ele não estava com o rosto contraído pela dor, nem sequer pálido. Sua pele tinha
aquele mesmo tom suave azeitonado de antes e ele parecia estar tentando solucionar um
problema de xadrez particularmente difícil, e não como se estivesse em uma situação de vida ou
morte, com um buraco no peito e um homem com um rifle apenas esperando que eles se
mostrassem. Surpreendentemente, quando seus olhos se encontraram, ele até sorriu.
Foi fraco e acabou quase antes de começar, mas era definitivamente um sorriso.
Moribundos não sorriam. Ou, pelo menos, ela não imaginava que o fizessem.
Só havia uma maneira de descobrir. —Será que vamos morrer aqui? — Ela sussurrou.
—Não. — Suas mandíbulas estavam cerradas. Nada vai acontecer com você, eu juro. Eu não
vou deixar.
Ele rolou para longe dela, arma em riste. Grace torceu a cabeça para observá-lo. Sua parca
tinha um grande furo e embaixo dele, um grande buraco no ombro, escorrendo sangue.
—Meu Deus, ela sussurrou. —Isso é grave. — Seus dedos arranharam a sua bolsa. Tinha
caído no meio da calçada, a abertura de frente para eles, graças a Deus. Pegou a ponta e começou
a puxá-la para ela. Tenho um lenço na minha bolsa. Posso usá-lo como uma bandagem para fazer
pressão e parar...
O mundo explodiu em seu rosto. Um segundo antes ela tinha as mãos em sua bolsa e agora
a seu lado havia um grande buraco na calçada e pequenos pedaços de couro preto flutuavam no
ar.
Os ouvidos de Grace zuniam como se todo o som tivesse sido levado embora. Seu rosto e
pescoço estavam feridos. Quando colocou a mão em seu rosto, ela saiu molhada e vermelha de
sangue. Todos os seus sentidos tinham ido embora. Estava gritando, mas não podia ouvir-se.

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Serie Dangerous 03

Perdeu todo o senso de acima ou abaixo e só quando o rosto do homem entrou em seu campo de
visão ela percebeu que tinha sido jogada de costas na calçada.
Sua boca se movia, os fortes traços em seu pescoço se movimentavam, por isso era
perfeitamente possível que ele estivesse gritando, mas ela não conseguia ouvir nada. Era como
estar morta, ou meio em coma. Mãos largas começaram freneticamente a tocá-la por todo o
corpo. Seus dedos longos examinando minuciosamente através de seu cabelo, sentindo cada
centímetro de seu crânio.
Ela estremeceu quando ele tocou a parte de trás de sua cabeça. Foi incrivelmente doloroso.
Talvez não estivesse morta, afinal.
O homem jogou seu casaco preto sobre a calçada e levantou-se com a grande arma preta
em punho. Segurou a arma com as duas mãos, mirando acima do topo do teto do carro e atirou
três vezes. Ela não conseguia ouvir nada, mas podia ver o retrocesso da arma e o impacto nas
mãos dele após cada tiro, voltando sempre à posição anterior. Três bonitas cápsulas de metal
brilhante giraram no ar. Uma delas caiu em sua mão e ela empurrou longe. Estava quente e a
queimou.
Então, de repente foi levantada em seus pés, um braço de ferro em torno de sua cintura, e
foi meio que arrastada para um carro que esperava na rua. Homens estavam à sua volta agora, em
um círculo apertado, de costas para ela. Grandes homens, vestidos de preto, todos portando
armas.
Foi literalmente jogada no banco traseiro de um carro grande, sua cabeça batendo contra a
janela. Outro corpo entrou, batendo a porta e o carro saiu tão rápido que pressionou-a contra o
assento. Um segundo depois, o carro virou uma esquina violentamente. Ela foi impelida contra a
porta e teria caído se não tivesse um braço ao redor de seus ombros, ancorando-a a um corpo
rígido do sexo masculino.
O carro correu pelas ruas, virando freneticamente em torno das esquinas. Grace teria sido
jogada brutalmente ao redor se não estivesse presa ao lado do homem.
Ela se enterrou junto a ele, a única coisa constante em um universo que oscilava
descontroladamente. Ela viu cinco homens mortos, viu a cabeça de seu melhor amigo ser
arrancada, alguém havia atirado contra ela. Era como se tivesse entrado em outra dimensão, um
mundo de trevas e perigo, selvagem e letal.
Uma voz profunda e calma soou em seu ouvido.
—Vai ficar tudo bem. — Não, nada ficaria bem. Nunca mais.
Fechou os olhos e se agarrou a ele enquanto o carro voava pelas ruas. O grande carro tinha a
suspensão excelente e o motorista era soberbo. Estavam viajando mais rápido que uma
ambulância ou um carro de polícia correndo atrás de um suspeito, mas é claro que sem a sirene,
por isso o motorista tinha que fechar outros carros como um homem enlouquecido. Era um
milagre que não colidisse e se incendiasse.
Grace estava em uma neblina de dor e choque, com apenas energia suficiente para esperar
que o carro não fosse esmagado contra um poste ou ao virar uma esquina. Ela se balançava contra
o homem, que a segurava enquanto seu sangue encharcava seu casaco. Quando sentiu a umidade

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ela se afastou, horrorizada ao ver a frente do casaco molhado com seu sangue. Olhou para ele,
para aquele rosto forte e calmo. Ele a olhou como se nada estivesse errado. Como se não tivesse
sido atacado, atingido por tiros ou ferido.
Mas o ferimento era real, ela podia ver a pele machucada.
— É preciso fechar esse ferimento com alguma coisa ou você irá sangrar até morrer.
O que usar para estancar o ferimento? O lenço em sua bolsa desapareceu. Um dar de
ombros e seu casaco estava fora. O forro era de seda e poliéster. Talvez isso faça uma bandagem
de pressão, embora não soubesse quais eram as propriedades de absorção do poliéster. Ainda
assim, era a única coisa que tinha, então começou a rasgar o forro. A mão dela foi coberta por
outra, grande, em tom de oliva.
—Não é necessário.
—Você está sangrando! — Grace podia ouvir a histeria em sua voz. De todas as coisas
horríveis que aconteceram desde que entrou na galeria de Harold, isto era algo que ela podia fazer
alguma coisa. Não muito, mas alguma coisa. —Nós temos que parar o sangramento. — Ela
golpeou o tecido, rasgando a parte de trás do casaco, pressionou contra o ferimento e segurou
firmemente.
Certamente estava doendo, mas ele não deu nenhum sinal de dor, nem mesmo um
grunhido. Apenas fechou os olhos enquanto ela pressionava contra seu ombro.
—Desculpe, — ela sussurrou. Ele parecia um pouco pálido agora, embora fosse difícil dizer
na cabine escura do carro. —Eu sei que estou te machucando. Mas logo estaremos no hospital e
eles vão dar pontos em você. Vai ficar tudo bem, você vai ver.
Falou palavras de conforto para ele. As palavras de conforto sempre eram alegres, muitas
vezes exageradas e muitas vezes falsas. A vida às vezes abria feridas que nunca cicatrizavam.
Esperava que não fosse o caso. Ele salvou sua vida.
O homem recostou a cabeça contra o encosto e fechou os olhos. Uma mão grande veio
cobrir a dela. Era chocante como ainda estava quente, considerando que ficara na chuva
congelante e a quantidade de sangue que perdera.
—Não vamos para o hospital, — disse baixinho. —Não é seguro.
Grace esperou um pouco, enquanto suas palavras penetravam seu cérebro cansado, então
estremeceu quando entendeu o que ele disse.
—Isso é loucura. É claro que temos que levá-lo ao hospital. Você levou um tiro.
Seus olhos se abriram de repente, olhando-a atentamente. Seus rostos estavam apenas
alguns centímetros de distância. Seus olhos eram castanho chocolate, inteligentes e cansados. Ele
estendeu a mão para tocar os ferimentos e arranhões no rosto dela. Seus dedos saíram vermelhos
e ele os levantou e os analisou.
—E você foi baleada. — Alguma coisa brilhou nos olhos dele, algo quente e perigoso. —Eu os
mataria novamente por causa disso. Apenas sinto ter sido rápido.
Grace estremeceu. Era como se alguém tivesse aberto uma janela e deixasse entrar o ar frio
do inverno.

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—Não se preocupe com isso, eles estão todos mortos. Agora temos que lidar com seu
ferimento.
—Sim, e com os seus também. Só não em um hospital.
Grace piscou.
—Se não for em um hospital, então onde?
Ele olhou para fora da janela, os músculos da mandíbula saltando.
— Aqui.
O carro deu uma guinada súbita em uma entrada de garagem, mergulhando a toda
velocidade na rampa, freando a centímetros de uma parede de concreto. Grace teria caído no
chão, se o homem não a tivesse apoiado. O carro ainda estava balançando quando as portas dos
passageiros foram abertas e Grace foi levantada por dois homens.
Homens armados cercaram o carro e ela se viu no meio de um pequeno exército,
juntamente com o homem de cabelos escuros. Os homens armados andavam rápido, como uma
unidade. Em um instante estavam em um elevador. Era grande o suficiente para acomodar a
equipe toda e subiu rapidamente. Grace olhou por cima da porta para ver onde estavam indo, mas
não havia nada. Não havia indicação de andares. Olhou para o lado, para o painel de bronze
grande e brilhante com o botão de fechar portas. Era o único botão no painel. Estavam em um
elevador que só parava em um andar. No topo de um edifício, aparentemente, porque subiram
numa velocidade alucinante.
Os homens se mantiveram atentos, cercando-os com seus corpos, armas em punho.
Um dos homens, alto e em ótima forma física, com uma mecha branca no cabelo preto,
virou-se para o homem com ela.
—Fico feliz que você esteja seguro, Drake. —Ele olhou para o ferimento no ombro,
inabalável, como se tivesse visto muitos deles. —O Dr. Kane está a caminho, assim como você
pediu.
Drake. O nome do homem era Drake. Ela não tinha ideia se era seu primeiro nome ou o
sobrenome.
Não tinha ideia de quem ele era, ou onde ela estava. Tudo que sabia era que havia sido pega
no meio do que parecia ser uma tentativa de assassinato em que seu melhor amigo perdeu
violentamente a vida. Agora estava em um elevador no meio de um grupo de duros homens
armados e não tinha ideia do que planejaram para ela.
De repente, ocorreu a Grace que ela era uma testemunha. Uma testemunha de quatro
assassinatos. Cinco, contando com Harold. Na verdade, seis, assumindo que este Drake matara o
atirador. E eles definitivamente não estavam indo em direção a delegacia mais próxima para que
ela pudesse testemunhar o que vira.
Olhou ao redor, seu coração começando a disparar. Todos os homens que estavam ali, eram
mais altos que ela, muito maiores que ela e muito mais fortes. Pareciam fortes e perigosos, não
mais que seu chefe, o homem a quem chamavam de Drake.
Ele não a ameaçou nenhuma forma, era verdade. Na verdade, a ameaça de dano à sua vida
foi usada contra ele. Mas estava em um espaço fechado com ele e este pequeno exército de

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homens, que pareciam perfeitamente capazes de violência, e ela sabia que Drake era capaz de
uma violência assustadora, rápida e terrível.
Se ele quisesse lhe fazer mal, de qualquer maneira, ela já estaria morta. Nada que fizesse
poderia detê-lo ou até mesmo diminuir sua velocidade. Ela nem sabia onde estava, e ninguém
mais sabia.
Por um instante, Graça lamentou sua vida tranquila. Tinha poucos amigos, mas eles não se
encontravam com frequência. Todos estavam ocupados, ninguém mais do que ela. Não tinha
exatamente um horário comercial de trabalho, comendo e dormindo em horários estranhos.
Poderia ficar ausente por várias semanas, mesmo um mês, antes que alguém realmente
percebesse.
A pessoa com quem ela mais se encontrava estava morta, a cabeça despedaçada por uma
bala de um atirador.
Ela almoçara com uma de seus melhores amigos, Alice Restrepo, anteontem. Elas só se viam
uma vez por mês. Quanto tempo levaria para Alice informar seu desaparecimento à polícia?
Quando Grace não atendesse o telefone, Alice pensaria que ela estava imersa na pintura. A luz de
preocupação acenderia eventualmente, mas a essa altura, Grace poderia estar morta há muito
tempo. Poderia estar no fundo do rio Hudson, ou em uma pilha de concreto, em Nova Jersey.
Poderia ser estuprada, torturada até a morte, seu corpo mutilado, enterrado onde ninguém jamais
iria procurá-la.
Estremeceu, olhando para os pés, desejando ser invisível. Embora ninguém estivesse
prestando atenção especial a ela, não tinha ilusões de que poderia fugir correndo. Um elevador
privativo falava de muito dinheiro, que comprava muita privacidade.
Com um ping, chegaram onde quer que estivessem indo. As portas do elevador se abriram
com o mais silencioso dos sons. Na frente deles, em um salão muito grande, havia uma porta
digna do portão de uma fortaleza. Doze metros de altura, pelo menos, feito de aço brilhante.
Os homens ao redor dela saíram, posicionando-se em um perímetro de segurança, mas
Grace ficou parada, os olhos fixos no chão, tentando controlar a tremedeira. Drake estava ao seu
lado, imóvel.
—Chefe... — um dos homens disse. Os homens estavam, obviamente, querendo
acompanhá-lo atrás daquela porta de aço enorme.
—Podem ir agora, eu estou bem, — Drake disse calmamente. Eles não pareciam satisfeitos,
mas eles se foram. Eram treinados para obedecer a este homem.
Drake apertou um botão e as portas do elevador se fecharam novamente.
Grace recuou e olhou-o em cheio no rosto. Ele estremeceu um pouco com o que viu no dela.
—Você está com medo. — A voz profunda era suave. Ele levantou uma mão grande, com
manchas de sangue, até sua bochecha. Seu toque era suave, mas ela podia sentir os calos nas
pontas dos dedos. —Eu sinto muito por isso. Sinto muito sobre tudo. Mais do que eu tenho
palavras para descrever. Você se envolveu em... uma disputa de negócios, não por culpa sua. Você
perdeu um amigo, e você se machucou. Não posso te dizer o quanto eu lamento. Mas isto está

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feito. E agora você precisa ser mantida a salvo de meus inimigos, e precisa de cuidados médicos.
Tudo isso existe e está esperando por você atrás da porta que você viu.
Ela o encarou, entorpecida. Apesar de seu toque ter sido fugaz, ainda sentia o calor ao longo
de sua bochecha.
Por tudo o que sabia, ele era um serial killer só esperando para atraí-la para sua fortaleza.
Certamente tinha relações com os criminosos. Era perfeitamente possível que também fosse um
criminoso. Mas o arrependimento em sua voz parecia sincero. E ele não estava empurrando-a
para fora do elevador em direção a tudo que estava por trás daquela porta. Algo em sua postura
lhe disse que ele estaria disposto a ficar aqui para sempre, gotejando sangue no chão, até que ela
saísse do elevador por vontade própria.
Ele balançou levemente, em seguida, firmou-se para trás na posição vertical. Os músculos de
sua mandíbula esticaram. Houve um som suave, um plop, e quando Grace olhou para baixo, mais
uma gota de sangue vermelho brilhante se juntou a pequena poça no chão.
Oh meu Deus! Ele foi gravemente ferido, perdeu muito sangue. Mal conseguia se manter em
pé, sua testa suando. E no entanto, ali estava ele, de pé ao lado dela, até que tomasse uma
decisão, esperando pacientemente.
Grace não se dava muito bem com as pessoas, mas como muitos introvertidos, era uma
observadora. O que viu à sua frente era paciência e pesar, com uma sobreposição de dor e fadiga.
Não crueldade ou loucura.
—Tudo bem, — disse suavemente. —Vamos para dentro.

Capítulo 3

Drake mantinha-se em pé por pura força de vontade. Isso e a lancinante culpa da


devastadora certeza de que ele acabara de arruinar a vida desta bela mulher. Não foi uma
coincidência que seus atacantes surgissem enquanto ele estava do lado de fora, no beco, olhando
para ela dentro da galeria. Eles a usaram para chegar até ele. Sem dúvida, Dmitri Rutskoi estava
por trás disso.
Rutskoi entrara arrogantemente em seu escritório esperando conseguir ser o segundo no
negócio de Drake e não ficou muito feliz quando foi expulso de seu escritório. Drake conhecia
Rutskoi. Era um verdadeiro soldado. Se sua missão era se vingar de Drake pelo ocorrido, ele não
iria parar até que um dos dois estivesse morto. E ele, sem dúvida, fizera uma parceria com o
concorrente direto de Drake na América, Enrique Cordero. Drake reconheceu dois dos capangas
de Cordero.
De alguma forma Rutskoi sabia sobre Grace, o que significava que Rutskoi e Cordero
estavam dispostos a usá-la para chegar até ele.
O pensamento o aterrorizava. Era pior que o ferimento em seu ombro. Ele fora baleado
antes, sabia que era desagradável mas não era grave. Alguns dias de descanso e estaria ótimo.

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Mas o pensamento de Grace cair nas mãos de seus inimigos, sendo mutilada, torturada ou morta
por sua causa — o deixava louco.
Usou toda a sua força de vontade para permanecer dentro do elevador e permitir a Grace a
opção de entrar em seu domínio. Ele e somente ele poderia lhe oferecer segurança. Oferecer uma
escolha a ela foi um blefe, porque se ela recuasse, teria ordenado a seus homens para levá-la a
força, mesmo chutando e gritando. Ele teria se odiado, mas teria feito, sem titubear.
A alternativa, deixá-la ir, era impensável. Agora, o único local seguro para ela nesta terra era
a seu lado.
Em qualquer outro lugar ela seria um lindo alvo, o centro do alvo pintado sobre sua testa
macia.
Olhou o rosto dela, certificando-se de não mostrar nada no seu
Ela estava balançando um pouco, tremendo em consequência da adrenalina e do frio, os
braços travados sobre o estômago, como se precisasse de um conforto que somente ela poderia
dar a si mesma. Algum flash de intuição lhe disse que ela fez isso muitas vezes — acalentar a si
mesma porque não havia ninguém mais que o fizesse.
Foi uma das coisas mais chocantes que descobriu sobre ela. Sua inerente solidão, tão
incomum em uma mulher com sua aparência. Do que ele tinha sido capaz de ver, seu melhor
amigo tinha sido Harold Feinstein e agora ele estava morto. Ela vira sua cabeça explodir.
A fria e forte luz do elevador lhe mostrou cada arranhão, cada gota de sangue sobre sua pele
pálida. Podia ver claramente a pele machucada de sua têmpora, onde o aperto do cano da SIG
abriu uma ferida. Sua bochecha esquerda estava esfolada e isso aconteceu quando forçou o rosto
dela no chão áspero para ter certeza que ela não seria um alvo.
Estava trêmula, pálida, ferida e sangrando. Agitada, com o cabelo molhado e as roupas sujas
de barro e rasgadas.
Ainda assim, era a mulher mais bonita que já vira.
Apertou o botão e as portas do elevador abriram. Drake não podia ver qualquer um dos seus
homens, mas sabia que estavam próximos.
Grace parecia que se quebraria caso ele a tocasse. Sua pele estava pálida como cera, as
contusões chocantes e escuras contra sua extraordinária palidez. Será que ousaria colocar o braço
em volta dela? Não queria assustá-la, mas parecia que ela cairia no minuto seguinte, se ele não
fizesse algo rápido.
Ele se aventurou, segurando seu braço e saindo do elevador. Ela veio junto, tropeçando
ligeiramente.
Atravessaram o salão grande e vazio. Estava brilhantemente iluminado e tinha câmeras de
segurança em torno de todo perímetro, assistidas dia e noite por uma equipe de nove homens na
sala de segurança, trabalhando em turnos de três. Drake digitou um código de sete dígitos e, em
seguida, colocou a palma de sua mão contra um painel de vidro na parede. O painel piscou em um
verde brilhante. Empurrando com uma mão a grande porta de aço, ela deslizou facilmente,
comprovando a excelência das dobradiças, considerando-se que pesava uma tonelada. Foi

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construída com as exatas especificações que existiam nos cofres dos porões da maioria dos
grandes bancos.
Eles cruzaram a soleira.
—Bem vinda, — murmurou e viu seus olhos se alargarem para o átrio de três andares.
Se em algum momento no ano passado Drake ousou imaginar cruzar a soleira de sua casa
com Grace Larsen no braço, isto teria acontecido depois de um encontro, mas Deus sabe que ele
não tinha encontros. Mas ainda assim, às vezes, permitiu que os sonhos invadissem sua cabeça.
Quem iria saber? Então imaginara um belo jantar num elegante restaurante, mais tarde, talvez,
uma bebida num clube de jazz privado, depois para casa.
Casa. Em sua casa. Foi somente no mais profundo trecho da maioria das noites insones que
ele se permitiu imaginar Grace em sua casa. Nunca trouxe mulheres aqui. Este era seu santuário.
Havia outro luxuoso apartamento em outro prédio, onde levava suas mulheres. Menor,
porque não vivia lá, apenas fodia lá. Anônimo como um quarto de hotel de luxo, o que estava
bem, porque as mulheres eram anônimas. Bom para sexo casual, apenas para isso. Raramente
teve sexo com a mesma mulher duas vezes. Ultimamente, simplesmente não valia a pena a
possível violação de sua segurança e ele substituiu o sexo por seu punho. E mesmo isso se tornou
raro.
Ele teria dito que seu desejo sexual morrera antes do tempo se não fosse pelo fato de que
apenas tocando a jaqueta rasgada de Grace e sabendo que seu braço estava por baixo, fez seu
pênis se contrair. Se não tivesse perdido uma porrada de sangue, teria sido uma ereção de
campeonato.
Grace olhou para ele, sua linda boca formando um “O”. Ela agarrou seu braço, como se
estivesse pronta para assumir seu peso todo se ele caísse, embora ela não tivesse força suficiente.
—Você tem que sentar-se enquanto eu chamo a ambulância. Deveríamos ter ido direto para
o hospital, eu não sei porque viemos aqui, você perdeu muito sangue.
O telefone tocando em seu bolso parou a frase dela ao meio. Drake colocou um dedo contra
sua boca enquanto atendia a ligação, fazendo uma careta ao ver o dedo manchado de sangue
contra a boca dela. Afastou o dedo para longe dela, em seguida.
—Sim?
—O Dr. Kane está a caminho, senhor.
Drake fechou os olhos com alívio e guardou o telefone. —O médico está a caminho, — disse
gentilmente. —Ele vai cuidar de você.
—De mim? — Aqueles belos olhos abriram-se espantados. —Eu não preciso de cuidado, pelo
amor de Deus. Você que foi baleado. Você está sangrando como um porco. Na verdade, — disse,
franzindo a testa, — é um milagre que ainda esteja em pé. Como...
Ela foi interrompida pela abertura da grande porta de aço. O homem que entrava era um
dos poucos na face da terra que tinha acesso direto a Drake.
—Drake! — Benjamin Kane veio rápido, habitualmente vestindo seu jaleco branco. Jalecos
brancos normalmente conferiam uma aura de autoridade sobre os médicos, mas o selvagem
cabelo loiro despenteado e sua aparência desengonçada e desnutrida, o fazia parecer mais com

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um sul-americano vítima de sequestro do que o cirurgião de traumatismo brilhante que ele


realmente era.
—Eu vim assim que recebi o telefonema. Cristo, homem, — continuou, dando a Drake um
rápido olhar profissional de cima a baixo, — você precisa ficar fora de problemas. Está velho
demais para esta merda. Vamos para a clínica agora. Ainda bem que eu tenho vários sacos de
sangue O+ estocado. Venha, venha.
Depois de um olhar breve e surpreso para Grace, Ben a ignorou. Drake sabia que ele estava
tentando ser discreto, mas seria bombardeado de perguntas para obter informações mais tarde.
Ben caminhou à frente deles pelo corredor até a clínica, o jaleco branco batendo em volta dos
joelhos magros.
Drake e seus homens estavam em um negócio perigoso. Uma das primeiras coisas que criou
depois de se mudar para a América foi um quartel-general com a sua própria enfermaria. Os
hospitais, por lei, tinham que avisar as autoridades sobre os ferimentos de bala, então ele montou
seu próprio hospital.
Criou uma verdadeira clínica com uma grande sala, mantida estéril, com tudo que uma
equipe médica poderia desejar, mas apenas Ben a usava. Encheu-a com todo o equipamento
necessário para lidar com os ferimentos, incluindo as máquinas de imagem, e Ben podia cuidar da
maioria dos ferimentos não fatais com o que estava na sala.
Drake deixou-o ir na frente. Ben era rápido e tinha tudo arrumado para uma cirurgia quando
Drake entrou na clínica. Drake andou lentamente pelo corredor, rangendo os dentes contra a
terrível sensação de fraqueza. Ele odiava se sentir fraco. Sempre odiou. Por toda sua vida, alguma
fraqueza física ou emocional, poderia deixá-lo morto. Não mostrar qualquer fraqueza para todos
era uma segunda natureza.
O corredor parecia um longo caminho, e os reflexos da iluminação machucavam seus olhos.
Parecia que estava andando morro acima. Subindo uma colina íngreme.
Esperou que Grace acompanhasse Ben, mas ela ficou ao seu lado. Ele não queria que ela
esperasse. Ele a queria na clínica com Ben.
—Vá em frente, — disse ele. Sua voz saiu quase num sussurro. Limpou a garganta. —Eu vou
chegar lá.
Era desconcertante receber seu olhar direto, intenso, como um foco de luz azul-esverdeado.
—Não, eu vou ficar aqui com você. — Sua voz, embora suave, era firme. Ele não se lembrava
como ela o fez, mas agora estava ciente de que ela colocou o braço em volta de sua cintura para
ajudá-lo. Ela caminhou lentamente, no ritmo dele, passo por passo, o observando
cuidadosamente.
Porra, ela precisava de cuidados médicos.
—Vá! — Ele disse asperamente.
Ela apenas balançou a cabeça, apertando o braço em volta de sua cintura.
Porra, porra, porra. Precisava dela lá o mais rápido possível, para que Ben cuidasse dela. Ele
rangeu os dentes e tentou acelerar, mas tropeçou nos próprios pés.

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—Aqui. — Sua voz era baixa e suave. Ela posicionou seu ombro debaixo do braço. —Ponha
seu braço ao meu redor.
Drake estava perto o suficiente para sentir o cheiro dela. Era intensamente sensível aos
cheiros. Foi pelo cheiro que frustrou uma tentativa de assassinato, porque sentiu cheiro de
fumaça na roupa do homem em seu quarto de hotel. Rejeitou uma quantidade de mulheres
porque podia sentir o cheiro embaixo de perfume e loções. Estava absolutamente convencido de
que as emoções cheiravam.
Sabia qual era o cheiro do medo, do perigo e do ódio. O cheiro de Grace era totalmente
diferente. Ela tinha o cheiro de mulher. Uma mulher na primavera. Limpeza, da cabeça aos pés.
Ele tropeçou. Grace segurou, mas mal. Ela estava tremendo pela tensão e a respiração ofegante, o
som alto no corredor.
Drake se obrigou a andar novamente, se concentrando, caminhando lentamente para a
entrada da clínica. Ele podia fazer isso. Fizera coisas mais difíceis e poderia fazer isso. Um minuto
depois, estava sentado em uma cama de hospital respirando com dificuldade, e Ben, limpo e com
luvas, estava inclinado sobre ele. Os instrumentos cirúrgicos estavam brilhando em uma bandeja e
Ben pegou um grande par de tesouras para cortar a camisa de Drake e tirá-la fora.
—Ok, companheiro. Vamos dar uma olhada no que temos aqui. Eu tenho a máquina de raios
X pronta e funcionando, se precisarmos. —A tesoura aproximou-se e Drake a segurou.
—Examine a mulher primeiro.
Ben congelou e olhou para Grace, cujo rosto era uma máscara de espanto.
—O quê?
—Você me ouviu. E não é como se você necessitasse da mesma informação duas vezes. Você
está perdendo tempo e isso não é bom para um cirurgião de traumatismo. Você não coloca as
mãos em mim, até que ela seja atendida.
Ben respirou fundo.
—Tudo bem, assim é que vai ser. Isso é o que eu aprendi na cara escola de medicina que
você pagou para mim. Na escola eles te ensinam algo chamado de triagem. Foi criado pelos
franceses e a ideia é que você selecione os casos com base na gravidade dos ferimentos e trate os
casos mais graves primeiro. E esse, meu querido Drake, é você.
Drake sentou-se, inclinou a cabeça para trás e fechou os olhos.
—Não. Ela primeiro.
Ben fez um som estrangulado de frustração. Mas sabia que não adiantava argumentar.
—Tudo bem. À sua maneira. Drake abriu os olhos para ver Ben se dirigir a Grace sentada em
uma cadeira. —Maldito homem, — resmungou para ela. —Ok, ok, vamos ver o que temos aqui.
Grace inclinou a cabeça para olhar nos olhos de Ben.
—Ele está sangrando muito, — disse, sussurrando. Estava tentando falar com Ben, sem que
Drake ouvisse. —Ele tem um ferimento à bala. Eu só tenho cortes e arranhões. Por favor, cuide
dele primeiro.
—Não. — Drake colocou sua última parte de energia na voz.
O suspiro de Ben foi alto.

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—Cabeça dura como uma rocha, — disse a Grace, erguendo a voz para se certificar que
Drake podia ouvi-lo. —O que posso dizer? Ele é o único que paga as contas. Então, me diga onde
dói. —Ele estava reunindo rapidamente os instrumentos que necessitaria para cuidar dela em uma
bandeja, o barulho de aço contra aço polido na sala.
Ela sorriu com isso.
—Mais ou menos por toda parte. Principalmente aqui —apontou para sua cabeça, — aqui e
aqui. —Indicou seu pescoço e o cotovelo. —Eu odeio isso. Odeio ser tratada, enquanto ele está lá
sangrando. —Os olhos de Grace deslizaram para ele. Drake simplesmente olhou para ela e depois
desviou os olhos.
—Bem, minha querida… Qual é seu nome, a propósito? Se vou tratar você eu deveria saber
seu nome. Eu sou Ben. — Ben suavemente estava limpando os arranhões em suas mãos. Grace
assobiou em uma respiração pela dor aguda do antisséptico.
Drake não conseguiu se controlar. Estremeceu como se tivesse levado uma picada.
—Ben... — ele rosnou.
—Desculpe. — Tanto Ben e Grace falaram ao mesmo tempo. Ela riu, um som leve e baixo.
Ben inclinou-se, com o olhar focado nela. Ben era um bom médico, o melhor. Drake tinha
que recuar. Ela estava coberta com cortes e arranhões, sentiria desconforto enquanto Ben a
limpava.
Mas caramba, odiava pensar nela com dor. Odiava.
—Então... — Ben esterilizara a pinça e estava trabalhando com ela em sua mão. — Voltemos
para minha pergunta. Qual é seu nome? Eu trabalho a minha maneira, como todo mundo diz e, se
estou trabalhando em alguém, preciso saber seu nome para fazer isso.
—Grace, — ela disse baixinho, depois respirou fundo. Ben parou imediatamente. —
Desculpe.
—Não, tudo bem. Eu não quero ser covarde. Grace Larsen.
—Hum hum. — Ben tinha aquela voz distraída que significava que estava intensamente
concentrado no que estava fazendo. —E o que você faz, Grace Larsen?
—Eu sou artista.
—Artista, hein? Eu... entendo. —As mãos de Ben a acalmaram e ele deu a Drake uma olhada.
Sabia o que estava em jogo. Se concentrou novamente sobre ela, limpando o lado de seu rosto.
Olhou atentamente para sua têmpora, tirando suavemente seu cabelo do caminho. —O que
aconteceu aqui? Alguém esfregou algo em você?
—Algo parecido com isso. —Sua voz ficou seca. —O cano de uma arma. Não foi divertido.
—Não, eu aposto que não foi. Aparentemente sua pele foi rasgada, mas não quero colocar
pontos aqui. Não sou cirurgião plástico e seu rosto é muito bonito para eu estragá-lo, porém você
pode querer fazer isso mais tarde. Vou apenas colocar um curativo. Como estamos indo, chefe? —
Ben levantou a voz, sem olhar para ele. —Estou aguentando bem.
Grace desviou um pouco a cabeça para olhar por trás de Ben e ele viu seus olhos se
arregalarem —Escute, eu estou bem agora. Vá até ele, por favor.

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Ben estava acabando o curativo dela, cuidadosamente, e olhou para trás para Drake, que
estava se mantendo consciente por pura força de vontade.
Ben limpou as mãos cuidadosamente, rapidamente colocou novas luvas de látex e foi até
Drake, segurando uma seringa grande.
—Ok, companheiro, é a sua vez agora, e seremos rápidos. — Cortou a camisa de Drake,
olhou o ferimento cuidadosamente, sem tocá-lo. —Ricocheteou, — disse ele, finalmente, —
Canalha de sorte. Se você não tivesse o couro tão duro, a força do impacto faria de você um caso
perdido. Como foi superficial vai ser fácil. Você vai ter um tempo livre agora, — disse Ben,
cuidadosamente enchendo a seringa grande com anestésico.
—Não quero muita anestesia, — disse Drake. —Não quero perder o uso do meu ombro e
braço.
Ben olhou para ele, chocado. Drake quase sorriu. Não era fácil chocar um cirurgião de
traumatismo.
—Você está louco. Não posso costurar um ferimento à bala, se não estiver completamente
anestesiado. Você não conseguirá ficar parado para mim. Nós não estamos em campo aberto nas
planícies do Afeganistão, Drake, estamos no centro de Manhattan. Limpar ferimento a bala requer
exame profundo e muito antisséptico. Vai doer prá caralho, se você não estiver completamente
anestesiado.
—Não. — Drake manteve a voz firme, mas apenas através de um esforço enorme. —Apenas
o mínimo.
Não podia perder o uso de seu ombro e braço, nem sequer por uma hora. Não tinha ideia de
quão longe a sua segurança foi violada. Cada instinto que ele tinha lhe dizia que estava seguro
aqui, mas deveria haver um informante que poderia estar por perto. O pensamento de Grace em
perigo enquanto perdia o uso de seu braço e ombro era muito assustador até mesmo para se
imaginar.
—Então, como diabos irei trabalhar em você, se estou fodidamente te machucando? — Ben
perguntou, irritado.
Drake fechou os olhos e apagou.

Capítulo 4

Foi simplesmente fantástico de observar. Antes que o médico aplicasse o anestésico, este
homem, este Drake, como todos o chamavam, simplesmente fechou seus olhos e…desapareceu.
Era como se ele se colocasse em um sono profundo — realmente parecia mais um coma, embora
permanecesse sentado — em um segundo.
—O que... o que aconteceu? — indagou. Sua voz parecia instável.
Ben olhou para ela e franziu o cenho.

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—Não entre em choque agora, — advertiu. —Pelo menos não ainda. Tenho que cuidar de
Drake primeiro.
—Naturalmente, — disse ela, envergonhada. O ferimento do homem era muito pior do que
qualquer coisa que ela sofreu e ele insistiu que fosse tratada em primeiro lugar, antes dele. O
mínimo que poderia fazer era não desviar a atenção do médico.
—Espanta-me sempre, — o médico disse em tom de conversação, enquanto aplicava três
injeções de anestesia em torno do ferimento. Começou limpando a área, compressas sangrentas
de gazes caindo constantemente dentro de um recipiente de aço. Pegou algo parecido com pinças
de cozinha e, após alguns momentos de feroz concentração, uma peça plana de metal caiu no
recipiente. —Hum. Rifle de repetição. Não vejo muitos destes em tiroteios na cidade. Veio de um
fuzil militar.
Pegou um bisturi, uma tesoura pontuda e uma agulha curva para costurar a ferida. O
estômago de Grace deu uma guinada.
—Você... você o está machucando? — Grace perguntou.
—Só Deus sabe. Ele tem esse incrível controle sobre si mesmo e quando precisa,
simplesmente desaparece. Poof! Foi-se. — Balançou a cabeça. —É o filho da puta mais forte que já
conheci. — Havia crua admiração em sua voz.
Grace teve de desviar o olhar, pensar em algo mais, além do que Ben estava fazendo na
carne dilacerada de Drake. Olhou ao redor e prestou atenção na grande sala pela primeira vez.
—O que é isto? Um hospital particular?
—Você poderia dizer isso. — A diversão coloria a voz de Ben. —Sim, você poderia dizer isso.
Eu gosto da ideia. Hospital de Drake. Assim é que vou chamá-lo de agora em diante. Vai deixá-lo
louco.
Grace olhou a face de Drake. Estava completamente impassível. Até mesmo os olhos por
trás das pálpebras fechadas não se movimentavam.
—Ele pode ouvir você? — Ela sussurrou.
—Talvez sim. Talvez não. Quem sabe? Eu o admiro muito, mas ele é um enigma. Quem sabe
o que se passa na sua cabeça? Eu certamente não sei.
Grace olhou o que parecia ser um aparelho de tomografia computadorizada.
—Então. Onde estamos? Nós estamos... estamos em uma residência particular?
—Sim. — Ele estava inclinado sobre o ombro de Drake. Ela ouviu o barulho metálico da
tesoura e engoliu em seco.—A casa de Drake.
—Então, hum, esta clínica fica dentro da casa? Como isso funciona? Você é o chefe?
Ela viu sua boca curvar-se para cima num sorriso mesmo quando continuava concentrado no
que fazia. —O chefe? Eu? Com Drake em qualquer lugar, a menos de um quilômetro de distancia?
Não madame. Absolutamente não. Eu sou o ajudante. Altamente educado e qualificado, é certo,
mas apenas um ajudante.
—Eu... uh, — ela suspirou, sentindo-se subitamente muito cansada. Estava toda dolorida, se
controlando para não desmaiar, somente se agarrando às bordas da cama da clínica,
intensamente consciente que estava sozinha em um prédio com só Deus sabe quantos homens.

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Homens armadas. E sozinha nesta sala com dois homens que não conhecia.
Algo do que ela estava sentido deve ter aparecido em seu rosto. Ele lançou um rápido olhar
para ela. Quando falou novamente, sua voz não continha nenhuma nota provocadora, ele
soava...gentil.
—Você deve estar assustada. Drake não me contou o que aconteceu, mas aparentemente
vocês foram atacados. Porém você tinha Drake junto a você e ele é o homem mais esperto, duro e
corajoso que eu conheço, então vocês estão bem. Quando a esta sala, sim, é uma espécie de
clínica particular. Drake emprega um monte de homens e às vezes eles ....se machucam. Na linha
de trabalho deles. Ele é muito discreto, então decidiu criar uma espécie de hospital para seu
pessoal e para si próprio.
—Que linha de trabalho?
Quando ficou óbvio que ele não ia responder, Grace mudou de rumo.
—Você... você o conhece há muito tempo?
Sua boca curvou-se em um sorriso. Claramente, ele achava que isso era algo que pudesse
responder.
—Há cerca de quatro anos. Eu era cirurgião residente no meu último ano, com mais de cem
mil em dívidas de empréstimo estudantil, quando me deparei com um homem que foi baleado. Eu
prestei os primeiros socorros o melhor que pude e consegui levá-lo ao hospital mais próximo. Era
um dos homens de Drake e o cirurgião disse a ele que eu salvei a vida do homem. No dia seguinte,
minhas dívidas estavam pagas e Drake pediu para eu fazer o projeto desta clínica, sem limites de
despesas. O sonho de qualquer jovem médico.
—E você trabalha aqui o tempo todo?
—Não, Deus do céu, não. Eu não conseguiria. Eu trabalho em tempo integral num hospital,
porém estou de plantão para Drake. Quando ele precisa, eu venho. — Pegou a agulha curva e a
linha. —Aposto qualquer coisa que mesmo desacordado, ele se sentiria melhor se você segurasse
a mão dele.
—Sua mão? — Grace perguntou assustada. Eu não o conheço, ele não me conhece. Como
poderia o fato de eu segurar sua mão oferecer algum conforto?
Ben parou o que fazia e olhou diretamente para ela.
—Eu estou apenas supondo, mas... ele salvou sua vida, não salvou?
Ela assentiu com a cabeça, atordoada.
—Bem, talvez não fosse muito segurar sua mão, então.
Colocado assim...
Grace saltou da cama e quase caiu quando seus joelhos fraquejaram.
—Você está bem?
Era impensável que Ben se distraísse enquanto remendava o ferimento de Drake. Ela
enrijeceu os joelhos e endireitou a espinha.
—Sim, só estou um pouco... Sim. Estou bem.
Caminhou lentamente até os dois homens. Drake continuava imóvel. Embora a atenção de
Ben estivesse em Drake, ela percebeu seu olhar enquanto se aproximava. Grace pegou uma

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cadeira de metal duro, trouxe-a próxima ao lado da cama e sentou-se. Muito consciente da
atenção de Ben sobre si, estendeu a mão para a de Drake. Parou, antes de tocá-lo, sua mão
pairando uma polegada acima da dele.
A mão dele era enorme, talvez a maior mão de homem que ela já vira. Musculosa e rude,
com aparência estranha, cheia de calos amarelos nas laterais. Não eram, definitivamente, as mãos
de alguém que trabalhasse num escritório.
A maioria das profissões deixava marcas no corpo. Mesmo os trabalhadores de escritório
tinham as mãos suaves e os corpos arredondados e inclinados. Ela não tinha ideia qual era o tipo
de negócio de Drake que deixava aquelas marcas nas mãos.
As mãos de Ben eram de um médico, um cirurgião. Embora a pele fosse macia, seus dedos
longos e elegantes eram fortes e flexíveis.
As mãos de Drake pareciam ferramentas, imensamente fortes e resistentes, indestrutíveis.
Lentamente, deslocou a mão até que sua palma estivesse acima das costas da mão de Drake.
Sua pele era quente – quase sobrenaturalmente quente. A pele dela estava gelada e, como a
maioria das salas de operação, a clínica mantinha-se muito fria, além disso, estava encharcada por
causa da chuva. No entanto a mão de Drake estava quente, como se ela estivesse tocando um
pequeno forno. O calor subiu pelo seu braço.
De repente, a mão de Drake se virou até que a palma estivesse de encontro com a dela, o
aperto quente e firme, mas não doloroso.
Assustada, Grace olhou para o rosto de Drake. Estava totalmente sem expressão, na
quietude do sono profundo. Não havia nenhum sinal de consciência. E ainda assim, ele segurava a
mão dela.
Ben tinha um leve sorriso nos lábios enquanto costurava o ombro de Drake.
Grace deu uma espiada. O ferimento parecia muito melhor, fechado, com os pequenos
pontos de Ben. Agora que o ombro não era mais uma bagunça sangrenta da qual tinha que desviar
os olhos, ela olhou para o tronco de Drake. Teria que estar morta para não notar.
Nunca vira um corpo como o dele. Vestido, ela só percebera a amplitude dos ombros. Mas
agora que ele estava nu da cintura para cima, podia ver o que ela só sentira antes, quando ele
deitou-se sobre ela na calçada em frente a galeria.
O homem era crua e nua energia masculina. Os músculos não ficaram daquele tamanho pelo
tempo despendido em alguma academia. Seus músculos eram magros, tão despidos de gordura
que podia ver as estrias do tecido muscular sob a pele. Conhecia a anatomia masculina e podia ver
os músculos, um por um, como se encaixavam uns sobre os outros e como trabalhavam juntos. Ele
devia fazer incríveis exercícios para ter os músculos assim, tão profundamente tonificados.
Ele era quase assustador, de tão poderoso. Ela vira o quão rápido ele se movia, quão mortal
era em combate, quão eficiente com uma arma. Este homem podia ser um inimigo formidável.
Ele não era seu inimigo, entretanto. Certamente não agora. Agora era um homem ferido,
segurando sua mão por qualquer conforto que ela pudesse dar.
Ben cortou a linha do último ponto e começou a aplicar a gaze para cobrir a ferida.
Ela apertou levemente a mão de Drake.

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—Tudo vai ficar bem, — murmurou. —A ferida parece bem melhor agora que Ben a
costurou. Não se preocupe, você vai ficar bem.
Ela se sentia como uma idiota, conversando com um homem que não podia ouvi-la. Ainda
assim... sentiu um aperto um pouco maior na mão, uma pressão morna, tão leve que poderia ser
imaginação, mas não era. Esperou calmamente, com a mão dele na sua, desejando estar
oferecendo algum conforto.
No momento em que Ben se endireitou, a cabeça de Grace estava balançando. Deus, estava
muito cansada. Tinha vontade de apoiar a cabeça na cama e simplesmente dormir... por um longo
tempo, mas não podia se dar ao luxo de descansar ainda. Ainda havia a viagem de volta a ser
negociada.
Como voltaria para casa? Sua bolsa havia desaparecido. Não tinha dinheiro para ônibus ou
taxi. Talvez pudesse convencer alguém daqui a levá-la.
Lar. Precisava ir para casa. Buscar conforto em seu ambiente familiar. Curar seu corpo com
uma xícara de chá a um passo da banheira com água quente. Tentar tirar a visão de Harold
explodindo, de sua cabeça. Pranteá-lo em privado. Curar suas feridas.
Seus olhos doíam, seu rosto doía, sua cabeça doía.
Seu coração doía.
Parecia que um imenso buraco tinha sido aberto no universo e monstros horríveis o tinham
atravessado. Monstros que podiam atacar uma mulher, usá-la contra um homem e, o pior de
tudo, explodir com a cabeça de um homem.
Cada vez que fechava os olhos podia ver a morte de Harold, graficamente como tinha
acontecido. E a cada vez, seu coração dava um pinote no peito. Foi condicionada desde criança
para entender que não havia justiça no mundo. O fato de Harold ser bondoso e ter um olhar
clínico para a arte não era escudo suficiente, neste mundo. Mas sua morte violenta era difícil de
entender. E era difícil pensar no mundo sem Harold nele.
Grace tinha tão poucas coisas em sua vida, realmente. Elas podiam ser contadas nos dedos
de uma mão. Sua arte, Harold, seus outros poucos amigos, seu apartamento. Sua vida girava em
torno destes elementos, e agora um deles – extremamente importante para ela em todos os
sentidos – tinha ido embora, dizimado em um banho de sangue.
Seus olhos ardiam, mas se recusou a deixar cair qualquer lágrima. Elas seriam guardadas
para mais tarde, para quando estivesse em casa. Durante toda sua infância aprendeu a controlar
as lágrimas, aprendeu da pior maneira que elas eram para ser derramadas em momentos
privados.
Ansiava pela segurança de seu lar. Não era luxuoso, certamente nada parecido com os
pequenos vislumbres que tivera desta cobertura, com seu pé direto alto, tapetes de veludo,
antiguidades e obras de arte. Sua casa era modesta, a coisa mais extravagante era a claraboia em
seu estúdio, que deixava entrar toda a luz oferecida por Manhattan. Era simples e escassamente
decorada, cheio de obras de arte em andamento.
Ansiava por isso como um homem sedento ansiava por água.

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Se sentia exposta, nua aqui. Embora tentasse se controlar, suas mãos estavam tremendo,
mesmo naquele aperto ardente de Drake. Todo o seu corpo tremia.
Ben aplicava uma injeção do que ela pensava ser um antibiótico. Assim, estava feito. Ela foi
remendada. Assim que ele terminasse com Drake, ela poderia ir embora.
Ela se levantou.
—Hum, Ben?
Ele tirou as luvas num piscar de olhos e estava colocando seus instrumentos em um aparelho
de desinfecção, para esterilização.
—Sim?
—Eu me pergunto se... se não seria muito incômodo...
Ele virou-se, seus brilhantes olhos azuis diretamente nela.
—Você precisa de alguma coisa?
Ela odiava pedir favores, odiava. Não havia ninguém para pedir coisas enquanto crescia e
agora, como adulta, percebeu que gostava muito mais de fazer a pedir. Mas agora se via forçada a
pedir ajuda.
Podia sentir suas faces ficando rubras.
—Eu, bem, eu preciso pedir um favor. Você poderia talvez me emprestar dinheiro para o táxi
para eu voltar para casa? Ou alguém aqui poderia me levar? Minha bolsa foi— explodiu, — ela
quase disse. —Perdida. Eu preciso chegar em casa de alguma maneira.
—Ok, disse Ben. —Eu tenho certeza que Drake vai...
Os olhos de Drake se abriram repentinamente.
—Absolutamente não, — ele disse numa voz baixa e profunda.

Capítulo 5

Merda, merda, merda!


Rutskoi fechou o celular com um tranco e o jogou contra a parede do apartamento que
alugou com o nome de Bowery. Quebrou em mil pedaços. No Waldorf, teria caído no exuberante
tapete e haveria empregadas para aspirar a sujeira. Mas ele deixara o Waldorf. Indo para a parte
operacional da missão, teve que deixar o mundo suave e luxuoso e entrar no mundo da guerra.
O motorista de Drake o apanhou no Waldorf, então Drake sabia onde ele estava. Se Rutskoi
fosse tolo o suficiente para continuar ali, sua vida não valeria merda nenhuma.
A vingança de Drake sempre foi rápida e letal.
Rutskoi percebeu que este momento chegaria no instante em que a porta grande do
arranha-céu de Drake fechou atrás dele com um click. Estivera tão certo que Drake diria sim a ele –
que diabos! o homem precisava de um tenente – que ele realmente não tinha pensado nas
consequências de uma negativa.

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Simplesmente tinha feito como inimigo o homem mais mortal do planeta. Precisava de
ajuda. Ele não poderia lidar com Drake sozinho, seria suicídio. E se havia uma coisa que Rustkoi
sabia era que queria viver.
Muito.
Então chamou Enrique Cordero. Cordero comandara essencialmente o negócio de armas
com a América Central e América do Sul A.D. Antes de Drake. Cordero era esperto – embora
indisciplinado – evitava drogas, mulheres e os policiais corruptos estavam com dele. Possuía um
pequeno negócio de fornecimento de armas antes de Drake chegar e tomar conta de tudo.
Enrique queria dar o troco, é claro. Até para ter de volta seu negócio. Rutskoi podia dividir.
Inferno, o negócio de Drake era suficiente para manter dez homens, uma centena. O que corria na
rua era que Drake estava arrecadando um bilhão por ano.
Sem mencionar a frota de barcos e aviões que ele usava para transporte. Sim, havia o
suficiente para dois.
Ele e Cordero poderiam dividir os mercados, como um dos papas da Renascença na divisão
do Novo Mundo.
Rutskoi pegaria a América do Norte, Europa e Ásia. Cordero podia ficar com as Américas do
Sul, Central e a África. Rutskoi tivera o suficiente de países do terceiro mundo. Queria fazer
negócio onde havia banheiro, camas e calçadas.
Planejou até o mais ínfimo detalhe, com o atirador de Cordero em um apartamento vazio do
outro lado da rua. O atirador ficou entrincheirado atrás de sacos de areia no pequeno terraço,
com ordens para atirar em todos que pudessem interferir no sequestro de Drake e a mulher,
Grace Larsen.
Rutskoi ficou dentro do apartamento com um binóculo, longe das janelas, orquestrando o
sequestro.
O plano era pegar Drake, enchê-lo de sonífero e levar ele e a mulher para um local seguro.
Provocar Drake com os capangas de Cordero sendo ásperos com a mulher até Drake cuspir seus
códigos bancários e senhas.
Tudo dependeria do quanto ele se importava com a mulher.
Fora deste fiasco inteiro, houve uma coisa boa. Rutskoi observou Drake com a mulher. Ele se
colocou em perigo para protegê-la. Drake não podia saber que o atirador tinha ordens para não
matá-lo. Ao protegê-la, estava disposto a sacrificar a própria vida.
Ela era a chave. Essa Grace Larsen era de alguma forma a chave para Drake. O homem sem
fissuras em sua armadura agora tinha uma. A bela mulher. A maior fenda do mundo, um clássico.
Pegue Grace Larsen e você pegaria Drake. Uma vez que Drake estivesse em sua mãos,
Rutskoi seria um dos homens mais poderosos do mundo.
Nada mal para um ex-coronel russo. Nada mal.

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Se houvesse alguma coisa remotamente engraçada na situação, Drake poderia rir da


expressão dos dois. A mandíbula de Ben simplesmente caiu e a boca de Grace abriu com espanto.
Ambos o olhavam completamente surpreendidos.
Bem, que diabos eles pensavam?
Eles não estavam pensando, este era o problema. Inteligente como Ben era, talentoso como
médico, ele não pensava como um soldado. Isto simplesmente não era com ele. E Grace era uma
artista, uma incrível e talentosa artista que, desde onde ele podia ver, levava uma vida simples,
principalmente dentro de sua própria cabeça.
Nenhum dos dois podia pensar estrategicamente, carregar a complexa geometria da
violência em suas cabeças sem que isso afetasse seus processos de pensamento. Drake tinha
nascido para este mundo, estava em casa neste mundo, era um maldito rei neste mundo.
Nasceu com a habilidade de pensar quatro, cinco, até dez movimentos estratégicos à frente.
Enquanto seus inimigos se ocupavam em reagir a sua primeira jogada, ele via o fim do jogo
diretamente. O fim do jogo onde ele, inevitavelmente, ganhava.
Lembrou do exato segundo em que ouviu o som atrás de si. Seu corpo se preparou para
reagir, mas era de carne, osso e sangue. Limitado pelas leis da física e gravidade.
Sua mente, entretanto, não sofria das limitações físicas e ele viu, claro como o dia, as
consequências do que estava acontecendo.
Sua obsessão com Grace abriu nele uma brecha, num homem que jamais tivera nenhuma
fraqueza. Agora, Grace Larsen era a maior fraqueza aberta em seu coração, durante toda sua vida.
Uma e outra vez durante o ano passado, disse a si mesmo que o que estava fazendo era
perigoso. Tomou todas as precauções possíveis, escapando de sua própria segurança, mas nada
era perfeito. E então, neste mundo imperfeito, descobriu aonde ele ia.
Embora ele devesse se contentar em comprar toda a obra de Grace, de alguma forma isso
não era suficiente.
Mesmo sabendo que se expunha ao perigo, insistia em vê-la.
Observou-a duas vezes por mês durante um ano e mesmo pensando que era insanidade se
esconder num beco — que agora era um beco sem saída — embora metade de seu cérebro
entendesse que arriscava sua vida duas vezes por mês, a outra metade amava essa obsessão. Fazia
um caminho tortuoso na volta para seu prédio, cada vez andando com a cabeça um pouco mais
leve, cheia de imagens dela. Podia vê-la em sua mente por alguns dias, lembrando todas as
expressões que atravessaram seu rosto. Rindo, séria, descontraída, tensa em alguns momentos
quando mostrava seu trabalho até que, inevitavelmente, Feinstein sorrisse.
Ela era diferente de qualquer mulher que conhecera. Ele gastou centenas de milhares de
dólares por suas pinturas. Sua obra valia cada centavo e claro que dinheiro não era problema para
ele. Ademais, sabia o quão pobre ela tinha sido. Checou sua conta bancária e viu que não tinha
quase nada. Mas todo o dinheiro que ele pagou pelas obras dela não mudaram seu estilo de vida.
O gene da ganância tinha passado completamente por ela.

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Cada uma das belas mulheres que conhecera queria realçar sua beleza. Deixá-la maior e
mais ousada para ter um maior poder sobre os homens. Acima de tudo, queriam parar o relógio.
Eram absolutamente obcecadas com isso.
Elas passavam fome, se submetiam a cirurgias, injetavam toxinas letais para suavizar o rosto.
Nada disso tinha a ver com saúde e força, era tudo sobre vaidade.
Ao longo de todo o ano, Grace não mudara nada. Embora agora pudesse comprar roupas de
grife, frequentar os melhores salões, provavelmente podia pagar o mais caro SPA de Manhattan e
passar todo seu tempo lá... ainda assim, permanecia exatamente a mesma. Ele invadiu o acesso ao
seu cartão de crédito e a única coisa com a qual ela gastou mais dinheiro eram os suprimentos
para sua arte.
Não havia nenhuma vaidade ali. Nenhuma que ele pudesse ver. Ela não tinha comprado
novos amigos com o dinheiro. Se havia algo, era que às vezes ela parecia um pouco solitária.
Cristo, ele entendia o que ela sentia. Entendia em seus ossos.
Toda vez, ao vê-la de longe, sentia uma profunda conexão. Era insano, naturalmente. A única
conexão estava em sua cabeça. Mesmo assim, era uma coisa tão rara, que ele se apegou a ela. Se
apegou a noção da existência dela, que parecia não ter nenhuma pretensão além de produzir
coisas belas, que parecia não ter nenhuma ambição ou agressividade dentro dela.
Isso o fazia se sentir melhor, só saber que ela habitava o mundo. Porque o seu mundo era
cheio de violência, cobiça e traição.
E hoje, tragicamente, o mundo dela explodiu, mudando tudo para sempre.
Ben foi o primeiro a se recuperar. Ele virou-se para Grace.
—Você mora sozinha?
Ela olhou assustada, então inquieta.
—Sim, eu... eu vivo sozinha. — Ela claramente não gostara de fornecer esta informação.
Boa garota. Drake pensou. Não dê nenhuma informação pessoal a ninguém.
Ela podia dizer a ele, entretanto. Ele preferia rasgar a própria garganta que machucá-la. Ela
não sabia disso ainda, mas saberia.
—Você tem uns talhos grandes em sua cabeça, — Ben disse. —Eu não acho que tenha uma
concussão, mas eu não juraria isso perante uma corte. Eu acho que você deve ficar um tempo
aqui, em observação. Você pode ser tratada aqui. —Ele lançou um olhar a Drake que acenou
ligeiramente, divertido que Ben já a houvesse tomado embaixo de sua asa.
Drake pulou da cama do hospital e caminhou até Grace, ficando tão perto que ela tinha que
levantar o rosto, mas não perto o suficiente para acionar os alarmes dela. Seu rosto inclinado para
cima, a expressão cautelosa e cansada.
—Eu solicitei que nos enviassem comida, — ele disse gentilmente. Esticou a mão e com as
costas do dedo indicador acariciou ligeiramente sua bochecha. Sua pele era incrivelmente suave,
mas fria. Ela estava em estado de choque leve.
Drake olhou em seus olhos verde-azulados, impressionado com o que encontrou ali. Dor,
choque, tristeza. Isto era de se esperar. Mas as outras emoções eram uma surpresa.

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Nenhum ódio, nenhuma hostilidade, nenhuma animosidade, ainda que tivesse perdido um
amigo querido e sido ameaçada por causa dele.
Acima de tudo, não viu nenhum cálculo em seu triste e cansado olhar. Não podia se lembrar
da última vez que uma mulher o olhou e viu apenas um homem e não uma conta bancária em pé.
Ela viu seu carro, os homens que ele comandava, parte de seus domínios, incluindo a clínica
privada. Não vira tudo, é claro, mas viu o suficiente para saber que era um homem de posses.
Nada disso parecia fazer qualquer diferença para ela. Enquanto Ben o estava costurando e ele
expulsava a dor de si mesmo, a pequena mão dela tinha se agarrado à sua. Ele realmente sentiu a
conexão da solidariedade que vinha dela, sentindo fortemente todo o conforto que ela queria
proporcionar.
Drake não podia se lembrar da última vez que alguém lhe tinha confortado. Certamente
nenhuma mulher em sua vida oferecera qualquer coisa, muito menos conforto. Todas queriam
coisas dele, quanto maior e mais brilhante, melhor.
Ela estava oscilando em seus pés, com frio e ferida e ele saiu de seu devaneio. Apenas estar
perto dela o fazia lento em seus processos de pensamento, deixando-o desajeitado e estúpido.
Não podia continuar vendo-a desse jeito, machucada e com dor. Ela era sua responsabilidade
agora. Ele tinha que começar a cuidar dela.
—Eu preciso ir para casa, — ela sussurrou, seus olhos procurando os dele. Ele não sabia o
que ela procurava. Permissão? Ou talvez algum sinal que ele fosse ser mau com ela?
—Grace, — ele disse. —Posso te chamar de Grace? Eu ouvi você dizendo seu nome a Ben.
Como se não soubesse o nome dela. Como se ela não estivesse gravada a ferro em sua
mente.
Ela assentiu com a cabeça, os olhos enormes.
—Certo então, Grace. — Lentamente, Drake tomou uma respiração profunda, um prelúdio
do que teria que dizer a ela. Daria a ela apenas uma pequena parte da verdade, mas mesmo assim
seria difícil para ela aceitar. Toda a verdade acabaria com ela. Ele lhe daria parte a parte nos
próximos dias. —Eu acho que você deveria ficar aqui, comigo, por um... tempo. Até termos certeza
que seu retorno seja seguro. — Seus olhos se arregalaram. —Os homens que vieram atrás de mim
podem facilmente descobrir onde você vive. Podem ir atrás de você e provavelmente irão.
Ele fez isso soar como uma possibilidade, embora fosse uma certeza. Ninguém faria uma
jogada sem saber tudo sobre os jogadores. Eles sabiam o suficiente para querer usá-la contra ele.
De nenhuma fodida maneira eles iriam pegá-la na casa dela. De nenhuma fodida maneira não
haveria um pequeno exército na porta da casa dela, apenas aguardando para agarrá-la.
A pouca cor que restava no rosto de Grace desapareceu.
—Eu nem tinha pensado nisso, — sussurrou.
Não, ela não tinha. Este não era o mundo dela. O mundo dela era cheio de belas formas e
cores. Ela oscilou novamente e Drake a pegou pelo cotovelo.
—Ben, — ele falou, sem tirar os olhos dela, —deixe os remédios que iremos precisar sobre a
mesa. Obrigado.

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Ben entendeu isso como a despedida que era. Um momento depois, a porta foi fechada
silenciosamente atrás dele.
Drake esperou que ele saísse da sala, então abriu a porta para o corredor. Havia sete
cômodos grandes deste lado do prédio, todas dando para o grande corredor.
Drake estava conduzindo Grace pelo corredor. De muitas maneiras isto era como um sonho
se tornando realidade. Ao longo de todo o ano passado desejou poder estar com ela. Desejando
que pudessem jantar juntos, despender tempo um com outro. E bem no fundo, onde ninguém
podia conhecer seus pensamentos, o desejo de que esta linda mulher pudesse ser sua.
Ela era sua agora, tudo bem. Mas não por muito tempo, porque o destino tinha lhe dado um
golpe cruel, cruel. Graças a ele, a vida dessa gentil e linda mulher estava acabada.
Graças a ele, Grace Larsen era uma mulher morta caminhando.

Capítulo 6

Grace estava com muito frio. A temperatura na casa era normal, mas parecia ter um núcleo
congelado dentro de si que se negava a aquecer.
A adrenalina estava baixando agora e ansiava desesperadamente pelo conforto e
familiaridade de seu lar. Ansiava com todo seu coração.
Mas quando Drake lhe disse que quem estava atrás dele iria atrás dela, levou um choque em
reconhecimento. Viu com seus próprios olhos a crueldade dos homens que o perseguiam. Como
eles a usaram contra ele.
Achar seu endereço seria simples. Harold mantinha o endereço dela no arquivo. Se eles
soubessem seu nome, a achariam na lista telefônica. Ela se chocou com o pensamento de estar
sozinha em seu apartamento quando os bandidos chegassem atrás dela.
Drake pegou seu cotovelo de novo e onde ele a tocou o calor floresceu em seu corpo. Ele
inclinou a cabeça, sua voz baixa e cortês.
—Você gostaria de se lavar antes de comer algo? Pode fazer você se sentir melhor.
Oh Deus, um banho! Imediatamente o desejo pelo banho era maior que a fome ou a vontade
de esquecer tudo dormindo. Afundar em água limpa, morna, aquecendo seus músculos doloridos.
Assentiu com a cabeça, cerrando os lábios para que seus dentes não fizessem barulho.
—Venha comigo. — Ele a levou para o enorme corredor. Ben tinha ido embora e eles
estavam sozinhos. Ela olhou em volta, prestando atenção, pela primeira vez, ao seu redor.
Era a casa mais... suntuosa que Grace jamais vira. E cheia de cor. Caminhavam sobre tapetes
persas do mais profundo vermelho, verde e azul que ela já vira. Enormes vasos esmaltados, com
plantas tão grandes como árvores. Passaram por uma porta aberta que, obviamente, levava a uma
sala tão grande que a outra extremidade estava escondida nas sombras, com móveis confortáveis
e de aparência masculina organizados em grupos em torno de uma enorme lareira acesa.

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Finalmente chegaram a uma grande porta de madeira. Drake passou a frente e abriu, em
seguida, a levou para dentro.
Era um quarto. O quarto dele.
—O banheiro da suíte é lá, — ele murmurou, indicando com a cabeça outra porta no final do
enorme quarto. —O banho está preparado para você. — Olhou para suas roupas rasgadas e sujas
e sorriu levemente. —Você pode querer mudar de roupa, mas nada meu serviria em você, por isso
peguei duas das minhas gis e separei para você. São novas, nunca foram usadas. É a única coisa
que posso pensar em lhe oferecer. Pelo menos você ficará confortável e limpa.
—Obrigada, — ela disse educadamente. —Isso é muito gentil. Mas, o que é um gis?
Mais uma vez o meio sorriso apareceu.
—O gi é um uniforme para treinamento de artes marciais. Parece um kimono e as calças
possuem cordões, então você pode ajustar a seu tamanho mais firmemente. Está em cima da
toalha no armário, com tudo que você precisa para o banho.
Ele, obviamente, de alguma forma, encontrou tempo para dar instruções a seu exército de
empregados, que, sem dúvida tiveram que se agitar para aprontar tudo. Mas quando? Podia jurar
que ouviu cada palavra que ele disse desde que chegaram aqui.
—Ok, obrigada.
Ele acenou com a cabeça e, pegando seu cotovelo, a levou para a porta do outro lado do
quarto.
Pareceu demorar meia hora para chegar do outro lado do quarto. Nunca viu um cômodo tão
grande. Era pelo menos tão grande quanto um loft de um dos escultores de Harold, em Tribeca. Só
que esse não tinha a decoração minimalista preto sobre branco de Manhattan; era quase bárbaro
em seu esplendor.
Havia uma enorme e antiga cama com dossel onde poderia perfeitamente dormir um time
inteiro de basquete, com ricos lençóis verde-esmeralda de aparência muito cara. E, certamente,
eles foram feitos sob encomenda: nenhum lençol vendido comercialmente caberia naquela cama
enorme.
Suas mão coçaram para tocar a maciez do lençol. E havia ainda um edredom verde
esmeralda por cima
Sua própria cama era boa. Gastou uma boa grana num colchão ortopédico e gostou muito
dos lençóis, mas não era nada parecido com isso aqui.
Havia plantas também. O ar do quarto exalava um frescor que apenas as plantas podiam
fornecer.
Tapetes de veludo em tons de joias estavam por toda parte, e conjuntos de salas estavam
espalhados por todo o imenso espaço, criando pequenos recantos íntimos.
Passaram por uma lareira de mármore preta, grande o suficiente para assar um elefante.
Alguém acendera o fogo há pelo menos uma hora, suas chamas vermelho-alaranjadas, sem
fumaça, lambendo gulosamente para o alto.

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Cores. Havia tantas cores ricas e profundas em todos os lugares e percebeu como
Manhattan era pobre em cores, onde tudo parecia preto ou branco ou, quando os designers
realmente se empolgavam – bege e amarelo claro.
A cor era um presente dos deuses, e como alguém podia viver em um ambiente preto e
branco era algo que sempre a deixava perplexa. Aqui não havia falta de cores. Cores e texturas e –
ofegou ao ter um vislumbre da janela. Eles estavam muito no alto. As luzes de Manhattan se
espalhavam para fora como uma matriz de diamantes em toda uma parede. Ao meio-dia, o local
devia ficar inundado de luz. Podia ver o Chrysler Building e o Empire State Building ao longe, e uma
estreita faixa preta num profundo quadrado que devia ser o Central Park. Assim, estavam em uma
zona de muito dinheiro. Este tipo de espaço nesta área da cidade estava lá em cima, no topo, na
categoria dos mega-ricos.
Estava tão ocupada, olhando em ao seu redor que não tinha falado nada, mas Drake parecia
perfeitamente à vontade com o silêncio. Isso era incomum. A maioria dos homens não se sentia
confortável com o silêncio. Queriam ouvir os sons de suas próprias vozes e queriam ouvir as
mulheres ecoando o que eles estavam dizendo. Felizmente, Drake parecia imune a isso, tanto
quanto ela.
Chegaram à parede mais distante com uma porta branca grande, de um bronze laminado.
—Aqui estamos nós, — disse ele, abrindo a porta. Grace quase engasgou. Não era um
banheiro, era... um apartamento. Certamente era tão grande quanto seu próprio apartamento,
com quilômetros de ricas bancadas em mármore verde, azulejos esmeralda, vários chuveiros
incrivelmente elaborados com uma variedade de bicos e... sim, uma banheira tão grande quanto
uma pequena piscina com dedos de vapor saindo dela. E cerca de um bilhão de jatos ao redor,
prometendo uma massagem de água garantida para amenizar a dor em seus músculos.
Cada célula de seu corpo ansiava por entrar naquela banheira, mas tinha algo que realmente
precisava saber primeiro. Se virou para olhar Drake em cheio no rosto. Olhara discretamente para
ele antes, fascinada por seu rosto duro, mas ficou envergonhada para olhar diretamente. Agora,
estudou-o abertamente, estudou as firmes, quase ascéticas características de um homem forte,
que vira e fizera coisas difíceis
Olhou-o diretamente nos olhos. Olhos que eram castanho escuro, sem nuances. Apenas a
cor sólida, como se uma criança tivesse pintado a lápis. O branco em seus olhos era um branco
luminoso de alguém que vivia de forma saudável. Mas nunca se sabe.
Colocou os braços ao redor de si mesma, um pouco assustada, porque se ele desse a
resposta errada a sua pergunta, a resposta que estava apavorada por ouvir, ela estaria em apuros.
Problema terrível. Sozinha em um edifício com um homem que parecia tão poderoso de tantas
maneiras, capaz de esmagá-la.
Era tudo ou nada.
Respirou fundo, as palavras saindo numa torrente, sem pausas:
—Eu sinto muito ter que perguntar isso, mas não posso ficar aqui mais um segundo sem
saber a resposta. Por favor, me diga que toda esta violência que passamos não era sobre drogas.

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Que tudo isso— acenou com a mão abrangendo o esplendor baronial do apartamento, —Isto não
é sobre drogas. Eu preciso ter certeza disso.
Porque caso contrário, vomitaria toda sua miséria e abandonaria o prédio imediatamente,
embora não soubesse para onde ir. Não com bandidos possivelmente atrás dela. Isso, supondo
que ele a deixasse sair.
Drake não disse nada por um longo momento, só olhou para ela, os olhos calmos e frios. Seu
coração tamborilou descontroladamente, como o de um pássaro preso.
Então ele pegou sua mão e a colocou contra o peito, bem acima do próprio coração. Estava
com uma camisa preta, limpa, que colocara na clínica e ela agora podia sentir que era feita de
grossa seda crua. Debaixo podia sentir os músculos duros, os pelos no peito magro e a batida lenta
e forte do coração de um atleta.
—Pode ficar descansada. O que aconteceu hoje não tinha absolutamente nada a ver com
drogas, — disse em voz baixa. Seu olhar era constante e direto. —Eu abomino drogas tanto
quanto você. Talvez até mais. Eu morreria antes de ter algo a ver com drogas.
Grace era uma observadora, habituada a viver à margem da vida. Tinha uma boa
compreensão das pessoas. Ou ele dizia a verdade ou era um mentiroso de primeira categoria.
—No entanto, — ele disse suavemente, —o que você viu tinha tudo a ver com dinheiro e
poder.
—Dinheiro e poder. —Ela deu de ombros, a mão ainda em seu peito. —Todos em Nova York
estão envoltos em dinheiro e poder. Isso não é nada. Eu simplesmente não podia suportar o
pensamento de estar na casa de alguém que está envolvido com drogas.
—Eu não estou. — Ele curvou a cabeça momentaneamente, os olhos fixos nos dela. —Você
tem minha palavra.
Cristo, devia estar louca, porque estava comprando a ideia, totalmente. Tinha a nítida
impressão de que ele raramente dava sua palavra e quando o fazia, ele a mantinha.
Opa, talvez ela tivesse uma concussão. Esquadrinhou seus olhos por um momento e não
encontrou nada, exceto, talvez, alguma tristeza e alguma dor.
Contra todas as probabilidades, acreditou nele.
—Tudo bem. Me desculpe perguntar, mas eu tinha que saber. É como se um enorme peso
houvesse sido tirado de meu peito.
Ele abaixou a cabeça novamente.
—Eu entendo perfeitamente.
Devagar e com cuidado, ele levantou a mão dela de seu peito e trouxe-a à boca, dando um
beijo delicado na parte traseira. Ainda que sua boca estivesse quente, o pincel macio de seus
lábios pintou um pequeno circulo de fogo na parte traseira de sua mão.
Seu corpo floresceu.
Respirou fundo e soltou a mão dele.
—Então eu vou, hum, tomar um banho. E eu acho que você devia sentar-se agora. Você está
com dor?
Ele pareceu surpreso com a pergunta, o fogo queimando seus olhos por um instante.

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—Nada que eu não possa lidar. Não se preocupe comigo, você vai tomar seu banho e relaxar
os músculos. Hoje você esteve rodeada de muita brutalidade. Eu vou tomar um banho em outra
suíte. E aqui... — ele cavou no bolso da calça e pegou algum tipo de aparelho eletrônico na palma
calejada de sua enorme mão. Ela olhou-o com cuidado. Era elegante e essencialmente
inexpressivo, com um grande botão do lado. —Leve isso com você. Coloque-o ao lado da banheira,
em fácil acesso. Se a água quente fizer você se sentir fraca de qualquer maneira, basta pressioná-
lo e eu virei. Não tranque a porta. Eu virei o mais rápido possível.
Bem, ficaria nua em uma banheira, de modo que não havia muita chance de que
pressionasse o botão. Ela era uma menina grande.
Se achasse que ia desmaiar, sairia da banheira. Ainda assim, para fazê-lo feliz, pegou o
aparelho pela ponta. Ele segurava a outra ponta. Estavam conectados por cinco centímetros de
plástico.
—Chame se precisar de mim. —Sua voz era insistente. Um músculo ondulando em sua
mandíbula, como se estivesse apertando os dentes para não dizer mais nada.
Ela olhou para as linhas de sua face áspera, forte, totalmente diferente de qualquer macho
que já conhecera e percebeu algo terrível. Algo que abalou os alicerces de seu mundo.
Oh! Deus. Estava atraída por este homem. Maciçamente. Descontroladamente.
Isso era claramente insano. Participar de um tiroteio a deixou louca. Essa era a única
explicação possível. Isso nunca tinha acontecido com ela antes, nunca. Ela tinha que estar na cama
com um homem para que seu corpo respondesse a ele da forma como tinha acabado de acontecer
com um simples toque dos lábios dele em sua mão.
Um fluxo de calor disparou desde sua cabeça até os pés, e não era menopausa. O negócio
era real. Com um simples beijo no dorso de sua mão, ele conseguiu acelerar o ritmo do sangue
que circulava em seu corpo. Na verdade, isso ainda era pouco, pois seu coração se acelerou e
agora estava batendo tão forte que era um milagre que ele não o ouvisse.
Raios de intenso calor cruzaram seu corpo, atravessando seus seios em direção a vagina.
Quando os lábios dele tocaram a pele de sua mão, ela apertou as coxas com força. Era a primeira
vez que isso acontecia com ela, tão surpreendente que levou todo um segundo para sequer
reconhecer como desejo.
Desejo por um homem que era assustador. Não sabia nada dele, exceto que parecia ser rico
e poderoso. Poderoso o suficiente para ter homens atirando nele. Poderoso o suficiente para ter
homens armados contratados para sua proteção. Pela sua experiência, homens ricos e poderosos
eram criaturas desagradáveis, completamente voltados para si mesmos, ignorando os outros. Este
homem, Drake, provou ser o exato oposto. Ele desarmou-se por ela, a protegeu com seu corpo,
insistiu que ela fosse tratada de arranhões e solavancos antes de Ben tratar seu ferimento a bala.
Homens ricos e poderosos tinham vibrações detestáveis saindo deles quase em ondas
palpáveis. Não estava recebendo isso de Drake, entretanto.
O que estava recebendo dele eram vibrações de desejo. Ricas, poderosas vibrações sexuais,
com algum sabor intenso, centrado nela.
E ela se sentia devolvendo essa energia.

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Era absolutamente insano. O que sabia sobre ele, exceto que era mortalmente perigoso? Ele
lutou como um soldado treinado, ainda que seu comportamento não se assemelhasse a um.
Soldados eram treinados para obedecer e este homem não parecia obedecer a ninguém. Um
exército de um homem só, isso é o que ele era e a sensação era muito para ela. Ela estava indo
além de qualquer coisa que já sentira e não tinha qualquer defesa contra o poder masculino sólido
que podia sentir jorrando dele.
Desejá-lo dessa forma era loucura.
Distanciou-se dele, como se saísse de um campo de força, apertando o aparelho eletrônico
em sua mão.
Ele deu um passo para trás, também. Talvez tenha percebido o quão abalada ela estava e
sentia que devia recuar. Ele acenou para o dispositivo.
—Mantenha isso perto de você o tempo todo e não hesite em usá-lo caso se sinta fraca. Não
feche a porta... —ele repetiu quando ela começou a fechar a porta na cara dele.
Não, não iria trancar a porta. Era a sua casa e ainda assim, ele parecia o tipo de homem que
poderia abrir qualquer fechadura num piscar de olhos.

Ela o queria.
Drake se estirou na água fumegante do outro banheiro, cuidando para não molhar as
ataduras, suspirando nos jatos quentes que massageavam seus músculos doloridos.
Grace definitivamente o desejava, o que era bom, porque seu caso iria começar em breve.
Transar com ela era uma necessidade estratégica, algo que sabia que tinha que fazer, mas não
seria um sacrifício. Era seu mais profundo desejo. Só agora, que esteve tão perto dela, a tocara,
podia admitir abertamente a si próprio o quanto ele a queria. Como queria sua próxima respiração
era a forma como ele a desejava.
E agora ela estava aqui, em sua casa, nua, neste exato minuto.
Sua mandíbula se apertou, a imaginação tumultuada correndo com o pensamento de Grace
nua em sua banheira.
Com o pescoço longo e branco inclinado para trás ao longo da borda da banheira, jatos
agitados turvando a água, revelando e, em seguida, escondendo o belo corpo pálido. Quase podia
ver o relaxamento no rosto bonito, as linhas de dor e estresse lentamente desaparecendo.
Não era muito comum ter que imaginar a nudez de uma mulher. A maioria das mulheres que
ele desejava nua estavam mais que dispostas a satisfazê-lo.
Percebeu uma mudança nas mulheres nuas ao longo dos anos em que vivia aqui. Não havia
mais suavidade. A maioria das mulheres bonitas se esforçava para ter seus corpos bronzeados e
musculosos. Corpos malhados, como diziam. E isso o intrigava. Quem queria uma mulher dura
neste mundo duro? A vantagem de ter sua própria mulher – não qualquer uma que desejasse
esporadicamente – era para ter alguma suavidade em sua vida.
Mas as mulheres ao longo dos últimos anos tinham ficado duras, por dentro e por fora.
Totalmente invulneráveis. O oposto de Grace Larsen, com sua pele lisa, macia e seu coração ainda

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mais suave. Ela estava certa em manter o mundo a distância, porque o mundo era como um
martelo gigante, apenas esperando para vir quebrando para baixo sobre uma pessoa como ela.
Hoje ela quase tinha sido quebrada.
Agarrou a borda da banheira com força, sentindo uma pontada de dor no ombro. Não muita.
Ben lhe deu algo que o entorpeceu, porém deixou tanto quanto possível o uso de sua mão e
braço. E de qualquer maneira, a dor não era nada. A primeira coisa que aprendeu na vida era
como ignorar a dor.
A maior dor em seu corpo agora era sua ereção forçando o pensamento de uma Grace nua
em sua casa. Por mais noites que se importava em lembrar, se masturbou pensando nela. Tudo o
que tinha a fazer era evocar os vislumbres fugazes que tinha dela na galeria, quando estava no
beco, e o tesão vinha rápido e infalível, endurecendo seu pênis. E foi aí que ele aprendeu sobre
ela, nos breves flashes da galeria, separados por um vidro grosso, enquanto ela falava com Harold
Feinstein. Não havia nenhuma maneira de saber como surpreendentemente macia era sua pele,
como o toque da mão dela poderia deixar seu pulso acelerado, como cada célula do seu corpo
chegava ao ponto mais alto em sua presença, como ferro em um imã.
Deus, ela era linda. Inteligente, corajosa e gentil, mas porra, ela era tão bonita também, com
o tipo de beleza que não se dissipava com o tempo. Mesmo com as roupas imundas,
ensanguentada, molhada e suja, ela simplesmente lhe tirava o fôlego.
Tudo sobre ela parecia desenhado especificamente para ele, desde seus olhos, os mais
lindos que já vira. Grandes, ligeiramente amendoados, não azuis ou verdes, mas a exata cor do
Mediterrâneo ao meio-dia. Ou seus seios, claramente visíveis embaixo da camiseta molhada que
ela usava. Também ficou claro que não usava sutiã, porque não precisava. Seus seios eram
perfeitos do jeito que eram.
Grace Larsen era tão fodidamente perigosa. Bastou o desejo de vê-la e ele se colocou em
perigo mortal, e grande parte dele estava começando a entender o quanto ela iria lhe custar.
Tudo. Tudo que construíra e trabalhara estava acabado. Ela iria lhe custar tudo que ele tinha,
inclusive a vida como conhecia. Trinta e quatro anos de vida estavam indo embora.
Não podia lamentar sua vida, mesmo porque não havia espaço suficiente em sua cabeça
para isso. Agora mesmo, a mais intensa sensação em seu corpo era o aperto entre suas pernas.
Olhou para si mesmo e com toda a certeza estava duro como uma pedra.
Segurou seu pênis com a mão ilesa e deu um puxão experimental, passando a mão desde a
base até a ponta, imaginando Grace fazendo isso para ele, e quase saiu da banheira com a
intensidade da sensação. Deus!
Sua mandíbula se apertou. Às vezes se masturbava quando tinha muita dificuldade para
encontrar uma mulher. Era uma forma de aliviar o estresse. Mas tocar-se, agora, com as recentes
imagens dela perto dele ali na sua cabeça, o fez sentir como se tivesse perdido uma camada de
pele.
Outro puxão e cerrou os dentes com a intensidade da sensação. Ele a viu, tocou, respirou o
mesmo ar que ela. Não era nada difícil imaginar os dois juntos na cama. Ela o olharia com os olhos
maravilhosos, nua em sua cama, as pernas abertas para ele.

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Ele podia vê-la através de suas pálpebras fechadas, podia senti-la.


Sentir seus braços em volta dele, o suspiro suave da respiração quando ele a montava. Ela
estaria suave e lisa para ele, porque neste meio estado de sonho ela o queria tão intensamente
como ele a desejava, o que significava que sua boceta chorava por ele, da mesma forma que seu
pênis chorava por ela.
Ele empurrava rapidamente para dentro dela, porque embora fosse conhecido por seu
autocontrole, não se sentia no controle aqui. Bastava montá-la, abrir suas pernas e enfiar tudo,
rápido, sentindo cada centímetro delicioso...
Pare. Rebobinando.
Isso não iria funcionar. Ele sabia que não podia enfiar nela como empurrava em uma
centena de outras mulheres. Ele era grande e tinha que tomar cuidado. Em seu mundo já vira
muita brutalidade contra as mulheres. Apenas o pensamento de machucar uma mulher o fazia
sentir enjoo. E essa mulher era Grace, não qualquer outra. Então não, não iria abrir as pernas dela
e empurrar tão duro e fundo como pudesse.
Primeiro iria tocá-la, suave e gentilmente. Cuidadosamente sentiria sua boceta até que
estivesse macia e molhada, enquanto beijava seus seios. Enfiaria de leve um dedo em sua boceta
para amaciá-la para ele. Ouviria seu suspiro de desejo...
Não, não estava funcionando também. Porque não podia tirar a maldita imagem dele
fodendo-a duramente, para fora de sua cabeça. Ele estava dentro dela, fodendo-a vigorosamente,
as mãos em seus quadris, olhando a cabeça dela se mover para cima e para baixo no travesseiro
com seus impulsos.
Sua mão estava se movendo mais rápido agora que via os dois na cama, as pernas esguias e
pálidas enroladas em sua cintura enquanto bombeava dentro e fora dela. Seu punho trabalhou
duro e rápido, com a imagem de ambos entrelaçados em sua cama grande queimando sua cabeça.
Fechou os olhos, a mão trabalhando mais e mais rápido na água, com a imagem dele se
movendo dentro de uma Grace quente e escorregadia, ouvindo sua respiração acelerada em sua
orelha, seus gemidos, os braços o apertando quando ela gritou e sua boceta estreitando seu pênis
como uma luva, foi demais. Um formigamento quente correu por sua espinha, os dedos dos pés
enrolando, sua mandíbula apertada enquanto seu pênis inchava mais ainda na mão. Era
impossível resistir ao calor, como tentar parar um trem de carga. O clímax jorrou através dele.
Começou a esguichar jatos quentes de esperma na água e arqueou as costas num prazer tão
intenso que era quase dor, num dos orgasmos mais explosivos que já tivera na vida.
Demorou um longo tempo, longos momentos até se acalmar, sua respiração voltar ao
normal, ser capaz de abrir os olhos e ver seu banheiro e não os dois nus enganchados na cama.
Permaneceu na água por um momento ainda, contemplando o teto, sentindo a mudança da
nova realidade à sua volta. Sua vida estava mudando ainda mais rapidamente do que até mesmo
ele podia acompanhar.
Cristo, ele tinha uma porrada de problemas se masturbando apenas pensando em Grace e
constatando que era muito mais emocionante que qualquer outra transa que tivera
recentemente. Estava tão acostumado a ter sua vida sob controle, ser o mestre de si mesmo e de

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tudo a seu redor, que isso o assustava um pouco. Não havia lugar em sua cabeça para essas novas
sensações, para a sensação de participar dessa nova vida. Grace agora fazia parte de sua vida, não
por escolha, mas pela violência, impulsionada por circunstancias alheias à sua vontade e a dela.
Ele podia lidar com a responsabilidade, tinha a responsabilidade de um maldito império sobre os
ombros. O que não podia lidar eram com as emoções ligadas a ela, emoções novas e
incontroláveis. Não existia muita coisa que o assustasse, mas isso o assustava.
Ficou na banheira enquanto a água esfriava e seu pênis relaxava para um estado semiereto,
considerando as mudanças maciças em sua vida.
Finalmente, se levantou, deixando a água escorrer por seu corpo. Sua vida agora não era
completamente dele, ele pensou enquanto se enxugava. Haviam medidas a serem tomadas e a
número um era cuidar de Grace.
Pegou a roupa limpa, um suéter e jeans e vestiu. De volta ao quarto, apertou um pequeno
botão num console.
—Senhor? — Uma voz desencarnada respondeu imediatamente.
Drake sorriu. Encontrara Shota nas ruas de Tbilisi, um menor abandonado ferido e
abandonado por seus companheiros. Levou-o para seu hotel, cuidou dele e, quando já podia
caminhar sozinho, descobriu que Shota não queria sair. Shota era inútil como soldado, mas acabou
sendo um soberbo mordomo.
Drake tinha casas em Odessa, em Ostende, na Bélgica, em Joanesburgo e agora em
Manhattan e Shota administrava tudo muito bem. Tinha seis empregadas domésticas, quatro
chefs e um segundo mordomo sob suas ordens, certificando-se que Drake vivesse em condições
limpas e confortáveis e que suas necessidades fossem atendidas de imediato.
Por um instante Drake pensou na possibilidade de que Shota o houvesse traído. Brincou com
a ideia em sua mente, virando-a devagar, olhando-a de todos os ângulos e, em seguida, a
descartou. Shota não apenas era fanaticamente leal, ele não era ganancioso. Shota vivia no
prédio, dois andares abaixo, como todos os empregados. Nunca pagou aluguel, transporte, comia
ali mesmo e parecia muito contente. O último aumento só foi aceito porque Drake o forçou a
aceitar.
Drake sabia que tratava Shota bem e que sua lealdade era real. Os seres humanos são
capazes de muitas coisas – ninguém melhor que Drake para saber disso – mas por isso mesmo
eram fiéis a si próprios. Shota era fiel a Drake até os ossos. Então ele não era o alvo que Drake
procurava.
Drake iria em cima de cada um dos funcionários que possuía. Só alguém que trabalhava aqui
saberia de seus movimentos.
Ao todo, Drake tinha uma equipe permanente de quarenta e cinco homens e seis mulheres,
entre eles, um traidor. Ele tinha instintos afiados e poderia verificar os movimentos de cada um
dos funcionários através das câmaras de vigilância durante todo o ano passado, se fosse
necessário.
Encontraria o traidor e o faria sofrer, mas agora existiam outras coisas muito mais
importantes para ver.

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—Senhor? — A voz de Shota soou com certa perplexidade. —Você precisa de algo?
Deus do Céu. Estava tão relaxado pelo orgasmo que se esqueceu do tonto lá embaixo.
—Sim, Shota. Eu gostaria que o jantar fosse servido na sala de jantar, colocado em frente ao
fogo. Algo quente e nutritivo, com uma deliciosa sobremesa. — Grace ia precisar do calor do
açúcar para superar o choque—e uma boa garrafa de vinho tinto. Um destes merlots argentinos
que você comprou seria ótimo.
—Sim senhor, — a voz de Shota voltou. Drake podia imaginar que ele já estivesse agitado,
começando os preparativos.
—Para dois, — Drake disse, um leve sorriso levantado no canto da boca.
—Senhor? — Shota parecia chocado e assim deveria parecer. Estava com Drake por anos e
nunca, ninguém ficou para uma refeição. Todas as refeições com mulheres foram feitas em clubes
privados, com adequadas medidas de segurança, ou servidas em seu apartamento na Quinta
Avenida. Ele nunca fazia negócios durante as refeições, uma de suas duras e rígidas regras.
Alimentação e bebida alcoólica eram distrações que não podia se permitir durante as negociações,
e a possibilidade de envenenamento também deveria ser considerada.
—Jantar para dois, Shota. E amanhã de manhã eu preciso de você para...— Drake tentou
pensar nas roupas que viu Grace usar. Ela tinha gosto clássico, nada muito fashion, com cores
brilhantes. —Valentino, — decidiu. E Ralph Lauren.
Quantas peças? Bem, demoraria ao menos uma semana para fazer tudo que ele precisava,
sem mencionar a sedução em que estaria empenhado.
—Cinco suéteres de caxemira azuis, verdes e vermelhos, cinco pares de calças de caxemira e
lã, cinco vestidos simples de lã e dez camisas. Em seguida, vá a La Perla e compre roupa íntima.
Seda, é claro. Não tangas. — Algum instinto lhe disse que ela não usava tangas. Ela não se vestia
para seduzir.
—Mas, mas... — Shota soprou.
—Eu não sei o tamanho, mas especifique que é para uma mulher de cinquenta e cinco quilos
e um metro e sessenta e cinco de altura. Ah, e sapatos. Botas forradas e sapatos sem salto. Muitos
deles. Tente Ferragamo. Tamanho sete. Drake estava acostumado a medir seus concorrentes.
ficaria surpreso se o número dela variasse meia polegada do que ele estimara. Deus, o que mais
precisaria uma mulher?
—Vá em algum lugar como Bergdorf ou Saks e compre cremes.
—Cremes, senhor? — Shota parecia resignado.
—Sim. — Quais tipos de cremes? Porra, se ele soubesse. —Creme para o dia, para noite,
cremes para o corpo... — E merda, se ele não criava imagens em sua cabeça. —E, produtos
íntimos. — Shota tossiu. Drake sorriu. —Você sabe, esses que as mulheres precisam às vezes.
Um som chocado atravessou o interfone.
Drake suspeitava que Shota era gay. Pessoalmente, não dava a mínima para a orientação
sexual de ninguém. Fosse o que fosse, Shota mantinha discrição em sua vida íntima. Mas Drake
sabia que ele tinha um excelente olho para roupas e lingerie porque já escolhera algumas para ele.

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Produtos femininos poderiam expandir um pouco seus conhecimentos, mas era algo com o que
ele poderia lidar.
—E, Shota?
—Sim, senhor.
—Eu quero jantar em quinze minutos. — Dos quatro chefs, dois estavam sempre de plantão.
Seus homens, muitas vezes comiam por ali.
—Absolutamente, senhor. — Shota parecia aliviado por voltar a um terreno familiar. Os
cozinheiros poderiam proporcionar uma excelente refeição para cinquenta pessoas num piscar de
olhos.
—Muito bem. E uma coisa mais.
—Senhor.
—De agora em diante, até ordem em contrário, você é a única pessoa que entra em meus
aposentos pessoais, a menos que eu os convide para subir. Você vai trazer a comida e as outras
coisas que eu pedi, pessoalmente. Peça ajuda para chegar até a porta, mas você é o único a
atravessar esse limiar, compreendeu?.
Sabia que Shota iria entender como o testemunho da confiança de Drake nele, como de fato
era.
—Perfeitamente claro, senhor. E... — Drake quase podia imaginar Shota corando. —
Obrigado, senhor.
Drake desligou o interfone. Se levantou e se dirigiu ao aparador, repleto de licores e caixas
de charutos. Os charutos eram uma cortesia mensal de Fidel e ele se perguntou o que aconteceria
quando Fidel se fosse. Sem dúvida, os embarques cessariam.
Os tempos mudaram. Estavam mudando agora.
Serviu-se de um copo de Courvoisier, sentou-se no sofá com um suspiro e tomou um longo
gole.
O álcool era um excelente remédio. A menos que você fosse um escravo dele, como a
maioria dos russos eram, este era um dos grandes prazeres da vida.
Tomou um gole, apreciando tudo sobre este momento. O perigo extremo que enfrentou fê-
lo consciente da plenitude da vida.
O fogo crepitava agradavelmente, as chamas explodindo em cores intensas, banhando o
quarto com um quente brilho rosa. Dois andares abaixo, os chefs estavam preparando o jantar,
que sabia, seria excelente. O Courvoisier descia aquecendo seu estômago, irradiando calor para o
exterior.
Seguro em sua fortaleza, esvaziou a mente de todos os cuidados e preocupações e esperou a
mulher mais bonita do mundo sair do banheiro.
Quanto tempo levaria para ele largar desta vida? Para efetivamente morrer? Uma semana?
Duas?
Tanto faz, como diziam os americanos.

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Em algum momento ela teria que sair desta pecaminosa e escandalosamente luxuriosa
banheira. Estava simplesmente tão maravilhoso, chafurdando na água, sentindo os jatos fortes
massagearem os músculos doloridos.
Ela procurou, mas não havia óleos essenciais, então era somente a água de Nova Iorque, que
estava muito bem.
Na verdade, embora o banheiro fosse suntuoso, ficou surpresa com a falta de produtos para
cuidados pessoais.
Drake obviamente podia tê-los. Era podre de rico, na verdade. Parecia ter recursos para
todos os produtos de cuidados com a pele do mundo. Mas, ao procurar óleo de banho para
colocar na banheira, tudo que encontrou foram as toalhas macias, algo como cinquenta escovas
de dentes fechadas, a mesma coisa para creme dental, um ano de fornecimento de sabonete
muito comum, xampu e um barbeador elétrico. Era tudo.
Incrível.
Há alguns meses ela namorou um rapaz que cuidava dos investimentos em seu banco. Foi
chamada ao banco e estava se perguntando se fizera algo de errado, quando descobriu que o
aumento do seu saldo era o motivo do convite. Seu especialista em investimentos, Lawrence
Kelsey, queria mostrar uma série de oportunidades de investimentos que garantiriam o aumento
de seu capital.
No fim, tudo parecia uma grande quantidade de trabalho e mais uma distração do que
qualquer outra coisa. Mas no final da sessão, segurando sua mão firmemente ele a convidou para
jantar fora.
E, em um momento de fraqueza e solidão, contra seu melhor juízo, ela aceitou. O jantar foi
em um chique restaurante japonês, onde a comida era excelente. Conseguiu comer sossegada
porque Lawrence dava conta da conversa sozinho, falando de sua carreira no banco e sua nova TV
de plasma. Não tinha que fazer nada, apenas ficar acordada, concordar ocasionalmente, e apreciar
o fantástico tempura.4
Ela aceitou ir até seu apartamento, mesmo compreendendo que poderiam acabar juntos na
cama. Pediu para usar seu banheiro e encontrou-se simplesmente de boca aberta com a
quantidade de produtos para cuidados com a pele, cosméticos e água de colônia, em uma enorme
bancada branca. Se sentiu envergonhada de sua própria coleção miserável. Vinte minutos depois,
alegando forte dor de cabeça, estava a caminho de casa.
Drake não tinha nada disso. Em relação a todo o luxo do quarto, o banheiro era
definitivamente muito masculino.
Inclinou a cabeça sobre a borda e esvaziou sua mente, sentindo os músculos relaxarem
lentamente, um por um. Alguém regulou os jatos ao máximo e ela adorou a batida gentil da água.
A mente dela deslizou. Pode até ser que tenha adormecido porque de repente levantou o pé e os
dedos estavam tão enrugados como uva passas.

4
Prato clássico da culinária japonesa. Consiste em pedaços de vegetais ou mariscos, envoltos em um polme fino.

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Não tinha nenhuma pressa. Drake não lhe tinha dado nenhuma impressão que ele esperava
que fosse rápida, o que era ótimo. Estava esmagada de cansaço e descobriu que só conseguia se
mexer, lentamente.
As toalhas brancas eram as mais grossas e macias que já vira. Uma vez que se enxugou,
notou o traje dobrado em cima do armário. Abriu o material macio e descobriu o que era um gi.
Era feito de seda grossa.
Grace olhou para suas roupas no chão. Sujas de lama e sangue. Incluindo a calcinha. Apenas
o pensamento de ter que colocar suas roupas sujas a repeliu. Com um encolher de ombros, vestiu
a roupa de Drake. Ele estava certo, era talvez, a única coisa dele que podia caber nela. Nos filmes
que assistiu, as mangas alcançavam o antebraço, no caso dela, deixavam as mãos cobertas. Virou
as mangas para cima e embrulhou o casaco em volta de si. As calças eram muito longas, mas não o
suficiente para tropeçar. O cordão da cintura era perfeito. Contemplou os sapatos encharcados e
optou por ficar com os pés descalços.
Ok. Hora de sair do banheiro.
Percebeu que este tempo do banho tinha sido como uma pequena pausa para ela. Havia
tantas coisas para enfrentar quando saísse do banheiro, incluindo essa atração insana por Drake.
Não sabia nada sobre ele. O medo intenso que sentiu no elevador se esmaeceu, mas havia
ainda um mal-estar subjacente. Ninguém sabia onde ela estava e agora percebeu que não podia ir
para casa. Em todos os sentidos, estava sob o poder de Drake.
Estar atraída por ele não fazia as coisas melhores, muito pelo contrário.
Reunindo coragem, empurrou a porta branca e saiu.

Capítulo 7

Drake ouviu a porta do banheiro ser aberta. Vapor escapou do banheiro, revoando em torno
de Grace, quando ela abriu a porta.
Cristo, ela era linda.
E estava com medo.
Ele estava de pé, numa reação instintiva de macho na presença de uma mulher bonita.
Sua linguagem corporal inteira falava de angústia. Os olhos grandes, fixos nele, sem saber se
era amigo ou inimigo, abraçada a si mesma, em busca do próprio conforto. Colocou as mãos sob
as axilas para esconder o fato de estarem tremendo. Estava descalça, com um pé enrolado no
outro. Seus pés eram extraordinariamente bonitos – pálidos, estreitos e pequenos.
Drake andou até ela e retirou a mão que estava presa sob o corpo.
Lentamente, observando seus olhos com cuidado, ele levou a mão trêmula à boca.
Seus olhos se arregalaram.
Ele sorriu para ela.

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—Você está parecendo um pouco melhor. Eu estou contente. Eu pedi que subissem um
pouco de comida. Você teve um choque e um pouco de comida quente vai fazer bem.
Drake soltou sua mão e ficou completamente imóvel. Era a única coisa que podia fazer. Ela
devia estar se sentindo como se tivesse caído num buraco de coelho, não no País das Maravilhas,
mas em Horrorolândia. Tinha sorte que ela não estivesse gritando, chamando a polícia.
Drake sabia que era absolutamente essencial ganhar a confiança dela e então ligá-la a ele
em todos os sentidos. Essa longa jornada juntos tinha que começar agora. E a única maneira que
sabia para dar o primeiro passo era permanecer imóvel, abrindo-se para ela.
Drake passou a vida inteira assombrando homens assustadores. Nos primeiros anos, como
autodefesa e depois, quando cresceu em prestígio, força e riqueza, como tática. Era bom nisso. Era
forte, inteligente, rico. Implacável. Essas qualidades exalavam um aura que normalmente era
suficiente para fazer qualquer homem que o confrontasse, recuar. O tipo de homem que não
notava isso era normalmente estúpido e estava, inevitavelmente no lado perdedor, e, muitas
vezes, acabava morto.
A intimidação era uma segunda natureza nele. Vivia em um mundo selvagem. Sabia como
permanecer no topo por que era mais selvagem que a maioria.
Nenhuma de suas armas, porém, eram de alguma ajuda aqui, com Grace. Não queria
intimidá-la, queria – precisava – seduzi-la.
Primeiro passo na sedução – certifique-se que a mulher não tem medo de você.
Então ficou perfeitamente imóvel, apenas respirando, segurando a mão dela com cuidado.
Não muito solto, nem muito apertado. Estava perto o suficiente para sentir o cheiro dela, mas não
tão perto que invadisse o espaço pessoal que cada animal necessita.
Ficaram ali, Drake totalmente imóvel até vê-la calma. Lentamente, sua respiração se nivelou
e ela esticou o corpo. Em algum nível, mais profundo do que as palavras, percebeu que não tinha
necessidade de proteger seus órgãos vitais, que é o que fizera inconscientemente quando
abraçara a si própria tão firmemente.
Sua imobilidade a tranquilizou. Ele deliberadamente relaxou todos os músculos, limpou a
mente de todos os pensamentos e se abriu para ela, algo que nunca fizera antes.
Funcionou. A veia em seu pescoço assumiu uma batida mais lenta, a mão relaxando na sua.
—Venha, — disse ele, finalmente, puxando levemente. —O jantar está esperando por nós.
Vamos antes que esfrie.
Grace ficou apenas mais um momento observando seus olhos. Fosse o que fosse que
procurava, ela encontrou.
—Tudo bem, — disse suavemente e se aproximou.
Drake olhou para seus pés e fez uma careta.
—Você está com os pés descalços. Desculpe, mas não tenho nada que lhe sirva. Talvez uma
das empregadas tenha um par de chinelos.
Ela sorriu levemente.
—Não se preocupe com isso. O piso é coberto por tapetes e estou acostumada a andar
descalça em casa. Eu estou bem.

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Serie Dangerous 03

Ele não gostou da ideia, embora tivesse que admitir que gostava de olhar para seus pés nus.
Mas ela podia pegar um resfriado. Fez uma anotação mental para dizer a Shota que acrescentasse
vários pares de chinelo Ferragamo na lista de coisas a comprar para ela.
Caminharam juntos pelo grande corredor. Não largou a mão dela e ela não a puxou para
ficar livre. Drake estava tão tomado por sua presença, pela sensação da mão macia na sua, que
apenas quando estava chegando na porta da sala de jantar percebeu que era a primeira vez que
andava de mãos dadas com uma mulher.
Esta ligação era estranha e íntima, de certa forma mais íntima que transar. Você podia foder
uma mulher com a qual você não se importava particularmente. Fácil. Mas você não segurava a
mão dela. Ficar de mãos dadas significava uma relação mais íntima, de confiança e afeto.
Eles não estavam lá ainda. Mas logo estariam. Tinham que estar.
—Vá em frente, — disse, segurando a porta aberta para ela. Ela olhou para ele e,
tranquilizada pelo que viu em seu rosto, entrou na sala.
Shota se superou. Através de seu incrível radar, Shota entendera que este não seria um
jantar de negócios. Colocou a melhor porcelana chinesa e ao que parecia, toda prataria na mesa.
Drake não tinha ideia do que fazer com pratos de porcelana chinesa. Quando eles chegaram a
Manhattan, simplesmente disse a Shota para comprar o melhor e era o que ele tinha feito.
Reluzentes, delicados pratos com as bordas prateadas, taças de cristal e velas brancas em castiçais
de prata. As velas estavam acesas. Juntamente com algumas lâmpadas de baixa luminosidade,
eram a única iluminação na enorme sala com exceção do fogo crepitante na lareira.
A mesa parecia atraente e íntima, em nada parecida quando jantava sozinho, com o único
intuito de se alimentar. Esta parecia ser uma pequena cerimônia.
Todo o conjunto deve ter apelado para a artista dentro dela, pois quando olhou para ela,
havia um pequeno sorriso em seus lábios.
—Muito bonito, — disse baixinho.
Ele balançou a cabeça, concordando. Estava mesmo muito bonito.
Ninguém jamais ensinara boas maneiras a ele. Cresceu nas ruas, lutando todo seu caminho
até o topo. Ninguém jamais lhe disse como os homens devem se comportar em sociedade, com as
mulheres. Seus anos de formação foram gastos com os senhores da guerra, generais e líderes
rebeldes. Mais tarde, fez amizade com alguns jornalistas e os ímpares agentes da Cia, ásperos,
nenhum que pudesse falar sobre boas maneiras.
Mas Drake sabia observar. Então sabia que deveria acompanhar Grace até sua cadeira, puxá-
la e esperar que ela se sentasse antes de dirigir-se a seu lugar. Ele tinha visto isto ser feito. Sabia
como deveria ser.
Mas não foi para parecer refinado ou estar de acordo com as regras sociais que ele o fez.
Veio natural e instintivamente. Desde o mais profundo de seu ser. Deu-lhe um enorme
prazer levá-la até sua mesa, certificar-se que estava confortavelmente acomodada antes de tomar
um assento próprio. Nada a ver com boas maneiras e tudo a ver com um instinto visceral.
Seus cozinheiros se superaram. Quente e nutritivo, ele pedira. Aparentemente aquilo era
sopa. Sopa que era... verde, ele descobriu quando colocou no prato dela.

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—Eu não tenho ideia do que seja isso. — Encheu seu próprio prato e esperou até que ela
pegasse a colher e delicadamente provasse a sopa.
—Eu espero que esteja bom. Meus cozinheiros parecem saber o que fazem. Normalmente.
—Está maravilhoso, — disse ela baixinho. —E, apenas para registro, é sopa de agrião.
Agrião. Jesus. Conhecia todas as armas que já haviam sido fabricadas. Todas as formas de
lutas marciais. Isso ele conhecia. Agora, que porra era agrião?
—Um vegetal. Ele cresce selvagem. — Olhou para ele com um pequeno sorriso,
respondendo a pergunta não formulada. —Experimente. Você vai gostar. Realmente é muito bom.
— Ele o fez. E era mesmo bom.
Ambos estavam famintos e comeram rapidamente.
Drake sabia que a comida estava muito boa, fantástica mesmo, mas mal podia prová-la.
Estava completamente ocupado com Grace Larsen, Em sua mesa, a seu lado.
No ano passado correu riscos extraordinários só para vê-la, dizendo a si mesmo que era um
idiota, nunca pensou que se sentaria ao lado dela, exceto no meio da noite, em seus sonhos.
Ele se curava rápido, quase de maneira sobrenatural. Já se sentia muito melhor, quase
normal. Podia sentir a força retornando a cada minuto a seu corpo, o sangue circulando mais
fortemente em suas veias. Infelizmente, a maioria foi direto para seu pênis.
Deliberadamente, colocara jeans duros e apertados, esperando que agisse como uma
espécie de cinto de castidade, mas não estava funcionando. Apenas vê-la comer, se mover –
inferno, respirar – o estava deixando duro.
Merda.
Tinha uma enorme disciplina mental, mas nenhum dos jogos da mente estavam
funcionando. Não quando tinha Grace a poucos metros dele, o kimono ligeiramente aberto sobre
os seios, mostrando as depressões e sombras, a clavícula visível.
Cerrou o punho na mesa. Queria tanto chegar mais perto e tocá-la, que sua mão coçava.
Entendia seu pênis, tentando perfurar o tecido firme do jeans. Seu pênis queria alcançá-la e tocá-
la também.
Na verdade, seu pênis queria estar dentro dela, da pior maneira. Era como se nunca tivesse
tido relações sexuais antes, de tão intensa que era a sensação.
Estavam mantendo uma conversa educada, sobre comida, talheres, castiçais – mal
conseguia manter sua mente no que estavam dizendo - o tempo todo a cabeça inundada com
imagens dela em sua cama.
Sequer era capaz de fantasiar sobre as preliminares – não, sua cabeça foi direto para o prato
principal. Fodendo. Fodendo Grace. Que estava – uau - não mais que a meio metro de distancia.
Perto o suficiente para sentir o cheiro dela, uma fragrância delicada sob o cheiro de comida e
madeira de sua casa. Perto o suficiente para ver como sua pele era refinada, numa bela cor
brilhante, como se fosse pó polvilhado de pérola.
Ela preferia roupas confortáveis, assim como todas que ele viu na galeria, tinha que
adivinhar o que tinha por baixo, mas agora, vestida com seu kimono que ela apertou em torno da

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Serie Dangerous 03

cintura com muita força, com medo que a maldita coisa fosse cair, podia ver exatamente como ela
era.
Perfeitamente. Assim ela era feita.
Se encaixaria perfeitamente em suas mãos, se encaixaria perfeitamente com ele. Podia vê-
los em sua cama, ela, com o corpo delgado pálido, abraçando seus quadris com as pernas, os
braços ao pescoço, ele bombeando dentro dela. Ela seria macia lá também. Molhada o suficiente
para levá-lo, para que pudesse deslizar facilmente dentro e fora dela. Suas mãos – onde diabos
estavam suas mãos neste cenário?
Segurando a cintura fina, bem abaixo da curva sexy antes que as levasse para os quadris
aumentando a velocidade das estocadas. Mas também queria segurar seus seios enquanto
transava com ela, um polegar raspando o mamilo, sentindo como endurecia a seu toque,
enquanto se movia dentro dela. E queria também uma mão naquela cabeleira gloriosa, sentindo
ondular suavemente sobre seu braço como uma cachoeira feminina. Mas o que ele queria
realmente era segurá-la com as pernas abertas, as mãos em concha sob as pernas dela, de modo
a espalhá-las e ter acesso total a sua boceta, sem nada no caminho...
Merda, precisaria de quatro pares de mãos. Como é que isso iria funcionar?
Oh Deus, ele estava tão duro que era doloroso. Achou quase impossível banir as imagens de
ambos em sua cama, enfiado dentro dela, duro na suavidade, sua pele escura misturada a pele
clara dela. Enquanto a olhava avidamente, assistindo cada porção de comida chegar até sua boca,
— seu pênis invejando o suflê de abobrinha e a batata gratinada enquanto passavam por seus
lábios viçosos, porque aí é que ele queria estar—, podia sentir um arrepio elétrico correr pela
espinha. Suas bolas apertadas, seus quadris se movendo inconscientemente, querendo estar nela,
empurrando.
Oh Deus, estava a segundos de um orgasmo, aqui mesmo, na mesa de jantar. Não só seria
embaraçoso, mas também, ela não estava, de modo algum, preparada para enfrentar a
intensidade do seu desejo sexual por ela.
Então apelou por cada grama de auto controle que possuía e expulsou o desejo premente.
Na cabeça dele, puxou seu pênis para fora dela, se levantou da cama e foi embora.
Uma das coisas mais difíceis que já fizera em sua vida dura.
E quando o nevoeiro da luxúria se retirou, percebeu o que deveria ter notado mais cedo.
Grace estava fazendo desenhos na toalha branca com os dentes do garfo de sobremesa. O
olhar perdido estava de volta.
Drake pôs um dedo sob seu queixo e perguntou:
— O que você está pensando?.
—Eu estava pensando - imaginando - onde está Harold. Harold Feinstein. Ele era o dono da
galeria.
Aquele cuja cabeça foi estilhaçada pela bala de um atirador.
—Sim, —ele disse gentilmente. —Eu sei quem ele era. Seu corpo está com toda a certeza, no
necrotério da cidade aguardando uma autópsia.
Seus olhos flamejaram.

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—Autópsia? Por que iriam realizar uma autópsia? Eu não acho que haja qualquer dúvida
sobre a maneira como ele morreu.
—Não, claro que não. Mas um médico legista vai retirar a bala para verificação. As
autoridades serão capazes de dizer muito sobre o atirador, a trajetória da bala, traços de carne,
etc. Obviamente, você não assiste CSI5.
A bala teria atravessado a cabeça de Feinstein como creme e provavelmente acabou
incorporado ao piso de madeira da galeria. O atirador não teria arriscado a deixá-la em local visível
para que a polícia a encontrasse e estudasse. Drake iria, mais tarde, invadir o computador do
laboratório forense da polícia para ver o relatório sobre a marca da arma.
Ela corou.
—Ah, claro que eles precisam fazer autópsia. Que estúpido da minha parte. Eu realmente
não tenho televisão, mas até mesmo eu ouvi falar do CSI. Espero que descubram quem o matou e
quem atirou em nós.
Drake tinha a intenção de descobrir antes que a polícia. E executar sua vingança.
Correu um dedo sobre o dorso de sua mão, sentindo a pela macia, os tendões delicados, em
seguida levantou os olhos. —Não se desculpe. Acho que você tem coisas melhores para fazer com
seu tempo que assistir cadáveres na TV.
Grace piscou. —isso é... — Ela fechou a boca com um estalo.
—O quê?
Seus maxilares cerraram-se quando ela balançou a cabeça com força. Ele suavizou o tom de
voz, colocou a mão cobrindo totalmente a dela.
—O quê? — Perguntou novamente. —O que foi Grace? Não há nada que você não possa me
dizer.
Ela olhou em seus olhos por um momento, procurando por algo, então respirou fundo.
—Eu não sei se você vai acreditar, mas eu acho que essa é a primeira vez que eu digo que
não possuo TV sem ser tratada como se fosse retardada ou excêntrica, além de tudo. Para a
maioria das pessoas é mesmo muito louco imaginar isso. Mas o fato é que eu trabalho o tempo
todo e a TV seria uma distração para mim. De qualquer maneira, eu prefiro ler. Mas no final nem
sempre estou a par das últimas novidades o que é considerado quase antissocial, como o uso de
sapatos inadequados ou ir a um restaurante elegante usando roupas de ginástica. Apenas não se
faz isso.
Ele apertou sua mão um pouco, com muito cuidado. Suas mãos eram fortes e não queria
machucá-la. Só queria enfatizar suas palavras.
—Eu não quero nunca mais ouvir você se chamando de estúpida. Você é uma artista. Como
poderia perder seu tempo com as idiotices da televisão ao invés de criar? E eu vou confessar, eu
não tenho um aparelho de televisão, também.
Era verdade. O negócio de Drake dependia de informações precisas. Aprendera através de
experiências amargas que a última coisa que a TV e os grandes jornais traziam eram informações

5
CSI: Crime Scene Investigation (Investigação Criminal) - série de televisão americana.

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Serie Dangerous 03

precisas. Usava a internet, ‘hackeando’ os relatórios de empresas e relatórios policiais em uma


imagem clara sobre o que estava acontecendo no mundo.
Também tinha dezenas de informantes pagos, que, provavelmente, custariam uma nota nos
jornais, se é que os jornais fossem imprimir o que eles descobriam.
—Sério? Você não tem uma TV? — Seus lábios se curvaram num meio sorriso. Ele sentiu
seus próprios lábios instintivamente em movimento e levou um segundo para perceber que estava
sorrindo de volta. —Talvez nós sejamos dois desajustados, então.
Oh sim. Apesar que desajustado não era bem uma forma de descrevê-lo. Ele nasceu do lado
errado, o predador rondando à margem da sociedade. Era o que ele sempre tinha sido.
Mas era um pensamento um pouco chocante, ainda assim. A ideia de que ele e essa mulher
gentil e linda pudessem ter um elemento básico em comum em suas vidas o obrigou a fazer uma
pausa. Estava acostumado a não pertencer a ninguém e a nenhum lugar. Ser como ninguém no
planeta. Esta era a coisa mais profunda e verdadeira que sabia de si mesmo.
Era um solitário e um estranho e nada iria mudar isso. Seu polegar acariciou lentamente a
pele macia da mão dela.
—Talvez nós sejamos, — admitiu ele, sentindo um pequeno choque passar por ele com a
ideia. Olhou para seu prato vazio e franziu o cenho. Ela deixou metade da sobremesa. Precisava de
açúcar para combater o choque do que viu esta tarde e ele queria que terminasse a sobremesa.
Estava uma delícia. Ela precisava disto, mas mais do que isto, ele queria que ela comesse a comida
que ele oferecia. Desejava que ela o fizesse.
—Aqui, —ele disse de repente, soltando sua mão e pegando um pedaço da torta de limão.
—Termine de comer. Você precisa de açúcar. Abra a boca.
Ela abriu obedientemente. Ele a alimentou, vendo a boca cheia cor de rosa fechando-se
sobre a colher. Puxou a colher lentamente, imaginando de uma forma muito vívida que era seu
pênis saindo de sua boca. A imagem simplesmente brotou, incontrolável, sem chance de parar.
Uma onda de sangue correu entre suas pernas.
Oh Deus, tudo isso era tão...delicioso. O fogo enorme pintando sua pele num brilho rosado,
como a aurora boreal em Vladivostok. A luz de velas refletindo-se em brilhantes pontos de luz em
seus olhos azuis-esverdeados. Estava perto o suficiente para sentir o cheiro da sua pele. Houve um
silêncio completo na sala, exceto pelo crepitar das chamas e as batidas de seu coração.
Seus olhos estavam fixos nos dele. Sabia que ela estava vendo seu desejo e também sabia
que ela podia vê-lo controlá-lo.
O sexo crepitava entre eles. Seus olhos brilhavam para ele. Eles também estavam luminosos,
com um toque de alarme. Embora o ar pulsasse com energia sexual, Drake conhecia o suficiente
para controlar seu incêndio, porque não queria assustá-la.
Ela seria dele. Oh sim.
Não esta noite, talvez, mas logo.
Grace olhou para longe, quebrando a conexão.
—Você acha que vão liberar o corpo em breve? Ele tem um filho em Los Angeles. Eles não
eram próximos, infelizmente. Acho que isso era um dos maiores arrependimentos de Harold, não

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estar próximo a seu filho. Nunca falou muito sobre ele, mas sempre havia uma expressão triste em
seu rosto quando falava. Eu não sei que tipo de funeral seu filho vai organizar. Harold era judeu,
mas não era religioso. Espero que eu possa saber quando será.
Cada fio de cabelo do corpo de Drake se arrepiou.
—Não, — ele disse e os olhos de Grace se arregalaram. Teve que cerrar os dentes contra a
frieza da vontade de ordenar que ela esquecesse até o simples pensamento de assistir ao funeral
de Harold. E, em seguida, ampliando a proibição, dizer-lhe que de agora em diante, ela era sua
gêmea siamesa, unida a ele pelo quadril e que não colocaria o pé porta afora sem sua autorização
expressa. E certamente nunca sem que ele estivesse a um palmo de distância dela.
As palavras se estrangularam em sua garganta. Isso não iria acabar bem para uma mulher
acostumada a ser completamente independente. Nesta fase, ela iria se rebelar.
Sua mente zumbia inutilmente, agitada em busca de palavras para convencê-la. Era difícil
concentrar-se em palavras persuasivas quando sua mente estava inundada com uma visão muito
clara de ambos mortos em uma poça de sangue, mortos a tiros por Rutskoi ou coisa muito pior,
como prometeu o capanga de Cordero. Ou pior, com tiros nos cotovelos e joelhos, a marca
registrada de Cordero.
Não. Eles não colocariam as mãos em Grace. Não enquanto ele vivesse.
Drake tentou modular sua voz, colocar um pouco de persuasão, mas não era fácil. Estava
acostumado a mandar, não a persuadir.
—Grace, receio que você não possa comparecer ao funeral de seu amigo. —Ele refreou as
palavras eu não vou deixar você ir. —É muito perigoso aparecer em um local específico neste
momento específico. Meus inimigos sabem exatamente onde ele será levado.
Grace se ajeitou na cadeira.
—Se você acredita nisso, então eu não posso voltar a meu apartamento.
Diabos. Ele esperava um dia ou dois antes que ela chegasse a essa conclusão. Era verdade.
Como o título de um velho romance americano que viu em uma livraria, ela nunca poderia ir para
casa novamente.
—Eu temo que... —Seu celular tocou e ele levantou um dedo. Apenas seus homens tinham
seu número particular e eles não chamariam se não fosse absolutamente necessário. Olhou o
número e franziu o cenho. Boris, o chefe da equipe de quatro homens enviados para vigiar o
apartamento de Grace.
—Sim, Boris?
—Não é Boris, chefe. —A imagem de Ivan apareceu na tela pequena, a voz sombria. —Ele
não vai chamar você de novo. Chegamos tarde. — Ivan girou o celular ao redor e o sangue gelou
nas veias de Drake.
Era uma cena de destruição total. Uma porta arrancada das dobradiças, uma massa
sangrenta no chão, identificável como Boris apenas por suas botas pretas, o caos visível dentro do
apartamento muito além dos pés sangrentos de Boris.
Após uma primeira onde de raiva ao ver seu funcionário morto e o apartamento de Grace
transformado em uma lixeira, Drake sentiu-se entrar em modo de combate. A mudança foi

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imediata, completa. Ele se tornou uma máquina de combate, sem interferência de emoções.
Emoção não tinha lugar nesta terra fria de cálculo e manobras.
—Vá aos outros cômodos, — disse friamente, então virou o telefone celular para que Grace
também pudesse ver os destroços em seu apartamento. Ela engasgou, mas ele não a tocou para
confortá-la, não tirou os olhos da tela. Ela não precisava ser consolada. Precisava ter medo.
Precisava ver isso para entender o que estava enfrentando. Era brutal, traumatizante, mas muito
mais eficaz que quaisquer palavras que ele pudesse dizer. Suas palavras não iriam convencê-la,
mas isso sim.
O que estava em sua tela era um sinal de grande perigo que apenas uma mulher insana não
perceberia.
Ivan caminhou vagarosamente pelo apartamento, registrando a destruição.
Interessante, pensou Drake friamente. A destruição foi controlada e sistemática, realizada
com uma faca. Não foi vandalismo, destruição sem motivo. Aqui havia uma ordem de pura
intimidação. Quem fez isso queria aterrorizar Grace, bater em seus pontos mais vulneráveis. Todas
as obras dela foram destruídas, todas as suas roupas, até mesmo seus sapatos. Todas as suas
coisas pessoais.
A mensagem era clara. Vamos destruí-la em seguida. Então fique com medo, porque nós
estamos chegando.
Seus olhos estavam fixos na pequena tela.
—Meu Deus, — ela exalou.
—Vá para a cozinha, —Drake ordenou a Ivan e não se surpreendeu quando viu suas janelas
de vidro intactas. Quem fez isso não queria fazer qualquer ruído. Outra prova de que não era fúria
louca, mas uma campanha cuidadosamente pensada para fazer Grace sair de seu esconderijo,
chacoalhando-a.
Tolos.
Drake não estava abalado, ele era frio como gelo por dentro.
O ataque fora da galeria Feinstein foi um ataque contra ele. Isto não era novidade. Sua vida
foi ameaçada antes, várias vezes. Sobreviveu a todos os ataques e viveu para ter sua vingança.
Mas isto, isto era um ataque a Grace.
Alguém apenas cometeu um erro enorme, enorme.
Drake estreitou os olhos. Grace estava completamente pálida, até os lábios. Suas mãos
tremiam.
—Por quê? — Sua voz era pouco mais que um sussurro e ela engoliu em seco. —Por que
alguém faria isso a meu apartamento? Por que destruir minhas pinturas? Por quê?
Ele se levantou e foi até o aparador, voltando com dois copos de Jack Daniel’s, um gosto que
os oficiais americanos haviam lhe dado, um tiro duplo.
Uma coisa que o cenário de destruição fez desaparecer foi o tesão que estava sentindo. O
sexo com Grace viria, em breve, mas agora tinha inimigos aguilhoando suas defesas, o que
representava uma ameaça direta às suas vidas. Ela não precisava de sua excitação, precisava de
sua atenção para mantê-la segura.

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Serie Dangerous 03

—Aqui, — disse ele, tomando-lhe a mão e envolvendo-a ao redor do cristal lapidado. A mão
dela estava gelada e ele a segurou em torno da sua para aquecê-la. —Beba e eu vou responder
suas perguntas.
Ela obedeceu, tomando tudo em um longo gole. Boa menina.
Um toque de cor voltou a seu rosto.
Ele esvaziou seu copo e colocou-o sobre a mesa, em seguida, saiu de sua cadeira e sentou-se
em frente a ela, seus joelhos se tocando, segurando suas mãos entre as dele.
—Grace. — Aguardou um segundo, para ter certeza de sua atenção. Por pura força de
vontade, conseguiu não estremecer com a expressão em seu rosto.
Este não era seu mundo. Estava tão perdida como se tivesse acabado de pousar em um
planeta sem ar ou luz e fosse atacada por lobos. Ela olhou seu rosto com cuidado, instintivamente
entendendo que ele estava em casa neste planeta.
—Algo ruim aconteceu e, infelizmente, você está presa no meio disso. Alguns homens muito
perigosos e, sobretudo, cruéis, estão atrás de mim e agora atrás de você também. Você viu o que
foi feito em sua casa, certo?
Ela assentiu com a cabeça, olhos nos dele. Ele sabia que ela estava vendo a frieza nele; só
esperava que ela também pudesse ver o arrependimento.
—Eles não hesitariam em fazer isso a você. Lentamente. Como uma forma de chegar até
mim. Vou mantê-la segura, eu prometo. Mas você deve fazer o que eu digo e deve ficar dentro de
um perímetro fortificado onde eu possa protegê-la, e este lugar, agora, é aqui. O acesso é por um
código que poucas pessoas sabem e são pessoas de confiança. Os guardas estão lá fora em todos
os momentos. As janelas são a prova de balas. Ninguém pode chegar aqui, confie em mim, mas
você vai ter que ficar aqui. Você não pode assistir ao funeral de Feinstein, não pode ir para casa,
nem procurar seus amigos. Na realidade, até que eu comece a endireitar a situação, você não
pode deixar o edifício. Desejaria, com todo meu coração, que as coisas fossem diferentes, mas não
são. Tudo que posso dizer é que vou tentar deixá-la o mais confortável possível. Eu tenho pessoas
disponíveis vinte e quatro horas por dia, e tudo que você tem que fazer é expressar um desejo e
ele será seu, contanto que não envolva sair do prédio.
—Então, sou uma prisioneira?
Merda. Sim, ela era, mas não queria que ela pensasse dessa forma.
Levou sua mão à boca e deu um beijo suave na palma da mão. Chocada como estava, o
pulso em sua garganta acelerou um pouco.
Graças a Deus. Tão logo fosse humanamente possível, iria começar a fodê-la, vinculando-a a
ele com sexo. Ficaria com ela e dentro dela enquanto fosse possível, até que respirassem o mesmo
ar, até que seus corações batessem juntos, até que fosse impensável ela sair do seu lado.
—Eu quero que você pense no mundo exterior como uma prisão, Grace. E aqui você pode
fazer exatamente o que quiser. Na verdade, — Drake estendeu a mão para o interfone e esperou a
voz de Shota.
— Senhor?

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—Shota, além das outras coisas que eu disse para você comprar amanhã, quero acrescentar
material de pintura.
—Senhor? — Shota parecia resignado.
Drake olhava Grace.
—Material de pintura. Tudo que um pintor pode precisar. — O que seria? — Ele hesitou. —
Ah, tintas a óleo, aquarelas, uma gama completa, ah...—Merda, como se chamavam? —Telas e a...
coisa onde são colocadas. —Olhou para Grace, as sobrancelhas levantadas.
—Cavalete, — disse ela baixinho.
—Cavalete. Ouça, apenas diga ao proprietário para lhe dar um pouco de tudo. Saiba quem é
o melhor fornecedor da cidade, só não... —Se inclinou para ela: —Onde você compra materiais?
—Cellini, na Broadway.
—Não na Cellini da Broadway. Fique longe de lá. Saiba quem é o próximo melhor e vá até lá.
Quero tudo aqui até amanhã de manhã às onze.
— Sim, senhor.
Drake desligou.
Grace estava sentada ereta em sua cadeira, parecendo como se um caminhão a houvesse
atropelado. Seu respeito por ela elevou-se a outro patamar.
—Eu vou pagar de volta, Drake. Eu não tenho meu talão de cheques comigo, ele estava na
minha bolsa, mas vou...
Drake pôs um dedo sobre seus lábios, horrorizado.
—Pare. Por favor, pare. Nem pense nisso. Eu sou a razão pela qual isto está acontecendo a
você. Tudo que estou tentando fazer é deixá-la o mais confortável possível aqui...
—Ok. — Ela respirou fundo. —Eu entendo que me meti em algum tipo de briga hostil. — Ela
deu uma risada vacilante. Mordeu os lábios e esperou um segundo pelo controle. —Muito hostil.
Mas eu não entendo porque estou envolvida. Por que eles acham que, de alguma forma, podem
chegar até você através de mim? Eu não sou nada para você. Aconteceu de eu estar no lugar
errado na hora errada. Então, por que a destruição da minha casa e de minhas pinturas? Que
diferença isto poderia, eventualmente, ter para você?
Ok.
Drake tivera a esperança de empurrar este momento até quando ela estivesse se sentindo
melhor, quando a adrenalina já estivesse fora de seu sistema e ela não estivesse tremendo. Para
quando estivesse vestindo roupas que fossem dela, e não dele, e não estivesse se sentindo como
uma refugiada de sua própria vida.
Mas o que você quer e o que deve ser, são duas coisas completamente diferentes. Drake
entendia isso até os ossos.
—Palavras não são suficientes, — disse, levantando-se da cadeira. Colocou a mão em seu
cotovelo e a ergueu suavemente. —Eu preciso mostrar. Venha comigo.
Caminharam em silêncio ao longo do corredor. Drake pensou um pouco sobre alguma forma
de preparação, mas descartou a ideia imediatamente. Não era um momento para palavras.

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Seu estúdio ficava no final do corredor longo e largo, essencialmente através de toda a área
do edifício. Levou alguns minutos para chegar lá. Caminharam em silêncio, Drake totalmente
consciente de sua mão na dela, de sua presença a seu lado.
Ela não escondia sua curiosidade, torcendo a cabeça da esquerda para a direita, observando
a mobília, os tapetes e as tapeçarias.
Drake se perguntou o que pensaria de sua casa. Era tão distante do atual estilo de Nova
Iorque quanto possível. Ele gostava de cores, tecidos macios, antiguidades, tapetes. Sempre achou
que talvez tivesse algum tártaro ou mongol em seu sangue, desde que decorou sua casa parecida
com um caravançará6.
Parou em frente à porta de seu escritório. Seu santuário.
Drake olhou para Grace, em pé, parada em frente a porta. Ela parecia entender que ele
necessitava de um momento para recompor-se, embora estivesse tremendo de ansiedade para
descobrir o que estava por trás da porta, esperou e o deixou tomar seu tempo.
Ele podia ver os longos cílios, a curva da face alta, a boca exuberante ligeiramente inclinada
para baixo. Beleza e graça. Coragem, também.
Uma mulher de grande valor. Ele nunca pensou em vê-la do lado de fora desta porta.
Drake estendeu a mão até a porta folheada de mogno e tocou um painel de vidro.
Pressionou o dedo contra o painel e uma luz verde piscou. Com um suave zumbido, a porta
deslizou pela parede.
Grace observou a porta desaparecer e em seguida olhou para ele pedindo permissão para
entrar. A escuridão emoldurada pela porta era similar a entrada de uma caverna escura. Era a
maior sala do apartamento e a escuridão era densa.
Tinha que ser feito.
Drake empurrou levemente suas costas e, chegando para o lado, apertou o interruptor de
luz dos candelabros. Havia três deles, Murano e eles davam à sala elegância e brilho a seu
conteúdo.
Ao lado dele, Grace ofegou. Ele apertou seu cotovelo quando seus joelhos fraquejaram.

Capítulo 8

Enrique Cordero vivia em Crown Heights, o lar da gangue Bloods. Ele saiu da gangue para ser
seu próprio chefe, constituir uma organização profissional a milhões de quilômetros acima das
cabeças das gangues de rua, embora usasse alguns velhos membros da gangue, antes e agora.

6
Caravançarás (ou khans) são edifícios especialmente construídos para abrigar homens, mercadorias e animais ao longo de antigas
rotas de caravanas. Ligada ao surgimento do islamismo e do crescimento do comércio terrestre entre o Oriente e o Ocidente, a
construção da maioria dos caravançarás atravessou o período de dez séculos (XIX-IX) e cobriu uma área geográfica no centro da
qual é a Ásia Central.

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Não usara jovens inexperientes para pegar Drake, mas bem poderia ter feito isso, por tudo
que tinha acontecido.
Fodidos amadores.
Rutskoi pensou bastante sobre o trabalho até chegar a casa de Cordero. Grande, realmente.
Trinta mil metros quadrados do que parecia ser uma fazenda mexicana estabelecida uns oito
quilômetros ao norte, num clima implacável. O lugar era cercado por paredes de concreto com
meio metro de espessura, com apenas um caminho de entrada – um conjunto de grandes portas
de aço num inexpressivo conjunto mais distante da parede da rua. Você tinha que andar toda a
volta da casa, sendo seguido por câmaras de vigilância passo a passo, para anunciar-se ao monitor.
O guarda do portão hesitou apenas o suficiente para ser insultuoso, fazendo Rutskoi esperar
cinco minutos. Finalmente, Rutskoi ouviu o forte estalo metálico do desbloqueio eletrônico do
portão. Os grandes portões se abriram e Rutskoi dirigiu seu carro alugado em linha reta para
dentro.
Cabeças de merda, pensou amargamente.
O pátio interno era iluminado como um campo de prisão, enormes refletores de 500 watts
em cada esquina. Teve que se esforçar para enxergar, não querendo dar aos homens de Cordero a
satisfação de vê-lo levar as mãos aos olhos, para cobrí-los. As luzes arruinaram sua visão noturna,
cumprindo com seu objetivo. Mal podia distinguir duas figuras gigantescas, parecendo gorilas
vestidos em jeans e casacos à entrada da casa e sabia que eles podiam vê-lo com clareza quase
brutal.
Cordero se achava tão inteligente, mas cinco dos seus homens deixaram Drake escapar. Ele
entregou Drake a Cordero numa fodida bandeja de prata e eles o deixaram fugir quase sem um
arranhão. O pensamento o deixou tão zangado agora como tinha deixado cinco horas antes.
Rutskoi saiu do carro levantando as mãos para mostrar que estavam vazias e parou à
entrada da porta. Os dois homens o revistaram completamente, apertando suas bolas e
amassando sua bunda. Eles sabiam que um terrorista podia esconder uns bons quatro ou cinco
quilos de explosivo plástico em uma cueca, mas Rutskoi não era terrorista e eles também sabiam
disso. Era um jogo de poder e eles provavelmente tinham recebido ordens de Cordero, que era um
idiota.
—Pode entrar, —um dos gorilas rosnou.
—Espero que vocês tenham gostado, — Rutskoi disso e ambos os gorilas ficaram rígidos de
raiva enquanto ele atravessa a porta. Isso era insignificante. Não tinha tempo para brincar com os
guarda-costas. Foi apenas um sinal de frustração e raiva que o fez cutucar os animais.
Parou no meio do átrio de dois andares e tentou se acalmar.
Porra! A única chance que alguém já tivera de chegar perto de Drake, um pequeno pedaço
de informação de sua fraqueza e os homens de Cordero estragaram tudo. Drake estaria mais
protegido que o Kremlin agora. E tudo porque Cordero enviara homens de segunda categoria.
Se apenas não estivesse na América. Rutskoi não tinha homem nenhum aqui. Se isso tivesse
ocorrido perto de casa ele próprio teria cuidado do assunto e Drake estaria morto. Após dar a ele

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os códigos e senhas, Rutskoi seria o único dono do reino e não precisaria de uma equipe de
merdas-sem-cérebros de Cordero.
Mas ele estava na América e estava aliado a Cordero. Essa era a linha de fundo e tinha que
lidar com isso. Rutskoi raramente perdia tempo desejando que as coisas fossem diferentes. Era um
mundo duro e apenas homens duros ganhavam.
Sob controle agora, subiu as escadas até o segundo andar sob o olhar atento de outro par de
guardas de segurança que esperavam no topo.
—Eu estou sendo esperado, — Rutskoi disse enquanto passava por eles. Eles resmungaram e
acompanharam com os olhos, enquanto ele percorria seu caminho pelo corredor.
Antes que chegasse ao escritório de Cordero, a porta se abriu e uma garota muito jovem e
bonita, de cabelos escuros saiu. Ela estava instável em seus pés, com o batom vermelho escuro
manchado sobre os lábios, olhos desfocados, cabelos despenteados. Rutskoi a observou tropeçar
ao longo do corredor.
Bateu rapidamente, então entrou encontrando Cordero enfiando o pau manchado de batom
em sua calça. O pó branco estava espalhado sobre o tampo da mesa de vidro do centro.
Oh Jesus, Rutskoi pensou. O fodido estava alto. Um par de horas depois de não conseguir
sequestrar um dos homens mais perigosos do mundo e ele estava se drogando. Será que ele
queria morrer?
O próprio Rutskoi nunca usara drogas, mas certamente entendia que ajudassem em algumas
situações. Na Chechênia seus homens corriam atrás de heroína. A cem rublos7 a dose, apenas
alguns dólares, eles podiam gastar um pouco de tempo em algum lugar dentro de suas cabeças
onde soldados russos mortos não estavam equipados com dispositivos explosivos improvisados.
Onde crianças pequenas não carregavam cintos com explosivos. Onde oficiais não vendiam seus
próprios equipamentos. Rutskoi sempre fechava os olhos enquanto eles estavam de folga e jamais
quando estavam de plantão. Tinham que se apoiar em algo para manter a sanidade.
Mas Cordero não estava no pior inferno do mundo rezando para permanecer vivo por tempo
suficiente para fazer isso em casa, como os soldados de Rutskoi. Não, Cordero tinha um negócio
de alta rentabilidade em um país seguro e estável. Ele era um líder, ou pelo menos, deveria ser.
Líderes mantinham a cabeça clara e limpa o tempo todo, estavam sempre no controle de si
mesmos. Um líder não seria desviado por drogas ou sexo quando a guerra estava declarada contra
um homem assustadoramente poderoso e que estava, sem dúvida, neste exato momento,
planejando sua vingança.
A vingança de Drake era terrível. Rutskoi vira isto por si mesmo.
O fato de que Rutskoi tomou como aliado um homem que se drogou e acabou de ter sexo,
quando deveria estar fortificando seu perímetro e planejando os próximos movimentos era
assustador. Não deveria ter se unido a este homem, fraco em tudo. Mas, que escolha tinha?
—Russo, —resmungou Cordero em saudação. Nunca foi capaz de pronunciar o nome
Rutskoi, chamando-o simplesmente “o russo”.

7
Moeda oficial russa.

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Ele se atrapalhou para acender o cigarro com as mãos trêmulas, inalando profundamente.
—Isto não foi bem, não é? Nós vamos ter que tentar novamente em duas semanas.
Rutskoi fechou os punhos e se segurou para não esmurrar o degenerado e estúpido rosto de
Cordero. Demorou um minuto para nivelar sua voz.
—Esqueça isso. Não vai funcionar novamente. Não vamos ter outra chance. Ele nunca mais
vai voltar para aquele beco, conte com isso. Você teve uma chance e fodeu tudo.
Os olhos de Cordero se arregalaram com o tom de Rutskoi. Tragou o cigarro profundamente,
olhando a ponta vermelha e fazendo uma careta.
—Você não pode falar assim comigo, Russo. Nós não sabemos exatamente o que aconteceu.
Pelo que eu sei, meus homens foram traídos e Drake estava esperando. Seus homens vieram
rápido.
Rutskoi podia sentir uma veia pulsando em sua testa.
—Os homens dele vieram rápido porque ele emprega os melhores. Eles são rápidos e são
bons. Diferente de seus arruaceiros de segunda categoria. —Agora ele está mais protegido que o
estreito cu de uma virgem e está descobrindo quem estava atrás dele, então virá atrás de nós. Nós
somos homens mortos andando.
Os olhos escuros de Cordero brilharam.
—Não, se o pegarmos primeiro. Inclinou-se para apagar o cigarro no cinzeiro e quase perdeu
o equilíbrio. Sentou-se pesadamente no sofá, inclinando a cabeça para trás e fechando os olhos.
—Eu digo que devemos ir atrás dele exatamente agora. Não para raptá-lo, mas para nos
livrar dele.
Rutskoi sentou ao lado dele, as narinas se enchendo do que parecia ser a metade do vidro de
uma cara colônia masculina, misturada com o pungente fumo do cigarro e o almíscar pesado de
sexo.
—O que você quer dizer com isso?
—Você tem algum informante, certo? Alguém de dentro disposto a traí-lo? Use-o
novamente.
—Dar-nos pequenos detalhes sobre a agenda de Drake é um pouco diferente que pedir para
matá-lo. As pessoas que trabalham para Drake são controladas. E provavelmente tem medo dele,
também.
Cordero acenou.
—Ninguém é imune ao dinheiro. —Ele baixou a voz para um murmúrio ao estilo Marlon
Brando, levantando as sobrancelhas. —Faça-lhe uma oferta irrecusável. — Ele deu uma
gargalhada diante de sua própria sagacidade. O riso se transformou em uma tosse seca.
—Cristo, Cordero.
—O que eu quero dizer Russo, é para você jogar dinheiro no cara. Ou melhor ainda,
descubra se Drake emprega mulheres para limpar sua casa e rapte sua família de modo que ela
possa plantar um microfone. Ou uma bomba. Que merda. A ideia é livrar-se do filho da puta de
uma vez por todas. E então você e eu, Russo, vamos dominar o mundo juntos.

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Você não pode governar a si mesmo, Rutskoi pensou amargamente. Como pode querer
dominar o mundo?
Ainda... a mente de Rutskoi disparou. Ninguém jamais conseguiu alguém de dentro dando
informação sobre Drake. Poderia seu informante ser persuadido a mostrar a cara mais uma vez?
Pelo preço certo? Ou ainda, um dos funcionários da limpeza. Essa era uma boa ideia. Ele estivera
na sede de Drake. Havia multinacionais com escritórios menores do que o espaço que Drake lhe
permitira ver. Esse tipo de espaço necessitava de uma grande equipe, que trabalhava vinte e
quatro horas por dia, sete dias por semana.
Se seu informante não concordasse em dar novas informações, Rutskoi poderia sequestrar
as crianças das empregadas domésticas. Esperava não ser necessário chegar a este ponto. Ele
mataria as crianças se fosse necessário – na Chechênia ele não tivera opção, os desgraçados
nasciam com fuzis AK47 nas mãos – mas ele preferia não fazer isso.
Os olhos de Cordero arrastaram-se até o aparador, com sua variedade de bebidas. Ele
tentou levantar rapidamente, mas perdeu o equilíbrio. O homem era nojento. O que tinha
pensado Rutskoi para fazer parceria com um verme miserável destes?
Rutskoi tomou uma decisão rápida, como o soldado em batalha que era.
—Me dê dez milhões de dólares, — disse.
—O que?
—Você me ouviu. Me dê dez milhões de dólares e eu vou fazê-lo. Vou me livrar de Drake
para você, para sempre. E eu não vou querer participação no negócio depois. Vou deixar tudo para
você. Você pode ficar com tudo de Drake e se tornar o homem mais poderoso num só golpe, e eu
vou desaparecer para sempre. Dez milhões não é nada. É o lucro de Drake em uma semana. E
mesmo que você não possa administrar todos os negócios de uma só vez, não terá rivais. Você vai
ser o chefe supremo para sempre. Um homem como Drake vem uma vez a cada par de gerações.
Você vai ser rico e poderoso, sem concorrência, para o resto de sua vida.
Os olhos astutos de Cordero encheram-se de luz. Rutskoi podia ver tudo, quase enxergar as
engrenagens raspando em seu cérebro. Rutskoi acabara de colocar o sonho secreto na cabeça de
Cordero. Com Drake morto, tudo seria dele.
—Cinco. — Cordero estreitou os olhos. Um filete de suor escorria de seu cabelo preto baixo
através da barba em seu rosto.
—Dez. —Rutskoi disse com firmeza. —E as despesas. Eu vou precisar de equipamentos e
dinheiro para suborno. E quero que você me forneça um cartão de crédito preto e alguma
identificação. Quero dez milhões em minha conta na Suíça. Primeiro. Eu prometo a você que
Drake desaparecerá, morto pelas minhas mãos. Eu o conheço, sei como ele pensa. Eu o conheço
desde que tinha vinte anos e sou, provavelmente, o único homem que pode fazer isso.
—Russo, — Cordero disse lentamente. —Como eu posso confiar em você? Dou-lhe dez
milhões de dólares e você desaparece. Você acha que eu sou louco?
—Drake não tem certeza sobre você, mas ele sabe que eu estava envolvido na tentativa.
Minha vida não vale nada enquanto ele estiver vivo após o que aconteceu. Ele virá atrás de mim,
sem dúvida. Então, eu preciso me livrar dele, para me defender. Eu poderia desaparecer, talvez,

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ficar fora do radar por um tempo, mas você não pode. Seu negócio é aqui. Ele vai vir atrás de você,
não duvide, e ele sabe exatamente onde encontrá-lo. Você não pode cuidar dele. Nós já vimos
isso. Cinco de seus homens não conseguiram derrubá-lo. Mas eu posso. Eu o conheço, eu o
conheço bem. Nós trabalhamos juntos, nós até lutamos juntos. Eu conheço seus caminhos e tenho
esse informante lá dentro. Dê-me dinheiro suficiente para fazer o trabalho e eu me livrar dele para
você. Você fica aqui no próximo mês, não se mexa, não deixe a fazenda e eu lhe darei a cabeça de
Drake numa bandeja. Não é por você, é por mim. E então eu vou desaparecer para sempre.
Rutskoi podia ver a ganância surgindo no rosto de Cordero. Estava ganho. O que eram dez
milhões para ele? Para ter acesso ao reino de Drake ou, ao menos, ter Drake fora do caminho?
Nada.
—Tudo bem, — disse Cordero finalmente. Esticou a mão para Rutskoi, que a tomou. —
Fechado.
A mão de Cordero era suave, mole e úmida, era como tocar uma lesma. Rutskoi mal
conseguiu conter-se para não limpar a mão na calça e livrar-se da sensação.
—Fechado. — ele respondeu.

Grace sentiu o ar escapar de seus pulmões em um som sibilante, deixando a cabeça leve,
com tontura e completamente desorientada.
Levou um segundo para entender. No primeiro instante, foi esmagada pela grandiosidade da
sala, que era como um pequeno Versailles. O resto do apartamento era exuberante, muito
confortável com um tipo muito caro de decoração colorida e original.
Agora, isso, isso era pródigo, além de qualquer coisa que ela já vira, era o modo como vivia a
realeza. Seus olhos beberam avidamente os tons de joias dos tapetes, os enormes vasos
esmaltados coloridos com plantas magníficas, uma escrivaninha de madeira maciça, altamente
polida que parecia ser o lugar onde Deus trabalharia, se Ele possuísse uma mesa.
E, claro, como em todos os aposentos desta casa incomum, o magnífico horizonte noturno
de Manhattan se estendia como um imenso colar de diamantes no exterior, ao longo de uma
parede de vidro.
Em seguida, um segundo depois, o que estavam sobre as três paredes restantes surgiu e ela
se viu incapaz de acreditar em seus olhos.
Dezenas e dezenas de pinturas, desenhos, aquarelas, requintadamente emolduradas e
maravilhosamente iluminadas. A adequação do trabalho artístico na sala era perfeita, as cores e
formas ecoando pelo mobiliário, esculturas, vasos. Ver a obra de arte aqui, reconhecê-la, era tão
estranho, que demorou literalmente um segundo para penetrar em sua mente, apesar de que
toda obra de arte era tão familiar a ela como a própria pulsação.
Dela.
Cada pintura única, cada desenho a guache, aquarela, tudo dela. Este magnífico aposento
era como um museu de Grace Larsen. Ela virou para o homem de olhos escuros, que a olhava com
muito cuidado. Sentiu-se balançar e ele a segurou.

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Serie Dangerous 03

—Você, — ela sussurrou.


Ele abaixou gravemente a cabeça.
—Eu, — afirmou.
—Você é o comprador misterioso que arrebatou toda minha obra no ano passado.
—Sim.
Sua cabeça rodava.
—Eu acho, eu acho que preciso me sentar.
—Absolutamente. — A mão de Drake mais uma vez pegou seu cotovelo e mais parecia que
ele a carregava do que guiava até o sofá mais próximo. Ela sentou-se com gratidão, sem certeza
que suas pernas aguentariam mais um passo. Drake sentou ao lado dela, afundando nas
almofadas macias e a levando mais próxima a ele com seu peso.
Aqui também um grande fogo ardia, emoldurado por uma lareira elaboradamente esculpida
em arenito. Estava agradecida pelo calor.
Grace olhou para a parede mais próxima, onde duas de suas melhores pinturas a óleo
ladeavam a lareira. Lembrou-se de forma clara todos os sentimentos que a atravessara enquanto
pintava. Os dois grandes quadros foram feitos para serem mostrados como um par. Um estilo de
vida flamengo exagerado num vaso com rosas, um manuscrito aberto e um prato com uvas e
maçãs sobre uma mesa de madeira. A outra pintura era uma natureza-morta de um pequeno vaso
de terracota vermelho com uma topiaria8, um laptop aberto e uma caixa de chocolates Godiva em
uma mesa transparente assinada por Philipe Starck. O estilo de vida flamengo aparecia ainda em
uma profusão de cores e formas. A vida moderna surgia em tons frios de cinza e bege, com
extremidades duras e formas contemporâneas.
Ela os tinha pintado há mais de um ano, esperando que quem os comprasse os expusesse
juntos, o velho e o novo, mas não contava com isso. Artistas nunca tinham qualquer tipo de poder
sobre seu trabalho e sobre como seriam exibidos.
Estes dois foram comprados juntos e exibidos magnificamente.
Os confins da sala estavam na sombra, mas podia ver o suficiente. Uma mão brilhando na
escuridão, a espuma do oceano em outra. As paredes estavam cheias com seu trabalho.
—Eu, eu não sei o que dizer, o que pensar. Um ano inteiro eu estive me perguntando quem
estava comprando meu trabalho. — Virou a cabeça para ele. —Harold estava desapontado que
você não tinha organizado uma exposição. A maioria das pessoas que compra a coleção de um
artista está planejando uma exposição para aumentar os preços. Você não ia expor, não é?
Ele balançou a cabeça.
—Eu não me importo, mas Harold se importava. Ele sentiu que poderia ter elevado ainda
mais os preços se você tivesse feito uma exposição. Mesmo que os preços já estivessem muito
altos. Ele fez uma fortuna com isso.
As mandíbulas de Drake apertaram.

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Arte de podar plantas e arbustos em diversas formas, para fins ornamentais.

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—O Sr. Feinstein poderia ter quadriplicado os preços e eu teria pago. Eu pagaria dez vezes o
que ele pediu. Eu amo seu trabalho. Suas pinturas tem me dado um enorme prazer ao longo de
todo o ano. Não há preço para isso. — Seus olhos escuros fixaram-se nos dela. —Me desculpe se
eu impedi sua carreira de deslanchar com isso, por não apresentar sua arte. Eu não queria
compartilhar, não podia compartilhar com os outros. Agora eu vejo que te fiz sofrer. Estou
profundamente arrependido.
Grace estendeu a mão para tocá-lo, então parou de repente, a mão a um centímetro da
dele. Ela olhou para suas mãos. Eram vigorosas e duras, com calos amarelados em ambas as
extremidades. Não era de forma alguma uma mão de artista. Era a expressão do absoluto poder
masculino. Mãos poderosas.
Ele não se moveu, apenas a observou cuidadosamente. Ela esteve com a mão suspensa
sobre a dele por um tempo que era quase um insulto e ainda assim ele não agiu como agia quando
insultado. Simplesmente esperou o que ela faria.
O instinto dela lhe disse que ele aceitaria o que ela fizesse. Se lhe desse um tapa ou o
acariciasse, ele aceitaria. Baixou a mão sobre a dele e, novamente, ficou chocada com o calor que
emanava de sua pele.
—Está tudo bem, — disse ela, entrelaçando seus dedos nos dele. —Pobre Harold, ele ficou
muito irritado por eu não ser tão ambiciosa como ele. Quer dizer, eu sou ambiciosa, mas meu
verdadeiro objetivo é viver da minha arte, não ser famosa. Eu realmente não me sinto bem em
sociedade, de qualquer maneira. Mas ele tinha esse sonho que eu seria tão famosa quanto, não
sei, Andy Warhol ou Picasso. Alguém conhecido até mesmo fora dos círculos de arte. Como uma
espécie de celebridade.
Grace não conseguiu reprimir um estremecimento que o pensamento lhe dava. Fizera parte
de uma mostra coletiva de dez artistas, sendo uma delas uma rica herdeira, famosa por um vídeo
de sexo com uma estrela de cinema bem conhecido que teve mais de dez milhões de acessos na
internet. Os paparazzi fora da galeria eram como um enxame de abelhas furiosas, os flashes
pipocando de forma agressiva em seus rostos. Grace ainda podia sentir o toque dos corpos
suados, a ansiedade e, em seguida, o pânico que sentiu enquanto tentava abrir seu caminho para
fora. Quando finalmente chegou a seu apartamento, estava tremendo e suando, com uma grande
dor de cabeça pelos flashes.
Não, celebridade não era coisa para ela.
—Isso não é para você, — ele disse calmamente. Não era uma pergunta.
—Não. Definitivamente não. Então, eu estava mais que feliz por ter alguém comprando
todas as minhas coisas, mesmo fazendo Harold infeliz por tê-las escondido. Mas eu me lembro que
pensava... pensava que gostaria de falar com a pessoa que estava comprando o meu trabalho.
Saber o que ele ou ela pensava. Quais peças mais gostou. O que deu certo, o que não deu. Exceto
quando o advogado disse que o comprador vivia no exterior.
—Isso é exatamente o que meu advogado foi orientado a dizer. E, para falar a verdade, ele
não sabe onde moro. Nós nos comunicamos por e-mail e o dinheiro era enviado de Londres.
Ele teve uma enorme dificuldade para se manter anônimo.

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Serie Dangerous 03

—Então, você nunca iria parar para um bate-papo, não é?


Sua mão se flexionou debaixo da dela.
— Não.
—Eu, eu entendo.
—Não, não acho que você entenda. Eu estou em um negócio arriscado e tenho inimigos
perigosos. Qualquer coisa que me interessa seria considerado como ponto de ataque. Se alguém
soubesse que eu amava seu trabalho, usariam isso contra mim. Então eu os comprei de forma
anônima. Não deveria fazer isso, mas fiz. Era simplesmente irresistível. Cada pintura, cada
desenho fala com algo dentro de mim. E eu fui egoísta para desejá-los para mim. E agora, por
causa da minha fraqueza, eu a coloquei em perigo.
—Você precisa arrumar a bagunça, — disse ela. Olhou ao redor da grande sala, que
conseguia ser extremamente bela e confortável ao mesmo tempo. Algo que muito poucas casas
em Nova York conseguiam.
—Eu quero dizer, é bom aqui, mas não posso ficar aqui para sempre.
—Ele balançou a cabeça, um cansaço além de palavras naquele gesto. —Eu não posso fazer
isso ir embora, Grace, —disse calmamente. —Não de imediato. E palavras não podem expressar o
quão triste eu estou com isso.
Ele estava. Estava lá, escrito em cada linha dura daquele rosto exausto. Seu rosto era tão
fascinante. Estudou-o abertamente e ele deixou. Grace sempre fora curiosa sobre o rosto, sobre o
que ele dizia das pessoas e o que escondia. Particularmente viu em seu rosto as dificuldades do
poder e da autoridade. Quem ele era e os tempos difíceis que vivera.
—Eu não estou muito certa que você deva se culpar tanto por algo que não fez. Quer dizer,
você não convidou os homens a atacá-lo, não é? Não foi sua culpa.
—Você está errada. — Fechou os olhos, cansado. —Na realidade, é minha culpa. Eu deveria
ter arranjado uma compra discreta de um óleo ou dois, um desenho aqui e ali. Abriu os olhos
novamente, de repente, seu olhar tão direto e feroz como o de um falcão. —Mas eu fui
ganancioso, queria todos eles, tudo que já produziu, e o que ainda iria produzir. E agora você está
sofrendo as consequências.
O arrependimento em seu rosto, em sua voz a perfurou. A maioria das pessoas fugia das
responsabilidades, mesmo quando ela repousava diretamente sobre seus ombros. Este homem
claramente assumia seus encargos e não os impingia a ninguém mais.
Ele também parecia exausto. Debaixo de sua pele naturalmente oliva, estava pálido e
parecia que as rugas em volta de sua boca se esculpiram mais profundamente nas últimas horas.
—Você sabe, Drake, aliás, este é seu primeiro nome ou sobrenome?
—Nenhum dos dois. Meu nome é Victor Drakovitch. Mas sou conhecido como Drake.
Era uma maneira estranha de explicar. A maioria diria as pessoas me chamam de Drake. Ela
inclinou a cabeça para estudá-lo um pouco mais.
Havia algo tão atraente em seu rosto, com as maçãs do rosto salientes, testa forte, boca
sensual. Atraente e... familiar. O que era uma loucura, claro. Ela nunca o tinha visto em sua vista e
não conhecia ninguém como ele.

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Serie Dangerous 03

Obviamente, todos esses choques mexeram com seu cérebro e eram a origem desse déjà vu.
Mesmo sua voz, incrivelmente profunda e com uma pitada de sotaque que não conseguia
reconhecer entranharam em seus ossos como se tivesse ouvido milhares de vezes.
—De onde você é?
Ele deu um sorriso gelado.
—Eu não tenho nenhuma ideia. —Segurou sua mão quando ela recuou. —Isso não é, como
vocês dizem? Uma resposta de má vontade. — Seu sotaque foi se tornando mais forte.
—Resposta de má vontade? — ela falou.
—Precisamente. Não é uma resposta para fugir do assunto. Eu não sei mesmo onde nasci.
Minha primeira lembrança é de ser um rato de rua em Odessa, correndo com um grupo que você
chamaria de bandidos lá. Mas alguém comentou algo sobre eu ter vindo do Tajiquistão. — Ele deu
de ombros. —Eu cresci falando uma mistura chula de russo, tajiquistanês e ucraniano. Levei anos
para ajeitar as expressões.
Ele estava tentando assustá-la. Não, não assustar. Sua linguagem corporal era claramente de
proteção, não agressiva. Estava tentando, por algum motivo, parecer uma pessoa má.
—Bem, Drake, deixe-me dizer, eu estou achando muito difícil ficar com raiva de alguém que
cometeu o erro de amar muito meus quadros.
Um enorme tronco se desintegrou no fogo com um estrondo e rajadas de fagulhas. O fogo
estava morrendo, se consumindo. Ela se sentia exatamente assim. Antes que pudesse impedir, um
grande bocejo escapou por sua boca.
—Desculpe. — Seus olhos estavam pesados. Podia sentir os músculos do pescoço pesando
sobre os ombros. Custou um esforço enorme manter as costas retas.
Drake passou os braços em volta dela.
—Você está cansada. Precisa descansar depois do que passou hoje. Você precisa dormir.
Em um movimento ágil estava de pé e a ajudava a se levantar. Colocou uma mão de leve em
suas costas. Suas mãos eram tão incríveis. Enormes e duros aquecedores. O calor de sua mão
atravessou o kimono, como uma bolsa de água quente contra a pele.
Uma mão segurando a dela, a outra nas costas. Por um momento, era como se estivesse em
seus braços. Grace estava completamente chocada com a tentação de sentir aqueles braços
incrivelmente fortes em torno dela. A tentação era tão forte que teve que congelar um momento.
Ele entendeu mal e deixou cair suas mãos, recuando rapidamente.
Que loucura. Sentia-se... desprotegida. Sentia falta das mãos sobre ela, do seu calor sobre
ela, da sensação de estar rodeada por sua imensa força.
—Venha, — disse ele. —Você deve estar exausta. — Ele se virou e apontou para a porta.
Caminharam em silêncio pelo imenso corredor até que ele parou em frente a porta do quarto,
abrindo-a e gesticulando para que ela entrasse. —Eu nunca tenho convidados, assim só tenho uma
cama. Eu vou dormir no sofá.
Grace enrijeceu.
—Você certamente não vai dormir num sofá em sua própria casa. Se alguém vai dormir em
um sofá, serei eu. Gostaria de lembrar que você foi baleado, no caso de ter esquecido.

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Ele deu um sorriso frio.


—Não, eu não esqueci. Mas é impensável que você durma no sofá. Eu absolutamente não
vou permitir isso. Você vai encontrar um pijama na cama e...
—Drake. — Grace chegou um pouco mais perto, olhando em seus olhos cansados. —Nem
pense nisso. Não pode dormir no sofá ferido e ponto final. —Apontou a cama, grande o suficiente
para ter uma plantação de milho nela. —Se você insistir, essa cama é grande o bastante para nós
dois, com um time de futebol no meio.
Ele respirou fundo, contendo-se. Seus profundos olhos castanhos viraram quase líquido
quando se dirigiu a ela.
—Você, você confia em mim? Eu juro que estará segura, juro pela minha honra.
Ela acreditava nele, total e completamente. Não fez nada mais que protegê-la desde aquele
momento terrível na galeria, quando esteve disposto a se desarmar por ela.
Olhou para ele, para sua imensa força e poder. Estavam em sua casa, que era, basicamente,
uma fortaleza, rodeada por seus homens, que eram, obviamente, seguranças treinados e
armados. Ele se mostrou capaz de atos violentos.
Uma violência tão precisa que era quase cirúrgica. E, no entanto, Grace não sentia nenhum
temor. Ela sentia o choque, a tristeza e o cansaço, mas não o medo.
Não era estúpida. Uma mulher solteira vivendo na cidade aprendia rápido a ler as situações.
Ela comprou todos os livros, tomou aulas de autodefesa, não que qualquer coisa que fizesse seria
suficiente para resistir ao poder deste homem se estivesse errada.
Mas seus instintos eram bons. Confiava neles.
—Eu acho que se você quisesse me fazer qualquer dano, Drake, eu estaria ferida agora. —
Disse suavemente.
—Oh Deus. Nunca. —Engolindo em seco, ele pegou sua mão e levou aos lábios. —Eu não
posso suportar a ideia de vê-la ferida ou assustada. Hoje foi um pesadelo para mim. Por favor, não
tenha medo de mim ou de qualquer pessoa que trabalha para mim. Você está tão segura quanto
eu posso garantir. Então, coloque o pijama e tenha uma boa noite de descanso.
O pijama azul escuro era novo, de seda e estava aos pés da cama. No banheiro, Grace se
trocou, enrolando as mangas e pernas da calça várias vezes. Apagou a luz do banheiro e, sentindo-
se tímida, voltou para o quarto, fechando a porta atrás de si.
Caminhou até a cama e então simplesmente parou, a artista dentro dela subindo, e
asfixiando o medo e a exaustão da mulher. As cortinas de um verde profundo estavam fechadas,
obscurecendo o horizonte de diamantes brilhantes. Todas as luzes estavam apagadas, a única
luminosidade proporcionava um brilho quente vindo das brasas da lareira.
Um lado da cama estava pronto, os lençóis lisos insuportavelmente convidativos. Fiel à sua
palavra, Drake estava do outro lado da cama, tão perto da borda que cairia caso se mexesse
durante o sono. Havia pelo menos seis metros entre eles. Para tranquiliza-la ainda mais, não se
deitara sob os lençóis, estava deitado em cima do edredom verde-esmeralda, coberto por uma
manta de pelo rico, grosso, parecendo algo saído de um romance russo.
Não, isso não estava certo.

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Ele não parecia um personagem de um romance, parecia uma lenda. Um guerreiro fora do
tempo. Tamerlane, talvez, ou Alexandre, descansando em sua tenda depois de conquistar o
mundo conhecido.
Estava sem camisa. Os musculosos ombros nus fora da manta de pelo. A luz das brasas
pintou a pele azeitonada de seu rosto, com destaque para as grandes maçãs do rosto, altas e o
queixo quadrado, deixando os olhos na sombra. A luz deixou seus músculos em relevo, a força do
pescoço, o peito largo, a firmeza de seu bíceps. Um magnífico guerreiro ferido.
Era exatamente assim que iria pintá-lo. O guerreiro ferido finalmente encontrando seu
descanso em uma barraca, o brilho de sua armadura de bronze pouco visível na escuridão, um
guarda do lado de fora. O capacete salpicado de sangue do guerreiro, uma arma, parecendo uma
caveira de metal sobre a mesa. Um homem que naquele dia comandara um exército, fora ferido e
estava ensanguentado, mas que ainda poderia levá-los à vitória.
Grace raramente tinha uma pintura inteira na cabeça assim. Geralmente, elas chegavam aos
pedaços, a ordem e o equilíbrio, as formas e cores, vinham-lhe de forma gradual. Mas este
“retrato de um guerreiro” veio completo, em uma visão única e sabia que não iria descansar até
que sua visão se tornasse realidade.
Os olhos escuros de Drake a seguiam enquanto percorria o caminho para a cama enorme.
Escorregou em silêncio para debaixo dos lençóis. A cama era tão confortável quanto parecia, os
lençóis e edredom de seda, uma delícia ao toque. Um leve cheiro de lavanda levantou da cama.
Virou-se para encontrá-lo ainda olhando para ela, no rosto, o cansaço e dor. Estava exausta,
os músculos doloridos. Podia sentir-se à deriva nos braços bem-vindos do sono.
—Boa noite, Drake. Disse calmamente.
—Durma bem. — Sua voz profunda saiu da escuridão.

Foi o barulho que a acordou. Um som estrangulado de dor silenciosa. Ela acordou rápido, o
coração batendo forte, em uma cama cheia de texturas desconhecidas. Havia um brilho mínimo
vindo na lareira. Por um segundo, não podia lembrar, até que tudo explodiu em sua cabeça.
A casa de Drake.
A cama de Drake.
De novo ouviu aquele som. Vindo de sua esquerda. Virou a cabeça no travesseiro baixo e o
viu, deitado de costas como uma estátua num sarcófago. Ele não se mexera desde que
adormecera. Algo sobre sua imobilidade lhe disse que ele sempre dormia em silencio, talvez
tivesse aprendido a fazê-lo quando criança, nas ruas.
O som era de um homem, inconscientemente, sufocando um gemido de dor. O fato de que
podia fazer isso em seu sono falou muito sobre o homem, sobre o tipo de vida que ele levava.
Grace sabia que estava louca por sentir pena de um homem como este. Ele era claramente
muito rico e muito forte. Administrava enormes recursos, inclusive o que parecia ser um exército
pessoal de homens. Não havia nada no homem acordado que faria você se sentir triste por ele.
Mas o homem dormindo, ah! Isso era outra história.

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Havia apenas luz suficiente para ver seu rosto, suas linhas de dor profunda desenhadas nos
maxilares cerrados para abafar qualquer som.
E, no entanto, um pequeno ruído brotava do fundo de sua garganta, ele lutando contra a
dor.
A anestesia há muito desaparecera. Ben não ofereceu analgésicos e Drake não parecia o tipo
de homem que os tomava, a menos que fosse absolutamente necessário.
Mas agora, seu corpo estava lutando com a pequena cirurgia de extração de uma bala e os
pontos em seu ombro, sem nada para aliviar a dor.
Será que ele estava naquele mesmo local para onde foi quando fez a cirurgia?
Provavelmente sim. Parecia totalmente alheio e distante, os olhos parados por trás das pálpebras
fechadas, o corpo rígido. Sentindo a dor em algum nível, mas se recusando a ceder a ela.
Grace escutou sua respiração difícil por mais alguns minutos e depois não aguentou mais.
Movendo-se suavemente deslizou sobre a cama enorme até que estava perto o suficiente para
tocá-lo. Outro gemido sufocado. Tocou sua mão, com a intenção de acordá-lo, perguntar se
precisava de algo. Mas quando tocou sua mão, incrivelmente, ele parou. Os músculos tensos
relaxaram, a carranca suavizou e sua respiração desacelerou.
Sua mão agarrou a dela com força, num aperto quente e inquebrável.
Parecia ter encontrado a paz imediata, os sulcos desapareceram do rosto, a respiração ficou
calma e rasa.
O silêncio reinava no quarto e com a última luz do fogo indo embora, Grace sentiu o manto
escuro do sono cair sobre ela mais uma vez.

Capítulo 9

18 de Novembro

Drake acordou muitas vezes depois de ser ferido. Menos frequentemente, ele acordou ao
lado de uma mulher, embora nunca tivesse gostado.
Normalmente, descartava a mulher depois do sexo, preferindo dormir sozinho. Mas nunca
acordou ao lado de uma mulher depois de ser ferido.
Nada de foder vulnerável. Uma de suas regras rápidas e duras.
As mulheres não tinham qualquer lealdade a ele e ele não tinha nenhum motivo para confiar
nelas enquanto estava num estado de fraqueza. Então, quando acordou com a sensação familiar
de ter sido ferido, não conseguiu atinar o que seria a suavidade em seu braço.
Mesmo a forma como saiu do sono foi diferente. Drake era treinado para acordar
instantaneamente, levantando-se rápido e pronto para o combate.

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Era o único jeito de mantê-lo vivo na infância. Acordar de imediato era uma segunda
natureza, estando ou não em uma situação perigosa.
Mas agora, saiu do sono lenta e langorosamente, consciente de alguém ao seu lado que não
era uma ameaça. Consciente de um certo calor e maciez que tocava sua pele. Subindo lentamente
até que seus olhos finalmente se abriram. Seu ombro ferido doía, mas não era nada. O que era
surpreendente estava em seu outro ombro. Uma massa macia de cabelos castanhos
avermelhados, a pele pálida aparecendo sob o pijama grande demais, cílios exuberantes, uma
boca cheia que pedia beijos.
Grace. Grace Larsen. Por algum milagre, ela migrara para seu lado da cama.
Não, ela não migrara. A memória da noite veio de seu subconsciente como uma rolha saindo
da garrafa. Ele deve ter mostrado sinais de desconforto durante a noite. O ombro estava dolorido.
Não era a maior dor que sentiu, mas suficiente para incomodar seu sono. E ela veio até ele, tocou-
o e lhe ofereceu conforto.
Ele engoliu em seco.
Ela lhe ofereceu conforto.
Olhou para a bela mulher cuja cabeça descansava tão confiante em seu ombro, mal
respirando para não perturbá-la. Realmente tentou se concentrar na gratidão que devia sentir por
ela, a fim de tirar de sua mente seu pênis que tinha saltado desesperado para a vida.
Se precisava de algum sinal que iria sobreviver, ele estava ali, sob suas calças, entre as
pernas.
Ter uma ereção era bom, claro. Precisaria dela para poder seduzir Grace e atá-la a ele. Foder
Grace era o próximo passo necessário para isso. E é claro que teria que ter uma ereção para
conseguir isso. Apenas... não era só essa ereção enorme. Não deveria se sentir como se fosse
morrer se não entrasse nela. Esta tensão em todo seu corpo, culminando em seu pau duro por ela,
não era realmente necessária.
Drake mantinha a calma, sempre. Mesmo debaixo de fogo. Sempre estava totalmente no
controle de si mesmo na cama com uma mulher. Ele gostava de sexo.
Gostava da liberação da tensão, de sentir a suavidade de uma mulher. Ele começou jovem
nas ruas. Sexo era uma fonte de consolo para os ratos de rua e aprendeu muito com isso.
Enquanto crescia em poder e riqueza, sexo com belas mulheres era uma forma de manter a
contagem, estabelecer seu lugar na hierarquia. Uma mulher espetacularmente bela no braço era o
símbolo perfeito de status e ele tivera algumas belezas reais.
Ele amadureceu rapidamente, entretanto. E logo percebeu que era muito melhor e
certamente mais eficiente ser temido que invejado. Assim, garantia que sua vingança fosse pública
e sua vida sexual, privada.
O sexo era útil e uma forma prazerosa para liberar a tensão, e nada mais.
Mas agora todo o seu corpo estava apertado e duro em antecipação. Tinha uma enorme
faixa em volta do peito que não tinha nada a ver com as bandagens sobre a ferida. Quando
estendeu a mão para tocar uma mecha do cabelo que se derramava em seu peito, Drake percebeu
que sua mão tremia.

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Esperava que fosse o inferno de um efeito colateral do remédio que tomou ontem, porque
se não fosse, se sua mão estivesse tremendo por causa de Grace, estava em um fodido problema.
Para que ele e Grace saíssem dessa confusão, teria que manter a cabeça fria e a mão firme.
Desde quando suas mãos tremiam? Nunca. Era um franco-atirador. já aos catorze anos. Fez
sua maldita vida vendendo armas. Todos esperavam que fosse melhor atirador que qualquer um.
Era seu território. As mãos de um atirador não tremiam. Não, se o atirador queria viver.
Tocou um botão ao lado da cama que abriu as cortinas. A julgar pelas luzes que entravam
pelas janelas, devia ser por volta das oito da manhã.
Seu dedo tocou o cabelo dela. A luz clara da manhã destacava o brilho em algumas mechas.
Uma gama tão surpreendente de cores, de loiro claro ao castanho e tudo mais. Ela estava certa
em não pintar o cabelo. Não havia um salão de beleza no mundo que pudesse duplicar essa gama
de cores e esse brilho. Cuidadosamente encaixou um dedo sob uma mecha e a levantou. Como se
fosse viva, a mecha enrolou-se em seu dedo. Ele virou-se para Grace e a olhou.
Os cortes, arranhões e contusões só reforçavam a delicadeza de sua pele. Estremeceu ao
olhar o ferimento em sua têmpora, sabendo exatamente o que faria uma bala plantada ali.
Teria lançado essa bela mulher da face do planeta, em um mar de cérebro e sangue.
Ele teria acordado sozinho em sua cama enorme, dolorido e duro, sem nada para olhar à
frente, salvo os planos de vingança. Planos que ele teria feito e executado milhares de vezes antes.
Em vez disso, por algum milagre, tinha essa mulher a seu lado, que possuía o dom da
bondade e da beleza dentro de si. Era muito melhor contemplar aquele rosto lindo, ao invés de
ver as paredes e ouvir sua própria respiração.
Se ela não estivesse aqui, teria levantado ao amanhecer, estendendo sua rede para capturar
os peixes de informação.
E, claro, tinha um negócio para levar. Construiu um império, sozinho, que exigia sua
constante atenção, catorze horas por dia, sete dias por semana. Hoje, por exemplo, havia uma
transferência para averiguar, dois armeiros para entrevistar, os registros de manutenção de sua
frota de helicópteros para verificar e o vice-primeiro ministro de Montenegro para falar, em uma
vídeo conferência.
Nenhuma dessas coisas lhe provocou o menor apelo. Deixou-se afundar na cama, onde
queria ficar para sempre.
Que assim seja. Limpou sua mente de tudo, menos da mulher fascinante a seu lado.
Observou seu rosto no sono, os cílios longos. Ela era uma pessoa que dormia tranquila, o
lençol subindo e descendo com sua respiração. Poderia ficar aqui para sempre e simplesmente
observá-la.
Grace abriu os olhos de repente, sem aviso prévio. Estava dormindo em um momento, e no
próximo estava com os olhos bem abertos. Olhava fixamente para ele, desorientada. Esperou que
ela percebesse sua posição, perto dele. Um leve rubor rosado subiu por suas bochechas.
—Você, ah, você estava agitado e com dor.
—E você me consolou, — disse ele, baixinho. —Obrigado. Como você está se sentindo?

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—Eu realmente não sei, — ela confessou. —Melhor, eu acho. Mas o ferimento... —Ela
estendeu seus músculos um pouco, movendo a cabeça. Ela foi parada pelo dedo enrolado em seu
cabelo. O alongamento do corpo a levara para mais perto dele. Observando os olhos, ele rolou em
sua direção. Centímetros os separavam.
Sua respiração acelerou, o leve rubor ao longo das maçãs de seu rosto se aprofundou,
aquecendo a pele, expelindo seu perfume natural como uma nuvem. Se Drake não a tocasse, ele
morreria. Finalmente cedeu à tentação e correu seu dedo através da bochecha dela, maravilhado
com a maciez. Ela não hesitou, nem mesmo respirou.
O silêncio era absoluto, como se até o quarto estivesse esperando por algo.
Este era o momento para Drake começar a sedução, a elegante dança entre homem e
mulher com a qual era tão familiarizado. Conhecia todos os movimentos, sabia que devia tocá-la
aqui e beijá-la ali.
Mas a música estava desligada. Em vez de uma série de movimentos ensaiados, ele se viu
tremendo de emoção. Queria abraçá-la tão apertado que sua pele seria impressa na dela, tocar
cada centímetro de seu corpo, manter seus seios em suas mãos, sugar seus mamilos
vigorosamente, descer a mão por sua barriga lisa e pálida. Queria rolar em cima dela e montá-la,
abrí-la com seus dedos e empurrar dentro dela, duramente. Começar a foder com toda a força de
seu corpo...
Uau.
Ele era grande e exatamente agora estava tão excitado como jamais estivera em sua vida.
Seu tamanho era um problema mesmo para mulheres que fodiam constantemente. As imagens
ferviam em sua mente – segurando-a com as mãos enquanto a fodia tão duramente quanto podia
– e o deixaram louco. Não podia fazer isso com Grace. Iria assustá-la, talvez machucá-la.
Deus.
Algo do que estava passando deve ter se comunicado com ela. Sua cor rosada, seus belos
olhos azuis-esverdeados brilhavam, vigilantes.
Ele tinha que ir devagar. Ter cuidado. Estar no controle.
Por um segundo, a noção de ter que dizer a si mesmo para estar no controle era tão
estranha que quase rosnou. Ele não era nada além que controle.
Seu dedo se moveu para baixo em sua bochecha, sobre o queixo delicado, correndo ao longo
da veia pulsando em seu pescoço. Levantou os olhos para ela, os dedos prontos para descer mais
abaixo.
—Eu quero tocar em você, — sussurrou. —Tão mau.
—Eu sei, — ela sussurrou de volta.
O dedo pairou sobre sua clavícula. Só conseguiu se manter estável aplicando toda sua força
de vontade, mas o custo disso é que seu corpo todo tremia e vibrava.
Tocou a seda macia do pijama. Era muito grande para ela e podia ver a pele pálida onde o
material estava solto. Seus olhos fizeram a pergunta.
Em resposta, Grace arqueou o corpo, trazendo seus seios para perto de sua mão,
descobrindo o longo pescoço branco e esguio.

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O que tocar primeiro? Ambos o excitavam, impossível resistir.


A boca de Drake desceu em seu pescoço enquanto sua mão entrou por baixo da seda e
tocou a pele suave e sedosa. Grace soltou um suspiro longo e trêmulo.
Drake também teria suspirado, mas estava muito excitado sequer para respirar. Tão excitado
que só conseguia segurar seu seio enquanto lambia seu pescoço, sentindo o pulsar de seu sangue
na língua, acelerando, enquanto circulava seu mamilo com o polegar. Ah Deus. Não resistindo à
tentação, raspou os dentes ao longo daquela pele lisa e macia, depois deu uma leve mordida de
excitação, de posse.
Grace saltou.
Ele não a machucara, mas levantou a cabeça para verificar. Não, não a machucara, mas a
excitara. O rubor aumentou em seu rosto, seguindo a linha de seu pescoço.
Descer para os seios? Precisava saber.
Sua mão pairou sobre ela e tocou o botão acima do pijama. Mover o braço machucado fez o
ombro doer um pouco e deu boas-vindas à dor. Esta era a terra dele, só um pouco de dor o ajudou
a manter a excitação ferrenha sob controle.
—Eu quero olhar você, Grace. Você vai deixar?
Ela soltou o ar lentamente.
—Eu, ah, eu pareço estar tendo alguma dificuldade em dizer não a você.
Ele sentiu um pequeno sorriso brotar de algum lugar dentro dele, embora não fosse,
normalmente, sorridente.
—Bem, a resposta é óbvia. Não diga não.
—Isso poderia ser um pouco perigoso.
—Não, nunca. — O sorriso desapareceu. —Eu não quero que você tenha medo de mim, de
nenhuma maneira. Você pode dizer não quando quiser, mas eu estou esperando que você não o
faça.
Grace sacudiu a cabeça, raspando o cabelo no travesseiro.
—Quero dizer perigoso por que você, você me faz sentir coisas que eu nunca senti antes. Eu
não me sinto no controle de mim mesma.
Então somos dois, ele pensou.
Ele desabotoou o botão superior.
—Diga-me, — pediu. —Diga-me o que você está sentindo...
Para sua surpresa, ela o fez. Olhos abertos, voz rouca, ela lhe disse exatamente o que estava
sentindo, com uma honestidade que lhe roubou o fôlego.
—Onde você me toca... eu queimo, Drake. Queimar não é exatamente a palavra certa,
porque não dói, de jeito nenhum. É puro prazer.
O botão de cima foi destruído, o segundo, o terceiro... enfim, tinha o pijama aberto,
revelando uma faixa de pele pálida que rapidamente estava ficando rosada. Drake queria ver seus
olhos, mas também queria ver sua mão quando a tocasse.

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—E isto? — Respirou sobre ela, a seda pesada, revelando um seio pálido e perfeito. O dorso
de sua mão tocou seu seio enquanto ele abria o pijama e virava a mão em concha. Coube
perfeitamente na palma de sua mão.
Perfeita. Ela era simplesmente perfeita. E real. O que ele tocava era uma mulher de verdade
e não algum saco artificial de liquido sob a pele. Odiava tanto isso que acabou passando pelas
mulheres que tiveram os seios cirurgicamente aumentados.
E por que ela iria querer melhorar algo que já era perfeito, afinal? Seus olhos beberam
avidamente cada detalhe. As curvas, as veias azuis sob a pele leitosa, a auréola rosa pálida, os
mamilos ficando mais duros, numa cor de cereja, vermelho brilhante enquanto ele olhava.
—Você é perfeita aqui, — disse ele, circundando o polegar sobre o bico, lentamente.
—Você certamente faz com que eu me sinta perfeita. Ah... — Ela exalou, trêmula quando ele
beliscou-lhe suavemente.
—O que mais? — ele pediu com urgência. —O que mais faço você sentir?
—Ardor. Não, calor. Sua mão é quente em minha pele. Eu percebi isso ontem. Mesmo sob a
chuva e o frio, sua pele emana calor. Só agora...
—Agora, duschka? — ele murmurou. O carinho veio de algum lugar dentro dele. O russo não
era sua primeira língua, contudo, para falar a verdade, não tinha ideia de qual era sua primeira
língua. Ele tinha falado uma miscelânea de idiomas até que esteve por volta dos onze anos. Mas
em algum lugar ouvira essa palavra murmurada com amor, de um homem para uma mulher, o
tom inconfundível, e a palavra veio de dentro dele, algum lugar do fundo do seu peito, certamente
não da cabeça. —Agora, o quê?
—Eu me sinto aquecer onde você me toca, mas eu também sinto isso descendo em todo
meu corpo. Oh!
Drake abaixara a cabeça e levara um mamilo a boca. O broto endureceu, aveludado em sua
boca. Ele sugou, como uma criança suga o peito da mãe, só que ele sugou com força. Grace
gemeu, torceu-se, pressionando a mão atrás de sua cabeça, sobre o ombro não lesionado. Ele
sentiu a pequena picada de suas unhas e teria sorrido, exceto que a eletricidade que passou por
seu corpo não deixava espaço para sorrir.
—Oh Deus. Quando você faz isso, eu sinto quase doer em meu útero, com cada puxão...
Drake levantou a cabeça, franzindo a testa, a palavra estranha saltando ao redor de sua
cabeça enquanto tentava fixar um sentido para ela.
Ventre, útero...não era onde as mulheres grávidas carregavam seus bebês? Em seguida
entendeu. Ela estava dizendo boceta. Estava sentindo o que ele estava fazendo em sua boceta.
Teve dificuldade de respirar em torno de sua excitação. Puxou as cobertas de cima dela,
abriu o largo casaco e, observando seus olhos, cuidadosamente deslizou a calça para baixo de suas
pernas. Ela flutuou para fora, saindo facilmente.
Tremendo, ele puxou uma longa perna para um lado e festejou seus olhos sobre ela. Cintura
pequena, quadris redondos, barriguinha lisa.
Um sopro de cabelo vermelho escuro entre as coxas escondia a fenda rosa pálida. Ele a
cobriu com a mão.

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—Aqui, Grace? — perguntou, a voz rouca. —Você sente isso aqui? — Mexeu um pouco sua
mão grande e ela abriu mais as pernas. Seu dedo médio acariciava com cuidado.
Ela molhou os lábios, tentou dizer algo e, finalmente, concordou.
—Fale pra mim, — ele insistiu. —Me deixe escutar sua voz. Me deixe saber tudo o que você
está sentindo. Preciso saber se estou lhe dando prazer. Preciso disso como preciso de ar.
Outro carinho, passando levemente o dedo ao longo de sua fenda. Os músculos de seu
estômago se contraíram.
—Eu não acho, ah! — Ele se inclinou novamente para seus seios, chupando duramente. Ele
rodou o polegar em torno dela, roçando seu clitóris. Ela respirou profundamente. —Eu não penso
que não me agradar seja um problema.
—Isso é muito bom. — Drake murmurou contra sua pele. Deus, tocar sua pele era como
tocar cetim. Cetim com brilho de pérolas. Ela não tomava sol, sua pele não era manchada por
marcas de biquíni. Tinha o mesmo tom de madrepérola pálida com um ligeiro brilho rosado de
mulher saudável, por todo o corpo. Ele ergueu a cabeça, dividido entre fechar os olhos para
saborear o gosto de seu mamilo, o toque dos tecidos suaves de sua boceta e querendo ver tudo,
cada detalhe a seu respeito. Todos os pontos macios, depressões, o conjunto único de músculos e
ângulos que compunham Grace. Queria ver seu rosto quando a tocava, vê-la brilhar com a
excitação florescendo em sua pele.
Grace sorriu e Drake viu sua boca exuberante mover-se.
Ocorreu-lhe que ainda não a beijara. Como podia ser isso? Que loucura dele para esquecer
as regras de sedução, atirá-las assim janela afora. Primeiro você beija, depois toca. Tudo estava de
cabeça para baixo e de dentro para fora com Grace.
Uma suave mudança de seus músculos e ele trouxe sua cabeça até a dela, alinhando sua
boca com a dela. Ela o observava com cuidado, o sorriso desaparecendo completamente.
Seu sorriso também se foi.
Ambos sabiam que não seria um beijo casual. Olhando fixamente para sua boca, Drake
hesitou um instante. Estava na beira de um precipício e tinha que segurar seus braços para não
cair.
Em vez disso, abaixou a cabeça.
Ah!, ela era tão deliciosa como sabia que seria, mas a provou brevemente. Um toque de seus
lábios nos dela, em seguida, algumas moléculas de ar entre eles. Um gosto, nada mais. Não havia
pressa.
O quarto estava em silêncio, como se fossem os dois únicos seres humanos vivos na terra, o
que lhe servia bem. As paredes eram à prova de som, tapetes e tapeçarias absorviam quaisquer
ruídos possível. Os únicos sons eram os de sua boca na dela.
Outro rápido gosto, levantando a boca para um ângulo com melhor ajuste, sua língua
sentindo o gosto da dela. Naquele primeiro contato elétrico, ambos exalavam, trêmulos. Drake
então, finalmente, afundou a língua profundamente em sua boca, acariciando.
Um de seus braços enganchados em seu pescoço o puxou, como se para trazê-lo mais perto
dela, quando ele estava tão próximo quanto a respiração.

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Drake sempre foi hiper-consciente do tempo. Usava um Rolex caro, porque era realmente
quase indestrutível, mas raramente precisava verificar as horas. Havia um relógio muito preciso
em sua cabeça que mantinha o tempo muito exato para ele. O relógio quebrou. Não tinha
nenhuma noção do tempo em nada. Algo se soltou em sua cabeça e mergulhou livre.
O único tempo que reconhecia era o tempo que levou para fazê-la suspirar, o tempo que a
mão dela levou para se deslocar de seu bíceps, para os ombros e costas, o tempo que levou para
que sua pele se tornasse tão sensível, sentindo como se ela tocasse suas principais terminações
nervosas.
Sua língua acariciava a dela outra vez e ele sentiu nos músculos de sua boceta uma pequena
ondulação. Oh, Deus, sim! A umidade estava brotando dela, como se ele estivesse lambendo ali,
em vez de sua boca. Eles tinham uma ligação direta entre seu beijo e órgãos genitais. Com cada
suspiro e cada golpe, podia sentir seu pênis se inchando, cada vez mais longo e grosso, enquanto
ela ficava cada vez mais suave e molhada.
Ela estava escorregadia. Sua mão se moveu com facilidade através de suas pregas suaves.
Ele manteve o toque leve, delicado, tentando combinar os golpes de sua língua com pinceladas de
seu polegar. Na primeira vez, ela quase caiu da cama, mas ele a segurou com a boca.
Ele estava iluminada. Ele era naturalmente dominante na cama, raramente deixando a
mulher estar no topo, muitas vezes segurando suas pernas para baixo. Ele teve que travar sua
natureza com Grace, deixando-a respirar, seguir sua liderança.
Outro beijo lento em torno de seus lábios, sorrindo por dentro pelo leve gemido vindo do
fundo de sua garganta.
Hora de dar o próximo passo. Ela estava molhada. Seu dedo estava fazendo barulhinhos
escorregadios quando explorou o exterior de sua boceta.
Abriu a boca mais amplamente sobre a dela e enfiou seu dedo nela.
Uh-oh.
Problemas.
Grace enrijeceu, depois conscientemente foi relaxando os músculos, mas Drake sabia que
ela não estava mais naquele estado de sonho quando seu dedo entrou nela. Seu dedo a estava
machucando. Ela estava tentando se adaptar, ele percebeu.
Porra.
Ela era apertada, incrivelmente apertada.
Ele ergueu a cabeça e ela deu um sorriso constrangido. Ela estava tentando relaxar os
músculos ao redor de seu dedo, tentando respirar normalmente.
Lembrou-se de uma expressão num filme antigo. “Houston, temos um problema”.
Isso lhe rendeu uma risada.
—Desculpe, eu...
Ele colocou um dedo sobre seus lábios.
—Shhh. Deus, sem desculpas. —Deslizou seu dedo um pouco mais para dentro, então para
trás, os músculos apertados em torno dele. —Mas se eu fizer amor com você agora, eu vou te

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machucar e não quero fazer isso. Quando foi a última vez que teve um homem...aqui? — Ele
enfiou o dedo um pouco mais profundamente.
—Não... por muito tempo—. Sua caixa torácica estreita ia subindo e descendo rapidamente.
Drake a acalmou, atônito. —Os homens americanos são cegos? Ou estão loucos?
Grace riu, as mãos apertando os músculos de seu ombro.
—Na verdade, eu acho que os homens americanos pensam que eu sou louca. Ou excêntrica
além de sua zona de conforto. Eu acho que realmente parei de pensar sobre sexo a alguns anos
atrás.
Pequenas linhas de expressão apareceram sobre as sobrancelhas castanhas. —Isto
realmente vai ser um problema?
Sim, mas ele faria o que fosse necessário.
Drake pegou a mão dela, ergueu-a para sua boca, em seguida a colocou sob o cordão da
calça do pijama, em torno de seu pênis. Sua respiração soprou em um chiado ao sentir a mão
macia em torno dele.
—Você me diz se temos um problema.
—Deus, — sussurrou ela, o rosto mostrando choque. —Eu não estou, não posso. — Ela
respirou fundo, a mão flexionando ao redor de seu pênis.
Experimentalmente, correu o dedo sobre a cabeça, sentindo-o chorando, em seguida, puxou
do punho até a base. Teve que abrir a mão para fazer isso.
—O que você sugere que nós...
As palavras foram apagadas em sua boca. O beijo ficou mais profundo, mais duro, mais
possessivo que antes e isso repercutiu em seus corpos. Ele podia sentir como o beijo a afetava. Ela
apertou firmemente a mão em torno de seu pênis, que impensavelmente, crescia mais. E Grace
podia sentir como seu pau subiu em sua mão, apertando seus músculos internos ao redor do seu
dedo. Ela estava mais úmida e ele também, a ponta de seu pênis chorando tão forte que podia
sentir o ar fresco. Não era tudo que ele estava sentindo. Quando mudou de posição de modo que
seu peito cobrisse o dela sem quebrar o beijo, uma elétrica linha quente correu ao longo de sua
espinha. Suas bolas apertavam dolorosamente. Podia mover seu dedo com facilidade agora,
dentro e fora de suas dobras suaves. Seu polegar passou sobre seu clitóris novamente e ela passou
o próprio polegar sobre a fenda na ponta do pênis que chorava por ela.
Ele sentiu em cada célula de seu corpo.
—Vou ter meu pau aqui em você, em breve, — ele respirou em sua boca, deslizando o dedo
profundamente, tão liso e quente. —Mas só quando você estiver pronta.
Sua mão acelerou o movimento.
—Eu posso até estar pronta...agora, — ela ofegou.
Ela não estava pronta para seu pênis, mas definitivamente, estava pronta para gozar.
—Primeiro você goza para mim, — Drake murmurou contra sua boca, criando um ritmo de
penetração e recuo com o dedo que ardia em seu pênis.
Grace deu um pequeno grito, quase de surpresa, as paredes de sua vagina apertando duro,
mais e mais enquanto suas pernas tremiam. Isso o empurrou até o limite, e todos os músculos

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tensos e a base de sua espinha explodiram. Mordeu o travesseiro ao lado de sua cabeça, enquanto
ele gozava em longos e rítmicos jorros, com as contrações dela. Ela manteve a mão em torno dele,
quente e apertada, ordenhando-o enquanto ambos tremiam e gemiam.
Finalmente, os músculos de Drake relaxaram, sentindo-se mole, com metade do corpo sobre
ela, uma mão cobrindo seu monte e a outra em concha atrás de sua cabeça. Ela largou seu pau
finalmente.
Sua respiração abrandou, se estabilizando.
—Bem, parece que isso funcionou, — ela finalmente sussurrou.
Drake mal conseguia erguer a cabeça.
Ele raramente se sentia nocauteado após o sexo. Se tivesse que dizer algo, era que sexo o
fazia se sentir energizado. Mas agora, levantar a cabeça para dar-lhe um rápido beijo parecia ser o
máximo que se podia esperar dele.
Deus o ajudasse quando pudessem finalmente fazer amor. Provavelmente isso iria matá-lo.
Ah, bem. Você tinha que morrer em algum momento.
Eles ficaram assim, nem dormindo, nem despertos, com o quarto lentamente sendo
preenchido pela luz da manhã. Era a primeira vez que Drake se lembrava de não ter começado o
dia bem cedo, com planos específicos para os negócios. Seu grande plano agora era manter Grace
na cama, certificando-se que se acostumasse a ficar nua com ele, até que sua pele exalasse o
cheiro dele.
Tentaria foder novamente, tão logo conseguisse se mover.
Percebeu que ela relaxou um pouco para que ele não entrasse em pânico com a ideia de
machucá-la quando a penetrasse. Aconteceria, só não sabia quando.
Sua cabeça se juntou a dela no travesseiro, seus lábios perto da pele de seu pescoço. Era
bela demais para resistir. Ele avançou as polegadas necessárias para beijá-la, respirando
profundamente. O cheiro do seu sexo era diferente de qualquer outro que ele experimentara.
A mão de Grace deslizou de seus ombros, fazendo um fraco som de ‘plop’ quando caiu no
colchão.
—Drake, eu acho que o sexo real vai ser demais para mim. Eu não estou muito certa que
possa lidar com isso.
Ele inspirou o ar e soltou, lentamente. Cada músculo que possuía parecia líquido, totalmente
relaxado. Sua mente estava completamente vazia, sem nenhum pensamento.
Apenas sensações, todas conectadas a ela, a sensação de sua pele sedosa na ponta dos
dedos, o cheiro de sua pele, o som de sua respiração. Ele viajou pelo mundo, acumulando mais
milhas do que qualquer piloto, possivelmente. Viveu em oito países e era intimamente
familiarizado com mais quinze.
Este era um país inteiramente novo para ele, uma paisagem nova, completamente
desconhecida.
Não sabia se podia lidar com sexo com ela, tampouco, mas estava disposto a tentar. Seu
pênis, dez minutos depois de um orgasmo explosivo, se contorceu com o pensamento.

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Seus dedos sabiam como se sentiam dentro dela e agora seu pau estava com ciúmes. Você
terá sua vez, Drake queria dizer a ele e então pensou que estava ficando louco, conversando com
o próprio pênis.
Queria erguer a cabeça e tranquilizá-la, mas não tinha energia. Era a mais estranha lassidão.
Não a fraqueza de quando era ferido. Ele tinha ficado fraco algumas vezes pela perda de sangue e
foi terrível. Quando estava fraco, se transformava em presa em um instante.
Não, isso era diferente. Seus músculos não estavam fracos, estavam... relaxados. Como um
sentimento estranho.
O estômago de Grace roncou alto. Drake riu em seu pescoço. —Eu acho que sei o que você
quer. E agora, parece que não é sexo.
Ele podia sentir a leve mudança no ar quando ela sorriu.
—Para dizer a verdade, o café da manhã soa bem neste instante.
Ele já havia pedido. As bandejas estariam esperando em um carrinho fora do quarto. Drake
levantou a cabeça.
—Algo me diz que está pronto. Fique onde está.
A fraqueza despareceu instantaneamente. Grace precisava de comida. Apenas o
pensamento de que ela estivesse desconfortável, Deus, faminta, em sua casa, era suficiente para
energizá-lo. Pulou da cama nu, foi até a porta, mas virou-se quando ouviu um barulho suave atrás
de si.
Ela estava sobre um cotovelo, olhando, a boca ligeiramente aberta. Seu cabelo estava
desgrenhado, caindo em cachos macios pelos ombros. Um cacho, deliciosamente, parecia cercar
um mamilo, que agora não estava mais duro e não tinha a tonalidade de vermelho cereja, e sim
suave e pálido.
Uma feiticeira o encantara e iria encantá-lo novamente.
Seus olhos se arregalaram e não teve que olhar para baixo para ver o que a chocava. Podia
sentí-lo. Seu pênis, subindo, alongando e engrossando. O rubor cor de rosa de suas bochechas e
mamilos se tornou um rosa profundo. Seu pênis subiu ainda mais, ficando mais grosso com a visão
do mamilo ficando ruborizado também. Uma veia tremeu em seu pescoço, trazendo o sangue
agora liberado brilhantemente até seus seios. Mamilos que ele tocou, beijou. Com a lembrança,
suas bolas apertaram enquanto seu pênis queimava.
Estavam seduzindo um ao outro através de dez metros de distância.
Seu estômago roncou novamente.
—Comida, — disse ela fracamente.
—Comida, — ele concordou, virando-se em direção à porta.

Capítulo 10

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Cinquenta mil dólares. Tanto por tão pouco. Andrew Peters, nascido Andrei Petrov,
continuou descascando as batatas enquanto pensava sobre isso.
Descascar batatas como um ajudante de cozinha não era onde queria estar, dez anos após
ter se formado na escola de culinária. Por direito, ele deveria ser o chefe, ou, pelo menos subchefe
em um restaurante decente, guardando dinheiro para ter seu próprio lugar.
E sabia exatamente o que queria. Estava de olho no lugar há tempos. Um lugar pequeno, de
mil metros quadrados, em Chelsea. A sala de jantar seria decorada como a mansão de Tolstoi,
servindo alta culinária franco-russa pré-revolucionária, o mesmo que czares e barões comiam
antes que os monstros soviéticos saqueassem a Mãe Rússia.
Os Petrov tinham sido aristocratas em São Petersburgo, a fortuna e quase todos os membros
da família exterminados por Stalin.
Mas os livros e fotografias sobreviveram aos monstros, e transmitiram o passado dos Petrov.
Andrei conseguira uma entrada para a vida de seus antepassados. Apesar de ter lido os livros e se
debruçado sobre as fotos em uma pequena sala com paredes laminadas que não escondiam nada
que seus vizinhos bêbados diziam ou faziam, embora morasse em um pequeno e apertado quarto
em Brighton Beach, esta não era sua vida. Sua vida estava em outro lugar e em outro tempo. Em
sua imaginação, era o príncipe Andrei Petrov, um nobre do século XIX, em São Petersburgo.
Ele viveu em Nevsky Prospekt em uma imensa mansão palaciana, que tinha sido a casa-
grande de seu bisavô na cidade. Como um jovem garoto, antes de seus pais emigrarem,
costumava ficar na rua, as mãos pequenas segurando as grades da cerca elaborada em ferro
forjado que guardavam o edifício, e imaginar que o lugar agora ocupado pelos arquivos do estado,
ainda era dele. A mansão do príncipe Petrov.
Conhecia cada detalhe da vida de seu grande bisavô. O número de funcionários, os
treinadores e os cavalos, cada cavalo com seu próprio cavalariço. A agenda social, repleta de
bailes, shows e festas. As refeições elaboradas para cinquenta convidados com mil peças de
porcelana Limoges no aparador.

E a comida! Ela seria apresentada por um conjunto de menus das refeições da temporada de
Natal de 1904 e a mente do menino delirou com a grandiosidade de tudo. Borscht9 e kvass10,
kholodets11, pelmeny12, vinte diferentes tipos de pirozhki13, carne assada vinda direto da floresta
dos Petrov. Kebabs14 de carne de animais caçados diretamente nas terras de Petrov, Sudak
pescados diretamente nas bem abastecidas lagoas de Dasha. Frutas colhidas pelos servos e uma

9
Tipo de sopa.
10
Essa deliciosa bebida, de origem russa, cujo nome original é “Beet Kvass”, é conhecida por suas propriedades medicinais e
principalmente como um excelente tônico digestivo
11
Também conhecido na Ucrânia como STUDYNETS ou KHOLODETS É uma gelatina de carnes, prato salgado.
12
Consiste num recheio de carne picada, envolvido por uma massa fina, feita de farinha e ovos, com leite, resultando em pequenos
pastéis com cerca de 2-3 cm de diâmetro e forma mais ou menos esférica.
13
Pastéis assados recheados com batatas, carne ou queijo.
14
Kebab é um espeto de tiras de carne grelhada, homus e salada.

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enorme Sharlotka15 transportada em uma bandeja de prata de dois metros de comprimento,


carregada e servida por quatro servos. Tudo regado pelo melhor champanhe francês. Cinquenta
convidados, cem empregados.
O coração do jovem Andrei se emocionava com as imagens. A elegante Rússia, na mesa dos
Petrov iluminada por velas, um quarteto tocando Mozart na varanda com vista para o imenso
salão de jantar espelhado, um exército de servos de libré, tranquilamente servindo uma tonelada
de comida.
Seus pais emigraram para América quando ele estava com onze anos, e pensou que talvez a
América seria o lugar onde faria fortuna e retornaria em triunfo para Rússia e assumiria seu lugar
entre os ricos e poderosos.
Não foi bem assim. O pai de Andrei, um engenheiro, só conseguiu trabalho como motorista
de taxi, trabalhando catorze horas por dia para uma empresa que lhe pagava uma ninharia. A mão
de Andrei desenvolveu câncer de mama e os dois homens da família assistiram, impotentes,
enquanto, sem assistência médica, ela morria uma morte dolorosa.
Quando a enterraram, seu pai morreu junto, com exceção de seu corpo. Mal podia
trabalhar com sua dor. Então tudo caiu sobre ele, Andrei, agora André. Seus ombros tiveram que
arcar com o ônus dos Petrov.
Ele tinha grandes sonhos de retornar à pátria, sonhos que tinham a sensação de destino para
ele. Restabelecer o que eram os Petrov depois de setenta anos de barbaridade dos soviéticos.
No entanto, com o passar dos anos, enquanto amadurecia, os sonhos iam ficando menores,
diminuindo progressivamente, até ficar reduzido ao pedido de ajuda para se matricular em uma
escola de culinária de segunda categoria.
Poderia ter sido sua saída. A rápida ascensão na hierarquia e, em alguns anos, o topo. Chefs-
celebridade recebiam centenas de milhares de dólares por ano em patrocínio. Mas não ele.
Ele foi entrevistado para um trabalho humilde de ajudante do supervisor de copa da merda
de um restaurante de terceira categoria em Rockaway, quando tinha ouviu falar de uma vaga para
um emigrante da Rússia. Em Manhattan, o coração da boa cozinha. E ele pagava três vezes o
salário do restaurante.
Era um bom trabalho, em uma cozinha incrivelmente bem equipada, mas seu talento
passava desapercebido. Bem, o que ele poderia esperar? Estava cozinhando para bandidos russos.
Homens que conheciam a melhor arma para usar num tiroteio, mas não tinham ideia como julgar
a fineza dos crepes ou a consistência macia de um bom creme bechamel. Ou até mesmo apreciar a
fina porcelana dos pratos em que comiam ou o cristal delicado dos copos em que bebiam.
Andrei não teria se importado de uma forma ou de outra, exceto que eles falavam a língua
que ele amava. A língua de seus antepassados. A língua de Pushkin, Tolstoi e Yevteshenko. Só que
esse não era o russo que ele aprendeu com os pais. A linguagem que os bandidos falavam era
áspera, com erros gramaticais, provinciana, o russo dos imbecis analfabetos. O russo das sarjetas
usado por franco-atiradores.

15
Torta de maçã russa gelada, com suspiro e chantilly.

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No entanto, o dinheiro era tão bom que foi forçado a ficar, apesar de cada dia ser uma
ofensa a seus sentidos, mais um dia entre os bárbaros. Ele considerava uma forma de trabalho
escravo, salário exorbitante, que não conseguiria em outro lugar, como uma corda no pescoço,
sufocando-o lentamente.
Ele estudou as coisas a sua volta, buscando uma saída. Era como um príncipe entre os
porcos, podendo superar a todos.
A cozinha alimentava quarenta e cinco homens duas vezes ao dia, como um pequeno
restaurante. Também era aberta sempre que necessário, os homens iam e vinham em todas as
horas do dia e da noite. A comida era abundante, fresca e boa, sem qualquer tentativa de
sofisticação. Depois de uma semana na cozinha, Andrei percebeu que qualquer dona de casa
decente poderia exercer sua função. Só tinha que ser em russo, já que quase todo pessoal era
russo ou ucraniano.
Ele trabalhava para um homem misterioso que todos chamavam de Drake. Andrei sabia
muito pouco sobre ele e ninguém nunca comentava nada. A fonte mais próxima a Andrei para
obter informação era através de sua amizade com o mordomo, Shota, um russo-ucraniano
fanaticamente fiel a Drake, apesar de Andrei não entender o motivo. O homem guardava para si o
mistério sobre a história do homem na cobertura do edifício que raramente interagia com o
pessoal, salvo através de mensagens pelo interfone.
Só depois de alguns meses trabalhando para Drake que Andrei entendeu que estava
trabalhando para um criminoso internacional, um dos homens mais poderosos do mundo. Um
arrepio atravessara sua espinha. Certamente haveria alguma forma de usar essa informação. Um
inimigo para vender a informação.
Não era fácil, porque este Drake era misterioso como o inferno. Era uma fortaleza
inexpugnável, o domínio de um governante poderoso, intocável. Poucas pessoas sabiam das idas e
vindas de Drake. O homem era como fumaça, impossível de detectar, impossível de definir.
E então Andrei tivera dois golpes de sorte. Fabulosa sorte, realmente. Shota desenvolveu
uma paixão por ele e um russo chegou a Drake como amigo e saiu como inimigo.
Shota era fácil de levar. Era romântico e ficava delirantemente feliz com os olhares
expressivos e beijos roubados na despensa.
Andrei não tinha qualquer interesse em foder Shota, mas era através dele que obtinha
informações de Drake. Foi assim que soube que Drake desaparecia duas tardes de terças-feiras
por mês. Foi através de Shota que soube que Drake estava comprando toda a produção artística
de Grace Larsen num estalar de dedos.
Ele esperou em um café do outro lado da rua da galeria nas terças-feiras durante a tarde e –
voilà! – O misterioso Drake apareceu, movendo-se furtivamente pelo beco.
Informação quente sobre um bilionário, dono de um império do crime, movendo-se sem
guarda-costas, era informação que valia muito dinheiro, mas você tinha que encontrar o
comprador certo para ela. Em seguida, ouviu que o russo estava oferecendo cinquenta mil dólares
por informação sobre Drake. Nenhum dos homens de Drake estava disposto a cruzar o caminho

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de seu chefe por algo que era metade do salário que eles recebiam ao ano. Mas então, nenhum
dos homens de Drake tinha qualquer ambição além de ser um bandido de aluguel.
Andrei tinha.
Havia uma conta do hotmail. Tudo tinha sido tão fácil.
Se você quiser obter informações sobre Drake, transfira cinquenta mil dólares para a conta
bancária abaixo.
A resposta, bem como o pagamento dos cinquenta mil dólares, chegaram rápido. Alguém
queria a informação. Andrei enviou e o dinheiro entrou em sua conta poupança.
Por um par de horas depois do atentado contra a vida de Drake, Andrei esperava um toque
no ombro e – bem, foda. Drake era um gângster, apesar de tudo – duas balas na parte de trás de
sua cabeça, ao estilo soviético. Mas à medida que as horas passavam, as mãos de Andrei se
estabilizaram e o suor ao longo de sua espinha foi secando. Suas antenas, extremamente
sensíveis, disse-lhe que ninguém suspeitava dele. Ele era um dos ajudantes do Chef, um
funcionário da cozinha, fora do radar de todo mundo.
O Blackberry em seu bolso vibrou. Andrei foi ao banheiro e checou a tela.
Cem mil dólares por mais informações.
A respiração de Andrei acelerou, seu coração disparou. Cem mil dólares por informação. Ah,
sim, esse era seu momento. Em um dia, talvez dois, poderia acumular mais dinheiro que em toda
sua vida de trabalho duro na merda das cozinhas de outras pessoas.
Ele era inteligente. Poderia passar as informações em pequenos pedaços, incrementando e
cobrando aos poucos. Dentro de alguns dias, Andrei poderia ter quinhentos mil dólares, talvez
mais.
Quinhentos mil dólares permitiriam a seu pai se aposentar, a Andrei abrir um restaurante
com estilo suficiente que garantisse seu sucesso. Essa era a oportunidade batendo à sua porta,
que todos diziam acontecer na América. Tudo o que tinha que fazer era responder.
Ok, digitou, no teclado minúsculo. Penteou os longos cabelos louros, passou algumas gotas
da colônia Hugo Boss em seu pulso e saiu à procura de Shota.

Embora Grace estivesse com fome e apesar de sua barriga fazer um barulho constrangedor,
era difícil manter a mente em comida com Drake andando nu pelo quarto.
O homem era simplesmente magnífico. Não havia palavras para descrevê-lo. Felizmente,
Grace não precisava de palavras. Seus olhos de artista lhe disseram tudo que precisava saber.
Ela estudou anatomia humana a vida toda. Durante a escola de arte desenhou, literalmente,
milhares de costas humanas, mas nunca viu nada parecido com a musculatura das costas de
Drake. Era extremamente amplo, ondulando com os músculos, afinando na cintura magra.
Não havia um grama de gordura nele. Ele quase parecia não ter pele, com os músculos tão
proeminentes. Vestido era impressionante. Nu, parecia letal. A bandagem branca e imaculada
sobre a enorme bola que era seu ombro esquerdo parecia quase uma decoração. Era impossível

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pensar que levara um tiro no dia anterior. Parecia completamente curado e movia-se com uma
facilidade extrema, como uma enorme pantera.
Era difícil imaginar que tipo de exercícios ele praticava para manter um corpo assim.
Exercícios de musculação deixavam os músculos maiores. Estes não eram músculos construídos
em aulas de musculação que pareciam... falsos. Estes pareciam forjados em ferro e aço.
Ele também não se movia como um fisiculturista com aquele gingado musculoso. Não, ele
movia-se como a água, que flui suavemente ao chão, como uma força da natureza.
Ela se lembrou da sensação dele em seus braços. Incrível. Como segurar uma pedra quente,
com proporções perfeitas. Não, essa não era uma analogia correta. Embora ele fosse duro como a
pedra, o que veio através de seus dedos era vida. Como se o homem tivesse uma maior proporção
da força da vida dentro dele que os outros. Sentiu chiar os dedos quando o tocou, uma conexão
com algo quase sobre-humano.
Tudo nele era descomunal. Seu físico, sua personalidade, sua capacidade de luta, seu uau...
Sim, isso era descomunal também. Grace não tinha muita experiência com tamanho de pênis, mas
mesmo assim, compreendeu que acabara de satisfazer um campeão do gênero com sua mão.
Não que não gostasse de sexo, era só que sexo envolvia homens, e uma boa parte deles
resultara em empurrões desagradáveis dentro dela. Ela tentou, realmente tentou. Fez o melhor
para relaxar, ir com o fluxo e todos os clichês, mas nunca conseguiu completamente.
Com Drake, relaxar não foi um problema. Seus músculos tinham virado mingau. Tudo o que
ele tinha que fazer era tocá-la e seu corpo ficava todo amolecido para ele.
Drake abriu a porta e voltou para ela empurrando um enorme carrinho com bandejas
cobertas, copos, talheres e uma garrafa térmica. Podia sentir o delicioso aroma de café, croissants
amanteigados e carne suculenta do outro lado do quarto.
Grace sentou-se contra a cabeceira da cama com as pernas cruzadas, puxando o lençol
abaixo dos braços, cobrindo os seios. Drake parou o carrinho ao lado da cama e serviu duas xícaras
de café fumegante.
Ele segurava uma xícara para ela, enquanto com a outra mão afastava o lençol.
—Não se cubra, — disse suavemente. —Você é muito bonita.
Ela poderia brigar, mas claro que seria ridículo pensar que poderia ganhar uma luta contra
Drake. Era naturalmente modesta. Até no vestiário, nas raras vezes em que ia para a academia,
preferia se vestir no cubículo do toalete. Não por pudor, mas por timidez.
Que, claro, naquele momento foi dar uma volta, porque deixou que ele puxasse o lençol
para baixo sem um murmúrio. Pode ser que tenha sido o calor em seus olhos que a convenceu a
deixar cair o lençol, em vez de se agarrar a ele. Ninguém jamais olhara para ela como ele, como se
tivesse fome dela.
Uma vez que o lençol caiu em seu colo, ele lhe entregou o café, envolvendo a mão ao redor
de seu seio, o polegar girando preguiçosamente em torno do mamilo. Grace mal conseguia
segurar a xícara. O toque dele a fez tremer, os músculos de sua vagina, relaxados, se contraíram,
até mesmo seu estômago se apertou.

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Drake observava de perto. Sabia exatamente o efeito que estava causando nela. Ela deu uma
olhada ao acaso sobre seu colo.
Bem, era mútuo. Ele estava completamente excitado novamente, seu pênis contra a barriga
lisa, grosso e escuro, com as veias saltando para cima da coluna dura.
Seus olhos escuros estavam quentes.
—Beba o café, — ele rosnou.
Café. Certo. Teve que segurar a xícara com ambas as mãos, caso contrário, derramaria o café
quente em si mesma e sobre a bela cama. Inclinou a cabeça para trás contra a cabeceira e bebeu.
Deus, estava delicioso. Sabor acentuado e suave de alguma mistura escandalosamente cara,
sem dúvida. Tomou outro gole. Perfeito.
Sua mão continuou acariciando seu seio, os movimentos preguiçosos.
—Bom? —Ele perguntou.
—Maravilhoso.
—Deixe-me experimentar, —ele disse, de repente, se estendendo ao longo de seu corpo
para cobrir a boca dela com a sua. Oh, Senhor, ela poderia simplesmente afundar em seus beijos.
Este foi longo, lânguido, os traços de sua mão sobre o seio ecoando por sua língua em sua boca.
Ele ergueu a cabeça por um segundo, depois moveu-se mais estreitamente, a língua mais fundo
em sua boca. Ergueu a cabeça novamente e sorriu para ela. —Está uma delícia.
—Hummm. — Grace estava muito abalada para falar. Foi a primeira vez que viu um sorriso
pleno vindo dele. Estudou rostos o suficiente para conhecer nas linhas de seu rosto, que ele
raramente sorria. Talvez fosse melhor assim, porque tornava-se assustadoramente atraente
quando sorria. Respirou fundo para acalmar os nervos. Sua mão acariciava seu seio esquerdo e ela
estava certa que podia sentir seu coração batendo forte, como se tivesse corrido.
A mão de Drake deixou seu seio e correu pelo lado de seu corpo. Franziu a testa ao sentir
seus ossos ao longo de sua caixa torácica.
—Você tem que comer. Está muito magra. Eu vou cuidar disso.
Parecia um ditador do terceiro mundo, imperioso, e ela teve que se esforçar para conter
uma risada.
—Ah, Drake, eu detesto te decepcionar, mas eu não sou considerada magra demais aqui. Na
realidade, eu diria que precisaria emagrecer um pouco.
A carranca se aprofundou.
—Estes tolos, bobos homens americanos que gostam de mulheres com as costelas de fora.
Nunca conheceram a fome, mulheres cujas costelas estão visíveis porque estão morrendo de
fome, caso contrário não seriam tão tolos. Carne saudável é uma benção e relativamente rara
neste mundo. Assim, aqui, abra a boca.
Ele estava certo. Grace obedientemente abriu a boca e, em seguida, gemeu. Fechou os olhos
e inclinou a cabeça para trás. Oh Deus, houve uma pequena explosão da massa mais macia que a
asa de um anjo, a manteiga e o açúcar na sua língua. O mais leve toque de baunilha. O Paraíso.
—Mais uma vez, a voz de Drake era imperiosa.

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Ela abriu a boca para um segundo bocado e foi ainda melhor. Tomou um pouco mais do café
com gosto de ambrosia. Drake não lhe dava qualquer parada. No instante em que ela engolia um
pedaço da massa, ele já tinha outra pronta para ela, observando cuidadosamente.
Como se fosse tola o suficiente para cuspir fora a melhor massa que já comera em sua vida.
A boca dele estava sobre ela outra vez, a língua lambendo as profundezas de sua boca, seu
gosto melhor que a massa.
Depois disso, ele pegou dois ovos perfeitos, suaves, com a gema num rico amarelo muito
fresco. Torrada de pão integral com manteiga recém batida e geleia de groselha caseira.
—Abra, — disse Drake novamente e novamente. E ela o fez.
Mais do que simplesmente abrir a boca. Era como ser uma princesa mimada, sentada nua,
de pernas cruzadas sobre um cobertor de peles e ser alimentada pela mão de um homem que
parecia um guerreiro conquistador de alguma estepe primitiva.
Toda vez que seus lábios se fechavam sobre seus dedos, ele a olhava diretamente nos olhos,
um olhar quente e direto. Puro, puro sexo.
E então, quando ela engolia, ele permitia que um pequeno sorriso aparecesse em seu rosto.
—E agora, — ele anunciou, levantando a tampa de prata de um prato enorme de porcelana,
“voilà!”. Fatias de presunto cozido e salsicha grelhada. Le petit déjeuner à l’anglaise16. — Desfrute.
Grace apoiou o queixo sobre o punho e o observou.
—Quantas línguas você fala, Drake? — A seus ouvidos, admitindo que não era uma
especialista, a frase curta soara perfeita.
—Algumas. Umas melhores que outras. Tenho negócios com o mundo todo e aprendi
sozinho a não depender de intérpretes.
Ela imaginou que por isso ele falava tão bem. Seu inglês era quase perfeito, apenas com um
leve sotaque. Parecia o tipo de homem que ou fazia bem as coisas ou não fazia nada.
—Eu sempre quis conhecer Paris, — ela disse com ar sonhador, abrindo a boca para um
pedaço de salsicha. Estava deliciosa, temperada com sementes de funcho e pimenta. Ela acenou
para longe de outra mordida.
—Quer mais agora? — Drake estreitou os olhos. —Abra. — Suspirando, ela pegou outra
mordida de puro colesterol.
—Huuum. Mas meu verdadeiro sonho é ver Roma. Caravaggio, Tiziano, a capela sistina. —
Ela olhou seu rosto enquanto recitava os locais com os quais sempre sonhou. —Mas você conhece
Roma, não é? Já esteve lá.
—Eu conheço Roma muito bem, sim. Outra mordida. Boa garota. Eu vivi em Roma, por
pouco tempo a alguns anos atrás. Mas a Roma que eu conheci não tem nada a ver com Tiziano ou
o Vaticano. Então, por que você não foi a Roma? São apenas seis horas de voo.
—Eu sei, — ela suspirou. —A culpa é minha. É que nunca parecia ser o momento certo. E eu
só terminei de pagar a última das dívidas da minha faculdade há dois anos. E, claro, sobre o ano

16
Desjejum à inglesa.

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passado estive muito ocupada trabalhando duro para um patrão que parecia nunca ter o
suficiente de meu trabalho e nunca me deu descanso.
A boca dura de Drake ficou suspensa num meio sorriso. Seu coração bateu mais forte. Deus,
ele era ainda mais atraente quando perdia aquele olhar duro e áspero.
—Eu não tinha ideia de que estava te mantendo afastada dos seus sonhos.
—Não, não, você não entende. — Isso era importante. Grace colocou a mão no braço dele e
tirou o tom zombeteiro da voz. —Você não estava me impedindo de coisa alguma, Drake. Você
estava... estava salvando a minha vida. Eu me esforcei muito para ganhar a vida com minha arte,
mas não estava funcionando. Então eu tentei todo o resto. Garçonete, emprego temporário. Nada
disso funcionou. Eu fiz o melhor que eu podia, mas de alguma maneira nunca parecia suficiente. É
como se eu não fosse programada para o mundo, apenas para a pintura. Então, o fato de você ter
comprado tudo que eu produzia significava que eu podia fazer a única coisa no mundo que eu
amava.
Ele abaixou a cabeça.
—Encantado de estar a seu serviço.
Falando de serviço...
—Você também precisa comer. Não fez nada além de me alimentar. Agora é minha vez.
Assim, beba seu café.
—Sim, madame. — Tomou um grande gole obedientemente, observando-a cuidadosamente
com os olhos escuros.
Ela subiu por cima dele para pegar um croissant, tentando ignorar a grande mão em concha
que rapidamente se colocou em seu traseiro. O calor de sua mão a fez estremeceu. De alguma
forma, uma vez que estava sentada ao lado da cama, ela foi parar em seus braços, um longo braço
em volta de sua cintura, uma grande mão descansando em seu quadril.
O abraço a levou perto dele, tão perto que seus seios tocaram seu peito. Não havia
absolutamente nenhuma necessidade de pijama, seu corpo era tão quente como um cobertor. Ele
tomou outro gole do café.
—Você não está curiosa? — ele perguntou, a voz baixa.
—Curiosa sobre o quê?
—Se o café tem um sabor tão bom em minha boca. Não quer experimentar? —Curiosa não
era bem a palavra. Estava fascinada. Tudo sobre o homem era fascinante e misterioso. Sedutor.
Outro longo gole de café e ele colocou a xícara na bandeja, trazendo-a para mais perto dele
com uma mão enorme enquanto a outra ia para a parte de trás de sua cabeça.
Grace esteve em, literalmente, centenas de encontros em sua vida. Era bonita e tinha um
grande lote de primeiros encontros. Não tantos segundos encontros. Sempre havia algo errado. Às
vezes algo grande, como uma total incapacidade de se relacionar com qualquer dos interesses do
homem, às vezes algo pequeno, como fazê-la se sentir uma extraterrestre porque havia um novo
grupo de música sobre o qual ela não ouvira falar ou um programa de TV que não assistira.
Na maioria das vezes, havia uma grande quantidade de incompatibilidade física. O homem
fazia os movimentos errados, tocava de forma errada, às vezes a machucava. Mais vezes do que

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podia contar desejara ser lésbica, porque, pelo menos então seria capaz de desenvolver alguma
espécie de vida amorosa. Mas não, maldita seja, não era lésbica. Gostava de homens. Em teoria.
Não havia nada desconfortável ou embaraçoso com o toque de Drake. Ou em beijá-lo. Ela
moveu sua cabeça perto o suficiente a fim de sentir o cheiro de café em sua respiração e, tão
naturalmente como respirar, seus lábios se encontraram.
Seus lábios estavam quentes, surpreendentemente suaves para um homem tão duro.
Moviam-se em sincronia. Drake inclinando a cabeça apenas para recolher um gemido dela.
Ela começou o beijo, mas ele tomou o controle imediatamente, um braço a segurando
firmemente contra ele, a mão na parte de trás de sua cabeça, segurando firme para o beijo. Seus
seios esmagados contra o peito, os cabelos levemente encaracolados fazendo cócegas.
Era quase intenso demais, profundo demais.
Ela interrompeu o beijo para voltar um pouco e tomar uma respiração profunda.
—Então, — perguntou, os olhos brilhantes. —Com foi isso?
Ela piscou, quase sem compreender as palavras. Como foi o quê?
Um dedo longo passou por seu queixo, os calos raspando sua pele.
—O café, o gosto do café. — Ele se inclinou para frente para outro beijo, um leve desta vez,
um ligeiro toque de língua. —Ficou bom com o gosto da minha boca?
O gosto dele era quente e escuro. Poderia ter sido do café. Provavelmente era só ele
mesmo.
—Delicioso, — ela mal respirava.
—Relaxe para mim, — ele murmurou. Seus dedos longos massageavam seu couro cabeludo.
—Você está tão tensa. Não está com medo de mim, não é?
Grace estava tensa. Bastava o toque de suas mãos para disparar sua libido. Estar em seus
braços a acalmou, acalmou algo profundo dentro dela. Era assustador.
—Grace. — Sua voz profunda tinha perdido todo o humor. Ela se mexeu um pouco. —Diga-
me que você não tem medo de mim.
Ela levantou a cabeça para olhar para ele, em seus sóbrios olhos escuros, o rosto duro como
se nunca tivesse sorrido na vida.
—Não, — ela respondeu baixinho, com sinceridade. —Eu não tenho medo de você. De
forma alguma.
Sua carranca não desvaneceu. Ainda havia um profundo sulco entre as sobrancelhas. Ela o
tocou, levemente, com o dedo. Um sulco de dúvida. Mas também havia linhas em seu rosto, que
foram causadas pela dor e sofrimento.
Seu olhar desviou-se para a bandagem grande por cima do ombro. Estava machucando-o?
Era impossível dizer.
—Como está seu ombro? — ela sussurrou.
—Que ombro? — Ele sussurrou de volta.
Certo. Que ombro? A violência de ontem parecia distante, um outro tempo, outro local. Ela
mal conseguia pensar nisso.

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Drake encheu toda sua visão; cada centímetro de sua pele tocada por ele. Decadente e
perigoso, mas, oh, tão excitante.
Ela se inclinou para frente, observando seus olhos, e fechou os dela somente no momento
em que ele tocou seus lábios. Seu torso estava encostado nela. Tentou facilitar segurando acima
do ombro ferido, mas ele não estava se importando. Seus braços a seguraram firmemente contra
ele, assim ela sentia cada inclinação e reentrância de seu corpo forte, a carne tão firme e dura
como aço.
Suas bocas se encontraram novamente, agarrou-se a ele, o beijo durando tanto tempo que
respirava através dele. Cada golpe de língua fazia o coração bater mais forte, tremer suas mãos,
apertar a parte inferior de seu corpo.
A mão em suas costas deslizou em volta da cintura, flutuou sobre sua barriga e a tocou entre
as pernas. Um toque elétrico. Ela estava hipersensível do orgasmo, mas de qualquer maneira ele
sabia como tocá-la, não como alguns homens faziam, pensando que quanto mais duramente
tocassem, mais duro seria o orgasmo. A espécie de homem que achava que as mulheres gostavam
de ter os mamilos beliscados.
Aqueles homens desapareceram de sua cabeça. Puff! Como se nunca tivessem existido.
Parecia impensável para Grace que qualquer outro homem a tocasse depois de Drake, este
homem muito forte, que, apesar disso, só a tocou suavemente, muito suavemente.
Como agora, os dedos lentamente circulando sobre seu clitóris. Ainda estava macia e
molhada do orgasmo. Seus quadris começaram uma rotação impossível de parar, acompanhando
seu dedo, de forma completamente involuntária.
Ele gostava disso. Ela podia sentir seus lábios transformando-se em um sorriso. Sim, ele
gostava. Bem, ela também.
Ele acariciou os lábios de sua boceta, suavemente, circulando em torno de sua abertura.
Seus calos eram ásperos, dando uma pequena picada a cada toque. Quando fez o circulo
completo, ela deixou escapar o fôlego num resmungo. Alcançou sua boca, olhando seus olhos com
cuidado. Seu dedo acelerou, passando suavemente em torno dela, às vezes dentro.
Ele a olhava cuidadosamente para observar suas reações, mas seu corpo estava dizendo a
ele tudo que precisava saber.
—Eu quero beijar você aqui. — Sua voz era profunda e escura, tão deliciosa quanto o café
que bebeu de sua boca. —Aqui, um beijo longo, mais e mais, minha língua dentro de você.
A visão floresceu dentro da cabeça dela, esparramada sobre o cobertor de peles, as pernas
abertas, a cabeça escura enterrada entre elas. Era mais que uma imagem lasciva e erótica, sua
vagina ondulando com entusiasmo.
Ele percebeu isso. Não sorriu, se houve algo, seu rosto ficou ainda mais duro, os músculos ao
longo de sua mandíbula apertados enquanto rangia os dentes.
Sua mão estava se movendo mais rapidamente e seus quadris se contorciam em torno dele.
Sabia exatamente onde tocar, e como. Os músculos de suas coxas estavam apertados e o
estômago tinha um duro nó.

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—Goze para mim. — Aquela voz profunda veio em tom de comando. Ela tinha que
obedecer. Logo que ele disse as palavras, seu corpo inclinou-se sobre a borda e com um grito
começou a convulsionar num orgasmo interminável. —Agora, — disse Drake, a voz gutural. Em um
segundo estava envolto em um preservativo. Abriu-a completamente com dois dedos, segurando-
a aberta para empurrar para dentro, o movimento lento e forte. Empurrou ao máximo, tão
entranhado nela que podia sentir seus pelos pubianos contra o tecido suave de sua fenda.
Oh Deus, ela estava apertando agora em torno do pênis duro, grosso, apertando seus
músculos e acentuando os impulsos elétricos. Olharam um para o outro, sulcos profundos
marcando a boca dele, a respiração ofegante. Assim que as contrações foram diminuindo, Drake
começou a se mover, lentamente no início. Circulando gentilmente com seus quadris, como se a
estivesse esticando, em seguida, com pequenas pressões dentro dela.
Oh Deus, ele conseguiu alcançar um ponto dentro dela, que nunca soube que existia, porque
cada impulso estourava faíscas de sensações agudas, quase dolorosas. Seus movimentos
prolongavam as contrações.
—Isso mesmo, — ele resmungou. —Continue gozando. Não pare.
Ela não podia. A cada segundo que passava, as sensações se intensificavam até que seu
coração estava martelando e seu corpo todo latejava. Os golpes de Drake eram fortes e duros, as
mãos grandes mantendo seus quadris imobilizados para ele.
Ela gozou e gozou até que as contrações eram quase dolorosas em sua intensidade. Grace
gritou, tremendo. Era muito intenso para suportar.
Drake parou de repente e ela caiu para frente, sobre ele, exausta, suada e torcida. Quem
diria que seu corpo continha toda essa energia erótica? Estava totalmente desgastada com a força
de seus orgasmos, sua mente num vazio completo.
Demorou longos minutos antes que pudesse fazer um balanço, seus sentidos queimando
uma vez mais, como uma máquina voltando à vida.
As sensações voltavam lentamente. A percepção dele embaixo dela, os músculos tensos e
duros como aço. Sua respiração profunda, as pernas estendidas em torno dele.
Seu pênis dentro dela, ainda quente e duro.
Oh Deus, ela não podia. Não havia mais nada dentro dela.
Mexeu-se um pouco, sentindo-o ainda maior.
—Você não, hum...
Sua boca estava contra seu ombro e podia sentir seus lábios se movendo num sorriso.
—Não... — ele disse, a voz tão profunda que podia sentir as vibrações em seu peito, contra
seus seios. —Mas eu vou, pode contar com isso.

Capítulo 11

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Rutskoi olhou para cima, para o arranha-céu que se erguia na rua em frente ao prédio de
Drake.
A maior parte do edifício era composto de escritórios para vários segmentos, de
importação/exportação até clínica dentária. Havia alguns apartamentos dispersos aqui e ali por
todo o edifício. A maioria estava alugado por curto prazo. Dois, suspeitava que eram usados para
fornecer sexo de alta classe, com encontros marcados pelo telefone.
Rutskoi ficou tentado... mas não. Não até que o trabalho estivesse terminado. Mas depois,
inferno. Teria dez milhões de dólares. Não haveria uma mulher no mundo que não poderia
comprar, pelo resto da vida, ou, pelo menos, até seu pau cansar. E mesmo assim, havia o Viagra.
Abençoado os americanos e seus inventos.
Por um acaso, havia dois apartamentos do trigésimo andar que se localizavam em frente à
sala de Drake do outro lado da rua. Um apartamento de canto não seria aconselhável, porque
Rutskoi precisava de um tiro certeiro do centro do edifício para a sala no centro do prédio do
outro lado da rua.
As janelas de Drake eram tratadas com policarbonato, provavelmente várias camadas, se ele
conhecia Drake. Sua janelas seriam tão resistentes à balas quanto possível. Algo à prova de balas
realmente não existia, nem mesmo carros blindados eram totalmente à prova de balas, mas Drake
chegava perto. Mesmo que uma bala fosse disparada da mais poderosa arma – e Rutskoi tinha a
melhor, uma Barret-95 – não penetraria no vidro tratado a menos que o ângulo do tiro tivesse o
exato grau de precisão. Ainda que a bala conseguisse penetrar, não podia ter certeza que o tiro
acertaria seu alvo, Drake.
Tinha que ter certeza. Absoluta certeza.
Assim, precisava de um lugar com uma linha reta de visão para a sala de Drake. Era a única
sala que Rutskoi entrara e ele contou as portas. Era a quinta da extremidade sul.
As plantas e projetos do prédio de Drake eram difíceis de ser encontrados, até mesmo nos
escritórios de zoneamento municipal. Rutskoi encontrou o nome do escritório de arquitetura que
projetou o prédio e ali, também, os projetos não foram encontrados. Desapareceram, em uma
nuvem de fumaça.
Bem, Drake era inteligente, mas não era Deus, onisciente e onipotente. Os projetos do
edifício em frente ao de Drake estavam onde deveriam estar, tanto na prefeitura, como no
escritório do arquiteto e Rutskoi o estudou cuidadosamente. Em seguida invadiu o escritório do
administrador do edifício.
No piso do trigésimo andar estavam instaladas uma decoradora de interiores, uma agência
de publicidade, os escritórios em Nova Iorque de uma empresa chinesa, uma escola de balé e dois
apartamentos vazios.
O apartamento 3033 pertencia a um Christopher Wright, um corretor de médio porte, o que
significava que ele fazia grande parte do trabalho em casa. Wright tinha 34 anos, casado com uma
designer autônoma que executava vários trabalhos voluntários. Tinham um filho.
Embora Rutskoi estivesse perfeitamente preparado para matar toda a família para
estabelecer seu ninho de atirador, isso poderia causar problemas. Wright e sua esposa eram

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conectados com o mundo. A criança frequentava a escola. Uma família como essa não poderia
simplesmente desaparecer. Dentro de 24 horas, no máximo, alguém poderia chamar e, não sendo
atendido, iria aparecer.
Rutskoi necessitava um lugar por tempo indeterminado, até que resolvesse a situação. O
apartamento 3034 parecia melhor. Pertencia a uma agência de publicidade e era usado
ocasionalmente como residência pelos visitantes. Rutskoi deu uma olhada na agenda e percebeu
que tinha um golpe de sorte. O próximo ocupante era Oscar Merlim, de Florianópolis, no Brasil, e
ele não era esperado antes do dia 02 de dezembro. Até então Rutskoi estava livre para montar
seu ninho. Ele gostaria mais se houvesse disponibilidade para tempo indeterminado, mas era
irrealista esperar que o local perfeito permanecesse eternamente vazio. Ainda assim, 14 dias não
era ruim.

—Venha, levante-se. — Drake puxou a mão de Grace, a única coisa visível sob a manta de
pele além de um redemoinho de cabelo brilhante castanho-avermelhado.
Grace sacudiu seu dedo indicador. Não.
—Vamos lá, — admoestou, —tenho algo para mostrar. Você vai gostar, prometo...
O dedo fez círculos. Mais tarde.
—Presentes, — ele cochichou. —Muitos presentes, para você.
A mão moveu-se para cima e para baixo. Bye-bye.
O sexo podia estar esgotado, mas ele não estava. Tinha 34 anos de idade e não tinha ideia
de que o sexo podia fazer isso com ele. Fazê-lo se sentir relaxado e no topo do mundo,
esquecendo tudo o mais.
Sequer se importava por não ter gozado. Bastara observá-la, o belo rosto corando de prazer,
sentindo sua boceta macia o ordenhando, estremecendo, ah, isso tinha valido a pena. Ele se
curvou e beijou a ponta do ombro, o único pedaço de pele que aparecia sob as cobertas, além de
sua mão.
Ela tinha lindos ombros também. Beijou-a novamente. Um suspiro saiu de debaixo do
cobertor.
—Não é justo. — Sua voz saiu abafada.
Amava o ditado inglês que dizia tudo é justo no amor e na guerra.
—Não é justo, era um conceito para os perdedores. Ele a beijou novamente e ela virou,
olhando para ele com olhos sonolentos.
—Estou caindo de sono. Alguém me deixou exausta. Você pode ser o homem de ferro, mas
eu não sou.
—Eu acho que um buraco de bala praticamente prova que eu não sou o homem de ferro. E
você pode dormir até mais tarde depois, eu prometo. Mas agora você precisa levantar-se, amor.
Existem algumas coisas que eu preciso te mostrar.
Não havia nada mais que gostaria de fazer do que mergulhar de novo na cama ao lado dela,
segurando-a com força enquanto ela dormia. E quando ele sentisse a lenta ascensão dela rumo ao

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estado de vigília, ele deslizaria a mão para baixo, gentilmente acariciando seu monte macio até
que começasse a sentir a umidade e introduziria seus dedos. Queria despertá-la com um orgasmo,
o prazer de seu próprio corpo sendo o mais delicado dos despertadores. Iria virá-la até ficar sobre
suas costas, levantar sua perna e deslizar para dentro. Ela estaria apertada.
Mas um pouco menos apertada que da última vez. Ela logo se esticaria para acomodá-lo.
Com o tempo, sua boceta iria lentamente tomar sua marca, moldar-se para receber seu pênis, e
somente ele.
Fariam amor muito, muito gentilmente, meio adormecidos, gozando lentamente até acordar
em uma névoa de prazer. Depois, se aconchegariam na cama até mais tarde, quando Drake sairia
para pegar a comida. Gostaria de alimentá-la novamente, observando aquela deliciosa boca
aberta por causa de seus dedos lhe acariciando os seios. Não iria deixá-la se vestir. Roupas eram
desnecessárias.
Um tempo doce, apenas com dois amantes se descobrindo. A coisa mais natural do mundo.
Claro, isso tudo acontecia num planeta alternativo, em outro universo, onde Drake era livre
para amar quem quisesse, sem medo que sua mulher tivesse a mente apagada, a pele arrancada,
fosse estuprada por dias.
Não ia acontecer. Eles não a pegariam. Não enquanto ele respirasse.
Ele precisava iniciar um caminho longo e traiçoeiro hoje, se quisesse levá-los para a
segurança, e precisava começar agora.
—Grace, — disse ele, colocando um tom de comando na voz. —Eu gostaria que você se
levantasse agora, por favor.
Funcionou. Ela se virou e sentou-se, assustada.
—Claro...
Jogando para trás o cobertor, ela se levantou num movimento gracioso. Pegou sua camisa e
calças do pijama e estendeu a mão para o kimono. Drake quase suspirou enquanto a olhava puxar
para cima as calças quase até seus seios para não tropeçar nelas, e envolver a parte superior em
torno de si quase duas vezes.
Neste outro planeta, Drake a manteria nua. Tornaria tudo mais fácil.
Doía-lhe vê-la em sua roupa feia de soldado, mas felizmente, ele tinha resposta para isso.
Em caixas no estúdio.
Se aproximou e beijou-a no pescoço.
—Desculpe perturbar seu descanso, amor, mas existem algumas coisas que eu tenho para te
mostrar.
Qualquer outra mulher o teria repreendido por fazê-la se levantar. Mas Grace olhou para
seu rosto e apenas balançou a cabeça.
Boa menina.
Agora que ele estava no modo de trabalho, o relaxamento que sentiu quando estavam
rolando na cama como dois cães no cio se foi, como se nunca tivesse existido. Roubara algumas
horas para ambos, mas agora era hora de entrar em ação. Um passo em falso e estariam mortos.
Ele sabia que seu rosto refletia isso.

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—Venha comigo. Entraram no estúdio, onde parecia que Shota tinha se superado. Havia
duas pilhas de caixas, mais um cavalete dobrado encostado na parede. Uma pilha era de simples
caixas de papelão marrom com o logotipo da loja de artigos de arte, a outra pilha era de caixas
elegantes, em todas as cores do arco-íris, com fitas e laços enormes. Ele se divertiu ao ver sua
atenção imediata para os suprimentos de arte.
Sentado no braço de uma poltrona, ele a colocou entre suas pernas. Ela enrolou os braços
em torno de seu pescoço. Seu rosto estava sóbrio quando olhou para ele.
Suas mãos acariciaram suas costas estreitas. Podia sentir as costelas delicadas, o recuo
acentuado de sua cintura. Contra o negro austero de seu gi, sua pele era pálida e fina. Ela era tão
fodidamente... vulnerável. Em todos os sentidos. O mundo não era gentil com as pessoas mais
vulneráveis, nem mesmo com artistas com o dom dos deuses nas mãos.
Era um milagre ela ter sobrevivido ao tiroteio fora da galeria de Feinstein. Estava longe de
ser certa a sobrevivência dela ao próximo.
E haveria um, se Rutskoi estava em parceria com Cordero. Drake tinha certeza que Cordero
era burro demais para desistir, mas Rutskoi o conhecia, sabia que ele não descansaria até que
Rutskoi estivesse morto, por isso ele teria que vir para o ataque primeiro. Resolver a situação
demoraria um pouco.
Se Drake sobrevivesse ao ataque seguinte, haveria o próximo e o próximo depois para lidar.
Eles nunca chegaram até ele, até agora. Nunca o atacaram enquanto estava sozinho. Mas agora
havia Grace e eles viriam atrás dela, oh sim. Não havia dúvidas quanto a isso.
Não havia nada na bela cabeça de Grace que iria ajudá-la a se defender. Não instintos de
sobrevivência de qualquer modo. Havia bondade, uma maneira única de olhar o mundo, de
discernir suas formas e cores, uma busca constante de reinterpretar o mundo em seu trabalho.
Mas ela não tinha nenhuma estratégia de sobrevivência, não fazia ideia da traição do mundo e
como combatê-la. Para um certo tipo de homem, Grace tinha um alvo estampado na testa.
Com ela para se preocupar, ele ficava fora de equilíbrio. Ele já estava. Apenas o pensamento
de que Rutskoi e Cordero podiam estar planejando o sequestro dela, e ainda, com alguma ajuda
de dentro, o deixava um pouco louco.
Ele deu uma pequena mordida em seu queixo e respirou em seu ouvido.
—Eu sabia que você provavelmente iria enlouquecer se não pudesse pintar ou desenhar,
então eu trouxe o máximo que pude em material de arte. Se algo estiver faltando, ou se você
quiser mais, tudo que você tem a fazer é pedir. As outras caixas são roupas. Mais uma vez, me
avise se algo estiver faltando e eu providenciarei.
—Por um tempo, você vai ter que ficar aqui, então eu quero que você fique o mais
confortável possível. Tenho livros, música, filmes. Tudo que você quiser, que eu não tenha, me
peça ou aperte o interfone e você vai conseguir na hora.
—Drake...
Ele roubou um beijo rápido.
—Sim?

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Ela parecia incomodada e ele tentou apagar a pequena carranca entre as sobrancelhas com
o polegar, desejando que pudesse limpar a ameaça contra sua vida, tão facilmente.
—Quanto tempo você acha que eu vou ter que ficar aqui?
Para sempre. Ou até nós desaparecermos.
—Deixe eu me preocupar com isso. Vou começar a trabalhar nisso agora. Você
simplesmente relaxe. — Ele a soltou e levantou, porque se ficasse, a arrastaria até o quarto
novamente e não podia fazer isso, não com tudo que tinha que resolver esta manhã.
Relutantemente ele atravessou a sala, odiando ter que deixá-la.
Ele parou na porta, depois voltou-se. Ela não se moveu. Ele apontou a pilha de caixas
coloridas.
—Há várias caixas de roupas íntimas ali, mas Grace?
Seu rosto era um pálido oval, olhos brilhantes.
—Sim?
—Não use nenhuma.

Rutskoi tivera uma amante há muitos anos. Uma atriz. Embora ela fosse bonita sem
comparação, tinha péssimos hábitos.
Muito egoísta e centrada demais em si mesma para pensar em agradá-lo. Rutskoi a manteve
inclusive quando ela começou a perder a beleza, pensando que mais cedo ou mais tarde as coisas
ficariam mais quentes na cama, mas nunca aconteceu.
Mal conseguia lembrar o nome dela agora e considerava o tempo que viveu com ela uma
falha. Mas uma coisa boa saiu de toda frustração sexual. Ela lhe dera um curso profissional na arte
de se disfarçar.
Observava, fascinado, como ela fazia a maquiagem para o teatro, explicando todos os
truques. Como mudar a cor da pele, o formato do nariz, maçãs do rosto. Como uma mudança no
cabelo, fosse com tintura ou peruca e as percepções ficavam alteradas. Como chamar a atenção
para certas características e ocultar outras. Como parecer mais alto, mais baixo, mais gordo, mais
magro. Assistia, encantado, como ela fazia para parecer dez anos mais nova, por volta dos vinte
anos, como se tornava uma freira, uma prostituta, uma camponesa.
Assim, o porteiro sequer pestanejou duas vezes quando um encanador anunciou sua
presença às dez horas. Um vazamento no vigésimo primeiro andar estava causando falta de
energia elétrica e tinha desligado os computadores de uma agência de viagens.
O porteiro viu um homem de estatura média, cabelo castanho escuro, olhos castanhos, pele
morena clara, vestido macacão de operário e carregando uma grande caixa de alumínio. O homem
falava com sotaque, mas a maioria dos reparadores esses dias tinham sotaque.
O porteiro indicou o elevador e se virou para olhar para fora das enormes janelas do andar
térreo a tempo de ver os primeiros flocos de neve cair.
Rutskoi estava certo que o porteiro já esquecera sua existência assim que retornou a olhar
seus monitores.

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Subiu até o décimo quinto andar, saiu e foi pelas escadas até o trigésimo. Sabia o que estava
atacando e o que isso implicava. Era perfeitamente possível que tivesse que esperar, imóvel, por
vários dias. Congratulou-se com sua capacidade muscular em subir quinze andares de escadas.
Nunca suavize, ele lembrou a si mesmo.
Andou ao longo do corredor do piso do trigésimo andar, cabeça baixa, um boné escondendo
suas feições. Arrombar a porta demorou alguns segundos e então ele estava dentro. Era um
apartamento com cerca de 80 metros quadrados, dois quartos e uma moderna cozinha no canto.
Todo acarpetado, o que era bom. Ele passou mais horas de sua vida que podia contar
deitado em chão duro, de pedra, esperando por um tiro.
Trabalhando rapidamente, enquanto havia luz, Rutskoi vestiu luvas de látex, em seguida
abriu a mala e foi tirando a Barret em pedaços encaixados em recortes de espuma.
Sna, snap, snap. Suas mãos encaixaram as peças, sem qualquer pensamento consciente,
realizando automaticamente a tarefa, perfeitamente, fruto de milhares e milhares de repetição. O
tripé foi o próximo a ser montado.
Várias voltas eficientes com uma certa pressão e lá estava ela, a plataforma estável para seu
rifle. Colocou uma lona de plástico no tapete e cuidadosamente a alisou. Uma ruga podia parecer
uma montanha depois de alguns dias. Essa lona ia ser sua casa por tanto tempo quanto fosse
necessário.
Teria uma chance, apenas uma. Tinha quer fazer isso direito. Tinha que esperar a
oportunidade perfeita e então usá-la. Não podia ter o mínimo de distração.
Isso era como qualquer outra operação militar, só que mais bem paga. Tinha um inimigo
para observar e depois eliminar. Todas as regras militares para uma emboscada urbana serviam
também aqui. Em Manhattan, como em Grozny17, os princípios eram os mesmos, só que desta vez
ele não estava escondido nos escombros de um prédio destruído por tanques, ou atrás de um
veículo abandonado ou no telhado mais alto ao redor, mas em um apartamento confortável, com
aquecimento.
Tudo o mais era igual. A hábil frieza do atirador para esperar sua presa. Planos de entrada e
de fuga. Uma plataforma estável.
E, acima de tudo, o equipamento certo.
Deixou tudo ao lado dele na lona e deitou no chão.
Tomografia infravermelha e alcance de visão noturna com lentes de germânio. Abundância
de munição. Uma vez que Drake entrasse na mira, ele abriria fogo. Duas semanas de barras
energéticas, garrafas de Evian18 que encontrara na despensa e quatro garrafas de água vazias para
reposição. Blackberry.
Olhou em volta e arrastou o sofá com as almofadas sobre a lona, abençoando o decorador
que optara pela solução mais barata. Almofadas macias seriam impossíveis de usar como

17
Capital da Chechênia, na Rússia.
18
Água mineral francesa.

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plataforma por serem muito moles. Os duros retângulos de plana espuma de borracha cobertos
com tecido eram perfeitos.
A distancia até a janela era crucial. A parte de fora das janelas eram levemente reflexivas.
Não tanto como as janelas de Drake, que eram basicamente espelhos e não mostrava
absolutamente nada dentro, mas o suficiente para ele não ter que se posicionar na parte de trás
da sala, nas sombras, como fez na Chechênia. Em um edifício em ruínas em Grozny, com vista para
o sul, teve que se colocar longe da janela e fazer uma abertura numa parede interna para o cano
do fuzil. Não seria necessário aqui. Mesmo olhando para fora em linha reta, Drake não veria nada.
Ele também manteria as cortinas do apartamento fechadas, uma vez que raramente era habitado.
Tiroteio através de vidro sempre era um problema. Era melhor atirar em linha reta. O vidro
no apartamento era só laminado. As balas atravessariam sem deformação. Já as janelas de Drake
seriam um inferno para conseguir meter uma bala dentro, mas com o termovisor que indicava a
posição e suas balas calibre 50, não havia dúvida na mente de Rutskoi de que uma das balas
atingiria Drake.
Uma bala era suficiente.
Tinha caixas de munição, incluindo circuitos incendiários suficientes para explodir a porra da
sala se fosse necessário. Depois que começasse, não deixaria Drake sair fora da sala e ele não iria
parar até Drake estar morto.
Acomodou-se sobre a lona, ligeiramente à esquerda de sua linha de fogo, apoiando-se sobre
o tripé, deixando os ossos e não os músculos levar o peso de seu corpo. Seu rosto encontrou a
posição familiar contra o ponto exato da mira, como sempre. Estava preparado para esperar nessa
posição o tempo que fosse necessário.
Assim, assumiu a posição que lhe daria o máximo de conforto sobre o que poderia ser um
longo período, enquanto, ao mesmo tempo, garantia a máxima precisão. E então sentiu-se
desparecer, mergulhar e flutuar ao mesmo tempo, isolado do mundo todo, tudo reduzido a seu
dedo no gatilho e o olho na mira.
Era a coisa mais próxima que conhecia como felicidade.
Este era o lugar onde pertencia, ele percebeu de repente. Era para isso que ele tinha nascido
– ser um caçador. E o que podia ser mais gratificante, mais emocionante que caçar Drake?
Como ele tinha errado ao querer entrar no negócio com Drake. Rutskoi não era um homem
de negócios, nem de perto. Drake conhecia armas, mas sua genialidade estava em ganhar
dinheiro. Drake teria feito uma fortuna com qualquer coisa que decidisse negociar.
Carros, ações, imóveis. Apenas aconteceu de começar suas atividades em uma parte
miserável do mundo onde as armas eram a mercadoria principal .
Que diabos Rutskoi tinha pensado? Estava tão ansioso para sair do exército russo e da
Rússia, que se convenceu ser, de alguma forma, um empresário. Errado. Ele era um caçador. Essa
era sua natureza.
E, finalmente entendeu, aquele era seu futuro.

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Serie Dangerous 03

Um contrato de 10 milhões de dólares era só uma vez, porque nunca mais teria um alvo
como Drake, não nesta vida. Drake era um caso isolado, um cisne negro. Como Tamerlane ou
Alexandre ou Napoleão. Seu tipo não viria novamente por mais cem anos.
Mas o mundo estava cheio de alvos. Milhares deles. Milhões. Homens parados em seu
caminho, impedindo sua ascensão, homens com conhecimento que poderiam feri-lo, homens que
podiam traí-lo. O mundo estava cheio deles e cheio de seus inimigos.
Mas o mundo não estava cheio de homens com as habilidades de Rutskoi. Ele era um gênio
com um rifle e um dos poucos atiradores militares que poderiam usar suas habilidades fora das
formas armadas e não ficar louco. Matadores de aluguel muitas vezes eram desequilibrados, a um
tímido passo da loucura, muito pouco confiáveis, ferramentas sem corte.
Não Rutskoi. Ele era tão lúcido quando poderia ser. Não era um assassino de coração gelado,
mas um técnico com uma habilidade altamente valorizada, que começaria a vender muito caro a
quem pagasse mais.
Uma vez que ele matasse Drake, Rutskoi iria investir parte de seus 10 milhões de dólares em
uma nova identidade e uma luxuosa casa como base, longe de olhares curiosos, e enviar uma
mensagem que estava disponível, por um preço. Sucesso e discrição garantida.
Enquanto seu corpo se ajeitava sobre o tapete, ele se concentrava neste novo plano. Era
absolutamente certo, tão certo como o rifle em suas mãos, o rosto apoiado na arma, seus olhos na
mira. Este era seu destino, só não tinha percebido antes.
Seus sentidos se concentraram na superfície espelhada da janela da sala onde Drake vivia,
onde permaneceria até o fim.
Uma vez que Drake pisasse em sua sala de estar, ele não sairia vivo.

22 de Novembro.

Grace se acomodou na biblioteca. Deus sabe que havia espaço suficiente na sala para ela.
A luz fluindo através de uma parede inteira de janelas que iam do chão ao teto, fazia sua
própria pequena claraboia enrubescer de vergonha. A casa de Drake era um ambiente favorável a
seu trabalho. Alguma mão invisível sempre acendia a lareira para ela. A sala era bonita e
totalmente silenciosa. Ninguém incomodava. Quando se lembrava de comer, sempre havia um
carrinho do lado de fora cheio de comida deliciosa.
Ela trabalhava como uma mulher possuída. A violência do ataque na galeria de Harold, a
chama ardente do calor sexual entre ela e Drake, o florescimento de sentimentos ternos por ele,
todas essas coisas traçaram seu caminho a partir de sua alma através de seus dedos diretamente
para a tela.
Perdeu-se totalmente no trabalho, às vezes parando quando notava dor nas costas, ao
descobrir que estava pintado por oito horas seguidas.
Drake se isolara em seu estúdio o dia todo, fazendo as coisas misteriosas dele.

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Serie Dangerous 03

No dia anterior, um homem idoso chegou e, com eficiência silenciosa, montou um estúdio
de fotografia improvisado, porém, profissional, onde ela estava trabalhando. Ele tinha uma
seleção de perucas e óculos e era muito adepto à maquiagem. Ele devia ter tirado uma centena de
fotos dela, com todas as mudanças possíveis, algumas em que ela mal reconheceu a si mesma.
Grace loira, morena, velha, estudiosa, maliciosa...
Drake ficou olhando impassível, enquanto ela mudava de personalidade, então calmamente
saiu pela porta com o homem e não voltou até o anoitecer.
Cada noite ele se desculpava por passar tanto tempo longe dela, até que finalmente ela o
calava com o dedo em seus lábios e pedia que se acalmasse.
A verdade era que não se importava de passar tanto tempo sozinha. Estava acostumada a
isso, habituada a ser capaz de se dedicar inteiramente à pintura, sem distrações. E Drake era uma
grande distração, em todos os sentidos.
Quando ele vinha para ela, enchia todo seu horizonte mental. Tudo era esquecido em sua
presença, como se fosse um imã enorme puxando tudo nela para ele.
O sexo era quase assustadoramente intenso. Ela sonhou um dia encontrar um homem com
quem pudesse estar, mas em seu devaneio, o sexo não fazia muito parte disso. Na verdade, os
devaneios eram pueris, como os anúncios de creme dental, duas pessoas correndo em câmara
lenta em direção ao outro em uma praia ensolarada. Nada como a escura, poderosa, assustadora,
quase visceral atração que existia entre ela e Drake. O sexo em sua fantasia era – como os trailers
de filmes para todas as idades – brando e agradável. Totalmente ao contrário da experiência de
alteração mental que era com Drake. Algo que a virou do avesso, transformando-a em uma
mulher que mal reconhecia.
Como se seus pensamentos o tivessem conjurado, houve uma batida aguda na porta e Drake
olhou para dentro.
Colocou o pincel em uma lata com solvente e limpou as mãos com um pano, ao perceber as
palmas ficando úmidas no instante em que o viu.
—Oi, — ela disse suavemente.
Ele não respondeu, apenas caminhou até ela. Não, isso não era verdade. Ele não andava, ele
fluía.
Graça, força, poder, tudo estava lá nas passadas. E era totalmente inconsciente. Não tinha
dúvida de que quando ele queria intimidar, era um mestre nisso. Seu corpo – todo seu ser –
transpirava poder e uma capacidade de irromper em violência devastadora em um segundo.
Mas ele não estava tentando intimidá-la de qualquer maneira. Seu caminhar para ela era
simplesmente o andar de um animal poderoso em seus primórdios, movendo em direção ao que
ele queria.
Ela.
Estava ali mesmo no brilho de seus olhos escuros, nunca desviados de seu rosto, em seus
passos largos, na intensidade que o rodeava como uma aura quase visível. Ele estava até sorrindo
quando a tomou pelo cotovelo e se sentou no sofá em frente a lareira, levando sua mão à boca.
Ele até tentara sorrir, mas de alguma forma parecia artificial neste rosto duro, sombrio.

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Beijou a palma de sua mão e entrelaçou seus dedos nela.


—Eu tenho algumas coisas para ver, mas não quero ficar longe de você muito tempo. Você
vai esperar por mim aqui? Eu amo a ideia de voltar para você aqui, bem aqui, cercada por suas
pinturas. Por uma questão de praticidade, eu pensei que talvez pudéssemos almoçar aqui.
Como se ela pudesse recusar-lhe qualquer coisa. Essa força não era apenas física. Sua
vontade era como um campo de força em volta dele, quase brilhante em sua intensidade.
—Sim. Sim, claro que eu vou esperar aqui por você, se lhe agrada. — Estendeu a mão para
tocar seu ombro ferido. —Você não está exagerando? Não deveria estar descansando?
Simples assim, como ligar um interruptor, sua aura mudou. Tornou-se puro sexo e animal.
Aqueles olhos escuros brilhavam, as narinas finas queimando. Ela sentiu isso na pele, como se uma
carga elétrica tivesse caído sobre ela, lançando chispas onde ele tocava.
Ele se inclinou para beijá-la no pescoço, nos lábios, a respiração quente. Enquanto ele falava,
ela podia sentir seus lábios se movendo.
—Minha linda Grace. Eu estou bem. Por favor, não se preocupe comigo. Eu não preciso
descansar, eu preciso de algo mais. Quando eu voltar, eu vou lhe mostrar exatamente o que eu
preciso. Enquanto isso... — Ele beliscou sua orelha e um arrepio atravessou seu corpo. Pegou sua
mão e a colocou sobre a virilha.
Meu Deus. Ele estava enorme, tão quente e duro, com o calor perfurando o tecido duro da
calça jeans. Ele lentamente lambeu sua orelha e sua respiração saiu numa corrida instável.
Isso devia ser vingança por ela ter sido tão indiferente ao sexo toda sua vida. Tinha sido
como uma porta trancada e descobriu que somente este homem tinha a chave. Sua boca em seu
pescoço causava arrepios e solavancos, fazendo-a se arquear para trás, dando-lhe mais acesso a
seu corpo.
Enquanto ele a lambia, arrastando os dentes sobre sua pele, sua mão apertava ao redor de
seu pênis. Ela não era a única afetada por sua boca nela. De forma inacreditável, quando passou a
mão por seu comprimento, surpreendentemente, seu pênis se esticou, engrossando e alongando
ainda mais.
Quando sua mão, em concha, esfregou ao redor da ponta bulbosa mesmo através da calça
jeans, sua respiração saiu em um corrida explosiva de ar que lhe arrepiou os cabelos.
—Deus, — ele suspirou. Sua grande mão cobriu a dela, a prendendo sobre ele. Ela não
estava realmente presa, no entanto. Sua mão estava mais que feliz em permanecer onde estava,
sentindo-o se mover embaixo dela. Era como tocar uma fonte primordial de energia.
Força, potência, pura potência masculina. Sua mão queimava com as ondas de sangue
correndo através dele. Cada salto em sua mão encontrava o aperto de seus músculos internos,
uma elaborada dança sexual que ela só conseguia fazer com Drake.
Ele lambeu novamente sua orelha, a respiração lenta e difícil. Sua voz profunda era baixa.
—Eu preciso ir agora, ou não vou sair mais. Eu não a deixaria se não fosse necessário. Mas
quando eu voltar, eu quero que você se lembre do que está sentindo agora.
Como se ela pudesse esquecer.

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—Ok, — ela sussurrou. Fechou os olhos para se concentrar na sensação da mão dele sobre a
sua e sobre o que estava acontecendo em seu corpo. Ela abriu a mão e o sentiu se levantar.
Movia-se tão silenciosamente que ela não ouviu nada. Somente quando ouviu a porta fechar,
percebeu que ele tinha ido embora.
Grace jogou a cabeça para trás, os olhos ainda fechados e simplesmente se concentrou em
seus sentidos. Ela seguiu a ordem de Drake e não colocou nenhuma peça da incrível coleção de
roupas íntimas que encontrou nas caixas. Lingerie de excelente qualidade, exatamente o tipo de
roupa que compraria se tivesse dinheiro.
As calcinhas, por outro lado... Bem, uau. Nunca teve a coragem de comprar o que encontrou
nestas caixas, pura fantasia.
Com seu orçamento apertado, suas calcinhas eram simples, confortáveis, de algodão branco
e maleáveis. Um mundo de distância da seda fútil confeccionada com renda, incrivelmente sexy e
reveladora, que encontrou dentro das caixas.
Tirou a roupa íntima das caixas, como Getsby19 tirava suas camisas. Nada de algodão branco
liso nestes pacotes elaboradamente confeccionados. Nenhum. Ao invés disso, todas as cores do
arco-íris.
Rosa, lilás, amarelo pálido, bege, azul, verde... cores simplesmente primorosas. Cada peça
era deliciosa o suficiente para comer. Sutiãs, calcinhas, bodies, tops de seda, corseletes e...
combinações. Conjuntos de camisola com a roupa íntima mais suave possível, camisetas
que...deslizavam! Quem quer que tivesse feito as compras tinha um gosto antiquado, porque elas
não eram escandalosas. Grace nunca tinha usado uma combinação na vida. Sua mãe também
nunca tinha usado. Estas combinações eram algo que as pessoas usavam há muito tempo, nos
filmes. Enquanto fumavam em piteiras longas e diálogos excitantes com alguém como Cary Grant
num enorme quarto branco.
Ela foi tentada, porém, pelo fino cetim que deslizava entre seus dedos dos corpetes de seda.
Ao final, escolheu um conjunto de sutiã e calcinha La Perda com renda e uma linda camisola
de cetim, quando lembrou suas palavras. Não use roupa íntima. A seda, o cetim e as rendas
escorregaram de seus dedos enquanto se agitava ao lembrar do toque dele em sua pele. E, de
repente, qualquer camada de roupa seria sufocante.
Então, nestes dois últimos dias ela não usou roupa íntima. Sua nudez não era visível, é claro,
sob suéteres de cashmere e calças de lã macia. Mas ela sabia e ele também.
Grace estava concentrada no que seus sentidos lhe diziam, agora.
A suavidade da camisa era uma carícia contra os seios. Estava um pouco molhada entre as
coxas pelas carícias de Drake.
Sem calcinha, a umidade era tão concreta contra a pele sensível como um beijo de ar fresco.
Era difícil sentir o perigo espreitando fora, porque, contra todas as probabilidades, agora se
sentia segura e acolhida. Não só porque estava em uma fortaleza protegida por um pequeno
exército de homens, mas porque havia... Drake.

19
Protagonista do filme o grande Gatsby, adaptado do romance homônimo de F. Scott Fitzgerald.

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Serie Dangerous 03

Ele era o motivo de ela estar em perigo. Ele era a razão porque ninguém iria machucá-la.
Sentada confortavelmente no magnífico sofá, a cabeça inclinada para trás, olhos fechados,
ponderava sua situação.
Estava claro para ela desde criança que havia forças ocultas no mundo muito mais poderosas
que ela. Forças que eram indiferentes, na melhor das hipóteses, e às vezes até mesmo hostis a ela.
Não era mais criança e poderia, até certo ponto, se defender, ou, pelo menos, tomar precauções.
Da mesma forma que reconhecia não ser uma pessoa poderosa, capaz de lidar sozinha com o que
estava ocorrendo.
Tudo que sempre desejou era ficar em paz para pintar; não pedia nada mais. E se isso
significasse uma vida um pouco solitária, que assim fosse. Era tudo que pedira.
Mesmo isso, agora, foi levado para longe dela, naquele turbilhão que a jogara nos braços de
Drake. Ela não era poderosa, mas ele certamente era, em todos os sentidos.
Negar isso seria estupidez e combater de nada adiantaria. Estava nas mãos de Drake.
Completa e totalmente. Era uma coisa boa essas mãos serem tão grandes e fortes. E era uma coisa
melhor ainda que ele a estivesse protegendo.
Não havia nada que ela podia fazer sobre a situação.
Reconhecer isso era como uma ligeira rendição, pensou, recostada no confortável sofá.

Capítulo 12

23 de Novembro.

Um enorme e complexo mecanismo estava sendo posto em movimento.


Havia alguma dor. Menos que Drake tinha esperado, mas ainda assim, havia um pouco.
Afinal, ele estava destruindo uma vida inteira de trabalho, tudo que havia construído desde que
era um garoto sem teto nas rua de Odessa.
Drake passou os últimos vinte e cinco anos se tornando mais forte, mais rápido, maior e
mais poderoso que qualquer outro. Ele suou para ter seu império, sangrou por isso e morria por
ele. E agora faria tudo desmoronar, como areia fina escorrendo por um buraco.
Drake deu voltas em sua mente, imaginando se o que estava fazendo era muito drástico,
mas no final reconheceu a verdade absoluta. Poderia continuar sua vida como era ou poderia
manter Grace, mas não ambos.
Durante todo o tempo em que dirigiu seu império, surgiram homens tentando matá-lo. Uma
vez que se espalhasse o fato de que ele tinha uma fraqueza, os dias de Grace estariam contados.
Não seria mesmo uma morte rápida, oh não.
Era o pensamento mais terrível do mundo.

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Há muito tempo atrás, Drake fizera as pazes com o pensamento de sua própria morte
violenta. Parecia o único jeito de ser morto, violentamente. A única questão era quando. Até certo
ponto o pensamento não o incomodava muito, estava acostumado com ele desde a infância.
Mas o pensamento de Grace nas mãos dos mafiosos, usando-a para se vingar dele, o levava
a insanidade. Mal conseguia ficar no mesmo lugar com o pensamento, doía-lhe constantemente,
um choque doloroso no peito, tão ruim como um ferimento a bala. A maior parte de seus inimigos
cresceram em locais onde as mulheres eram tratadas como gado.
As imagens vieram a ele nítidas, com flashes dela sendo fisicamente machucada. Grace –
amarrada numa cadeira enquanto eles tiravam sua unhas fora. Grace – suspensa por seus braços
enquanto eles a cortavam em tiras. Grace – amarrada numa mesa, estuprada por semanas, com
uma faca na garganta.
Até onde sabia, Drake não tinha um só osso neurótico em seu corpo. Era um realista frio, da
cabeça aos pés. Aquilo não era alucinação. Essas imagens em sua cabeça que o aterrorizavam
tanto eram uma realidade possível. Não eram imagens horrorosas de um pesadelo do qual você
acorda, eram imagens deste mundo, do seu mundo, a um tiro de distância.
O divisor de águas entre as imagens de uma Grace quebrada e sangrando e Grace rindo e
saudável, era ele. Sua força e poder. Se ele fizesse isso direito, Grace poderia viver. Se errasse, ela
morreria gritando, implorando por ele.
Entrando na biblioteca em silêncio no final da tarde, Drake parou. Grace estava descansando
no sofá, talvez adormecida. Ela estava trabalhando sem parar nestes últimos dias, produzindo uma
obra notável. De vez em quando tirava uma soneca no sofá.
Entrar e vê-la em seu sofá fez uma dor aguda perfurar seu peito. Por um momento terrível,
sentiu seu peito se abrir. Ela era tão fodidamente linda. Todas as outras mulheres que conhecera e
fodera desapareceram de sua mente como uma nuvem dissipada por um vento forte.
Bastava olhar para ela, ele pensou. Enrolada no sofá, de olhos fechados, cabeça inclinada
para trás. O fogo da lareira amava seu rosto. Lavava sua pele com um brilho perolado rosa,
destacando as maçãs elevadas do rosto, descendo por sua boca luxuriante, exuberantemente
cheia. No decote da blusa, o pescoço delicado, o fogo lambendo suavemente. O cabelo parecia
vivo no fulgor da lareira, uma massa exuberante.
Tudo nela era tão delicado, até mesmo frágil. Essas mãos de artista, estreitas e elegantes
estavam dobradas calmamente no colo.
Uma vez Drake viu um senhor de guerra afegão martelar as mãos de uma mulher porque ela
derramou um pouco de ensopado quente em seu colo. Drake foi incapaz de detê-lo, uma vez que
estavam em uma sala cheia de guardas armados.
Mais tarde, Drake sentiu um prazer especial ao ter a cabeça do sujeito na mira de seu rifle
enquanto puxava o gatilho num tiro certeiro.
Ele sentou ao lado de Grace, cuidadosamente, não querendo perturbar seu sono.
Ela não estava dormindo. Virou a cabeça em direção a ele, então, abriu os olhos, que
brilhavam como fragmentos do mar, na penumbra.
Ele tocou levemente seu rosto.

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Serie Dangerous 03

—Eu te incomodei? Não era minha intenção.


—Não. —Seus lábios ligeiramente curvados. —Eu não estava dormindo. Eu estava –
pensando.
Seu coração deu outro golpe doloroso no peito, só que desta vez não de desejo.
—O que... — sua voz estava um pouco rouca. Em algum momento, ela ia chegar a conclusão
de que ele havia arruinado sua vida.
—O que você estava pensando?
—Sobre a situação—, disse ela, baixinho. —Eu acho que nós vamos ficar aqui por algum
tempo, não vamos? Quer dizer, essa situação não vai se resolver tão cedo, não é?
Nunca, Drake pensou.
—Sinto muito—, disse ele, querendo dizer mais, mas nada saiu. Desculpa era uma palavra
ridícula para o que ela perdeu. Uma palavra vazia, totalmente incapaz de cobrir os prejuízos que
ele causou a essa linda mulher. Ele colocou sua vida em perigo, a privou de sua própria casa, por
sua causa um bom amigo dela tinha morrido.
Desculpa não queria dizer nada, mas era a única palavra que ele tinha.
Ela assentiu com a cabeça gravemente, como se entendesse tudo que a palavra queria
transmitir. Não havia censura em seu olhar, nem irritação ou raiva.
De fato, havia algo ali que o irritou tanto quanto os filhos da puta que os haviam atacado.
Resignação. Isso era o que ele via. Resignação. Tristeza. Aceitação.
Isto o fez sentir raiva. Mais que raiva.
Esta mulher era mágica. Como podia não ter um homem em sua vida, protegendo-a da
merda toda que tinha por aí? Que porra havia de errado com os homens de Manhattan? Bem, ela
tinha um homem em sua vida agora, por Deus. Ele. E ele com certeza a manteria em segurança e
feliz.
Grace levantou a mão, aquela mão de artista muito graciosa, e segurou seu rosto. Seus
dedos estavam exatamente onde antes existira uma longa cicatriz. Se ela sondasse com os dedos,
perceberia a cicatriz sob a pele alterada cirurgicamente. Sua mão deslizou por onde estivera a
cicatriz, enquanto ela o observava, franzindo o cenho.
—O que... — ela começou, mas ele cobriu a boca dela com a sua. Ah, ela tinha um gosto tão
bom. Doce e fresca. Em um momento, ela abriu a boca para ele. Quando ele ergueu a cabeça por
um segundo, ela respirou profundamente.
Ele inclinou ligeiramente a cabeça e ela fez o mesmo. O ajuste foi perfeito. Tão incrivelmente
perfeito. O calor da boca, o jeito como ela se curvava para ele, a forma como seu braço se ajustava
ao redor das costas estreitas, a forma como o cabelo dela caia em uma cascata morna sobre a mão
colocada atrás de sua cabeça, sobre seu braço.
Sem quebrar o beijo, ele levantou-a até que ela estava em seu colo, os braços agarrados ao
redor de seu pescoço.
Drake moveu a boca pelo pescoço, para o lugar sensível atrás da orelha, o que a fez
estremecer.

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Sua mão deslizou sob a camisa, a largura da palma cobrindo a barriga. Cada vez que sua boca
se movia, os músculos do estômago se contraíam.
Ele manteve a mão na barriga dela e moveu a boca para a orelha.
—Você ainda está obedecendo minhas ordens, huuumm?—, ele sussurrou.
Ele adorou a ideia de que ela deixasse todas as roupas íntimas caras nas caixas, de modo que
suas mãos estavam a apenas uma camada de roupa de sua pele.
Era excitante vê-la nas roupas que comprara, parecendo tão elegante e clássica e saber que
estava nua por baixo, porque ele lhe pediu para estar. Mal conseguia manter as mãos longe dela.
Mesmo quando não estavam fazendo amor, era tão delicioso apenas deslizar a mão sob sua blusa
e acariciar rapidamente os seios dela, apenas o tempo suficiente para apertar os mamilos. Saber
que ele poderia facilmente tocá-la naquele lugar secreto entre as pernas, sentindo sua crescente e
instantânea umidade para ele.
Agora, por vezes, bastava um brevíssimo toque. Naturalmente, a desvantagem era que, na
sua presença estava quase sempre semiereto, só de pensar nela nua sob a roupa.
Como agora. Só que não era uma semi-ereção, era a coisa completa, real, dura e dolorida.
Arrepios desabrocharam em seu antebraço quando ele lambeu sua orelha e ela estremeceu.
Graças a Deus o corpo dela estava do lado dele. Não importava o que a cabeça dizia a ela, seu
corpo claramente demonstrava o que queria.
—Nenhuma calcinha?— ele provocou. —Humm?
Seus olhos, semiabertos, pesados, pareciam uma fita verde azulada brilhando na escuridão.
—Sem calcinha—, ela sussurrou.
—Ah. —Sua mão se moveu ao longo da barriga plana e chegou ao seio em forma de concha.
Ele tinha que ser cuidadoso. Suas mãos eram fortes e ele não queria machucá-la de maneira
nenhuma. Neste momento, seria o maior crime do mundo machucá-la. Assim, manteve o toque
mais suave que o ar, apenas um mínimo roçar na pele nua acetinada com o dedo indicador, e ao
redor. Quando a parte de trás de seu dedo pincelou sobre o mamilo, ela saltou. Ele mordiscava
sua orelha, e adorou o suave solavanco. Ela era incrivelmente receptiva.
Seu dedo correu sobre o mamilo novamente, um pouco mais duro.
—Você gosta disso?— ele sussurrou em seu ouvido.
Ele quase podia ouvir seu sorriso.
—Se eu disser que não, você saberá que estou mentindo, não é? Você pode sentir o que
meu corpo está lhe dizendo.
Ah, sim, seu corpo estava gritando. O mamilo sob seu dedo se transformou a partir de um
botão em um pequeno broto duro.
Sua mão se moveu para o seio esquerdo, onde podia sentir as batidas rápidas de seu
coração na ponta dos dedos.
—Sim, seu corpo está falando comigo, Grace. Eu posso ouvi-lo, sentí-lo em minhas mãos. —
Outra raspada gentil do polegar sobre o mamilo, seguido por um leve estremecimento. —Você
gosta disso. Você gosta das minhas mãos em seus seios. —Ele recuou, olhando seu rosto, as mãos
delicadamente sobre os seios.

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Ela ficou vermelha, o sangue subindo por sua pele, aquecendo, expelindo o rico aroma de
seu sabonete e o perfume de mulher.
Maravilha. Era tudo que ele podia fazer para não enfiar o nariz em sua pele e cheirar feito
um cão no cio.
—Eu gosto de tudo que você faz em mim, Drake—, ela respondeu, simplesmente. Sua boca
estava vermelha, os lábios inchados e molhados. Quando ela falou, ele sequer a ouviu num
primeiro momento, seguindo os movimentos dos lábios exuberantes tão de perto, fantasiando
sobre eles se fechando sobre seu pênis.
Ele sentia uma violenta necessidade de esmagá-la contra ele.
Cuidado agora, ele disse a si mesmo e quase riu. O fato de ter que dizer a si mesmo para ter
cuidado era tão estranho, como se estivesse falando com outra pessoa.
Drake sempre foi cuidadoso, sempre. Nunca se deixou levar por nenhuma emoção
incontrolável, nunca perdeu o controle, nunca teve que se preocupar em não machucar ninguém,
a menos quando os queria machucados.
Nunca machucou uma mulher, jamais. Isso não era com ele.
Sempre teve o controle durante o sexo, sempre fez questão que a mulher estivesse molhada
o suficiente para levá-lo, sempre teve a certeza que suas mãos, embora fortes, nunca
machucassem.
Porém, isso nunca foi tão difícil. Aprendeu a controlar suas emoções e seu corpo em tão
tenra idade que nem se lembrava como aprendeu. O controle estava tão profundamente
enraizado nele como seus ossos e sangue. Era uma parte dele até onde conseguia se lembrar.
Agora, este controle simplesmente... desapareceu.
Ele apenas olhava para Grace, talvez a mais linda mulher que já tivera nos braços. Não
apenas bonita – uma artista imensamente talentosa. Tão talentosa que sequer conseguia imaginar
agora sua casa sem um lugar de honra para sua obra. Tão talentosa que, com suas pinturas, era
responsável pela pouca paz que ele tivera no ano passado.
Surpreendente também era que essa mulher com esse dom divino nas mãos também tivesse
um bom coração. Era gentil e amável, instintivamente. Era uma em um milhão. Ele devia tratá-la
como porcelana, como cristal que podia quebrar com um toque. Deveria se colocar de joelhos
como se estivesse diante de um anjo.
Ao invés disso, loucamente, seu sangue de predador veio a tona. Teve que cerrar os dentes
contra um rosnado surgindo na garganta, um rosnado de posse, quase violento, como um grito de
guerra. Suas mãos coçavam para apertá-la, abraçar com tanta força que seus dedos ficariam
gravados em sua pele. Queria rasgar suas roupas, sem sequer se dar ao trabalho de desabotoá-las,
simplesmente enfiar o dedo na gola do suéter e puxar. Colocar as mãos em suas calças e rasgá-las
fora de seu corpo. Seria ridiculamente fácil de fazer. Ele podia matar um homem com um golpe de
mão; rasgar suas roupas não era nada.
Podia imaginar isso, rasgar suas roupas com um grunhido de impaciência, puxando-a para
baixo no tapete em frente ao fogo, abrir completamente as pernas dela e bater duro dentro dela,
estivesse pronta ou não.

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Ele a foderia tão duro como jamais havia fodido alguém, como uma besta irracional, com
toda a força de seu corpo, martelando nela.
Estava tão excitado que não iria parar no primeiro clímax. Iria jorrar fundo dentro dela, feliz
que isso a deixasse molhada, e então continuar fodendo-a, por horas.
Oh Deus, ele podia sentir isso, quase saborear. Ele se chocou com as imagens que surgiram
em sua cabeça. Ele a foderia até que ela ficasse dolorida, então a foderia um pouco mais. Cada
célula de seu corpo gritava para fazer isso, com toda a força de seu corpo, pelo tempo que
aguentasse.
Ele poderia machucá-la.
Se fizesse o que estava tremendo por fazer, porra, iria machucá-la. Machucar Grace.
Não suportava sequer o pensamento de machucá-la.
Ele se controlou com centenas de mulheres que nada significavam para ele. Isso tinha sido
fácil, o controle estava enraizado nele. Esta única mulher, que significava tudo, testava seu
controle.
Drake jogou a cabeça para trás, respirou fundo e engoliu o desejo de volta. Era tão estranha
e inusitada essa sensação, essa luta para ter de volta o controle quando tinha os braços cheios
com essa mulher quente. Ela se mexeu, encostando o quadril direito sobre sua ereção e congelou,
como um cervo na mira do caçador. Seus olhos se encontraram, os dela, muito abertos e
assustados, como se nunca tivesse sentido a ereção de um homem antes.
O registro disso caiu pesadamente no coração e ela estremeceu um pouco em seus braços.
A agitação dela lhe deu forças para que se acalmasse um pouco. Eles fizeram amor várias
vezes durante a noite e essa manhã. Ele tinha que aprender a estar com ela sem cair na luxuria
insana.
Ele se inclinou para trás, relaxado, satisfeito em apenas sentir o calor de sua pele grudada
nela.
Quando percebeu que ele relaxava, ela também relaxou, inclinando-se para descansar
contra ele com um suspiro leve, um dedo à toa acariciando seu queixo, os lábios perto o suficiente
de seu pescoço para beijá-lo, suavemente. Ele relaxou ainda mais e ela também, até que quase
derreteu ao lado dele. Enquanto os minutos passavam, começaram a respirar em uníssono, como
se fossem uma só pessoa, com duas cabeças, quatro braços, mas apenas um coração.
Havia o barulho do fogo na lareira, suas respirações e nada mais.
Drake sentiu sua mente à deriva.
Estava duro como pedra, mas havia algo sobre o momento que parecia exatamente certo
daquele jeito, algo bom e raro.
Ele não conseguia identificar totalmente, até que percebeu que não era algo, era a falta de
algo.
Sua mente estava calma e tranquila, um poço profundo, tão profundo que ele não conseguia
entender a razão.
Extraordinário.

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Drake estava acostumado com o contínuo zumbido dos cálculos em sua mente, desde antes
que pudesse se lembrar. Quando era uma criança sem teto nas ruas, o barulho era uma constante
na busca por comida e abrigo, enquanto evitava os vários homens que, como ratos, infestavam as
ruas de Odessa caçando jovens indefesos. Sua mente era como um farol, constantemente
observando em volta em uma varredura de 360 graus. Aprendeu sozinho a permanecer alerta,
mesmo durante o sono, quando não estava em um ambiente seguro, o que tinha sido sempre, até
que começou a ganhar dinheiro.
Assim ele viveu toda sua vida, constantemente em alerta, calculando as probabilidades,
trabalhando para ter certeza que as coisas estivessem a seu favor.
É verdade que agora sua preocupação não era encontrar comida e abrigo, e essa não era sua
preocupação por bastante tempo. Agora ele tinha um império, construído com as próprias mãos.
Mantinha uma vasta quantidade de informação em sua cabeça o tempo todo, um enorme
conjunto de dados que não se mantinham fixos e tinham que ser constantemente recombinados.
Em seu mundo as coisas se moviam rápido e ele também.
Não havia nada disso agora. Sua cabeça estava cheia de paz, uma calma lagoa dourada, um
silêncio bem vindo que lhe permitia saborear o momento, um momento tão raro quanto
incompreensível. Nenhum zumbido dos negócios, cálculos ou pensamentos. Apenas o silêncio e o
calor. Ele olhou para baixo. Grace o observava calmamente com seus olhos azul-esverdeados, os
lábios levemente erguidos nos cantos. Como se quisesse sorrir, mas incerta sobre seu humor.
Seu humor era ótimo. Sorriu para ela, sentindo os músculos não utilizados movendo-se em
seu rosto, o prazer de vê-la sorrir plenamente de volta.
Nunca tivera isso antes, esse momento lento e calmo, pele a pele, coração a coração. Os
momentos em que ele tinha uma mulher nos braços era quando ele a fodia. Os outros momentos
eram para tirar e colocar a roupa. Ele raramente ficava após o sexo. Por que não? Por que sempre
saía com tanta pressa? Havia algo tão delicioso a esse respeito, calmo e emocionante ao mesmo
tempo.
Não era melhor que sexo, nem pior, apenas, diferente. E bom.
Ela se moveu devagar, direto sobre sua enorme ereção.
—Você, hum, parece estar...
— Sim, eu estou. —Seu sorriso se ampliou. Parecia tão estranho estar sorrindo. —Mas está
tudo bem. Nós vamos fazer amor logo, pode contar com isso.
Ela ficou cor de rosa. Uma cor tão bonita, como uma aurora sobre uma montanha branca.
Ele se inclinou para beijá-la no queixo, em seguida colocou os lábios em sua orelha.
—Quando eu estiver dentro de você, não vou parar por um longo, longo tempo.
O rosa se transformou num vermelho forte agora.
Ele a ajeitou gentilmente, para que pudesse se encostar nele de forma mais confortável. Ela
descansou a cabeça em seu ombro ileso e um braço enrolado no pescoço, tomando cuidado com o
ferimento. Toda vez que ela o tocava ela tomava cuidado, ele observou.
Que sensação estranha, uma mulher cuidando dele.
Drake colocou uma mecha de cabelo bronze atrás da orelha e encostou sua boca nela.

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—Você está com frio, amor? Quer um cobertor?


Ele podia sentir os lábios se curvando para cima, num sorriso.
—Não, você é uma fornalha. E o fogo ainda está queimando alto, por isso não, eu não sinto
frio nenhum. —Ela suspirou. —Drake...quanto tempo isso vai durar?.
Ele não tinha que perguntar o que ‘isto’ era. Os homens atrás dele, o perigo respingando
nela.
O resto de nossas vidas. Isso era quanto ia durar. Mas ela ainda não estava pronta para ouvir
isso.
Ele esticou os braços.
—Você está ansiosa para sair daqui, então? Não está confortável? Existe alguma coisa que
você precisa?
Silêncio. Ele olhou para ela... sem saber o que esperar. Raiva, talvez. Impaciência. Tristeza.
Mas ela só estava pensativa.
—Eu estou bem, Drake. E, graças a sua generosidade, eu tenho tudo que preciso e muito
mais.
Ele acenou levemente, reconhecendo o agradecimento, observando-a com cuidado.
—Mas?
Seus ombros estreitos se levantaram com o suspiro.
—Mas... embora sua casa seja enorme e confortável, não podemos ficar escondidos aqui
para sempre, não é? Quando você acha que poderemos nos aventurar a sair? Apenas para tomar
um pouco de ar fresco.
Ficou tentado a dizer que se o que ela queria era ar fresco, ele a levaria ao telhado. Talvez
amanhã, se ele conseguisse se livrar do helicóptero. Seus pilotos o estavam atormentando sobre a
manutenção. Talvez amanhã fosse um bom dia. Se ele levasse Grace em cima, no telhado, ela
talvez não estivesse pronta para saber que mantinha um helicóptero pronto para evacuação todo
o tempo.
Porém o telhado não seria o suficiente. Ela estava perguntando quando poderia andar
livremente pelas ruas.
A reposta era não. Não pelas ruas de Manhattan, de qualquer maneira. Ela não estava
pronta para esta informação ainda.
—Tão logo eu tenha o controle da situação, eu prometo encontrar uma saída. Você vai
poder passear em algum lugar. Tem minha palavra. —Ela estaria livre para passear, apenas não em
Nova York. E não nos Estados Unidos.
Por enquanto, Drake não colocaria o pé fora do prédio – e mais importante, ela não ia
colocar o pé para fora – até que ele finalizasse seus planos e soubesse para onde e como eles
iriam.
Grace observava seus olhos cuidadosamente.
—E você sempre mantém sua palavra, não é?—Ela perguntou. —Isso é importante para
você, ser um homem de palavra.
Ela podia lê-lo tão bem. Era assustador.

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Era verdade, ele era um homem de palavra. Mesmo no negócio em que se encontrava, sua
palavra era sua obrigação. Por um considerável tempo de sua vida, a única coisa que teve foi sua
dignidade pessoal. Sua palavra. Ele morreria antes de deixar isso de lado.
—Sim, eu mantenho minhas promessas. Então você vai ver o dia outra vez. E quando você
fizer isso, onde quer ir? O que quer fazer?.
—Dar um passeio no Central Park— ela disse prontamente. —Ir até o mercado central, ver
algumas galerias novas.
Porra, o quão amarrada ela era a Manhattan? Ela ia sofrer se nunca visse isso de novo? O
pensamento estava ali, pesando em seu peito.
—E fora de Nova York? O que você quer ver fora da cidade?
Ela levantou os olhos para ele.
—O mundo— disse simplesmente. —Eu sempre quis viajar. Eu te contei, meu sonho é
conhecer Roma. Paris, Londres. E o Oriente. Eu adoro ler guias de viagem e fico me imaginando
em um templo tibetano ou hindu. Eu nunca tive dinheiro antes.
—Eu odeio dizer isso, mas estou feliz que você não viajou no ano passado. —Ele acenou a
cabeça para a exuberância de suas pinturas em seu estúdio, brilhando nas paredes da biblioteca.
Assim como ela brilhava em seus braços. Correu as costas dos dedos pelo seu rosto, devagar, só
curtindo a sensação dela. —Eu sou mais rico por causa disso.
Ela se moveu de encontro a sua mão.
—Eu odeio contradizê-lo, mas eu sou mais rica por causa disso. Você me pagou um valor
quase obsceno por tudo. Eu produzi mais no ano passado, graças a você, do que nos últimos dez
anos.
—Valeu a pena— ele disse.
—Você sabe que poderia ter minhas pinturas pela metade do que pagou?
—Valeu a pena— ele repetiu.
Ela se virou em seus braços, sorrindo, então enfiou o rosto contra seu pescoço, os seios
esfregando contra seu peito.
Seu pênis pulsou esperançoso. Talvez agora...
—Estou feliz por você— – ela começou, então abriu mais os olhos, fixos em algo sobre seu
ombro. —Oh! Apenas olhe isso!
Drake ficou rígido, pronto para empurrá-la para o chão e girar para enfrentar o novo perigo,
quando viu seu rosto. Relaxado. Sorrindo.
Fosse o que fosse que estava vendo, não era um perigo para eles. Ele seguiu seu olhar,
virando a cabeça.
Neve.
A noite caiu enquanto ele a segurava nos braços. Ele não tinha pensado em fechar as
cortinas e toda a parede mostrava a noite de Manhattan no horizonte, suavizada pela queda da
neve.
Ele adicionou o fator neve na equação sobre como realizar o trabalho que tinha nos
próximos dias. A neve fazia tudo mais lento. As pessoas chegavam tarde ao trabalho, algumas nem

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chegavam. Seu mestre falsário, Yannick Zigo, estava agendado para entregar um novo passaporte
amanhã, juntamente com os outros documentos. Ele vinha do norte de Nova York. Se houvesse
uma grande tempestade de neve, ele não se aventuraria a sair.
Ele sempre reclamava que seus ossos eram muito frágeis para o mau tempo.
Grace se desembaraçou de Drake e caminhou para as janelas, mantendo-se bem afastada do
vidro. Drake acompanhava cada passo do caminho, admirando a visão de suas costas, a elegante
figura na penumbra, o glorioso cabelo multicolorido caindo em mechas sobre os ombros e
balançando suavemente a cada passo. Ela acabou de sair de seus braços e ele já sentia falta da
pele macia, o recuo profundo da cintura, de ter os seios onde pudesse tocá-la deixando-a macia e
molhada, só para ele.
Ele se levantou e a seguiu, como um pedaço de ferro para um imã.
Ela parou a meio caminho da janela, olhando, um meio sorriso no rosto.
Drake pôs o braço em volta de sua cintura.
—Você pode ir até a janela, sabe. O exterior é revestido com uma estrutura sólida e
reflexiva. —Para não mencionar a espessura do policarbonato. —Não há absolutamente nenhuma
chance de alguém vê-la. Nenhuma.
—Ninguém pode me ver?— Sua cabeça virou tão rapidamente para ele que seu cabelo
bateu em seu peito. Ela piscou. —Você tem certeza?
—Venha comigo. —Ele passou uma mecha do cabelo brilhante atrás da orelha e caminhou
para frente, o braço em volta da cintura dela. Depois de hesitar um segundo, ela o acompanhou.
Ele caminhou com ela até a janela, a poucos centímetros do vidro. As luzes por trás deles
estavam baixas, a luz de fora, brilhante. Eles tinham toda Manhattan diante deles.
Drake se colocou logo atrás dela, a mão esquerda segurando seu seio, o outro braço para
baixo, encaixando seu corpo no dele. Ele a sentiu tremer quando seus dedos tocaram suavemente
seu monte, então ela se apoiou nele.
—Olhe do outro lado da rua. O que você vê?
—Uma – uma construção— ela disse, hesitante. Ele podia sentir a pulsação dela contra sua
mão, despertando com seu toque. —Alguns andares mais alto do que este.
—Uh-huh. Agora, olhe atentamente para as janelas do edifício. Elas são reflexivas também.
Ela abrigou a parte de trás da cabeça em seu ombro.
—Eu não vejo o que você... — E então ela viu.
Todo o edifício do outro lado da rua tinha janelas levemente reflexivas. O prédio de Drake
não, exceto o piso superior.
Assim, ele podia ver uma série de escritórios ainda abertos do outro lado da rua por sua
janela fechada, as pessoas se deslocando, uma equipe de limpeza em um, uma reunião em outro,
vinte pessoas ao redor de uma mesa oval. O tráfego normal de um movimentado edifício
comercial.
Exceto no andar de cima, o seu. Nada que estivesse dentro era visível. O piso superior era
como um longo espelho. Você não podia ver nem se as luzes estavam ligadas ou não.
—Vê?— ele disse, baixinho no ouvido dela. —Você está completamente invisível.

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Eles estavam tão perto da janela que ia do chão ao teto que ele podia sentir o frio vindo dali.
—Você está com frio?— Ele perguntou.
Ela sacudiu os cabelos macios, ondas quentes balançando em seu peito.
—Não, como eu posso ter frio com você nas minhas costas? Você é como uma fornalha. E é
tipo... excitante olhar sobre a cidade através de uma janela como esta e saber que ninguém pode
me ver.
—Só eu— grunhiu em seu ouvido.
Era verdade. Eles estavam levemente refletidos conta a janela, ligeiros fantasmas de si
mesmos. Ela era como uma linha fina contra sua amplitude, a pele pálida brilhante contra seus
tons mais escuros.
Ela sorriu para a janela, os olhos nos dele.
—Só você,—concordou calorosamente. Então seu olhar foi deslocado para fora, no cenário.
A neve ainda era relativamente leve, apenas pequenos flocos de gelo tão leves que o vento
os soprava, por vezes. De vez em quando a neve caia em nuvens macias. Drake não tinha ideia de
qual era a previsão do tempo, o que era apenas mais um sinal de como estava fora de sintonia
com sua vida no momento. Ele sempre acompanhava a previsão do tempo. Era parte dele saber
como estaria o tempo, como estava se comportando a Dow Jones, ser um dos primeiros a saber
sobre qualquer mudança na situação geopolítica, saber onde estavam seus homens em todos os
momentos. Ser tomado de surpresa pela neve era algo inédito para ele.
Muito de sua vida dependia se iria chover ou nevar.
Os olhos de Grace monitoravam os desvios da luz.
—Tão bonito. — Ela murmurou.
—Hummm. —Ele enterrou o rosto em seu cabelo, o nariz junto à pele macia atrás da orelha.
Por que olhar para fora quando podia vê-la no vidro escuro? Era só neve, pelo amor de Deus. Ele
uma vez quase morreu ao se expor em uma tempestade de neve quando ainda vivia nas ruas.
Neve era fria e úmida.
Era melhor estar quente e seco.
Ela sacudiu seu braço um pouco.
—Olhe, Drake. Olhe lá fora. —Relutantemente, ele afastou os olhos do espelho da janela
que a refletia para se concentrar na cena externa.
Ela estendeu a mão, como se pudesse abranger a cena toda.
—Eu quero pintar isso, exatamente como está. Tudo escuro e prateado da noite, os edifícios
reluzindo misteriosamente na escuridão. Olhe para baixo Drake. Vê o nevoeiro subindo? Faz os
prédios parecerem ilhas no céu, não é? Vou pintar esse contraste entre o nevoeiro subindo e a
neve caindo com uma paleta monocromática. Você vai amar o quadro, eu prometo.
Drake congelou.
Por um segundo, alguma coisa terrível aconteceu. Todo o tempo durante o ano passado,
simplesmente admirando suas pinturas tinha causado uma mudança em sua percepção. Por um
segundo ele viu a cena através dos olhos dela. Não apenas neve, que odiava e considerava um

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incômodo, na melhor das hipóteses, um risco a vida, às vezes. Ele trazia de seu passado o ódio
pela neve, mas agora a paisagem ia mais além.
Era mágica, essa paisagem, vista através dos olhos dela. A rica fantasia das trevas prateadas.
Seus olhos estavam acompanhando a neve e ele seguiu o olhar refletido no vidro escuro. Ela
estava pintando, em sua mente, o que estava vendo, e, em algum momento no futuro - talvez
amanhã ou no próximo mês – uma obra-prima nasceria de suas mãos inteligentes e ele a
admiraria para sempre. Só que desta vez, ele iria olhar para a pintura e lembrar o exato instante
em que ela teve a inspiração.
Em razão de alguma misteriosa alquimia, ela o estava mudando. Abrindo seu coração para a
beleza do mundo. Era assustador e ele não estava completamente seguro que gostava disso, mas
lá estava.
Ele estava olhando para as formas preto e prata, o misterioso nevoeiro, a neve caindo e os
viu fascinantes, em vez de calcular qual seria o impacto do mau tempo em sua atividade.
O mundo era muito mais belo e misterioso do que ele conhecia.
Pelos últimos quinze anos, ele vivia trancado em suas casas, viajando apenas para onde
fosse possível conceber um plano de segurança, do carro para o avião, direto para o hotel e de
volta. Sua vida era trabalhar e dormir, pouca coisa entre ambos; ele vivia uma vida estéril e
controlada. Seu mundo diminuíra para o tamanho das paredes, fosse de um quarto de hotel ou de
um carro ou de um avião, não fazia muita diferença. O mundo exterior tornou-se uma abstração,
uma mera construção para incluir em seus cálculos.
Encontrou seus olhos de novo no vidro, um pequeno sorriso em seus lábios, como se ela
entendesse o que acabara de proporcionar a ele.
Ela fodidamente mudou tudo nele, isso é o que ela tinha feito.
Esta mulher alcançou dentro dele, com sua arte, sua beleza e bondade e o virou do avesso.
Não gostava muito disso, mas não podia negar. Ele estava mudando, sentindo o chão sob seus pés
mudar em uma dança assustadora e emocionante.
Suas mãos se moveram rápido e em um momento ela estava nua.
—Incline-se para frente—, disse ele, a voz gutural de repente. —Encoste-se contra a janela.
Assustada, Grace olhava para ele através do espelho da janela, mas se inclinou como ele
pediu. Ele a sentiu se estreitar contra a janela enquanto colocava ambas as mãos sobre o vidro.
Enfiou um pé entre os dela e forçou-a a abrir as pernas, encaixando-se mais firmemente contra
ela.
Esteve duro todo o tempo, mas agora ela podia sentir seu pau inchado em seu traseiro e ele
a puxando mais fortemente contra si. Ele não podia esperar nem mais um segundo. Ela estava em
sua cabeça. Ele tinha que estar dentro dela.
Ele olhava atentamente para a janela. Ela estava pressionada contra a janela. Seus seios
estariam frios, mas ele a mantinha aquecida por trás. E seu pau iria esquentá-la.
Desabotoou as calças, pegou um preservativo no bolso lateral, em seguida, chutou a calça
fora quando caiu no chão. Tirou sua roupa, os olhos nunca deixando os dela no espelho da janela.
—Abra mais as pernas, Grace—, ele sussurrou.

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Ela obedeceu imediatamente, aumentando ainda mais sua excitação, fazendo o sangue
quente e grosso em suas veias.
Isso ia ser duro.
Oh, Deus. Isso ia ser muito rude.
Grace observava o rosto de seu amante na janela escura, a imagem meio fantasmagórica do
espelho, como se fosse irreal. No entanto, Drake não tinha nada de irreal. Ele era puro músculo e
poder masculino, pisando nesta terra mais duramente que a maioria.
Podia senti-lo quente e pesado em suas costas, as mãos segurando-a firmemente. Ele abriu
as pernas dela com as suas e se encravou contra ela.
Cada vez que faziam amor havia este momento assustador quando percebia o quão grande
ele era, longo, grosso e duro como aço. No começo ele foi cuidadoso com ela, entrando
lentamente, pouco a pouco.
Ultimamente, porém, ele tinha deixado a excitação levar a melhor entendendo que sua
excitação crescia cada vez que faziam amor.
Seu controle era fino como papel agora. Grace sabia que este momento estava chegando,
mas agora que acontecia, o medo temperava sua excitação. Até agora, embora a tivesse levado ao
orgasmo várias vezes, Drake sempre tinha controle absoluto de si mesmo.
Agora, o reflexo na janela mostrava um homem lutando para se controlar. Os músculos de
seu pescoço forte se destacavam, a mandíbula apertada com a tensão, os músculos duros ao
longo do queixo.
Seu poder a atingiu novamente. Embora não estivesse em cima dela, seus ombros eram
quase duas vezes a largura dela. Olhando para sua mão em concha, ela viu o tenso, grosso e
musculoso antebraço esfregando eroticamente descontrolado contra sua barriga. Ele deslizou a
mão ainda mais, os dedos acariciando os lábios de sua boceta, a mão balançando para cima e para
baixo num pedido silencioso por melhor acesso.
Claro que sim. Ela nem pensou duas vezes, apenas ampliou ainda mais as pernas. Fosse o
que fosse que Drake quisesse, ela lhe daria.
Ele se empurrou nela, grande, grosso e quente. Ela se retesou levemente porque essa
primeira tomada sempre era um pouco dolorosa, não importa o quanto estivesse excitada.
Ele observava, com cuidado, seu rosto no vidro escuro. Deve ter percebido o ligeiro
estremecimento. Não se moveu para frente como ela esperava que fizesse. Ele simplesmente
esperou, a ponta do pênis na borda de sua boceta, a respiração tão forte contra ela que podia ver
seu cabelo balançar com o sopro na janela escura.
Sua mandíbula estava travada.
—Ainda não,— ele murmurou, observando seus olhos. —Aperte-se contra a janela.
Grace mal podia entender seus tons guturais.
—O quê?
—Aperte-se contra a janela. Agora.
Sua voz era baixa, o absoluto comando do sexo masculino. Ela obedeceu instintivamente.

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Ela nitidamente estremeceu toda quando a frente quente de seu corpo encontrou o frio da
janela, as mãos espalmadas, seios, quadris e pernas contra a janela gelada. Ele postado atrás dela
parecendo um forno quente, um enorme homem peludo. Os dois extremos da temperatura de
algum modo a excitou mais ainda, os mamilos duros com o frio.
Surpreendentemente, ele se abaixou e a abriu com os dedos, empurrando os quadris para
frente. Seus dedos expuseram o clitóris dela, que foi pressionado contra o frio congelante da
janela. Ela registrou o frio exatamente no mesmo instante em que ele entrou nela, seu pênis uma
coluna enorme, a aquecendo de dentro para fora. Seu corpo inteiro tremeu.
Ela gritou quando ele começou a se mover, quente e duro dentro dela, pressionando-a
contra a janela congelante, um forno de fúria atrás e dentro dela. Seus movimentos eram duros,
quase dolorosos, no limite do que era doloroso mas... não.
Ela levantou os olhos para olhar seu reflexo, o rosto sombrio e duro enquanto entrava e saía
dela, empurrando rápido e duro. Seus olhos se encontraram e ela ficou chocada com sua própria
expressão, olhos desfocados, boca aberta, respirando duramente, arqueando-se de encontro a
ele. A própria imagem de uma mulher no êxtase sexual, reduzida à sua natureza animal.
Um som de lamentos enchia a sala e ela levou alguns segundos para reconhecê-los como sua
própria voz. Era diferente de qualquer som que já se ouviu fazer, um grito animal. Nem estava
mais sentindo o frio da janela, seu corpo inteiro inundado de calor, ela estava queimando viva.
Com um impulso que a levantou, deixando-a apenas na ponta dos dedos dos pés, Drake
grunhiu e começou a jorrar dentro dela, o inchaço do pênis aumentou, seus impulsos ficaram
irregulares e mais rápidos, o esperma fervendo dentro dela. Parecia que ele queria empurrá-la
contra a janela. Ela olhou para as lojas abaixo, as pessoas e carros, a movimentada rua de uma
grande metrópole.
Grace gozou com um grito, cada fio de cabelo em seu corpo estava de pé, tremendo de
prazer. De repente seus sentidos foram expandidos. Quando olhou para baixo era como se a
janela tivesse deixado de existir e ela tornou-se um com o povo que podia ver correndo pelas ruas,
uma com a neve caindo do céu, uma com a energia da cidade, tudo pulsando na ponta de seus
dedos.
Já não era Grace Larsen, sozinha, excluída e de algum modo, sempre distante. Em um pulso
elétrico, tornou-se uma com tudo a sua volta, enquanto seu corpo se convulsionava e estremecia.

Setenta e cinco metros acima de uma rua de Manhattan e ligeiramente para o norte,
fornecendo-lhe um alvo inclinado. Rutskoi via as duas figuras através da mira telescópica com
leitura térmica.
Drake e a mulher. Só podiam ser eles. Um delgado, o outro não muito mais alto, mas muito
mais amplo.
Nus.
Fodendo.

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Ele via os corpos arderem em vermelho e azul se contorcendo no pequeno circulo da mira,
completamente imóvel.
Rutskoi gostava de sexo tanto quanto o homem do outro lado, talvez mais. Ele tinha
estourado seu primeiro salário como tenente com as prostitutas em Grozny, celebrando estar vivo
durante um mês inteiro bêbado e com seu pau enfiado em uma prostituta por vez, durante vários
dias. Mas no trabalho, tudo desaparecia. Ele não sentia nada no trabalho – nem desejo, nem
fome, nem sede, nem cansaço. Tudo o que sentia era a calma profunda do franco atirador, uma
unidade com o solo, o rifle e a mira.
A mulher agora estava achatada contra a janela, sob o peso de Drake e o dedo de Rutskoi
apertou suavemente.
Cristo, ela estava em sua mira. Bem ali, na mira.
Se ele puxasse o gatilho, seu projétil calibre 50 iria viajar a 2.500 quilômetros por hora em
direção ao vermelho, verde e amarelo com contornos brilhantes que ele via através da imagem
térmica.
Mas ele não tinha como saber qual era a espessura das janelas de Drake e, deste ângulo de
inflexão, não tinha nenhuma garantia que a bala iria penetrar ou, se penetrasse, se atravessaria a
mulher e atingiria Drake, atrás dela.
Assim, ele assistiu o contorcer-se das duas figuras de fogo e disse a si mesmo para conter o
fogo, viu as mãos da mulher estendidas no vidro como chamas de cinco dedos com Drake fodendo
ela por trás.
Eles estariam na mira e em um ângulo reto em breve.
Ele podia esperar.
Por 10 milhões de dólares, esperaria o tempo que fosse.

24 de Novembro,
Início da Manhã

Sangue. Sangue e a escuridão sombria da violência. O sangue estava por toda parte. Ele
alcançava até seus tornozelos, vermelho escuro, brilhando na escuridão. Tão denso que se
agarrava a seus pés.
Seu coração batia rápido, como um animal enjaulado. O perigo estava perto, ela podia
sentir, quase podia sentir o cheiro. À distância brilhava uma luz fraca. Não a luz branca da
esperança, mas apenas uma suave elevação vinda da escuridão na penumbra. Ela mal conseguia
enxergar. A escuridão era opressiva, estreita e úmida.
Sua pele estava arrepiada em um alerta animal. Algo estava lá. Algo vivo, algo feroz. Havia
crueldade aqui, uma crueldade imensa e um amor pela morte. A morte era como uma nuvem
densa no ar.

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Ela olhou por onde andava. Sob o lago de sangue, seus pés esbarravam em obstáculos,
formas estranhas. Era difícil manter o equilíbrio, embora sentisse que tinha que se mover
rapidamente. A ameaça estava perto, se avizinhava. Seus músculos gritavam para que corresse,
mas ela não podia, era como caminhar descalça sobre pedras. Tropeçou e quase caiu. A seus pés
algo subiu para a superfície, balançando. Quando ele subiu, pequenos pontos pálidos apareceram,
como uma montanha se elevando a partir da lama. Uma ponta branca e, em seguida, superfícies
lisas que se transformaram no nariz, lábios, bochecha, olhos. Cabelo preto com sangue fluindo da
testa pálida e suave.
A cabeça decepada de uma mulher, balançando no sangue vermelho.
Ela tentou gritar, mas não havia ar em seus pulmões, não havia ar neste lugar sem ar e sem
alma.
Ele estava chegando. Ela não sabia quem ele era, mas sabia o que ele era. Ele era a
crueldade, era a morte, com um grande buraco escancarado onde seu coração deveria estar. E
estava vindo para ela. O sangue sob seus pés agitados começou a se mover como um rio lento. O
que quer que estivesse vindo era grande, grande o suficiente para varrer tudo atrás de si.
Não havia lugar para se esconder. O lago de sangue se estendia até o infinito. Agora ela
podia ver pedaços quebrados de corpos, subindo à superfície. Uma mão estendida, como se
estivesse pedindo ajuda para um corpo que não estava mais ali. Um pé, ainda usando um sapato.
Outra cabeça, pulando como um baião, em seguida, desaparecendo.
Ela estava caminhando através do rio da morte.
O sangue corria rápido agora. A noite caiu de repente, como se alguma coisa atrás dela
estivesse cobrindo a fraca luz no horizonte. O que quer que se aproximava dela era enorme.
Tentou se apressar, mas começou a tropeçar em partes de pessoas, como as miudezas do
matadouro. Quanto mais rápido tentava se movimentar, ao que parecia, mais densas as partes se
tornavam, até que surgiu um quebra-cabeça de peças humanas interligadas bloqueando seu
caminho.
Deu uma olhada para trás, a respiração acelerada. Havia algo lá, formas escuras e enormes
no horizonte, vestindo um casaco comprido. Avançando em passos gigantes, imperturbável pelos
corpos.
Podia ouvir o crepitar fraco que ficava mais alto. A quebra dos ossos humanos quando o
monstro pisava descuidadamente neles. Virou a cabeça para frente, às cegas procurando um
esconderijo, e tropeçou. Sua mão foi à frente para amparar a queda e ela empurrou uma cabeça
para baixo da superfície. Levantando a mão, balançava a cabeça de volta. A cabeça de uma
criança, pelas características pequenas.
Oh Deus, oh Deus, tão perto...
Um vento frio correu por suas costas. O que vinha para ela era frio, sem calor humano. Algo
acontecia com suas costas. Uma mão enorme. Ele quase a pegou.
Mais rápido! Mais rápido! Soluçando, ela se inclinou para empurrar os cadáveres longe, de
forma que pudesse correr mais rápido. Um vento frio veio e se foi, a respiração do monstro.

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Estava cansada e ele era incansável. Ele nunca vacilou, nunca renunciou. Isto não estava em
sua natureza.
Ela tropeçou, então tropeçou novamente. Oh Deus, ele estava quase em cima dela!
Uma cabeça veio à tona bem atrás dela. Levou um exaustivo e aterrorizante segundo para
perceber que a cabeça subia verticalmente, acima, acima, acima. Largos ombros nus emergiram,
gotejando vermelho. Um homem, um homem extremamente forte. Ele ergueu as mãos, ondulando
os músculos com força e tensão. Enormes mãos seguravam uma espada, brilhando a luz desigual.
Ele levantou a espada na altura do ombro, pronto para o golpe.
Ele estava em pé agora, um homem com um poder imenso no sangue, a espada em riste.
Levantou uma mão e acenou para ela, os dedos se enroscaram numa mensagem universal.
Venha para mim.
Ele estava consciente dela, mas não estava olhando para ela. Olhava além dela, para o
perigo agarrado a seus calcanhares.
Segurança. Ele era segurança e proteção. Cada linha de seu corpo forte era uma parede e ela
podia se esconder atrás dele se conseguisse alcançá-lo. Mas era tão difícil se mover, então ela
tropeçou e caiu no sangue, tropeçando sobre ossos de homens, mulheres e crianças, aterrorizada
com o frio gelado em suas costas.
Gritou alto quando algo cortou suas costas em uma linha de fogo de dor. A criatura tinha
garras, totalmente para fora, e a cortou novamente nas costas. Ela estava sangrando, misturando
seu sangue com o sangue dos incontáveis mortos dali.
A dor era insuportável. A criatura tinha cortado através do músculo, para baixo, no osso. Ela
escorregou e caiu sobre um joelho. As garras da criatura batiam na cabeça dela.
O homem com a espada veio caminhando para frente, os olhos ainda fixos no monstro atrás
dela, a face dura, decidida. Ele também havia sido capturado pelo monstro, há algum tempo.
Uma cicatriz longa e branca corria do lado de seu rosto, brilhando na escuridão crescente.
Cordas envolviam seu tronco, apertando tão forte que ela mal podia respirar. Ela foi
levantada da terra, o sangue escorrendo pelo corpo.
Não eram cordas de couro, eram dedos, apertando com tanta força que sentiu uma costela
trincar. Ela olhou para cima, dentro dos olhos vermelhos de sangue, uma boca cruel com dentes
afiados. A boca estava sorrindo.
Ele tinha conseguido pegá-la. Estava acabado. Era assim que sua vida ia acabar, em pedaços
no fundo de um lago de sangue, morrendo de frio e sozinha.
Ela se virou para um último olhar ao homem que ela via. O homem com a espada estava
correndo, cortando as pernas do monstro.
O monstro riu. Ela lutou desesperadamente com suas garras cruéis, tentando se livrar dele.
—Grace!— O homem gritou. —Grace!
Ela tentou falar com ele, mas não havia ar dentro dela, o mundo foi sumindo...
—Grace!
Ela não conseguia respirar...
—Grace, acorde!

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Ela despertou com um tremendo suspiro, tremores e ansiedade, o coração batendo


loucamente, sem ar, como se tivesse ficado sob a água muito tempo sem respirar.
Dois braços fortes estavam a seu redor, segurando. Oh Deus! Ele ia matá-la! Ela lutou,
torcendo o corpo loucamente, mas não havia nada que pudesse fazer contra esse tipo de força.
Ela ia morrer...
—Grace, Grace, amor, olhe para mim.
Essa voz profunda. Não era cruel, não era insana. Uma voz que ela conhecia...
Seus olhos se abriram e ela se acalmou, ofegante ainda, encontrando os olhos castanhos.
Um roçar de lábios macios passou por sua testa.
—Está tudo bem. Você está segura. Você teve um pesadelo.
Apenas uma palavra penetrou em sua cabeça. Segura. Ela estava segura. Não se afogando
em sangue, nenhum monstro horrível apertando-a com as garras. Nenhum corpo morto.
Ela piscou, as lágrimas saltando dos olhos.
Exceto, é claro, que havia um corpo morto. O corpo de Harold. Tudo voltou, como um dique
rompido de uma represa. Os quatro homens armados atrás de Drake, usando-a como isca. A
cabeça de Harold voando de seus ombros, o resto de seu corpo caindo livremente no chão como
um saco vazio, toda a bondade e humor dele, desaparecendo como uma luz sendo apagada.
O monstro em seus sonhos não era real, mas os monstros soltos no mundo eram, alguma
coisa que ela inconscientemente reconheceu.
Um desses monstros matara seu amigo, um homem conhecido, mesmo no mundo da arte –
um negócio implacável – por sua gentileza e generosidade. Um homem que verdadeiramente
amava a arte, que nunca tinha feito mal a ninguém, tinha sido varrido da face da terra por um dos
monstros que a habitavam.
Ela tinha sido forte e engolido sua tristeza, empurrando-a para um canto escuro, mas agora
tudo voltou correndo. O pesadelo tinha-lhe roubado a capacidade de resistência habitual,
minando suas forças. O luto brotou, feroz e incontrolável.
Virou a cabeça no ombro de Drake, inalando o cheiro dele, sentindo sua força a seu redor
como uma camada de armadura, agarrando-se desesperadamente a isso. Estremeceu com a
tristeza e a dor pela perda de Harold. Seu horror com a violência na galeria. A perda de sua própria
vida, interrompida abruptamente, a perda de sua casa. Tudo aflorou de uma vez e tentou respirar
devagar, o coração batendo forte, tremendo.
—Deixe sair, Duschka—, uma voz profunda disse em seu ouvido. —Estou aqui para te
segurar.
Era tudo que precisava. Com um gemido selvagem, ela enterrou a cabeça contra o pescoço
dele e deixou a dor sair. Chorava sua dor, sua raiva e desespero. Chorou por Harold, pela violência
que ainda a perseguia, pela perda de sua liberdade. Enquanto se agarrava a ele, chorou de imensa
tristeza por sua mãe, abandonada por seu pai e por sua própria incapacidade de encontrar um
lugar no mundo que parecesse certo para ela. Chorou as mágoas passadas, presentes e futuras.
Chorou até não ter mais lágrimas, até ficar sem respiração, até que sua garganta doesse de
tristeza. E então chorou mais um pouco. Grace não tinha ideia que tinha tantas lágrimas dentro de

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Serie Dangerous 03

si, e foi só quando não havia mais a chorar que cedeu contra o ombro de Drake, olhos fechados,
atordoada com a força da tempestade que passou por ela.
Ele abraçava toda ela, sem mover um músculo, exceto pelo ritmo lento de seu coração,
dando ao animal dentro dela o conforto de seu corpo. Estava enrolada contra ele e passou a ouvir
os batimentos cardíacos, fortes e firmes, sua respiração, mesmo o suave sopro no cabelo no alto
de sua cabeça. Uma grande mão cobriu a parte de trás de sua cabeça e um braço firme em volta
de sua cintura, segurando-a apenas com força suficiente para dar conforto, sem fazê-la se sentir
presa.
Seus olhos estavam inchados, a garganta doía. Ela se deitou pesadamente contra ele, como
se sua pele pudesse se desfazer contra ele.
—Sinto muito,—ela sussurrou, com a voz anasalada.
Suas mãos apertaram brevemente.
—Não se desculpe, duschka. —Ela não tinha ideia do que significava duschka, mas o tom era
inequivocamente de carinho. —Você pode chorar o quanto quiser. Este é um mundo feito para
chorar. Você perdeu seu amigo.
Ela esfregou a testa em seu ombro. Era como se esfregar contra uma rocha quente.
—Sim— disse simplesmente. —Eu perdi Harold. Sinto muita falta dele.
—Eu sei disso. —Ele balançou a cabeça. —E você perdeu as pinturas em sua casa. Suas belas
pinturas na galeria. Elas já não existem mais.
Era o que tinha suspeitado.
—Sim.
—E você perdeu mais que seu amigo e suas pinturas. Não é à toa que você chora.
Ambos ficaram em silêncio, porque a última coisa que ela perdeu era sua vida, a vida que
conheceu.
Grace foi abraçada tão forte por Drake, se sentia tão cercada por ele, por seu físico superior
no aqui e agora, que sua antiga vida parecia distante dali.
Todo seu sistema se acalmou, a crise de choro tal qual uma violenta tempestade tropical, foi
embora, deixando para trás o silêncio e a calma. Sua respiração desacelerou, aquietou. Durante o
olho do furacão ela sentiu uma bola quente de dor e tristeza em seu peito, mas agora as
sensações se estabilizaram.
O calor de seu corpo, como um quente aquecedor sob as cobertas, a sensação de estar
totalmente rodeada pela força, a lenta batida de seu coração contra o peito. Ela se moveu um
pouco e seu quadril subiu contra sua enorme ereção, dura e quente, como sempre.
Uma corrente elétrica percorreu seu corpo ao sentir como ele subiu sobre ela com o mais
leve movimento. Acabara de chorar toda dor de seu coração, e ainda assim, seu corpo já se
preparava para o dele, suavizando, a deixando mais úmida...
Levantou a cabeça para olhar para ele. A face de Drake estava tão solene, os traços fortes,
enquanto ele a olhava. Como sempre, não fez nenhum esforço para encantá-la. Ele nunca usava
palavras para seduzi-la. Era um homem de ação e mostrava a ela o que sentia através de ações,
não palavras.

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Cada característica era fascinante. Os olhos escuros, com cílios longos, que pareciam ver
tudo. A boca cheia, sensual. As maçãs altas do rosto e o queixo com a barba áspera. Como estas
características tinham se tornado tão queridas, tão... familiares?
Grace levantou a cabeça, piscando... Como podia...? Parou de respirar por um momento,
emocionada.
—Oh, meu Deus—, sussurrou, colocando a mão em seu rosto. Como não notou isso? Por
que não o reconhecera? Ela arregalou os olhos.
Ele roçou os lábios em seu ombro. —O que é, duschka?—, ele murmurou.
—É, é você—, Grace correu o dedo sobre seu rosto, traçando as asas negras de suas
sobrancelhas, as leves linhas de expressão no canto dos olhos, desceu para o nariz reto. Por que
não viu antes? —Você é o homem dos meus sonhos—, sussurrou ela, depois parou, o calor
correndo para seu rosto. —Quer dizer, eu sonho com você, Drake. Eu estive sonhando com você
por mais de um ano. São mais pesadelos que sonhos, na realidade. Perigo e violência, sempre. E
sempre a segurança fornecida por um homem. Eu tentei pintar seu rosto, mas nunca consegui
mais que uma rápida olhadela, então eu não me lembrava exatamente do rosto ao acordar do
pesadelo. Mas... ele é você, Drake. De alguma forma, ele é você. —Correu os dedos pelo lado
esquerdo do rosto dele. —Exceto... nos meus sonhos, o homem que me salva sempre tem uma
grande cicatriz branca aqui. Como você bem deve saber, já que comprou cinco destes retratos. —
Ela fez uma careta. —Eu não os vi pendurados em seu estúdio, porém.
—Não—, Drake balançou lentamente a cabeça. —Eles são muito... pessoais. Estão em um
cofre, onde só eu posso vê-los. Porque eu me reconheci imediatamente neles.
Grace sacudiu a cabeça, espantada.
—Como você pode? Como pode se reconhecer quando eu não o fiz? Só agora eu percebi
que estava pintando e desenhando uma série de variações sobre você. Cada retrato era diferente,
porque eu nunca vi as imagens de forma clara. As únicas coisas que tinham em comum eram os
cabelos e olhos escuros, um olhar forte. Mas cada retrato era diferente.
Ele pegou sua mão e a colocou contra a bochecha esquerda.
—Como eu poderia não me reconhecer? Cada retrato é o mesmo homem— protestou. —
Cada homem na pintura tinha uma longa cicatriz branca no lado esquerdo do rosto.
Ele pressionou o dedo indicador dela contra a carne de sua bochecha esquerda.
—Sinta, duschka. Sinta o que está por debaixo da pele. —No primeiro momento Grace não
entendia sobre o que ele falava, mas então, pôde sentir uma linha por debaixo da pele, a cicatriz
do salvador de seus sonhos. —Eu tive o melhor cirurgião plástico do mundo, mas mesmo a cirurgia
com o melhor arruma apenas a pele. Minha cicatriz era profunda e o cirurgião não podia reparar
todos os tecidos embaixo.
Ela olhou para ele, os dedos em sua pele, correndo o dedo para cima e para baixo em seu
rosto. A cicatriz estava escondida lá, desde a testa até o queixo, exatamente como em seus
sonhos.
—Isso é impossível— ela sussurrou.
—Sim, é— disse ele, simplesmente. —E, no entanto, impossível ou não, assim é que é.

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A cabeça de Grace rodou. Ela era uma... uma pessoa prosaica. Não fazia análise nem se
debruçava sobre livros de auto ajuda ou terapias. Não acreditava em fantasmas ou vidas passadas
ou anjos. Levava uma vida tranquila, pintava, lia, principalmente em seu próprio apartamento,
quase sempre sozinha. Tudo o que sempre quis era pintar e ser deixada sozinha.
Nunca sentiu que algo era seu destino ou que havia grandes coisas reservadas para ela. O
destino não era um fator determinante em sua vida.
Mas aqui estava isso. Inexplicável e sobrenatural.
Ela sonhou, uma e outra vez com este homem. Um homem que ela nunca conheceu, nem
nunca pensou em encontrar. De alguma forma o reconheceu, sabia que estavam fadados a ficar
juntos.
Um longo arrepio correu por seu antebraço, pescoço, até os cabelos da nuca. Nunca sentira
um tremor interno, como se estivesse num deserto congelado em vez que numa cama quente e
confortável, com um fogo ardente no coração.
O frio invadiu sua alma, profundamente. Suas mãos geladas tremiam.
Algo para o qual não tinha palavras para descrever, a tocara. Sabia apenas que era grande,
tocando dentro de algo que agora reconhecia como a energia que corria o mundo.
Naquele momento, em um ato de entrega total, Grace se entregou ao destino. Estava de
alguma forma amarrada a este homem.
Drake. Drake era seu destino.
—Era você—, ela sussurrou. —Sempre você.
—Sim, duschka—, ele disse, baixinho, o rosto sóbrio. —Estamos de certa forma ligados. Eu
não sei como ou porque, mas eu sabia que existia uma conexão a primeira vez que eu vi o retrato
do homem que eu reconheci como eu mesmo. —Ele passou a mão ao longo do seu rosto, como se
moldando sua mão a ela. Seus olhos procuraram os dela. —Eu sabia que você era importante para
mim, mas eu fiquei longe de você um ano inteiro. Eu sabia que não poderia compartilhar minha
vida com uma mulher, era muito perigoso. Então eu fiquei de fora. Mas eu não podia ficar de fora
completamente. Então eu estava lá toda vez que você entrava na galeria.
Sua cabeça balançou lentamente, os olhos nunca deixando os dela. Ele se moveu até colocá-
la sobre ele, abrindo suas pernas, os joelhos ladeando o corpo dele. Ele era enorme, estava duro,
grande e quente. Com um toque suave, estendeu a mão e com dois dedos abriu os lábios de seu
sexo molhado e a fez montá-lo.
A voz profunda ficou ainda mais profunda, o timbre mais áspero, o acento mais forte.
—Era como se você estivesse me dando a vida, duschka. Suas pinturas, o modo como falava,
se movia. Sua própria existência. Não havia nenhuma maneira que eu deixasse de ir ver você,
depois daquela primeira vez.
Ele movia os quadris embaixo dela, uma onda lenta para cima e para baixo, esfregando seu
pênis ao longo dos lábios sensíveis de seu sexo. Seus tecidos estavam tão sensíveis que ela podia
sentir a ponta, grande e bulbosa, banindo o frio que sentira, banindo inclusive o pensamento do
frio.

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Seus olhos estavam tão escuros, tão profundos. Ela não conseguia desviar os seus. Estava
presa por aqueles olhos negros, aquelas mãos fortes que seguravam seus quadris, o corpo
poderoso se movendo sensualmente sob ela. Estava presa, sem nenhum desejo de escapar.
—A primeira vez que eu vi seu trabalho, eu estava em um carro. Eu não conseguia acreditar
no que estava vendo. Eu desci e voltei até a galeria, pensando em comprar alguns quadros, não
tinha ideia de quem era o artista e nem me importava. E então – e então você entrou. Você trouxe
a luz do sol e a beleza, duschka. Eu mal conseguia tirar os olhos de você, mas eu sabia que era o
que eu deveria fazer, para sua segurança.
Sua voz estava em sintonia com o dentro e fora de seu corpo e ela estava achando difícil
seguir o que ele falava, com o calor e umidade que florescia entre suas pernas.
Ela olhou para baixo, hipnotizada pela visão de seu pênis emergindo entre suas coxas. A
enorme cabeça, uma cor ameixa escura, já chorando na ponta com o pré sêmen, apareceu,
seguido pelo eixo maciço. O sêmen na ponta mostrava como ele estava excitado, embora ela não
o sentisse perder o controle. Seus movimentos eram regulares, calculados para o máximo prazer.
Oh Deus, ele tinha se posicionado de forma que a cada entrada e saída seu pênis esfregava seu
clitóris com uma longa, lenta e demorada passada que fazia a pele dela formigar e a vagina
apertar. Eles não estavam, tecnicamente, fazendo amor, mas ela estava a um fio do clímax.
Os olhos escuros ardiam.
—Incline-se para mim—, ele rosnou. —Me dê o seio.
Nada lhe ocorreu a não ser obedecer. Ela sequer teve que fazer qualquer esforço, aquelas
mãos enormes ao seu lado a levaram para ele, segurando-a contra ele.
A boca dele na sua queimava. Ele mordiscou o seio por um instante, depois abriu a boca
para sugar o mamilo fortemente. Ela o sentiu puxando para dentro de sua boca. Ela respirou
fundo, tremendo, totalmente concentrada no que acontecia entre suas pernas, apoiando-se nele,
porque seus músculos se transformaram em mingau.
Ele sugou fortemente e seus músculos internos apertavam seu pênis. Estava tão molhada e
escorregadia que os movimentos de entrar e sair faziam pequenos barulhos, bem como a sucção
em seu peito quebrava o silêncio do quarto. Ele inchou mais dentro dela. Grace se agarrou a seus
bíceps, a cabeça abaixada, o cabelo caindo como uma cortina de fogo, tremendo.
Seus movimentos estavam acelerados, sem controle agora, as mãos puxando-a para baixo
contra ele. As sensações se ampliaram com o calor e a fricção. Drake se movia tão rápido e forte
que a enorme cama bateu com força contra a parede.
Grace começou a queda livre em direção ao orgasmo, como saltar de um avião, o estômago
mergulhando com a ausência de gravidade.
Normalmente, levava apenas um segundo para chegar ao clímax, mas dessa vez isso se
prolongou, a mantendo na borda por longos minutos, pendendo sobre ele, tremendo, mal
conseguindo respirar...
Seu corpo inteiro tremia, tremia, quando uma linha elétrica de prazer a percorreu desde o
topo da cabeça até a ponta dos pés, centrando em sua vagina, onde apertava fortemente ao redor
do pênis de Drake.

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Também estava acontecendo com ele. Com um gemido baixo, ele resistia fortemente sob
ela, inchou mais ainda e começou a jorrar por todo seu estômago, um tremor duro
acompanhando cada surto. Seus dentes estavam cerrados, as mãos duras em seus quadris,
gemendo enquanto os dele se moviam freneticamente embaixo dela, completamente fora de
controle.
Ele estava todo suado, o cabelo preto escuro grudado na cabeça. Sua cabeça caiu para trás
no travesseiro, o pescoço forte arqueado, olhos entreabertos com prazer, os dentes cerrados.
Parecia estar com dor, mas o que sentia em nada parecia com dor. Grace também sentiu, não era
dor. Era o prazer numa escala quase inimaginável.
Grace desabou no peito de Drake, ofegante, dizimada, ainda tremendo com a força do
orgasmo. Ficaram assim por um momento, respirando pesadamente, olhos fechados, por alguns
minutos.
Depois de um momento, os braços de Drake a colocaram ao lado dele, uma grande mão
segurando a parte de trás de sua cabeça, a outra envolvida em torno de sua cintura, do jeito que
ele sempre a abraçava. Estava cercada por um homem duro, totalmente segura.
Sentir-se segura era um erro. Intelectualmente, sabia disso. Não havia nada seguro sobre a
situação em que estavam. Homens duros estavam atrás de Drake e, por extensão, atrás dela. O
próprio Drake era um homem extremamente perigoso, não o tipo de homem que você pensava
ser seguro.
E, no entanto, nunca se sentiu mais segura em sua vida que agora, porque sabia, sem
sombra de dúvida, que ele lutaria até a morte por ela.
Nunca houve ninguém para defendê-la, nunca. Seu pai pulara fora com o dinheiro de toda
família quando ela tinha nove anos e, mesmo antes disso, ele não tinha sido um grande pai. Sua
mãe se envolveu com seu pai que, após o abandono, a deixou na própria miséria, sem tempo ou
pensamento para a filha. Não tinha tios ou tias ou primos para formar uma camada carinhosa a
seu redor.
Grace nunca teve um namorado protetor. Seus amantes foram poucos e espaçados entre si,
os namoros nunca duravam mais que um par de semanas, muitas vezes menos. Ela foi apenas
mais uma na vida deles. Por alguma reviravolta do destino ou talvez por alguma reviravolta em sua
psique, os homens com quem estivera eram obcecados por suas carreiras ou suas contas
bancárias, ou, muitas vezes, ambos. Grace Larsen nunca se encaixava muito bem em suas vidas.
Ela estava lá e então não estava mais e eles nem notavam muito a diferença.
O mais próximo que ela sentira em ser especial para alguém era com Harold. Era um
sentimento lindo, mas saber que aquele homem idoso e encantador tinha seus melhores
interesses no coração do mundo da arte não era o mesmo que ter alguém tão forte como Drake
solidamente a seu lado em todas as coisas.
Como agora.
Grace se esticou sobre Drake, sabendo que em algum recanto profundo de sua mente, ela
era, de alguma forma, preciosa para ele. Que ele sentia algo forte por ela e que era real.

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O forte cheiro de sexo estava no ar, um misto da sua excitação e do sêmen que ele jorrou
em todo seu estômago e que agora a colava a ele. Ela mal tinha energia para abrir os olhos. Com
os olhos entreabertos enxergava cerca de quatro centímetros de sua pele e mesmo este pequeno
pedaço visto era bonito e intrigante.
Pele marrom-dourada, músculos que mesmo na penumbra eram pronunciados, elegantes e
fortes. Com o nariz tão perto podia sentir o cheiro de sua pele, o cheiro da essência dele acima do
olfato apurado do sexo escuro e picante, perfumado, impregnado de musk, diferente de tudo que
ela já cheirara na vida.
Em uma sala escura, cheia de homens, seria capaz de achá-lo com os olhos vendados, só
pelo cheiro. E, certamente, pelo toque. Nenhum homem que conhecera tinha o físico tão
musculoso. Uma passada de dedos e ela o reconheceria. Nenhum outro homem na terra poderia
ser assim. Ele estendeu a mão e apertou um botão. Com um zumbido suave, as cortinas
começaram a correr.
Levou um minuto para encontrar forças e virar a cabeça em direção a janela. No momento
em que ela fez isso, as cortinas abriram por todo seu caminho, deixando a manhã de Nova York
entrar no quarto.
Ainda estava nevando. Não era uma tempestade como na noite passada, flocos apenas
suaves pairando no ar mais do que caindo do céu. As nuvens estavam tão baixas sobre a cidade
que escondiam os topos de muitos arranha-céus. De forma que, de onde estavam, a impressão era
que o céu estava suficientemente perto para tocar.
—Ainda está nevando— ela disse com ar sonhador, virando a cabeça para trás, uma mão
sobre o coração.
Drake suspirou, o peito grande se enchendo de ar e a levantando junto com o movimento.
—Sim, amor. Tudo se torna mais difícil com neve.
Verdade, mas o mundo não foi feito para facilitar.
—E tudo fica mais bonito na neve.
Ela podia realmente ouvir seu sorriso.
—Sim, duschka. Muito bonito. Eu nunca percebi isso antes.
Ela sorriu contra o pescoço dele, feliz por ter lhe dado algo, mesmo que fosse apenas a
apreciação da beleza da neve.
Ela flutuava, sem pensar em nada, sentindo-se quente e segura em seus braços. Estava
começando a deslizar de volta para o sono quando Drake disse, calmamente: —Duschka.
—Mmmm. —Se ele quisesse conversar, teria que fazer isso com outra mulher que não
estivesse em estado semicomatoso, porque ela estava muito confortável para prestar atenção ao
que ele fosse dizer. Parecia grave, pelo som da voz.
Não, ela não queria falar sobre qualquer coisa séria, não agora. Agora era seu tempo fora do
tempo.
Outro enorme suspiro e as enormes mãos de Drake foram para seus ombros. Ele ergueu
levemente o tronco para que pudesse olhá-la nos olhos.

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Serie Dangerous 03

—Eu preciso te dizer uma coisa, algo que você não vai gostar de ouvir. É hora de saber,
porque precisamos fazer planos.
Ele estava falando sério. Qualquer sugestão de sorriso se foi e seu rosto ficou desenhado em
linhas apertadas, como se estivesse com dor. Grace parou de sorrir.
Fosse o que fosse o tinha preocupado, por isso a preocupava também.
Envolveu as mãos no peito dele e descansou o queixo sobre elas. Qualquer que fosse a má
noticia, queria estar tocando nele tanto quanto possível enquanto ouvia.
—Tudo bem—, disse ela calmamente. —Diga. Estou pronta.
Ele fechou os olhos por um instante, depois os abriu, o olhar feroz como uma águia.
—Esses problemas... que nós estamos tendo. Eles não vão desaparecer. Nunca.
Ela não disse nada, somente olhava para ele.
—As pessoas que estão atrás de mim não vão desistir, amor. —Suas mãos nas costas dela
apertaram levemente, como se para reafirmar sua propriedade.
—Particularmente não agora, não quando eles podem tê-la como moeda de barganha
sabendo o que você significa para mim.
Com a garganta subitamente apertada, ela perguntou:
—E o que eu significo para você, Drake?.
—Tudo—, ele disse rapidamente, os olhos nunca se afastando dela. —Você é tudo para
mim.
Ele a levantou um pouco sobre ele, apertando os músculos do estômago duro, tão forte que
realmente a levantou até sua boca quente, a mordendo num beijo forte. Ela acabara de gozar,
pelo amor de Deus, mas seu corpo começou a acordar, pouco a pouco, cada vez que a língua dele
tocava a dela.
O corpo dele já estava acordado. Seu pênis tinha apenas suavizado um pouco depois do
orgasmo, mas com o beijo a ereção subiu completa, longa e forte com pulsos poderosos que
causavam arrepios nela.
Grace derreteu.
Drake parou o beijo, facilitando a volta para baixo. As pupilas de seus olhos haviam se
expandido tanto que a íris parecia preta. Um profundo rubor chegou a suas bochechas e os
músculos de sua mandíbula se enrijeceram.
—Mais tarde,— ele rosnou. —Teremos todo o tempo que quiser depois. Mas agora nós
precisamos fazer planos. Eu disse que meus inimigos não vão desistir de mim e eu não vou desistir
de você.
O coração de Grace deu um baque enorme no peito. Algo grande e perigoso estava por vir.
—Então, qual é a solução?
—Nós desaparecermos,— disse, simplesmente, os olhos nunca deixando os dela.
No começo Grace não entendeu. As palavras estavam ilegíveis em sua cabeça. E então as
palavras a golpearam.
Ela franziu a testa.

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—Quer dizer, ir embora por algum tempo? Nos escondermos em algum resort com sol até
que a situação se resolva?.
—Não, amor. —Drake pegou uma mecha de seu cabelo e levou até o nariz, em seguida,
suavemente, colocou para trás da orelha. —Quero dizer desaparecer completamente.
Desaparecer para sempre. Deixar para trás nossas vidas e fazer novas vidas longe, onde ninguém
pode nos encontrar.
Grace piscou.
—Você quer dizer, simplesmente ir embora? Para sempre?— Uau. Era quase impossível até
mesmo contemplar o pensamento. Como se entrasse num buraco em algum lugar no tempo.
Podia até ser...bem, se não fosse divertido, então, certamente seria interessante, enquanto Drake
estivesse com ela. Um pouco de tempo fora do tempo. Mas não era sobre isso que ele falava. Ele
falava de uma nova vida, uma nova identidade, como as pessoas no Programa de Proteção a
Testemunhas. E, mesmo assim, tanto quanto sabia, quando o perigo acabava, as pessoas voltavam
para suas vidas.
Ele estava procurando algo em seu rosto.
—Sim— ele disse, simplesmente. —Para sempre. Deixar de ser Grace Larsen e Viktor
Drakovich e tornar-se outra pessoa, muito longe. E ser essa outra pessoa o resto da vida.
Grace soltou uma respiração lenta, a mente girando.
—E nós teremos que ser muito inteligentes sobre como desaparecer também, porque se os
meus inimigos nos encontrar, estamos mortos. Não há qualquer prazo de prescrição para isso,
Grace. Não terá volta, nunca. Você nunca mais será Grace Larsen, nunca mais irá ver Nova York.
Nunca mais verá os Estados Unidos de novo. Tudo o que você tem não existirá mais.
—Eu–isso é possível? Eu pensei que só os governos pudessem fazer esse tipo de coisa.
Ele se permitiu um pequeno sorriso. —É bem possível, e eu posso fazer esse tipo de coisa
muito melhor que um governo, se eu tiver tempo para planejar direito. A questão é: você está
bem com isso? Você pode suportar a ideia de deixar tudo e todos para trás? Porque vai fazer
minha tarefa difícil, senão impossível, criar uma nova vida para nós se você não puder deixar tudo
para trás. Se entrar em contato com qualquer um de seus velhos amigos, se você receber sua
revista favorita, se você entrar em contato com clientes antigos, qualquer dessas coisas seria uma
enorme porta aberta para meus inimigos nos encontrar. Isso poderia nos matar. Você deve ser
capaz de ir embora e nunca olhar para trás. Eu sei o quanto estou exigindo de você e sei que tudo
isso é minha culpa. Mas não há maneira de desfazer o que está feito, e agora eu devo lhe
perguntar: você pode fazer isso?
Ela pensou que era típico dele não iludi-la nem tentar persuadi-la. Ele não a estava sequer
seduzindo, embora já soubesse que sexo era sua arma mais potente. Se começasse a beijá-la,
fazer amor com ela, ela ia derreter e consentir qualquer coisa que ele quisesse. Desaparecer no
Polo Norte ou na África mais escura? Sim, claro, querido Drake. Beije-me novamente.
Não, ele não usava todas as armas que tinha à disposição. Seu corpo sob o dela estava muito
quieto. Ele não estava tentando sorrir ou encantá-la de qualquer maneira. Ele pediu desculpas e

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Serie Dangerous 03

ela imaginou se seria pela última vez. Drake era um realista acima de tudo e essa, agora, era sua
nova realidade. Não era realmente culpa dele e certamente não era dela, apenas aconteceu.
Estava em uma encruzilhada e a decisão que tomasse agora, neste exato instante, iria colorir
o resto de seus dias. Olhou para baixo, para ele, para este homem que, em uma tempestade de
violência, se tornou a pessoa mais querida para ela que qualquer outro ser humano na terra.
Seria fácil dizer que o gosto dela era suspeito para homens, mas sabia que não era verdade.
Os amantes que tivera eram crianças mimadas e vaidosas. Ela sabia disso e ficara com eles de
qualquer maneira, porque às vezes se sentia tão malditamente só. Então fechava os olhos para
seus defeitos, tentando fingir que esse tempo, essa relação poderia funcionar, sabendo todo o
tempo que não. Durante todo o tempo, sabia que eles realmente não se importavam com ela,
Grace Larsen. Eles queriam algo doce para olhar e pendurar no braço, e o fato de que era uma
artista fazia a conversa divertida em qualquer coquetel, até que eles se aborreciam com isso, e
com ela.
Nada jamais havia funcionado e, com o tipo de homem que ela conheceu, nunca funcionaria.
Ela se resignara a ficar sozinha.
Finos, bem sucedidos homens americanos e todos eram moralmente fracos, até mesmo
frágeis, por dentro. Tire seu dinheiro, seu trabalho e seu status e eles não eram nada.
Drake era o oposto. Ele teve uma vida difícil. Ela podia sentir a força que vinha de sua alma.
Ela era importante para ele, podia ver, sentir isso. Cada célula de seu corpo confirmava isso.
Este era um momento muito importante. Ela tinha que decidir isso agora.
Grace inclinou-se ligeiramente, a mão direito descansando levemente sobre seu coração.
Podia sentir a leve aspereza dos cabelos do peito dele contra seus seios, seu mamilo no centro da
palma de sua mão, os músculos de aço em sua mão e no fundo, a sólida, regular e calma batida de
seu coração.
Inclinou a cabeça até que seu nariz quase tocasse o dele, os cabelos como uma cortina em
torno deles, como se os tivesse protegendo de um mundo que queria fazer um mal terrível a
ambos.
Ele mantinha suas mãos quentes, quase a tocando.
Estava muito excitado, ela podia sentí-lo, duro e quente, entre os lábios de seu sexo. Cada
vez que ela se movia, parecia provocar uma onda de sangue no meio dele e ele ficava mais grosso
e longo. Cada movimento do pênis era acompanhado pelo aperto de sua vagina, que respondia a
ele. Ficava mais molhada a cada segundo.
Mas precisava dizer o que tinha que ser dito sem o sexo nublando tudo.
Ela o olhou diretamente nos olhos, a pergunta ainda ecoando na sala.
Você pode fazer isso?
—Eu posso fazer isso— disse baixinho. —Eu sei que você acha que estou desistindo de
muito, mas realmente não estou. Eu não tenho muitos amigos e suas vidas vão continuar sem
minha presença. Eu não tenho família. Minha ligação com o mundo do trabalho era
exclusivamente por meio de Harold e agora isto está acabado. E eu pintei somente para você
durante o ano passado, de qualquer maneira. Mas há mais uma razão porque eu posso fazer isso.

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Fez uma pausa, respirou devagar, tentando encontrar uma maneira de dizer as palavras que
nunca disse a nenhum ser humano em sua vida.
—Eu posso fazer isso por outro motivo, não apenas porque não estou deixando muito para
trás. Eu não sei como ou porque, Drake, mas há uma conexão entre nós. Eu sonhei com você por
um longo tempo, mesmo sem saber que você existia. Eu mal conheço você... e, ainda assim, o
conheço até sua alma. Para uma pessoa de fora, provavelmente pode parecer uma loucura, mas
Drake, eu vou seguí-lo até os confins da terra... porque eu te amo.
Ele endureceu embaixo dela, os olhos entreabertos, os músculos apertados. Um som
escapou-lhe, um gemido dolorido, como se estivesse com dor. Ele a trouxe de novo à boca, as
mãos grandes atrás de sua cabeça e a beijou profunda e loucamente, como se nunca mais fosse
ter a chance de beijar na vida. Isso abriu nela uma resposta selvagem, abrindo tudo para ele –
boca, sexo, coração.
Seus quadris debaixo dela começaram a bombear para cima e para baixo, deslizando ao
longo de sua vagina. Estava tão molhada que seu pênis deslizava facilmente entre os lábios de seu
sexo, tão excitante como se ele a tivesse penetrado. Agarrada aos ombros de Drake para manter o
equilíbrio, Grace o beijou como se fosse morrer se fossem separados. Seus movimentos eram
rápidos e ásperos, criando uma fricção quente contra seu clitóris, esfregando seus seios contra os
planos rígidos de seu peito. O calor floresceu, brotando rápido e era impossível resistir. Com um
grito selvagem ela começou a gozar, o apertando contra si, sentindo a onda quente de sangue em
seu pênis a cada contração.
Ele não abrandava. Ele a mantinha num clímax que parecia durar para sempre, enquanto
outro orgasmo, mais duro sobre as ondas do primeiro, a pegou de surpresa.
Ele estava perto, os músculos rígidos, movimentos espasmódicos e descontrolados. Deu um
gemido profundo na boca dela e com um duro impulso começou a jorrar de novo em jatos
quentes que cobriam sua barriga e a dela.
Oh Deus, isto foi tão intenso.
Grace sentiu como se suas emoções estivessem jorrando junto com ele. De alguma forma,
seus olhos estavam cheios de lágrimas, mas ela não estava chorando. Era como se a emoção
tivesse que sair de algum jeito e tinha escolhido os olhos. Ela suava por todos os poros, agitada e
trêmula, segurando firmemente em Drake, como se estivesse perdida na praia e ele fosse o salva-
vidas.
Ficaram deitados abraçados com força por um longo tempo, tempo suficiente para que o
céu lá fora ficasse encoberto por uma leve sombra.
Seus músculos trêmulos lentamente relaxaram e sua respiração voltou ao normal.
Grace estava mergulhando no sono quando Drake virou a cabeça para beijá-la na orelha e
em seguida sussurrou:
—Eu também te amo, Grace.
Isso a sacudiu até acordar. Levantou a cabeça para olhar para ele, para este homem que se
tornou seu amante. Que se tornou seu amado.
Cada característica de seu rosto exótico era fascinante, novo, porém, familiar.

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Quem diria? Não acreditava em vidas passadas, mas tinha que haver algo que explicasse as
ligações profundas, intensas e imediatas com esse homem.
Ela quis dizer o que dissera e assim o fez. Nenhum deles encarava o amor levianamente.
—Há tanta coisa para dizer. —Grace correu um dedo sobre as sobrancelhas, desceu pela
bochecha, alta e larga e depois para os lábios cheios. —Eu não sei por onde começar.
Sua cabeça balançou concordando.
—Sim, há muito a dizer, meu amor, mas temos o resto de nossas vidas para isso. E se
quisermos que o resto de nossa vida seja mais que um ou dois dias, temos que planejar com
cuidado. Um homem virá com novos documentos para você. Ele estará aqui ao meio dia, a menos
que toda essa... linda neve — sua boca dura se curvou em um sorriso, —retarde seu progresso.
Em um longo suspiro, Grace pulou da cama e se espreguiçou, nua. Levantou os braços para o
teto e ficou na ponta dos pés. Sentia-se tão... bem.
—Onde vai ser essa reunião, Drake?
—Boa pergunta, duschka. —Estendeu uma mão para fora da coberta para acariciar seu
quadril.
Grace sorriu com seu toque. —Não em meu estúdio. Lá é muito... pessoal, com todas as suas
pinturas. Não, acho que vamos nos encontrar na sala de estar.

Capítulo 13

Tenho novidades...
A mensagem veio pelo Blackberry de Rutskoi, que ele deixou bem à vista. Rangeu os dentes.
Quando tudo isso acabasse, iria procurar no arquivo pessoal de Drake e encontrar o desgraçado
que estava fodendo com ele.
Qualquer que fosse a novidade, o homem ou mulher – nada como uma mulher para trair,
conforme sua experiência – não iria falar até que tivesse a próxima parcela transferida. E Rutskoi
tinha que transferir o dinheiro esperando que as novidades valessem cem mil dólares.
Rutskoi tirou os olhos da mira e enviou uma mensagem para seu banco no Caribe. Seu banco
no Caribe existia para isso. A transferência foi efetuada imediatamente. Meia hora depois, o
informante mandou a mensagem:
O alvo estará na sala de estar ao meio-dia. A sala de estar é a quinta partindo da direção sul,
décima e décima primeira janelas. Ele pediu comida e pode permanecer na sala por um tempo.
Sim! Drake finalmente estaria na sala de estar, em linha reta para sua Barrett,
permanecendo lá por um tempo – se Rutskoi não acertasse esse tiro, podia aposentar seu rifle.
De repente, Rutskoi sentiu um grande aumento de poder atravessar seu corpo. Ele apenas
esperou, na mesma posição, nos últimos dias, mas de repente, o cansaço desapareceu como se
nunca tivesse existido. Sentia-se alerta, cheio de energia. Certo. Este trabalho ia funcionar, podia

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sentir isso nos ossos. Estava a caminho de pegar Drake e se tornar um homem rico e, nos círculos
certos, famoso.
Ele se acomodou sobre seu rifle, sentindo uma clareza sobrenatural. Seu destino estava
esperando por ele.
Drake cairia e ele subiria.
Essa era a maneira como funcionava o mundo.

Eles tinham um café da manhã esperando, deixado do lado de fora da porta pela falange de
fadas boas que, aparentemente viviam na casa de Drake. As fadas eram excelentes no que faziam.
Chá indiano forte, iogurte e croissants caseiros, amoras frescas.
Drake disse que iria oferecer um almoço leve para o homem misterioso que viria ao meio-
dia, então ela comeu com moderação.
A atmosfera entre ambos havia mudado. Grace não sentia mais qualquer timidez a volta de
Drake. Conversavam naturalmente, como um casal, fazendo planos. Ele perguntou onde ela
gostaria de viver e ela disse que muito longe, em um lugar com palmeiras.
Ele ficou quieto por um longo momento, depois assentiu.
—Isso vai ser feito aos poucos, duschka—, ele disse, —mas que assim seja.
Grace pegou sua mão e a trouxe para o rosto. Juntos, pensou. Ela beijou sua mão levemente.
—Nos vamos fazer isso juntos.
Ele virou a mão para passar o dedo por baixo de sua bochecha.
—Ah, sim, meu amor, vamos fazer isso juntos. Vai ser difícil e até perigoso. Você vai ter que
aprender a viver uma nova vida em um novo lugar e, possivelmente, aprender um novo idioma.
Nada vai ser fácil e nada vai ser familiar, mas eu estarei com você em cada passo do caminho.
Drake ficou de pé, mantendo a mão em seu rosto.
—Temos muito a fazer hoje, meu amor, por isso seria uma boa ideia você se aprontar. Vou
deixar você tomar banho e se preparar e nos encontramos na sala ao meio-dia.
Ele saiu da sala rapidamente. Era estranho com um homem tão grande pudesse se mover
tão rápida e silenciosamente. Ele esta lá e então... não estava.
Grace se levantou e caminhou até as janelas, apoiando ambas as mãos no vidro. A neve
tinha se intensificado, rodando em espirais de branco nas correntes de ar entre os prédios. As
nuvens tinham reduzido, ficando mais escuras. Era perfeitamente possível que uma grande
tempestade de neve estivesse se aproximando.
Seria a última tempestade de neve que veria?
Que estranho pensar sobre isso. Como era estranho pensar que sua vida estava girando
como em uma curva fechada para outra coisa. Ela talvez nunca pudesse ver neve novamente. E
certamente nunca mais veria Nova York. Grace posicionou suas mãos para que formassem uma
moldura e as moveu sobre a enorme janela, capturando cenas de Nova York e arquivando tudo na
memória. Elas seriam armazenadas em seu subconsciente, processadas e sairiam em algum
momento inesperado.

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Entrou no insanamente luxuoso banheiro de Drake, tentando escolher entre a banheira de


hidromassagem ou uma perfumada ducha - finalmente optando pelo chuveiro – e se vestindo com
umas das roupas escandalosamente caras que ele comprou para ela.
Sabia, instintivamente, que o agradava comprar coisas caras para ela. Ela não se importava
muito. Ela viveu toda sua vida sem isso e continuaria feliz se vestindo com roupas de magazines
comuns pelo resto de seus dias. Mas as roupas eram lindas e ela apreciava a beleza, então tomou
um banho e as vestiu com cuidado.
Hoje, ela e Drake tinham unido suas vidas. Isso a fez se sentir estranha, não estar mais
sozinha. Eles iriam desaparecer juntos, passar o resto de suas vidas juntos.
Um relógio sobre a enorme lareira repicou. Onze horas. Como em todos os cômodos, a
lareira estava acesa. Drake deve ter sofrido muito frio ao crescer, a tal ponto que sempre se
rodeava de calor. Talvez um lugar ensolarado, sem lembranças ruins, seria bom para ele também.
Andando pela sala enorme, Grace sorriu com o pensamento que a nova vida que iria
começar seria planejada a partir da sala de estar.
Três salas abaixo, a mulher permanecia na janela, as mãos contra o vidro. Ela ficou lá por um
tempo, na mesma posição, como se estivesse bebendo da visão da neve. A neve não fazia
qualquer diferença para Rutskoi, estava vendo um contorno verde claro e vermelho, sem qualquer
interferência.
Rutskoi apertou levemente o gatilho. O ângulo era tal que a morte era uma possibilidade
real. Era a mulher de Drake. Rutskoi apostava tudo que ele tinha nisso.
A mira estava em cima do coração.
Um apertão e ela estaria morta.
Oh, que tentação. Perder a mulher faria Drake insano. Justiça poética.
Mas Drake tinha que ser seu primeiro alvo. Se Rutskoi se deixasse governar pelas emoções,
ele seria inútil em sua futura profissão. Drake, então a mulher. Essa era a maneira que tinha que
ser.
Rutskoi observou a mulher através da imagem térmica quando ela olhou para a cena nevada
abaixo e depois se afastou.
Seu dedo abrandou no gatilho.
Ainda não. Mas em breve.
Ele olhou para o relógio. Onze horas. Outra hora para passar.
No estúdio, Drake embaralhou alguns de seus passaportes juntos. Ele precisaria de um par
de identidades que teriam que combinar com os que seriam criados para Grace.
Os peritos em design estavam errados. Menos não era mais. Mais era mais.
Ele tinha sete identidades profundamente enraizadas em cinco países diferentes, com
cartões de crédito e certidões de nascimento que remontavam há anos atrás. E outro par de
identidades rasas, para ser usada em emergências, em situações extraordinárias.
Não tinha tempo para estabelecer as identidades profundas para Grace, de modo que eles
criaram algo que teria que ser perfeito.
Felizmente, ele tinha o homem perfeito para o trabalho.

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Uma grande mala com rodas contendo dois milhões de dólares em notas de cem estava
esperando na sala pelo homem, juntamente com o almoço e duas garrafas de vinho.
Em meia hora eles iriam almoçar. Drake permitiu-se alguns minutos para contemplar a
enorme volta que a vida tinha dado nele. Iria passar o resto de sua vida com uma mulher. Iriam
para uma remota ilha do Pacífico, uma parte do mundo com a qual nunca mantivera relações
comerciais, e iria construir ou comprar uma bela casa aberta ao sol e ao ar. Grace iria pintar e ele
iria comprar a companhia aérea local e a empresa de transporte. Eram as únicas empresas da ilha
e estavam no chão, e, dessa forma, ele poderia acompanhar todos que vinham para ilha e ter uma
boa cobertura para seu dinheiro.
Seus lábios se curvaram. Trabalhando num negócio legítimo. Poderia ser interessante.
E mais mágico que tudo, Grace estava vindo com ele. Grace estava feliz em vir com ele.
Grace o amava.
Ele nunca foi amado. Foi odiado, temido e invejado, até mesmo admirado, mas nunca
amado.
Grace o amava.
Ele nunca se cansava do pensamento.
Ele podia deixar para trás a riqueza e o poder que começou a pesar sobre ele, um fardo
enorme que tinha levado longe demais. Nunca pensou em baixar sua espada e seu escudo, mas a
vida entregou a ele exatamente essa oportunidade.
Não que pretendesse relaxar sua vigilância, sobretudo com Grace para proteger. Mas a
violência e o poder não mais definiriam sua vida. Seriam apenas os meios para proteger sua vida.
Sua vida com Grace.
Ele se entusiasmou tanto com a ideia que nem mais pensava em perseguir o traidor que
estava dentro de sua casa. Logo, eles teriam ido embora. Quem o traiu acabaria em cinzas.
Uma leve batida na porta e ele sorriu. Sua frequência cardíaca aumentou. A pulsação de
Drake era tão firme quanto suas mãos, não importa o que acontecesse. Acuado, debaixo do fogo
cruzado, cercado por inimigos, ele sempre mantinha a calma. Grace mudou tudo isso.
—Entre— ele disso a seu novo amor.
Ele ia superar essa fase. Provavelmente. Talvez. Mas enquanto estava lá, era uma delícia.
Estar tão em sintonia com outro ser humano, que podia sentir seus pensamentos, algo que
dominava sua mente, a matéria...um tipo de alegria tão rara que era como ser visitado por um
unicórnio.
Não, não um unicórnio, melhor ainda.
Grace.
Que ela o amasse parecia um milagre. E ainda assim ele reconheceu nela a mesma solidão
profunda que o afligiu a vida toda. Como os homens podiam ter permanecido afastados de tal
beleza delicada ainda era um duro mistério para ele, e ainda, ninguém melhor que Drake sabia
como irremediavelmente estúpidos e obtusos os homens eram. Grace era realmente uma beleza
rara, mas ela parecia ter nascido sem a pesada armadura com a qual as belas mulheres nasciam.
Ela era aberta, vulnerável, incapaz de fazer jogos.

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Isso é o que o tinha encantado nela, mas ele compreendia muito bem o que ele fez com ela.
Presa.
Bem, ela não estava mais presa e jamais seria novamente. Seria ferozmente protegida por
ele, para o resto de suas vidas.
Uma mecha de cabelo cor de bronze brilhante, longos dedos brancos segurando a porta e
metade do rosto espreitando para dentro.
—Drake,— ela disse baixinho. —É cedo, eu sei. Eu pensei que deveria esperar na sala de
visitas por este homem. —Ela caminhou até sua mesa.
—Boa ideia,— disse ele. —Enquanto estiver lá, abra uma garrafa de vinho e sirva três
taças.—Eu já irei para lá.
Ela deu um leve sorriso.
—Então eu acho que estamos começando uma nova vida agora, hein?
Deus, soava bem.
—Sim, duschka— ele respondeu suavemente, chegando a encostar-se a seu rosto. Ela
esfregou o rosto em sua mão. Ele adorava a maneira como ela reagia toda vez que ele a tocava,
como seu toque a agradava. —Isso começa agora. Na sala de estar.

Alguém entrou na sala.


Rutskoi estivera em constante estado de alerta, mas agora a adrenalina corria por seu corpo,
aumentando ainda mais seus sentidos.
Ele amava isso. Ele nasceu para isso.
Já era tempo. Ele sentiu em cada célula de seu corpo. Estava acontecendo agora.
O ardente vermelho, dourado e verde da figura andando pela sala era esguio, de ombros
estreitos, com os cabelos na altura dos ombros. A mulher.
Seu dedo no gatilho soltou um pouco.
Rutskoi respirava uniformemente, dentro e fora, deixando a adrenalina liquidar todo seu
corpo. Suficiente para aguçar-lhe os sentidos, não para fazer suas mãos tremerem.
Perfeito.
A mulher caminhou até o centro da sala e pegou alguma coisa, era difícil dizer o que ela
estava fazendo de costas. Ah. Parecia que ela abria uma garrafa de vinho e estava servindo.
Conhecendo Drake, a garrafa era, sem dúvida, excelente, rara e cara.
Ele não viveria para beber.
A cabeça da mulher virou e andou até a porta. Rutskoi a rastreou usando seu âmbito de
aplicação térmica. Um homem entrou na sala. Não muito alto, mas com os ombros extremamente
amplos. Drake.
A mulher ia beijá-lo.
Não era bom para um tiro. Era um tiro factível, claro. Uma calibre 50 poderia atravessar a
mulher, acertar Drake e passar pela porta atrás dele e pela parede, além disso.

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Mas ele não gostou do ângulo e das probabilidades. Esperou, paciente e friamente,
observando eles se beijarem.
Ok. A mulher estava se afastando, segurando a mão de Drake, levando-o consigo em direção
ao centro da sala, em direção à grande lareira. O intenso calor do fogo distorcia a imagem.
O calor do corpo de Drake seria perdido no calor maior do fogo.
Rutskoi tinha que atirar antes que Drake chegasse perto do fogo.
O sinal térmico da mulher desapareceu quando ela se movimentava para frente do fogo, sua
mão estendida, segurando Drake. Ele estava andando em direção ao fogo, no seu perfil.
Merda. A melhor chance seria frontal. Rutskoi tinha que tomar uma decisão em fração de
segundos. Apontar para um perfil exige uma precisão milimétrica, lidar com o efeito da distorção
do sinal térmico através do vidro denso poderia desviar a bala, ou aguardar Drake se virar e se
apresentar de frente.
Cada grama de sua formação e experiência disse para ele esperar.
Rutskoi relaxou, alerta, mas não tenso, focado, mas não sobrecarregado, com a perna direita
ligeiramente curvada, para manter a estabilidade, no estilo dos atiradores russos e esperou.
Drake tinha uma mão sobre a lareira. Rutskoi se lembrava que era um enorme monólito de
mármore branco e cinza, tal como se lembrava de tudo na sala. Lembrou-se dos luxuosos sofás
cobertos com caxemira, tapetes altos, as antiguidades. Drake vivia como um príncipe. Maldição,
Rutskoi queria viver como um príncipe, também.
Ah! Drake estava se virando, a mulher caminhando em direção a ele carregando alguma
coisa. Um copo. Ele estava buscando pela taça com uma mão enquanto a outra ainda mantinha na
beira da lareira.
Virando, virando...
Sim!
Rutskoi respirou, expirou metade do ar, esperou estabilizar os batimentos cardíacos, e
puxou o gatilho.

Capítulo 14

Drake estava sorrindo para Grace, pegando o copo de vinho estendido para ele, quando ela
tropeçou no tapete. Instintivamente, ele se moveu rapidamente para pegá-la antes que caísse.
E o mundo explodiu.
Ele caiu de joelhos, cabeça abaixada, vendo um gotejamento lento e grosso vermelho, não
entendendo o que era. Nada se movia, sua visão esmaecia, o som abandonando o mundo.
E então a visão, audição e compreensão voltaram numa pressa doentia e ele percebeu que
estavam sob ataque.
Fragmentos de mármore voaram da lareira como enormes balas em alta velocidade. Um,
dois, três. Alguém estava atirando onde ele estivera um segundo antes, balas de calibre 50 a julgar

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pelo tamanho dos furos e o fato de penetrarem as janelas a prova de balas. Se Grace não tivesse
tropeçado, três balas calibre 50 o teriam transformado em carne moída num instante.
Grace!
Os tiros continuavam chegando, num ritmo constante, tentando o tiro certeiro, disparado
por um homem que sabia o que estava fazendo, mas não podia ver o que estava acontecendo.
Drake se arrastou rapidamente até onde Grace estava agachada em frente ao sofá e se
jogou sobre ela.
—Abaixe-se!—Gritou ele, desejando que pudesse esmagá-la abaixo do solo, para que ela
não fosse um alvo de forma alguma.
Seus movimentos estavam desajeitados, lentos. Ele não era desajeitado e não era lento.
Seus reflexos lentos lhe reportavam uma concussão e ele praguejou. Ele precisava de todo seu
juízo, toda sua concentração para tirá-los daqui, mas ele mal conseguia pensar.
—Invisível?— Disse Grace. Ela ainda estava sob ele, a cabeça virada para receber instruções
dele, os olhos arregalados de medo.
Outra bala quebrou um enorme vaso Ming. Drake se curvou sobre Grace, tentando protegê-
la dos cacos como podia, parecendo afiadas navalhas nas costas. Drake sacudiu a cabeça,
tentando dizer a ela que não entendia o que ela dizia, mas as palavras não saíam.
Examinou a sala, tentando descobrir uma maneira de chegar à porta, mas sua visão estava
turva e ele via tudo dobrado.
Outro tiro estrondoso explodiu acima deles, e outro.
Quem quer que fosse o atirador, tinha muita munição. Este era um sucesso planejado.
Drake tinha que tirá-los da sala, porque mais cedo ou mais tarde, uma das balas atingiria seu
alvo. Mesmo um ombro ou coxa acertados por uma bala calibre 50 seria fatal em poucos
segundos. Não haveria maneira de estancar o sangue, eles simplesmente sangrariam até morrer.
Grace gritava algo sobre o barulho ensurdecedor. Alguma coisa sobre – sua cabeça
enevoada clareou por um segundo e ele entendeu tudo.
Ele colocou a boca perto do ouvido dela.
—Ele está usando uma arma com mira termográfica. Não importa que ele não possa ver
através das janelas. Ele está vendo nosso sinal de calor.
Outra bala caiu no chão aos pés deles, fazendo um buraco profundo, e depois outra a um pé
de distância.
O atirador esperava o fogo do tiro diminuir, saindo em uma ronda a cada cinco segundos.
Apesar de seus músculos terem perdido a maioria de força e coordenação, Drake cerrou os dentes
e rolou sobre Grace.
—Arraste-se—, gritou. —Arraste-se até a beira do fogo!
Ele pensou ter gritado, mas sua voz saiu assustadoramente fraca. Ele tossiu e limpou sua
boca. Sua mão veio vermelha.
Oh Deus, não. Jesus, não. Será que ele recebeu uma bala no pulmão? Se fosse isso, tinha
apenas alguns minutos de vida, e estava deixando Grace para morrer sozinha, sem proteção.
Ele se recusou até mesmo pensar nisso.

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Drake tentou desesperadamente tomar uma profunda respiração enquanto tentava parar a
sala de girar. Ele respirou duro. Ele não levou um tiro no pulmão, graças a Deus, mas tinha uma
péssima concussão.
—Drake!— Grace colocou seu rosto ao lado dele e ele percebeu que ela estava gritando com
ele e ele não tinha respondido. Ela parecia apavorada. Outro tiro foi direto no sofá e na parede, a
centímetros deles. —Drake, me responda!
Ele tossiu novamente e tentou levantar a cabeça. Era como se tivesse pesos de chumbo em
cima.
—Vá,— ele tossiu novamente, tentando desesperadamente puxar mais ar. —Aproxime-se
do fogo. Calor... distorce.
Uma série de tiros em rápida sucessão, mas fora da mira, enterrando-se na parede sobre a
lareira. A sala se encheu com o som ensurdecedor de uma saraivada de balas.
Grace parecia confusa, olhando para trás, na janela. Drake estreitou os olhos, tentando se
concentrar. O atirador estava concentrando os tiros num único local, para fazer um furo na janela.
Drake estendeu a mão e tomou o rosto de Grace. Ele virou para encará-la, tentando
desesperadamente fazê-la entender.
—Imagem... térmica...— ele suspirou. —Ele vê nosso calor. —Ele arquejou pesadamente,
tentando engolir o ar. —Você precisa ficar perto do fogo...
Eles precisavam misturar sua imagem com a imagem do fogo. O atirador não iria ver formas
humanas, então, apenas, uma parede de fogo.
De alguma forma Grace entendeu. Ela assentiu com a cabeça e começou a puxá-lo para o
fogo.
—Não!— Ele engasgou. —Chegue ao fogo. —Ela estava perdendo tempo tentando puxá-lo.
De repente, Grace olhou para o carrinho contendo o almoço e depois de volta para ele.
—Ele não pode ver através do calor?— Ela perguntou.
Drake balançou a cabeça, tentando coordenar as mãos e os joelhos para rastejar para a
lareira. Outra rodada atingindo a parede e ele viu um grande pedaço da janela laminada cair no
chão.
Grace soltou dele e, agachando-se, fez o caminho de volta para o carrinho.
—Volte aqui! Volte — a visão de Drake escureceu, a cabeça pulsava e ele cerrou os dentes
para ficar consciente. Aos diabos com seus reflexos!
Mas Grace já estava no carrinho, se movendo rápido. Ela pegou duas garrafas de vinho e as
jogou através da janela.
Os pensamentos de Drake estavam lentos e embaçados. Ele queria dizer a Grace o quanto
ela era corajosa, mas que jogar as garrafas em um atirador do outro lado da rua não ajudava nada,
mas não conseguia articular as palavras, mal conseguia pensar nelas.
Ela estava a seu lado novamente, sacudindo seus ombros.
—Drake, há alguma maneira de sair deste prédio?
Ele balançou a cabeça lenta e dolorosamente.

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—Bom. —Ela saiu de seu lado e alcançou o fogo. Drake olhava, rangendo os dentes contra a
dor que o ameaçava levar para a escuridão. O que ela estava fazendo?
Não foi até que ele a viu pegar uma tora cuja ponta estava em brasa e jogá-la na janela que
ele entendeu. As cortinas explodiram em chamas, alimentadas pelo álcool. As chamas se
espalharam ao longo do piso de madeira, seguindo a linha do vinho derramado.
Grace pegou uma garrafa de conhaque e outra de uísque e as atirou nas chamas. O fogo
cresceu, cobrindo quase toda parede.
O atirador estava cego.
—Drake, vamos sair daqui! Querido, precisamos correr!— Ela tentou ajudá-lo a ficar de pé,
forçando um ombro embaixo de seu braço. Ele fez seu melhor, mas caiu pesadamente sobre um
joelho. A sala estava girando. Ela tinha lhes conseguido algum tempo, mas não adiantaria se ele
simplesmente desmaiasse.
O atirador atirava descontroladamente agora, cegamente, tiro após tiro, em uma saraivada
mortal. Era só uma questão de tempos ante que ele o atingisse.
—Vá. —Drake queria acariciar seu rosto, mas a mão não obedecia. Tudo o que ele fez foi
deixar um rastro de sangue em seu rosto. —Vá. Chegue ao fim do corredor. Sob a parede tem um
teclado. O código é...
—Não, absolutamente não. —A voz de Grace era nítida, a voz que um soldado usaria com
seu companheiro ferido. —Nós sairemos juntos. Você tem que se levantar, meu amor. Eu não
posso carregá-lo e não vou deixar você, então você precisa se levantar.
Uma ronda de tiros chegou tão perto que ele sentiu o deslocamento de ar. Eles tinham que
sair agora.
Grace colocou seu ombro sob seu braço novamente e ele se levantou, trêmulo, tendo uma
boa parte de seu peso apoiado nela. Ela escorregou no sangue dele ao colocá-lo de pé e ele podia
sentir seu esforço.
—Vá. —Drake engasgou, tentando afastá-la. Eles se encolheram com uma série de tiros que
arremessou pedaços profundos da lareira no ar. Um ficou preso em seu rosto e ela simplesmente
levantou a mão e o retirou. Caramba, eles iam morrer aqui. —Saia daqui,— ele sussurrou.
Seus maxilares estavam cerrados.
—Não sem você. Esqueça isso. Nós viveremos juntos ou morreremos juntos, a escolha é sua
Drake. Você entendeu?— Ela esperou um momento para lhe permitir recolher um pouco de força,
então, assentiu. —Agora, vamos embora.
Ela foi para frente, o braço direito na cintura dele, a mão esquerda segurando em sua mão
pendurada no seu ombro. Drake se endireitou, ignorando a dor no peito e costas, rangendo os
dentes com força contra a escuridão que ameaçava esmagá-lo.
Eles deveriam correr para a porta, mas ao invés disso se arrastavam. As cortinas queimando
providenciavam um bom escudo, mas não havia maneira de Drake saber onde o atirador estava
posicionado do outro lado da rua. Não dava para ter certeza de que não estavam em sua mira
agora, o atirador se preparando neste exato instante para explodir a cabeça da bela Grace fora de
seus ombros.

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Serie Dangerous 03

Ele endureceu seus joelhos. Ele não podia falhar com ela.
Ouviu sua respiração ofegante enquanto caminhavam até a porta. Ela poderia estar a salvo
agora, se tivesse saído antes, mas ela deixou claro que não sairia sem ele.
Ele não ia ser a causa da morte dela. De jeito nenhum.
Uma vida inteira de disciplina veio em seu socorro. Ele não ia deixar Grace morrer. Foda-se
se ele mal podia ver, pensar e se sentia como uma merda. Ela precisava dele.
Grace o deixou, correu para o carrinho e despejou outra garrafa sobre o sofá e as almofadas,
jogando um tronco queimando em cima.
Aquilo pegou fogo com um rugido. Mulher esperta. O atirador não seria capaz de ver nada
dentro de um raio de pelo menos alguns metros ao redor do sofá em chamas. Ela conseguiu
outros segundos preciosos.

Eles tinham que agir rápido.


—Espere. —Ele parou, balançando, então se virou. Era um sinal de confusão mental
caminhar para o carrinho.
—Aonde você vai?— Grace ofegou. Ela estava ofegante, o rosto coberto do suor do esforço
e do calor da sala.
Drake se arrastou de volta.
—A mala com rodas. —Ele não teve fôlego para explicar.
Em seu estúdio, seu cofre continha pelo menos vinte milhões de dólares em diamantes,
cartões de crédito em contas vultosas, papel moeda de vários países. Eles não teriam tempo de
esvaziar o cofre. Tinham que sair o mais rápido possível, através de uma saída secreta, que sequer
os seguranças tinham conhecimento.
—Fique aqui, eu vou buscá-la. —Grace respirou fundo e mergulhou em direção ao sofá em
chamas. Pegou a mala e voltou a seu lado num instante, colocando o ombro de novo sob seu
braço e incentivando-o a ir em frente, tudo em serenos movimentos.
O atirador usou técnicas, decidindo-se a varrer a sala a partir do extremo norte. Os tiros
foram muito distorcidos, ricocheteando, mas ainda tinha força suficiente para matar. Ele tinha um
ritmo constante, indo direto para eles.
Grace estava tremendo, tentando suportar seu peso. Ele se endireitou, afastou-se dela,
arrastou o mais rápido possível em direção à porta, empurrou por ela, então caiu para frente.
Eles desabaram em uma pilha do outro lado, Drake caindo sobre Grace. Por um segundo, ele
ficou atordoado, lutando arduamente para não desmaiar, se segurando ferozmente na
consciência. Drake percebeu Grace se movendo contra ele e tentando puxar o ar. Ela estava pálida
e suando. Drake saiu de cima dela e reuniu energia suficiente para chutar a porta.
Agora o franco atirador tinha que ver através de outra parede envolta em chamas e era bem
possível que estivessem invisíveis.
Escutavam-se batidas na porta que conduzia ao vestíbulo e disparos. Eram seus homens, que
vieram ao ouvir os disparos e os alarmes dos sensores de incêndio.

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Serie Dangerous 03

Durante um instante, Drake esteve tentado a colocar o código que abria a porta por dentro e
deixar que seus homens tomassem conta da situação. Neste momento não estava em condições
de garantir a segurança de Grace. Tinha perdido muito sangue e, se tinha uma hemorragia interna,
nem toda força de vontade do mundo faria com que permanecesse em pé.
Seus homens foram escolhidos por sua lealdade, porém existia a remota possibilidade que
um ou mais deles fossem os traidores e isso era muito para se arriscar. Se esse fosse o caso,
entregaria Grace a seus inimigos.
E isso era impensável.
Estava acostumado a correr riscos, porém não a custa de quem amava. Resultava aterrador,
mas ele tinha que fazer. Preferia morrer lutando, tratando de proteger Grace, do que entregá-la
como um cordeiro ao matadouro.
Desceram ao fundo do corredor, até o que parecia uma parede branca que, na realidade, era
uma passagem secreta que levava a um elevador oculto no edifício a que só ele tinha acesso.
A parede estava a apenas uns quinze metros de distancia, mas pareciam quilômetros.
Falou depressa, esperando dizer tudo que precisava antes de perder a consciência. Respirou
entrecortadamente e sacudiu a cabeça com a intenção de aclarar sua mente.
—Grace, existe um teclado na parede no fundo deste corredor, debaixo das flores
esculpidas. O código…— tossiu e tomou ar com dificuldade, —o código é 9076. Digita-o e a porta
se abrirá… — O cinza estava se tornando negro e sua visão escurecia. —Elevador. —Arquejou. —
Para o porão. SUV na vaga 58. — Com movimentos desajeitados, buscou nos bolsos de sua calça.
Sempre levava com ele a chave de um carro que ninguém conhecia, um telefone celular e vários
cartões de crédito. Passou a vida pronto para fugir sem prévio aviso. — A chave. — Esta pendia de
seus dedos frouxos.
Enquanto ele falava, haviam conseguido avançar alguns metros. Grace aguentava com a
maior parte de seu peso, arrastando a mala a suas costas.
Finalmente, no fim do que pareceu um século, chegaram a parede e Grace digitou o código.
Os golpes na porta de aço se fizeram mais violentos, os gritos mais fortes. Quando conseguissem,
se é que o fariam, encontrariam os restos calcinados do que fora uma vez uma cobertura de luxo.
O atirador continuava disparando de forma regular, mas havia começado com outros
cômodos, esperando acertar por casualidade.
Escutaram a suas costas que se abria um buraco na parede e Grace se apressou em ajudá-lo
a entrar no elevador. Para Drake era quase impossível levantar os pés e caminhar e se não fosse
Grace, que lhe rodeava a cintura, teria caído.
Não podia cair. Se isso acontecesse, jamais se levantaria.
Grace não precisou de nenhuma indicação. Drake tinha sorte por apaixonar-se por uma
mulher tão inteligente. Não lhe fez perguntas nem fez nenhum comentário. As forças o
abandonavam segundo a segundo e apenas conseguia manter os olhos abertos.
Estavam em uma grande enrascada. Grace entendia isso e não despendia recursos em vão.
Se pudesse, a teria beijado.

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Desceram a uma velocidade alucinante. O elevador era uma saída de emergência e foi
projetado para baixar o mais rápido possível, mais veloz inclusive do que permitido pelas normas
de segurança.
Chegaram ao porão em questão de segundos.
Drake guardava sua frota de automóveis em uma parte separada do porão, a direita, onde
apenas ele e seus homens tinham acesso, porém o carro secreto estava separado. A vaga 58
estava à esquerda. Abriu a boca para lhe dizer que o carro estava justo ali, e então percebeu que
Grace já havia se dado conta disso. Não havia sentido ter um carro secreto longe do elevador de
emergência.
Ainda se movendo lentamente, arrastando os pés, conseguiram chegar ao Tahoe. Grace
destravou as portas com o alarme a cinco metros de distancia e se dirigiu com ele até a porta de
passageiros.
Drake sacudiu a cabeça, resistindo.
Se seus inimigos estavam atrás dele, ela tinha que embarcar primeiro e, em caso de
necessidade, sair sem ele.
Apoiou-se no carro e tratou de esclarecer este ponto para ela.
—Entre… você… primeiro. —Seus pulmões ardiam e sua voz era rouca.
Ela não prestou a menor atenção, se limitou a empurrá-lo e insistir até conseguir que ele se
acomodasse. Meteu as pernas dele para dentro, jogou a mala no banco de trás, bateu a porta e se
dirigiu rapidamente para o lado do motorista.
Drake mantinha o carro sempre pronto, com o tanque cheio. O motor respondeu
imediatamente com um rugido ao girar da chave no contato e Grace saiu da garagem sem perder
tempo, fazendo cantar os pneus e indo em disparada em direção à saída.
Depois de varias tentativas, Drake logrou êxito em fechar o cinto de segurança. Tudo se
desvanecia a seu redor. Devia agir rapidamente, antes de perder a consciência.
Quando Grace saiu como um raio da garagem subterrânea para a rua, derrapando
violentamente e escapando por um triz de um ônibus que vinha em sentido contrario, Drake
pegou o telefone do bolso. Tremendo, digitou um número que conhecia bem. Os números
telefônicos que devia saber e os de suas contas bancárias, não estavam anotados em lugar
nenhum, só existiam em sua cabeça.
O homem do outro lado da linha respondeu imediatamente.
—Chefe— disse uma voz profunda.
O alívio que sentiu Drake ao escutar aquela palavra quase o fez desmaiar. Grigori era seu
melhor piloto.
Estava nevando copiosamente e o sinal do celular não era muito bom. A Drake ficava apenas
um minuto para seguir consciente, mas o que tinha a dizer era muito importante.
—Grigori….
Um grosso fragmento metálico caiu sobre o capô do carro, rebateu e caiu pesadamente na
rua, deixando um considerável amassado no veículo. Grace gritou e perdeu o controle do carro

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durante um momento. Outro pedaço de metal desceu do céu num grande estrondo, seguido pelo
rotor de um helicóptero.
Alguém explodira o helicóptero do telhado. Drake optara instintivamente pelo chão e seu
instinto resultara uma vez mais certeiro.
Grace corria pela rua com o carro de forma irregular, os olhos abertos desmesuradamente e
o rosto mais branco que cal.
—O que está acontecendo?— conseguiu perguntar.
Drake estendeu a mão para tocar seu braço, falhou e tentou novamente. Grace se voltou um
instante para ele ao sentir seu contato, voltando sua atenção imediatamente para a branca e
gelada estrada que se estendia ante ela. Estava inclinada para frente em seu assento, aterrada,
segurando o volante com os dedos brancos. Ela não era uma boa motorista, mas teria que
continuar dirigindo. Drake não tinha condições de pegar o volante.
—Está tudo bem,— a tranquilizou Drake, apertando suavemente seu braço.
Ela não respondeu, apenas apertou os lábios e assentiu, com a vista cravada na perigosa
estrada.
Drake levou o celular ao ouvido. Parecia pesar dez toneladas.
—Grigori, escute. Deixe... o Gulfstream 420... pronto para decolar. Estou com um passageiro,
não… não sei quando chegarei. Fique junto ao avião.
—Sim, chefe— respondeu a voz grave do piloto.
A respiração de Drake se estabilizou um pouco ao escutar aquilo. Ainda que demorassem um
ano para chegar ao aeroporto de Tampa, Grigori estaria ali pronto para decolar em questão de
minutos.
Umas manchas negras cruzavam sua visão.
Sua mão ainda descansava sobre o braço de Grace.
—Grace, meu amor.
Ela não afastou a vista da estrada, tratando se segurar o volante com firmeza, mas assentiu
para que ele entendesse que o escutava.
—Temos que chegar o mais rápido possível a Tampa, Flórida. Não pare a menos que seja
necessário. Tenho um avião esperando por nós.
—Não! Você está louco? Você está ferido, Drake. E perdeu muito sangue. Tenho certeza que
os pontos do ombro abriram e as costas estão machucadas. E sofreu uma concussão,
provavelmente muito séria. Levarei você até Ben. Em qual hospital ele trabalha?
Ele estava desmaiando, sua voz estava tão fraca que mal podia ser ouvida acima do barulho
do motor, mas tinha que fazer Grace entender a importância que era saírem de Nova York o mais
rápido possível. Não fazê-lo seria suicídio.
—Me prometa... —A voz dele quebrou enquanto seus dedos apertavam seu braço. Ela o
olhou fugazmente, com os olhos muito abertos diante do seu tom de voz e logo se concentrou na
estrada de novo.

20
Jatinho particular produzido pela Gulfstream Aerospace.

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—Me prometa que não vai parar enquanto estiver acordada. Devemos...— tossiu e seu peito
pareceu estalar de dor, —devemos sair de Nova York e chegar a Tampa. Me prometa que não vai
parar até que seja necessário.
A nuvem em sua mente ficou mais espessa e seus dedos apertaram ainda mais o braço de
Grace, nos últimos vestígios de suas forças.
—Eu prometo,— soluçou Grace, dando-lhe outra olhada rápida.
Pela aterradora expressão do rosto da jovem, Drake supôs que seu aspecto não podia ser
pior.
—Não... morrerei,— lhe assegurou, esperando poder cumprir com aquele juramento.
Lutou contra a debilidade com toda sua alma, mas perdeu.
O mundo ficou negro.

Pizdets! Merda!
Rutskoi olhou a mensagem pela qual acabava de pagar outros malditos cem mil dólares.
Drake e a mulher se foram. Há sangue no corredor e nas paredes. A cobertura está
completamente calcinada e cheio de marcas de bala.
Havia sido praticamente impossível ver com a mira térmica devido ao fogo que a pintora
começou. Contra todo prognóstico, Drake e aquela raposa seguiam com vida.
O desgraçado conseguiu escapar, mas ao menos estava ferido. Ou a mulher. Ou ambos,
pensou cruelmente. Tomara que ambos. Que sangrassem até a morte na maldita calçada.
Quando compreendeu que Drake e a mulher provavelmente escaparam da sala, Rutskoi
correu para o telhado e destruiu o helicóptero com dez descargas incendiárias, observando com
satisfação como explodia o aparelho e caia na rua, transformado em pedaços em chamas. Só para
desafogar sua frustração atirou no homem que saiu da pequena guarita do telhado. Teve um
imenso prazer liquidar com o piloto de Drake.
Merda.
Tinha que se controlar. Necessitava se controlar. Obrigou-se a recuperar a racionalidade de
um frio franco atirador e logo desceu de novo as escadas.
Entrou no apartamento vazio e desmontou com tranquilidade sua Barret, colocando as
peças em seus respectivos espaços na espuma da maleta com mãos firmes, que em modo algum
delatavam o caos que reinava em seu interior.
Drake escapara. De acordo. Mas o jogo ainda não tinha terminado. Estava ferido e não
conseguiu escapar com muitos recursos.
Além do mais, estava fugindo com uma mulher com quem se preocupava. Ela o atrasaria, o
obrigaria a cometer erros. Drake atuava como um militar; era inteligente e impiedoso. Faria o que
fosse necessário para sobreviver. Mas com uma mulher a seu lado para proteger, cometeria um
erro. E então Rutskoi o pegaria.
Sabia bem como seguir uma pista.

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Tinha que contatar com Terabyte, um grupo formado por vinte gênios de pirataria
informática que trabalhavam na Estônia e que proporcionavam informação a quem pagasse o
preço adequado. Podiam averiguar o que quer que fosse. Necessita algo para comprometer seu
chefe? Em vinte e quatro horas Terabyte te entregava um dossiê junto com um vídeo do chefe se
deitando com uma prostituta. Necessitava a senha do banco de alguém? Nada mais fácil. Terabyte
podia conseguir a informação protegida em um dia, e informação de alta proteção em um dia e
meio. Dizia-se que um de seus integrantes tinha sido chefe da seção de informática da Agência de
Segurança Nacional dos EUA e que podia piratear diversos satélites militares que orbitavam à volta
do planeta.
Pelo preço certo, rastreariam o mundo inteiro em busca de qualquer sinal de Grace Larsen e
Viktor Drakovich.
Rutskoi conhecia e havia estudado seu inimigo o suficiente para saber muito de seus hábitos.
Ele os enviou sem perda de tempo a Terabyte, junto com uma lista das empresas de Drake.
Era muito provável que com a ajuda de Terabyte pudesse localizar Drake muito
rapidamente.
A mulher o entorpecia, faria com que ficasse vulnerável.
Grace Larsen seria sua morte.

Capítulo 15

Estava deitado sobre uma cama.


Chovia
Drake abriu brevemente os olhos e logo os fechou de novo por causa da dor que sentia na
cabeça. Mas não antes de ver o teto. Baixo, rachado. Cheio de fissuras que cruzavam em diagonal
o diminuto teto como um grande rio com dezenas de afluentes.
Ignorando a aguda dor que atravessava seu crânio, abriu de novo os olhos e fez um
reconhecimento do terreno.
Um quarto pequeno de dez metros quadrados. Paredes que pareciam ter sido pintadas há
muito tempo. Uma pequena televisão num suporte na parede. Um armário de plástico barato ao
qual faltava a maçaneta de uma porta. Uma mesa, uma cadeira. Uma porta aberta que dava para
um reduzido banheiro com azulejos brancos.
O colchão sobre o qual descansava era tão fino como uma esponja e assegurava uma noite
sem descanso.
Onde estavam? Em um quarto de hotel barato, mas onde?
Virou a cabeça para a mesinha de cabeceira e teve que esperar o quarto parar de girar antes
de esticar a mão até o catálogo que estava junto ao sujo telefone. Demorou uns segundos para
coordenar os movimentos da mão, mas conseguiu pegar o catálogo e trazê-lo até o rosto,
esforçando-se bravamente para enfocar a vista.

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—Jordan’s Motor Court – leu – Wallis, Carolina do Sul.


Nunca havia ouvido falar de Wallis, mas sim sabia onde era Carolina do sul.
Não via Grace em parte alguma.
Não se recordava como haviam chegado até ali e podia jurar que levava pelo menos umas
oito horas inconsciente, provavelmente mais. Se Grace tinha parado era porque esta muito
esgotada para continuar.
De modo que… onde estava?
Drake sentiu uma dor aguda no peito que nada tinha a ver com seus ferimentos e sim com
sentir falta dela. Sobreviveria a seus ferimentos. Seu corpo já estava se curando por si próprio,
podia Senti-lo. A dor muscular e a dor de cabeça não eram nada.
Mas precisava de Grace inclusive mais que respirar. Desesperadamente.
Onde ele estava?
Rodou sobre a cama, desfrutando o modo como seu corpo voltava de novo à vida com forças
renovadas.
Foi então que viu a mala.
Estava no chão, à esquerda, junto à mesa.
Aberta.
Grace nem sequer tinha se importado em fechá-la.
Drake ficou paralisado e sentiu uma mão gelada lhe oprimindo o coração e o deixando sem
ar.
Ela o abandonara.
Claro.
Era um homem perseguido. Seus inimigos estiveram a ponto de matá-la em duas ocasiões,
assassinado a seu bom amigo e acabado com seu apartamento e sua vida. Devia ter pensado que
acabariam por pegá-la se ficasse junto com ele.
Com o dinheiro da mala poderia fugir para qualquer parte do mundo.
Nem sequer a culpava. Qualquer outra mulher teria feito o mesmo. Se havia alguém neste
mundo que compreendia os imperativos do instinto de preservação, esse era ele. Grace tinha que
estar louca para ficar com ele, um homem perseguido, um criminoso. Ferido, quem sabe
moribundo, até onde ela sabia.
Entendia totalmente sua reação.
Então, por que lhe doía tanto?
Era uma dor diferente de tudo que já sentira antes, diferente de tecidos rasgados e ossos
quebrados, muito mais profunda e intensa. Sentia que algo essencial dentro dele se havia
quebrado, aniquilado, algo que habitava o fundo de seu ser, algo que a medicina não podia curar,
que nunca se curaria.
Sentia-se completamente perdido, desconectado. Nem em seus dias mais sombrios, sendo
um menino sem lugar nas ruas, se sentira tão… vazio. A força vital que sempre o sustentara se
havia esfumado, desvanecido.

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Seguramente seria capaz de se sentar, levantar e caminhar. Conseguiu sair de situações


piores, inclusive em situação física mais lamentável. Só necessitava uns pontos e antibióticos, mas,
simplesmente, não conseguia se mover.
Sabia que tinha que fazê-lo. A falta de dinheiro neste momento não significava nada. Tinha
seu celular e podia iniciar de imediato o processo de acesso a seus fundos. Requereria algum
tempo e esforço, isso era tudo.
Grigori não lhe falharia. O plano era bom, quase a prova de erros.
Seu piloto o estava esperando junto ao Gulfstream 4, em um pequeno aeroporto privado
não distante do aeroporto de Tampa, que era famoso por seu trafego comercial. Grigori teria
acesso a todos os planos de voo desde Tampa. Voariam de noite, a setecentos e cinquenta metros
de um voo comercial com rumo a Europa Oriental, mantendo-se abaixo do alcance dos motores a
jato, com as luzes de colisão apagadas, completamente invisíveis ao radar.
Cruzariam o Atlântico na cola do voo comercial e ninguém jamais saberia. Era um
procedimento padrão para os voos de Drake.
Desceriam em Montenegro, onde o Primeiro Ministro, um dos melhores clientes de Drake,
se encarregaria que os levassem de barco para a região de Apulia, na Itália, onde um carro os
esperaria para levá-los a Roma. Grace falou sobre seus desejos de visitar a Cidade Eterna e, por
Deus que queria levá-la ali.
Este era seu plano: uns poucos dias em Roma mostrando-lhe os monumentos e logo dariam
o salto até seu destino final, Sivuatu, a mil milhas de Fidji e a um milhão de milhas de lugar
nenhum.
Inclusive sem Grace, o plano era bom. De fato, tinha que ir a Roma, onde vivia o segundo
melhor falsificador do mundo. Sairam sem documentos e o signor Caselli poderia lhes
proporcionar um passaporte belga, um maltês e, quem sabe, um croata.
Mas, se Grace foi embora, para que abandonar o país? Ele estava se despojando de sua
antiga vida e criando uma nova para protegê-la.
—Sem Grace, podia voltar a sua antiga vida.
Sim, sua segurança foi violada, mas se encarregaria de reforçá-la. Colocaria placas de aço nas
janelas, mandaria os guarda-costas embora, contrataria outros novos e melhoraria a sala de
videoconferência.
Encontraria o desgraçado que o traiu e o faria pagar por isso.
Podia ocupar-se da maior parte de seus negócios através de uma webcam, e nem sequer
teria que sair de suas instalações.
Drake ficou imóvel na cama imunda contando as rachaduras no teto, dizendo a si mesmo
que devia se levantar, seguir adiante, mas sem desejo de fazê-lo. Sentia um buraco em seu peito,
um vazio, como se houvessem lhe arrancado o coração e deixado um enorme buraco no lugar.
Decidisse o que decidisse – avançar a uma nova vida ou voltar a sua antiga – tinha que fazê-
lo rápido.

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Mas não podia fazê-lo. Continuou tombado de barriga para cima, sem pensar em nada, sem
sentir nada, sem desejar nada, apenas respirando enquanto o relógio que tinha dentro de sua
cabeça marcava trinta minutos, uma hora.
De repente escutou o som de um veículo pesado freando temerariamente diante da porta
do motel e levantando uma chuva de cascalho. Ficou tenso, esperando, e, ao cabo de uns
segundos, a porta se abriu e Grace entrou com os braços cheios de pacotes.
Estava pálida, esgotada, completamente molhada. Sem perder tempo, deixou os pacotes na
cadeira e se apressou a ir para seu lado, colocando uma mão sobre sua testa.
—Graças a Deus que acordou. Não imagina o muito que me custou te deixar aqui sozinho e
inconsciente, mas você precisava de medicamentos e também roupa mais quente e comida.
Drake se levantou, apoiando-se nos cotovelos.
Grace. Por obra de algum milagre, Grace estava ali. Cansada, desalinhada, com expressão
preocupada e mais linda que nunca. Oh, Deus, ela estava ali.
—Você… voltou— conseguiu sussurrar com a garganta apertada.
Ela lhe deu uma olhada irônica enquanto lutava para desfazer os pacotes. Gazes, curativos,
roupas quentes e hambúrgueres.
—Sim, eu consegui, e sem matar ninguém, também. Sei que sou uma péssima motorista,
não é necessário que me lembre. Nunca tive carro e… — ela se interrompeu, inspirando
horrorizada e voltou a cabeça para estudá-lo com o cenho franzido. —Oh, Meu Deus. Não se
referia a isso, verdade? Drake…— Se sentou rápido na cama, como se as pernas não a
sustentassem e acariciou seu rosto com a mão tremendo —Pensou que eu não ia voltar.— O
olhou nos olhos e ele abaixou a vista —Acreditou que eu abandonei você.
Drake não podia falar. Apenas conseguia respirar. Alguma coisa invisível lhe apertava o peito
e amassava seu coração.
Agora que sua cabeça estava em uma posição um pouco mais elevada, conseguia ver que a
mala ainda estava completamente cheia de dinheiro. Grace pegou apenas o suficiente para
realizar as compras.
Oh, Deus Santo. Não cabia nenhuma dúvida de que agora ela iria embora. Acabara de
insultá-la gravemente com suas suposições. Como ia ficar? Todos os seus músculos estavam
bloqueados de dor e pesar e ele nem conseguia abrir a boca para suplicar seu perdão. A duras
penas era capaz de respirar com o peito encolhido.
No quarto reinava o silêncio absoluto, salvo pelo repicar do granizo contra a janela e o
distante barulho dos pneus molhados na estrada.
—Meu amor,— sussurrou Grace, pegando a parte posterior de sua cabeça com a mão e se
inclinando até sua testa tocar a dele. —Saiba disso. Eu nunca vou abandonar você. Eu te amo…
Não poderia seguir vivendo se não estivesse a meu lado.
Drake enterrou a cabeça em seu ombro, enfiando o nariz naquele cabelo glorioso. Cheirava a
mulher e a fumaça. Desejava apertá-la contra ele, mas suas mãos não se moviam. Elas estavam
tremendo.
Ele estava tremendo.

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Serie Dangerous 03

Uma gigantesca bola de algo, alguma violenta emoção, estava abrindo passagem de seu
peito até sua garganta, como se afiadas facas o cortassem de dentro para fora. Abriu a boca para
deixar sair e escutou um soluço. Mas isso era impossível.
Salvo que sentia as bochechas frias e úmidas.
Seu maltratado cérebro precisou de vários segundos para se dar conta de que, pela primeira
vez em sua vida adulta, estava chorando.

Roma, 02 de dezembro.

Grace se apoiou na balaustrada do terraço da luxuosa cobertura em que estavam, no alto da


Praça da Espanha, e contemplou o entardecer romano em toda sua glória. Apesar de ser
dezembro, não fazia muito frio e brilhava o sol mais vermelho e brilhante que jamais vira.
Voaram para Montenegro a partir da Flórida em um luxuoso jatinho que parecia a suíte de
um grande hotel. Durante a viagem, Drake começou a se curar bem diante de seus olhos.
Melhorava praticamente a cada minuto.
Grace sentiu verdadeiro terror durante a viagem para Tampa. Drake se mantinha consciente
a duras penas, aturdido, desorientado e sangrando por múltiplas feridas. Durante um agonizante
momento, ela acreditou que ele poderia morrer.
No entanto, quando aterrissaram em Montenegro e cruzaram o Adriático em uma lancha
para desembarcar ao norte de Bari, onde os aguardava um Mercedes, ele se sentia bem o
suficiente para se colocar ao volante. Grace objetou debilmente, mas ele se limitou a olhá-la com
um sorriso irônico, abrindo-lhe a porta de passageiros para que subisse e ela entrou no automóvel
com um suspiro de alívio. Detestava dirigir. A viagem de pesadelo até a Flórida em meio a
tempestade de neve, com um homem ferido ao lado, já havia sito bastante ruim. Dirigir na Itália?
Não, obrigada.
Drake alugou uma cobertura luxuosa num palacete renascentista em Roma, em frente ao
hotel Hassler, no alto da Praça da Espanha. Grace ficou sem fala ao entrar. O lintel21 de mármore
de Travertino sobre a colossal porta de madeira maciça com o pé direito alto, tinha um escudo de
armas datado de 1538 gravado nele, e o interior contava com uma incrível coleção de afrescos nas
paredes e tetos.
Ela ficou muito preocupada em relação ao quanto a viagem poderia prejudicar ainda mais
Drake. Mas na noite em que chegaram em Roma, ele tomou banho no colossal banheiro, saiu nu e
tirou os pontos do ombro ele mesmo.
Colocou os dedos em seus lábios antes que ela pudesse protestar e sussurrou em seu
ouvido:

21
Em arquitetura, um lintel é uma peça dura de materiais diversos (madeira, pedra, ferro, concreto, mármore etc.) que assenta nas
ombreiras ou jambas e constitui o acabamento da parte superior de portas e janelas; sendo também chamado de dintel, padieira ou
verga.

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Serie Dangerous 03

—Está tudo bem, meu amor,— antes de beijá-la.


Drake, desnudo, a beijando... apenas era capaz de lembrar o próprio nome depois disso.
Sempre quisera conhecer Roma e ele a levava a todos os lugares que desejava ver. Vestido
em um comprido casaco de caxemira que podia esconder seu forte físico, com um boné preto e
óculos escuros, a barba por fazer, passava desapercebido pela multidão, quase irreconhecível
mesmo para ela.
Drake deixou claro que aquele momento era dela. Faziam o que ela desejava, foram onde
ela queria, viram o que ela ansiava ver. Parou absorta em frente ao retrato de uma jovem (La
Fomarina) de Rafael no Museu Nacional e os guardas tiveram que expulsá-los quando chegou a
hora de fechar as portas. E mais tarde, quando se deu conta que manteve Drake em pé por três
horas enquanto ela contemplava entontecida um quadro de Tiziano no Museu Borghese, se
apressou a desculpar-se.
—Você gostou, duschka?— ele perguntou, —Está feliz?.
—Não poderia ser mais feliz,— lhe assegurou.
—Então, eu também estou— afirmou categoricamente.
Ficou em silêncio a seu lado enquanto ela passava toda manhã na Capela Sistina, absorvendo
tudo com seus olhos escuros. Embora pouco ele soubesse de arte, Grace não se surpreenderia que
fosse capaz de descrever de memória todos e cada um dos quadros que o arrastara para ver.
Era tudo tão... libertador. Durante toda sua vida tivera que dissimular sua paixão pela arte
clássica. A maioria das pessoas se entusiasmava com arte moderna, quanto mais caro e liberal,
mas a arte clássica... bah
E naturalmente, na hora de manter alguma conversação, tinha que fingir interesse por coisas
que enlouqueciam a maioria das pessoas: dinheiro, moda e fofocas.
Com Drake não tinha que esconder nenhum aspecto de sua natureza. Ao cabo de um par de
dias, se surpreendeu ao descobrir que se mantinha ereta, de forma inconsciente, inclusive, e se
deu conta que vivera ligeiramente encurvada antes, esperando a aprovação dos outros. Com
Drake não era assim. Podia ser ela mesma, de corpo e alma, e ele amava isso.
Drake a amava.
Exatamente do jeito que ela era.
A amava. Estava aí, em seu toque, em seus escassos sorrisos reservados só para ela, no
modo como a olhava.
Raras vezes saía de seu lado, e quando o fazia, era para se ocupar dos negócios. Como
nesses momentos. E ela sabia, exatamente como o sol se punha com todo esplendor antes de
voltar a sair no dia seguinte, que ele voltaria para ela.
Às suas costas uma luz se acendeu dentro do suntuoso salão digno de um príncipe.
Drake voltara.
Em um instante estava a seu lado, rodeando sua cintura estreita com seu braço forte.
Sorrindo. Grace apoiou a cabeça em seu ombro largo e suspirou. O sol estava desaparecendo por
trás da cúpula dourada de São Pedro, banhando todos os edifícios com um brilho vermelho
requintado. A Praça da Espanha esta abarrotada de gente – turistas, estudantes, famílias

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Serie Dangerous 03

desfrutando a calidez da tarde, e a suave brisa noturna levava até eles suas vozes como um
murmúrio suave. Grace estendeu o braço, abarcando toda Roma.
—É uma cidade maravilhosa, Drake. Muito obrigada por mostrá-la para mim.
Ele virou a cabeça para fitá-la.
—Te deliciar é um prazer para mim. No entanto, nosso tempo aqui está chegando ao fim,
duschka. Oxalá não fosse assim, mas é. É muito perigoso ficarmos na Europa. Guarde todas as
imagens na memória, porque a triste verdade é que nunca poderemos voltar.
Grace estava consciente disto. Ele deixou muito claro, motivo pelo qual estivera tão ansiosa
para ver todas as obras de arte que pudesse.
Drake tirou o casaco, depois retirou algo do bolso e atirou o casaco grosso numa
espreguiçadeira de vime.
—Olhe. — Entregou dois passaportes de cor Borgonha.—Estas são nossas novas identidades.
Intrigada, Grace os abriu e viu que Drake e ela eram agora malteses. Victoria e Manuel
Rabat. Passou o dedo sobre sua fotografia plastificada, roçando sua nova existência.
—Victoria,—sussurrou. —É um nome bonito.
Drake encolheu os ombros.
—Eu gosto mais de Grace. Mas não é mais Grace.
—Você sabe para onde vão Manuel e Victoria?
Ele sorriu.
—Sim. A uma ilha chamada Sivuatu, a uma hora de avião de Fidji. É muito exótica, cálida,
porém se encontra no meio da trajetória dos ventos alísios, de modo que o calor é ameno. Eu já
comprei uma casa ali para nós. É muito charmosa. Uma ala estará reservada para seu estúdio.
Espero que goste.
Grace olhou para seus olhos escuros.
—Eu vou amar,— sua voz ressoou com força.
Ele assentiu com gravidade.
—Espero, porque raras vezes abandonaremos a ilha. Será nosso novo lar em todos os
sentidos, durante o resto de nossas vidas.
—Quando iremos?
—Logo. Só tenho mais um assunto para resolver. Assim que me encarregue dele, iremos tão
rápido quanto for possível. Mas antes, há algo que devemos fazer.
Grace observou, intrigada, como ele pegava dois pequenos objetos dos bolsos de suas
calças.
Tratava-se de duas reluzentes caixas negras de verniz, com o nome Bulgari gravado em ouro
na tampa.
—Abra este primeiro—pediu Drake, colocando uma das caixas em sua mão.
Sorrindo, Grace abriu a caixa. Dentro havia uma grossa aliança de ouro vermelha, com
pedras incrustadas de cores vivas. Ametista, topázio, água-marinha...Levantou o anel a luz do
crepúsculo e contemplou as cores magníficas.

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—É incrível, Drake. Perfeito. Simplesmente perfeito. —E era. O design era claro e


requintado, as pedras brilhantes, com cortes delicados. Justamente o tipo de anel que ela
escolheria.
—Abra a outra caixa— ele pediu baixinho.
—Dois anéis. —Sorriu com suavidade. —É um tanto extravagante, não te parece...? —
Deteve-se e olhou fixamente, perplexa, para a aliança simples de ouro da segunda caixa. —Drake,
é muito grande para o meu dedo.
Ele sorriu.
—Não é para você, duschka, é para mim. —Ele retirou a aliança do veludo, colocando-a na
palma de sua mão direita e depois seus penetrantes olhos escuros se fixaram nela. —Coloque em
mim, meu amor. Você já sabe em qual dedo.
O coração de Grace começou a bater freneticamente em seu peito.
Com os dedos tremendo, pegou a aliança de ouro. Parecia pesada e cálida. Tomou sua mão
esquerda sem vacilar e deslizou o anel em seu dedo anular. Encaixava perfeitamente, igual ao seu.
Então Drake entrelaçou sua mão na dela.
—Chegaremos a nosso novo lar como marido e mulher, então nunca teremos uma
cerimônia de casamento. Teremos nosso casamento aqui e agora. —Ele apontou para a linda vista
do terraço, com seus móveis de madeira e ferro. A cidade de Roma se estendia ante eles com suas
multidões agitadas e elegantes vitrines, tudo iluminado. As cúpulas das igrejas renascentistas se
elevavam como num sonho, feito de pedra e mármore, entre um bosque de telhados ajardinados.
Sem deixar de olhá-la um só segundo, Drake levou a mão de Grace aos lábios e beijou seus
dedos. O que viu em seus olhos quase fez a jovem chorar, piscou para conter as lágrimas,
consciente de que aquele era o momento mais solene de sua vida, um momento que dividiria sua
vida em duas partes diametralmente opostas. Antes de Drake e depois de Drake.
—Grace Larsen,— sussurrou Drake. —Prometo te amar e te proteger durante o resto de
nossas vidas. —Ele engoliu com dificuldade. Seu rosto duro, normalmente impassível, mostrava
sinais de emoção: as narinas dilatadas, os profundos sulcos marcando sua boca, os músculos e a
mandíbula apertados.
Grace tremia dos pés à cabeça. No fundo, sempre acreditou que nunca se casaria. Era muito
estranha, muito excêntrica, muito antiquada para o mundo moderno. As vezes nem se importava,
pois a ideia de um casamento elegante e caro, com dezenas de convidados bêbados, seguida de
um matrimônio no qual teria que fingir constantemente ser outra pessoa, resultava insuportável
para ela.
Isso era perfeito. Absolutamente —perfeito— para ela. O homem de seus sonhos na cidade
de seus sonhos. Os dois sozinhos, jurando amor eterno um ao outro.
—Viktor Drakovich,— sussurrou. Uma emoção intensa tomou conta dela e embargou sua
voz, a obrigando a fazer uma pausa. Esperou que diminuísse o tremor nos dedos, que sua voz
ficasse firme. Um momento tão solene merecia o melhor que podia fazer. Respirou fundo uma
vez. Duas. E quando ao fim falou, sua voz era serena. —Prometo te amar e cuidar de você durante

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Serie Dangerous 03

o resto de nossas vidas. —Inclinou a cabeça até as mãos unidas dos dois e sussurrou: —Agora
somos marido e mulher.
A mão de Drake tremeu debilmente junto a dela e Grace levantou a vista, sobressaltada.
Apenas teve tempo de ver seu rosto, os músculos tensos, os olhos cravados com ferocidade nos
seus, antes que ele lhe sujeitasse a cabeça com suas mãos grandes e começasse a beijá-la
apaixonadamente. Devorando sua boca, com a língua profundamente dentro da boca dela,
saboreando-a como se estivesse morrendo e sua boca albergasse o elixir da vida.
—Minha. — Gemeu em seus lábios. —Eternamente minha.
Foi um beijo duro, quase violento, mas Grace respondeu com o mesmo ímpeto, tratando de
fundir-se a ele, aferrando-se a seus ombros em um esforço para ficar ainda mais perto. Pele contra
pele. Seus quadris encaixados nos dele. Coração contra coração.
Drake a fez caminhar de costas até o quarto, tirando sua roupa no caminho. Separou-se de
sua boca durante um microssegundo para tirar a camisa. Em questão de segundos, as calças,
cueca, meias e sapatos caíram no chão e a atraiu para ele novamente com força para seguir
beijando-a.
Grace se apoiou em seu peito amplo e o abraçou, mas seus ombros eram tão largos que seus
braços não se encontraram. Drake desprendia tanto calor que era como abraçar ferro quente. Sua
ereção era descomunal e ardente entre os dois. A jovem não pode resistir a tentação de mexer os
quadris contra ele, encantada ao sentí-lo engrossar, alargar e se endurecer ainda mais.
Ele não era o único afetado. Grace podia sentir como se umedecia, como seu corpo se
preparava para receber o dele.
Drake grunhiu em sua boca ao mesmo tempo em que encaixava um dedo no sutiã La Perla,
através da camisa de seda cor lavanda clara Valentino que comprara para ela e puxava com força.
Os botões de pérola ressoaram ao saltar pelo chão com azulejos terracota e ambas as peças
caíram no chão em um sussurro suave. Grace gemeu quando o peito desnudo de Drake foi
esmagado contra o seu, o contato com sua pele desnuda era eletrizante, tão excitante e intenso
que resultava quase doloroso.
A conduziu para a lareira ricamente talhada que alguém se encarregara de acender e, sem
abandonar seus lábios, a tombou suavemente sobre o antigo tapete, de valor inestimável, que se
estendia em frente ao fogo, colocando-se, em seguida, em cima dela.
Drake tremia pelo esforço de se controlar, mas não era necessário que o fizesse. Grace o
necessitava tanto quanto ele a ela. Nestes momentos, estar perto não era suficiente.
A língua da jovem se fundiu ferozmente na boca de Drake e seus braços se esforçaram por
estreitá-lo tão forte como podia. A chama do desejo que ardia em seu ventre percorreu seu corpo
por inteiro, queimando-a, até que sentiu sua pele estirada.
—Agora, Drake,— gemeu. —Não espere mais.
Ao ouvir aquilo, ele estremeceu como se houvesse levado uma chicotada nas costas. Em
questão de segundos, desabotoou as calças de Grace, tirando junto a calcinha, e tão logo suas
pernas ficaram livres, ele as separou com os joelhos.

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Não era necessário que o fizesse. Grace se abriu por vontade própria, ansiosa por envolvê-lo
pelos quadris. Oh, Deus, resultava delicioso sentir seu peso sobre ela, cálido e sólido, sujeitando-a,
fazendo com que se sentisse completa.
A Grace parecia uma loucura ter passado quase vinte e oito anos sem isso. Como
sobrevivera a tantas noites solitárias?
Drake se separou um pouco com o rosto tenso e os olhos entrecerrados, enquanto esticava
a mão e abria sua boceta com dos dedos.
—Tenho... que... fazer... agora.— Resmungou.
Sempre era muito cuidadoso quando a penetrava, se assegurando que estivesse pronta para
ele, mas Grace sabia que o controle de Drake estava a ponto de quebrar-se e, também, não
desejava que esperasse nessa ocasião tão especial.
Sem vacilar, abriu ainda mais as pernas e levantou os quadris em um convite tão antigo
quanto o tempo. No mesmo instante, Drake a penetrou em um forte empurrão, os músculos
duros e rígidos. Grace estava pronta, suave, úmida e acolhedora. Seu corpo inteiro o abraçou,
segurando-o, envolvendo-o com braços e pernas tão forte como podia.
Drake se moveu pesadamente dentro dela, investindo com tal potência que Grace temeu,
por um momento, que o tapete lhe deixasse marcas. Ainda assim, não se importou. Ela o
necessitava, necessitava que possuísse violentamente seu corpo, como acabava de possuir seu
coração.
Ele a penetrava de forma inclemente, sem piedade, uma a outra vez, e outra, e outra. E mais
outra. Seus quadris batiam contra os dela e o som de seus suspiros se ouvia claramente na
quietude da sala.
A fricção ardente causou um turbilhão ardente de calor no sexo de Grace e seus músculos
internos começaram a se contrair em volta do membro grosso que a enchia, a levando a um
orgasmo intenso.
Drake parou de repente, ofegante, a cabeça pendurada entre os ombros e todos os
músculos tensos. Grace o sentia tão enorme dentro dela que sabia que ele também estava
próximo do orgasmo.
—Por quê?—Sussurrou.
—Sem... proteção,— murmurou Drake. Uma gota de suor deslizou por seu rosto, pela
cicatriz oculta, para cair do queixo dele no ombro de Grace.
Instintivamente, Grace apertou suas pernas com mais força ao redor de seus quadris, as
mãos empurrando os músculos de suas nádegas duras como aço para baixo, contra ela.
—Estamos casados,—ela sussurrou em seu ouvido, desencadeando com suas palavras uma
tempestade de fogo.
Drake arqueou as costas e começou a investir em seu interior rápida e fortemente, em uma
série de profundos e bruscos embates irregulares. Estremecendo, explodiu poucos segundos
depois dentro dela com um gemido grave, quase doloroso, provocando que as contrações de
Grace se acelerassem.

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Pela primeira vez em sua vida, Grace sentiu um homem gozando dentro dela. Era glorioso.
Podia sentir as ardentes descargas de sêmen palpitando no mais profundo de seu ser, sua vagina
se umedecendo mais do jamais estivera, de modo que ele podia deslizar-se com maior facilidade.
Drake não se deteve nem sequer depois de gozar, embora recuperasse o controle dos
embates, entrando e saindo lentamente dela de forma controlada, movendo-se com fluidez
dentro de Grace agora que ela estava empapada com seu sêmen.
Ele gemeu de prazer, os olhos fortemente cerrados. Os quadris de Grace se mexiam ao ritmo
imposto por ele, totalmente sintonizada com seus movimentos. Ela sentia que se tornaram um só
ser, sentia seus movimentos dentro e fora dela, seu corpo fazendo parte dela.
Com um gemido de prazer, começou a gozar novamente com espasmos potentes e quase
dolorosos que pareciam vir de todo seu corpo. Ele seguia cavalgando dentro dela, sem lhe dar
trégua, prolongando as contrações, até que finalmente, gozou junto com ela.
Ao fim, esgotado, caiu sobre seu corpo. Seu enorme peito se movia como um fole para inalar
o ar. Seu corpo lasso era incrivelmente pesado, e Grace tinha que se esforçar para respirar, era tão
pesado, que podia sentir suas articulações distendendo-se sobre ela.
Mas Grace desfrutou, o abraçando tão forte como era possível. Seu peso a fazia sentir que
pertencia realmente a este mundo, quem sabe pela primeira vez na vida.
Recobrou a consciência pouco a pouco. Havia substituído o romance em sua vida pelas
novelas românticas e, nos livros, essas coisas nunca eram tão... terrenas.
O cheiro de sexo enchia o ar, mais forte que o cheiro de madeira queimada. Tinha o cabelo
enredado e se encontrava completamente coberta de suor, igual a Drake. A parte interna de suas
coxas estava empapada e sem dúvida deixaram uma mancha molhada naquele antigo tapete
persa, de valor incalculável, o mesmo tapete que, provavelmente, lhe causara uma queimadura
por causa da fricção.
Seus músculos doíam, braços e pernas caíram pesadamente quando soltou Drake, embora
uma parte dela ainda o abraçasse. Ele continuava dentro dela, um pouco mais relaxado que antes,
porém em um estado de semi-ereção.
Grace se moveu um pouco para encontrar uma posição mais cômoda, achando difícil com
aquele peso sobre ela. Quando seus quadris se moveram, Drake endureceu ligeiramente dentro
dela e Grace quase começou a rir.
Terá que esperar um pouco, esteve a ponto de dizer, porém não tinha forças.
Estava acabada, molhada, suada e não podia se sentir mais feliz.
Finalmente, Drake levantou a cabeça com os olhos meio fechados e um leve sorriso no rosto.
A beijou na orelha e sussurrou três curtas palavras em um idioma que ela nunca escutara.
—Eu também te amo, Drake.—Sussurrou.

Capítulo 16

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Marina Lido di Ostia


A 20 milhas de Roma, na costa da Tirreno
4 de dezembro

Rutskoi desligou de má vontade o motor de popa e olhou com ódio a inquietante água negra
que o rodeava.
Era um militar dos pés à cabeça. Em terra podia lutar contra qualquer coisa. O exército russo
salvara a Rússia de Napoleão e de Hitler. Entretanto, o que fez a marinha russa? Nada.
Não o ajudava em nada não saber nadar. Em uma piscina podia defender-se e tratar de não
se afogar, mas isso era tudo.
Imaginara seu confronto final com o inimigo em terra. Ele sairia vitorioso e Drake estaria
estirado no chão em uma poça formada com seu próprio sangue. Não no mar. Mas aqui estava, na
água, um elemento desconhecido.
Ele passou para Terabyte uma lista com todos os nomes conhecidos utilizados por Drake,
incluindo dois utilizados em apenas duas ocasiões. E qual não foi a surpresa quando setenta e duas
horas depois lhe informaram que um cartão de crédito com o nome de Serge Blansky foi utilizado
em Ostia, uma pequena cidade portuária nos arredores de Roma.
Blansky era o nome que Drake utilizara em Osetia, quando se encarregava de fazer chegar os
suprimentos aos rebeldes. Pelo que Rutskoi sabia, Drake só empregara esse nome durante o mês
que passou negociando em Tskhinvali. Levando tudo em consideração, Rutskoi se lembrara e
incluirá esse nome entre as doze identidades conhecidas por Drake.
Ao que parecia, Serge Blansky reservou um apartamento em Lido di Ostia, em um hotel
cinco estrelas que era o estilo de Drake, e comprou uma Lamborghini de um comerciante local.
Quantos Blansky existiam que possuíam tanto dinheiro?
Rutskoi manteve o hotel sob vigilância a cem metros de distância, mas nem sequer
conseguira ver Drake. Estava muito consciente de que uma operação de vigilância como essa
requeria uma equipe de cinco a seis homens, vinte e quatro horas por dia, mas estava só.
Lide com isso, disse a si mesmo.
A boa sorte chegou na forma de um SMS enviado a seu celular pela Terabyte.
O sujeito alugou um iate de cento e cinquenta metros de uma empresa em Lido di Ostia.
Nome do iate: Bella Mia. Preço: 10.000 euros ao dia.
Rutskoi disparou até o porto e alugou uma pequena lancha. Não foi difícil encontrar o iate.
Ali estava, a meio quilômetro; cento e cinquenta e quatro metros de casco branco brilhante de
metal, tão reluzente que lhe doíam os olhos através dos binóculos. Em um dos lados se podiam ler
as palavras Bella Mia em itálico.
Não havia tempo para reunir uma equipe de mergulhadores, já que Drake podia desaparecer
a qualquer momento. E, em todo caso, estava só naquilo. Buscou um ponto tranquilo longe do
porto e se instalou para vigiar. Drake não estava no hotel, se encontrava no iate. Apostava os dez
milhões que tinha razão.

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Provavelmente fodendo a tal Grace Larsen neste momento.


Muito bem, Drake, pensou Rutskoi, sem perder de vista o iate através dos binóculos,
desfruta dessa maldita raposa enquanto pode.
Já escurecera. Uma hora antes, ao entardecer, todas as luzes do iate se acenderam. Oh, sim,
Drake se encontrava no iate sem dúvida alguma.
Rutskoi tinha um binóculo com visão noturna e podia ver o impressionante barco com tanta
nitidez como se fosse meio dia. As plataformas da embarcação estavam desertas. Era muito
provável que, em um acesso de loucura induzida pela testosterona, Drake tivesse demitido toda a
tripulação.
Cheio de determinação, começou a remar torpemente até o lado esquerdo do barco.
Embora já estivesse escuro e suas roupas fossem escuras, era muito consciente de sua
vulnerabilidade enquanto remava silenciosamente para o iate. Se houvessem guardas a bordo,
apenas uma olhada casual sobre a amurada do iate e seria um homem morto.
Finalmente, depois do que pareceu uma eternidade, chegou a proa do iate. Esticou a mão
para tocar o casco, ainda quente do sol, e se agarrou à escada que estava pendurada em um dos
decks. Isso era melhor. Rutskoi era ágil e atlético, assim não demorou em amarrar sua lancha na
escada e subir por ela, contente em abandonar a lancha.
Subiu com cuidado, sem fazer o mínimo ruído. Levava consigo óculos de visão noturna e
uma Glock 17 que um ex-oficial das forças especiais russas lhe dera. Uma arma limpa, sem marcas
que a identificassem. Contava com três cargas caso o iate estivesse estreitamente vigiado, embora
não o acreditasse. Olhando detidamente por cima dos óculos de visão noturna, viu que o deck
permanecia vazio. Não havia guardas que impedissem sua missão.
Drake se sentia seguro, fugindo com sua amante. Não esperava os problemas que neste
exato instante percorriam seu iate.
Se, por acaso a pistola não fosse suficiente, Rutskoi contava ainda, com duzentos e vinte e
cinco gramas de C-4, um temporizador e detonadores. Seu plano ‘B’ consistia em acionar o
temporizador, voltar a sua pequena lancha e contemplar de uma distância segura enquanto o
maldito iate voava pelos ares.
Ficou lentamente em pé, em silêncio, tenso ao ouvir vozes. O riso borbulhante de uma
mulher e o tom mais grave de um homem. Música. Tudo sob a cobertura.
O que era perfeito, já que lhe proporcionava a vantagem de se encontrar em terreno
superior, espaço para manobrar e o elemento surpresa.
Em silêncio, Rutskoi seguiu os sons da música e risos, e desceu as escadas.
Sentia-se vivo, caçando.
Aquilo ia ser muito mais fácil do que pensara. Até o momento não viu ninguém. Parecia que
as únicas pessoas a bordo eram a mulher e Drake, cuja voz reconheceu ao se aproximar da porta
fechada da sala.
Não havia guardas. Ao que parecia, Drake acreditava estar a salvo e abandonara toda
precaução. O amor convertia os homens em idiotas.

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Rutskoi se aproximou lentamente da porta, colocando um dispositivo de escuta contra a


reluzente madeira. O som era recebido em seu fone de ouvido.
Escutou o mesmo que antes, apenas com mais nitidez. Música ao fundo e Drake falando de
forma relaxada com uma mulher.
A porta era do tipo que desliza e Rutskoi comprovou isso com extremo cuidado movendo-a
apenas um milímetro.
Não estava fechada com chave.
Deus, Drake merecia morrer.
Rutskoi alavancou ligeiramente a porta para comprovar quanta força teria que empregar
para abri-la, colocou a mão entre o painel e a abertura e se agachou.
O ideal seria contar com uma equipe de quatro pessoas. Duas entrando pela direita e duas
pela esquerda.
Mas estava sozinho e tinha que tomar todas as precauções possíveis. Se Drake tivesse uma
arma – e, por mais apaixonado que estivesse, a Rutskoi resultava difícil acreditar que não tivesse
uma arma ao seu alcance, – a apontaria automaticamente para sua cabeça.
Sem perda de tempo, Rutskoi empurrou com força a porta até ao final, entrou pela abertura
rapidamente empunhando a pistola com ambas as mãos, preparado para tudo, e encontrou…
Nada.
A sala estava vazia. Grande, belamente decorada e… vazia.
No entanto, Drake e a mulher seguiam conversando e a música tocando.
O que estava acontecendo ali?
A música e a voz da mulher pararam de repente.
—Então era você, Rutskoi,— disse a voz de Drake. O ex-militar russo se virou rapidamente,
mas só viu a parte de trás de um lap top aberto na mesa. —Eu já esperava.
Rutskoi deu a volta na mesa.
Merda! O rosto de Drake ocupava toda a tela. O sacana estava em outro lugar, usando uma
webcam.
Era uma armadilha.
—Ah, Rutskoi—, disse Drake suavemente. —Você me decepcionou.
O ex-militar podia sentir como os dez milhões de dólares escapavam por seus dedos, como
se fossem areia. Sua única esperança era deixar Drake bravo, surpreendê-lo de algum modo para
que cometesse um erro.
Inclinou-se até a tela, olhando fixamente a diminuta webcam presa na parte superior do
aparelho.
—Desta vez você se livrou, Drake,— grunhiu, mostrando a Glock, —mas eu ainda te pego. A
você e essa vadia que o acompanha. Pode contar com isso. —Estapeou a Glock para enfatizar.
Drake não respondeu. Limitou-se a pegar um celular e digitar um número.
A quem diabos estava chamando?

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Rutskoi de pronto escutou um som agudo e inquietante. Olhou em todas as direções e viu
uma grande caixa metálica com um contador digital. Com… Deus... Uma pequena tela de cristal
líquido em contagem regressiva: 10, 9, 8, 7…
Cheio de raiva, o ex-militar deu uma porrada no computador sobre a mesa.
...6, 5, 4, 3…
—Drake!—Gritou, —Filho da puta! Acabarei com você ainda que seja a última coisa que
faça.
—Me parece que não, Rutskoi,— respondeu Drake com voz calma.
Um microssegundo depois, o mundo de Rutskoi explodiu em uma bola incandescente.

O som da explosão chegou até o centro da cidade de Roma.

Epílogo

Sivuatu, Oceania
Um ano depois

Sua protegida deslizou para o banco traseiro da Mercedes 500, classe S, e lhe sorriu. Jim
Stanley lhe devolveu o sorriso pelo espelho retrovisor e ligou o poderoso motor.
—Me leve para casa o mais rápido possível, Jim,— disse Victoria Rabat. Em seguida olhou
para fora da janela lateral com um sorriso nos lábios.
Jim sabia o motivo do sorriso. Tinha que estar cego para não ver a discreta placa de bronze
ao lado da porta de vidro do consultório médico de onde ela acabara de sair. Doutor Rajav Singh,
ginecologista-obstetra.
Acelerou e o carro andou suavemente, embora fosse blindado e pesasse varias toneladas,
graças ao extraordinário motor alemão. Não se apressou, ainda que sua chefa o houvesse
animado a ir rápido. Se fosse fazer algo, agora que suspeitava que estava grávida, era dirigir ainda
com mais cautela, porque seu ‘verdadeiro’ chefe, Manuel Rabat, lhe cortaria a cabeça se ela
chegasse com um só arranhão.
Jim foi contratado, aparentemente, como chofer, mas deixaram muito, mas muito claro para
ele, que lhe pagariam cinco vezes seu salário normal para que exercesse o papel de guarda-costas
da senhora, não só chofer. Também haviam deixado claríssimo, que se algo acontecesse com a
senhora Rabat, ele era um homem morto.
O salário e o fato de que seu chefe – que não era nenhum estúpido – não mencionasse sua
exoneração desonrosa do exército dos Estados Unidos, algo que fora um grande obstáculo até
então, parecia bom demais para ser verdade. Jim tinha sido um Ranger, e muito bom também, até

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que quebrou a mandíbula do covarde coronel que enviou sua equipe em uma missão suicida. Jim
perdeu dois de seus melhores amigos, os nervos e, posteriormente, seu futuro.
Mas Manuel Rabat não fez menção alguma a isso nem uma só vez e se limitara a efetuar três
provas com Jim.
Levou-o ao segundo subsolo debaixo da enorme casa construída sobe uma falésia22,
impenetrável por três de seus quatro flancos, acessível unicamente por via terrestre, através de
uma cerca e vigiada por três guardas vinte e quatro horas por dia.
Todo o subsolo estava ocupado por um moderníssimo ginásio, com o melhor equipamento
que Jim jamais vira. Rabat devia usá-lo muito, como ficou evidente quando se despiu para vestir o
gi. Também havia um gi para Jim, e estava claro que se esperava que ele demonstrasse sua
destreza como lutador.
Porra, sim. Jim fora treinado no combate corpo a corpo por um expert. Seu único problema
era não quebrar os braços de seu futuro chefe.
Quinze suados e cansativos minutos mais tarde, Jim estava sobre o tatame, imobilizado.
Rabat lhe soltou e se levantou com um salto, suando muito, porém, sereno. Jim se deu conta de
que tinha lutado três assaltos com um lutador de nível mundial e que tinha sorte de não serem
inimigos, porque, do contrario, estaria morto.
Seu chefe conhecia todas as chaves das artes marciais conhecidas por Jim e algumas mais
que este ignorava. Era evidente que Rabat fora treinado na arte russa do sambo, e era um
aficionado ao savate. Quando se despiu para se banhar, Jim pode ver com clareza a potente e
grossa musculatura de Rabat e ficou impressionado. Sem dúvida ele trabalhara muito e muito
duro para ter um corpo como aquele.
Uma vez que se vestiram, Rabat o felicitou. Era a primeira vez que alguém tinha durado
quinze minutos com ele.
Foi aprovado no primeiro teste.
O segundo teste chegou cinco minutos depois, em um campo de tiro com mais de um
quilômetro e meio de comprimento, onde Jim foi posto a prova com um revolver e varias pistolas
automáticas, em diversas distâncias. Não teve o menor problema. Com cada arma, em cada
distância, foi capaz de atravessar dez vezes uma moeda de cinco centavos. Não obstante, algo lhe
dizia que Rabat podia fazê-lo com uma de dez centavos.
A terceira prova se levou a cabo em uma pista de corridas, onde o fizeram superar uma série
extenuante de testes. Uma volta a cento e trinta quilômetros por hora, condução evasiva e de
combate. Ao final do dia, lhe ofereceram o emprego com um salário que o deixaria rico ao fim de
dez anos, alojamento incluso no resort de Rabat. À senhora Rabat ele foi apresentado como seu
novo chofer, mas a Jim foi deixado claro qual seria seu trabalho.

22
Falésia é uma forma geográfica litoral, caracterizada por um abrupto encontro da terra com o mar. Formam-se escarpas na
vertical que terminam ao nível do mar e encontram-se permanentemente sob a ação erosiva do mar.

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O dinheiro justificava o fato de que se fizesse lacaio de uma puta rica. Cumpriria seu dever
sem reclamar. Porém resultou que a mulher não era nenhuma vadia. Ao fim do primeiro mês, Jim
meio que se apaixonara por ela, como o resto do pessoal.
Era linda, mas claro, isso era normal quando se tratava de homens ricos e poderosos. Se eles
não podiam ter mulheres maravilhosas, quem poderia?
Mas não era só isso. Ela tinha uma mescla de doçura e amabilidade, junto com um mordaz
senso de humor, que fez com que Jim se desse conta de que a defenderia com a própria vida ainda
que Rabat não lhe pagasse nada.
Era uma mulher extraordinária. Para não mencionar que se tratava de uma artista
excepcional. No Natal, ela lhe deu duas aquarelas de um cachorro que adotara. Duas pequenas
obras de arte, que ele mesmo emoldurou e colocou na parede aos pés da cama para que fossem a
última coisa que visse antes de dormir e a primeira ao acordar.
Ela era responsável por uma pequena, porém famosa galeria de arte no centro da cidade,
onde vendia a maioria de seus quadros. Incentivava tanto quanto possível os talentos locais, mas
os clientes dirigiam a atenção a suas obras e não tinham olhos para mais nada. Ao que parecia
vendia tudo quanto exibia no prazo de uma semana.
E, apesar de tudo, ainda sobravam suficientes quadros para cobrir cada centímetro das
paredes de sua colossal mansão. Escutara que Rabat planejava construir uma nova ala só para
albergar sua obra.
—Jim...— Victoria sorriu para o retrovisor —Sei que é um motorista prudente, mas, por
favor, poderia... acelerar? Tenho boas notícias que desejo compartilhar com o senhor Rabat.
Bom, talvez essa nova ala fosse finalmente usada para algo mais vivo que os quadros. Jim
aumentou a velocidade em oito quilômetros por hora. Rabat era extremamente protetor. Se algo
acontecesse a sua esposa grávida...
Jim estremeceu só de pensar.
A suas costas, os longos e delicados dedos de Victoria tamborilavam sobre o encosto de
braços, mas não lhe disse mais nada. Não era uma mulher insistente nem caprichosa.
Ao fim de uns poucos minutos, chegaram as grandes portas de aço, que eram apenas uma
mostra do férreo sistema de segurança de Rabat. Tinha mais: sensores de movimento, câmaras de
visão térmica, cabos com armadilhas. Discretos, ocultos, mas aí estavam. Rabat era poderoso e
muito rico. Surgira do nada fazia um ano e ao cabo de um mês se convertera no proprietário de
três companhias aéreas, que aterrissavam e decolavam do aeroporto de Sivuatu, quatro
companhias de navios e duas empresas de cruzeiros que operavam a partir do porto.
Jim deu uma olhada pelo espelho retrovisor enquanto atravessava os portões. Victoria agora
estava sentada na beira do assento, recolhendo suas coisas com um sorriso nos lábios que
reservava exclusivamente a seu marido.
E aí estava ele, esperando sua esposa, como de costume.
Jim conduziu devagar pelo caminho de entrada, esperando o momento que sempre lhe fazia
encolher o estômago.

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Serie Dangerous 03

Estacionou, alinhando a porta traseira do veiculo com o exato ponto onde Rabat a esperava.
Ele abriu a porta, ajudou a esposa a sair do assento traseiro antes de estreitá-la contra si e... seu
rosto se transformou. Isso nunca deixava de assombrar Jim.
Rabat era um tipo duro. Custava imaginar que aquela expressão de extrema ternura pudesse
aparecer no rosto de um homem como aquele. Toda a dureza, a brusquidão e a fria indiferença
desapareceram de seu semblante. Victoria sussurrou então algo no ouvido de seu marido e ele a
levantou dando voltas. Sua risada de felicidade ressoou na noturna brisa tropical.
Aquele era um nível de felicidade que quase assustava Jim. Finalmente Rabat baixou sua
esposa, acariciando sua bochecha com delicadeza. A expressão de amor e anseio que mostrava
seu rosto era tal, que Jim desviou seu olhar com o peito encolhido.
Algumas coisas eram demasiadas belas para serem vistas por meros mortais.
Como olhar diretamente para o sol.

Fim

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