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Charles studd, Hudson tayler .

John Wesley, withefield geronimo savonarola, david brainerd

Apostila Carta Aos Romanos


1. 1. J Predestinação... Justificação.- 'Glorificaçã,Q Segurança 'oEterna, o Crente d .1 1 J
2. 2. i T eDlas selecionados na Carta de Paulo aos RODlanos Predestinação -Justificação - Glorificação -
Segurança Eterna do Crente
3. 3. INDÍCE GERAL CAPITULO I INTRODUÇÃO À EPÍSTOLA AOS ROMANOS HISTÓRICO 1 - Data e
lugar ... ...009 2- A igreja em Roma .009 3 - Características da Igreja em Roma 009 4 - Objetivos de Paulo
ao escrever aos Romanos O1O CAPÍTULO 11 A MENSAGEM PAULINA 1 - Pertinência do estudo 013 2 -
Fontes primárias dos escritos paulinos O13 3 - Síntese das principais características do texto e
pensamento Paulino O14 CAPÍTULO 111 TEMAS SELECIONADOS NA CARTA DE PAULO AOS
ROMANOS Nota Introdutória O16 Título I PREDESTINAÇÃO Romanos 8:29,30 1 - Considerações O18 2 -
Hermenêu tica 018 2.1 - Contexto da Mensagem - Contexto imediato O18 2.1.1 - O Espírito Santo intercede
para realizar a vontade de Deus 019 2.1.2 - A necessidade da resposta humana O19 2.1.3 - A soberana
vontade de Deus 020 3 Â j
4. 4. 2.1.4 - A soberania de Deus em cumprir Sua vontade 021 2.1.5 - O efeito da intercessão do Espírito
Santo 021 2.2 - Idéias que devem ser refutadas à partir da análise contextual imediata 022 2.2.1 - Texto
não visa demonstrar que Deus escolheu alguns para salvação 022 2.2.2 - A predestinação não é individual,
mas universal 023 2.2.3 - A imutabilidade não é quanto aos que serão salvos incondicionalmente e sIm
quanto ao curso dos acon tecimen tos .02 3 2.3.4 - Não há qualquer oposição à soberania de Deus 024 2.3
- Contexto Remoto .025 2.3.1 - O contexto do pensamento Paulino sobre o assunto 025 2.3.2 - O contexto
da visão geral das Escrituras sobre o assunto 026 2.4 - Análise textuaL 027 2.4.1 - A presciência de Deus
027 2.4.1.1 - Abrangência do termo: "Conhecer em amor" 027 2.4.2 - O decreto de Deus 029 2.4.2.1 -
Etimologia .029 2.4.2.2 - Conceito isolado ... .029 2.4.2.3 - Abrangência do termo 030 3 - Problemas por
resolver ............ .030 3.1 - A dificil interpretação dos capítulos IX e XI da Carta aos Romanos 030 3.1.1 -
Aparente contradição 030 3.1.2 - Análise contextual 031 3.1.2.1 - Motivos perceptíveis que levaram Paulo a
inserir os textos do Capítulo IX e XL 03 I 3.1.2.2 - Visão Geral dos Capítulos IX e XI 036 3.1.3 - Análise
específica de alguns textos 037 3.1.3.1 - Romanos 9: 11 038 3.1.3.2 - Romanos 9: 13 040 3.1.3.3 -
Romanos 9: 14 043 3.2 - O paradoxo da Soberania de Deus X Livre arbítrio do homem 044 4 - Análise
doutrinária: Estudo compa "ativo das principais correntes da doutrina da Predestinação 04 7 4.1.1 A
predestinação incondicional segundo Calvino 047 4
5. 5. 1 - Introdução 047 2 - Bases teóricas da Teoria da predestinação incondicional 047 3 - Conceito
Calviniano da predestinação incondicional 048 3.1 - Transliteração do entendimento de Calvino 048 4 -
Calvistas ilustres ...... ... ..049 5 - Problemas que a Doutrina de Calvino procurava solucionar 050 6 -
Posicionamento quanto a doutrina Calvinista 052 4.1.2 - A predestinação restrita segundo Jacó Arminio 053
1 - Introdução .053 2 - Bases teóricas da Teoria da Predestinação restrita 053 3 - Conceito Arminiano sobre
a predestinação restrita 054 4 - Contexto histórico da controvérsia 054 5 - A "Inquisição" Reformada. ...055
6 - O radicalismo da teoria Arminiana 055 5 - Posicionamento doutrinário: a Predestinação à Luz da Bíblia
058 5.1 Considerações .058 a) Deus predestinou o plano de salvação 059 a.l) Deus predestinou o meio
pelo qual devemos ser salvos 059 a.2) Deus predestinou a finalidade da salvação 059 a.3) Deus
predestinou o alvo da salvação 060 b) Pessoas são predestinadas para determinados serviços 060 c) Deus
não predestina o destino eterno das pessoas 061 c.l) Todos estão incluídos no plano de salvação que Deus
predestinou 061 c.2) Deus espera resp0sta ao seu plano de salvação por parte do homem 061 c.3)
Aqueles que não aceitarem aJesus, rejeitando o plano de salvação, estão perdidos 061 d) O Ensino da
Predestinação de muitos a perdição provoca grandes con tradições 062 d.l) Entra em contradição com as
afirmações quanto a pessoa de Deus 063 d.2) Entra em contradição com as afirmações quanto a pessoa
de Cristo .063 5
6. 6. d.3) Entra em contradição com a Palavra de Deus 063 dA) Causa dúvida na vida de crentes sinceros 063
d.5) Constitui-se em desestímulo à evangelização 063 Título 11 JUSTIFICAÇÃO Romanos 3:21 a 5:21 I -
Etimologia .065 1.1 - Etimologia do termo ')ustificar" (verbo) 065 1.2 - Etimologia do termo ')ustificação"
(adjetivo) 065 2 - Um histórico de divergências 066 3 -Justificação - A doutrina 067 3.1 -Justificação sentido
racionalista - Doutrina da Igreja Católica 067 3.2 -Justificação sentido forense ..068 3.3 -Justificação no
pensamento judaico 069 3.3.1 -Justificação pelo cumprimento da lei e pelas boas obras 069 4 - Concepção
perceptível no ensino Paulino 070 A) Pressupostos da Justificação no ensino de Paulo 071 a.l -
Pecaminosidade universal O7 1 a.2 - A lei somente possui efeito justificador se cumprida cabalmente 071
a.3 - Impossibilidade de Justificação pelas obras 072 aA - Ajustiça de Deus foi satisfeita 073 B) Natureza e
características da justificação no ensino Paulino 074 b.l - Real 07 4 b.2 - U niversaI 07 5 b.3 - Autonomia
ante a lei 075 b.4 - Ato eminentemente div;no 075 b.5 - Não se trata de uma ato novo 076 b.6 -Justificação
é gratuita pela graça 076 5. Demais características propostas por diversos teólogos 078 5.1 - Unicidade daJ
ustificação .078 5.2 - A justificação é instantânea 083 6
7. 7. 5.3 - Ajustificação é escatológica.. 083 5.4 - Ajustificação é externa... .084 6 - Implicações práticas da]
ustificação ...085 6.1 - Paz com Deus - Rm 5: 1 085 6.2 - Acesso à graça pela fé - Rm 5:2 086 6.3 - Firmeza
na fé - Rm 5:2 086 6.4 - Esperança na Glória de Deus - Rm 5:2 087 6.5 - Gozo nas tribulações - Rm 5:3-5
087 6.6 - Perdão dos pecados .088 6.7 - Dá vida - Rm 5: 18 089 7 - Concei to e conclusão ..089 Título lU
GLORIF1CAÇÃO Romanos 8:29,30 I - Introdução 090 2 - Usos comuns da palavra "glorificação" 090 2.1 _
"Tornar glorioso" 090 2.2 - Aspecto escatológico ...091 2.3 - Exibir o louvor 091 3 - Conceito de Glorificação
091 4 - Glorificação - aspectos gerais ...091 4.1- Características das Doutrinas Bíblicas 092 4.2 -
Glorificação é o ápice .092 4.3 - A glorificação representa o aspecto final da transformação 092 4.4 - A
glorificação é futura 093 4.5 - A glorificação é proposta para todos os homens, mas é um privilégio de cren
tes 093 4.6 - A glorificação é um processo eterno 095 4.7 - A glorificação possui aspectos ocultos (não
revelados) os quais serão revelados pela eternidade 095 4.8 - A glorificação é uma alvo superior ao
materialismo 096 5 - A glorificação no Antigo Testamento 096 7
8. 8. Título IV SEGURANÇA ETERNA DO CRENTE Romanos 8:32 - 39 I - Considerações .098 2 - Para
entender a questão alguns pontos de vistas 098 2.1 - Catolicismo Romano ... ... ..099 2.2 - Reformadores
Calvinistas ...1 00 2.3 - Reformadores Arminianos 100 2.4 - Demais correntes teológicas 100 3 - A certeza
da salvação nos escritos Paulinos 1OI 4 - Um ponto de equilíbrio 102 4.1 - a garantia de Segurança está
em Deus 103 4.2 - A real possibilidade de aposté'sia l 05 4.3 - O auxílio do Espírito Santo 106 Bibliografia
I07 8

 Apostila Carta Aos Romanos

A missiologia apocaliptica da carta aos romanos


1. FIDES REFORMATA 3/1 (1998) A Missiologia Apocalíptica da Carta aos Romanos: com ênfase em 15.14-
21 e 9–11*Atenção: a fonte grega usada neste artigo é a fonte true type Bwgrkl.tff distribuidacom o software da
Hermeneutika. C. Timóteo CarrikerPaulo escreveu a sua carta à igreja romana durante a sexta década do século
I, no final deuma estadia prolongada em Corinto, uns mil quilômetros a leste de Roma. Na maislonga(1) das
cartas paulinas existentes, tomamos conhecimento do evangelho segundo oapóstolo e ficamos sabendo um
pouco sobre sua situação missionária específica. Essasituação é a preocupação deste estudo e para ela volvemos
nossa atenção. I. OCASIÃOO contexto da Carta aos Romanos vai além da composição da igreja de Roma e dos
seusconflitos internos. Também se relaciona com a viagem antecipada de Paulo para Jerusalém(15.26), e assim
a carta resume as convicções teológicas que o apóstolo adquiriu durante operíodo que começou em 1 Coríntios
e Filipenses 3 acerca da sua evangelização de judeus egentios e da misericórdia e plano histórico-salvífico de
Deus para ambos.(2) Tal resumo, afim de ser convincente para uma audiência com a qual Paulo não teve
contato prévio, etambém devido ao seu conteúdo específico, exigiu uma interpretação
cuidadosamenteelaborada das Escrituras. Conseqüentemente, a natureza ocasional de Romanos a diferenciadas
outras cartas paulinas por causa dos seus múltiplos referenciais. Sugiro cinco deles,sendo que quatro são
geográficos e um hermenêutico.A. Quatro Referenciais GeográficosTodos os referenciais geográficos são
mencionadas pelo próprio apóstolo na sua carta. Oprimeiro se refere à sua preocupação legítima pelos cristãos
de Roma (1.13-15; e capítulos12-14,16). O segundo refere-se à sua viagem antecipada para Jerusalém (15.25-
27), oterceiro às suas reflexões a respeito do seu ministério anterior desde Jerusalém até o Ilírico(15.15-21) e o
quarto aos seus planos para ministério posterior na Espanha (15.22-24, 28-29).1. RomaO fato de que Paulo
dirige a carta aos cristãos de Roma (1.7-15) não é questão de debate.Sua preocupação com algumas questões
específicas entre eles também se auto-evidencia(capítulos 12–15). Mas o peso e a relação dessa preocupação
contextual com a carta inteira éassunto bastante debatido. Qualquer que fosse a situação histórica das
congregaçõesromanas, o seu tratamento logo é ofuscado pela "conversa" de Paulo com as Escrituras.Mesmo
assim, as questões congregacionais abordadas nessa carta não estão dissociadas dapreocupação mais ampla do
apóstolo, como pretendemos ilustrar.Em anos recentes, os estudiosos de Romanos têm focalizado a sua atenção
nas tensõesexistentes entre os judeus e os gentios nas congregações romanas. Essas tensões surgiramlogo após
o retorno dos judeus para Roma, depois do exílio decretado pelo imperador
2. Cláudio.Embora a história exata do judaísmo romano ainda não esteja clara, três das suascaracterísticas
importantes para nossa discussão podem ser destacadas. Primeiro, umagrande proporção desses judeus era
composta de cidadãos romanos, que ao mesmo tempoestavam "mais próximos da terra materna ‘ortodoxa’ que
os judeusalexandrinos."(3) Segundo, esses judeus realizaram uma obra missionária bem-sucedidaentre os
cidadãos gentílicos.(4) Essas duas características exigiram uma terceira: um altonível de organização.(5) Como
os primeiros cristãos de Roma eram também judeus e assimcultuavam em sinagogas romanas, é provável que
eles tenham possuído essas mesmascaracterísticas gerais.(6 )Há uma lacuna no nosso conhecimento da
comunidade cristã romana, no período entre aexpulsão dos judeus em 49 AD(7) e a carta que Paulo escreveu à
comunidade em 57 AD.(8)Algumas mudanças, entretanto, são evidentes. Paulo escreve para uma comunidade
cristãpredominantemente gentílica (1.5s, 13s; 11.13s).(9) É uma comunidade grande e ativa, comboa reputação
no mundo cristão mediterrâneo (1.8; 15.14). Muitos membros provavelmenteeram atraídos de dentro das
sinagogas, fruto da obra missionária judia. As hipótesesreconstruídas da nova situação podem ser sintetizadas
assim: depois da expulsão doscristãos judaicos, os cristão gentílicos não podiam mais reunir-se nas sinagogas,
massomente em casas particulares. A observância restrita da Lei judaica rapidamente foidispensada por esses
cristãos gentílicos. O retorno subseqüente dos cristãos judaicos em 54AD, com a sua observância segundo a
Torá de rituais etnicamente orientados, criou tensãocom os cristãos gentílicos agora mais independentes.(10)É
em vista dessa situação que se entende a discussão de Romanos 14–15 acerca dos cristãos"fracos"
(predominantemente judeus) e os cristãos "fortes" (predominantementegentios).(11) Esses grupos distintos
devem aprender a conviver (15.7s).(12) Os cristãosjudaicos não devem insistir em reinvindicações baseadas na
etnia (cap. 9), mas na finalidadede Cristo em todas as coisas, inclusive na Lei (cap.10). E os cristãos gentílicos
devemhumildemente reconhecer a sua dívida para com Israel e crescer no seu apreço (cap.11).(13)Diante dessa
situação reconstruída, o que pode ser afirmado do conteúdo da carta é aintenção do apóstolo de visitar logo os
cristãos romanos. Em ocasiões anteriores, isto nãohavia sido possível (quando Cláudio promulgou seu edito de
expulsão), mas agora — quandoNero estava no trono imperial numa anunciada era dourada —, no início de 57
AD, aoportunidade havia chegado. A relação entre essa pretendida visita a Roma e o conteúdo dacarta ainda
permanece uma questão debatida. Nós esboçamos a sugestão acima. Mais duassugestões aparecem a seguir: a
viagem que Paulo esperava fazer para Jerusalém, e suaviagem também esperada para a Espanha.(14)2.
JerusalémAntes da sua visita a Roma, Paulo precisa ir primeiro a Jerusalém para entregar uma
ofertaproveniente da Macedônia e da Acaia como um fundo de assistência para a igreja-mãe(15.25s). Essa
oferta foi objeto da sua preocupação durante um bom tempo (1 Co16.1-4; 2Co 8.1-9.15). E essa é a razão
porque Paulo não poderia visitar imediatamente os cristãos deRoma.Por um lado, Paulo não convida
explicitamente os cristãos romanos a contribuirem para aoferta que fora levantada pelas igrejas que ele mesmo
havia plantado. Mas também nãomenciona a oferta inocentemente, de passagem, como a razão da sua demora.
Ao invés
3. disso, ele expõe a base teológica da oferta, que explica como "um prazer e um dever doscristãos gentílicos"
pela sua participação das bênçãos dos cristãos judaicos (15.27). O forteeco da dívida espiritual dos gentios em
relação a Israel, exposta no capítulo 11, ressoa comforça na explicação que Paulo faz da oferta. No capítulo 11,
Paulo está claramente dirigindo-se aos cristãos gentílicos (11.13). Portanto, o seu claro eco no capítulo 15 é
uma indicação deque Paulo pretende, de alguma maneira, incluir os cristãos gentílicos romanos no seu planode
entregar a oferta à igreja de Jerusalém.A fim de avaliar as palavras de Paulo nesse contexto, é preciso discutir
sua perspectiva daimportância de Jerusalém e da igreja de Jerusalém. A discussão é complexa e envolve
oentendimento específico que Paulo tem do evangelho, especialmente no que se refere aolugar da lei, que
causou conflitos com os líderes da igreja de Jerusalém e, em alguns casos,levou algumas pessoas a
questionarem sua legitimidade apostólica. Resumimos brevementeessa questão aqui.a. Paulo e a Igreja de
JerusalémA relação de Paulo com a igreja de Jerusalém era caracterizada tanto por independênciaquanto por
dependência. Das suas cartas aos Gálatas e aos Coríntios, depreende-se que elequeria manter a independência
das suas igrejas. Ao mesmo tempo e nessas mesmas cartas,Paulo reconhece que essas igrejas eram dependentes
da igreja de Jerusalém, inclusive porterem recebido dela o próprio evangelho (Gl 2.2-10; 1 Co15.3-11). O
próprio Paulo fezquestão de manter contato com a igreja de Jerusalém.(15) Esta ambivalência em relação
àigreja de Jerusalém e aos seus líderes foi conseqüência do encontro apocalíptico de Paulocom Jesus e da
transformação de orientação escatológica que se seguiu. Por um lado, Paulo,pelas suas próprias palavras, via
Jerusalém como o lugar que marcou o clímax da salvação deDeus (Ro11.26s, citando Is 59.20s; ver Sl 14.7;
53.6). Através do seu encontro apocalípticocom o Cristo ressucitado e do seu reconhecimento de Jesus como o
Messias, Paulo passou aver a igreja de Jerusalém como uma prova principal de que tal salvação, de
fato,começara.(16) A primazia de Jerusalém no cristianismo antigo para a expansão doevangelho é confirmada
por Lucas ( 24.47; Atos 1.8).(17) F. F. Bruce, citando HenryChadwick, repara que pelo menos até 60 AD "a
cristandade tem um centro geográfico e esseé Jerusalém. Os cristãos gentílicos podiam estar livres do judaismo;
mas ainda eramdevedores a Sião."(18)b. Paulo e a LeiPor outro lado, o encontro apocalíptico de Paulo com
Jesus, também pelas suas própriaspalavras, estava inseparavelmente ligado ao seu chamado como apóstolo
entre os gentios. Asimplicações desse chamado para a lei(19) e a relação do evangelho com a lei, cuja tensão
jáhavia se evidenciado no ministério de Jesus (Mc 7.1-23; Mt 15.1-20), foram cada vez maisrefinadas durante
seus primeiros anos missionários na igreja de Antioquia. Antes zeloso pelalei, Paulo sofreu uma reversão
teológica radical a partir do seu encontro com o Cristocrucificado que Deus obviamente vindicara (havia
ressuscitado). Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar, porque
está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro; para que a bênção de Abraão chegasse aos
gentios, em Jesus Cristo, a fim de que recebêssemos, pela fé, o Espírito prometido (Gl 3.13-14, citando Dt
21.23).Paulo concluíra, então, que os gentios não eram incluídos na aliança pela lei e que a própria
4. lei havia sofrido transformações a partir da vindicação de Jesus por Deus que ocorrera apesarda lei. Foi essa
perspectiva de Paulo sobre a não observância gentílica da lei(20) a principalfonte da sua tensão com alguns dos
líderes da igreja de Jerusalém. E era essa tensão, juntocom o reconhecimento por Paulo da importância de
Jerusalém, que constituía a ambivalênciada sua atitude em relação à igreja de Jerusalém.(21) Tipicamente como
os apocalipticistas,Paulo estava redefinindo o povo de Deus e conseqüentemente modificando a doutrina
judaicada eleição pela inclusão dos gentios como gentios.(22)Com esse pano de fundo, voltamos a nossa
atenção para os planos de Paulo em Rm 15.22-29de entregar a oferta à igreja de Jerusalém. Antecipando a sua
viagem para Jerusalém, Pauloprocurava o apoio das igrejas romanas para legitimar em Jerusalém a sua missão
livre-da-leiaos gentios como fundamental para o evangelho. Foi esse o ponto de vista que adquiriudurante o
período que começou em 1 Coríntios e Filipenses 3 e alcançou seu clímax na cartaaos Gálatas, que havia escrito
logo antes. Assim ele buscava o apoio prestigioso dos cristãosromanos para a defesa posterior do seu evangelho
na igreja de Jerusalém e esperava evitarem Roma o que acontecera em Antioquia.3. "Desde Jerusalém ... até ao
Ilírico"A alusão em Romanos 15.22-29 de que o ministério mais amplo de Paulo está em vista,encontra apoio
na sua referência ao resumo desse ministério em Romanos 15.14-21: "desdeJerusalém e circulando até o Ilírico"
(avpo. VIerousalh.m kai. ku,klw| me,cri tou/ VIllurikou/).A passagem receberá análise maior abaixo. Basta
reparar, por enquanto, a ênfase que Paulodá aqui à orientação divina em todo o seu ministério. Tenho, pois,
motivo de gloriar-me em Cristo Jesus nas coisas concernentes a Deus. Porque não ousarei discorrer sobre coisa
alguma, senão sobre aquelas que Cristo fez por meu intermédio, para conduzir os gentios à obediência, por
palavra e por obras, por força de sinais e prodígios, pelo poder do Espírito Santo...(15.17-19).Claramente Paulo
está preocupado com a legitimação do seu ministério anterior. Essalegitimação também se evidencia quando
Paulo estabelece como princípio apostólico chavenunca invadir o ministério dos outros (15.20-21). Ao
contrário de todas as outras cartas, anatureza ocasional de Romanos inclui, numa visão mais ampla, todo o
ministério de Paulo. Defato, como exporei mais adiante, Paulo está aqui refletindo consciente e
deliberadamentesobre o seu papel como missionário aos gentios enquanto pondera as implicações desse
fatopara o futuro e a salvação de Israel.4. EspanhaTão explicitamente quanto Paulo identifica Jerusalém como o
seu destino anterior à visita aRoma, ele identifica a Espanha como o seu destino posterior (15.24,28).
Entretanto, pouco sediz a respeito da relação entre a sua viagem pretendida à Espanha e o conteúdo geral
dacarta. O que pode ser estabelecido com relativa facilidade é a intenção especialmentemissionária de Paulo.
Mas, agora, não tendo já campo de atividade nestas regiões e desejando há muito visitar-vos, penso em fazê-lo
quando em viagem para a Espanha, pois espero que, de passagem, estarei convosco e que para lá seja por vós
encaminhado, depois de haver primeiro desfrutado um pouco a vossa
5. companhia (15.23-24, 28b). (Minha ênfase)A expressão üüüüuüü‘üüüfV u‘mw/n propemfqh/nai ("ser
encaminhado por vocês," v. 24) erapraticamente um termo técnico nos círculos cristãos missionários, que se
referia ao apoiomoral e provavelmente também financeiro necessário para a proclamação do
evangelho.23Paulo, então, está pedindo o opoio dos cristãos romanos para a viagem missionária quepretendia
fazer até à Espanha. Assim como Jerusalém, também a Espanha não era nenhumapreocupação periférica
quando escreveu a sua carta aos romanos.Mas qual é a natureza do apoio dos cristãos romanos que o apóstolo
procura e qual é arelação desse apoio com o restante da carta? Robert Jewett recentemente sugeriu que
Pauloestava solicitando apoio financeiro e possivelmente treinamento lingüístico para sua missãoespanhola.(24)
Ele reconhece especialmente Febe, não apenas como portadora da cartaromana, mas também como uma
patrocinadora de seu ministério, que o representaria emRoma a fim de arrecadar sustento para sua missão na
Espanha. É uma hipótese interessante.Em primeiro lugar, sustém a importância do papel de Febe como a
portadora da carta, bemcomo o seu status eclesiástico,(25) social(26) e econômico(27) de prestígio diante
doscristãos romanos. Assim, Paulo demonstra alta estima por Febe bem como por outrasmulheres,
especialmente pelo seu denodado esforço (por ex., Maria, Trifena e Trifosa, ePérside — todas caracterizadas
por sua operosidade(28)) e a sua função apostólico-missionária (por ex., Priscila e Júnia(29)). Segundo, é uma
explicação melhor do motivo porque Paulo iria visitar em primeiro lugar um centro cristão que ele mesmo não
havia fundado,antes de proceder para a Espanha, quando na mesma carta ele afirma que não era a suapolítica
construir em cima do fundamento dos outros (15.20). Que lugar melhor que Romapara uma missão a uma
colônia latina?(30) Terceiro, fornece um tópico apropriado doassunto (16.2) que Febe iria tratar com os
romanos na sua visita, a saber, o pedido desustento financeiro a eles, tomando como exemplo o que ela mesma
estava fazendo. Efinalmente, porém mais cautelosamente, a sugestão nos proporciona um motivo para a
longalista de nomes em Romanos 16.3-15, como um rol sugestivo e potencial dos sustentadoresda campanha
espanhola de Paulo.(31) A hipótese de Jewett constitui um avanço significativona nossa compreensão de mais
uma possível ocasião desta carta e deveria ser exploradarigorosamente. Entretanto, é importante ressaltar a
observação feita anteriormente de que acarta, de fato, não elabora essas ocasiões. Trata-se das nossas melhores
reconstruçõeshistóricas e não de fatos históricos explícitos. É seguro concluir que Paulo encoraja algum tipode
cooperação por parte dos cristãos romanos para a sua missão à Espanha. Jewett nosoferece uma boa hipótese a
ser melhor investigada. A cooperação incentivada pode terincluído participação financeira e lingüística; e Febe
parece ter tido um papel importante.Mesmo assim, a carta ainda se caracteriza por uma extensa elaboração
teológica e é ateologia que melhor indica o contexto ou os contextos da carta, inclusive o apelo feito
peloapóstolo para que os cristãos romanos apóiem a sua missão espanhola. De fato, não é umateologia abstrata
e desconectada da situação missionária de Paulo. É uma teologia de missão.Krister Stendahl é um dos poucos
biblistas que percebeu isso, quando iniciou um dos seusúltimos livros com a seguinte afirmação: Romanos é a
última declaração de Paulo acerca da sua teologia de missão. Não é um tratado teológico sobre a justificação
pela fé... Quando falo de Romanos como a declaração, feita por Paulo, da sua teologia de missão, estou
convencido de que a teologia paulina tem o seu centro norteador na percepção apostólica de Paulo sobre a sua
missão aos gentios. Conseqüentemente, Romanos é central à nossa compreensão de Paulo, não por causa da sua
doutrina da justificação, mas porque a doutrina da justificação está aqui no seu contexto original e autêntico:
como um argumento a favor da posição dos
6. gentios baseada no modelo de Abraão (Romanos 4).(32)Depois de cogitar os possíveis contextos geográficos
dessa carta, a enorme ênfase dada porPaulo à defesa teológica do seu evangelho certamente indica um apelo por
apoio teológico.Isto é, a não ser que a própria interpretação de Paulo sobre as implicações do evangelho paraas
práticas ritualísticas dos cristãos judaicos e gentílicos seja convincente para os cristãosromanos, um assunto
imediatamente relevante para eles, não conseguirá o seu apoio práticopara a sua missão espanhola. E é nisso
que compreendemos a relação da sua tencionadaviagem à Espanha com a sua tencionada viagem à Jerusalém, e
também com a sua visita aRoma inserida no meio.Em Romanos, Paulo de uma só vez procura esclarecer a sua
interpretação do evangelho,revelada e ao mesmo tempo trabalhada missionariamente "na caminhada," durante o
seuministério anterior entre Jerusalém e o Ilírico, a fim de: 1) conseguir o apoio teológico doscristãos romanos
para o seu evangelho enquanto antecipa a sua visita à igreja de Jerusalém;2) recrutar apoio prático
(possivelmente lingüístico e financeiro) dos cristãos romanos parasua viagem missionária à Espanha; e 3)
incentivar a unidade entre cristãos judaicos ecristãos gentílicos em Roma, e entre Paulo e a igreja de Jerusalém.
Não era tarefa pequena!E com certeza exigia a exposição ampla e ao mesmo tempo sutil dos livros sagrados
daEscritura.B. Uma Referência HermenêuticaO referencial hermenêutico diz respeito à justificação feita pelo
apóstolo do seu(33)evangelho à luz de uma interpretação intensificada das Escrituras e tem implicações
paracada um dos referenciais geográficos. O tema hermenêutico central da carta é "o evangelho,o poder de
Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também dogentio"(34) (1.16), enquanto que a
chave hermenêutica central para abrir esse tema é"Cristo, o fim da lei para a justiça de todo aquele que crê"
(10.4).Paulo inicia a sua carta com a intenção expressa de expor o "evangelho de Deus,"euvagge,lion qeou/
(1.1), "prometido nas Escrituras Sagradas" de Israel, evn grafai/j a`gi,aij(1.2). Não é de surpreender, portanto,
que nessa carta encontremos uma proporçãoincomumente densa de referências às Escrituras. Hays cita a
tabulação de Dietrich-Alex Kochque registra 51 citações em Romanos entre as 89 de todas as cartas de Paulo.
(35) Deacordo com Hays, essas citações estão girando ao redor de um foco comum: o problema da justiça
salvadora de Deus em relação a Israel... A voz insistente e repetida das Escrituras, dentro e por trás da carta de
Paulo, põe em relevo de maneira inexorável um tema singular: o evangelho é o cumprimento e não a negação
da palavra de Deus a Israel.(36) II. EXEGESEPaulo começa sua carta com o tema apocalíptico(37) da "justiça
de Deus" (dikaiosu,nhqeou/), que guia em grande parte os seus pensamentos: Pois, não tenho vergonha do
evangelho: é o poder de Deus para a salvação de todos que crêem, primeiro o judeu, mas também o gentio.
Porque nele a justiça de Deus é revelada (evn auvtw/| avpokalu,ptetai) de fé em fé; como
7. está escrito: "O justo viverá pela fé" (1.16-17). (Minha ênfase)A leitura intertextual que Hays faz desses
versículos estabelece claramente a estruturatemática da carta como um todo.(38) Seus comentários com certeza
são reveladores. Porexemplo, o versículo 16 ecoa a linguagem do Salmo 97.2 LXX (98.2, Texto Massorético):
"OSenhor fez manifesta a sua salvação; ele tem revelado a sua justiça na presença dasnações." Na sua carta,
Paulo expande e interpreta o tema para referir-se à aplicação dajustiça de Deus aos gentios através da morte e
ressurreição de Cristo, a fim de confirmar aspromessas de Deus a Israel (15.8-9a), da mesma forma que o
versículo imediatamente apósaquele que Paulo evoca em Romanos 1.16 afirma: "Ele lembrou-se da sua
misericórdia paracom Jacó e da sua veracidade (ver Romanos 3.7; 15.8) para com a casa de Israel. Todos
osconfins da terra viram a salvação do nosso Deus" (Sl 98.3). A salvação universal e futura deDeus que o
salmista anuncia, é colocada por Paulo no tempo presente. Ecos semelhantes como mesmo efeito ouvem-se em
Isaías 51.4-5 e 52.10.Em todos esses textos, Israel no exílio é consolado pela promessa da poderosa
açãolibertadora de Deus. Essa ação será a manifestação da justica de Deus (dikaiosyne‘), porquedemonstrará,
apesar de todas as aparências contrárias, a fidelidade de Deus para com o seupovo da aliança; a salvação
constituirá uma vindicação do nome de Deus e do seu povo queconfia nele através do sofrimento e do exílio.
(39)Essas referências veterotestamentárias, e os salmos de lamentação que se encontram portrás das mesmas,
tentam fornecer uma resposta para a questão da teodicéia,especificamente a questão de como Deus pode
abandonar Israel. Isso se assemelha emmuito à preocupação que Paulo irá abordar mais adiante em sua carta
(9.27-33; 11.26-27;15.7-13,21).Hays também traz à tona ecos do Antigo Testamento na asseveração de Paulo
de que ele nãoestá envergonhado do evangelho (LXX, Sl 43.10; 24.2; Is 28.16; 50.7-8). Esses ecosencontram o
seu sentido original dentro do contexto do tema da justiça de Deus. "Paulo nãoestá envergonhado em relação ao
evangelho precisamente porque o evangelho é a vindicaçãoescatológica de Deus para aqueles que nele confiam
— e conseqüentemente da própriafidelidade de Deus."(40) De novo, é significativo que Paulo transforme a
expectativa futuraoriginal da vindicação de Deus em algo já presente.Hays também explica a citação feita pelo
apóstolo de Habacuque 2.4 em Romanos 1.17dentro do mesmo contexto da vindicação de Deus das suas
promessas a Israel. A relevânciado contexto original do profeta, ao invés dos interesses do debate teológico
acerca dadoutrina paulina da justificação pela fé, torna-se especialmente clara à luz da questão dateodicéia
levantada pelos ecos do verso anterior. Habacuque 2.4 vem como resposta de Deusà queixa do profeta de que
Deus tratou Israel de maneira injusta em relação àsnações.(41) A resposta de Deus para a questão da teodicéia
é: "o justo viverá pela minha fé"(LXX, evk pi,stew,j mou),(42) isto é, a justiça que aguardará a manifestação
futura da justiçade Deus, que para Paulo novamente se manifestou agora no presente. À medida que
Hayselabora ainda mais a sua análise da epístola, "a pergunta impulsionadora de Romanos não é‘como posso
achar um Deus misericordioso?,’ mas ‘como podemos confiar nesse Deusalegadamente misericordioso se ele
abandona suas promessas a Israel?’"(43)A. Romanos 15.14-21Em Romanos 15.14-21, o apóstolo considera
seus próprios planos missionários ligados ao seuentendimento do plano divino para a salvação dos judeus e dos
gentios, como já foi
8. elaborado nos capítulos 9-11.(44) Ao mesmo tempo, a passagem é ligada ao tema da cartaexpresso em 1.16:
"Na verdade, eu não me envergonho do evangelho: ele é o poder de Deuspara a salvação de todo aquele que
crê, em primeiro lugar do judeu, mas também do grego."Esse elo temático é estabelecido em 15.18-19: "pois eu
não ousaria falar de coisas que Cristonão tivesse realizado por meu intermédio para obter a obediência dos
gentios, em palavra eações, pela força de sinais e prodígios, na força do Espírito de Deus" (comparar também
como prefácio da epístola em 1.1-6, especialmente os vv. 4-5 e a conclusão em 16.25-27).Entretanto, o contexto
imediato da nossa passagem (Rm15.7-13) vai ainda além daintrodução (1.2-18) para incluir todas as Escrituras
hebraicas, através da referência ao louvorda fidelidade de Deus por suas promessas aos patriarcas (os judeus)
para que os gentiosglorificassem a Deus pelas suas misericórdias.(45) Paulo estabelece seu argumento na
afirmação de que as suas igrejas, nas quais os gentios de fato se reunem com os judeus na adoração a Deus,
devem ser o cumprimento escatológico da visão bíblica. Dessa maneira, então, a justiça de Deus que alcança os
gentios, proclamada no evangelho de Paulo, realmente é "prometida de antemão através dos profetas nas
Escrituras Sagradas" (Rm 1.2), e Paulo argumenta com êxito defendendo a justiça de Deus. É por isso que estas
citações em particular são uma conclusão apropriada dentro da argumentação da carta.(46)Paulo, então, em
15.14-33, vê como alvo do seu ministério, utilizando uma imagemsacrificial, trazer os gentios para Deus. Essa
oferta dos gentios (h`‘ prosfora. tw/n evqnw/n,verso 16) refere-se à sua obediência a Deus (u‘`pakoh.n
evqnw/n, verso 18, comparar com16.26) e ecoa Isaías 66.20, onde os filhos de Israel, de todas as nações, serão
trazidos comooferta ao Senhor. A missão de Paulo como ministro (leitourgo,j) de Cristo Jesus aos
gentiosenvolve um serviço sacrificial às nações, um serviço que ainda estava no futuro de Pauloenquanto ele
antecipava seu próximo passo para o ocidente (15.24). Nesse caso, asexpressões, "a oferta dos gentios" (h`
prosfora. tw/n evqnw/n, v.16) e "a obediência dosgentios" (u`pakoh.n evqnw/n, v.18), devem ser vistas no pano
de fundo da frase "aplenitude dos gentios" (to. plh,rwma tw/n evqnw/n, 11.25).(47)Por sua vez, a expressão "a
plentitude dos gentios" deriva da tradição apocalíptica judaica emgeral e de Isaías 66 em particular. O mesmo
ocorre com a compreensão da "Espanha" comoextremis terris, portanto, uma idéia corrente na época do
apóstolo. Assim, é possívelentender a sua planejada viagem para a Espanha como um prelúdio apocalíptico da
vinda dosgentios a Deus, especificamente a Jerusalém. Dessa maneira, a plenitude dos gentios(lembrando que a
Espanha é vista como o término escatológico da terra) será alcançada emcumprimento da profecia
veterotestamentária e das expectativas populares judaicas.Expondo esta pespectiva, Roger Aus conclui: Paulo
entendeu que esse texto de Isaías significava que missionários cristãos, principalmente ele próprio e os seus
assistentes, representavam uma reversão(48) completa do pensamento judaico normal a respeito do fim dos
tempos, para ganhar representantes de todas as nações gentílicas e trazê-los, os gentios, e não os judeus da
diáspora, para Jerusalém como uma "oferta" ou "dádiva" para o Senhor Jesus, o Messias. Essa seria a "oferta
dos gentios" que Paulo menciona em Romanos 15.16.(49)É somente à medida que Paulo continua sua missão
apostólica, que a "plenitude dos gentios"será realizada como prelúdio ao drama escatológico esboçado em
Romanos 9–11. Mais que
9. os outros apóstolos, o ministério de Paulo era um apocalipse (Gl 1.12,15) de Deus, um sinaldo fim iminente.
E. P. Sanders chega a dizer que "toda a obra de Paulo, evangelizando erecolhendo a oferta, tinha seu contexto
na peregrinação dos gentios para o monte Sião nosúltimos dias."(50)Quando Paulo escreveu Romanos, ele
estava numa encruzilhada do seu ministério. Já havia"completado" a proclamação do evangelho até o Mar
Adriático e agora se aproxima de Romacomo uma próxima base missionária em potencial, como foi Antioquia
da Síria durante o seuministério nas províncias da Acaia e da Ásia. O verso 19 não só esclarece a sua
própriaperspectiva a respeito do seu ministério anterior, mas também nos dá pistas a respeito dasua eventual
estratégia. Por exemplo, normalmente seguimos a orientação dos cartógrafosdas viagens missionárias de Paulo
que, seguindo as pistas de Atos 13.1-3, identificam o seuponto de partida como Antioquia da Síria. O resumo de
Paulo em Romanos 15, entretanto,identifica Jerusalém como o seu ponto de partida, de modo geral. E de fato
Lucas confirmaque Paulo esteve em Jerusalém, em missão (diakoni,a, Atos 12.25, ver 9.26-30 e Gl 1.18),antes
de prosseguir para Antioquia e para a sua "primeira viagem missionária." Depois decompletar tal viagem (At
15.2; ver Gl 2.1-10), voltou a Jerusalém para esclarecer oprocedimento da sua missão e para iniciar sua
"segunda viagem missionária." A "terceiraviagem" também foi precedida por uma visita a Jerusalém (Atos
18.22) e depois dela foi apartir de Jerusalém que Paulo foi levado preso para Roma. Portanto, Lucas não
contradiz otestemunho de Paulo de que seu ponto inicial era Jerusalém, e não Antioquia. Assim,entendemos o
apóstolo dentro da sua criação judaica e da sua formação farisaica, queprovavelmente via Jerusalém como o
centro do mundo, onde ele mesmo havia estudado (At5.34; 22.3), onde Jesus havia sido crucificado e
ressurreto, onde a igreja primitiva havia sidofundada e para onde o Salvador retornará a fim de inaugurar a nova
era (Rm 11.26s; ver Is27.9; 59.20s). Assim, não estranhamos a centralidade de Jerusalém na estratégia
missionáriapaulina.(51)Nesse sentido, a coleta mencionada em Romanos 15.25-26 demonstra a importância
deJerusalém na conceituação paulina da inauguração da era vindoura. Assim como a salvaçãovem para "todo
Israel" somente depois da salvação da "plenitude dos gentios" (Romanos 9–11), Paulo prepara não apenas uma
oferta monetária, mas também uma oferta humana. Issoele realiza de modo representativo,(52) através do
acompanhamento de um número, doutrasorte excessivamente grande, de representantes gentílicos(53) na sua
viagem paraJerusalém. A idéia, então, era provocar ciúmes em alguns dos judeus através da "plenitude"dos
gentios.(54) Somente essa motivação explica adequadamente o grande risco que Paulocorreu a fim de levar
essas "ofertas" pessoalmente a Jerusalém, um risco que levou ao seuaprisionamento e provavelmente à sua
morte.Em Romanos 15.19, Paulo não só especifica o ponto de partida das suas viagensmissionárias, mas
também resume o conteúdo e estratégia da sua atividade quando diz:"tenho completado o evangelho"
(peplhrwke,nai to. euvagge,lion). Não há outras ocorrênciasdessa expressão nas epístolas de Paulo, embora uma
expressão semelhante, "completar emvocês a palavra de Deus" (eivj u`ma/j plhrw/sai to.n lo,gon tou/ qeou/)
apareça emColossenses 1.25-27. A menção das "nações" nessa passagem aumenta ainda mais a suautilidade
para a compreensão de Romanos 15.19.A expressão pode ter vários significados. Certamente, Paulo não está se
referindo a algo queele fez com o evangelho ou a "palavra." Deus o havia dado plenamente. Paulo teria
queproclamá-lo. Também o termo provavelmente não se refere ao conteúdo da pregação dePaulo, se bem que
poderia qualificar a interpretação de Paulo das implicações do evangelhopara a inclusão dos gentios sem se
sujeitarem às exigências da lei. Afinal, isto está no pano
10. de fundo de quase todas as cartas de Paulo. Mas em Romanos 15.19 é melhor entender aexpressão "tenho
completado o evangelho" como uma referência geográfica. Pois a suaelaboração no próximo versículo
desenvolve a linha de pensamento dessa maneira e essainterpretação se enquadra no contexto temático do termo
"evangelho" nas origensmissionárias da fé, como fica evidenciado em 1 Tessalonicenses 1.2-2.16; 3.2.(55)Isso
não quer dizer que apenas Paulo fazia toda a pregação. O verso 20 não permite talconclusão. Ao invés disto,
onde outros não haviam pregado o evangelho nesta ou naquelaregião, Paulo fazia questão de pregá-lo, e dessa
forma ele "completava" ou "terminava" aatividade inicial da pregação naquelas províncias da Grécia, da Ásia
Menor, da Síria e daPalestina, onde Cristo não havia sido previamente pregado. Isso não significa que cada
localou até mesmo cada indivíduo precisava ser atingido, mas apenas que o evangelho erapregado e frutificava
dentro das principais províncias daquelas regiões. Portanto, ao"completar" o evangelho, Paulo não estava
criticando a pregação dos outros como sendoincompleta. Como ele reconhece e elogia o ministério dos cristãos
romanos (Rm 15.14), emoutras ocasiões também reconhece e elogia o ministério evangelístico de outros (ver 1
Ts1.8). Por isso mesmo, ele podia dar prioridade às regiões que considerava ainda possuidorasde lacunas.Mais
uma pista sobre a extensão e o procedimento das viagens missionárias de Pauloencontra-se em Romanos 15.19.
Se Jerusalém é seu ponto de referência, a Espanha pelomenos um alvo eventual, e o preenchimento de lacunas
regionais o seu procedimento, entãoo uso da expressão adverbial ku,klw| pode fornecer pistas sobre os seus
planos ainda depoisda Espanha, o que ele nunca chega a explicitar. No Novo Testamento, o termo
normalmentesignifica "círculo" e se liga não a VIerousalh,m ("desde Jerusalém e circunvizinhanças"), masa
VIlluriko,n ("circulando até o Ilírico").(56)John Knox sugere que ku,klw| alude a uma ou várias viagens de ida-
e-volta entre Jerusaléme o Ilírico. A idéia recebe apoio do manuscrito ocidental do texto que coloca kai. ku,klw|
depois de VIlluriko,n. Então, o apóstolo talvez esteja pensando em todo o seuempreendimento evangelístico
como algo que se passa dentro do círculo das naçõesmediterrâneas.(57) Até esse momento, Paulo havia
"preenchido" as lacunas daquelasregiões onde Cristo não fora anteriormente pregado e assim "completado" a
pregação numpercurso mediterrâneo circular de aproximadamente 90 graus. Agora ele contempla ospróximos
90 graus até a Espanha. É possível, portanto, que o uso por Paulo de ku,klw| reflitaos seus planos futuros de
continuar o círculo para as nações do Mar Mediterrâneo atéalcançar eventualmente Jerusalém no retorno, o alvo
apocalíptico das suas jornadasmissionárias circulares cada vez mais abrangentes.Nossas observações anteriores
sobre a importância de Jerusalém para Paulo como a fase finalda parousia apocalíptica de Cristo apoia essa
interpretação de ku,klw|. Essa interpretaçãotambém ajuda a esclarecer tanto a referência anterior a Jerusalém
como o ponto de partidanecessário para as atividades missionárias de Paulo (v. 19), quanto a referência mais
adiantea Jerusalém como o alvo imediato dos seus planos de viagem. Essa última referência não écasual, mas
demonstra o papel da "plenitude" dos gentios em provocar alguns dos judeus àsalvação através de ciúmes.
Conseqüentemente a ligação entre Romanos 15.14-21 eRomanos 9–11 é crucial.C. Romanos 9–11Nestes
capítulos Paulo aborda a questão crescente da vindicação divina de Israel, umaquestão que emerge como
conseqüência lógica do argumento de Paulo nos capítulos
11. anteriores de que as bênçãos da aliança de Deus agora estão graciosamente disponíveis aosgentios.(58)
Romanos 9–11 é o clímax desse argumento teológico e também serve parafocalizar a preocupação pastoral de
Paulo nos capítulos posteriores pela unidade dascongregações romanas, divididas entre cristãos gentílicos e
cristãos judaicos. Em CristoJesus, Deus demonstra a sua justiça e cumpre as suas promessas de ser uma bênção
paraIsrael e, através de Israel, abençoar todas as nações. Como essas promessas são cumpridashistórica e
teologicamente — começando com Abraão e continuando através dos profetas — éo tema de Romanos 9–11.1.
ResumoEm síntese, o argumento se desdobra assim: Romanos 9.1-5 estabelece o palco de todo oargumento dos
capítulos 9–11, ainda que em ordem um pouco diferente (ver a tabela aseguir).Comparação Temática de
Romanos 9.1-5 com Romanos 9.6–11.369.1-3 A descrença de Israel e a fidelidade de Deus 11.1-329.4-5a A
verdadeira identidade de Israel 9.6-299.5b Jesus Cristo, a chave hermenêutica 9.6-10.219.5c Doxologia 11.33-
36Primeiramente, a dor que Paulo expressa em 9.1-3 antecipa a pergunta sugerida no final (eno clímax) da
capítulo 8. O clímax é que nada poderá nos separar do amor de Deus que estáem Cristo Jesus nosso Senhor. A
pergunta que esse clímax levanta pode ser parafraseada daseguinte maneira: "E o povo da aliança do próprio
Deus? Se as bênçãos de Deus elaboradasnos capítulos 1-8 estão agora livremente disponíveis aos gentios, não
são mais ‘a adoção, aglória, as alianças, a legislação, o culto e as promessas’ ( 9.4)(59) possessão, por direito,
deIsrael?" Mas é somente depois de ser provocada mais uma vez em 10.18-21 que a perguntaserá feita
claramente em 11.1: "Pergunto então, Deus rejeitou o seu povo?"(60) A respostadesta pergunta é o enfoque de
11.1-32 e se explica através da referência ao princípio doremanescente. Um remanescente crente e fiel de
judeus está sendo salvo e isto representa ocumprimento das promessas de Deus; por essa razão, Deus está
vindicado de todas asacusações de infidelidade dentro da interpretação paulina do evangelho.(61)Em segundo
lugar, a lista de privilégios de 9.4 levanta mais uma pergunta: "Exatamentequem é o Israel de Deus?" Esta é
uma pergunta sectária natural e comum na literaturaapocalíptica. A pergunta é respondida inicialmente através
de um panorama histórico em 9.6-29 que trata da fidelidade que a aliança exige, e finalmente através de uma
exposição sobreo meio pelo qual Deus justifica em 9.30-33, este meio sendo a pedra de Sião, que assegura
avindicação divina. A eleição não é questão de descendência física e Deus não é inconsistentequando elege os
filhos espirituais de Abraão, inclusive os gentios (9.24).(62)Em terceiro lugar, o maior privilégio judeu em 9.5,
o surgimento do Messias ("sobre todos"),que é a chave para a questão da justiça de Deus ("Deus bendito para
todo o sempre"), torna-se o tema da afirmação central de 9.30-10.21 em 10.3s, que, por sua vez, não deixa
dúvidaa respeito da identidade última da pedra de Sião,(63) mencionada poucos versículos

12. antes.(64) Portanto, a justiça de alguém (tanto judeu quanto gentio,(65) 10.4, 12s) vemsomente através de fé
em Jesus Cristo (10.5-8, como foi o caso ao longo dos capítulos 1-8),especificamente através da crença na sua
morte e ressurreição (10.9-13), o alvo da lei ou oclímax da aliança,(66) que, então, exige a devida notificação
(10.14-17).Finalmente, a bênção de 9.5b em referência ao Messias em 9.5a, "Deus bendito para todo osempre,
Amém," é expandida na doxologia elaborada de 11.33-36, também precedida deuma referência ao "Libertador
de Sião" (11.26). Este é, portanto, o formato básico deRomanos 9–11 que 9.1-5 já antecipa.2. Pano de
FundoPela sua argumentação em Romanos 9–11, Paulo afirma cuidadosa mas claramente a suadependência da
direção do Espírito Santo, enquanto fala "em Cristo" (9.1-2). Mas isso nãosignifica que ele estava simplesmente
fazendo inovações teológicas sem referência àsEscrituras. Pelo contrário, o seu repetido uso da exegese
demonstra que ele procurou, e tevea convicção de encontrar, uma base sólida nas Escrituras para a sua
argumentação. QuandoPaulo usa o Antigo Testamento para expor o futuro de Israel ele se coloca dentro da
tradiçãode um "verdadeiro profeta" que enfatiza o papel criador de Deus, ao invés do seu papelsustentador.
Desse modo, a sua exposição acaba como uma crítica à perspectiva do statusquo, cuja hermenêutica de
continuidade tentava legitimar sua própria posição (exclusiva)diante de Deus.A crítica do apóstolo à
perspectiva vigente e a redefinição de Israel se manisfesta através doseu emprego e desenvolvimento de vários
temas, muitos dos quais derivam das discussõeselaboradas na literatura apocalíptica.(67) Dois desses temas
concernem à possibilidade dorestabelecimento apocalíptico(68) de Israel. Por exemplo, a "aceitação"
(pro,slhmyij, 11.15)em potencial do evangelho pelos judeus tem como resultado "vida dentre osmortos,"(69)
parte clara do drama apocalíptico.(70) De modo semelhante, a expressão "aplenitude (plh,rwma, 11.12,25) dos
gentios" também denuncia o emprego de linguagemapocalíptica.(71) Essa "plenitude" contrasta com o
"fracasso" (h[tthma) e a "transgressão"(para,ptwma) de Israel em 11.12, e com o seu "remanescente" (lei/mma)
em 11.5. O termos"fracasso" e "transgressão" apontam para a apostasia geral de Israel, especialmente
quandoentendidos à luz do tema de "ciúmes" (parazhlo,w, 11.11), que seria motivo para reverter aatitude
negativa dos judeus acerca do evangelho. Nesse caso, a reversão também seriacoletiva e "vida dentre os
mortos" provavelmente é uma alusão a Ezequiel 37(72) parareferir-se ao restabelecimento de Israel como povo
de Deus, através da sua fé em JesusCristo.(73)Ao contrastar "o remanescente de Israel" com "a plenitude dos
gentios," Paulo se refere, porum lado, à graça salvadora de Deus para alguns, e por outro lado, a um conceito
que contémum sentido includente em vez de excludente e redutor.(74) O remanescente se tornará umatotalidade
— eventualmente lei/mma se transformará em plh,rwma (11.12), isto é, pa/jVIsrah,l. A "plenitude," então,
refere-se à totalidade ainda não completada, à porção plena dasalvação de Israel não mais retida.A parábola da
oliveira tem uma função semelhante à do "remanescente." Fala tanto daexclusão de alguns judeus (descrentes)
quanto da inclusão de outros judeus (crentes). Mas aparábola é dirigida aos cristãos gentílicos (11.13) e serve
para esvaziar o orgulho dos gentiospela sua inclusão no povo de Deus em contraposição aos judeus descrentes
(galhospodados). Pois se estes últimos não permanecerem na sua incredulidade (11.23) — que Pauloconstrasta
enfaticamente com a fé em Jesus Cristo (10.4, 9-13, 17) — serão enxertados
13. novamente.Como é típico dos apocalipticistas, Paulo chama essa analogia da oliveira de um
"mistério"(musth,rion, 11.25), que na cosmovisão apocalíptica judaica é a revelação do plano divino,guardado
em segredo desde os tempos mais antigos.(75) A seqüência misteriosa — primeiro,o endurecimento parcial de
Israel, depois, a plenitude dos gentios, e finalmente todo o Israel— explica a analogia da oliveira (11.17-24),
como essa analogia, por sua vez, explica adescrição paulina da restauração de Israel como uma ressurreição
dentre os mortos (11.15-16).Mas o mistério precisa ser entendido não só dentro do seu contexto imediato
anterior. Aobservação posterior do apóstolo sobre a "revelação do mistério" (kata. avpoka,luyinmusthri,ou,
16.25s) também ilumina a nossa discussão. Aqui, o evangelho especificamentede Paulo tem como alvo "a
obediência por fé, entre todos os gentios" (ver Ef 3.1-6). Portanto,a expressão "todo o Israel será salvo" em
11.26, que expõe mais plenamente a interpretaçãodo mistério em 11.25, não pode ser compreendida de forma
que contradiga a mensagemrepetida de Paulo ao longo de toda a carta, de que a justiça de Deus se revela na
morte eressurreição de Jesus, e será imputada a todo aquele (panti. tw/| pisteu,onti, 10.4) que nelecrê.
Conseqüentemente, mesmo agora (nu/n evlehqw/sin, 11.31) a misericórdia de Deus semanifesta também aos
judeus. O próprio ministério de Paulo, mesmo como apóstolo dosgentios, também tem como alvo a salvação do
seu próprio povo judeu (11.13). Aliás, essesdois alvos estão ligados de maneira inseparável e interdependente
tanto na teologia quantona prática missionária de Paulo, e entrelaçados com a sua preocupação com os
cristãosjudaicos e gentílicos de Roma.Romanos 9–11 evidencia melhor que qualquer outra parte dessa carta a
unidade internaentre a "teologia" e a atividade missionária de Paulo. Somente aqui Paulo se
refereexplicitamente ao seu ministério como "apóstolo dos gentios" (11.13) e intercessor a favor deIsrael. Ele
está preocupado com sua missão apocalíptica específica e por isso trata do temaabrangente da própria justiça de
Deus revelada na morte e ressurreição de Jesus Cristo,agora radicalmente manifesta nesta nova era apocalíptica
para todo aquele que crê, primeiropara o judeu, e também para o gentio.3. A Salvação de IsraelPortanto,
Romanos 11.15-32 indica não só a possibilidade, mas a certeza da "plenitude" e"aceitação" de Israel. O destino
dos judeus e dosgentios está indissoluvelmente ligado. Assimcomo a desobediência dos judeus abre caminho
para a salvação (e obediência pela fé, 16.26)dos gentios, também a salvação dos gentios deverá provocar
ciúmes em Israel. Não hámisericórdia para Israel sem os gentios, mas também não há misericórdia para os
gentiossem Israel. Assim como todos foram silenciados pela sua desobediência, Deus ainda terámisericórdia de
todos. Deste modo, a relação mútua de dependência é estabelecida e Pauloconclui com uma doxologia sobre a
profundidade da riqueza, da sabedoria e do conhecimentode Deus (11.33-36).Uma comparação do uso de
plh,rwma em Romanos 11 com o seu uso em Romanos 15.19(ver os vv. 15-16), Colossenses 1.25 (ver os vv.
26ss) e 2 Timóteo 4.17, indica que a"plenitude" tanto de gentios quanto de judeus não é tanto uma referência
numérica quantouma referência representativa, coletiva, e até espacial. Refere-se à aceitação do evangelhopelo
mundo todo, entre gentios e judeus, de modo representativo. Assemelha-se à pregaçãodo evangelho entre todas
as etnias que precede a última fase dos eventos apocalípticos e a
14. manifestação do anticristo nos evangelhos sinóticos (Mateus 24.14; Marcos 13.10).Paulo entendia que tal
plenitude já estava se manifestando no seu tempo e por isso dedicava-se tanto à pregação do evangelho entre os
dois grupos. Que os gentios se beneficiaram dessasalvação no seu próprio tempo e que isto contribuía para a
sua plenitude é dito claramenteem Romanos 9–11 e aceito sem controvérsia entre os biblistas. O mesmo não é
verdadequanto à interpretação de uma salvação presente para os judeus em Romanos 11.25-27, masexiste uma
boa justificação exegética para entender-se assim.(76) Primeiramente, todo oargumento está dentro do contexto
anterior do ministério presente de Paulo não só entre osgentios, mas também entre os judeus (11.11-14). Em
segundo lugar, o argumento posteriortambém se baseia explicitamente na demonstração presente da
misericórdia de Deus paracom os judeus (i[na kai. auvtoi. nu/n evlehqw/sin, 11.31).(77) Em terceiro lugar,
osignificado de ou[twj (11.26) é, "portanto," e não "então," apesar das afirmações contrárias,e pertence à
conjunção enfática kai. (ver Gl 6.2), e não à conjunção kaqw.j, que faz partenormal da expressão kaqw.j
ge,graptai. A idéia seria: "portanto", "conseqüentemente," ou"dessa forma." Finalmente, o tempo futuro dos
verbos, "virá" e "apartará," em 11.26, seguea norma comum das citações paulinas de profecias expressas no
tempo futuro, mas que sereferem a um fenômeno no presente de Paulo. Isso inclusive ocorre várias vezes no
contextoimediato (9.25-28, 33; 10.6,13,19). Paulo não está apresentando uma seqüência temporal,mas uma
conseqüência teológica.Paulo encontra o fundamento bíblico para a salvação de "todo o Israel" em Isaías 2.3;
27.9;59.20s e Jeremias 31.34. Todas essas passagens anunciam a grande renovação da aliança noretorno de
Israel do exílio e o transbordamento das bênçãos de Israel para as nações emconseqüência da vindicação das
promessas de Deus. Para Paulo, a bênção última que viria deIsrael é o Libertador.(78) Entendido como
realidade presente, esse argumento de Paulo seaproxima muito do argumento de 9.30-10.13, onde não se faz
referência à parousia, mas àsua missão atual entre os gentios, baseada somente na fé em Jesus Cristo. "‘Todas
as vezes’que Deus remove os seus pecados, isto é, todas as vezes que os judeus vêm a crer em Cristoe assim
entram na família de Deus, naquele momento as promessas de Deus feitas há muitotempo aos patriarcas são
reafirmadas."(79)Assim como "a plenitude dos gentios" se refere coletivamente aos povos, e não a
cadaindivíduo, também "todo o Israel" se refere ao povo judeu coletivamente, mas sem incluircada israelita
(Sinédrio 10.1). Que a referência é ainda aos judeus é suficientemente claro em11.25, embora alguns
comentaristas do passado tenham entendido "todo o Israel" como aigreja cristã composta de judeus e gentios,
como no caso da expressão "Israel de Deus" emGálatas 6.16. Entretanto, os versos 28-32 não deixam dúvida de
que quem está em mentesão ainda os judeus, mesmo que agora sejam judeus crentes.(80) O paralelo entre
osargumentos acerca de "todo o Israel" e a "plenitude dos gentios" somente tem sentido se"Israel" se referir aos
crentes judeus da mesma forma que "gentios" se refere aos crentesgentios. Paulo acreditava que uma igreja
gentílica majoritária poderia facilmente desvalorizaras suas raízes judaicas (ver Ef 2.19-22). Mas, se ouvissem a
sua advertência, isso nãoprecisaria acontecer. Esse é o fundamento da preocupação de Paulo pela unidade
entrecristãos judaicos e cristãos gentílicos nas congregações romanas. E sem essa unidade, oapoio para a
missão espanhola de Paulo entre os (poucos) judeus e os (muitos) gentios teriapouco pouco sentido.
CONCLUSÃOPaulo era chamado o Apóstolo dos Gentios, e a conversão destes estava provocando
naquelemomento presente a salvação dos judeus, em conseqüência da vinda já realizada do
15. Libertador do próprio seio de Israel. Que Deus justificaria tanto judeus quanto gentios seevidencia nos
planos missionários de Paulo de prosseguir tanto para a Espanha (os "confins"do mundo gentílico) quanto para
Jerusalém (o "centro" do mundo judaico). O escopomissionário abrangente de Paulo reflete uma das
características fundamentais doapocalipticismo: o universalismo cósmico. Ele deveria levar representantes de
todos os povosgentílicos para Jerusalém e então prosseguir para Espanha, o fim do mundo gentílico.Finalmente,
a vocação e os esforços de Paulo se nutrem da sua convicção de que através damorte e da ressurreição de
Cristo, "agora" é a hora biblicamente atestada para a plenitudedos gentios e o totalidade de Israel.Romanos é a
primeira teologia de missão amplamente desenvolvida que integra os váriospropósitos de Paulo: missionário,
apologético, cristológico e pastoral. É a mais abrangenteapresentação da teologia paulina porque está
intimamente ligada à missão paulina com suasperspectivas históricas e escatológicas. Mesmo quando Paulo
elabora o seu evangelho emtermos da justificação pela fé, um tema central da teologia sistemática protestante,
ele serevela um teólogo de missão, em vez de um teólogo sistemático. Ele gasta pouca energia nadefesa
exegética da condição messiânica de Jesus. Isso estava pressuposto. Mas boa partedo seu intenso diálogo com
as Escrituras é gasta na explicação do evangelho com respeito àintegração dos gentios no povo de Deus, e
conseqüentemente à redefinição do povo de Deus.A teologia, para Paulo, era conseqüência da missão, e não
vice-versa.English AbstractPauls letters are typically characterized by their occasional concerns. His Letter to
theRomans, however, is often presented as an exception. Carriker focuses on several possibleoccasions for the
letter, especially in light of chapters 9–11 and 15.14-21. His central thesis isthat this letter too is best
understood within its occasional context, which is both a summingup of the theological insights which Paul
gained as a consequence of his previous missionarytours; an anticipation of future ministry in Jerusalem, Spain,
and possibly beyond; as well asthe divisions between Jewish and Gentile Christians in Rome, probably
concerning thecontinuing relevance of Jewish legal observances. In Romans, Pauls theologizing emerges asa
consequence of the exercise of mission, not vice versa. Other secondary argumentsinclude: 1. Romans 10.4
refers to Christ as the fulfillment of the law; 2. Romans 11.26 refersto the present salvation of (Christian) Jews;
and 3. Pauls vocation and hermeneutic areinfluenced significantly by an apocalyptic
worldview.____________________1 A melhor exposição da integridade textual do manuscrito de Romanos
com 16 capítulos é ade Harry Gamble Jr., The Textual History of the Letter to the Romans, vol. 42, Studies
andDocuments, ed. Irving Alan Sparks (Grand Rapids: Eerdmans, 1977). A evidência demanuscritos antigos e
diversificados como o -61, !, B, C, D, 81, 1739, itd, 61, vg, syrp,copsa, bo, e eth, corroboram a tese de Gamble
de que o manuscrito com dezesseis capítulosé provavelmente o mais original.2 Ver Johannes Munck, Paul and
the Salvation of Mankind, trad. Frank Clarke (Atlanta: JohnKnox, 1977) 196ss; e T. W. Manson, "St. Paul’s
Letter to the Romans - and Others," Bulletinof the John Rylands University Library of Manchester 31 (1948),
224-240. F. F. Bruce destacaa importância de três lugares: Roma, Jerusalém e a Espanha, mas não observa a
importânciado resumo que Paulo fez do seu ministério anterior desde Jerusalém até o Ilírico ("The
16. Romans Debate - Continued," em Karl P. Donfried, ed. The Romans Debate: Revised andExpanded Edition
(Peabody, Mass.: Hendrickson, 1991), 177. Os estudiosos concordam que acarta não tem em vista apenas um
propósito (ver Karl P. Donfried, "Introduction 1991: TheRomans Debate since 1977," lxix-lxxii).3 Martin
Hengel, The Pre-Christian Paul, trad. J. S. Bowden (Filadélfia: Trinity International,1991), 12. Minha
tradução.4 As queixas amargas de Horácio, Sêneca e Juvenal confirmam essa observação (Ibid., 13).Até mesmo
o forte argumento recente de Scot McKnight, de que os judeus do período doSegundo Templo não realizavam
obra missionária entre os gentios, tem que excluir o casodos judeus romanos (A Light Among the Gentiles:
Jewish Missionary Activity in the SecondTemple Period [Minneapolis: Fortress, 1991]).5 R. Neil Elliott, "The
Rhetoric of Romans: Argumentative Constraint and Strategy and Paul’s‘Dialogue with Judaism’," tese de
doutorado (Princeton Theological Seminary, 1989), 35s.6 Ibid, 38-42. Watson localiza as origens do
cristianismo romano a partir de pelo menos 41AD (Paul, Judaism and the Gentiles, 93).7 Para o
estabelecimento das datas, ver Ibid., 90s e Becker, Paul: Apostle to the Gentiles,334s, contra a tese de Gerd
Lüdemann de que a expulsão ocorreu em 41 AD (Paul, Apostle tothe Gentiles: Studies in Chronology, trad. E.
Stanley Jones, [Filadélfia: Fortress, 1984], 164-170).8 Para essa data, ver F. F. Bruce, "The Romans Debate -
Continued," 180, 181 nota 30.9 As origens do cristianismo gentílico romano permanecem misteriosas.
Watsonrecentemente propôs uma origem essencialmente paulina, baseada na intimidade da suassaudações no
capítulo 16 (Paul, Judaism and the Gentiles, 100). Esta posição, entretanto,tem que desconsiderar a falta de
contato in loco que Paulo afirma em 15.22-24.10 Nem todos os cristãos judaicos continuaram a experimentar
conflito com os gentios daigreja que estavam livres da observância da lei. Jürgen Becker corretamente nota que
entreos cristãos judeus expulsos estavam Priscila e Áquila, que anteriormente apoiaramativamente a missão
paulina em Corinto (Paul: Apostle to the Gentiles, 335s).11 Qualifica-se a observação com
"predominantemente" porque os "cristãos judaicos" podiamincluir prosélitos que continuaram a observar a Lei,
enquanto que os cristãos gentílicospodiam incluir judeus como Paulo que não observarvam obrigatoriamente a
Lei (ver Watson,Paul, Judaism and the Gentiles, 94-98).12 Havia possivelmente até oito igrejas domésticas
diferentes e polarizadas em relação aograu de adesão às práticas judaicas (ver especialmente o trabalho de Peter
Lampe, "TheRoman Christians of Romans 16," em The Romans Debate: Revised and Expanded Edition,216-
230, contra Becker, Paul: Apostle to the Gentiles, 339).13 É importante reparar que a exposição deste parágrafo
corre o risco de fazer argumentaçãocircular, ao procurar extrair inferências da carta a respeito de uma suposta
situação e depoisusar tal situação para interpretar o texto. Não é um procedimento raro na exegese. Emúltima
análise, a plausibilidade de uma situação reconstruída somente poderá ser julgada
17. pela sua integração ampla e bem-sucedida na carta inteira.14 Contra a famosa teoria de compilação de
Schmithals, não há conflito entre 1.13-15 and15.23-25. Paulo queria visitar tanto Roma quanto a Espanha
(15.23s, 28). Enquantotecnicamente ele pode estar contradizendo sua própria política de não evangelizar onde
aigreja já estava estabelecida (comparar 1.15 com 15.20), é melhor entender a ocorrência de"evangelizar" na
primeira passagem como uma maior elucidação do conteúdo do evangelho(isto se deduz de 1.12, quando Paulo
diz: "isto é, para que, em vossa companhia,reciprocamente nos confortemos por intermédio da fé mútua, vossa
e minha") enquanto quea segunda se refere ao seu trabalho pioneiro.15 Ver as suas viagens sucessivas para lá
em Atos 9.26; 11.30; 15.2; 18.22; 19.21, e oresumo geográfico da sua carreira missionária, tendo Jerusalém
como referencial chave, emRomanos 15.19.16 O pano de fundo apocalíptico da teologia paulina se evidencia,
entre outras coisas, pelomodo visionário do encontro de Paulo com Jesus (Gl 1.12), pela associação de salvação
coma igreja de Jerusalém, e pela compreensão da inauguração já do século vindouro em oposiçãoa este presente
mundo mau (Gl 1.4). Ver C.T. Carriker, "A Apocalíptica Judaica e o Evangelhode Paulo," Vox Scripturae.
Revista Teológica Brasileira 6:2 (1996), 175-204.17 Jacob Jervell acredita que Paulo endereçou a carta romana
não só à igreja de Roma, mastambém à igreja de Jerusalém (The Unknown Paul: Essays on Luke-Acts and
Early ChristianHistory [Minneapolis: Augsburg, 1984], 67).18 Ibid., 190. Minha tradução.19 A perspectiva
paulina da lei é assunto de grande debate. Entre as posturas novas, figuramprincipalmente E. P. Sanders, Paul,
the Law, and the Jewish People; James D. G. Dunn,"‘Righteousness from the Law’ and ‘Righteousness from
Faith’: Paul’s Interpretation ofScripture in Romans 10:1-10," em Tradition and Interpretation in the New
Testament. Essaysin Honor of E. Earle Ellis for his 60th Birthday, ed. Gerald F. Hawthorne e Otto Betz
(GrandRapids: Eerdmans, 1987), 216-228; Dunn, Jesus, Paul and the Law; Dunn, "The NewPerspective on
Paul: Paul and the Law," em The Romans Debate: Revised and ExpandedEdition ; Dunn, The Parting of the
Ways: Between Christianity and Judaism and theirSignificance for the Character of Christianity (Londres,
1991); e Heikki Räisänen, "Paul, God,and Israel: Romans 9-11 in Recent Research," em Social World of
Formative Christianity andJudaism, ed. Jacob Neusner, Peder Borgen, Ernest S. Frerichs e Richard A. Horsley
(Filadélfia:Fortress, 1988). Para bibliografias completas e uma excelente discussão da perspectivaalternativa e
tradicional, ver Donald A. Hagner, "Paul and Judaism. The Jewish Matrix of EarlyChristianity: Issues in the
Current Debate," Bulletin for Biblical Research 3 (1993), 111-130.Ver também o ensaio de Augustus
Nicodemus Lopes, "Paulo e a Lei de Moisés: Um EstudoSobre as ‘Obras da Lei’ em Gálatas," em Alan B.
Pieratt, ed., Chamado para Servir: Ensaiosem Homenagem a Russell P. Shedd (São Paulo: Vida Nova, 1994).20
É especialmente importante lembrar da convicção universal judaica de que a conversãoautêntica deve ser total
(ver McKnight, A Light Among the Gentiles, 47, 35, 117; e Alan F.Segal, Paul the Convert: The Apostolate
and Apostasy of Saul the Pharisee [New Haven: YaleUniversity Press, 1990], 119s.21 A discussão dessa
relação pelos estudiosos é longa e complexa. Uma das melhoresexposições é a de Craig Hill, op. cit.
especialmente pp. 145-192. Ele esclarece que embora o
18. evangelho livre-de-circuncisão de Paulo fosse reconhecido pelos líderes da igreja deJerusalém, a sua
percepção do valor relativo da lei era rejeitada. Em decorrência disto, 1)Paulo se distanciou da igreja de
Antioquia (que seguia a perspectiva dos líderes deJerusalém), e 2) o seu conflito com Pedro e os
"representantes de Tiago," fez com que o seustatus e a sua autoridade de apóstolo se tornassem mais ambíguos
(150s).22 N. T. Wright, "Putting Paul Together Again: Toward a Synthesis of Pauline Theology (1 and2
Thessalonians, Philippians, and Philemon)" em Pauline Theology, Volume 1: Thessalonians,Philippians,
Galatians, Philemon, ed. Jouette M. Bassler (Minneapolis: Fortress, 1991), 196.23 Robert Jewett, "Paul,
Phoebe, and the Spanish Mission," em The Social World of FormativeChristianity and Judaism: Essays in
Tribute to Howard C. Kee, eds. Jacob Neusner, PederBorgen, Ernest S. Frerichs e Richard A. Horsley
(Filadélfia: Fortress, 1988), 143. Ver o uso dafrase avpeleu,somai diV u`mw/n, "partir por meio de vocês," no
verso 28b.24 Ibid., 142-161; e "Following the Argument of Romans," em The Romans Debate, 266,276.25
Como dia,konoj da igreja de Cenréia, Febe provavelmente era a mestra oficial e líder dasua congregação. Que o
título devia ser entendido como um ofício eclesiático formal ao invésde uma referência genérica ao seu
"serviço," está hoje fortemente estabelecido (ver UlrichBrockhaus, Charisma und Amt: Die paulinische
Charismenlehre auf dem Hintergrund desfrühchristlichen Gemeindefunktionen [Wuppertal: Rolf Brockhaus,
1972], 100; ElisabethSchüssler Fiorenza, In Memory of Her: A Feminist Theological Reconstruction of
ChristianOrigins [Nova York: Crossroad, 1984]:171; e Bengt Holmberg, Paul and Power: The Structureof
Authority in the Primitive Church as Reflected in the Pauline Epistles [Filadélfia: Fortress,1978], 99-102).26 O
seu segundo título aparece em 16.2 como prosta,tij, "patrocinadora" ou "benfeitora," ese refere ao seu alto
status e aos seus meios financeiros elevados (Jewett, "Paul, Phoebe,and the Spanish Mission," 149s). A
significância dos patronos no mundo mediterrâneo antigoé atestado por Bruce Malina e Richard Rohrbaugh:
"Embora houvesse um aparato político,administrativo e militar na antigüidade, nada remotamente comparável à
burocraciagovernamental moderna jamais existiu. Ao invés disto, bens e serviços eram mediados porpatronos
que operavam em grande parte fora do controle governamental" (Social ScienceCommentary on the Synoptic
Gospels [Minneapolis: Fortress, 1992], 8). Minha tradução.27 Seus meios econômicos são atestados em 16:2b:
"porque tem sido protetora de muitos ede mim inclusive."28 Na lista de 26 pessoas que Paulo saúda em
Romanos 16, a palavra kopia,w é empregadasomente para essas quatro mulheres.29 Hoje, há consenso entre os
estudiosos quanto à identificação feminina da última e o seuprovável papel apostólico no sentido genérico de
"missionária." Ver Peter Lampe, "The RomanChristians of Romans 16;" John R. W. Stott, Romans: God’s
Good News for the World, TheBible Speaks Today (Downers Grove: InterVarsity, 1994), 395-97; Peter
Stuhlmacher, Paul’sLetter to the Romans: A Commentary, trad. Scott J. Hafemann (Louisville:
Westminster,1994), 248-51. Para a posição contrária, ver Augustus Nicodemus Lopes, "OrdenaçãoFeminina: O
que o Novo Testamento Tem a Dizer?" Fides Reformata 2:1 (1997), 59-84.30 Jewett cita um estudo importante
de W. P. Bowers ("Jewish Communities in Spain in the
19. Time of Paul the Apostle," Journal of Theological Studies 26 [1975]), que demonstra apresença de poucos
judeus na Espanha antes das grandes mudanças das suas populaçõesentre 70 e 135 AD. As implicações para a
estratégia missionária de Paulo são enormes: 1)sociais e econômicas: enquanto até este ponto da sua carreira
Paulo tradicionalmenteevangelizava nas sinagogas e entre os tementes a Deus, praticamente nenhum dos dois
seencontravam na Espanha; 2) lingüísitcas: havia apenas pequenas populações de fala grega.As líguas indo-
européias predominavam no centroeste e no nordeste; as línguas ibéricas nosul e no litoral leste; as línguas
púnicas nas áreas litorâneas sulistas e no noroeste; e umaampla gama de línguas tribais em todos os lugares. O
sistema latino era simplesmenteimposto e amplamente aceito, mais no sul e no leste que no oeste e no norte; 3)
políticas: ocentro político, cultural e militar era a Hispânia Ulterior, ou Baética, plenamente latinizadadesde o
período de César Augusto; 4) as Escrituras hebraicas ainda não existiam em latim."Em resumo, a missão
espanhola exigiu um nível de planejamento e apoio que representouum grande avanço em relação ao esquema
improvisado da ação missionária anterior dePaulo" (Jewett, "Paul, Phoebe, and the Spanish Mission," 147).
Minha tradução.31 Ver Jewett, "Paul, Phoebe, and the Spanish Mission," 150-53, e "Following the Argumentof
Romans," 265-277.32 Krister Stendhal, Final Account: Paul’s Letter to the Romans (Minneapolis: Fortress,
1995)ix. Minha tradução.33 Wolfgang Trilling observa que "apenas nesta obra Paulo apresenta ‘seu’ evangelho
demodo tão abrangente e claro... Nela se encontra o fruto amadurecido do seu entendimentoda fé e da sua
experiência da mesma, um documento ímpar da teologia cristã mais antiga,complexo nos seus detalhes e
extremamente compacto, freqüentemente difícil decompreender, mas sempre repleto de idéias sem precedentes
e fórmulas convincentes" (AConversation with Paul, trad. J. S. Bowden, [Nova York: Crossroad, 1987], 67).
Minhatradução.34 As traduções são normalmente do autor ou, se não, de João Ferreira de Almeida,
EdiçãoRevista e Atualizada.35 Earl Ellis, que inclui Efésios e as Cartas Pastorais na coletânea de cartas
paulinas,aumenta o número para 53, dentre um total de 93 (Pauline Theology: Ministry and Society[Grand
Rapids: Eerdmans, 1989], 34, 202). O amplo estudo de Christopher Stanley conta umtotal de 83 citações em
Romanos, Gálatas, e 1 e 2 Coríntios, das quais 53 se encontram emRomanos (Paul and the Language of
Scripture: Citation Technique in the Pauline Epistles andContemporary Literature, vol. 69, Society for New
Testament Studies. Monograph Series, ed.G. N. Stanton [Cambridge, Inglaterra: Cambridge University Press,
1992], 252).36 Richard Hays, Echoes of Scripture in the Letters of Paul (New Haven: Yale UniversityPress,
1989), 34. Minha tradução.37 O autor expõe o assunto em "A Apocalíptica Judaica e o Evangelho de Paulo,"
VoxScripturae, Revista Teológica Brasileira 6:2 (1996). Ver especialmente a seção intitulada "Oevangelho de
Paulo."38 Hays, Echoes of Scripture, 36-41.
20. 39 Ibid., 37.40 Ibid., 39. Minha tradução.41 Habacuque aguarda uma resposta de Deus acerca da queixa de
Israel (através do profeta)de que Deus não é justo (2.1). A resposta diz respeito a uma visão que "ainda está
paracumprir-se no tempo determinado, mas se apressa para o fim e não falhará; se tardar,espera-o, porque,
certamente, virá, não tardará" (2.3). Pelos seus ecos repetidos da respostade Deus à queixa de Israel por meio
do profeta, o argumento teológico de Paulo em Romanosprepara o leitor para o seu clímax em Romanos 9-11: a
demora de Deus terminou, suavindicação de Israel agora se manifesta claramente na morte e ressurreição de
Jesus,trazendo bênçãos de Deus para Israel, e, através de Israel, para as nações. Ver nossoargumento abaixo
para a elaboração dessa tese.42 A LXX trocou o hebraico "sua fé" para "minha fé" para enfatizar que é a
integridade deDeus que está em jogo. A própria exclusão feita pelo apóstolo de qualquer pronome pessoalem
Romanos 1.17 leva o leitor a afirmar os dois casos: "no evangelho a própria justiça deDeus se revela; e o
evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê(Hays, Echoes of Scripture, 41).43 Hays,
Echoes of Scripture, 53; Watson, Paul, Judaism and the Gentiles 162ss; Räisänen,"Paul, God, and Israel," 178;
Meeks, "On Trusting an Unpredictable God," 107; e J. ChristiaanBeker, "Conversations with a Friend about
Romans," em Faith and History: Essays in Honor ofPaul W. Meyer, eds. John T. Carroll, Charles H. Cosgrove e
Elizabeth Johnson (Atlanta:Scholars, 1990), 93.44 Ver C. K. Barrett, "The Gentile Mission as an Eschatological
Phenomenon," em Eschatologyand the New Testament. Essays in Honor of George Raymond Beasley-Murray,
ed. W. HulittGloer, (Peabody: Hendrickson, 1988), 69ss; e Donfried, "False Presuppositions in the Studyof
Romans," lviii.45 Ver o pano de fundo envolvendo o futuro de Israel entre as nações em 2 Samuel 22.50;Salmo
18.49-50; 117.1; Deuteronômio 32.43 e Isaías 11.10.46 Hays, Echoes of Scripture in the Letters of Paul, 71.
Minha tradução.47 Munck, Paul and the Salvation of Mankind, 49-51.48 A técnica hermenêutica paulina de
reversão era comum na tradição apocalíptica. VerChristopher C. Rowland, Christian Origins: From Messianic
Movement to Christian Religion(Minneapolis: Augsburg, 1985), 223, 227.49 Roger Aus, "Paul’s Travel Plans
to Spain and the ‘Full Number of the Gentiles’ of Romans11:25," Novum Testamentum 21 (1979), 241.
Tradução minha e ênfase no original. Parauma breve exposição histórica e arqueológica da eventual viagem de
Paulo para a Espanha,ver Otto F. A. Meinardus, "Paul’s Missionary Journey to Spain: Tradition and Folklore,"
BiblicalArcheologist 41 (1978), 61-63.50 Sanders, Paul, the Law, and the Jewish People, 171.51 Munck aponta
para Jerusalém como o alvo de todas as viagem missionárias de Paulo (Paul
21. and the Salvation of Mankind, 282-308). Ver John Murray, The Epistle to the Romans, TheNew
International Commentary on the New Testament, ed. F. F. Bruce (Grand Rapids:Eerdmans, 1965), 213s; e
John Knox, "Romans 15:14-33 and Paul’s Conception of HisApostolic Mission," Journal of Biblical Literature
83 (1964), 1-11.52 Para o contexto judaico do "universalismo representativo" de Paulo, ver Aus, "Paul’sTravel
Plans to Spain and the ‘Full Number of the Gentiles’ of Romans 11:25," 257-260.53 Atos 20.4s; 1 Coríntios
16.3s; 2 Coríntios 8.16-24 e 9.3-4 indicam pelo menos 10pessoas.54 O templo era o único lugar onde a
exclusão explícita dos gentios teve efeito (ver Efésios2.11-22 e Robert G. Hamerton-Kelly, ed., Sacred
Violence: Paul’s Hermeneutic of the Cross[Minneapolis: Fortress, 1992], 67, n.10). Portanto, a intenção de
Paulo de trazer osconvertidos gentílicos como oferta para Jerusalém, o local do templo, se ligava claramente
asua apresentação do seu evangelho livre-da-lei aos líderes da igreja de Jerusalém. Comoparticipantes de uma
seita judaica, seriam os primeiros a sofrerem o escândalo que tal açãoprovocaria e que, de fato, provocou. Isto
levou pelo menos alguns dos líderes da igreja deJerusalém a se oporem ao apóstolo Paulo.55 Assim o termo
euvagge,lion é compreendido apropriadamente dentro do contexto daterminologia missiológica cristã primitiva.
Ver Becker, Paul: Apostle to the Gentiles, 132s.56 Mesmo que ligue este dativo adverbial a VIerousalh,m,
prevalece a idéia de "círculo" ou"anel," o seu significado rotineiro na literatura antiga. Ver W. Bauer, A Greek-
English Lexiconof the New Testament and Other Early Christian Literature, trad. W. F. Arndt e F.
WilburGingrich (Chicago: University of Chicago Press, 1957), 458; Henry George Liddell e RobertScott, A
Greek-English Lexicon Based on The German Work of Francis Passow (Nova York:Harper & Brothers, 1860),
809ss; e F. Blass e A. Debrunner, A Greek Grammar of the NewTestament and Other Early Christian
Literature, trad. Robert W. Funk (Chicago: University ofChicago Press, 1961), 107.57 Paulo parece pensar
inteiramente em categorias romanas, e tem especificamente, se nãoexclusivamente, o Império Romano em vista
para sua missão mundial. Ele não dá nenhumaimportância ao leste parto, ao norte bárbaro e ao sul árabe, e nem
sequer menciona ametrópole helênico-judaica de Alexandria, a única grande rival ideológica de Roma. Ao
invésdisto, seu próprio ministério gira em torno das províncias romanas – Síria e Cilícia, Galácia,Ásia,
Macedônia, Acaia, e Ilírico – onde ele se concentra nas capitais provinciais. Não ésurpreendente que as
colônias romanas de Antioquia da Pisídia, Icônio, Listra, Trôade eFilipos sejam objeto da sua atenção
missionária, ou que Paulo há muito desejasse visitar aprópria Roma (Rm 1.10s; ver Hengel, The Pre-Christian
Paul, 10s).58 Historicamente, os estudiosos têm se concentrado ou no tema da "justificação" (ver
ErnstKäsemann, Commentary on Romans, trad. Geoffrey W. Bromiley, 4ª ed. [Grand Rapids:Eerdmans, 1980],
255s) ou no tema da "história da salvação" (ver Dahl, Studies in Paul.Theology for the Early Christian Mission,
82-90; e Munck, Paul and the Salvation of Mankind)para interpretar tanto esses capítulos quanto os capítulos
1–8. Sem dúvida ambos os temassão importantes. Entretanto, a discussão a respeito dos mesmos
freqüentemente temdesviado a atenção do tema central da própria justiça de Deus demonstrada através
documprimento das suas promessas aos judeus quanto à sua salvação e à salvação dos gentios.59 Ao longo dos
capítulos anteriores, esses privilégios são transferidos para o Messias, e
22. através dele, para todos os que "estão nele." Ver N. T. Wright, The Climax of the Covenant:Christ and the
Law in Pauline Theology (Minneapolis: Augsburg/Fortress, 1991) 237.60 H. J. Schoeps (Paul. The Theology of
the Apostle Paul in the Light of Jewish ReligiousHistory, trad. H. Knight [Filadélfia: Westminster, 1961], 242)
afirma corretamente que anegação de Paulo, "de modo nenhum!" (mh. ge,noito), revela a sua fé judaica na
fidelidade(pi,stij) de Deus e se refere ao fato de que Deus está legalmente obrigado (ver 11.29).
Pauloargumenta que Deus, de fato, não rejeitou Israel, nem mesmo retardou a sua promessa deabençoá-lo, mas,
de fato, já no presente, ofereceu essa bênção e esse livramento em JesusCristo.61 Ver Michael Cranford,
"Election and Ethnicity: Paul’s View of Israel in Romans 1:1-13,"Journal for the Study of the New Testament
50 (1993). A densidade de citações e alusõesescriturísticas aumenta significativamente em Romanos 9-11, à
medida que Paulo procuraexegeticamente fundamentar sua perspectiva do evangelho nas Escrituras (Hays,
Echoes ofScripture in the Letters of Paul, 64ss). Elizabeth Johnson encontra aqui 28, ou 31%, das 89citações
das Escrituras nas cartas de Paulo, embora esses capítulos constituam apenas 6%das cartas cuja autoria paulina
não é disputada (The Function of Apocalyptic and WisdomTraditions in Romans 9-11, vol. 109, Society of
Biblical Literature, Dissertation Series, ed. J.J. M. Roberts e Charles H. Talbert [Atlanta: Scholars, 1989],
130.62 A cosmovisão judaica entende a vocação de Israel como cumprida, e não comprometida,pela inclusão
dos gentios (Rute, Isaías 2.2-4; 11.9s; 42.1, 6; 49.6; Miquéias 4.1-4; 1 Reis10; José e Azenate; Tobias 13.11;
14.6; Oráculos Sibilinos 3.663-97, 710-95; Salmos deSalomão 17.21-24). As opiniões rabínicas posteriores
diferiram quanto ao lugar preciso dosgentios no plano de Deus, mas mesmo aqui o seu destino se ligava
irreversivelmente aodestino de Israel (N. T. Wright, The New Testament and the People of God, vol. 1,
ChristianOrigins and the Question of God [Minneapolis: Augsburg/Fortress, 1992], 267s).63 Num certo sentido
a pedra se refere à própria Torá, mas sendo Cristo o cumprimento doTorá (segundo nossa interpretação abaixo),
em última análise a pedra deve ser entendidacomo uma referência a Cristo, o que, de qualquer maneira, é
desenvolvido pela linha daargumentação de Paulo (Wright, The Climax of the Covenant, 240-44. James
Aagesonobserva a associação íntima entre Sabedoria e Torá no judaismo primitivo (Siraque 24.3, 8,23;
Baruque 3.9-4.4; Provérbios 30.3-4; Eclesiastes 7.23-24; Jó 28.12-14) e conclui que aassociação anterior que
Paulo fez entre Cristo e a sabedoria de Deus (1 Coríntios 1.24, 30;10.1-21) inevitavelmente levou a sua
associação também à Torá (Written Also for Our Sake:Paul and the Art of Biblical Interpretation [Louisville:
John Knox, 1993].64 É minha opinião que somente interesses teológicos preconcebidos ou tentativas
históricasde desmembrar Romanos 9-11 por meio da crítica da forma ou da crítica textual, podemignorar a forte
conexão entre 9.33 e 10.1-13. Por outro lado, a crítica da retóricarepetidamente confirma a integridade interna
destes capítulos (ver Elliott, "The Rhetoric ofRomans: Argumentative Constraint and Strategy and Paul’s
‘Dialogue with Judaism’," e Hays,Echoes of Scripture in the Letters of Paul, 74s).65 Isto é, cristãos judaicos e
cristãos gentílicos (Segal, Paul the Convert. The Apostolate andApostasy of Saul the Pharisee, 279s).66 A
maioria dos comentaristas tradicionalmente interpreta a expressão "fim" (te,loj) nosentido de "término" ou
"cessação" (ver Paulo Sérgio Gomes, "O Significado de ‘Fim da Lei’em Romanos 10.4," Fides Reformata 2:1
[1997], 123-136). Outros, em especial mais
23. recentemente, interpretam-na no sentido de "alvo." Outros ainda mantêm o sentido principalde "alvo," mas
ao mesmo tempo afirmam que algum sentido de "término" deve ser afirmado.Richard Hays esclarece a
discussão (Echoes of Scripture in the Letters of Paul, 75-77). Israelnão cumpriu a lei porque não a observou
pela fé, e sim pelas obras (9.31-33). O alvo da leinão está na realização de obras; o alvo real, a justiça de Deus,
é Jesus Cristo. A avaliação dalei em Romanos é essencialmente positiva (3.31; cap. 4). "A soma e a substância
do Torá...éjustiça pela fé" (76). Romanos 10.5 e 10.6 não são antitéticos. "Justiça da lei" é sinônimo de"justiça
da fé" e assim Cristo é o "alvo" da lei, "para que haja justiça para todo aquele quecrê" (10.4b). Cristo é o "fim"
da lei da mesma forma que a morte é o fim da iniqüidade(Romanos 6.21, "escravos do pecado") e da mesma
forma que a vida eterna é o fim dasantificação (Romanos 6.22, "escravos de Deus"). Isto é, "fim" se refere a
cumprimento nosentido de "conseqüência ou resultado final."67 A respeito da redefinição, ou melhor, definição
mais elaborada de Israel por Paulo, verDunn, Jesus, Paul and the Law, 99; The Parting of the Ways, 140-49; C.
F. D. Moule, "Jesus,Judaism and Paul," em Tradition and Interpretation in the New Testament, eds. Gerald
F.Hawthorne e Otto Betz (Grand Rapids: Eerdmans, 1987), 43-52.68 Ver 4 Esdras 4.23, 35-37; 6.25; 7.74; 2
Baruque 3.5; 23.4s; 59.6; 78.6s; 81.4; 1 Enoque10.20-22; Assunção de Moisés 1.18; Apocalipse de Abraão
23.5.69 Certamente o eco de Romanos 4.17-18 soa fortemente nos ouvidos dos leitores,revelando a intenção de
Paulo de prepará-los para a sua exposição através do restante dacarta. O chamamento de Israel, como o de
Abraão, foi para ser "pai de muitas nações." E tãocerto como a justiça de Abraão lhe foi imputada pela fé
através do evangelho (4.24-25),assim também será a libertação de Israel (11.25-27).70 Sobre a "ressurreição
dentre os mortos" como tema apocalíptico, ver Carriker, "AApocalíptica Judaica e o Evangelho de Paulo;" e
Cranfield, A Critical and ExegeticalCommentary on the Epistle to the Romans, 563.71 Ver 4 Esdras; 2
Baruque; 1 Enoque 10.20-22; e também Lucas 21.24.72 Com a expressão "vida dentre os mortos" Paulo estava
fazendo uma associação paralembrar aos seus leitores o fundamento da confissão de fé em Cristo, isto é, a
suaressurreição (Romanos 10.5-13; ver Joel 3.2 TM ou 2.32 RA).73 Embora a expressão "fé em Jesus Cristo"
não seja mencionada neste capítulo (pode haveruma alusão na referência ao "Libertador" no verso 26),
Romanos 11 não pode ser separadodo contexto literário e retórico de Romanos 9-11. À luz de 10.4-13, Paulo
não poderia terconcebido a salvação de Israel fora da sua fé em Jesus Cristo (ver Becker, Paul: Apostle tothe
Gentiles, 457ss).74 Por exemplo, Paulo emprega a palavra "compatriota" (suggenei/j, Romanos 16.7,21)
paraenfatizar a origem judaica desses colaboradores cristãos que eram provas vivas, juntamentecom Paulo, de
que Deus havia eleito um remanescente (Lampe, "The Roman Christians ofRomans 16," 224).75 Ver os
paralelos nos manuscritos de Qumrã: 1 QS (Regra da Comunidade) 1.3, 8s; 5.25;9.13, 23; 8.6, 11, 15; 11.3, 5-9;
1QH (Hinos) 8.26-31; 11.9-19; CD (Documento deDamasco) 2.12-3.18; 5.4s; 1QpHab (Comentário sobre
Habacuque) 2.2-10; 7.4-14; 1Q26(Fragmentos da Caverna) 1.1, 4; 1Q27 (Fragmentos da Caverna) 1.1, 3s. As
semelhanças
24. são tão grandes que a possibilidade de contato direto foi sugerida por Pierre Benoit (1990:21-24). A
diferença principal está na ênfase paulina no "agora" escatológico. Ver 1 Enoque103.2; 104.10, 12.76 Os quatro
pontos seguintes vem de Wright, The Climax of the Covenant, 249-51.77 Enquanto alguns manuscritos,
notoriamente o 46, omitem a ocorrência de nu/n em11.31b, Bruce Metzger observa que as considerações
externas e internas estão "mais oumenos bem equilibradas" (A Textual Commentary on the Greek New
Testament [Londres:United Bible Societies, 1971], 527. A ocorrência da palavra em 11.31a não é disputada.78
Evidências substanciais da esperança judaica numa libertação vindoura de Sião (evkSiw,n) se encontram no
Salmo 13.7; 49.2; 52.7; 109.2; Miquéias 4.2; Isaías 2.3; e Joel 4.16(ver também Amós 1.2; 2 Reis 19.31; Isaías
37.32 e Obadias 21). O contextoveterotestamentário confirma esta interpretação. Salmo 109.2 LXX ( 110.2
TM) diz que "deSião" Iavé enviará o seu cetro para reinar no meio das nações. É importante notar que
oversículo anterior é o versículo mais citado do Tanach em todo o Novo Testamento, inclusivepor Paulo. Esse
versículo foi uma chave para a interpretação cristã primitiva de Jesus como oMessias. É muito difícil imaginar
que o uso paulino do Salmo 109.2 (LXX) não tivesse tambémecoado sua perspectiva cristológica do Salmo
109.1 (LXX).79 Minha tradução de N. T. Wright, The Climax of the Covenant, 251, acerca da
expressão"quando eu remover" (o[tan avfe,lwmai), em Romanos 11.27b.80 Contra Wright, The Climax of the
Covenant, 250. Para uma avaliação das diferentesopiniões, ver Judith M. Gundry-Volf, Paul and Perseverance:
Staying In and Falling Away(Louisville: Westminster/John Knox, 1990), 177-185) e William L. Osborne, "The
OldTestament Background of Paul’s ‘All Israel’ in Romans 11:26a," Asia Journal of Theology 2(1988) .

INTRODUÇÃO – A “CARTA MAGNA” DA HUMANIDADE


 
O AUTOR destas notas gostaria muito de recomendar ao leitor um estudo minucioso desta epístola,
em oração, como preparação para todo o conhecimento das Escrituras. Lembro-me bem do
benefício que obtive por haver, durante quase dois anos, deixado de lado todas as outras leituras e
estudado esta epístola junto com mais algumas pessoas. Isso foi há cerca de quarenta anos,
quando ainda jovem.
 
Não nos surpreendemos com fato de ela conter um alicerce tão sólido da verdade, quando nos
lembramos de que foi escrita à assembléia situada naquela que era a metrópole do mundo de então.
 
É importante e de real auxílio que, ao ler qualquer um dos preciosos livros ou epístolas das
Sagradas Escrituras, se observe o caráter e o plano de cada livro, além de sua ordem e divisões.
Assim, fica claro que o objetivo do Espírito Santo nesta epístola foi revelar o relacionamento de Deus
com o homem, e do homem com Deus – a maneira como Deus poderia ser Justo em justificar o
homem. É este o fundamento de toda a verdade.
 
O leitor atento logo irá perceber as três divisões da epístola. Os capítulos 1 ao 8 revelam Deus, o
Justificador; o evangelho de Deus aos judeus e gentios, sem distinção – a mesma graça igualmente
dispensada a cada um. Do capítulo 9 ao 11 é mostrado que Deus não Se esqueceu de Suas
promessas para Israel, mas que, em seu tempo determinado, todas elas se cumprirão para eles
como nação. O capítulo 12, e os seguintes, contém a parte didática.
 
Há, todavia, uma subdivisão de grande importância nos oito primeiros capítulos. Até o capítulo 5,
versículo 11, é tratada a questão da justificação dos pecados; então, a partir daí até o final
do capítulo 8, o assunto está mais relacionado à justificação e libertação do pecado. Passemos
agora para o primeiro capítulo.
 
CAPÍTULO 1 – UM EVANGELHO DE PODER PARA O HOMEM MORIBUNDO
(Romanos 1)
“PAULO, servo de Jesus Cristo.” (Rm 1:1) Ele não era um servo ligado a qualquer sociedade ou
partido, mas um servo de Jesus Cristo. Quão poucos podem repetir, juntamente com Paulo, estas
simples palavras! E quão importante é que possam fazê-lo, isto se a intenção for de servir de um
modo que agrade a Cristo. Será que você já analisou este aspecto em relação a toda a sua vida e
ao seu serviço para Deus? É isto o que fará diferença no dia da recompensa. “Chamado para
apóstolo” seria melhor traduzido como “apóstolo por chamado”. Quando o Senhor Jesus chamou a
Paulo, não foi para que ele fosse aos outros apóstolos para ser ensinado ou preparado por eles, ou
ainda ordenado para ser um apóstolo; não, ele foi constituído apóstolo imediatamente, e sem que se
fizesse uso de qualquer autoridade humana; ele foi chamado a atuar e pregar como um apóstolo por
ser um apóstolo, e não para se tornar um. (Veja também Atos 26:15-19; Gálatas 1:10-16.) Foi assim
que Paulo foi “separado para o evangelho de Deus”. (Rm 1:1) Bem sabia o Espírito que na própria
Roma tudo isso seria invertido. Sim, este primeiro versículo é de grande significado para nós, se
quisermos fazer a vontade de Deus. Lembre-se: Paulo já era apóstolo há algum tempo quando,
em Atos 13.1-4, o Espírito o separou e o enviou, com a aprovação dos anciãos, em uma viagem
especial de serviço.
 
Vemos aqui, então, Paulo como servo de Jesus Cristo, um apóstolo por chamado ou vocação,
separado para o evangelho de Deus. Esta palavra, “separado”, é bastante abrangente. Separado do
mundo, do judaísmo e da lei, para as gloriosas boas novas de Deus. Não é a igreja o assunto desta
epístola, mas o evangelho de Deus. A igreja não era o assunto da promessa, mas o evangelho sim:
“O qual antes havia prometido pelos Seus profetas nas Santas Escrituras”. (Rm 1:2) Sim, as
Escrituras, desde Gênesis 3, contém abundantes promessas do evangelho de Deus, “acerca de Seu
Filho”, Jesus Cristo, nosso Senhor. (Rm 1:3) Cada promessa tinha em vista a descendência, que é
Cristo. É bom que guardemos isto: O evangelho não é algo acerca de nossos feitos ou sentimentos,
mas “acerca de Seu Filho”, Jesus Cristo, nosso Senhor. Que esta bendita Pessoa seja sempre o
princípio e o fim do evangelho de Deus que pregamos!
 
Há, então, só duas partes no verdadeiro evangelho: a obra consumada por Jesus na carne; e Sua
ressurreição de entre os mortos. “Que nasceu da descendência de Davi segundo a carne.” (Rm 1:3)
Nele, como Filho de Davi, foi cumprida toda a promessa. Que manifestação do amor de Deus – o
Santo de Deus ter sido feito carne; tornando-se verdadeiramente Homem e descendo de Sua eterna
glória para o meio de uma raça caída, culpada, sob pecado e juízo, e, naquela condição de
humanidade sem pecado, ter ido até a cruz! Ele próprio, tão puro e, no entanto, ser feito pecado,
para ir até a morte carregando o juízo extremo que o pecado merecia. Sim, ir até a morte, livrando-
nos do direito e poder que ela tinha sobre nós – ser entregue por causa de nossas iniquidades.
 
Devemos encontrar nisto o grande tema de nossa epístola – a morte expiatória de Jesus em seu
duplo aspecto, de propiciação e substituição. Mas, apesar de haver Se tornado homem em
aparência de carne pecaminosa – mas sem possuir uma humanidade caída ou pecaminosa – Ele
não Se corrompeu. Ele sempre foi o Santo de Deus, e foi deste modo, determinado, ou “declarado
Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos (ou “dentre os”)
mortos”. (Rm 1:4) Contemplemos, então, o Filho de Deus, puro e imaculado, em toda a extensão de
Seu andar aqui; Santo não apenas em Seus benditos atos, mas em Sua natureza, segundo o
Espírito de Santidade. Assim, embora cercado pelo mal, Ele andou em amor, compartilhando
conosco de toda a tristeza decorrente do pecado; sendo tentado de fora para dentro em todos os
aspectos que também o somos, muito embora, em Si mesmo, a Sua santa natureza fosse
inteiramente separada do pecado. Isso tudo ficou expresso pelo fato de que, após completar nossa
redenção, Ele foi, por Deus, ressuscitado de entre os mortos. A própria morte não tinha nenhum
direito sobre Ele – Ele não podia ser retido por ela.
 
Uma vez que Ele era Santo segundo o Espírito de Santidade, era mister que Deus, em justiça, O
ressuscitasse de entre os mortos e O recebesse em glória. Ele glorificou a Deus na natureza
humana e agora, como Homem, está ressuscitado de entre os mortos segundo o Espírito de
santidade; está agora no céu como o Homem que glorificou a Deus. É bom que se entenda
claramente o que Ele é em Si mesmo, para que então se possa compreender melhor o que Ele fez
por nós e o que Ele é para nós agora, ressuscitado de entre os mortos. Esperamos poder apresentar
estas verdades de forma detalhada mais adiante. Foi deste Santo ressuscitado de entre os mortos
que Paulo veio a receber “graça e o apostolado, para a obediência da fé entre todas as gentes pelo
Seu nome”. (Rm 1:5) Isto é algo importante de se ressaltar: por mais que Paulo fosse um apóstolo,
tudo era por graça recebida. Porventura não tinha sido o Senhor Quem brilhara no caminho de
Paulo, em puro e livre favor, justamente quando este se encontrava furioso – sim, excedendo-se em
fúria – contra Cristo? Acaso não havia sido Ele Quem, em um gratuito e imerecido favor, chamara a
Paulo, fazendo dele Seu apóstolo escolhido para ir aos gentios? E não é este o mesmo princípio que
vale para todos os casos? Não importa qual seja o serviço que possamos estar fazendo para Cristo
– acaso não se trata da mesma graça, do mesmo livre favor?
 
Era assim que o apóstolo via os santos em Roma; a mesma graça havia sido demonstrada a eles.
“Entre as quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo.” (Rm 1:6) Assim brilha a
graça em todo o seu esplendor. Aquele que encontrou Saulo em seu caminho para Damasco, o
próprio Jesus Cristo, como Senhor, havia chamado a cada crente em Roma. “A todos os que estais
em Roma, amados de Deus, chamados santos: Graça e paz de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus
Cristo.” (Rm 1:7)
 
A simples introdução, pelos tradutores, de duas palavras em algumas versões, “chamados para
serdes santos”, muda completamente o significado desta importante passagem, e tem sido a causa
de sérios enganos no que se refere à santidade. O significado aqui é o mesmo da palavra que é
usada no primeiro versículo: “chamado (para ser) apóstolo”; ou, “um apóstolo por chamado”. Assim
como a palavra “santo” significa “santificado”, também a expressão significa “santificado por
chamado”. Não “chamados” para procurar alcançar santidade – o que é um engano comum – mas,
da mesma forma como Paulo foi constituído um apóstolo pelo Senhor que o chamou, assim também
todos os crentes em Roma foram feitos santos por chamado. Foi essa a base sobre a qual eles
foram exortados a caminhar: em conformidade com aquilo que já eram. Todo crente é santo por
chamado, santificado por chamado. É nascido de Deus, participante da natureza divina, a qual é
santa. O cristão é santo pelo novo nascimento. Ele está morto com Cristo, ressuscitado em Cristo –
sim, Cristo, que passou através da morte, e que é a ressurreição e a vida, é a vida do cristão. “Quem
tem o Filho tem a vida.” (1 João 5:12) E se tem a vida do Santo de Deus, esta vida, da qual o crente
é agora participante, é uma vida tão santa quanto eterna. Todos os crentes têm a vida eterna e, por
conseguinte, todos têm uma vida santa. Tentar alcançar, por quaisquer meios, uma ou outra coisa
por merecimento é não compreender em sua totalidade a nossa vocação e nossos elevados
privilégios.
 
Toda a Escritura proclama esta verdade. A exortação quanto a ser santo está baseada neste
princípio: “Como filhos obedientes… como é Santo Aquele que Vos chamou sede vós também
santos em toda a vossa maneira de viver, porquanto escrito está: Sede santos, porque Eu sou
Santo”. (1 Pd 1:14-16). Sim, é por terem sido introduzidos em uma viva esperança – mantidos pelo
poder de Deus por serem nascidos de Deus – que os crentes, como filhos, têm purificado suas
almas em obediência à verdade. Em suma, já que eles eram santos por chamado e por natureza, e
possuíam o Espírito Santo, deviam procurar ser santos em suas vidas e em seu proceder.
 
João revela a santidade da nova natureza como nascida de Deus. “Qualquer que é nascido de Deus
não comete pecado.” (1 João 3:9) Em cada epístola será encontrado, em primeiro lugar, a vocação
santa, vindo depois o andar santo como resultado (compare 1 Tessalonicenses 1:1com 5:23). É
importante notar o lugar que a palavra ocupa, aplicada pelo Espírito Santo, tanto no novo
nascimento como na santidade prática. “Segundo a Sua vontade, Ele nos gerou pela palavra da
verdade.” (Tg 1:18) “Santifica-os na verdade: a Tua palavra é a verdade.” (Jo 17:17) Quão triste é
vermos tudo isso colocado de lado em nossos dias, e os homens, aos milhares, tentando se tornar
santos por meio de sacramentos e cerimônias. E não somente eles, mas muitos dos que escrevem e
ensinam sobre santidade ignoram totalmente aquilo que todo cristão é feito por vocação e novo
nascimento, e por ser feito habitação do Espírito Santo. Não há dúvida de que seja isso a causa de
grande fraqueza, engano e de um andar que deixa muito a desejar. Não nos deixemos vagar
indiferentes também por cima destas preciosas palavras: “Graça e paz de Deus nosso Pai, e do
Senhor Jesus Cristo”. (Rm 1:7) Que mudança do judaísmo! – o livre favor de Deus nosso Pai, e do
Senhor Jesus Cristo, e paz a todos os amados de Deus em Roma. Será que nossas almas penetram
nisto? Ao invés da lei exigindo, com justiça, a perfeita obediência da parte do homem, temos agora
perfeita paz com Deus, fundamentada no princípio do livre e imerecido favor. Israel, se tivesse sido
fiel, tão somente teria conhecido a Deus como Jeová; nós O conhecemos como Pai. Veremos, nesta
epístola, como Sua graça e paz podem fluir livremente para nós em perfeita justiça.
 
Como esta epístola revela o terreno onde o pecador encontra-se diante de Deus, podemos notar que
a primeira coisa pela qual o apóstolo dá graças a Deus, por intermédio de Jesus Cristo, por eles
todos, é esta: “Por todo o mundo é anunciada a vossa fé”. (Rm 1:8) A fé tem, assim, o primeiro lugar.
Amado leitor: será que a sua fé é bem evidente, ou será que ainda não ficou bem claro se você
realmente crê em Deus? Este é o primeiro ponto que deve ficar claro; tudo o mais será uma
consequência disto. Vemos que, se você crê em Deus, então é capaz de dizer: “Sendo, pois
justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo”. (Rm 5:1) Pode você dizer
isto com inteira confiança? Se assim for, então beba daquele manancial de graça e paz que flui
perene de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo.
 
Que exercício de coração era aquele para Paulo! Ele diz: “Porque Deus, a Quem sirvo em meu
espírito, no evangelho de Seu Filho, me é testemunha de como incessantemente faço menção de
vós, pedindo sempre em minhas orações”. (Rm 1:9,10) Que profundo amor para com aqueles que
ele nunca havia visto! Não se tratava de um mero serviço exterior, mas “em meu espírito”. Tudo feito
para Deus no evangelho de Seu Filho. Será que é assim também conosco, ou, em nosso caso, tudo
não passa de mera e fria imitação? Porventura não era esse o segredo do sucesso de Paulo? E se
faltar isso em nós, não é certo que fracassaremos?
 
Paulo desejava muito ver os santos em Roma, mas até então tinha sido impedido. Vemos aqui uma
prova da sabedoria e antecipação de Deus. Se Paulo ou Pedro tivessem fundado a assembléia em
Roma, que desculpa não teria sido isto para a, assim chamada, sucessão apostólica! Não há
evidência quanto a quem o Espírito Santo possa ter usado na formação daquela importante
assembléia. Não há evidência de que qualquer apóstolo tenha estado ali naquela ocasião, muito
embora a fé daquela assembléia, ou melhor, de todos os chamados santos, era anunciada e bem
conhecida de todos. É também notável que não sejam chamados de igreja em Roma, como
acontece nas outras epístolas.
 
Paulo desejava ter mútua comunhão com eles, e colher algum fruto entre eles, fosse pela conversão
de almas ou pela comunicação de algum bem espiritual àqueles que já tivessem sido levados a
Cristo. Com tamanho tesouro, como é o evangelho, colocado em suas mãos, ele se sentia devedor
em compartilhá-lo com todos, tanto judeus como gentios. Ele chegava a dizer: “Quanto está em mim,
estou pronto para também vos anunciar o evangelho, a vós que estais em Roma”. (Rm 1:15) Que
completa prontidão e, ainda por cima, na mais real dependência de Deus somente. Se ele tivesse
sido servo de homens, teria sido preciso receber uma convocação dos mesmos para pregar em
Roma, ou então ter algum tipo de autorização humana. Mas não há tal idéia aqui. E por que não
poderia ser assim também agora? Paulo podia dizer: “Estou pronto”. Sim, sim, com o mundo atrás
de si, podia dizer: “Estou pronto tão logo meu Deus abra o caminho”. Oh, onde encontraremos hoje
pessoas como Paulo? Que Deus possa nos despertar, enquanto pensamos no andar daquele
devoto servo de Deus.
 
Começamos agora a nos aproximar da questão: O que é o evangelho? “Porque não me envergonho
do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do
judeu, e também do grego.” (Rm 1:16).
 
A razão pela qual ele não se envergonha do evangelho é colocada de forma clara. A lei mandava,
mas não tinha nenhum poder para libertar do pecado; não, ela fora dada para que abundasse, não o
pecado, mas a ofensa. Mas, em contraste direto, o evangelho é o poder (não do homem, mas) de
Deus, para a salvação. Há um enorme significado nisto. Vamos tentar tornar isto claro aos nossos
jovens leitores, usando alguns exemplos.
 
Você já deve ter lido e escutado muitas coisas que debilitam esta verdade, pois há muita pregação
que fala ao pecador que ele deve abandonar seus pecados e separar-se deles antes de ir a Deus e
receber o perdão dos pecados e a salvação. Isto pode parecer bem razoável e plausível. Tome este
exemplo: Vamos nos colocar um pouco acima das cataratas do Niágara. Repare como o rio corre
tranquilo! Plano como um vidro, e quanto mais perto das quedas, mais plano ele fica. Um barco é
visto descendo pela corrente. Há dois homens nele. Eles escutam o crescente bramido das
pavorosas quedas. Um está consciente de seu perigo: mais alguns minutos e o barco despencará. O
outro parece estupefato. Ambos estão igualmente perdidos; ambos estão no mesmo barco
navegando tão suavemente rumo à completa destruição. Agora chame-os; tente anunciar-lhes o
evangelho do homem. Diga a eles que abandonem aquele barco; que deixem aquele poderoso rio;
que venham para a margem antes que despenquem, e que, se fizerem assim, você irá ajudá-los!
 
Homem, você está lhes dizendo para fazer o impossível. Porventura não será isto zombar deles?
Porventura não é cruel zombar deles desse jeito? Em um ou dois minutos eles estarão acabados. O
que é preciso é poder para salvá-los.
 
Acaso não está o pecador, na correnteza do tempo, despencando para uma destruição muito pior?
Sim, ele dirá, o poder do pecado me carrega. Ele desperta para seu perigo, para a morte e o juízo ao
alcance da mão. Ele escuta o bramido; mas será que pode salvar-se a si próprio? Será que pode
sair do rio? Se puder, não precisa de um salvador. Uma boa notícia, para aquele homem descendo
pela correnteza fatal, seria chamá-lo e assegurar-lhe que há Alguém pronto e capaz de salvá-lo
completamente. Sim, e é assim que Deus fala ao pecador que está perecendo perdido e culpado,
conforme iremos ver mais adiante: “Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”.
(Rm 10:13) Tome outro exemplo. Você escuta o súbito clamor de “Fogo, Fogo!” Você não anda mais
que poucos metros e vê um prédio incendiando-se. As chamas saem de todas as janelas do andar
de baixo. Sabe-se que há algumas pessoas no quarto andar, as quais encontram-se dormindo ou
desmaiadas pela fumaça. Se elas tiverem poder para escapar, não há necessidade de se tentar um
resgate. Mas a escada é colocada de forma a alcançar a janela. Veja agora aquele hábil e corajoso
bombeiro. O que é que ele faz? Será que meramente diz aos de dentro que devem primeiro sair da
casa incendiada que, então, irá salvá-los? Não; ele sobe pela escada, quebra a janela, e entra na
cena do perigo. Ele os traz para fora: estão salvos. O mesmo acontece em uma tempestade no mar.
O navio avariado está afundando rapidamente para sua final destruição, levando consigo sua pobre
tripulação. De que serviria um barco que fosse salvá-los, se o capitão deste permanecesse, de
longe, gritando para aqueles homens que perecem, que devem primeiro abandonar o navio
destroçado e nadarem até a praia, para, então, serem salvos pelo salva-vidas? Assim é o evangelho
do homem. O homem deve primeiro salvar-se a si próprio; e então Cristo o salvará. E o mais
estranho é que os homens adorem e aceitem uma tolice como essa.
 
Todavia, o evangelho de Deus é totalmente oposto a isso: Ele enviou Seu Filho amado para buscar
e salvar o que estava perdido. Sim, PERDIDO, assim como aqueles no barco, tão perto das
ensurdecedoras cataratas. PERDIDOS, como os moradores do prédio incendiado. PERDIDOS,
como aqueles marinheiros afundando com os escombros de seu navio. Sim, se os homens tão
somente soubessem, e reconhecessem sua condição de perdidos e incapazes, eles reconheceriam
que o evangelho do homem é uma completa tolice que ordena que eles se salvem a si mesmos e
que, só então, Deus irá salvá-los.
 
Tome mais esta ilustração. Um homem foi julgado e considerado culpado. Ele está agora preso e
condenado. Será que você iria dizer-lhe para sair daquela cela; para abandonar seus pecados, suas
algemas, a prisão, e a sentença que já lhe foi dada; e então, mas só então, ele seria perdoado? Não
seria isto uma cruel zombaria para um homem naquelas condições? Todavia é esta a verdadeira
condição do pecador e, portanto, “não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de
Deus para salvação de todo aquele que crê”. (Rm 1:16) A pergunta no coração daquele que
descobre que está navegando em direção à queda, ou aos recifes, ou que é um pecador culpado
sob o juízo e sem forças para suportá-lo, é esta: Como posso ser salvo? Como eu, um pecador
condenado, posso ser justificado? É esta, portanto, a verdadeira questão que é tratada e explicada
na primeira parte da epístola. Sim, é esta a própria razão de Paulo não estar envergonhado do
evangelho. “Porque NELE se descobre a justiça de Deus de fé” (ou, sobre o princípio da fé) “em fé,
como está escrito: Mas o justo viverá da fé.” (Rm 1:17) Não se trata da justiça do homem, pois este
não tem nenhuma. E como poderia tê-la se é alguém culpado e sob o juízo? E mesmo que a tivesse,
seria justiça do homem e não de Deus.
 
Veremos que a justiça de Deus está em direto contraste com a justiça do homem. Ela nem poderia
ser pela lei, pois Deus não pode estar sujeito à lei. Foi Ele quem deu a lei. Se o assunto fosse a
“justiça de Cristo”, então seria uma outra verdade. Mas trata-se da justiça de Deus revelada, no
evangelho, sobre o princípio da fé, “de fé em fé”. Ela foi repetidamente anunciada no Antigo
Testamento, mas foi agora explicada, ou revelada. “E não há outro Deus senão Eu; Deus Justo e
Salvador não há fora de Mim. Olhai para Mim, e sereis salvos, vós, todos os termos da terra.” “De
Mim se dirá: Deveras no Senhor há justiça e força.” (Is 45:21-24) “Em Teu nome se alegrará todo o
dia, e na Tua justiça se exaltará.” (Sl 89:16) Devemos ter em mente que a justiça de Deus é a
primeira, e principal, questão tratada nesta epístola. Este é o assunto tratado em primeiro lugar;
então vem o amor de Deus. Isto porque o amor de Deus não apaga a ira de Deus. A questão da
justiça é imediatamente levantada, “porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a
impiedade e injustiça dos homens, que detém a verdade em justiça”. (Rm 1:18) Essa ira ainda não
foi derramada, mas não se pode ter dúvidas quanto à ira que há, da parte de Deus, contra toda a
impiedade dos homens – contra o pecado. Ela pode ser vista no dilúvio, na destruição de Sodoma e
no Santo de Deus tendo sido feito pecado por nós. Ela é também revelada no fato de que Ele virá
em juízo, tomando vingança. O ímpio certamente será lançado no lago de fogo.
 
E será que sou um pecador culpado? Se assim for, de que proveito me seria contar só com o amor
de Deus no dia da justa ira contra toda a impiedade? Deve, assim, ficar evidente que a primeira
grande questão é a justiça de Deus em justificar o pecador que nEle crê. Como é que Deus pode ser
Justo em reputar um tamanho pecador como eu como justo diante dEle? Que tremenda questão!
 
Esta questão da justiça de Deus é tratada novamente no capítulo 3.21. Então, qual é o objetivo do
Espírito nesta grande porção das Escrituras, que vai do capítulo 1.17 até o 3.21? Acaso não é,
principalmente, descartar completamente toda a pretensão de justiça no homem, esteja ele sem lei
ou sob a lei? Isto é algo que precisa ser feito, pois não existe nada a que o homem se apegue mais
do que os esforços para estabelecer sua justiça-própria. Assim, cada alegação do homem é
examinada.
 
O eterno poder de Deus foi manifestado na Criação e, uma vez mais, no dilúvio.
 
Com certeza, Deus era conhecido de Noé, e também de seus descendentes. Estes, “tendo
conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças”. (Rm 1:21) Pelo contrário,
mergulharam na idolatria. Apostataram de Deus, até que Deus os entregou, ou abandonou. Por três
vezes isto é repetido: “Pelo que também Deus os entregou às concupiscências…” (Rm 1:24); “Pelo
que Deus os abandonou às paixões infames…” (Rm 1:26); “Deus os entregou a um sentimento
perverso…” (ou “pervertido”) (Rm 1:28). Leia a terrível lista de impiedades nas quais mergulhou todo
o mundo gentio. Onde é que havia justiça no homem? Abandonar é o ato judicial de Deus em juízo.
Ele assim abandonou os gentios, e vemos em que se tornaram.
 
Sabemos também que quando os judeus rejeitaram completamente o testemunho do Espírito Santo,
Deus os abandonou, no presente momento, como povo. Este será também o fim da cristandade
professa, “porque não receberam o amor da verdade para se salvarem. E por isso Deus enviará a
operação do erro, para que creiam a mentira; para que sejam julgados todos os que não creram a
verdade, antes tiveram prazer na iniquidade”. (2 Ts 2:10) Portanto, o fato de Deus haver
abandonado os gentios aos terríveis desejos de seus corações, prova sua completa apostasia de
Deus. E toda a história secular corrobora esta descrição inspirada da impiedade humana.
 
Pode-se perguntar: Porventura não existiram legisladores, reis e magistrados, que tenham decretado
leis contra a impiedade e punido os crimes? “Os quais, conhecendo a justiça de Deus (que são
dignos de morte os que tais coisas praticam), não somente as fazem, mas também consentem aos
que as fazem.” (Rm 1:32) Assim, tanto então, como agora, a maior impiedade é encontrada nos
legisladores ou chefes. Como prova disto basta lermos qualquer dos historiadores da antiguidade.
Se o homem é deixado a seu bel-prazer, quanto maior for o poder que tiver em suas mãos, maior
será a sua maldade. É surpreendente vemos o grau de crueldade e horrível impiedade do
paganismo. Tal era o mundo ao qual Deus, em misericórdia, enviou Seu Filho. A justiça era algo que
não podia ser encontrado no mundo gentio. As multidões, como um só homem, corriam aos
anfiteatros para saciar seus olhos com a cruel impiedade.

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CAPÍTULO 2 – O INEVITÁVEL JUÍZO DE DEUS


(Romanos 2)
 
A CONSCIÊNCIA deixa o homem inescusável. Há no homem um senso de responsabilidade e,
devido à queda, um conhecimento do bem e do mal. O fato de um homem julgar o outro é uma
prova disto: “Porque te condenas a ti mesmo naquilo em que julgas a outro; pois tu, que julgas, fazes
o mesmo”. (Rm 2:1) E quão verdadeiro é isto, tanto acerca de judeus e gentios, como de cristãos
professos! E o homem não pode enganar a Deus. “E bem sabemos que o juízo de Deus é segundo
a verdade sobre os que tais coisas fazem. E tu, ó homem, que julgas os que fazem tais coisas,
cuidas que, fazendo-as tu, escaparás ao juízo de Deus?” (Rm 2:2,3) Que questão solene! Podemos
julgar e punir a outros por suas más ações neste mundo, mas se formos colocados, com todos os
nossos pecados, diante do juízo – e o juízo certamente virá, e será “segundo a verdade” – como
poderemos escapar? A punição do mal em todas as nações prova que admitimos que o mal deva
ser punido. Do mesmo modo, o justo governo de Deus exige que haja um julgamento após a morte.
Preste atenção nisto. Leitor: Será que você pensa ser capaz de escapar do juízo de Deus? “Ou
desprezas tu as riquezas da Sua benignidade, e paciência e longanimidade, ignorando que a
benignidade de Deus te leva ao arrependimento?” (Rm 2:4) Quantos são os que estão agindo
assim? No entanto, a maneira como o arrependimento é pregado tende a levar os homens a
desprezarem e ignorarem completamente a maravilhosa graça de Deus. Muitos pregam o
arrependimento como se fosse uma obra para a salvação, como se precedesse a fé nas riquezas da
bondade de Deus. Mas é por conhecermos, e crermos na bondade de Deus em ter enviado Seu
Filho amado para morrer por nossos pecados, que somos levados ao arrependimento. É isto que
produz arrependimento em nós. Na verdade, é só pelo conhecimento das profundezas às quais Ele
teve que descer para nos salvar, que podemos conhecer as profundezas de nosso pecado e culpa.
 
Desta forma, a bondade de Deus nos leva a uma completa mudança de atitude; a um completo juizo
de nós mesmos, em profunda aversão aos nossos pecados e total confissão deles a Deus,
produzindo em nós, ao mesmo tempo, uma completa mudança de pensamento acerca de Deus.
Assim, a diferença entre verdade e erro é esta: Não é nosso arrependimento que nos leva à
bondade de Deus, ou a torna válida para nós, mas é a bondade de Deus que nos leva ao
arrependimento; que produz arrependimento em nós. Oh, cuidado para não desprezar a graça de
Deus e acabar entesourando “ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus”. (Rm 2:5)
Note bem que, ou é a bondade de Deus agora, e arrependimento aqui, ou então o justo juízo de
Deus naquele dia reservado para a ira.
 
Alguns têm dificuldade para compreender o capítulo 2.6-29; outros distorceram estas afirmações
como se ensinassem a salvação por obras. Se assim fosse, estaria em total contradição a todo o
ensino da epístola. Então, o que é que aprendemos aqui? Primeiro, a justiça de Deus, em
recompensar tanto o judeu sob a lei, como o gentio sem lei. Isto é clara e distintamente afirmado.
Então, em segundo lugar, vem a pergunta: Acaso existe qualquer judeu ou gentio que atenda a
estes requisitos de Deus para que possam ser, deste modo, recompensados?
 
Começamos, então, com a certeza de que, no dia da ira e revelação do justo juízo de Deus, Ele
“recompensará cada um segundo as suas obras; a saber: a vida eterna aos que, com perseverança
em fazer bem, procuram glória, e honra e incorrupção…” (Rm 2:6,7) Do mesmo modo, naquele dia,
“tribulação e angústia sobre toda a alma do homem que obra o mal…” (Rm 8:9) É esta, portanto, a
base do justo juízo no qual Deus irá agir: “No dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens
por Jesus Cristo, segundo o meu evangelho”. (Rm 2:16) A polícia sai às ruas e prende os homens,
levando-os a julgamento por seus crimes públicos; mas porventura não é igualmente verdade que a
Morte sai pelas ruas como um policial de Deus, para levar homens que, após a morte, terão julgados
todas as coisas que fizeram em segredo? Poderá você enfrentar uma julgamento assim? Deus
julgará em justiça. “Tribulação e angústia sobre toda a alma do homem que obra o mal.” (Rm 2:9) E
tudo revelado – até as coisas ocultas!
 
É bom que se tenha isto em mente: Por ocasião daquele justo juízo não haverá como se escapar.
Quando o homem é deixado à sua própria sorte, acaba afundando cada vez mais na prática do mal.
Como já vimos, todo o mundo gentio afundou no mais grosseiro pecado. O que dizer, então, do
judeu, o homem religioso? Sim, o que dizer do homem religioso; não seria ele superior em todos os
aspectos? Ele repousa na lei, gloria-se em Deus – no único Deus verdadeiro.
 
Ele conhece a vontade de Deus, é instruído e é um instrutor: um confiante guia de cegos. Se ele
conhece a vontade de Deus, e a faz; e tem a lei, e a guarda, será que isto não dará a ele ousadia no
dia do justo juízo? Mas, e se ele não for alguém que faça o bem, mas sim um que transgride a lei,
que vantagem terá em comparação com o gentio que não tem lei? Nenhuma; pelo contrário, sua
situação é ainda pior. Então, como é que o judeu sob a lei pode se encontrar com Deus em juízo?
 
Leitor, se for esta a sua posição – um homem religioso sob a lei, desejando com toda a sinceridade
guardá-la e, ainda assim, transgredindo-a; sabendo a vontade de Deus, e não a cumprindo – como é
que você poderá encontrar-se com Deus em justo juízo e, não importa o quão religioso você tenha
diante dos homens, ter todos os seus segredos expostos para serem julgados? Acaso todos os seus
esforços dão a você qualquer confiança para olhar de cabeça erguida para aquele dia de inevitável
juízo? Todavia, o judeu tinha uma grande vantagem.
 
CAPÍTULO 3 – DIAGNÓSTICO E ANTÍDOTO
(Romanos 3)
 
O JUDEU possuía os oráculos de Deus, assim como você. Que imensa vantagem é possuir a
própria Palavra inspirada de Deus! E os oráculos de Deus haviam sido entregues a eles.
 
Vemos, no versículo 3, de que forma notável a fé é mais uma vez apresentada. A justiça de Deus
sempre repousou sobre o princípio da fé. “Pois quê? Se alguns foram incrédulos, a sua
incredulidade aniquilará a fidelidade de Deus?” (Rm 3:3) No entanto, o grosso da nação não creu, e
até aqui nem a sua incredulidade, nem a sua injustiça mudaram a Deus – Ele permanece o mesmo;
Ele continua leal aos imutáveis princípios de certo e errado; de outro modo, como poderia julgar o
mundo? Ao deixar-se de lado a lei como meio de se obter justiça, isto pode ser distorcido, como
alguns o fizeram e afirmaram que o apóstolo ensinava que devemos praticar o mal para que disto
provenha o bem. Isto é energicamente condenado; a justiça de Deus permanece no julgamento de
todos os que praticam o mal. O apóstolo apela agora para as próprias Escrituras dos judeus, e
prova, a partir delas, que todos eram culpados: “Como está escrito: Não há um justo, nem um
sequer” Não há ninguém que entenda; não há ninguém que busque a Deus”. (Rm 3:10,11) Não
podemos ignorar o fato de que as palavras do versículo 19 foram escritas para aqueles que estavam
sob da lei. E que terrível descrição esta do homem sob a lei! Toda boca é, assim, fechada, e todo o
mundo é culpado diante de Deus. Sim, repare bem que não se trata daquilo que o homem é diante
de seus semelhantes, mas do que ele é diante de Deus. E se todos os que estão debaixo da lei, e
todos os que não estão debaixo da lei, são culpados, o que pode a lei fazer pelo culpado? A própria
perfeição da lei, como uma regra perfeita para o homem, pode tão somente condenar o transgressor
da lei. Se um comerciante usa uma balança enganosa em sua loja, o que mais poderá fazer o teste
de peso, executado pelas autoridades, senão condená-lo? O peso usado como padrão irá
demonstrar o quão fora do padrão ele está; e se ele está fora do padrão, o teste de peso não poderá
demonstrar que sua balança é justa. A lei não podia ir além disso, “porque pela lei vem o
conhecimento do pecado”. (Rm 3:20) Portanto, são todos culpados, evidentemente, “por isso
nenhuma carne será justificada diante dEle pelas obras da lei”. (Rm 3:20)
 
O homem é, assim, posto de lado, bem como todos os seus esforços e pretensões à justiça pelas
obras da lei. “Mas agora se manifestou sem a lei a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos
profetas.” (Rm 3:21) Trata-se de algo completamente novo e distinto de tudo o que provém do
homem. Não se trata da justiça do homem, pois ele não a tem em qualquer medida. Que tremendo
fato, que em todo este mundo não tenha sido encontrado um só justo! Não, nem mesmo um. Trata-
se da justiça de Deus, em sua totalidade e aparte da lei – daquilo que Deus é em Si mesmo, e do
que Ele é para o homem. Deus não poderia ter sido justo em justificar o homem por meio da lei, pois
a lei podia tão somente condená-lo. O homem era culpado. Certamente Deus sempre foi justo em
Seu proceder para com o homem – perfeitamente coerente com Sua própria glória. Mas agora a
justiça é manifestada aparte da lei, embora testemunhada pela lei e pelos profetas. É esta, portanto,
a revelação, “isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos e sobre todos os que
crêem; porque não há diferença, porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”. (Rm
3:22,23) Com que clareza a fé em Jesus Cristo toma agora o lugar da lei, e isto para todos, tanto
judeus como gentios!
 
Portanto, a justiça de Deus diz respeito ao que Ele é em Si mesmo, e ao que Ele é para nós. E isto
aparte da lei; pois não há, e nem poderia haver, uma lei ou mandamento para Deus. Isso tudo
provém totalmente de Deus. Ele amou de tal maneira a ponto de dar Seu Filho amado para que, por
meio de seu sacrifício na cruz, pudesse ser eternamente justo em nos justificar, ou em nos reputar
por justos.
 
“Sendo justificados gratuitamente pela Sua graça.” (Rm 3:24) Sim, reputados por justos
graciosamente, sem nada que pudesse provir de nós, exceto crermos nEle – e até mesmo a fé é um
dom de Deus: provém de Sua graça, Seu livre favor. Mas como pode Deus ser justo em nos justificar
gratuitamente por imerecido favor, “pela redenção que há em Cristo Jesus”? (Rm 3:24) Não
meramente justificados de toda acusação de pecado, por mais bendito que isto possa ser; não
meramente abrigados do juízo, como Israel foi protegido, no Egito, pelo sangue do Cordeiro; mas
redimidos, totalmente libertos, pela redenção que há em Seu precioso sangue.
 
Mas, dirá você, tudo isso é muito bendito, mas como saber se posso desfrutar disso? Como posso
ficar assegurado de que isso se aplica a mim? Bem, uma vez que Deus é justo em nos justificar
gratuitamente, pela redenção que há em Cristo Jesus, vamos investigar que redenção é esta, e
como você pode saber que ela veio, e se aplica, a você.
 
O que é redenção? A emancipação, ou redenção, de todos os escravos de Trinidad-Tobago há
alguns anos irá ilustrar o que é redenção. Uma grande importância foi paga, proposta pelo governo
britânico, para a completa redenção dos escravos. Eles foram, por assim dizer, redimidos para
sempre – emancipados para sempre, libertados da miserável escravidão.
 
Porém, quando a proclamação, ou as boas novas de redenção chegaram em Trinidad-Tobago,
como os escravos poderiam saber se elas se aplicavam a eles? Vamos supor que um velho escravo,
com muitas cicatrizes dos açoites e das correntes, dissesse: – Sim, não tenho dúvidas de que foram
pagos milhões; não tenho dúvidas de que a proclamação de redenção, emancipação, e liberdade
para sempre é boa e gloriosa; mas como posso saber se ela se aplica a mim?
 
O que você responderia? “Ora, você não é um escravo? Acaso essas cicatrizes não são prova
disso? Acaso você não nasceu escravo? Se você fosse um homem livre, certamente não se
aplicaria a você, mas uma vez que você é um escravo, ela deve se aplicar, e se aplica, a você; a
proclamação de redenção é feita para você. Ao crer na proclamação agora mesmo, você fica, em
perfeita justiça, livre para sempre.”
 
Não é isto o que você lhe diria? Ah, se nos colocássemos em nosso verdadeiro lugar, e
reconhecêssemos nossa verdadeira condição como escravos de nascença, concebidos em pecado
e formados em iniquidade, então toda a dificuldade para compreender isto iria se dissipar tão logo
enxergássemos que a redenção se aplica a nós. Será que você já reconheceu, ou, será que você
reconhece que, por natureza, você nasceu escravo do pecado, vendido ao pecado? Os pobres
escravos de Trinidad-Tobago talvez pudessem fugir de seus senhores, mas você já deve ter
percebido que é totalmente incapaz de escapar do pecado e de Satanás. Por acaso você já não tem
alguma feia cicatriz deixada pelo pecado? Se você pensa, mau como você é, que Deus irá ajudá-lo a
guardar a lei, e que no fim você poderá ter alguma esperança de chegar no céu, é porque não
reconhece sua necessidade de redenção.
 
Se o governo britânico dispendeu uma soma tão grande, proposta pelo Parlamento, quanto maior
não será o valor do resgate que Deus determinou em Seus conselhos eternos? Será que Ele decidiu
dar prata ou ouro por sua redenção? Não; Ele decidiu dar Seu Filho amado. Sim, Ele é Aquele “ao
qual Deus propôs para propiciação pela fé no Seu sangue”. (Rm 3:25) Pobre e incapaz escravo do
pecado: Esta redenção é para você. Se é esta a sua condição, ela só pode ser para você. Sim, o
escravo que creu na proclamação estava livre a partir daquele momento. O mesmo se dá com você.
Deus garante isso aos milhares que lêem estas linhas.
 
Querido jovem cristão, é da maior importância que compreenda isto: você não está apenas
justificado gratuitamente (com todos os seus pecados perdoados e Deus não vendo mais iniquidade
em você), mas você está também redimido pelo precioso sangue de Cristo. Sim, liberto daquela
condição de escravidão para todo o sempre. Se aquela grande soma em ouro colocou os escravos
em liberdade para sempre, porventura a propiciação infinita de Cristo não poderá nos libertar, nos
redimir para sempre? Será que devemos nos permitir qualquer sombra de dúvida? Não; Ele Se
entregou por nós – tudo por gratuito e imerecido favor. Não fizemos nada para nossa redenção; ela
foi toda realizada antes mesmo que tivéssemos um desejo ou pensamento sequer de redenção. E
agora escutamos as boas novas que são para nós, pobres escravos do pecado; cremos, e ficamos
livres para sempre.
 
Glória, Glória eterna Seja Àquele que suportou a cruz.
 
Mas devemos inquirir mais de como a justiça de Deus é afetada em tudo isso. “Ao qual Deus propôs
para propiciação pela fé no Seu sangue, para demonstrar a Sua justiça pela remissão dos pecados
dantes cometidos, sob a paciência de Deus; para demonstração da Sua justiça neste tempo
presente, para que Ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus.” (Rm 3:25,26) Você irá
notar que Deus apresentou a propiciação de Cristo para declarar duas coisas. Sua justiça precisava
ser revelada nestas duas coisas: em deixar impunes, em indulgência, os pecados que são
passados; e em poder ser justo, e o Justificador daquele que tem fé em Jesus.
 
Cabe aqui alertar nossos leitores de um sério erro que normalmente é cometido com respeito à
expressão “pecados dantes cometidos”, como se significasse os pecados que foram cometidos até
nossa conversão a Deus; como se quizesse dizer que os pecados até nossa conversão teriam sido
perdoados, ou remidos, pela propiciação de Cristo; e que Deus seria, por conseguinte, justo, pela
morte de Cristo, em perdoar dessa maneira os pecados cometidos antes da conversão. Este erro
leva o crente à completa confusão quanto aos pecados que possa vir a cometer depois da
conversão; mais ainda, tal idéia deixa o cristão numa posição pior que a do judeu, pois este podia
contar com outro dia de expiação, que acontecia a cada ano. Porém, se o sacrifício propiciatório de
Cristo valeu somente para nossos pecados, ou expiou nossos pecados, até o dia de nossa
conversão, então já não resta remédio para os pecados cometidos depois da conversão. Pois “já
não resta mais sacrifício pelos pecados”. (Hb 10:26) Quem poderia ser salvo com uma idéia tão finita
do sacrifício propiciatório de Cristo? O sacrifício único e infinito teve que valer para todos os pecados
de um pecador finito, desde o primeiro até o último.
 
O que significa, então, esta passagem? Simplesmente isto: Deus passou por cima, em indulgência,
dos pecados de todos os crentes antes que Cristo morresse; e agora Ele é o Justificador de todos
aqueles que crêem, reputando-os por justos como se nunca houvessem pecado. Mas a grande
questão era esta: Como Deus poderia ser justo em fazer ambas as coisas? Como poderia isto ser
revelado, declarado, e explicado? Se não houvesse resposta a esta pergunta, como poderia
qualquer alma ter paz com Deus?
 
Se todos eram culpados, como poderia Deus ser Justo em passar por cima dos pecados daqueles
que creram, sejam judeus ou gentios? E se todos provaram ser culpados agora, se você foi provado
como sendo culpado – como pode Deus declarar a respeito de você, como fez a respeito de Israel
no passado, que Ele não viu, e não vê, iniquidade em você? Certamente Ele não poderia ser justo
com base em qualquer coisa que fosse encontrada em nós, ou praticada por nós, sob a lei ou aparte
da lei. É aqui que o olhar da fé deve pousar unicamente no sangue de Jesus – “para propiciação
pela fé no Seu sangue”. (Rm 3:25) Isto por si só explica e declara a justiça de Deus, tanto no que diz
respeito aos pecados dos crentes do passado, como dos nossos agora.
 
Lembremo-nos, sempre, de que, sobre o propiciatório, o sangue era colocado diante dos olhos de
Deus! “E tomará do sangue do novilho, e com o seu dedo espargirá sobre a face do propiciatório,
para a banda do oriente; e perante o propiciatório espargirá sete vezes do sangue com o seu dedo.”
(Lv 16:14) Isso tinha que ser feito vez após outra; o sangue de um novilho tinha que ser espargido
diante de Deus naquele propiciatório de ouro uma vez por ano. E também o sangue de outras
vítimas precisava ser derramado com frequência. O mesmo não se deu com o sangue de Cristo;
aquele sangue, uma vez derramado e espargido, não pode jamais ser derramado ou espargido
novamente. Oh, minha alma, pense no que aquele sangue é para os seus pecados diante dos olhos
de Deus! O sangue, espargido sobre o ouro, demonstra o que é o sangue de Cristo, atendendo,
defendendo, declarando a justiça de Deus. Sim, Ele foi justo em justificar Davi mil anos antes do
sangue ter sido derramado; tão justo quanto Ele é agora em nos justificar mil e oitocentos anos após
ter sido derramado.* Era preciso que Jesus sofresse por ambos.
 
*O autor viveu no século 19. (N. do T.) Vemos assim o grande erro daqueles que dizem que a justiça
de Deus é aquela pela qual Ele nos torna justos. Não; a justiça de Deus é aquela pela qual Ele
próprio é justo, em considerar a nós, pobres pecadores, justos. A diferença é imensa. Se a voz
daquela que a si própria se denomina “A Igreja” diz uma coisa, e a Palavra de Deus diz outra, em
qual devo crer? Sem dúvida, na última.
 
“Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no Seu sangue, para demonstrar a Sua justiça pela
remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; para demonstração da Sua
justiça neste tempo presente, para que Ele seja Justo e Justificador daquele que tem fé em Jesus.”
(Rm 3:25,26) Preste atenção a cada sentença. Por acaso não é a justiça de Deus que Ele seja
Justo? Você crê em Jesus – que Ele glorificou assim a Deus por Seu sacrifício expiatório – que
agora, neste tempo, por meio daquela morte, Ele é, em justiça, capaz de justificar todo aquele que
crê? É Deus, dessa forma, revelado Justo à sua alma em considerar você como justo?
 
Portanto, já que a justiça é totalmente de Deus, através da redenção que há em Cristo Jesus, “onde
está a jactância”? (Rm 3:27) Será que está nas obras que praticamos? Não, um pensamento assim
está descartado. “Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé.” (Rm 3:27) Já vimos, pois, que a
fé encontra a justiça em Deus. Não posso, portanto, me jactar de ter sido, ou de ser, justo em mim
mesmo, já que fomos provados como sendo culpados. Sabemos que isto é verdade, e, se depender
da lei ou das obras, só podemos ser condenados. Não pode haver justificação baseada nisto, não
importa o quanto nos esforcemos em consegui-la deste modo. Sendo assim, a justificação deve
estar fundamentada em outra coisa. “Concluímos pois que o homem é justificado pela fé sem as
obras da lei.” (Rm 3:28) O que mais poderia a Escritura concluir uma vez que todos são culpados, e
que a justificação não depende do que somos para Deus, mas do que Ele é para nós revelado em
Cristo? Não misture estas duas coisas. Deixe que sua salvação seja totalmente com base na fé –
naquilo que Deus é para você.
 
Sermos justificado pela fé é o que Deus é para nós através de Cristo. As obras da lei estão
fundamentadas naquilo que nós somos para Deus. Oh, graça sublime! Somos justificados por uma
coisa (a fé), sem a participação da outra (a lei). E nisto a doutrina do “não há diferença” (Rm 3:22)
fica plenamente mantida. Trata-se da mesma justiça de Deus para com todos, judeus ou gentios,
sobre o princípio da fé, e por meio da fé.
Aqueles que afirmam que ainda estamos sob a lei a tornam nula, pois ela amaldiçoa os que se
encontram sob ela, já que não a guardam. Aqueles que estavam antes sob a lei precisaram ser
redimidos de sua maldição pela morte de Jesus. Sendo assim, se as Escrituras nos colocam sob a
lei novamente, então seria preciso que Jesus morresse outra vez para nos redimir da maldição da
lei. (Veja Gálatas 3:10-13; 4:4,5.) “Anulamos, pois, a lei pela fé? De maneira nenhuma, antes
estabelecemos a lei.” (Rm 3:31) Jesus revelado aos olhos da fé, levando a maldição da lei
transgredida, no lugar daqueles que se encontravam sob ela – se isto não estabelece as
reivindicações da lei de Deus, o que mais pode fazê-lo? Mas se fôssemos novamente colocados sob
a lei então suas reivindicações teriam que ser novamente estabelecidas, ou ela seria tornada nula.
 
CAPÍTULO 4 – O SUBSTITUTO PARA UMA RAÇA DE PECADORES
(Romanos 4)
 
DEVEMOS ter em mente que não estamos tratando aqui da justiça diante dos homens. Para
tratarmos disso teremos que nos voltar para a epístola de Tiago. Ali encontramos a questão da
justificação de um ponto de vista completamente diferente. Um homem não é justificado diante de
seu próximo pela fé, mas pelas obras, que provam a genuinidade de sua fé. (Veja Tiago 2:18-26.)
Pode ser que agora alguém pergunte: Se toda a raça humana foi achada culpada diante de Deus,
judeus e gentios, sobre que princípio alguém poderia ser justificado? É claro que ninguém poderia
ter sido justificado sobre o princípio da lei, aquilo que condena o culpado, e dois dos mais marcantes
casos são citados como prova disso: ninguém menos do que Abraão, o próprio pai dos judeus; e
Davi, o doce cantor de Israel. Um foi justificado quatrocentos e trinta anos antes da lei ter sido dada;
o outro, cerca de quinhentos anos depois, e isso quando merecia sua maldição por uma terrível
transgressão.
 
No que se refere a Abraão, se existisse alguém que pudesse ser justificado por obras, certamente
seria ele; e se fosse diante dos homens, como está em Tiago, ele teria de que se gloriar, “mas não
diante de Deus”. (Rm 4:2) Trata-se ainda da solene questão do homem diante de Deus. Bem, o que
diz a Escritura acerca desse homem, antes que a lei tivesse sido dada a ele ou a qualquer um?
“Creu Abraão a Deus, e isso lhe foi imputado como justiça.” (Rm 4:3) Esta é a resposta da Escritura
e o princípio sobre o qual um homem pode ser justificado sem as obras da lei. Abraão creu em
Deus, e isso (sua fé) lhe foi imputado como, e não para, justiça.
 
Uma grande parcela da compreensão depende do verdadeiro significado da palavra que é traduzida
como “imputado” neste capítulo. No original, significa “reconhecido como tal”, ou “estimado como
tal”. O significado não é simplesmente o de “imputado” ou “colocado em conta” de uma pessoa; a
palavra que tem este significado é encontrada somente duas vezes no Novo Testamento,
em Romanos 5.13: “Mas o pecado não é imputado, não havendo lei”. Não é colocado em conta da
pessoa como sendo uma transgressão da lei, quando nenhuma lei foi dada para que pudesse assim
ser transgredida. Ela é traduzida melhor e mais corretamente em Filemon 18: “Se te fez algum dano,
ou te deve alguma coisa, põe isso à minha conta”, ou seja, impute isso a mim. Vamos dar uma
ilustração das duas palavras. Uma coisa é quando dizemos que determinada pessoa depositou um
certo valor na conta de outra; foi colocado na conta dela. Outra, quando um nobre se casa com uma
mulher pobre. Será ela considerada pobre depois disso? Ela não tem um centavo de si mesma, mas
é considerada, ou reconhecida como, tão rica quanto seu marido; ela é judicialmente reputada
assim, ou reconhecida assim. Abraão creu em Deus, e isso foi reconhecido como justiça. Talvez isto
possa ser visto confirmado em Abel. “Pela fé Abel ofereceu a Deus maior sacrifício do que Caim,
pelo qual alcançou testemunho de que era justo, dando Deus testemunho dos seus dons”, etc. (Hb
11:4) Em ambos os casos o princípio da fé é o mesmo. Abel creu em Deus, e trouxe o sacrifício.
Abraão creu em Deus. Ambos foram considerados como justos. E isto não sobre o princípio das
obras, não sobre o terreno do que Abraão ou Abel eram para Deus, mas Deus imputou-lhes a fé
como justiça. “Mas aquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe
imputada como justiça.” (Rm 4:5) Outro dia encontrei um homem idoso, com cabelos brancos como
a neve, e disse-lhe: “Você professou a Cristo, de um modo ou de outro, por muitos anos, e mesmo
assim não sabe se tem vida eterna; você não tem certeza se está justificado e, se morrer, não tem a
certeza de que vai partir para estar com Cristo.”
 
Seu idoso semblante descaiu; ele respondeu-me: “Isto é totalmente verdade.”
 
Permita-me, então, que lhe diga a razão disso. Você nunca chegou a ver o ponto de partida de
Deus. Você tem se esforçado por todos esses anos, de um modo ou de outro, para ser piedoso,
crendo que Deus justifica aquele que é piedoso. Você nunca chegou a crer que Deus justifica o
ímpio, e é aí que está o ponto de partida. A piedade virá depois. “Mas aquele que não pratica, mas
crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça.” (Rm 4:5)
 
“Eu nunca antes enxerguei a coisa assim” Disseme o velho homem. Pergunto agora a você, leitor,
algo bem solene: Você já tinha visto isso antes, e crido em Deus que justifica o ímpio?
 
Talvez você tenha estado se esforçando há muito tempo para ocupar o lugar de um homem piedoso
diante de Deus pelas ordenanças dos homens, e pelas assim chamadas boas obras, tentando por
todos os meios falsificar esta passagem das Escrituras. Sim, com frequência leva-se toda uma vida
de fracasso para fazer uma alma chegar a este verdadeiro ponto de partida de graça. Certamente
deve ser baseado em algum princípio diferente da lei o fato de Deus poder justificar o ímpio. Não
àquele que pratica, mas ao que crê.
 
Vamos ver agora a explanação inspirada, dada por Davi, a respeito deste assunto. “Assim também
Davi declara bem-aventurado o homem a quem Deus imputa a justiça sem as obras, dizendo: Bem-
aventurados aqueles cujas maldades são perdoadas, e cujos pecados são cobertos. Bem-
aventurado o homem a quem o Senhor não imputa o pecado” (Rm 4:6-8); ou, “a quem o Senhor
jamais imputará pecado”. (Rm 4:8 – Almeida Versão Atualizada) Não é que sejam considerados
justos aqueles que nunca pecaram, pois todos pecaram; mas aqueles cujos pecados são cobertos,
cujas maldades foram perdoadas. Nem se trata de somente os seus pecados passados terem sido
cobertos pela morte expiatória de Cristo, mas temos esta declaração adicional da infinita graça, e
isto em perfeita justiça, que é: “O Senhor jamais imputará pecado”. Certamente isto é maravilhoso, e
está, ao mesmo tempo, em perfeita harmonia com toda a Escritura. Tal é a eficácia daquele único
sacrifício; tal é o valor do sangue de Jesus, que nos purifica de todo o pecado. Não há mais
necessidade de sacrifícios pelos pecados – mais nenhum; e Deus não se lembra dos pecados, os
quais foram removidos de uma vez para sempre. (Hb 10; 1 João 1:7.) Assim, no que diz respeito a
imputar a culpa, ou os pecados, aos justificados, eles são considerados justos, tão justos como se
nunca tivessem pecado. No que diz respeito à sua posição diante de Deus, o pecado não é de modo
algum imputado ao homem justificado; ele é, assim, verdadeira e continuamente bem-aventurado.
Acaso um amor como esse, uma salvação eterna como essa, iria fazer com que aquele que dela
desfruta ficasse descuidado e dissesse: Continuemos, então, no pecado para que a graça possa
abundar? Vamos tratar disso mais adiante. Mas acaso não é exatamente esta a verdade revelada
aqui? Era completamente impossível para Deus ter justificado o ímpio deste modo sobre o princípio
da lei; mas a propiciação, por intermédio do sangue do Filho eterno de Deus, explica a justiça de
Deus em, dessa forma, não imputar os pecados àquele que crê.
 
Pode-se ainda perguntar: Será que aquela propiciação aplica-se ao futuro tanto quanto ao passado?
É exatamente isto o que as Escrituras ensinam, e, por estranho que possa parecer, o conhecimento
disto nos é dado para que não pequemos. “Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não
pequeis: e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai. Jesus Cristo, o Justo. E Ele é a
propiciação pelos nossos pecados.” (1 João 2:1,2) E em outro lugar, falando acerca dos crentes:
“(Cristo), levando Ele mesmo em Seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro”. (1 Pd 2:24) E
mais uma vez: “Havendo feito por Si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-Se à
destra da majestade nas alturas”. (Hb 1:3) Oh, tremenda graça – livre graça!
 
“Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputa o pecado.” (Rm 4:8) Ele não o fará – não
poderá fazê-lo – não poderá, em justiça, nos imputar pecado. Veremos isto ainda mais amplamente
explicado à medida que seguirmos adiante.
 
Leitor: Você crê realmente em Deus? Sim, esta é a questão, enquanto lemos estas páginas das
riquezas de Sua graça, cremos em Deus? Lembre-se de que estamos ainda só na porta de entrada
do próprio evangelho de Deus. Acaso esta bem-aventurança vem somente sobre os que estavam
debaixo da lei, isto é, os circuncisos, ou sobre os incircuncisos? Bem, tratava-se de algo evidente,
que os judeus em Roma não poderiam negar, que a fé havia sido imputada como justiça a Abraão
quando ele era ainda incircunciso, bem antes da lei ter sido dada. Que argumento arrasador,
portanto, de que tudo deve ser por graça e não pela lei! E note bem, ele recebeu o sinal da
circuncisão, um selo da justiça da fé que tinha quando era ainda incircunciso. Isto é, a circuncisão
era uma marca de sua separação para Deus: ele era a primeira pessoa, o pai dela; mas, note bem, a
circuncisão nada tinha a ver com sua justificação – ele foi considerado justo primeiro, totalmente
aparte de todas as obras ou da circuncisão. E não dá-se o mesmo com todo crente? Sua separação
para Deus e uma vida santa são um sinal de que ele já foi considerado justo primeiro, aparte da lei e
das obras. Pois Deus o chama e o justifica enquanto ímpio. Quer dizer, é ali que Deus começa com
o homem. Será que foi assim que Ele começou com você, ou você está procurando ser justificado
por obras quando se tornar piedoso?
 
Há agora outro princípio de grande importância que nos é apresentado. A promessa depende
claramente só de Deus, e esta foi dada a Abraão muito tempo antes da lei; portanto não poderia ser
pela lei, mas pela justiça que vem da fé. O concerto do monte Sinai estava em direto contraste com
a promessa: ali a bênção dependia da obediência do homem, e ele fracassou totalmente em guardar
o concerto. O homem podia fracassar sob o concerto, e assim perder o direito de qualquer
reivindicação com base nas obras; e certamente ele fracassou.
 
Mas Deus não poderia fracassar, portanto a promessa continuou sendo fiel para todo aquele que
crê. “Portanto é pela fé, para que seja segundo a graça, a fim de que a promessa seja firme a toda a
posteridade…” (Rm 4:16) Assim Abraão creu na promessa de Deus, porque Deus não poderia
falhar. “E não duvidou da promessa de Deus por incredulidade, mas foi fortificado na fé, dando glória
a Deus; e estando certíssimo de que o que Ele tinha prometido também era poderoso para o fazer.
Pelo que isso lhe foi também imputado como justiça.” (Rm 4:20-22) Ele não atentou para o seu
próprio corpo. Agora, uma confiança como essa em um concerto de obras teria sido confiança em si
mesmo, o que não teria sido fé, mas presunção. Sua fé tem a ilimitada confiança em Deus somente:
na promessa de Deus. Portanto a fé foi imputada como justiça. Ele, o próprio Abraão, foi justificado
pela fé, considerado justo diante de Deus. Isso foi escrito depois de Abraão, ou seja, para nós. Pois,
por mais bendito que tenha sido para Abraão crer na promessa de Deus, há algo ainda mais bendito,
para nós, “a quem será tomado em conta; os que cremos naquele que dos mortos ressuscitou a
Jesus nosso Senhor; o qual por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação”.
(Rm 4:24,25) Abraão creu na promessa de Deus. Nós cremos nestes dois fatos de Deus: na
promessa, e que ela se cumpriu. Somos assim considerados justos diante de Deus.
 
Mas talvez alguém possa perguntar: Não há ainda muitos que confiam a salvação de suas almas às
promessas? Eu pergunto: O que você acharia de uma mulher que descansasse na antiga promessa
de seu marido como uma evidência de ser ela hoje sua esposa? Isto não mostraria que ela estaria
ainda em dúvida se o matrimônio houvera sido realizado ou se seria válido; ou, pelo menos, que ela
não estaria compreendendo o matrimônio? E não acontece algo semelhante quando tentamos
descansar nas promessas? Haverá necessariamente alguma dúvida ou falta de entendimento
acerca desses dois fatos já consumados diante de nós. Certamente há muitas promessas preciosas
sobre as quais fazemos bem em descansar. Mas, o assunto que estamos tratando já não é mais
uma promessa! A justiça nos é imputada, crendo naquele que ressuscitou a Jesus nosso Senhor de
entre os mortos. Ela nos é imputada: não é uma promessa. Não, se somos crentes, a justiça de
Deus está sobre nós. Somos considerados justos. Isto porque a ressurreição de nosso Senhor não é
agora um assunto de promessa. Deus já ressuscitou Jesus de entre os mortos. E se não o fez, então
não há evangelho, e nós continuamos em nossos pecados. (Leia 1 Coríntios 15:14-17.) Vamos
agora prosseguir com muita atenção. Deixe-nos antes apenas assinalar que ocorre uma mudança
na linguagem. Já não se trata da morte de Cristo vista sob o aspecto do propiciatório, como
no capítulo 3.22-26. Ali, essa morte glorificou primeiramente a Deus. Estando o sangue diante dEle,
Sua justiça é mantida, estabelecida sobre o Seu trono, o propiciatório; e, por conseguinte, há
misericórdia disponível para todos sem que isto venha a comprometer a justiça de Deus. Porém
aqui, no capítulo 4.24,25, Cristo é o Substituto de Seu povo, cumprindo o papel do segundo bode da
expiação. Os pecados de Israel eram transferidos para aquele bode – colocados sobre ele e levados
embora. É o que temos aqui. “O qual por nossos pecados foi entregue.” (Rm 4:25) Será que Ele foi
entregue pelos pecados do mundo todo, como seu Substituto, para levá-los embora? Se assim
fosse, os pecados todos teriam sido levados embora, uma vez que Deus aceitou o Substituto, o que
é verdade por Deus O ter ressuscitado de entre os mortos. Todavia, isto seria ensinar o erro fatal da
redenção universal. É por isso que devemos cuidadosamente notar que estas palavras estão
distintamente limitadas aos crentes. “Os que cremos.” (Rm 4:24) Abraão creu em Deus, e isto foi
imputado a ele como justiça. Cremos em Deus, que Ele “dos mortos ressuscitou a Jesus nosso
Senhor; o qual por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação”. (Rm
4:24,25) O capítulo seguinte também irá mostrar que isto deve estar limitado aos crentes. “Sendo
pois justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo.” (Rm 5:1) Tentar
aplicar estas palavras a todas as pessoas é procurar destruir o seu efeito sobre todas elas, sendo o
mesmo que ensinar falsamente que todos serão salvos.
 
Vamos então juntar os fatos por sua ordem. Deus nos está falando aqui. Cremos nEle, que Ele
ressuscitou Jesus de entre os mortos? Só isto não seria suficiente, pois os demônios sabem que
assim é, e há muitos inconversos que não duvidariam desse fato. Mas repare bem no que vem a
seguir: “O qual por nossos pecados foi entregue”. (Rm 4:25) Se fosse dito “nossas transgressões”,
então não incluiria os gentios, os quais não se encontravam sob a lei, porém esta é uma palavra que
abrange todos os nossos pecados – daqueles sob a lei, como sendo transgressões, ou daqueles
sem lei.
 
Então, será que você crê realmente que Jesus foi entregue nas mãos cruéis de homens, sim,
pregado numa cruz, e esteve ali para receber, e recebeu, a ira de Deus devida aos seus pecados,
aos pecados pertencentes a você mesmo, leitor? Antes de ler outra linha, suplicamos a você que
responda a esta pergunta diante de Deus. Será que você pode olhar para trás e ver o Santo de Deus
carregando os seus pecados, leitor, tão verdadeiramente como se não houvesse nenhuma outra
pessoa além de você, cujos pecados Ele levou sobre a cruz? Oh, que cena você pode contemplar: o
seu Substituto!
 
E, se podemos nos expressar assim, Sua morte não só executou o infinito pagamento que a infinita
justiça exigia, mas Ele “ressuscitou para nossa justificação”. (Rm 4:25) Deus demonstrou, assim, a
sua aceitação pelo resgate – a morte de nosso Substituto; mas Ele não poderia, de maneira
nenhuma, ter demonstrado de forma mais clara o eterno alívio de nosso fardo, do que ressuscitando
o Substituto para nossa justificação. Oh, quão tremendo é! Ele foi ressuscitado de entre os mortos
para que, crendo em Deus, pudéssemos justamente ser considerados, reputados, por justos diante
dEle; tendo sido nossos pecados verdadeiramente levados, para nunca mais serem imputados a
nós, como se nunca tivéssemos pecado – justificados, considerados justos diante de Deus, e por
Deus, nosso Pai.
 
emos, assim, mais do que uma promessa – tudo é um fato consumado. Todos os nossos pecados –
pois eram todos igualmente futuros então – foram levados por Jesus. “O qual por nossos pecados foi
entregue.” (Rm 4:25) Deus O ressuscitou para nossa justificação. Crendo em Deus, somos
justificados, considerados justos.
 
Note bem: “Ressuscitou para nossa justificação” não poderia nunca significar que ressuscitou
porque fomos justificados; um tal pensamento põe a fé totalmente de lado. Trata-se, evidentemente,
de ter ressuscitado “para”, com o objetivo de, com o propósito de nossa justificação; isto é, quando,
por graça, cremos. “Sendo pois justificados pela fé” – sendo considerados justos sobre o princípio da
fé – “temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo.” (Rm 5:1) Muitas almas estão
angustiadas com a dúvida acerca de estarem tendo o tipo certo de fé – “justificados pela fé”. Se
separarmos este versículo do final do capítulo anterior, acabaremos ocupados com a fé como sendo
um assunto abstrato; e acabaremos fazendo da fé algo que, de um modo ou de outro, mereça a
justificação, passando, então, a ser uma questão de ficarmos examinando nossos próprios
sentimentos. Alguém poderá dizer: Mas não houve “muitos” que, “vendo os sinais que fazia, creram
no Seu nome. Mas o mesmo Jesus não confiava neles, porque a todos conhecia”? (Jo 2:23) É
verdade; mas em que foi que eles creram? Sem dúvida creram nele como o Messias, quando viram
os milagres que fez. Mas tratava-se de algo bem diferente daquilo que temos diante de nós aqui.
 
Bem, poderá você dizer, estou certo de que almejo ter paz com Deus, mas não tenho certeza de tê-
la conseguido. Como pode ser isso? Você me diz que, em parte, é porque eu fico perguntando a
mim mesmo se tenho o tipo certo de fé, mas o que acontece na realidade é que meus horríveis
pecados e iniquidades erguem-se diante de mim e me oprimem, até que quase chego a concluir que
não tenho parte alguma em Cristo. E minha consciência também confirma que assim é.
 
Acaso não foi Jesus, o Santo, o Santo de Deus, entregue por essas mesmas iniquidades? Você crê
que Deus O ressuscitou de entre os mortos – Ele, “O qual por nossos pecados foi entregue”? Trata-
se de algo bem diferente de milagres, não importa quão importantes eles sejam no seu devido lugar.
Note bem que aqui trata-se de uma real substituição – Cristo, o Substituto do Seu povo e do crente,
entregue. Não podemos confundir isto com a propiciação, a qual não foi apenas por nós, mas por
todo o mundo. Deus está glorificado acerca do pecado, portanto o perdão gratuito é pregado a toda
criatura – a todos os homens. Vamos usar de um tipo, ou figura, disto, a que esta própria passagem
se refere. Depois que o sangue de um bode era espargido sobre o propiciatório de ouro diante de
Deus, demonstrando a justiça de Deus atendida pelo sangue de Jesus sob as vistas de Deus –
“então fará chegar o bode vivo. E Aarão porá ambas as suas mãos sobre a cabeça do bode vivo, e
sobre ele confessará todas as iniquidades dos filhos de Israel, e todas as suas transgressões,
segundo todos os seus pecados: e os porá sobre a cabeça do bode, e enviá-lo-á ao deserto, pela
mão dum homem designado para isso. Assim aquele bode levará sobre si todas as iniquidades
deles à terra solitária; e enviará o bode ao deserto”. (Lv 16:21) Compare agora isto com outra
passagem: “Mas Ele foi ferido pelas nossas transgressões, e moído pelas nossas iniquidades: o
castigo que nos traz a paz estava sobre Ele, e pelas Suas pisaduras fomos sarados. Todos nós
andamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho: mas o Senhor fez cair
sobre Ele a iniquidade de nós todos… Ele levou sobre Si o pecado de muitos”. (Is 53:5-12) As
Escrituras não ensinam que Ele tenha levado os pecados de todos; mas, como Substituto, levou os
pecados de muitos; e isto em contraste com a perdição daqueles que O rejeitam, e devem, portanto,
ser julgados. Sim, note bem o contraste. “E como aos homens está ordenado morrerem uma vez,
vindo depois disso o juízo, assim também Cristo, oferecendo-Se uma vez, para tirar os pecados de
muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que O esperam para a salvação.” (Hb 9:27,28)
Portanto, fé não é crer no que sinto, ou no que creio. Você crê neste maravilhoso fato, que Deus O
ressuscitou de entre os mortos; a Ele que foi, como seu Substituto, entregue por nossas ofensas?
Esta é a primeira questão que diz respeito todas as suas iniquidades. Foram elas transferidas para
Cristo; foram elas colocadas sobre Ele? Não apenas os pecados de um ano, como acontecia com
Israel no dia da expiação, mas todos os seus pecados e iniquidades tendo sido colocados ali, antes
mesmo que você tivesse nascido. Assumiu Ele a total responsabilidade por esses pecados, em
conformidade com os justos requisitos de Deus? Terá Ele vindo, e sido entregue, exatamente para
esse propósito? Terá sido por estar suportando a ira de Deus contra os pecados que pertenciam a
você, que Ele clamou: “Deus meu, Deus meu, por que Me desamparaste”? (Mt 27:46) Oh, um amor
tal que vai muito além das palavras ou do pensamento! Terá Ele fracassado? Não, absolutamente;
escute Suas palavras: “Está consumado”. (Jo 19:30) Sim, aquela obra que Ele veio cumprir está
consumada. Deus está glorificado. Nossas iniquidades foram colocadas sobre Ele, transferidas para
Ele, levadas por Ele; não apenas alguns de nossos pecados, mas todas as nossas iniquidades
foram postas sobre Ele. O Senhor Jeová as colocou sobre Ele. E está consumado. Oh, minha alma,
pondere bem nisto – “Está consumado!” Ele já fez a sua paz com Deus por Seu próprio sangue. E
agora o que é que Ele diz a você? “Paz seja convosco.” (Jo 20:19) Será que você diz: Oh, mas e os
meus horríveis pecados? Ele responde que foram todos colocados sobre Ele; “paz seja convosco”.
Ele mostra Suas mãos e Seu lado. Mas, diz você, eu Te tenho negado, Senhor, nas horas em que
mais deveria ter confessado a Ti. “Paz seja convosco.”
 
Será que agora que Deus já julgou em Seu Filho todos os nossos pecados, todas as nossas
iniquidades, poderá, em justiça, julgá-las em nós novamente? Talvez você diga: Em momento algum
duvido que Jesus morreu na cruz como meu Substituto, e levou meus pecados sobre Seu próprio
corpo no madeiro; todavia, ainda assim não tenho a bendita certeza de estar justificado, e de ter paz
com Deus; não sinto a alegria que deveria sentir. Será que esta passagem, ou qualquer outra, diz
que estamos justificados e que temos paz pelo que sentimos? Será que diz que devemos olhar para
nossos sentimentos em busca de evidência de que estamos justificados? Deus fez algo para dar à fé
a certeza de nossa justificação, e esse algo que Ele fez exatamente para esta finalidade, tem sido
grandemente ignorado. Jesus não somente foi entregue por nossas ofensas, mas lemos que
“ressuscitou para nossa justificação”. (Rm 4:25) Sim, Deus O ressuscitou de entre os mortos, não
porque estávamos justificados, mas para o expresso propósito de, uma vez crendo nEle,
pudéssemos ser justificados. Assim, se Cristo não ressuscitou, estamos enganados e continuamos
em nossos pecados. (1 Co 15:17.) Mas Ele ressuscitou; para a fé a questão toda está resolvida.
 
Acaso você diz: Mas será que não devo aceitar a expiação de meu Substituto?
 
Não, neste caso foi Deus Quem mostrou que já aceitou o único sacrifício por nossos pecados,
ressuscitando Jesus de entre os mortos, e dando a Ele um lugar acima de todos os céus. E agora,
no que diz respeito aos nossos pecados, querido leitor, onde é que eles estão? Foram transferidos
para nosso Substituto. Bem, eles não poderiam estar sobre você e sobre Ele ao mesmo tempo. Não.
Onde estão eles, então? Estarão eles sobre Cristo? Não. Mas devem estar sobre Ele, se é que
devem estar sobre alguém, já que Ele tomou toda a responsabilidade deles diante de Seu Deus.
Mas não estão sobre Ele. E portanto não podem tampouco estar sobre você. Oh, que tremenda
graça! Deus diz que nunca mais se lembrará deles. E se lembrasse, teria que fazê-lo como estando
sobre Cristo, o que é impossível. Cristo está claramente na presença de Deus na luz. Você,
portanto, está justificado de todas as coisas – e não espera estar. Será que poderia haver algo que
desse mais certeza do que descansar nas próprias palavras de Deus? Acaso não entregou Ele o
Seu Filho amado exatamente com este objetivo, de que pudéssemos ter irrestrita paz com Ele? E
então por que deveríamos duvidar dEle?
 
CAPÍTULO 5 – A POSIÇÃO DO CRENTE EM CRISTO
(Romanos 5)
 
LIGANDO, portanto, este versículo – na verdade, ligando os primeiros onze versículos – com
o capítulo 4 que o precede, temos três coisas que nos são asseguradas. Primeiramente, sendo
justificados, considerados justos diante de Deus, temos, com respeito a todos os nossos pecados,
paz com Deus, enquanto reconhecemos plenamente Sua santidade e justiça; e isso, não por meio
de qualquer coisa que tenhamos feito, mas por nosso Senhor Jesus Cristo; a paz que é resultante
do bendito conhecimento, pela fé, de que todos os nossos pecados foram levados embora pelo
sangue de Jesus, de modo que Deus não pode mais nos acusar de nenhuma culpa. Temos paz com
Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo. Quanto ao passado, tudo está limpo.
 
Então, em segundo lugar: “Pelo qual também temos entrada pela fé a esta graça, na qual estamos
firmes”. (Rm 5:2) Entramos, pela fé, no pleno e desimpedido favor de Deus. Esta graça inclui o favor
gratuito revelado na redenção que temos, sendo justificados gratuitamente. É este o nosso feliz
lugar; é aí que estamos firmes. Que tremenda paz a que já temos! Desnecessário é dizer que isto
não poderá ser desfrutado se estivermos andando descuidadamente, ou permitindo qualquer tipo de
pecado em nossa vida.
 
E, em terceiro lugar, no que diz respeito ao futuro, “nos gloriamos na esperança da glória de Deus”.
(Rm 5:2) Não esperamos ser justificados, ou ter paz – isto já temos – mas esperamos, com regozijo,
pela glória de Deus. Porventura não é um gozo, para nossos corações, saber que logo iremos estar
no cenário onde tudo é para a glória de Deus; onde tudo é adequado a Ele; tudo puro por dentro e
por fora? Sim, pureza sem pecado, adequada a Ele, quando Ele, que nos redimiu, vier e nos levar
para Si mesmo. Poderia qualquer outra coisa trazer semelhante gozo ao nosso coração, além desta,
que é estarmos com Ele e sermos como Ele é?
 
“E não somente isto”, (Rm 5:3) não somente o fato de termos a paz com Deus; o presente acesso ao
gratuito favor de Deus, e o ardente almejo por Sua glória, mas isto nos capacita ainda a também nos
gloriarmos nas tribulações presentes. “Sabendo que a tribulação produz a paciência, e a paciência a
experiência, e a experiência a esperança. E a esperança não traz confusão, porquanto o amor de
Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado.” Devemos frisar
que costuma-se cometer um erro muito comum com respeito a estes versículos. É comum que
sejam lidos como se significassem exatamente o oposto daquilo que estão dizendo, como se
precisássemos passar por uma experiência assim para que o amor de Deus pudesse ser derramado
em nossos corações; é como se, caso orássemos bastante e fôssemos bem diligentes na paciência,
experiência e esperança, pudéssemos esperar que o Espírito Santo nos fosse dado. Não há
palavras para expressar o quão errada é tal idéia. O Espírito Santo nos é dado porque Jesus
terminou a obra da redenção; e, estando Ele agora glorificado, somos selados pelo Espírito, e o
amor de Deus é derramado em nossos corações. Sendo assim, supor que o Espírito Santo venha a
ser dado por causa de nossos esforços, nossa experiência ou devoção própria, é desprezar a
perfeita obra de Cristo. No entanto, acontece justamente o contrário; toda essa bendita experiência
vem por causa do amor de Deus ser derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi
dado.
 
Suponha que você fosse convidado para jantar com Sua Majestade, a Rainha, e que ela
dispenssasse a você toda a atenção e gentileza possíveis; e que, ao invés de você desfrutar
daquela gentileza, passasse a expressar, diante dos presentes, o desejo sincero de ter uma rainha,
e uma rainha que lhe demonstrasse gentileza. O que ela, ou qualquer outra pessoa, pensaria de
uma tal conduta? Só pessoas cegas e surdas poderiam cometer um engano assim. Não há dúvida
de que aqueles que conhecessem melhor uma rainha assim, mais leais seriam; e aqueles que
sabem que o amor de Deus é derramado em seus corações pelo Espírito Santo que lhes é dado,
irão amar a Deus mais ainda, e terão essa bendita experiência por causa daquilo que já receberam
dEle.
 
O que dizer do que é espiritualmente cego e surdo que nada pode perceber do amor de Deus para
conosco, ou de como ele é derramado em nossos corações, mas que acaba transformando esta
passagem em legalismo, pensando e dizendo que Deus nos amará enquanto nós O amarmos? Que
quanto mais amarmos a Deus, mais Ele nos amará?! Tal pensamento encontra-se na raiz de uma
grande parcela do vão esforço que é o de buscar santidade no homem. Muitos ficariam surpresos se
vissem isto colocado de forma nua e crua. O que você diria de ter que se esforçar para tornar sua
carne santa a fim de que Deus pudesse amar você? E não é isto o que milhares de pessoas estão
tentando fazer? Será que isto não é repetir, na prática, o velho pensamento de que EU preciso ser
santo a fim de que Deus me ame? Certamente que a carne deve ser subjugada, mas não para que
Deus me ame, e sim porque Ele me ama. Vamos agora considerar como Ele nos tem amado, e em
que estado nos encontrávamos quando Ele nos amou.
 
“Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios.” (Rm 5:6) Será que
nossos corações já se renderam a este fato? Nós não éramos apenas culpados, mas não tínhamos
forças, éramos incapazes de melhorar. Enquanto estávamos exatamente nessa condição, nos foi
demonstrado o amor infinito: Cristo “morreu a seu tempo pelos ímpios”. Não existiam outros meios
possíveis para Deus justificar o ímpio, senão pelo Seu Filho morrendo pelo ímpio. Sim, é exatamente
nisto que o amor de Deus vem resplandecer em nosso favor. “Mas Deus prova o Seu amor para
conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores.” (Rm 5:8) Será que isto
aconteceu sobre o princípio de que quanto mais amamos a Deus, mais Ele nos amará? Poderá
haver maior exibição do Seu amor do que esta: “Cristo morreu por nós”? Impossível! No entanto,
isso aconteceu quando éramos ainda pecadores.
 
Oh, pare um pouco e medite no amor de Deus para conosco. Sim, não em um amor nosso para com
Deus que pudesse existir primeiro. Não que tenhamos amado a Deus, mas que Ele assim nos amou.
Quanto mais isto tomar posse de nossas almas, mais iremos amá-Lo.
 
Será que você está dizendo que tudo isso é verdade com respeito ao passado, mas que podemos
fracassar no futuro, e então Deus deixaria de nos amar? Não, absolutamente; será que após
havermos conhecido o amor de Deus, seríamos por fim abandonados à eterna ira? Vamos ouvir a
resposta do Espírito Santo para esta questão tão solene. Se Deus dispensou de tal modo o Seu
amor para conosco, a ponto de, quando ainda éramos pecadores, Cristo haver morrido por nós,
“logo muito mais agora, sendo justificados pelo Seu sangue, seremos por Ele salvos da ira”. (Rm
5:9) Preste atenção: “sendo justificados pelo Seu sangue” é algo que nunca muda; não se trata de
termos sido justificados uma vez pelo Seu sangue, e precisarmos ser justificados novamente, mas,
“sendo justificados” é algo que sempre permanece. Seu sangue é sempre o mesmo diante de Deus,
tendo feito expiação por todos os nossos pecados. Não há alteração. Portanto, não apenas somos,
como “seremos por Ele salvos da ira”. Oh, infinita e preciosa graça!
 
E há ainda mais: “Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de Seu
Filho, muito mais estando já reconciliados, seremos salvos pela Sua vida”. (Rm 5:10) Oh, quanto
cuidado tem nosso Pai em nos convencer de Seu eterno e imutável amor! Pense só nisto: toda a
obra expiatória para nos reconciliar com Deus foi feita pela morte de Seu Filho. Deus foi glorificado;
nossos pecados, todos os nossos pecados, foram transferidos para Cristo, e levados por Ele,
quando éramos ainda inimigos! E agora somos justificados de todas as coisas, redimidos para Deus,
feitos filhos Seus. Aquele que nos reconciliou por Sua morte vive para servir, para lavar nossos pés,
para salvar-nos até o fim, por Seu sacerdócio e mediação, se porventura falharmos. “Muito mais,
estando já reconciliados, seremos salvos pela Sua vida.” (Rm 5:10) Esta certeza quanto ao futuro
remove agora qualquer impedimento para o pleno gozo do coração em Deus. Não apenas temos
esta certeza de sermos salvos até o fim por Sua vida, “mas também nos gloriamos em Deus por
nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual agora alcançamos a reconciliação”. (Rm 5:11) Isto encerra
toda a questão quanto aos nossos pecados. Deus é absolutamente justo no modo como tirou nossos
pecados pela morte de Seu Filho. Eles foram colocados sobre o Substituto expiatório, em infinito
amor para conosco, quando éramos ainda inimigos, sem força nenhuma. Aquele que um dia levou
os pecados sobre Seu próprio corpo está ressuscitado de entre os mortos para nossa justificação.
Estamos justificados, e temos paz com Deus. O amor de Deus é derramado em nossos corações
pelo Espírito Santo que nos foi dado. O amor de Deus e a justiça de Deus estão plenamente
reveladas e demonstradas em reconciliar-nos a Si mesmo pela morte de Seu Filho. Nossa libertação
futura e salvação prática de toda ira é algo absolutamente certo. No que concerne ao pecado,
recebemos em nossas almas o pleno efeito de tudo isso.
 
E, oh, maravilhoso privilégio! no que diz respeito a todos os nossos pecados, nos gloriamos sem
detença em Deus! A salvação provém inteiramente de Deus, e nós O conhecemos ao ponto de nos
gloriarmos em Deus, nos regozijarmos nEle em tudo o que Ele é.
 
Nem precisamos dizer que algo assim jamais poderia existir por intermédio da lei. Mesmo que a lei
pudesse nos ter justificado dos pecados passados – o que era impossível – quem é que poderia
permanecer sobre sua própria responsabilidade quanto ao futuro, e se gloriar em Deus, regozijar-se
nEle? Ninguém; portanto tudo só pôde ser por meio de nosso Senhor Jesus Cristo, do princípio ao
fim. Cuidemos para não deixar passar esta graça tão perfeita, ao permitirmos uma mínima confiança
que seja na carne. É Cristo no futuro, assim como foi Cristo no passado.
 
Por conseguinte, o versículo 11 encerra a questão dos pecados. A questão do pecado nos será
apresentada agora, se o Senhor assim desejar. Que o Espírito Santo possa aprofundar em nossas
almas o senso da infinita graça de nosso Deus, a fim de podermos nos regozijar continuamente
nEle.
 
Chegamos agora à questão do pecado, ou das duas cabeças das duas famílias: uma cabeça, Adão,
pelo qual o pecado entrou no mundo; e a outra cabeça, Cristo, pelo qual a graça abundou sobre o
pecado.
 
Muitas almas encontram-se profundamente angustiadas ao descobrirem que, apesar de crerem que
seus pecados estão para sempre perdoados, ainda encontram sua raiz, o pecado, na carne. Boa
parte dessa confusão acontece por não se observar cuidadosamente a diferença entre os pecados e
o pecado, como aparece nesta epístola. Como já vimos, o versículo 11 encerra a questão dos
pecados. O versículo 12 traz à tona a questão do pecado. “Pelo que, como por um homem entrou o
pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por
isso que todos pecaram.” (Rm 5:12) Há, assim, duas provas da origem do mal: o pecado entrou no
mundo por um homem; e, de toda a raça humana, todos pecam, e todos morrem. Quão absoluta a
consistência que há na Palavra de Deus, e isto acompanhada de fatos! E é algo que tem sido
constatado como verdadeiro, seja com o homem colocado tanto sob a lei, como sem lei.
 
Depois de haver entrado o pecado, e o homem ter caído, passaram-se ainda dois mil e quinhentos
anos antes que fosse dada a lei. “Porque até à lei estava o pecado no mundo, mas o pecado não é
imputado (ou, “colocado em conta”), não havendo lei. No entanto a morte reinou desde Adão até
Moisés, até sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a
figura dAquele que havia de vir.” (Rm 5:13,14) Isto é, eles não tinham transgredido uma determinada
lei; todavia mesmo assim havia morte, a prova de que o pecado estava ali. Portanto, o pecado e a
morte entraram no mundo por meio de sua cabeça, Adão. Assim, a morte não é meramente a
penalidade por uma lei transgredida; mas, havendo o pecado uma vez entrado, a morte é o seu
resultado; ou, como está expressado na Palavra, “o salário do pecado é a morte”. (Rm 6:23) Agora,
em contraste com aquilo que entrou pelo pecado da criatura, a primeira cabeça – pecado e morte –
aprouve a Deus nos revelar aquilo que entrou por meio de uma nova raça, por intermédio do dom,
ou dádiva, de Seu próprio Filho – justiça e vida. Somente o infinito dom deve prevalecer sobre aquilo
que é finito e medonho como foi o resultado do pecado da criatura. Deus não poderia, em Seu
gratuito favor para conosco, conceder-nos uma dádiva, ou dom, que estivesse aquém de nossas
necessidades. Daí vem o cuidado do Espírito Santo em nos mostrar como esse dom de gratuito
favor abundou sobre o pecado, a raiz do mal e da morte que entrou por meio de Adão.
 
“Mas não é assim o dom gratuito como a ofensa. Porque, se pela ofensa de um morreram muitos,
muito mais a graça de Deus e o dom pela graça, que é dum só Homem, Jesus Cristo, abundou
sobre muitos.” (Rm 5:15) Sem dúvida, o efeito da ofensa do pecado de Adão sobre os “muitos”,
mesmo sobre sua posteridade, é algo grande e terrível; e todos nós pertencemos a esses “muitos”.
A morte passou a todos os homens. No entanto, se passamos da morte para a vida na ressurreta
Cabeça da nova criação, devemos agora ver como a graça de Deus, e o dom, pela graça, por meio
de Um – Jesus Cristo – abundou sobre os “muitos” que estão nEle.
 
“E não foi assim o dom como a ofensa, por um só que pecou. Porque o juízo veio de uma só ofensa,
na verdade, para condenação, mas o dom gratuito veio de muitas ofensas para justificação.” (Rm
5:16) Em Adão vemos um pecado, e as consequências que brotaram dele em juízo. Olhe agora para
o dom gratuito. Veja Jesus, nosso Substituto: todas as nossas iniquidades foram levadas a cair
sobre Ele, e isto exatamente com o propósito de podermos, pela fé, ser justificados de todas elas. E,
mais ainda, não apenas justificados de todas as nossas iniquidades pelo Seu sangue, mas Ele,
havendo morrido por nossas ofensas, ressuscitou para nossa justificação.
 
Vamos meditar agora sobre este imenso fato – a ressurreição de Jesus de entre os mortos – e esta
com o expresso propósito de nossa justificação – de nossa plena e abundante justificação. Quando
Jesus foi ressuscitado de entre os mortos, incorporou a Si próprio aquela vida santa que Ele tinha e
que Ele era. Ele podia assumi-la em perfeita justiça, havendo glorificado a Deus; e tendo redimido os
“muitos”, em conformidade com aquela glória, Ele podia agora comunicar a eles – a nós – aquela
mesma e eterna vida, uma vida justificada, em justiça, imutável e sempiterna. Será muito bendito se
pudermos compreender esta justificação de vida, que reina e prevalece, embora admitindo
plenamente que nossa vida, como filhos de Adão, foi colocada de lado.
 
“Porque, se pela ofensa de um só, a morte reinou por esse, muito mais os que recebem a
abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só – Jesus Cristo.” (Rm 5:17)
Aqui fecha o parêntese do versículo 13. Será que algum de nós pode negar que a morte reina, por
meio do pecado, sobre a raça de Adão? Qual médico é capaz de deter o reino da morte? No
entanto, Jesus diz acerca dos “muitos” que são Seus: “E dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de
perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão”. (Jo 10:28) A morte definitivamente não tem
nenhum direito sobre aqueles que recebem a abundância da graça e do dom de justiça. Eles reinam
em vida por meio de Um – Jesus Cristo. Nada pode deter a sua corrente; ninguém pode tirá-los da
Sua mão.
 
“Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim
também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida.” (Rm
5:18) Isto é, o efeito dos dois Atos para os dois “muitos” do versículo 19 – o pecado de Adão, e a
obediência de Cristo até à morte – as duas famílias. “Porque, como pela desobediência de um só
homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos.”
(Rm 5:19) É, contudo, da maior importância vermos que esta justificação de vida está ligada à Sua
ressurreição de entre os mortos, sendo um resultado dela. Não está escrito que Ele tenha guardado
a lei para nossa justificação, mas que Deus O ressuscitou de entre os mortos exatamente com este
propósito – para nossa justificação. Não é, e nem poderia ser, a justificação de nossa vida na carne
sob a lei; isto não poderia ser de maneira nenhuma. A carne foi julgada e posta de lado. A vida que
temos agora diante de Deus é a vida dAquele que passou pela morte por nós; e tudo aquilo que as
justas exigências de Deus tinham contra nós foi plenamente satisfeito pela morte de nosso
Substituto. Cristo é nossa vida. Poderá haver acusação contra Ele, que é justamente o nosso
Substituto? Temos, então, por graça abundante, uma vida contra a qual não há, e nem pode haver,
qualquer acusação – portanto, uma vida justificada.
 
Se estamos em Adão, ou na carne sob a lei, nada pode justificar a nós ou a essa vida pecaminosa.
A ela aplica-se o juízo e a morte. Se estamos em Cristo, temos uma vida que prevalece, uma vida
completamente justificada, que nada pode condenar. Quanto aos nossos pecados, somos
considerados justos – a fé é imputada como justiça, e, sendo justificados, temos paz com Deus.
Quanto àquilo que herdamos de Adão – nossa posição, vida e natureza pecaminosa – não estamos
mais nisso, mas em Cristo ressuscitado de entre os mortos; e a vida eterna que temos nEle é uma
vida justificada – e se é nEle, quão completamente justificada ela é! É da máxima importância
abraçarmos logo isto; completamente justificados de nossos pecados por Ele; e, como na nova
criação, completamente justificados nEle que está ressuscitado de entre os mortos. Em ambos os
casos tudo vem de Deus, em Jesus Cristo e por meio de Jesus Cristo.
 
Querido crente, você reconhece que não se encontra mais em Adão e nem ligado às coisas que
pertencem a ele? O ponto de grande importância que você deve enxergar é este: “Assim que, se
alguém está em Cristo, nova criatura é: as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo”.  (2
Co 5:17) Que triste erro você estaria cometendo se voltasse, ou se apegasse às coisas velhas – à lei
e à velha natureza – e viesse a supor que pudesse existir algo capaz de melhorar a velha natureza,
ou de justificá-lo estando sob a lei, coisas essas já passadas! Entenda que sua justiça e sua vida
são agora completamente novas, e que tudo provém de Deus. E o que provém de Deus deve
necessariamente ser perfeito. Assim, estamos perfeita e eternamente justificados no Cristo
ressuscitado.
 
Oh, que favor gratuito e maravilhoso este de Deus! Talvez você pergunte: Então por que a lei foi
dada, se o homem não pode ser justificado por ela, ou se ela não pode conceder uma vida
justificada? “Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse.” (Rm 5:20) Pode ter sido isto o que
aconteceu com você em sua experiência passada. A lei pode ter atuado em você com poder
destruidor, e quanto mais você se esforçou em guardá-la, mais a ofensa abundou. Quanto você
deve ter se esforçado para tornar sua carne santa! E quanto mais se esforçou, mais fracassou.
“Mas, onde o pecado abundou, superabundou a graça.” (Rm 5:20) Você crê em Deus acerca disto?
Você pode agora mesmo parar com suas obras e descansar no irrestrito e gratuito favor de Deus?
“Para que, assim como o pecado reinou na morte, também a graça reinasse” – sim, e esta “pela
justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo nosso Senhor.” (Rm 5:21) Não foi somente a graça que
reinou – isto teria sido indiferença para com o pecado; tampouco foi só a justiça que reinou, pois
então o pecador deveria ter sido condenado; mas a graça pela justiça. Sim, ela reina, e reina
absoluta para vida eterna.
 
Porém, se somos constituídos justos por Cristo e em Cristo, totalmente aparte de quaisquer obras
que pratiquemos, tendo os pecados perdoados, e o pecado não imputado a nós – surge então uma
questão quanto à justiça prática – devemos nós continuar na prática do pecado? Os inimigos da
graça de Deus sempre levantam esta questão, ou a colocam como uma acusação de que aqueles
que aceitam as doutrinas da graça soberana de Deus, insinuam poder viver no pecado para que a
graça abunde. Esta é uma acusação tão comum em nossos dias como era a que, naqueles dias, os
fariseus lançavam contra o apóstolo. No próximo capítulo temos a resposta inspirada a essa calúnia
tão usual. Mas descanse assegurado de que nada menos do que a abundante graça pode dar
descanso à alma.
 
CAPÍTULO 6 – VIDA DE SANTIDADE
(Romanos 6)
 
ESTA É, portanto, a questão: se a graça abundou sobre os pecados e sobre o pecado – sobre todas
as iniquidades que cometemos, e sobre o pecado que herdamos, e onde o pecado abundou, a graça
superabundou – seria, então, verdade que a graça abundante poderia nos levar a continuar na
prática do pecado? Desde os dias de Paulo até hoje os que rejeitam o evangelho têm sempre falado
ser assim. Se você está completamente justificado, não por suas próprias obras, mas pela
sempiterna e imutável justiça de Deus em Jesus Cristo nosso Senhor ressuscitado de entre os
mortos, e não só por meio dessa justiça, mas também nessa justiça – então isto implica que você
admite que pode ser descuidado até ao ponto de praticar pecado!
 
Vamos ver o que o Espírito Santo, por meio do apóstolo, diz acerca disso: “Que diremos pois?
Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde?” Longe de nós tal pensamento; “De modo
nenhum. Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?” (Rm 6:1,2)
Portanto, aqui está este princípio – o princípio da libertação do pecado através da morte – que é tão
ridicularizado. Jamais encontraremos outra libertação do pecado na Palavra de Deus. Durante
séculos, muitas almas sinceras buscaram libertação por meio de jejuns e reclusão em mosteiros.
Muitas almas sinceras a buscam agora por meio de esforços em busca de uma falsa perfeição da
carne. Mas aqui está a plena verdade de Deus – libertação do pecado através da morte.
 
Note bem isto: não se trata da morte futura de nossos corpos, se viermos a morrer, mas trata-se, isto
sim, de “Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?” (Rm 6:2) O que é
que isto significa, “nós, que estamos mortos para o pecado”? Será que você responderá que são
aqueles que atingiram a perfeição? Acaso existe aqui algum pensamento desse tipo? De maneira
nenhuma. Para mostrar com que segurança isto se aplica a todos os cristãos, o apóstolo diz: “Ou
não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na Sua morte? De
sorte que fomos sepultados com Ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo ressuscitou dos
mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida”. (Rm 6:3,4) Ele é
cuidadoso em demonstrar que este princípio de libertação do pecado por meio da morte se aplica a
todos os que foram verdadeiramente batizados na morte de Cristo. Nada poderia ser mais claro, e,
no entanto, nada é menos conhecido. No entanto é algo que deveria ser bem entendido, pois o
apóstolo diz: “Não sabeis?”
 
Você entende, leitor, esta grande verdade prática da libertação do pecado? Será que você diz, como
se expressou um conhecido professor há alguns dias, que “somos todos pecadores e inadequados
para o céu; devemos, portanto, procurar de todos os modos melhorar nossa natureza pecaminosa;
mas temo que, neste mundo, ela nunca estará preparada para o céu”? Preparada para o céu!
Poderia um cadáver estar preparado para o céu? Ele está morto, e é por demais repugnante, tanto
para o céu quanto para a terra. Deve ser sepultado. E será que você o sepulta para torná-lo, de uma
só vez ou aos poucos, algo perfeito? Não passa de uma massa de corrupção; não há vida nele, nem
sequer uma partícula, e nem pode haver até que seja revelado o poder de Deus em ressurreição.
 
E acaso não é isto o que acontece com todo o nosso ser moral? Nosso vizinho, por mais sincero que
seja, está gastando sua vida buscando se aperfeiçoar – aperfeiçoar sua carne, por meio de
sacramentos e rituais, mas teme que nunca será capaz de fazê-lo ao ponto de deixá-la preparada
para o céu. Que cegueira é esta para alguém que poderia aprender até mesmo de seu próprio
batismo. O que acontece de fato é que não cremos em Deus; não cremos que, em nossa carne
como filhos de Adão, sejamos tão maus, tão vis, tão repugnantes, tão desagradáveis, tão mortos a
tudo o que é bom, como o próprio Deus afirma que somos. Será que você já chegou a dizer: Só
estou preparado para ser sepultado; ser colocado fora de cena. Sim, enterre-me, sepulte-me bem
longe. Não estou preparado para céu e nem para a terra. Oh, sepulte-me longe, fora da vista de
Deus e fora de minha própria vista? Eis aqui água, disse o eunuco, o que impede? Marque bem,
então, que a libertação do pecado não é a melhoria do próprio eu, ou da natureza má – a carne, mas
“fomos sepultados com Ele pelo batismo da morte”. (Rm 6:4) Não somos batizados para a obra do
Espírito em nós, mas para a morte do Senhor, que morreu por nós e ressuscitou. A morte, então,
que livra do pecado não é uma morte para o pecado que nós consigamos operar em nós, mas a
morte de Cristo na cruz, e nossa identificação com ela – “sepultados com Ele”. E se você prestar
atenção, verá que não existe nenhum pensamento acerca de batismo comunicando vida. O batismo
é na morte, ou para a morte, e a vida no Cristo ressuscitado está além dela. Pois Cristo não somente
morreu, e ficou morto, mas Ele “ressuscitou dos mortos, pela glória do Pai”. (dRm 6:4) Quão gloriosa
é a nova criação! Cristo, o princípio dessa nova criação, ressuscitado de entre os mortos pela glória
do Pai. “Assim andemos nós também em novidade de vida”. (Rm 6:4) Não só as coisas velhas já
passaram, e tudo se fez novo, como também estamos agora na nova criação pela glória do Pai.
“Porque, se fomos plantados juntamente com Ele na semelhança da Sua morte, também o seremos
na da Sua ressurreição.” (Rm 6:5) O aspecto da ressurreição que há neste assunto nos é
apresentado de forma mais completa em Colossenses 2. Mas deixe-nos apenas notar aqui que o
batismo na morte é o ponto principal que demonstra aquilo que todos os cristãos deveriam saber – a
verdade da libertação por meio da morte.
 
“Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com Ele crucificado, para que o corpo do pecado seja
desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado. Porque aquele que está morto está justificado do
pecado.” (Rm 6:6) A questão agora é a seguinte: Será que é quando o crente atinge a, assim
chamada, perfeição, para que a velha natureza deixe de existir, que o velho homem está crucificado;
ou será que o que realmente acontece é que tudo transforma-se em algo bom? O texto não traz
nenhuma idéia de que isso seja um estado peculiar a alguns cristãos, em detrimento de outros.
Trata-se da própria verdade de nossa posição cristã, conhecermos que nosso velho homem foi
crucificado. Quando? Quando sentimos isso? Não é este o pensamento aqui, mas diz que “foi
crucificado com Ele”. Isto, com certeza, ocorreu na cruz. Ele não somente levou os nossos pecados
sobre a cruz, em infinito amor, mas também nosso velho homem foi ali completamente julgado.
 
Certamente isso é algo ótimo de experimentarmos, quando ficamos assim identificados com esse
Jesus crucificado, do que o batismo é uma figura. Estamos nós assim identificados com a morte de
Jesus? Não identificados com a melhoria ou restauração de nossa velha natureza, mas será que
podemos olhar para trás, para a cruz, e dizer: Ali eu fui crucificado com Cristo? Tudo aquilo em que
eu poderia confiar precisou ser crucificado. Com toda a certeza foi assim que aconteceu, para que o
corpo de pecado pudesse se destruído, tornado incapaz; pois um homem morto é totalmente
incapaz, caso contrário não estaria morto. Vimos como Deus justifica o Seu povo de seus pecados
pelo sangue de Jesus. Agora vemos como Ele os justifica do pecado, a raiz, ou a natureza. “Porque
aquele que está morto está justificado do pecado.” (Rm 6:7) Os pecados estão perdoados, e agora o
pecado não pode ser imputado àquele que está morto; ele está justificado do pecado. Mas não
existiria poder para uma vida santa no simples fato de se estar morto para o pecado. Vamos ver o
que é o verdadeiro poder quando chegarmos a Romanos 8.2, mas agora devemos apenas notar
cuidadosamente que estamos tão verdadeiramente identificados com Cristo ressuscitado, ou até
mais, quanto com Ele na morte.
 
“Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com Ele viveremos.” (Rm 6:8) Uma coisa
segue a outra. E assim é para sempre. “Sabendo que, havendo Cristo ressuscitado dos mortos, já
não morre: a morte não mais terá domínio sobre Ele. Pois, quanto a ter morrido, de uma vez morreu
para o pecado, mas, quanto a viver, vive para Deus.” (Rm 6:9,10) Cristo nada mais tem a ver com o
pecado, e nem o pecado com Ele; Ele esteve aqui uma vez e levou toda a maldição do pecado; Ele
foi feito pecado, ou oferta pelo pecado. Que pecado? O dEle? Ele não tinha nenhum. O pecado, o
nosso pecado, nada mais tem a ver com Ele, nem Ele com o pecado. Foi tudo tirado da vista de
Deus. Aquele que um dia ficou sob o peso do pecado, que foi até à morte, vive agora para Deus. Oh,
que verdade preciosa; como sustenta a alma! E o pecado nada mais tem a ver com Ele, e nem
conosco. De uma vez por todas estamos identificados com Ele na morte – sim, mais do que
identificados, vivos nEle para todo o sempre. Oh, minha alma, acaso você não crê em Deus? “Assim
também vós considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus
nosso Senhor.” (Rm 6:11) Será que isto quer dizer que a velha natureza, ou o pecado, está
erradicada, morta? Será que ela não existe mais no crente? Não há um tal pensamento aqui. Se
assim fosse, se estivesse realmente morta, não precisaríamos considerá-la morta. Você já ouviu
falar de algum cadáver sendo considerado morto? Estamos tão identificados com Cristo que Deus
deseja que nos consideremos mortos com Ele, e vivos nEle. Ele deseja que tratemos a velha
natureza como se estivéssemos mortos para o pecado, e vivos no Cristo ressuscitado de entre os
mortos; só que, como já vimos, este último vem sempre antes do primeiro. Pois se alguém está em
Cristo, nova criatura é, em Cristo Jesus nosso Senhor. Temos paz com Deus, no que diz respeito
aos nossos pecados, por meio da obra de nosso Senhor Jesus Cristo. Mas Deus, que ressuscitou
nosso Senhor Jesus Cristo, também nos ressuscitou nEle, de modo que estamos vivos para Deus
em Jesus Cristo nosso Senhor.
 
Porém não há nada que mais se adeque aos propósitos de Satanás do que deixarmos isso tudo de
lado; tanto a obra completa de Cristo, pela qual somos justificados de nossos pecados – nossa
identificação com Sua morte para o pecado, e também a obra de Deus, em nos ressuscitar em
Cristo, e assim nos libertar do pecado, vivos para Deus. Sim, apesar da clara verdade ensinada por
este versículo, a libertação do pecado tem sido compreendida como um alvo futuro do crente,
atingido somente por alguns. É esta a raiz da perfeição de justiça-própria na carne.
 
É somente o que Deus diz nestes versículos que nos dá o único princípio de libertação do pecado.
Todos os outros métodos não passam de engano. Porém você dirá: Descubro que minha velha
natureza não está morta de fato. Exatamente; mas você deve considerar-se a si próprio morto para o
pecado, e vivo para Deus em Jesus Cristo nosso Senhor. Descobriremos que muito do que vem a
seguir é o desdobramento deste princípio tão importante. Ele irá afetar cada passo de nosso andar
neste mundo. Como devemos andar para demonstrar nossa identificação com um Cristo
crucificado? Sim, estamos crucificados com Ele. Talvez você conheça muitos que andam como se
estivessem mortos para as coisas de Deus e de Seu Cristo, e totalmente vivos para o mundo que
crucificou Jesus. Que Deus possa usar estas solenes verdades em poder santificador para nossas
almas!
 
“Não reine portanto o pecado em vosso corpo mortal, para lhe obedecerdes em suas
concupiscências.” (Rm 6:12) Longe de nós esteja pensar que devêssemos praticar o pecado a fim
de que a graça pudesse abundar. Como já vimos, viver no pecado é exatamente o oposto de estar
morto para o pecado; certamente, o significado de morto com Cristo, como professado no batismo,
não é viver em pecado. E agora, vive também para Deus em Jesus Cristo nosso Senhor. “Não reine
portanto o pecado em vosso corpo mortal.” Ele não diz que o pecado não mais existe. Ele não diz
que você deve considerá-lo extirpado. Se um inimigo não mais existisse em um país, não haveria
necessidade de dizer: Não deixe esse inimigo reinar.
 
E nem você poderia dizer que devemos obedecer “suas concupiscências”, se não existissem mais
concupiscências pecaminosas para serem subjugadas e resistidas. Mas não devemos permitir que
nossos membros sejam instrumentos de injustiça para o pecado, “mas apresentai-vos a Deus, como
vivos dentre os mortos, e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça”. (Rm 6:13) É
exatamente isto, o próprio princípio de um andar santo, que é nossa morte com Cristo, e o estarmos
vivos para Deus. Não é, em momento nenhum, para atingirmos esse estado, mas para nos
considerarmos assim mortos, e outra vez vivos, para assim andarmos. Reconhece-se que
evidentemente há o conflito, mas há também libertação.
 
“Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da
graça.” (Rm 6:14) Tendo, assim, vida em Cristo, podemos agora encarar o pecado em nosso velho e
pecaminoso “eu” como um inimigo, todavia um inimigo que não deveria ter domínio. Que libertação
isto traz! Para aquele que conhece a total vileza da velha natureza, não há palavras que possam
expressar completamente a grandeza da libertação do reino do pecado. Pode haver uma súbita
tentação – sim, falhas até – mas o pecado não deverá ter domínio – não deverá reinar. Mas por que
o pecado não deve reinar? “Pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça.” (Rm 6:14) Toda a
história da cristandade, e a história de cada crente individualmente, comprova a verdade desta
afirmação, e também do seu oposto. Na mesma proporção que o gratuito favor de Deus, por meio de
Cristo Jesus, é conhecido e desfrutado, está a libertação da escravidão do pecado, e podermos viver
uma vida santa. A lei não pode dar poder àqueles que se encontram sob ela, mas pode apenas
amaldiçoá-los.
 
No momento em que você torna o favor de Deus condicional, seja com respeito à lei de Moisés, ou
aos preceitos do evangelho, você começa pelo lado errado, e cedo acabará encontrando nada mais
além de miséria e dúvidas. Você dirá: Não guardo os mandamentos de Deus como deveria; ou, Não
amo a Cristo como deveria; será que sou realmente um cristão? Ora, será que isso é lei ou graça?
Está claro que é lei. E a Palavra diz que o pecado não terá domínio sobre você, pois você não está
debaixo desse princípio, mas debaixo da graça. Certamente não poderá haver santidade de vida, a
menos que o coração esteja perfeitamente livre, descansando no desimpedido, gratuito e
incondicional favor de Deus. Porventura Ele não me levantou, um ímpio pecador que merecia o
inferno? Não entregou, em puro e imerecido amor, Seu Filho para morrer por nossos pecados?
Acaso não O ressuscitou de entre os mortos para nossa justificação? E não nos deu eterna
redenção pelo Seu sangue? Será que não temos assim paz com Deus, em conformidade com tudo
aquilo que Deus é? Não estamos identificados com Cristo em todos os méritos de Sua morte; e mais
ainda, vivos nEle para Deus? E não foi isso tudo por graça, livre e absoluta graça, a graça dAquele
que não muda? Sim, e agora estou vivo para Deus e posso me considerar, considerar meu velho
homem, morto. E estou, assim, livre de mim mesmo, para viver para Deus. E, dispondo de toda a
imutável graça para mim, não estou, portanto, no terreno da lei, ou das condições para vida,
salvação ou libertação, mas estou absolutamente debaixo da livre e eterna graça. Oh, agora sou
livre para servir o Senhor, em verdadeira separação do mal e em completa aversão ao mal. Oh,
gloriosa verdade! O pecado não terá domínio. Não há dúvida, querido crente, de que muitos dirão a
você que uma doutrina assim irá levá-lo a pecar do jeito que gosta sua velha natureza. “Pois quê?
Pecaremos porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça? De modo nenhum”, ou,
longe de nós tal pensamento. (Rm 6:15) Aqueles que falam assim nunca conheceram o que é a
graça de Deus, ou o que é a verdadeira liberdade – não liberdade para pecar, mas liberdade do
pecado. Note bem que estas palavras não são para aqueles que estão procurando experimentar, na
prática, que estão mortos para o pecado, ou mortos com Cristo e vivos para Deus. No batismo, eles
professaram que estão mortos e sepultados com Cristo, identificados com Ele na morte.
Consideram-se a si mesmos mortos para o pecado, e estão assim justificados do pecado e vivos
para Deus.
 
Oh, que verdade maravilhosa, e quase esquecida! Morte para o pecado – a única libertação do
pecado. Mas que libertação poderia existir sem vida em Cristo para Deus? Como pode você andar
em novidade de vida, se você não tem novidade de vida? Se sua velha natureza estivesse colocada
debaixo da lei, então, com certeza, o pecado teria o domínio. Mas porque Deus deu a você uma
nova vida – que é um dom gratuito vindo dEle – e colocou você em Sua própria graça, imutável e
desimpedida graça, “pecaremos porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça?” (Rm
6:15) Longe de nós tal pensamento.
 
Temos certeza de que todos aqueles que gostariam de colocar você debaixo da lei, nunca
conheceram verdadeiramente o que é a graça de Deus. E não se esqueça de que tudo isso
demonstra a ligação que há entre a graça e a santidade prática, ou a justiça no andar. Isto está bem
claro no versículo seguinte.
 
“Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a
quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça?” (Rm 6:16) Outrora
éramos escravos do pecado – “fracos”. O pecado, como um senhor de escravos, era um dono
completo. Fomos redimidos gratuitamente dessa condição, e libertados desse antigo proprietário,
pela morte de Jesus. Antes era pecado para a morte. A que senhor obedecemos, ao pecado para a
morte, ou à obediência para a justiça? Será que é para obedecer ao antigo senhor dos escravos, o
pecado, que estamos vivos para Deus? Será esse o objetivo da graça de Deus? De modo nenhum.
Então, será que você pode aplicar o versículo 17 a si mesmo? Você pode, com gratidão, reconhecer
a plena verdade de que “tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina
a que fostes entregues”? (Rm 6:17) Não se esquive deste ponto.
 
Um escravo é levado a fazer aquilo que seu proprietário lhe ordena. Ele não tem poder para resistir,
ainda que possa odiar fazer aquilo, não pode recusar-se a fazê-lo. Você já chegou a conhecer essa
terrível escravidão do pecado? Já teve o pecado como seu dono? Já fez coisas que odiava, por não
ter poder suficiente para escapar desse cruel senhor? Graças a Deus, podemos reconhecer que
assim foi; e, graças a Deus, foi ali que Ele nos encontrou. E o que é a “forma de doutrina” para a
qual você foi libertado? Porventura não foi a morte com Jesus, como tipificada no batismo? E você,
obedeceu-a? Trata-se da identificação com Cristo na morte, e nEle vivo de entre os mortos. A
resposta, então, é: “Libertados do pecado, fostes feitos servos (ou escravos) da justiça” (Rm 6:18)
Sim, foi desse modo que você trocou de dono, através da morte, do pecado para a justiça; e isso
tudo em perfeita graça. Enquanto debaixo do pecado, estava livre da justiça; agora, como servos da
justiça, estamos livres da escravidão do pecado. Sim, o pecado e a justiça são vistos aqui como dois
senhores. O cristão está perfeitamente livre do velho tirano. “Assim apresentai agora os vossos
membros para servirem à justiça para santificação.” (Rm 6:19) É bem verdade que o homem usou a
própria lei, dada por Deus para provar sua culpa, como meio de estabelecer sua justiça-própria. E
outros podem abusar da graça de Deus como licença para pecar. No entanto está mais do que claro
que o objetivo do Espírito Santo ao revelar estas verdades de infinita graça é para que possamos,
como vivos para Deus, apresentar nossos membros como servos da justiça para a santificação.
“Porque, quando éreis servos do pecado, estáveis livres da justiça. E que fruto tínheis então das
coisas de que agora vos envergonhais? porque o fim delas é a morte.” (Rm 6:20) Sim, era essa a
nossa condição – servos do pecado. E, oh, quão profunda a vergonha que caiu sobre nós em todos
os terríveis frutos daquela escravidão. Todavia, que imensa mudança!
 
“Mas agora, libertados do pecado, e feitos servos de Deus, tendes o vosso fruto para santificação, e
por fim a vida eterna.” (Rm 6:22) Devemos notar com cuidado que não há aqui nenhum ensino de
melhoria da natureza pecaminosa, ou de aperfeiçoamento daquela natureza. Não, pois morte não é
aperfeiçoamento. Porém o maior de todos os erros acerca deste capítulo é supor que a liberdade do
pecado seja algo a ser alcançado. É pela morte – a morte de Cristo – e não por nosso esforço. E nos
considerarmos mortos com Ele não é esforço. Portanto, não é servindo a Deus que nos tornamos
livres do pecado; se assim fosse, seria por mérito humano. Acaso não é justamente o oposto? Leia
cuidadosamente estas palavras: “Mas agora, libertados do pecado, e feitos servos de Deus, tendes
o vosso fruto para santificação, e por fim a vida eterna”. (Rm 6:22) Assim, cada cristão é libertado do
pecado, e “feitos servos da justiça”. (Rm 6:18) Não diz que primeiro nos tornamos servos da justiça
para depois sermos libertos do pecado. Não pode existir fruto verdadeiro para a justiça até que
sejamos libertados do pecado. Estas grandes verdades nos ocuparão, se o Senhor quiser,
no capítulo 7. Estes são fatos verdadeiros e solenes!
 
“Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por (ou em)
Cristo Jesus nosso Senhor.” (Rm 6:23) Que dom! Oh, quão poucos crêem nisso! Nada temos para
merecer isto, caso contrário não poderia ser o dom de Deus.
 
CAPÍTULO 7 – DUAS NATUREZAS EM CONFLITO
(Romanos 7)
 
TEMOS agora em detalhe aquilo de que fomos libertados no capítulo 6. E será impossível entender
este capítulo se não tivermos em mente esta ordem. A verdade do capítulo 6 deve estar totalmente
assimilada antes de tentarmos entender o capítulo 7. O apóstolo disse: “Porque o pecado não terá
domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça.” (Rm 6:14) Esta é uma
afirmação muito importante, e o apóstolo agora explica como é que nós (isto é, aqueles que estavam
sob a lei) fomos libertados. Em seguida ele descreve a condição de uma alma vivificada debaixo da
lei, antes de sua libertação. Isto ele explica de forma bem completa, e, por fim, trata, com gozo, o
tema da libertação, levando-nos ao capítulo 8.
 
Portanto, em primeiro lugar, como foi que aqueles que estavam debaixo da lei foram libertados dela?
“Não sabeis vós, irmãos (pois que falo aos que sabem a lei), que a lei tem domínio sobre o homem
por todo o tempo que vive?” (Rm 7:1) Este fato demonstra a importância da verdade que já foi
apresentada – a identificação com a morte de Cristo; considerando-nos mortos com Ele, e vivos para
Deus. Pois se aqueles que viviam debaixo dela, continuassem a viver debaixo dela, seriam
responsáveis por cumpri-la em cada jota e cada til (Mt 5:18), caso contrário ela os amaldiçoaria.
Neste caso o cristianismo não seria de nenhuma ajuda. O homem poderia continuar sob a maldição.
A lei tinha domínio sobre um homem enquanto ele vivesse. Sua responsabilidade para com a lei só
terminava na morte. A lei acerca do matrimônio prova isso: somente a morte dissolve o vínculo de
responsabilidade. Enquanto o marido viver, a esposa não pode se casar com outro; seria adultério.
Isto era algo patente a todos os que conheciam a lei.
 
De modo semelhante o crente não pode, por assim dizer, ter dois maridos. Ele não pode estar vivo
na carne, casado com a lei (debaixo da lei), e também estar casado com Cristo. Não há dúvida de
que os homens dirão que deve ser assim, que você deve ter ambos, a lei e Cristo; mas não estamos
explicando aqui o que dizem os homens, mas o que dizem as Escrituras. Deus nos diz que não
podemos ter Cristo e a lei. E do mesmo modo como uma esposa só é liberada do antigo marido pela
morte, assim também nós só podemos ser libertos do antigo marido, o princípio da lei, pela morte.
Embora seja verdade que ainda não tenhamos morrido, ainda assim, veja a importância da verdade
que aprendemos no capítulo 6, que diz para nos considerarmos mortos, identificados com Cristo na
morte. Só que agora isto é visto em sua relação com a lei em primeiro lugar.
 
“Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo, para que sejais
doutro, daquele que ressuscitou de entre os mortos, a fim de que demos fruto para Deus.” (Rm 7:4)
Portanto eles estavam mortos para a lei pelo corpo de Cristo como se tivessem morrido de verdade.
Passaram de sob o seu domínio para um estado completamente novo. Não têm mais nada a
declarar ao antigo marido; mas entram em um novo parentesco, unidos a um novo marido, a Um
ressuscitado de entre os mortos, o próprio Cristo.
 
Mas será que os grandes mestres não irão dizer a você ser isto antinomianismo, estar morto para a
lei, nada mais ter a ver com ela, ou ela com você? Dirão que isto poderia levá-lo a produzir fruto para
o pecado. Seria terrível, diriam eles. Mas o que é que Deus diz a este respeito? Ele diz que tudo isso
é “a fim de que demos fruto para Deus”. Isto está perfeitamente de acordo com o que foi
apresentado antes. “Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei,
mas debaixo da graça.” (Rm 6:14) Estar debaixo da lei é estar debaixo da sua maldição, pois todos
provaram ser culpados (Rm 3). Mas agora somos um com o Cristo ressuscitado, tendo todos os
pecados perdoados, e o pecado julgado, a fim de podermos dar fruto para Deus.
 
“Porque quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, obravam em nossos
membros para darem fruto para a morte.” (Rm 7:5) Este versículo determina o caráter do ensino que
se segue. Você não pode dizer, “Quando estávamos na carne”, a menos que tenha sido libertado
daquele estado. Você não poderia dizer, “Quando estávamos em Londres”, a menos que tenha
saído de lá. É muito importante entender isto. Com frequência pergunta-se: Será que esta parte
do capítulo 7trata-se da experiência apropriada a um cristão? Certamente que não, pois se fosse,
não estaria dizendo “quando estávamos na carne”. Pode ser, como logo veremos, a experiência pela
qual a maioria, se não todos, os cristãos já passaram. Mas costuma-se dizer que esta é a
experiência de um inconverso. Tampouco pode ser isto; pois os inconversos não têm prazer na lei
de Deus no homem interior.
 
(Rm 7:22.) Trata-se, evidentemente, da experiência de uma alma vivificada, nascida de Deus, uma
nova criatura que se apraz na lei de Deus no homem interior; mas alguém que ainda continua
debaixo da lei, e ainda não aprendeu o que é a libertação pela morte.
 
O correto seria dizermos que a experiência descrita do versículo 5 ao 24 é a miserável experiência
de uma pessoa nascida de Deus, se colocada debaixo da lei. E quando nos lembramos de quantos
cristãos estão exatamente nesta condição, não é de se estranhar que tantos sintam-se tão
miseráveis. Portanto devemos entender que as palavras, “porque, quando estávamos na carne”,
significam quando estávamos na carne sob o primeiro marido, a lei. A lei só pode se dirigir ao
homem como estando vivo. Era assim que ela considerava o homem, ordenando e exigindo
obediência, se fosse o caso de alguém, sob ela, vivo na carne. Uma vez morto, todos os
mandamentos e requisições cessam. Você não pode dizer a um homem morto para amar a Deus ou
ao seu próximo; mas enquanto estiver vivo em uma natureza que só pode pecar, o mandamento só
produz transgressão. A lei devia requerer justiça; mas como o homem não era justo, porém culpado,
ela tornou-se assim um ministro de justiça e morte.
 
Todavia a porção do cristão é esta: considerar-se morto com respeito à carne, mas vivo para Deus.
Uma vida inteiramente nova proveniente de Deus. O assunto todo será bastante simplificado se
mantivermos estas duas coisas distintas: a velha vida, ou velha natureza, chamada a carne – o
terreno no qual o homem foi provado sob a lei; e a nova vida, ou nova natureza, a qual o crente
possui, a própria vida eterna do Cristo ressuscitado. Vimos como fomos libertados da escravidão do
pecado por estarmos mortos para um e vivos para o outro. Isto não quer dizer que o pecado está
erradicado, mas que estamos mortos para ele.
 
O versículo 6 trata agora deste mesmo princípio de morte – e vida em ressurreição em Cristo –
aplicado à questão da lei. Não é que a lei esteja morta, ou abolida em si mesma, mas nós estamos
mortos para ela: “Mas agora estamos livres da lei, pois morremos para aquilo em que estávamos
retidos; para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra.” (Rm 7:6) A lei
efetivamente produziu toda essa experiência verdadeiramente miserável, mas agora estamos livres
da lei. Será que você pode verdadeiramente dizer o mesmo? É da maior importância ter esta
questão resolvida antes de examinarmos essa miséria da qual fomos libertados. Pela morte e
ressurreição de Cristo nós estamos, não apenas completamente justificados de nossos pecados,
mas passamos de uma condição de pecado e morte, para uma condição inteiramente nova; sim,
uma nova criação de vida e justiça. Do que éramos para o que Cristo é. Em Adão nós estávamos em
pecado e morte; agora estamos unidos, somos um com Cristo em ressurreição; estamos onde Ele
está e somos o que Ele é. “Qual Ele é, somos nós também neste mundo.” (1 João 4:17) Sua própria
vida nos é comunicada. Isto é algo tão real para a fé agora, como será para a vista muito em breve.
Uma nova criação em Cristo Jesus. Deve ser entendido que trata-se de uma plena e completa
justificação dos pecados e do pecado, e da libertação de todas as exigências da lei. Perguntamos
outra vez: Você já está liberto assim? É preciso que exista esta completa libertação para que se
possa servir em novidade de vida. Você já passou assim da carne – o estado de Adão, para Cristo?
Pode você dizer: “Sim, agora tudo é Cristo”? Você dirá que a carne ainda está ali, e que há pecado.
É verdade. E que a lei ainda continua ali.
 
Certamente. E que você pecou. Sim, isto também é verdade. Mas para que foi que Cristo morreu?
Acaso não foi tanto para os seus pecados como para o seu pecado? Encontra-se você pecando
agora ou libertado do pecado? Todavia, veremos isso tudo revelado mais completamente no capítulo
8.
 
Tão somente insistimos neste ponto: somente uma alma libertada pode entender a horrível
experiência descrita no que se segue. O inconverso ou o iludido fariseu nada sabem acerca desta
amarga experiência. Trata-se exatamente da ocasião em que a nova e santa natureza foi
implantada, e junto com ela o profundo anseio por uma verdadeira santificação; para então descobrir
não ter poder na carne para fazer aquilo que desejaríamos. Sim, a lei do pecado e da morte é como
um senhor de escravos, e não há poder para se fugir dele. E quanto mais tentarmos guardar a lei,
dirigida aos homens como vivos na carne, mais profunda será a miséria de fazermos as mesmas
coisas que a nova e santa natureza tanto odeia. Sim, algo que não traria nenhuma dificuldade para
um inconverso, ou para um que não é nascido de Deus, enche a alma vivificada de intensa miséria.
 
Será que é esta a sua condição? Se estiver vivificado, e debaixo da lei, estamos certos de que é
esta a sua condição, em algum grau de intensidade. Oh, o quanto da agitação e dos esforços de
nossos dias está direcionado a encobrir essa sua miséria e fazer com que você se esqueça dela!
Bem, não se desespere; cremos que cada um que é nascido de Deus passa por isso em maior ou
menor intensidade; e é frequente que aqueles que passam por ela em sua maior profundidade são
os que mais se decidem a glorificar a Deus. Tanto o que faz deste capítulo a experiência de um
pecador inconverso, como o que a considera como a experiência apropriada a um cristão, estão
igualmente compreendendo mal. “Que diremos pois ? É a lei pecado? De modo nenhum: mas eu
não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não
dissesse: Não cobiçarás.” (Rm 7:7) Se fôssemos seguir nossa própria inclinação, mesmo quando há
em nós a nova vida, e a nova e santa natureza implantada, acabaríamos naturalmente nos voltando
para a lei, e nos colocaríamos sob ela. É isto o que sempre acontece quando o Espírito Santo não é
reconhecido. E trata-se de algo notável, nestes versículos, que o Espírito Santo não seja nem uma
vez citado. Como já dissemos, existem poucas pessoas que não estejam passando atualmente por
esta experiência; e aquelas que já receberam libertação podem olhar para trás e ver o proveito que
obtiveram desse exercício de coração.
 
A primeira coisa, portanto, que aprendemos é esta: que a lei não é pecado; é por ela que
aprendemos o que o pecado é. A lei expôs a raiz. “Porque eu não conheceria a concupiscência, se a
lei não dissesse: Não cobiçarás.” (Rm 7:7) Quando a nova natureza foi dada, a espiritualidade da lei
foi sentida. Um homem sem a nova natureza diria que a concupiscência não é pecado, a menos que
você venha a transgredir de fato, cometendo o pecado na prática. Mas quando a lei se aloja na
consciência, ela detecta a concupiscência, e digo: “Ora, isto é pecado!” Sim, a própria
concupiscência é pecado; isto é, a própria raiz é pecado.
 
“Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, obrou em mim toda a councupiscência:
porquanto sem a lei estava morto o pecado.” (Rm 7:8) E essa raiz, sendo pecado, toma ocasião,
pelo mandamento, para operar em mim todo tipo de desejo por aquilo que é proibido. “Porquanto
sem a lei estava morto o pecado.” (Rm 7:8) Estava inativo. Proíba uma criança de ir ao jardim e ela
imediatamente desejará fazê-lo; e então, se a sua vontade atuar sobre ela, ela irá.
 
“E eu, nalgum tempo, vivia sem lei, mas, vindo o mandamento, reviveu o pecado, e eu morri.” (Rm
7:9) Uma pessoa, antes de ser vivificada, pensa que está viva e que pode viver e fazer o que deseja.
Sim, ele dirá que estava vivo sem lei. Pergunte a um homem natural: Você está salvo?” Ele
responderá: Não sei; espero que sim. Frequento um lugar de adoração e estou fazendo o melhor
que posso, e espero acabar chegando no céu. Oh, sim, dirá ele, estou vivo. Não existe nem sequer
a idéia, em seu pensamento, de estar perdido. Ele não diz uma palavra que expresse a mínima
possibilidade de estar precisando de um Substituto na cruz. E se você perguntar até mesmo a
cristãos professos, ficará surpreso ao receber as mesmas respostas.
 
Portanto, no momento em que alguém é nascido de Deus, tudo isso muda. Ora essa; como pode ser
isto?, dirá ele, Tenho uma natureza que deseja exatamente aquilo que Deus proíbe! Ele volta-se,
então, para a palavra da lei de Deus e vê morrer toda esperança de ser, na carne, aquilo que
esperava poder conseguir. “E eu morri.” (Rm 7:9) Sim, estamos agora diante da difícil morte do velho
“EU”. Ele anseia por santidade; ele volta-se para os mandamentos que são ordenados para vida:
Quem os fizer viverá por eles (veja Ezequiel 20:11), mas vê que são para morte. Ele descobre que o
pecado tem o controle da situação, e que usa o próprio mandamento para matá-lo. Não se esqueça
de que isto se passa “quando estávamos na carne”. (Rm 7:5) Veja só como a última esperança de
bondade na carne nos foi tirada!
 
“E assim a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom.” (Rm 7:12) A lei veio de Deus; não era
má, e nem pecado; era “santa, e o mandamento santo, justo e bom”. (Rm 7:12) Não tornou-se em
morte para mim; “mas o pecado, para que se mostrasse pecado”. (Rm 7:13) Oh, o que é descobrir
que eu – minha própria natureza – como um filho de Adão, era só pecado, e que pelo mandamento
minha natureza deveria tornar-se, e tornou-se, excessivamente pecaminosa!
 
E vamos mais além. “Porque bem sabemos que a lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido sob o
pecado.” (Rm 7:14) Sim, a lei não podia exigir menos do que justiça, mas o que encontro em mim?
 
“Sou carnal, vendido sob o pecado.” (Rm 7:14) Você sabia disso? Será que já se reconheceu como
um indefeso escravo do pecado? Isto é tudo o que o velho “EU”, a carne, é. Descobrir isto é detestar
tudo o que faço; é descobrir que não tenho poder para fazer o que desejaria; é reconhecer que a lei
é boa e que só exige de mim o que é bom.
 
“De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim.” (Rm 7:17)
Isto é uma grande descoberta. Aprendo que há uma natureza, o pecado, que ainda se encontra em
mim, apesar de eu poder olhar por cima dele como algo distinto de mim mesmo, de meu novo “EU”.
“Bem”, digo eu, “O que é que há, então, nessa velha natureza, no velho EU?” Não há nem um
pouquinho de bem em mim, isto é, em minha carne, ou minha velha natureza. “Porque eu sei que
em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum: e com efeito o querer está em mim, mas não
consigo realizar o bem.” (Rm 7:18) Trata-se de algo por demais humilhante descobrir que eu, como
filho de Adão, não tenho nenhum poder para fazer o bem – sim, muito pelo contrário! “Porque não
faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço.” (Rm 7:19) É este o verdadeiro caráter
da velha natureza, mesmo quando a nova natureza deseja fazer o bem e ser santa – sim, já que a
nova natureza é santa, por ser nascida de Deus. De modo que não é a nova natureza, o novo “EU”,
que pratica o mal, quando a velha natureza está fazendo exatamente aquilo que a nova natureza
condena.
 
“Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu” – não mais eu como uma nova criatura que sou,
– “mas o pecado que habita em mim”. (Rm 7:20) Há, portanto, dois princípios, ou naturezas, no
homem nascido de Deus. O princípio da velha e depravada natureza é chamado de uma lei.
 
“Acho então esta lei em mim: que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo.” (Rm 8:21) É este
o invariável princípio da velha natureza – “quando quero fazer o bem, o mal está comigo”. “Sim”,
você dirá, “é exatamente isto que descobri, para minha profunda tristeza; ao ponto de isso ter me
levado a concluir que, se sou assim, não posso ter nascido de Deus”. Aqueles que não são nascidos
de Deus nunca descobriram ser nem metade ruim do que você descobre que é em seu velho “EU”.
Mas, acaso as palavras que vêm a seguir não provam que você é nascido de Deus – isto é, que
você possui um novo “EU”, ou uma nova natureza?
 
“Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus.” (Rm 7:22) Certamente isto prova
que, sem dúvida alguma, existem duas naturezas; pois como poderia a velha natureza, que é
pecado, se deleitar na lei de Deus? Todavia, “segundo o homem interior, tenho prazer na lei de
Deus”. (Rm 7:22) “Bem”, dirá você, “parece ser uma contradição”. É exatamente isto que as duas
naturezas são uma para a outra; sim, estão em contradição direta àquele homem interior que tem
prazer na lei de Deus. Veja o versículo 23: “Mas vejo nos meus membros outra lei que batalha
contra a lei do meu entendimento, e me prende debaixo da lei do pecado que está nos meus
membros.”
 
Portanto, negar a existência das duas naturezas em um homem nascido de novo é negar o ensino
claro da Palavra de Deus. Porventura Jesus não falou que “o que é nascido da carne é carne, e o
que é nascido do Espírito é espírito”? (Jo 3:6) Trata-se, portanto, de um completo novo nascimento;
de uma nova natureza, uma nova criação, que é do Espírito e que é espiritual. Aquilo que é nascido
de uma carne ou natureza pecaminosa é, ou seja, permanece sendo, carne e pecado. E
aprendemos aqui que se estamos sob a lei, isto é, se estamos no terreno da carne, debaixo da lei
com vistas ao aperfeiçoamento da carne, como milhares de pessoas estão, então descobrimos que,
na guerra travada pelas duas naturezas, acabamos presos “debaixo da lei do pecado que está nos
meus membros”. (Rm 7:23) Trata-se de uma realidade terrível, mas iremos acabar conhecendo a
malignidade de nossa velha natureza na prática, se não crermos no que Deus diz acerca dela.
Todavia, se for este o caso, ou seja, de um homem nascido de Deus, sob a lei, não conhecendo a
distinção entre as duas naturezas, ele estará sentindo-se extremamente miserável, se for sincero e
estiver buscando ardentemente por justiça e santidade de vida. É exatamente o que encontramos
aqui.
 
“Miserável homem que eu sou!” (Rm 7:24) E agora já não é mais “Quem me ajudará a melhorar a
carne?”, mas sim, “quem me livrará do corpo desta morte?” Sim, o “EU”, o velho homem, o corpo
desta morte, deve ser abandonado. Precisamos ter um Libertador, e este Libertador é Cristo.
 
“Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor.” (Rm 7:25) Poucas palavras, mas oh!, que
gloriosa vitória e livramento! Após chegar à plena descoberta de minha completa incapacidade, e da
imutável malignidade da velha natureza, os olhos são agora levantados para Cristo, e o coração
dilata-se no pleno gozo da gratidão. Esta libertação será melhor explicada no próximo capítulo.
 
Há um erro que é cometido com frequência aqui, e devemos nos precaver cuidadosamente contra
ele. É comum que se diga, ou que se insinue, que o que vimos acerca da velha natureza, a carne, a
lei do pecado nos membros, é verdadeiro acerca do crente antes que ele consiga a libertação; mas
que depois sua velha natureza muda ou é erradicada – ou que, em todos os seus aspectos, melhora
muito; que é, de repente ou gradualmente, santificada etc. etc., e que não há mais uma natureza má
nos santos que são libertos, ou santificados. Será que é assim, ou não? Deixemos que as próprias
palavras que se seguem, as quais vêm depois de nossa libertação e ações de graças, respondam a
esta importante questão.
 
“Assim que eu mesmo com o entendimento” (ou o novo homem) “sirvo à lei de Deus, mas com a
carne” (ou a velha natureza), “à lei do pecado.” (Rm 7:25) Não nos encontramos mais no terreno da
carne, como vivendo sob a lei e procurando aprimorar a carne – não nos encontramos mais na
carne. Mas, o fato de que a carne permanece no santo libertado – na mesma pessoa que, com o
novo entendimento, ou natureza, serve a lei de Deus, é algo declarado com a maior ênfase possível.
Mas a carne, e a lei do pecado, ainda permanecem em mim. Podemos discordar, discutir,
ridicularizar, mas aqui está a verdade da Escritura, e é algo que cada crente descobre ser verdade.
Assim nos vemos na necessidade de sermos guardados irrepreensíveis, em nosso espírito, alma e
corpo. (Leia 1 Tessalonicenses 5:23.) Coloque a velha natureza sob a lei, tente encontrar algo de
bom nela e, imediatamente, você experimentará o que está descrito aqui. Uma só questão mais,
antes de deixarmos este assunto. Como pode haver tantos cristãos passando por esta experiência?
Simplesmente porque, apesar de nascidos de Deus, estão, por meio de ensinos falsos ou incorretos,
colocados debaixo da lei, e nunca conheceram o verdadeiro caráter da libertação. Passemos, a
seguir, a indagar que libertação é esta.
 
CAPÍTULO 8 – EXPERIÊNCIA VITORIOSA
(Romanos 8)
 
“PORTANTO agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.” (Rm 8:1) Que
declaração maravilhosa! Não se trata meramente do que será a justificação do crente quando for
manifestado diante do trono de Cristo, mas “agora” não há nada para condenar naqueles que estão
em Cristo Jesus. Se olho para o que sou na carne, só encontro o “miserável homem que sou!” Se
olho para o que sou em Cristo Jesus, vejo que agora não há condenação. Estou morto para tudo
aquilo que sou como um filho de Adão – morto para o pecado, morto para a lei, mas vivo para Deus
em Cristo Jesus. Então, sendo agora de outro, e estando em outro, em Cristo Jesus ressuscitado de
entre os mortos, não me encontro apenas na posição de um que produz fruto para Deus, mas de um
para quem “agora nenhuma condenação há”. Você está assegurado disto? Será que pode existir
alguma condenação para aquele Cristo ressuscitado que está agora na glória de Deus? Portanto, se
você estiver nEle, como poderá haver condenação para você?
 
As palavras que vêm a seguir, “que não andam segundo a carne, mas segundo o espírito”, são
omitidas nas melhores traduções; todavia nós as encontraremos, como um resultado, no versículo 4.
Em alguma época posterior elas foram inseridas aqui como se fossem uma condição, uma
prevenção. Mas vamos nos deter na importância deste versículo como o próprio fundamento da
libertação. Nenhuma alma poderá conhecer a verdadeira libertação do poder do pecado se não
conhecer primeiro o absoluto favor de Deus em Cristo. Quão maravilhoso é, após um capítulo de
amargas experiências, após haver esgotado completamente toda esperança de encontrar algo de
bom em si mesmo, na velha natureza, poder descobrir que, como mortos com Cristo, e vivos de
entre os mortos em Cristo, encontramo-nos no absoluto favor de Deus, sem nenhuma condenação!
Que perfeita paz! Nada para nos inquietar; nada para nos condenar. E é o próprio Deus Quem diz:
“nenhuma condenação”.
 
Querido jovem crente: Será este o sólido alicerce sobre o qual, e no qual, você permanece? Se
assim for, podemos passar ao versículo 2.
 
“Porque a lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte.” (Rm 8:2)
Vimos a lei terrível, ou seja, o poder do pecado; acaso não o conhecemos e sentimos seu poder?
Mas que nova lei – ou poder, ou princípio – é esta? Será o poder de minha nova natureza como
nascido de Deus? Não; apesar de que, como nascido de Deus, tive prazer na lei de Deus, mas isso,
como já vimos, não me livrou da lei do pecado. Mas agora sim, esta me livra: a lei do Espírito de vida
em Cristo Jesus. Trata-se de Deus, o Espírito Santo, habitando em nós; já não se trata de morte,
mas do Espírito de vida.
 
Então, como já vimos, possuímos uma vida justificada. Agora temos o poder – a lei do Espírito de
vida. Em outro lugar aprendemos que a vida que agora temos é eterna, e o Espírito é eterno.
Portanto o poder que tenho é eterno. Vimos que a carne, ou o pecado, continua em nós – aquilo que
é nascido da carne; mas aqui encontramos a libertação do seu poder: libertos da lei do pecado e da
morte; libertos pelo infinito, pelo eterno poder, a lei do Espírito de vida. Não diz que “me livrará”, mas
que “me livrou”. Nossa velha natureza pecaminosa é tão depravada que, apesar de ser nascido de
Deus, de ter prazer na lei de Deus e desejar guardá-la; ainda assim a lei que há em meus membros
me colocou no cativeiro. E acaso não foi assim que aconteceu? Mas somos agora libertos de seu
poder, por um poder maior – a lei do Espírito de vida em Cristo Jesus. Oh, quão bom seria se
pudéssemos ter uma fé mais simples na Palavra de Deus; sim, e também no Espírito Santo que
habita em nós! Este versículo resume todo o contexto do capítulo 6. Trata-se do princípio de nos
reconhecermos mortos para o pecado e vivos para Deus em Jesus Cristo, princípio este aplicado
pelo poder do Espírito.
 
Ainda assim, há muitos jovens leitores que podem se deparar com esta dificuldade, ao
experimentarem a completa degradação da carne, conforme é descrita no capítulo 7. Talvez alguém
diga: “Vejo como meus pecados foram perdoados; mas, descobrir, a partir de então, que a velha
natureza que possuo é completamente má; descobrir que não há poder em se tentar guardar a lei de
Deus, não importa o quanto eu gostaria de consegui-lo; descobrir, para minha surpresa, uma
natureza má, uma lei de pecado, que me mantém cativo; que minha própria natureza – o pecado na
carne – só praticou aquilo que eu odiava e condenava. Como, então, você pode me afirmar que não
há condenação?” Vamos ler o versículo seguinte em busca de uma resposta.
 
“Porquanto o que era impossível à lei, visto como estava enferma pela carne, Deus, enviando o Seu
Filho em semelhança da carne do pecado, pelo pecado condenou o pecado na carne; para que a
justiça da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito.”
(Rm 8:3,4) Aqui está o que a lei não podia fazer, e que Deus fez. A lei não podia libertar, nem da
culpa, nem do poder do pecado. Ela era fraca tanto para libertar como para ajudar o homem na
carne, pois a carne era pecado; e se atuasse sob a lei, só poderia transgredir, ainda que fosse em
alguém vivificado e ansiando por libertação.
 
É bem aqui que surge a pergunta: Será a libertação uma questão de se apreender a verdade, ou
meramente de se conhecer a verdade? A libertação do Egito responde à nossa dúvida. Assim como
uma alma vivificada, eles creram na Palavra de Deus por intermédio de Moisés e Aarão (Ex 3:7-
10; 4.31,32), e ansiavam por libertação (Ex 5:1-3), e, por assim dizer, passaram pela experiência de
Romanos 7 fazendo tijolos nas olarias do Egito, tornando-se mais desventurados do que nunca, e
nem um pouco libertados. Acaso foi o aumento de conhecimento, ou de apreensão, que os livrou?
Porventura o conhecimento das promessas de Êxodo 6 os libertou? Será que um conhecimento
mais profundo do favor providencial de Deus, do capítulo 7 ao 11, os libertou? Nem um pouco. Eles
foram libertados verdadeiramente com base na redenção, mas isto foi pelo poder de Deus.
 
Já que não havia nenhum poder na santa lei de Deus para libertar, sua única prerrogativa era a de
amaldiçoar o culpado. Em Romanos 8.2, portanto, encontro o poder que me libertou da lei do
pecado e da morte. No versículo 3 vemos a incapacidade da lei em libertar por intermédio da
fraqueza da carne, e a seguir, o modo como Deus libertou, e a base na qual a libertação foi operada.
Esta parte resolve também a seguinte questão: Como é que não há condenação para mim, uma vez
que a carne é tão completamente vil? “Deus, enviando o Seu Filho.” Exatamente quando tudo mais
falhou em libertá-los do Egito, o cordeiro precisou ser levantado e morto; o israelita, embora ainda
não libertado, estava totalmente protegido pelo sangue. Portanto, a base para a libertação aqui é:
“Deus, enviando o Seu Filho em semelhança da carne do pecado, pelo pecado (ou, um sacrifício
pelo pecado) condenou o pecado na carne.” (Rm 8:3) Não somente entregue por nossas
iniquidades, e ressuscitado para nossa justificação, como já vimos; mas a morte expiatória do Filho
de Deus enviado por causa do pecado – a própria raiz. É assim que agora, havendo tanto os
pecados como o pecado sido ambos condenados, julgados, é que não há, positivamente, nada
deixado para ser condenado. É, portanto, com base na obra expiatória do Filho que o Espírito de
vida em Cristo Jesus concede completa libertação.
 
Assim como a libertação do Egito significava a saída de um lugar, ou de uma condição de
escravidão para outra de liberdade, também o crente é, pelo Espírito de vida, levado para fora de um
lugar, ou de uma condição, chamada “na carne”, para outro lugar, ou condição, chamado “em
Cristo”, havendo o pecado sido perfeitamente julgado, por ter o Santo Filho de Deus sido feito
pecado por nós. E isto não para que pudéssemos continuar em escravidão, mas para que fôssemos
libertos, a fim de que as justas demandas da lei pudessem ser cumpridas em nós, que não andamos
segundo a carne, mas segundo o Espírito.
 
Israel, que então encontrava-se em escravidão, é agora visto livre; liberto para servir Jeová. E assim
também foi conosco; após termos sido vivificados, continuamos na escravidão da carne, ou sob a lei.
Aprendemos agora acerca da total malignidade da carne, e de nossa incapacidade, deixando assim
de buscar o aperfeiçoamento da carne. Não estamos mais nela, mas em Cristo; libertados pelo
Espírito. Devemos agora andar em conformidade com o Espírito, e o Espírito irá atuar em nós em
poder, com base na obra de Cristo.
 
A carne é deixada de lado por aqueles que não andam “segundo a carne”. Uma outra posição é
ocupada agora por aqueles que andam “segundo o Espírito”. Há, por assim dizer, duas classes.
“Porque os que são segundo a carne inclinam-se para as coisas da carne; mas os que são segundo
o espírito para as coisas do espírito.” (Rm 8:5) Uma é morte, a outra é vida. E mais ainda: “a
inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o
pode ser.” (Rm 8:7) Segue-se disso que aqueles que estão neste terreno, aqueles que estão na
carne, não podem agradar a Deus.
 
Acaso você, jovem crente, já chegou a esta conclusão – que sua velha natureza, a carne, o pecado,
é completamente incapaz de agradar a Deus? Trata-se de uma raiz que só produz o mal, não
importa o quanto você tente melhorá-la. Ela é só inimizade contra Deus. Não dê ouvidos a esse
abominável sentimento de que a cobiça não é pecado enquanto você não cometer aquilo que está
cobiçando. O pecado é a própria raiz da cobiça, como vimos no capítulo 7, versículo 8. Não, aquela
raiz precisou ser julgada, e o infinito sacrifício foi feito pelo pecado. “Àquele que não conheceu
pecado, O fez pecado por nós; para que nEle fôssemos feitos justiça de Deus.” (2 Co 5:21) É só com
base nisto que somos libertados da culpa e da condenação que é devida ao nosso pecado, a carne;
e nesta base não nos encontramos mais na carne, mas no Espírito. E aqui surge uma questão de
profundo interesse. Quando, e como, podemos concluir, ou saber, que não estamos na carne, mas
no Espírito? Trata-se de uma questão muito importante, seja para crentes novos ou velhos. Vamos
analisar isto com mais cuidado.
 
Não há dúvida alguma de que “Aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de
Jesus Cristo”. (Fp 1:6) Todavia, há diferentes estágios da obra de Deus na alma, como vemos
tipificado na redenção de Israel.
 
O versículo 9 responderá a esta importante questão: Quando podemos concluir que não estamos na
carne, mas no Espírito? “Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de
Deus habita em vós.” (Rm 8:9) Portanto, fica claro que se o Espírito de Deus habita em você, você
poderá concluir com segurança que não está na carne. Haveria, então, um período distinto entre a
vivificação, ou novo nascimento de uma alma, e a habitação do Espírito de Deus em nós? Seja o
período longo ou curto, as Escrituras sempre apresentam este fato. Sim, no caso de Cornélio e dos
que estavam com ele, assim como nos crentes batizados em Samaria, que não receberam o Espírito
Santo até que os apóstolos descessem de Jerusalém.
 
Cornélio era, evidentemente, uma alma vivificada, assim como toda a sua casa (Atos 10:2), mas não
libertada, e é por esta razão que ele permaneceu na carne, até que a Palavra chegou a ele com o
poder do Espírito Santo, e, por conseguinte, o próprio Espírito Santo (Atos 10:44). Surge, portanto, a
pergunta: Você já recebeu o Espírito Santo? Se ainda não, mesmo tendo sido vivificado, você
continua na carne, procurando a sua melhoria – ainda que seja pelas obras da lei. Cornélio não
poderia ser considerado um cristão até haver recebido o Espírito Santo; e nem você pode
considerar-se, no sentido pleno da palavra, até que tenha recebido o Espírito. “Se alguém não tem o
Espírito de Cristo, esse tal não é dEle.” (Rm 8:9) Outro dia encontramos um homem já idoso, que
disse haver permanecido no Egito por trinta anos. E você, leitor, está escravizado ou salvo? – na
carne ou no Espírito? Não se trata de uma pergunta para ser recebida com leviandade.
 
O versículo 10 não implica na erradicação do pecado, ou no aperfeiçoamento da natureza má. “E, se
Cristo está em vós, o corpo, na verdade, está morto por causa do pecado.” (Rm 8:10) Se a doutrina
da perfeição na carne fosse verdadeira, o corpo não poderia estar morto, e nem morrer, pois pelo
pecado veio a morte. Vemos o efeito do pecado no corpo, e isto inclui a morte. “Mas o Espírito vive
(ou “o Espírito é vida”) por causa da justiça.” Existe morte em razão do pecado; existe vida em razão
da justiça – não nossa, mas da justiça de Deus, cumprida pela morte de Seu Filho por nós.
 
Deve o corpo, portanto, permanecer morto por causa do pecado? Não. “E, se o Espírito dAquele que
dos mortos ressuscitou a Jesus habita em vós, Aquele que dos mortos ressuscitou a Cristo também
vivificará os vossos corpos mortais, pelo Seu Espírito que em vós habita.” (Rm 8:11) Quão completa
a vitória de Cristo! A redenção de nossos corpos fica assim assegurada. O Espírito de Deus habita
em nós? Então a vivificação de nossos corpos mortais é certa.
 
Não estamos, portanto, na carne, embora ela esteja em nós; mas não somos devedores a ela, para
vivermos após ela.
 
O fim do pecado, ou da carne, é morte. Descobrimos, para nossa tristeza, que a morte está sempre
pronta para agir no corpo. “Porque, se viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se pelo Espírito
mortificardes as obras do corpo, vivereis.” (Rm 8:13) Se nossa velha natureza não tivesse sido
deixada para agir em nós, não teríamos necessidade de mortificar as obras do corpo. Não se trata
de mortificar o corpo, mas as obras do corpo. O importante é vermos que isto é pelo Espírito. Este é
um assunto apresentado na sua totalidade em Gálatas 5.16-25.
 
“Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus esses são filhos de Deus.” (Rm 8:14) Jesus
disse: “O servo não fica para sempre em casa; o Filho fica para sempre”. (Jo 8:35) Não estamos na
escravidão, mas na maravilhosa liberdade e privilégios do Filho. Acaso não foi esta a primeira
mensagem que Ele, ressuscitado, deu a Maria? “Vai para Meus irmãos e dize-lhes que Eu subo para
Meu Pai e vosso Pai, Meu Deus e vosso Deus.” (Jo 20:17) “Vede quão grande amor nos tem
concedido o Pai: que fôssemos chamados filhos de Deus.” (1 João 3:1) E qual é a prova de tudo
isso? “Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus esses são filhos de Deus.” (Rm 8:14) E
também, “se sois guiados pelo Espírito, não estais debaixo da lei”. (Gl 5:18) Com toda a certeza, o
Espírito não pode nos guiar sob aquela administração da lei, a qual aboliu (veja  2 Coríntios 3.7-18).
Como temos visto até aqui, colocar um crente sob a lei, ou colocá-lo sob a direção da lei, é colocá-lo
sob o ministério da morte e da maldição. O Espírito sempre nos levará a refletir a glória do Senhor, e
a sermos transformados na mesma glória.
 
O Espírito concede liberdade, não escravidão. Qual é a sua porção – a liberdade dos filhos de Deus,
ou a escravidão do servo, do escravo? Os filhos não deixam de ser filhos para voltarem a ser
escravos. “Porque não recebestes o Espírito de escravidão para outra vez estardes em temor, mas
recebestes o Espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai. O mesmo Espírito testifica
com o nosso espírito que somos filhos de Deus.” (Rm 8:16,17) Poderia um filho deixar de ser filho?
 
Poderia Cristo, o Filho, deixar de ser o Filho? Porventura não ouvimos de Seus lábios que Deus é
nosso Pai, tanto quanto é Pai dEle também? Este parentesco não pode nunca mudar, não pode
nunca deixar de existir. Oh, as riquezas da Sua graça! Que maravilha é que nós, que estamos
cônscios de que tão somente merecíamos Sua eterna ira, tenhamos sido introduzidos em um
parentesco tão imutável – filhos de Deus. Um só espírito com o Filho. Agora, sem nenhuma
escravidão a ser outra vez temida, mas possuindo o Espírito de adoção, será que por meio dEle
clamaríamos, como pecadores distantes de Deus, “Tem misericórdia de nós”? Não! Clamamos, isto
sim, Abba, Pai! E, note bem, é este o testemunho do próprio Espírito.
 
“O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. E, se nós somos filhos,
somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com Ele
padecemos para que também com Ele sejamos glorificados.” (Rm 8:16,17) Sim, os dois grandes
fatos pelos quais o Espírito dá testemunho, são os desta passagem: nossa permanente filiação e
nossa posição de herdeiros. E, em Hebreus 10, Ele testemunha que somos aperfeiçoados para
sempre, continuamente, pelo sacrifício único de Cristo, de maneira que Deus não Se lembrará mais
de nossos pecados. Não há nada que seja negado, ou duvidado com maior frequência, do que estes
dois benditos fatos.
 
Sim, um é o fato de nós, se crentes, sermos perfeitos para sempre. O outro é que somos co-
herdeiros juntamente com Cristo. O Espírito dá testemunho disso. E, note bem, se somos co-
herdeiros de toda a glória vindoura de Jesus – o Filho do homem – não deixe passar por alto estas
poucas palavras: “se é certo que com Ele padecemos, para que também com Ele sejamos
glorificados”. (Rm 8:17) Para constatar que isso foi assim, basta ver toda a história do livro de Atos.
O mundo, e especialmente a sua parte religiosa, odiava os discípulos de Cristo tanto quanto odiava
o Senhor. E os discípulos sofriam com Ele. E por que não acontece o mesmo hoje? É porque o
mundo religioso agora finge ser cristão; e, oh! nós também acabamos descendo a esse mesmo
nível. Mas, à medida que formos guiados pelo Espírito, acabaremos certamente sofrendo o ódio do
mundo. Será que você, amado leitor, sabe o que é ser guiado pelo Espírito? Ou será que você está
sendo guiado pelas organizações e pelos projetos do mundo religioso? Se assim for, não é de
admirar que não saiba o que é desfrutar do parentesco de um filho de Deus, ou o que é sofrer com
Cristo. Acaso você pode afirmar estar sendo guiado pelo Espírito de Deus em sua vida diária – em
suas compras, em seus negócios – ou será que você é simplesmente guiado pelas máximas deste
mundo? Se assim for, você está entristecendo o Espírito, e não pode desfrutar do bendito
parentesco dos filhos de Deus – co-herdeiros com Cristo. Trata-se de algo maravilhoso ter o
Consolador, o Espírito Santo, sempre habitando conosco, bem capaz de cuidar de nós e de todos os
nossos interesses aqui, como filhos que somos de Deus. Oh, que maravilha é ser guiado por Ele em
todas as circunstâncias!
 
Não podemos superestimar e nem subestimar a obra do Espírito, seja ela em nós, como nos falam
os versículos 2 ao 13, ou de Sua obra por nós, nos versículos 14 ao 27. Então, até o final do
capítulo, encontraremos Deus por nós, em toda a Sua eterna e absoluta soberania – no Seu
derradeiro e tão bendito propósito para conosco, que possamos ser também glorificados juntamente
com Cristo. Sim, lembremo-nos de que é este o fim que Deus tem em vista, em todos os nossos
sofrimentos e aflições. Que cada leitor conheça, portanto, que aquele que não possui o Espírito de
Cristo, se não for isto o que o caracteriza, esse tal não é dEle. E, mais ainda, se não estiver sofrendo
com Cristo, é de se questionar se alguém assim é um co-herdeiro de Cristo, guiado pelo Espírito.
 
Basta recusar-se a ser guiado pelo Espírito, e você poderá receber as honras e o aplauso do mundo
religioso. Se for guiado pelo Espírito, certamente você será rejeitado, assim como Cristo foi rejeitado,
e passará a ser seu feliz privilégio sofrer com Ele. Mas, oh!, o que é isto em comparação com a
glória a ser revelada em nós? Que contraste há entre ser guiado pelo Espírito, e ser guiado pelas
modas deste mundo! Oh, quantos são os que sacrificarão a eternidade em troca das modas deste
pobre e enganado mundo, enquanto, ao mesmo tempo, fingirão, sim, até mesmo pensarão, ser
cristãos! Engano fatal! Se for este o estado de qualquer leitor destas linhas, que Deus possa usar
estas palavras para despertá-lo de seu sono enganador. Certamente todos nós precisamos destas
perscrutadoras palavras: “se é certo que com Ele padecemos”.
 
“Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com
a glória que em nós há de ser revelada. Porque a ardente expectação da criatura espera a
manifestação dos filhos de Deus.” (Rm 8:18,19) Quem podia, melhor do que Paulo, considerar este
assunto? Prisões e cadeias o esperavam em cada cidade – uma vida de constante sofrimento com
Aquele a Quem tanto amava servir; e ainda assim ele diz: “As aflições deste tempo presente não são
para comparar com a glória que em nós há de ser revelada”. Deveras, “a ardente expectação da
criatura espera a manifestação dos filhos de Deus”. Que solução para o espantoso paradoxo de toda
a criação! Os gemidos dos campos de batalha cessarão; a miséria, a pobreza e a degradação das
multidões; os sofrimentos da criação, tudo chegará ao fim.
 
“Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou, na
esperança de que também a mesma criatura será libertada da servidão da corrupção, para a
liberdade da glória dos filhos de Deus.” (Rm 8:20,21) Que dia será aquele! Sim, a criação deve
tomar parte na gloriosa liberdade. Ele provou a morte por cada criatura. Trata-se de um pensamento
dos mais agradáveis. Se a miséria e a morte reinaram por tanto tempo, e o pecado do homem afetou
tanto a criação, ainda assim a emancipação da criação deverá ser o resultado da gloriosa liberdade
dos filhos de Deus.
 
“Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora. E não
só ela, mas nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos,
esperando a adoção, a saber, a redenção do corpo.” (Rm 8:22) Repare que não é para a salvação
de nossas almas que esperamos, e ansiamos, mas pela redenção do corpo. Isto pode ser tanto para
os que estão na sepultura, como para os que serão transformados em um momento. Isto acontecerá
na vinda do Senhor. No que diz respeito ao corpo, nem mesmo nós estamos livres do sofrimento, e
de gemermos, até a vinda de nosso Senhor. Ainda não vimos Sua vinda e, por conseguinte, só
podemos aguardar e ter esperança. Trata-se de um erro fatal supor que isso tudo signifique que não
sabemos que temos a salvação; pelo contrário, sabemos que temos vida eterna – “Aquele que crê
no Filho TEM a vida eterna”. (Jo 3:36) Não há espera para tal. Mas podemos aguardar em paciência
pela redenção do corpo.
 
“E da mesma maneira também o Espírito ajuda as nossas fraquezas; porque não sabemos o que
havemos de pedir como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos
inexprimíveis. E Aquele que examina os corações sabe qual é a intenção do Espírito, e é Ele que
segundo Deus intercede pelos santos.” (Rm 8:26,27) Isto é algo extremamente bendito para nós. Ele
conhece tudo o que nos diz respeito, e não somente a nós, mas conhece também os planos e
propósitos de Deus. Podemos estar a poucos dias ou anos da redenção do corpo. Ele certamente
sabe o que é apropriado para nós em circunstâncias assim. E Deus, que ouve, conhece qual é a
intenção do Espírito. Se não orarmos no Espírito, podemos estar certos de que estaremos pedindo
coisas que são bem inconsistentes com a dispensação ou período em que vivemos.
 
Entraremos agora na terceira ou última divisão de nosso capítulo. Talvez nem sempre estaremos
aptos a entender, mas podemos dizer: “E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para
o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados por Seu decreto”. (Rm 8:28)
Sabemos disso porque Deus é sempre por nós. É isto que é apresentado até o final do capítulo.
“Daqueles que são chamados por Seu decreto.” Deus não nos chamou por causa de qualquer bem
que pudesse existir em nós, ou de qualquer desejo de nossa parte. Notemos atentamente qual foi o
Seu propósito, pois Seu chamado é o resultado de Seu decreto ou propósito.
 
Este é, portanto, o Seu propósito: “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para
serem conformes à imagem de Seu Filho; a fim de que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos”.
(Rm 8:29) Ele conhecia de antemão aqueles que iria chamar; e Ele os predestinou, aqueles que
chamou, para este destino glorioso, para que sejam como Seu Filho, conformados à Sua imagem.
Que propósito tremendo este, que Seu Filho fosse o Primogênito entre muitos irmãos! Que imenso
privilégio o de termos sido chamados para compartilhar dessa posição de glória! Não devemos
alterar nem uma só palavra a fim de adaptar isto aos pensamentos ou raciocínios humanos. “E aos
que predestinou a estes também chamou: e aos que chamou a estes também justificou; e aos que
justificou a estes também glorificou.” (Rm 8:30) Aqui é tudo de Deus, que não pode falhar. Esta é a
Sua ordem. Predestinados, chamados, justificados, glorificados. De eternidade a eternidade. Que
sequência maravilhosa! Que consolo inestimável para os tão sofridos filhos de Deus! Porventura Ele
não nos chamou? Então isto prova que nos predestinou; e Ele nos justificou; e não deixará de nos
levar para a glória. A fé certamente confiará nEle. A incredulidade com prazer deixaria que Satanás
introduzisse raciocínios que eliminassem toda esta verdade fundamental. “Que diremos pois a estas
coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8:31) Sim, se Deus é assim por nós, quem
ou o quê pode ser contra nós? Veja como aprouve a Deus nos persuadir disto.
 
“Aquele que nem mesmo a Seu próprio Filho poupou, antes O entregou por todos nós, como nos
não dará também com Ele todas as coisas?” (Rm 8:32) Alguma dúvida? Fica assim manifesto que
todas as coisas devem cooperar para o nosso bem, já que Deus não poupou nem Seu próprio Filho.
Que amor eterno e infinito teve Ele ao entregá-Lo por todos nós! Podemos esperar seja o que for,
tendo em vista a imensidão e o caráter deste amor.
 
Como já vimos nesta epístola, já que é Deus, em Sua justiça, Aquele que é o Justificador, o Deus
que justifica, “quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus?” (Rm 8:33) Quem os
condenará? Se Deus é nosso Justificador, poderá alguma criatura nos condenar? Foi Deus Quem
demonstrou a Sua aceitação pelo nosso resgate ao ressuscitar Jesus de entre os mortos para nossa
justificação. Deus O entregou por todos nós; e Ele O ressuscitou de entre os mortos para a
justificação de nós todos; e Ele é a imutável justiça de todos os eleitos de Deus. “Quem os
condenará?” (Rm 8:34) Deus não pode nos condenar sem condenar a Ele que foi levantado de entre
os mortos para ser nossa justiça. Nossa justificação não poderia ser mais perfeita, pois tudo vem de
Deus. Nossa justificação, portanto, é de Deus, e é completa e estabelecida eternamente. Resta
apenas mais uma questão. Poderá qualquer circunstância alterar o amor de Cristo, ou alterar o amor
de Deus em Cristo para conosco? Há tantos que duvidam que o amor de Cristo possa permanecer,
caso não o mereçamos continuamente, que esta acaba sendo uma questão de grande importância.
Será que não se trata de um grande erro supor que alguma vez tenhamos merecido, merecemos, ou
iremos merecer esse amor? Será que são os nossos méritos, o que o Espírito de Deus coloca diante
de nós?
 
Leia do versículo 34 ao 39. Veja quão belo e simples é: Ele coloca Cristo diante de nós. Vamos
acompanhar a Palavra, uma sentença após a outra. “É Cristo Quem morreu.” (Rm 8:34) Será que
Ele morreu por nós porque merecíamos o Seu amor? Poderia existir um amor como este, e, ainda
por cima, amor por nós quando mortos em delitos e pecados? “Ou antes, Quem ressuscitou dentre
os mortos.” (Rm 8:34) Contemple-O, o Ressuscitado de entre os mortos, como o princípio da nova
criação. E isto com o propósito expresso de nossa justificação. E tudo isso, quando o que
merecíamos era só a eterna ira.
 
“O qual está à direita de Deus.” (Rm 8:34) Aquele que carregou os nossos pecados, e que foi feito
pecado por nós, nosso Representante, está à direita de Deus, como se tivesse tomado posse
daquele lugar para nós. Então vem o inimigo, que enganou Eva, e diz: “Tudo isso é verdade se você
nunca pecar mais após a sua conversão, mas se algum cristão pecar, certamente o pecado o
separará do amor de Cristo”. Querido jovem crente, veja se seu escudo não está abaixado quando o
diabo lança insinuações assim contra você. A resposta preciosa é esta: “Também intercede por nós”.
(Rm 8:34) Sim, “vivendo sempre para interceder por eles”. (Hb 7:25) Imagine de quantos pecados
esta intercessão nos preserva!
 
Mas será que se um crente, um filho de Deus, por causa de seu descuido, pecar, será que Ele irá,
ainda assim, em seu infinito e imutável amor, interceder pela causa daquele que caiu? “Meus
filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis; e, se alguém pecar, temos um Advogado
para com o Pai, Jesus Cristo, o justo. E Ele é a propiciação pelos nossos pecados.” (1 João 2:1,2)
Sim, mesmo então, em imutável amor, Ele é o mesmo Jesus, que “também intercede por nós”.
Assim, tudo provém de Deus e não pode falhar. Leia agora toda a lista apresentada por estes
versículos, e fiquemos persuadidos, como estava o apóstolo, de que nada “nos poderá separar do
amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor”. (Rm 8:39) Não há condenação para
aqueles que Deus justifica, aqueles que Ele tem por justos. E não há separação do infinito e eterno
amor de Deus para conosco, em Cristo Jesus nosso Senhor.
 
CAPÍTULO 9 – A ELEIÇÃO DIVINA POR MEIO DE UMA NAÇÃO
(Romanos 9)
 
COMO se pode perceber, há agora uma mudança na epístola. Os próximos três capítulos formam
um parêntese. A justiça de Deus já foi completamente revelada e explicada em Seu proceder, tanto
para com os judeus como para com os gentios, por meio da qual ambos têm acesso a Deus. Ambos
igualmente culpados, e agora ambos igualmente justificados; de modo que não há mais
condenação, e nem separação do amor de Deus em Cristo Jesus nosso Senhor. Todavia, se isto é
assim, como ficam as promessas especiais feitas a Israel por meio dos profetas? Este é o assunto
tratado nestes três capítulos.
 
Teria o apóstolo, que com tanta clareza trouxe à tona esta verdade de que agora não há diferença
no modo de Deus tratar a ambos, deixado de amar a nação de Israel? Não, seu amor por eles era
tão intenso que, como Moisés na Antiguidade (veja Êxodo 32:32), ele, por assim dizer, ficara fora de
si. Ele diz: “Tenho grande tristeza e contínua dor no meu coração. Porque eu mesmo poderia
desejar ser separado de Cristo, por amor de meus irmãos, que são meus parentes segundo a
carne”. (Rm 9:2,3) Em alguns casos, aquele amor tão intenso levou-o a agir fora da direção do
Espírito Santo, como em Atos 20.22 e 21.4. Não há dúvida de que o Senhor suportou Seu devoto
servo, e transformou tudo em bem – ao menos para nós – apesar de Paulo haver sofrido a prisão e
a morte. O quanto deve ter isto acrescentado à sua dor de coração – ser odiado e perseguido em
cada cidade por aqueles que ele amou tão profundamente. Que semelhança com seu Senhor, ao
Qual ele serviu com tanta devoção.
 
Paulo reconhece a totalidade dos privilégios que eles tinham como nação. “Que são israelitas, dos
quais é a adoção de filhos, e a glória, e os concertos, e a lei, e o culto, e as promessas; dos quais
são os pais, e dos quais é Cristo segundo a carne, O qual é sobre todos, Deus bendito eternamente:
Amém.” (Rm 9:4,5)
 
Que privilégios! A nação adotada, com a qual Deus havia habitado no tabernáculo. Esses privilégios
nunca haviam sido dados a nenhuma outra nação. O Deus eterno havia Se encarnado, vindo como
Um daquela nação. Tudo isto é plenamente reconhecido. Ele que é sobre tudo, Deus bendito para
sempre, no que concerne à carne, ao corpo, nasceu de Maria, da descendência real daquela nação.
 
Mas um outro princípio é agora apresentado. Deus havia, sem dúvida alguma, feito diferença, ainda
na própria descendência de Abraão. Os da descendência de Abraão não eram todos os eleitos,
filhos adotivos da promessa. “Em Isaque será chamada a tua descendência.” (Rm 9:7) “Os filhos da
promessa são contados como descendência.” (Rm 9:8) Uma multidão brotou de Abraão; mas Ismael
foi rejeitado, e foi só em Isaque que foi escolhida a descendência.
 
O mesmo propósito de Deus havia na eleição de Jacó. A Sara foi dito, “O maior servirá o menor”.
(Rm 9:12) Também foi escrito, embora muitas centenas de anos depois, por Malaquias, “Amei Jacó,
e aborreci Esaú”. (Rm 9:13) Este assunto do livre e soberano favor de Deus é o grande momento da
explanação de Paulo; e nenhum dos que crêem nas Escrituras poderia duvidar disso nos casos a
que nos referimos acima. E Deus disse a Moisés: “Compadecer-me-ei de quem Me compadecer, e
terei misericórdia de quem Eu tiver misericórdia”. (Rm 9:15) Portanto, Deus certamente tinha o
soberano direito de demonstrar misericórdia para com os gentios, sendo justamente isto que
ofendeu tanto os judeus. É notável o fato de que todos os que dizem ser judeus agora, ou que
colocam-se no terreno do judaísmo, estejam sempre disputando a soberana graça de Deus.
 
Muitos homens ilustres negam a soberania divina, mas Deus é mais sábio que os homens. Não
podemos nos esquecer de que, pela cruz, ficou comprovado que o homem encontra-se em
inimizade para com Deus. O homem não tem nada, na sua natureza, que o leve a desejar Deus.
“Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que Se compadece.”
(Rm 9:16) Isto é algo extremamente humilhante, mas certamente é verdadeiro. Faraó é dado como
uma amostra da impiedade do homem, e do justo juízo de Deus sobre ele. Por muito tempo Deus
suportou sua ousada infidelidade e rebelião, até que, no justo governo de Deus, Faraó foi
endurecido e abandonado à sua própria destruição. Que todo rebelde contra Deus fique bem atento,
caso contrário a maldição de Faraó cairá também sobre ele. Faraó disse: “Quem é o Senhor, cuja
voz eu ouvirei, para deixar ir Israel? Não conheço o Senhor, nem tão pouco deixarei ir Israel”. (Êx
5:2) O escarnecedor de nossos dias que se cuide, caso contrário seu coração poderá ser endurecido
contra o Senhor, levando-o à eterna destruição.
 
“Logo pois compadece-Se de quem quer, e endurece a quem quer.” (Rm 9:18) Os homens podem
dizer: Se é isto o que acontece, “por que Se queixa Ele ainda? Porquanto, quem resiste à Sua
vontade?” (Rm 9:19) Não resistiu Faraó a Deus?
 
Não tem você resistido e recusado Deus? “Quem és tu, que a Deus replicas?” (Rm 9:20) Será que a
mera criatura, a coisa formada, tem o direito de perguntar: “Por que me fizeste assim?” Jamais!
Acaso Deus me formou assim? Muito pelo contrário. Seria Ele o Autor de toda a rebelião e pecado
do homem? Veja que esta não é uma afirmação, mas uma pergunta – “Não tem o oleiro poder sobre
o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” (Rm 9:21) Não é
Deus soberano? Aqui não está afirmando que Ele tenha feito alguém para desonra. Sua ira contra
toda a impiedade é conhecida, mas por quanto tempo Ele suportou, com muita paciência, os vasos
de ira preparados para destruição? Acaso não foi Faraó quem se preparou a si próprio para
destruição? O mesmo pode ser dito de cada pecador.
 
Trata-se, no entanto, de uma verdade das mais benditas que Ele preparou de antemão os vasos de
misericórdia para a glória. No que diz respeito a estes, é tudo o soberano favor em conformidade
com as riquezas da Sua glória. “Para que também desse a conhecer as riquezas da Sua glória nos
vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou.” (Rm 9:23) O homem prepara a si próprio
para a destruição, como os judeus estavam fazendo. Deus prepara os vasos de misericórdia para a
glória.
 
“Os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os
gentios” (Rm 9:24), citando Oséias para comprovar isto: “Chamarei Meu povo ao que não era Meu
povo; e amada à que não era amada”. (Rm 9:25) Ele prova, assim, por meio do profeta do próprio
povo de Israel, que a misericórdia seria demonstrada aos gentios.
 
Então ele cita Isaías, e demonstra que é somente um remanescente de Israel que deverá ser salvo.
Sim, “se o Senhor dos Exércitos nos não deixara descendência, teríamos sido feitos como Sodoma,
e seríamos semelhantes a Gomorra.” (Rm 9:29) Certamente, o fato de haverem rejeitado Jesus, O
qual Deus fez Senhor e Cristo, provou que a culpa deles nunca poderia ter sido maior. Mas a
perversidade humana conseguiu chegar mais além: eles mataram o Justo e Santo de Deus, e, com
tudo isso, ainda apegaram-se à lei para justiça.
 
“Que diremos pois? Que os gentios, que não buscavam a justiça, alcançaram a justiça? Sim, mas a
justiça que é pela fé. Mas Israel, que buscava a lei da justiça, não chegou à lei da justiça.” (Rm
9:30,31) Os judeus buscavam justiça pela guarda da lei, mas nunca a alcançaram. Não acontece o
mesmo até hoje? Todos os que se colocam em terreno judaico, e buscam ser justos pela guarda da
lei – não importa qual lei – nunca podem alcançar justiça. Nunca podem estar certos de que estão
suficientemente justos para Deus justificá-los, e, portanto, nunca chegam a ter paz com Deus.
Quanto mais religião um homem inconverso tiver, mais difícil será para o evangelho alcançá-lo. E
por que não chegaram à justiça ou à justificação? “Por quê? Porque não foi pela fé, mas como que
pelas obras da lei: tropeçaram na pedra de tropeço.” (Rm 9:32) E como foi que os gentios chegaram
à justiça, e alcançaram a paz com Deus? Por escutarem as boas novas de misericórdia para com
eles, por meio do sangue do Redentor; creram em Deus; foram justificados; tiveram, crendo em
Deus, paz com Deus. E não é assim que acontece até hoje? O evangelho é ouvido por uma pessoa
que cresceu sob a lei, esperando algum dia poder guardá-la até tornar-se justa, e então espera que,
em um outro mundo, depois do dia do juízo, tenha vida eterna e paz com Deus. Tomada, com
frequência, por dúvidas sombrias – e até presságios de uma condenação eterna – ela tenta todos os
expedientes humanos – um sacerdócio no qual possa depositar, se for uma pessoa sincera, a
escuridão de sua alma, o peso de seus pecados, e o pavor de seu futuro. Poderá uma pessoa assim
alcançar uma justiça que a torne apta para a presença de Deus? Nunca. Poderia algum outro
expediente religioso conceder a bendita paz com Deus? Nenhum.
 
Quão diferente é quando um pobre, culpado, ignorante e sobrecarregado pecador escuta o
evangelho e crê nele, como os gentios da Antiguidade! Não possuíam a lei, e não buscavam justiça
pelas obras da lei. Ouviram a doce história do amor de Deus para com pecadores como eles.
Ouviram como Deus havia Se apiedado deles – sim, havia dado Seu Filho amado para morrer por
eles; que Ele havia morrido, o Justo pelo injusto; que Deus O ressuscitara de entre os mortos.
Ouviram as boas novas do perdão de pecados por meio dEle; ouviram, creram, foram justificados de
todas as coisas, tiveram paz com Deus. Querido leitor, será que você também ouviu e creu assim?
Estará você já justificado? Se assim for, não tem já paz com Deus? Nosso próximo capítulo revelará
isto mais completamente.
 
CAPÍTULO 10 – A PROCLAMAÇÃO DE UMA PERFEITA JUSTIÇA
(Romanos 10)
 
O APÓSTOLO faz aqui uma pequena pausa. Trata-se da pressão do amor de seu coração. “Irmãos,
o bom desejo do meu coração e a oração a Deus por Israel é para sua salvação.” (Rm 10:1) Eles
tinham zelo por Deus, mas não com entendimento. O apóstolo estava imensamente triste com os
que causavam problemas, e buscavam inquietar os gálatas, sim, ele desejava até que fossem
cortados (Gl 5:12). Mas o quanto ele chorou sobre a grande multidão de judeus enganados.
Estamos nós tristes pela multidão que nos cerca? Podemos dizer que o desejo de nosso coração e
nossa oração por eles a Deus é que possam ser salvos?
 
“Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua própria justiça, não
se sujeitaram à justiça de Deus.” (Rm 10:3) Você deve estar lembrado de que a justiça de Deus é
revelada no evangelho. (Veja os capítulos 1:17 e 3:21-25.) Assim, os judeus que rejeitaram o
evangelho, permaneceram necessariamente ignorantes daquela justiça. E assim acontece até o dia
de hoje: todo aquele que rejeita a revelação de que Deus é justo e ainda o Justificador do ímpio,
acaba, se estiver ansioso para ser salvo, buscando estabelecer sua própria justiça, recusando-se,
assim, a submeter-se ao fato de que Deus é justo em justificá-lo gratuitamente, por meio da
redenção que há em Cristo Jesus.
 
O encontro do pai com o pródigo em Lucas 15 ilustrará este assunto. O pródigo, assim como o pobre
gentio, caiu em si. A parábola toda é surpreendente: o pastor tinha vindo para buscar a ovelha
perdida, sim, como sabemos, Ele morreu por ela. O Espírito Santo foi enviado desde o céu e procura
o perdido. E agora o pai tem o seu gozo completo ao receber o filho perdido; ele, o pai, vai ao seu
encontro. Um profundo exercício de consciência havia tomado lugar no pródigo. Um senso de que
havia abundância na casa do pai, e uma prontidão em confessar seu pecado; isto é o que sempre
marca a obra do Espírito. Todavia, até aqui ele ignorava acerca do melhor vestido.
 
Ele esperava ser um servo, como acontece em cada coração humano, mas estava totalmente
ignorante do que lhe estava reservado. Tudo o que tinha eram seus trapos, sua culpa, sua vergonha.
Tudo isso ele reconhecia diante de seu pai. Tinha ele uma túnica para apresentar ao seu pai? Não
tinha nada senão trapos. Teria o pai dito a ele que fizesse uma túnica, uma vestimenta que o
deixasse adequado para entrar em sua casa? Não. O pai tinha uma túnica para ele. Oh, olhe para o
pai: “E, quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão, e, correndo,
lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou.” (Lc 15:20) É assim que Deus vai ao encontro do pecador
arrependido, que está em seus trapos, sem sequer uma túnica.
 
O pai disse: “Trazei depressa o melhor vestido, e vesti-lho, e ponde-lhe um anel na mão, e alparcas
nos pés.” (Lc 15:22) Do mesmo modo o gozo enche o coração de Deus ao receber o pecador
perdido. Mas não acontece o mesmo com o irmão mais velho, que prefere lutar por uma justiça
própria. Que contraste! Um erro triste e fatal! O pródigo não tinha nem uma túnica para apresentar-
se ao pai. Ele não tinha nada além de trapos e pecado. O pai tinha a melhor roupa, a justiça de Deus
para o pródigo. Sim, e o anel para sua mão, prova de amor eterno; e o andar condizente também lhe
foi providenciado, sandálias para seus pés. Tudo novo e tudo proveniente de Deus. Israel, assim
como o irmão mais velho, não podia ter essa compaixão e justificação de Deus. É certo que estavam
ignorantes acerca disso. “Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus, e procurando estabelecer a
sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus.” (Rm 10:3) Eles haviam seguido a lei da
justiça; haviam tentado guardar a lei para serem justos. Haviam tentado fazer uma túnica para
apresentarem a Deus; mas não conheciam a melhor roupa que Deus tinha para dar-lhes. Será este
o seu caso, leitor? Será que você está tentando produzir, fazer uma justiça, para apresentá-la a
Deus? Talvez você esteja perguntando: Não devo tentar guardar a lei para ser bom e apto para a
presença de Deus? Você não vê onde está seu erro? Você não vê que está tentando trazer a túnica
para Deus? Qual é a melhor roupa? “Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que
crê.” (Rm 10:4) Sim, Cristo é a melhor roupa – o fim de todas as exigências, e de todos os sacrifícios
da lei, que eram tipos. Deus fez dEle justiça para nós. Não necessitamos de outra justiça para
entrarmos na presença de Deus nosso Pai. A justiça prática, exercitada diante dos homens, é uma
outra questão, mas não é o assunto tratado aqui.
 
“Moisés descreve a justiça que é pela lei, dizendo: O homem que fizer estas coisas viverá por elas.”
(Rm 10:5) Mas o pródigo não tinha feito estas coisas. E nós não fizemos estas coisas: somos
culpados e não temos justiça para apresentar a Deus. Mas, crendo em Deus, Ele pode considerar-
nos, e nos considera de fato, justos; e isso por uma obra que já foi consumada, e não algo que ainda
necessite ser feito. Cristo não descerá do céu para morrer na cruz. Ele já veio aqui e morreu por
nosso pecados. Ele não terá que ressuscitar de entre os mortos, pois tudo já foi feito, tudo
consumado. Assim como o pai saiu ao encontro do pródigo, “a palavra está junto de ti, na tua boca e
no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, a saber: SE com a tua boca confessares ao
Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus O ressuscitou dos mortos, serás salvo”. (Rm
10:8,9) Era justamente isto o que Israel não iria fazer. Eles não confessariam que Deus fez aquele
mesmo Jesus, que eles haviam rejeitado e crucificado, Senhor e Cristo. Eles se apegariam à lei para
justiça, e em seus corações não iriam crer em Cristo como a justiça deles diante de Deus. E quantos
estão fazendo o mesmo até hoje! Procurarão ser justos, mas nunca conseguirão. Nunca
conheceram a justiça de Deus em justificá-los no momento em que cressem.
 
Agora o apóstolo cita, como prova, a própria Escritura que eles possuíam. “Porque a Escritura diz:
Todo aquele que nEle crer não será confundido.” (Rm 10:11) Isto prova que haveria um tempo em
que a doutrina do “não há diferença” estaria em vigor. “Porquanto não há diferença entre judeu e
grego (ou gentio): porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que O invocam.
Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.” (Rm 10:12,13;  Joel 2.32.) Que
bendito fato é este: todos, seja judeus ou gentios, que verdadeiramente se achegam ao Senhor,
invocando-O, estão assegurados das boas vindas, assim como aconteceu com o pródigo.
 
O que você prefere, leitor? Nunca ter pecado e ter produzido uma justiça que o deixasse apto para
comparecer diante de Deus (se fossem coisas possíveis), trazendo assim uma túnica para Deus, ou,
reconhecer tudo o que você é, e tudo o que praticou, e agora, como um pecador merecedor do
inferno, confessar com sua boca e crer em seu coração no Senhor Jesus, como sua eterna justiça
diante de Deus? Não podemos nos detestar muito a nós mesmo; mas, oh, que profunda compaixão
a que nos encontra exatamente como estamos, e nos veste com a melhor roupa, com anel e
sandálias. E como nos é dado conhecer esta justiça de Deus? Leia os versículos 14 e 15 para ter a
resposta. Escutando a Palavra, o evangelho da paz que nos foi enviado. Que boas novas! Aqueles
que buscavam a justiça pela lei odiaram essas boas novas e os pregadores do evangelho. É
exatamente o que acontece até hoje, por todos os que dizem que são judeus e não o são.
 
Não seria este um fato dos mais espantosos que o homem pudesse odiar e rejeitar o seu maior bem,
o evangelho da paz? O homem tentará, ou pensa poder tentar, atingir algum dia a sua própria paz
com Deus. Mas não terá a paz que é feita pelo sangue de Jesus; a paz que é pregada àqueles que
estão longe, e àqueles que estão perto. Sim, a paz que é proclamada a todos. “Mas nem todos
obedecem ao evangelho; pois Isaías diz: Senhor, quem creu na nossa pregação?” (Rm 10:16) A
palavra do evangelho foi pregada a todo o Israel: mas não quiseram crer. É pregada agora, talvez
como nunca o foi antes, a toda a cristandade; mas eles não a receberão. Veremos o resultado final
de tudo isso no próximo capítulo.
 
Deus tem os que Lhe pertencem, apesar de toda a perversidade do homem, sejam judeus ou
gentios, como Isaías claramente disse: “Fui achado pelos que me não buscavam, fui manifestado
aos que por Mim não perguntavam”. (Rm 10:20) O apóstolo provou, assim, as duas coisas tiradas
das passagens do próprio Antigo Testamento deles: que não há diferença, e que prevalece a
soberania de Deus. Quem quer que seja, judeu ou grego, que invocar o Senhor será salvo – e, oh,
que verdade que sustenta a alma, Ele terá misericórdia de quem tiver misericórdia. Teria Israel se
perdido por Deus não desejar salvá-los? “Mas contra Israel diz: Todo o dia estendi as minhas mãos
a um povo rebelde e contradizente.” (Rm 10:21) Eles não quiseram ir a Ele: eles recusaram o melhor
vestido, o anel e as sandálias. Que isto não aconteça com os leitores destas linhas. Aquele que vai a
Ele, de maneira nenhuma será lançado fora.
 
CAPÍTULO 11 – A FIDELIDADE DE DEUS
(Romanos 11)
 
“DIGO POIS: Porventura rejeitou Deus o Seu povo? De modo nenhum.” (Rm 11:1) O próprio Paulo
era uma prova disto, pois ele era um israelita. “Deus não rejeitou o Seu povo, que antes conheceu.”
(Rm 11:2) Não foi Deus que rejeitou Seu antigo povo: “Todo o dia estendi as Minhas mãos a um
povo rebelde e contradizente.” (Rm 10:21) É importante que se veja este lado da verdade – a
perfeita prontidão de Deus para que Israel – sim, até mesmo para que todos os homens – fosse
salvo. O homem é o que é rebelde, o transgressor da lei, e, agora, o que rejeita da misericórdia de
Deus. Vem, então, o outro lado da questão. Israel se rebelou de tal maneira contra Deus, ao ponto
de Elias haver dito que só ele havia ficado. Ele disse: “Senhor, mataram os Teus profetas, e
derribaram os Teus altares; e só eu fiquei, e buscam a minha alma”. (Rm 11:3) Temos aqui a
profunda e universal rejeição e ódio do homem contra Deus. Trata-se do homem no pleno exercício
de sua vontade própria. Mas, acaso Deus abandonou todos os homens à sua própria livre escolha e
ao seu ímpio caminho?
 
“Mas que lhe diz a resposta divina? Reservei para mim sete mil varões, que não dobraram os
joelhos diante de Baal.” (Rm 11:4) Deus não diz que eles tenham merecido, ou que tenham se
resguardado; não, o que Ele diz é: “(Eu) reservei”. O mesmo que já vimos no capítulo 9, e se Deus
não tivesse feito assim, todos eles teriam se tornado como Sodoma e Gomorra.
 
“Assim pois também agora neste tempo ficou um resto, segundo a eleição da graça.” (Rm 11:5) Sim,
nessa mesma ocasião ninguém poderia negar que a nação, como tal, estava enlouquecida em sua
ira contra Cristo. O próprio Saulo era uma prova do excessivo ódio dos israelitas contra Cristo. Mas,
como aconteceu nos dias de Elias, houve então uma eleição de graça, de livre e imerecido favor de
Deus. Querido jovem crente, você será imensamente tentado a rejeitar este abundante e gratuito
favor de Deus que elege. Nos dias de hoje há poucos que crêem nisto de coração. Gostaríamos que
você abraçasse isto de toda a sua alma. Será que não ficou evidente que tanto Israel como os
gentios são tão maus, são grandes rejeitadores da graça de Deus, que se não fosse por Sua
eleição, em livre graça e favor, ninguém teria sido salvo? Todos, todos eles teriam sido como
Sodoma. Sim, a completa ruína do homem, e a eleição de Deus, são coisas que, ou permanecem
juntas, ou caem juntas. Você não pode verdadeiramente tomar posse de uma e rejeitar a outra.
Repare que estas passagens demonstram que não há má vontade da parte de Deus, mas o homem
não quer receber a graça de Deus. Quando isto é enxergado, quão precioso é, para o crente, a
bendita verdade da eleição da graça! “Mas se é por graça, já não é pelas obras: de outra maneira, a
graça já não é graça.” (Rm 11:6) Isto é evidente. A salvação por obras, de qualquer tipo que seja,
necessariamente coloca de lado o livre favor de Deus. Porventura você permanece no livre, pleno e
eterno favor de Deus; ou está procurando alcançá-la por meio das obras?
 
Era exatamente isto o que Israel estava fazendo, porém “o que Israel buscava não o alcançou”. (Rm
11:7) Com toda a sua ira contra Deus, como foi revelada em Cristo, eles estavam, ao mesmo tempo,
sendo zelosos da lei, e procurando justiça pelas obras. Rejeitando o livre favor de Deus, nunca
poderiam obtê-la pelas obras. Por isso sua cidade foi destruída e eles foram dispersos ou mortos.
“Mas os eleitos o alcançaram” (Rm 11:7), ou seja, o livre favor de Deus no qual permaneceram.
Quanto ao restante, aqueles que rejeitaram o livre e imerecido favor, foram tornados cegos. E as
Escrituras estão cheias de passagens para demonstrar que isto aconteceria assim como está escrito
nos versículos 8 ao 10. Existem agora dois fatos. Os profetas previram que esses rejeitadores
seriam entregues à cegueira judicial, e foi isto o que aconteceu ao longo de muitos séculos. Se
alguém, que se considere um que rejeita da verdade da eleição da graça, estiver lendo isto, oh, você
corre o risco de também ser abandonado por Deus à cegueira e endurecimento de coração. Há
quanto tempo Deus estende Suas mãos, pronto para receber você? E será que você é ainda um
daqueles que, como Israel em sua justiça própria, continua a rejeitar? Deus poderá, em Seu justo
juízo, abandonar você à dureza de coração, e às trevas que rapidamente estão se espalhando.
 
Mas será que a atual rejeição da graça de Deus por parte de Israel, e sua consequente cegueira,
levam Deus a alterar Seus propósitos e Sua promessa? Devemos agora olhar cuidadosamente para
o lado dispensacional desta questão. Deus transformou a queda deles em grande bênção para os
gentios. E, se assim foi, quão maior não será a bênção da sua plenitude? (Rm 11:12.) O mundo
gentio foi abandonado à crassa idolatria, como vimos no capítulo 1. Mas agora, se a rejeição de
Israel como nação resultou na “reconciliação do mundo” (Rm 11:15), o que será quando Deus os
receber,senão vida dentre os mortos? O apóstolo não está falando aqui da vocação, ou privilégios
celestiais, da igreja, mas de privilégios terrenos. Quando Deus chamou Abraão, e o separou de entre
as nações, este tornou-se a oliveira de bênção e promessa sobre a Terra. Sua descendência veio a
ser aquela árvore de privilégios, da qual Abraão era a raiz. Portanto, não é uma questão de ramos
em Cristo, mas de ramos da oliveira da promessa ou dos privilégios. Trata-se, também, da questão
da santidade relativa, ou separação do mundo. Alguns dos ramos naturais foram quebrados, mas
não todo o Israel; alguns apenas. E, levando adiante esta figura, os gentios foram enxertados nesta
oliveira de privilégios.
 
Todavia os gentios não podem se gloriar, pois “não és tu que sustentas a raiz, mas a raiz a ti”. (Rm
11:18) E, note bem, foi por causa da incredulidade que foram quebrados. Não foi porque Deus quis
quebrá-los, mas por causa de sua própria incredulidade. E os gentio permanecem pela fé. “Então
não te ensoberbeças, mas teme.” (Rm 11:20) Houve juízo, com severidade, contra Israel, que caiu
em razão de sua incredulidade; mas houve benignidade para com os gentios – “se permaneceres na
Sua benignidade; de outra maneira, também tu serás cortado”. (Rm 11:22) Deus é capaz de enxertar
Israel outra vez.
 
Trata-se de algo totalmente contrário à natureza enxertar a oliveira brava na boa. Na natureza, é
sempre a boa oliveira, a boa macieira, que é enxertada na brava. Mas Deus tomou o pobre gentio, a
planta “brava”, e o enxertou na boa árvore abraâmica do privilégio. E mais ainda, o apóstolo não os
deixa ignorar esta verdade dispensacional, de que “o endurecimento veio em parte sobre Israel, até
que a plenitude dos gentios haja entrado. E assim todo o Israel será salvo, como está escrito, de
Sião virá o Libertador, e desviará de Jacó as impiedades”. (Rm 11:25,26) Deste modo, o período do
“não há diferença” (Rm 10:12) chegará ao fim; o propósito de Deus em tirar para Si um povo de
entre os gentios deverá se cumprir; então todo o Israel será salvo, conforme está escrito. Aí, então,
todas as promessas que cabem a eles se cumprirão. Toda a nação de Israel, outrora dispersa, será
reunida em sua própria terra, e serão então nascidos de Deus, conforme está escrito. É este o
propósito de Deus, embora sejam eles os inimigos mais acirrados no tempo presente; Deus
escolheu fazer assim. “Porque os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento.” (Rm 11:29)
Ele nunca muda. Nem um jota ou til de Sua Palavra poderá falhar. A tradução literal dos versículos
30 a 31 é importante: “Porque assim como vós também antigamente não crestes em Deus, mas
agora fostes objetos de misericórdia pela desobediência deles, assim também estes agora não
creram na misericórdia a vós demonstrada, para também serem feitos objetos de misericórdia”. Isto
é algo maravilhoso, e demonstra o seguinte princípio: Ele terá misericórdia (ou “Se compadece”) de
quem tiver misericórdia (ou “Se compadecer”). Os gentios não tinham nenhum direito à salvação;
estavam mortos em seus pecados, em incredulidade. Deus mostrou, para com eles, pura
misericórdia. Israel não poderia crer em tal misericórdia e perderam o direito a todos os privilégios
por sua incredulidade, a fim de que Deus possa, no final, salvá-los como nação, ainda que como
objetos de Sua misericórdia. “Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com
todos usar de misericórdia.” (Rm 11:32) “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da
ciência de Deus!” (Rm 11:33) Ninguém mais, a não ser aqueles que foram salvos como objetos de
Sua misericórdia, será encontrado na igreja nas alturas, ou no reino de Deus sobre a Terra. Em
ambos os casos o livre favor de Deus reina, assim, triunfante. Uma palavra mais, um solene aviso
antes de terminarmos este capítulo. Se a cristandade gentia não permanecer em Sua benignidade,
também ela será quebrada. Será que houve antes uma época em que a benignidade de Deus, o Seu
livre favor, tenha sido mais evidentemente rejeitada do que no presente momento? Nunca antes,
desde os dias dos apóstolos, a livre graça de Deus foi pregada tanto, e nunca também foi tão
rejeitada. Há pouco tempo visitamos uma grande cidade onde foi construído um bom e amplo salão
para a pregação do puro evangelho da graça de Deus. Estava fechado. Um outro grande edifício
estava ocupado por aqueles que, como Israel na Antiguidade, procuram alcançar a justiça pelas
obras, pelos rituais, e, disfarçadamente, pela missa. O local estava lotado, com pessoas, sentadas e
em pé. Será que Deus irá suportar isso para sempre? Certamente o fim está próximo. Os ramos
gentios devem ser quebrados. Foi assim que o Espírito explicou acerca deste período de “não há
diferença” nestes três capítulos, Romanos 9, 10 e 11. Depois de seu fim haverá a dispensação do
reino de Cristo, como foi anunciado pelos profetas. E nesse tempo todo o Israel será salvo, como
objeto de Sua misericórdia. “Glória pois a Ele eternamente. Amém.” (Rm 11:36) Com isto termina a
parte doutrinária desta maravilhosa revelação da justiça de Deus, em Seu proceder para com o
homem. A leitura desta epístola de nada valerá se não for validada pelo Espírito Santo em nossos
corações. Será que Ele, como vimos nas maravilhosas páginas desta epístola, tem usado assim a
Sua Palavra? Será que reconhecemos verdadeiramente que somos pecadores ímpios e tão
arruinados? Será que aprendemos que nunca houve, e nem pode haver, qualquer coisa boa na
carne? Será que cremos em Deus que ressuscitou Jesus nosso Senhor de entre os mortos, O qual
foi entregue por nossas ofensas? Será que nós, individualmente, já nos conscientizamos dessas
ofensas e as reconhecemos como tendo sido transferidas para nosso santo Substituto? Será que
posso dizer que Ele ressuscitou de entre os mortos para a MINHA justificação? Se assim for,
certamente estamos justificados pela fé, e temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo. E
agora, permanecendo neste livre e abundante favor de Deus, como devemos andar? Sim, depois de
completamente libertos, e possuindo o Espírito de vida, qual deveria ser o fruto disso? Os capítulos
que restam dão a resposta a estas questões.
 
CAPÍTULO 12 – CRISTIANISMO PRÁTICO
(Romanos 12)
 
CHEGAMOS agora à justiça prática, o estado e o andar daqueles que foram feitos recipientes da
graça de Deus, daqueles que foram tomados em soberano e livre favor, e justificados de todas as
coisas; sem nenhuma condenação em Cristo. É por esta mesma compaixão de Deus que estes
preceitos lhes são endereçados. “Rogo-vos pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis
os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.” (Rm
12:1) Certamente é preciso um pouco de exercício da razão, no que diz respeito ao nosso corpo,
para sujeitá-lo a um culto racional ou inteligente. Estamos “esperando a adoção, a saber,a redenção
do nosso corpo”. (Rm 8:23) Ele está para ser conformado ao Seu corpo glorioso. Estamos para levar
a imagem do que é celestial. Mesmo no que diz respeito ao nosso corpo, logo deveremos vê-Lo e
ser como Ele é. (Veja Filipenses 3:20,21; 1 Coríntios 15:48; 1 João 3:2.) Portanto, estando cientes
de tudo isso, podemos sujeitar nosso corpo desde já, para que pertença a Ele, para ser usado em
santa separação, por Ele e para Ele.
 
Que privilégio! Mas isto não será possível se estivermos conformados com este mundo – um mundo
em inimizade contra Ele. E, assim como fomos renovados em espírito, “transformai-vos pela
renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita
vontade de Deus.” (Rm 12:2) Se Deus nos salvou, em pura misericórdia e compaixão, busquemos,
então, de modo inteligente, procurar conhecer Sua vontade, experimentando qual é essa vontade.
Isto irá exigir inteligência espiritual quanto ao tempo ou dispensação em que nos encontramos. A
boa, agradável, e perfeita vontade de Deus quanto a isso só pode ser conhecida e experimentada
em humildade de espírito e em completa dependência.
 
“Porque pela graça, que me é dada.” (Rm 12:3) Que necessidade constante há de uma consciência
do livre favor que nos foi individualmente demonstrado, e concedido a cada um de nós! É isto o que
nos capacita a termos um conceito humilde acerca de nós mesmos, e a pensarmos com
temperança, ou pensarmos com sabedoria, conforme a medida de fé que Deus repartiu a cada um.
 
Assim como houve, na dispensação passada, uma nação na carne, e uma aliança de mandamentos
adequada àquela dispensação, “assim nós, que somos muitos, somos um só corpo EM CRISTO,
mas individualmente somos membros uns dos outros”. (Rm 12:4,5) Que contraste é isto com Israel;
e devemos ter entendimento disto, ou não poderemos provar a agradável vontade de Deus para
conosco neste momento. No passado, ninguém poderia estar em Cristo. Jesus devia morrer, e
ressuscitar de entre os mortos, ou então permanecer só; mas somos agora um corpo em Cristo. E
esta verdade deve reger toda a nossa obediência a Cristo. Devemos agir em união, como acontece
com os vários membros do corpo humano, pois somos um só corpo em Cristo. Aqui não se trata
tanto da doutrina do um só corpo, mas da prática de todos os membros desse corpo. Devemos estar
sempre lembrando que, “tendo diferentes dons, segundo a graça que nos é dada”. (Rm 12:6) Com
certeza, qualquer que seja o serviço exercido no um só corpo em Cristo, é tudo pura graça, tudo livre
favor. Tendo esta bendita consciência do livre favor de Deus, sejamos diligentes no serviço,
qualquer que seja ele – seja profecia, ministério, ensino, exortação ou o presidir. Que tudo seja feito
com alegria. Estes preceitos são tão claros que não há necessidade de explicação, além de vermos
que tudo deve ser feito em referência ao um só corpo em Cristo. Todavia, cada um destes preceitos
é da maior importância, e só pode ser guardado andando-se no Espírito, pois, na verdade, estes são
frutos do Espírito. Poderia a carne, que continua em nós, cumprir o “apegai-vos ao bem”, ou o
“preferindo-vos em honra uns aos outros”, ou ainda o “abençoai aos que vos perseguem”? (Rm
12:10-14) De modo nenhum; ela irá sempre oprimir aquilo que é nascido do Espírito. “Sede
unânimes entre vós; não ambicioneis coisas altas, mas acomodai-vos às humildes.” (Rm 12:16) Isto
é exatamente o oposto das maneiras deste mundo. Quão prontos somos a esquecer este bendito
ensino dos versículos 17 ao 19. Quão pronta está a carne para pagar mal com mal. E quão triste é
quando a indolência toma o lugar da busca pelas coisas honestas perante todos os homens. Sim, se
não tiver cuidado, o cristão pode cair em quase todas as formas de desonestidade universalmente
praticadas no mundo. E acaso uma transação enganosa e desonesta não tem o mesmo caráter de
um assalto? Estas são palavras que deveriam estar penduradas na parede de cada escritório,
oficina e estabelecimento: “PROCURAI AS COISAS HONESTAS PERANTE TODOS OS HOMENS”.
Oh, que tenhamos mais fé e uma obediência resoluta nas coisas comuns do dia-a-dia. Estamos
convencidos de que a falta de cuidado nestas coisas, quando não se trata de algo pior ainda do que
o descuido, é a causa de muita de nossa fraqueza. E quão pronta está a carne de cada um de nós
para se vingar! Mas estas são as palavras do Espírito: “Não vos vingueis a vós mesmos, amados”.
(Rm 12:19) Será que Ele, cujo nome tão precioso levamos, vingou-Se a Si próprio? O dia da
vingança e do juízo que cairá sobre um mundo ímpio ainda virá, mas não é certo que somos
seguidores dAquele que curou a orelha de Seu inimigo? Oh, que possamos ser mais semelhantes a
Ele! Que ternas palavras são estas: “se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer: se tiver sede, dá-
lhe de beber”. (Rm 12:20) Onde, além das Sagradas Escrituras da verdade, poderíamos encontrar
palavras assim? Deixe o homem entregue a si mesmo; irá ele agir assim? Não, não; estes são os
preciosos frutos do Espírito. Possam eles abundar em nós cada vez mais.
 
CAPÍTULO 13 – DEVERES E DISCERNIMENTO
(Romanos 13)
 
CONTINUA a senda do homem celestial sobre a Terra. Qual deve ser a sua conduta em relação ao
governo deste mundo? Ele deve sujeitar-se. Deve reconhecer os poderes governamentais que são,
como tendo sido escolhidos por Deus. Ele deve ficar longe da ilegalidade e da insubordinação. “E os
que resistem trarão sobre si mesmos a condenação.” (Rm 13:2) O cristão deve ser, dentre todos os
homens, o mais leal, até mesmo por uma questão de consciência. “Portanto dai a cada um o que
deveis: a quem tributo, tributo: a quem imposto, imposto: a quem temor, temor: a quem honra,
honra.” (Rm 13:7) Deve ser observado que aqui não há nenhum preceito de que devêssemos tomar
parte ou lugar na política deste mundo, mas tão somente estarmos sujeitos. A igreja, ou o cristão, é
sempre visto como não sendo do mundo, mas, enquanto nele, deve permanecer em sujeição. Não
importa o tipo de governo, a senda do cristão é de sujeição; e, querido jovem crente, Deus é mais
sábio do que nós. “A ninguém devais coisa alguma.” (Rm 13:8) Estas poucas palavras são bem
fáceis de se compreender. Não somente os débitos, mas todas as contas devem ser pagas no seu
devido tempo. Para poder agir assim, o cristão deveria sempre procurar viver um padrão de vida
inferior à sua renda, e comprar dentro de suas possibilidades. Isto pode exigir muita diligência e
renúncia própria, mas quanta miséria pode evitar. Estas palavras, portanto, são importantes quando
aplicadas ao quanto se ganha e ao que se gasta. Além disso, qualquer que seja a medida de
bondade que nos for demonstrada, procuremos devolvê-la com generosos juros. “A ninguém devais
coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros.” (Rm 13:8) Ah, esta é uma
dívida que nunca conseguimos pagar totalmente, pois trata-se de amarmos uns aos outros como Ele
nos amou.
 
O amor de Deus é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (Rm 5:5).
Agora, neste exercício, este amor flui a outros – o amor de Deus em nossos corações pelo Espírito –
e o resultado é que “quem ama aos outros cumpriu a lei”. (Rm 13:8) Deste modo os mandamentos
que dizem respeito ao nosso próximo estão todos cumpridos. “Amarás ao teu próximo como a ti
mesmo.” (Rm 13:9) Isto é feito pelo duplo poder do amor de Deus, já derramado em nossos
corações, e pelo Espírito que nos foi dado. Não se trata de colocar o cristão sob a lei novamente, e
dizer a ele que, se guardar a lei, Deus o amará e lhe dará o Espírito Santo. Tampouco isso é dizer a
ele que ore pedindo pelo Espírito, para que possa guardar a lei. É o oposto de tudo isso. O amor de
Deus e o Espírito, isso tudo o cristão já tem, e o amor não faz mal ao próximo. Portanto, o amor é o
cumprimento da lei. Quão bela é a ordem de Deus, e o efeito nunca é colocado antes da causa.
 
Mais uma vez, nos versículos 11 ao 13, deve existir inteligência, como “conhecendo o tempo” etc.
Mas se os cristãos não conhecem o tempo, porém supõem exatamente o contrário, ou seja, que o
mundo está para ser convertido, ou em vias de melhorar, ou que a noite não é passada, ou até
mesmo que não haja noite nenhuma, mas que estejamos vivendo o grande dia do desenvolvimento
e aperfeiçoamento humano – se estiverem assim tão obscurecido e equivocados, como poderão
conhecer a perfeita vontade de Deus quanto ao andar, ou à santa separação de um mundo
amaldiçoado para juízo? Acaso, num estado como esse, não seria impossível conhecer a perfeita
vontade de Deus? Que palavra oportuna! “Conhecendo o tempo, que é já hora de despertarmos do
sono; porque a nossa salvação está agora mais perto de nós do quando aceitamos a fé. A noite é
passada, e o dia é chegado.” (Rm 13:11,12) Que motivação para a santidade! Tenha cuidado com
toda santidade fingida que não possua este discernimento e motivação. O quê! O Senhor está à
porta, e nós, cristãos, dormimos? Pensemos no gozo que teremos, estando para sempre com o
Senhor – quão perto está agora a nossa salvação – ou o dia da ira e juízo sobre este mundo que O
rejeitou. “Rejeitemos pois as obras das trevas, e vistamo-nos das armas da luz.” (Rm 13:12) Se o
mundo está precipitado na desonestidade desta noite escura, “andemos honestamente, como de
dia”. (Rm 13:13) Que mudança haveria na conduta, até dos cristãos, se estivéssemos prontos a
despertar, para aguardarmos o Senhor, dia após dia.
 
Será que você gostaria de ser encontrado por Ele andando em “glutonarias” e “bebedeiras”; em
“desonestidades” e “dissoluções”; ou em “contendas” e “inveja”? Com certeza que não. “Mas revesti-
vos do Senhor Jesus Cristo, e não tenhais cuidado da carne em suas concupiscências.” (Rm 13:14)
Oh, possamos nós despertar do sono e, aguardando pelo Senhor, nos revestirmos dEle. O mundo
não irá escutar o evangelho – eles não irão ler Cristo na Palavra. Possam eles, então, ver Cristo em
nós, e em tudo o que fizermos – epístolas vivas, lidas e conhecidas de todos os homens.
 
Eles nos olharão; eles nos observarão de perto. Eles não sabem o quanto Satanás quer nos fazer
tropeçar. Não conhecem as tentações e as aflições do crente, e o quão propensos somos a falhar,
se não houver uma constante dependência do poder de Deus. Mas que o mundo nunca nos
encontre fazendo provisão para a carne a fim de satisfazer suas concupiscências. Que Senhor
abençoe estes preciosos preceitos, tanto para o escritor como para o leitor. A noite é passada, e o
dia é chegado. Oh, quão cedo deveremos estar para sempre com o Senhor!
 
CAPÍTULO 14 – SENSIBILIDADE ESPIRITUAL
(Romanos 14)
 
“ORA, quanto ao que está enfermo na fé, recebei-o, não em contendas sobre dúvidas.” (Rm 14:1)
Podemos errar tanto de um lado como do outro. Podemos nos tornar tão estreitos a ponto de
rejeitarmos um irmão fraco na fé, ou receber alguém digno de repreensão, com base em questões
duvidosas, e especulações da razão. O Espírito Santo gostaria que evitássemos cuidadosamente
ambos os extremos. Em muitas coisas, como comer e beber, considerar certos dias como santos, ou
todos os dias iguais – em todas as coisas como estas, não devemos julgar uns aos outros, mas
devemos andar juntos em amor.
 
“Mas tu, por que julgas teu irmão? Ou tu, também, por que desprezas teu irmão? Pois todos
havemos de comparecer ante o tribunal de Cristo.” (Rm 14:10) Não se trata aqui de sermos levados
a juízo por causa de nossos pecados, ou do pecado. Isto já ficou estabelecido antes nesta epístola
(capítulo 8:1,33,34). O Senhor nos assegura que não seremos levados a juízo. (Jo 5:24.) Qual é,
então, o significado aqui? Simplesmente a questão apresentada. O fato de que todos serão
colocados diante de Deus, O qual não pode cometer um erro naquilo que Ele aprova, deveria ser
uma prova salutar a nos prevenir do injurioso hábito de julgarmos uns aos outros. “De maneira que
cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus. Assim que não nos julguemos mais uns aos
outros.” (Rm 14:12,13) É claro que isto não nos ensina a sermos indiferentes quando a Pessoa de
Cristo, ou a verdade que nEle há, é atacada: Paulo teve que resistir até mesmo a Pedro. Mas aqui
nos é ensinado a “não pôr tropeço ou escândalo ao irmão”. (Rm 14:13) Pôr tropeço é não andar
segundo o amor. Um irmão fraco, que me veja comendo coisas oferecidas aos ídolos, pode ser
levado a fazer o mesmo, e sua consciência, sendo corrompida, ele pode cair na idolatria, e colocar-
se, com o passar do tempo, sob o poder de Satanás e, no que diz respeito à comunhão, afastar-se
de Cristo; na verdade, o mesmo lugar onde uma pessoa ímpia precisou ser colocada para a
destruição da carne (1 Co 5:5). Isto seria destruir um irmão, ao invés de destruir a carne, ou, por
outro lado, ter sua consciência destruída. Em qualquer circunstância, o amor procuraria não colocar
uma pedra de tropeço no caminho de um irmão. Ficamos sabendo de casos como o de uma pessoa
que guarda o dia do Senhor como se fosse o shabbat (o sábado dos judeus), com uma piedade
tipicamente judaica, enquanto outra, para mostrar ter um conhecimento superior a esse respeito,
pratica coisas no dia do Senhor que seriam uma profanação aos olhos da outra. O resultado, em
ambos os casos, tem sido desastroso. Durante anos, tanto a consciência como a comunhão de
ambos estiveram perdidas ou destruídas. No entanto, não suponha, nem por um momento, que a
expressão “não destruas” possa significar a destruição da vida eterna. As Escrituras não podem se
contradizer. Se parecer significar isto, então ficará evidente que não entendemos o verdadeiro
significado de pelo menos um dos textos. Se a vida eterna que temos em Cristo pudesse ser
destruída, então já não seria eterna. E, acerca daqueles que têm vida eterna, Jesus disse: “Nunca
hão de perecer”. (Jo 10:28) Isto basta para a fé. Todavia, é da maior importância termos
constantemente diante de nós a consciência do tribunal de Cristo. Isto nos preservará de julgarmos
demais, ou de nos devorarmos uns aos outros.
 
O grande tema aqui é servir a Cristo de modo aceitável a Deus. “Porque o reino de Deus não é
comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo. Porque quem nisto serve a
Cristo agradável é a Deus e aceito aos homens.” (Rm 14:17,18) Estas são palavras preciosas:
justiça, paz e alegria no Espírito Santo. Se Deus reinar em nossos corações, haverá consistência;
haverá aquilo que é condizente com o santo lugar em que nos encontramos. “Sigamos pois as
coisas que servem para a paz e para a edificação de uns para com os outros.” (Rm 14:19) Isto nos
levará a evitarmos fazer qualquer coisa, seja comer carne ou beber vinho, com que um irmão possa
se escandalizar. Todavia isto não deve nos levar a comprometer o evangelho.
 
Se Paulo tivesse se recusado a comer com os gentios a fim de não escandalizar a Pedro, aquilo não
teria servido para a edificação, mas teria comprometido o evangelho. Seria o mesmo que dizer que
Cristo não é suficiente para sua salvação eterna, que você precisa também guardar a lei. Isso
porque para alguns a lei era considerada superior a Cristo. De modo semelhante, se uma sociedade
de homens viesse a dizer que Cristo só não é suficiente para a libertação de um pecador e para sua
completa salvação, e que você deveria assumir perante eles o compromisso de não beber vinho,
não seria fé, amor, ou edificação você comprometer o evangelho sujeitando-se a isso. Isso logo o
levaria, como os mestres judaizantes, a apartar-se de Cristo.
 
Se Cristo não tiver a preeminência, algo mais logo terá. Satanás sempre procura usar coisas boas
para tirar o lugar que é devido a Cristo. A lei é boa, a temperança é boa; mas vigiemos para que
nenhuma delas venha a roubar-nos de Cristo. Precisamos nos amparar “à direita e à esquerda”.
(2Co 6:7) Estes comentários são dirigidos para os casos em que a temperança é colocada no lugar
de Cristo. Que cada um de nós esteja plenamente persuadido em sua própria mente, e lembremo-
nos de que “tudo que não é de fé é pecado”. (Rm 14:23) Questionemo-nos na presença de Deus:
Será que preciso disto para meu corpo que pertence ao Senhor? Será que há algum irmão que
conheço que ficará escandalizado se eu tomar isto? Faço-o por fé? É agradável ao Senhor que eu
tome ou faça isto?
 
E sejamos bem cuidadosos em não nos gloriarmos nestes assuntos, ou em julgarmos nosso irmão.
“Tens fé? Tem-na em ti mesmo DIANTE DE DEUS. Bem-aventurado aquele que não se condena a
si mesmo naquilo que aprova.” (Rm 14:22)
 
CAPÍTULO 15 – UM EM CRISTO
(Romanos 15)
 
O APÓSTOLO diz: “Mas nós, que somos fortes, devemos suportar as fraquezas dos fracos, e não
agradar a nós mesmos”. (Rm 15:1) Por isso, quão ternos devemos ser neste tempo em que todos
estão igualmente fracos e débeis. “Portanto cada um de nós agrade ao seu próximo no que é bom
para edificação.” (Rm 15:2) Não é algo verdadeiramente belo? Onde é que podemos encontrar isto
perfeitamente exemplificado? Oh, há Um, sim, Um só que é perfeito. “Porque também Cristo não
agradou a Si mesmo.” Ele não procurou justificar-Se a Si mesmo; “mas, como está escrito: Sobre
Mim caíram as injúrias dos que Te injuriavam”. (Rm 15:3) Seu olhar estava sempre dirigido para o
alto, dirigido para o Pai; Ele era a expressão, a revelação do Pai, Deus manifestado. E todas as
injúrias que recebeu, sentia serem dirigidas contra Seu Pai. Ele não respondeu; não agradou-Se a Si
mesmo, mas Seu inefável prazer estava em suportar tudo, e fazer a vontade dAquele que O enviou.
 
“Ora o Deus de paciência e consolação vos conceda o mesmo sentimento uns para com os outros,
segundo Cristo Jesus. Para que concordes, a uma boca, glorifiqueis ao Deus e Pai de nosso Senhor
Jesus Cristo.” (Rm 15:5,6) Que oração esta! Quão necessária em todas as épocas, mas mais
especialmente nestes últimos dias de tanta discórdia. Aqui está o modelo perfeito: “segundo Cristo
Jesus”. Ele nos recebeu na glória de Deus, sim, como objetos de misericórdia em conformidade com
as riquezas da Sua graça. Quando recebermos uns aos outros, não nos esqueçamos de como Ele
nos recebeu. As passagens são, então, apresentadas para demonstrar como a graça abundou para
com os gentios. Isso mostrava aos judeus que não era para eles rejeitarem os gentios. Deve
também ser observado que estas passagens terão seu pleno cumprimento no reino milenial. “Uma
raiz em Jessé haverá, e naquele que se levantar para reger os gentios, os gentios esperarão.” (Rm
15:12) Segue-se, então, outra oração: “Ora o Deus de esperança vos encha de todo o gozo e paz
em crença, para que abundeis em esperança pela virtude do Espírito Santo”. (Rm 15:13) Com que
clareza a condição da alma é conectada com a vinda do Senhor, mesmo não sendo este o tema da
epístola! Possamos nós conhecer nosso Pai como o Deus de paciência e o Deus de esperança.
 
Devemos notar, no versículo 14, que não há ali nenhum pensamento acerca de um primeiro bispo
de Roma. “Eu próprio, meus irmãos, certo estou, a respeito de vós, que vós mesmos estais cheios
de bondade, cheios de todo o conhecimento, podendo admoestar-vos uns aos outros.” (Rm 15:14)
Não é notável que, em toda esta carta inspirada que é endereçada aos santos em Roma, não exista
uma única sentença que pudesse reconhecer ou fazer referência, ainda que levemente a um
suposto bispo de Roma? Os irmãos estavam capacitados a admoestar uns aos outros; e cada um
era responsável, em conformidade com a medida de graça conferida a cada um, como vimos
no capítulo 12. O primeiro bispo de Roma e seus sucessores são pura invenção de uma época
posterior à epístola.
 
Se Pedro, ou qualquer outro irmão, tivesse sido O BISPO de Roma, Paulo o teria reconhecido como
tal. Ao contrário, Paulo declara seu próprio apostolado como ministro dos gentios (versículos 15-20).
Para Paulo era tudo resultado do livre favor de Deus, “pela graça que por Deus me foi dada; que
seja ministro de Jesus Cristo entre os gentios”. (Rm 15:15,16) E o resultado de todo esse bendito
favor, Paulo podia oferecer a Deus como oferta “santificada pelo Espírito Santo”. (Rm 15:16) E
então, sendo tudo resultado do livre favor de Deus, ele podia se gloriar. “De sorte que tenho glória
em Jesus Cristo nas coisas que pertencem a Deus.” (Rm 15:17) Todo jovem crente fará bem em
ponderar nestes preciosos princípios divinos de serviço – de como os gentios tornaram-se
obedientes ao evangelho. Foi por meio de poderosos sinais e maravilhas; não por sabedoria ou
eloquência humana, mas pelo poder do Espírito de Deus. E que missão aquela aos gentios!
 
E repare no verdadeiro trabalho deste evangelista, de não construir sobre fundamento alheio. “E
desta maneira me esforcei por anunciar o evangelho, não onde Cristo houvera sido nomeado.” (Rm
15:20) Isto é uma coisa das mais importantes. Oh, pense que ainda hoje existem milhares de
cristãos nominais nas cidades e vilarejos que nunca ouviram o evangelho. E em muitos lugares há
uma verdadeira sede pela simples verdade. É encorajador saber a maneira como Deus, em Sua
soberania, está usando os folhetos evangelísticos. Ainda assim, é agradável a Ele que Seus santos
não apenas distribuam esses folhetos, pela fé, nos lugares que estão mais além, mas que também o
evangelista leve as boas novas a todo lugar “e arredores”. (Rm 15:19) Alguns poderão dizer que não
são evangelistas. Não, mas vocês podem ajudar os que são; providencie para que tenham sempre
um bom suprimento de folhetos e livros: estas coisas ajudam imensamente o evangelista em seu
bendito trabalho de ganhar almas para Deus, e em edificá-las quando convertidas. Talvez você
possa ajudar mais em oração e em simpatia para com o trabalho do evangelista. Você pode ajudá-lo
a conseguir acomodações em alguma aldeia distante. Em suma, se nossos corações estão movidos
na simpatia que Cristo tem para com as almas preciosas, Ele nos mostrará uma maneira de sermos
auxiliadores nesta obra. Que o Senhor possa dar-nos mais desse anelo pelas almas como o que
encontramos nestes versículos.
 
Pelo que também muitas vezes tenho sido impedido de ir ter convosco… e tendo já há muitos anos
grande desejo de ir ter convosco.” (Rm 15:22,23) Este é um fato importante aqui registrado. O
Espírito Santo bem sabia da futura arrogância da igreja professa, e como Roma acabaria sendo a
cabeça dessas pretensões. Portanto, o Espírito toma o cuidado de excluir qualquer informação
acerca de quem tenha sido o primeiro a pregar a Cristo em Roma. Destas palavras, fica evidente
que o apóstolo dos gentios não tinha ainda estado lá. E nem tampouco há qualquer partícula de
evidência de que Pedro ou qualquer outro apóstolo tivesse estado ali quando a assembléia foi
estabelecida. Ali os irmãos estavam capacitados a edificar uns aos outros. Aprendemos também que
esta epístola foi escrita por volta da época em que Paulo subiu a Jerusalém para levar as
contribuições aos santos pobres. Isso aconteceu um pouco antes de ele ser enviado a Roma como
prisioneiro (Atos, capítulos 20, 21 etc.). O apóstolo não sabia quais os meios que o Senhor usaria
para levá-lo a Roma. Possamos aprender disto que o Senhor pode, e quer, cumprir todos os Seus
propósitos.
 
“E bem sei que, indo ter convosco, chegarei com a plenitude da bênção do evangelho de Cristo.”
(Rm 15:29) Sim, e também duros grilhões e prisões, além do terrível vento chamado euro-aquilão o
aguardavam como companheiros da viagem a Roma. Todavia seu Senhor não o desapontou. Foi de
Roma, e em Roma, que o Senhor usou Paulo na exposição da plenitude do evangelho e na
revelação da igreja. E foi dali que Paulo enviou o precioso manancial de verdade aos Efésios,
Filipenses e Colossenses. Assim, nas mais severas tempestades da vida, podemos descansar em
paciência, assegurados de que Ele tudo faz bem. Nos versículos 30 e 31 vemos como o apóstolo
valorizava as orações de santos que nunca tinha visto; e o Senhor acabou respondendo àquelas
orações à Sua própria maneira.
 
Neste capítulo Paulo falou de Deus como “o Deus de esperança” (vers. 13), e “o Deus de paciência”
(vers. 5). Agora, “o Deus de paz seja com todos vós. Amém.” (Rm 15:33) Portanto, é certo que
precisamos conhecê-Lo como o Deus de esperança, paciência e paz. Quão importante é que O
conheçamos assim nestes últimos e dificultosos dias em que vivemos.
 
CAPÍTULO 16 – INSTRUÇÕES FINAIS
(Romanos 16)
 
TEMOS agora as observações finais e as saudações. O Senhor não deixaria a devota Febe
esquecida. Ela era uma diaconisa, ou serva, na igreja em Cencréia. “Para que a recebais no Senhor,
como convém aos santos, e a ajudeis em qualquer coisa que de vós necessitar; porque tem
hospedado a muitos, como também a mim mesmo.” (Rm 15:2) Estes versículos derramam muita luz
sobre o verdadeiro caráter dos diáconos, que eram nomeados pelos apóstolos antes que a triste
ruína tivesse tomado conta da igreja. Não há aqui nem mesmo uma sombra da idéia clerical
moderna. “Hospedado a muitos.” Fica evidente que sua atuação era nas coisas temporais. Ela
deveria ser recebida no Senhor, naquela comunhão. E que maravilhoso amor e cuidado vemos aqui.
Ela deveria ser auxiliada em tudo o que fosse necessário em Roma. Nisto alguém poderia dizer:
Vejam como esses cristão amam uns aos outros.
 
Nesta ocasião encontramos também Priscila e Áquila em Roma, e sua devoção é também
assinalada. Naquele tempo não havia uma basílica de São Pedro, mas “a igreja que está em sua
casa”. (Rm 16:5) E, até o versículo 16, vemos vários grupos de santos, que parecem pertencer a
diferentes casas, formando todos a única assembléia de Deus* em Roma. (Veja os versículos 14 e
15.) “E aos irmãos que estão com eles”; ou, “a todos os santos que com eles estão”. (Rm 16:14,15)
Portanto, existiam aqueles que assumiam uma supervisão dessas várias companhias de irmãos, ou
santos. Os tais foram chamados de anciãos, ou bispos, em outras epístolas mais antigas. Mas por
que não há aqui nenhuma referência a um bispo de Roma? Simplesmente porque não existia uma
tal pessoa. E não é notável que não exista nesta epístola nenhuma palavra que possa ser usada
para autorizar o episcopado de Roma? Quão surpreendente é a maneira como isto demonstra a
sabedoria e o pré-conhecimento que Deus tinha das coisas que iriam acontecer ali!
 
*** O autor, que viveu no século 19, usa as expressões “assembléia de Deus” e “igreja de Deus” no
seu sentido bíblico, o que inclui todos os salvos. Quando este livro foi escrito, ainda não existiam as
organizações religiosas que arvoram os títulos de “Assembléia de Deus” ou “Igreja de Deus”. (N. do
T.)
 
Compare agora a Roma daqueles dias com a que existe hoje, e veja o contraste. Se voltássemos
àquela igreja que estava em Roma, conforme a vemos nas saudações, o que iríamos encontrar?
Nada de papa, ou bispo de Roma, nem cardeais, nem clero, monges ou freiras; nem mesmo um só
padre celebrando missa; nem grandes edifícios chamados de igrejas. Encontraríamos, isto sim,
diferentes reuniões de santos por chamado, conhecendo que seus pecados haviam sido perdoados;
justificados de todas as coisas; tendo paz com Deus; estando capacitados a admoestar uns aos
outros. Todas essas assembléias, em casas ou diferentes lugares, estavam sob os cuidados do
Espírito Santo, e irmãos que trabalham são reconhecidos em cada uma delas – sendo todos
membros do um só corpo de Cristo. Somos levados a reconhecer que não existe nenhuma
semelhança entre a igreja em Roma no ano 60, e a Igreja de Roma dos dias atuais. Roma é
claramente um desvio da verdadeira igreja de Deus.
 
Não é notável que a única pessoa citada como tendo um ofício – se assim considerarmos a
diaconisa – é uma mulher? E para que as pessoas saudadas não fossem depois consideradas, ou
mencionadas, como sacerdotes, ou episcopoi, há, entre os nomes, mulheres que são citadas. Quão
belo era quando os irmãos estavam assim juntos na unidade do Espírito, e havia alguns irmãos e
irmãs que muito trabalhavam no Senhor – como a “amada Pérsida”. (Rm 16:12) Querido jovem
crente, acaso existiria alguma razão pela qual não deveríamos nos contentar, nos dias de hoje, com
uma igual simplicidade?
 
“E rogo-vos, irmãos, que noteis os que promovem (ou formam) dissensões (ou divisões) e
escândalos contra a doutrina que aprendestes; desviai-vos deles.” (Rm 16:17) Há duas coisas que
devemos notar cuidadosamente. A divisão é, em si mesma, um mal – é fortemente condenada em
outras passagens. (Veja 1 Coríntios, capítulos 1 e 3.) Aprendemos também que, se alguém
estivesse praticando algum mal, ao causar ou formar divisões, contrariariamente à doutrina que
haviam recebido, os outros deveriam evitá-los; isto é, deveriam separar-se dos tais. Mas será que os
crentes que se separam e evitam aqueles que formam divisões não estarão também formando uma
seita, ou divisão? Não; a obediência à Palavra não é divisão. E vou mais além: aqueles que causam
divisões devem sempre ficar cientes do espírito no qual estão agindo. “Porque os tais não servem a
nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao seu ventre.” (Rm 16:18) Nunca erraremos, se Cristo for nosso
único objetivo. Que feliz, portanto, quando pode ser dito que, “quanto à vossa obediência, ela é
conhecida de todos. Comprazo-me pois em vós; e quero que sejais sábios no bem, mas símplices
no mal.” (Rm 16:19) Trata-se de algo mortífero para a vida espiritual ficar ocupado com o mal.
 
“E o Deus de paz esmagará em breve Satanás debaixo dos vossos pés.” (Rm 16:20) Isto é certo:
seja perseguindo ou seduzindo, isso só durará por um pouco de tempo. Ele continua sendo o
acusador, mas muito em breve será esmagado. Enquanto isso, “A graça de Nosso Senhor Jesus
Cristo seja convosco. Amém.” (Rm 16:20) Isto é repetido também nos versículos 20 e 24. Sim, a
graça, o claro favor, o imutável amor, livre e soberano, “seja convosco”. Segue-se, então, a
saudação de outros. Mas até Timóteo é chamado aqui de “cooperador”. (Rm 16:21) Que genuína
humildade e amor fraternal!
 
Da mesma forma como Paulo encomendou os anciãos de Éfeso, em Atos 20, aqui ele diz: “Ora,
àquele que é poderoso para vos confirmar segundo o meu evangelho e a pregação de Jesus Cristo,
conforme a revelação do mistério que desde tempos eternos esteve oculto. Mas que se manifestou
agora, e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas
as nações para obediência da fé; ao único Deus, sábio, seja dada glória por Jesus Cristo para todo o
sempre. Amém.” (Rm 16:25-27) Sim, Deus é capaz de confirmar todos os crentes em conformidade
com aquilo que Paulo chama de “meu evangelho”, minhas boas novas. As boas novas
comissionadas a Paulo têm um amplo espectro. O fundamento sólido daquelas boas novas já
pudemos ver desdobrados nesta epístola – – a justiça de Deus revelada em justificar o ímpio – tanto
no que se refere aos pecados, até o capítulo 5.11, como também ao pecado, do capítulo 12 ao 18.4.
Ela contém também as boas novas de libertação do pecado e da lei; paz com Deus; nenhuma
condenação para os que estão em Cristo Jesus, seja com respeito aos pecados ou ao pecado; e
nenhuma separação possível do amor de Deus que há em Cristo Jesus.
 
Há aqui também uma breve referência a uma revelação que vai ainda mais além, a do mistério que
foi mantido em segredo desde o começo do mundo. Este mistério é explicado na sua plenitude
em Efésios 3. Não foi feito manifesto nas Escrituras dos tempos do Antigo Testamento. E como
poderia, já que era mantido então como um profundo segredo? Todavia foi revelado pelas Escrituras
proféticas, isto é, aquelas do Novo Testamento. De qualquer modo, é notável com que rapidez esse
mistério celestial foi perdido, e a cristandade voltou a um judaísmo terreno. Não apenas colocou-se
sob a lei em busca de justiça, mas também estabeleceu um governo mundano na igreja, numa
imitação do judaísmo, de maneira que muito cedo qualquer característica da igreja, conforme é vista
nas Escrituras, acabou ficando perdida por muitos séculos. Assim é o homem. Ele sempre agiu
tolamente; toda a sua sabedoria não passa de pura tolice.
 
As palavras finais da epístola nos dirigem, não ao homem ou àquela que se chama a si própria de
igreja, mas “ao único Deus, sábio, seja dada glória por Jesus Cristo para todo o sempre. Amém.”
(Rm 16:27) Não importa o quanto o homem tenha falhado; não importa o quanto a igreja possa
falhar como um testemunho de Deus sobre a Terra; Deus será eternamente glorificado, por Jesus
Cristo nosso Senhor. Amém.
 
Charles Stanley

Vai Ter Milagre Lá Em Casa O mundo não consumirá o que a Deus eu


Néia Diniz consagrei
Eu creio no milagre eu não desistirei
Filho é tanta dor
Que eu posso sentir Vai ter milagre lá em casa
São tantas lágrimas que vejo cair Vai ter milagre lá em casa
Junto das pessoas que te mandam desistir Vai ter restauração, reconciliação
Dizendo você não vai conseguir Vai ter milagre lá em casa
E com lágrimas nos olhos você diz Vai ter milagre lá em casa
Eu tenho fé e sei que Deus irá agir Vai ter milagre lá em casa
Vai ter libertação, liberação de perdão Vai ter libertação, liberação de perdão
Vai ter milagre lá em casa Vai ter milagre lá em casa

E com lágrimas nos olhos você diz E com lágrimas nos olhos você diz
Eu tenho fé e sei que Deus irá agir Eu tenho fé e sei que Deus irá agir
O mundo não consumirá o que a Deus eu O mundo não consumirá o que a Deus eu
consagrei consagrei
Eu creio no milagre eu não desistirei Eu creio no milagre eu não desistirei
Vai ter milagre lá em casa Vai ter milagre lá em casa
Vai ter milagre lá em casa Vai ter milagre lá em casa
Vai ter restauração, reconciliação Vai ter restauração, reconciliação
Vai ter milagre lá em casa Vai ter milagre lá em casa
Vai ter milagre lá em casa Vai ter milagre lá em casa
Vai ter milagre lá em casa Vai ter milagre lá em casa
Vai ter libertação, liberação de perdão Vai ter libertação, liberação de perdão
Vai ter milagre lá em casa Vai ter milagre lá em casa

Tudo que se perdeu hoje vai se encontrar Tudo que se perdeu hoje vai se encontrar
Cativos e oprimidos Deus vai libertar Cativos e oprimidos Deus vai libertar
Doentes de alma ele vai curar Doentes de alma ele vai curar
Deus nos deu autoridade pra profetizar Deus nos deu autoridade pra profetizar
Eu sinto que algemas hoje irão se quebrar Eu sinto que algemas hoje irão se quebrar
Tem salvação entrando dentro do teu lar Tem salvação entrando dentro do teu lar
Levante suas mãos e declare vai ter milagre lá Levante suas mãos e declare vai ter milagre lá
em casa em casa

Vai ter milagre lá em casa Vai ter milagre lá em casa


Vai ter milagre lá em casa Vai ter milagre lá em casa
Vai ter restauração, reconciliação Vai ter restauração, reconciliação
Vai ter milagre lá em casa Vai ter milagre lá em casa
Vai ter milagre lá em casa Vai ter milagre lá em casa
Vai ter milagre lá em casa Vai ter milagre lá em casa
Vai ter libertação, liberação de perdão Vai ter libertação, liberação de perdão
Vai ter milagre lá em casa Vai ter milagre lá em casa
Vai Ter Milagre Lá Em Casa
Néia Diniz

Filho é tanta dor


Que eu posso sentir
São tantas lágrimas que vejo cair
Junto das pessoas que te mandam desistir
Dizendo você não vai conseguir
E com lágrimas nos olhos você diz
Eu tenho fé e sei que Deus irá agir
O mundo não consumirá o que a Deus eu
consagrei
Eu creio no milagre eu não desistirei

Vai ter milagre lá em casa


Vai ter milagre lá em casa
Vai ter restauração, reconciliação
Vai ter milagre lá em casa
Vai ter milagre lá em casa
Vai ter milagre lá em casa