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Didática e Prática de Ensino na relação com a Escola

REFLEXÕES SOBRE O MÉTODO CLÍNICO-CRÍTICO PIAGETIANO:


TEORIA E PRÁTICA
Denise Rocha Pereira
Centro Universitário Católico Salesiano Auxilium – Lins/SP
Resumo
O método clínico-crítico, método científico utilizado por Jean Piaget, autor da teoria
Epistemologia Genética, consiste em investigar a gênese do conhecimento construído
pelo sujeito em suas relações com o meio. Refutando os métodos de pesquisa que
consideravam a perspectiva do sujeito investigado apenas pela observação e entrevista
estruturada estática, traz o aspecto fundamental ao seu método que é a interação entre
pesquisador e pesquisado. Os procedimentos deste método são entrevista e observação
das respostas e ações do sujeito de forma interativa entre pesquisador e sujeito,
respeitando as respostas trazidas, porém buscando fazer intervenções com
questionamentos sobre o conhecimento do sujeito referentes a quaisquer conteúdos a
serem investigados: físico, social, moral e lógico-matemático. O método pode ser
aplicado em sujeitos, desde a primeira infância, pois se utiliza também da observação e
a intervenção com colocações de situações problema adequadas ao nível de
desenvolvimento do sujeito. Desde o inicio de sua utilização pelo autor, passou por
diferentes adequações, porém mantendo-se a sua essência de investigação do
pensamento da criança com atividade proposta pelo experimentador e sua interação com
sujeito. Este artigo tem como objetivo elencar algumas reflexões sobre este método,
utilizado por Piaget (1896/1980) em suas pesquisas científicas e outros pesquisadores;
tecer considerações sobre a história do método, a forma como deve ser aplicado, alguns
apontamentos de pesquisas atuais da comunidade científica e contribuições que possam
trazer à academia, clinicas de psicopedagogia e escolas. Muitos pesquisadores
utilizaram- se deste método e ainda utilizam, pois lhes dá subsídios para realizarem,
posteriormente, intervenções para a modificação do nível do conhecimento do sujeito.

Palavras-Chave: Método clínico-crítico Piagetiano. Pesquisas. Epistemologia genética.

Introdução

Influenciado por pesquisas realizadas na área da psicologia, especificamente aos


estudos patológicos, por meio do diagnóstico e trabalho clínico, Piaget (1896/1990) se
propôs a refletir sobre o pensamento da criança e para isto, optou, inicialmente, pela
utilização de testes e observação pura, partindo, posteriormente para uma terceira
forma de investigação: o método clínico-crítico, que elegeu e contribuiu para a maioria
das investigações de campo de sua teoria: a Epistemologia Genética.
Para que pudesse documentar de forma mais sistemática, reuniu a prática do
teste à da observação, buscando eliminar a estatização de um questionário fixo que
acaba por desconsiderar as manifestações espontâneas dos sujeitos, apropriou-se do

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método clínico, para, principalmente, poder realizar interações com o sujeito à partir de
sua conduta. Com esse método, era capaz de conhecer as diferentes características do
pensamento infantil, identificar as estruturas do pensamento, da forma como o sujeito
assimila e acomoda as informações e constrói seu conhecimento, em diferentes idades
com uma investigação semiestruturada por meio de uma problemática instalada.
Entre os pesquisadores que adotam a Epistemologia Genética piagetiana como
referencial teórico, o método clínico é um instrumento viabilizador da coleta de dados
importante, porém é possível afirmar que, nem todas as pesquisas que utilizam esta
base teórica utilizam este método como forma de coletar os dados, ou até mesmo
declara a utilização desta metodologia de forma explícita quando reaplica as conhecidas
provas clínicas de Piaget (1986/1980).
O presente artigo buscará explicitar as principais características metodológicas
do método clínico crítico de Piaget, apresentando alguns aspectos históricos do método,
possibilidades de investigação do pensamento do sujeito, como forma de divulgação dos
benefícios do método, maneira correta de aplicação e possíveis contribuições.

Piaget e o método clínico-crítico: alguns aspectos evolutivos da história da do


método
O método clínico-crítico utilizado por Jean Piaget em suas pesquisas tem como
característica principal a intervenção sistemática do experimentador diante da conduta
do sujeito, seja na relação verbal e ou na manipulação de objetos com explicação, por
meio de respostas às explicações ao conteúdo em questão, dadas pelo sujeito. Delval
(2002).
Ao longo dos anos de pesquisas de Piaget, a utilização do método crítico teve
adequações em virtude das problemáticas investigadas, porém, a essência do método
que é a investigação do pensamento da criança com atividade proposta pelo
experimentador e sua interação com sujeito se manteve inalterada. São por meio de suas
obras que se podem comprovar tais adequações. Conforme Delval (2002, p. 67), os
estudos de Piaget ao longo desses anos todos, passam por etapas: a) Elaboração dos
primeiros esboços, que segue até 1926, com o método puramente verbal; b) A
constituição do método, que segue de 1926 até 1932, período em que formula o
método; c) A aplicação do método não verbal aos sujeitos que ainda não falam, de 1932
à 1940, d) A manipulação e formalização, de 1940 à 1955, sendo a característica
principal do método a resolução de tarefas pelo sujeito e as explicações referente à

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resolução; e) Fase de poucas alterações e algumas tentativas de utilização de dados


estatísticos, que aparecem nos estudos datados pós 1955.
No momento em que Piaget configurava seus primeiros esboços sobre a
elaboração do método, refutou a ideia de erro, como algo problemático e sim, como
uma possibilidade de descobrir o percurso do pensamento, o qual as crianças
encontravam tantas dificuldades, levando posteriormente a compreender que essas
dificuldades sistemáticas, eram também características de uma etapa de pensamento, e
não propriamente dificuldades. Conforme o epistemólogo, cada estágio do
desenvolvimento do sujeito: sensório motor, pré-operatório, operatório e formal, possui
suas características e seus recursos cognitivos para interpretar o mundo e as questões
que lhe são postas. A cada situação-problema posta ao sujeito, variaram-se os
conteúdos, sejam eles de ordem física, lógico-matemática, social, ou de ordem moral.
Partindo das respostas dadas, Piaget conseguiu com este método investigativo visualizar
níveis de desenvolvimento também dentro dos estágios.

Piaget e o método clínico-crítico: procedimentos de aplicação


Os passos da atuação do pesquisador que utiliza o método clínico devem ser o
atendimento ao sujeito de maneira individual, a colocação de uma situação-problema
posta ao sujeito, o qual deve explicar ou resolver, o estabelecimento de uma relação
interativa entre experimentador e sujeito investigado, em que o experimentador observe
o comportamento do sujeito. Segundo Delval (2002):

Coloca-se esse sujeito em uma situação problemática que ele


tem resolver ou explicar e observa-se o acontece. Enquanto se
produz a conduta do sujeito (que insistimos, pode consistir em
simples ações, palavras ou em combinação de ambas as coisas),
o experimentador procura analisar o que está acontecendo e
esclarecer seu significado. Fixa-se em uma série de aspectos da
conduta do sujeito e, à medida que vai se produzindo, realiza
intervenções motivadas na atuação do sujeito, que têm como
objetivo esclarecedor tenha qual é o sentido do que ele está
fazendo. Isso supõe que o experimentador tenha de se perguntar
a cada momento qual é o significado da conduta do sujeito e a
relação de suas capacidades mentais. (DELVAL, 2002, p. 68)

Procura-se então, conhecer o pensamento do sujeito investigado e receber dele


as suas crenças e representações, num clima tranquilo para que este sinta-se à vontade
sobre os fatos e temas investigados. Entretanto, é necessário ser cauteloso ao realizar as

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perguntas, para que não haja qualquer interferência tendenciosa do aplicador que possa
influenciar as respostas, buscando as hipóteses do entrevistado de forma precisa.
Para as pesquisas as quais utilizam o método clínico-crítico de Piaget não é
correto utilizar instrumentos fechados do tipo questionário ou entrevistas estruturadas
pois não dão margem para a exploração de informações complementares. O
pesquisador, mediante interferências cuidadosas, consegue registrar o curso do
pensamento dos sujeitos investigados.
Para ilustrar essa ideia, segue alguns exemplos de protocolos que Piaget
(1896/1980) utilizou ao investigar as diferentes noções. O primeiro exemplo que se
segue trata-se do conhecimento lógico matemático e o segundo do conhecimento moral:
Exemplo de uma criança do segundo e terceiro estágio sobre a origem dos
astros, em que as crianças dão respostas artificialistas, mas com explicações sobre as
origens natural à partir de substâncias de origem artificial, pesquisado por Piaget em
seu livro a Representação do mundo na criança:

Lug (12;3): - Como o sol começou? – É fogo. – Que fogo? – O fogo


que está nos fogões? – Fumaça. – Como assim? – A fumaça subiu e
depois começou. Pegou fogo. – Por que pegou fogo. – Fazia calor.
Pouco depois: - Você está certo de tudo isso? – Não muito. – Como
ele é feito, o sol? – Uma grande bola de fogo. – Como começou? –
(Reflete longamente) Pela fumaça. – A fumaça de onde? – Das casas.
A mesma explicação é dada para a Lua. (PIAGET, 1945, p.222).

O outro exemplo de protocolo do método clinico-crítico é de ordem moral e foi


extraído das pesquisas de Piaget lançadas em 1932, o Le jugement moral chez l´enfat – (
O julgamento moral na criança) e que depois foi traduzido para O juízo moral na
criança. Esse livro centrou-se nos estudos sobre o juízo moral das crianças, cujos
sujeitos foram crianças de Genebra e de Neuchatel, em que, por meio do método clínico
crítico, propunha dilemas morais às crianças para que expressassem seu pensamento a
respeito. Partiu-se, inicialmente, de regras do jogo de bolinha e jogo de pique entre as
meninas, para posteriormente, discutir sobre as regras morais. Segue o exemplo sobre
noção de justiça imanente, a partir de uma história contada:

História I – Era uma vez dois meninos que roubavam maças num
pomar. De repente, chegou um guarda florestal, e os dois meninos
fugiram correndo. Um foi apanhado. O outro voltando para casa por
um atalho, atravessou um riacho e caiu na agua. O que você acha? Se
ele não tivesse roubado maças e assim mesmo tivesse atravessado o
riacho pela ponte estragada, também cairia na água?

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SA (seis anos). Hist. I. “O que você acha disso? – Aquele que foi
apanhado foi para a prisão. O outro afogou-se – Foi justo? – Sim. Por
que? – Porque ele desobedeceu. – Se não tivesse desobedecido, teria
caído na água? – Não, porque ele desobedeceu [=não teria
desobedecido].” (PIAGET, 1994, P.194)

Partindo dos estudos de Piaget e do método clínico, muitos pesquisadores


desenvolveram estudos sobre o conhecimento social em outros países: Delval (1989) na
espanha, Denegri no Chile (1998a) , assim como no Brasil Saravali (1999), Araujo
(2007), Baptistella (2009), Fermiano (2010), Guimarães (2012), Mano (2013) entre
outros. Para exemplificação de como é um protocolo de entrevista cujo conteúdo é
conhecimento social, segue abaixo a noção de direitos da criança, realizada por Saravali
(1999), em que apresentava direito a proteção contra os maus tratos, por meio de uma
história em que um pai agride o filho:

JEN (5,11) O que você acha disso? - Que o pai não podia chegar
assim bravo, sem mais ou menos. - Por quê? - Por que a criança não
fez nada. - E se ela tivesse feito alguma coisa? - Daí sim o pai poderia
bater, mas não é justo mostrar a raiva com a mão. - Ah, não é justo? -
Não. - Tem que mostrar a raiva como? - Com a boca. - Então quer
dizer que ele pode bater se ela fez alguma coisa? - Mais ou menos,
não pode bater tanto, tanto, tanto... (SARAVALI, 1999, p. 111).

É preciso ressaltar que Piaget, preocupado em pesquisar as origens da


inteligência, que ocorrem antes da linguagem falada, por meio da inteligência prática,
também utilizou o método, e que segundo Delval (2002) apresenta-se nos livros: O
nascimento da Inteligência da criança(1936); A causalidade real na criança (1937) e a
Formação do símbolo na criança (1945). Piaget (1896/1980), entre as décadas de trinta e
quarenta, utiliza diariamente seu método de investigação com seus três filhos ainda
bebês: Jacqueline , Lucienne e Laurent, por meio de uma observação muito perspicaz,
trazendo desafios constantes e modificações do ambiente para pudesse colher respostas
dos bebês frente aos novos desafios (DELVAL, 2002). Segue um exemplo de Lucienne:

Obs. 133 bis – Lucienne apresentou a maior parte das mesmas


reações. Assim, aos 0;8 (23), ela também fecha a boca às colheradas
provenientes da tigela (de sopa) e abre-a às que saem do copo (de suco
de fruta). Aos 0;10 (19), resmunga quando a pessoa com que esteve
brincando faz menção de ir embora; basta que essa pessoa se volte de
três quartos, mesmo sem se levantar, para que Luciene fique inquieta
(PIAGET, 1975).

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Seja para o conhecimento lógico-matemático, físico ou social, na condição de


sujeitos que podem se expressar pelas palavras ou não, Piaget revelava em seu método
investigativo o princípio do respeito às expressões da infância e da adolescência.

Piaget e o método clínico-crítico: os comportamentos e reações possíveis dos


sujeitos e o que o aplicador deve considerar e refletir para atingir seu objetivo
Piaget (1945) aponta que há cinco tipos de reações observáveis pelo exame
clínico, que temos que considerar: O não-importismo, quando a criança responde
qualquer coisa e de qualquer maneira, mostrando que se aborreceu com a pergunta e não
se sente interessada e não se importa ao menos em elaborar uma resposta. A fabulação,
quando a criança responde com uma história inventada, fabula algo que acredita, sem
refletir sobre o que está sendo questionado. A crença sugerida é quando a criança, para
agradar o entrevistador, se esforça para responder, ou quando a pergunta já é sugestiva,
o que a leva a responder o que é sugerido e não o que realmente pensa sobre o assunto
investigado. Por fim, as reações que podem de fato colaborar para que o aplicador
analise o conhecimento do sujeito investigado que são as crenças desencadeadas e as
espontâneas.
As crenças desencadeadas Piaget (1945, p. 12) também sofrem interferência do
aplicador pela qualidade e a forma como a pergunta é feita, pois obriga a criança a
sistematizar seu conhecimento:

“ [...] é produto de um raciocínio feito sob comando, mas com o


recurso de materiais (conhecimentos da criança, imagens mentais,
esquemas motores, preligações sincréticas, etc) e instrumentos lógicos
(estrutura do raciocínio, orientações do pensamento, hábitos
intelectuais, etc) (PIAGET, 1945, p.12).

Quanto à crença espontânea, ocorre quando o sujeito traz uma resposta imediata,
pois a pergunta não é nova para o sujeito e ele já teve a oportunidade de refletir sobre
esse tema em outra ocasião.
Piaget (1926) nos aponta que, para que o método dê resultado, é preciso
naturalmente regulá-lo por meio de controle e por regras que atuem na forma de fazer e
interpretar a pergunta.
Deve-se evitar a sugestão da palavra e a regra. Portanto, para que isso não ocorra
é necessário ao pesquisador “[...] conhecer a linguagem infantil e formular as perguntas
nessa mesma linguagem [...]” (Piaget, 1945, p.15) e em relação ao problema de

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perseveração, o autor nos diz ser mais difícil de não ocorrer nas entrevistas, pois trata-se
da permanência da visão que a criança adotou desde a primeira pergunta, por isso a
forma de o pesquisador perguntar é essencial, provocando na criança a necessidade de
explicar a sua resposta, evitando, assim, uma série mecânica de perguntas parecidas.
Outros aspectos podem ser aprofundados na reflexão sobre o método, porém
atitudes básicas como um clima agradável, livre de interferências externas, aplicação
piloto do método para verificar a coerência do método com os objetivos a ser
perseguido, relação de tranquilidade estabelecida para a criança com linguagem
adequada do aplicador, a quantidade de perguntas adequadas à idade da criança, a
qualidade das perguntas feitas, a precisão que o problema a ser investigado deva ter são
variáveis as quais podem atrapalhar ou ajudar nos resultados na pesquisa. A prática do
método também é fundamental, assim como a própria reflexão da aplicação após a
apreciação de uma entrevista filmada e transcrita.

Alguns apontamentos sobre a utilização do método clínico-crítico nos espaços


acadêmico, psicopedagógico e espaço escolar
Como se viu neste artigo, o termo método clínico provém da psicologia clínica
(DELVAL, 2002), contudo, por influência de Piaget como epistemólogo, dedicando-se
às explicações do nascimento do conhecimento, o método clinico-crítico se expandiu
aos interessados em conhecer os processos do conhecimento. O método tem contribuído
para interesses da psicopedagogia, da academia cuja linha de pesquisa é a epistemologia
genética.
A utilização do método poderia também colaborar com o ensino e aprendizado
que se realiza na escola por meio de intervenções que favorecessem a construção do
conhecimento, com a aplicação por professores para conhecerem melhor o que
conhecem seus alunos, porém as contribuições são fortalecidas por pesquisas de
conclusões de curso, dissertações e teses que utilizam este método.
Mesmo assim, é possível afirmar que dentro da linha da epistemologia genética
poucos trabalhos acadêmicos que se autorreferem como utilizadores do método clinico-
crítico. Muitas pesquisas até utilizam o aplicação das provas piagetianas, mas não
explicitam que utilizam o método descrevendo sobre ele na metodologia. Em buscas
realizadas nas bases de dados digitais das Universidades Paulistas: Unesp, Unicamp e
USP de teses que utilizaram o método clínico-crítico, que de forma explicita na
metodologia, encontrou-se entre os anos 2009 e 2012, apenas 16 pesquisas, sendo que

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na Unicamp encontrou-se: Baptistella (2009), Ortiz (2009), Cantelli (2009), Borges


(2009), Braga (2010), Fermiano (2010), Molinari (2010), Precoma (2011). Na Unesp
apenas uma se intitulava método clinico-crítico, no aspecto metodológico Motta, Jr
(2011) e na USP foram sete teses encontradas: Andreotti (2013), Birchal (2010),
Caetano (2009), Caiado (2012), Chicarelle (2010), Garcia (2010) e Starepravo (2010).
As contribuições nas teses pesquisadas foram às investigações de diferentes
assuntos nas áreas dos conhecimentos: físico, social e lógico-matemático.
Na Psicologia, a reflexão que se faz aqui é sobre a intervenção após a aplicação
dos testes em consultórios psicológicos. Amozzi-Chiarottino (1994, p. 93) nos alerta
que deve haver, por parte do psicólogo, uma proposta de recuperação, de reeducação
que vise à construção de esquemas e coordenação desses esquemas, a interação com o
meio e seus objetos:

[...] Temos feito o diagnóstico através da observação lúdica e do


método clínico experimental. Interrogamos a criança a respeito do que
está realizando. A observação é feita com auxílio de brinquedos numa
sala ou também num jardim. Se a criança fala, interrogamo-la sobre o
que está fazendo, do como e por quê. Se não fala, nos restringimos à
observação. Se percebemos que pode expressar-se através de qualquer
som ou através de mímica, então conversamos naturalmente,
procurando entender suas respostas. Damos a ela uma série de
brinquedos para ver como estrutura a brincadeira, ocasião em que se
observa ou não seus esquemas de ação e a coordenação deles.
Observamos como distribui os objetos no espaço e se obedece a uma
seqüência no tempo. No jardim, lhe damos oportunidades de brincar
com água, terra, flores e observamos como se desloca no espaço,
notando a presença ou não de „relações causais‟. Se a criança fala,
fazemos o diagnóstico do pensamento operatório com provas clássicas
de Piaget: conservação, classificação e seriação. Se a criança não fala,
observamos, na organização do seu brinquedo, a presença de maior ou
menor estruturação, no sentido das classificações e ordenações por
cor, forma e tamanho. [...]

Para o campo da Psicopedagogia, Macedo (1994) aponta para a utilização do


método clínico crítico, dissertando sobre a postura do profissional , a qual deve de ser a
de valorizar as respostas do sujeito, como forma de visibilizar o processo do seu pensar,
muito além de julgar os resultados, e que isso viabiliza a construção de uma proposta
pedagógica que valoriza o sujeito da aprendizagem.
Bampi (2006), que se dedicou para investigar em sua dissertação de mestrado a
utilização do método clínico-crítico para avaliação psicopedagógica e análise do déficit
cognitivo, concluiu que o método pode contribui para atuação do psicopedagogo, de

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forma que colabora para o conhecimento do potencial das crianças e com a intervenção
possam avançar pela reflexão e ação a níveis operatórios mais elevados.
O método clinico-crítico incorpora também os princípios construtivistas de que
é preciso considerar a perspectiva da criança, para que se compreenda as razões e a
organização dos seus pensamentos e possa se fazer intervenções. A introdução do
método clinico-crítico para os espaços escolares traria grandes contribuições às
adequações metodológicas. Com este método, parte do princípio que a escola ainda não
acatou universalmente, teria a possibilidade de acontecer: o de dar voz às crianças e
conhecer de fato o que os pequenos pensam.
Veja-se abaixo o que outro respeitado estudioso do pensamento infantil e
desenvolvimento humano, que também influenciou as abordagens pedagógicas, diz
sobre o método clinico-crítico:

Piaget deve a descoberta de novos dados, uma mina de ouro, ao novo


método que introduziu, o método clínico, cuja força e originalidade
situam-no entre os melhores métodos de pesquisa psicológica e fazem
dele um elemento insubstituível para o estudo da mudança evolutiva
das complexas formações do pensamento infantil. Esse método
proporciona uma unidade coerente à totalidade das pesquisas
empíricas tão diversificadas de Piaget, reunindo-as em inscrições
cheias de vida do pensamento da criança. Vygotski (1934 apud
Delval, 2002, p. 73-74).

Do ponto de vista educacional, as ideias de Piaget (1896/1980), um homem além


do seu tempo, que pode influenciar por meio de sua teoria e princípios construtivistas
algumas tendências pedagógicas, levando a ideia de que o sujeito constrói o seu
conhecimento, refutando as posições inatistas e empiristas. Contudo, na prática,
infelizmente, ainda há muito a caminhar. A provocação que fica é se haveria um espaço
para a utilização do método clínico na escola, considerando que a escola tem sido uma
instituição responsável em promover o ensino e aprendizagem de forma sistematizada,
que deve conhecer o pensamento infantil?
De que forma a escola de hoje, mas que tem ainda muito da escola de ontem,
com práticas tradicionais, uniformizadas, com relações unilateriais e verticalizadas,
poderia levar para as práticas pedagógicas em sala de aula um instrumento que
possibilita conhecer o pensamento infantil e que intervenções desenvolveria com o
conteúdo dessas descobertas?

Considerações Finais

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Apesar de um método aparentemente simples, não se deve confundi-lo como


simplista, visto que o método clínico-crítico piagetiano vem sendo utilizado,
eficazmente, como instrumento eficiente para a sondagem do pensamento e
representações mentais de indivíduos de diferentes idades e lugares nas mais variadas
pesquisas científicas de cunho construtivistas por estudiosos e seguidores da teoria de
Piaget em todo o mundo, contudo, poderia ainda ser mais popularizado e
desmistificado para assim contribuir com diferentes áreas de conhecimento e sobretudo
com agentes que construam possibilidades e promoção do conhecimento.
Há, porém, que incutir-se de certa cautela ao utilizá-lo, não há mistérios como
aponta Delval (2002), no seu manuseio por parte do pesquisador, porém, é preciso um
rigor da sistematização dos dados e principalmente produzir algo para além do
diagnóstico do pensamento infantil, que o método possa a vir contribuir para a
construção de noções e representações importantes para a evolução do conhecimento
dos aprendizes.

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